quinta-feira, janeiro 16, 2014

Vã filosofia

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

Em todas as pesquisas sobre felicidade, o francês aparece no fim da lista. Já os brasileiros aparecem nas primeiras colocações

Os franceses obviamente vivem melhor que os brasileiros. Têm mais renda, empregos bem remunerados, boas aposentadorias, saúde e escola públicas de qualidade, transporte público entre os melhores da Europa e, pois, do mundo, belas estradas. Além disso, os franceses inventaram e cultivam com cuidado e inovação algumas das melhores coisas da vida: a velha e a nova cozinha, os vinhos, os queijos, a moda e o estilo das mulheres. Em resumo: civilização, arte, cultura.

Mas em todas as pesquisas sobre felicidade pessoal — o modo como cada um percebe sua vida e seu futuro — o francês aparece no fim da lista. Declara-se infeliz e, não raro, muito infeliz. Já os brasileiros aparecem nas primeiras colocações.

Na ultima edição do Barômetro Global de Otimismo, do Ibope Inteligência em parceria com a Worldwide Independent Network of Market Research (WIN), entre os moradores de 65 países, o brasileiro aparece como o decimo mais feliz. Nada menos que 71% dos brasileiros se declararam satisfeitos com a própria vida.

É verdade que piorou um tanto. Em 2012, 81% se consideravam de bem com a vida. Mas os 71% da ultima pesquisa ainda superam a média mundial.

Aliás, houve aqui um movimento invertido. Se o número de brasileiros felizes caiu no ano passado, no mundo, a porcentagem de felicidade aumentou, de 53% para 60%.

Já na França, apenas 25% dos entrevistados se declararam felizes; 33% consideram-se infelizes; 42% nem uma coisa nem outra, o restante nem respondeu.

Pode-se dizer que a França ainda passa por uma crise longa e dolorosa, com aumento do desemprego. Mas isso ocorreu em praticamente toda a Europa e não cresceu da mesma maneira o número de infelizes.

Na Inglaterra, um país parecido com a França, tirante a comida e os vinhos, 53% se consideram felizes. Na Grécia, onde a crise foi mais devastadora, 30% dos habitantes se consideram felizes, número maior que os infelizes (23%).

E, para complicar de vez a questão, reparem nestes dados: afegãos felizes, 59%; sudaneses do Sul, 53%; palestinos em seus territórios, 20% (só aqui um número menor do que na França).

E então? Na edição especial de fim de ano, a revista “Economist” trouxe um excepcional ensaio sobre a malaise francesa. Tem a ver com a situação atual, mas pouco. Tem também algo a ver com a perda da importância global, inclusive a língua. E muito a ver com a cultura que forma e desenvolve um estado de espírito miserável.

Invertendo os termos, talvez se possa entender por que tantos países emergentes aparecem na ponta do ranking da felicidade. Além do Brasil, estão entre os dez mais animados: Colômbia (86% de moradores felizes), Arábia Saudita (80%), Argentina (78%), México (75%), Índia (74%) e Indonésia (74%).

Os emergentes, com poucas exceções, tiveram desempenho extraordinário desde o inicio deste século. Equilibraram suas economias, eliminaram velhos fantasmas, como a inflação, cresceram, ganharam renda e reduziram o número de pobres. E passaram com menores danos pela crise global justamente porque suas economias estavam com os fundamentos arrumados.

O sentimento geral é de melhora constante, o que deixa o pessoal mais animado em relação ao futuro. A vida normal nos emergentes, digamos assim, é de crescimento e melhora. Há de tudo por fazer e consumir: de metrôs a mais comida; de residências a celulares; de usinas hidrelétricas a motos. Mesmo em um ano fraco, permanece a sensação de que há muita coisa por fazer — e, pois, muitas oportunidades.

Já na Europa rica, parece que está tudo feito e que, daqui em diante, só pode piorar. O pessoal precisa se esforçar para manter o que tem e não sabe se isso é possível. Ou seja, é forte o sentimento de que se perderá algo, inevitavelmente, e que as novas gerações não serão tão ricas quanto a de seus pais.

Resumindo: nos emergentes, os habitantes estão em condições econômicas piores, mas vêm melhorando e mantêm a expectativa de melhora. Nos ricos, a sensação seria a de que a festa está acabando.

Entre os dez de mais bom astral, há apenas dois países ricos, FinIândia (com 78% de felizes) e Dinamarca (74%). Em comum: pequenas nações, pequenas populações, mais fácil de manter o padrão. Explica?

E quem são os mais felizes?

Os 88% dos 890 mil moradores das ilhas de Fiji, no Pacífico Sul. Têm um PIB per capita de 4.500 dólares, o que os classifica como pobres, numa economia dominantemente de subsistência. Passaram por uma sequência de golpes militares, o atual governo é ditadura. O lugar é lindo.

Vai saber.

O rombo e o crescimento

Celso Ming  
O Estado de S.Paulo

Persiste nas esquerdas brasileiras um keynesianismo mal-entendido, segundo o qual o equilíbrio das contas públicas é fator de atraso do crescimento econômico e da criação de empregos. Trata-se - é essa a ideia - de puxar pelas despesas públicas e utilizar ao máximo o Estado como catalisador do desenvolvimento e do emprego.

Parte da mesma síndrome é o entendimento de que a insistência no controle das finanças públicas é um valor neoliberal e não de gente identificada com a redenção da pobreza.

Outros professam uma radicalização ainda maior. A de que, a partir de certo ponto, a dívida externa não deve ser paga, pelo simples fato de que as despesas com juros foram mais do que suficientes para pagar a dívida. Nessa lógica, a partir de determinado tempo de contrato, um aluguel também não deveria mais ser pago, porque, tudo somado, o inquilino já transferiu para o proprietário o valor do imóvel.

Quando, em 2001, a Argentina passou o calote no mercado financeiro internacional, alguns economistas sugeriam que o Brasil fizesse o mesmo. Não levaram em conta o risco de perda de crédito por muitos e muitos anos, como aconteceu com a Argentina que, 12 anos depois, não consegue financiamento externo.

Segue-se a aversão às agências de classificação de risco, que tenderiam sempre a rebaixar a qualidade dos títulos de dívida dos países que mais precisam de capitais para a erradicação da pobreza.

É uma concepção deturpada do que deva ser uma política voltada para o desenvolvimento social. Quando sugeriu maior atuação do Estado, o maior economista do século 20, John Maynard Keynes, não pregava o desequilíbrio fiscal a qualquer custo e, muito menos, o aumento ilimitado das despesas correntes de um governo. Ele entendia que o Estado precisava, sim, investir mais recursos públicos em infraestrutura (e não em despesas correntes), para atuar no contraciclo e tirar uma economia da recessão.

Hoje, não só os estudos de Economia Política, como a prática de administração de uma economia nacional, demonstraram que o avanço econômico em condições de desequilíbrio das finanças públicas não pode ser sustentado. Nesses casos, a inflação se encarrega de fazer o ajuste por meio da corrosão do poder aquisitivo do trabalhador e da perda de empregos.

Além disso, um país excessivamente endividado e entregue à gastança acaba sem condições para executar suas políticas, como em certa medida ocorre agora no Brasil. O esgotamento do Tesouro impede os investimentos públicos necessários para o desenvolvimento da infraestrutura e para garantir os efeitos anticíclicos. Impõe limitações sérias às políticas de educação, saúde e segurança e desgasta o governo com sucessivas operações de apagamento de incêndios.

Isso não tem nada de ideológico. O que pode ter caráter ideológico é a ênfase dada às políticas de proteção social. Governos social-democratas buscam incentivar as práticas de bem-estar social. E governos neoliberais preferem deixar que a iniciativa privada faça a maior parte. E a população, por meio do voto, depois escolhe o que lhe parece melhor. Mas, decididamente, sem equilíbrio das contas públicas, nenhuma plataforma ideológica se mantém em pé.

