segunda-feira, março 08, 2021

A pandemia sob controle do vírus

 Comentando a Notícia

Como se vê, Bolsonaro, por sua negligência e descaso, acaba justificando que lhe carimbe como um vírus danoso ao país e seu povo. 

Dentre as muitas asneiras que tem dito, Bolsonaro pelo menos acertou uma. Segundo entende, “para a mídia o vírus sou eu”. Na mosca. Mas, para ser mais preciso, não é só a mídia, mas os país, principalmente as centenas de contaminados aguardando em fila, os parentes e amigos dos mais de 256 mil vítimas fatais e das milhares que sofrem nos hospitais e UTIs. 

Considerando-se palavras e atitudes irresponsáveis adotadas pelo presidente, pode-se concluir que Bolsonaro tornou-se o maior sócio da covid-19. O desprezo e descaso para a gravidade da situação, sua menor importância aos óbitos, sua negligência estúpida e ignorante, sua desfaçatez ao atribuir aos governadores, prefeitos e até ao STF a culpa pela disseminação agora incontrolada do vírus, fazem dele um vírus  perigoso e fatal. 

É lógico que governadores e prefeitos, por estarem mais próximos da crise sanitária, reúnem melhores condições de avaliação de quais medidas são necessárias para o combate. Não seria um Bolsonaro sentado em seu trono no Planalto Central quem poderia avaliar e diagnosticar estas medidas. Mas ele não suporta que lhe tirem o poder absoluto de mandos e desmandos. Filhote parido e crescido na ditadura militar, insiste em ter autoridade absoluta. 

Contudo, ao negar a ciência, ao querer impor, sem que tivesse qualificação para tanto, um medicamento que se comprovou ineficaz, ao impor este medicamento dentre as medidas recomendadas pelo Ministério da Saúde, ao importar milhares de unidades e obrigar os laboratórios do Exército produzirem este mesmo medicamento verdadeiro desperdício de dinheiro público, ao promover aglomerações e andar sem máscara,  desafiando as recomendações expedidas pela Organização Mundial da Saúde num claro desafio delinquente, Bolsonaro colaborou diretamente para o vírus se disseminasse por todo o país. 

Mesmo diante da visível ameaça de colapso da rede pública de saúde, insistiu no desafio em não seguir as normas de prevenção. E mesmo agora, em que em vários Estados esta rede colapsou, com o aumento recorde de casos e mortes, Bolsonaro continua o mesmo irresponsável, inconsequente e ignorante.

Na semana em que se divulgou o PIB brasileiro de 2020, o menor crescimento dos últimos 25 anos, por questão de justiça não se pode atribuir ao presidente alguma culpa. Até porque, resultados negativos e endividamento  varreram o planeta no ano que passou. Como ainda não se pode culpa-lo em 100% pelas mortes causadas pela pandemia. Porém, há, tanto  no número de caso como de óbitos, parcela considerável de culpa ao presidente. Ele, acima de qualquer outro, incentivou a população a uma desobediência estúpida às medidas de prevenção. Tentou, de todas as formas, desprezar a gravidade da crise, demitiu dois ministros competentes para colocar, no lugar, alguém completamente desqualificado e despreparado. Quando pode, negou-se em adquirir vacinas em quantidade suficiente para dar início a um programa de imunização e, nem bem o programa deu início, precisou ser interrompido por falta de doses. Deixou para adquirir seringas na última hora, quando estas já custavam muito mais. 

Leio que na Folha de São Paulo se informa que maior fabricante de hidroxicloroquina,  Apsen recebeu R$ 20 milhões do BNDES em 2020. E, após atraso de sete meses, e aceitando as condições exigidas pelo laboratório Pfizer, Bolsonaro aceitou comprar um lote de doses tanto da Pfizer quanto da Janssen. Isto significa dizer que a teimosia e a estupidez do presidente colaboraram imensamente para que o Brasil a atual situação de caos e colapso da saúde pública. Porém, se contestado, estejam certos que culpará todos os outros, menos ele a quem cabe tomar decisões.

Nesta quinta-feira, de forma cafajeste, Bolsonaro questionou até quando as pessoas ficarão "chorando". Simples, seu  medíocre: vamos ficar chorando enquanto milhares morrendo, centenas  aguardam em intermináveis filas de espera por vagas em enfermarias e UTIs, enquanto houver contaminados morrendo por falta de oxigênio e milhares sendo contaminados diariamente. Agradeça a Deus, caro Bolsonaro, você não precisar sofrer estes pesadelos nem tampouco lamentar a perda de ente querido acometido pelo vírus. Mas tire ds pessoas seus sentimentos. Se você tem pedra em lugar de um coração, não critique quem ainda se comporta como um ser humano decente. Não nos envergonhe, Bolsonaro por ser gente, enquanto você permanece um monstro virulento e irresponsável.

Como se vê, Bolsonaro, por sua negligência e descaso, acaba justificando que lhe carimbe como um vírus danoso ao país e seu povo. 

Agora, diz ter pronto um plano de combate à pandemia e que se o STF deixar, ele o colocará em execução. Bem, o Judiciário, em nenhuma de suas instâncias, impediu Bolsonaro de assumir  o papel que lhe cabe como mandatário maior do país. Foi decisão exclusivamente dele omitir em cumprir o seu papel. Mas ao afirmar ter um !pano pronto!, negou-se em detalhar qual “o milagre” que imaginou, preferindo deixar que mais gente se contaminasse e o país continuasse a bater recordes atrás de recordes de mortes diários. 

Diante de tamanha omissão criminosa, Bolsonaro tornou-se o agente da morte e deixou a pandemia sob os cuidados carinhoso do próprio vírus, 


Indecência em grau máximo

 Comentando a Notícia

A cada 50 segundos morre 1 brasileiro vítima da covid-19. O país está emperrado em seu programa de imunização por falta de doses suficientes para dar celeridade. Diante das UTIs lotados e enfermarias com centena de pessoas em fila de espera, com média diária há quase dois semanas de mais de 1000 mortos e 50 mil novos casos,   qual a atitude do presidente?

‘Chega de frescura, de mimimi. Vão ficar chorando até quando?’, diz Bolsonaro após quase 260 mil mortos pela Covid. Como se vê, temos um presidente não apenas medíocre e incompetente, trata-se de uma pessoa desprezível em todos os sentidos.. Senhor Bolsonaro: nós vamos chorar sim, e chorar muito enquanto houver mortes causados pela covid-19. Este é o nosso direito como cidadãos e seres humanos. Não nos importa sua indecência, seu mau caráter, sua falta de respeito para com os milhares, mortos ou não, atingidos por uma pandemia em escala mundial. Tanto é assim que a OMS pede que o Brasil trata a pandemia com seriedade. A que ponto chegamos!

Bolsonaro, com sua insensibilidade, incompetência, irresponsabilidade, pode fazer chacota ou tratar o respeito à vida com o descaso com que até aqui se portou. Mas não tens nem direito, tampouco competência, para tirar de nós a essência de ser o que somos, seres humanos que ama viver e que respeitam os limites desta humanidade. 

São milhares de mortos, milhões de infectados e centenas que agonizam nas portas de hospitais e postos de saúde a espera de um leito para tratamento que lhes encurtem a vida. 

Sua declaração estúpida se junta com tantas outras asneiras e indecências pronunciadas por vossa senhoria. É fácil mandar comprar vacina da mãe, quando a sua própria já foi vacinada graças ao inimigo político que você mesmo escolheu. 

É fácil criticar o chorar de milhões de brasileiros atingidos pela pandemia. É fácil debater-se contrário as únicas medidas capazes de conter a avalanche de contaminações espalhadas pelo país inteiro. Como tem sido fácil para um moleque irresponsável como você, lavar as mãos, não fazer nada, não cumprir om o papel que te cabe e, de forma cafajeste, imputar aos outros tuas próprias culpas. 

Deixe de ser canastrão e ouça o recado do teu ministro da economia que, ao comentar a PEC Emergencial pelo Senado,  declarou que, em primeiro lugar, a saúde, porque sem saúde não há nem haverá economia.   

E nós vamos muito mais ainda porque, lamentamos as vidas perdidas e agonizamos com aquelas entubadas em UTIs lutam desesperadamente para vencer a letalidade do vírus que os consomem. Mas também chorar e lamentar a vergonha de vivermos num país cujo presidente é pobre de espírito, um ignorante, um cafajeste de primeira grandeza e a trata esta crise sanitária jamais vivida antes pelo país com tamanho desprezo pela vida, comportando-se com uma arrogância indecente que tem contribuído muito para tonar a crise ainda grave e mais mortífera.  

Bolsonaro, deixe de ser um maricas covarde que se nega, terminantemente, a enfrentar as dificuldades que estão postas Se não tens competência para buscar soluções, se te comportas tão infantil atrás do STF, governadores e prefeitos, peça para sair e deixe quem tem caráter e é digno de presidir um país como o Brasil assumir o papel de presidente. Você, até aqui, demonstrou ser mais perigoso e letal do que o próprio vírus.

Eduardo Pazuello disse ontem que os brasileiros não deveriam enxergar no governo “uma máquina de fabricar soluções”.  Ok, mas também não ter se convertido, por seu presidente, numa fábrica  de mortos. Bolsonaro, no alto de sua indecência, além de não fazer nada, ainda critica e quer retaliar quem segue as recomendações médicas para reduzir os danos que a pandemia provoca.  Infelizmente, teremos que aguentar este crápula até o final de 2022. E que os eleitores não repitam o erro cometido com Dilma que seria dar-lhe uma segunda chance. Ele não merece.

Começo a ver com simpatia a campanha de “FORA, BOLSONARO”!!!!


“Presidente, não vamos engolir o choro. Vamos chorar para que nossos mortos sejam lembrados como suas vítimas”

 Jamil Chade

El Pais

Choramos para construir um futuro. E, evidentemente, são essas lágrimas que o senhor mais teme

EVARISTO SA / AFP

Presidente Jair Bolsonaro em evento no 

Palácio do Planalto no início de fevereiro.

Senhor presidente,

Uma vez mais, suas palavras sobre a pandemia ecoaram pelo mundo. Dos corredores da ONU às padarias de bairro onde sabem que sou brasileiro, vieram me comentar e, no fundo, me confortar.

