sexta-feira, fevereiro 07, 2014

Prazo de validade vencido

Adelson Elias Vasconcellos


Nesta edição, vejam lá no início, o blog reproduziu texto do Portal Exame, dando conta que metade da Dinamarca já é abastecida com energia eólica. Esta alternativa, aliás, já recebe investimentos fabulosos mundo afora, inclusive no Brasil, como também a energia solar já deixou, faz tampo, de ser economicamente inviável.  

No Brasil, quanta surpresa!,  o investimento bilionário só não produziu um único quilowatt de eletricidade porque “alguém” esqueceu que uma usina, para levar luz aos consumidores, precisa de linhas de transmissão. 

Desde 2001, sabemos que o país precisa mudar sua matriz energética, hoje concentrada em mais de 70% originada do sistema hidráulico. E por que sabemos disto? Porque, conforme se viu naquele ano, não podemos ficar reféns dos humores climáticos. Bastam dois anos de seca contínua, ou um regime menor do que a média histórica de chuvas, e pimba!, todos começam a ter pesadelos com apagões e racionamentos. 

No apagão de 2001, quando chegamos ao fundo do poço, sem luz e sem lanterna,   o setor elétrico do país foi totalmente reestruturado.  Criamos, dentre outras medidas, uma espécie de colchão  de segurança, recuperando, modernizando e ampliando a rede de usinas térmicas, movidas a diesel e a gás.  

Contudo, ficaram para os anos seguintes   investimentos maciços em energias alternativas, e até mesmo a construção de novas hidrelétricas. O cronograma não foi cumprido dentro do prazo previsto por uma simples razão: as licenças ambientais, oh! nova surpresa!, andam a passos de cágado. 

Porém, por melhor e mais moderno que fosse o sistema elétrico brasileiro, ele ainda exige investimentos em manutenção de subestações e linhas de transmissão.    

Contudo, durante um bom tempo, fruto das ações do poder público em 2001 e 2002, o Brasil atravessou um período em relativa segurança, sem deixar de depender de novos investimentos para ampliar nossa capacidade de geração.

Tivéssemos crescido numa média anual de 5% e, certamente, o caos teria desabado sobre o setor elétrico do país. Não teríamos, como ainda não temos, produção suficiente para suportar as exigências de um acréscimo no consumo, fruto de maior crescimento.  De 2009 para cá, isto ficou bem evidenciado.

Por duas vezes, o modelo brasileiro foi remexido, e ambos ao invés de produzir resultados positivos foram em direção contrária. Tanto é assim que, bastou um apagão de curta duração, se comparado com o de anos anteriores, para que o governo encontrasse recursos para investimentos, prometendo  repassá-los  às concessionárias. 

O pacote editado por Dilma em setembro de 2012, que tinha por meta baixar o valor da tarifa, na verdade, mais atrapalhou do que propriamente contribuiu para dar maior segurança. A começar porque muito pouco se mexeu na tarifa, que continua uma das mais altas do mundo. Na verdade, retirou-se alguns penduricalhos na forma de taxas, impostos e contribuições., que foram sendo incorporados a partir de 2003. Conforme já demonstramos aqui, a carga tributária incidente sobre a tarifa, que era em 2002 de 21,6% pulou para mais de 48% em 2012. Além disto, o pacote teve a capacidade de mexer no lucro das concessionárias, além de obrigá-las a antecipar a renovação de seus contratos. Ou seja, naquilo que estava razoavelmente equilibrado, desandou de vez. E, no que realmente mais importa, que era reduzir a carga de ICMS incidente sobre a tarifa, tributo que mais onera a fatura para o consumidor, não houve acordo com os governadores. E, mesmo assim, passado pouco mais de um ano, as tarifas já retornaram ao seu custo original. 

O tal pacote, defeituoso a mais não poder, ainda acabou criando um esqueleto prá lá de indigesto para o Tesouro. Apenas em 2012, o esqueleto pendurado foi na ordem de R$ 22,0 bilhões. 

Agora, o cardápio acaba se completando da pior forma: a capacidade de investimentos que já era curta, reduziu-se a zero, seja para aumento na capacidade de geração, seja para a manutenção de todo o sistema, e as concessionárias, para cumprir seus contratos, entraram num redemoinho de endividamento tirando-lhes até a capacidade de se manter (por isso os R$ 9,0 bilhões de socorro anunciados pelo ministro Mantega nesta semana). E ficamos diante de um problemão: não geramos energia suficiente para elevação de consumo (como está ocorrendo neste verão sem chuvas), não há energia suficiente para bancar um crescimento econômico moderado em torno de 5,0%, e o sistema está ainda sujeito a chuvas, trovoadas e raios. 

Deste modo, para sair desta situação encalacrada em que nos encontramos, seria necessário que o governo investisse  pesadamente no aumento da nossa capacidade de geração, não só através de energias alternativas, como biomassa, eólica e solar, como precisaria acelerar os projetos  de hidroeletricidade em andamento, tais como Belo Monte, cujo andamento sofre paralisações determinadas pela justiça,  invasão e depredação do canteiro de obras e, claro, uma campanha infame de publicidade negativa. Mas para investir, cadê os recursos que não sobram por que as despesas crescem além da conta?

Diante de tudo isso, fica a questão: o modelo atual, inventado por Dilma Rousseff em 2005 e avacalhado em 2012, não estaria precisando ser revisto?  Ou, por outra, por quanto tempo mais o país conseguirá suportar, sem prejuízos econômicos e sociais,  taxas de crescimento pífio, já que a capacidade de geração não suportaria índices mais robustos? 

Infelizmente, temos visto maus sinais da real competência dos governos petistas no campo da energia e do crescimento. Além dos apagões em série, das dificuldades das concessionárias em se manterem com uma taxa de retorno ridícula, da falta de investimentos, da má gestão,  do crescimento muito aquém das possibilidades reais e necessidades do país, não podemos deixar de olhar o que estes governos fizeram com o pró-álcool e com a Petrobrás e Eletrobrás, por exemplo.  

Portanto, não será com esta falta de visão estratégica, com a falta de um projeto consistente de crescimento, com a insistência de se governar o país apenas com modelos medíocres devotados à manutenção do poder, unicamente, que resolveremos e enfrentaremos nossos desafios e carências imediatas. 

Como se vê, o prazo de validade desta turma venceu e começa a prejudicar o Brasil. É preciso que acordemos para esta realidade. 

Bandidos travestidos de manifestantes
No Rio de Janeiro, um cinegrafista da Band acabou no hospital em estado grave. A foto feita no momento em que a bomba explode, não deixa dúvidas: trata-se de artefato não empregado pelos policiais. Com certeza, partiu dos manifestantes “pacíficos”.

Volto a alertar: enquanto a imprensa se regozijar com manifestações que acabam em tumulto, quebra- quebra, vandalismo, depredação de patrimônio, a violência de tais manifestações tende a aumentar. E, Deus queira, que não tenhamos que lamentar uma tragédia fatal, para que passemos a ver tais agitações por aquilo que elas realmente são: movimento de bandidos.   

Eleições suspeitas
Uma das muitas fanfarronices cantadas em verso e prosa no país, é a tal segurança que as urnas eletrônicas oferecem. Até Lula já fez discurso neste sentido, se gabando do nosso “avanço tecnológico”.  

Ao ser preso na Itália, o ex-diretor do BB, Henrique Pizzolato, o fujão, condenado pelo STF na ação penal conhecida como Mensalão,   trazia consigo documentos falsos emitidos em nome de seu irmão já falecido.

Hoje, a Folha traz reportagem informando que Pizzolato votou, em 2008, em nome de seu irmão morto havia 35 anos.  Digam lá: se tal foi possível, que segurança podemos ter quanto a lisura das eleições no Brasil? Se Pizzolato fez isso, quanto outros mais no país poderão fazê-lo, também? E, considerando-se todas as exigências que são feitas pela Justiça Eleitoral, seja para a emissão do título eleitoral seja para autorizar alguém a votar, fica claro que há brechas que precisam ser corrigidas para tornar impossível a ação de vigaristas. 

Educação prá quê?
Também é da Folha outra reportagem impressionante:  a Prefeitura de SP, comandada pelo petista Fernando Haddad, que antes ocupara a função de MINISTRO DA EDUCAÇÃO,  reduziu o kit escolar entregue a alunos, chegando ao absurdo de cortar até caneta. Como sempre se disse, para os políticos brasileiros, educação jamais será prioridade. O povo que se dane e viva nas trevas da ignorância.  

Não vejo nenhum projeto pedagógico consistente que justifique esse corte de itens”, afirmou a pesquisadora Angela Soligo, da Faculdade de Educação da Unicamp.

Você pode até entender que criança pequena não use caneta. Mas diminuíram os lápis. A criança no fim do ano escreverá com o dedo? E é importante ela ter material para trabalhar em casa.”

A Rainha de Sabá

Sebastião Nery     
Tribuna da Imprensa


Era uma vez uma rainha muito negra e muito bela, soberana do antigo reino de Sabá, “o mais poderoso da Arábia Feliz”, que incluía a Etiópia, o Egito e a Arábia. Os etíopes a chamavam de Makeda. Os árabes de Balkis ou Bilkis. Flávio Josefo, historiador romano judeu, de Nikaula.

Viveu no século X antes de Cristo. Arqueólogos da Universidade de Hamburgo, na Alemanha, descobriram os restos do palácio da rainha de Sabá em Axum, cidade sagrada da Etiópia. Segundo o Velho Testamento ela teria ouvido falar na grande sabedoria do rei Salomão, juntou quatro toneladas e meia de ouro, cruzou os desertos da Arábia, através da Etiópia e do Egito, pela costa do mar Vermelho, até chegar a Jerusalém, onde se encontrou com ele.

O rei também já tinha ouvido falar em um reino governado por uma rainha negra, muito bela e muito rica, cujo povo venerava o sol. Mandou-lhe uma carta convidando-a para visitá-lo. Recebeu-a com presentes “e tudo que ela desejou”. A tradição etíope garante que Salomão realmente seduziu e engravidou sua convidada e teve com ela o filho Menelik I, primeiro imperador da Etiópia.

Os afrescos de Piero della Francesca (1466), que estão no Batistério de Florença, contêm dois painéis sobre a visita da rainha de Sabá a Salomão. Giovani Boccaccio, em seu livro “Sobre as Mulheres Famosas” (“De Mulieribus Claris”) conta que ela era não só rainha da Etiópia e do Egito como também da Arábia. “Tinha um palácio luxuoso numa ilha muito grande chamada Meroé, localizada em algum lugar próximo ao rio Nilo, praticamente no outro lado do mundo”.

DILMA
As enciclopédias, todas elas, contam essa história com o charme que a rainha de Sabá mereceu. Seria um mítico quem quisesse comparar a presidente Dilma à Rainha de Sabá. Dilma não viaja com o ouro, as joias e a comitiva da rainha da Etiópia. Nem tem o rei Salomão esperando-a na sua corte. É só um bacalhauzinho em Lisboa e Fidel Castro em Havana. Os tempos e os reinos são outros. Até por isso ela não tem o direito de esbanjar pompas e grandezas por ai, raspando o baú de ossos da Presidência. Para que hospedar mais de 50 assessores nos dois mais caros hotéis de Lisboa?

Tem razão a cada dia mais brilhante Eliane Cantanhede  (Folha): – “ Enquanto discutimos a passadinha da Presidente para comer bacalhau em Lisboa, o que deve estar chateando mais a própria Dilma é aquela foto de cara lavada. Com umas olheiras medonhas. É claro que presidentes têm direito a folga, a lazer, a bacalhau bom e a hotel melhor ainda. Muito justo. Mas, pera lá, às escondidas? E reservando 45 suítes (!) nos dois hotéis mais caros? Aliás, para que viajar com meia centena de funcionários? Não precisava exagerar”.

Salomão nunca disse que a rainha de Sabá tinha “olheiras medonhas”

HELENA
O PT devora seus melhores filhos. A exemplar Helena Chagas, como jornalista e como ministra da Comunicação, acabou sentindo na pele o horror de trabalhar com um partido gangsterizado. Ela se negou a distribuir  verbas de propaganda do Governo para o jornalismo sujo da “mídia suja” do PT em seus blogs sujos, seus sites sujos. E foi covardemente derrubada.

O insuspeito “Globo” contou :a guerra suja pelos “capilés” públicos:

- “Em uma das reuniões do presidente do PT, Rui Falcão, com a bancada e integrantes do Diretório Nacional, para discutir saídas para a crise depois das manifestações de junho, houve um debate sobre pontos fracos na equipe ministerial, com críticas à comunicação do governo e da Presidente. A reclamação era em relação à pequena margem de financiamento dos chamados “blogs sujos”, que fazem o enfrentamento com a mídia tradicional e atacam a oposição”.

- “A comunicação do governo é uma porcaria! O governo não tem a estratégia de comunicação nas redes sociais. O Lula mantinha uma canalização de recursos para alguns blogs, mas a Dilma cortou tudo, – reclamou naquela reunião o vice-presidente da Câmara, André Vargas (PR), segundo petistas presentes”.

- Na época, Vargas desmentiu as críticas. Mas, diante da notícia da saída de Helena Chagas, disse ao GLOBO: – “Não gosto dela. A Helena foi pro pau! Beleza”.

Os olhos são o espelho da alma. A Helena pode dormir e acordar em paz, vingada. Jamais se dirá que ela tem “olheiras medonhas”.

Raios, raios duplos! Raios triplos! Ou: Deus nos livre dos ventos, dos raios e até das chuvas, apesar da seca!!!

Reinaldo Azevedo

Que pitoresco! Mais uma vez, o Operador Nacional do Sistema Elétrico, ONS, aventa a hipótese de que o apagão havido no Brasil poder ter decorrido de um raio. Hermes Chipp, diretor do órgão, afirmou que tudo pode ter sido provocado por uma “descarga atmosférica”, também conhecida, leitor, por um apelido: raio. Disse ele: “É uma das hipóteses. Temos de verificar com os institutos especializados se havia descargas no momento. Eles têm como identificar isso”. O ONS, no entanto, pediu 15 dias para explicar os verdadeiros motivos. É mesmo, é? Quer dizer que o Brasil pode, a depender do caso, parar sem que se conheçam os motivos antes de duas semanas.

Num outro apagão, de 2012, Chipp aventou a mesma hipótese. A presidente Dilma afirmou então: “No dia em que falarem para vocês que foi raio, gargalhem”.

Eu gargalho. Gargalhei muito com a explicação dada para o mega-apagão de 10 de novembro de 2009, que deixou às escuras o Sudeste do país e parte considerável do Nordeste. Uma autoridade do governo veio a público para dizer o seguinte, 21 horas depois do apagão:

“O sistema foi submetido a uma forte, a uma situação muito forte, baseada numa alteração com vendaval, chuva e raios, e que isso teria tirado o sistema, teria desligado o sistema. Ao se proteger, ele desligou”.

De quem são essas palavras? Como se pode ver no vídeo abaixo, da então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Desde 2003 — e estamos em 2014 — Dilma é a Senhora dos Anéis do setor elétrico: primeiro como ministra das Minas e Energia, depois como chefe da Casa Civil e do PAC e, já há mais de três anos, como presidente da República. Ou alguém acha que é o ministro Edson Lobão quem manda no setor? Hoje, ele só sabe distinguir uma tomada de um focinho de porco porque o Brasil inventou aquela estrovenga que só é vendida por aqui. Como já se disse, se algo só existe no Brasil, ou é jabuticaba ou é besteira. Vejam o vídeo. Volto em seguida.



No vídeo, a gente nota que Dilma está brava com os jornalistas, esse bando de curiosos que sempre querem saber a razão das coisas. Ela dá um pito em todo mundo. Na quarta à noite, a gente viu a imagem dela no Jornal Nacional, convenientemente perto de um janelão, falando ao telefone e dando um bafão em alguém. Logo se concluiu que estava furiosa com o apagão. Dilma não precisa procurar muito para chegar à pessoa que manda no setor, não é mesmo?

A agora presidente sempre foi muito competente para criar a fama de que é… competente. Não sei, não… A estiagem prolongada levou ao apagão de 2001, no governo FHC. Treze anos depois, a falta de chuvas volta a rondar o setor elétrico, por mais que se tente tapar o sol, e põe sol nisso!, com a peneira. E cumpre notar uma coisa, caros leitores: o Brasil cresce a menos de 2%. Nesse particular, ainda bem que Guido Mantega erra sempre as previsões. Estivesse crescendo a 5%, 6%, como seria o desejável, o sistema já teria dado pau faz tempo. Ou por outra: o sistema elétrico deste país tropical não conseguiria conciliar calor excessivo com crescimento robusto da economia. Mas eles são competentes, tá?

Em ferro frio

Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

Qual a parte das pesquisas que apontam altíssimo índice de apoio na sociedade à condenação dos mensaleiros, com destaque para a atuação do presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, o PT ainda não entendeu?

Sempre atento à direção dos ventos e reverente às consultas populares por amostragem - ao menos às que indicam a presidente Dilma Rousseff como a favorita na próxima eleição -, o partido por algum motivo insiste em ignorar a opinião da maioria sobre o resultado do julgamento do mensalão.

Em julho último, o instituto Datafolha registrou que 74% dos consultados eram favoráveis à execução imediata das penas. Quando da decretação das primeiras prisões, em 15 de novembro, 86% disseram que o presidente do STF havia agido bem. Entre os simpatizantes do PT, 87% tinham a mesma posição.

Ontem, quando o ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato, foi preso na Itália com passaporte falso depois de três meses foragido para escapar da pena de 12 anos e sete meses de prisão por lavagem de dinheiro, corrupção e peculato, o ministro da Justiça saudou a eficiência da ação policial.

"A prisão demonstra a competência da Polícia Federal do Brasil e responde às críticas contra o órgão", disse José Eduardo Cardozo, tão petista quanto o vice-presidente da Câmara, André Vargas, o presidente do PT, Rui Falcão, ou os presos que por meio de cartas ou por intermédio dos advogados ainda insistem na tese da farsa "midiática".

De um lado o governo do PT põe a polícia atrás do condenado foragido, anuncia que pedirá sua extradição para fazer cumprir a decisão da justiça brasileira e, no caso de o pedido ser negado em decorrência da dupla cidadania de Pizzolato, será enviado o processo para exame da Justiça italiana.

De outro lado figuras proeminentes do mesmo partido erguem os punhos cerrados, falam em "presos políticos", mobilizam-se para socorrer os companheiros no pagamento das punições financeiras, esmeram-se nos ataques ao presidente do STF - ignorando que as condenações ocorreram por decisão do colegiado - e posam como heróis da resistência a um ato dito autoritário, injusto e baixado ao arrepio dos conformes da legalidade.

