segunda-feira, junho 30, 2014

Dona Perolina do PMDB

Sebastião Nery
Tribuna da Imprensa


Imbituba, Santa Catarina, 1962, eleição para prefeito. A UDN, comandada por Álvaro Catão, dono das docas da cidade e deputado federal, tinha seu candidato. O PTB, dirigido pelo brilhante líder Doutel de Andrade, lançou Moacir Orige, candidato dos estivadores, casado com dona Perolina, agente local do IAPETEC.

A eleição ia ser decidida no distrito de Vila Nova, onde a UDN dos Catão era mais forte. Dona Perolina foi a Laguna, chamou um enfermeiro do SAMDU, alto, pretão, elegante. Meteu-lhe um jaleco branco, calça branca, sapato branco, maleta preta, estetoscópio no pescoço, entrou orgulhosa em Vila Nova:

- Chegou o médico. O doutor vai dar consulta e remédio de graça pra todo mundo. É uma colaboração do PTB para o povo de Vila Nova.

PTB
Juntou gente, dona Perolina abriu duas malas enormes, entupidas de amostras-grátis que havia conseguido em Laguna e Imbituba, estendeu uma toalha branca sobre a mesa longa e pôs os remédios em fila, por ordem alfabética: A, Aspirina. B, Beladona. C, Coristina. E assim por diante. O “médico”, de jaleco e estetoscópio, ia fazendo as consultas: – O que é que o senhor tem? – Dor no peito. – Dor no peito, letra P. Dona Perolina pegava um remédio da letra P, o homem saia. – E a senhora? – Estou passando mal do coração. – Coração, letra C. Dona Perolina pegava um remédio da letra C, a mulher saia. Ninguém piorou, muitos foram curados e o PTB ganhou as eleições.

MICHEL
Michel Temer é a dona Perolina do PMDB. Na farmácia do governo, ele tem remédio para tudo. Distribui empregos como quem aplica pomada para pereba e vai comprando correligionários. Foi assim na ultima convenção do partido. Anunciou que ganharia com mais de 80% dos votos. Saiu de lá humilhado. Não passou de 59%. Apesar de todas as pressões, cambalachos e corrupção urdidas por ele e sua turma, a oposição teve 41% e sobretudo venceu em 6 dos 7 maiores Estados: Minas, Rio, Bahia, Rio Grande do Sul, Ceará e Pernambuco. Em todos eles o PMDB não vai apoiar a chapa Dilma-Michel.

PIRRO
A convenção foi uma vitória de Pirro para o palácio do Planalto. (Pirro foi aquele rei do Épiro e da Macedônia, na Grécia, inimigo irreconciliável de Roma e dos romanos, que, depois da batalha de Heracleia, proclamou-se vitorioso apesar de perder todos os seus soldados).

Uma das lambanças foi, entre os votos apurados, os brancos, nulos e abstenções terem sido desconsiderados, omitidos, em lance de esperteza à altura da contabilidade criativa prevalecente no governo federal. Ficou claro o nível de desprestígio do vice-presidente da República, licenciado da presidência do PMDB e comprovando ter uma liderança fragilizada na condução da legenda, mal assegurando o horário de rádio e televisão para a chapa Dilma-Temer sem conseguir garantir a mobilização dos seus lideres e militantes nos maiores colégios eleitorais.

ULYSSES
Em política, não adianta a fantasia. A verdade surge das urnas. Em 1989, o exemplar Jarbas Vasconcelos, vice-presidente do PMDB, assumiu a presidência do partido com a licença do titular, o saudoso e gigante Ulysses Guimarães, lançado candidato à presidência da República, e honrou até o fim seu dever de sustentar a bandeira do partido. Ocupou a vice-presidência o bravo deputado Helio Duque, do Paraná. Eram os melhores do partido. O tempo de rádio e televisão que Ulysses tinha era mais do que o dobro do mais próximo.

Ao final da eleição, Ulysses ficou em 6º lugar, com votação constrangedora. A militância peemedebista se encaminhou majoritariamente para as candidaturas de Mário Covas e Brizola, comprovando que o tempo de mídia eletrônica não é suficiente para ganhar eleição. Voto não é pereba que se cuida com pomada, com maracutaia.

Na melhor hipótese, um filme-catástrofe

Rolf  Kuntz
O Estado de São Paulo

A presidente Dilma Rousseff parece ter-se inspirado em filmes-catástrofe para governar. Se esse for mesmo o caso, ainda há esperança: aqueles filmes terminam bem, ou pelo menos tão bem quanto possível depois de muita devastação. Mas essa, por enquanto, é só uma hipótese otimista, rejeitada por economistas do Banco Central (BC) e desmentida, até agora, pelas principais fontes oficiais de informação. As novas projeções do BC apontam inflação maior e crescimento econômico menor que os previstos em março no relatório trimestral de inflação. O desastre fiscal de maio - um rombo de R$ 10,5 bilhões nas contas primárias do governo central - confirmou a piora geral do quadro econômico. Foi o pior resultado das contas públicas neste ano, mas perfeitamente compatível com a evolução das finanças federais. De janeiro a maio, a receita líquida do governo central, R$ 412,74 bilhões, foi 6,5% maior que a de um ano antes, mas a despesa, R$ 393,58 bilhões, ficou 11,1% acima da contabilizada nos primeiros cinco meses de 2013.

Como consequência, o superávit primário, destinado ao pagamento de juros, ficou em R$ 19,16 bilhões, 42,4% abaixo do valor do mesmo período do ano anterior. Esse resultado foi equivalente a apenas 0,91% do produto interno bruto (PIB). Parece muito difícil, nesta altura, a meta fixada para o ano, um resultado primário correspondente a 1,9% do PIB. Mas a mera será alcançada, prometeu na sexta-feira o secretário do Tesouro, Arno Augustin. Ele se dispensou de dizer como esse alvo será atingido. Mas a experiência indica uma resposta muito provável: como fez em anos anteriores e nos primeiros meses deste ano, o governo federal poderá recorrer a arranjos contábeis para fechar o balanço das contas públicas.

Neste ano, até maio, a receita foi reforçada com R$ 9,01 bilhões de dividendos. Esse valor é 230,9% maior que o registrado pelo Tesouro nos mesmos meses do ano passado. Mas o arsenal de truques do governo é mais variado e o volume de receitas especiais poderá ser ampliado até o fim do ano. Mais R$ 2 bilhões já foram garantidos, há poucos dias, por meio de acordo com a Petrobrás. A empresa receberá quatro áreas do pré-sal, sem licitação, e em troca pagará ao Tesouro R$ 2 bilhões neste ano e mais R$ 13 bilhões entre 2015 e 2018.

A concessão aumenta o volume de reservas da Petrobrás e torna a exploração economicamente menos arriscada, mas impõe uma nova sangria à caixa da empresa. Os benefícios poderão surgir dentro de alguns anos, mas o sacrifício financeiro será imediato e tornará obrigatório um ajuste nos planos da companhia.

A presidente da estatal, Graça Foster, classificou o contrato como vantajoso, mas voltou a reclamar aumento de preços para a empresa cumprir a sua parte. O governo confirma, com a imposição desse contrato, a decisão de continuar usando as estatais para resolver os problemas do Tesouro, assim como vinha usando, por meio do controle de preços, para administrar os índices de inflação. Anunciada a manobra, as ações da Petrobrás caíram.

A evidente piora das finanças públicas desmente aposta mais otimista dos dirigentes e economistas do BC - a evolução das contas fiscais para uma posição de "neutralidade", isto é, sem novos efeitos inflacionários. As contas do governo refletem ao mesmo tempo a má situação dos negócios e a causa principal da estagnação da indústria - a condução inepta da política econômica. As desonerações tributárias e os favores financeiros concedidos a alguns setores - e até mesmo a algumas empresas selecionadas - produziram quase nenhum benefício ao conjunto da economia.

Estímulos bem concebidos teriam resultado em aumento da produção e em mais investimentos. Esse efeito acabaria revertendo em maior recolhimento de impostos e contribuições. Nada disso ocorreu e nada, por enquanto, indica resultados melhores em prazo razoável. Mas o governo tornou-se, de certa forma, prisioneiro dos próprios erros. Já se falava, no fim da semana, em renovação de incentivos à indústria automobilística. Mas, segundo o secretário adjunto da Receita Federal, Luiz Fernando Teixeira Nunes, a arrecadação projetada para os segundo semestre inclui a recomposição da alíquota do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) pago pelo setor automobilístico. Mesmo com esse pressuposto, ele reduziu de 3% para 2% o aumento real da receita neste ano.

O novo Relatório de Inflação do BC, um amplo balanço trimestral das condições internas e externas da economia, resume e articula os sinais mais importantes de agravamento da crise brasileira. A projeção central de crescimento econômico neste ano foi reduzida de 2% para 1,6%, mais próxima da estimativa do mercado.

No cenário básico, a inflação acumulada em 12 meses chegará a 6,4% no fim deste ano, a 5,7% em dezembro de 2015 e a 5,1% no período até o segundo trimestre de 2016. Em dois anos, isto é, dentro do horizonte de projeção do BC a inflação oficial, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), continuará, portanto, bem acima da meta, 4,5%.

O Conselho Monetário Nacional, formado pelos ministros da Fazenda e do Planejamento e pelo presidente do BC, decidiu oficialmente, nesta semana, manter esse alvo até 2016, com a margem de tolerância de dois pontos para cima ou para baixo. A meta fixada no Brasil continuará, portanto, bem acima da adotada na maior parte dos países emergentes e dos desenvolvidos.

Mas qual será a meta efetiva? Nos últimos anos, o governo tem-se contentado com números próximos de 6%. Se houver um esforço real para alcançar a meta, já haverá um progresso. A meta, simplesmente. "Centro da meta" é mistificação ou bobagem. O resto é margem de tolerância, reservada, como em outros países, para desastres. No Brasil, o fator realmente desastroso, há muitos anos, tem sido a política econômica.

