terça-feira, janeiro 21, 2014

Um gigante de costas para o futuro.

Adelson Elias Vasconcellos



Vimos nesta edição que o índice de desemprego foi maior do que o oficial, segundo informou o IBGE. Seria este, talvez, o único bastião sobre o qual se alicerçava a marra de um governo medíocre em todos os sentidos. Sempre que confrontado com os péssimos indicadores de seu governo, a senhora Rousseff, de forma cínica,  apontava para o desemprego.  

Porém, conforme já demonstramos aqui, nem mesmo o índice superior a 7,0 % pode ser levado a sério. Claro, trata-se de um critério de medição, mas impossível 0s 61 milhões de pessoas que desistiram de procurar emprego. 

Sabemos que, pelo menos, 50% da população do país encontra-se em idade economicamente ativa. Isto daria entre 90 a 100 milhões de pessoas. E, no entanto, o número de brasileiros empregados não passa de 24 milhões, ou seja, um quarto da população apta para o trabalho. Também conforme o IBGE, 61 milhões de brasileiros desistiram de procurar emprego. E ainda temos, segundo estimativa, cerca de 1/5 dos jovens entre 18 e 29 anos que simplesmente não trabalham e nem estudam. 

Por outro lado, 50 milhões de brasileiros são, de alguma forma,  dependentes exclusivos de programas ditos sociais, portanto, ou não tem renda própria ou vivem de bicos.   

Assim, vê-se que, numa população de cerca de 200 milhões de pessoas, apenas 12% são trabalhadores. O resto ou depende de programas assistencialistas, ou depende da renda daqueles 12%. E, ainda segundo o IBGE, informa a Folha, mais de 61 milhões de brasileiros não trabalham nem procuram emprego. 

Diante deste quadro absurdo, é impossível   o país sair do marasmo em que se encontra, bem como não há razões nem para comemorar a falácia do pleno emprego tampouco dar-se algum crédito à mistificação da tal nova classe média. 

Assim, caindo por terra o tal baluarte da virtude  de que se ufana a senhora Rousseff, o tal pleno emprego, o que resta  para esta senhora comemorar em seu governo?  

Poderia comemorar alguma coisa no plano econômico? De jeito nenhum é possível  localizar uma única área em que este governo consegue ir além da mediocridade. Todos os indicadores econômicos passíveis de mensuração e comparação, bateram recordes negativos históricos de ineficiência. E o quadro só não se mostra pior por conta dos esqueletos empurrados para o prego do Tesouro Nacional, tal como o custo da tal “redução da tarifa de energias elétrica”. 

Sobra a agropecuária, coitadinha, tão demonizada pelas esquerdas, MST’s e congêneres, ONGs picaretas – existem milhares -, ambientalistas de todos os matizes e ecoterroristas. E, no entanto, graças a ela o país respira melhor, com comida farta e barata, exportações crescentes, agroindústria gerando emprego e renda. E, apesar de suas virtudes, cada vez mais se quer expulsar os agropecuaristas do campo. Até aqui souberam resistir. Mas por quanto tempo?

Na contramão, contudo, vai a indústria que, nos últimos anos não só fechou muitas portas, como ainda não consegue ver sua produção crescer, no lado do emprego fecharam-se mais 1 milhão de postos de trabalhos, e cada ano esta importante avenida de progresso e desenvolvimento, vê reduzir-se no PIB nacional.

Dentre as estatais, tirando-se as inúteis criadas pelos governos petistas e que só servem para empregar os vagabundos de sua militância política e sindical, o resto é um poço sem fundo de descaminhos, da qual tanto a Eletrobrás quanto a Petrobrás são, quiçá, suas maiores vítimas.  A estatal do petróleo, por sinal, e em plena era do pré-sal, lança um programa de demissão voluntária para reduzir sua folha em cerca de 8,5 mil postos de trabalho. O mesmo caminho já havia seguido a Eletrobrás para dispensar cerca de 5 mil trabalhadores.

Não pode um país, cujo governo aumenta seus gastos em termos reais acima da inflação e do crescimento do próprio PIB ao longo de uma década,  manter-se na vanguarda do desenvolvimento.  Dilma Rousseff pode comemorar ter atravessado seu mandato inteiro com inflação fora de controle e crescimento abaixo da média mundial, incluindo-se aí até países mergulhados em crise profunda. 

Portanto, muitas são as perguntas que se podem fazer ao governo da senhora Rousseff, mas muito poucas ou quase nada se pode obter de respostas positivas. Talvez tenhamos sido um dos primeiros a apontar-lhes os erros e um dos poucos que lhe indicou opções a tomar antes mesmo de assumir. Dada a herança maldita herdada de Lula,  Dilma teria que escolher entre o projeto de poder de seu partido, e deixar de lado a eficiência,  ou esquecer aquele projeto de poder, e dedicar-se a uma correção pesada de rumos, visando tirar o país do seu marasmo eterno. 

Olhando-se para os indicadores econômicos de quando Dilma assumiu, e para os que ela vai entregar ao final deste mandato, não há dúvida de que regredimos em todos os aspectos.   

Os serviços públicos, por exemplo, não apenas se deterioraram ainda mais, mas nem a maquiagem tentada com o tal “Mais Médicos” foi capaz de encobrir a incompetência generalizada. Aliás, o programa só existe para colorir a propaganda maquiavélica e enganosa e enviar dinheiro do contribuinte brasileiro para financiar a ditadura cubana. No campo da segurança pública, a criminalidade disseminou-se em todas as direções e, a exceção de São Paulo, se mostra crescente principalmente nos estados do Nordeste.  Direitos Humanos? É piada, e de muito mau gosto. Apenas os humanos amigos do reino podem ter direitos preservados e garantidos. Os demais são apenas contribuintes tolos, tratados como massa de manobra. O diabo é que se trata da grande maioria da população. 

Na infraestrutura, o atraso é brutal. Mas este é  um governo que não investe em portos brasileiros, por exemplo, mas   abre a carteira do BNDES para financiar um terminal portuário moderno em Cuba e agora mira outro no Uruguai.  As estradas estão no estado que todos conhecem, mas este é um governo generoso que financia a construção de uma rodovia na Bolívia, que atravessará a maior região produtora de coca do continente. 

É um governo valente para peitar os Estados Unidos, suspendendo até uma visita oficial da presidente aquele país. Mas covarde o suficiente para ser humilhado por Bolívia que nos tomou na mão grande uma refinaria da Petrobrás, sem falar do comércio com a Argentina cuja presidente Cristina Kirchner faz o que bem entende e o governo brasileiro se ajoelha submisso. 

Na saúde, coitado de quem precisar de atendimento na rede pública. Muitos só conseguem internação graças a ordens judiciais. Outros morrem na fila a espera da simples marcação de um exame laboratorial. Outros, e não são poucos, morrem em macas improvisadas nos corredores a espera de um milagre. 

Como se vê, a senhora Rousseff,  que sequer é dona de seu ministério, se encaminha para fechar seu mandato arrastando o Brasil para um poço sem fundo. Não têm respostas para sua incompetência, não tem projeto de governo para encaminhar os destinos do país, não tem sequer autonomia de voo, a não ser sua conhecida grosseria e estupidez.   

Seu comportamento patético diante da crise do sistema penitenciário do Maranhão é prova inconteste de sua mediocridade.   O país que se lixe desde que a governanta esteja de bem com os aliados, mesmo que o desgoverno destes resulte em barbárie que enxovalham ainda mais a imagem do país. 

Não é possível medir por quanto tempo o povo brasileiro continuará vira-latas nas mãos desta gente indecente. Mas o que se pode ter certeza é de que a herança que ficará para a sociedade resolver,  demandará muitas gerações para ser corrigida. Se a grande maioria do nosso povo pudesse saber o que se passa atualmente na Argentina e na Venezuela, identificaria  na comparação com o Brasil muitas semelhanças, sendo a maior delas a degradação, lenta e gradual, dos valores de uma sociedade livre, democrática e de direito. As instituições, num bloco e noutro, se degradam a olhos vistos, o real interesse público se perde num sistema de vassalagem e corrupção permanente, a consciência  crítica do pensamento nacional se torna cada vez mais distante das reais necessidades do país e seu povo.

Identifiquei esta nata política no comando do Brasil como a falange do mal. Ela tem muitas caras, muitos truques, eleva-se na mistificação enquanto o país decai como sociedade civilizada. E corrigir esta rota distorcida requer o trabalho, o esforço e o sacrifício de muitas gerações que, no futuro, não nos perdoarão pelo Brasil que estamos desconstruindo.  Em doze anos, criamos um abismo que, para sair, nos custará um século de muita dor e ranger de dentes.

E para encerrar: em doze anos de PT no poder, a prioridade número de qualquer nação em busca de progresso, sempre foi a educação. Pois bem: o PT, e seus programinhas de meia pataca, seu descritério, seus modelos de chavinização do ensino nacional, conseguiu empurrar a qualidade de ensino brasileiro para os últimos lugares do ranking. Temos, no continente sulamericano, o maior contingente de analfabetos. Cerca de 38% de nossos estudantes universitários são analfabetos funcionais. E, nos exame de avaliação internacional, nossa posição é vexatória. Num país em que a educação é tratada com o descaso que se vê,  em que o governo aprova o ensino de que, escrever errado está certo, em que livros didáticos foram transformados em não mais dói que panfletos ideológicos partidários,  fica realmente impensável livrarmos o Brasil de sua eterna ignorância e desinformação.

Doze de anos de PT no poder serviram não apenas para manter o gigante eternamente adormecido em berço esplêndido. Mas mantê-lo, sobretudo, de costas para seu futuro. 

Se diz que a senhora é favorita na corrida eleitoral que elegerá um novo presidente para um mandato de quatro anos a começar em janeiro de 2015. Até pode ser. Mas o certo é que, quanto mais tempo o PT permanecer no poder, maior será a distância do Brasil para chegar à modernidade. Porque , rigorosamente, com eles, estamos mais próximos do século 19 do que propriamente do século 21.  E aponto aqui um fato notório do quanto o governo atual é medíocre: uma presidente que sequer é dona do própria nariz para escolher seus ministros, precisa recorrer e pedir licença para nomear ao seu mentor e padrinho, definitivamente, não reúne as virtudes necessários para comandar os destinos de um país como o Brasil. Talvez a Bolívia, mas lá a história é outra... 

Sem muitas opções, que tal uma política séria?

Rolf Kuntz 
O Estado de S.Paulo

Baixo crescimento é a sina do Brasil neste ano e nos próximos, segundo todas as previsões conhecidas até agora, e ninguém deve atirar pedras no Banco Central (BC) por causa disso. A alta do juro básico para 10,5%, anunciada na quarta-feira, foi uma resposta quase inevitável ao estouro da inflação em 2013. Mais que isso poderia ser considerado uma reação excessiva, neste momento. Menos que isso poderia ser visto como desleixo ou timidez. As projeções de crescimento formuladas antes da elevação do juro ficaram entre 2,4% e 1,8%. A primeira foi publicada pelo Banco Mundial em seu novo relatório sobre as perspectivas globais para 2014. A segunda foi apresentada no último boletim de macroeconomia da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre). Se os economistas do banco estiverem certos, o produto interno bruto (PIB) do Brasil avançará neste ano menos que os do mercado global (3,2%) e dos países em desenvolvimento (5,3%). Até os Estados Unidos, ainda em convalescença da crise, terão desempenho melhor que o brasileiro, com expansão de 2,8%.

Mesmo com juros bem menores que os de anos anteriores, a economia do Brasil teve em 2013 um desempenho abaixo de pífio. Os últimos números conhecidos confirmam os desarranjos: consumo em alta, indústria estagnada, preços em disparada e contas externas em deterioração.

Quem se contentar com uma pequena parte do quadro poderá até festejar. O comércio varejista vendeu em novembro 0,7% mais que em outubro e 7% mais que um ano antes. O crescimento das vendas em 12 meses chegou a 4,4%. O comércio "ampliado", isto é, com a inclusão de veículos, peças e material de construção, avançou 3,8% em 12 meses. O cenário seria muito bom se houvesse correspondência do lado da produção, mas pouco se fez, durante muitos anos, para garantir esse equilíbrio.

Como a indústria continua derrapando, o ajuste entre oferta e demanda fica na dependência dos bens importados e, como complemento, da alta de preços, porque nem todo descompasso é compensado pela importação. A agropecuária foi bem, mas a indústria geral produziu em novembro 0,2% menos que em outubro e apenas 0,4% mais que um ano antes. Em 12 meses o crescimento ficou em 1,1%. De janeiro a dezembro o avanço deve ter sido insuficiente para compensar o recuo de 2,6% observado em 2012.

A inflação de 5,91% e a corrosão do saldo comercial combinam com o desajuste entre consumo e produção industrial. O déficit de US$ 105 bilhões estimado para o comércio de manufaturados cabe nesse conjunto, mas o buraco seria um pouco maior - US$ 112,74 bilhões - sem os US$ 7,74 bilhões da exportação fictícia de plataformas para exploração de petróleo e gás.

O crescimento do consumo privado, retratado no bom desempenho do varejo, tem sido sustentado pelo crédito, pelo alto nível de emprego e pela expansão da massa de rendimentos. Os indicadores de emprego e consumo têm sido mostrados pelo governo como provas do acerto de sua política. Mais empregos e mais dinheiro para consumir são boas notícias, mas é preciso saber se esses avanços serão sustentáveis.

Depois da redução de 5% em 2009, no pior momento da crise, os dirigentes da indústria contrataram e tentaram manter o nível de emprego. Tiveram pelo menos dois motivos muito especiais para isso. Demitir custa caro, no Brasil. Além disso, havia esperança de uma retomada do crescimento. Seria perigoso diminuir os quadros, por causa da escassez de mão de obra qualificada e até qualificável. A maior parte das empresas tem apontado esses problemas há alguns anos, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Mas o esforço de manutenção dos quadros começou a fraquejar em 2012, quando a produção despencou. Houve em seguida uma tentativa de reação, mas nos 12 meses até novembro de 2013 o pessoal assalariado na indústria diminuiu 1,1%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A manutenção do emprego urbano tem dependido principalmente do setor de serviços, com a oferta de ocupações de baixa produtividade e com exigências muito limitadas de qualificação. Ainda assim, a massa de rendimentos continuou a crescer. O consumo foi sustentado pela combinação de salários, de financiamentos de fácil acesso - restrições ao crédito são muito recentes - e de estímulos por meio da redução temporária de tributos.

Os estímulos fiscais beneficiaram as vendas de alguns setores, como o automobilístico e o de equipamento doméstico, mas a maior parte da indústria continuou em marcha lenta. A produção nacional foi afetada pelos custos crescentes - incluídos os salariais - e continuou travada por um conjunto bem conhecido de problemas (tributação irracional, logística deficiente, alto custo do investimento e assim por diante). A perda de mais espaço para os concorrentes estrangeiros foi um resultado facilmente previsível.

Com as contas fiscais já em mau estado, a credibilidade reduzida e inflação em alta, o governo terá pouco espaço para insistir nas manobras dos últimos anos. As prévias da inflação continuam a mostrar aceleração dos aumentos. Nas quatro semanas até o dia 15, o Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S), calculado pela FGV, avançou 0,85%. Havia aumentado 0,73% na quadrissemana anterior. O impulso crescente vem sendo observado a cada apuração. Dificilmente o BC poderá dar como encerrada a alta do juro.

Um choque de seriedade poderá, no entanto, estimular o investimento do setor produtivo e ainda atrair capitais de fora. Já se investiu mais, neste país, em períodos de juros mais altos, mas também de maior confiança na política e no futuro da economia. Com poucas de alternativa, a seriedade talvez se torne uma solução atraente para o governo.

As águas vão rolar

Gaudêncio Torquato  
O Estado de S.Paulo

Há 25 anos um caudaloso rio se formava nas alturas do Planalto Central, fluindo de duas cúpulas, uma côncava, outra convexa, e passando a despejar seu volume nas cidades e nos campos, banhando comunidades, irrigando roçados e elevando o ânimo de grupos que, presentes em seu nascedouro, ajudaram a definir o caminho das águas pelo território. A Constituição de 1988 reveste-se da imagem desse rio, formado pela confluência de correntes dos mais variados espaços: mulheres, indígenas, quilombolas, militares, funcionários públicos, profissionais liberais, negros, empresários, banqueiros, exportadores, aposentados, transgêneros, etc. Duas décadas e meia passadas, as águas do rio ainda se esparramam por planaltos e planícies, em direção ao oceano, esbarrando em montanhas, desviando de barreiras, descendo encostas, serpenteando curvas, adentrando espaços entre rochas, para dar vazão a seu curso. Afinal, a obra de um rio se completa quando suas águas abraçam o mar. Se não houver espaço por onde fluir, a inundação pode ocasionar desastres.

O retrato que flagra a vida social do País, nos últimos tempos, deixa ver no fundo da paisagem sombras e vultos que se fizeram presentes na modelagem da Lei Maior do País, a mais democrática da História republicana. A movimentação social que se viu nas praças e ruas das grandes cidades em meados do ano passado, ou os rolezinhos de jovens em shopping centers, como se veem hoje, a par de características específicas, são fenômenos com origem nas mesmas torrentes que fecundaram estas plagas. Sob os ares democráticos, grupamentos que formam a comunidade nacional, cada um a seu modo, procuram meios e formas para expressar sua identidade e suas demandas. Basta anotar que os arredores e o interior das duas cúpulas do Congresso Nacional se transformam em palanques para pressões e manifestações, na esteira de uma tendência que se mostra forte e irreversível: a fixação de pilares para a construção do edifício de uma democracia participativa. Só os broncos fecham os olhos para o fértil ciclo social que atravessa o País.

Abramos a análise com a pergunta: por que os jovens surfam na onda do rolezinho? Há respostas para todos os gostos. O represamento da expressão, por exemplo. Os jovens constituem o segmento mais distanciado da esfera político-institucional, particularmente quando se analisam engrenagens que agem sobre o poder central. Os corredores das Casas representativas costumam se locupletar com a presença de grupos de muitos nichos, a partir dos trabalhadores, mas a presença de jovens é escassa, restringindo-se a pequenos grupos que encabeçam as entidades estudantis, historicamente comandadas por partidos políticos. Diferentemente de pais e avós, que atravessaram os túneis escuros da ditadura de 1964, enveredando pelas retas e curvas da linguagem política, os jovens de hoje nasceram e cresceram sob o limbo de uma locução amorfa e despolitizada. Nos idos da redemocratização (1985/1986) abriu-se por completo a locução, resgataram-se as liberdades, rompeu-se o elo do medo. Uma geração reprimida aplaudia uma produção bem elaborada e original de artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Tempos de chumbo, tempos criativos. Hoje nem a juventude madura consegue inserir na cachola a tal Constituição cidadã de 88, que um careca de voz embargada, conhecido como Ulysses Guimarães, declarou promulgada.

Mergulharam as turbas jovens nas águas do consumismo desvairado, cujos traços exuberantes se realçam na retórica propagandística, em fantasias e sonhos, nas novelas da moda e sua caprichosa engenharia de persuasão. O hedonismo, a intensa busca do prazer, a necessidade de autoafirmação (a construção do Eu, Eu existo, Eu sou importante), a busca de identidade, sob a moldura das enormes carências em periferias superpovoadas, fecham o circuito indutivo. Formam-se os bailes funk, os ajuntamentos jovens nos bairros, o desfile estético de cortes e cores nas cabeleiras, as vestes extravagantes (o rasgo esquisito no jeans), a denotar o esforço do indivíduo para deixar de ser anônimo na massa. O todo só existe porque a parte, ele, ali está, visível, onipresente. A degradação dos serviços públicos (precários meios de mobilidade), a desastrada infraestrutura de lazer nas cidades, a falta de praças e até de bancos para sentar (na Avenida Paulista, a mais referencial de São Paulo, há apenas um banco) incitam a criação de ações e pequenas mobilizações. Que, de maneira surpreendente, acabam gerando efeitos estrondosos por se impregnarem do espírito do tempo.

Contingentes desfilando com bandeiras reivindicatórias, black blocs promovendo quebradeiras, grupos convocados pelas redes sociais para rolezinhos, movimentações de todos os naipes são extensões dos braços de uma democracia em processo de consolidação. Simbolizam a vontade social de maior inserção no processo democrático. Um jovem de 17 anos, ao dizer que nos eventos de que participa se interessa apenas em somar o número de moças a beijar, dá ideia de alienado. Ora, mas essa é sua visão de mundo. Se as ruas estão inseguras, procura shoppings, lugares mais seguros. A busca de segurança, em espaços charmosos, é, assim, um recado ao poder público. E aos políticos, afundados no poço da descrença.

Convém registrar, por último, a forma como governantes e proprietários têm considerado os ajuntamentos em shopping centers. Tratam o caso como questão policial, e não como fenômeno social. Tampam os olhos para sua natureza. Não se pode proibir o ingresso de um jovem nesse ambiente olhando para a cara ou a roupa. É claro que a propriedade particular deve ser preservada de baderna. O bom senso deve guiar os ânimos. Sempre sob a lembrança de que fiapos d'água podem formar, ao longo do curso de um rio, grandes correntezas.

No mais, é esperar. O carnaval vem aí e as águas vão rolar.

A utopia e a cascavel

Percival Puggina

O sujeito na telinha da tevê torcia o nariz com repugnância. Ele se referia às pessoas que têm grade de proteção na frente da casa, ou moram em condomínios fechados, ou dispõem de vigilância, câmeras e alarmes, como se fossem marias-antonietas contemplando a plebe do alto de seus luxos, soberba e alienação. Era um de muitos, um de tantos, no mundo acadêmico e nos meios de comunicação, que fazem análise marxista até de chinelo velho. Em toda oportunidade, se referem aos artefatos e serviços de proteção que usamos como se equivalessem às defesas de que os grandes traficantes se cercam em seus bunkers. Dizem-nos assim: "Vocês se isolam do mundo, cultivam preconceitos, matriculam os filhos em escolas particulares também protegidas por grades e agentes de segurança". Descrevem uma realidade que domina a paisagem urbana das cidades brasileiras, como sendo coisa de gente preconceituosa, paranóica e indiferente à miséria alheia. No entanto, bem sabemos todos quanto esses cuidados são indispensáveis num país onde o crime espreita em cada esquina, em cada porta de garagem, em cada restaurante ou agência bancária. A espiral ascendente da bandidagem não pára de se ampliar desde que a análise marxista substituiu o rigor da lei pela tolerância ideológica às suas práticas. 

Sujeitos como o de nariz torcido na telinha da tevê querem provar, com ares solenes e doutas perspectivas, que somos os réus dos crimes que contra nós praticam; que somos uma espécie de celerados sociais, atemorizados com as consequências dos males que advêm de nossa resistência às suas fracassadas utopias, às suas estrelas e bandeiras vermelhas. O resumo de sua mensagem à sociedade, em matéria de segurança, é a de que, notadamente nos crimes contra o patrimônio, o criminoso é um anjo vingador que vem ao mundo para agir contra os insensíveis apegados aos frutos da sua cupidez. E o resumo de sua mensagem em matéria sociológica é a de que existem pobres porque existem ricos.

Rematadas tolices! Se a criminalidade aumenta no Brasil num período em que o governo afirma que o desemprego cai e a renda evolui positivamente, parece óbvio que não há uma relação direta de causa e efeito entre pobreza e criminalidade. Pelo outro lado, todo o posto de trabalho vem da riqueza gerada pelo setor privado. Todo! Inclusive o emprego público, remunerado pelos tributos incidentes onde haja produção. O Estado é um gastador da riqueza de quem produz. É rematada tolice afirmar que a livre empresa ou que as economias abertas, concentrem renda e que a pobreza tenha isso como causa. Bobagem! O que mais esperam os desempregados nos países em crise é que suas economias nacionais comecem a vender, as empresas privadas a produzir e a reempregar, e a sociedade volte a consumir. Há alegria nos mercados quando os indicadores apontam sinais positivos no mundo dos negócios. 

O que os adoradores do Estado, que gostam de dançar ciranda em torno dos cofres públicos, não contam para você, leitor, é que a verdadeira concentração de renda, nociva e ativa, empobrecedora, que paralisa a atividade econômica como picada de cascavel derruba a vítima, é o Estado que se apropria de 40% do PIB nacional. Aí está a causa da pobreza do pobre: um Estado que concentra renda nas próprias mãos, que se deixa roubar, que gasta de modo irresponsável, que sustenta uma corte de madames pompadour, gastos secretos, luxos inauditos e extravagantes comitivas. Como não poderia deixar de ser, esse Estado entrega aos pobres do país, em péssimas condições, a Educação, a Saúde e o Saneamento que, se bons fossem, lhes permitiriam sair da miséria e cuidar bem de si mesmos.

Vada a bordo, cazzo

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

O comandante é o último a abandonar o navio? Nem sempre: o comandante Francesco Schettino foi um dos primeiros a cair fora, quando o seu Costa Concordia começava a naufragar. O capitão Gregorio de Falco, da Guarda Costeira, indignou-se e mandou Schettino voltar ao navio. Vada a bordo, cazzo! - bradou. Schettino, cazzo, fingiu que não ouviu. Os passageiros que se danassem.

Mudemos de assunto. O presídio de Pedrinhas, no Maranhão, teve rebeliões sucessivas, o crime organizado tomou conta de tudo e promoveu assassínios com requintes de crueldade. O ministro da Justiça, esquecido de que seu partido está no poder há onze anos, reclama que o sistema penitenciário brasileiro é "medieval", e diz que preferia morrer a ficar preso. Ele, a propósito, é o chefe do Departamento Penitenciário Nacional, que deveria cuidar do assunto. 

Os rolezinhos se multiplicam e ameaçam transformar-se numa crise política - e numa crise se transformarão assim que alguém perder a cabeça e for para o confronto físico. E a segurança da Copa, que está sendo discutida, de que forma será equacionada? 

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, sabe perfeitamente o que fazer: como o comandante Schettino, abandonar o barco o mais rapidamente possível, antes que o naufrágio se complete, e deixar claro que tê-lo ou não como ministro da Justiça não faz a menor diferença. Cardozo descansou nos feriados de fim de ano, tirou férias entre 2 e 6 de janeiro, e, a partir de sexta, tira mais oito dias de folga. Volta dia 26. 

E até agora, no Governo, ninguém lhe gritou Vada a bordo.

Woodstock à brasileira
O comentário é do jornalista e apresentador Marcelo Tas:

"O garoto amava os Beatles e os Rolling Stones, lutou contra a Ditadura... Hoje defende Roseana. O bagulho é doido, né ministro Zé Eduardo?"

Coincidência
Ah, os nomes! Pois não é que o recordista de gastos de dinheiro público, com o tal cartão corporativo do Governo brasileiro, também se chama Schetino?

Me engana... 
Não leve a sério essa história de que o PMDB está disposto a deixar o Governo Federal por não ter conseguido o sexto ministério. O PMDB é coerente: sempre no Governo. Se a oposição vencer as eleições, o PMDB continua no Governo como se nada tivesse acontecido. A oposição pode ir para o Governo, os governistas podem ir para a oposição, mas o PMDB continua onde sempre esteve. Os peemedebistas, pessoas educadas, de fino trato, sabem que é feio morder a mão que os alimenta. 

E, considerando-se que Dilma Rousseff é favorita na disputa, é mais fácil o Fluminense ser rebaixado do que o PMDB mudar de lado. 

...que eu gosto
A autorização para que o Governo paulista concedesse à iniciativa privada cinco aeroportos regionais foi publicada no Diário Oficial da União por erro burocrático da Secretaria de Aviação Civil. O mesmo erro, certamente, foi responsável pela alegria do ministro Moreira Franco após divulgar as concessões. 

Fica combinado assim. Espalhando isso todo mundo fica contente, até a presidente.

Constatação
Comparando-se as mesmas classes sociais, analisando hábitos, perfis e fotos, está claro que os franceses comem melhor que os brasileiros. 

O rolo do rolê
O Carnaval cai em março. A Semana Santa, início oficial do ano, na segunda metade de abril. O Brasil já estará no clima da Copa. A campanha eleitoral começa em 5 de julho, coincidindo com a última semana da Copa. Em seguida, há as discussões sobre o desempenho do Brasil, quem foi bem, quem foi mal, as festas, se for o caso, ou as críticas ferozes. O horário gratuito começa em 15 de agosto. Quem é mais conhecido leva vantagem (e quem é mais conhecido do que Dilma?) 

Na TV, tem mais tempo o candidato da maior aliança- Dilma sai com vantagem de novo. Para o PT, quando mais curta e menos intensa for a campanha, melhor. Aí aparecem os tais rolezinhos, que podem gerar tumultos. Alguém poderia explicar a este colunista por que tantos petistas apoiam os rolezinhos?

Abrindo o flanco
O ministro Joaquim Barbosa saiu de férias. Mas deve receber do Supremo onze diárias de viagem, no período de 20 a 30 de janeiro, no valor total de pouco mais de R$ 14 mil. 

Explicação: Barbosa interromperá suas férias neste período para fazer duas palestras, em Paris e Londres. Como será então uma viagem a trabalho, faz jus às diárias. Tudo legal, sem dúvida. Mas pega bem receber onze diárias para fazer duas palestras, uma delas de 30 minutos? 

Barbosa não tem medo de ataques: saiu de férias sem assinar a ordem de prisão do deputado João Paulo Cunha, já foi grosseiro com um repórter e com pelo menos três ministros do Supremo, não informa quando (e se) determinará a prisão do mensaleiro condenado Roberto Jefferson, agora recebe diárias de viagem a trabalho mesmo depois de ter dito que tiraria férias de 10 a 30 de janeiro. Não deve haver nada errado. Mas, como ensinavam os antigos romanos, mestres de nosso Direito, à mulher de César não basta ser honrada: é preciso também parecer honrada. 

carlos@brickmann.com.br 
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Racialização da crise

Ruy Fabiano
Blog do Noblat

A tentativa de racialização da crise social brasileira, que integra a agenda politicamente correta da esquerda, é um dos atos mais hediondos já cometidos contra o país.

Antes de mais nada, porque, em vez de integrar raças e culturas – como diz pretender a Secretaria de Estado que leva esse nome -, desintegra, divide, hostiliza. É, portanto, um desserviço.

E é também um absurdo, quando se sabe que se trata de uma nação maciçamente constituída por mestiços. A própria esquerda não se cansa de proclamar que o branco brasileiro não é exatamente branco, se comparado ao europeu. Seria, no máximo, um branco de segunda classe, sem pureza ou pedigree.

A legislação brasileira que pune o racismo é possivelmente a mais dura do planeta. Basta que alguém chame um negro de negro para ser preso, sem direito a fiança e sem que haja prescrição do delito.

Pode-se xingar a mãe e os antepassados, mas não pode haver menção à cor. Se o negro, porém, chamar um branco de “azedo” ou uma mulher de “loura burra”, não há problemas.

A ministra da Integração Racial diz que o racismo do negro contra o branco “é natural”.

Combate-se o racismo de um lado só, o que transforma o que poderia ser um saudável processo de resgate cultural a uma raça que há mais de um século padeceu a escravidão em instigação à luta racial, inaugurando no país mais uma moléstia social.

O Brasil escravagista tinha um perfil populacional inteiramente distinto do atual. Era fundamentalmente um país formado por negros, índios e ibéricos e da mestiçagem entre eles.

A partir do final do século XIX, o país agregou levas de imigrantes alemães, italianos, japoneses, libaneses, poloneses, entre outros. Nenhum desses povos, que hoje formam um núcleo expressivo da população brasileira, tem qualquer responsabilidade com o passado escravagista do país.

No entanto, seus descendentes são também arrolados como “a elite branca”, que precisa ser punida e pagar pelos crimes de seus antepassados.

Os rolezinhos são mais uma tentativa, em nome da justiça social/racial, de promover mais desagregação no país, cujo grande desafio é reduzir os abismos sociais entre ricos e pobres, não importa a cor.

O próprio conceito vigente de negro é altamente discutível. Segundo o IBGE, os negros no Brasil constituem 8% da população; os mestiços, 42%.

Diante da implacabilidade dos números, as ONGs que cuidam de políticas raciais decidiram que mulatos são negros. Ora, mulatos são a mescla de branco e negro. São, portanto, a negação do racismo. São, em si mesmos, a integração racial, que a Secretaria do mesmo nome se empenha em destruir.

Não se nega que há ainda – e possivelmente haverá sempre – quem se incomode (hoje, com certeza, uma minoria) com a cor da pele alheia. Não há lei que mude isso.

O que a lei pode – e faz – é punir quem, em função disso, queira restringir direitos ou humilhar pessoas. O resto só o tempo e o aprimoramento civiizacional (fruto do tempo) pode transformar. E isso, apesar de todos os pesares, há muito está em curso.

O risco da manipulação do discurso racial é o de promover, com o espantoso apoio do Estado, um retrocesso nesse quadro. A pobreza – e não a raça – é o grande complicador do processo social brasileiro, a grande chaga moral do país.

Dizer que os shoppings centers discriminam negros por serem negros é falso. Basta visitar qualquer um. Há shoppings de elite, nos bairros mais caros, e os populares, nos bairros da periferia.

O que se discrimina é a pobreza, o que é igualmente sórdido, mas que não se supera com estímulos à violência e ao irracionalismo –e muito menos ao racismo.

A redenção social (se é que o termo cabe) não virá nem dos black blocks, nem dos rolezinhos. O que eles produzem é pancadaria, confusão e vítimas – numa palavra, desagregação. Resta saber a quem isso interessa.

Indústria desintegrada

Editorial
Folha de São Paulo

O crescente deficit da balança comercial da indústria, de US$ 105 bilhões no ano passado, por si só seria motivo de alarme. Quando combinado com a estagnação da produção interna desde 2008, não deixa lugar para dúvidas acerca da existência de um grave problema de competitividade no setor.

A evidente deterioração dos últimos anos começa com a bonança externa -preços de matérias-primas em alta e abundância de capital estrangeiro. A consequente sobra de dólares contribuiu para valorizar o real e deslocar recursos produtivos para setores menos sujeitos à concorrência externa.

O problema se agrava a partir de 2008, com a resposta do governo à crise internacional. A opção foi por uma forte expansão de gastos e crédito públicos. Justificável a princípio como combate à recessão, a estratégia foi mantida desde então, pressionando em demasia a inflação e os custos internos.

A ausência de reformas para aumentar a produtividade acentuou a perda de espaço da indústria.

Para completar, houve, na última década, grande desenvolvimento de cadeias produtivas globais, tendo a China como protagonista. O Brasil ficou à margem desse processo, conduzido por empresas (industriais e de serviços associados) internacionalizadas.

O desafio é reverter essa tendência. Vive-se, sem dúvida, novo momento global. Países emergentes têm menos dólares à disposição, e os desenvolvidos se recuperam; o real se desvaloriza. Em tese, a produção nacional ganhará competitividade diante de importados.

Mas não basta contar com isso. É preciso atacar outras causas de fundo, entre elas a falta de inovação, os custos altos e o isolamento das empresas brasileiras.

São esses os principais obstáculos para o crescimento de longo prazo, cuja construção demanda competência gerencial do Estado e novas estratégias empresariais.

Não há exemplo de desenvolvimento nas últimas décadas que não tenha ocorrido por meio da integração na economia mundial. Tal objetivo passa por tarifas de comércio baixas, logística eficiente e modicidade tributária, medidas que dependem do governo.

A questão dos impostos assume lugar central. Depois de duas décadas de expansão, a carga tributária próxima a 37% do PIB, com alta complexidade nas regras, talvez seja o maior entrave para as empresas brasileiras competirem.

Cortar impostos -para todos, e não apenas para alguns setores- demanda controle de despesas, que precisariam crescer menos do que o PIB por alguns anos.

Assim seria mais fácil romper com o protecionismo que mantém o país na segunda linha do mundo. 

Mal da dúvida

Tribuna da Imprensa
Luiz Tito, O Tempo

Os empresários da indústria estão roucos de gritar que não é possível mudar o cenário de produção no Brasil em função dos custos que a tributação e as leis trabalhistas anotam nas suas planilhas. Qualquer produto industrial brasileiro arranca com um custo 32% maior do que aqueles produzidos no mundo (e não apenas na China). É certo e provado. Essa condenação é resultado da opção pelo câmbio defasado e por uma carga tributária estúpida, que é consumida pela ineficiência do Estado para pagar gastos públicos que crescem cada vez mais sem controle.

Acresce-se a isso o fato de que o Estado brasileiro, além de gastar muito, o faz sem qualidade, legislação trabalhista, que protege excessivamente e não promove mudanças no perfil da força de trabalho, câmbio desatualizado e impróprio para a exportação industrial e o crédito caro, já que o governo desse recurso se vale para conter a inflação. Às críticas responde em coro o governo Dilma que o Brasil esteve nos últimos tempos e brevemente voltará ao grupo dos cinco países do mundo mais bem avaliados e preferidos pelos investidores internacionais.

Embora parcialmente verdadeira, essa afirmação encobre a realidade de que o investimento externo no Brasil não conseguiu mudar nossos atrasos, porque não foi usado para aplacar a insuficiência de nossa infraestrutura de transportes, que gera entraves ao escoamento da produção ou a onera excessivamente com os custos de circulação, de esperas, da burocracia dos portos e morosidade de seus processos.

Também não melhorou os custos de energia, não aumentou a produção de petróleo, não manteve aqui, para ser industrializada, nossa produção na mineração, na agricultura e na pecuária.

FANTASIAS
Para pagar seus gastos, a União, os Estados e municípios continuam sacrificando investimentos essenciais ao processo de mudanças necessárias, pela incapacidade de se ajustar a agenda de produtividade às medidas que os governos privilegiam para cumprir seus compromissos políticos, promovendo o acesso das classes menos favorecidas, contingente engrossado pela classe média às fantasias de desenvolvimento.

Fantasias porque o incentivo desmedido ao consumo não caminhou com melhorias na educação, na saúde, na qualidade da moradia e sobretudo na segurança. Ao contrário, esses segmentos foram sufocados pelo baixo investimento dos governos, fazendo com que a sociedade siga retirando de suas reservas os recursos para cobrir o que deveria ser obrigação original do Estado. Exemplo é o crescimento dos planos de saúde, da rede particular de ensino em todos os níveis e das empresas de segurança privada. Nesses setores, há um sucateamento público de difícil reconstrução, ainda que a população se inquiete sempre, muitas vezes da forma mais violenta e sem caminho de volta.

A sustentabilidade da economia suportada exclusivamente pelo mercado interno chegou ao final, por flagrante saturação. Os números do comércio assim demonstram. Se não ocorrerem mudanças nas prioridades de nossos governantes e projetos corajosos por parte dos que se apresentam em nome de novos compromissos, esses próximos dois anos serão catastróficos.

Sem investimentos públicos e privados, nada mudará.

Para haver investimentos privados, nacionais ou vindos do exterior, o empresário quer segurança, certeza jurídica nas relações e tributos pagáveis. Hoje só temos a dúvida. 

Rolezinho no Planalto

Guilherme Fiuza
O Globo

Trata-se, antes de tudo, de um vocábulo patético, cafona, que poderia muito bem ter saído da cabeça de um soldado de José Dirceu

O rolezinho do PT no Palácio do Planalto, como se sabe, caminha para perfazer 16 anos — o dobro do Estado Novo de Getúlio Vargas. Se Dilma Rousseff não aparecer fantasiada de Marcos Valério em algum dos seus pronunciamentos à nação — ela já fez o do réveillon, só faltam o do carnaval, o do Dia da Mulher, o da Páscoa, o do Dia do Trabalho, o do Dia das Mães, o de Corpus Christi, o do Dia dos Pais e o do Dia da Independência — ninguém tasca mais quatro anos de rolezinho petista. Tudo correndo bem no primeiro turno, Dilma nem precisará convocar cadeia de rádio e TV no Dia de Nossa Senhora Aparecida e no Dia de Finados, porque os concorrentes já estarão finados no início de outubro.

Enquanto a próxima data festiva não chega, o governo popular trabalha duro para reciclar sua retórica coitada. E acaba de encontrar uma nova jazida, que talvez possa jorrar poesia social-demagógica até a eleição. O fenômeno dos rolezinhos — invasão de shoppings por multidões de jovens da periferia — foi uma providência divina na vida ociosa dos governantes petistas.

Não que eles se importem de mentir um pouco mais nos pronunciamentos oficiais, como no anúncio do superávit de 2013: o governo roubou 35 bilhões de reais da meta (meta para eles é um estado de espírito) e divulgou, com a maior tranquilidade, o cumprimento da mesma. Ainda rebolou como um Anderson Silva na frente do adversário, informando que estava divulgando a façanha com antecedência para “acalmar os nervosinhos”. Fale a verdade: se você conta uma mentira desse tamanho em casa e ninguém duvida, ou você vai ficar zangado com a ignorância dos seus ou vai querer abrir imediatamente uma franquia da bocarra petista.

Mas aí surgiu o rolezinho. Trata-se, antes de tudo, de um vocábulo patético, cafona, que poderia muito bem ter saído da cabeça de um soldado de José Dirceu — desses que passam a vida bolando vírus sociais como munição ideológica. Mas é melhor imaginar que o rolezinho não tenha sido invenção de algum desses aloprados profissionais, porque aí o esquema teria chegado à perfeição — e com sordidez perfeita não se discute. O fato é que o fenômeno em si, com toda a sua miséria fonética, estética e cultural, trouxe um sopro de vida à indústria do oprimido.

É fácil saber quando um assunto entra no altar da panfletagem petista. Quando o secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, surge do nada se pronunciando sobre alguma coisa, é tiro e queda: o estado-maior detectou ali um excelente potencial demagógico. E adivinhem o que o analista de invasões a shoppings, em nome de todo o império da penúria, acha do tema? Acertou: ele acha um fenômeno natural, numa sociedade que precisa entender que “acabou a possibilidade de termos espaços segregados”.

Não é uma beleza? De fato, não há segregação possível, não há fronteiras que possam deter o pensamento solidário dos hipócritas. A revolução socialista dos rolezinhos já levou até três mil adolescentes para dentro de um shopping em São Paulo. O PT acha certo — e boa parte da burguesia culpada e pusilânime também vai achar — que uma multidão de garotos, reunidos não interessa por que rede social, não interessa por que motivo, tosco ou não tosco, tem o direito de privar os indivíduos que não estão em bando do lazer ou dos serviços de um shopping. A não ser que o secretário-geral ache que vai passear com a sua família, lanchar, consumir cultura, moda e circular normalmente num caixote com recheio adicional de 3 mil pessoas.

Assim é a infernal bondade aritmética da esquerda: se um ajuntamento de cabeças, ocas ou não, resolve ocupar um espaço público e atropelar a sua finalidade, tudo bem. Essas mentes bondosas e esquemáticas, que acham o rolezinho natural, só sabem repetir que não se pode barrar ninguém em lugar nenhum, e que qualquer outra atitude é preconceito elitista contra a periferia.

Se um adolescente ou jovem saudável vai escolher virar massa humana para transformar shopping em galpão, ou para cortar o barato alheio, é duvidoso. Não é só isso? É protesto? É invasão? Que seja — mas seja identificado como tal, e tratado como tal. Se não, humanistas como Gilberto Carvalho continuarão dizendo que o rolezinho dos menininhos coitados não é caso de polícia — até que o próprio rolezinho se torne a autoridade nos shoppings, porque ninguém pode nada com uma multidão dessas. Aí é rezar para que suas excelências rolezistas não decidam saquear e quebrar, como já andou acontecendo.

Enquanto isso a inflação de 2013 ultrapassou a expectativa — que já afrontava a meta —, reduzindo o poder de compra dos periféricos e dos não periféricos. Talvez a saída seja mesmo rolezinho para todos. Os mortais ocupam os shoppings, de graça; os companheiros ocupam o Estado brasileiro, bem pagos.

Pisando em ovos

Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

Eduardo Campos pisa com cuidado; sabe que é sobre os sonháticos e seus melindres que caminha. De onde toda cautela é necessária para que uma aliança recebida como um lance genial, capaz de mudar o cenário eleitoral, não se transforme num transtorno.

Em suma: o PSB trabalha para evitar que vire limão a limonada de outubro, quando Marina Silva não conseguiu o registro da Rede Sustentabilidade e decidiu se filiar ao partido do governador de Pernambuco.

O que se relata em seguida não foi dito por Eduardo Campos nem representa a posição oficial da direção do PSB. É o que se ouve entre parlamentares, dirigentes, candidatos nos Estados e até entre gente próxima ao governador. Campos diz em rede social que a hora é de olhar para frente e deixar o passado passar.

Tradução: o que está feito está feito, os problemas são do jogo e a ordem é contorná-los.

Otimismo à parte, o cenário real entre os correligionários do governador é de uma ponta de decepção. Não chega a haver arrependimento. Analisada em retrospectiva, a filiação de Marina naquele momento (madrugada de 4 para 5 de outubro) ainda é vista como uma boa cartada.

Mas as expectativas até agora não foram correspondidas. Por exemplo: o PSB acreditava que a adesão da ex-senadora provocasse uma considerável melhora nos índices de intenções de voto nas pesquisas, ao menos 15% na virada do ano. Isso não aconteceu, Eduardo Campos continua abaixo dos dois dígitos.

Uma inquietação começa a se disseminar entre parlamentares e dirigentes: será que apenas dois candidatos de oposição (Campos e Aécio Neves) serão suficientes para impedir a presidente Dilma Rousseff de ganhar no primeiro turno? Não teria sido melhor que Marina concorresse a presidente por outro partido, dividisse o eleitorado e ficasse fora da etapa final por falta de estrutura partidária e tempo de propaganda na televisão?

Ocorre que o que não tem remédio, como se sabe, remediado está. Portanto, a questão que se impõe é a redução dos danos. Prioridade: anunciar o quanto antes que Marina Silva será - conforme o combinado entre ela e o governador na já célebre madrugada - candidata a vice. A intenção é que o gesto provoque a esperada melhoria nas pesquisas.

Uma dúvida: há chance de Marina romper o acordo e não disputar cargo algum se para isso foi que se filiou dentro do prazo legal para candidatos?

Por esquisito que possa parecer, há certo temor de que, sabe-se lá por quais circunstâncias, a senadora venha a tomar essa decisão. De onde o PSB pisa em ovos com ela e com as diversas correntes abrigadas na Rede, procurando não contrariá-la muito.

Na verdade, Marina e companhia criaram menos problemas do que gostariam os adversários. Deram um chega para lá no pessoal do agronegócio - prejuízo ainda não de todo recuperado - e querem escolher os candidatos a governador no Rio de Janeiro e em São Paulo.

No Rio a situação é mais fácil de resolver, mas em São Paulo a candidatura própria implicaria o rompimento de aliança com o governador Geraldo Alckmin. O assunto ainda está em aberto, mas, se for esse o preço para Marina anunciar que aceita a vice, o PSB acha que vale a pena pagar.

Autoria. 
O PSB atribui ao ex-presidente Lula o ataque a Eduardo Campos, chamado de "tolo" e "playboy mimado".

O partido acha que em breve ele vai desautorizar a manifestação. Por ser um mestre na arte de morder e assoprar.

Em destaque. 
Cotada para a vaga de vice se Aécio Neves optar por uma mulher, a ex-ministra do Supremo Tribunal Federal Ellen Gracie deve coordenar o grupo que trata de assuntos relativos à Justiça e Segurança Pública na campanha do tucano.

Os caçadores de cabeças do andar de baixo

Elio Gaspari
O Globo

Em 2011, um grupo de jovens executivos colocou-se a seguinte questão: o que se pode fazer para ajudar uma criança pobre que tem um brilhante desempenho escolar e enfrenta a lei da gravidade social que tenta retê-la no andar de baixo? Nasceu assim o Primeira Chance.

Ontem, em Fortaleza, cinco desses executivos passaram o dia entrevistando 35 jovens que cursam o ensino fundamental em escolas públicas. Quando tiverem terminado o serviço, estarão escolhidos os garotos e garotas que cursarão o ensino médio como bolsistas nas duas melhores escolas da cidade (Ari de Sá e Farias Brito). Resolvido? Como diria Fred Astaire, o segredo de um bom dançarino está em dar aos outros a impressão de que é fácil.

Os executivos do Primeira Chance ralaram. Como achar os garotos? Fácil. Selecionaram 250 crianças do ciclo fundamental bem colocadas em olimpíadas de conhecimento, como as de Matemática, Português, Ciências e Física. Como contatá-los? Pedindo ajuda às escolas? Não dá certo, muitos diretores temem que lhes queiram roubar os bons alunos. Mandando-se uma carta ao aluno, para o endereço do colégio, ele vai recebê-la. Resolvido? Nem sempre. Um garoto não tinha telefone (móvel ou fixo) em casa. Para chegar a ele foi preciso ligar para a residência onde sua tia trabalhava como empregada doméstica.

Em todo o processo, o Primeira Chance busca crianças que, além de terem bom desempenho, mostrem uma surpreendente capacidade de batalhar pelo que querem. Um menino sem pai, com mãe e avó analfabetas, tinha medalha olímpica de Matemática. Aos 10 anos, soubera que na cidade da avó havia uns austríacos que ensinavam inglês de graça. Mudou-se para a casa dela. Seis anos depois, sua entrevista em Fortaleza deu-se em inglês. Ele também descobriu uma professora de Matemática que lecionava para pobres e colocou-se sob sua proteção.

Das 250 cartas enviadas, tiveram 75 respostas, e os candidatos foram convidados para uma prova e uma entrevista. A renda média de suas famílias era de R$ 1 mil por mês. Feito? Nada. Metade deles não veio. Um garoto que tinha duas medalhas de olimpíadas não poderia sair de sua cidade (Jijoca de Jericoacoara) a sete horas de Fortaleza, pois não tinha como pagar o ônibus. A turma do Primeira Chance cacifou as passagens, e ele veio com o pai, que trazia consigo currículos para tentar um emprego de porteiro na capital caso o filho se desse bem.

Catapultados para boas escolas como a Ari de Sá ou a Farias Brito, resolvia-se apenas uma parte do problema. Faltava o resto. Os colégios dão os livros, e o Primeira Chance cobre as despesas de material, transporte e alimentação. Em alguns casos, pagam também a hospedagem num pensionato. Um garoto jamais calçara sapatos, usava sandálias artesanais. Pela lei da gravidade, quando terminasse o ciclo fundamental, iria para a roça do pai.

Cada jovem amparado pelo Primeira Chance ganha um mentor que acompanha seu desempenho, com quem se comunica durante todo o tempo em que cursa o ensino médio e se capacita para o vestibular. Um bolsista custa R$ 4 mil por ano. Tendo começado em 2011, o grupo de executivos já deu 14 bolsas. O garoto que foi morar com a avó analfabeta para estudar inglês ganhou mais três medalhas olímpicas, foi aprovado nos vestibulares do Instituto Militar de Engenharia e do Insper, que oferece bolsas para jovens do Primeira Chance. O menino de Jijoca de Jericoacoara ganhou mais uma medalha na Olimpíada de Física e passou no vestibular do IME quando ainda cursava o segundo ano do ensino médio.

Nenhum dos executivos do Primeira Chance é milionário. Quase todos estão apenas devolvendo o que receberam da Viúva, pois estudaram em universidades públicas gratuitas, seis deles no Instituto Tecnológico da Aeronáutica. Alguns, ralando como os meninos que beneficiam. Além de um núcleo de 17 pessoas, têm a ajuda de 15 voluntários. A idade média do grupo está em menos de 30 anos. O que eles fazem não custa um tostão à Viúva, numa época em que dinheiro da Boa Senhora é usado para construir estádios, e o Rio de Janeiro corre o risco de perder a maior faculdade de Medicina do país — decadente, porém a maior.

Essa turma prefere que se divulgue mais o site do Primeira Chance do que seus nomes. O endereço é primeirachance.org. Vale lembrar que grandes universidades privadas americanas, interessadas em preservar a diversidade de seus alunos, despacham expedições para achar talentos.

Nunca é demais lembrar a frase de Andrew Carnegie, dono da maior fortuna dos Estados Unidos no final do século XIX: “Morrer rico é uma desgraça.” Em dinheiro de hoje, ele distribuiu bilhões de dólares. Morava num palacete na esquina da Rua 91 com a Quinta Avenida. É mais modesto do que o palácio erguido pelo Barão de Nova Friburgo no Rio de Janeiro. A mansão de Carnegie foi doada ao governo. Repetindo, doada. O palácio do barão tentou virar hotel, faliu e acabou vendido à Presidência da República por algo como 15 milhões de dólares em dinheiro de hoje. É o Palácio do Catete.

Vão aqui os nomes das empresas que com recursos ou serviços colaboram com o grupo do Primeira Chance:

Colégio Ary de Sá, Colégio Farias Brito, Instituto Ling, Fundação Beto Studart, escritório de advocacia Mattos Filho, Veiga Filho, Marrey e Quiroga, Yázigi, Adbat/Tesla, Locaweb, Curso Simétrico, Editora VestSeller, Accord, Sindicato da Escolas Particulares do Ceará, Sinepe, Organizze e Insper.

Caiu a ficha
Na segunda-feira, o empresário Eike Batista voou de São Paulo para Nova York na primeira classe da American Airlines.

Há alguns meses ele tinha uma frota de quatro aviões e dois helicópteros.

Eremildo, o idiota
Eremildo é um idiota e soube da seguinte história, contada pela repórter Natuza Nery:

Em dezembro, o ministro Moreira Franco, da Secretaria de Aviação Civil, discutiu com a doutora Dilma a concessão de cinco aeroportos do interior de São Paulo para a iniciativa privada. Ela congelou a ideia.

No último dia 9, o Diário Oficial da União circulou com a autorização de Moreira Franco para que o governo paulista procedesse à licitação das concessões que colocariam mel nos favos das empreiteiras.

O tempo fechou, a autorização foi cancelada, a mumunha foi atribuída a um erro do funcionário que encaminhou o papel assinado pelo ministro, e ele foi demitido.

O idiota é vizinho de um servidor que trabalha na impressão do Diário Oficial, que publicou a autorização de Moreira. Eremildo teme que, nessa história, acabe sobrando para ele.

Superpoderes
A ministra Cármen Lúcia abriu mão de incorporar aos seus poderes o da ressurreição.

Caiu-lhe na mão um pedido de habeas corpus para uma traficante de drogas condenada a quatro anos de prisão.

O habeas corpus foi pedido em outubro de 2013, mas a senhora morrera em 2010.

Aviso aos navegantes: desde o dia em que chegou ao STF, há oito anos, Cármen Lúcia mantém um diário, registrando inclusive seus solilóquios durante as sessões da Corte.

Descaso na educação

Priscila Cruz
O Globo

Crianças maranhenses estão atrás do resto do país

O Maranhão é um retrato de absoluto descaso com os mais fundamentais direitos humanos. Para falar só de educação, o estado conta com alguns dos piores indicadores em um país que já não tem indicadores muito bons.

Desde cedo, crianças maranhenses estão muito atrás do resto do país. De acordo com a Prova ABC, ao fim do 3º ano do ensino fundamental, só 27,9% delas são proficientes em leitura, 10% em matemática e 13% em escrita. As médias brasileiras são respectivamente 44,5%, 33,3% e 30%. Ou seja: o Maranhão tem menos de metade dos resultados já ruins do país, sendo que essas crianças estão apenas iniciando a trajetória escolar.

Observando a outra ponta, vemos que, no Maranhão, somente 45% dos jovens de 15 a 17 anos estão matriculados no ensino médio, segundo a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). Apenas 38% dos jovens de 19 anos que conseguiram chegar a essa etapa de ensino no estado a concluíram e, entre eles, só 11,8% aprenderam o mínimo adequado em língua portuguesa, e 1,6% em matemática.

A renda média dos demais 79.576 jovens dessa idade que não têm o ensino médio completo é de menos de 500 reais por mês. O estado está condenando essas pessoas a um ciclo perverso de desigualdade.

No sistema carcerário do Maranhão, palco das atrocidades que chocaram o país nos últimos dias, a cobertura educacional é precária: a taxa de matrícula de pessoas com privação de liberdade era de apenas 5% em 2012, segundo dados do InfoPen (Ministério da Justiça). Aqueles que não chegaram ao fim do ensino médio somavam então 91%, e, entre eles, a grande maioria sequer completou o ensino fundamental.

É urgente que haja maior prioridade, atenção e ação para rompermos a situação de calamidade da educação no Maranhão há anos. Até quando vamos remediar desastres anunciados? Não seria o caso de o Brasil acordar de vez para a importância estratégica e humanitária da educação das nossas crianças e jovens? Resta alguma dúvida sobre qual é a área em que deveríamos estar investindo prioritariamente nossos recursos para mudarmos de patamar e conquistarmos um Brasil que seja realmente de todos?