Estou cada vez mais convencido de que existe um enorme risco de que, ao final desta pandemia, o Brasil se transforme no “misterioso país das lágrimas”. Acumuladas na alma de cada família, nas estatísticas dos jornais e no espírito de uma nação, as mortes registradas nos últimos meses tiraram um país de seu eixo, já frágil e já tão acostumado a enterrar seus filhos.

O senhor bem sabe que nada disso era inevitável. O destino do vírus estava em nossas mãos, como mostraram vários países do mundo que, mesmo sem uma vacina, o sufocaram. Já vocês preferiram sufocar nossos sonhos.

Existe uma percepção de que somos filhos de uma pátria, uma noção complemente equivocada alimentada por perigosos nacionalistas que formam a base da ala mais radical de seu governo. Uma nação nasce de seus filhos, é determinada por sua coragem, moldada a partir de sua diversidade. Seu futuro depende daqueles que choram. Jamais daqueles que se acomodam.

No fundo, as lágrimas mais sinceras são da parcela mais otimista da sociedade. Do grupo que acredita que o mundo pode ― e deve ser melhor.

Presidente,

Quando seu líder máximo manda uma sociedade engolir o choro, sua mensagem é clara: parem de lutar. Aceitem o que existe. As lágrimas sabem que exigir que elas cessem é, por si só, um gesto autoritário.

Provavelmente o senhor saiba que chorar não é um sinal de fraqueza. Mas sim de indignação, de recusa em aceitar um destino.

Escrevo essa carta apenas para informar que vamos chorar até construir algo novo. Vamos chorar para permitir que cada uma das pessoas amadas que nos deixou seja lembrada como uma vítima de suas escolhas políticas. E não apenas como vítima de um vírus.

Essas lágrimas não serão engolidas. Por seu arco-íris que formam, elas são expressões de uma determinação para colocar fim a uma noite escura.

Não choramos pelo passado. Não o resgataremos. Tampouco choramos por uma vontade de vingança.

Choramos para construir um futuro. E, evidentemente, são essas lágrimas que o senhor mais teme.

Saudações democráticas


Insanidade como arma

 Carlos José Marques  

Revista ISTOÉ

 (Crédito: Adriano Machado)


Há método na loucura. Quando um presidente, contrariando os mais elementares fundamentos da Ciência, é contra o isolamento, o uso de máscaras e as vacinas, não está sendo simplesmente inconsequente e inconsistente. Quando ele promove drogas perigosas, como a Cloroquina, sem eficácia comprovada, ou corre atrás de sprays mágicos para contrapor à onda de imunizantes, desprezados sistematicamente na sua gestão, não apenas sabota os esforços de autoridades conscientes para salvar a população, como também apresenta uma tática de governo. Ele é o antagonista, o contraponto à lógica e aos valores fundamentais de civilidade. 

Aquele que torce para tudo dar errado porque, na desgraça alheia, sobressai a sua aura de “redentor”. Uma fénix de esperança em meio à terra arrasada. Nem que para isso seja preciso morrerem 100 mil, 200 mil, 300 mil, o número necessário. Faz parte. Efeito colateral do grande projeto, rumo à reeleição. Jair, dito Messias, Bolsonaro, não enxerga mais nada pela frente. Apresenta comportamento típico de um genocida, por opção e convicção, visando a uma conquista maior. Tenta se vender como incompreendido, o queridinho das massas atacado pelo sistema e vítima dele. 

“A culpa não é minha”, “quem decidiu foram eles”, tem dito. Em cada passo que dá, declaração que expressa e gesto que toma procura encarnar o papel de salvador da Pátria, correndo por atalhos populistas, arrastando caravanas de seguidores embevecidos em pitorescas aparições públicas para se vender na condição de “gente como a gente”. Na visão deturpada que acalenta, tudo que está aí foi feito para lhe prejudicar, mas ele supera. Eis o mistério da salvação: o vírus, o mundo, os opositores, até os mortos conspiraram juntos para lhe vencer, mas o brilho de divindade o protegerá. Parece piada, porém está no imaginário desse aprendiz de chefe de governo. Certamente Bolsonaro atua em um plano paralelo. Deve se achar mesmo de outra dimensão. 

Para ele, é normal elogiar torturadores, pregar valores antidemocráticos, cometer seguidos crimes de responsabilidade. Ninguém o alcança. Ou o atinge. Não por menos, deposita qualquer diferença com os demais, e críticas que recebe, no terreno rasteiro da mera disputa política. “Querem me derrubar do poder”, alega sempre, como mantra típico de um “mito” sacrificado no altar dos interesses de poderosos, prestes a ser retirado do Olimpo onde tudo pode. É o evangelho rastaquera de um profeta do apocalipse. Assim fica fácil. Governadores reclamam do seu negacionismo imoral? Ele responde chantageando com a ameaça de não conceder o Auxílio Emergencial nas localidades cujo “lockdown” foi decretado. Atua como benfeitor — o bom samaritano que não é —, fazendo uso do dinheiro alheio (do bolso do contribuinte) e distorcendo, propositalmente, cifras a seu favor, para convencer os incautos. 

A mentira é profissão de fé do capitão. Por meio dela, tenta alcançar corações e mentes de crentes desavisados. O discurso degringola quando os efeitos catastróficos da pandemia — e as consequências violentas do desemprego, fechamento de empresas e crise social — invadem a casa de cada um, estampando o lado tenebroso da falência do Estado, fruto, em boa parte, da ausência de liderança. Muitos passam a perguntar e a reclamar: onde está o comando? Sinistro perceber que o Brasil, em meio à tamanha calamidade sanitária, navegue sem rumo ou controle. 

A sociedade enlutada pelo recorde de vítimas, com a morte virando banal, teme e espera por algo ainda pior, logo ali adiante, segundo prognósticos das autoridades. A descoordenação total para enfrentar um vírus implacável somada à hostilidade atávica do presidente contribuíram para o agravamento do quadro. E quem ganha com isso? Pode acreditar: Bolsonaro está convencido de que é ele. Daí não esboçar o menor esforço na mudança de rumo. Não tem receio da derrocada. Mortos são como peças descartáveis da estratégia ofensiva de conquista das urnas — apenas mais uma batalha para um capitão calejado na experiência de matar ou morrer. Como ele mesmo confessou, tempos atrás, “minha especialidade é matar”. 

Eis o combustível de sentimentos a lhe empurrar na luta pela garantia de promoção a um segundo mandato. Mesmo diante do espetáculo macabro em curso, o mandatário de almanaque é capaz de gozar dias fruitivos a bordo de um Jet Ski na praia, enquanto brasileiros entopem UTIs à beira do colapso. Faz parte do show. Ainda retém recursos do SUS e fecha milhares dessas unidades de terapia, em plena pandemia, obrigando os arquirrivais políticos regionais a apelarem ao Supremo, na busca por ajuda. Parece o fim do mundo, mas Messias, insensível, superior, desdenha. Diz que deu dinheiro suficiente. Insinua desvios. Brinca de disputa no palco da tragédia. No playground do recreio bolsonarista, distribui incentivos à caminhoneiros, zera impostos, estoura a dívida pública e empurra o pendura para um futuro sem data, enquanto as tensões espocam por todos os lados e o Brasil vai à breca. Reformas, ajuste fiscal, plano de vacinação, erradicação de privilégios, nada disso está na bíblia de conduta do capitão. Em um ano mortal, no qual a epidemia avançou de maneira devastadora pelo Brasil, numa rota desastrosa, com variantes, cepas novas e aumento exponencial de casos, na contramão do mundo, o fiasco administrativo ministrado (de maneira diária e rotineira) diretamente do Planalto salta aos olhos. 

O desespero tomou conta. A falta de esperança, também. Impressionante observar como a chaga do populismo sem caráter e compromisso castiga costumeiramente o País. Com o beneplácito, diga-se, das classes dominantes, adeptas do modelo garantidor da separação entre a Casa Grande e a senzala. Diante do cenário desolador, a pior epidemia, para além do vírus, é a da ignorância. Presente, cultivada e adubada nos mais diversos setores da sociedade. Bolsonaro é apenas fruto dela e ganha esteio nas camadas mais abastadas da população, enquanto médicos, enfermeiros, familiares de vítimas e brasileiros em geral vertem lágrimas pelo morticínio. Que País é esse?



"Brasil vai ficar para a história como mau exemplo na pandemia

 Bruno Lupion

Deutsche Welle

Presidente da Sociedade Paulista de Infectologia estima mais três a quatro semanas de alta nas mortes diárias. “Bolsonaro boicota medidas para conter pandemia, e pessoas estão se aglomerando no dia a dia”, afirma.

 

Em questões de gestão de saúde, “passamos da vanguarda para a

 retaguarda mundial nesta pandemia”, diz epidemiologista

Antes exemplo de controle de epidemias e campanhas de vacinação, o Brasil passou da “vanguarda para a retaguarda” e hoje é uma lição sobre o que não deve ser feito durante uma pandemia. Na contramão da queda diária de mortes registrada no mundo, o país bate seguidos recordes de óbitos pela covid-19 e deve ver esse número crescer por mais três a quatro semanas.

A análise é do epidemiologista Carlos Magno Castelo Branco Fortaleza, presidente da Sociedade Paulista de Infectologia e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que vem trabalhando com modelos de simulação computacional sobre o comportamento da pandemia e as medidas para  ombate-la.

Em entrevista à DW, ele afirma que o Brasil está “sujando” o seu nome no debate sobre saúde pública, lembrando que em 2011 o país foi tema de uma edição especial da revista científica The Lancet que reconhecia seus méritos nas áreas de doenças infecciosas e de atendimento de emergência.

Questionado sobre as causas da piora recente da pandemia, ele aponta Jair Bolsonaro como o principal responsável: “Temos um presidente bastante popular e que é um comunicador eficaz, que tem boicotado as medidas (...) para conter a pandemia.”

Para Fortaleza, a variante de Manaus e as festas de fim de ano e no Carnaval contribuíram para acelerar o “caminho rumo ao caos”, mas não são a causa principal do recorde de mortes diárias, que chegou a 1.910 nesta quarta-feira (04/03). “As pessoas estão se aglomerando no dia a dia. A causa é o não cumprimento das medidas de distanciamento social (...) Infelizmente, a projeção é de que irá piorar”, diz.