Convenhamos, assim fica difícil de compreender aonde o partido quer chegar e qual a mensagem que pretende transmitir ao público. Se o Ministério da Justiça saúda a prisão como expressão do cumprimento da lei, não se está, na visão daqueles que ocupam postos no Executivo, diante de um julgamento discricionário.

Estariam os petistas sinceramente divididos? Discordam uns dos outros ou apenas encarnam cada qual uma face? Do governo não se esperava outra atitude. O ministro da Justiça disse o que deveria no papel que lhe cabia. Mas, e os revoltados, esperam obter quais benefícios para si e os companheiros?

Ao cutucar, provocar e se postar na direção oposta às evidências da realidade, eles só adiam a possibilidade de uma realização o menos danosa possível do prejuízo.

Não é de todo incompreensível que o partido defenda seus filiados, ainda que só considere o julgamento injusto em relação a eles. Como se os outros réus fizessem parte de um processo diferente, a respeito do qual não se impõe reparos no PT.

Nessa argumentação, no entanto, é necessário que o partido fale coisa com coisa. Sob o risco de tal defesa não passar de malhação de ferreiro em ferro frio.

Confusão. 
No artigo de ontem estava errada a definição sobre agremiações partidárias. Não são entidades privadas de direito público e sim pessoas jurídicas de direito privado.

Esse apagão é nosso

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

Algo que se passa no modelo Dilma como um todo: muito consumo, pouco investimento

A gente tem que admitir: dadas as circunstâncias, o pessoal da presidente Dilma saiu-se muito bem no dia do apagão. Não estava nada fácil garantir a segurança do sistema elétrico no momento mesmo em que faltava luz para seis milhões de pessoas, em 13 estados e mais o Distrito Federal. E isso no improviso: a coletiva de terça fora chamada para garantir que não haveria apagões; a energia pifou mal as autoridades começavam a explicar. Tudo considerado, a resposta foi, em interpretação livre, a seguinte: o nosso apagão é muito melhor.

Ainda completaram: melhor que os apagões do governo FH, melhor do que os ocorridos em outros países e melhor mesmo que aqueles verificados no próprio governo Dilma. Como? A rapidez com que se detectou o duplo curto-circuito e, mais importante, a rapidez com que se restabeleceu o sistema — isso é Primeiro Mundo, pessoal.

Primeiro Mundo, não. Foi mal. A presidente Dilma acha que eles, do mundo desenvolvido, têm feito praticamente só coisas erradas. Na linguagem do governo, portanto, o apagão de terça é Brasil, assim como a nossa Copa será a Copa das Copas.

Assim como a política econômica brasileira, com tudo — inflação, superávit primário e contas externas — na meta. Vá lá, alvo ampliado, mas e daí?

O problema é que os chamados agentes econômicos — as pessoas que compram, vendem, produzem, consomem, poupam e gastam — não estão acreditando que a nossa energia, quer dizer, nossa economia está brilhando.

Perguntas e dúvidas embaraçam, aqui e ali. No apagão, não se sabe bem se a culpa de tudo foi mesmo o duplo curto-circuito. E mais, por que teria ocorrido o curto? E por que um “curtinho” termina num apagão?
Uma investigação, digamos, normal talvez procurasse alguma ligação entre a falha e circunstâncias como: sobrecarga do sistema, uso seguido no pico, já que houve um recorde de carga três minutos antes de a luz pifar.

Negativo, assegura a equipe elétrica de Dilma, tão firme quanto a equipe econômica. O pessoal pode não saber ainda a causa — tem uma reunião hoje para discutir isso —, mas garante que não há sobrecargas, nem “estresse estrutural”.

Em resumo, até aqui, a resposta é essa mesma: apagão é apagão, acontece. O que queriam, que não ocorresse nenhum problema num sistema tão grande? A convicção das autoridades do setor elétrico é muito mais firme que o próprio sistema, disso não há dúvida.

Só não é mais firme que a convicção da presidente Dilma e do ministro Mantega quando falam de economia.

E, entretanto, parece que, na política econômica, o governo vai tentar dar uma satisfação ao distinto público. Ou seja, fazer algumas mudanças sem admitir que se está mudando. Ou anunciar mudanças sem mudar nada — dizem os céticos.

O problema é que há problemas reais. No setor elétrico, por exemplo, há um erro de fundo: o preço. A tarifa cobrada dos consumidores, residenciais e industriais, reduzida à força no ano passado, resulta mais barata que o custo de produção. Isso cria um incentivo às avessas: estimula o uso de um serviço caro e que não está sobrando. E não estimula o investimento para aumentar a oferta, pois as empresas do setor só não quebraram porque o governo federal lhes passou mais de R$ 20 bilhões no ano passado — dinheiro do contribuinte.

Eis, num detalhe, algo que se passa no modelo Dilma como um todo: muito consumo, pouco investimento.

Há duas possibilidades de se manejar o desequilíbrio financeiro do setor elétrico: ou aumentar a tarifa ao consumidor ou o Tesouro usar dinheiro dos impostos para cobrir os buracos.

Alta da tarifa bate na inflação. Não haveria problema se fosse verdade que a inflação está controlada, não é mesmo?

O Tesouro pagar a diferença — isso reduz o superávit primário, piora o estado das contas públicas, sob desconfiança das agências de classificação de risco. Também não seria problema se as contas públicas estivesses equilibradas...

E tem a política: a redução da conta de luz é ponto de campanha. Subi-la agora, justo no ano eleitoral e no momento em que a outra promessa de redução, a dos juros, já foi descumprida? Sim, descumprida: o Banco Central está elevando a taxa básica. Por que faria isso se dólar e preços estivessem controlados?

Em resumo: apagão acontece — esses curtos... —, mas o sistema é uma fortaleza. Preços sobem — esse mercado internacional.... —, mas não tem inflação. O superávit está caindo, mas a culpa é dos governadores e prefeitos, pois no federal vai tudo bem.

Os outros é que não entendem nada.


Isso pode?

Ruth De Aquino
Revista ÉPOCA

Reuni dez destaques recentes que me fizeram pensar que, no Brasil, pode tudo!

Nossos representantes começam a descobrir que não adianta tentar controlar ou censurar a imprensa ou a televisão – e criar uma máquina de informações governamentais, como sonha o PT de Lula e Dilma. Políticos, juízes e atletas hoje sabem que um passo mal dado, uma declaração desrespeitosa, uma “escala técnica” para comer bacalhau, um riso fora de lugar ou um gasto mal explicado vão todos para o ventilador virtual, com ajuda de uma apuração jornalística 24 horas por dia e fiscalização da população antenada. Reuni dez destaques recentes que me fizeram pensar: “Isso pode?”.

1. Dilma mentiu bobamente. Flagrada com sua equipe em 45 suítes milionárias em Lisboa, mandou dizer que era uma escala inesperada na volta de Davos, devido à meteorologia. Mas não. A agenda estava definida desde a semana anterior, e o restaurante foi visitado por gente da Dilma na véspera. “Paguei a minha conta”, afirmou a presidente. Os brasileiros não conseguem ter acesso à caixa-preta dos cartões corporativos. Tem problema o passeio? Não. Mas mentir não pode. O incidente apressou a saída da ministra Helena Chagas, da Comunicação Social. Dilma quer “melhorar relação com a mídia”. O culpado foi o mensageiro. Isso pode?

2. Eduardo Campos, pré-candidato à Presidência pelo PSB, usou a estrutura do governo de Pernambuco para divulgar, com touquinha e roupa de médico, o nascimento de seu quinto filho, em e-mail e redes sociais oficiais. Campos também anunciou que o bebê, Miguel, tem síndrome de Down. As fotos foram logo retiradas do site institucional do governo. Campos chamou de “equívoco”. Ninguém constatou a impropriedade antes do tempo?

3. O Ministério do Trabalho aumentou em 149% – mais do que duplicou – os registros de sindicatos no ano passado em relação a 2012. Foi um “mutirão”, segundo o ministro Manoel Dias (PDT). Um país que cria uma casta de sindicatos, com favores e benefícios, não vai no bom caminho. A empresária de transportes Ana Maria Aquino afirma ter entregado R$ 200 mil ao ex-ministro do Trabalho Carlos Lupi. Ou essa empresária é louca varrida ou é preciso levar a investigação até o fim. Ela deu detalhes e disse ter levado o dinheiro pessoalmente ao gabinete de Lupi para acelerar o registro de um  sindicato em Pernambuco. Lupi negou e chamou a acusação de “surreal”.

4. O Brasil continua sendo um dos dez países com maior número absoluto de analfabetos no mundo. Em 2012, tínhamos 13,1 milhões de jovens e adultos analfabetos, 8,7% da população nessa faixa etária. Isso não pode mesmo.

5. O Brasil fiscaliza agrotóxico em apenas 13 alimentos. Estados Unidos e Europa analisam 300 tipos de alimentos por ano, incluindo os industrializados. O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. A fiscalização é falha. Dos 50 defensivos mais usados em nossas lavouras, 22 são proibidos na União Europeia. Isso pode?

6. Todo dia, em média, oito ônibus são incendiados ou depredados nas grandes cidades do Brasil. É no ônibus que se despeja a ira contra qualquer coisa – de aumentos de passagens a balas perdidas, falta de passarelas, mortes de jovens, condições de presídios, descaso com saneamento. Vandalizar os ônibus não é protesto legítimo. Isso não pode.

7. Um caminhão com a caçamba levantada derrubou passarela na Linha Amarela, no Rio de Janeiro, matou e feriu. O motorista falava ao celular, trafegava em horário proibido e acima da velocidade permitida – como tantos, sem controle até uma tragédia acontecer. Passarelas deveriam ser mais resistentes, diante da burrice e da irresponsabilidade humanas. Nada disso pode.

8. Mais da metade dos projetos da Olimpíada ainda não tem orçamento definido: só 24 dos 52 empreendimentos chegaram à fase da licitação, a dois anos dos Jogos. Isso pode?

9. Neymar recebeu 10 milhões de euros (R$ 32,7 milhões) do Barcelona mais de um mês antes da final do Mundial de clubes entre Santos e o time catalão, em 2011. Quem recebeu a grana foi a empresa do pai de Neymar. O Santos perdeu a final de 4 a 0. Neymar poderia ter entrado em campo? Por um ano e meio, Neymar jogou pelo Santos já comprometido com o Barcelona. A falta de transparência e as aparentes irregularidades no contrato derrubaram o presidente do Barça, Sandro Rosell. E, no Brasil – isso pode?

10. O deputado federal Romário foi anunciado como garoto-propaganda de uma marca de cerveja, Devassa, no Carnaval. Não se sabe se a escolha foi resultado de sua foto de mãos dadas com uma transexual operada. A morena não importa. Deputado federal pode fazer propaganda de cerveja? No Brasil, pode...

Aqui pode tudo!

Parabéns aos envolvidos

Vinicius Torres Freire
Folha de São Paulo

"Pessimismo é em geral a palavra de quem pretende reduzir discussões a desconversa ou, na melhor das hipóteses, consolar alguém.

Segundo o governo, seria pessimismo observar que o crescimento econômico se arrastaria no pântano. Seria pessimismo observar que:

1) Os juros estão em alta desde o início do ano passado;

2) A confiança dos empresários estava baixa; 

3) A desvalorização do real criaria tensão, incerteza e encareceria investimentos; 

4) O crédito crescia cada vez mais devagar; mesmo o marombado crédito direcionado (sujeito a normas do governo e subsidiado) iria pelo mesmo caminho, por falta de dinheiro.

Note-se que estão listados apenas alguns e mais imediatos obstáculos ao crescimento da economia. Que bicho deu?

A produção da indústria brasileira cresceu 1,1% em 2013. Não bastou nem para tapar o buraco deixado pela recessão de 2012, quando a indústria encolheu 2,5%.

O tombo foi feio em dezembro, de 3,5% em relação ao mês anterior. Foi bem feio na produção de bens de capital. Enfim, o segundo semestre foi deprimente, o que não deveria causar admiração, dados a aceleração da alta das taxas de juros, os piques de desvalorização do real etc., como exposto acima.

Vai fazer meia dúzia de anos que a produção industrial está praticamente estagnada.

Alta de custos (salários em alta excessiva e infraestrutura ruim), taxa de câmbio nominal desfavorável, liquidações no mercado mundial de manufaturados e escassos ganhos de produtividade são motivos do estrago, que tem ajudado a avariar o conjunto da economia brasileira.

O relativo fechamento do país ao comércio, devido à política de remendos protecionistas jecas, a subsídios mal justificados e à falta de planos de abertura inteligente, ajudaram a fazer uma razia nos incentivos econômicos à inovação e à eficiência.

O esforço maior do governo foi no sentido de aumentar os subsídios diretos e indiretos à indústria: reduções de impostos, empréstimos a juros de avô para neto, negativos, doações de dinheiro, enfim.

No fim das contas, o resultado foi apenas criar um remendo insustentável para uma situação estruturalmente problemática. O governo compensou a queda da rentabilidade da indústria com dinheiro público; gastou a fim de contribuir para que a taxa de desemprego ficasse baixa.

Dadas as condições fiscais brasileiras, obviamente isso não iria prestar. Isto é, o deficit público aumentou, as taxas de juros aumentaram, juros que desde quase sempre já são uma tétrica exorbitância brasileira. Não há mais como pagar a conta do remendaço.

O que entra por uma porta sai pela outra, como é visível em tantas obras deste governo. Tabelar a gasolina arrebenta a Petrobras. Subsidiar a indústria encalhada num pântano de ineficiências estoura as contas públicas, o que dá em mais inflação, o que deteriora ainda mais a situação da indústria. A maquiagem do custo da eletricidade torna-se mais dívida. Etc.

Enfim, o "modelo" faz água por todos os lados, para usar uma expressão original. Vai haver "desastre"? Não, provavelmente, não. Mas agora é essa a nossa medida de sucesso, não haver "desastre"?

Para usar outra expressão da moda, "parabéns aos envolvidos". 

A fritura de Helena Chagas

Elio Gaspari
O Globo

Pela primeira vez, o destino das verbas decidiu o futuro da máquina de comunicação do governo federal

O comissariado fritou a ministra Helena Chagas. Pela primeira vez em quase um século, desde que o jornalista Lourival Fontes foi cuidar da imagem de Getúlio Vargas, o funcionário encarregado da comunicação do Palácio do Planalto caiu por causa de dinheiro, acusado de não atender aos objetivos políticos do governo. A jornalista, com 32 anos de carreira, teve no seu ofício um desempenho muito superior à média do comissariado petista. Não a fritaram porque divulgou o que não devia, ou deixou de divulgar o que devia. Muito menos porque suas opiniões políticas divergiam do governo. Na raiz do mal-estar estavam apenas verbas, o dinheiro da Viúva.

Seja qual for o governo, sempre haverá alguém reclamando porque não recebe dele verbas publicitárias proporcionais à fidelidade com que o defende. O patrono dessa espécie deveria ser o jornalista Alexandre von Baumgarten. Amigo de generais da ditadura, queria reerguer uma revista falida e buscava no Planalto perdões de dívidas e verbas publicitárias. Acabou-se em 1982, com uma bala na cabeça, e deixou um dossiê acusando o Serviço Nacional de Informações pela sua morte.

Em 2012 a máquina de propaganda do palácio moveu R$ 1,9 bilhão. Esse é o dinheiro que Brasília promete repassar ao governo do Estado Rio para enfrentar desastres naturais. Noutra conta, R$ 1,2 bilhão é o total dos financiamentos brasileiros para obras e serviços em Cuba. Vale lembrar que esse tipo de munificência não foi inventado pelo PT, nem é exclusivo do governo federal. Ele apenas inflou-o, pois em 2000 o tucanato torrou R$ 1,2 bilhão.

Em 2012 o Planalto gastou mais em publicidade que a Ambev (R$ 1,6 bilhão), que vive de vender cervejas e refrigerantes. Com R$ 1,7 bilhão, a Caixa Econômica (cujas despesas não estão na caixa do Planalto) gastou mais que o Bradesco e o Itaú, somados.

A conta de R$ 1,9 bilhão expande-se para uma cifra difícil de ser calculada. Nela entram outras campanhas promocionais, como as de ministérios, empresas estatais e contratos com agências de relações-públicas que se superpõem às burocracias do Estado. Num cálculo grosseiro, esse aparelho federal pode custar até R$ 4 bilhões por ano.

Quando um governo desenvolve a mentalidade do sítio, julgando-se injustiçado pelos meios de comunicação, a arca torna-se um saco sem fundo, capturada por um círculo vicioso: se estão contra nós, precisamos ajudar quem nos defende e, se alguém nos defende, nada mais natural que ajudá-lo. Num outro estágio, o hierarca federal, estadual ou municipal, seja qual for seu partido, confunde deliberadamente a divulgação de políticas públicas com a exaltação de suas próprias atividades (leia-se candidaturas). Como fica feio fazer isso com o aparelho do Estado, privatizam a ambição política e estatizam seu custo. Em 2013 o Ministério da Saúde gastou R$ 232 milhões e Alexandre Padilha disputará o governo de São Paulo.

Pedir que os governos parem de gastar dinheiro com publicidade num ano eleitoral é um exercício fútil. Precisamente porque este é um ano eleitoral, o balcão está aberto para candidatos capazes de se comprometer a reduzir drasticamente esse tipo de despesa. Basta contar ao público quanto seus antecessores torraram e dizer quanto e como pretendem gastar.

A Internet segundo Lula.

Carlos Brickmann
Observatório da Imprensa

O ex-presidente Lula fez uma declaração irretocável sobre o uso político da Internet: a rede mundial é útil, é libertária, se contribuir para o esclarecimento da população. É ruim, é nociva, quando a liberdade que oferece é usada para caluniar, inventar, agredir. É boa quando usada com consciência e moderação; é péssima quando se transforma em veículo difamatório. 

Mexer com a liberdade da Internet? Jamais, diz Lula. Mas é preciso cobrar responsabilidade de quem a usa; é preciso responsabilizar quem se manifesta pela correção, pela honestidade das informações que ali posta.

Este colunista já tratou do assunto e chegou a mais uma conclusão: quem quiser usar pseudônimo que continue a usá-lo, mas sua identidade verdadeira tem de constar em algum lugar - por exemplo, quando manda comentários sobre uma coluna, o colunista deve saber com precisão de quem se trata. 

Os atingidos têm direito a recorrer à Justiça, e isso só é possível quando a muralha que protege os pseudônimos não permite o bloqueio total de informações. Voltando ao ex-presidente Lula: uma pessoa pode pegar o carro e viajar para onde quiser, livremente, sem restrições. Mas se atingir alguém, se causar um acidente, tem de responder por isso.

Ao dizer essas coisas, Lula está mexendo em área sensível: em seu próprio partido, o PT, há grupos organizados que lutam para desqualificar e desmoralizar pessoas e organizações às quais se opõem. Não é apenas o PT que faz isso; há muita gente que usa a Internet como se fosse guerrilha, e pertence às mais diversas correntes de pensamento político. O PT, entretanto, parece ser o mais organizado. O que não impede que viúvas da ditadura incensem generais (como dizia o marechal Castelo Branco, "como vivandeiras alvoroçadas, vêm aos bivaques bulir com os granadeiros e provocar extravagâncias do Poder Militar"); e que antipetistas busquem casos de dez anos atrás para noticiá-los como se fossem de agora.

Exemplos? Petistas correram para acusar o senador Aécio Neves de ligação com o narcotráfico, porque no helicóptero de um político mineiro havia meia tonelada de cocaína. Detalhe: o referido político tem boas relações com Aécio, mas pertence à base de apoio de Dilma. Antipetistas ressuscitaram uma velha besteira de Marta Suplicy que, quando ministra pela primeira vez, não queria permitir que sua bagagem de mão fosse inspecionada nos raios X. Petistas se apropriaram de uma tragédia - o cantor Cláudio Goldman, com carteira irregular, fez uma barbeiragem no trânsito e matou um motociclista - para realçar o tempo inteiro que se tratava do filho do ex-governador tucano Alberto Goldman. Um dos boletins mais ferozes acusava o próprio Alberto Goldman de ter provocado o acidente. Houve carteirada, houve ameaça, houve tentativa de influir sobre a ação da Polícia? O fato de ser filho de político importante influiu nos procedimentos policiais? Ao que se saiba, não. Então, por que tanta insistência em atribuir a morte "ao filho do governador", e não apenas ao cidadão?

O fato é que, pondo ou não a mão em vespeiro, Lula tem toda a razão: ou a liberdade proporcionada pela Internet é um notável avanço ou se transforma apenas em reforço para difamação. Falta ver se as palavras do líder maior do PT são obedecidas no mínimo pelos militantes de seu próprio partido. E cabe aos dirigentes de outras correntes políticas contribuir ativamente para evitar que um instrumento tão revolucionário se transforme apenas em chulo veículo de insultos e palavrões

Silêncio conveniente
A ministra das Comunicações, Helena Chagas, disse que não era mulher de pedir demissão. Foi a última a saber que tinha pedido demissão do cargo, tendo sido substituída por um profissional de quem não gostava, Thomas Traumann. Depois que o afastamento tinha sido decidido, depois que o substituto tinha sido escolhido, Dilma conversou várias vezes com Helena, e não lhe contou nada. 

Helena agora diz, em seu twitter: "Impressionante a capacidade e o oportunismo de alguns para inventar histórias. Não me atingem.Estou que nem São Sebastião: o que é mais uma flechada?" Poderia ter completado, brincando, "o que é mais uma flechada para quem tem Chagas no nome?" Mas não deveria falar a sério. O respeito que Helena Chagas acumulou, por sua competência e seriedade, não deve ser dissipado na tentativa de salvar as aparências para quem a traiu.

Médicos cubanos, chamem a Princesa Isabel!

Pedro Luiz Rodrigues
Diário do Poder

A Federação Nacional dos Médicos (Fenam) calcula, no início de cada ano, o piso salarial considerado “ideal” para os profissionais do setor. O piso deste ano é de R$10.412,00, valor que é utilizado como referência nas reivindicações da categoria e orienta as negociações coletivas de trabalho dos sindicatos regionais.

Quando lançaram o programa Mais Médicos, em julho do ano passado, os ministros Alexandre Padilha e Aloizio Mercadante (então respectivamente responsáveis pelas pastas da Saúde e da Educação) informaram que os salários dos médicos importados seria de cerca de dez mil reais (na faixa, portanto, do piso ideal calculado pela Fenam), mais casa e comida.

Esse nível salarial foi também considerado adequado pelo diretor da área de promoção do emprego da Organização Médica Colegial da Espanha.  Os mesmos dez mil reais ganham os médicos portugueses, argentinos, uruguaios e de outras nacionalidades que participam do programa.

No caso dos médicos cubanos, procedeu-se de outro modo. Diferentemente dos de outras nacionalidades, são eles sujeitos a um regime remuneratório que a própria legislação e práticas brasileiras identificam como análoga à escravidão. Como se lhes paga remuneração aviltada – o que na prática lhes tolhe a liberdade- vivem em regime de semi-servidão  similar ao dos tempos do coronelismo. O que é inaceitável.

Os médicos cubanos trazidos ao Brasil no âmbito do programa Mais Médicos recebem como remuneração 400 dólares em dinheiro (cerca de 960 reais) e têm outros 600 dólares (R$ 1.440,00) alegadamente depositados em conta de poupança a ser movimentada quando do regresso dos profissionais ao país de origem. O grande beneficiário é o governo cubano, que por cada profissional que manda para cá,  recebe de presente do governo brasileiro cerca de três mil dólares (R$ 7.200,00) mensais.

Trata-se de situação imoral e a meu ver também ilegal. É agravante a circunstância de ser essa imoralidade patrocinada pelo poder público. O que se implantou no caso dos cubanos no Mais médicos foi o que em 2003 pretenderam extirpar da realidade brasileira meus amigos Nilmário Miranda (então Secretário de Direitos Humanos) e o Ministro do Trabalho ( hoje governador da Bahia), Jaques Wagner, ao lançar o Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo.

No caso, balbuciam-se explicações desconexas para tentar fazer o imoral passar por razoável, sob a alegação de que se trata de acordo referendado pela OPAS (Organização Panamericana de Saúde). O acordo pode dizer o que quiser, mas  parece claro que nele estão sendo violadas normas legais brasileiras, inclusive de nível constitucional.

No exame da Constituição Federal não se precisa ir longe. No seu artigo 1º constam entre os próprios fundamentos da República a dignidade da pessoa humana e os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. No artigo 7º determina-se o estabelecimento de “piso salarial proporcional à extensão e à complexidade do trabalho”. Ora, esse piso, anunciado por Suas Excelências Padilha e Mercadante quando do lançamento do programa é  dez mil reais. Pagar pouco mais de dois mil reais aos médicos cubanos (menos de mil em dinheiro), por uma jornada de quarenta horas semanais, é,  ,  umaviolação à norma constitucional.

Com a prática, estão sendo também sendo violadas normas internacionais  subscritas pelo Brasil, como a Convenção 97 da OIT (Organização Internacional do Trabalho) que rege a situação dos trabalhadores migrantes. De começo, parece estar sendo praticada em relação aos cubanos discriminação de nacionalidade , considerada inaceitável no Artigo 6 da referida Convenção.

Por essa razão, a situação dos médicos cubanos em exercício no Brasil, no âmbito do Programa Mais Médicos, mereceria um exame mais cuidadoso do Ministério Público do Trabalho. Caberia à sua Coordenadoria de Erradicação do Trabalho Escravo investigar se as draconianas condições a que esses trabalhadores especializados não caracterizariam situação análoga à da escravidão.

A OAB, sempre tão ciosa da defesa dos direitos humanos, talvez tivesse também uma palavra a dizer. Já é hora, também, de o Congresso proceder a um exame sério do assunto.

A pergunta a ser respondida é simples: por qual razão um médico cubano  não pode ser contratado nas mesmas condições que o de qualquer outra nacionalidade no programa Mais Médicos? Porque, diferentemente de os de outras nacionalidades, só podem ser aceitos se amarrados num condenável acordo de semi-servidão?

A resposta adequada a essa pergunta evitaria que o Ministro da Justiça tivesse de se submeter ao constrangimento pelo qual passou ontem (e que se refletiu claramente em sua fisionomia, na entrevista que concedeu à imprensa ) de ameaçar devolver a Dra. Ramona Matos Rodríguez ao paraíso comunista do Caribe,  certamente para que ela seja “reeducada”.

Mais uma caixa-preta

Alexandre Rodrigues
Revista EXAME

O governo criou um fundo com recursos do FGTS para financiar empresas — um míni BNDES. E não quer dar satisfação do que faz com 28 bilhões de reais

Divulgação 
Leilão do Galeão: recursos do FI-FGTS capitalizaram a 
Odebrecht Transport, que levou a concessão do aeroporto

São Paulo - Nos últimos anos, instituições como o BNDESPar, braço de participações do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, e fundos de pensão de estatais, como Petros e Previ, estiveram entre os principais instrumentos à mão do governo para intervir na economia.

De uns tempos para cá, o arsenal foi reforçado por outro integrante: o Fundo de Investimentos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FI-FGTS). Com 28 bilhões de reais em carteira no fim de 2013, na prática, esse fundo se tornou uma espécie de míni BNDES, reforçando os investimentos em companhias nas quais o banco já aplica dinheiro.

“É uma fonte fácil de recursos e repete a prática de ajudar empresas amigas do governo, que poderiam se financiar sozinhas”, diz Ruy Quintans, professor de macroeconomia e finanças na escola de negócios Ibmec do Rio de Janeiro. “E faz isso sem dar satisfação aos donos do dinheiro, os trabalhadores.”

O fundo FI-FGTS foi criado em 2007 para diversificar as aplicações do bolo de dinheiro formado com o que as empresas recolhem em nome dos empregados. Tradicionalmente, o capital era direcionado a custear projetos de habitação e saneamento. Com o FI-FGTS, o dinheiro dos trabalhadores passou a chegar a áreas tão distintas como aeroportos, construção naval e produção de celulose.

Quase 74% dos recursos estão alocados em títulos de dívida e em ações de empresas, boa parte delas de capital fechado. É o caso da Odebrecht Transport, subsidiária do grupo Odebrecht e vencedora, no fim do ano, dos leilões de concessão do aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, e da BR-163, em Mato Grosso.

Pouco antes do Natal, a empresa recebeu 1,4 bilhão de reais em investimentos públicos. Desse total, 1 bilhão veio do BNDESPar em troca de 10,6% da companhia. O restante, 429 milhões de reais, foi aplicado pelo FI-FGTS, que fez um aumento de capital para manter sua fatia no negócio — em 2010, o fundo já havia comprado 30% da Odebrecht Transport por 1,9 bilhão de reais.

Não é o único exemplo em comum nas carteiras do BNDES e do FI-FGTS. Ambos investiram em empresas como a Sete Brasil, fabricante de sondas para exploração de petróleo, e na produtora de celulose Eldorado, construída pelo grupo JBS em Mato Grosso do Sul.

Além disso, o FI-FGTS é fonte de captação do próprio BNDES — 19% do patrimônio do fundo, ou o equivalente a 5,2 bilhões de reais, está aplicado em títulos de dívida do banco.

Como são tomadas essas decisões de investimento? Uma das críticas ao fundo, administrado pela Caixa Econômica Federal, é a falta de transparência. As aquisições do FI-FGTS são propostas pela Caixa a um comitê de investimentos formado por 12 membros, encarregados de aprovar os projetos contemplados. 

Sua composição é mais política do que técnica. Metade dos integrantes — um representante da Caixa e cinco de diferentes ministérios — é indicada pelo governo. Três são apontados por entidades patronais, como a Confederação Nacional da Indústria. Os restantes representam centrais sindicais, como a Central Única dos Trabalhadores.

Uma vez aprovado o investimento, um relatório é enviado para o Conselho Curador do FGTS, presidido pelo ministro do Trabalho. “Na prática, os conselheiros apenas chancelam as decisões do comitê”, diz um conselheiro que prefere não se identificar.

Segundo a Caixa, todas as operações são baseadas em laudos técnicos internos e em estudos feitos por auditorias independentes. Mas essas informações não são públicas. Ficam restritas ao comitê de investimentos, cujas atas das reuniões também são secretas.

Nas últimas semanas, EXAME teve negados os pedidos de acesso aos documentos por meio da Lei de Acesso à Informação. A resposta: eles contêm informações confidenciais sobre as companhias receptoras de investimentos.

A Caixa não informa sequer o nome das auditorias responsáveis pelas avaliações. O que se sabe é que o retorno dos investimentos não tem sido grande coisa: rendeu 7,2% em 2012, ano em que o CDI, taxa de referência do mercado, deu 8,4%.

Os critérios do FI-FGTS não são unanimidade. Um dos membros do Conselho Curador do Fundo de Garantia a questioná-los é Luigi Nese, presidente da Confederação Nacional de Serviços. Em 2012, ele pediu que fosse revista a decisão de adquirir 750 milhões de reais em títulos da LLX, empresa de logística então pertencente a Eike Batista.

Seu voto foi vencido. “As garantias da operação eram ações da própria EBX, a holding de Eike, o que representava um risco enorme, como o tempo demonstrou”, diz Nese. “Felizmente, a LLX foi vendida antes de quebrar.”

A concentração dos investimentos em poucas empresas é outro ponto questionado. Metade dos recursos aplicados em participações acionárias foi direcionada para duas subsidiárias da Odebrecht, que, juntas, receberam 3,3 bilhões de reais — além da Transport, o FI-FGTS é sócio da Odebrecht Ambiental, de saneamento.

No fim de 2013, o fundo pagou 315 milhões de reais por 5% do capital desta empresa, aumentando para 30% sua fatia no negócio. O valor pago indica que a Odebrecht Ambiental foi avaliada em 6,3 bilhões de reais, o equivalente a 23 vezes o lucro operacional de 273 milhões de reais registrado em 2012.

Segundo analistas ouvidos por EXAME, a avaliação foge aos padrões do setor. Para comparar, o valor em bolsa da Sabesp, maior empresa de saneamento do país, é seis vezes sua geração de caixa. Os gestores do fundo alegam que a valorização se deve às boas perspectivas da Odebrecht Ambiental.

“Não se pode comparar uma companhia consolidada, como a Sabesp, com outra cujos projetos são bastante promissores”, diz Marcos Vasconcelos, vice-presidente de Ativos de Terceiros da Caixa, responsável pela gestão do FI-FGTS. A Odebrecht diz que o Grupo Espírito Santo adquiriu 0,5% da companhia usando o critério de avaliação do FI-FGTS. 

As decisões nebulosas tornam duvidosa a validade do míni BNDES. “Não faz sentido um fundo fazer a mesma coisa que o BNDES já faz”, diz o conselheiro Nese. Para José Luiz Fernandes, membro do comitê de investimentos do FI-FGTS indicado pela Confederação Nacional de Serviços, deveria pelo menos haver transparência.

“É preciso dar mais participação à sociedade e explicar o que fazemos”, diz Fernandes. Por ora, a Caixa mantém o sigilo, alegando que as operações são fiscalizadas por órgãos como a Controladoria-Geral da União.

Ocorre que os recursos do FGTS não pertencem ao banco nem ao governo. São oriundos do patrimônio dos trabalhadores e recolhidos mensalmente por seus empregadores — dois grupos que, até o momento, não decidem como seu dinheiro é aplicado.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
´Coisa que este governo medíocre ainda não entendeu é que o dinheiro do FGTS não lhe pertence. O governo federal é mero depositário. O dinheiro sai das empresas e é depositado em nome dos trabalhadores. 

Deste modo, fica difícil entender a omissão do Ministério Público eme relação à falta de transparência no destino dado ao dinheiro do FGTS.  O governo federal deveria ser compelido, judicialmente, a abrir as contas do FGTS e prestar, religiosamente, contas do que seu destino. 

Repito: o dinheiro do FGTS não pertence ao governo federal e, deste modo, não se justifica que, parcialmente ou totalmente, ele sonegue informações sobre seu uso.  

Crise?

Alexandre Schwartsman
Folha de S. Paulo

 No Brasil a falta de cuidado com a inflação nos últimos anos vai nos custar ainda mais

O assunto que tem dominado o noticiário econômico é a chamada crise dos países emergentes. Com sinais de recuperação mais sólida da economia norte-americana, espera-se que os emergentes venham a receber um influxo menor de capitais.

Assim, esses países terão que reduzir seus deficit externos, com exportações maiores e importações menores, o que requer que suas moedas se enfraqueçam relativamente ao dólar.

Esse processo guarda paralelos incômodos com o observado a partir de meados dos anos 1990, quando o aperto monetário nos EUA contribuiu para uma onda de desvalorizações, inicialmente no leste asiático, cujos efeitos foram particularmente destrutivos.

Vários países da região sofreram recessões bíblicas e as ondas de choque acabaram se propagando para todo o universo emergente, num fenômeno até então desconhecido de contágio financeiro. A crise russa de 1998 e o abandono do câmbio administrado do Brasil em 1999 se devem, entre outros fatores, também à propagação daquele terremoto original.

Não é acidente, portanto, a reação de mercados financeiros à (perspectiva de) alteração da política monetária americana. Quando o mamute se ajeita, a loja treme.

Isto dito, em que pesem certas semelhanças ao ocorrido então, há diferenças substantivas. Para começar, enquanto no final dos anos 1990 a imensa maioria dos países emergentes adotava regimes de câmbio administrado, hoje, pelo contrário, moedas flutuantes predominam. Duas implicações são importantes.

Em primeiro lugar, o regime flutuante costuma desestimular a tomada de empréstimos externos por parte de empresas (e famílias), pois o risco de desvalorização (portanto aumento da dívida em moeda nacional) é elevado.

Já sob câmbio administrado é comum o oposto: a percepção de estabilidade da taxa de câmbio incentiva a formação de elevados passivos externos. Assim, quando a desvalorização ocorre, em geral é acompanhada de crise financeira e forte queda do produto.

Em segundo lugar, quando a taxa de câmbio é administrada, os bancos centrais relutam em permitir a desvalorização (até pelo motivo acima), o que os obriga a elevar fortemente a taxa de juros para impedir a fuga de capitais, com efeitos negativos sobre o PIB.

Caso, porém, a taxa flutue, o BC não tem a obrigação de defender a moeda, apenas moderar o impacto da desvalorização sobre os preços domésticos, o que tipicamente requer movimentos de taxas de juros bem mais modestos do que os necessários para manter uma paridade ameaçada pela mudança de rumo dos fluxos de capitais. Taxas de câmbio flutuantes, portanto, ajudam a “isolar” a economia doméstica das alterações do ambiente externo.

Adicionalmente, escaldadas precisamente pela crise de 1997-99, economias emergentes acumularam uma grande quantidade de reservas, o que também ajuda a mitigar as ondas de choque oriundas da reorientação da política monetária americana.

Nesse aspecto, parece exagero comparar o atual processo ao ocorrido no final dos anos 1990. A desvalorização das moedas emergentes, mais que sinal de fraqueza, é parte central da funcionalidade do regime.

Isto dito, não decorre do exposto acima que todos os emergentes estejam bem. Há divergências importantes, que resultam das políticas adotadas durante os anos de capitais abundantes.

Países que mantiveram políticas sólidas, controlando gastos e mantendo a inflação na meta, hoje conseguem atravessar a turbulência de forma muito mais suave. Quem, por outro lado, desperdiçou a bonan- ça com políticas equivocadas agora paga o preço do descontrole, como é claro nos casos de Argentina e Venezuela.

Já no Brasil a falta de cuidado com a inflação nos últimos anos vai nos custar ainda mais. Partindo de inflação alta e expectativas idem, o BC terá que trabalhar mais duro para evitar os efeitos inflacionários da desvalorização. Não foi, como bem sabem os 18 fiéis, por falta de alerta.

Política e nacionalismo: uma mistura explosiva

João Luiz Mauad
Instituto Millenium

 Decisões empresariais devem focar nos custos e benefícios que produzirão para seus acionistas. Quando quem manda são os políticos, entretanto, os custos se tornam ‘irrelevantes’

Quem não se lembra das fanfarronices petistas, em 2006, quando anunciaram que havíamos, finalmente, alcançado a tão sonhada autossuficiência em petróleo? Com as mãos sujas de óleo, o então presidente Lula da Silva chegou a bravatear que, em breve, o Brasil entraria para o cartel dos países produtores e exportadores de petróleo (Opep). Durante todo aquele ano, a Petrobras inundou a mídia com anúncios, alardeando não só sua enorme competência técnica (comparada a quem, mesmo?) como também a sonhada independência energética da nação. Propaganda enganosa, como ficaria claro mais adiante.

O tempo passou e a realidade cruel prevaleceu. O país continua dependente do exterior, não só em petróleo, mas principalmente em derivados. Há anos a produção brasileira vem andando de lado, enquanto o consumo não para de crescer. Segundo relatório da própria Petrobras, publicado recentemente, a produção de petróleo dos campos nacionais, no ano passado ficou, na média, em 1 milhão 931 mil barris/dia, 2,5% abaixo da produção de 2012. Só para se ter ideia, a conta petróleo fechou 2013 com um déficit superior a 20 bilhões de dólares.

Além da produção estagnada, dívidas elevadas e crescentes, conjugadas com um aperto inédito de liquidez, têm afastado cada vez mais os investidores. Relatório recente do Bank of América apontou a petrolífera brasileira como a empresa mais endividada do mundo. No mesmo diapasão, a Bloomberg calculou que sua dívida líquida já representa três vezes a capacidade de geração de caixa (EBITDA). Trata-se de um patamar de endividamento desastroso, especialmente porque a empresa precisará ainda captar muitos recursos no mercado para bancar os altíssimos investimentos que terá pela frente nos campos do pré-sal.

Com números assim, não fosse a Petrobras uma instituição cujo sócio majoritário é o governo, digo, os contribuintes, e o seu futuro seria, no mínimo, preocupante. Qualquer empresa privada, em situação semelhante, seria vista pelos investidores com imensa cautela, para não dizer com os dois pés atrás.

Mas, afinal, como é que a coisa chegou a esse ponto? É óbvio que estamos diante de uma série de fatores correlacionados e interligados, mas a fonte primária de todos os males da estatal está na ingerência política e no nacionalismo exacerbado abraçado pelos atuais ocupantes do poder. Exemplos recentes dessa mistura explosiva na gerência da companhia não faltam, a começar pelo congelamento do preço dos combustíveis, que afeta severamente o caixa, passando pela absurda imposição de metas cada vez mais ambiciosas, que encarecem e atrasam os investimentos, e terminando com a obrigatoriedade de participação de, no mínimo, 30% em todas as concessões do pré-sal, o que exigirá da petrolífera uma disponibilidade de capital que talvez ela não consiga obter, ao menos pelas vias normais de mercado.

Diz a boa técnica administrativa que decisões empresariais devem focar nos custos e benefícios que produzirão para seus acionistas. Quando quem manda são os políticos, entretanto, os custos se tornam irrelevantes, pois a grana é dos outros, enquanto os interesses quase sempre são conflitantes com os dos demais sócios. O resultado de tanta politicagem foi a transformação da Petrobras numa “empresa zumbi”, cuja melhor solução seria a privatização. Mas como isso hoje parece politicamente inviável, os contribuintes que se preparem.

Fonte: Gazeta do Povo (PR)


A economia mundial — agora sem esteroides

Sri Mulyani Indrawati (*) 
Veja online (**)

Para diretora do Banco Mundial, reformas nos países emergentes são necessárias não só para restaurar o crescimento, mas para melhorar o bem-estar da população

(Roberto Stuckert Filho/PR)  
Enrique Peña Nieto e Dilma Rousseff: 
México está fazendo reformas que o Brasil não fez 

O crescimento econômico está de volta. Não somente os Estados Unidos, Europa e Japão estão finalmente se expandindo, mas também os países em desenvolvimento estão recuperando forças. Como resultado, o PIB mundial deverá ficar em 3,2% este ano, ante 2,4% de 2013 – o que significa que 2014 pode muito bem ser o ano em que a economia começará a se recuperar.

O fato de as economias dos países desenvolvidos voltarem a ganhar força é uma boa notícia para todos. Mas, para os países em desenvolvimento, que dominaram o crescimento global nos últimos cinco anos, isso levanta uma questão importante: agora, com os países de alta renda juntando-se a eles no contexto do crescimento, os emergentes ainda estão fortes na competição? A resposta simples é não.

Assim como um atleta pode usar esteroides para obter resultados rápidos, evitando os exercícios difíceis que são necessários para desenvolver resistência e garantir a saúde em longo prazo, algumas economias emergentes, para crescer, têm se apoiado em influxos de capital de curto prazo, especulativos, atrasando ou até mesmo evitando as difíceis, mas necessárias reformas econômicas e financeiras. O Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, pretende restringir as condições monetárias excepcionalmente generosas, que levam ao crescimento "fácil". Frente a isso, essas economias emergentes terão de mudar sua abordagem, sujeitas a condições mais estreitas e ao risco de perder o terreno que ganharam nos últimos anos.

Com a política monetária restritiva do Federal Reserve tornando-se realidade, o Banco Mundial prevê que os fluxos de capitais para os países em desenvolvimento cairão de 4,6% do seu PIB em 2013 para cerca de 4% em 2016. Mas, se as taxas de juros de longo prazo dos EUA subirem muito rapidamente, ou se mudanças na política não forem bem informadas, ou ainda, se os mercados tornarem-se voláteis, o fluxo de capitais para os países emergentes pode cair 50% ou mais por alguns meses.

Sri Mulyani: 'Emergentes que fizeram lição de casa estão fortes'

Esse cenário tem o potencial para interromper o crescimento dessas economias emergentes que fracassaram em aproveitar os recentes fluxos de capital para fazer reformas. A provável elevação das taxas de juros irá colocar pressão considerável em países com grandes déficits de conta corrente e altos níveis de dívida externa – um resultado de cinco anos de expansão do crédito.

De fato, na metade do ano passado, com a especulação de que o Fed começaria a redução gradual de compras de ativos de longo prazo (o chamado afrouxamento quantitativo, ou quantitative easing), as pressões financeiras foram mais fortes nos mercados suspeitos de possuírem fracos fundamentos. Turquia, Brasil, Indonésia, Índia e África do Sul – apelidados de "os cinco frágeis" – foram particularmente atingidos.
Da mesma forma, algumas moedas de mercados emergentes têm sofrido pressão nos últimos dias, provocada em parte pela desvalorização do peso argentino e sinais de uma desaceleração no crescimento chinês, bem como dúvidas sobre os verdadeiros pontos fortes dessas economias em meio a um mercado geralmente tenso. Como a grande turbulência no verão passado, o atual surto do mercado está afetando principalmente as economias caracterizadas por tensões políticas internas ou desequilíbrios econômicos.

Mas, para a maioria dos países em desenvolvimento, a história não foi tão ruim. Os mercados financeiros de muitas destas nações não sofreram tanta pressão – no ano passado ou agora. Com efeito, mais de três quintos dos países em desenvolvimento – muitos dos quais são fortes agentes econômicos, que se beneficiaram das reformas anteriores à crise (e assim atraíram mais influxos de capital, como investimento estrangeiro direto) – se saíram bem no último ano.

Novamente, retornando à metáfora do atleta: alguns continuaram a exercitar os músculos e a melhorar a resistência – mesmo sob pressão. O México, por exemplo, apresentou no ano passado um projeto de abertura do setor de energia para parceiros estrangeiros – uma reforma politicamente difícil que possivelmente trará benefícios significativos ao país no longo prazo. Sem dúvida, essa iniciativa ajudou o México a evitar unir-se aos cinco frágeis.

O forte crescimento nas economias de alta renda também criará oportunidades para os países em desenvolvimento – por meio da forte demanda de importação e novas fontes de investimento. Enquanto essas oportunidades serão mais difíceis, em comparação à facilidade dos fluxos de capital da época de maiores estímulos do Fed, as recompensas serão muito mais duradouras. Mas, para aproveitá-las, os países, assim como os atletas, devem se esforçar para competir com êxito – por meio de políticas nacionais sólidas que promovam um ambiente de pró-concorrência ideal para negócios, um regime de comércio exterior atraente e um setor financeiro saudável.

Em muitos países, parte do desafio será reconstruir reservas macroeconômicas, esgotadas ao longo dos anos em função do estímulo fiscal e monetário. A redução dos déficits orçamentários e  a transição da política monetária para um plano mais neutro será particularmente difícil em países como os cinco frágeis, onde o crescimento está muito atrasado.