Entre o urgente e o importante, chegamos ao ponto de ter que lidar com ambos ao mesmo tempo. A vida de muitas crianças e jovens depende de nós — uma parte muito pequena de pessoas privilegiadas que acordam de manhã e pegam o jornal para ler. Depende de nós demandar uma nova prioridade estratégica para o país de olhar o futuro de forma mais generosa para com toda a população brasileira, principalmente para aqueles que, mesmo sendo a maioria, têm pouca voz e influência.

Chegou a hora de a indignação se voltar para os milhões de crianças maranhenses e brasileiras cujo direito à educação é negado.

12 mil universitários no olho da rua

Pedro Porfírio

Dilma recusa federalizar universidades, enquanto Cabral quer detonar UENF, no norte fluminense


Enquanto o governo da presidenta Dilma Rousseff abandona à própria sorte 12 mil universitários da Gama Filho e da Universidade, no Rio de Janeiro, recusando-se a adotar a única medida que  poderia lhes assegurar a preservação efetiva dos seus cursos, o governador Sérgio Cabral, que se faz de desentendido nesse episódio desastroso, trabalha celeremente para destruir a Universidade Estadual do Norte Fluminense, a primeira do Brasil a ter  100% de professores com doutorado, implantada em 1993 por Leonel Brizola sob a inspiração de Darcy Ribeiro.

No caso das duas universidades privadas descredenciadas, o ministro Mercadante, da copa e da cozinha da presidenta, brande impedimentos constitucionais para não federalizá-las, o que é uma grande falácia. Em 2007 mesmo, a Universidade Federal Fluminense incorporou a Faculdade de Odontologia de Friburgo e hoje a antiga escola privada faz parte de sua estrutura.

Falta mesmo é vontade política. Se essas faculdades fossem do amigão Eike Batista, Dilma e Sérgio Cabral já teriam procedido sua encampação, ao gosto do freguês e pagando preços camaradinhas.

A federalização da Gama Filho e da Universidade não é um pleito corporativo dos seus professores e funcionários, mas a única solução razoável para uma crise gestada  há mais de cinco anos.

Foram os próprios reitores das universidades federais no Estado do Rio que sugeriram a federalização, propondo a adoção da mesma fórmula usada no caso da Faculdade de Odontologia de Friburgo.

“Inconstitucional não é, porque o argumento que o aluno não fez o Enem...Há editais de transferência. Professores seriam temporários e depois haveria concurso público”, argumento o reitor da UFF, Roberto Salles.

Mas o governo parece movido sob inspiração de outros interesses, num cenário semelhante ao do caso VARIG, em 2006, quando a mais tradicional voadora brasileira  a leilão sucateada em leilão por 20 milhões de dólares, desprezando plano dos os próprios empregados para mantê-la. Naquele episódio, a TAM (hoje controlada pela LAN chilena) e a Gol (que hoje vai muito mal das asas) foram descaradamente as grandes beneficiadas.

O Ministério da Educação sabe muito bem que essa "transferência assistida" apresentada como saída é uma balela. “Muito dificilmente nós vamos encontrar capacidade ociosa que sirva sob medida. Todas as escolas hoje estão dimensionadas para atender os seus alunos atuais”, alertou Elizabeth Guedes, vice-presidente da Associação Nacional de Universidades Particulares.

Só mesmo um poderoso esquema de interesses mantém o governo federal na sua postura inflexível. O que está em jogo principalmente é o direito de 12 mil estudantes de concluírem seus cursos, em que se matricularam com as garantias inerentes do Ministério da Educação, que não pode fugir de suas responsabilidades. Afinal, eles não jogaram seu destino em nenhuma faculdade informal ou clandestina.

É profundamente lamentável e nauseante essa atitude hipócrita do governo da presidenta Dilma Rousseff, em conluio com Sérgio Cabral, essa figura incompetente, mesquinha e arrogante que está infernizando a  vida dos fluminenses.

Ofensiva contra a UENF pode levar à greve

Cabral desestabiliza Universidade criada
 por Brizola e Darcy  projetada por Niemeyer

O governador Sérgio Cabral, que encabeça uma penca de partidos de todos os matizes, inclusive da ex-esquerda, não para por ai. Seu alvo existencial é a Universidade Estadual Fluminense, cujo maior dolo é ter sido criada por Leonel Brizola e Darcy Ribeiro, contra quem Cabral Filho descarrega seu indisfarçável ódio doentio.

Neste momento, ele trabalha com todo o seu mau caráter para levar os professores da UENF a uma greve, já que há um ano eles vêm sendo engabelados pelo governo do Estado e pelo próprio reitor quanto ao pagamento do adicional de dedicação exclusiva, como denunciou o professor Marcos Pedlowski em seu blog 

"Após passarem o ano de 2013 numa penosa e infrutífera negociação com a Secretaria de Planejamento e Gestão do (des) governo Sérgio Cabral, em assembleia realizada no dia de hoje (16/01) os professores da UENF demonstram um certo cansaço com essa forma “paz e amor” de cobrar seus direitos" - escreveu o professor, ao noticiar a aprovação de um indicativo de greve diante do impasse criado pelo Estado.

E mais: "a proposta do (des) governo Cabral é tão ruim que propõe oferecer 35% de Adicional de Dedicação Exclusiva (enquanto que na UERJ o valor pago é 65%) para, em troca, quebrar a espinha dorsal do modelo institucional da UENF que é ancorada num quadro docente exclusivamente formado por doutores que se dedicam com exclusividade às suas tarefas acadêmicas dentro da instituição".

Há visível má fé na postura de Cabral, uma demonstração de viés político inegável.  Em 2012, a UENF, com seus 16 cursos, foi reconhecida pelo Ministério da Educação como a melhor universidade do Estado do Rio de Janeiro e a 11ª no país com base no Índice Geral de Cursos (IGC) de 2011, no qual são avaliadas 226 universidades. Isso incomoda os prepostos das faculdades de balcão e os eternos desafetos de Brizola e Darcy.

É deplorável que esses movimentos obscurantistas ocorram com a cumplicidade de figuras que vendem a imagem de defensores da educação pública de qualidade e que transitam lépidas e fagueiras no chamado campo progressista.

Todos esses impostores, que vivem assustados com qualquer movimentação dos jovens, vão pagar por tanta ignomínia, e isso não vai demorar muito. As ruas estão aí para acolher mais uma vez os cidadãos no exercício sublime e corajoso de sua indignação.

PT e a nova CPMF

Marcos Cintra (*)
Brickmann & Associados Comunicação

Mesmo sendo um tributo operacionalmente justo e eficiente, a criação da CSS aumenta a carga tributária e permite a continuidade do esfolamento do contribuinte brasileiro. Pesando os argumentos a favor e contra, os parlamentares petistas deveriam abortar a proposta de implantação do novo tributo...

Cerca de vinte deputados do PT querem recriar a CPMF para financiar a área da saúde. O novo tributo, agora chamado de CSS (Contribuição Social para a Saúde), teria uma alíquota de 0,15% sobre o débito das movimentações financeiras, o que garantiria uma receita de cerca de R$ 30 bilhões por ano.

O governo tentou trazer a CPMF de volta em 2011 e não conseguiu. Agora a iniciativa parte de um grupo de parlamentares petistas, cuja estratégia é sedimentar a ideia em 2014 para que o debate ganhe força no Congresso a partir de 2015.

Cumpre dizer que a cobrança da CPMF por cerca de onze anos no Brasil teve um lado positivo ao testar a eficácia de um imposto sobre movimentação financeira, que era então totalmente desconhecido. A experiência entre 1997 e 2007 comprovou que esse tipo de imposto é uma forma eficiente de arrecadação, com enorme potencial de geração de receita e de baixo custo. É um tributo justo, pois elimina a sonegação, fenômeno concentrador de renda nas camadas mais ricas da população.

Cabe lembrar que a CPMF foi repudiada como um tributo a mais a elevar a carga tributária brasileira. Porém, ela seria aceita pela sociedade se fosse instituída como substituta de outros tributos. Levantamento realizado em 2007 pela empresa Cepac-Pesquisa & Comunicação revela que 64% das pessoas a aceitariam se ela substituísse a contribuição ao INSS incidente sobre a folha de pagamento das empresas.

Mesmo sendo um tributo operacionalmente justo e eficiente, a criação da CSS aumenta a carga tributária e permite a continuidade do esfolamento do contribuinte brasileiro. Pesando os argumentos a favor e contra, os parlamentares petistas deveriam abortar a proposta de implantação do novo tributo.

Em primeiro lugar, a CSS deve ser rejeitada porque ela não substitui nenhum dos atuais impostos, que são escorchantes, injustos, distorcivos e ineficientes. Será apenas mais um tributo que irá contribuir para aumentar o arrocho tributário sobre o setor produtivo e a classe média. Além disso, vale lembrar que quando a CPMF foi extinta o governo compensou essa perda aumentando a alíquota do IOF, cuja arrecadação saltou de R$ 5 bilhões em 2007 para R$ 20 bilhões no ano seguinte.

Outro ponto é que o governo precisa fazer uma ampla e radical reforma tributária, e qualquer remendo, por mais necessário que seja, apenas dará mais fôlego para a manutenção da atual estrutura disfuncional. É preciso coragem para desmontar o atual modelo. Dar-lhe continuidade, através de um tributo que será meramente um arremedo para arrecadar mais, serve para manter o sofrimento do contribuinte.

Por fim, manter o atual sistema apoiado em mais um tributo agravará distorções sociais que uma reforma tributária deveria corrigir. Uma das forças concentradoras de renda no Brasil encontra-se na estrutura de impostos, regressiva e vulnerável à evasão. Os ricos encontram brechas para sonegar impostos e a classe média é penalizada de forma compensatória pagando mais tributos sobre os salários e sobre o consumo.

O bom senso indica que a CSS deve ser rejeitada. Louvável seria se esses deputados se articulassem por uma reforma tributária que recriasse a CPMF para substituir tributos como, por exemplo, o INSS patronal, a Cofins e o ICMS. 

