terça-feira, novembro 04, 2014

O voto de Minas

Sebastião Nery
Tribuna da Internet

Barbosa Lima Sobrinho, pelo PSD, e Neto Campelo Júnior, pela UDN, tinham disputado o governo de Pernambuco depois da ditadura de Getúlio, em 1947: Barbosa Lima, candidato de Agamenon Magalhães, e Neto Campelo, ministro da Agricultura de Dutra, candidato da Oposição.

Na apuração, quase empate. Urna a urna, Pernambuco disputava, pelas rádios e alto-falantes, voto por voto. Ganhou Barbosa Lima. Mas houve muitas urnas impugnadas e as decisões passaram para o Tribunal Eleitoral. Continuou o impasse. Nas esquinas, nos bares, nas casas, o povo ao pé do rádio e dos alto-falantes para saber da chegada final.

Nequinho Azevedo, figura popular do Recife, estava num botequim torcendo por Barbosa Lima. Era a última decisão sobre a última urna, onde Barbosa Lima havia vencido bem. Anulada, estaria derrotado.

BARBOSA LIMA
O locutor fez um suspense:

– Atenção, senhoras e senhores, última urna! O Tribunal aprovou a urna pelo voto de Minerva! Confirmada a eleição de Barbosa Lima!

Começou a festa. Nequinho Azevedo, cheio de cachaça, comemorava. Alguém perguntou lá do fundo:

– O que é o voto de Minerva?

Ninguém respondeu, Nequinho pôs o copo no balcão:

– Um voto maior do que os outros.

– De que tamanho?

– Vale uns 300.

Valia mais. Valia a eleição.

MINAS
Quem conhece Minas sabe : mineiro não vota contra governo.

O primeiro que votou, Tiradentes, perdeu o pescoço. E nunca mais ninguém ousou. Aécio Neves, mineiro, mineiríssimo, dois avós ilustres (Tancredo Neves e Tristão da Cunha), disputou com a gaucha Dilma, que apenas nasceu em Minas; mas saiu da votação tomando chimarrão.

Minas decidiu. Ganhou a eleição. Com o governo. Contra Minas.

DIVIDA  EXTERNA
Dilma acordou da vitória com uma bomba explodindo nas mãos: a divida externa. Em agosto de 2014 o Banco Central informava que a dívida externa bruta totalizava US$ 333,1 bilhões. E atestava que as reservas internacionais totalizam US$ 379,4 bilhões. O Brasil integra o ranking dos 15 países com maior dívida externa, segundo relatório do Banco Mundial.

O economista, professor e três vezes deputado pelo PMDB do Paraná, Helio Duque, adverte que a manipulação marqueteira,  misturando reservas internacionais e dívida externa, para induzir os brasileiros a acreditarem na liquidação do endividamento externo, é criminosa.

Como as “reservas” são maiores do que o montante da dívida externa, alimenta-se a tese mentirosa. Mas é a dívida interna pública que cresce e sustenta a emissão de títulos públicos, para acumular “reservas” e trocar, paralelamente, títulos da dívida externa por papéis da dívida pública do Tesouro, garantindo a ciranda financeira do endividamento brasileiro.

O economista Marco Mendes é didático: “Quando o governo se endivida para comprar dólares, ele ao mesmo tempo aumenta o seu passivo (pelo aumento da dívida interna) e o seu ativo (pela compra de dólares). Significa que a dívida líquida (passivo mais ativo) não se altera”. O custo efetivo da captação de recursos se reflete na “taxa selic”,em torno de 12%”.

“RESERVAS”
Do total das “reservas” de  US$ 379,4 bilhões, dois terços são aplicados em títulos do Tesouro dos EUA, de grande liquidez, com remuneração média de 1,9% ao ano. O custo da diferença de quase R$ 50 bilhões decorre da disparidade entre os 12% pagos para captação de 1,9% recebido como remuneração é bancado pela sociedade. Vale dizer as “reservas” custam caro para o Brasil.

O economista e professor Reinaldo Gonçalves, titular de economia internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro exemplifica:

– “A China e o Japão acumulam reservas para ampliar o poder na economia global e se contrapor aos EUA. O Brasil, até agora, só formou “reservas” para administrar custos altos”.

Hoje a dívida pública interna federal está por volta de R$2,2 trilhões, Quando o PT assumiu,  a divida interna era de R$ 640 bilhões e a dívida externa de R$ 212 bilhões, somando uma dívida real de R$ 852 bilhões. Quase triplicou o endividamento interno nos 12 anos do PT.

O estouro da bolha da incompetência

Rolf Kuntz 
O Estado de S. Paulo

Seis anos depois do estouro da bolha financeira no mundo rico, explode no Brasil a bolha da incompetência e do populismo. O novo aumento de juros e a promessa de um esforço fiscal maior no próximo ano são um reconhecimento, pelo menos implícito, dos estragos produzidos em quatro anos de erros, de remendos mal feitos e de um espantoso "modelo" de expansão do consumo sem aumento da produção.

Quem anunciou o esforço fiscal maior foi o quase ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, pouco antes de conhecido o o balanço das contas públicas até setembro. O secretário do Tesouro, Arno Augustin, voltou a prometer resultados melhores no mês seguinte. Qualquer promessa desse tipo, nesta altura, soa como piada. Para alcançar o superávit primário de R$ 80,8 bilhões fixado para o governo central, neste ano, seria preciso obter no último trimestre um saldo de R$ 96,5 bilhões, pelas contas do Tesouro, ou R$ 100,27 bilhões, pelo critério do Banco Central (BC). Sem mistério: no relatório do Tesouro, o governo central teve um déficit primário de R$ 15,7 bilhões em nove meses; no do BC, o buraco chegou a R$ 19,47 bilhões. Pelo segundo critério, leva-se em conta a necessidade de financiamento.

Neste ano, pelo menos até setembro, fracassou até a encenação de um superávit primário anabolizado com dividendos, bônus de concessões e prestações de tributos em atraso. O governo acaba de conseguir do Congresso Nacional mais uma reabertura do Refis, o programa de parcelamento de dívidas tributárias. A anterior, encerrada em 25 de agosto, proporcionou menos dinheiro que o esperado. Mas esse tipo de manobra, já muito usado, produz sempre alguma receita por um prazo curto e é condenado mesmo no governo como um incentivo à sonegação. Afinal, se é sempre possível apostar num novo Refis, impor um calote ao Tesouro pode ser bom negócio.

Mas o déficit primário acumulado em nove meses chama a atenção para um dado muito mais importante, a longo prazo, e tomado como guia da política fiscal em países com melhores tradições de governo. A administração pública tem de produzir superávits primários para cobrir os juros e amortizações devidos pelo Tesouro. No fim, o número realmente importante é o resultado nominal, isto é, o saldo geral das contas públicas, incluídos os pagamentos de juros e amortizações. O desastre fiscal no mundo rico, a partir da crise iniciada em 2008, foi sempre medido com base nesse conceito.

Por esse critério, o Brasil já estava em pior situação que muitos países desenvolvidos, no ano passado, e a comparação se tornou ainda mais desfavorável em 2014. Nos 12 meses até setembro o déficit nominal do setor público brasileiro chegou a 4,92% do produto interno bruto (PIB). Na zona do euro, a média dos déficits deve ficar em 2,9% neste ano, segundo projeção publicada em outubro pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

Apesar disso, a presidente Dilma Rousseff ainda insistia, até há pouco tempo, em apontar a situação fiscal do Brasil como muito melhor que a da maior parte dos países desenvolvidos. Talvez ainda insista. Afinal, seu nível de informação é, na melhor hipótese, tão bom quanto o de seus assessores econômicos. Além do mais, ela e seus auxiliares sempre poderão, em último caso, apontar o endividamento público das economias avançadas, muito maior que o do Brasil. Mas qualquer argumento desse tipo se esfarela quando se comparam as notas de crédito soberano daquelas economias e as do Brasil.

A diferença reflete-se na distância entre os juros pagos pelos governos para vender ou rolar seus títulos. Os custos enfrentados pelo Tesouro brasileiro são muito maiores. A desvantagem do Brasil no mercado financeiro poderá aumentar, nos próximos dois anos, se o governo for incapaz de reforçar sua credibilidade. Dirigentes de agências de classificação de risco têm transmitido recados muito claros nos últimos dias. Têm chamado a atenção tanto para o mau estado das contas públicas quanto para o baixo crescimento econômico.

Uma piora da classificação poderá ser especialmente danosa numa fase de aperto nos mercados. O Federal Reserve, o banco central americano, anunciou o fim de sua política de incentivos monetários à recuperação da economia dos Estados Unidos. Isso representará o fim de grandes emissões de dinheiro para facilitar o crédito. O próximo grande passo deve ser uma elevação dos juros básicos americanos. A data ainda é desconhecida, mas quem tiver juízo tratará de se preparar para condições mais difíceis de financiamento internacional.

Um aumento dos juros básicos no Brasil pode ser uma resposta a esse aperto progressivo do mercado financeiro externo. Afinal, um dos efeitos prováveis da mudança nas condições internacionais será um desvio de capitais para os Estados Unidos ou, de modo geral, para destinos mais seguros. Mas o Banco Central brasileiro tem um forte motivo interno para retomar a alta de juros. A elevação de 11% para 11,25%, anunciada na quarta-feira, pode ser o primeiro passo de um ajuste.