É preciso melhorar ainda mais

Raul Velloso
O Globo

Ainda há muito chão a percorrer, cabendo ainda avaliar cuidadosamente a experiência dos últimos leilões

No início de 2013, ao ser avisado de que um leilão de rodovias marcado para dali a poucos dias não teria concorrentes, o governo recolheu os flapse suspendeu a realização do evento. Mais adiante, tentou retomar a agenda sem reexaminar adequadamente o assunto, e acabou enfrentando enorme desgaste — não apareceu nenhum candidato para o negócio. Haviam decorrido vários meses desde que o novo programa oficial tinha sido anunciado, o governo jogara todas as fichas nessa iniciativa para a retomada dos investimentos, e o plano parecia continuar fadado ao fracasso.

Em estudo disponível em minha página na internet (www.raulvelloso.com.br), discuti essa experiência recente com os coautores do trabalho, e alertei para os principais problemas remanescentes. Recentemente, contudo, no fim do túnel das idas e vindas das concessões na área de infraestrutura, tem surgido uma luz promissora. Tanto os leilões de rodovias como os de aeroportos começaram a ficar em pé, trazendo um certo alívio às autoridades do setor.

São indícios de que o governo pode ter começado a acordar para a necessidade de pôr a expansão dos investimentos na linha de frente das prioridades nacionais. O modelo pró-consumo dá claros sinais de esgotamento, os ganhos de preços de nossas exportações perderam força, e finalmente as autoridades parecem se dar conta de que não há como conciliar mais investimento público em áreas típicas de sua participação, como a de transportes, com gastos correntes em forte escalada ascendente. (Recorde-se que este ano será de eleições gerais, época em que o grau de racionalidade das decisões governamentais tende a diminuir consideravelmente).

A verdade é que, tanto quanto ocorre no caso dos demais serviços, não há como importar pontes, estradas, aeroportos etc. Ou seja, a infraestrutura só se expande se houver maior investimento local. E a hipótese de destinar mais recursos para transportes tem a vantagem adicional de propiciar o aumento da produtividade total dos fatores de produção, tão necessário quando a carência de investimentos é aguda. Assim, se o Estado não separa dinheiro em volume minimamente suficiente para esse fim, a única saída é leiloar concessões junto ao setor privado, por mais que o viés ideológico dominante vá na direção oposta.

Havia duas dificuldades básicas para os leilões darem certo. Uma era a baixa qualidade dos projetos oficiais, resultado da falta de prioridade conferida à área de transportes nas últimas décadas. Como leiloar serviços tão complexos como os de infraestrutura, sem um conhecimento qualificado do poder concedente sobre a matéria? Outro obstáculo era a grande confusão criada pelas autoridades, diante da ordem superior de buscar modicidade tarifária a qualquer custo. Em vez de procurar chegar às menores tarifas possíveis — que normalmente se determinam por meio de certames competitivos, a partir de tarifas-teto adequadas —, o governo estruturou leilões sob tetos extremamente reduzidos, na ilusão de que esse seria o caminho para chegar aos preços corretos. Na prática, em vez de resultarem nas menores tarifas possíveis, os tetos tarifários muito baixos acabaram simplesmente afugentando os concorrentes.

Nos últimos meses, o governo se dispôs a rediscutir as premissas dos cálculos e os próprios modelos de concessões com as partes interessadas, corrigindo vários erros que os projetos anteriores continham. Em seguida, recalculou as tarifas-teto, num processo que acabou elevando consideravelmente os valores fixados anteriormente. Diante desse novo quadro, estruturaram-se leilões bem mais competitivos, permitindo a comemoração de elevados deságios dos resultados finais em relação às novas tarifas-teto oferecidas.

Tudo resolvido com as concessões que foram aprovadas até agora? Penso que ainda há muito chão a percorrer, cabendo ainda avaliar cuidadosamente a experiência dos últimos leilões. Algo que salta aos olhos é a eliminação da exigência da apresentação de planos de negócios por parte dos concorrentes dos leilões. Como se reconhecesse o despreparo de suas equipes técnicas para analisar esses documentos, o governo prefere navegar meio às escuras ao longo da duração das concessões, o que é obviamente inadequado. Um bom plano de negócios contribui para empreendimentos de melhor qualidade, algo que serve igualmente a qualquer das partes envolvidas.

O curioso é que o BNDES, principal financiador dos projetos, vai sempre exigir em modalidades de financiamento project finance um plano de negócios de qualidade consistente. Há, por isso, o risco de que o plano levado ao banco só se viabilize financeiramente se for descartado o impacto de obrigações assumidas na proposta original, algo que seria difícil de rastrear sem a existência daquele documento. Outro absurdo seria implementar o reequilíbrio financeiro de contratos no futuro sem se dispor de forma clara dos parâmetros disponíveis apenas nos planos originais de negócios.

Mérito? Não é aqui.

J.R.Guzzo
Revista VEJA

Se os senhores brigadeiros não avaliam o mérito – e a legalidade – de seus próprios atos, que raio estão fazendo em seus postos? Estamos da Força Aérea Brasileira, santo Deus!

Velhos marinheiros dos sete mares contam até hoje, geralmente em voz baixa, a história do Flying Dutchman. Não é uma história confortável.  O Flying Dutchman, ou Holandês Voador, levantou  âncora das docas de Amsterdã em 1751, rumo a Java, e depois de uma tormenta no Cabo da Boa Esperança nunca mais foi visto; naufrágio com perda total da carga e da tripulação, publicou-se nos boletins marítimos da época.

O grande problema é que, alguns anos depois, o navio holandês foi visto outra vez, velejando a todo o pano, e leme firme, como se estivesse rumando para um lugar preciso, e com amais perfeita ordem no tombadilho; não era, de jeito nenhum, um barco que tinha afundado e depois, por algum fenômeno natural, voltado à tona.   

Outro problema, já bem maior, é que não havia nenhum ser vivo (ou morto) ali dentro. Os tripulantes do barco que tinha feito a descoberta subiram a bordo e minutos depois, aterrorizados, chisparam de volta ao seu navio e sumiram no horizonte.  Desde então a lenda insiste que o Flying Dutchman continua aparecendo nos oceanos, sempre em noites de tempestade; é a famosa “nau sem rumo”. Foi cometida a bordo, explicam velhos marujos, alguma abominação prodigiosa,tão horrível que nem o demônio tem coragem de tocar no assunto. Tudo o que se sabe é que o navio foi amaldiçoado – e a alma de seus tripulantes condenada a navegar eternamente pelo mar sem fim. 

E se em lugar de Flying Dutcman falassem de “um país chamado Brasil”? Em 1º de janeiro de 2003, sob o comando do almirante de esquadra Lula da Silva, ele levantou ferros do Lago Paranoá falando em vencer mares nunca dantes navegados e em edificar um novo reino social.  Hoje, onze anos após a partida e já sob o comando da imediata Dilma Rousseff, a nau continua a procurar o reino que tinha prometido. Ao contrário do barco holandês, o navio brasiliense está abarrotado de gente:  só de ministros são quase quarenta, e contando os subs, mais os subs dos subs, a coisa vai na faixa dos milhares de tripulantes. Mas está na cara que os fantasmas do Flying Dudtchman levam o barco muito melhor que os humanos de Dilma; pelo menos sabem o que estão fazendo. 

Já o nosso navio – bem, é certo que algo deu fabulosamente errado com ele. Não navega para lugar nenhum. A tripulação não sabe distinguir proa de popa, e acha que o contrário de bombordo é mau bordo. A nau não perdeu o rumo – na verdade, nunca chegou a saber que rumo era esse. 