Reflexões sobre a participação social

Percival Puggina

O resumo deste texto é o seguinte: para o PT, ouvir a sociedade civil significa ouvir-se a si mesmo. Afirmo-o e passo a provar. 

No dia 18 de junho realizou-se, em algum lugar do Palácio do Planalto, um encontro dirigido pelo ministro chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, com pessoas ligadas às áreas de articulação social de seu gabinete e representantes de algumas entidades vinculadas ao tema da participação social. No foco da reunião estava o Decreto Nº 8243, através do qual a presidente Dilma instituiu o Plano Nacional de Participação Social. A longa reunião, com mais de duas de duração, foi filmada e o vídeo pode ser assistido no YouTube buscando pelo título "Encontro de participação social". 

O ministro Gilberto Carvalho abriu a reunião numa fala de 15 minutos explicando seus objetivos. O que de mais significativo foi dito por ele corresponde à parte final dessa fala. Transcrevo-a literalmente a seguir. É indispensável esse trecho para que se tenha uma correta compreensão dos objetivos falaciosos e das reais intenções dos autores do referido estrupício normativo. 

Fala o ministro: 

"... Ao mesmo tempo fica evidente que há na sociedade brasileira uma mudança importante. Você tem hoje, e nós podemos chamar - e eu falo isso sem nenhum preconceito - uma posição de direita militante, coisa que nós não conhecíamos há uns anos atrás. Não tinha essa expressão tão forte como ela se dá hoje. Uma vigilância permanente por um conservadorismo muito marcado, que infelizmente tem vindo muito acompanhado de um certo ódio, de uma adjetivação absurda que se faz das posições de esquerda, mas ele está presente e se expressa de maneira muito forte, por razões óbvias, nos meios de comunicação. 

"Isso deve ser verificado por nós e deve nos estimular a provocar esse debate, a nos empenharmos nesse debate de maneira mais clara. Ou seja, está em jogo, de fato, um debate pela hegemonia política no país. Está em jogo um debate de projetos que é muito mais além do significado desse decreto. Como se expressou muito bem um jovem hoje de manhã, numa primeira reunião que fizemos sobre esse tema, esse decreto vale mais hoje pelo que ele significa do que propriamente pelo texto dele, e pelo que ele é na prática. Ele passou a ter uma significação simbólica muito além. Eu acho que a gente tem que comprar essa briga. 

"Vale a pena para nós que, de um lado significamos um governo que se pretende um governo popular, um governo que se pretende com todas as limitações progressista. Mas sobre tudo o desafio vale para a sociedade encarar esse debate. Por isso, para nós, a importância dessa conversa com vocês, nosso interesse em ouvi-los e também de combinarmos ações nessa perspectiva, do aprofundamento da democracia e do aprofundamento de um projeto que pretende, de fato, transformar a sociedade desse país numa sociedade justa, numa sociedade solidária com valores de fato da fraternidade e da justiça...". 

Escrutinando essa fala fica impossível não perceber que o decreto, anunciado pelo governo como algo que ampliará a democracia no Brasil, tem um objetivo oculto tornado visível na fala do ministro por ele responsável. Note-se que, antes mesmo de falar das reações que o ato normativo suscitou, Gilberto Carvalho apontou para a existência de uma direita militante, coisa, diz ele "que nós não conhecíamos anos atrás" e de um conservadorismo vigilante, acompanhado de certo ódio. Ora, que autoridade moral tem o PT para atribuir postura odienta a seus opositores quando sua trajetória na política foi construída insuflando e disseminando conflitos, inclusive com assassinato de reputações e emprego frequente de atos violentos? 

Mas vai além o sincericídio do ministro. Lá pelas tantas, ele afirma que "está em jogo um debate sobre a hegemonia política no país". Pronto! Caiu a máscara. Desnudou-se o rei. O que está em debate, afirma Gilberto Carvalho, é a hegemonia política (quem não sabe que é esse e só esse o jogo que interessa ao PT?). Por isso, nos termos do decreto, cabe ao governo escolher metade dos membros de seus sovietes junto a movimentos e demais órgãos da "sociedade civil" e indicar, de modo paritário, a outra metade. Nesse caso, como fica a expressiva parcela da sociedade que não aceita a hegemonia política petista? Dane-se? Vai catar coquinho? E isso é democrático? E isso é ouvir a sociedade civil? 

Resumo: democracia direta e participação social, para o PT, é algo que acontece com o partido ouvindo a si mesmo. Exatamente como se viu no Rio Grande do Sul, durante o governo de Olívio Dutra, quando o "orçamento participativo" do Estado era entregue ao Parlamento num comício petista, avermelhado de bandeiras, realizado defronte aos dois poderes, na Praça da Matriz. 


O poema das eleições.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

É fácil entender o que está acontecendo na campanha eleitoral. O PMDB apoia Dilma, dá a ela seu tempo de TV, mas o mesmo PMDB apoia Aécio e dá a ele seus principais diretórios estaduais. O PSD apoia Dilma e dá a ela seu tempo de TV, mas apoia também o peemedebista Skaf em São Paulo, continua ligado a José Serra e a quem mais aparecer procurando apoio e tendo algo (de interesse público, claro) a oferecer em troca. O PSB, que se apresenta como alternativa a PT e PSDB, apoia o PT no Rio e o PSDB em São Paulo, tem candidato próprio em Minas mas quem o apoia é só uma ala do partido, que a outra, a de Marina, não se mistura. O PP é Dilma, mas não no Rio nem no Rio Grande do Sul, onde é Aécio. Dilma, que carrega consigo Collor, Maluf e Sarney, ataca a oposição por representar o passado. A turma tucana do cartel do Metrô e dos trens metropolitanos critica o PT pelo Mensalão e pela ladroeira em geral. Eduardo achou que, aliando-se a Marina, ganharia os votos dela; Marina achou que, aliando-se a Eduardo, se beneficiaria de sua famosa habilidade política. Pois juntou-se a votação de Eduardo com a habilidade política de Marina e deu no que não deu.

Como diria o poeta, Dilma amava Collor que amava o PTB que ama Aécio que ama até o Zé Serra, desde que lhe traga votos. Eduardo Campos amou Marina que só ama o verde mas não amou apoiá-lo só pelo verde de seus olhos. Marina e Eduardo amavam Lula mas não amam Dilma que ama o Valdemar Costa Neto, ama Kassab, que a todos ama, e todos amam Lula que só ama a si mesmo.

A raiz de tudo
A nota acima é inspirada num poema de Drummond, chamado Quadrilha.

Acredite: é homenagem
Sexta-feira, dia 27, no comecinho da campanha eleitoral, com base na Lei 12.390, de 3 março de 2011, celebrou-se o Dia Nacional do Quadrilheiro.

Acredite: ele disse
Frase do ex-presidente Lula sobre a Copa, criticando a Seleção japonesa de futebol: "O Japão é um país de primeiro mundo. Mas não ganhou um jogo sequer na Copa do Mundo. O problema do Japão é que eles só pensam em educação e saúde. Se investissem também em futebol ainda estariam na Copa".

Acredite: ele confessa
Aécio Neves, candidato tucano à Presidência, comemorando a conquista do apoio do PTB, até então ligado a Dilma, revelando o que realmente pensa a respeito de seus novos aliados: "Muito mais gente já desembarcou e o governo ainda não percebeu. Vão sugar um pouco mais. E eu digo para eles: façam isso mesmo, suguem mais um pouquinho e depois venham para o nosso lado". 

Aécio não só dá esse tipo de conselho a seus companheiros como se orgulha disso.

Acredite: ele festeja
O candidato do PMDB ao Governo do Paraná, Roberto Requião, divulga alegremente por seu Twitter a informação de que recebeu um telefonema de cumprimentos de André Vargas, aquele parlamentar que se tornou tão notório que nem o PT o quis. André Vargas, segundo Requião, disse que se defenderá "com energia" dos ataques que recebe - por exemplo, pela ligação com Alberto Youssef, preso sob a acusação de lavagem de dinheiro. Vargas viajou com a família, de férias, num jatinho alugado por Youssef para ele, ao custo de US$ 100 mil. Vargas, até ser abatido em voo, queria sair para o Senado pelo PT paranaense. 

Agora, sem legenda, cumprimentou Requião com a frase "Tamo junto".

Acredite: até ele! 
Por enquanto, a coisa fica só nos comentários. Mas comenta-se muito a possibilidade de indicação do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, para a vaga de Joaquim Barbosa no Supremo Tribunal Federal. Não que o partido confie em Cardozo, a partir do momento em que tenha um cargo vitalício, à prova de represálias; mas indicá-lo traria uma vantagem óbvia, afastá-lo do Ministério.

Outros candidatos que vêm sendo citados: o advogado geral da União, Luís Adams, e o advogado Heleno Torres (que vêm sendo lembrados há tempos); e os ministros Benedito Gonçalves, Herman Benjamin, Maria Tereza Assis de Moura e Luiz Felipe Salomão, todos do Superior Tribunal de Justiça. A presidente Dilma ainda não tocou no assunto, mas imagina-se que o nome saia após a eleição.

Acredite: ela promete
A presidente Dilma Rousseff disse que está decidida a entregar a Copa do Mundo ao campeão, no Estádio do Maracanã, Rio de Janeiro. A última experiência de Dilma num estádio foi meio traumática; e o próprio presidente Lula, no Maracanã, foi vaiado pelo público. Dilma, se aparecer mesmo, vai dar uma demonstração de coragem. Lula, que é mais esperto, tem ficado longe dos estádios.

Acredite: ele pode largar o osso
Quando José Sarney chegou ao Congresso, em 1955, uma ligação interurbana podia demorar dois ou três dias, quando era completada. A Via Dutra, novinha, tinha pista única de São Paulo ao Rio. A França lançava uma novidade nos ares, o Caravelle. Pelé, adolescente, mudava-se de Bauru para Santos. A TV se expandia e chegava a Minas. 