A inflação seguiu o rumo previsto por muitos economistas desde o primeiro semestre. Perdeu impulso na primeira metade do ano e em seguida voltou a subir vigorosamente, alimentada principalmente por distorções da economia nacional - desajuste das contas públicas, crédito ainda em expansão, aumentos salariais superiores aos ganhos de produtividade e capacidade de oferta industrial muito limitada. A inflação brasileira, o baixo ritmo de atividade, o desastre das contas públicas e a piora das contas externas - com déficit comercial de US$ 1,88 bilhão, no ano, até 26 de outubro - refletem o mesmo conjunto de erros da política econômica. O tal modelo de crescimento proclamado como grande inovação nos últimos anos produziu - muito mais que um fracasso - um desastre de dimensões incomuns. O desastre ficará muito maior se a presidente Dilma Rousseff tiver ignorado também essa lição.

Do que é que nos livramos.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

E há quem discuta a sabedoria do voto popular. Imagine se Aécio Neves tivesse ganho a eleição: a primeira medida, como bem advertiu sua adversária Dilma Rousseff, seria elevar os juros. Na hora, o caro leitor pode ter certeza, obrigaria o Banco Central a aumentar os juros básicos de 11% para 11,25%, com aquela desculpa capenga de sempre: combater a inflação. Dilma já dizia que o PSDB planta inflação para colher juros (e, claro, beneficiar os banqueiros).

E, por falar nessa gente, a equipe de Aécio já estaria caçando banqueiros para botar no Governo. A equipe, não ele: como avisou o PT, Aécio é pouco afeito ao trabalho, e já teria viajado de férias com a família, de preferência gastando dinheiro público. Estava em campanha porque quis, para realizar seus sonhos pessoais, mas mesmo assim iria querer descansar por nossa conta, numa praia reservada só para ele e a prole, com a Marinha garantindo seu sossego. Eta, playboy! 

Alguém tem de trabalhar, não é mesmo? Sua equipe estaria, nesse período, começando a desovar o saco de maldades. Imagine o que não faria com a tarifa de eletricidade! Dizem que seu plano era elevá-la em 54%, de um golpe só, usando Roraima como cobaia. E, terminado o período de ócio no paraíso tropical estatizado, Aécio ficaria conchavando com um ex-presidente, já que sua preocupação nunca foi atender à população, mas ampliar o período do partido no poder. O ex-presidente é meio idoso, mas de repente - pode ser. E qual será sua equipe? Oras! Já festejou, já descansou, está na mordomia, ainda querem que decida?
Herança maldita

Não se pode esquecer que o povo dele estaria escarafunchando documentos para botar a culpa de tudo no Governo anterior. Seria capaz de dizer, por exemplo, que jamais as contas do Governo Federal estiveram em tão mau estado. Só em setembro, o buraco é de R$ 20,4 bilhões (o pior resultado, antes, tinha sido um pequeno saldo positivo de R$ 3,9 bilhões). 

Deve ser coisa de quem detesta o PT, Lula e Dilma - embora sejam dados oficiais, fornecidos pelo Tesouro.

Filosofando
Quem não conhece o passado está condenado a repeti-lo, dizia o pensador George Santayana. 

O Brasil conhece o passado: Collor acusou Lula de querer confiscar a poupança, ganhou a eleição e quem a confiscou foi ele. A história acontece como tragédia e se repete como farsa, dizia o pensador Karl Marx. O Brasil vive o pior dos mundos: conhece o passado e o repete; e a farsa é trágica.

Coisa estranha 1
O PSDB, dias depois da eleição, pediu ao TSE uma auditoria especial dos resultados. No pedido, informou que não põe em dúvida a lisura da apuração nem o trabalho da Justiça Eleitoral. "Temos absoluta confiança de que o TSE cumpriu seu papel, garantindo a segurança do processo eleitoral."

Se não há queixas quanto à apuração nem quanto à lisura do TSE, de que reclamam os tucanos?

Coisa estranha 2
O PSDB não tem queixas. Mas a revista eletrônica GGN, do jornalista Luiz Nassif, próxima ao PT, divulgou análise aparentemente sólida sobre fraudes nas urnas eletrônicas (http://jornalggn.com.br/noticia/o-tse-e-a-descoberta-do-programa-de-fraude-nas-urnas-eletronicas).

Especialistas narram como um hacker violou o segredo das urnas e afirmam que aquela história de que o sistema de comunicações está fora da Internet não passa, isso sim, de história.

Fim de feira
A governadora do Maranhão, Roseana Sarney, PMDB, que promete morar em Miami tão logo entregue o cargo, daqui a dois meses, enviou à Assembléia mensagem solicitando que seja aprovada uma Lei de Transparência. Detalhe: valeria apenas para o próximo Governo. 

Transparência boa, só no Governo dos outros.

Sem medo de ser feliz
A Medida Provisória 651, enviada pela presidente Dilma Rousseff ao Congresso, tem como objetivo dar fôlego ao mercado de capitais. Mas embute alguns contrabandos, ali postos para passar despercebidos: um, por exemplo, isenta as empresas aéreas de Imposto de Renda, CSLL, PIS, Pasep e Cofins sobre passagens compradas com cartões corporativos. 

E quem vai pagar a conta? Adivinhou, caro leitor! O IOF de quem compra dólares para viajar passa de 0,38% para 6,38%. E os altos funcionários federais ficam livres para comprar passagens com cartões corporativos (aqueles em que os gastos são mantidos em segredo). 

Olho por olho
A Itália impôs ao Brasil uma dura derrota diplomática: recusou-se a extraditar o mensaleiro Henrique Pizzolato, que tem dupla nacionalidade e fugiu do Brasil usando os documentos de um irmão falecido. A decisão é humilhante: informa que Pizzolato não pode ser extraditado porque, no Brasil, as prisões são de péssima qualidade e não têm condições de abrigar convenientemente os condenados. 

Há quem diga que a Justiça italiana se vingou da decisão brasileira de não lhe entregar Césare Battisti, condenado por homicídio e salvo por decisão pessoal do presidente Lula. 

Se foi isso, erraram: Pizzolato voltar ao Brasil, sabendo o que sabe, com tanta gente querendo ouvi-lo, seria um fardo terrível para o Governo.

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

Dilemas de Dilma

Carlos Alberto Sardenberg 
O Globo

O Bradesco seria uma espécie de banco do povão. Já o Itaú Unibanco, de “dona Neca”, o das elites. Isso passa no marketing?

Os líderes chineses têm uma habilidade especial para adotar políticas pró-mercado com uma retórica de esquerda para agradar esse lado do Partido. Vire à direita, dê sinal à esquerda — tal é o ensinamento.

Pois parece que a presidente Dilma está com o mesmo dilema, invertido: como seguir pela esquerda, mas dando sinal à direita?

A campanha foi claramente pela esquerda. Atacou as elites e os ricos, incluídos os empresários que só pensam no lucro, e especialmente os banqueiros, acusados de tirar comida da mesa dos pobres. Demonizou o mercado financeiro.

Também disse que tentar reduzir a inflação para algo como 3% ao ano, ou mesmo para a meta oficial de 4,5%, geraria um desemprego enorme. Ou seja, para ela, quanto menos inflação, mais desemprego.

Também atacou a proposta de controle dos gastos públicos, dizendo que isso também é tirar comida dos pobres, pois comprometeria os programas sociais.

Reeleita, a presidente prometeu diálogo com todos os setores, incluídos empresários, bancos e mercado. Acenou com mudanças na política econômica e confirmou que terá um novo ministro da Fazenda. Entre os nomes citados, que teriam sido até indicados por Lula, há nada menos que dois banqueiros, Henrique Meirelles e Luiz Trabuco.

Meirelles foi presidente mundial do Bank Boston, presidente do Banco Central nos oito anos de governo Lula, com uma gestão claramente ortodoxa e independente, e hoje dirige e participa de conselhos de grandes companhias privadas. É um quadro do capital.

Trabuco é simplesmente o presidente do Bradesco, o segundo maior banco privado nacional, um dos maiores da América Latina.

Nomear qualquer um deles seria para Dilma o dilema chinês: virar à direita, precisando então dar um sinal à esquerda militante que a carregou na campanha. Como nomear um banqueiro e/ou grande executivo privado depois de ter dito que um dos problemas do baixo crescimento do país estava na pouca disposição dos bancos privados de conceder empréstimos e das empresas de investir?

Nunca se pode menosprezar o marketing. Já tem gente dizendo, nos círculos governistas, que Trabuco, por exemplo, não é um banqueiro, mas um bancário — um simples funcionário que fez carreira dentro da instituição. Quem sabe ele tem uma carteirinha de filiado ao sindicato dos bancários?

Ou seja, o Bradesco, embora privado e com o capital em bolsa, seria uma espécie de banco do povão. Já o Itaú Unibanco, de “dona Neca”, assessora de Marina, seria o banco das elites.

Que tal? Passa? Temos alguma chance no marketing?

O problema é que seria preciso mostrar que o Bradesco age no mercado — emprestando, aplicando — pensando no povo, enquanto os outros bancos privados pensariam só em espoliar os clientes.

E aí não dá. O Bradesco age na praça exatamente como o Itaú e como qualquer outro banco privado. Igualzinho. Quer saber de lucro e de valorização de suas ações na Bolsa. Zela pelo seu dinheiro. Para isso Trabuco foi eleito presidente.