Membro do Centro de Contingência contra a covid-19 do estado de São Paulo, ele afirma que a decisão de o governador paulista, João Doria, de colocar o estado inteiro na fase vermelha por duas semanas a partir do próximo sábado “demorou” para ser tomada, e critica a inclusão de templos religiosos no rol de atividades essenciais, que permite que continuem abertos. “Vários estudos mostram templos como locais de alta transmissão, as pessoas estão aglomeradas, muitas cantando”, diz.

DW Brasil: O Brasil é o único entre os principais países que registrou alta no número diário de mortes, pela média móvel de sete dias, entre o início de fevereiro e o início de março. Por que o Brasil está na contramão do mundo neste momento da pandemia?

Carlos Magno Castelo Branco Fortaleza: Não tenho como não entrar na questão política. Temos um presidente bastante popular e que é um comunicador eficaz, que tem boicotado as medidas dos estados e de alguns municípios para conter a pandemia. Mesmo quando os estados tentam tomar medidas mais draconianas, a população se revolta, devido a mensagens negacionistas contínuas e repetidas do governo federal. E aí temos muita dificuldade para ter adesão às medidas de restrição. Você fecha bares, mas as pessoas se reúnem em casas e fazem festas com aglomeração e bebida. Uma medida governamental não funciona se é sistematicamente boicotada pela população.

Quando esse boicote é estimulado pelo presidente da República, isso se torna uma questão institucional grave. Ainda mais grave porque o Brasil tem boa fama no controle de epidemias, sempre foi muito bem avaliado mundialmente na resposta ao zika vírus, à dengue, e nem vou falar da Aids, onde somos um exemplo, apesar de isso também estar sendo desmontado. Sempre vacinamos melhor que a maior parte dos países europeus e os Estados Unidos. No entanto, passamos da vanguarda para a retaguarda mundial nesta pandemia.

A variante do Amazonas é parcialmente responsável por essa alta?

A segunda onda que afetou a Europa não precisou da variante britânica, ela foi uma onda da variante normal. A variante britânica surgiu no meio da segunda onda. Aplico isso aqui também. O pico que vemos no Brasil não precisava da variante do Amazonas para ocorrer. Ele é um agravante, que surgiu exatamente pela quantidade de casos, porque quanto mais casos, mais chance de surgir uma mutação que determine uma variante mais transmissível.

A variante britânica se transmite de 40% a 80% mais que o coronavírus original. Por analogia, supõe-se que a cepa brasileira também seja mais transmissível. Sabemos que ela está disseminada em todo o país. E há impressões médicas iniciais de que ela afeta mais pessoas jovens e causa uma doença mais grave. Não precisávamos da variante para chegar a esse colapso, mas aparentemente ela está contribuindo.

Também não precisávamos das festas de ano novo e do Carnaval para chegar ao colapso, que estava previsto desde novembro. Mas não tenho dúvida que as festas de fim de ano e o Carnaval contribuíram para acelerar o caminho rumo ao caos. A variante e as festas são fatores contributivos, e não a causa essencial do fenômeno. As pessoas estão se aglomerando no dia a dia. A causa é o relaxamento, o não cumprimento das medidas de distanciamento social.

Na quarta-feira, o Brasil registrou o recorde de 1.910 novas mortes por covid-19, segundo dados do Ministério da Saúde, que superou o recorde anterior, de terça-feira, quando foram 1.641 mortes. Qual a projeção para as próximas semanas?

Infelizmente, a projeção é que irá piorar. Quem fez a projeção mais recente foi o [Instituto] Butantan, e ela mostra março e abril como meses de crescimento da covid. Em geral, [a evolução das] mortes segue três ou quatro semanas depois da ocorrência dos casos. Porque os casos acontecem, ficam graves, vão para a UTI, a vida é prolongada. A morte indica como estava a transmissão três ou quatro semanas atrás. Como a transmissão aumentou, é plausível que, por mais três ou quatro semanas, pelo menos, as mortes continuem nessa crescente.

Ontem [terça-feira], graças à atividade do comitê de contingência da covid no estado de São Paulo, do qual faço parte, conseguimos que o governador colocasse todo o estado na fase vermelha, que significa fechamento de serviços não essenciais. Não chega a ser um lockdown, pois não há controle rigoroso de pessoas circulando, mas é uma diminuição de mobilidade.

Essa decisão veio no momento certo ou demorou para ser tomada?

Demorou, claro. Mas, ainda que tardia, é uma medida correta. Só que tem que ser fiscalizada para que seja de fato cumprida pelos prefeitos. Já tem prefeitos, de cidades como Ribeirão Preto, dizendo abertamente que não vão cumprir.

O governo paulista decidiu manter as escolas abertas, um tema controverso durante a pandemia. Qual é a sua avaliação?

É um grande debate mundial. Templo e igreja não tem nenhuma desculpa para manter abertos, além de ser contra o paradigma religioso de que Deus é onipresente e não está só dentro do templo. Eles foram decretados como serviços essenciais, do que eu discordo, ainda mais em um momento em que os meios de comunicação virtual são tão importantes. Vários estudos mostram templos como locais de alta transmissão, as pessoas estão aglomeradas, muitas cantando.

Sobre as escolas, há bons argumentos pró e contra. Além dos argumentos dos pedagogos, alguns epidemiologistas mostram que, em circunstâncias controladas, dá para manter a escola aberta, que o problema não é dentro da escola. Mas há a mobilidade e aglomerações em torno das escolas e, dependendo da situação, se a gente chegar a uma ocupação de escolas de 50% ou 60%, as simulações preveem algo catastrófico.

Por outro lado, há simulações britânicas que mostram que se você fizer o rastreamento de contato você poderia abrir a escola sem problema. Mas muitos dos requisitos usados na Europa para abrir escola são impossíveis de cumprir no Brasil. Eu tendo ao fechamento das escolas, mas não é uma resposta simples e requer mais debate.

A ocupação dos leitos de UTI está acima de 80% em 19 unidades da federação. Duas semanas atrás, eram 13 unidades da federação nesse nível de alerta. Que risco isso implica para a população?

Vou dividir a resposta em duas. Primeiro, o risco, evidentemente, é não ter mais leitos de UTIs. Muitos que defendem que pode abrir tudo se aumentar os leitos de UTI acham que é só por mais uma cama. Não é. Mais leitos significam mais enfermeiros e médicos capacitados para UTI, mais ventiladores mecânicos e a necessidade de oxigênio, o que para alguns estados é crítico. A capacidade de criar leitos de UTI é limitada.

Mesmo que nós tivéssemos UTIs para todos, seria um caos. De um a dois terços das pessoas que vão para UTI morrem, mesmo com o melhor atendimento. É uma falácia o que vem sendo dito, principalmente por pessoas ligadas ao varejo e alguns políticos, que pode abrir tudo e que o importante é ter mais leitos de UTIs. Mesmo com leitos, você tem um aumento de mortes importante.

Não há recursos humanos infinitos, o oxigênio não é infinito e a quantidade de ventiladores mecânicos não é infinita. A quantidade de estados com a ocupação quase total de UTI significa o prenúncio do caos, as trombetas do apocalipse.

No momento, 3,4% da população do Brasil recebeu a primeira dose da vacina e, em média, o país tem aplicado 180 mil doses por dia. Esse ritmo é suficiente para vencer a velocidade de contaminação do vírus?

Evidentemente que não. Países que vacinaram rapidamente, como Israel, não apostaram só na vacina. Fizeram também distanciamento social. É improvável que a gente consiga antes de meados do segundo semestre ter vacinado toda a população. Enquanto isso, o vírus se transmite rapidamente, e há a possibilidade da emergência de novas variantes.

A fase que o Brasil atravessa na pandemia envia alguma lição para outros países?

Uma lição negativa. Assim como os Estados Unidos, o Brasil vai ficar para a história como exemplo de má condução na pandemia. O sistema de saúde brasileiro foi contemplado em 2011 com toda uma edição da revista Lancet, e um dos artigos mais importantes o apresentava como um país que em geral teve muito sucesso no controle de doenças infecciosas. Agora estamos lamentavelmente sujando o nosso nome. Aderimos ao negacionismo, que existe em todo o mundo, mas aqui foi uma questão mais grave. O Brasil fica como um alerta a outros países.

No Brasil e nos Estados Unidos, seus líderes populistas trabalharam incansavelmente para desacreditar a visão dos experts. Isso não é novo e existiu, por exemplo, na campanha pelo Brexit, quando um dos slogans era “Don’t listen to experts, listen to your heart” [“Não ouça os especialistas, ouça o seu coração”, em português]. Mas vem crescendo e chegou ao ápice com Bolsonaro, com suas aglomerações deliberadas, fazendo lives contra o uso de máscaras, promovendo medicações sem resultado e uma postura extremamente dúbia sobre a vacina. Enquanto o ministério negocia compra de vacinas, ele difama as vacinas como um todo e a Coronavac, por ser de uma empresa chinesa, já que a xenofobia faz parte desse pacote ultraconservador.

Sem o Ministério da Saúde, os estados ficaram à mercê de si próprios e cada estado agiu de maneira diferente. A falta de coordenação nacional é um ponto nevrálgico na catástrofe da pandemia no Brasil. O outro, que também vem no pacote ultraconservador, é a falta de empatia. Um darwinismo social, acreditar que está morrendo quem tinha que morrer mesmo, e que a gente tem mais é que abrir, deixar morrer uma porção de gente e continuar a nossa economia com os sobreviventes. Lembrando que vários estudos na Inglaterra, nos Estados Unidos e aqui no Brasil mostram que pobres, pardos e pretos morrem mais. Não deixa de ser uma agenda social e racial.


Não, Bolsonaro, você não é o vírus. Você é a própria doença

 Ricardo Kertzman 

Revista ISTOÉ

 (Crédito: AFP)

O presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia 

no Palácio do Planalto, em Brasília, em 12 de janeiro de 2021 

Pronto! O verdugo do Planalto e parte da população que reza sua cartilha homicida, e aí eu incluo os ignorantes e irresponsáveis, passando pelos negacionistas e bolsonaristas (coisas bem semelhantes), conseguiram o que tanto queriam e o que tanto trabalharam, dia e noite, para finalmente atingir.