Como poderia saber alguma coisa, se a esta altura da viagem o presidente dói Senado, Renan Calheiros, ainda requisita um avião militar para levá-lo de Brasília ao Recife, onde foi implantar 10 000 fios de cabelo numa clínica para carecas?  O problema, é óbvio, não está em Renan: ele é assim mesmo. O problema é quem manda nos aviões – a cadeia de comando da Aeronáutica, que só em 2013 já deixou o senador lhe passar a perna duas vezes.  Nesta última,  foi ao extremo de soltar uma nota oficial dizendo que não iria avaliar “o mérito” da viagem, e que sua função se limita a fornecer “a aeronave” solicitada.  Como assim? Se os senhores brigadeiros não avaliam o mérito – e a legalidade – de seus próprios atos, que raio estão fazendo nos seus postos? Estamos falando da Força Aérea Brasileira, santo Deus. 

A lei diz que os aviões da FAB só podem ser utilizados por autoridades em atos de serviço, questões de segurança e emergência médica. Em qual caso se encaixariam, aí, os 10 000 fios de cabelo do senador?   A lei diz também que desrespeitar essa norma é “infração administrativa grave”, passível  de punições “civis e  penais”. O comandante da FAB que serviu de piloto particular para Renan poderia perfeitamente ter pedido ao senador, com toda a educação, que lhe fizesse uma curta descrição por escrito, assinada embaixo, contando que serviço iria fazer no Recife – “mera formalidade, doutor, só isso”. Por que não agiu assim? Porque tem certeza, como toda a tripulação, de que está numa nau sem rumo onde cumprir a regra só dá confusão. 

O navio Brasil está precisando de muita coisa. Uma delas é um oficial macho, que tenha entre os seus valores a decência comum, e que um belo dia diga algo assim: “Sinto muito, Excelência, mas a lei me impede de atender à sua solicitação”. Iríamos ver, aí, quem entre os seus superiores hierárquicos teria a coragem de prendê-lo por “insubordinação”, enquanto sua Excelência ficaria livre, contando vantagem do tipo “comigo ninguém brinca”.  Nesse dia abrirá falência o Táxi Aéreo FAB – e nosso navio, talvez, comece a encontrar seu rumo.  

Os filhos das trevas

Percival Puggina

O ideal totalitário que ainda hoje assombra a América é o comunista. Ele está ativo e exerce poder pelo voto em mais de uma dezena de países que, aos poucos, são afastados da democracia e seus valores. No poder ou fora dele, os principais adversários que essa esquerda desvairada pretende eliminar são sempre os mesmos: a instituição familiar conforme a ordem natural, as Igrejas cristãs tradicionais e a católica em particular, e as Forças Armadas. O caso do Brasil, exemplo diretamente sob nossos olhos, é clara evidência do que afirmo. 

São antagonismos facilmente explicáveis. Quem pretenda subverter determinada ordem para impor outra (como exige o ideal totalitário) precisa, essencialmente, destruir as estruturas através das quais se reproduzem, nos indivíduos, os valores que lhe deem consistência. As três estruturas mencionadas acima - Família, Igreja e Forças Armadas - são como pilares, vigas e lajes de uma sociedade. Daí a persistência dos ataques que lhes são dirigidos. O ideal totalitário investe contra a instituição familiar por dois flancos. Num deles, tenta fazer da família uma coisa qualquer. No outro, busca transformar uma coisa qualquer em família. Os inimigos da Igreja não querem apenas eliminar qualquer expressão externa de sua existência. Querem, principalmente, como se a ordem jus-política prescindisse de um fundamento moral, eliminar a influência dos valores cristãos na moral social e, por via de consequência, no ordenamento jurídico dos povos. A nova ordem que os fascina precisa de uma moral sem fundamentos. 

As Forças Armadas, armadas e fortes, por vocação e formação de seus quadros, são exemplo social de ordem e disciplina a serviço da segurança e da paz. É visível o empenho do governo e seu partido em vilipendiá-las, em lhes suprimir recursos humanos, financeiros e materiais. Trata-se de conduta não oficial, mas efetiva, dos que desfilam sua bazófia e arrogância pelo país, como se proprietários dele fossem todos os seus ocasionais dirigentes e militantes. O grupo hoje instalado no poder, que perdeu o confronto com as Forças Armadas nos anos 60 e 70, vai à forra usando o aparelho do Estado. No entanto, em que pese todo o mal que lhes podem fazer e fazem, todas as mentiras que a respeito delas podem repetir e repetem, o povo brasileiro preserva as Forças Armadas como a segunda entre as 18 instituições mais confiáveis do país (a primeira, por motivos óbvios, é o Corpo de Bombeiros). As FFAA contam com a confiança de 66% da sociedade segundo o Índice de Confiança Social medido em 2013 pelo Ibope. Imagino o quanto deve ser difícil para quem há mais de meio século vem tentando desmoralizar as Forças Armadas, ver seus próprios líderes sendo presos e a sociedade dedicando aos silenciosos militares brasileiros o merecido respeito e confiança. 

Retorno ao ponto inicial. Vociferam incessantemente contra as convicções cristãs. Contra elas põem nas ruas as trupes de pelados, as vadias que se requebram com símbolos sacros, seus projetos de aborto, suas cartilhas e paradas gays, e outras tantas frentes de combate. Embora façam tudo isso e muito mais, as Igrejas persistem em terceiro lugar entre as instituições mais confiáveis segundo o sentimento nacional. 

"E quanto à instituição familiar, o terceiro alvo preferencial do ideal totalitário?", indagará o leitor. Pois é. No universo da pesquisa (que também envolve as relações individuais/sociais dos entrevistados), a boa e velha família dispara em primeiríssimo plano, contando com a confiança de 90% das pessoas. 

Alegrou-me conhecer esses dados. Eles me permitiram confrontar o empenho dos adeptos do ideal totalitário com os resultados até agora colhidos na sua tarefa de demolição. Mesmo sem revides, mesmo contando com a indiferença de tantos, mesmo que "... os filhos das trevas sejam mais astutos que os filhos da luz" (Lc 16,8), ainda há muito espaço para resistência. 


Valem quanto pesam

Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

Alguém está ouvindo ou vendo algum partido brigar pelo Ministério da Cultura, pela pasta de Assuntos Estratégicos, por um lugar ao sol no Desenvolvimento Agrário ou na Previdência e seus inúmeros problemas?

Não, os postos disputados nas negociações que a presidente Dilma Rousseff abre esta semana para formatar a dita reforma ministerial - que de reformuladora não tem nada - são os comandos da Integração Nacional, dos Transportes e do Ministério das Cidades. Já, já detalharemos os motivos.

Partindo da premissa de que estamos todos bem crescidos para saber que a discussão não envolve o aprimoramento das políticas públicas nem a melhoria do desempenho de cada um desses setores. O critério é só um: o que os partidos podem fazer pela reeleição da presidente e o que os ministérios podem dar em troca aos partidos.

Não está, contudo, muito clara para a maioria, e vale a pena esmiuçar, a motivação do toma lá dá cá. Quais as vantagens objetivas que rendem de parte a parte essas transações?

Por que para a presidente é tão importante acomodar partido x ou y na equipe? Para atraí-los a uma coalizão oficial e com isso assegurar maior tempo na propaganda de rádio e televisão; para impedir que esse tempo vá para a oposição; para com uma base ampla de apoio criar um clima político favorável.

Por que para os partidos é vantajoso ocupar um ministério mesmo durante poucos meses? Primeiro, depende do ministério. Os três citados acima como os mais disputados reúnem as condições ideais.

Eles têm dinheiro, instrumentos para liberação de recursos para prefeituras (excelentes cabos eleitorais para deputados que, por sua vez, se empenham para eleger governadores e presidente), obras a serem realizadas e contato com potenciais financiadores de campanha, principalmente empreiteiras.

Trata-se, em suma, de manuseio de interesses partidários com vista a incrementar as condições eleitorais de cada um, fundadas em dois pilares: dinheiro e visibilidade.