Sarney anuncia agora sua aposentadoria. Ufa!

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O PAC do trem fantasma

O Estado de S.Paulo

Um trem fantasma circula entre Campinas e Rio de Janeiro, correndo nos trilhos imaginários do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Prometido inicialmente para este ano, o trem-bala nunca saiu da promessa, continua como um vago projeto e, assim mesmo, seu status aparece como "adequado" no 10.º balanço do PAC, apresentado na sexta-feira pela ministra do Planejamento, Míriam Belchior. Em agosto do ano passado o leilão do trem de alta velocidade, com percurso de 511 quilômetros e custo estimado de R$ 32 bilhões, foi adiado pela terceira vez. Mas oficialmente o projeto está em dia.

Bastaria essa classificação para minar a credibilidade de mais um balanço triunfal de realizações federais. Mas outros dados comprovam, mais uma vez, o baixo grau de sucesso de um programa destinado principalmente, como indica seu nome, a ampliar a capacidade de expansão da economia brasileira.

O novo relatório comprova, mais uma vez, a predominância dos gastos com habitação no mais vistoso programa do governo central. A execução orçamentária do PAC 2 até 30 de abril deste ano envolveu aplicações de R$ 871 bilhões, 84,6% do total previsto para o período 2011-2014. Os financiamentos habitacionais, R$ 285,3 bilhões, corresponderam a 32,7% do valor aplicado. Nem sequer se poderia classificar esse montante como investimento, até porque o dinheiro pode ter sido gasto, no todo ou em parte, em imóveis velhos.

Somando-se a isso as aplicações do programa Minha Casa, Minha Vida, R$ 78 bilhões, chega-se a R$ 361,6 bilhões, ou 41,7% dos R$ 871,4 bilhões comprometidos entre 2011 e o fim de abril. O resto é dividido entre os demais setores, com destaque para os de energia e de transportes.

Não há como desmentir: o PAC é essencialmente um conjunto de financiamentos e investimentos habitacionais. Os programas de moradia podem ser importantes socialmente, economicamente úteis e louváveis sob vários aspectos, mas a aceleração do crescimento, finalidade explícita do programa, depende muito mais de investimentos em infraestrutura.

Os dispêndios das estatais, R$ 231,4 bilhões desde o início do PAC 2 até 30 de abril, corresponderam a 26,6% das aplicações totais. Somados os gastos do Orçamento-Geral da União chega-se a R$ 324,2 bilhões, valor bem menor que o dedicado à habitação.

Como explicar o peso desproporcional dos gastos com habitação? A resposta provavelmente envolve a dificuldade muito maior de planejar, projetar e executar obras de estradas, ferrovias, portos, armazéns, aeroportos, centrais elétricas, sistemas de transmissão e de pesquisa, exploração e refino de petróleo.

A escassa competência do governo federal no tratamento dessas questões já foi comprovada muitas vezes, especialmente a partir do primeiro PAC. Muitos projetos emperram antes de sair do papel, ou já nas primeiras fases de execução, por descumprimento, por exemplo, dos padrões financeiros cobrados pelo Tribunal de Contas da União. Outros emperram por má administração ou mesmo por falhas escandalosas de planejamento, como, por exemplo, nos casos de centrais elétricas impedidas de funcionar por falta de linhas de transmissão.

O PAC nunca foi, de fato, mais que uma sigla usada para marketing político. Desde a primeira versão, esse nome serviu basicamente para designar uma colcha formada pela costura apenas formal de várias ações desenvolvidas, em nível federal, pela administração direta e pelas várias estatais.

Já existiam os grandes projetos do setor elétrico. O planejamento da Petrobrás, periodicamente revisto e atualizado, era parte da rotina da empresa. As necessidades do setor de transportes eram conhecidas e obras importantes estavam em execução. O PAC nada acrescentou a esse conjunto, além de um nome de fantasia e de uma bandeira de propaganda.

Esse programa - ou "programa" - teria algum valor prático se tivesse ao menos servido para introduzir maior racionalidade no planejamento federal. Nada semelhante ocorreu. Ao contrário: a qualidade gerencial decaiu, como ficou demonstrado com a desastrosa intervenção na política de tarifas de energia, com a manutenção do controle de preços da Petrobrás e com o uso das estatais para remendar as contas públicas. O resto é propaganda ruim, nem sequer enganadora.

Sobre mordidas, beijos e surubas

Ruth De Aquino
Revista ÉPOCA

Além da mordida de Suárez, que dizer das dentadas que os políticos dão uns nos outros?

As maiores zebras da Copa até agora foram protagonizadas por um herói isolado e por milhões de vilões. O herói era o uruguaio Suárez, ou “Luisito” para os íntimos. Ao abocanhar com seus dentes protuberantes o ombro do italiano Chiellini, Suárez decepcionou torcedores e patrocinadores – e foi suspenso. Logo no início da Copa, emocionou o mundo ao vencer uma contusão séria, fazer um gol decisivo contra a Inglaterra e beijar seu fisioterapeuta. Por que o ídolo Celeste vira vampiro em plena luz do dia e, assim, renuncia a si próprio, num suicídio moral diante das câmeras?

Descobrimos que Suárez é um mordedor compulsivo, que se descontrola ao ser contrariado ou provocado – e usa em campo sua arma mais evidente. Nos últimos quatro anos, meteu os dentes no pescoço de um rival e no braço de outro. Nem quero saber como se comporta em casa ou com a mulher. Em sua defesa, o capitão uruguaio Lugano disse que “futebol é paixão e contato”. Paixão e contato deveriam significar algo bem diferente. O “beijinho no ombro” do adversário rendeu ao craque suspensão por nove jogos oficiais e multa equivalente a R$ 247 mil. É uma tragédia pessoal.

Psicólogos do esporte afirmam que a dentada de Suárez revela alguém que não sabe lidar com a frustração. A mordida reincidente vai além do carrinho, da cotovelada, da rasteira e até da cabeçada – todas elas manifestações desleais e antiesportivas. Foi a terceira agressão primitiva dele. O close em vídeo é chocante. Mesmo assim, sou contra as manchetes sensacionalistas de “canibal”. Está claro que esse rapaz tem um problema e deve se tratar.

A outra zebra somos nós. Os vilões, no período que precedeu a Copa, eram o povo brasileiro. Houve tantos episódios de crueldade bárbara, tantos assassinatos com requintes de violência, domésticos ou urbanos, tantos protestos incendiários e desumanos, que todos perguntávamos, aturdidos: onde está o homem cordial do Brasil? Ele reapareceu com força total na primeira fase deste Mundial.

Os turistas estrangeiros elogiaram as belezas naturais do Brasil e foram conquistados por algo mais: o povo brasileiro, de todas as cores e todas as classes. “Fantastic people”, alegre, generoso, gentil, caloroso e atencioso – foi o que disseram de nós. Claro que os gringos não conseguem entender que o país decrete feriados mesmo sem jogo do Brasil, para evitar engarrafamentos. Um estudante de engenharia colombiano, Mario Rojas, achou ótimo: “O ambiente é maravilhoso, porque o país inteiro para na hora dos jogos”.

Especialmente no Rio, onde havia medo de insegurança, a Fan Fest na Praia de Copacabana tem sido um sucesso, um Carnaval fora de época, com azaração e beijaços entre várias nacionalidades. O sol carioca ajuda. O maior artilheiro da Copa é o povo. “As pessoas são extraordinárias e ajudam muito os visitantes”, afirmou o jornalista colombiano Jorge Ceballos. De vilões, viramos heróis...

Se somos anfitriões desse naipe, fica claro que a mordida raivosa das ruas pode ser evitada se nossa verdadeira “classe dominante” – a elite política, a burguesia do Planalto – respeitar os direitos básicos escritos na Constituição. A maioria dos brasileiros condena a violência contra o patrimônio público e privado, contra jornalistas e contra os trabalhadores. A maioria dos brasileiros também se sente desrespeitada no dia a dia.

Com a trégua do Mundial, ficou óbvio o que já sabíamos: o brasileiro prefere festa a protestos, prefere beijos a mordidas. Diante desse traço da personalidade verde-amarela, nossa classe política deveria ser mais inteligente e responsável, se não for pedir muito. Os governantes não deveriam abusar da cordialidade brasileira. Podemos ser gentis, mas não servis. Festeiros, mas não alienados. Todas as pesquisas mostram que o brasileiro não é um povo deprimido. Recuperar a confiança e o otimismo no Brasil depende muito da classe política e de sua influência no mundo real, fora da Copa.

O que esperar, se muitos deles se mordem uns aos outros com dentes gananciosos, cheirando dinheiro como a seleção de Gana? As traições entre partidos e dentro de partidos se avolumam. O objetivo é levar vantagem nessa disputa onde tudo é permitido: cotoveladas, carrinhos por trás, socos e simulações. Não há coerência ideológica nem programas partidários claros. Só marketing.

Depois da abstenção e do voto nulo, suspeito que o voto útil seja a grande estrela da eleição de 2014, porque o eleitorado sente hoje mais rejeição que paixão. O troca-troca afobado entre políticos, por interesses eleitoreiros, tem sido apelidado de suruba eleitoral. Acho uma injustiça com o termo suruba.

Urubus em dias de festa

Vinicius Torres Freire
Folha de São Paulo

Clima fica ameno no país e gelado na economia; crédito livre encolhe, confiança ainda desaba

Para quem gosta de futebol, apenas de Copa ou, no mínimo, da festa, o clima de repente pareceu mais ameno ou, pelo menos, apareceram distrações anestésicas das durezas normais da vida, que no entanto continuam as mesmas.

Ainda assim, o ar parece mais leve. Portanto, conversas sobre o estado da economia brasileira parecem sombrias como um vulto de urubu e ainda mais deslocadas do que de costume, pois ainda mais inoportunamente desagradáveis.