Como no caso de um atleta exausto que precisa recuperar sua força, é muito difícil para um líder político tomar duras medidas de reforma sob pressão. Mas, para as economias emergentes, fazê-lo é fundamental para de restaurar o crescimento, bem como melhorar o bem-estar dos cidadãos. Sobreviver à crise é uma coisa; sair vencedor é algo completamente diferente. 

(**) Sri Mulyani Indrawati, ex-ministra das Finanças da Indonésia, é diretora administrativa e de operações do Banco Mundial - © Project Syndicate, 2014

 (**) Tradução: Roseli Honório

Mantega tenta evitar troca do indexador de dívidas dos Estados

Gabriela Guerreiro
Folha de São Paulo

O ministro Guido Mantega (Fazenda) vai se reunir nesta quarta-feira (5) com senadores para tentar convencê-los a não votar o projeto que troca o indexador usado para os pagamentos das dívidas dos Estados com a União.

O ministro vai argumentar que a aprovação da proposta poderá trazer prejuízos à economia, especialmente para a avaliação de risco do Brasil por agências internacionais.

A proposta é de interesse dos Estados e de muitos senadores porque a troca do indexador poderá reduzir as dívidas dos entes federativos com a União. Há senadores aliados do governo que defendem a aprovação do projeto, mesmo com a pressão contrária da equipe econômica.

O projeto está na pauta de votações do plenário do Senado desta tarde. Sob orientação do governo, líderes aliados da presidente Dilma Rousseff vão apresentar requerimento para adiar a sua votação ou tentar enviá-lo novamente para a CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) –para a análise de emendas ao texto.

"O momento não é adequado para aprovação desse projeto. É isso o que o ministro Mantega vai dizer hoje aos senadores", disse o líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB-AM).

No ano passado, o Palácio do Planalto fechou acordo com os senadores para adiar a votação do projeto para fevereiro. Agora, mudou o discurso ao considerar que a matéria vai trazer prejuízos diante das turbulências no cenário econômico internacional.

"É uma questão de sobrevivência dos Estados e municípios, mas temos que avaliar o argumento do governo de que o momento é de crise. Vamos tentar extrair do ministro entendimento para uma data de votação", disse o líder do PT, senador Humberto Costa (PE).

Com o apoio de parte dos aliados da presidente Dilma Rousseff, a oposição vai defender no encontro com o ministro que o projeto seja votado esta tarde no plenário do Senado.

"A presidente mandou há três dias uma mensagem ao Congresso Nacional dizendo que a economia do país estava em céu de brigadeiro. Agora, diz que não pode votar uma matéria de iniciativa do próprio governo. O governo não quer votar para não expor a chaga que se encontra a economia", disse o senador José Agripino (RN), líder do DEM.

O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), disse que o governo e os senadores terão que encontrar uma fórmula para atender os interesses da equipe econômica e, também, dos Estados e municípios.

"O que pesa mais é que fizemos um acordo público no ano que passou para que essa matéria fosse a primeira apreciada na retomada dos nossos trabalhos. Temos que compatibilizar tudo isso: a necessidade de vota-la, de substituir esse indexador, que é draconiano, pune os Estados, mas levando em consideração também a conjuntura mundial", afirmou Renan.

MUDANÇA
O projeto prevê a troca do índice atual de cobrança das dívidas, que é o IGP-DI, mais juros de 6% até 9%, por um outro mecanismo: IPCA mais 4% ou a taxa Selic (hoje em 10,5% ao ano), prevalecendo o que for menor.

O abatimento do estoque das dívidas dos Estados e municípios se dá porque o texto garante a correção retroativa do saldo devedor pela variação acumulada da Selic desde a assinatura dos contratos.

Nos casos em que a mudança resultar num estoque menor do valor devido com base nos critérios atuais, a União ficará autorizada a abater o saldo devedor.

Uma das maiores beneficiadas com o projeto é a Prefeitura de São Paulo, comandada por Fernando Haddad (PT), que responde por aproximadamente 70% de todo o débito dos 180 municípios que serão recalculados caso o projeto seja aprovado em definitivo.

Pelos cálculos da Prefeitura de São Paulo, a dívida da cidade irá cair de cerca de R$ 54 bilhões para algo em torno de R$ 30 bilhões, o que abre espaço para que a cidade possa contrair novos empréstimos e ampliar seus investimentos.

Ao todo, os 180 municípios beneficiados reuniriam dívidas de cerca de R$ 68 bilhões, segundo técnicos do governo. O texto original, encaminhado pelo governo, propunha a troca do indexador usado para corrigir os pagamentos das dívidas à frente.

Secretário de Fazenda de São Paulo, Andrea Calabi disse que o projeto estabiliza as dívidas dos Estados e permite, a longo prazo, taxas de juros mais baixas. "Eu não vejo motivos para não aprovar. Não há nada diferente do final do ano passado, quando o governo fez o acordo com o Senado para a votação do projeto", disse. 

Causas internas do déficit externo

Editorial
O Globo

O câmbio por si só não explica o desequilíbrio na balança comercial. Deficiências de infraestrutura prejudicam até mesmo setores em que Brasil consegue ser competitivo

A balança comercial voltou a registrar déficit expressivo no primeiro mês do ano (US$ 4,057 bilhões), o pior em 20 anos. Desta vez não foi a contabilização atrasada das importações de petróleo e combustíveis a principal causa do desequilíbrio. Janeiro é um mês ainda de poucos embarques de grãos (embora, excepcionalmente, tenham sido feitas exportações de soja). Mesmo assim, não fossem as chamadas commodities, as vendas brasileiras para o exterior recuariam em relação a janeiro do ano passado, no lugar de uma expansão de 0,4%. As importações até que vêm dando sinais de desaceleração, mas não o suficiente para que os especialistas projetem recuperação expressiva do saldo da balança comercial. Para este ano, as estimativas variam de um superávit de US$ 6 bilhões a um déficit de US$ 3 bilhões, tantos são os fatores que podem impactar o comércio exterior brasileiro em 2014.

Já era esperada uma retração das exportações para a Argentina, em face da crise cambial vivida pelo país vizinho. A Argentina é tradicionalmente um dos principais parceiros comerciais do Brasil, e um acordo automotivo faz com haja uma troca considerável de veículos entre as montadoras que possuem fábricas aqui e lá. No entanto, com a economia argentina mergulhada novamente em crise, o fluxo de exportações manufaturados desabou, e em função disso é provável que o Brasil registre déficit no comércio com a Argentina este ano.

Houve incremento nas exportações para a China e os Estados Unidos, e queda nas vendas para os demais mercados. A desvalorização do real até pode vir a fortalecer as exportações, que têm sido, literalmente, a salvação da lavoura. A indústria perdeu fôlego e nem mesmo consegue acompanhar a demanda doméstica. Exportar se tornou um objetivo ainda mais difícil pra o setor.

O rápido encolhimento do superávit da balança comercial brasileira, com risco crescente de déficit, não se explica apenas pelo câmbio ou por causas externas, como tenta justificar o mantra oficial, Fosse assim, a forte desvalorização do real desde meados de 2012 já teria provocado uma reviravolta nessa tendência. Para esse resultado estão pesando também fatores domésticos que acentuaram a perda de competitividade de segmentos que antes conseguiam exportar ou concorrer com importações. As deficiências de infraestrutura estão entre essas causas, prejudicando inclusive os setores que se mantêm competitivos, como é o caso do agronegócio. Investimentos na infraestrutura de transportes (portos e rodovias, principalmente) agora é que estão sendo destravados. Perdeu-se tempo precioso devido a preconceitos ideológicos. Há boa safra sendo colhida, e mais uma vez se prevê sérias dificuldades no escoamento.

É uma lição que custará muito caro ao país.

Inflação é ameaça à campanha de Dilma, diz The Economist

Exame.com
Fernando Nakagawa, Estadão Conteúdo

Reportagem afirma que a presidente "deixou pouco espaço de manobra econômica para um período de difícil campanha eleitoral para a reeleição"

Ueslei Marcelino/Reuters 
Dilma Rousseff: a reportagem destaca, especialmente,
 o quadro econômico em meio ao aumento da aversão ao risco internacional

Londres - A revista "The Economist" que chega às bancas neste fim de semana publica reportagem em que afirma que a inflação parece como grande ameaça à campanha eleitoral de Dilma Rousseff.

Com o título "Saia-justa de Dilma", a reportagem afirma que ela "deixou pouco espaço de manobra econômica para um período de difícil campanha eleitoral para a reeleição".

A reportagem destaca, especialmente, o quadro econômico em meio ao aumento da aversão ao risco internacional. A análise lembra que o real já perdeu 17% do valor desde o momento em que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) sinalizou o início da retirada dos estímulos.

"Uma moeda mais fraca é o que o Brasil precisa para equilibrar suas contas externas e fazer com que suas fábricas prosperem. Mas isso também gera o risco de aumento da inflação e a constante subida de preços foi um dos fatores (com a baixa qualidade dos serviços públicos) que geraram os protestos populares e abalaram o governo Dilma Rousseff no ano passado", diz a revista.

A "The Economist" nota que, além da depreciação recente do real, há outras dificuldades no radar que pioram ainda mais as perspectivas da inflação.

"E se a mistura dos eventos externos com a criatividade fiscal-doméstica (e até mesmo um possível rebaixamento pelas agências de classificação de risco) gerar um declínio ainda maior do real?", questiona a publicação. Para reagir a esse quadro, diz o texto, a resposta teria de vir com mais aumento de juro, o que sufocaria ainda mais a atividade em pleno ano de eleições, diz a revista.