O Brasil caminha a passos firmes e ligeiros para os 300 mil mortos por Covid-19, numa razão diária de quase 2 mil óbitos. Somos, hoje, em números absolutos, o maior necrotério mundial de vítimas do novo coronavírus. Ultrapassamos a Índia e os Estados Unidos, e assumimos a triste liderança macabra.

Se Jair Bolsonaro e os seus não são os únicos responsáveis – e não são -, tampouco se pode isentá-los da culpa de boa parte dessa tragédia. Afinal, diuturnamente, o devoto da cloroquina promove e incentiva aglomerações, e prega contra o distanciamento social e as máscaras, no que é prontamente atendido.

Além disso, o amigão do Queiroz, após demitir da Saúde dois ministros técnicos, encontrou o bibelô perfeito para sabotar o combate à doença; divulgar e distribuir seu tratamento precoce fictício; e retardar ao máximo a aquisição, produção e distribuição de vacinas em massa, sem falar em seringas e agulhas.

Mais uma vez – para não variar – o pai do senador das rachadinhas atacou a imprensa. Disse que “ela espalha o pânico”. Para o bilontra, noticiar o número de casos e de mortes, informar a população sobre o perigo do vírus e como se precaver, é um desserviço: “para a imprensa, o vírus sou eu”, declarou o pulha.

Eu não sou a imprensa, Bolsonaro, mas sou parte dela. Particularmente, não te considero um vírus; eu te considero uma doença! Das mais perigosas e fatais. Você encarna, como poucos, a doença da ignorância, da desinformação, da mentira, da omissão, do cinismo e de um real desprezo pela saúde alheia.

Você representa o obscurantismo e a completa falta de empatia pela vida humana. Nada que represente a ciência, a solidariedade e o amor ao próximo pode ser imputado a você. Há uma nítida pulsão de morte em seus pensamentos, gestos, falas e atitudes. Portanto, assuma esta sua vocação e esqueça a imprensa.

Não são jornalistas que espalham vírus. Não são jornalistas que não providenciam leitos ou oxigênio para doentes. Não são jornalistas que não compram vacinas e promovem arruaças. Não transfira a trabalhadores comuns o que trabalhadores privilegiados, como você, deixam de fazer, mesmo ganhando fortunas.

Você e sua turma são muito bons em rachadinhas, em micheques, em milícias, em mansões etc. Mas são péssimos na gestão e no bom trato com a coisa pública. Aliás, são um desastre. Em relação à Covid, então, a realidade mostra o que vocês são. Na boa, você deveria mudar o seu nome: Jair ‘Cemitério’ Bolsonaro seria mais adequado.


Bolsonaro repete tática da chacota para mobilizar radicais e desviar atenção

 Afonso Benites

El Pais

Presidente testa de novo estratégia que até agora tem sido eficaz para manter sua popularidade em torno de 25%. A seu favor, Planalto tem ainda cúpula do Congresso. No entanto, atraso na gestão da vacina pode cobrar preço econômico e mudar jogo com empresários e investidores

  ALAN SANTOS/PR 

O presidente Jair Bolsonaro durante inauguração de 

trecho da ferrovia Norte Sul em São Simão (GO).

O presidente Jair Bolsonaro voltou a investir na sua política de confronto e de discursos diversionistas assim que confrontado com situações incômodas. O mandatário brasileiro dobra a aposta chamando de “frescura” e “mimimi” as práticas de distanciamento social quando há um recrudescimento da pandemia com mais de 1.600 mortos ao dia e após aumentarem as cobranças de governadores e prefeitos por uma coordenação nacional no combate à covid-19. O ultradireitista choca e atrai para si os holofotes na semana em que seu primogênito, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), investigado por lavagem de dinheiro, comprou uma mansão de 6 milhões de reais em Brasília. Nem tudo, porém, cabe no script do ultradireitista. Diante da volta dos panelaços nas grandes cidades contra seu Governo, ele desistiu por dois dias seguidos de fazer um pronunciamento em rede nacional de rádio e televisão. E, apesar de ironizar a vacinação, tenta agora recuperar o tempo perdido para a compra dos fármacos sob a pressão de empresários que contam com imunização em massa para fazer a economia escapar de nova retração.

Nesta quinta-feira, Bolsonaro disse que quem defendia medidas restritivas de circulação de pessoas como uma das principais armas para conter o avanço da pandemia estava de “mimimi”. Na prática, retomou o discurso de um ano atrás, quando tentou emplacar a tese de que um isolamento social vertical, no qual apenas os grupos de risco se trancam em casa, seria o mais adequado para a sociedade brasileira. “Nós temos que enfrentar os nossos problemas, chega de frescura e de mimimi. Vão ficar chorando até quando? Temos de enfrentar os problemas. Respeitar, obviamente, os mais idosos, aqueles que têm doenças, comorbidades, mas onde vai parar o Brasil se nós pararmos?”, afirmou o presidente Bolsonaro durante um discurso em Goiás. A chacota contra as recomendações sanitárias ignora o sofrimento dos familiares e amigos de 260.970 pessoas que morreram de covid-19 no Brasil nos últimos doze meses.

Desde meados de fevereiro, diversos Municípios e Estados brasileiros passaram a intensificar políticas de distanciamento social, com o fechamento do comércio e escolas para conter a circulação da população e frear a circulação do coronavírus, já que ainda não há vacinas para todos os brasileiros. Menos de 5% da população foi vacinada no país. Com o discurso contrário, Bolsonaro tenta empurrar para prefeitos e governadores o custo político de medidas impopulares, além de atrapalhar as campanhas de conscientização pelo isolamento social.

Para um conjunto de juristas e segundo uma pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da USP e da Conectas Direitos Humanos, Bolsonaro implementa uma política deliberada para sabotar ações contra a pandemia, e deveria ser punido penal e politicamente por isso. O presidente, porém, segue escudado por uma fisiológica base de apoio no Congresso Nacional ―recentemente reforçada por sua bem-sucedida operação ajudar a eleger a nova cúpula do Parlamento― que dificilmente apoiará um dos 60 processos de impeachment. Também conta, até agora, com um Procuradoria-Geral da República que não enxerga irregularidades em seus atos.

Seja como for, o presidente, contudo, tem tomado alguns cuidados. Ao mesmo tempo em agita sua extremista base de apoio, ele libera os seus subordinados a minimamente agirem contra a pandemia, sob pena de ver a economia naufragar e seus adversários políticos surfarem demais. Depois de o presidente e o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, criticarem por dois meses as exigências feitas pela farmacêutica Pfizer, o Governo Federal decidiu avançar nas tratativas para a compra de 100 milhões de doses do imunizante dela até dezembro deste ano. O primeiro lote seria entregue em maio. Se aceitasse o contrato no passado, o país já teria recebido 70 milhões de doses em dezembro.

A corrida global pela vacina não é simples e o Planalto começa a colher reveses. Nesta quinta, ao conversar com apoiadores em Uberlândia (MG), ele reclamou das cobranças que recebe para adquirir os imunizantes. “Tem idiota nas redes sociais, na imprensa, [que fala] ‘vai comprar vacina’. Só se for na casa da tua mãe! Não tem para vender no mundo!”. É bem distinto da fala feita em 28 de dezembro do ano passado, quando afirmou que eram os vendedores quem deveriam buscar o governo brasileiro, e não o contrário. “O Brasil tem 210 milhões de habitantes, um mercado consumidor de qualquer coisa enorme. Os laboratórios não tinham que estar interessados em vender para a gente? Por que eles não apresentam documentação na Anvisa?”, indagou a um grupo de apoiadores no Palácio da Alvorada. “Pessoal diz que eu tenho que ir atrás. Não, quem quer vender (que tem). Se sou vendedor, eu quero apresentar”, completou.

Jogo até 2022

A fórmula caótica de Bolsonaro tem lhe rendido lucros mínimos. Se ainda não tem ameaças graves no campo político um dos motivos é justamente a sua popularidade, com índices superiores a 25%. Além de ser um patamar considerado alto para que um presidente seja tido como descartável pelo mundo político, isso também quer dizer que, caso a eleição presidencial fosse hoje, muito provavelmente Bolsonaro estaria em um segundo turno. “As variáveis que tornaram possíveis a ascensão do bolsonarismo foram a crise econômica do Governo Dilma Rousseff [PT] combinada com a Operação Lava Jato. Esse movimento não se dissipa de um dia para o outro”, avalia o cientista político Antônio Lavareda, do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (IPESPE), que produz levantamentos frequentes atualmente para a corretora de investimentos XP.

Na visão de Lavareda, no entanto, a disputa eleitoral de 2022 pode mudar a equação porque acabará colocando quatro temas na mesa, todos em que Bolsonaro pouco progrediu: a atuação na pandemia, que tem sido catastrófica; a retomada da economia, ameaçada pela falta de vacinação em massa; o combate à criminalidade violenta; e a redução da corrupção. No mês passado, o levantamento XP-Ipespe mostrou que o presidente patina nos quatro grandes assuntos. Na condução do enfrentamento à pandemia, 53% consideram seu desempenho ruim ou péssimo. Com relação à corrupção, 48% acreditam que há a expectativa de aumentar a prática. Na percepção de 62% a violência e a criminalidade violenta aumentaram. E, para 57%, a economia segue no caminho errado. “A preço de hoje o presidente tem problemas importantes em três desses temas. E perdeu a grande dianteira que tinha no combate à corrupção, por causa de suas alianças atuais, pelo fim da Lava Jato e por causa dos casos mal explicados de seus filhos”, disse Lavareda.

Ao notar esses movimentos, o presidente persiste na radicalização de seu discurso e, como jamais desce do palanque eleitoral, espera confrontar algum adversário do campo da esquerda em um segundo turno. “Ao que parece, o presidente vai precisar ressuscitar os fantasmas de 2018, da corrupção, do descalabro econômico do Governo Dilma e da falsa ameaça comunista”, avaliou o cientista político.

De momento, o custo Bolsonaro não parece incomodar a Câmara dos Deputados, atualmente presidida pelo líder do Centrão e neobolsonarista Arthur Lira (PP-AL). Até agora poucos são os deputados fora do campo da oposição que defendem qualquer tipo de enfrentamento contra o presidente. A nova tentativa de atingir o Governo vem do pedido de criação da CPI do Auxílio Emergencial, que ainda colhe assinaturas para investigar fraudes que atingem o montante de 50 bilhões de reais na concessão do benefício.