Não aparecem boas notícias. Embora a tendência de baixa fosse mais ou menos previsível, a queda é inesperadamente mais rápida e, pior, em parte gratuita.

Economias flutuam, têm ciclos de baixa, nos quais por vezes se purgam ou se corrigem problemas e excessos. Padecemos agora das agruras de um momento de baixa sem que estejamos ao menos corrigindo o básico, de modo que voltemos ao arroz com feijão.

O crédito que não é regulado pelo governo parara de crescer em abril. Em maio, passou a encolher, soube-se ontem, pelas estatísticas do Banco Central. Isto é, o total de dinheiro emprestado na modalidade "livre" era em maio de 2014 menor que em maio do ano passado.

O estoque de crédito, a quantidade total de dinheiro emprestada, cresce cada vez mais devagar, agora a 6% ao ano, em termos reais, apenas devido àquelas linhas em que há a mão do governo ou direcionamento legal do dinheiro. Isto é, empréstimos do BNDES, crédito imobiliário e crédito rural, além do consignado.

Ou seja, dinheiro que o governo toma emprestado e empresta para a banca estatal, que o repassa a juros subsidiados; dinheiro da caderneta de poupança, que em grande parte deve financiar imóveis; dinheiro subsidiado para a agricultura.

Em parte, portanto, o crédito ainda cresce porque o governo se endivida a juros altíssimos. Em parte, empresas mantêm empregos porque o governo se endivida, baixando impostos de modo a aumentar a rentabilidade das empresas. Como a receita do governo é insuficiente, há deficit, o governo fica no vermelho. A fim de cobrir o buraco, o governo toma dinheiro emprestado.

Além de outros equívocos de política econômica, é fácil perceber que esse esquema artificial de remendos não vai funcionar nem prestar, além de contrariar a política monetária, a do Banco Central, que eleva a taxa de juros justamente a fim de esfriar uma economia em que a inflação está além do conveniente.

O crédito dito "livre" secou; o restante, "direcionado" pelo governo, cresce de modo que não faz muito sentido.

Nas grandes metrópoles, ao menos, a massa salarial vem tendendo à estagnação. O emprego formal cresce a 60% do ritmo médio dos três primeiros anos do governo Dilma Rousseff.

A prévia do indicador de confiança do empresário industrial de junho foi ruim: caiu pelo sexto mês seguido, na pesquisa feita pela Fundação Getulio Vargas. Decerto a indústria é o setor mais avariado da economia. Mesmo assim. A indústria contamina, real ou "psicologicamente", os demais setores.

Vamos parando o carro quebrado, no meio da rua, mas no máximo vamos tentar consertá-lo com uma gambiarra, o que também não vai prestar.

Cumplicidade obscena

Cristovam Buarque 
O Globo

Incivilidade brasileira não é fenômeno só de uma tarde no estádio

A obscenidade contra a presidente da República na abertura da Copa, na frente de dois bilhões de pessoas no Mundo, devia merecer uma reflexão sobre suas causas. Mas, em vez de refletirem, os opositores comemoram o constrangimento criado, e o governo tira proveito, denunciando a grosseria.

A obscenidade foi contra todos os políticos, inclusive a presidente e seu partido, por serem iguais aos outros, depois de terem prometido ser diferentes. Foi contra a promiscuidade política e a desfaçatez dos partidos; foi um protesto contra o que ocorre na Petrobras, no metrô de São Paulo e outras corrupções; também contra a defesa dos novos corruptos alegando que os antigos também roubavam; foi manifestação de descrença na democracia da compra e venda de parlamentares, da troca de favores, do deboche de alianças inusitadas do poder pelo poder para propiciar negócios ilícitos; foi contra a violência nas ruas.

Não foi uma manifestação ideológica, porque ali estavam os beneficiados pela construção do estádio com recursos desviados de outras prioridades, como o saneamento necessário a poucos metros dali. Tampouco foi um protesto por perda de privilégios, porque os avanços sociais dos últimos governos foram feitos sem qualquer reforma estrutural, sem tocar nos beneficiados históricos do progresso brasileiro.

Nem foi um grito novo. Por 350 anos a sociedade brasileira gritou a mesma obscenidade contra milhões de negros vindos da África ou aqui nascidos para servirem como escravos; há décadas os gritos são feitos contra os pobres excluídos dos benefícios do progresso, os que usam transporte público, os que sofrem em filas nos hospitais, as crianças sem escola.

A incivilidade brasileira não é fenômeno apenas de uma tarde no estádio, é uma característica atávica da sociedade brasileira. Os gritos daquela tarde são ecos de nossa história, ouvidos há séculos no dia a dia da sociedade degradada que caracteriza nossa estrutura social, nosso padrão de distribuição de renda; nossas ruas violentas e maltratadas; nossos serviços públicos ineficientes; a corrupção no comportamento dos políticos e nas prioridades das políticas; o desprezo pela educação das crianças.

É injustificável aquela vergonhosa agressão à presidente e ao país, mas é injustificável que a presidente não reflita sobre o fato grosseiro e incivilizado, suas causas históricas e conjunturais; é triste que ela não busque explicações, não perceba sua responsabilidade, como de todos que fazemos política e lideramos o Brasil. Como é injustificável não darmos os passos necessários para orientar nosso progresso na direção de uma sociedade civilizada, sem gritos obscenos contra presidentes, políticos, escravos, pobres, crianças, doentes, desempregados, velhos...

Aqueles foram gritos de incivilidade. Não perceber isso, ou manipular o fato para tirar proveito da obscenidade, não buscar suas causas e soluções, é um gesto de cumplicidade com os que gritaram.

Imagina na campanha

Dora Kramer
O Estado de São Paulo

Quando a popularidade lhe era risonha e franca, a presidente Dilma Rousseff posava de leoa. A cada escândalo denunciado pela imprensa demitia um ministro e contabilizava o ato como lucro do governo no altar da austeridade.

Tratava o Congresso com indiferença e, a julgar pelas versões da assessoria palaciana sempre pronta a divulgar o quanto ela estava "irritada" com isso ou aquilo, lidava com a equipe na base da aspereza e da impaciência.

Agora, à medida que o sorriso da opinião pública amarela a cabeça da presidente Dilma Rousseff vai baixando e seus joelhos vão dobrando. Faz algum tempo que não se ouve mais falar que tenha ficado irritada com algo ou com alguém.

A mansidão chegou ao auge da submissão agora na fase final de fechamento das coligações concorrentes à Presidência. O PR, que havia sido envolvido em denúncias de corrupção no Ministério dos Transportes, passou a mandar na presidente.

O partido não gostou da substituição de Alfredo Nascimento por César Borges porque o escolhido por Dilma não atendia a contento os interesses dos parlamentares do PR. Dava preferência às questões do ministério.

A presidente achava que estava certo. Mas parou de achar assim que o PR endureceu e disse que não lhe daria os seus 62 segundos de tempo de televisão se ela não providenciasse a troca. Com isso, tirou-se César Borges do caminho do PR.

Acertada a aprovação do apoio a Dilma na convenção de segunda-feira, é de se supor que o partido esteja satisfeito com a parte do latifúndio da máquina pública que lhe foi reservado. Para fazer o quê? Se antes reclamava atendimento a questões particulares, para atender ao interesse público é que não deve ser.

Dúvida semelhante paira sobre o empenho (para dizer o mínimo) da cúpula do PP em arrancar à força a aprovação da aliança, sem submeter a questão aos votos dos convencionais para não correr o risco da derrota. O presidente, senador Ciro Nogueira, simplesmente avocou a decisão à Executiva e deixou o recinto sob as vaias e os gritos de "vendido" de seus correligionários.

Ora, quando um acordo com o governo se sobrepõe ao compromisso da direção com o próprio partido que por isso é obrigado a recorrer à Justiça Eleitoral em defesa do direito colegiado de escolher, algo de obscuro há para que se recorra ao "manu militari" como solução de emergência. E esse "algo" tem a digital do Estado.

A semana fechou com a revelação de que a Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República pediu ao PMDB a lista dos nomes dos prefeitos do Rio de Janeiro que estiveram no lançamento do movimento "Aezão", duas semanas atrás.

Esses prefeitos apoiam a candidatura do governador Luiz Fernando Pezão, do PMDB, para o governo do Estado e do senador Aécio Neves (PSDB) para a Presidência. Segundo o ministro das Relações Institucionais, a ideia é convidar esses prefeitos para almoçar. "É do jogo", disse ele.

Sim, do jogo eleitoral, no qual pela regra não se inclui o Palácio do Planalto. Uma coisa é o assédio partidário sobre prefeitos que tendem a migrar para o adversário. Normal. Disputa de apoio político.

Outra coisa bem diferente é um "convite para almoçar" partindo da Presidência da República, com todo o peso dos instrumentos de poder que isso lhe confere. Sem contar que o mero envio de e-mail ao PMDB com o pedido da lista para esse fim já caracteriza um ato de auxílio ao comitê de campanha da candidata à reeleição.

Se isso não se configura abuso e uso indevido do bem público, francamente, fica difícil definir o que seja. E se as coisas já estão assim nessa altura dos acontecimentos, quando a presidente, com todos os reveses, ainda está em primeiro lugar nas pesquisas, é de se imaginar do que será capaz o partido no poder para não correr o risco de perder o poder, quando de fato começar a campanha.


Nem vítimas nem algozes

Merval Pereira
O Globo 

Muito embora o plenário do Supremo tribunal Federal (STF) tenha reformado a decisão monocrática do ministro Joaquim Barbosa com relação à exigência de cumprimento de 1/6 da pena para que o condenado no regime semiaberto possa ter um trabalho externo, não aconteceu o que os militantes petistas tanto queriam, uma desmoralização do presidente demissionário, identificado por eles como um perseguidor dos mensaleiros condenados.