A presidente poderá optar por soluções "técnicas", nomeando os secretários executivos para o lugar dos ministros que serão candidatos? Em tese sim. O então presidente Lula fez isso em 2010.

Mas na época ele não era candidato, estava com a popularidade nas alturas e o PIB de quase 8% de crescimento ao ano. Dilma está em situação diferente, que a posiciona desfavoravelmente em relação aos partidos. Em português claro, terá de ceder. Ou se arriscar.

Andança. 
O novo líder do PSDB na Câmara Federal, Antonio Imbassahy, está se preparando para assumir o posto em fevereiro ciente de que os movimentos da bancada terão como referência a candidatura presidencial de Aécio Neves.

Imbassahy fez uma rodada pelo País a fim de conferir as possibilidades de aliança. A última semana passou no Rio de Janeiro para conversar com gente do grupo que sustenta o programa a ser apresentado pela área econômica.

Dos contatos políticos saiu com as seguintes impressões: a despeito da resistência do grupo de Marina Silva, haveria espaço em São Paulo para um acordo com PSB em torno da candidatura ao Senado; no Nordeste há jogo favorável na Bahia, no Ceará (ambos em parceria com o PMDB), no Piauí e no Maranhão em acerto com o candidato Flávio Dino, do PC do B.

No Estado dominado pelo clã Sarney os tucanos contam com a armadilha em que está preso o PT nacional. Diante do monumental desgaste da família, nem Lula nem Dilma poderão aparecer por lá sem risco de contágio. Como são cobrados por lealdade aos Sarney (em 2010 a candidata do PT teve 80% dos votos maranhenses), tampouco têm salvo-conduto para liberar o apoio dos petistas a Flávio Dino.

Por que não falar a verdade, ministro?

Gustavo Ioschpe
Revista VEJA


Em dezembro, foram divulgados os resultados do Pisa, o mais importante teste de qualidade da educação do mundo, realizado a cada três anos com alunos de 15 anos. Como vem ocorrendo desde a primeira edição, no ano 2000, os resultados do Brasil foram péssimos. Ficamos em 58º lugar em matemática, 59º em ciências e  55º em leitura, entre os 65 países que participaram.  Caímos no ranking nas três áreas, em relação à prova anterior. Como já havia acontecido em edições passadas, nem nossa elite se salvou: os 25% mais ricos entre os alunos brasileiros tiveram desempenho pior que os 25% mais pobres dos países desenvolvidos (437 pontos versus 452 pontos em matemática).

A Alemanha, assim como o Brasil, também participa do Pisa desde 2000. Quando os resultados daquele ano foram divulgados, os alemães descobriram que o país de Goethe, Hegel e Weber tinha ficado em 21º lugar entre os 31 participantes daquela edição, abaixo da média dos países da OCDE. Os dados caíram como uma bomba. A presidente da Comissão de Educação do Parlamento alemão disse que os resultados eram uma “tragédia para a educação alemã”. A Der Spiegel,  a mais importante revista do país, refletiu a tragédia com a seguinte manchete de capa: “Os alunos alemães são burros?”. O alvoroço levou inclusive à criação de um game show na TV alemã.

No dia do anúncio dos resultados da última edição do Pisa, a reação brasileira foi bem diferente. Nosso ministro da Educação, Aloizio Mercadante,  convocou uma coletiva de imprensa para declarar que o Pisa era uma “grande vitória” da educação brasileira e um sinal de que “estamos no caminho certo (rumo ao fundo do poço?). Recorreu à mesma cantilena de seu antecessor Fernando Haddad: “A foto é ruim, mas o filme é muito bom”. Ou seja, a situação atual ainda não é boa, mas o que importa é a evolução dos resultados. E nesse quesito Mercadante fez um corte bastante particular dos resultados (focando apenas matemática, e só de 2003 para cá) para afirmar que o Brasil era “o primeiro aluno da sala”, o país que mais havia evoluído. Sem mencionar, é claro, que evoluímos tanto porque partimos de uma base baixíssima. Quando se parte de quase nada, qualquer pitoco é um salto enorme.

Essas reações são tão previsíveis que escrevi um artigo, disponível em VEJA.com, um dia antes da fala do ministro, não só prevendo o teor da resposta como até o recurso à sétima arte (todos os links disponíveis em twitter.com/gioschpe). Mas, apesar de esperada, a resposta do ministro me causa perplexidade e espanto. Ela é muito negativa para o futuro da educação brasileira. 

Eis o motivo da minha perplexidade: Mercadante e seu MEC não administram as escolas em que estudam nossos alunos de 15 anos. Dos mais de 50 milhões de estudantes de nossa educação básica, mero 0,5% está na rede federal. No Brasil, a responsabilidade por alunos do ensino médio é fundamentalmente de estados (85% da matrícula) e da iniciativa privada (13%). O MEC administra as universidades federais e cria alguns balizamentos para a educação básica, além de pilotar programas de reforço orçamentário para questões como transporte e merenda escolar , entre outras funções. A tarefa de construir as escolas, contratar e treinar os professores e estruturar o sistema é dos estados. No ensino fundamental, dos  municípios. Portanto, os resultados do Pisa não representam um atestado de incompetência   do Ministério da Educação. A maior parte da responsabilidade está certamente com estados e municípios. 

 Além do mais, a tolerância do brasileiro para indicadores medíocres na área educacional é sabida e, ao contrário da Alemanha em 2000, não havia nenhuma expectativa de que tivéssemos um desempenho estelar no Pisa. Por que, então, o ministro não pode vir a público e dizer a verdade que nossa situação é desastrosa, e que enquanto não melhorarmos a qualidade do nosso ensino continuaremos a chafurdar no pântano do subdesenvolvimento e da desigualdade?  Não haveria custo político para Mercadante nem para o PT, já que o problema da nossa educação  vem antes da era lulista, e estados administrados por partidos de oposição tiveram resultados tão ruins quanto os da situação. Até entendo que seu antecessor se valesse patacoada, pois teve uma gestão sofrível e era um neófito político em busca de divulgação, mas Mercadante já é um político consagrado e está fazendo uma boa gestão, a melhor da era petista: não precisa disso. 

Você está “nervosinho”?

Ruth de Aquino
Revista ÉPOCA

Na construção de um Brasil mais justo, consciente e ético, há críticos de todas as colorações

O ano de eleição e Copa começa com um aquecimento brutal dos ânimos e das temperaturas. O nervosismo nada tem a ver com ideologia, mas com o contínuo desrespeito à cidadania e aos direitos humanos. E com o assalto impune aos cofres públicos. Tem a ver com o deboche de sonsos poderosos que dão desculpa esfarrapada e nos tratam como otários. Erra quem insiste em rotular esse debate de um confronto entre direita e esquerda. Na construção de um Brasil mais justo, mais consciente e mais ético, há críticos de todas as colorações. À exceção do alvissareiro desemprego a apenas 4,6%, eis três motivos para ficar nervosinho na virada de ano.

1. O IOF sobre compras no exterior em cartão pré-pago. O governo meteu escandalosamente a mão no bolso do turista. Com essa conversa fiada de “equiparar imposto do cartão de débito ao de crédito” em compras no exterior, começa a “argentinização” de nosso consumo. É perigoso. Os argentinos fazem de tudo para driblar o cerco fiscal de Cristina Kirchner a seu direito sagrado de lazer e se livrar do dólar paralelo. Eles precisam comprovar renda e ter nas mãos o bilhete de viagem para comprar dólar oficial – e, mesmo assim, o governo limita. No Brasil, a alta do IOF de 0,38% para 6,38% nos cartões pré-pagos pune sobretudo a nova classe média. E provoca uma procura recorde por dinheiro vivo para viajar. Resultado: o dólar turismo chegou, no Rio, a R$ 2,52, na quinta-feira. E por que tudo isso? O ministro calminho Guido Mantega explica: “Os gastos com cartão de turistas brasileiros estavam muito elevados lá fora”. É de lascar. Antigamente, comprava-se pouco no exterior porque tudo era mais caro lá. Podíamos ser nacionalistas no consumo. Hoje, compra-se mais no exterior porque nossos preços estão absurdamente altos e com qualidade bem mais baixa. O ministro Mantega agora promete: “Não vamos estender o IOF para compra de moeda estrangeira”. Deixou todo mundo nervosinho com essa declaração. O mercado e os consumidores.