Seria um ato em sintonia com as necessidades do país.

(*) Marcos Cintra - É doutor em Economia pela Universidade Harvard (EUA), professor titular e vice-presidente da Fundação Getulio Vargas.

Mais dados fracos

Celso Ming
O Estado de São Paulo

Nesta sexta-feira saiu mais um dado estatístico que aponta para um fraco desempenho da atividade econômica no Brasil também no último trimestre de 2013.

Trata-se do Índice de Atividade Econômica (IBC-Br) levantado e calculado pelo Banco Central. É um indicador que pretende antecipar os principais resultados do PIB, uma vez que os números completos são divulgados apenas trimestralmente e, ainda assim, com um atraso de quase dois meses uma vez concluído o trimestre. Os dados das Contas Nacionais e do PIB do quarto trimestre de 2013, por exemplo, só serão publicados no dia 27 de fevereiro, depois de rodados já dois meses do trimestre seguinte.

Já se esperavam números fracos no IBC-Br de novembro. Mas os que foram ontem anunciados são ainda mais fracos do que os anteriormente projetados: queda de 0,3% na atividade econômica de novembro em relação a outubro e avanço de apenas 2,4% no período de 12 meses.

Enfim, estamos enfrentando mais da mesma mediocridade produtiva já conhecida, mesmo levando-se em conta que, na condição de bastante novo, esse indicador do Banco Central ainda não está perfeitamente calibrado de maneira a antecipar, com a precisão desejada, o que depois as Contas Nacionais do IBGE vão apontar.

A economia brasileira segue tomada por uma síndrome perversa: atividade econômica fraca conjugada com inflação elevada demais e baixo nível de confiança na política econômica, fator que, sozinho, já turbina o pessimismo. Esse quadro é, por si só, anômalo, porque, em todo o mundo, atividade econômica baixa tende a derrubar a inflação, ao contrário do que vem acontecendo aqui.

A reação do governo em relação a esse baixo desempenho da economia tem sido dúbia. Às vezes as autoridades dão a impressão de que apostam na virada do jogo, embora não deixem claro o que pretendem fazer para que isso aconteça. Outras, sugerem, como ainda quinta-feira o fez o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Dyogo Oliveira, que a maior parte do problema se deve a uma comunicação deficiente das autoridades com a sociedade. Por esse ponto de vista, não há distorções, nem na economia nem na política econômica; há baixo nível de compreensão da sociedade e dos agentes econômicos.

Na verdade, o problema é duplo. A comunicação do governo com o resto da sociedade é de fato ruim. No entanto, mesmo se fosse boa, não mudaria as coisas porque não há resultados convincentes a apresentar. Pior, não há disposição do governo de abandonar o conjunto de políticas econômicas que fracassaram por uma modelagem mais confiável.

O que pensar de um governo que não entrega o que promete, nem em atividade econômica, nem em controle da inflação, nem em controle das contas públicas, nem em meta de investimento, nem em equilíbrio das contas externas?

E de que adianta um país ter puxado 40 milhões de pessoas para um padrão melhor de consumo, se o desempenho da economia continua tão ruim a ponto de colocar em risco as conquistas sociais?

CONFIRA: 
A Bolsa brasileira continua sendo um bom medidor do estado de espírito do investidor. É lá que melhor fica refletido o desânimo produzido por uma economia que continua apresentando crescimento baixo com uma inflação que está entre as mais altas do mundo. Em dezembro, o tombo do Índice Bovespa já fora de 1,85%. Só nos primeiros 12 dias úteis de 2014, a queda já é de 4,5% . Enquanto perdurar o baixo desempenho do mercado secundário de ações também não deverá reagir o mercado primário: o de lançamento de ações novas destinadas a levantamento de capital.

A inflação e sua perversa trajetória

Claudia Safatle
Valor 

IPCA acima de 6% às vésperas das eleições preocupa


A trajetória da inflação neste ano é perversa. As expectativas tanto do mercado quanto do governo são de uma variação do IPCA em doze meses muito próxima do teto da meta (6,5%) no terceiro trimestre, período que coincide com o auge da campanha presidencial. Só no fim do ano é que o índice pode cair abaixo de 6%.

Há uma janela favorável para o controle da inflação até abril. Entre janeiro e abril do ano passado, as taxas estavam bastante pressionadas, o que levou o Comitê de Política Monetária (Copom) a iniciar um ciclo de aperto monetário que elevou a taxa Selic, desde então, em 3,25 ponto percentual, de 7,25% ao ano para 10,5% ao ano. Como o IPCA tende a ser mais moderado neste ano até abril, a inflação de doze meses deve cair. Daí por diante os ganhos vão ficar muito difíceis e, entre julho e setembro, a inflação volta para a casa dos 6% ao ano, podendo novamente superar o teto da meta, como os 6,7% de junho do ano passado.

São muitas, ainda, as incertezas que permeiam os dados de inflação para este ano e dificultam as projeções do Banco Central. Não está claro, por exemplo, qual será a política de reajuste dos derivados de petróleo, se haverá aumento da gasolina e se este será antes ou depois das eleições. Não se sabe qual será a conta de energia. O orçamento de 2014 prevê gastos de R$ 9 bilhões com o setor, cifra que se subestimada pressionará os reajustes das tarifas das distribuidoras. A performance dos preços dependerá, também, de qual será a atitude dos prefeitos das capitais em relação às tarifas de ônibus, congeladas desde 2012.

O mais decisivo, contudo, será o comportamento da taxa de câmbio. Em situação normal, não se contaria com uma desvalorização cambial importante após a depreciação acentuada dos últimos dois anos (de 16% em 2012 e de 11% no ano passado).

Os operadores do mercado financeiro, porém, já consideram favas contadas um rebaixamento do grau de investimento do país e da Petrobras pela agência de rating Standard & Poor's neste ano. O que fará diferença no preço atual do câmbio será o que a S&P vai colocar como perspectiva para o país. Se for "estável", menos mal, já está implícito na cotação da moeda. Mas se a agência de rating considerar a perspectiva "negativa", os efeitos podem ser muito ruins, com a saída dos investidores institucionais e um déficit de cerca de US$ 80 bilhões em conta corrente para financiar.

Nem tudo é negativo para a inflação deste ano. Há fatores que vão colaborar, mas é prematuro considerar factível uma ligeira queda em relação ao inesperado IPCA de 5,91% de 2013.

O principal deles é a expectativa de que, finalmente, os alimentos tenham um melhor comportamento depois de vários choques de preços nos últimos anos. A projeção do governo é de que a variação do índice de preços desse setor fique na casa dos 6%, em comparação com os 8,48% de inflação de alimentos e bebidas no ano passado. Uma queda para esse patamar poderia reduzir a inflação anual em 50 pontos base, neutralizando parte do impacto da eventual descompressão dos preços administrados.

Embora o Banco Central trabalhe com um aumento de 4,5% nos administrados, vários economistas de bancos consideram que a variação será menor, de 3,5%, depois da inflação de administrados e monitorados em 2013 ter sido de somente 1,5%.

Outro fator que vai ajudar o Banco Central na tarefa de controlar a inflação é o reajuste do salário mínimo em vigor este mês, de 6,78%, o menor desde que o ex-presidente Lula começou a política de recuperação do valor do salário mínimo, em meados do primeiro mandato.

Há, no governo, quem ainda alimente alguma esperança na contribuição da política fiscal para a contenção dos preços. O Ministério da Fazenda prepara o decreto de contingenciamento do orçamento da União, que deve ser divulgado em fevereiro. Economistas do setor financeiro, no momento, não esperam qualquer auxílio vindo de uma suposta austeridade do gasto público.

É a política de aperto monetário que pode definir o futuro da inflação. O aumento da taxa Selic para 10,5% na quarta-feira mostrou um BC disposto a agir, mas também indicou que o próximo passo do Copom pode ser menor, de 0,25 ponto percentual, com os juros parando em 10,75% ao ano - exatamente a taxa de juros que Dilma Rousseff recebeu de Lula.

Para levar o IPCA a níveis mais próximos da meta de 4,5% - algo na casa dos 5,5% -, a Selic de 10,5% ao ano ainda estaria aquém do necessário, avaliam economistas do mercado financeiro.

Muitas iniciativas oficiais alimentaram a resistência inflacionária: a abertura dos cofres públicos, a expansão do crédito dos bancos federais, a super indexação do salário mínimo, a depreciação do real e os juros insustentavelmente baixos, de 7,25% ao ano, entre outubro de 2012 e março de 2013. Não deu frutos o empenho da presidente Dilma Roussef em concluir o primeiro mandato com taxa de juros reais de 2% ao ano. A taxa real, que chegou ao pouco mais de 1% ao ano, já voltou para a casa dos 4%. Ontem o swap de 360 dias estava pagando 4,67% ao ano.

Cerca de 84% dos investimentos das 18 concessões realizadas pelo governo em 2013 vão ser feitos nos primeiros cinco anos. Segundo cálculos da Secretaria de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda (Seae), os aportes totais, estimados em R$ 80,3 bilhões, devem corresponder a uma média de R$ 13,5 bilhões por ano, nos primeiros cinco anos. A parcela restante, equivalente a R$ 12,8 bilhões, deverá ocorrer no curso das concessões cujos prazos variam de 25 anos a 30 anos, conforme as obrigações contratuais.

Esses investimentos, algo como 0,28% do PIB ao ano, devem ter impulso mesmo só a partir de 2015, pois os contratos ainda estão sendo assinados e os primeiros meses após a assinatura são inevitavelmente dedicados à montagem das empresas e à obtenção de licenças para as obras.