domingo, outubro 07, 2012


Tatiana Gianini 
VEJA 

O governo de Cristina Kircher conduz o país para o desastre econômico. Até o mate, a bebida nacional, está racionado

(Caricatura: Tiago Hoisel)
Cristina Kirchner e o isolamento econômico que impôs ao seu país 

Os argentinos são submetidos pelo governo de Cristina Kirchner ao isolamento econômico. As restrições vão do uso de cartões de crédito à compra de dólares para viajar. Faltam — e são caros — até livros e remédios. Investidores saem correndo do país.

A Carta ao Leitor desta edição lembra os famosos versos do poeta inglês John Donne afirmando que “nenhum homem é uma ilha”. Há muitos anos, quando Cuba era um mistério e não a miséria material e moral que se conhece hoje, os comunistas brincavam com os versos do inglês dizendo que Fidel Castro é uma ilha”.

Pois bem, com a presidente Cristina Kirchner a Argentina está se transformando numa ilha — um ponto isolado da comunidade financeira internacional—governada por autoridades cada vez mais repressoras. Como consequência, o país está voltando atrás no processo de recuperação econômica empreendido na década passada e cada vez mais se vê isolado do resto do mundo.

A estratégia da presidente consiste em bloquear as liberdades individuais, como o acesso à livre informação, a bens de consumo e ao capital, sob a justificativa de “‘salvaguardar’ a nação. Na prática, o governo escolheu uma via econômica de curto prazo, duvidosa e cheia de obstáculos, e agora os cidadãos argentinos sofrem com os efeitos.

As restrições impostas pelo governo vão desde a compra de dólares e o uso de cartões de crédito até a importação de qualquer tipo de produto, supérfluo ou não, passando pelos investimentos privados nos setores de comunicação e de petróleo. Viajar para o exterior exige passar por um calvário burocrático. Livros e remédios estão escassos e caros.

Os cidadãos são bombardeados por propaganda oficial ameaçadora e estão vendo milhares de vagas de trabalho ser fechadas pela fuga de investidores estrangeiros e pela impossibilidade de importar insumos básicos para a indústria.

(Foto: Natacha Pisarenko / AP)
INSATISFEITOS --
 "Basta de mentiras, K", lê-se no cartaz da manifestante em 
panelaço do dia 13 passado, em Buenos Aires. A letra "K" é 
uma referência ao sobrenome da presidente Cristina Kirchner 

Na “ilha” de Cristina, os salários se deterioram sob a inflação de 25%, mas a simples menção desse fato rende multas e processos judiciais contra economistas e jornalistas. [Instituições de estudo privadas são proibidas de divulgar suas estimativas de inflação, sempre superiores aos desacreditados números oficiais.] Algumas redes de supermercados, como o Carrefour, tiveram de fazer um acordo com o governo para pressionar para baixo o preço de produtos da cesta básica argentina, como azeite, erva-mate e açúcar.

Como os fabricantes não conseguem repassar para o consumidor o aumento do custo de produção desses itens, o desabastecimento é frequente. Para evitarem gôndolas vazias, os supermercados precisam limitar a compra desses produtos a duas unidades por pessoa. Na ilha de Cristina, até o mate, a bebida nacional, é racionada.

A popularidade de Cristina desaba. Ela ataca a imprensa
Uma das poucas coisas que os argentinos ainda podem fazer em sua ilha é o cacerolazo, a bateção de panelas nas ruas. É um ritual melancólico, encenado todos os dias às 8 horas da noite. No começo, parece inútil. Na Argentina, porém, quando os panelaços se tornam rotineiros, é sinal de que alguma coisa vai acontecer. Antes eram golpes militares. Agora não existe essa possibilidade.

O governo sofre com a queda de popularidade. Em dez meses, a aprovação do governo caiu de 65% para 35%.

Perdida, Cristina ataca o mensageiro. Na semana passada, o GrupoClarín recebeu uma advertência pública direta. A presidente disse que a empresa de comunicação tem até o dia 7 de dezembro para se desfazer da maior parte dos seus canais de TV e emissoras de rádio.

O objetivo do governo seria fazer valer a lei de mídia aprovada em 2009, que proíbe empresas de comunicação de manter mais de uma emissora de TV na mesma praça, mas todos sabem que o grupo está sendo punido por divulgar com muita ênfase os protestos contra a Casa Rosada, em especial o do dia 13 de setembro passado, que reuniu centenas de milhares de pessoas em todo o país.

Um mar de notícias chapas-brancas
O real interesse de Cristina, portanto, é aumentar o controle da informação por parte do governo, que já tem o controle autoritário de 80% dos canais de rádio e televisão do país. Na ilha de Cristina, os cidadãos são náufragos cercados por um mar de notícias chapas-brancas.

O isolamento da Argentina começou em outubro do ano passado, dias depois da reeleição de Cristina. Com a recém-confirmada legitimidade das urnas, a presidente poderia ter corrigido o rumo do país reorganizando as contas públicas, reduzindo subsídios, atraindo investidores externos e desvalorizando a moeda nacional para conter a inflação crescente.

Em vez disso, optou por aprofundar o populismo barato praticado antes das eleições por meio de subsídios amplos ao transporte e à eletricidade, que esvaziaram os cofres públicos enchidos durante a gestão de seu marido, Néstor, morto em 2010.

Contra a fuga de capitais, medidas paliativas
Para conter a fuga de capitais que resultou da deterioração do ambiente de negócios no país, Cristina passou a fazer uso de medidas paliativas, como o controle de câmbio. O plano, que consistia em restringir a compra de dólares e controlar as importações, uma fonte de evasão da moeda, começou tímido.

(Foto: Alexandre Scheider)
FIM DE FEIRA -- 
A loja da grife francesa Louis Vuitton com as prateleiras vazias na Avenida Alvear, 
em Buenos Aires, na semana passada. As grifes de luxo internacionais não são uma
 ameaça à indústria nacional. O que o governo quer é evitar a saída de dólares 

Aos poucos, a política de “nem um prego sequer vindo de fora” se radicalizou. Hoje, um indivíduo só pode comprar dólares para viagens internacionais, ainda assim mediante à apresentação da passagem aérea dois dias antes da partida. O governo anunciou que, a partir deste mês, vai taxar em 15% o uso de cartão de crédito no exterior, praticamente a única forma de pagar as compras com o câmbio oficial.

Negócios imobiliários caíram 70%
Os argentinos também não podem comprar moeda estrangeira para guardar em casa ou para adquirir imóveis, como sempre fizeram. Com isso, os negócios de compra e venda de imóveis caíram até 70%. “Nossos telefones não tocam, apesar dos anúncios”, diz o empresário Armando Pepe, dono de uma das maiores imobiliárias do país.

Nas tradicionais livrarias portenhas, diversos títulos estão esgotados, pois as edições costumam ser impressas no exterior. “Até o currículo escolar do meu filho precisou ser mudado por causa da restrição aos livros importados. Nosso governo quer nos perturbar de todas as formas”, diz a designer de interiores Solange Agterberg, de 31 anos. Na ilha de Cristina, os cidadãos só leem o que ela quer.

O governo pretende enfiar produtos argentinos goela abaixo dos consumidores a qualquer custo, mas a população insiste no direito de escolher itens de qualidade. Como só encontram liquidificadores, secadores de cabelo e televisores nacionais nas lojas, muitos portenhos cruzam o Rio da Prata de balsa para comprar de tudo, até itens banais como ferros de passar roupa, no Uruguai.

Tentando evitar a fuga de dólares
Os artigos de luxo também sumiram das prateleiras. Por não conseguirem repor seus estoques, as grifes Escada, Armani e Yves Saint Laurent fecharam suas lojas no país. A unidade da Louis Vuitton encerrou as atividades na semana passada, e a Cartier vai abandonar Buenos Aires no fim de outubro. A Avenida Alvear, o equivalente portenho da Rua Oscar Freire, em São Paulo, está com ares de fim de feira. “Nossa liberdade de compra foi desastrosamente violada”’, diz o empresário Ricardo Morales, de 67 anos, enquanto observa boquiaberto a vitrine vazia da Louis Vuitton, ao lado da esposa, Alice.

Ao estrangular até o setor de luxo, que não tem concorrente nacional, o governo deixa claro que as restrições às importações visam unicamente a evitar a fuga de dólares. Trata-se de uma realidade que as empresas brasileiras com negócio no país vizinho conhecem bem. “As araras da nossa loja ainda exibem a coleção de inverno. Deveríamos já ter roupas de primavera, mas não conseguimos importar até agora”, conta a Argentina Ana Anavi, gerente de expansão internacional da Osklen, uma marca brasileira de roupas. O plano para abrir uma segunda loja no bairro de Palermo foi suspenso. Na ilha de Cristina, os investidores externos são tratados como piratas, não como empregadores.


BARREIRA AO CONHECIMENTO -- 
Na célebre livraria portenha Ateneo, dificuldade para encontrar livros técnicos
 cuja importação também sofre restrições do governo

90 bilhões de dólares deixaram o país desde 2006
Os investidores tiraram do país 90 bilhões de dólares de 2006 até agora. A Colômbia ultrapassou a Argentina em atração de investimentos e terminará o ano como o segundo maior PIB da América do Sul, atrás do Brasil.

“Na segunda gestão de Cristina, o estado interveio mais fortemente na economia. Isso é ruim. O governo pode orientar, mas não dá resultados quando se põe a produzir”, disse a VEJA Roberto Lavagna, ex-ministro da Economia na gestão de Néstor Kirchner e o último a de fato exercer o cargo.

Os atuais ministros apenas obedecem a Cristina, que depende cada vez mais de fatores exógenos – o principal é a manutenção dos altos preços da soja e de outros produtos agrícolas de exportação – para financiar as contas da ilha. Diz Lavagna: “A Argentina tem inegável potencial, mas precisa de políticas públicas que transformem isso em realidade”. Soa como um epitáfio da ilha de Cristina.

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