2. O Maranhão do clã Sarney. Sabemos que Roseana teve uma grande escola em casa. Mas criticar a divulgação do vídeo com a barbárie no presídio de Pedrinhas e dizer que a violência nas ruas de São Luís se deve ao aumento da população porque o “Estado está mais rico”... É demais. Será que a governadora acha que o índice de analfabetismo funcional no resto do país é o mesmo do Estado que ela governa, sempre na rabeira do IDH nos quesitos sociais? “O Maranhão está indo muito bem”, diz Roseana, seguindo fielmente as aulas do pai José Sarney. “Nosso sistema de saúde é muito bom para os presos.” Para os decapitados, os mutilados ou os que fazem suas necessidades uns sobre os outros? Roseana detesta que se fale em clã. “Não existe família. Eu sou a governadora. Quem manda aqui não é a família, sou eu.” Que se decrete então uma intervenção exemplar no Maranhão de Roseana. Não só nos presídios horrendos, mas nas escolas que condenam as novas gerações à inaptidão. Uma apuração rigorosa das contas de Roseana também seria útil, para saber onde toda essa riqueza do Maranhão foi investida. A governadora suspendeu, por enquanto, a licitação para as geladeiras oficiais. Seu cardápio incluía 80 quilos de lagosta fresca, 2 toneladas e meia de camarões frescos grandes com cabeça, 120 quilos de bacalhau do Porto, quase 1 tonelada de sorvete em oito sabores... E por aí vai. Roseana deixa os maranhenses nervosinhos.

3. O amadorismo do Brasil em planejamento, prazos, fiscalização e punição. Esse amadorismo leva cidadãos, contribuintes e eleitores a descrer do sistema e a imitar péssimos exemplos. Ser o país que mais atrasou uma Copa do Mundo... não ter chegado sequer à metade das obras nos estádios das cidades sedes... não ter conseguido melhorar a maioria dos aeroportos... o vexame deixa todo mundo nervosinho. Enfrentar falta de luz e de água num verão escaldante deixa o brasileiro nervosinho. Ver a Baía de Guanabara, as praias e as lagoas com manchas imensas de poluição e cheiro insuportável de esgoto, num Estado que investiu em saneamento apenas 16,8% dos recursos em 2013, deixa os cariocas nervosinhos. Ver em São Paulo a deterioração dos serviços públicos e a proliferação de acampamentos de sem-teto, como o Nova Palestina, na Zona Sul da capital, com 8 mil famílias e lista de espera, deixa os paulistanos nervosinhos. Ver um presidente do Senado pegar um jatinho da FAB para implantar cabelo... e depois achar que resolve tudo devolvendo parte do dinheiro, sem pedir desculpas e fingindo-se de desinformado, deixa o eleitor bem mais do que nervosinho. A descompostura e a impunidade de Renan Calheiros deixam o eleitor irado. Entra ano, sai ano, e o herdeiro político de Sarney não aprende. Ou é a gente que não aprende?

O Governo é um fingidor.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Dilma já pensa na reforma do Ministério. Os novos ministros serão escolhidos para aumentar eficiência do Governo, reduzir custos, trazer novas ideias? Imagine! Dilma quer aumentar seu tempo de TV, tirar o tempo dos adversários, trazer mais partidos para apoiá-la. Competência? Imagine! Quem tem Gleisi, Mantega e Gastão Vieira no Ministério não está preocupada com este pequeno detalhe.

Alckmin já pensa na reforma do Secretariado. Os novos secretários serão escolhidos para aumentar a eficiência do Governo, reduzir custos, trazer novas ideias? Imagine! Quer aumentar seu tempo de TV, tirar o tempo dos adversários, trazer mais partidos para apoiá-lo. Competência? Imagine! José Aníbal, que queria que as empresas jamais desligassem os geradores, continua no cargo.

Nomes novos? Dilma pensa em Josué Gomes da Silva, empresário de prestígio (Coteminas, vice-presidência da Fiesp). Para levar ao Governo sua experiência administrativa? Imagine! Para mostrar aos empresários que não é hostil a eles (portanto, podem apoiá-la, podem contribuir para a campanha, podem conversar). Alckmin acena com a vice para o PSB. Para mostrar uma oscilação à esquerda, sinalizar uma possível aliança no segundo turno com Eduardo Campos? Imagine! Para ganhar o tempo de TV dos socialistas e, evitando que lancem candidato, facilitar sua reeleição no primeiro turno. Até Walter Feldman, a quem detesta, aceitaria como vice. 

E o eleitor? Não esqueça de Justo Veríssimo, o imortal personagem político criado por Chico Anysio: quem é esse tal de eleitor?

Finge tão completamente
Gleisi Hoffmann - que gestora! Seu principal assessor, Eduardo Gaievsky, apontado como coordenador de sua campanha ao Governo do Paraná, está preso, respondendo a 38 acusações de estupro, coação de menores, favorecimento à prostituição e uso de cargos públicos para obter benefícios pessoais. Gleisi, claro, não sabia de nada; e só sai porque é candidata. 

Ideli Salvatti foi ministra da Pesca, não aconteceu nada; virou ministra das Relações Institucionais, e chegaram a pedir que fosse substituída pelo gentil e habilidoso Aloízio Mercadante. Foi derrotada dentro do PT, e sua candidatura ao Senado foi arquivada. Como não tem para onde ir, fica no Governo - talvez em outro cargo, se conseguirem encontrar algum ainda menos importante. 

Guido Mantega, às vésperas do Fórum Econômico Mundial, onde deve conversar sobre economia brasileira com líderes internacionais, tirou férias, que ninguém é de ferro. Mantega, é evidente, fica.

Que se diz trabalhador
Alckmin tem três secretários, Édson Aparecido, Rodrigo Garcia e José Aníbal, contra os quais houve denúncias de tolerância com o cartel do metrô e dos trens metropolitanos. Na época de Itamar Franco, seu maior amigo, Henrique Hargreaves, sofreu acusações muito menos graves. Hargreaves deixou o Governo para que não houvesse dúvida sobre as investigações. Comprovada sua inocência, voltou ao cargo. Por isso, muita gente fala mal de Itamar, mas ninguém jamais questionou sua honradez. Já os secretários acusados, se deixarem os cargos, será para disputar eleições. É claro que não poderiam esperar o resultado das investigações estaduais. 

Ninguém é eterno. E a base de apoio de Alckmin não permite sequer a instalação de uma CPI para examinar o uso do dinheiro público. 

Mas só quer ferrar a gente
Eta, aproveitamento mais mambembe dos clássicos versos de Fernando Pessoa! Mas que é que não seja mambembe se pode dizer dos governantes brasileiros? Mais uma vez os pagamentos do INSS foram reajustados abaixo da inflação - 5,56%, contra inflação oficial de 5,91%. A perda dos aposentados é de 0,35%. Pouca coisa? Então, por que o reajuste não foi pouca coisa maior, de 6,26%?

As desculpas oficiais só valem quando é para arder no lombo do cidadão?

Pedrinhas no caminho
Um grupo de senadores visitou o presídio de Pedrinhas, em São Luís, notável pelos massacres e decapitações e pela ausência absoluta de ação do Governo maranhense. Está certo: era essencial mostrar que o Congresso está preocupado com a conquista e anexação, por bandidos, de parte do território nacional. Esteve lá também o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo - aquele que disse que o sistema presidiário brasileiro é medieval, como se seu partido não tivesse nada com isso, depois de doze anos no poder. 