E, por falar nisso, Meirelles também caberia na categoria bancário. Afinal, ele entrou no Boston como trainee e lá foi subindo. Mas a esquerda petista nunca acreditou nisso. Passou o tempo do governo Lula tentando derrubar Meirelles. O próprio Mantega tentou mais de uma vez e quase conseguiu emplacar Luiz Gonzaga Belluzo na presidência do BC.

Tudo considerado, Dilma cai no dilema oposto: seguir na esquerda, manter as palavras da campanha, nomear um ministro da Fazenda desse lado, Mercadante, por exemplo, mas com um sinal à direita.

O que querem o mercado, os industriais, os comerciantes, os banqueiros, os investidores, os empresários do setor de serviços e da infraestrutura, mais boa parte da classe média que votou em Aécio? Querem menos inflação, menos juros e mais investimento privado, ou seja, mais crescimento.

Isso exige ajuste fiscal, ou seja, economia no Orçamento, superávit primário maior, gastos contidos. Essa austeridade é condição para segurar a inflação. Quanto maior a austeridade das contas públicas, menor a taxa de juros necessária para derrubar a inflação.

De todo modo, não há como escapar de juros altos por um tempo, mesmo porque muitos preços, represados, precisarão ser elevados (gasolina, diesel, energia elétrica, tarifas de transporte urbano etc.).

Em economia, confiança é essencial. As pessoas precisam acreditar que o governo fará o que diz que vai fazer.

Ora, um ministro da Fazenda vindo da esquerda, um novo Mantega, um Mantega mais esperto, conseguiria dar os sinais à direita?

Dilemas difíceis levam à paralisia. No caso da presidente Dilma, isso seria apenas trocar o ministro e manter tudo como está, dobrando aposta na “nova matriz”, essa de hoje, como disse na campanha.

Burrice e ignorância

 Arnaldo Jabor
O Estado de São Paulo

A burrice é diferente da ignorância. A ignorância é o desconhecimento dos fatos e das possibilidades. A burrice é uma forca da natureza (Nelson Rodrigues).

A ignorância quer aprender. A burrice acha que já sabe. A burrice, antes de tudo, é uma couraça. A burrice é um mecanismo de defesa. O burro detesta a dúvida e se fecha.

O ignorante se abre e o burro esperto aproveita. A ignorância do povo brasileiro foi planejada desde a Colônia. Até o século 19, era proibido publicar livros sem licença da Igreja ou do governo. A burrice tem avançado muito; a burrice ganhou status de sabedoria, porque, com o mundo muito complexo, os burros anseiam por um simplismo salvador. Os grandes burros têm uma confiança em si que os ignorantes não têm. Os ignorantes, coitados, são trêmulos, nervosos, humildemente obedecem a ordens, porque pensam que são burros, mas não são; se bem que os burros de carteirinha estimulam esse complexo de inferioridade.

A ignorância é muito lucrativa para os burros poderosos. Os burros são potentes, militantes, têm fé em si mesmos e têm a ousadia que os inteligentes não têm. Na porcentagem de cérebros, eles têm uma grande parcela na liderança do país. No caso da política, a ignorância forma um contingente imenso de eleitores, e sua ignorância é cultivada como flores preciosas pelos donos do poder. Quanto mais ignorantes melhor. Já pensaram se a ignorância diminuísse, se os ignorantes fossem educados? Que fariam os senhores feudais do Nordeste em cidades tomadas como Muricy ou o município rebatizado de Cidade Edson Lobão, antiga Ribeirinha? A ignorância do povo é um tesouro; lá, são recrutados os utilíssimos "laranjas" para a boa circulação das verbas tiradas dos fundos de pensão e empresas públicas.

Como é o "design" da burrice? A burrice é o bloqueio de qualquer dúvida de fora para dentro, é uma escuridão interna desejada, é o ódio a qualquer diferença, à qualquer luz que possa clarear a deliciosa sombra onde vivem. O burro é sempre igual a si mesmo, a burrice é eterna como a pedra da Gávea (Nelson Rodrigues). De certa forma, eu invejo os burros. Como é seu mundo? Seu mundo é doce e uno, é uma coisa só. O burro sofre menos, encastela-se numa só ideia e fica ali, no conforto, feliz com suas certezas. O burro é mais feliz.

A burrice não é democrática, porque a democracia tem vozes divergentes, instila dúvidas e o burro não tem ouvidos. O verdadeiro burro é surdo. E autoritário: quer enfiar burrices à força na cabeça dos ignorantes. O sujeito pode ser culto e burro. Quantos filósofos sabem tudo de Hegel ou Espinoza e são bestas quadradas? Seu mundo tem três ou quatro verdades que ele chupa como picolés. O burro dorme bem e não tem inveja do inteligente, porque ele "é" o inteligente.

Mesmo inconscientemente, aqui e lá fora, a sociedade está faminta de algum tipo de autoritarismo. A democracia é mais lenta que regimes autoritários. Sente-se um vazio com a democracia - ela decepciona um pouco as massas. Assim, apelos populistas, a invenção de "inimigos" do povo, divisão entre "bons" e "maus" surte efeito. Surge na política a restauração alegre da burrice. Isso é internacional. Bush se orgulhava de sua burrice. Uma vez, ele disse em Yale: "Eu sou a prova de que os maus estudantes podem ser presidentes dos USA". E aí, invadiu o Iraque e escangalhou o Ocidente. E está impune, quando deveria estar em cana perpétua. Aqui, também assistimos à vitória da testa curta, o triunfo das toupeiras.

O bom asno é sempre bem vindo, enquanto o "pernóstico" inteligente é olhado de esguelha. A burrice organiza o mundo: princípio, meio e fim. A burrice dá mais ibope, é mais fácil de entender. A burrice dá mais dinheiro; é mais "comercial".

Em nossa cultura, achamos que há algo de sagrado na ignorância dos pobres, uma "sabedoria" que pode desmascarar a mentira "inteligente" do mundo. Só os pobres de espírito verão a Deus, reza nossa tradição. Existe na base do populismo brasileiro uma crença lusitana, contrarreformistas, de que a pobreza é a moradia da verdade.

No Brasil, há uma grande fome de "regressismo", de voltar para a "taba" ou para o casebre com farinha, paçoca e violinha. E daí viriam a solidariedade, a paz, num doce rebanho político que deteria a marcha das coisas do mundo, do mercado voraz, das pestes e, claro, dos "canalhas" neoliberais. É a utopia de cabeça para baixo, o culto populista da marcha a ré.

Nosso grande crítico literário Agripino Grieco tinha frases perfeitas sobre os burros. "A burrice é contagiosa; o talento, não" ou "Para os burros, o 'etc' é uma comodidade..." ou "Ele não tem ouvidos, tem orelhas e dava a impressão de tornar inteligente todos os que se avizinhavam dele", "Passou a vida correndo atrás de uma ideia, mas não conseguiu alcançá-la", "Ele é mais mentiroso que elogio de epitáfio", "No dia em que ele tiver uma ideia, morrerá de apoplexia fulminante".

Vi na TV um daqueles bispos de Jesus, de terno e gravata, clamando para uma multidão de fiéis: "Não tenham pensamentos livres; o Diabo é que os inventa!". Entendi que a liberdade é uma tortura para desamparados. Inteligência é chata; traz angústia com seus labirintos. Inteligência nos desorganiza; burrice consola. A burrice é a ignorância ativa, é a ignorância com fome de sentido.

Nosso futuro será pautado pelos burros espertos, manipulando os pobres ignorantes. Nosso futuro está sendo determinado pelos burros da elite intelectual numa fervorosa aliança com os analfabetos.

Como disse acima, a liberdade é chata, dá angústia. A burrice tem a "vantagem" de "explicar" o mundo. O diabo é que a burrice no poder chama-se "fascismo".

Lembra o filminho dos banqueiros?

Elio Gaspari
O Globo

Segundo a repórter Claudia Safatle, Nosso Guia fez três sugestões à doutora Dilma para o lugar de Guido Mantega: Henrique Meirelles, Luiz Carlos Trabuco e Nelson Barbosa, ex-secretário executivo do Ministério da Fazenda. Cada um é cada um, mas o simples fato de se colocar Meirelles na roda mostra como as campanhas eleitorais têm uma opção preferencial pela mistificação.

Quando a educadora Neca Setúbal defendeu a autonomia do Banco Central, o PT crucificou Marina Silva e produziu uma peça histórica: um filmezinho mostrava uma família de trabalhadores de cuja mesa sumia a comida, fazendo contraponto com uma reunião de banqueiros sorridentes. Pudera. A família de Neca Setúbal é grande acionista do maior banco do país, o Itaú, e, nele, seu irmão Roberto é o principal executivo.

Lula deve ter seus motivos para sugerir o nome de Trabuco, presidente do Bradesco, que vem a ser o segundo maior banco. É na entrada de Meirelles na lista de Nosso Guia que a porca torce o rabo. Ex-presidente do Banco de Boston, ele dirigiu o Banco Central de 2003 a 2010, e sua administração foi vista como um dos fatores que mantiveram o barco petista à tona no mundo financeiro.

Neca defendeu a autonomia do Banco Central botando a cara na vitrine. Numa conversa protocolar com o embaixador americano Clifford Sobel, em agosto de 2006, Meirelles fez a mesma coisa, no escurinho do cinema. Segundo a narrativa de Sobel ao Departamento de Estado, “Meirelles pediu que o governo dos Estados Unidos use discretamente sua relação com o governo brasileiro para discutir a importância de levar ao Congresso uma legislação garantindo essa autonomia”. Nesse mesmo encontro, sempre segundo Sobel, Meirelles mostrou-se disposto a ajudar “nos bastidores” para a criação de um clima amigável para os investimentos americanos no Brasil.

O comissariado e muita gente boa condenam a ideia de se dar autonomia ao Banco Central, mas, quando o Comitê de Política Monetária sobe os juros três dias depois de uma eleição, sente-se cheiro de queimado naquilo que a doutora Dilma chama de “independência”. No barato, o Copom podia divulgar as transcrições dos debates dessas reuniões. O Federal Reserve americano, que tem autonomia, faz isso, respeitando um embargo de alguns anos.

O telegrama de Sobel foi revelado pelo Wikileaks em 2011. Conhecem-se dezenas de milhares de documentos da diplomacia americana no Brasil. Poucos são tão explícitos. Isso pode ser atribuído ao fato de que Sobel era um empresário republicano de Nova Jersey, premiado por George W. Bush com uma embaixada. À época da divulgação do telegrama, Meirelles não estava mais no governo e deu uma breve explicação, informando que “as palavras que me foram atribuídas não refletem adequadamente os assuntos das conversas que tive”. Sobel não quis comentar a matéria, o comissariado fez que não percebeu, e a vida seguiu.

Passaram-se oito anos do encontro narrado por Sobel, outros três da divulgação do telegrama, e a autonomia do Banco Central entrou na máquina de moer gente da campanha eleitoral. De duas, uma: Lula não soube do telegrama de Sobel ou não viu o filminho da família triste e dos banqueiros alegres.

Eremildo vai ao casamento de Suzane
Eremildo é um idiota heterossexual, está solto e, salvo algumas multas por jogar guimbas de cigarros na ruas do Rio, nada deve à Viúva. Tendo perdido a festa de casamento de George Clooney com a linda Amal Alamuddin, não quer faltar ao enlace de Suzane von Richthofen com “Sandrão”.

Em 2002, Suzane e dois cúmplices mataram a pauladas seu pai engenheiro e esganaram a mãe psiquiatra. Com umbigo de fora e tristinha, ela foi ao sepultamento dos pais. Ela está no presídio do Tremembé, pagando uma pena de 39 anos. “Sandrão” (Sandra Regina Ruiz Gomes), sequestrou um garoto de 14 anos, seu vizinho. A quadrilha embolsou um resgate de R$ 3 mil e matou-o com um tiro na cabeça. Esse é seu segundo casamento, no primeiro juntou-se com uma senhora que havia esquartejado o marido. Paga 24 anos de prisão e mais 105 dias por ter encestado um agente penitenciário. Em números globais “Sandrão” e Suzane custam à Viúva investimentos semelhantes ao de seis alunos de universidades públicas.

Para continuar ao lado de “Sandrão”, Suzane obteve a revogação da sua transferência para o regime semiaberto. Depois da cerimônia, o casal retornará à cela especial do Tremembé, onde convivem oito matrimônios, num código que proíbe brigas e adultérios. Caso uma presa resolva interromper a relação, obriga-se a seis meses de quarentena afetiva.

Eremildo soube que os presos heterossexuais só têm direito a visitas semanais, por algumas horas. Mesmo sendo um idiota, ficou com a impressão de que optou pela orientação sexual errada.

Corpo mole
Quem conhece os bastidores das gestões judiciais e diplomáticas do pedido de extradição do mensaleiro Henrique Pizzolato ficou com a impressão de que o comissariado fez corpo mole, conformando-se com a possibilidade de sua libertação.

É certo que num determinado momento o Ministério da Justiça pensou em deixar a batata quente nas mão do Supremo.

Às claras
Poucas vezes, um comissário foi tão claro como o presidente do PT, Rui Falcão, ao tratar da tramitação do projeto de reforma política proposto pela doutora Dilma:

“Nós, como partido que tem relações com os movimentos sociais, só vamos obter a reforma política com mobilizações. Só pelo Congresso Nacional, seja na configuração atual, seja na futura, será praticamente impossível”.

Se é impossível dentro das normas constitucionais vigentes, impossível será. Falcão argumenta com um ingrediente: a capacidade de mobilização do PT e dos seus “movimentos sociais”. Em bom português, quer a pressão da rua. E, se a sua pressão corresponder uma reação contrária, na mesma rua?

Lição de Obama
É provável que, na noite de terça-feira, os Democratas do companheiro Obama perderão a maioria no Senado. Com isso, ele passará os dois últimos anos de seu governo sem popularidade e com um Congresso republicano. No final da campanha, os candidatos de seu partido preferiam não tê-lo nos palanques.

O companheiro deixa duas lições para a doutora Dilma:

Ele achou que podia deixar o Congresso de lado. Vai daí, desdenhou as lideranças de seu partido no Legislativo.

Descida rápida

José Casado
O Globo

Aflições governamentais com a seca, inflação e fragilidades no sistema bancário devem obrigar Dilma a descer do palanque bem mais rápido do que previa

A vida real insiste em bater à porta de Dilma Rousseff. Em sua mesa, no domingo da reeleição, acumulavam-se informes e relatórios recentes sobre as aflições governamentais provocadas pela seca, inflação, recessão e evidências de fragilidades no sistema financeiro.

Não haverá “pacote”, expressão há muito banida do léxico governamental. Vêm aí “ações localizadas, em especial na economia" — ela anunciou na noite de domingo, ao celebrar a vitória, seguindo sugestão da equipe de propaganda. Arrematou: “Antes mesmo do início do meu próximo governo".

Por trás dessa dezena de palavras está um governo atormentado pelos efeitos da seca na maior parte do Brasil. Na sexta-feira, por exemplo, chegou ao Palácio do Planalto a previsão de estoque de água durante esta semana nos reservatórios das hidrelétricas. No Sudeste e Centro-Oeste, 18%, nas usinas do Nordeste, 15%.

Pela régua do Operador Nacional do Sistema Elétrico, a situação hoje seria mais grave do que aquela de 2001, no governo Fernando Henrique, quando o armazenamento nas usinas era de 21% e o consumo precisou ser racionado.

A crise no abastecimento de energia só não aconteceu neste ano eleitoral porque a indústria, maior consumidora, está em recessão há 12 meses. “Vamos dar mais impulso à atividade econômica em todos os setores, em especial no setor industrial", prometeu Dilma, no discurso.

Desta vez, não haverá “racionamento” — outra palavra banida do vocabulário oficial. Vem aí uma “racionalização” do consumo, se Dilma decidir agir e, nesse caso, adotar a proposta vocabular do serviço de propaganda pós-eleitoral.

Em qualquer hipótese, as contas domésticas de luz devem atravessar 2015 sob bandeira vermelha, código de aviso ao consumidor sobre como a coisa está feia no sistema gerador. Por causa dos desequilíbrios, naturais ou governamentais, ele deverá pagar uma taxa extra.

Os efeitos da seca se espraiam pelo sistema de preços de uma economia estagnada. A saída com anabolizantes no consumo já não existe, porque esgotou-se a capacidade de endividamento familiar. O crédito deixou de fluir na praça, apesar das ações emergenciais do Banco Central, que atravessou os últimos quatro meses da campanha eleitoral liberando R$ 17 bilhões mensais aos bancos.

O alto custo do dinheiro, em tempos de inflação crescente e taxa de câmbio incerta, gelou o ritmo de negócios. Os maiores bancos ampliaram as restrições ao crédito de grandes clientes. Principalmente, daqueles que fornecem à Petrobras e têm sido obrigados, na melhor das hipóteses, a renegociar valores de contratos arguidos nas múltiplas investigações sobre as traficâncias na empresa estatal.

Culpar o sistema financeiro pode ser útil à retórica, mas é inócuo. Como dizia o industrial Antonio Ermírio de Moraes, guarda-chuva de banco só abre quando faz sol. Além disso, uma em cada cinco das 100 maiores casas bancárias brasileiras fechou o balanço dos primeiros nove meses com exuberantes prejuízos — um pedaço teve origem em dívidas não pagas de fornecedores da Petrobras envolvidos nos escândalos petro-partidários.

Dilma Rousseff será obrigada a descer do palanque bem mais rápido do que previa.

A vida curta da mentira eleitoral

Sandro Vaia
Blog do Noblat

Prometa uma coisa e faça o contrário.

Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia.

Bom esse Shakespeare. Sabia das coisas. Não votava nem no PT nem no PSDB mas era antenado na tal da alma humana.

Durante a campanha eleitoral, o PT, pai e protetor dos pobres, mostrou, sem nenhuma clemência, que Marina Silva, a seringueira fajuta, na verdade era instrumento dos banqueiros para instalar-se no poder e sugar os pobres. A Sra. Neca Setúbal, com esse sobrenome, era a prova viva da conspiração banqueiro-seringueira.

Os anúncios de João Bendengó Santana mostravam uma mesa onde crianças comiam a sua ração diária, que ia sendo apagada e reduzida à medida em que os banqueiros avançavam sobre a taxa de juros. Cada meio ponto a mais na taxa de juros, as proteínas e os carboidratos iam sendo apagados dos pratos das crianças pobres.

Um anúncio sórdido como esse chegou a ser classificado como muito talentoso por profissionais da publicidade. E por profissionais da militância.