A começar pela manutenção da negativa de prisão domiciliar para o ex-presidente do PT José Genoino, o plenário do STF analisou as decisões de Barbosa referentes à execução das penas do processo do mensalão dando-lhe razão em alguns casos e discordando em outros, sempre ressaltando, por praticamente todos os membros, que a lei de execuções penais compreende diversas interpretações, não sendo nenhuma das decisões de Joaquim Barbosa questionável por ilegal ou despropositada.

Não há no caso nem vítimas nem algozes, como ressaltou o decano do Supremo, o ministro Celso de Mello, que fez questão de ressaltar a justeza das condenações e o caráter antidemocrático dos atos praticados pelos réus do mensalão.

O caso de Genoino se transformou em emblemática questão política, já que petistas utilizaram todos os meios para espalhar a ideia de que o ex-presidente do PT, contra o que dizem diversos laudos médicos, corre risco de vida se não for liberada sua prisão domiciliar.

O ministro Luís Roberto Barroso, que assumiu a relatoria das execuções penais com a demissão de Barbosa, desde o primeiro momento que participou do julgamento do mensalão parece constrangido em condenar Genoino, e ontem voltou a elogiá-lo. No primeiro momento, lamentou condenar um homem que participou da resistência à ditadura no Brasil, em um tempo em que isso exigia abnegação e envolvia muitos riscos .

Esse discurso elogioso provocou a reação de diversos ministros na ocasião. A Ministra Cármen Lúcia disse que o juiz, infelizmente, não julga histórias, porque as histórias às vezes são feitas de desvios que seriam impensáveis de serem praticados em outra circunstância .

Ontem, Barroso classificou Genoino de símbolo do republicanismo e do igualitarismo antes de negar o pedido para que a prisão fosse transformada em domiciliar. Mas, sem que a questão estivesse em pauta, lembrou que Genoino cumpre 1/6 da pena em dois meses, dando a entender que a partir daí poderá ir para casa.

A questão do cumprimento de 1/6 das penas para a autorização de trabalho externo suscitou uma boa discussão sobre o sistema penitenciário e demonstrou que Barbosa não estava exagerando ao interpretar ao pé da letra a exigência do Código Penal.

Celso de Mello foi o único voto a apoiar Barbosa, mas não é o único a considerar que a jurisprudência do STF deve prevalecer sobre a do STJ, que desde 1999 vem admitindo o trabalho externo sem o cumprimento mínimo da pena. Mesmo os que votaram contra a posição de Barbosa, a começar pelo relator Barroso, admitiram que a situação do sistema penitenciário é um descalabro, e que a flexibilização da lei é necessária para conviver com nossa triste realidade.

A tese vencedora foi que a razoabilidade exige interpretação mais generosa da legislação, sendo lembrado que o Rio Grande do Sul já definiu que os presos em semiaberto devem ir para prisão domiciliar por falta de vagas compatíveis com o tipo de condenação. Esse assunto será levado ao plenário do STF pelo ministro Gilmar Mendes para que haja deliberação sobre essa decisão da justiça gaúcha.

Ficou claro que o estilo centralizador e autoritário do presidente demissionário Joaquim Barbosa não é o da preferência do plenário, tanto que a execução das penas será transferida para Vara de Execuções Penais de Brasília, e não centralizada pelo novo relator.

Mas ficou evidenciado que Barbosa não abusou de seu poder nem tomou decisões sem o apoio da lei. E certamente há um pensamento majoritário na sociedade, já detectado por pesquisas: o mensalão petista só levou poderosos para a cadeia e os manteve lá pelo estilo centralizador e autoritário de Barbosa, amplamente aprovado pela população, a ponto de uma parcela representativa querê-lo como candidato à Presidência.

Orgia partidária deturpa política

O Globo
Editorial

São várias as causas do show de infidelidades, de raízes históricas e culturais a falhas de legislação. Mas tudo foi anabolizado pelo fisiologismo petista

A infidelidade partidária, tendo como pano de fundo o toma lá dá cá fisiológico, se firmou como uma das marcas registradas da política brasileira. Mas as alianças com vistas às eleições deste ano prometem atingir níveis ainda mais baixos de descompromisso com projetos efetivos de governo e poder, até mesmo em termos de cinismo com o eleitor.

O que aconteceu nos últimos dias no Rio de Janeiro, tachado com propriedade de orgia política, espelha bem o estilhaçamento do quadro partidário do país, diante de um eleitorado sem entender como adversários históricos, com desavenças que resvalaram para o plano pessoal, aparecem aos abraços para constituir palanques regionais que nada têm a ver com entendimentos nacionais. Ou vice-versa.

A adesão do ex-prefeito Cesar Maia (DEM) à chapa “Aezão”, nome fantasia criado para designar a aliança de boa parte do PMDB ao PSDB , no apoio à candidatura a presidente de Aécio Neves em dobradinha com a campanha do vice-governador Luiz Fernando Pezão ao Palácio Guanabara, significa colocar a política fluminense de cabeça para baixo. Significa dizer para o eleitorado que todo tiroteio entre Cesar Maia, Sérgio Cabral, Pezão e respectivos liderados era de mentirinha, deve ser esquecido. Tudo é muito ruim para a democracia representativa.

A deflagradora da barafunda foi a adesão do PSB, do candidato a presidente Eduardo Campos, ao PT de sua adversária Dilma Rousseff, na aproximação dos partidos para sustentar a candidatura em perigo do senador petista Lindbergh Farias ao governo do estado. Em resposta, PMDB, DEM, PSDB e PPS engordaram o “Aezão”. E estimularam o prefeito Eduardo Paes, adversário (ainda) de Cesar Maia, de quem foi pupilo, a fundar o “Dilmão”, para apoiar Dilma, sem sair do palanque de Pezão.

Na prática, desmonta-se no estado e na cidade do Rio de Janeiro uma aliança, cantada em prosa e verso nos últimos anos por Sérgio Cabral, Paes, Dilma e Lula, entre PMDB e PT, entendida como a que viabilizou uma série de investimentos na região metropolitana carioca, enfim beneficiada — era dito com insistência — pelo raro entendimento político entre estado, município e Executivo federal.

As causas desta e outras orgias que transcorrem pelo país, em ritmo frenético na contagem regressiva do prazo para a realização de convenções partidárias, são várias. Há desde a perspectiva de o poder mudar de donos em 2015, no Planalto, fator de excitação de políticos, a raízes históricas e culturais, bem como graves falhas na legislação político-eleitoral. Além do anabolizante das mazelas constituído pelas práticas petistas do fisiologismo.

Espera-se que no ano que vem, enfim, o Palácio, com ou sem Dilma, leve a sério a imperiosa necessidade de uma reforma política efetiva. Mas sem bravatas, voluntarismos, assembleias constituintes e golpismos do tipo.

"Bacanal eleitoral"

Eliane Cantanhêde
Folha de São Paulo

BRASÍLIA - Dilma reagiu no segundo tempo e emplacou o apoio oficial do Pros, do PP e do PSD e deu a alma, além dos Transportes, para segurar o PR. Trocou um baiano por outro e ficou com o PR, ou melhor, com o tempo de TV do partido.

Dilma também conseguiu uma brecha para minimizar as perdas no Rio para Aécio Neves. O prefeito Eduardo Paes (PMDB) rebelou-se contra seus múltiplos criadores, criticou a "bacanal eleitoral" e tenta mobilizar prefeitos em torno de Dilma.

A campanha da presidente registra ainda que há resistência de parte do PTB à aliança com Aécio e que o partido, independentemente da decisão da cúpula nacional, segue com o PT em um terço dos Estados.

Pode-se dizer, portanto, que Dilma tende a sair desta semana melhor do que entrou, mas isso implica enormes custos políticos, administrativos e até emocionais (ter de engolir em seco e trocar ministro sem querer...). E é só uma parte de toda a história.

Quando se fala em "apoio oficial", deve-se ter cuidado para traduzir corretamente. Significa que os partidos dão seu tempo de TV para Dilma, Aécio ou Eduardo Campos durante a propaganda eleitoral dita gratuita. Mas não, necessariamente, que esse apoio e esse tempo de TV vão converter em palanques estaduais. Muitíssimo menos, em fidelidade. Fidelidade em política? Que bicho é esse?

O PMDB deu o seu enorme tempo de TV para Dilma e ganhou em troca a manutenção de Michel Temer como vice na chapa. Enquanto isso, os pemedebistas se esbaldam nas mais variadas alianças estaduais e assumem o namoro com Aécio ou Eduardo Campos no Rio, na Bahia, no Piauí, no Rio Grande do Sul.

O PR cobra caro, o PSD é o PSD, no PP a decisão teve de ser a portas fechadas, Dilma prega a "paz", mas o Pros já chega atacando Marina Silva, e o PDT tem o Ministério do Trabalho quando o emprego formal em maio é o pior para o mês em 22 anos. Todos eles "estão", mas não "são" exatamente Dilma e PT.

Festival de pornopolítica

Nelson Motta
O Globo

Rio tem sido um cemitério de governantes, como Brizola, Moreira Franco, Garotinho, Rosinha e Sérgio Cabral, que saíram do governo como zumbis políticos

Desde que foi fundido à força pela ditadura com o Estado do Rio, em 1975, o Rio de Janeiro tem sido um cemitério de governantes, como Brizola, Moreira Franco, Garotinho, Rosinha e Sérgio Cabral, que saíram do governo como zumbis políticos. Mas o tal espírito carioca, sempre celebrado por sua irreverência, criatividade e independência, na política estadual tem produzido mais desastres do que avanços.

O espetáculo constrangedor da recente orgia partidária, protagonizado por arqui-inimigos que param de se acusar das piores baixezas e vilanias para se unir na busca do poder a qualquer preço, escancara a sem-vergonhice da cena política carioca, com a contribuição do paraibano Lindbergh Farias e do pernambucano Eduardo Campos, cuja união desmoraliza as duas candidaturas.