Pena que nenhuma das Excelências tenha conseguido tempo para visitar a família da menina de seis anos que morreu depois que bandidos lhe atearam fogo. Esquecimento, certamente.

Sejamos justos
É muita maldade culpar o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, pela tragédia dos presídios do Maranhão. 

Ele não fez nada!

A desculpa se repete
A explicação da Sabesp, estatal paulista de águas e esgotos, sobre a multa que lhe foi imposta pela falta dágua no Guarujá, não passa pelo teste de desculpa requentada. Há dez anos, a Sabesp já punha a culpa pelas falhas da estação de tratamento de esgotos de São Sebastião nas "oscilações da rede elétrica". A Bandeirantes Energia negava, a Sabesp reafirmava. 

Continua reafirmando até hoje.

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Mulher de malandro decidirá eleição

Guilherme Fiuza
Revista ÉPOCA

O eleitorado diz que quer mudança, mas pretende reeleger Dilma. É puro chavismo

O Brasil está fazendo tudo certo para se tornar, em 2014, um país pior. Segundo uma pesquisa Datafolha, 66% dos brasileiros querem mudanças no governo. É um dado novo e expressivo. Parece mostrar que a população enfim percebeu como é governada, descobriu o engodo administrativo que avacalha as contas públicas brasileiras. E como o Brasil quer mudar esse estado de coisas? Elegendo Dilma Rousseff no primeiro turno. É o que dizem o Datafolha e todos os institutos de pesquisa. Ou seja: o eleitorado brasileiro concorre ao troféu mulher de malandro 2014.

E esse eleitorado que quer mudanças no governo tem uma carta na manga. É um não candidato, mas que, se entrar no páreo, torna-se o único nome nacional capaz de derrotar Dilma: Lula. Como se vê, o Brasil quer mudar mesmo.

Esse fenômeno tem uma explicação muito simples, que os cientistas políticos negam desesperadamente, numa espécie de otimismo avestruz. O fenômeno se chama chavismo. É ele, e só ele, que explica o paradoxo da insatisfação com o governo versus apoio eleitoral ao governo. A colossal propaganda populista do petismo conseguiu dissociar nome e pessoa, conseguiu inventar o binômio do crioulo doido – administração desastrosa e governantes bonzinhos. E a culpa não é dos parasitas do PT. Eles estão no papel deles. Fazem o que sabem fazer: parasitar. A culpa é do povo. Resta apenas escolher qual a parte pior do povo: a que não enxerga ou a que faz vista grossa.

Recentemente, Dilma declarou que o IBGE faria a revisão do PIB de 2012, para cima. Antecipou que o índice de crescimento daquele ano passaria de 0,9% para 1,5% – um aumento expressivo e surpreendente. A notícia repercutiu forte, apesar do mal-estar com o fato de a presidente da República ter vazado uma informação do IBGE, uma falta grave na política de sigilo dos dados do instituto. Teoricamente, Dilma nem poderia saber daquele índice – justamente para que não haja tráfico político de estatísticas. Mas o mal-estar seria duplo.

Não bastasse o vazamento, o informante dela estava mal informado. A revisão do PIB foi de 0,9% para 1%, quase nula. Os chavistas venezuelanos e argentinos são mais eficazes na manipulação dos índices que seus governos destroem.

Esses 66% de brasileiros que sentem a inflação morder seus calcanhares não notam nada disso. Deveriam estar olhando para o outro lado quando o governo bateu cabeça em público, para o mundo inteiro ver, discutindo a melhor forma de abafar os preços dos combustíveis – para mascarar a inflação febril dos preços livres, encostando em 10% ao ano. É um imenso contingente de brasileiros divididos entre os que não veem e os que fingem que não veem a demagogia tarifária arrebentando a Petrobras e as elétricas. Assim é o chavismo: a realidade é o que o governo bonzinho diz.

Dizem que haverá nova série de manifestações durante a Copa do Mundo. Entre as pautas dos protestos estará, provavelmente, o reajuste das passagens de ônibus – porque a mentira bondosa da manutenção dos preços das passagens não poderá durar mais muito tempo. E aí já se sabe, pelo nível de esclarecimento dessa geração de manifestantes e seus amigos black blocs, que teremos mais um capítulo da já famosa Primavera Burra brasileira: quebradeira geral e risco zero para os amigos de José Dirceu que comandam o carnaval no Planalto.

O Brasil não se importou de ver um ministro da Educação panfletário e negligente usando o cargo para virar prefeito de São Paulo. Não se importa de ver um ministro da Saúde em comício permanente para ganhar o governo do Estado de São Paulo – segundo Lula, seu mentor, para tirar “os conservadores” do poder. Eles usarão para sempre a bandeira de revolucionários oprimidos, mesmo já sendo os donos quase absolutos do aparelho de Estado. Enquanto colar, está valendo – e o mensaleiro Delúbio poderá se autodenominar preso político, sem que isso seja uma piada. O Brasil não se importa que o ministro da Justiça, aquele que gritou contra o regime fechado para os mensaleiros, remeta ao Ministério Público um relatório pirata incriminando adversários políticos.

Quem acha que isso não é chavismo que vote em Dilma pela mudança. Basta de conservadorismo.

Quem é progressista?

Denis Lerrer Rosenfield
O Estado de S.Paulo

Já se tornou lugar-comum considerar progressista uma pessoa de esquerda, como se houvesse equivalência entre esses termos. Tais ideólogos se atribuem uma imagem que esperam ser acatada por todos, como se os cidadãos fossem tolos para aceitar outro embuste. E todos os que não aceitam esse dogma são considerados de "direita", conservadores e reacionários, como se compartilhar esse credo fosse uma premissa básica de qualquer discussão. Ou seja, os ditos progressistas exigem de seus oponentes a submissão prévia à sua crença, a aceitação de sua religiosidade política. Qualquer contestação desses fundamentos conduz ao opróbrio e à heresia.

Há uma espécie de reconforto moral que repousa na indigência intelectual. Basta a recusa do pensamento que se satisfaz com esse tipo de lugar-comum, que, por sua vez, se satisfaz com as invectivas contra o capitalismo e seus males, e daí surgem todas as diatribes contra o lucro e o egoísmo. Tomemos este último termo para melhor percebermos a perversão ideológica. O que é, na verdade, o egoísmo senão um nome que significa a satisfação dos desejos de cada um, de seus interesses particulares ou, mais genericamente, o amor que a pessoa tem por si mesmo? O que há de errado nisso? Pretendem que uma pessoa não realize seu desejo, não satisfaça seus interesses particulares, açoite-se para se exibir contra o egoísmo?

Marx já dizia que a verdade de uma ideia é a sua realização prática, sem o que teríamos utopias vazias e, pior, de concretização possível. Ora, só podemos julgar a validade do socialismo por sua realização na História. Se olharmos para a História, constataremos como realizações socialistas, "progressistas", a aniquilação da liberdade de escolha como a maior de suas façanhas, passando por uma noção bizarra de cidadania que torna todos os indivíduos súditos do Estado. O interesse coletivo, do estatal, impõe-se, então, como forma de correção do "egoísmo", levando, como se sabe, aos campos de reeducação - na verdade, campos de eliminação dos que se recusavam a essa política liberticida.

São famosos os campos de reeducação de Pol Pot, no Camboja, que resultaram no assassinato coletivo de 50% da população do país sob a égide comunista - campos desse tipo se tornaram famosos no livro Arquipélago Gulag, de Alexander Soljenitsyn. O mesmo ocorreu na China sob o maoismo, com, segundo cálculos preliminares, entre 60 milhões e 70 milhões de pessoas mortas.