Já no Senado, passaram a circular nos últimos dias conversas para que o presidente da Casa, Rodrigo Pachedo (DEM-MG), outro aliado tático de Bolsonaro, autorize a abertura da CPI da Saúde, que tem como objetivo investigar toda a atuação do Governo federal. Pacheco tem buscado argumentos para impedir a abertura desse grupo por entender que a apuração seria contraproducente no momento. Por ora, essa parede ainda protege Bolsonaro.


Pária global: Brasil vira ‘ameaça sanitária’ no mundo

 Vivian Oswald*

O Globo

Especialistas, economistas e governos acompanham com perplexidade a condução da crise no país e o avanço de novas variantes, apontando para o que seria um novo problema global e diplomático

  Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

Aglomeração em transportes públicos do Rio 

LONDRES - A tragédia brasileira com a Covid-19 está nas manchetes e em charges nada abonadoras de jornais internacionais. Pelo menos 18 países suspenderam voos ou impuseram outros vetos específicos aos passageiros saídos do Brasil e da África do Sul, com medo da propagação do novo coronavírus e de suas variantes. Só os viajantes do Reino Unido enfrentam mais obstáculos.

Fala-se do Brasil como uma importante “ameaça sanitária global”, usando os termos publicados no jornal britânico The Guardian, que ouviu médicos e especialistas preocupados com o avanço da doença no país. “Isso é sobre o mundo. É global”, disse ao jornal o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, professor da Universidade de Duke, nos Estados Unidos. Se a mutação do vírus, a P1, surgida em Manaus, já era motivo de alerta por se tratar de uma variante mais contagiosa — e, a princípio, mais resistente às vacinas — , é a condução da crise pelo governo brasileiro que põe o país sob os holofotes neste momento.

Especialistas, economistas e governos mundo afora acompanham com perplexidade o que acontece no Brasil e aconselham o isolamento.

— Se não houver uma mudança radical e rápida na forma como o país está lidando com a pandemia, ele vai se tornar uma ameaça global à gestão da crise, como também um pária, rejeitado pelos demais em transações econômicas, turismo e até mesmo na cooperação e diálogo sobre as grandes questões — diz Fabio de Sá e Silva, co-diretor do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Oklahoma, nos Estados Unidos.

Para Sayantan Ghosal, professor de economia da Universidade de Glasgow, o que acontece no Brasil hoje tem implicações sérias sobre a sua reputação no cenário mundial:

— O país sempre foi um exemplo, uma economia e democracia vibrantes. Todos queriam aprender com o Brasil. Agora, a negligência e a estratégia fraca de combate à Covid colocam em risco a boa imagem construída em anos.

Especialista em desigualdades sociais, ele destaca que a pandemia vai cobrar um preço alto da sociedade brasileira no médio e longo prazos. A diferença entre ricos e pobres vai se agravar, e a recuperação da economia será demorada. 

Entre os governos estrangeiros, por enquanto, o discurso diplomático segue cauteloso. Autoridades americanas e europeias evitam apontar o dedo para o Brasil, ou insistir na variante brasileira, que têm preferido chamar publicamente de P1, para não singularizar o país. Sabem que o Brasil não é o primeiro e nem será o último a apresentar uma variante nova. O Reino Unido tem pelo menos duas, sendo que a encontrada em Kent — hoje a versão predominante no país —, já teria apresentado a mesma mutação na E484K, como a da cepa brasileira, que ofereceria resistência às vacinas.

Para Julián Villabona Arenas, especialista do Departamento de Epidemiologia de Doenças Infecciosas da London School of Hygiene and Tropical Medicine, está muito claro que as novas variantes diminuem a capacidade de controle da pandemia.

— Até que haja uma boa cobertura de vacinas e medidas de controle adequadas, a epidemia no Brasil representa uma ameaça para o controle global. Mas não é justo dizer que o país é a única ameaça.

Ele destaca que a vacinação, o monitoramento genômico e a manutenção e reforço de intervenções não farmacológicas (uso de máscaras e distanciamento social) são urgentes. Isso porque, se a P1 e outras variantes circularem mais, crescem as chances de novas mutações com efeitos insidiosos nas taxas de transmissão. Ele defende a cooperação internacional, sem a qual afirma que o mundo corre o risco de prolongar a pandemia na medida em que novas variantes poderão surgir por toda a parte. 

Anteontem, o infectologista Anthony Fauci, principal nome do combate à pandemia nos Estados Unidos, evitou polêmicas. Ponderou o risco da variante brasileira, recomendou que os cientistas se debrucem sobre a criação de anticorpos pelas vacinas e se ofereceu para conversar com as autoridades locais.

Para Silva, a reação internacional será mais forte na medida em que os países concluam seus programas de vacinação. Os Estados Unidos dizem que vão vacinar todos até maio. No Reino Unido, a previsão é a de que todos os adultos sejam imunizados até julho. Depois de um esforço fenomenal que terá durado mais de um ano, não vão permitir que novas variantes coloquem tudo a perder. Em toda a Europa, cansados de lockdowns e com a economia deprimida, cidadãos querem um mínimo de liberdade, ainda que vigiada, após a imunização. Na Holanda, foram registrados protestos violentos contra as restrições sanitárias. Tudo isso aumenta a pressão sobre os governos.

— Ninguém terá como vacinar contra outras variantes em dois meses. Isso vai isolar o Brasil e fechar a fronteira — diz Silva.

Viagens a turismo ainda vão demorar a serem retomadas. Estudantes brasileiros no exterior também têm enfrentado problemas. No Reino Unido, precisam passar por uma quarentena de 12 dias em hotéis designados pelo governo britânico ao custo de 1.750 libras (quase R$ 14 mil). Nos Estados Unidos, muitos precisam fazer quarentena no México. Segundo Silva, a Universidade de Oklahoma acabou criando condições para que seus alunos ficassem no centro de estudos da entidade no México para que não fossem ainda mais penalizados com custos neste semestre.

Crise similar à da Amazônia

Para o professor Ghosal, não há como fugir da reação da sociedade e de certa estigmatização. O especialista de Glasgow não descarta a possibilidade de boicotes contra produtos brasileiros, ou até mesmo de episódios isolados de violência contra imigrantes brasileiros no exterior. Nos últimos meses, crescem as especulações de boicote a exportações de carne e soja do Brasil por conta das políticas do governo na área ambiental.

— Pode ser a mesma história para a pandemia, com boicotes de interesses econômicos, como aconteceu com a Amazônia — diz Silva, que afirma ser cada vez mais visível no exterior a situação crítica no Brasil, na contramão do esforço coletivo mundial.

— Vemos os avanços no mundo com a vacinação e adoção de políticas restritivas, enquanto o Brasil segue com uma atitude de negação da seriedade da pandemia. É possível que, por conta do Brasil, o mundo não saia da crise no tempo esperado.

*Especial para O GLOBO


A vitória parcial do coronavírus

 Fernando Gabeira, 

O Estado de S.Paulo

O desprezo pelo conhecimento fez do Brasil campo fértil para a devastação

Ainda não é hora do balanço final, mas já é possível afirmar que o Brasil foi devastado pelo coronavírus, com possibilidade de se tornar o país que mais sofreu com a pandemia. Sem mencionar as outras razões que nos isolam no mundo, o território brasileiro tornou-se um campo de observação para a humanidade, pois aqui surgiram perigosas mutações do vírus e nada garante que outras variantes não estejam em curso.

Com todo o respeito aos médicos e demais trabalhadores da saúde que batalham na linha de frente, comunicadores que tentam transmitir a dimensão do drama sanitário e grupos que se dedicam diuturnamente à solidariedade, todos combateram o bom combate, mas o saldo nacional é um grande fracasso.

Como é possível que um vírus triunfe sobre uma comunidade humana, neste momento de fácil comunicação e avanço da ciência? O que torna o Brasil tão vulnerável a um vírus mutante? Uma das razões é exatamente a nossa incapacidade de mudar com rapidez para enfrentar a nova situação.

Nenhum país teve um negacionista tão ativo na Presidência como o Brasil de Bolsonaro. Ele imaginou que o vírus seria uma grande ameaça ao seu governo, o impacto econômico poderia derrubá-lo. Daí seu esforço em negá-lo. E não apenas quanto à gravidade da contaminação, mas, sobretudo, no tocante às medidas necessárias para combatê-lo, como isolamento social e suspensão de algumas atividades.

Quando o novo coronavírus apareceu em Wuhan, na China, escrevi que ao chegar ao Brasil a única forma de combatê-lo seria uma resposta nacional e solidária. O comportamento de Bolsonaro mandou para o espaço a esperança de uma resposta nacional. Um passo importante nessa direção foi decapitar ministros da Saúde que reconheciam a importância do vírus e buscavam uma resposta articulada.

Graças ao STF, governadores e prefeitos tiveram reconhecido seu papel constitucional no combate ao vírus. Mas as constantes denúncias de corrupção enfraqueceram sua liderança em muitos Estados do País. No Rio, Witzel perdeu o cargo. A Polícia Federal fez incursões no Pará e no Amazonas. Respiradores foram comprados em lojas que vendem vinho. Em Santa Catarina o escândalo abalou o governo.

Esse processo na cúpula fortaleceu o ceticismo na base. O comportamento coletivo para atenuar os efeitos da pandemia não foi conseguido. Faltaram estímulos. Poucas foram as iniciativas de oferecer lugar para a quarentena, ou para levar água e facilitar a higiene. Poucas também para estabelecer conexão e facilitar aulas para as crianças, diversão para os adultos.

O negacionismo de Bolsonaro desarmou grande parte das iniciativas que a ciência aconselha. Testes foram esquecidos num depósito em Guarulhos. Para que testar? Não houve intenso esforço tanto para sequenciar o vírus quanto no caso das vacinas. Então o Brasil ocupou um lugar único: o presidente se opunha a elas, seja por ignorância científica ou por ignorância política, bloqueando os melhores produtos ocidentais e ironizando os do Oriente vermelho.

A luta contra o coronavírus numa população como a do Brasil é difícil. O vírus é invisível. Mesmo na Europa, os problemas radioativos provocados pelo desastre de Chernobyl encontraram muito ceticismo precisamente porque não eram visíveis.

Mas a ignorância de Bolsonaro não influencia apenas os 30% que o apoiam. Ela se estende por uma faixa da população que não se interessa por ele nem por nenhum outro político. Uma faixa que não vê benefícios em se ter um governo, muito menos em se sacrificar por um coletivo.

Quando Bolsonaro, na sua campanha obscurantista contra a vacina, insinuou que ela poderia transformar pessoas em jacarés, não estava pregando no vazio. Ele conta com a superstição popular. E não está totalmente equivocado. A ideia de pessoas se transformarem em bichos é presente no Brasil. A mula sem cabeça, por exemplo, é um mito que percorreu a nossa infância. Diziam que era uma linda mulher que virou animal porque transou com um padre. E quem se dedicar a estudar a religião tupi verá que os caraíbas, espécie de sacerdotes, difundiam suas crenças contra a religião colonial, mas se diziam capazes de transformar gente em bicho.

O Brasil perdeu a guerra contra o vírus porque ela dependia não só de disciplina, mas de conhecimento. Não somos disciplinados como os vietnamitas, por exemplo.

Mas, para além do individualismo, o desprezo pelo conhecimento fez do Brasil um campo fértil para a devastação. O governo subestimou remédios consagrados, como a vacinação em massa, e optou por falsas saídas, como a hidroxicloroquina.

Em todos os momentos o conhecimento foi espancado. Até mesmo na batida musical das festas clandestinas o Brasil celebrou a ignorância.

Pode ser que no balanço final alguns desses termos se alterem. Mas vista de agora, nossa derrota para o vírus foi a derrota de nossas lacunas educacionais, entendidas em sentido mais amplo, desde o estudo convencional, que nos faça acreditar no invisível, até o flagelo do obscurantismo oficial, a corrupção e uma incipiente cidadania que não acredita na ideia de um país.


JORNALISTA


No Brasil, a crise precedeu a covid

 Editorial

O Estado de S.Paulo

O País já estava em crise antes dos primeiros sinais da pandemia do novo coronavírus. A situação era especialmente grave na indústria

O socorro aos pobres funcionou, a ajuda às empresas diminuiu o choque e a economia brasileira, no resumo final, encolheu 4,1% em 2020. Foi o pior desempenho anual na série histórica iniciada em 1996. Mas a perda teria sido bem maior sem os gastos federais para o enfrentamento da crise. Bem mais feio, pelo menos à primeira vista, é o balanço de boa parte do mundo rico. Na zona do euro, onde se encontram potências como Alemanha, França e Itália, o Produto Interno Bruto (PIB) diminuiu 6,7%. No Reino Unido o tombo foi de 9,9%. No Japão, a terceira maior economia do mundo, a perda foi de 4,8%. Mas é preciso ser cauteloso e evitar a imodéstia nas comparações. 

O Brasil fica em posição nada invejável quando se consideram o desemprego, o potencial de crescimento a partir de 2021, o miserável desempenho da economia nos últimos dez anos, o ritmo da vacinação e a ameaça ainda presente da pandemia. A covid-19 é uma variável muito importante em toda projeção econômica, mas o governo federal, rejeitando o exemplo da maior parte do mundo, ainda menospreza o risco do contágio e das mortes.

Mas a experiência brasileira tem outras singularidades. O inventário de 2020 revela bem mais, no caso do Brasil, que os danos ocasionados pela covid-19 e os benefícios das ações anticrise, iniciadas pelo Banco Central com medidas de estímulo ao crédito. Uma primeira diferença logo se destaca: o PIB no primeiro trimestre foi 2,1% menor que nos três meses finais de 2019. O País já estava em crise, portanto, antes dos primeiros sinais da pandemia. A situação era especialmente grave na indústria. O mau desempenho do setor, perceptível há vários anos, agravou-se a partir de 2019, quando o novo governo deu mais importância ao armamento de civis do que aos dados econômicos imediatos.

O balanço do ano passado confirma também a condição singular da agropecuária e, mais amplamente, do agronegócio. Este segmento, o mais competitivo da economia brasileira, é o principal suporte das contas externas. A agropecuária atravessou a crise com mais firmeza que outros setores e fechou o ano com expansão de 2%. Em contraste, a produção da indústria foi 3,5% menor que em 2019 e a dos serviços encolheu 4,5%.

Com a pandemia, o trabalho em casa tornou-se rotineiro para milhões de pessoas. O recolhimento das famílias afetou os padrões e o volume dos gastos do dia a dia. O desemprego e a redução da renda também produziram efeitos. Por todos esses fatores, a despesa de consumo familiar foi 5,5% menor que em 2019. O grande baque ocorreu em março e abril. A recuperação, iniciada em maio, foi insuficiente para o retorno ao nível do ano anterior. O Brasil, é preciso lembrar, já estava em crise antes da pandemia.

A redução do consumo privado afetou principalmente a indústria de transformação e devastou o setor de serviços. A queda do investimento produtivo também produziu impacto imediato. Combinados todos esses fatores, os efeitos mais negativos ocorreram na construção (-7%), na produção de veículos e de outros equipamentos de transportes, na fabricação de roupas e acessórios e no segmento de máquinas e equipamentos. Pelo menos prosperaram as indústrias de alimentos, produtos farmacêuticos e material de limpeza.

O investimento produtivo, medido como formação bruta de capital fixo, diminuiu 0,8%, mas a relação entre o valor investido e o PIB aumentou de 15,3% para 16,4%, porque a queda do divisor, isto é, do PIB, foi maior. Mas a taxa de 16,4% é muito inferior àquela encontrada em outros países emergentes, igual ou superior a 24%.

Investindo pouco, o Brasil limita seu potencial de crescimento. O setor privado pode investir em máquinas, equipamentos e instalações, mas o resultado desse esforço é diminuído pela pobreza das estradas e de outros componentes da infraestrutura. Privatizações e concessões poderiam ajudar, mas também nisso o governo tem falhado. Empenhado na reeleição, o presidente valoriza inaugurações, mas para inaugurar também convém construir – um detalhe trabalhoso e um tanto complicado.


Fica combinado assim: Petrobras não foi roubada e os empreiteiros não pagaram propinas

 Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Não, o presidente da República não precisa entender da formação de preços de combustíveis, muito menos saber de quantas agências o Banco do Brasil necessita para funcionar de modo eficiente. Mas deve ter um mínimo de conhecimento geral de economia e administração, para ao menos entender as explicações das pessoas capacitadas que coloca em seu governo. E, sobretudo, nunca sair falando de coisas que ouviu por aí.

Isso, em circunstâncias normais. Acrescente ao quadro um presidente que acredita estar cercado de conspiradores — e, pronto, eis o desastre Jair Bolsonaro.

CONSPIRAÇÃO NA PETROBRAS – 

Ele não quer saber se os preços do diesel e da gasolina estão em níveis corretos. Se fosse isso, ele chamaria o Guedes e pediria uma aula. Mas não: instigado pelo seu grupo de raiz, ele acha que o aumento dos combustíveis é uma conspiração de inimigos comunistas com o objetivo de criar um clima de caos social que abale ou derrube seu governo.

Exagero? Também pensei isso quando comecei a tratar do tema. A ideia de que a Petrobras está tomada por petistas que querem derrubar o “mito” aparece com frequência nas redes bolsonaristas.

Nossa primeira reação é um riso entre conformado e inquieto. “Esses caras são malucos” — é o comentário que se segue. Roberto Castello Branco chefiando uma malta de esquerdistas? Mas, depois, quando se compara o teor das redes com as falas de Bolsonaro, a conclusão é outra. Preocupante.

VERSÃO DE BOLSONARO – 

Disse o presidente que a Petrobras está cheia de gente que não trabalha — a começar pelo seu presidente — e que tem muita coisa muito errada na companhia. E que isso logo será revelado.

Isso é tão grave que os conselheiros da companhia, por unanimidade, incluindo, pois, os bolsonaristas, decidiram interpelar formalmente Bolsonaro por aquelas declarações.

Ocorre que, se tem “muita coisa errada”, os conselheiros são legalmente responsáveis por isso. Podem ser processados, inclusive na pessoa física, colocando em risco seus bens. Ou seja, esse caso ainda terá implicações perigosas.

MAIS CONSPIRAÇÃO – 

Quando se observa a fala de Bolsonaro sobre as medidas de restrição social, também aparece nitidamente a ideia de conspiração. Simples assim: governadores e prefeitos fecham a economia com o objetivo de provocar caos, desemprego e, de novo, jogar a culpa no governo federal.

Também aqui, o presidente não tem a menor intenção de entender as formas de circulação do vírus. Acha que isso é tudo conversa de quem quer derrubá-lo.

Tem mais. A diretoria do Banco do Brasil, pressionada pela crescente concorrência no setor, iniciou um plano de enxugamento, com a redução do número de agências e de funcionários.

FECHAR AGÊNCIAS? – 

Conspiração, claro. Vão fechar agências em pequenas cidades para indispor esse eleitorado, especialmente ligado ao agronegócio, contra Bolsonaro.

Deve ser por isso que o (ainda) presidente do BB, André Brandão, nem se deu ao trabalho de tentar explicar. Simplesmente colocou o cargo à disposição. Vai cair fora.

Outra: na sexta-feira, dia 26/02, no Twitter, o presidente escreveu, em péssimo português, como de costume, que o procurador símbolo da Lava-Jato, Deltan Dallagnol, estava armando um complô contra a família Bolsonaro.

COM BASE NOS DIÁLOGOS – 

Como Lula, baseou-se naqueles diálogos roubados e não periciados. Não argumenta sobre a inocência de seus atos e de seus filhos. É complô, e pronto. De novo, como a defesa de Lula. Não tenta provar inocência do ex-presidente, mas afirma que Moro e Dallagnol forjaram tudo para derrubar o PT e favorecer Bolsonaro. Que, por sua vez, acha que é um complô para derrubá-lo e favorecer Lula.

Enquanto isso, o Congresso trata de se tornar impune e salvar todos os seus acusados de corrupção. Ou seja, a Petrobras não foi roubada, os empreiteiros não pagaram propinas e o vírus é um infiltrado chinês.



Incertezas econômicas seguem elevadas e país terá 1º tri desafiador, diz Ministério da Economia

 Exame.com

Com informações Agência Reuters

O PIB do Brasil registrou contração de 4,1% em 2020, sob impacto das medidas de contenção ao coronavírus 

 (Cris Faga/Getty Images)

Ministério da Economia: A secretaria lembrou que a projeção

 oficial do ministério para 2021 é de crescimento de 3,2% do PIB

As incertezas econômicas continuam elevadas e o primeiro trimestre será desafiador para o Brasil, mas a política monetária estimulativa, a expansão da vacinação, a consolidação fiscal e a continuidade das reformas vão permitir o aumento da confiança e maior vigor econômico ao longo de 2021, avaliou a Secretaria de Política Econômica do Ministério da Economia nesta quarta-feira.

Em nota divulgada após números do IBGE mostrarem que o PIB do país caiu 4,1% no ano passado -maior tombo da série que começa em 1996 -, a SPE, responsável pelas projeções macroeconômicas no ministério, ressaltou que o desempenho superou estimativas feitas ao longo de 2020.

"Embora tenha ocorrido forte recuo da economia no primeiro semestre de 2020, especialmente no segundo trimestre, a atividade econômica voltou a apresentar um ritmo de recuperação consistente ao longo do segundo semestre de 2020", destacou o texto, acrescentando que o desempenho se deu pela melhora da indústria e comércio, que retomaram patamares pré-pandemia.

"O setor de serviços, que foi o mais afetado pela pandemia e pelo distanciamento social, já está próximo do nível anterior à pandemia e, com a continuidade da vacinação, será a força motriz da atividade neste ano", disse a SPE.

A secretaria lembrou que a projeção oficial do Ministério da Economia para 2021 é de crescimento de 3,2% do PIB.

"Contudo, para continuar avançando ainda mais, é necessária a aprovação das reformas estruturais e das medidas que viabilizem a consolidação fiscal."

Enquanto a SPE divulgava a nota sobre o PIB, o secretário especial de Fazenda, Waldery Rodrigues, falava a jornalistas em coletiva virtual, na qual destacou o desempenho da economia melhor que o previsto pelas estimativas feitas na sequência dos primeiros impactos da pandemia.

Questionado sobre o que causou a divergência entre estimativa do ministro da Economia, Paulo Guedes - de retração do PIB menor que 4% em 2020--, e o número oficial (-4,1%), Waldery afirmou que os dados de consumo das famílias (sob a ótica da demanda) e do setor de serviços (oferta) vieram mais fracos.

O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil registrou contração de 4,1% em 2020, sob impacto das medidas de contenção ao coronavírus e após três anos de ganhos, com a atividade no ritmo mais fraco desde o início da série iniciada em 1996.

Waldery afirmou que a equipe econômica está avaliando quais medidas adotadas no ano passado (e sem impacto fiscal) poderiam ser repetidas em 2021 e destacou que o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda (BEM), dentre os colocados em prática, teve "alta efetividade".

"(Sobre) todas as outras (medidas) que foram tomadas, temos a aprendizagem do que funciona e do que não funciona", disse, citando ainda os diferimentos de impostos, também aplicados em 2020.


Sem bico, sem reserva e nada de auxílio

 Vera Magalhães

O Globo

 Favela no Rio de Janeiro | Infoglobo

Mais uma semana termina sem que Congresso e governo federal tenham conseguido montar uma força-tarefa para aprovar em caráter de urgência o auxílio para milhões de pessoas que estão em situação de pobreza ou extrema pobreza, agravada pela pandemia.

Nesta que foi a pior semana da pandemia até aqui -- mas que, infelizmente, nada indica que virá a ter sido a pior de todas --, o Senado aprovou a PEC que permite o pagamento de até R$ 44 bilhões para o novo auxílio, mas ela ainda tem de passar por duas votações na Câmara.

Depois da aprovação da PEC, o governo ainda terá de editar uma medida provisória detalhando o pagamento e estabelecendo o calendário do auxílio.

Enquanto isso, a mais recentes edição do DataFavela, pesquisa feita pelo instituto Locomotiva para a Cufa (Central Única de Favelas), mostra que o quadro social provocado pelo vácuo de mais de dois meses sem auxílio é mais que dramática: trata-se de uma situação-limite. 

De acordo com o levantamento, 75% dos entrevistados fecharam o próprio negócio ou deixaram de trabalhar ou fazer "bicos" ao logo de um ano de pandemia. Do total de pessoas entrevistadas, 57% ficaram sem trabalhar por cinco meses ou mais.

O resultado é que o novo auxílio, quando vier, o que ainda não está definido, encontrará um grande contingente de pessoas passando fome: o DataFavela também mostra que nada menos que 93% das pessoas que vivem em favelas não tem nenhuma reserva de dinheiro.

“O desemprego somado ao fim do auxílio emergencial criou a tempestade perfeita.”, diz Preto Zezé, presidente da Cufa.

“As favelas se transformaram em verdadeiras bombas-relógio. Essa população tem fome e tem pressa por solução”, alerta Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva.

Existem hoje 16 milhões de pessoas vivendo em favelas em todo o Brasil. Se elas compusessem um Estado, ele seria o quinto com maior população do Brasil, atrás apenas de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia. 

O DataFavela ouviu 2.087 pessoas em 76 favelas em todos os Estados, entre os dias 9 e 11 de fevereiro.

Desde o início da pandemia, a Cufa tem encabeçado uma série de projetos de doação de recursos de diversas naturezas para essas comunidades. A Central também tem se engajado em movimentos como o Unidos pela Vacina, para pressionar o governo a prover vacina para toda a população com a maior brevidade possível.


Às vítimas: ‘para que pânico?’ A médicos: ‘Chega de frescura!’ A parentes: ‘Vão chorar até quando?

 Eliane Cantanhêde, 

O Estado de S.Paulo

Em vez de pular de palanque em palanque, o presidente Jair Bolsonaro poderia ir ao Rio Grande do Sul e à Bahia, que estão contratando contêineres refrigerados para acomodar corpos

  Foto: Alan Santos/PR

O presidente Jair Bolsonaro diante de aglomeração

 na cidade de São Simão, em Goiás, nesta quinta,  

O presidente Jair Bolsonaro disse que não se pode combater o vírus “de forma ignorante, burra, suicida”, mas, um ano e 260 mil mortes depois, não diz como deve ser, não dá nenhuma pista do seu “plano” nem anuncia quando irá de Estado a Estado, para dar uma bronca em pacientes, parentes, médicos, enfermeiras e funcionários de hospitais. “Para que pânico?” “Chega de frescura, de mimimi!” “Vão chorar até quando?” 

Poderia começar pelo Paraná, demonstrando impaciência e pedindo paciência às 800 pessoas com covid-19 que estão à espera de leitos de UTI ou da morte: “Para que pânico?” Depois, dar uma passadinha por Santa Catarina, para reclamar com mães, pais, irmãos, maridos, mulheres e filhos das dezenas de vítimas que morreram sem conseguir vaga na UTI: “Vão chorar até quando?” 

Em vez de pular de palanque em palanque, provocando ilusão e aglomeração, o presidente poderia dar uma esticada ao Rio Grande do Sul e à Bahia, que estão contratando contêineres refrigerados para acomodar corpos. Cara a cara, gritaria para médicos e enfermeiros enfrentarem o problema “de frente” e pararem com esse mimimi, só porque assistem, impotentes, exaustos, a mais e mais pessoas morrendo dia e noite. “Chega de frescura, de mimimi!” 

Essa gente não consegue entender que é só uma gripezinha e que está no finalzinho. E daí? Todo mundo vai morrer mesmo. O que o presidente pode fazer, coitado? O STF não deixa, os governadores só falam em isolamento e os idiotas querem vacina. Ele não é coveiro. E tem uma leitoa pururuca deliciosa esperando. Tchau! 

Com recordes diários, sistemas de saúde e funerários à beira do colapso, os governadores enfrentam tanto a pandemia quanto a resistência dos bolsonaristas ao lockdown e às medidas restritivas, enquanto as vacinas não vêm. Bem atrasado, o general da Saúde anuncia a Pfizer e a Janssen, mas a guerra é contra o tempo: quanto mais a vacinação demora, mais o vírus se espalha e gera novas variantes. O risco é se tornarem resistentes às vacinas já disponíveis. 

Não adianta ter restrições em São Paulo e não no Rio, no Paraná, e não em Santa Catarina, só no Ceará e Bahia, no Nordeste, e não no Amazonas, no Norte. E isso vale para o mundo. Se vários países fizerem tudo certo e o Brasil continuar fazendo tudo errado, pode se tornar o celeiro exportador de novas variantes e uma ameaça planetária. Mimimi? 

Se autoridades brasileiras seguiram o “Deus” Donald Trump e acusaram a China de ter intencionalmente criado o vírus e provocado a pandemia, que tal agora Pequim pagar na mesma moeda e acusar o presidente do Brasil de deixar o vírus correr solto, se multiplicar e sofrer mutações para destruir a humanidade? 

Na pandemia, o Brasil vive uma tragédia. Na economia, acaba de sair da lista dos dez países mais ricos do mundo, enquanto o presidente afugenta investimentos ao intervir politicamente na Petrobrás e impor constantes humilhações ao ministro Paulo Guedes e estimula tentativas de furar o teto de gastos. 

Não bastasse, Bolsonaro move mundos e fundos, GSI, AGU e as instâncias do Judiciário para bloquear as investigações que atingem o primogênito Flávio Bolsonaro, que se sente à vontade para comprar uma mansão de R$ 6 milhões em plena capital da República, sem explicar de onde vem a grana. O único cuidado foi buscar um cartoriozinho de Brazlândia, bem longe do centro, para esconder as peraltices. 

E não é que a mídia foi lá e descobriu tudo? Além de gerar pânico no País real pela pandemia, a mídia também gera pânico no mundo imaginário onde papai Jair dá de ombros para 260 mil mortos e só pensa em salvar um único pescoço: o do próprio filhote. O grito do senador Tasso Jereissati ecoa no País: “Tem de parar esse cara!”

*COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO JORNAL (PE) E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA



Na casa da tua mãe teve vacina, Bolsonaro; e graças ao Doria

 Ricardo Kertzman

Revista ISTOÉ

 (Crédito: Reprodução/Facebook)


Como sempre faz o verdugo do Planalto, quando confrontado com as próprias psicopatia e incompetência absolutas, em meio a apoiadores, investiu ferozmente contra a cobrança por vacinas: “Tem idiota que a gente vê nas redes sociais, na imprensa, [dizendo] ‘vai comprar vacina’. Só se for na casa da tua mãe. Não tem [vacina] para vender no mundo”.

Após ter recusado mais de uma centena de milhão de doses de vacinas como a CoronaVac, que chamou de “vachina chinesa do Doria”, e que disse que poderia causar “anomalia, morte e invalidez”, ou como a da Pfizer, que poderia “transformar gente em jacaré” ou “fazer crescer barba em mulher”, ainda em meados de 2020, fica muito fácil, agora, dizer que não há vacina.

A verdade é que o devoto da cloroquina e seu general-fantoche são, além de homicidas e de maníacos do tratamento precoce, incompetentes, burros e trapalhões, e fizeram tamanhas e tantas besteiras ao longo dos últimos 12 meses, que dragaram o Brasil e os brasileiros para o necrotério e para a absoluta impossibilidade de uma saída rápida: a vacinação em massa.

Bolsonaro pode tocar seu berrante o quanto quiser – ao lado de e cercado por – sua manada de “cornos mansos”. Pode mentir para os incautos, fugir das responsabilidades (para quem acredita nele) e culpar todo mundo por seus grotescos e premeditados erros, senão crimes. Mas só não estamos vacinando nosso povo porque ele não quis; porque ele é um homicida.

Não, Bolsonaro. Nós não vamos às casas das nossas mães comprar vacinas porque elas, coitadas, não têm. E não têm, repito, por culpa sua e dessa gente assassina que lhe cerca. Além disso, ó pai do senador das rachadinhas e da mansão de 6 milhões de reais, apenas uma mãe aqui poderia ter vacina em casa; a sua! E isso, graças ao “calça apertada”.

Agora, deixe de embromação e vá trabalhar! Deixe de passear, para receber afagos dos seus puxa-sacos, e vá providenciar vacinas para o povo! Deixe de tirar o seu da reta e seja homem o bastante para assumir os seus B.O’s. Mas antes passe na casa da senhora sua mãe e veja, com os próprios olhos, que ela não se transformou na mulher barbada dos seus pesadelos de infância. Estúpido!


OMS pede que Brasil leve pandemia a sério: 'quadro muito preocupante'

 André Marinho, 

O Estado de S.Paulo

Diretor-geral da entidade citou estatísticas que mostraram que o volume de óbitos por semana subiu de pouco mais de 2 mil, em novembro, para cerca de 8 mil agora no País

  Foto: Anja Niedringhaus/AP

Sede da OMS em Genebra 

São Paulo - A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou para a situação da pandemia de coronavírus no Brasil, que tem registrado acentuado avanço nos números de casos e mortes pela doença nos últimos dias. Em coletiva de imprensa em Genebra, na Suíça, o diretor-geral da entidade, Tedros Adhanom Ghebreyesus, caracterizou o quadro no País como "muito, muito preocupante".

Tedros citou estatísticas que mostraram que o volume de óbitos por semana subiu de pouco mais de 2 mil, em novembro, para cerca de 8 mil agora. Segundo ele, no início deste ano, enquanto vários países registravam arrefecimento da epidemia, a maior economia latino-americana ia na direção contrária. "Brasil precisa levar isso muito a sério", advertiu. 

Foto: Fabrice Coffrini/Pool via Reuters 

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, 

em uma entrevista coletiva em Genebra  

O líder da OMS exortou os brasileiros a seguirem as diretrizes públicas de distanciamento social. "Sem fazer coisas para impactar a transmissão ou suprimir o vírus, não acho que seremos capazes de ter a tendência de declínio no Brasil", destacou, acrescentando que, se o País não for "sério" na resposta à crise, continuará afetando também os vizinhos na América do Sul. 

Na mesma linha, o diretor de emergências da Organização, Michael Ryan, ressaltou que este não é o momento ideal para relaxar as políticas de redução da mobilidade. Ele afirmou que o avanço da covid-19 acontece em escala nacional, "de Norte a Sul", mas classificou especificamente a curva epidêmica em Manaus e Amazonas como "difícil". 

De acordo com Ryan, "não há dúvidas" de que uma parte desses novos casos ocorre por reinfecção, dada a incidência de cepas mais transmissíveis. "Brasil é um país complexo e cada município está trabalhando duro", disse.  

Epidemiologista responsável pela resposta da OMS à pandemia, Maria Van Kerkhove também atribuiu o aumento de casos no País às novas mutações, sobretudo a identificada em Manaus.



Fiocruz mostra evolução da ocupação de leitos de UTI para covid-19 no Brasil até o colapso

 Redação, 

O Estado de S.Paulo

Série histórica de mapas evidencia aumento das internações em todos os Estados do País e Distrito Federal

 

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) divulgou uma série de mapas que mostram o agravamento da pandemia de covid-19 no Brasil. Desde julho de 2020, o Observatório Covid-19 tem publicado boletins quinzenais sobre o coronavírus e apresenta dados sobre Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), casos e óbitos por covid-19 e taxa de ocupação de leitos de UTI para covid-19 para adultos no Sistema Único de Saúde (SUS).

"Observar na sequência de 17 mapas, mesmo no período entre a segunda metade de julho e o mês de agosto, quando foram registrados os maiores números de casos e óbitos, não tivemos um cenário como o atual, com a maioria dos estados e Distrito Federal na zona de alerta crítica", alerta o novo documento.

Observar na sequência de 17 mapas, mesmo no período entre a segunda metade de julho e o mês de agosto, quando foram registrados os maiores números de casos e óbitos, não tivemos um cenário como o atual, com a maioria dos estados e Distrito Federal na zona de alerta crítica", alerta o novo documento.

Essa série histórica de mapas evidencia que a ocupação de leitos de UTI para covid-19 em todos os Estados e Distrito Federal vem crescendo nas últimas semanas e levando alguns lugares ao colapso hospitalar. Em 1º de março de 2021, apenas o Sergipe está no nível de alerta baixo. Outros sete Estados estão em alerta médio e todos os outros em nível crítico de alerta.

'Dados mais graves da pandemia', alerta Fiocruz

O vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde da Fiocruz, Marco Krieger, afirmou que a pandemia de covid-19 no Brasil deve alcançar patamares “dramáticos” nas próximas semanas se nada for feito para deter a circulação do vírus. Em vídeo divulgado pela Fiocruz na manhã desta sexta-feira, 05, Krieger faz um apelo à população:

“Estamos todos cansados da pandemia, não é fácil para ninguém. (...) Mas os dados neste momento são os mais graves de toda a pandemia, com o maior número de mortos e o maior número de casos associados a uma grande circulação de uma variante (do vírus) com possibilidade de maior transmissão. Temos que reduzir a possibilidade de circulação até aumentar o número de pessoas protegidas.”




O alerta foi feito um dia depois da divulgação dos resultados de uma análise feita pela Fiocruz em oito Estados das regiões Sul, Sudeste e Nordeste do País que constatou a prevalência das variantes mais preocupantes do coronavírus Sars-CoV-2 em pelo menos seis deles. O dado, obtido a partir de uma nova ferramenta de análise genética, indica que há uma dispersão geográfica dessas variantes nos Estados, assim como uma alta prevalência em todas as regiões avaliadas.

De acordo com nota divulgada no início da noite pelo Observatório Covid-19 da Fiocruz, foram avaliadas mil amostras dos Estados de Alagoas, Ceará, Minas Gerais, Pernambuco, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. A ferramenta usada é capaz de detectar a mutação no vírus que é comum nas três variantes que mais vem preocupando o mundo atualmente - a P.1, identificada inicialmente no Amazonas, a B.1.1.7, originada no Reino Unido, e a B.1.351, na África do Sul. 

  Foto: Ricardo Moraes/Reuters 

Ônibus lotado no Rio de Janeiro em meio ao aumento
 de casos de covid-19 no Brasil. 

Dos seis Estados, somente em Minas Gerais e Alagoas a presença da mutação ocorreu em menos da metade das amostras - respectivamente 30,3% e 42,6%. Os Estados em que elas mais aparecem são Ceará (71,9%) e Parná (70,4%). A situação nos demais é: PE (50,8%), RJ (62,7%), RS (62,5%), SC (63,7%).

Doria rebate Bolsonaro: “Pergunte à sua mãe qual vacina que ela recebeu”

 Da Redação

Revista ISTOÉ

 


Nesta sexta-feira (05), durante coletiva de imprensa, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), teceu críticas contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Durante a coletiva, o tucano declarou: “Vidas que se vão, vidas que se perdem. País entristecido, machucado, ferido, e o presidente da República lançando ‘Vai pedir vacina para a sua mãe’”.

João rebateu declarações feitas por Bolsonaro na última quinta-feira (04), que, quando irritado com questionamento dos jornalistas sobre o atraso na compra das vacinas, disparou: “Tem idiota que diz ‘vai comprar vacina’. Só se for na casa da tua mãe”.

Doria questionou Jair sobre o fato da mãe dele, Dona Olinda, de 93 anos, que mora em São Paulo, ter se vacinado: “Pergunte à sua mãe, presidente Jair Bolsonaro, qual foi a vacina que ela recebeu em seu braço. Pergunte se ela concorda com essa sua observação, com esse seu repto, com essa sua falta de educação, aliás, corriqueira no seu comportamento. Pergunte à sua mãe que vive aqui, no Vale do Ribeira em São Paulo, se ela concorda com esta sua maldade”.

Vivendo o pior momento da pandemia, Bolsonaro continua desdenhando do povo e segue criticando medidas de distanciamento social. Na coletiva, o governador utilizou frases do chefe do executivo para criticá-lo.

“O que faz o presidente da República do Brasil? No pior momento da pandemia, com o maior número de mortes, o maior número de infecções, o maior risco e falta de vacinas, o presidente viaja, promove aglomerações, anda de jet ski, assa leitõezinhos em casa e exalta: ‘chega de mi-mi-mi’, ‘parem de frescura, ‘vão chorar até quando?’, ‘quer vacina? vai pedir para a sua mãe’”, disparou o tucano.