Uma coisa eles estão provando: têm estômago e não temem o ridículo.

O Rio de Janeiro é tão peculiar que o PT e o PSDB, que protagonizam a grande polarização nacional, aqui têm mínima expressão e reduzido poder de fogo. Além do “brizolismo de resultados” do PDT, as siglas menores se misturam e se confundem, só mudam os nomes dos candidatos. É como se essa geleia fluminense fosse um grande PMDB, como nos tempos de Chagas Freitas, ao mesmo tempo governo e oposição, marcado pelo populismo, o oportunismo e a cafajestice, mas agora com expressivo eleitorado evangélico, disputado por Garotinho e Crivella. É mole?

Apesar de toda sua importância cultural, empresarial e política, falar de partidos políticos no Rio de Janeiro nos aproxima de Alagoas e Maranhão: são bandos de interesse guiados pela melhor oportunidade, digamos que não necessariamente desonestos, mas sem nenhuma qualificação profissional ou representatividade popular.

Nesse festival de pornopolítica fluminense, que envergonha até quem apenas o testemunha, o grande vencedor é o voto branco ou nulo. Pelo menos está servindo para o eleitorado saber com quem está lidando, se é que ainda tinha alguma ilusão, e se conformar em escolher o menos pior, com os aliados menos nefastos.

Pensando melhor: em que estado o quadro é muito diferente disso?

As 'convicções' de Dilma

O Estado de S.Paulo
Editorial

Amanhã, último dia estabelecido pela legislação eleitoral para a realização de convenções partidárias destinadas a definir candidatos e deliberar sobre coligações para o pleito de 5 de outubro, estará se encerrando a mais despudorada temporada de compra e venda de minutos e segundos da propaganda eleitoral gratuita, que estará no ar a partir de 19 de agosto, jamais registrada neste país. E à afronta à Nação representada por esse vergonhoso espetáculo soma-se o cinismo de quem tem a responsabilidade maior de zelar pela seriedade na vida pública: "A política que aprendi a praticar ao longo da minha vida desde a minha juventude, que me levou inclusive à prisão, implica em construir relações que sejam baseadas não em conveniências, mas em convicções".

Dilma Rousseff permitiu-se esse cínico rompante ao discursar na convenção nacional do PSD que na quarta-feira selou o apoio à sua reeleição. Não explicou a quais "convicções" se referia, mas recomendou a todos que não aceitassem "provocações que buscam baixar o nível do debate, que buscam acirrar o antagonismo". E não deixou de se gabar das "transformações rápidas e profundas" realizadas por seu governo, garantia, no futuro, de "um ciclo ainda mais rápido e duradouro de mudanças".

Esqueceu-se, apenas, de que a divisão da Nação entre "eles" e "nós" e as campanhas de difamação dos adversários fazem parte da obra política do lulopetismo. Esqueceu-se, ainda, de que seu governo é um continuado desastre econômico-financeiro, ditado por atrasada ideologia.

Poucas horas antes, Dilma havia promovido uma transformação rápida e profunda em seu governo ao trocar o titular do Ministério dos Transportes, feudo do PR, por imposição de um aliado importante, o chefão de fato daquele partido, o mensaleiro Valdemar Costa Neto, que enviara seu ultimato diretamente do presídio da Papuda. O ministro defenestrado, César Borges, também é do PR, mas o sentenciado Costa Neto decidiu trocá-lo por entender que ele "não ajudava" o PR. É assim que Dilma governa.

Tanta "convicção" que marcou esses recentes movimentos da campanha eleitoral é o resultado de reunião de que Dilma participou na noite de terça-feira sob o comando de seu criador, com a indispensável presença do marqueteiro oficial do PT. Ouviu e cumpriu a ordem de Lula de que não é hora de contrariar aliados.

Convém repetir o que tem sido reiteradamente afirmado neste espaço: Lula e os petistas não inventaram o fisiologismo político, o toma lá dá cá na composição da base de apoio parlamentar ao governo, o aparelhamento partidário que compromete a eficiência da máquina governamental e tantas outras mazelas que corrompem a vida pública no Brasil. Na verdade, por mais de 20 anos Lula e o PT rangeram os dentes contra esses vícios, prometeram mudar "tudo isso que está aí". Em 2003 chegaram finalmente ao poder e concluíram - aliás, muito rapidamente, como prova o mensalão - que "é impossível" governar sem o apoio dos "picaretas" que, como Lula denunciara dez anos antes, infestam o Congresso. Deu no que deu.

Esse raciocínio da "impossibilidade" só faz sentido quando o pragmatismo se torna um valor fundamental. Os petistas que hoje argumentam que os fins justificam os meios - e por isso podem cultivar a incoerência e o desmando - não consideram que o fim da política é o bem comum. Seu objetivo é a manutenção do poder - e a qualquer custo, material ou moral. Mas isso tem consequências.

Em decorrência do aprimoramento das ancestrais práticas de fisiologismo político a que o PT se vem diligentemente dedicando, a falta de pudor e de coerência, a mistificação, o populismo mais rasteiro, o apego às "boquinhas", tudo, enfim, que há de mais condenável na vida pública ameaça hoje gangrenar irremediavelmente o tecido político do País, tornando o ato fundamental da cidadania, o de votar, cada vez mais um penoso exercício de escolha do menos pior.

Não se pode esperar que Lula & Cia., inebriados com as delícias do poder, reneguem seu ethos. Mas a presidente de todos os brasileiros - que diz ter "convicções" - poderia pelo menos nos poupar do cínico espetáculo que acabamos de presenciar.


O abandono de Dilma

Izabelle Torres 
Revista ISTOÉ

Diante da debandada de aliados, o Planalto recorre ao fisiologismo para evitar a implosão da aliança governista. Mesmo com o esforço, partidos da base irão rachados para a campanha

Quando Dilma Rousseff assumiu o comando do País, quase quatro anos atrás, ela reunia o apoio de 17 partidos, o que lhe assegurava votos favoráveis no painel eletrônico da Câmara de pelo menos 306 dos 513 deputados. Era a maior base aliada de um presidente em início de mandato desde a redemocratização. Às vésperas da campanha pela reeleição, o quadro de alianças nem de longe lembra aquele desfrutado pela então presidenta recém-eleita. Em queda nas pesquisas e com a popularidade em xeque, Dilma Rousseff assiste a uma debandada de partidos da sua coligação. O primeiro a pular fora da nau governista foi o PTB, que chegou a participar de um jantar no Palácio da Alvorada oferecido por Dilma e saiu de lá com a promessa de selar a aliança, mas pegou de surpresa a todos no Planalto ao anunciar o rompimento às vésperas da convenção do PT. Depois, veio o anúncio do apoio de Sérgio Cabral, aliado histórico de Dilma no Rio de Janeiro, a Aécio Neves (PSDB), principal candidato de oposição.


APOIO PELA METADE
Partidos garantem o maior tempo de tevê à candidatura de Dilma.
Mas a divisão nas legendas é irremediável, o que beneficia candidatos de oposição

Na última semana, para evitar a deserção de novas legendas, o que lhe custaria preciosos minutos na televisão durante o horário eleitoral, o governo teve de recorrer ao fisiologismo e ao velho e surrado toma lá dá cá. Só que, desta vez, Dilma precisou aprimorar o método. Para agraciar o PR, fez uma das maiores concessões a um aliado desde que assumiu o poder: trocou o comando de dois ministérios, o dos Transportes e o de Portos, setores considerados fundamentais para o andamento dos projetos de infraestrutura do governo. Com isso, César Borges deu lugar no Ministério dos Transportes a Paulo Sérgio Passos. Como compensação, assumiu a Secretaria de Portos, na vaga deixada por Antônio Henrique Silveira. Até então, Dilma resistia a promover alterações nas áreas, mas teve de ceder temendo uma defecção de partidos ainda maior e de olho no tempo de tevê durante a eleição. Contabilizados os apoios oficiais de PMDB, PR, PDT, Pros, PSD e provavelmente o do PP, Dilma terá 11 minutos e 25 segundos em cada bloco de 25 minutos na propaganda eleitoral, cerca de 45% na fatia do tempo.



Com as concessões aos aliados, o governo almejava em primeiro lugar assegurar o maior naco de tempo na televisão. Conseguiu. O outro objetivo, no entanto, que era o de contar com o apoio da máquina partidária, ou seja, com o trabalho e o esforço de prefeitos e governadores dessas legendas para reeleger Dilma, dificilmente será alcançado. O PR, por exemplo, segue dividido na campanha, uma vez que grande parte dos deputados federais promete declarar apoio a Aécio Neves (PSDB). Na prática, mesmo se rendendo ao preço imposto pela cúpula do PR, Dilma não conseguirá a adesão das lideranças regionais do partido.

O mesmo deve ocorrer no PP, cuja convenção foi conturbada e parou na Justiça. O presidente da legenda, Ciro Nogueira (PI), precisou usar o poder do cargo para atropelar a maioria dos integrantes do partido que discursava na convenção a favor do apoio ao candidato tucano Aécio Neves. Nogueira suspendeu a discussão sob ataques dos companheiros que gritavam palavras como “vendido” e “ditador”. Ainda que tenham garantido o tempo de televisão do PP a Dilma, os progressistas convivem com um racha irremediável. No Rio Grande do Sul, a candidata Ana Amélia (PP) anunciou que a decisão de dar palanque ao tucano Aécio Neves independe do diretório nacional.

A maior fonte de dor de cabeça para Dilma durante as eleições, porém, deve ser o PMDB. O cenário de provável segundo turno vem incentivando a revoada de peemedebistas da linha de frente da campanha da presidenta, mesmo com a legenda compondo formalmente a chapa presidencial. Embora tenham indicado, por decisão da maioria, o nome de Michel Temer para vice-presidente, setores expressivos do PMDB dificilmente entrarão de corpo e alma na campanha de Dilma. Há, entre as lideranças do partido, quem acredite que manter certa distância do PT é saudável para os planos futuros do próprio partido. Outros peemedebistas de peso decidiram já pelo rompimento total. Foi o caso do PMDB fluminense, que resolveu apoiar Aécio Neves (PSDB). O tucano vai subir no palanque do governador Luiz Fernando Pezão, cujo padrinho político é o ex-governador Sérgio Cabral, que já foi muito próximo da presidenta.


Os problemas do PMDB com Dilma se estendem pelo Brasil. No Rio Grande do Norte, o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, será apoiado pelo PSDB, pelo PSB e pelo PSC. Todos com candidatos próprios e opositores de Dilma. Eles serão convidados a pedir votos para Alves no Estado e o único acordo é que o presidente da Câmara não pedirá votos para eles diretamente em respeito à aliança nacional com o PT. No Paraná há outro enrosco. A candidatura da senadora Gleisi Hoffmann depende do apoio do PMDB. Mas o partido quer lançar o senador peemedebista Roberto Requião afinado com o PSB, por considerar suas chances de vitória superiores às de Gleisi.  Em São Paulo, é o vice-presidente da República, Michel Temer, quem turbina pessoalmente a candidatura de Paulo Skaf (PMDB), que vai disputar o Palácio dos Bandeirantes contra o candidato petista Alexandre Padilha.

Nos bastidores, tem sido cada vez mais difícil para a presidenta esconder o incômodo com a debandada e o racha dos aliados. Especialmente porque tudo o que Dilma não queria era se tornar refém do “toma lá dá cá” com os partidos. O que se viu com muita clareza na última semana é que nem mesmo quando cede às chantagens – e o faz negociando cargos públicos – o governo consegue o apoio esperado. Na quarta-feira 25, quando recebia adesão oficial de uma surpreendente maioria do PSD de Gilberto Kassab, a presidenta não conseguiu conter a indignação. Em entrevista, disparou contra as legendas que abandonaram seu projeto de reeleição. “Tem uma espécie de esperteza que tem vida curta. A política que aprendi a praticar ao longo da vida, desde a minha juventude, que me levou inclusive à prisão, implica construir relações que sejam baseadas, não em conveniências, mas em convicções”, disse ela. O discurso é correto. Pena que, na prática, o PT não só não abandonou como aperfeiçoou essas práticas, combatidas fervorosamente pelo partido antes de ascender ao poder.

Foto: Ailton Freitas/Ag. o Globo, Ueslei Marcelino/Photo Agência/Futura Press; José Cruz/ABR; Alan Marques/Folhapress; Ueslei Marcelino/Photo Agência/Futura Press 

Chantageada pelo PR, Dilma dobrou os joelhos

Josias de Souza


Já estava entendido que o fechamento das coligações partidárias não engrandeceria ninguém. Mas Dilma Rousseff decidiu agravar o problema. Chantageada pelo PR, a presidente dobrou os joelhos. Com isso, além de não aumentar a própria estatura, ela rebaixou o teto.

Para entregar a Dilma o seu tempo de propaganda eletrônica —coisa de 1min15s—o PR exigiu o escalpo do ministro Cesar Borges, dos Transportes. Seguindo aconselhamento de Lula e dos operadores do seu comitê eleitoral, com quem se reuniu na noite de terça, Dilma passou o pescoço do auxiliar na espada, enviando-o, rebaixado, para a Secretaria de Portos.

No lugar de Borges, Dilma acomodou Paulo Sérgio Passos, um ex-ministro dos Transportes que o PR passou a considerar menos prejudicial aos seus patrióticos interesse$. Depois desse balé de elefantes, a coerência de Dilma passou a caber numa caixa de fósforos. Muita gente será incapaz de reconhecer honestidade de propósitos em Dilma. E ela talvez seja incapaz de demostrá-la.

De resto, será difícil, muito difícil, dificílimo ouvir Dilma falando de ética e moral sem levar um sorriso ao canto dos lábios. Toda vez que a ex-gerentona vier à boca do palco para vociferar contra este ou aquele transgressor da moralidade, uma voz interior gritará para a consciência da plateia: ‘Fala sééério!

A sangria das estatais

O Estado de S.Paulo
Editorial

Incapaz de cuidar direito das próprias contas, o governo continua usando as estatais para abastecer o Tesouro e disfarçar suas más condições financeiras. Essa manobra foi usada nos últimos dois anos e continua em pauta em 2014. A melhor explicação para o novo lance, desta vez com a Petrobrás, é a evidente piora do balanço do setor público. Algo parecido ocorreu na década de 1980, quando a administração central, sem crédito na praça, usou as empresas federais como canal de financiamento. O resultado foi desastroso. Quase todas estavam em péssimo estado quando foram privatizadas. O quadro fiscal é hoje bem melhor do que naquela época, apesar da gastança e do mau uso do dinheiro público. Mas o governo, sem disposição para resolver seus problemas da maneira correta, prefere lançar mão de expedientes de baixa qualidade. Uma das saídas é recorrer às estatais para abastecer seu caixa, assim como tem recorrido à política de controle de preços e tarifas para disfarçar a inflação.

Desta vez, o sinal de alerta soou quando foi divulgado o novo arranjo com a Petrobrás - uma concessão de quatro áreas do pré-sal, sem licitação, em troca de pagamentos de R$ 2 bilhões neste ano e mais R$ 13 bilhões entre 2015 e 2018. A reação no mercado financeiro foi imediata e mais uma vez despencou o preço das ações da empresa. Em Brasília, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, negou qualquer motivação de ordem fiscal para a iniciativa do governo. Esqueceu-se, no entanto, de apresentar qualquer explicação mais convincente.

A presidente da estatal, Graça Foster, classificou como "ótima oportunidade" o contrato direto, sem disputa com outros possíveis interessados, e mencionou a redução do risco exploratório como uma das vantagens. Também se dispensou de informar por que o acordo foi proposto neste momento, de forma aparentemente improvisada, e de contar se algo semelhante estava previsto nos planos financeiros e operacionais da companhia.

A explicação mais simples e mais evidente se impõe. A curto prazo, o contrato com a Petrobrás garante ao Tesouro uma receita adicional de R$ 2 bilhões. A maior parte do dinheiro, reservada para o período até 2018, representa um pequeno seguro para o próximo governo, talvez ainda sob a chefia - esta é a aposta mais importante no Planalto - da presidente Dilma Rousseff. Os R$ 2 bilhões previstos para este ano podem parecer uma soma pequena, mas, considerando-se o tenebroso quadro das finanças públicas, serão muito bem-vindos.

Adiantar esse dinheiro será mais um sacrifício para a Petrobrás, mas atender aos interesses fiscais e político-partidários do governo já é uma rotina para a empresa. De passagem, a presidente da companhia, Graça Foster, mencionou o reajuste de preços como uma das condições para a empresa enfrentar as novas tarefas e, obviamente, os novos desembolsos.

A manobra do governo mantém a política de improvisações fiscais dos últimos anos. Em 2013, receitas extraordinárias garantiram a maior parte do superávit primário de R$ 77,07 bilhões contabilizado pelo governo central. Só as receitas de concessões e as prestações iniciais do novo Refis, o programa de parcelamento de dívidas tributárias, proporcionaram 56,9% daquele resultado. Com os dividendos, R$ 17,14 bilhões, a soma dos três itens equivaleria a 79,16% do superávit primário, o dinheiro separado para o pagamento de juros.

Neste ano, até abril, concessões e dividendos garantiram R$ 9,22 bilhões, 31% do resultado primário do período. Os bônus de concessões foram 297,4% maiores que os de um ano antes, enquanto a soma proporcionada pelos dividendos foi 716,4% superior à de janeiro a abril de 2013. Seria escárnio classificar como normal esse aumento de dividendos.

Com a economia em passo de tartaruga, a arrecadação de impostos deverá continuar fraca. Sem coragem para controlar os gastos e para podar benefícios fiscais ineficazes para o conjunto da economia, mas vantajosos para alguns setores, o governo continuará recorrendo a expedientes para ajeitar suas contas. O acordo com a Petrobrás é só mais um lance desse jogo.

Contabilidade criativa usa a Petrobras

O Globo
Editorial

Governo continua a utilizar o petróleo com fins políticos. Agora, cede mais áreas à empresa, para receber bônus e melhorar a situação do Tesouro nas eleições

É difícil acreditar que tenha sido absolutamente técnica a decisão do governo de estender as áreas hoje exploradas pela Petrobras, sob a forma de cessão onerosa, na camada do pré-sal da Bacia de Santos. Considerando-se os precedentes de uso de técnicas de contabilidade criativa para que as contas públicas atinjam os parâmetros que o próprio governo se compromete a alcançar nas diretrizes orçamentárias, é provável que tal recurso esteja sendo novamente utilizado pelas autoridades, para que no exercício de 2014 — um ano de eleições gerais — os números apareçam bem na fotografia. Afinal, a ampliação das áreas implica a transferência de recursos da estatal para o Tesouro a título de bônus de assinatura — R$ 2 bilhões, para oxigenar combalidas contas públicas.

A Petrobras alega que faz bom negócio. E, de fato, a potencialidade dos campos que vêm sendo explorados na camada do pré-sal da Bacia de Santos indica que a empresa poderá ampliar significativamente suas reservas — seria um acréscimo de 10 bilhões a 14 bilhões de barris. A justificativa técnica para a decisão do governo é que os campos da cessão onerosa estão entrando na fase de desenvolvimento, e os reservatórios contêm volumes de óleo e gás muito superiores aos previstos inicialmente.

Faria, então, sentido que a Petrobras já planejasse a instalação de equipamentos e infraestrutura prevendo aumento futuro da produção. Para que a União seja remunerada por esses volumes que deverão ser extraídos no futuro, o governo se baseou nas condições do leilão do campo de Libra (arrematado pelo único consórcio que ofereceu lance na licitação).

Mas há outras questões que devem ser observadas. A Petrobras não tem sobra de caixa. Ao contrário, a empresa já reconheceu que este ano precisará aumentar o já elevado endividamento para levar adiante seu plano de negócios. Somente a partir do próximo exercício, com o esperado aumento de produção, é que os investimentos serão financiados pela geração de caixa, sem necessidade de recorrer a mais endividamento. É o que se diz oficialmente.

Depois do leilão de Libra, a avaliação dos analistas é que a Petrobras ficou sem condições financeiras de assumir novos grandes riscos. Porém, a arquitetura financeira da transação anunciada na terça atende mais as necessidades de curto prazo do Tesouro (daí as ações da estatal terem caído com o anúncio da operação). É sintomático que Graça Foster, presidente da empresa, ao comentar a medida, tenha deixado claro que mais do que nunca a companhia precisa que os preços internos dos combustíveis sejam alinhados aos externos. Em suma, a Petrobras está transferindo para o Tesouro recursos que hoje não tem, e não há previsão, ou promessa, de que os terá.

Fica óbvio que a decisão foi muito mais política do que técnica. Ainda com outra decorrência negativa, a de representar um aprofundamento da ingerência do Estado no setor.

É o fim dos centros de pesquisa e desenvolvimento?

Lucas Amorim
Revista EXAME

O Vale do Silício inaugurou uma nova moda: em vez de gastar bilhões em inovação, é mais fácil comprar novatas inovadoras

Germano Lüders/EXAME 
Fábrica da Weg em Santa Catarina: 
em abril, a companhia comprou duas pequenas fabricantes chinesas

São Paulo - No fim de abril, a fabricante catarinense de motores Weg anunciou a inusitada aquisição de duas fabricantes chinesas de equipamentos para motores elétricos, a Sinya e a CMM. Somadas, as duas companhias faturavam pouco mais de 100 milhões de dólares, um trocado perto da receita de 6,8 bilhões de reais da Weg.

Não foi uma compra para ganhar participação de mercado nem para estrear em um novo país — a Weg já tem fábrica na China desde 2005. O objetivo era puramente tecnológico. As duas empresas são especialistas em um nicho de mercado novo para a Weg: fazem motores superpotentes para máquinas de lavar.

O nicho havia sido apontado por um comitê científico da Weg como extremamente promissor. Diante disso, a empresa tinha dois caminhos — investir três anos em pesquisas internas ou comprar uma novata que já dominasse a tecnologia.

Poderia sair mais caro, mas encurtaria o processo e reduziria os riscos. “Nosso investimento em pesquisa vai continuar em 2,5% da receita, mas vamos comprar cada vez mais pequenas empresas inovadoras”, diz Harry Schmelzer, presidente da Weg. 

Historicamente, as companhias inovadoras do mundo eram as que investiam mais em pesquisa e desenvolvimento. Grandes laboratórios e um time estrelado de cientistas costumavam ser o caminho mais curto para lançar novos medicamentos, carros elétricos, TVs de plasma, panelas de teflon, meias de lycra. Mas as coisas estão mudando.

As empresas que dominam qualquer ranking global de inovação — como Apple, Google e Facebook — continuam a contratar cientistas e a criar projetos secretos. Mas seu maior trunfo para renovar os negócios está na agressividade com que se lançam às compras.

Juntas, elas compraram mais de 100 empresas nos últimos três anos — de nanicas como a BufferBox, especializada em entregas e que custou 17 milhões de dólares ao Google, a gigantes como a empresa de mensagens WhatsApp, comprada pelo Facebook por 19 bilhões de dólares.

Em seus centros de pesquisa, os gastos foram bem mais comedidos. A Apple, tida como a companhia mais inovadora do mundo em um ranking global da consultoria Strategy& (ex-Booz&Co), investiu 3,4 bilhões de dólares em pesquisa em 2013. É um terço do que gastou a Microsoft — que não aparece entre as cinco primeiras colocadas do ranking.

Como mostra a investida da Weg na China, a estratégia de comprar mais e limitar os investimentos em pesquisa não fica restrita ao Vale do Silício nem às empresas de tecnologia. O laboratório britânico AstraZeneca, por exemplo, que faturou 25 bilhões de dólares em 2013, cortou em 16% os gastos com inovação desde 2007.

A fabricante de refrigerantes Coca-Cola comprou, em fevereiro, uma fatia da fabricante de cápsulas de bebidas Green¬ Mountain. A vantagem mais lógica dessas aquisições é encurtar caminhos.

“Como os ciclos tecnológicos estão cada vez mais curtos, quem esperar pode ficar para trás”, diz Alfredo Pinto, sócio da consultoria de estratégia Bain&Company. Outro benefício é reduzir os riscos na entrada em novos mercados.

A fabricante de aviões Embraer, por exemplo, investiu 737 milhões de reais em pesquisa e desenvolvimento em 2013. Mas, para ganhar terreno no mercado de Defesa, que não era seu foco, preferiu comprar a Atech, empresa especializada em sistemas para Defesa e mercado civil. A meta da Embraer é crescer também fora da aviação — e para isso as aquisições serão fundamentais. 

Comprar companhias novatas também é um caminho para atrair empreendedores que, tradicionalmente, não se interessam em trabalhar em grandes empresas. O maior — e mais caro — exemplo foi a recente aquisição da fabricante de fones de ouvido Beats pela Apple, por 3 bilhões de dólares em maio.

Para analistas do mercado de tecnologia, uma das explicações para o preço pago é o acordo para que o produtor musical Jimmy Iovine, cofundador da Beats, passe a liderar a área de conteúdo musical da Apple. A brasileira Totvs, fabricante de softwares de gestão, fez oito aquisições nos últimos dois anos e contratou alguns dos fundadores dessas companhias para trabalhar como executivos.

“Continuamos a contratar engenheiros e cientistas, mas um empreendedor não vem pelos meios tradicionais de seleção”, diz Laércio Cosentino, presidente da Totvs. 

Os centros de pesquisa e desenvolvimento não estão com os dias contados. A Totvs investiu 830 milhões de reais em inovação apenas nos últimos cinco anos.

E tem o compromisso com seus clientes de lançar atualizações de softwares para cada um dos dez mercados em que atua a cada dois ou três anos. Para essas inovações, chamadas de incrementais, os centros de pesquisa continuarão imbatíveis.

Para mercados em que as pesquisas não podem ser feitas por meia dúzia de nerds em uma garagem, como o farmacêutico, as grandes empresas ainda precisam fazer parte importante das pesquisas por conta própria — os caríssimos testes clínicos com pacientes, por exemplo. É o tipo de coisa que ainda não se compra.

É grátis, mas sai caro

Celso Ming
O Estado de São Paulo

Se uma área de 4.761 km², equivalente a apenas 0,055% do território brasileiro, fosse coberta com placas fotovoltaicas, o Brasil teria energia solar suficiente para suprir seu consumo anual de eletricidade. Ou, de outra forma, a Usina Hidrelétrica de Itaipu geraria o dobro da energia produzida hoje se o seu lago fosse coberto com tais painéis que convertem luz solar em eletricidade.

Os cálculos foram elaborados por Ricardo Ruther, coordenador do Grupo de Pesquisa Estratégica em Energia Solar da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC): "Claro que não são propostas nem técnica nem economicamente razoáveis. A principal vantagem da geração fotovoltaica é poder ser distribuída". Ao contrário das fontes eólica e hidráulica, por exemplo, as placas fotovoltaicas podem ser instaladas no local onde a energia será consumida. "Isso não só diminui os custos com transmissão e distribuição, como também reduz as perdas de energia a elas associadas."

O primeiro leilão específico para outorgas de geração de energia solar no Brasil está agendado para 10 de outubro.

É o tipo de energia que poderia ser gerada domesticamente, com enormes vantagens. Mas seu uso intensivo esbarra em fatores contrários, entre os quais o custo proibitivo das placas fotovoltaicas, como esta Coluna abordou no dia 15. "O cidadão não pode tirar R$ 20 mil do orçamento e esperar 10 anos para recuperar o investimento só com redução da conta de luz", afirma Adriano Moehlecke, coordenador do Núcleo de Tecnologia em Energia Solar da PUC-RS. Alemanha e Espanha estão entre os países que colocaram à disposição linhas de financiamento com juros favorecidos e prazos de carência esticados para incentivar a adesão da população (veja o gráfico). "Hoje, a Alemanha tem capacidade de geração igual a três Usinas de Itaipu instalada nas casas", diz Ruther.

Embora as placas vendidas hoje no País sejam certificadas pelo Inmetro, não há fabricantes no Brasil, o que desestimula o consumo também por falta de assistência técnica. É um círculo vicioso à procura de quem se disponha a quebrá-lo. Não há consumo porque é caro; o preço não cai porque não há consumo.

Em compensação, cresce o mercado de energia solar térmica, que usa a luz do Sol para aquecer água para chuveiros, piscinas e até para processos industriais. Os custos são significativamente menores em relação à energia fotovoltaica. Para atender uma família de quatro pessoas, sistemas de aquecimento solar custam cerca de R$ 1.700, diz Marcelo Mesquita, secretário executivo do Departamento Nacional de Aquecimento Solar da Abrava, associação representante do setor. A redução da conta de luz chega a 35%, o que proporciona retorno do investimento em até 2 anos. É uma energia que não paga impostos sobre o consumo.

A Abrava aponta crescimento médio anual de 15% na área instalada com coletores de energia solar térmica no Brasil. O avanço vem sendo impulsionado por incentivos como o adotado pelas prefeituras de Guarulhos (SP) e Capivari (SC), que concedem descontos no IPTU para imóveis dotados de aquecimento solar. Mas poderia ser muito mais. 

 Colaborou Danielle Villela