O mais curioso nisso tudo é que a realização das ideias de esquerda levou até mesmo à proibição de sindicatos, pois, pelo dogma socialista, os "trabalhadores" estariam no poder e, portanto, não precisavam de ninguém para representá-los. Legislação e Justiça trabalhista tampouco seriam necessárias, porque não haveria conflitos a serem equacionados. O caminho estava, assim, aberto ao arbítrio e à tirania do Estado.

Enquanto isso, a sociedade do egoísmo, do lucro e do livre mercado foi equacionando seus conflitos e contradições, criando formas de proteção efetiva dos trabalhadores, conferindo-lhes direitos. O capitalismo, que no dizer dos "progressistas" seria a fonte de todos os males, tornou-se, na História da humanidade, o regime que melhor soube recriar-se, emergindo sempre novo de suas crises. Nas palavras de Schumpeter, o capitalismo caracteriza-se pela "destruição criadora". Poderíamos acrescentar: e o socialismo, pela "destruição aniquiladora".

O capitalismo é o regime que melhor soube extrair as potencialidades da natureza humana, tomada em suas imperfeições constitutivas. Parte do ser humano enquanto desejante e, por isso mesmo, estabelece formas de mediação de conflitos e de preservação dos direitos dos outros. Nascerão de todo esse trabalho de mediação as condições de preservação dos contratos e a criação de um Judiciário independente, capaz de fazer vigorar a universalidade e a impessoalidade das leis.

A satisfação do desejo de cada um, a realização do egoísmo e do amor próprio, deverá passar necessariamente pelo respeito aos desejos e ao egoísmo alheios, dando lugar a todo um sistema de direitos baseado na livre escolha individual. Só o capitalismo foi capaz de erigir um sistema legal e constitucional com base, no nível político, no equilíbrio de poderes entres as instâncias do Executivo, do Legislativo e do Judiciário; e, no nível individual, em regras igualmente válidas para todos.

Eis por que no capitalismo foi erigido todo um conjunto de normas visando a assegurar a liberdade sindical e de organização partidária. Como ninguém encarna a verdade e o bem, não havendo partido que se diga, no exercício do poder, a personificação da virtude revolucionária, todos se devem acomodar a um jogo de pressão e contrapressão no nível sindical e, no nível político, em propostas que tenham como finalidade captar o voto dos cidadãos em nome de uma certa representação do bem comum.

Considerando que nas sociedades capitalistas todos devem ter um mínimo assegurado, foram desenvolvidas formas de atendimento de saúde e de assistência social visando, precisamente, a garantir esse mínimo. Em alguns países capitalistas desenvolvidos foi a saúde pública a criação mais adequada e, em outros, formas de contribuição individual a partir das disponibilidades de cada um, partindo do pressuposto do trabalho de todos. Note-se que nos países de saúde pública esta é real, o que não é o caso da propaganda socialista, como em Cuba, cujos hospitais carecem até de antibióticos. A única exceção são os hospitais para os camaradas comunistas, a Nomenclatura, que usufrui privilégios inacessíveis à população em geral.

Poderíamos seguir com o auxílio-desemprego, limites de horas de trabalho, e assim por diante. Os benefícios do capitalismo são socialmente palpáveis. Contudo a esquerda tupiniquim segue vendendo ilusões. Lá onde elas foram compradas pelo valor de face, como no socialismo real, o cortejo de desgraças foi o seu resultado.

No Brasil, ajustes precisam ser feitos “agora ou nunca”

Carla Jiménez 
El País

Sem correção de desequilíbrios, apontam especialistas, crescimento de 3,7% em 2016, previsto pela instituição, é impossível

O ritmo de “devagar e sempre” da economia brasileira vai se manter neste ano, segundo o relatório do Banco Mundial, que prevê um crescimento “modesto, mas consistente”, de 2,4% do PIB em 2014, e de 2,7% em 2015. Surpreende, entretanto, o otimismo da instituição  com o futuro do país, ao descrever que o Brasil sairá desse resultado neste ano, “acelerando para 3,7% em 2016”. A melhora das exportações, assim como do consumo interno, viriam a colaborar para esse resultado.

 A projeção é vista com cautela por economistas, num momento em que o país debate a falta de ajustes na política econômica do Governo Dilma. “Só vejo esse crescimento (de 3,7%) num governo de Eduardo Campos ou de Aécio Neves”, diz Sérgio Vale, economista da MB Associados, em referência aos adversários políticos da presidenta Rousseff na corrida eleitoral deste ano. Campos é o potencial candidato do PSB, e Neves, do PSDB. “Rousseff sinalizou que não há preocupação concreta com a inflação e faltou firmeza nas concessões, criando um processo de desconfiança do investidor”, diz Vale.

 Luís Suzigan, economista da LCA, acredita que o Brasil tem sim potencial para crescer entre 3,5% e 4% na segunda metade desta década, mas para alcançar esse resultado é preciso ajustar desequilíbrios decorrentes de mudanças no ambientel global, “mas também associados a algumas barbeiragens no âmbito interno”, que demandam ações do governo para evitar retrocessos. “A situação fiscal é o que mais preocupa. Os ajustes não precisam ser draconianos, como os que foram implementados recentemente na Europa, por exemplo, mas precisam dar maior consistência ao manejo das políticas publicas a longo prazo, revigorando a confiança corporativo”, explica Suzigan. O investimento privado, fundamental para garantir o crescimento, tem se mantido pouco abaixo dos 20% do PIB nos últimos anos, o que faz o país depender de investimentos estrangeiros, e públicos. Ele lembra que os países latinos que centraram esforços em reformas do gênero, como o Peru, o Chile e a Colômbia, vão preservar taxas de crescimento mais vistosas.

Para Suzigan, o ajuste monetário no Brasil – marcado pela alta de juro - com vistas a manter a inflação em xeque, já parece próximo de se completar. Nesta quarta-feira, o Banco Central brasileiro deve aumentar, uma vez mais, a taxa Selic, hoje em 10%, exatamente para domar o dragão inflacionário, e criar um “escudo” para a volatilidade que se instala com o fim dos incentivos monetários nos Estados Unidos. Já o ajuste fiscal, que prevê gastos públicos austeros, deve ser mais cauteloso do que o necessário neste ano, em função do calendário eleitoral. “Este é um elemento de risco para os próximos anos”, observa.

Vale, da MB Associados, lembra que em anos eleitorais como o de 2014 no Brasil, os gastos públicos sobem e pressionam o índice inflacionário, que em 2013 fechou em 5,91%, perto do teto da meta estabelecida pelo BC, de 6,5%. “Para chegar ao centro da meta, de 4,5%, os juros precisariam estar em 14%”, afirma. Uma taxa nesse patamar, em todo caso, viria a arrefecer a inflação, mas também o consumo e o investimento, e retardaria a expansão da economia.

 Agricultura
 O Banco Mundial prevê, ainda, que países emergentes, como o Brasil, devem sentir o impacto da redução dos preços das commodities, que estiveram em alta até 2011. Para Anderson Galvão, sócio da Célere Consultoria, especializada em commodities, esta é uma realidade que vale para matérias-primas não alimentícias, como algodão, celulose, ou borracha, mas não para as alimentícias, como soja ou trigo, que ainda têm um ciclo de alta favorável no médio prazo. “Ainda há demanda firme em economias emergentes, que estão comendo cada vez melhor, e aumentam, inclusive, o custo de produção, o que aumenta o preço”, diz Galvão.

O crescimento de 3,7%, acredita, é factível porque a melhora do ambiente em economias mais ricas beneficia o Brasil, e ainda há mudanças em curso no país, como as concessões no setor de logística, capazes de sustentar um crescimento da produção. Ele cita, por exemplo, a concessão feita no ano passado de trechos da rodovia BR-163, que corta o cinturão agrícola do sul ao norte do país. “Somente no Pará, o desenvolvimento dessa rodovia é capaz de ampliar em até 700 mil hectares áreas que são subaproveitadas, do ponto de vista agrícola”, explica. “Todas as cidades que vivem de agricultura no Brasil estão fervilhando e sofrendo com problemas como a falta de mão de obra.”