Tudo isso para que 72 horas depois da apertadíssima reeleição de Dilma Rousseff, o Banco Central anunciasse uma elevação de 0,25% na taxa básica de juros. Por que os bancos centrais aumentam a taxa de juros? Para controlar a inflação. Mas a inflação, não repetiu exaustivamente a soberana nos debates eleitorais, já não estava sob controle?

Os mistérios não terminam aí. Dois dias depois da eleição, o decreto bolivariano dos “conselhos populares” foi derrubado pela Câmara, uma derrota esmagadora para o governo. Onde está a grande base aliada? Está onde sempre esteve: quanto menor a margem de manobra do governo, quanto mais desconfortável a sua zona de conforto, mais disposta a faturar pelo seu apoio.

A escolha do ministro da Fazenda que substituirá o zumbi Guido Mantega, é outro mistério. O primeiro nome que circulou foi o do presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco. Quer dizer: quem votou em Dilma para evitar que Marina ou Aécio entregassem o país para os banqueiros só trocaria a bandeira do banco: do Itaú de dona Neca para o Bradesco de Trabuco.

Seria uma maneira de tranquilizar o mercado. Embora Lula, em uma de suas inúmeras bravatas, tenha dito que ele (e o PT, por supuesto) nunca governaram para o mercado, até os paralelepípedos da rua sabem que a famosa Carta ao Povo Brasileiro de 2001, que Antônio Palocci submeteu à aprovação de Joao Roberto Marinho (“o povo não é bobo/abaixo a rede Globo”), era mais do que um aceno ao mercado. Era um juramento de que o programa do PT seria arquivado e que a política econômica (neoliberal?) de FHC seria seguida religiosamente.

Foi nessa eleição e com esse documento que o PT iniciou a sua trajetória pragmática no mundo do poder. Um figurino que lhe caiu tão bem que ele não pretende largá-lo mais. E aprendeu um truque que continua funcionando bem até hoje: prometa uma coisa e faça o contrário.

O próximo passo é o inevitável ajuste fiscal. Que feito pelos adversários, se eles tivessem sido eleitos, seria chamado de arrocho e apedrejado e cuspido durante as 24 horas do dia.

Fala mansa

Dora Kramer
O Estado de São Paulo

A vantagem da reeleição é que o país não precisa esperar os dois meses que separam a eleição da posse nem os tradicionais primeiros 100 dias de governo para conferir se a figura do candidato se encaixa na pessoa do presidente. Ou melhor: se o que foi feito para ganhar combina com o que será feito para governar.

A presidente Dilma Rousseff que surgiu reeleita na noite de domingo para discursar em prol do diálogo e da união nacional era outra na forma, mas ainda ficou devendo a prova de que na essência não continua a mesma.

Livre das jogadas ensaiadas que fizeram dela mera repetidora de frases desconexas, Dilma pôde se dirigir à nação com surpreendente fluência. Um alívio, pois se vê que não há nada de preocupante com ela. Apenas, não sendo política de raiz, tampouco é uma atriz. Nem improvisa nem segue com naturalidade o script.

Dilma disse as palavras adequadas no momento certo. A cobrança dos últimos dias eram todas no sentido em que foi construído o discurso. Era o que se esperava dela. Correspondeu bem a essa expectativa, principalmente quando exaltou o valor dos resultados apertados como agentes de mudanças mais eficazes do que vitórias muito amplas.

Foi ao ponto ao estabelecer que falar em união não significa defender unidade de ação e pensamento, pois o espaço para a divergência é sagrado. E foi em frente no comprometimento com reformas, com o reconhecimento de que pode ser uma pessoa de trato bastante melhorado, que a economia necessita de mudança de rumos, que o diálogo com todos os setores precisa ser qualificado, que a corrupção requer duro combate e o Congresso um relacionamento renovado.

As palavras da presidente são completamente diferentes das atitudes da candidata. Em quem o país deve acreditar? Aí depende da disposição de se aceitar, ou não, a teoria do “diabo”, segundo a qual pela vitória vale tudo. Ou os fins justificam os meios.

O problema da tese é que quem se orienta por ela pode adotá-la em qualquer situação: na campanha ou no governo. De onde a correção do discurso presidencial logo após a vitória deve ser visto com ressalvas. Primeira delas: tão amoldado à expectativa e contraditório em relação ao que gritava a militância que a ouvia ensandecida contra a “mídia golpista”, que autoriza a desconfiança de que seja mais uma peça de marketing.

A suspeita tem base em práticas anteriores. Já vivemos a publicidade da “faxina”, da “gerente”, da “durona”, que hoje promete ser “uma pessoa melhor”. Mas, sigamos com fé. Para que essa fé não nos falhe é necessário que a formalidade das palavras seja correspondida pela efetividade dos atos.

A presidente acena com diálogo. Se a memória não comete grave traição, ela fez gesto semelhante ao assumir a Presidência em 2010. A realidade resultou em isolamento. Sim, pode ter havido aprendizado, mas desta vez é preciso explicitar quais as bases, com quem e como o governo pretende estabelecer a interlocução para ganhar crédito. Terá de levar o PT a adotar a mesma orientação de que a crítica não significa “golpismo” e representa apenas uma parcela substantiva da população.

O compromisso com as reformas também não pode se resumir à repetição da proposta já repudiada do plebiscito para a reforma política. Há outras na pauta que implicam disposição do Poder Executivo de enfrentar e arbitrar contenciosos.

Para concluir, o enrosco urgente da Petrobras. A presidente aborda o tema da corrupção falando em mudanças nas leis. Não poderá, no entanto, passar os próximos quatro anos de olhos fechados para o fato de o PT ter optado por financiar seu projeto de poder por meio de traficâncias no aparelho do Estado.

A realidade equivocada

Alexandre Schwartsman
Folha de São Paulo

O que se espera é ‘mais do mesmo’ na economia; o mesmo descaso com as contas públicas e a inflação

Para onde quer que se olhe fica claro que o desempenho econômico do Brasil nos últimos quatro anos tem piorado consistentemente, deterioração que dá sinais de ter se agravado a partir do ano passado.

O crescimento médio do país de 2011 a 2014, por exemplo, deve ficar ao redor de 1,6% ao ano, mas cadente, reduzido para quase zero neste ano. Já a inflação média superará 6%, acelerando para 6,5% em 2014, o pior resultado desde 2011.

O deficit externo provavelmente atingirá o equivalente a 3,0% do PIB no período, e também crescente, devendo chegar a 3,7% do PIB no final deste ano.

A dívida bruta do governo, que havia sido reduzida para pouco mais de 50% do PIB em 2010, já se encontra em 60% do PIB, refletindo o descaso com as contas públicas. O superavit primário (livre da contabilidade criativa), que ficara em 2% do PIB entre 2007 e 2010, caiu para menos 1% do PIB ao longo deste mandato presidencial e deve registrar em 2014 o primeiro resultado negativo desde 1997.

Por fim, mesmo quando se trata do emprego, cantado em prosa e verso como o grande mérito do atual governo, a degradação é visível: a criação de vagas formais na economia caiu de 130 mil/mês no mandato anterior para 86 mil/mês no atual.

Da mesma forma, a Pesquisa Mensal do Emprego, que captura também o emprego informal, aponta crescimento médio da ocupação de 0,8% ao ano entre dezembro de 2010 e setembro de 2014 (e ao redor de zero este ano) ante mais de 2,5% ao ano nos quatro anos anteriores.

Fica desses números a imagem de quatro anos tristes, culminando com um desempenho lamentável em 2014. Ainda assim não há a menor indicação de que o governo pretenda alterar os rumos da política econômica. Pelo contrário, a mensagem é que esta sempre esteve certa; se alguém errou, foi a realidade.

Por mais que a anunciada demissão do atual ministro da Fazenda (contra minha vontade, quero deixar claro) possa criar esperanças de uma gestão mais racional da economia, a verdade é que sinaliza muito pouco no sentido de correção de rota.

Mesmo que seja trocado por alguém com mais compostura, o ministro da Fazenda foi pouco menos que a rainha da Inglaterra; nunca houve (nem deve haver) dúvida de que o comando da política econômica se encontra nas mãos da presidente, cujo apreço pela centralização de decisões só é superado por seus persistentes atentados ao vernáculo.

Não chega a ser surpreendente, portanto, que o secretário-executivo do Ministério da Fazenda já tenha acenado com mais um pacote de estímulo à indústria, afirmando ser possível “esperar por uma economia cada dia melhor”.

Na mesma toada, a presidente fala em “ajustes pontuais”, como se o problema fosse localizado e pudesse ser resolvido por mais uma rodada de microgerenciamento.

O que se espera, pois, é “mais do mesmo” na forma de tratar a economia. Do lado macro, o mesmo descaso com as contas públicas e a inflação. Mais importante, na perspectiva microeconômica, antecipa-se a persistência de um processo de intervenção governamental sem paralelos desde o governo Geisel.

À luz disso, a promessa de uma “economia cada dia melhor” soa improvável. Pelo contrário, se fizermos as mesmas coisas que fizemos nos últimos quatro anos, há escassas razões para imaginar que o desempenho econômico possa ser muito distinto do observado nesse período.

É atribuída a Einstein a definição de insanidade como fazer as coisas do mesmo modo e esperar que os resultados sejam diferentes. Há sérias dúvidas sobre a autoria da frase, mas não tanto no que tange à sua aplicação para as perspectivas da economia brasileira.

Sem uma mudança de rumos que contemple por um lado a recuperação da estabilidade macroeconômica e, por outro, a busca obsessiva pela produtividade, estaremos condenados à repetição da mediocridade que caracterizou este mandato presidencial e mais uma vez a realidade levará a culpa.


Qualquer semelhança

Míriam Leitão e Marcelo Loureiro  
O Globo

Os descaminhos da América Latina são vários. Todos levaram os países para longe da democracia como a conhecemos. Houve golpes de estado, caudilhismo, coronelismo, renovação sucessiva de mandatos, partidos que ficaram décadas no governo depois de ocupar e corromper o aparelho de estado. O poder foi tomado em nome do povo, mas em favor de alguns foi exercido.

No México, o PRI passou 70 anos no Palácio. Havia eleições periódicas, mas não eram democráticas. O partido infiltrou-se na máquina pública, ocupando cargos estratégicos e se espalhando como um polvo cujos tentáculos grudaram nos órgãos da administração e nas empresas públicas. A corrupção financiou a permanência. O estado deixou de ser dos mexicanos e passou a ser do partido. A imprensa foi cerceada através do controle ao papel importado. O acesso à matéria-prima conseguiu matar por muito tempo a liberdade de expressão. Quando novos jornais apareceram e as oposições conseguiram se organizar, houve a salutar alternância do poder. Agora o PRI voltou renovado. Na oposição, se oxigenou e promete não repetir os velhos métodos.

Na Venezuela, depois de um período de governos oligárquicos que lembravam o Brasil da Primeira República, o coronel Hugo Chávez assumiu o poder pelo voto. Ele havia tentado chegar ao Palácio Miraflores em cima de tanques. Iniciou-se, então, a era do chavismo.

A democracia foi sendo minada na Venezuela. A imprensa sofreu ataques. O presidente Hugo Chávez, em comícios, declarava alguns jornalistas como inimigos, citando seus nomes e os ameaçando. Cerceava veículos de imprensa que não lhe faziam a corte. Militantes agrediram jornalistas e órgãos de comunicação seguindo a incitação do líder. Em reportagem que fiz na Venezuela, em 2003, vi cenas, gravadas e ao vivo, de não esquecer. A lei de controle da imprensa demoliu a liberdade. Emissoras de rádio e TV e os jornais foram cerceados política e economicamente. Alguns foram fechados. Outros, encurralados. Por fim, os últimos, comprados por empresários vassalos.

Além da imprensa, outras instituições que precisam ser independentes para que a democracia mereça esse nome, como o Congresso e a Justiça, passaram a orbitar em torno do poder presidencial. Na Justiça, foram escolhidos ministros de tribunais superiores que servissem ao projeto chavista. Os plebiscitos e referendos, que democracias sólidas usam para consultar a opinião dos cidadãos, foram distorcidos para serem o caminho de dar mais poder ao governante. O Congresso ocupado pela maioria chavista abriu mão de suas prerrogativas através de leis habilitantes, que delegam ao executivo o poder de legislar. A empresa de petróleo foi ocupada por militantes e ordenhada sistematicamente para extrair o dinheiro que irriga os agentes políticos do chavismo. A estatal com as maiores reservas da região e uma das mais importantes do mundo perdeu capacidade de investir e de aumentar sua produção. Políticas sociais para reduzir a vasta pobreza mitigaram o sofrimento dos pobres, mas com o alto preço de recriação do coronelismo clientelista. Foi refeito o voto de cabresto através da ameaça aos pobres de perder o que deveria ser transferido como direito do cidadão. Por muitas artimanhas, o autoproclamado socialismo do século XXI refez as cenas descritas no clássico de Vitor Nunes Leal, “Coronelismo, Enxada e Voto”. Por causa da urbanização, só não havia a enxada. Mas o voto passou a ser a contrapartida do assistencialismo.

Com alterações locais, o modelo foi seguido na Bolívia e no Equador. Foram aprovadas leis que limitavam o papel da imprensa. A Argentina também tem usado essa trilha de cercar os jornais que não são amigos. Em alguns países o projeto de eliminar a opinião divergente está mais adiantado que em outros. Na Bolívia, Evo Morales inicia o terceiro mandato já falando do quarto.

Há muitos descaminhos na América Latina. O golpe militar foi usado no século passado. Os métodos de conspirar contra a democracia agora são outros. Qualquer semelhança poderemos evitar no Brasil fortalecendo as instituições e preservando o contraditório. Não estamos condenados a repetir os erros dos vizinhos; as escolhas deles devem nos servir de alerta. Nós não podemos cometer o erro da ingenuidade.

Dilma inaugura o governo do futuro do pretérito

Josias de Souza


Após prevalecer sobre Aécio Neves na mais apertada disputa presidencial da história do país, Dilma Rousseff fez um ótimo discurso protocolar. Manifestou o desejo de “construir pontes” com todos os setores da sociedade. Declarou-se aberta ao “diálogo”. E prometeu honrar o desejo de mudança manifestado pelo eleitorado.

“Algumas vezes na história, os resultados apertados produziram mudanças mais fortes e rápidas do que as vitórias amplas”, leu Dilma. “É essa a minha esperança. Ou melhor, a minha certeza do que vai ocorrer…”

O futuro de Dilma chegou com tal rapidez que virou, ali mesmo, no púlpito da vitória, um futuro do pretérito. O amanhã da presidente reeleita estava gravado nas rugas da terrível cara de ontem dos aliados que a acompanham hoje.

Lá estava o vice-presidente Michel Temer, cujo partido, o PMDB, se equipa para reconduzir Renan Calheiros à presidência do Senado e acomodar Eduardo Cunha no comando da Câmara.

Lá estava Ciro Nogueira, presidente do PP, o partido que mordia propinas na diretoria de Abastecimento da Petrobras na época do ex-diretor Paulo Roberto Costa, hoje delator e corrupto confesso.

Lá estava Rui Falcão, presidente de um PT prestes a arrostar escândalo maior do que o do mensalão. Lá estava Antonio Carlos Rodrigues, do PR, uma legenda comandada pelo presidiário Valdemar Costa Neto, do escândalo anterior.

Lá estava Carlos Lupi, varrido em 2011 da pasta do Trabalho, ainda hoje sob domínio do PDT e sob investigação da Polícia Federal.

Lá estavam Gilberto Kassab, Vitor Paulo, e Eurípedes Júnior, cujas legendas —PSD, PRB e Pros— são eloquentes evidências de que o país precisa de uma reforma política. Será a primeira reforma, anunciou a re-presidente.

A alturas tantas, Dilma soou assim: “Terei um compromisso rigoroso com o combate à corrupção e com a proposição de mudanças na legislação atual para acabar com a impunidade, que é protetora da corrupção.”

A frase chega com 12 anos de atraso. 
Lula, que também estava lá, deveria tê-la transformado em mantra desde 2003. Preferiu honrar as alianças esdrúxulas a salvar a biografia. Subverteu até a semântica, apelidando o cinismo de “amadurecimento político”.

Dilma retorna ao Planalto embalada pelo pior tipo de ilusão que um presidente pode ter: a ilusão de que preside. Seu poder efetivo não vai muito além dos três andares da sede do governo. Fora desses limites todo governante é, por assim dizer, governado pelas pressões da economia e pelos entrechoques das forças contraditórias que o cercam.

O que a presidente reeleita pode fazer para aproveitar o embalo do efêmero triunfo eleitoral é projetar as aparências do poder. Que a internet e os meios de tradicionais de comunicação cuidariam de propagar.

Para espelhar a imagem que o eleitor projetou nela, falta a Dilma uma disposição de zagueiro à antiga. Do tipo que mira o calcanhar adversário nas primeiras entradas do jogo, de modo a não deixar dúvidas sobre quem manda na grande área.

O problema é que os inimigos de Dilma estão muito próximos dela. A re-presidente teria de distribuir pontapés na turma do seu próprio time. Do contrário, perceberá logo, logo que o tempo no segundo mandato não passa. Já passou!

Dilma-2015: agora sem marqueteiro para disfarçar

Laryssa Borges
Veja online

A presidente reeleita terá de mudar os rumos da economia, destravar os investimentos e enfrentar desdobramentos do petrolão no Congresso

(Paulo Whitaker/Reuters) 
A presidente Dilma Rousseff toma chimarrão depois da votação
 do segundo turno, na manhã deste domingo (26), em Porto Alegre 

Seja quem for seu escolhido para ditar os rumos da economia brasileira na nova equipe ministerial, é certo que 2015 será um ano duro para a presidente Dilma Rousseff. Reeleita numa eleição acirrada e com estreita margem de votos, Dilma terá pela frente um cenário econômico desalentador, que a obrigará a tomar medidas impopulares e acalmar o mercado financeiro. Paralelamente, a menos que inicie um movimento conciliatório – e ele dê certo – nos próximos dois meses, terá dificuldades na interlocução com o Congresso Nacional, que por si só já estará alvoroçado com as denúncias do petrolão.

"A democracia brasileira vai passar por um teste de estresse, com muita disputa, uma polarização bastante intensa. Tudo conspira para que presidente tenha grandes dificuldades no Congresso, na economia e no atendimento aos anseios da sociedade", afirma o professor Carlos Pereira, da Escola de Administração Pública da FGV.

O ponto mais sensível do futuro governo é a economia. Sob efeito de uma persistente pressão inflacionária – 6,75% nos últimos doze meses e longe do centro da meta de 4,5% – o novo governo terá pela frente o desafio de reverter o baixo crescimento econômico, melhorar a condução da política fiscal para diminuir a dívida pública, estancar a crise de desconfiança dos investidores e passar credibilidade suficiente para evitar que o Brasil perca o grau de investimento recebido em 2008.

“O mais importante problema que vamos enfrentar daqui para frente diz respeito à questão fiscal. Crescimento e a inflação são itens preocupantes, mas se não arrumar a área fiscal, as demais questão passam a não ser eficazes”, diz o doutor em economia Flávio Basílio, da Universidade de Brasília (UnB). “O fiscal também é importante para garantir o grau de investimento da economia brasileira, para auxiliar o Banco Central no combate à inflação e também acaba reduzindo os juros futuros, que é uma variável relevante para a decisão sobre os investimentos do país”, completa.

Ainda no campo econômico, a presidente reeleita terá mais bombas para desarmar: o inevitável reajuste no preço dos combustíveis e o risco de problemas na oferta de energia elétrica em 2015 caso persista a escassez de chuvas. Por temer impactos no desempenho eleitoral da presidente Dilma, o governo postergou para depois do segundo turno o reajuste no preço da gasolina, desidratando o caixa da Petrobras, já que a estatal tem de importar parte do combustível que vende por não produzir nem refinar toda a gasolina exigida pelos consumidores brasileiros. Como os preços do mercado doméstico estão defasados em relação aos do mercado internacional, o prejuízo recaiu sobre o caixa da petroleira.

“Existem dúvidas se ela vai ser capaz de reequilibrar as contas públicas, porque o governo foi negligente com a macroeconômica em todo o primeiro mandato. Não temos crescimento econômico e estamos em recessão técnica. Somado a isso, o escândalo da Petrobras e o depoimento do doleiro Youssef, que mencionou diretamente tanto ela quanto o ex-presidente Lula, pode colocar grande parte do governo em suspeição e fragilizar naturalmente o novo mandato da presidente Dilma", diz Carlos Pereira, da FGV.

No setor elétrico, contribuem para a formação de mais um campo minado o baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas, o aumento da necessidade das térmicas, que têm energia mais cara, e a inescapável dependência das chuvas. No mais, Dilma terá de rever as nomeações políticas – boa parte das indicações na Eletrobras e em subsidiárias são feitas pelo PMDB – e provavelmente substituir o atual ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, enfraquecido após ter sido citado pelo ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa como uma das autoridades que receberam propina do petrolão.

Além do impacto na imagem da Petrobras, a maior empresa pública brasileira, os mais emblemáticos efeitos do esquema de corrupção na estatal deverão começar a ser sentidos no próximo ano e também entram na lista de tempestades a serem administradas pela presidente Dilma Rousseff. Com a esperada homologação da delação premiada do doleiro Alberto Youssef, os nomes de deputados e senadores citados tanto por ele quanto pelo ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa deverão vir a público, comprometendo próceres do PT, PMDB e PP e abrindo espaço para o esfacelamento da base aliada da petista reeleita. A própria Dilma e o antecessor no cargo, Luiz Inácio Lula da Silva, também poderão ter sérios problemas com o Judiciário no desenrolar do caso.

A diferença é que, a partir do próximo ano, as artimanhas do marqueteiro João Santana poderão não ser suficientes.

As tempestades de 2015


Os efeitos do petrolão
As revelações de que políticos receberam propina dos cofres da Petrobras em um esquema que movimentou pelo menos 10 bilhões de reais nos últimos anos devem ser a principal bomba a ser desarmada pela presidente Dilma Rousseff no início do próximo mandato. À medida em que o teor dos depoimentos do ex-diretor Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef se transformarem em processos contra políticos no Supremo Tribunal Federal (STF), o estrago à imagem do governo Dilma quanto à administração de seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, poderá ser inevitável. Para piorar, ao contrário de 2005, quando estourou o escândalo do mensalão mas a economia crescia, o cenário econômico de 2014 é desalentador.

O aparelhamento da Petrobras
Maior empresa brasileira, com valor de mercado de 116 bilhões de dólares, a Petrobras está no centro do maior escândalo de corrupção de que se tem notícia. O aparelhamento da Petrobras com apadrinhados de siglas governistas é apontado como um dos gargalos a ser administrado pela presidente Dilma. Atualmente, entre a cúpula da estatal escolhida por parlamentares estão Sérgio Machado, presidente da Transpetro e indicação pessoal do senador Renan Calheiros (PMDB-AL), e José Andrade Lima Neto, presidente da BR Distribuidora e indicação do senador Fernando Collor e do ministro de Minas e Energia Edison Lobão. Sob efeito eleitoral, a Petrobras ainda amargou prejuízos em 2014 por conta do adiamento do reajuste nos preços da gasolina, nó que agora precisará ser desatado pelo governo.

O nebuloso cenário econômico
O baixo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e a crise generalizada de desconfiança em relação ao Brasil fazem do cenário econômico a principal pedra no sapato da presidente reeleita Dilma Rousseff, que teve os primeiros quatro anos de sua gestão com o terceiro menor crescimento do PIB desde 1889. Depois de confirmar a substituição do ministro da Fazenda Guido Mantega, a petista precisará reverter a degradação fiscal, baixar a dívida pública e manter a taxa de desemprego sob controle. Para completar o cenário econômico obscuro, em 2014 o governo vai descumprir pelo terceiro ano seguido a promessa de meta fiscal – até agosto a economia para pagar juros da dívida chegou a míseros 0,3% do PIB ante uma meta inicial de 1,9%.

Os desafios do setor elétrico
O encarecimento da eletricidade paga pelo setor industrial e a perspectiva de aumento nas contas de luz fazem do setor elétrico um exemplo cabal do desajuste do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. O baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas e o intervencionismo extremo do governo federal no setor, a partir de 2012, completam a lista de problemas a serem administrado pela presidente, que também precisará colocar sobre a mesa o planejamento para licitar as áreas onde hoje atuam três das maiores companhias elétricas, a Cemig, a Copel e a Cesp e cujas concessões começam a vencer em 2015. De quebra, Dilma ainda precisa reduzir a influência política do PMDB, partido que desde o início do governo Lula indica os principais cargos políticos do setor, e substituir o ministro de Minas e Energia Edison Lobão, desgastado após ser citado como beneficiário de propina no esquema do petróleo.

Um rebelde na Presidência da Câmara
O peemedebista Eduardo Cunha, deputado que tirou o sono da presidente Dilma Rousseff nos quatro anos de governo e é apontado como eterna pedra no sapato da petista, deve ser confirmado como futuro presidente da Câmara dos Deputados a partir de 2015 em substituição a Henrique Eduardo Alves. Conhecido por conseguir arregimentar aliados insatisfeitos e impor derrotas ao governo, Cunha deve endurecer no próximo ano ainda mais o instável canal de interlocução entre o Palácio do Planalto e os parlamentares, impondo exigências ao governo a cada votação controversa. Cabe ao presidente da Câmara definir a pauta de votações dos deputados – e Eduardo Cunha tem experiência de sobra em pressionar o governo para ver seus interesses atendidos. Ele transita com facilidade por empresas de telecomunicações, mineradoras e fundos de pensão. 

A força da nova oposição
As eleições de outubro deram aos partidos de oposição força política para combater de forma programática o governo reeleito de Dilma Rousseff. Com um ativo de 51 milhões de votos, o tucano Aécio Neves se coloca como novo líder oposicionista e deve comandar estratégias de enfrentamento da administração federal ao lado de uma nova composição do Senado, fortalecido com a eleição de nomes como José Serra, Tasso Jereissati, Ronaldo Caiado e Antonio Anastasia. As dificuldades de uma interlocução efetiva com o Congresso – a presidente Dilma não costuma tratar diretamente com congressistas e os ministros de Relações Institucionais não raro são alijados autonomia para negociar – devem ser ampliadas no próximo ano também com a perspectiva de uma bancada próxima a 155 deputados oposicionistas, além dos costumeiros congressistas insatisfeitos e infiéis às ordens do Planalto.

O PP no Ministério das Cidades
O Ministério das Cidades, controlado pelo Partido Progressista (PP) desde o governo Lula, é uma das pastas mais cobiçadas pelos aliados da presidente reeleita Dilma Rousseff por centralizar projetos bilionários de saneamento, habitação e mobilidade urbana. Apenas em 2015, por exemplo, o governo estima gastar pelo menos 19 bilhões de reais com o programa Minha Casa, Minha Vida, de responsabilidade da pasta. Mas os pepistas, que já foram “faxinados” das Cidades depois de sucessivos escândalos de corrupção envolvendo o então ministro Mario Negromonte, estão novamente na berlinda por terem sido apontados como o partido de origem do esquema do petrolão. Parlamentares do PP foram citados como beneficiários da propina distribuída no bilionário esquema de corrupção na Petrobras e, com a expectativa de desgaste da sigla quando os nomes forem revelados, é possível que o partido seja banido da pasta.

Brasil é o 120º melhor lugar para negócios, diz ranking

Exame.com
Altamiro Silva Júnior, Estadão Conteúdo

Germano Lüders/EXAME.com 
Zona sul de São Paulo:  conseguir permissão para construção,
 o Brasil fica em 174º lugar, demorando, em média, 426 dias

Nova York - Fazer negócios no Brasil para uma empresa ficou um pouco mais fácil, mas o País ainda está bem longe dos melhores lugares do mundo para a vida de um empreendedor, mostra um estudo divulgado na terça-feira, 28, em Washington pelo Banco Mundial sobre a facilidade de se fazer negócios em 189 países.

O Brasil ficou na 120ª posição no ranking geral este ano. No relatório do ano passado, inicialmente o País havia ficado em 116º, mas, em uma revisão divulgada ontem junto com o novo estudo, a economia brasileira agora aparece no 123º lugar em 2013. No ano anterior, estava na posição 130º.

Começar um negócio no Brasil demora 83,6 dias, melhor que os 107,5 dias do levantamento do ano passado, mas ainda longe dos líderes do ranking.

Em Cingapura, país que ocupa a primeira posição no levantamento deste ano, são apenas dois dias e meio. Nos EUA, o sétimo lugar, são 5,6 dias. Na América Latina, são 31,7 dias.

Em outros indicadores isolados, usados no conjunto para fazer o ranking geral, o Brasil também ocupa posições ruins. Na abertura de uma empresa, o País é o 167º, com 11,6 procedimentos necessários - em Cingapura são três e na Nova Zelândia, apenas um.

Em conseguir permissão para construção, o Brasil fica em 174º lugar, demorando, em média, 426 dias. Obter eletricidade é um dos poucos itens em que o Brasil se destaca, ocupando a 19ª posição no ranking dessa categoria.

Cingapura, pelo nono ano consecutivo na liderança, é o lugar mais fácil para se fazer negócios no mundo. Em seguida, aparecem, pela ordem, Nova Zelândia, Hong-Kong, Dinamarca e Coreia do Sul.

O último lugar ficou com a Eritreia, na África, e o penúltimo com a Líbia. Piores que o Brasil no ranking geral estão países como Haiti, Bolívia, Paquistão, Sudão, Índia, Venezuela e Argentina.

O relatório do Banco Mundial conclui que houve progressos na regulamentação pelo mundo com o objetivo de facilitar os negócios para os empresários.

"Dos países que nós medidos, em 80% as regulamentação são mais simples e fáceis para empreendedores começarem uma empresa nova ou transferirem propriedade", destaca uma das autoras do estudo, Rita Ramalho, em um vídeo entregue aos jornalistas, ressaltando que a maioria das reformas ocorreu na África.

De junho de 2013 a junho de 2014 o relatório, que cobre 189 economias em todo o mundo, documentou 230 reformas.

No Brasil, não houve reformas no ano passado até o período encerrado em junho deste ano. Pela primeira vez, o Banco Mundial passou a avaliar também as cidades de Rio e São Paulo para ver as condições de negócios.

A principal diferença é que no Rio o salário mínimo para um trabalhador em tempo integral é de US$ 484,24, maior que o de São Paulo (US$ 437,80).

Na América Latina, o país mais bem colocado passou a ser a Colômbia (34º lugar), tomando a posição do Chile (agora em 41.º). A Colômbia é citada no relatório como o país da região que mais fez reformas para incentivar os negócios das empresas menores desde 2005.

O Peru aparece em 35.º e, graças a reformas e outras medidas vem conseguindo melhorar o ambiente de negócios. Ao todo, 32 economias da América Latina implementaram pelo menos uma reforma regulatória para facilitar negócios entre junho de 2013 e junho de 2014.

"O sucesso ou o fracasso de uma economia depende de uma série de variáveis. Entre elas, muitas vezes esquecidas, estão as engrenagens que facilitam as empresas e os negócios", afirma o vice-presidente sênior e economista-chefe do Banco Mundial, Kaushik Basu. 

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

A economia devastada

O Estado de S. Paulo 
Editorial

Fracasso de ponta a ponta em seu primeiro mandato, a política econômica foi assunto secundário no primeiro discurso da presidente Dilma Rousseff logo depois de confirmada a reeleição. Numa rápida menção ao tema, ela prometeu "dar impulso às atividades econômicas", em especial à indústria. Terá de ser um impulso e tanto para desatolar a produção. A economia crescerá este ano 0,9%, se estiver correta, pelo menos desta vez, uma previsão do ministro da Fazenda, Guido Mantega (ele citou esse número na semana passada). Confirmada a projeção, terá sido um desempenho humilhante, se comparado com o de outros emergentes e até com o de alguns países avançados, como os Estados Unidos.

Nesse caso, a presidente Dilma só poderá exibir, depois dos primeiros quatro anos de mandato, um crescimento acumulado de 7,28%, com ritmo anual médio de 1,77%, um dos mais baixos em mais de um século de República.

Mas poucos são bastante otimistas para apostar nesse resultado. Na sexta-feira, dois dias antes da votação do segundo turno, a mediana das projeções do mercado financeiro estava em 0,27%. No começo do mês, o Fundo Monetário Internacional (FMI) havia anunciado sua nova estimativa de aumento do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, de 0,3%. Na América do Sul, só Argentina e Venezuela, em recessão, devem exibir números piores neste ano.

Não haverá crescimento maior que o dos últimos quatro anos sem expansão dos investimentos produtivos. Mas o setor privado continua investindo pouco, assim como o governo, e neste ano encolheram tanto a produção quanto a importação de máquinas e equipamentos. Condição essencial para o empresário investir é a confiança nas instituições e na condução da política econômica.

Essa confiança, no caso brasileiro, é tão baixa quanto aquela evidenciada pela evolução dos números do mercado de capitais. Ontem de manhã, o Ibovespa, da bolsa paulista, chegou a cair 6%, enquanto ações da Petrobrás despencavam quase 14%. Mas o impacto da reeleição pode até ser moderado, nestes primeiros dias, porque as consequências da vitória petista já estavam em parte incorporadas nos preços dos papéis.

No caso da Petrobrás, a desconfiança continua refletindo os problemas associados aos controles de preços de combustíveis, as perdas derivadas de maus investimentos, os tropeços de uma administração prejudicada pelo aparelhamento e, é claro, a percepção incompleta da extensão da pilhagem ainda sob investigação.

Má administração, agravada por decisões sujeitas a conveniências pessoais e político-partidárias, também marcou a história dos bancos estatais nos 12 anos de governo petista. Só uma cuidadosa auditoria - solução rejeitada em pronunciamentos de campanha pela presidente Dilma Rousseff - mostrará a gravidade real dos danos. Parte do quadro, incluídas algumas perdas mais visíveis do BNDES, já é conhecida.

Problema especialmente importante é a promiscuidade entre o Tesouro e os bancos federais. Além de servir a políticas mal concebidas e mal executadas de estímulo ao investimento, essa promiscuidade prejudicou a administração do orçamento. Mas também serviu, ao mesmo tempo, à famigerada contabilidade criativa das finanças públicas, por meio de manobras com dividendos.

Não haverá recuperação de confiança nem se diminuirá o risco de rebaixamento do crédito brasileiro pelas agências de classificação, sem um esforço muito claro de correção da política orçamentária. Sem isso, também será inútil qualquer discurso a respeito de combate à inflação. Com as contas públicas em desordem, sobrará apenas um instrumento - os juros elevados - para conter a expansão dos preços e conduzir a inflação à meta de 4,5% ao ano. Para 2014, projeções de mercado apontam uma taxa de 6,45%.

O emperramento da indústria e do investimento reflete-se na piora das contas externas e na perda de qualidade dos empregos criados. Nenhum desses problemas se resolve com inflação, desordem fiscal e protecionismo. Nada, nas palavras e atitudes da presidente, indica o aprendizado desses fatos.

MAIOR DA HISTÓRIA: Setor público tem déficit de R$ 25,49 bilhões

Exame.com
Mariana Branco, Agência Brasil

Marcello Casal Jr/Agência Brasil 
Este foi o quinto déficit primário consecutivo do ano 
e o pior resultado para todos os meses desde o início da série histórica

Brasília - O setor público consolidado – governos federal, estaduais e municipais e empresas estatais – apresentou déficit primário de R$ 25,491 bilhões. É o quinto déficit primário consecutivo do ano e o pior resultado para todos os meses desde o início da série histórica, em 2001.

Anteriormente, o maior déficit havia sido o de dezembro de 2008, de R$ 20,951 bilhões. Os dados foram divulgados hoje (31) pelo Banco Central (BC).

Nos nove meses do ano houve déficit de R$ 15,286 bilhões. No mesmo período do ano passado, havia superávit de R$ 44,965 bilhões.

Em 12 meses encerrados em setembro, o superávit primário do setor público ficou em R$ 31 bilhões, o correspondente a 0,61% do Produto Interno Bruto (PIB, soma das riquezas do país).

O superávit primário é a economia de recursos para pagar os juros da dívida pública e reduzir o endividamento do governo no médio e longo prazos.

Neste ano, a meta para o setor público é 1,9% do PIB. O BC considera, no Relatório de Inflação, o resultado primário estrutural, cálculo feito com base na exclusão de receitas e despesas extraordinárias.

No mês passado, o Governo Central (Tesouro, Banco Central e Previdência Social) registrou déficit primário de R$ 20,995 bilhões.

Os governos estaduais registraram déficit de R$ 3,791 bilhões e os municipais, superávit de R$ 730 milhões.

Já as empresas estatais, excluídos os grupos Petrobras e Eletrobras, registraram déficit primário de R$ 1,435 bilhão.

Em nove meses, o Governo Central registrou déficit primário de R$ 19,471 bilhões; os estaduais e municipais, respectivamente, superávit de R$ 1,494 bilhão e R$ 4,565 bilhões.