quarta-feira, janeiro 29, 2014

Mentir prá quê?

Adelson Elias Vasconcellos


A senhora Rousseff  já passou dos sessenta anos, é mãe e avó, preside um dos maiores países do mundo com cerca de 200 milhões de habitantes. Diante dos acontecimentos sobre viagem misteriosa à Lisboa, depois dos encontros em Davos, me pergunto: que tipo de exemplo esta senhora pensa estar dando para seus familiares e o povo que governa?

As desculpas esfarrapadas, e mais graves, por serem oficiais, não resistiram em pé sequer 24 horas, Foram desmascaradas pelos fatos, pela verdade que até pode tardar, mas cedo ou tarde, assim como o sol vence a mais densa bruma, ela rompe a barreira do descaramento, da hipocrisia, da mistificação.

A senhora Rousseff precisando explicar-se afirmou que era mentira a notícia de que ela e sua comitiva de nababos tinham passado o final de semana em Lisboa. Incrível, foi a única notícia que não se leu, não se falou, nem se ouviu. 

Depois, com ar cínico e desafiador, afirmou que  ela dera ordens aos seus ministros de que, em almoços e jantares, cada qual pagasse de seu próprio bolso.  Beleza, mas quem irá autorizar a quebra do sigilo bancário da presidente e seus ministros para confirmar se os pagamentos foram, efetivamente, feitos com os próprios recursos? Mais: autorizaria a senhora Rousseff a liberalização de uma prestação de contas de 100% dos gastos feitos pela presidência da república bancadas com o cartão de crédito corporativo, nos últimos seis meses? Sabemos que cerca de 90% destes gastos, que na era Dilma bateram o recorde de despesas,  são mantidos em sigilo, longe de qualquer fiscalização,  por questão absurda e injustificável de segurança nacional, coisa que só se viu durante a ditadura militar.

Não é a toa que as contas públicas são cada vez mais deficitárias. E não se culpem os investimentos, que continuam em queda. São despesas realizadas por uma corte que não tem limites, não guarda respeito algum com o erário público, que corrói a riqueza do país e o impede de crescer sustentavelmente, porque  o fruto desta riqueza é toda desviada para bancar a luxúria, a ostentação e o desperdício de um governo irresponsável.

A senhora Rousseff, no caso específico de Lisboa, sequer precisava mentir. Bastava ter dito a verdade, sem esquivas, sem meias palavras, sem falsear os acontecimentos, e talvez se criticaria apenas o enorme desperdício de se ajeitar em suítes de R$ 26 mil a diária. Mas para esta gente hipócrita não basta apenas torrar dinheiro público, é preciso construir toda uma casca de mentiras para proteger a sua insanidade. Trata-se de uma compulsão doentia.

E, claro, não é primeira vez que a senhora Rousseff, podendo alojar-se nas embaixadas brasileiras no exterior, prefere sugar um pouco do sacrifício feito pelos brasileiros, ricos e muitos milhões de pobres, para pagarem impostos que são desviados para o regalo pessoal de seus governantes, e o enriquecimento desvairado e ilícito de sua classe política. 

Dentro de poucos meses começará a campanha eleitoral para a escolha de um novo presidente. E, provavelmente, Dilma e seu marqueteiro desenharão na propaganda o Brasil com que todos sonham, mas que está muito longe de se alcançar. Mentirão desavergonhadamente sobre realizações, muitas das quais com números manipulados, e outros tantos feitos que ficaram na promessa da campanha passada. Sobre os erros, dirão que a culpa é dos outros, dos ricos, dos países desenvolvidos, inventarão crise onde ela nunca sequer passou perto. Jamais reconhecerão que deterioraram, de forma irresponsável, as contas públicas. Jamais reconhecerão as muitas maluquices arquitetadas pela contabilidade criativa para tornar positivos indicadores que, na realidade, são negativos. Jamais reconhecerão a farra cometida com o dinheiro público, que foi privatizado pelo partido no poder e seus aliados. Nunca o Estado brasileiro arrecadou tanto, nunca a carga tributária foi tão alta e, no entanto, os investimentos se reduzem, os serviços públicos se degradam, a infraestrutura se decompõe, e o capital privado foge de investir dinheiro no Brasil por temer que o preconceito e a ideologia bestial provoquem prejuízos e perda total. Na Era Dilma, investidores no Brasil, estrangeiros e domésticos, já tiveram perdas em seus ativos de mais de US$ 285 bilhões. 

Convido a qualquer petista, por mais fanático que seja, que cite três realizações que levem a marca deste governo medíocre comandado pela senhora Rousseff. Não peço muito, não: é muito pouco pelo montante de dinheiro que este governo já arrancou da sociedade nestes três anos. Se não conseguirem juntar três realizações,  podem juntar no bloco algum serviço público que tenha  grau de excelência, ou ao menos que, ao invés de decair, tenha tido sensível melhora. Nem a inflação este governo consegue manter na meta. Nem a dívida pública se consegue reduzir, pelo contrário. Nunca no Brasil se cometeram tantos homicídios como nos governos petistas. 

De positivo não sobra absolutamente nada para ser indicado. É tudo muito ruim. E, para piorar, ainda se aplica uma mentira oficial sobre uma viagem que nada mais seria se não uma simples passagem de trânsito.

Vejo algum movimento de insatisfação que tem por foco a copa do mundo, sobre a qual já falamos muito. Contudo, considerando-se o conjunto da obra, os gastos com a copa são apenas um pretexto para ficar exposta a enorme insatisfação do povo brasileiro com os rumos que o país vai tomando.  Dona Rousseff até pode ser reeleita em outubro – o que seria um enorme castigo para o país. Mas, certamente, esta reeleição jamais poderá ser tomada pelas virtudes e realizações positivas de seu governo. Urna  alguma vai inocentá-la do péssimo mandato que tem cumprido desde que assumiu. Será, uma vez mais, a vitória da mistificação e o povo terá mais quatro anos de insatisfação e frustração para protestar. 

Para encerrar: a senhora  Rousseff afirmou nesta terça-feira que não perceber a importância da Copa do Mundo é ter "uma visão pequena do Brasil", ao comentar os protestos de rua de grupos contrários aos gastos para a realização do Mundial no Brasil. Ok, mas o governante que não sabe perceber quais as prioridades mais importantes para o país, as põe de lado apenas para satisfazer  o apetite político de poder,  não tem apenas uma visão pequena. Na verdade, não tem é visão nenhuma além do próprio umbigo. 

Sobram discursos, faltam ações.

Adelson Elias Vasconcellos

Há dois assuntos que merecem ser destacados.Mas mesmo que haja um mínimo de interligação, merecem ser analisados em separado. O primeiro é sobre o discurso de Dilma no Fórum  Econômico Mundial, que se realizou  em Davos.  E o segundo foi a fala prá lá de estúpida de Gilberto Carvalho, nada menos que o Secretário da Presidência da República sobre as manifestações de junho. 

Os dois, como é de praxe entre os comensais petistas, parecem misturar ficção e realidade. Na fala espelha-se um mundo surreal, imaginativo, que parece encantar os mais desavisados,  mas que, visto sob o prisma do mundo real, não resistem em pé por mais de 1 minuto. 

Começo pelo discurso de Dilma em Davos. Sobre o senhor Gilberto, vejam o post  anterior. 

A senhora Rousseff parece ignorar que passou três anos esnobando o fórum. E suas lembranças parecem não se tocar que, em seu mandato  o que nunca faltou foi excesso de intervencionismo estatal e mandracaria na economia.

Se há descrédito do país junto aos investidores isto se deve não às crises da Comunidade  Europeia ou os Estados Unidos, ou ainda, como afirmou Guido Mantega, aos países ricos e suas políticas monetárias.. Se deve à falta de compromisso com a seriedade coma política fiscal foi conduzida.  

A China, por exemplo, já há algum tempo fala em reformas. E a principal será a de aumentar a produtividade, visando atender de forma mais prioritária seu mercado interno. Por aqui, nossas autoridades jamais se referiram à produtividade. Sempre se priorizou facilitar o crédito para aumentar o consumo interno. Com uma industria fraca, em desaceleração, só pode dar no que deu: aumento exponencial da importação e, em consequência, redução drástica dos superávits comerciais. 

Também do lado fiscal, este mesmo governo jamais se preocupou em fazer sua lição de casa. Os anúncios de cortes no orçamento, pelo lado das despesas, jamais de ser meras intenções que jamais se concretizaram. Desde 2003, é público notório o aumento gigantesco das despesas correntes, aumento muitas vezes acima da inflação, do crescimento do PIB e da própria arrecadação. Ora, tal desequilíbrio só pode provocar aumento da dívida e, em certas doses, aumento de impostos. 

O governo da senhora Rousseff pode até continuar a peregrinação dos discursos que teimam em culpar os outros pelos problemas criados pela incompetência e improvisação de seu governo.  

Sempre foi visível a má vontade, preconceito e desdém com que este governo tratou o capital. Mesmo nas concessões rodoviárias, foram necessários algumas frustrações com a falta de interessados em alguns leilões, para que o governo se convencesse de que, num mundo capitalista, pretender tabelar lucros da atividade empresarial é afugentar este capital dos planos de governo. No caso dos aeroportos, o governo ainda teima em querer empurrar goela abaixo dos investidores uma INFRAERO ineficiente ao extremo, com sócia, do mesmo modo como fez no leilão do pré-sal, em 2013, do Campo de Libra que, dos 40 interessados iniciais, restaram apenas não mais do que onze. 

Agora, em véspera de eleição, dona Roussseff vai a Davos vender uma vez mais a fantasia do mundo de oportunidades que é o Brasil. De fato, o que não faltam são oportunidades para investimento. Neste ponto, o país é quiçá um verdadeiro Eldorado.  Contudo, cadê as condições para que tais oportunidades para investimentos? Em todos os rankings que medem abertura econômica, competitividade, ambiente de negócios o país sempre aparece na rabeira. Como viabilizar negócios num país em que uma mera licença ambiental demanda dois, três anos ou mais? Como esperar que os investidores se sintam compelidos a se voltarem para o Brasil, quando se precisa suportar uma carga tributária escorchante, uma burocracia asfixiante e uma burocracia infernal?  Em que colocação de eficiência se colocam os portos brasileiros? E como pensar em aumentar produtividade num país em que mais de um terço de seus estudantes universitários são semianalfabetos?  

Nada destes obstáculos é fruto dos desequilíbrios do mundo rico. Todos  poderiam muito bem ser tratados internamente. Mas cadê a prioridade? Cadê o real interesse público em alavancar um projeto de desenvolvimento devotado ao país, e não apenas na manutenção do poder? 

É precisamente disto que se trata: prioridades. E, neste quesito, o que o governo tem a oferecer para que as infinitas oportunidades de investimentos que o país oferece possam se realizar? 

Como disse um investidor estrangeiro ao final do discurso de dona Dilma: as palavras são lindas, o discurso foi bem posto, mas precisamos é de AÇÕES. 

Vem aí a campanha eleitoral e, feito votos de final de ano, mais uma vez vão se repetir as mesmas promessas da campanha passada, promessas que ficaram pelo caminho. 

Fossem os eleitores um pouco mais esclarecidos e provavelmente não entregariam a Dilma Rousseff um novo mandato para não se cumprir um punhado de promessas que não passaram e não passam de engana bobo.   Em quatro anos, Dilma pôs em risco uma estabilidade econômica construída ao longo de 15 anos. Não um único indicador econômico que se apresente como positivo. Todos estão flagrantemente deteriorados, negativos ao extremo.

A senhora acha que suas palavras conseguirão mascarar estes dados.  Sua fala de compromisso com a inflação, por exemplo, não passa de pura balela. Em seus três anos, a inflação nem perto ficou da meta e vai fechar seu primeiro mandato com a inflação mais próxima do teto do que do centro da meta.  Nosso astronômico déficit em conta corrente é o maior desde 1947. Nunca as contas nacionais estiveram tão fragmentadas como agora. E acha a senhora Rousseff que seu discurso marqueteiro conseguirá esconder tal realidade? Uma ova! Investidor não é bobo, tem aversão a risco, e só se aventura quando as condições propícias lhe são dadas. E o governo Dilma está longe de oferecer segurança a quem quer que seja. 

Há outra questão a ser considerada: a tensão econômica que vivem Argentina e Venezuela, não por acaso, dois gigantes do Mercosul, que seguirem fielmente o receituário do tal socialismo do século 21. E que o Brasil não pense que nada lhe vai respingar. São dois mercados estratégicos do ponto de vista comercial. E assim o são por escolhas nossas que insistimos em dar vida a um bloco comercial sem eira nem beira. Desprezamos o restante da comunidade internacional, olhamos com descaso para os mercados dos “países ricos” e até dos emergentes. Nos tornamos dependentes em excesso de um bloco comercial falido, onde, a rigor, só o Brasil consegue por a cabeça para fora. 

Dilma tem pressa, corre agora atrás daqueles para quem deu as costas durantes três anos. Durante este tempo, dormiu e acordou abraçada à ideia estúpida do Estado forte, investindo em seu agigantamento, e cujo peso esmaga a iniciativa privada.

Credibilidade perde-se rapidamente. Reconquistá-la não será tarefa fácil e não como fruto de poucos discursos fáceis e vazios. Precisaremos fazer o que nos cabe, levar adiante reformas que o governo Dilma teima em ignorar e que não indispensáveis para uma vida econômica saudável. Reduzir o tamanho desnecessário do Estado, promover as reformas da previdência, trabalhista, tributária e política, reduzir a sua menor expressão capaz de sustentar um Estado eficiente, as despesas da máquina pública. O que não faltam são muitas gorduras, bastante adiposas, gastos inúteis, montanhas de desperdício, ostentação, luxúria, torração pura e simples de dinheiro público.

Do mesmo modo, os marcos regulatórios do seu plano de concessões deverão ser reexaminados, para deles se expurgar as questões relevantes que tanto afligem os investidores. Além, é claro, de seu partido parar com a besteira de tentar  separar privatização de concessão. Tudo, no fundo, é privatização. Esta besteira ideológica só alimenta mais obscurantismo. E que tal parar de querer tabelar o lucro dos empresários?

Até a eleição de 2014, dá para se fazer muita coisa em favor de uma correção de rumos. Para tanto, é preciso ter a coragem de uma estadista, coisa que falta à Dilma Rousseff, muito embora ela ainda confunda grosseria com coragem.  Porém, não acredito que a presidente vá ter tamanho desprendimento. É mais fácil repetir à exaustão o mesmo discurso vazio que proferiu em Davos, de hoje até outubro.  E achar que todo mundo é cego o bastante para ser enganado com papo furado.  Esta história de que o governo tem compromisso com a austeridade fiscal e com meta de inflação, na prática, como se observa há três anos, não passa de discurso. Afinal, papel aceita tudo, até demagogia ordinária e barata.

Quem acompanha o blog, sabe das muitas advertências feitas para as oportunidades de investimento que estávamos desperdiçando. Com as políticas monetárias tanto da Coimunidade Europeia quanto norte-americana, muitos  bilhões viajaram o mundo a procura de oportunidades. O Brasil poderia ter sido o grande beneficiado. Contudo, o preconceito contra o capital privado sempre falou mais alto, e de certo modo, ainda fala. Não se observou uma iniciativa, por mínima que fosse, para atrair os muitos bilhões de dólares ofertados pelos bancos centrais dos países ricos. O que se lia e se ouvia eram apenas queixumes em relação ao que o governo da senhora Rousseff apelidou de “tsunami monetário”. Usou-se a política monetária dos países em crise como um escudo para mascarar a ineficiência, a falta de projetos, a improvisação constante, a falta de um norte minimamente responsável e focado no desenvolvimento do país e na resolução de nossos problemas e carências, que são muitas.. 

Agora, bancando caixeiro-viajante e de olhos postos nas urnas de outubro, Dona Rousseff vai à cata daqueles que ela ignorou este tempo todo.  Estes, cansados de promessas vazias e discursos fáceis, apenas lhe cobram uma coisa: AÇÃO. Neste sentido, é de se perguntar: o que temos a oferecer? 

Dilma pode até agradar estes esquerdistas estereotipados, verdadeiros papagaios de pirata que recitam uma cantilena melancólica e caquética. O que impressiona não é ela falar as tolices nas quais acredita. O que incomoda é que tem  muitos que ainda dão fé  e festejam o decantado paraíso que, comparado ao inferno, este ainda é mais honesto, pelo menos os chifres estão bem a mostra. Já o outro lado...
   
O PT destruiu o etanol brasileiro
Se o leitor não leu, não perca a oportunidade de ler e refletir sobre o excelente artigo do Xico Graziano, publicado no Estadão, “ETANOL – BECO SEM SAÍDA”, e que reproduzimos no início desta edição.  

De forma sintética, Graziano apresenta a forma como o PT destruiu o etanol brasileiro, da mesma forma como ele vem destruindo a indústria nacional e corroendo a estabilidade econômica tão duramente conquistada.  O país precisando de investimentos aqui dentro, e o PT enviando bilhões de reais para ditaduras na África e Cuba.  Fica claro qual a prioridade desta gente. 

Hoje, fruto de uma política suicida, a Petrobrás está mal das pernas e o Brasil se tornou grande IMPORTADOR do etanol americano. Aliás, mais caro e mais poluente.

Aliás, o PT, quando esteve na oposição, conscientemente, acabou com a produção de cacau na Bahia. Isto aconteceu na década de 80, quando seus militantes espalharam nas plantações uma praga conhecida como “vassoura de bruxa”. Pesquisem na internet para conhecerem melhor e em detalhes esta trama criminosa. 

Esta gente não é apenas farsante e incompetente. É criminosa, também. Não vacilam em atentar contra o país para assaltarem o poder. E a história relaciona dezenas de exemplos do crime organizado para o poder que eles comandam. O resultado foi que o Brasil deixou de ser o maior produtor de cacau do mundo, e viu o pequeno Equador lhe passar à frente.  

Injusto é o retorno zero para a sociedade

Adelson Elias Vasconcellos

Pois não que o senhor Gilberto Carvalho, Secretário da Presidência da República, o segundo mais forte do PT, considerou as manifestações de rua de junho passado, uma injustiça para com o governo?

Vai ver este senhor deve ter uma ideia patética sobre a qualidade dos serviços públicos que o governo entrega à população!

Vejamos. É injusto o povo reclamar da saúde pública, que padece de uma total falta de estrutura, com corredores entupidos de pacientes estirados em macas e colchonetes, a espera do milagroso atendimento de uma reduzida equipe médica? Ou da falta de medicamentos básicos para simples curativos, como se vê na maioria dos hospitais da rede pública? Ou da espera, meses a fio, para a realização de simples exames  laboratoriais? Ou o desespero com muitos procuram a Justiça para mediante uma liminar, conseguirem serem internados?

Tão grave é a precariedade do sistema público que o governo se apressou em antecipar o programa Mais Médicos para tentar dar uma resposta aos protestos. Onde, então, a injustiça?

Deve imaginar o senhor Gilberto que a educação pública brasileira se alinha dentre as melhores do mundo. Porém, conforme aponta a última avaliação do exame internacional PISA, estamos dentre os piores. Cerca de 50% dos jovens estão fora do ensino médio, e pouco mais de 1/3 dos universitários são considerados analfabetos funcionais. A carência de médicos e engenheiros é gritante. E o que se dizer dos salários dos professores? Raros são as unidades da federação que conseguem pagar o mínimo fixado pelo próprio MEC. Segundo a UNESCO, o Brasil é o 8° país com maior número de analfabetos.Onde, então, a injustiça?

Nas fantasias alucinógenas do senhor Gilberto, devem desfilar estradas perfeitas, portos eficientíssimos, aeroportos espetaculares. Segundo dados do próprio DNIT, cerca de 65% das rodovias brasileiras encontram-se em estado precário. Nossos portos são tão ridiculamente ineficientes, que a China chegou ao cúmulo de cancelar alguns embarques de soja por conta da demora na entrega. E os nossos aeroportos, que vivem de puxadinhos,   não sobrevivem a um gargalo fantástico em tempos de demanda aquecida.  Onde, então, a injustiça?

No Brasil dos sonhos do senhor Gilberto, ele deve imaginar um país em que a burocracia estatal é tão mínima que ninguém nota ou reclama. Porém, no Brasil real, tente abrir uma empresa e tê-la com todos registros em ordem. Tente! São mais de 6 meses de via crucis de uma jornada cheia de percalços. A começar, para se obter uma simples licença ambiental de operação. São anos de espera e de uma descomunal paciência de Jó! Onde, então, a injustiça? 

Na maravilha paradisíaca com que o senhor Gilberto supõe viver, há um país onde 100% da população é atendida com água, esgoto, energia elétrica e serviço de recolhimento de lixo. E, no entanto, 50% desta população precisa conviver com o esgoto a céu aberto correndo ao lado de suas casas e o Luz Para Todos, clonagem de programa  semelhante implementado por governo de oposição,  está longe de atingir suas metas. Basta perambular pelas cidades para ver o quanto de lixo é depositado a céu aberto em terrenos e rios. Onde, então, a injustiça?

Também nesta maravilhosa  ilha da fantasia como a que o senhor Gilberto visita em seus sonhos, a população se abastece de modo perfeito.  Afinal, supões o senhor Gilberto, aqui se cobra pouco imposto. E, no entanto, no inferno que se transformou o sistema tributário nacional, não apenas a carga é escorchante, mas, sobretudo, o martírio burocrático penaliza pessoas e empresas de forma retumbante. A começar pela tributação estúpida que é feita na fonte já a partir de 2,46 salários mínimos.  Houve tempo, antes do PT chegar ao poder, que a faixa de isenção do tal imposto ia até 5 salários mínimos. Bons tempos aqueles! Basta saber que, apesar do dólar alto, os brasileiros insistem em ir ao exterior comprar qualquer bugiganga, porque, mesmo com o valor da passagem e dos impostos de importação, tudo acaba bem mais barato do que comprado aqui dentro. Onde, então, a injustiça?

No reino da fantasia chamado Brasil em que o senhor Gilberto imagina viver, o transporte público é da melhor qualidade. São ônibus, trens e metrôs que viajam à velocidade da luz, com todos os passageiros devidamente sentados, podendo se deliciar com boa música ambiental, ar condicionado perfeito e em todos estampando-se um sorriso pleno de satisfação. Verdadeiro êxtase! Porém, há metrôs em construção há décadas! Trens em que uma formiga jamais conseguiria locomover-se tamanho o aperto. E ônibus que mais parecem carroças carregando gado para o matadouro. Claro, todos estes absurdos são regiamente pagos, com tarifas regularmente ajustadas pela inflação. Onde, então, a injustiça? 

Poderia até lembrar ao senhor Gilberto os maltratados aposentados da iniciativa privada, mas seria tripudiar demais sobre os velhinhos.  Poderia lembrar ao senhor Gilberto o estado lastimável em que se encontra o sistema penitenciário, verdadeiras pocilgas medievais. Poderia ainda aquecer a memória do senhor Gilberto que, apesar do aumento brutal da arrecadação de impostos, que o investimento público teima em não sair do lugar. Apesar disto, os gastos para bancar uma corte faraônica, ineficaz e mastodôntica, não param de crescer.  Onde, então, a injustiça?

Injusto é querer que o povo bata palmas para tanta miséria com que se vê cercado, com o retorno zero com que é presenteado por um governo que arranca o sangue da sociedade. 

Injusto é achar que o povo é imbecil o suficiente para não ver nas carências com que é servido mercê os impostos que paga, a falta de gestão, de respeito, de compromisso.

Injusto é ver um  estado inchado, repartindo entre os seus amigos do reino a riqueza produzida com muito suor por tantos miseráveis que habitam esta terra amada e rica, com um povo faminto de governos eficientes e que trabalhem pelo seu bem estar. 

O senhor Gilberto Carvalho, como se vê, perdeu uma grande oportunidade de manter a boca fechada.    E mais: não pode ignorar o sagrado direito que o povo brasileiro tem, por viver numa democracia, de protestar contra seus governantes. De exigir que lhe seja dada atenção e respeito para que os serviços públicos essenciais tenham a qualidade equivalente ao que ele arca com impostos. Injustiça é achar que o povo não pode reclamar apenas porque o governo é petista. Aí, neste caso, já estamos diante de um caso delicado e febril de patologia mental.

Duas coisas que o senhor Gilberto deve entender: a primeira, o protesto não é exclusividade do PT, coisa que, aliás, eles fizeram e abusaram muito quando na oposição. E, a segunda, é que, não é pelo fato de existir um  Bolsa Família que o povo brasileiro perdeu seu direito de ir às ruas reclamar contra o governo de plantão. É bom que se diga que o dinheiro do programa não sai do bolso dos petistas. É o próprio povo quem banca a festa.  Como, ainda, o programa não pertence ao PT, e sequer ele é sua criação. É a junção de cinco outros programas sociais que foram criados antes do PT chegar ao poder. E nele havia 6 milhões de famílias beneficiárias além de outras 6 milhões  de famílias devidamente cadastradas.  E, nem  por conta disso, seus criadores fizeram uso político e eleitoreiro dos programas como parece pretender o senhor Gilberto. 

Ou será que o senhor Gilberto acha que, pela existência do programa, com os R$ 70,00 distribuídos a cada um, são suficientes para calar a consciência do povo pobre? Se for assim, está na hora do senhor Gilberto reaprender na Bíblia que orienta que a mão direita não saiba o que dá a mão esquerda. 

E, para encerrar, destaco que, para o senhor Gilberto, qualquer movimentação popular, seja para festejar qualquer coisa, - casamento, aniversário, nascimentos – ali somente ele percebe luta de classes, exclusão, preconceitos.  Ao comentar sobre os rolezinhos, chegou à extrema estupidez de afirmar que “Da mesma forma que os aeroportos lotados incomodam a classe média. Da mesma forma que, para eles, é estranho certos ambientes serem frequentados agora por essa ‘gentalha’ (…). O que não dá para entender muito é a carga do preconceito que veio forte. (…) As pessoas veem aquele bando de meninos negros e morenos e ficam meio assustadas. É o nosso preconceito“.

Dentre as muitas heranças malditas que as esquerdas, especialmente o PT, irá deixar para as futuras gerações, é esta cisão social. Mesmo que no sentimento mais interior das pessoas não haja nenhuma espécie de  preconceito, o país será rachado em várias “raças”: pobres contra ricos,   nortistas contra sulistas, patrões contra empregados,  negros contra brancos, índios contra os não índios. Qualquer agitação que houver e, pronto!, sempre haverá um “pensador” boçal, tenha ele a formação que tiver, para dar um parecer buscando identificar as razões com base no enfrentamento  destas “raças”. E, contudo, o que temos é um único povo, todos pertencentes a uma só raça – a humana -, todos irmanados sob o espírito de uma única nação. Esta divisão irracional pretendida pelos petistas visa unicamente beneficiar seu discurso irracional, atraindo os menos esclarecidos para seu lado. É parte de seu projeto hegemônico, é parte de seu jogo político. 

Colocado sob as luzes da realidade, sem o fetichismo maquiavélico da cisão, o discurso cai no vazio. Não resiste em pé diante daquilo que a realidade exibe. Nos rolezinhos, e apenas para ficar num exemplo, havia garotos e garotas de todos os tipos, cores e classes. Mas somente o senhor Gilberto viu ali preconceito, quando aquilo não passava de farra jovem – natural para aquela faixa de idade-; viu exclusão onde o que havia, de fato, era todos com todos, e não todos contra alguns. E, a saber-se, todos frequentam shoppings na boa, malandro, tais locais são seu centro de lazer e, para alguns, seu universo preferido. Fazer uso político como se tentou é um atentado à tolerância, à inteligência e à sensatez. 

Como já disse outras vezes, todos os esquerdistas tem desvio de caráter. Uns mais, outros menos. Mas alguns, e incluo o senhor Gilberto neste grupo, além do desvio de caráter, tem disfunção cerebral, são psicóticos, veem o mal onde ele sequer foi pensado, criam fantasias de lutas de classes onde há uma única classe.  Para quem   se declara católico fervoroso, o senhor Gilberto falta ao compromisso de se tornar um cristão verdadeiro . Não basta ler e conhecer o texto bíblico, senhor Gilberto, é preciso praticar o que ali se ensina.  

“Não fui eu”

J.R. Guzzo
 Revista VEJA

A presidente Dilma daria um enorme passo adiante se deixasse entrar na própria cabeça a ideia de que um fracasso é apenas um fato, e não um julgamento moral

Nada como o fracasso para trazer à luz do sol alguns dos defeitos mais desagradáveis que o ser humano esconde nos subúrbios distantes da sua alma. Diz-me como lidas com teus fracassos, e eu te direi quem és — eis aí o resumo da ópera, numa adaptação do velho provérbio sobre as más companhias. De fato, é quando as coisas complicam que fica mais fácil dividir o bom do mau caráter. Personalidades construídas com material de primeira qualidade sabem que o fracasso, em si, não é fatal; é apenas o resultado dos erros de julgamento de todos os dias, e, portanto, deve ser enfrentado com a disposição de fazer mudanças, adquirir mais conhecimento, ouvir mais gente e assim por diante. Mas sabem, também, que o fracasso pode ser um pecado mortal quando o seu autor não admite que fracassou, ou nega que tenha havido realmente um fracasso, ou, pior que tudo, põe a culpa do fracasso nos outros. Seu mandamento principal é uma frase muito ouvida nas salas de aula infantis: “Não fui eu”. São pessoas fáceis de encontrar. Um dos seus habitats é o governo.

A presidente Dilma Rousseff, por exemplo, não perde nenhuma oportunidade de dizer “não fui eu”. O ano de 2013, para ir direto ao assunto, foi uma droga. O PIB cresceu abaixo de 2,5% — quase metade do que o governo tinha prometido no começo do ano. O saldo da balança comercial teve o pior resultado desde 2000, com uma queda de quase 90% em relação a 2012. Num tipo de molecagem contábil cada vez mais comum, registrou-se como “exportação” a venda de equipamento que nunca saiu do território nacional. Em dólar, mesmo, não entrou um centavo no Brasil. Mas no papelório oficial consta o ingresso de quase 8 bilhões, sem os quais, aliás, teria havido déficit na balança de 2013. Outros truques parecidos fazem do Brasil um aluno promissor da Escola de Contabilidade Cristina Kirchner.

Pela primeira vez em dez anos, caíram as vendas de carros. O contribuinte pagou 1,7 trilhão de reais em impostos — a maior soma de todos os tempos. Os brasileiros gastaram cerca de 25 bilhões de dólares no exterior, quatro vezes mais do que os estrangeiros gastaram aqui — e qual a surpresa, quando ficou mais barato comprar um enxoval em Miami do que em Botucatu? A maior empresa do Brasil, a Petrobras, teve um desempenho calamitoso: em apenas um ano, de 2012 a 2013, foram destruídos 40 bilhões de reais do seu valor de mercado. O Brasil (que Lula, em 2006, proclamou “autônomo” em petróleo, e já pronto para “entrar na Opep”) importou 40 bilhões de dólares em petróleo e derivados em 2013.

A presidente, cada vez mais, dá a a impressão de estar passeando num outro planeta. Segundo Dilma, 2013 até que foi um ano bem bonzinho, e o que pode ter acontecido de ruim não foi culpa dela, e sim da “guerra psicológica” que teria sofrido. Foram condenados, também, os “nervosinhos” — gente que, segundo o ministro Guido Mantega, fez cálculos pessimistas para as contas públicas de 2013. Veio, então, com uns miseráveis decimais acima das tais previsões — que, de qualquer forma, ficaram muito abaixo da meta prometida. Os juros foram a 10,5% ao ano, a inflação voltou a roncar e o Brasil pode perder o seu sagrado “grau de investimento” em 2014.

A estratégia econômica resume-se hoje a repetir a ladainha de sempre sobre o desemprego de “apenas 4,6%”, que na verdade parece ser de 7%, e o aumento de renda que levou “milhões de brasileiros” a sair da miséria e subir à “classe média”. Chega a ser piada de humor negro misturar dados de desemprego no Brasil e em países do Primeiro Mundo, para vender a ilusão de que “estamos melhor que eles”. O que adianta isso, quando o abismo entre nosso bem-estar e o do mundo desenvolvido continua igual? Da “subida social” dos brasileiros, então, é melhor nem falar. Falar o quê, quando o governo decidiu que faz parte da classe média todo cidadão que ganha de 291 reais por mês a 1019? A presidente quer que acreditemos no seguinte disparate: a pessoa entra na classe média se ganhar menos da metade do salário mínimo por mês; se ganhar 1020 reais, já fica rica.

A presidente Dilma daria um enorme passo adiante se deixasse entrar na própria cabeça a ideia de que um fracasso é apenas um fato, e não um julgamento moral. Ninguém se torna um ser humano melhor porque acerta, ou pior porque erra. Mas no Brasil o que vale não é enfrentar o fracasso lutando pelo sucesso. Melancolicamente, o que funciona é negar a derrota e chamar a marquetagem para dar um jeito nas coisas. O resultado são anos como 2013.

Delícias do poder

José Casado
O Globo

Gastos com luxo e mordomias nas viagens de Dilma Rousseff são encobertos pelo manto do sigilo, em nome da ‘segurança nacional’

Varandas privadas oferecem uma panorâmica com o casario à beira do Tejo, o Castelo de São Jorge, erguido por D. João I em homenagem ao padroeiro de cavaleiros e cruzadas, e a alameda relvada do parque Eduardo VII, imaginada na prancha de racionalismo do arquiteto Francisco Keil do Amaral durante a ditadura salazarista.

Mármore e mogno separam ambientes em duas centenas de metros quadrados, até o banheiro privado com hidromassagem. O elegante mobiliário da coleção Espírito Santo, as tapeçarias Portoalegre criadas por Calvet e António, e os cabides de seda acolchoados nos armários, entre outros detalhes, completam a sedução da suíte em que se abrigou Dilma Rousseff por uma noite em Lisboa, sábado passado.

Foi uma “escala técnica obrigatória”, justificou a Presidência. Na versão oficial, Dilma optou pelo majestoso Ritz, inaugurado há 54 anos pelo Rei Humberto de Itália e os príncipes de Saboia, porque o prédio do século XVII onde funciona a embaixada brasileira não podia receber a comitiva de três dezenas de assessores. A diária na tabela do hotel é de R$ 26 mil, anotou o repórter Jamil Chade. Equivale a 36 salários mínimos.

Talvez esse valor não seja excessivo, se comparado a algumas outras despesas da presidente. Em Paris, em dezembro de 2012, o governo gastou R$ 30 mil (41 salários mínimos) apenas com a instalação de linha telefônica na suíte de Dilma e no quarto do seu ajudante de ordens. Essa conta não inclui o serviço de telefonia.

Aparentemente, as escalas (“técnicas e obrigatórias”) mais caras foram as da viagem presidencial à China, em abril de 2011. Na ida, Dilma passou 24 horas em Atenas. Custou R$ 244 mil (344 salários mínimos) — ou seja, mais de R$ 9 mil por hora. Na volta, parou em Praga. Gastou R$ 75 mil (103 salários mínimos). Oito meses depois, em dezembro, ela esteve em Cannes para uma reunião de chefes de Estado do grupo dos 20 países mais desenvolvidos. Ao partir, um diplomata pediu recibo do pagamento de R$ 4.500 (mais de seis salários mínimos) em fotocópias.

Em março do ano passado Dilma foi à missa no Vaticano, a primeira celebrada pelo Papa Francisco. Preferiu hotel à estadia na embaixada brasileira, instalada no Palácio Pamphili, de 363 anos. Pagou-se R$ 204 mil (282 salários mínimos) pelo aluguel de 30 veículos da Rome Vip Limousine. O conta total da viagem beirou meio milhão de reais. Em seguida ela foi a Caracas, para o cerimonial fúnebre de Hugo Chávez. A volta a Brasília no jato presidencial teve um bufê Meliá faturado em R$ 7 mil (9,6 salários mínimos).

A Presidência mantém um contrato de R$ 1,9 milhão (2.600 salários mínimos) para serviço de bordo dos seus aviões, informa a ONG Contas Abertas. Neste mês recebeu aditivo de R$ 160 mil (220 salários mínimos). O cardápio da RA Catering inclui canapês de camarão e caviar, coelho assado, rã e pato, entre outros itens.

Diante dos gastos de R$ 11 milhões (15 mil salários mínimos) em 35 viagens entre 2011 e 2012, o Itamaraty recebeu ordens para resguardar como confidenciais todas as despesas de Dilma e assessores, como registrou o repórter Vitor Sorano. Duas semanas atrás, a Presidência reafirmou a classificação.

E, assim, o 29º ano da redemocratização começou com as delícias do poder encobertas pelo manto do sigilo. Como sempre, em nome da “segurança nacional”.

E bonito por natureza.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

1 - O delegado-chefe da Delegacia de Polícia da Grande Natal, Rio Grande do Norte, foi filmado quando levava uma jovem, menor de idade, ao Motel L’Amour. Usou viatura oficial descaracterizada, para uso exclusivo em serviço.

2 - Após a inauguração do Estádio das Dunas, em Natal, alguns convidados foram bebemorar. Caíram numa blitz da Lei Seca. Um envolvido disse ser sobrinho da governadora Rosalba Ciarlini, PFL (que, condenada em outro caso, perderia o mandato no dia seguinte). Não adiantou: perdeu os pontos e a habilitação.

3 - Assaltaram um promotor público em São Paulo, na Cidade Universitária, e levaram sua bicicleta especial, de R$ 20 mil. O promotor recuperou-a em seguida. Segundo disse, alguém que conhecia os líderes da favela próxima reclamou e os ladrões tiveram que devolver a bicicleta. Segundo o portal UOL, um funcionário da Cidade Universitária conhecia os ladrões e negociou a devolução. Pediram R$ 5 mil, deixaram por R$ 2 mil. O promotor diz que nada pagou.

4 - Guerra amorosa no PT do Acre: o secretário-executivo da Secretaria de Direitos Humanos do Estado descobriu que a ex-esposa tinha antigo relacionamento com o principal articulador político do governador Tião Viana. Irritado, quebrou os vidros do carro dela; e, segundo a ex-esposa, que deu queixa na Delegacia da Mulher, agrediu-a. A Polícia investiga. O governador Tião Viana, PT, mandou abrir inquérito e, por via das dúvidas, afastou o acusado do cargo. Como o Ricardão não se envolveu em nenhum episódio de violência, continua firme.

O sertão vai virar mar... 
A Polícia entrou na região que concentra viciados e traficantes de crack em São Paulo e prendeu quatro traficantes. Bom? Não: petistas acusam a Polícia de atrapalhar a Operação Braços Abertos, da Prefeitura, que contratou viciados para varrer calçadas, colocou-os em hotéis e lhes paga R$ 15 diários - que eles, conforme já disseram, gastam em crack. OK, é uma visão do problema. Mas, se a Polícia não pode prender traficantes na área, isso significa que se criou um território livre, acima das leis, onde traficantes estão livres para atuar. Tratar viciados, certíssimo; mas traficante tem é de ser preso. Aliás, se a Polícia não agisse, sabendo da presença de traficantes, estaria cometendo crime de prevaricação. 

...e o mar virar sertão
O futuro ministro da Saúde, Arthur Chioro, é dono de empresa de consultoria na área de saúde; e por isso teve problemas com o Ministério Público ao exercer a Secretaria da Saúde de São Bernardo. Mas, diante da perspectiva de assumir um cargo federal, arranjou uma solução: passou sua empresa de consultoria, a Consaúde, para o nome da esposa. 

Um especialista em Direito Administrativo, o professor Tito Costa, acha que não adianta: que a irregularidade continua. Na opinião de Tito Costa, "a manobra é no mínimo antiética e pode trazer problemas". Tito Costa foi prefeito de São Bernardo e um dos primeiros políticos a dar apoio, pessoal e jurídico, a Lula, um jovem líder sindicalista que surgia no ABC.

Boa notícia... 
A coisa está passando despercebida, mas tem potencial para mudar toda a maneira brasileira de fazer política: na quarta-feira, dia 29, entra em vigor a Lei 12.846/13, ou Lei Anticorrupção. A lei se baseia em instrumentos semelhantes que mexeram com empresas e campanhas eleitorais nos Estados Unidos e Europa. Exige, por exemplo, uma "postura ética" por parte de empresas públicas e particulares. Besteira? 

Falava-se isso no Exterior; mas foi o que levou multinacionais a revelar fatos como o cartel do Metrô e dos trens metropolitanos em São Paulo (e que permitiu à Justiça suíça investigar gigantes multinacionais como a Alstom e a Siemens).

É com base em leis semelhantes que ficou muito mais difícil esconder fortunas no Exterior, mesmo em paraísos fiscais, e lavar dinheiro para posteriormente repatriá-lo. E é por isso que determinados cidadãos não podem colocar os pés fora das fronteiras de seu país, sob risco de prisão imediata.

...se pegar
Leis podem ser aplicadas com rigor, ou não (e, no Brasil, há ainda a tradição do deixa pra lá). Há também certos problemas que, no Exterior, foram pelo menos amenizados, e que aqui terão de ser tratados. A lei exige, por exemplo, pagamento correto dos tributos, sob pena de uma série de penalidades, fora as já previstas para sonegadores. Mas a legislação tributária brasileira é tão confusa que permite diversas interpretações. Como definir se houve divergência de interpretações ou vontade de sonegar? E é preciso manter uma certa estabilidade na legislação. 

De qualquer forma, com defeitos e tudo, uma lei como essa pode pelo menos começar a inibir comportamentos nocivos até agora habituais.

Para quem vale
O Ministério Público Federal recomendou que todas as rádios do país sejam fiscalizadas imediatamente. Em São Paulo, 16 rádios comerciais foram fiscalizadas e, destas, 12 estavam em situação irregular. Vai pegar gente grande: há emissoras com licença para operar em cidades pequenas que instalaram suas antenas na Avenida Paulista, em São Paulo; há emissoras instaladas em área de preservação permanente e operando de forma clandestina. 

Briga boa: são grandes grupos.

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

O governo, a Copa e a rua

O Estado de S.Paulo

Para blindar o projeto de reeleição da presidente Dilma Rousseff - e tão somente por isso - o Planalto, com o PT a tiracolo, busca um plano que detenha o eventual alastramento pelo País dos prováveis protestos contra a realização da Copa. Teme-se um clima de crispação social capaz de contaminar as urnas de 3 de outubro, nada menos de 115 dias depois da final de 13 de julho. A extensão desse período parece indicar que os receios palacianos são exagerados: é tempo demais para que os presumíveis protestos continuem crepitando a ponto de abrasar a conquista de um segundo mandato por Dilma. Mas, destoando dessa vez do padrão trôpego de sua gestão, ela resolveu não brincar em serviço.

Reuniões semanais em palácio, com rodízio de participantes e dois nomes fixos - o do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e o seu colega do Esporte, Aldo Rebelo -, se preocupam antes de tudo com um replay dos dias de junho. Foi a absurda repressão policial a uma marcha de protesto em São Paulo contra, entre outras coisas, o aumento das passagens de ônibus, que propagou as passeatas pelo País inteiro, já então marcadas pela violência de parte a parte. Dos encontros saiu a decisão de uma conferência entre o ministro da Justiça e os secretários de Segurança dos 12 Estados-sede da competição para a elaboração de um protocolo único de atuação policial em face das manifestações.

A primeira delas já tem data e lugar. Convocado pelas redes sociais, sob a hashtag #naovaitercopa, um ato terá lugar este sábado, no vão livre do Masp, na Avenida Paulista. Diferentemente dos primeiros ativistas de junho que, antes de tudo, queriam era falar, ou melhor, exclamar - daí a mistura desencontrada de demandas que levavam consigo e a inexistência de comando único que as enfileirasse -, os anti-Copa têm uma agenda focada nos direitos dos grupos sociais que teriam sido ou poderão ser ignorados em razão do campeonato. Por exemplo, famílias desalojadas, ambulantes e moradores de rua removidos. O movimento é conduzido por um Comitê Popular da Copa.

Ainda assim, o diálogo do governo com os seus porta-vozes é espinhoso. Não só pelo irrealismo de algumas de suas exigências - a desmilitarização das polícias e a revogação da Lei Geral da Copa -, mas pela certeza de que não estão interessados em chegar a um compromisso que permita a realização tranquila da "Copa das Copas", que Dilma lançou na sua página no Twitter. O termo será a hashtag com a qual o PT tentará bater os adversários nas redes. De mais a mais, como se viu nos idos de junho, o governo não sabe lidar com o que o secretário-geral da Presidência, ministro Gilberto Carvalho, equipara impropriamente aos "movimentos sociais" de sua alçada, que têm nome, sobrenome, história e reivindicações estabelecidas - valham o que valerem.

Daí, além do problema de conversar o que, com quem, há a incógnita sobre o estrago que os improváveis interlocutores poderão efetivamente causar quando os olhos do mundo, como diz o clichê, estarão voltados para o Brasil. Se o Estado recorrer à mão pesada para garantir a paz pública e a realização dos jogos, Dilma poderá se reeleger do mesmo modo - afinal, a massa dos seus eleitores quer é participar da festa da Copa -, mas a imagem da presidente e do País sofrerá no exterior. O caminho mais sensato para o governo é o da cautela. Isso significa achar o ponto de equilíbrio entre preservar a ordem e deixar aberta a válvula do protesto para prevenir uma reação em cadeia.

Hoje em dia, o desejo de expressão coletiva cria seus próprios canais, rejeitadas as formações calcificadas como as organizações verticais, os sindicatos, os partidos. Até o rolezinho, uma atividade que de protesto não tem nada, e muito de integração nesses espaços de convívio de jovens que são os shopping centers, transita na via estreita entre a diversão e a baderna. Enquanto não mudar de mão, é legal e não pode ser reprimido, assim como não se pode barrar a entrada de quem foi ao lugar dar um rolê. Uma tendência dessas iniciativas é a sua volatilidade. Elas tanto podem cair na rotina ou se disseminar, já com outras características. A Copa é uma razão a mais para se trocar a truculência pela prudência.

Caçadores da credibilidade perdida

Alexandre Schwartsman
Folha de S. Paulo

Diante do fracasso de sua política, o BC tenta, tardiamente, recuperar a credibilidade perdida

O BC surpreendeu os analistas ao elevar a taxa Selic para 10,50% ao ano na semana passada, enquanto a projeção da maioria (e minha também) era 10,25% ao ano. Só não chegou a ser uma surpresa completa porque os preços prevalecentes às vésperas da reunião do Copom embutiam uma probabilidade grande (mas não a certeza) do aumento de meio ponto percentual.

Com esse resultado, é bastante provável também que a Selic, ao final deste ciclo de aperto monetário, atinja 10,75% ao ano, o mesmo nível observado no início do atual governo, se não ainda um pouco mais elevada (talvez 11% ao ano).

Descontadas as (elevadas) expectativas para a inflação nos próximos 12 meses, a taxa real de juros se encontra ao redor de 4,5% ao ano, bastante superior aos 2% ao ano estabelecidos pela presidente como objetivo para seu governo, mas insuficiente para domar a inflação, que teima em permanecer na casa dos 6% (ou mais).

Precisamente em razão da resistência da inflação se espera que o BC seja forçado a um segundo ciclo de elevação da taxa de juros, devidamente passadas as eleições.

Para um governo que se propôs a fazer o país crescer forte, com inflação na meta e juro de 2%, os resultados observados nos últimos anos (todos sabemos, mas vale repetir: crescimento medíocre, inflação alta e sendo forçado a voltar atrás no seu objetivo de juros) deveriam levar a uma reflexão profunda acerca dos rumos de política econômica. Como não há a menor chance de que isso ocorra, ofereço as minhas ponderações, sem, é claro, nenhuma esperança de que sirvam para o aprendizado dos (ir)responsáveis de plantão.

Conforme alertei quando o BC promoveu o “cavalo de pau” na gestão da política monetária, em agosto de 2011, a redução na marra das taxas de juros nos custou muito. Mesmo com o “apito amigo” (a mudança no cálculo do IPCA, que reduziu o índice em 0,7% em 2012 e, mais recentemente, os contro- les dos preços administrados), a inflação não convergiu à meta. Pelo contrário, a tendência tem sido de aceleração.

Ademais, ao continuar reduzindo taxas de juros com a inflação em alta, o BC conseguiu demolir a credibilidade conquistada em anos anteriores. As expectativas de inflação, que antes se agrupavam ao redor da meta, hoje se situam confortavelmente acima dela, algo como 1,5 ponto percentual em 2014 e 1 ponto percentual no ano que vem. Apenas esse desenvolvimento já forçaria o BC a trabalhar com uma taxa de juros entre 1 e 1,5 ponto percentual a mais do que seria requerido caso tivesse mantido as expectativas sob controle, mas o impacto não se encerra aí.

Ninguém sabe o valor preciso, mas estima-se que, para trazer a inflação de volta à meta (e apenas ao fim de 2015), o BC teria que elevar a Selic para mais de 12% anuais ainda no primeiro semestre deste ano. Em contraste, se tivesse feito seu trabalho quando havia tempo e credibilidade para tal, hoje muito provavelmente poderia manter a Selic abaixo de 10% ao ano com a inflação controlada.

Não o fez por subserviência a um governo voluntarista que acredita dominar todos os botões necessários para controlar o funcionamento da economia, da taxa de juros ao retorno requerido pelos empresários na operação dos seus negócios, passando, é claro, pela taxa de câmbio “Cachinhos de Ouro”, nem quente o suficiente para acelerar a inflação nem fria o bastante para desestimular a indústria nacional.

Diante do fracasso retumbante de sua política, o BC tenta, tardiamente, recuperar a credibilidade perdida. No entanto os limites à sua ação ficam claros na própria comunicação aos mercados. Ao sugerir que sua atitude mais dura se limita ao atual momento e evitar um compromisso mais forte com a meta de inflação, o BC revela não dispor da autonomia para fazer o necessário no campo da política monetária.

Da mesma forma que em 2011, tal política ainda há de nos custar caro, mas certas lições parecem nunca ser aprendidas.

Tributação do IOF – inoportuna, obsoleta e falha

 Roberto Luis Troster
O Estado de S. Paulo

A elevação da alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para cartões pré-pagos, saques no exterior e cheques de viagem, entre os feriados de Natal e ano-novo, puniu brasileiros fora do País com 6% adicionais em seus gastos.

A medida complementa outra anterior que aumentou o IOF nas transações com cartões de crédito internacionais. O objetivo das duas altas é reduzir o déficit na conta turismo com o resto do mundo, dificultando o fluxo de saída de brasileiros ao exterior e compras fora do Brasil.

Considerando que as diferenças de preços para alguns produtos são superiores a 100%, poderiam subir a alíquota em 16%, ou até em 36%, que as viagens para comprar fora continuariam.

O imposto é perverso, perde-se mais do que se arrecada com ele e agrava, em vez de aliviar, o déficit de turismo. É a mesma estratégia adotada para a indústria, que é dificultar a importação em vez de aumentar a exportação. Não funciona, a cada ano piora a balança com o resto do mundo.

O número de turistas brasileiros que vão ao exterior aumenta a um ritmo maior do que o dos que vêm conhecer as belezas daqui. Com isso o déficit só aumenta. O Brasil tem 6% do território mundial, com atrações extraordinárias e um povo hospitaleiro. Mesmo assim, não consegue atrair 1% dos viajantes do mundo.

Há claramente um descompasso entre a oferta e a demanda. Mantida a proporção território e visitantes, e fazendo os ajustes necessários, o Brasil poderia aumentar muito o fluxo de visitantes estrangeiros. Note-se que o turismo é uma indústria que não polui, é intensiva em mão de obra, usa insumos nacionais, não esgota os recursos naturais e exige baixos investimentos.

A medida mais importante para fomentar o turismo no Brasil é a organização da Copa do Mundo de Futebol este ano. Estão sendo gastos dezenas de milhões de reais. Todavia, se ajustes não forem feitos rapidamente,o efeito pode ser negativo, o País pode ficar com má fama e espantar, em vez de atrair, visitantes para aqui.

Este mês, a CNN Travei, empresa de jornalismo de turismo, classificou o Aeroporto de Guarulhos como o pior entre os maiores do mundo. O destaque é que não foi pela falta de investimentos, mas, sim, pelo mal gerenciamento: filas de imigração longas, falta de pontos de energia, mudanças de portões de embarque, atrasos nos voos e preços caros nas lanchonetes.

Ao sair de Guarulhos, a percepção não melhora: o ônibus do aeroporto para o terminal de metrô é seis vezes mais caro que o da rodovia que passa em frente. Se tentar ir ao Rio de Janeiro, uma passagem de avião, em determinados momentos, é mais cara do que uma para Miami.

O estrangeiro que quiser gastar seus dólares (ou outra moeda) terá como primeira surpresa a de que tem de pagar o,38%de IOF para trocar seu dindin pela moeda nacional. Será tributado de novo na saída, para converter os reais que sobraram. E óbvio que se sentirá extorquido com o tributo.

Se optar por não trocar e pagar as contas em dólares, terá dificuldades, verá que são raros os locais que aceitam moeda estrangeira. Enquanto no exterior, onde há muito turismo de brasileiros, há placas com os preços em reais e eles são aceitos com sorrisos, aqui, o uso de divisas estrangeiras tem restrições operacionais.

É importante para quem lida com turistas poder depositar os dólares (não ter de colocar embaixo do colchão), ter troco, guardar os recursos para pagar comissões no exterior, quando for o caso. Mas não pode. Bancos no Brasil, diferentemente de outros países, não podem ter contas em divisas. Outra incoerência.

Há mais problemas com o IOF. Um é que é um imposto só para pobres. A partir de um determinado volume, é possível abrir uma conta no exterior, transferir legalmente os recursos pagando 0,38%, apenas, e ter cartões de crédito e de débito e fazer saques sem pagar os 6% adicionais. Ocorre algo semelhante com investimentos, em que o pequeno investidor tem mais barreiras que o grande.

Outra distorção é que, como a alíquota para o papel-moeda é menor, a alta do imposto induz ao papel-moeda, mais vulnerável, informal e arriscado.

O IOF no câmbio é um imposto ruim, o que o governo arrecada com ele é menos do que perde com a redução do turismo. Algo parecido com o que ocorre com seu impacto no crédito, outra aberração que faz com que a cunha bancária (spread) aumente para juros mais baixos e operações menores.

Conclusão,o IOF é inoportuno, obsoleto e lalho. O quadro institucional do mercado de câmbio no Brasil piora ainda mais seu impacto, com a proibição de contas em divisas, a dinâmica na formação de preços e restrições operacionais. O que fazer? Mudar. O Brasil tem condições de ter um superávit na conta turismo, e três medidas podem começar a fazer diferença. Há mais.

A primeira é eliminar o IOF no câmbio e no crédito. O dinheiro é um insumo intermediário e a literatura prova que se arrecada mais tributando consumo final.

Uma mudança conveniente seria uma reforma institucional abrangente no mercado cambial (por que não em todo o mercado financeiro?). A atual é um freio, em vez de ser um propulsor para o País. Ha ganhos consideráveis com mudanças adequadas.

O mais urgente é melhorar o acolhimento aos turistas. Algumas medidas simples e baratas podem ter um impacto grande, como colocar mais agentes nos guichês de imigração, melhorar o controle de voos e proibir as redes de lanchonetes de cobrar mais no aeroporto do que na cidade.

Pôr uma linha de ônibus do aeroporto até uma estação do metrô a um preço razoável e com uma frequência maior ajudaria a melhorar a percepção dos turistas e contribuiria para descongestionar o estacionamento. Aumentar o número de táxis e reduzir seus preços são complementos oportunos.

O Brasil tem encantos mil, vamos compartilhar!

O meu preconceito

Percival Puggina

Honestamente, devo reconhecer: tenho um preconceito. Os rolezinhos me ajudaram a percebê-lo. Para ampla maioria, a moda de invadir shoppings é mais uma das tantas perturbações da ordem mediante ações coletivas que ocorrem no Brasil. Viés oposto, para ampla minoria, tais perturbações são veneráveis expressões de honoráveis movimentos sociais. Voto com a maioria, mas isso não é preconceito. É simples constatação. O meu preconceito aparecerá adiante. 

A massa dos rolezinhos está nessa para zoar. Não passa pela cabeça dos jovens a ideia de estarem decapitando Maria Antonieta ou restaurando a República nestes tempos nada republicanos. No entanto, como em todas as mobilizações desse tipo, há alguém mexendo cordéis para que elas aconteçam. Diariamente, jovens entram e saem dos shoppings, Brasil afora, sem qualquer restrição de circulação. E não chegam às centenas, numa determinada hora, em determinado lugar, sem prévia e bem concebida articulação. Existem peritos nessas coisas. Perguntem ao ministro Gilberto Carvalho que ele explica como é que se faz. 

Meu recém descoberto preconceito aparece ante o que vem depois da invasão. Ele se ouriça com aqueles que, tão logo os fatos ocorrem, deitam falação sobre apartheid social, racismo, segregação, consumismo, desalmado capitalismo e, claro, preconceito. Com sua vigarice intelectual, essas pessoas despertam em mim, como diria Roberto Jefferson, sentimentos primitivos. Constroem ódios para fazerem política. Entram em dispneia numa atmosfera sem conflito. Então, para produzir luta de classe onde não há, concebem analogias idiotas como esta, que ouvi: "Aconteceria a mesma coisa se fossem centenas de senhoras com bolsas Louis Vuitton?". Ou ainda: "Ah! Se fossem músicos de orquestra para surpreender com um recital seriam recebidos sob aplausos". É claro que seriam recebidos sob aplausos! As pessoas distinguem, sem canseira mental, um espetáculo de uma invasão. Ora bolas! Meu preconceito vai contra os que têm esse delírio de ver preconceito na mais límpida normalidade. Explicam a reprovação aos rolezinhos com frases assim - "É a velha suspeição que, no Brasil, incide sobre quem é pobre, pardo ou preto". Ora, pessoas de todas as condições sociais circulam nos estabelecimentos desse tipo. Lojistas promovem custosas campanhas publicitárias para seduzir seus variados públicos. Disputam-nos entre si com concorrência de preços e de prazos de pagamento. Aliás, tanto os lojistas se interessam em atrair as populações de baixa renda que preferem vender-lhes a prazo para que periodicamente retornem às suas vitrinas e balcões. 

Nestes últimos dias, os ideólogos do preconceito entraram em prontidão. No Planalto aconteceu uma reunião de emergência que superou, no interesse das autoridades, até mesmo a chacina no Maranhão. Foi aí que aflorou, ainda mais nitidamente, meu preconceito contra essa mistificação intelectual, de motivação política e ideológica. Experimente, leitor, organizar um rolezinho no Palácio Piratini. Basta um pequeno grupo de pessoas de qualquer cor, pêlo e extrato social, se reunir na esquina da praça para que um pelotão policial, pronto para combate, aflore das entranhas palacianas e se poste diante do prédio em atitude defensiva. E olhe que o Piratini é um bem público! Já o shopping é um negócio privado, uma empresa comercial para centenas de outros negócios e local de trabalho para milhares de comerciários. 

Note mais: os que mexem os cordéis dos rolezinhos e os que saem em sua defesa remam o mesmo barco. São estrategistas da destruição, atuantes em todos os setores da vida nacional. Rolezinho, no fundo, é peça do jogo de poder. 

O alegre rolezinho dos hipócritas

Guilherme Fiuza
Revista ÉPOCA

Shoppings fechados em São Paulo e no Rio por causa dos rolezinhos são a apoteose da igualdade (na versão dos companheiros): todos igualmente privados do lazer

Os brasileiros, esses crédulos, achavam que o governo popular parasitário do PT jamais alcançaria os padrões de cara de pau do chavismo. Quando o governo venezuelano explicou que estava faltando papel higiênico no país porque o povo estava comendo mais, os brasileiros pensaram: não, a esse nível de ofensa à inteligência nacional os petistas não vão chegar. Mas o Brasil subestimou a capacidade de empulhação do consórcio Lula-Dilma. E o fenômeno dos rolezinhos veio mostrar que o céu é o limite para a demagogia dos oprimidos profissionais.

A parte não anestesiada do Brasil está brincando de achar que o populismo vampiresco do PT não faz tão mal assim. E dessa forma permite que a presidente da República passe o ano inteiro convocando cadeia obrigatória de rádio e TV. Como no mais tosco chavismo, Dilma governa lendo teleprompter. Fala diretamente ao povo, recitando os contos de fadas que o Estado-Maior do marketing petista redige para ela. Propaganda populista na veia, e gratuita, sem precisar incomodar Marcos Valério nenhum para pagar a conta.

Só mesmo numa república de bananas inteiramente subjugada é possível um escárnio desses. O recurso dos pronunciamentos oficiais do chefe da nação existe para situações especiais, nas quais haja uma comunicação de Estado de alta relevância (ou urgência) a fazer. Dilma aparece na televisão até para se despedir do ano velho e saudar o ano novo – ou melhor, usa esse pretexto para desovar as verdades de laboratório de seus tutores. Mas agora, com a epidemia dos rolezinhos, o canal oficial da demagogia está ligado 24 horas.

Eles não se importam de proclamar na telinha que a economia está indo de vento em popa, com os números da inflação de 2013 estourando a previsão e gargalhando por trás da TV. Mas a carona nos rolezinhos é muito mais simples. Basta escalar meia dúzia de plantonistas da bondade para dizer que as minorias têm direito à inclusão no mundo capitalista – e correr para o abraço. Não se pode esquecer que o esquema petista vive das fábulas dos coitados. Delúbio Soares, hoje condenado e preso por corrupção, disse que o mensalão era “uma conspiração da direita contra o governo popular”.

O rolezinho é um ato de justiça social, assim como o papel higiênico acabou porque os venezuelanos comeram muito. E a desenvoltura dos hipócritas do governo popular no caso das invasões de shoppings está blindada, porque a burguesia covarde e culpada é presa fácil para o sofisma politicamente correto. Os comerciantes dos shoppings, lesados pela queda do consumo e até por furtos dos jovens justiceiros sociais, estão falando fininho. Estão sendo aviltados por uma brutalidade em pele de cordeiro, por uma arruaça fantasiada de expressão democrática, e têm medo de fazer cumprir a lei.

A ministra dos Direitos Humanos, como sempre, apareceu como destaque no desfile da demagogia petista. Maria do Rosário defendeu os rolezinhos nos shoppings e “o direito de ir e vir dessa juventude”.

A ministra está convidada a passear num shopping onde esteja acontecendo o ir e vir de 3 mil integrantes dessa juventude. Para provar que suas convicções não são oportunismo ideológico, Maria do Rosário deverá marcar sua próxima sessão de cinema ou seu próximo lanche com a família num shopping center invadido por milhares de revolucionários do Facebook, protegidos seus. Se precisar trocar as lentes de seus óculos, Maria do Rosário está convidada a se dirigir à ótica num shopping que esteja socialmente ocupado por um rolezinho.

Se a multidão não permitir que a ministra chegue até a ótica, ou se a ótica estiver fechada por causa do risco de assalto, depredação ou pela falta de clientes, a ministra deverá voltar para casa com as lentes velhas mesmo. E feliz da vida, por não ter de enxergar seu próprio cinismo socialista.

Shoppings fechados em São Paulo e no Rio por causa dos rolezinhos são a apoteose da igualdade (na versão dos companheiros): todos igualmente privados do lazer, todos juntos impedidos de consumir cultura, bens e serviços num espaço destinado a isso. É a maravilhosa utopia do nivelamento por baixo. O jeito será importar shoppings cubanos – que vêm sem nada dentro, portanto são perfeitos para rolezinhos.

'Este ano não vai ser igual àquele que passou'

Luiz Werneck Vianna 
O Estado de S.Paulo

"Este ano não vai ser/ igual àquele que passou", cantava a antiga marchinha de carnaval. Não vai, é certo, mas ainda estão ressoando em surdina no novo ano as toadas que tomaram as ruas nas jornadas de junho de 2013. E, como um encontro marcado, não há quem não espere o seu retorno, embora em diverso diapasão, com os jogos da Copa do Mundo e o processo de uma sucessão presidencial competitiva. Foram fundas as marcas deixadas pelo ano que passou: além de suspender o cotidiano com as ondas de protesto das manifestações populares, trouxe à luz novos personagens e um sentimento inédito de urgência quanto a demandas, desatendidas, da população nos serviços públicos.

As manifestações, é verdade, cessaram, mas estão aí presentes os mesmos motivos, o difuso mal-estar e os protagonistas de ontem. A política e os partidos, malgrado um tumultuado esforço despendido na produção legislativa a fim de responder ao clamor por mudanças, passado o susto pelo descontrole das ruas mantêm distância da sociedade, o que mais se agrava por ser este um ano a ser dominado pelo calendário eleitoral. Pior, já se reitera o vezo de um malfadado presidencialismo de coalizão que, na forma como o praticamos, reduz o papel dos partidos a máquinas eleitorais aplicadas à reprodução da classe política que aí está, em detrimento do que deveria ser a busca de rumos para uma complexa sociedade como a nossa.

Não se aprendeu nada, não se esqueceu nada. Não à toa esse dito clássico tem sido invocado por tantos - a política está entregue, como sempre, a próceres empenhados no escambo do horário eleitoral, especialmente no interesse das cúpulas partidárias, conforme um deles declarou sem rebuços dias atrás em entrevista a um importante jornal. Mas desta vez não haverá surpresa, como no ano que passou. A Copa do Mundo tem data, assim como a têm a eleição presidencial, a dos governadores e a parlamentar, para as quais não se deve prever céu de brigadeiro, tal como já se entrevê.

Depois dos idos de junho muita água correu debaixo da ponte: tanto o Estado como o governo se preveniram, em particular em política de segurança e na tentativa de minorar as carências da população em termos dos serviços públicos, embora não faltem à cena gatilhos novos, como, entre outros, a questão dos presídios e a dos indígenas. E a sociedade teve tempo para investir na reflexão sobre aqueles surpreendentes acontecimentos, como testemunha a produção editorial dedicada a eles. Sobretudo não se mostrou insensível ao significado de que eram portadores, qual seja, o de que estamos no limiar do esgotamento de um longo ciclo e já maturam as condições para sua superação.

Vários sinais apontam para essa direção, o principal deles se faz indicar pela recusa em aceitar a reiteração do padrão de discricionariedade irrestrita na administração pública, de imemorial tradição entre nós, terreno em que o Ministério Público se vem mostrando à altura do papel constitucional que a Carta de 88 lhe destinou. O Poder Executivo, especialmente o municipal, em alguns casos significativos, vem acompanhando essa tendência, abrindo canais de participação para a população envolvida em temas do seu interesse. O julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) da Ação Penal 470, com a condenação de importantes quadros do partido no governo, exerceu severa pedagogia quanto aos valores republicanos.

São mutações relevantes e em todas elas se registram ecos das manifestações espontâneas de junho que confirmaram, na tradução livre que imprimiram em suas faixas e seus galhardetes, o sentido visado por seus autores institucionais. De uma perspectiva mais larga, nem sempre perceptível a olho nu, essas são transformações que repercutem em cheio no modelo nacional-desenvolvimentista, latente na esquerda brasileira, desentranhado pelo governo do PT do baú da nossa História como resposta à crise financeira mundial de 2008, inclusive com elementos que recebeu da sua versão sob o governo Geisel, que depende visceralmente de um modelo político decisionista.

De passagem, registre-se que tal modelagem, na democracia da Carta de 88, vem sendo reproduzida pelas vias abertas pelo presidencialismo de coalizão à brasileira, ora ameaçado pela votação ainda em curso no STF de uma ação proposta pela Ordem dos Advogados do Brasil com a finalidade de interditar o financiamento das competições eleitorais por parte de empresas. Sem a escora dessa peça, uma de suas vigas-mestras, o presidencialismo de coalizão somente poderia persistir em torno de programas, o que supõe ampla deliberação e adoção de rumos compartilhados, minimamente consensuais. Aí, mais um indicador de exaustão do ciclo a que ainda estamos submetidos.

A sensibilidade a esse novo estado de coisas está em todos, até mesmo, se valem os sinais, na presidente Dilma Rousseff e em sua equipe econômica, de que é exemplo sua decisão de comparecer ao encontro de Davos. Os fortes abalos da crise de 2008, que ainda sentimos, se importaram em ruínas e perdas materiais, têm devolvido vigor, aqui e alhures, a muitas lições esquecidas, como as de Marcel Mauss, Karl Polanyi e Antonio Gramsci, tão diferentes entre si, mas convergentes nos seus propósitos de regular o mercado pelo direito, por padrões eticamente orientados e pela política democrática.

Mudanças no modo de interpretar o mundo são influentes e, no caso, um livro recente chama a atenção por sua energia e coragem intelectual. O Mistério e o Mundo - Paixão por Deus em Tempos de Descrença (Rio de Janeiro, Rocco, 2013), da teóloga católica Maria Clara Bingemer, é mais um desses sinais, pois, longe de um diagnóstico desalentado, o que ela apresenta aos seus leitores é um chamado, na estrita linguagem da sua confissão religiosa, para uma ação política transformadora. De verdade, 2014 é um ano novo.

Quem se decepcionou com a pesquisa de SP sobre os rolezinhos?

Juan Arias
El País

Ninguém esperava que 82% dos cidadãos adultos da capital paulista se mostrassem contra os rolezinhos

Ninguém esperava que 82% dos cidadãos adultos da capital paulista se mostrassem contra os rolezinhos, e que entre os jovens maiores de 24 anos só 11% se declarassem a favor dos mesmos, conforme revela a pesquisa Datafolha desta quinta-feira.

E o resultado desse levantamento muito provavelmente se repetiria de forma quase igual em todas as outras cidades importantes do país.

Decepção entre os que já haviam sacralizado esse tipo de brincadeira ou de protesto, que vem sendo estudado até no Palácio do Planalto? Decepção entre certa esquerda ideologizada, que tinha visto nos inocentes rolezinhos em busca de distração uma espécie de “moscas-varejeiras” dentro dos shoppings de luxo, um renascer das velhas vanguardas de jovens anticapitalistas?

Decepção dos que preferiam que as motivações dos protestos de junho passado fossem substituídas pela luta racial contra a discriminação de negros e brancos, uma causa que o poder pode sempre abraçar como bandeira progressista sem maiores consequências desestabilizadoras?

Serão melhores os rolezinhos de negros e mestiços que exigem tão somente se divertir dançando entre as lojas dos objetos de luxo, como desejos reprimidos, do que os outros jovens que, em vez do esbanjamento da Copa, preferem melhores hospitais, melhores escolas e uma polícia mais bem preparada, mais moderna e a serviço da democracia?

A pesquisa de São Paulo foi uma ducha de água fria para quem começava a se divertir pensando que, defendendo essas brincadeiras de adolescentes, poderia conquistar seus votos, por vê-los como a esperança de uma nova esquerda, enquanto eles mesmos se definem como pós-políticos, decepcionados com todos os partidos, sem ideologia, mas ao mesmo tempo bem “informados” pela internet. Como disse um deles, David Santana: “Nós sabemos muito bem que os políticos querem nossos votos”.

A quem decepcionou a pesquisa de São Paulo sobre os rolezinhos? A decepção de muitos é que esses rapazes não são os novos lutadores contra o consumo, de cujo festim, pelo contrário, desejam também desfrutar. Não são de esquerda porque não têm uma ideologia que os motive quando tentam se divertir criando caos nos shoppings.

E a decepção maior foi a dos que já faziam seus cálculos políticos com esse novo fenômeno, que desta vez não fez o poder perder o sono, como em junho passado, quando, em vez de invadirem os shoppings tentaram invadir o Congresso, com uma clara ação de protesto contra os abusos da classe política.

E uma decepção maior ainda é que justamente a Zona Leste de São Paulo, de onde provém a maioria dos rolezinhos, seja a que apresenta um índice mais baixo de aprovação a eles: apenas 8%.

Trata-se então de uma sociedade, a paulistana, que é conservadora, reacionária, incapaz de se sensibilizar com as inquietações sociais dos jovens e que não se importa com o fato de os pobres serem discriminados nos templos do consumo, sobretudo se forem negros ou mestiços e vindos da periferia dos excluídos?

Não. O resultado da sondagem revelaria acima de tudo uma sociedade amadurecida, com grande senso comum, que já demonstrou durante as manifestações de junho que está disposta a sair à rua para defender melhores serviços públicos, uma democracia mais real, com liberdade para todos, sem distinção econômica ou de cor da pele, mas que tem medo de que se brinque com a democracia.

Não por acaso, fica claro na pesquisa que os paulistanos são contra que os shoppings realizem uma discriminação entre brancos e não brancos, entre ricos e pobres. Mais ainda, contrariamente àquilo que quiseram defender alguns políticos considerados progressistas, a maioria constata que nunca aconteceu tal discriminação, desde que esses jovens entrem nesses templos como outros mortais, seja para comprar ou para desfrutar do ar-condicionado, mas não para criar medo e irritação.

E uma última decepção para os que já tinham santificado os rolezinhos como os novos profetas do combate ao luxo da sociedade de consumo, do luxo e do esbanjamento: a parte da sociedade que mais defende a ação dos rolezinhos na pesquisa, 16%, encontra-se entre os mais ricos.

A sociedade menos favorecida, a das famílias com dificuldades para chegar ao fim do mês, prefere que seus filhos estudem, se especializem e trabalhem para que possam gozar de uma vida melhor do que a de seus pais. Por isso, não aplaudem os rolezinhos. Prefeririam, possivelmente, vê-los de novo na rua protestando contra as injustiças sociais, a corrupção política e empresarial e a favor de que todos, sem distinção, possam ter as mesmas possibilidades de triunfar na vida.

Uma sociedade que pensa assim pode ser tachada de conservadora e direitista? Acredito que seria injusto.

Ausências, atritos e expectativas

Marco Aurélio Nogueira 
O Estado de S.Paulo

O sistema presidencialista de governo caracteriza-se por centralizar a Presidência da República e depende extraordinariamente da conduta presidencial. Se o presidente desempenha bem suas funções, o sistema funciona. Se o faz com brilho pessoal, carisma e qualidade política, melhor ainda.

No Brasil, cujo presidencialismo é complicado por um federalismo imperfeito, isso é ainda mais verdadeiro. Por aqui, presidentes fracos tendem a ser desastrosos. Não podendo dispor de contrapartidas eficientes - um Legislativo de qualidade e uma sociedade civil ativa -, sobrecarregam o sistema e rebaixam o padrão da governança, arrastando-o para a mesmice e a rotina.

Tudo isso é conhecido, mas deve ser lembrado sempre que se constata alguma deficiência de desempenho no governo federal ou algum atrito inconveniente entre os entes federados. A responsabilidade, nesse caso, recai tanto sobre a conduta, o estilo, as escolhas e a personalidade do presidente quanto sobre os defeitos do federalismo. Alcança também os governos regionais, em que o mesmo raciocínio pode ser duplicado: quanto melhores os governadores em termos políticos e funcionais, menos possibilidades de o sistema fraquejar e mais chances de o federalismo se tornar "cooperativo", para usar a boa expressão empregada recentemente pelo governador mineiro, Antonio Anastasia.

Não é difícil constatar, por exemplo, que o Brasil estava melhor quando Lula era presidente, se compararmos as coisas no interior do ciclo petista de governo. Em suma, o País funcionava melhor do que sob Dilma Rousseff. Em certos aspectos, a atual presidente vem tentando "copiar" Lula, mas sem sucesso. É impossível fazer isso, dada a envergadura do ex-presidente, seu prestígio internacional incomparável, sua personalidade exuberante e carismática. Dilma é tecnicista, dura, não tem empatia popular nem brilho e, acima de tudo, não se sente à vontade para animar o presidencialismo com a vitamina mais importante, a política. Mostra-se desconfortável seja para fazer a política miúda, das conversas e negociações de bastidores, seja para fazer a grande política, dos gestos e propostas abrangentes para o País. Além do mais, tem uma biografia pobre em termos de imagem e impacto social.

É o oposto exato de Lula, que imprimia ritmo e alma ao governo, deitava e rolava na política e do alto de sua inigualável trajetória de vida manejava bem o presidencialismo federativo. Pode não ter melhorado seu funcionamento ou reformulado o molejo institucional da governança, mas valorizou a Presidência e coordenou o governo com bons assessores e auxiliares. Era o grande articulador, quase onipresente. Fernando Henrique Cardoso também foi assim. Mas Dilma, não.

É verdade que os tempos são outros, que a coalizão presidencial perdeu densidade, os partidos pioraram e a sociedade ficou muito mais "fora de controle". Dilma, porém, não teve um "mensalão" a ameaçar-lhe a jugular. A própria oposição tem sido dócil com ela, mais por incompetência do que por opção. Seu maior desafio foram as ruas de 2013, fenômeno que, para um partido de esquerda como o PT, deveria ter sido combustível, não problema. Mas Dilma não se saiu bem do confronto, independentemente do perde-e-ganha dos índices de aprovação. Não foi à luta, propôs pouca coisa de factível, não entabulou diálogos sustentáveis com os manifestantes e suas agendas. Foi atrapalhada pelo sistema e pela mediocridade da classe política, mas não mostrou habilidade para sair do cerco. Faltou-lhe virtù.

Pode-se argumentar que não há tantas diferenças entre o governo Lula e o governo Dilma, que seriam carne da mesma carne, e que Lula é o mais importante e ativo assessor de Dilma, dividindo com ela algumas atribuições da Presidência, como, por exemplo, a da comunicação e da articulação política, além de ser o principal agente da reprodução do que há de dimensão simbólica no ciclo petista. Isso, porém, só serve para reforçar a hipótese, agregando a ela um componente ameaçador: sem Lula o governo Dilma talvez já tivesse naufragado, por falta de quem o fizesse respirar nos espaços vitais da política.

É evidente que há coisas boas no governo Dilma. Só não o reconhece quem pensa com o fígado. Seu problema não está no varejo, mas no conjunto da obra. Lula deixou uma marca. Outros presidentes antes dele também o fizeram, a começar de José Sarney com o Plano Cruzado e a Constituinte. Com Dilma, não, ela terminará seu período governamental do mesmo modo que o começou.

Não se trata de engrossar as fileiras do "volta, Lula". O tempo de Lula talvez já tenha passado, não há como simplesmente voltar a ele. Também não há como apostar que o eventual retorno do ex-presidente traria consigo a imediata requalificação da Presidência e a elevação da qualidade da governança. É impossível falar algo a esse respeito, até porque política (e governo) é correlação de forças e circunstâncias, não somente brilho pessoal ou capacidade de liderança.

Seja como for, 2014 será uma excelente oportunidade para pôr à prova esse raciocínio. Se, nele, as ruas voltarem a se mobilizar, a pressionar e a incomodar, e fizerem isso com maior envergadura política e perspectiva estatal, se os interesses organizados tiverem força, criatividade e lucidez para rever suas formas de atuação e qualificar as lutas sociais, se o debate político for depurado da baixaria e da adjetivação, descortinar um futuro para o País e abrir espaços para a cooperação inteligente dos partidos, então se poderá delinear uma situação em que os cidadãos mandarão no País, não os governantes e os políticos. O presidencialismo e o federalismo poderão ser assim aperfeiçoados, recondicionando o conjunto do sistema político.

Afinal, é com os cidadãos e as forças vivas da sociedade que os políticos precisam pactuar, pois o Estado só faz sentido se tiver na base um pacto social consistente.

O Brasil fora do jogo comercial

O Estado de S.Paulo

As regras do jogo para os novos acordos internacionais de comércio estão sendo criadas sem a participação do Brasil - e podem ser contrárias às posições defendidas tradicionalmente pela diplomacia brasileira. Falando em Davos, no Fórum Econômico Mundial, o chefe dos negociadores americanos, Michael Froman, deixou clara a intenção de valorizar cláusulas sociais e ambientais nos acordos em discussão neste momento. Ele se referia aos projetos em negociação com a União Europeia, a Parceria Transatlântica, e com países do Pacífico, a Parceria Transpacífica. A ideia é estabelecer novos padrões, mais severos, para os futuros tratados de livre-comércio. "Vamos elevar a barra", disse Froman, usando uma imagem esportiva. A mensagem é inconfundível: a ideia é mudar as condições de competição e tornar o salto mais difícil.

O governo brasileiro se opôs à inclusão de cláusulas sociais e ambientais na Rodada Doha de negociações multilaterais, lançada no fim de 2001. Houve amplo apoio a essa posição e os governos do mundo rico, principais defensores daquelas cláusulas, tiveram de recuar. Mas a rodada empacou e nada importante ocorreu a partir de 2008, apesar das várias tentativas, lideradas pela OMC, de reativar as conversações.

Dezenas de governos continuaram, no entanto, construindo acordos bilaterais e inter-regionais, com isso fragmentando o sistema internacional de regras. Países grandes e pequenos participaram dessas discussões, mas o Brasil permaneceu à margem, por uma decisão política - de fato, ideológica - de dar prioridade à integração com os países do "Sul", uma entidade geopolítica imaginária, moldada segundo os padrões do terceiro-mundismo.

A diplomacia econômica brasileira funcionou basicamente com duas referências nos últimos dez anos. Um dos focos foi o multilateralismo, representado, na prática, pela Rodada Doha. O outro foi a decisão de buscar acordos parciais apenas com países em desenvolvimento e de aprofundar os laços com o "Sul" idealizado.

Esses acordos foram negociados em conjunto com o Mercosul, dominado pelo terceiro-mundismo brasileiro e pelo protecionismo argentino. Essa estratégia também refletiu, em parte, a fantasia do presidente Lula de liderar a região.

Essa liderança ficou na retórica. O sepultamento do projeto da Área de Livre-Comércio das Américas, promovido pelos governos brasileiro e argentino, criou um descompasso entre o Mercosul e os países com ambições mais amplas de integração internacional. Os poucos acordos concretizados pelo Mercosul foram negociados com mercados pouco importantes. Os sul-americanos mais empenhados na inserção internacional buscaram acordos com os EUA e outros países avançados.

Esses países conseguiram boas condições de acesso aos mercados mais desenvolvidos. Ao mesmo tempo, economias altamente competitivas, como China e Coreia, ampliavam sua participação nesses mercados. O Brasil foi um grande perdedor. De fato, perdeu também na América Latina, onde concorrentes de outras regiões conquistaram espaço nos últimos dez anos.

A Aliança do Pacífico, formada por Chile, Peru, Colômbia e México, tornou mais evidente o distanciamento entre as políticas comerciais do Brasil e das economias mais abertas da América Latina. Nesse acordo, o México faz uma ponte entre a América do Norte e a do Sul e assume, naturalmente, uma posição de liderança jamais conseguida pelo Brasil.

O novo governo mexicano mostra boa percepção dessas diferenças. A Aliança do Pacífico, disse o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, é a sua plataforma para acordos com países da América do Sul.

Fora das grandes negociações, o Brasil tem de assistir de longe, sem possibilidade de interferência, à formação de novos critérios para acordos comerciais. Quando a Rodada Doha novamente deslanchar - se deslanchar -, esses novos padrões poderão estar muito mais difundidos do que estiveram até hoje. O terceiro-mundismo requentado poderá ficar ainda mais custoso do que foi até agora.