A indústria, porém, que em tese deveria ocupar um lugar mais destacado no PIB, continua patinando. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o setor industrial cresceu 1,1% em 12 meses, no acumulado até novembro de 2013. Para a economista Lídia Goldenstein, a indústria brasileiras perderam espaço em função da recessão no exterior, mas também pela sua própria falta de competitividade. “Não fizemos nossa lição de casa, não investimos em inovação para ganhar um diferencial competitivo. Isso me deixa pessimista, pois mostra mostra que nossa indústria não está pronta para uma eventual retomada da economia global”, afirma. Mesmo a perspectiva de abertura por meio de acordos comerciais, como o que está sendo discutido com a União Europeia, não se sustentam sem investir onde interessa, avalia. “Pode fazer quantos acordos quiser. Se não houver uma indústria moderna, não tenho mercado no mundo atual.”

Copom surpreende e aumenta juros em 0,5% para 10,5% ao ano

João Pedro Caleiro
Exame.com

Primeira reunião do Copom no ano decide por alta de 0,5%, acima do que esperava o mercado

Marcelo Camargo/ Agência Brasil

São Paulo – A primeira reunião de 2014 do Copom (Comite de Política Monetária) do Banco Central decidiu por um aumento de 0,5% da taxa Selic, que foi de 10% para 10,5% ao ano.

A alta veio acima do que estava sendo antecipado pelos relatórios de instituições como o banco HSBC e a Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).

É o sétimo aumento seguido da Selic. O ciclo de altas começou em março do ano passado, quando a taxa estava em 7,25% - a mais baixa da história.

A inflação de dezembro, divulgada na semana passada, teve a maior alta mensal em 10 anos: 0,92%, o que empurrou a taxa de 2013 para 5,91%.

A decisão de hoje foi unânime e sem viés. A ata será divulgada na próxima quinta-feira, 23 de janeiro, e a próxima reunião está marcada para os dias 25 e 26 de fevereiro.

Os juros de 10,5% colocam o Brasil na primeira posição entre os maiores pagadores de juros reais do mundo.



Brasil continua o maior pagador de juros reais do mundo

João Pedro Caleiro 
Exame.com

Alta da Selic de 0,5% faz com que o Brasil continue liderando o ranking global de juros reais (descontada a inflação)

Getty Images 
Moedas de Real: país é primeiro em juros reais e terceiro em juros nominais

São Paulo - Com o aumento de 0,5% na taxa Selic, anunciado na noite desta quarta-feira pelo Banco Central, o Brasil continua o maior pagador de juros reais do mundo.

O país está na liderança desde outubro do ano passado. O levantamento com 40 países é feito todo mês pelo site MoneYou.

A média geral caiu de -0,3% na edição anterior para -0,6% este mês.

No ranking de juros nominais, o Brasil é o terceiro colocado, atrás apenas de Venezuela (15,36%) e Argentina (15,31%) 

Veja a seguir o ranking mundial de juros reais (taxas de juros descontada a inflação dos últimos 12 meses), entre os 15 países com maiores taxas:

País
Juros reais
·         Brasil
4,33%
·         Argentina
4,32%
·         China
3,41%
·         Hungria
2,59%
·         Grécia
1,98%
·         Polônia
1,89%
·         Taiwan
1,54%
·         Índia
1,50%
·         Chile
1,46%
·         Coreia do Sul
1,38%
·         Colômbia
1,29%
·         Suécia
0,65%
·         Tailândia
0,57%
·         Austrália
0,29%
Média geral mundial:
-0,6%

Poupança fica ainda menos vantajosa com Selic aos 10,5%

Priscila Yazbek
Exame.com

Com Selic aos 10,50% aplicações atreladas à taxa ganham ainda mais vantagem sobre a poupança e o Tesouro Direto se mostra a melhor opção

MorgueFile/cohdra 
Calculadora e lápis: Com rendimento sempre igual com a Selic 
acima dos 8,5%, poupança perde sua vantagem

São Paulo - Com a nova alta da Selic, que passou aos 10,50% ao ano, aplicações atreladas à taxa básica de juros - como CDBs pós-fixados, fundos DI e as Letras Financeiras do Tesouro (LFT), títulos do Tesouro Nacional - ampliaram ainda mais sua vantagem sobre a poupança. 

Enquanto o rendimento da poupança não muda depois que a Selic atinge os 8,50% ao ano, as remunerações dessas outras aplicações vão aumentando conforme os juros básicos são elevados. 

Veja na tabela a seguir a comparação do rendimento da poupança e de alguns dos investimentos atrelados à Selic que são mais acessíveis ao investidor pessoa física. 

Aplicação
Rendimento líquido anual
Quanto rende a mais que a poupança
·         Poupança (nova e velha)*
6,55%
--
·         CDB 90% do CDI
7,53%
14,96%
·         Fundo DI com taxa de 1,0% a.a.
7,60%
16,03%
·         Tesouro Direto (LFT)**
8,14%
24,27%

(*) Com a Selic acima de 8,5% ao ano, a poupança  volta a render 0,5% ao mês mais Taxa Referencial 
(TR), conforme a regra antiga. Na tabela, foi considerada uma TR de 0,03% ao mês, que é a TR média 
dos últimos 30 dias, segundo consulta feita na Calculadora do Cidadão do Banco Central.

**Rendimento da LFT sem a cobrança de taxa de administração.

Mesmo que a poupança não sofra desconto de imposto de renda e os outros investimentos sofram, com a Selic aos 10,50% a remuneração dessas outras aplicações atreladas à taxa fica tão superior à da caderneta que compensa a tributação até mesmo em prazos menores, quando as alíquotas de IR são mais altas.

Tesouro Direto é a melhor opção para investidores conservadores
As Letras Financeiras do Tesouro (LFT), títulos do Tesouro Nacional que acompanham a variação da Selic, atualmente aparecem como a melhor opção de investimento para quem é mais conservador. 

Como a compra do título pode ser feita por meio de corretoras que não cobram taxa de administração, seu rendimento supera o de outros investimentos que flutuam ao sabor da Selic e do CDI, taxa próxima à Selic.

E mesmo que o investimento seja feito por meio de uma corretora que cobra taxa de administração, se a taxa for de até 1,50% ao ano, ainda assim a LFT renderá mais que a poupança em qualquer prazo.

Fundos DI
Os fundos DI também ficaram mais rentáveis com a Selic maior. Se for considerado um fundo que rende 100% do CDI, tal como o simulado na tabela, ele só não renderá mais que a poupança se for cobrada uma taxa de administração igual ou maior que 1,90% ao ano. 

Mas, para que o fundo DI seja uma opção melhor do que o investimento em uma LFT (por meio de uma corretora que não cobra taxa), a taxa de administração do fundo teria que ser menor do que 0,30% ao ano, condição dificilmente encontrada para quem investe pequenas quantias. 

CDBs
Os Certificados de Depósito Bancário (CDB), títulos de dívidas que os bancos emitem para captar recursos, também podem ser uma boa opção de investimento para quem é conservador. 

Com a Selic aos 10,25%, qualquer CDB que pague pelo menos 82% do CDI, uma remuneração facilmente encontrada no mercado, já supera a poupança. 

E se o CDB pagar mais que 97% do CDI ele se torna a melhor opção dentre as aplicações da tabela, superando inclusive as LFTs. Ocorre que, essa remuneração não costuma ser oferecida por bancos grandes para investimentos inferiores 500 mil reais, apenas por bancos médios.

Sendo assim, o investidor deve avaliar se aceita correr o risco de investir nessas instituições que podem ser menos sólidas para ter um retorno maior. E em caso afirmativo, recomenda-se investir menos do que 250 mil reais, porque até esse limite, caso o banco quebre, o prejuízo é reembolsado pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC).