segunda-feira, fevereiro 10, 2014

Tempos estranhos

Adelson Elias Vasconcellos


Tempos estranhos estes vividos pelo Brasil atualmente. Um fotógrafo, para dizer a verdade sobre o artefato que explodiu na cabeça de um cinegrafista da Band, precisou esconder o rosto para não ser perseguido e ameaçado pelos  bandidos travestidos de manifestantes, que a própria imprensa teima em chamá-los de pacíficos. 

Tempos estranhos estes vividos pelo Brasil, quando um ministro da Justiça a quem cabe a primeira e última palavra sobre pedidos de extradição de bandidos condenados no país, presos no Exterior, mas que fica num jogo de empurra de passar a bola ora para o STF, ora para o Ministério Público, por temer assumir sozinho o ônus da censura de seus companheiros de partido. 

Tempos estranhos, também, quando se vê um procurador oferecer dosimetria para um apenas indiciado, cujo processo penal sequer foi aceito e, portanto, aberto. Tentativa bestial de agradar a quem o nomeou?

Tempos estranhos, sim, quando uma imprensa livre, como jamais em sua longa história, atua com medo das vozes fascistóides de grupelhos de extremistas de esquerda nas redes sociais, e se distancia de sua verdadeira missão de informar, costurando os fatos conforme o “outro lado” determina que sejam narrados.   
Tempos estranhos estes vividos pelo Brasil, suportando o peso de um governo inchado, balofo, incompetente, medíocre, e atolado  em  número crescente de escândalos e que, a par  de sua ruindade, é nomeado como favorito para desgovernar o país por mais quatro anos.

Tempos estranhos estes num país com 50 mil homicídios/ano, mas que prefere demonizar a única força legal capaz de conter e reprimir a insegurança pública e que, acuada, já não sabe mais qual a sua verdadeira missão.

É preciso ser muito obtuso para não perceber a vertiginosa marcha que o país tem adotado contra a ordem, a paz, a harmonia social. Estamos escolhendo o medo como arma de defesa, e o silêncio com voz de protesto. Estamos preferindo como nomear nossos representantes as vozes da bandidagem, a quem delegamos o direito de sabotar, quebrar, bater, incendiar, depredar, tripudiar e até de escolher o lado mau da história como o lado do bem.

Pessoas honestas, trabalhadoras, pacíficas, devotadas ao bem e à paz, não têm nem estômago tampouco tempo para unir-se a baderna que vai transformando o país num campo infestado por selvagens, bárbaros e estúpidos.  

As tentativas de se conter o avanço destes animais sobre os espaços públicos e até privados, vejam a contradição, são justamente torpedeada e até sabotadas justamente pelas autoridades estaduais e municipais constituídas, também com medo, também acuadas, também constrangidas por não encontrarem amparo na autoridade federal que continua apostando no quanto pior, melhor. 

Cabeças  rolaram no presídio de Pedrinhas e, de certa forma, ainda continuam rolando, e não se ouviu  até agora um único suspiro que fosse de indignação de parte das autoridades federais para condenar a ação dos criminosos e baderneiros, como também não se pronunciou uma única palavra de conforto à família da menina queimada viva pela bandidagem. 

Tempos estranhos, também, quando contrariando nossa legislação trabalhista, o Ministério Público do Trabalho, de resto, a própria Justiça Trabalho, jamais se posicionou contrária ao contrato firmado pelo governo brasileiro com o governo cubano, alimentando de forma esgarçada  a importação de mão de obra escrava. E, o que é pior, aceitou de forma cúmplice e passiva que o tal contrato fosse tratado como “secreto”.

Tempos estranhos em que se destinam recursos públicos para a construção de um porto no exterior, em um país cujo comércio com o Brasil é ridículo, enquanto nossos portos agonizam a falta de infraestrutura para dar conta  do fluxo de mercadorias e, a Justiça, até agora, não se pronunciou uma única vez para declarar ilegal a decretação do contrato de financiamento como “secreto”, contrariando dispositivos constitucionais. 

Tempos estranhos estes em que um ex-ministro da Educação, transformado em  prefeito  de uma grande capital, determina o corte de material escolar distribuído nas escolas públicas da rede municipal e destinados aos alunos mais pobres e carentes. 

O Brasil precisa recuperar, imediatamente, seu bom senso, precisa determinar que seu caminho é o da liberdade de informação,  precisa impor aos seus governantes o dever de dar publicidade aos seus atos e impor-lhes a proibição de mentirem publicamente.  Como devemos, também, impor limites à ação da bandidagem, sem medo de punir e prender, independente  da condição do condenado.

Em suma, nossa opção deve ser não apenas a da modernidade, mas a da civilização da qual estamos nos distanciando de forma gradual e inconsequente. 

PAC 3, ou antecipando promessas eleitorais
A senhora Rousseff, sem que tenha concluído o PAC 1.0 tampouco o 2.0, promete lançar o PAC versão 3.0. E, claro, pendurado na promessa, investimentos de muitos bilhões de reais, projetos magníficos, transporte público de primeiro mundo, ônibus novos e refrigerados, metrôs varrendo os grandes centros urbanos de ponta a ponta. 

É claro que o lançamento de um programa desta magnitude, às portas de um pleito eleitoral, não pode ser levado a sério.  Exemplo disto é a tal matriz de responsabilidade, montada sob medida para atender às exigências da FIFA e que, como sabemos, resultou em retumbante fracasso. Se este governinho da senhora Rousseff conseguir concluir ao menos metade do que foi prometido, terá sido uma conquista e tanto. 

Assim, é de se perguntar: se estando no poder há 12 anos, o PT nada fez quanto a mobilidade urbana, apesar dos compromissos assumidos para a Copa e os Jogos Olímpicos, um novo programa bilionário pode ganhar crédito? 

De modo algum. Os governos petistas tiveram tempo e dinheiro, não fizeram por falta de projeto, falta de interesse,  falta de competência.

Mais quatro anos para ouvirmos promessas que não se cumprem é jogar tempo e dinheiro no lixo, além da paciência. 

Este é um partido que prefere enviar o dinheiro dos contribuintes brasileiros para financiar e alimentar ditaduras no exterior. 

A morte do cinegrafista
Com a morte do cinegrafista Santiago Andrade, da Band, os Black blocs já tem um cadáver para chamar de seu.

Como se trata de um jornalista, talvez a imprensa progressista, que adora cultuar a bandidagem e demonizar a polícia, caia na real, e se dê conta do papel pouco recomendável que vem cumprindo desde que estouraram as manifestações de  junho de 2012. 

É sempre bom destacar que a atuação dos black blocs não tem por alvo apenas patrimônios públicos e privados. É desejo de seus comparsas abrir guerra contra a própria imprensa e a polícia militar. São bandidos, não manifestantes.

Custos da guinada populista

Raul Velloso
O Globo

Os movimentos de subida e descida dos preços são a essência do funcionamento das economias de mercado. Se algo se mostra escasso, os preços devem subir. Se abundante, devem cair. Os preços são os sinalizadores básicos para a movimentação de recursos e determinação das quantidades produzidas e consumidas. Por isso precisam deslocar-se o mais livremente possível. Interferir no processo implica, em geral, desvirtuar o sistema de mercado para agradar a alguns e impor custos a outros segmentos da sociedade que, mais cedo ou mais tarde, pagarão a conta.

Quando os governos e os dirigentes políticos em geral entram na estória, a lógica do mercado se vai. Visando à eleição, a palavra de ordem da grande maioria é agradar aos eleitores no prazo relevante para a duração dos mandatos, ainda que isso se dê à custa do comprometimento dos objetivos de longo prazo. Assim, enquanto alguns são paparicados no presente, os que serão prejudicados no futuro quase nunca são consultados.

Para os políticos, a velha saída é buscar alinhar as demandas sociais às mudanças inevitáveis de preços relativos. Ou seja, defende-se a suavização do efeito das subidas dos preços de determinados bens ou serviços relativamente aos demais, basicamente à custa do orçamento público ou, no pior caso, da desorganização da economia.

São várias as instâncias em que isso ocorre no nosso dia a dia. Há países que levam esse processo a extremos e, sem muita demora, acabam entrando em colapso. Ao longo de vários anos em que parecia ir bem, a Argentina tanto abusou de medidas populistas, e agora se vê diante de uma de suas mais sérias crises econômicas. Com tarifas de energia elétrica muito abaixo de onde deveriam estar, o consumo desse insumo fundamental está completamente fora da realidade do país. A ponto de quase ninguém se preocupar em fechar janelas de salas onde o ar-condicionado está ligado. Quem vai investir nesse setor sabendo que dependerá de subsídios prometidos por um governo em grave crise financeira? Em países em que o preço da gasolina está muito abaixo do custo real, como na Venezuela, os engarrafamentos gigantescos são corriqueiros e as ruas estão cheias de carrões bebedores de combustível. Ou seja, não são exemplos a serem seguidos.

Mesmo assim, em que pese certo sucesso obtido em anos recentes, o Brasil acaba de ser incluído por um banco internacional num time pouco recomendável: o dos “cinco frágeis”, juntamente com Indonésia, Turquia, África do Sul e Índia. Esses países apresentam déficits altos no setor público e nas contas externas, além de outras mazelas macroeconômicas. Diariamente, os jornais publicam informações sobre saídas de recursos e a consequente subida das taxas do risco Brasil. Muito disso tem a ver com a guinada populista que o país deu nos últimos anos.

Nas concessões de transportes, a palavra de ordem no ambiente governamental tem sido perseguir as menores tarifas imagináveis — e não as menores possíveis. As próprias tarifas-teto dos leilões de concessões, que deveriam ser bem altas para permitir forte competição do máximo possível de candidatos, foram achatadas ao limite, levando a eventos completamente vazios de postulantes. Após um ano de conversas com o setor privado, o governo acabou recuando e montando certames minimamente eficientes. Agora canta vitória com a sucessão de leilões que ficaram em pé, vencidos por candidatos tradicionais desse mercado.

O mesmo ocorre em energia elétrica, onde, levada ao extremo, a busca excessiva de modicidade tarifária no curto prazo tem estimulado o consumo além da conta e, ao mesmo tempo, comprometido a justa remuneração dos investidores e, por consequência, sua capacidade de investimento. Além disso, prejudica-se a qualidade do serviço e a universalização do atendimento, enquanto outros objetivos em tese são perseguidos. Sem falar na obtenção de ganhos de produtividade, fundamentais para viabilizar a modicidade tarifária a longo prazo.

No momento, diante dos equívocos da política oficial e da escassez hidrológica, que reduz a capacidade de produção das hidrelétricas, usinas de custo cada vez mais alto vêm sendo acionadas, elevando fortemente os custos energéticos. Como o governo não quer o desgaste de repassar esses aumentos aos consumidores, resolveu bancar a manutenção das tarifas atuais por meio do orçamento federal, vale dizer, dos contribuintes em geral, agravando o problema de queda da credibilidade fiscal, em que também está imerso. Outro sério problema é a decisão de não reajustar as tarifas de ônibus e os pedágios, um claro desrespeito aos contratos respectivos. A virtual derrocada das economias da Argentina e da Venezuela e a deterioração do cenário internacional deveriam acender uma luz amarela nos radares do governo. Por mais que o Brasil disponha de estoque inédito de reservas em divisas, é hora de repensar o modelo populista em vigor e preparar o País para uma nova fase. As políticas que fazem sentido devem assumir a linha de frente do processo, incluindo as tão propaladas, mas nunca implementadas, reformas estruturais.

Em 2014, muito risco e pouca escolha para Dilma

Rolf Kuntz 
O Estado de S.Paulo

Inflação oficial em queda foi a novidade boa, mas nem tanto, da primeira semana de fevereiro, marcada por mais um apagão, pelo miserável balanço da produção industrial em 2013 e pela notícia de um déficit comercial recorde em janeiro. A boa nova foi divulgada na sexta-feira. Ficou em 0,55%, no mês passado, a alta do IPCA, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo, referência para a política de metas de inflação. Em dezembro o aumento havia chegado a 0,92% e a alta acumulada no ano, a 5,91%. Para janeiro as consultorias e instituições do mercado financeiro haviam projetado uma variação de 0,76%. O resultado efetivo foi bem melhor e o resultado de 12 meses caiu para 5,59%, ainda muito longe da meta, 4,5%, mas bem menos feio que o alcançado em dezembro.

Mas o governo deveria ser moderado na comemoração. Ainda há um longo caminho até se alcançar uma taxa mensal compatível com a meta de inflação anual. Nem para 2015 os técnicos do Banco Central (BC) projetam esse resultado. Além disso, o contágio inflacionário foi maior em janeiro que no mês anterior. O índice de difusão passou de 69,3% em dezembro para 72,1% no mês passado, segundo cálculo da Votorantim Corretora, divulgado logo depois de conhecidos os dados gerais do IPCA. Em resumo, quase três quartos dos itens cobertos pela pesquisa ficaram mais caros. Obviamente, os aumentos e repasses ocorrem com muita facilidade e isso torna mais complicado o combate à inflação.

A presidente Dilma Rousseff inicia seu quarto ano de governo com uma assustadora coleção de desafios - indústria emperrada, baixo nível de investimento público e privado, contas externas em deterioração, contas públicas novamente em perigo e intensa vigilância das agências de classificação de risco. A agenda é extensa e complicada e, para evitar um desastre maior, o governo terá de levar em conta, em todas as suas decisões, a persistente alta de preços.

Precisará resolver, em primeiro lugar, se o Executivo participará do combate à inflação ou se apenas continuará tentando maquiar os indicadores e deixando o trabalho sério para o BC. Não pode haver dúvida, neste momento, quanto a um novo aumento de juros na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), prevista para os dias 25 e 26. Mas a presidente e sua equipe cometerão dois erros se escolherem o caminho mais cômodo e mais compatível, à primeira vista, com as conveniências eleitorais.

Para continuar maquiando os indicadores de inflação o governo terá de aumentar o subsídio ao consumo de eletricidade e a ajuda às empresas do setor. O custo fiscal dessa política poderá subir de R$ 9,7 bilhões em 2013 para algo entre R$ 16 bilhões e R$ 18 bilhões neste ano. As contas públicas serão prejudicadas, o espaço de manobra orçamentária será menor, as pressões inflacionárias persistirão e os consumidores de energia elétrica receberão um sinal errado.

Nenhum investidor ou financiador estrangeiro será enganado pela repetição de manobras desse tipo. A confiança na política econômica, já reduzida, continuará diminuindo. Se a piora da imagem externa comprometer o ingresso de capitais, uma das saídas será ajustar a política de juros para atenuar também esse problema.

No ano passado o investimento estrangeiro direto, US$ 64,04 bilhões, foi insuficiente para cobrir o déficit externo em transações correntes, US$ 81,37 bilhões. Para este ano o BC projeta um déficit de US$ 78 bilhões e investimento direto de US$ 63 bilhões. O superávit comercial, US$ 2,56 bilhões nos cálculos oficiais de 2013, deve subir para US$ 10 bilhões, segundo a mesma projeção.

Um superávit comercial de US$ 10 bilhões já ficará muito abaixo das necessidades brasileiras, por causa do enorme déficit nas contas de serviços e de rendas, mas até esse resultado medíocre parece duvidoso, neste momento. O déficit comercial de janeiro, US$ 4,06 bilhões, foi recorde, mas muito parecido com o de um ano antes, US$ 4,04 bilhões. Os saldos mensais poderão ser menos ruins no resto do ano, mas nada permite prever resultado final muito melhor que o de 2013. O pequeno superávit oficial do ano passado foi garantido pelo agronegócio (saldo de US$ 82,91 bilhões) e pelas exportações fictícias de plataformas de petróleo, no valor de US$ 7,74 bilhões. Nada justifica, neste momento, uma aposta num desempenho muito melhor da indústria no comércio exterior.

Com crescimento de 0,4% em 2011, redução de 2,5% em 2012 e nova expansão, de 1,2%, em 2013, a produção industrial do ano passado foi pouco inferior à de 2010, o último ano da gestão do presidente Luiz Inácio da Silva, quando o setor já estava enfraquecido.

A indústria, principalmente a de transformação, continuou perdendo vigor nos primeiros três anos da presidente Dilma Rousseff e a ceder espaço a concorrentes estrangeiros, tanto no exterior quanto no mercado interno. O crescimento de 13,3% da produção de bens de capital, no ano passado, festejado pelo governo como sinal de recuperação do investimento, foi insuficiente para neutralizar a queda do ano anterior e levar o resultado de volta ao nível de 2011.

No ano passado, a depreciação do real, embora tenha barateado os produtos brasileiros em dólares, foi insuficiente para impulsionar as exportações de manufaturados. Nesta altura, qual seria a taxa de câmbio necessária para compensar as ineficiências brasileiras e tornar a indústria mais competitiva? É inútil discutir esse ponto, até porque o BC tentará, em 2014 como em 2013, atenuar os efeitos inflacionários da depreciação cambial.

Uma política séria estaria voltada há muito tempo para o aumento da produtividade. No discurso, essa é uma prioridade oficial. Os fatos têm mostrado o contrário. A atenção à infraestrutura é recente e a colheita de resultados vai demorar. E isso é apenas, é bom lembrar, uma parte do enorme problema da competitividade.

A máfia cubana desvendada

Percival Puggina

Durante os Jogos Pan-Americanos de 2007, os boxeadores Erislandy Lara e Guillermo Rigondeaux abandonaram a delegação cubana com o intuito de se tornarem profissionais na Alemanha. Não foi uma fuga qualquer, dessas que acontecem quase sempre que um grupo de atletas ou artistas daquele país viaja ao exterior. A dupla era a joia da coroa cubana no Pan e o boxe divide com o baseball a condição de esporte mais popular da Ilha. Por lá, ser bom boxeador significa estar livre das aflições alimentares do comunismo. A notícia da fuga levou Fidel a escrever um artigo no Granma declarando que "nos nocautearam com um golpe direto no queixo, faturado com notas americanas". Duas semanas após, os dois foram capturados numa praia de Araruama. Dado que atletas cubanos no exterior têm seus passaportes retidos pelos comandos das delegações, a dupla estava sem documentos e foi levada presa para a Polícia Federal em Niterói. 

Se fosse você a decidir, o que faria com ambos, nesse caso? O governo brasileiro fez o contrário. Deportou-os imediatamente para Havana onde, nos meses seguintes, comeram, em pequeníssimas porções, o pão que o diabo amassou. E foi tudo que comeram. Tendo feito o oposto do que você e eu faríamos, nossas autoridades, por eminentes porta-vozes, asseveraram que ambos estavam arrependidos e que pediram para voltar aos afagos de Fidel. Era uma afirmação tão verdadeira e tão sincera quanto qualquer "Me traíram!" de Lula. Tanto assim que, meses após, ambos tornaram a escapar da Ilha. Hoje exercem sua atividade, como cidadãos livres, nos grandes centros mundiais desse esporte. 

No mesmo ano de 2007, o criminoso italiano Cesare Battisti, comunista e terrorista, ladrão e assassino, condenado em seu país por várias mortes, fugiu da França onde estava refugiado. Havia risco de revogação do benefício, o que determinaria sua extradição. Com documentos falsos, Battisti acertou na mosca vindo para o Brasil petista, onde recebeu tratamento de companheiro. Iniciou-se aqui uma longa discussão sobre seu destino. O que faria você, diante do pedido de extradição formulado por país amigo em relação a um criminoso condenado em várias instâncias? Principalmente se você fosse a autoridade que antes enviara dois inocentes de volta para Cuba? Pois é, o governo brasileiro, enrolou, enrolou e fez o oposto, contrariando, inclusive, a posição recomendada pelo Conselho Nacional de Refugiados e a decisão do STF. Concedeu-lhe refúgio e criou uma encrenca com a Itália. Battisti, hoje, trabalha na CUT. 

Temos, agora, o caso da cubana que abandonou o programa Mais Médicos e está sob proteção da bancada federal do DEM. O que faria você? Acolheria o pedido de uma mulher que rompeu o silêncio da omertá e revelou a máfia cubana exportadora de médicos? Até quem conhece, como eu, a realidade daquele país e sabe que é pura balela a "generosa solidariedade cubana", se surpreende com a revelação da doutora Ramona. Ela provou ser contratada não pela Organização Pan-Americana de Saúde (como se contava por aqui) mas por uma empresa, uma Sociedade Anônima, criada em Cuba no ano de 2011, que abocanha 76% do valor pago pelo Brasil. Quem são os sócios dessa empresa? Nada foi dito. 

Por enquanto, tudo indica que o governo brasileiro, mais uma vez, fará o contrário do que você e eu faríamos. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, já antecipou que fora do programa Mais Médicos ela terá seu visto de permanência revogado, presumindo-se que o avião no qual deixará o Brasil terá seu nariz apontado para o Caribe. 

A mais insensível das criaturas humanas reconhecerá na situação dos médicos cubanos atuando no Programa Mais Médicos uma condição de escravidão. Quem se recusa a admiti-lo sonha com uma sociedade onde, em vez de o Estado existir para as pessoas, as pessoas existem para o Estado. Por isso, num regime comunista, um atleta é um atleta do Estado. Um médico é um médico do Estado. E ambos têm que fazer o que o Estado lhes determine. Bom, isso a gente sabia. A novidade é a máfia. 

A última missão do capitão

Elio Gaspari
O Globo

Com testemunho sobre farsa de tiroteio para encobrir a morte de Rubens Paiva, coronel rompeu um silêncio de 43 anos

Na madrugada de 20 de janeiro de 1971, o capitão Ronaldo tinha 30 anos e servia no DOI do Rio de Janeiro quando recebeu a missão de ir ao Alto da Boa Vista para simular que um preso fora sequestrado por militantes de esquerda, depois de um tiroteio. Em depoimentos prestados à Comissão Estadual da Verdade do Rio, revelado agora pelo repórter Pedro Bassan, o capitão Raymundo Ronaldo Campos, hoje um coronel reformado, contou que o tiroteio e o sequestro foram uma farsa destinada a encobrir a morte de um preso. Era Rubens Paiva, havia sido deputado federal e tinha 41 anos. Morrera de pancada no DOI da Barão de Mesquita.

A farsa foi desmascarada já em 1978 pelos repórteres Fritz Utzeri e Heraldo Dias. Eles demonstraram que Paiva, um homem corpulento, não poderia ter saído do banco de trás de um Volkswagen, onde estava escoltado por dois sargentos e um capitão, atravessando um fogo cruzado até chegar ao carro dos sequestradores.

Com seu testemunho, já que foi ele quem encenou, relatou e assinou a narrativa do “cineminha”, o coronel rompeu um silêncio de 43 anos. Ainda nos primeiros anos da ditadura, dois chefes militares denunciaram as torturas praticadas contra presos políticos: os generais Pery Bevilaqua e Olympio Mourão Filho. Ele mesmo, o que disparou a rebelião militar que depôs João Goulart.

Pery foi cassado em 1968 e Mourão morreu em 1972. Desde então os comandantes militares vivem aprisionados num pacto de silêncio. Jamais reconheceram a tortura e aferram-se às versões segundo as quais Rubens Paiva fugiu (e sumiu), Vladimir Herzog e Manuel Fiel Filho suicidaram-se e cerca de 40 guerrilheiros do Araguaia simplesmente desapareceram. Militares da velha “tigrada” diziam ao coronel que ele não devia falar, porque “o Exército não vai ajudar em nada.” Engano. É o coronel quem está ajudando o Exército.

A farsa do sequestro e o assassinato de Rubens Paiva são dois dos três vértices de um triângulo. Admita-se que foram esclarecidos dois. Um deles foi coisa de um capitão, a mando de um major. Outro poderia ter sido coisa de um tenente. Resta o terceiro: como o corpo de Paiva foi retirado do DOI? Majores do DOI não tinham autonomia para isso. Num caso anterior, a farsa foi coordenada pelo Centro de Informações do Exército. Seu chefe respondia diretamente ao ministro. Estes episódios não eram coisa de majores, mas diretrizes de generais, que os elogiavam e condecoravam. Morreram todos, mas resta um sobrevivente: o Exército.

Estão vivos pelo menos mais dois majores e um capitão que estavam no DOI no dia da prisão de Rubens Paiva. É possível que eles possam contar se alguém mandou apagar as luzes do pavilhão durante a operação de retirada do cadáver.

Cardozo reviu a conduta de Tarso Genro
Em 2007, durante os Jogos Pan-Americanos, dois boxeadores cubanos, atraídos por um empresário alemão, abandonaram a delegação de seu país. Mobilizada pelo comissariado, a polícia achou-os no interior do estado do Rio e manteve-os num regime de liberdade vigiada. Mais coisas estranhas aconteceram. Seus advogados viram-se autuados por desacato. O delegado da Polícia Federal Felício Laterça informou que eles se recusaram a pedir refúgio no Brasil, pois queriam voltar ao “país que amam”. Dias depois, formalmente deportados, os dois embarcaram num jatinho vindo da Venezuela e o ministro da Justiça, Tarso Genro, disse que os críticos do governo “têm uma visão de que ninguém jamais quer voltar a Cuba, isso é uma rematada bobagem”. Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara amavam tanto seu país que fugiram da ilha pouco depois.

Em agosto passado, quando começou a discussão em torno da vinda de médicos cubanos ao Brasil, o advogado-geral da União deu um toque jurídico ao precedente ocorrido no mandarinato de Tarso Genro. Quando lhe perguntaram o que aconteceria se um cubano quisesse pedir asilo, respondeu: “Parece que não teriam direito a essa pretensão. Provavelmente seriam devolvidos.” Seria um aviso. Nessa época o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, dizia que isso não vinha ocorrendo em outros países onde havia médicos cubanos. Quem acreditou nele (o signatário, por exemplo) fez papel de paspalho. Quando Padilha dizia isso já haviam pulado o muro dezenas de médicos e o governo americano criara para eles uma porta de acesso ao país, sem contudo assegurar-lhes o direito a exercer a medicina.

Ao buscar a proteção do DEM, a médica Ramona Matos Rodríguez foi mais cautelosa que os dois boxeadores, mas o governo da doutora Dilma comportou-se de maneira muito mais civilizada que o de Lula. Adams ficou calado e o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, reconheceu o direito da médica de pedir refúgio no Brasil e nega ter posto a polícia no lance.

Há mais de dois mil médicos cubanos trabalhando no Brasil. Pelos mais diversos motivos, não fizeram o que fez Ramona. Felizmente, Cardozo não repetiu a “rematada bobagem” policial ocorrida quando Tarso Genro era ministro da Justiça.

Sargento Garcia
Pelo barulho, até parece que o PMDB poderá se afastar do governo.

O PMDB segue garbosamente o slogan do Pasquim: “Um jornal de oposição ao governo da Grécia.”

Paes em paz
O prefeito do Rio, Eduardo, criou uma situação de ganha-ganha. Aumentou as passagens de ônibus e foi para a África do Sul, onde assumiu a presidência do C40, um grupo que discute a situação climática das cidades.

Na quinta-feira, o governador Sérgio Cabral, que congelou as tarifas estaduais, teve que botar na rua a PM para reprimir os protestos.

Em junho passado, o governador Geraldo Alckmin e o prefeito Fernando Haddad estavam juntos em Paris quando começavam os protestos de São Paulo. Lá, cantaram uma versão inesquecível do “Trem das onze”, de Adoniran Barbosa.

Madame Natasha
Madame Natasha é uma batalhadora da causa do descongestionamento do idioma e concedeu mais uma de suas bolsas de estudo aos transportecas da Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo pela seguinte paralisação idiomática:

“Estão sendo desenvolvidos estudos para identificação e efetivação dos ajustes necessários para aumentar a eficiência e a eficácia do sistema de transporte público coletivo e diminuir o impacto gerado pela faixa exclusiva”.

A senhora acha que eles nada tinham a dizer.

Ajuda de Haddad
A doutora Dilma e o comissário Alexandre Padilha precisam contratar marqueteiros para montar uma campanha publicitária. Nela explicarão por que o prefeito petista da cidade mais rica do país cortou de seis para quatro a cota de lápis para cerca de um milhão de alunos da rede pública.

Raios que nos partam.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

O apagão de Fernando Henrique, em 1999, segundo a explicação oficial, foi causado por um raio que atingiu o sistema elétrico em Bauru, SP. Era um dia ensolarado, seco, sem chuvas, nem uma garoinha sequer. Mas foi o raio, e pronto.

A presidente Dilma, que se considera especialista em eletricidade, disse em 2012 que raios não afetam nem produção nem distribuição de energia. "No dia em que falarem para vocês que foi raio, gargalhem". E não é que o Operador Nacional do Sistema, Hermes Chipp, disse que o apagão da terça-feira pode ter sido causado por um raio? Nem deu tempo de gargalhar: Dilma arranjou espaço na sua irritação geral para ficar irritada com Chipp, e mandou seu ministro Thomas Traumann dizer que se o problema foi causado por raio é preciso apurar se os operadores estão fazendo a manutenção adequada da rede de para-raios.

Aguarde: um eletricista daqueles que sobem no poste vai levar a culpa.

Há detalhes interessantes nessa história. Na véspera do apagão, o ministro das Minas e Energia, Édison Lobão, disse que o aumento no consumo da energia não criaria problemas no abastecimento. Lobão é especialista em eletricidade: em sua casa, aperta um botão e a luz se acende; aperta outro, a luz se apaga. 

Já de coincidências, não entende muito: nunca entendeu, por exemplo, porque o espelho de sua casa quebra assustado, por coincidência, tão logo ele se olha para fazer a barba. E, veja só, o apagão aconteceu exatamente um minuto depois que se registrou o pico de consumo de energia. 

Pura coincidência, claro. 

"Planejaumento" 
O Governo Federal sabe que o preço influencia, e muito, o consumo - tanto que, para ampliar a produção de automóveis, baixou impostos, reduzindo o preço e levando mais gente a comprar seu carro. Mas, na área de energia, acha que preço não funciona: baixou na marra a conta de luz e estimulou o aumento do consumo, sem elevar no mesmo ritmo a produção de eletricidade. Deu azar: o consumo, já em alta, foi impulsionado por um calor sem precedentes, e há a estiagem que esvaziou as represas. A solução foi imitar mais uma vez os defeitos de Fernando Henrique e culpar o raio que ninguém viu (e que Dilma já proibiu).

Pizzolato, 1, 2, 3
Henrique Pizzolato, importante petista condenado no processo do Mensalão, foi preso na Itália, com passaporte falso, em nome de seu falecido irmão. Extradição ou não, não é a questão: ele será julgado lá pelo passaporte falso.

1 - Pizzolato votou duas vezes nas últimas eleições: uma como Henrique, outra como Celso, o falecido irmão. Se é fácil assim, quantos terão feito o mesmo?

2 - Pizzolato disse que queria ser julgado por tribunais democráticos como os italianos. Pois não é que agora está tendo sua oportunidade?

3 - O Governo italiano tem uma chance de ouro de vingar-se das sucessivas afrontas cometidas por Brasília no caso Césare Battisti: um tapa com luvas de pelica. Retribuir as afrontas com uma gentileza, enviando Pizzolato de volta ao Brasil. Dizem que ele está furioso por ter sido abandonado e tem coisas a contar.

Dúvida
Pizzolato agiu sozinho na elaboração do plano de passar-se por seu irmão e na falsificação dos documentos, ou contou com a ajuda de algum perito? Quem?

A bancada da Papuda
O ainda deputado federal João Paulo Cunha, do PT paulista, está preso; em sua companhia, há também o deputado Natan Donadon, do PMDB de Rondônia. Os dois, embora condenados, com trânsito em julgado, sem direito a recurso, querem exercer seus mandatos a partir das acomodações de que dispõem na Penitenciária da Papuda, em Brasília.

João Paulo radicaliza: pede que o emprego necessário para que possa deixar a prisão durante o dia seja o de deputado federal. Na verdade, ambos se esforçam para que a imortal frase de Lula continue verdadeira, e que a bancada de 300 picaretas não se reduza para 298.

Se estiver certo, está errado
O secretário estadual de Transportes Metropolitanos, Jurandir Fernandes, acusa "grupos organizados" de tumultuar o Metrô paulistano. Fernandes não disse, mas é curioso observar que o pico de defeitos do Metrô ocorre em anos pares, coincidentemente aqueles em que há eleições. Na última rodada de problemas, perto das eleições anteriores, achou-se até uma calça jeans impedindo o contato de um transformador e cortando a energia. 

Imaginemos, pois, que Fernandes, secretário do Governo tucano de Geraldo Alckmin, tenha razão. Tanto o Metrô como os trens urbanos têm equipes de segurança, câmeras, acesso a peritos que podem ajudar na investigação. O Governo comanda também as Polícias Civil e Militar, com seus investigadores e serviços de informações. Que é que fizeram nos últimos anos para identificar e desmantelar os tais "grupos organizados"? Se o Governo estiver certo quanto à sabotagem, por que não agiu até agora?

O buraco da bola
O deputado Jerônimo Goergen, do PP gaúcho, apurou a dívida dos clubes das séries A e B com o Governo: R$ 2,3 bilhões (sendo R$ 900 milhões com a Receita). Goergen busca uma solução que, sem fechar os clubes, os force a pagar.

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O preço do desleixo

Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

Conforme demonstram os repetidos apagões no fornecimento de energia elétrica, não há publicidade nem garantias lastreadas em palavrório que possam fazer frente às agruras da realidade, essa rebelde renitente.

Assim ocorre com todas as questões que são tratadas apenas sob a perspectiva do ganho eleitoral. No governo se diz agora que há preocupação com o prejuízo dos apagões à reeleição de Dilma Rousseff, quando antes não se cuidou com o mesmo zelo de medidas de longo prazo para assegurar o abastecimento de energia à população.

Um jornal do Chile está preparando uma reportagem sobre as implicações das falhas no setor de energia para o governo Dilma. A jornalista envia por e-mail algumas perguntas que incluem os atrasos nas obras para a Copa do Mundo, os protestos. Ela manifesta curiosidade específica sobre dois pontos.

Um de caráter geral: "Há má gestão das crises e mau planejamento dos megaeventos em que o Brasil se envolveu?". Outro de cunho eleitoral: "A presidente poderá sair sem danos dessa situação?".

A resposta à primeira indagação está no enunciado da pergunta. Inexiste gestão e planejamento. O bem-estar da população, as medidas de longo prazo para assegurar o "risco zero" de apagões foram deixados de lado em nome da soberba, do incentivo irresponsável ao consumo e da demagogia nas tarifas.

A segunda é uma incógnita. Por ora, o que se pode dizer é que há potencial danoso para a presidente, pois a persistirem os transtornos na vida cotidiana do brasileiro é provável o reflexo no humor do eleitorado.

O governo não se sai dessa alegando que não se pode politizar o assunto. O PT foi o primeiro a fazer pesado uso político dos apagões do governo Fernando Henrique Cardoso, muito embora na ocasião tenha havido uma atitude diferente: o governo admitiu a situação, atuou, chamou a sociedade a economizar e evitou o racionamento.

Em 2010 Dilma, ex-ministra das Minas e Energia, foi apresentada e celebrada como a solução para todos os problemas de gestão, notadamente no setor energético. O resultado está aí: doze anos depois daquela campanha de 2002 o problema volta a assombrar. Desta vez rondando o PT nas urnas.

Mas isso não é o mais grave. O preço eleitoral que o partido terá (ou não) de pagar é um pormenor perto do prejuízo que a imprevidência governamental causa ao País e à vida das pessoas.

Mal comparado. 
Um caso remete ao outro, mas não há termos de comparação entre os pedidos de extradição de Cesare Battisti e de Henrique Pizzolato.

Battisti foi condenado na Itália por assassinato. Fugiu para o Brasil e teve pedida sua extradição, concedida pelo Supremo Tribunal Federal. O governo brasileiro, em decisão monocrática do então presidente Lula da Silva, negou e pôs em dúvida a legitimidade da sentença da Justiça italiana. Recorreu ao mesmo argumento dos mensaleiros de agora: o julgamento teria sido produto de perseguição política, um rito de exceção.

Dedução bastante questionável, para dizer o mínimo, tendo em vista a vigência plena da democracia na Itália. Assim como aqui o processo do mensalão foi examinado em ambiente de normalidade institucional.

Já a recusa praticamente certa do governo italiano a extraditar Pizzolato tem lastro na Constituição que permite a imunidade para cidadãos natos.

Obedeceria a esse critério, pois o condenado tem dupla cidadania. Além disso, não entraria em choque com decisão da mais alta instância judicial do País nem teria o viés ideológico do ato que beneficiou Battisti.

A cubana roda a baiana

Ruth De Aquino
Revista ÉPOCA

Nenhum brasileiro assinaria um contrato como o imposto à médica cubana pelos irmãos Castro

"Rodar a baiana” é uma gíria brasileira. A médica Ramona Matos Rodríguez, que estava em Pacajá, no Pará, não deve conhecer essa expressão. Significa tirar a limpo uma situação, armar um barraco e tomar satisfação com alguém. A gíria nada tem a ver com os baianos, que costumam ser mais de ginga que de briga. A origem é o Carnaval carioca do passado, quando capoeiristas se fantasiavam de baianas, para reagir aos rapazes que beliscavam as moças nos blocos de rua.

Ramona era um dos mais de 7 mil médicos cubanos contratados pelo Brasil para uma missão louvável: atender as populações brasileiras totalmente desassistidas em municípios do interior. Ela desgarrou do bloco e rodou a baiana. Foi parar no barracão de Ronaldo Caiado, deputado federal do DEM. Péssima escolha de Ramona, já que Caiado é um dos símbolos da direita ruralista. Poderia ter-se abrigado no gabinete de Eduardo Suplicy. Ele perceberia como são violados os direitos humanos e trabalhistas de Ramona. Caiado a adotou como trunfo político. Ela pediu asilo porque se sente explorada – e também porque divergir do Estado cubano é crime passível de prisão.

A deserção de Ramona expõe fraturas inadmissíveis do Mais Médicos. Uma coisa é alguém ir como voluntário para um país em guerra, calamidade ou emergência. Você vai sem ganhar nada, movido pela solidariedade. Outra coisa é o profissional se mudar para o exterior num período sabático, com uma bolsa, para uma especialização. Sabe que ganhará menos. O caso do Mais Médicos é diferente. Em contrato de trabalho, o Brasil paga R$ 10 mil mensais a cada médico estrangeiro. Mas os cubanos só embolsam R$ 1.000. Do “resto”, cerca de R$ 1.500 são dados às famílias dos médicos em Cuba. E o “excedente”, R$ 7.500, vai para os donos dos passes: os irmãos Castro, eternizados no poder pela repressão e pela ausência de eleições.

Não dá para acreditar que Ramona ignorasse as restrições antes de vir para cá. Ela diz que não tinha internet e não sabia que ganharia menos que os outros médicos estrangeiros. Conta outra, Ramona. Mas, ao rodar a baiana, ela teve um mérito: exibiu o contrato entre Brasil e Cuba. Tornou públicas as irregularidades. Você engole? Estamos mal-acostumados com nossa liberdade, após a ditadura militar que produziu crimes horrendos como a morte do deputado Rubens Paiva? Queria ver um brasileiro, de qualquer ideologia, assinar um contrato com as cláusulas impostas pelo Estado cubano aos médicos.

Vamos só imaginar. O Brasil cederá médicos a um país africano que contrata estrangeiros. E aí, meu camarada, o negócio é o seguinte. Você só poderá tirar férias no Brasil, nada de viajar pela África, Europa, Ásia, esquece. Você será obrigado a relatar às autoridades brasileiras se receber visita de amigos ou parentes. Também não poderá se casar com estrangeiros, mesmo que eventualmente se apaixone. O Estado brasileiro ficará com 75% do salário que o país contratante pagar, tudo bem, companheiro? E você ganhará só 25%. Tem de se virar, afinal você é um profissional da Saúde e, por isso, um missionário. Ainda há um detalhe: mulher, marido, filhos não são autorizados a acompanhar você. Ficarão no Brasil. E não reclama lá fora não, porque estamos com sua família aqui, e você sabe que quem diverge do Estado brasileiro é de direita, contrarrevolucionário, reacionário e, por isso, um elemento antissocial, contra os pobres e carentes. Deve ser recolhido aos presídios. Imaginou?

Não faço ideia se Ramona conseguirá asilo no Brasil. Ou se continuará a trabalhar como médica. Conhecemos todos o destino dos boxeadores cubanos que buscaram asilo nos Jogos Pan-Americanos e foram mandados de volta para Havana por Lula, num avião da Venezuela de Chávez. Não sei se Ramona conseguirá asilo em Miami. Se eu precisasse me exilar em Miami, seria infeliz... Asilo, exílio, refúgio e deserção são gestos de desespero de cidadãos de uma ditadura, tolhidos nos direitos mais básicos, como a liberdade de expressão.

O episódio protagonizado por Ramona abriu fissuras num programa útil no sertão e nos confins do Brasil. O Mais Médicos não resolve as deficiências da Saúde, mas ajuda milhões de brasileiros a ter uma primeira avaliação ou diagnóstico. Se o pedido de refúgio de Ramona for imitado por seus colegas, aí Dilma, Lula e os irmãos Castro deverão se reunir, em torno de uma cachaça ou um rum envelhecidos, para reformular o Mais Médicos. E torná-lo justo e profissional.

Para Cuba, com amor

Mary Zaidan
Blog do Noblat

Ramona Rodriguez. A cubana que fugiu do Mais Médicos de Pacajá, no Pará, criou um enrosco sem tamanho para o governo Dilma Rousseff. Reacendeu críticas ao extravagante contrato em que os irmãos Castro se apropriam do grosso dos salários dos médicos exportados e deu xeque-mate à legalidade do programa, carro-chefe da campanha do ex-ministro Alexandre Padilha ao governo do Estado de São Paulo.
Contas publicadas pelo jornal O Globo revelam que o Mais Médicos reforçará os cofres da ilha em R$ 713 milhões ao ano, 77% do valor destinado ao programa junto a Cuba. Só 23% ficam com os profissionais importados.

Criou ainda uma encrenca jurídica.

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, apressou-se em dizer que Ramona poderá perder o visto de permanência no país e a licença para atuar como médica no Brasil. A tese é frágil. Ancora-se na medida provisória que sustenta o programa, que pouco vale se confrontada à Constituição. Aliás, se o Brasil conferir a Ramona um improvável asilo, ela pode passar no Revalida e exercer a profissão como qualquer médico estrangeiro.

 Foto: José Cruz / Agência Brasil 
Ramona Matos Rodrigues, 
médica cubana que abandonou o Programa Mais Médicos.

Para o governo, ficar com Ramona é um problema. Incitaria novas dissidências. Embarcá-la de volta pode ser ainda pior. Até porque, sabe-se, a ditadura cubana não a pouparia de retaliações, que acabariam reveladas pela mídia. Não à toa, ela teme por seus familiares, em especial pela filha, também médica.

É tão verdade que mesmo no Brasil Ramona já é vítima de detratores. Ela foi acusada de bêbada e devassa pelo deputado José Geraldo (PT-PA), que inscreveu nos anais da Câmara trechos indizíveis da carta repugnante do presidente do Conselho Municipal de Saúde de Pacajá, Valdir Pereira da Silva. De nível tão baixo que o PT deveria se envergonhar e pedir solenes desculpas.

Para completar, blogs engajados divulgaram a versão de que Ramona só queria mesmo encontrar o namorado, em Miami, e que tudo não passou de uma farsa instruída pelo líder dos Democratas, Ronaldo Caiado (GO).

A previsão é de que o Brasil receba mais de sete mil médicos cubanos. Hoje, 5.378 já estão operando a um custo de R$ 925,86 milhões por ano, isso sem computar transporte e moradia. Repita-se: mais de três quartos disso fica com o governo de Cuba.

Embora o governo Dilma afirme que só decidiu importar cubanos porque não conseguiu preencher as vagas do Mais Médicos com brasileiros e outros estrangeiros, Ramona foi treinada há dois anos para vir para o Brasil. Fez parte de uma farsa.

E faz parte de uma massa que sustenta, com o seu trabalho, a ditadura que ela já demonstrou que não quer. Mas que o governo do PT apoia. Com unhas, dentes e dinheiro. Muito dinheiro.

Corda esticada

Celso Ming
O Estado de São Paulo

O Brasil não vai quebrar, por certo. A inflação não está tão descontrolada quanto dizem; os juros estão longe de ser os mais altos do mundo; a administração das finanças públicas não é tão ruim como a de tantos outros governos; o crescimento econômico é essa merreca que todo o mundo já viu, mas, pelo menos, há crescimento, num mundo que segue devagar-quase-parando. E, afinal, o Brasil não é nem a Argentina nem a Venezuela.

Mas a sensação de desconforto e de aumento de problemas em cada vez mais segmentos parece crescente. Talvez seja o calor; são as manifestações cada vez mais frequentes; é a vida dura de sempre; ou tudo isso junto aumenta a percepção de que, no Brasil, muita corda está esticada demais.

(FOTO: Hélvio Romero/Estadão)
No limite 

Na semana passada, por exemplo, o apagão que atingiu 13 Estados mostrou que o sistema elétrico está em curto-circuito. Pouco importa se as causas do sucedido foram poderosas descargas atmosféricas, sobrecarga de demanda ou falha humana, como pareceram indicar as manifestações da presidente Dilma. O fato é que o sistema está vulnerável.

Além disso, sabemos que 227 de 448 obras de construção, ampliação e melhorias de linhas, subestações e 71% das obras das novas redes de transmissão estão atrasadas, conforme reconhece o Ministério de Minas e Energia. A maior demanda de energia, num momento em que os reservatórios acusam níveis excessivamente baixos para a temporada, obrigou o Operador Nacional do Sistema Elétrico a acionar as usinas termoelétricas que encarecem o quilowatt/hora.

Apelos tardios para que a população poupe água e as críticas à baixa eficiência operacional das redes de saneamento também puseram em evidência a precariedade dos serviços de água e esgoto.

A mesma sensação de tudo trabalhando no limite pode-se ver, também, nas operações dos portos, aeroportos e rodovias. Em todo o País, os transportes urbanos estão sob estresse. São linhas de metrô paralisadas quase diariamente, ônibus incendiados nas principais capitais, uma greve infernal em Porto Alegre, protestos contra aumento de tarifas em toda parte. E, com a volta às aulas, há os engarrafamentos exasperantes de trânsito nas grandes e até mesmo nas médias cidades, que engaiolam o cidadão durante horas a fio.

A Petrobrás enfrenta anos seguidos de quebra de produção, mostra deterioração em todos os indicadores operacionais e, mesmo com dinheiro farto do BNDES, não vem dando conta dos programas de investimento.

E há as tão frequentes quedas de sinais nas redes de comunicação e internet, cuja extensão não são nunca admitidas, mas são sempre sentidas. Mostram a baixa fluência das coisas que deveriam fluir.

Semana após semana, as estatísticas que acusam o desempenho do setor produtivo revelam baixa capacidade competitiva da indústria, especialmente o subsetor de transformação.

Os programas de desoneração deram o que tinham de dar e mais não podem porque o Tesouro é uma laranja espremida demais. Enquanto isso, o impulso recorrente das autoridades é sempre dar um jeito de aumentar a arrecadação.

Vai ver, tudo isso e tanta coisa mais não passam de um sonho mau ou de um momento de falta de objetividade… Vai ver.

Começo difícil

 Míriam Leitão  
O Globo

O ano de 2014 não começou bem para a economia brasileira. Foram muitos indicadores ruins seguidos, e o momento da economia internacional é de incerteza. Mas o ano está só começando e novos números virão, podendo trazer algum alívio. Pior do que um número ruim é a queda da confiança na economia pelos empresários e consumidores.

O apagão desta semana não foi tão grave quanto outros, mas há uma crise no setor energético que o governo deveria enfrentar. Em vez de tapar o apagão com a peneira, ou culpar um ou outro dos seus auxiliares, a presidente deveria ver a sequência de erros cometidos por seu governo nessa área e começar a fazer o ajuste. Não há solução fácil. Corrigir preços que ficaram defasados elevará a inflação, cobrir tudo com subsídio governamental aumentará o déficit público e alimentará a desconfiança. O Brasil já está com sua nota de crédito sob revisão negativa.

Uma indicação de que há algo errado no setor de energia é a queda das ações das empresas do setor, apesar do aumento do consumo. Em condições normais, aconteceria o contrário: as ações subiriam com o aumento da demanda. O problema é que o país está produzindo uma energia mais cara e as empresas estão impedidas de repassar esse custo ao consumidor para não elevar a inflação. O ministro Guido Mantega admitiu novos aportes do Tesouro na Conta de Desenvolvimento Energético (CDE). O contribuinte pagará a conta que está sendo reduzida para agradar o eleitor.

A perda de confiança na economia não está restrita ao mercado financeiro. Várias sondagens, feitas por entidades diferentes, com consumidores, empresários e comerciantes mostram isso. Em apenas 30 dias, houve uma sensível piora nas projeções do mercado financeiro para o Brasil. Subiu a estimativa de juros e de inflação e caíram as projeções para o PIB deste ano e do próximo. A queda de 3,5% da indústria em dezembro promoverá novas revisões do crescimento.

Dois índices de confiança apurados por entidades diferentes mostraram queda ao menor nível desde julho de 2009. O Índice de Confiança do Empresário Industrial, da CNI, caiu a 53,1 pontos em janeiro. A média histórica é de 58,3 pontos. O Índice de Confiança do Consumidor, da FGV, desceu a 108,9 pontos, o nível mais baixo em mais de quatro anos. O Índice dos Empresários do Comércio, medido pela CNC, recua há seis meses. Em ambiente assim, a empresa investe menos, e o consumidor adia as compras.

As ações da Petrobras fecharam em alta nos últimos dois dias, mas, na quarta-feira, atingiram o menor valor dos últimos cinco anos. A bolsa brasileira fechou o mês de janeiro com queda de 7,5%, o pior resultado para o mês desde 1995. A bolsa pode inverter por vários motivos; um deles é a percepção de que certas ações estão baratas.

O déficit de US$ 4,05 bilhões da balança comercial em janeiro aumentou a pressão sobre as contas externas, que no ano fecharam com um déficit de 3,66% do PIB. Mas os chineses têm garantido bons preços para as commodities agrícolas e minerais, e isso favorece o Brasil. Com o menor crescimento chinês, esses preços podem até ceder, mas não será queda brusca. As previsões são de superávit comercial no ano e um número maior do que em 2013.

O Brasil vai fazer uma parada esportiva no meio do ano para a realização da Copa. A torcida geral é para que os atrasos nas obras sejam superados e não atrapalhem a festa. Claro, e que a seleção brasileira ganhe.

Será um erro o governo tomar decisões, nas várias frentes, com olho unicamente nas urnas. Há um médio e longo prazo a construir e há erros a corrigir. Os números não são negativos por acaso. É colheita do que foi plantado.

Ajuste fiscal será o grande desafio para 2015. E com quatro anos de atraso

Eliane Oliveira 
O Globo

Para analistas, próximo governo terá que fazer reformas importantes e indicar mudanças ao mercado

BRASÍLIA — Não importa quem vencerá a eleição de 2014. O próximo presidente da República terá de submeter o país, já no início de 2015, a um ajuste fiscal e a uma série de reformas, para permitir a queda da inflação e o retorno dos investimentos no parque produtivo brasileiro. Segundo analistas e técnicos da área econômica, não será um ajuste draconiano, como foi feito no fim da década de 90 e no início de 2003. Porém, uma das considerações é que, além de um corte mais firme nas despesas do setor público, o governo terá de entrar fundo nas reformas constitucionais, como previdenciária, administrativa, trabalhista e tributária. Mesmo que não o faça imediatamente, deverá sinalizar ao mercado que pretende mudar o sistema atual.

O economista Bráulio Borges, da LCA, acredita que o governo não deve prorrogar para 2015 a desoneração da folha de pagamento de mais de 60 setores, que deixará de vigorar em dezembro deste ano. Borges destacou que o fim do incentivo garantiria uma arrecadação de R$ 20 bilhões.

— O benefício não tem mais razão de ser. Foi criado quando o câmbio estava a R$ 1,70, para proteger esses setores dos efeitos da valorização do real frente ao dólar. Hoje a moeda americana está a R$ 2,40 — argumentou.

Segundo uma fonte da área econômica, o novo presidente terá de conciliar diversos desafios: cortar juros para a economia crescer e reduzir gastos para que o empresário e o investidor em geral melhorem sua expectativa em relação ao real. O grande desafio é driblar a crise de confiança mais para frente. A expectativa é que, se houver alguma medida de impacto este ano, será pontual.

— A situação está crítica e o mais preocupante de tudo é o déficit em conta corrente — disse Alcides Leite, especialista em contas públicas e professor da Trevisan Escola de Negócio.

Ele enfatizou que isso faz com que o país precise mais de investimentos especulativos, força a desvalorização da moeda e a alta dos juros. Essa receita provoca o crescimento da dívida pública. Em 2013, o Brasil acumulou um déficit histórico em suas transações com o exterior de US$ 81,374 bilhões, o equivalente a 3,66% do PIB.

— Vivemos muito tempo do alto preço das commodities e não aproveitamos para modernizar o país. Agora, para onde quer que o vento vire, corremos o risco de sermos pegos de calça curta — completou.

Deterioração das contas
O economista José Roberto Afonso, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da FGV, fez o seguinte diagnóstico:

— Há uma sensação generalizada de que 2014 vai acabar antes mesmo de ter começado, devido ao consenso de que em ano de eleição nada muda, ainda mais com uma Copa do Mundo no meio.

De acordo com o economista, o pior é deixar o cenário fiscal se deteriorar ainda mais, com a aposta de que tudo pode ser consertado em 2015. Ao contrário do que pensa boa parte dos analistas ouvidos pelo GLOBO, ele prevê que o governo terá de fazer um ajuste fiscal “doloroso”.

— A carga tributária de 2013 foi recorde, em torno de 37,5% do PIB. Será possível fazer de novo um ajuste baseado em aumento de impostos? — indagou.

Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, acredita que, se Dilma for reeleita, só fará ajuste fiscal se o país for afetado por choques externos.

André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, avalia que há um pessimismo exagerado no mercado financeiro. Na sua visão, o governo tem pouco espaço para fazer qualquer tipo de ajuste, tendo em vista que o Orçamento é engessado e repleto de rubricas.

Esforço por superávit maior
Já no dia 31 de janeiro, o mercado financeiro projetava um cenário preocupante para 2015 na pesquisa Focus, do Banco Central. A taxa básica de juro (Selic), hoje em 10,5%, chegaria em janeiro a 12% ao ano, e o dólar passaria a R$ 2,51. A dívida líquida do setor público chegaria a 35% do PIB e a economia cresceria 2,2%.

Embora haja certo ceticismo quanto à possibilidade de a presidente Dilma Rousseff adotar medidas mais rigorosas em 2014 — em pleno ano eleitoral — para melhorar a imagem do Brasil perante os investidores, uma fonte da área econômica acredita que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e a equipe buscarão, a todo custo, um superávit primário (economia com o pagamentos dos juros da dívida) de pelo menos 2% do PIB, que seria o percentual mínimo para que as agências de classificação de risco não rebaixem a nota do Brasil.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Durante a campanha eleitoral de 2010, sempre que questionada sobre "ajuste fiscal", Dilma Rousseff repelia a ideia de forma veemente. Considerava a ideia ultrapassada e desnecessária.

Porém, já naquele se percebia a necessidade do governo apertar o gargalo dos gastos públicos e elevar o superávit primário. 

Lula, para fazer Rousseff sua sucessora, abriu a torneira dos gastos, sem limites e cuidados. Era natural que Dilma, em seu primeiro ano, praticasse um rigoroso ajuste fiscal e freasse  os gastos, até para ganhar musculatura nos anos seguintes. 

Como não fez,  anos após ano, as contas públicas vem se deteriorando. Os piques de inflação foram apenas consequência, não tiveram relação alguma com crises externas. A teimosia em conceder incentivos ao consumo, para um mercado que, internamente, não conseguia dar conta da demanda, provocou de imediato duas consequências ruins: de um lado, a inflação que, em alguns momentos,ultrapassou inclusive o teto da meta. E, de outro lado, aumento das importações reduzindo nosso superávit comercial quase a zero. E só não é negativo por conta das trapaças praticadas via Petrobrás, com as plataformas marítimas. 

Como a senhora Rousseff se apressou em reduzir os juros no grito, sem criar as condições internas necessárias, para conter a elevação dos preços, seu governo passou a praticar políticas de repressão aos preços administrados, da qual a Petrobrás é sua maior vítima, e o álcool combustível que, antes, se tinha produção excedente, precisou ser importado dos Estados Unidos.

Assim, fica claro que a margem de manobra para a prática de artificialismos se esgotou e o país precisará, queira ou não, desacelerar. E, claro, não se concebe que o governo da senhora Rousseff vá praticar este ajuste em ano eleitoral. Para a presidente, mais importante do que reequilibrar as contas públicas, é investir na reeleição. O resto, se der, se vê depois. Até lá, vai se continuar insistindo na propaganda mistificada de seu governo medíocre, e no discurso de que, nossos problemas, são consequência de efeitos externos, o que sabemos, não passa de conversa mole.  

Só que, quanto mais tempos atrasarmos não apenas o ajuste necessário, mas também as reformas estruturantes que, há uma década, pedem passagem, maiores serão os desafios que teremos pela frente. E, claro, o custo disto imporá aos brasileiros, cedo ou tarde, sacrifícios que poderiam ter sido evitados tivesse o país um governo mais competente.


'A confiança dos empresários no governo acabou’

Cleide Silva e Ricardo Grinbaum 
O Estado de S. Paulo

Presidente do Iedi diz que a ‘falta de direção’ na economia cria instabilidade e ‘insegurança no meio empresarial’

Pedro Passos é um dos principais representantes da indústria brasileira. Além de ser um dos fundadores e sócios da fabricante de cosméticos Natura, ele é presidente do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), organização que reúne alguns dos maiores industriais do País.

Passos atribui os resultados ruins da indústria de 2013, divulgados na semana passada, ao que chamou de "ambiente econômico prejudicado". Para o empresário, "falta direção" na economia e há insegurança no meio empresarial. "O clima de confiança do empresariado não existe, acabou", disse Passos, na entrevista a seguir.

O que explica os dados ruins da produção industrial em 2013, especialmente em dezembro?
Foi uma surpresa negativa, a queda foi muito maior do que se previa. Uma primeira análise mostra um desempenho setorial disperso, com retração nos setores de consumo. Mas tivemos performance melhor de alguns setores, inclusive dos ligados ao comércio exterior. Setores de transporte, calçados e madeira, apesar da fragilidade, exportaram mais, principalmente para a Argentina. Apesar de um resultado global muito ruim, há uma perspectiva positiva.

Como o setor empresarial reage a esse resultado?
O ambiente econômico está muito prejudicado no País. A taxa de investimento é muito baixa, o clima de confiança não existe, acabou. Falta direção. Não está claro para onde estamos indo, quais são os grandes compromissos. Isso cria instabilidade. O resultado de dezembro é um problema que vem se acumulando há muito tempo. E esse cenário não nos dá muita esperança porque a gente já entra em 2014 com ritmo lento. E ainda sujeitos à volatilidade da economia internacional. Esse cenário volátil repercute com a falta de definição interna. As dificuldades que temos em saber qual é o caminho, qual é a aposta (do País), criam um ambiente de muita insegurança no meio empresarial.

Como assim?
Existe necessidade de uma nova definição de modelo econômico. O cenário muda e o País precisa se adaptar. É importante retomar uma agenda que o Iedi coloca há algum tempo, de busca de produtividade.

Domar a inflação exigirá políticas sérias

Editorial
O Globo

O recuo para 0,55% do índice oficial (IPCA) em janeiro trouxe um alívio, mas a variação média dos preços permanece em patamar muito perigoso

Não deixa de ser um alívio o recuo do índice da inflação em janeiro, porque a variação média dos preços no Brasil tem se mantido em um patamar perigoso e sem margem para absorver eventuais choques de oferta ou demanda. No primeiro mês do ano, a inflação oficial ficou em 0,55%, abaixo do 0,92% de dezembro último e do 0,86% de janeiro de 2013. Em doze meses, a alta recuou para 5,59%.

Entre as causas da inflação no Brasil há fatores estruturais que não são de fácil solução no curto prazo. Por isso mesmo, ao adotar o regime de metas, há treze anos, foi instituído um intervalo de tolerância bem elástico em torno do alvo central. Esse alvo permanece em 4,5%, com uma tolerância de dois pontos percentuais para cima ou para baixo.

Desde 2010 a inflação medida pelo IPCA, índice calculado pelo IBGE, tem ficado mais próximo do topo do que do centro da meta. Em função disso, na visão dos mercados as autoridades teriam abandonado o alvo central para mirar no teto. Como a formação de expectativas nos mercados financeiros influencia fortemente o comportamento dos demais agentes econômicos, para quebrar essa percepção o governo tem se esforçado agora em dar demonstrações de que o combate à inflação voltou a ser mesmo uma prioridade, prometendo executar em 2014 uma política fiscal austera, capaz de acumular efetivamente um superávit primário mais relevante (ultrapassando o equivalente a 2% do Produto Interno Bruto). O Banco Central, por sua vez, elevou as taxas básicas de juros, contrariando prognósticos de que cederia a pressões políticas em face do ano eleitoral.

A inflação alta foi resultado da tentativa equivocada de se obter um crescimento econômico robusto no fim do governo Lula e nos primeiros anos da administração Dilma Rousseff. Tal crescimento não se concretizou, e o horizonte em relação à inflação continua sendo preocupante, devido a ajustes que terão de ser feitos, mais dia, menos dia, em preços como os da energia (combustíveis e eletricidade).

Além disso, o câmbio deixou de ser um aliado importante no combate à inflação. Em decorrência do aumento do déficit nas transações correntes (mercadorias e serviços) do país com o exterior — sem falar na economia americana —, o real se desvalorizou consideravelmente, tornando-se um fator de pressão sobre os preços internos. As importações estão encarecendo, e as exportações tendem a ser competidoras da oferta doméstica.

Então, para domar a inflação o governo terá mesmo de recorrer ao receituário cobrado há muito por estudiosos no tema: rédeas curtas na política monetária e austeridade na execução da política fiscal, com a acumulação de superávits primários mais calcados no controle das despesas do que pela arrecadação de receitas extraordinárias. Na mensagem que enviou ao Congresso, a presidente Dilma pede cooperação do Legislativo nessa tarefa. Ela realmente será muito necessária.

Sem concluir o 1º, governo prepara PAC 3 mirando mobilidade e internet

Danilo Fariello, Martha Beck  e Cristiane Jungblut 
O Globo

Nova etapa do programa de investimentos será executada a partir de 2015

Guito Moreto/7-2-2014 
No papel. As obras no Arco Rodoviário do Rio estão paralisadas 

BRASÍLIA — Com obras da primeira e segunda etapas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) travadas ou atrasadas em até seis anos — caso do Arco Rodoviário do Rio de Janeiro — o governo da presidente Dilma Rousseff já prepara o PAC 3 para ser executado a partir de 2015. Com previsão de lançamento no próximo mês de abril, em pleno ano eleitoral, o programa terá perfil voltado para obras de caráter social e urbano, com impacto no dia a dia das pessoas e que atendam às demandas das ruas.

— São coisas mais ágeis e que possam mostrar resultado logo — disse um técnico a par das discussões que têm ocorrido nas últimas semanas.

O PAC 3 vem sendo inspirado pelas manifestações de rua ocorridas a partir de junho do ano passado, quando surgiram pressões populares por melhorias nos serviços públicos, principalmente de transporte. Mobilidade urbana em grandes e médias cidades, portanto, é um dos pontos centrais do programa em elaboração, que deverá ter destaque também para a adaptação de rodovias que façam o contorno de cidades e a pavimentação de vias urbanas para aliviar o trânsito local.

— No passado, as pessoas queriam morar perto das BRs (rodovias), mas agora todos querem as estradas longe dos municípios. Por isso, a tônica do governo hoje é tirar o trânsito pesado das grandes cidades, e o PAC 3 deverá ter um programa especial para contornos rodoviários — explicou um gestor do governo federal do setor de transportes.

Outro empreendimento certo e de grande impacto popular é a expansão de redes de telecomunicações para oferecer uma banda larga melhor, com a ampliação do PAC Cidades Digitais. Segundo técnicos que trabalham na proposta, a ideia é melhorar tanto a oferta de internet banda larga quanto a velocidade. Eles lembraram que o setor de telecomunicações tem grande apelo junto à camada mais jovem da população, que foi às ruas e está sempre conectada em redes sociais como o Facebook e o Twitter.

Com um PAC mais popular, preparado sob inspiração do marqueteiro João Santana, o governo também poderá retomar a imagem de Dilma Rousseff como “mãe do PAC”, algo que, avalia-se, ajudou a presidente a se eleger em 2010. Em março daquele ano, o lançamento do PAC 2, com R$ 1 trilhão de investimentos previstos até 2014, foi um dos primeiros eventos de lançamento da campanha de Dilma, que chamou o PAC de “herança bendita” do governo Lula.

Também devem entrar na nova etapa do PAC obras de saneamento básico e do programa Minha Casa Minha Vida, que afetam mais diretamente a qualidade de vida das pessoas do que refinarias ou ferrovias, por exemplo.

Obras com até seis anos de atraso
Um integrante do governo explicou que as construtoras brasileiras já estão sobrecarregadas com as grandes obras do PAC que estão sendo executadas e, portanto, seria a vez de escolher obras mais indicadas às médias empreiteiras, como aeroportos regionais, por exemplo.

Além disso, não haveria tanta demanda no país para empreendimentos estruturantes de porte gigantesco como aqueles que se destacavam no PAC 1 e no PAC 2. Por isso, o novo programa terá mais foco em projetos para os quais já há uma infraestrutura prévia no país instalada, como a expansão da rede de banda larga. Dessa forma, não seriam necessários longos processos de licitação ou de licenciamento ambiental para que os projetos saiam do papel. Ainda assim, avanços que acelerem as licenças ambientais também deverão acompanhar o PAC 3.

Embora o balanço do PAC 2, previsto para ser apresentado na próxima quinta-feira, provavelmente indique o cumprimento da meta de investimentos do governo até o fim de 2014, de quase R$ 1 trilhão, boa parte desse volume é puxada por financiamentos habitacionais, enquanto que algumas das principais e mais caras obras estruturantes do programa patinam desde a primeira edição do PAC.

O Arco Rodoviário do Rio, por exemplo, que no PAC 1 tinha previsão de conclusão em 2010, ainda no governo Lula, só deverá ser entregue em 2016, com a construção do trecho de Manilha a Santa Guilhermina. O Trem de Alta Velocidade (TAV), que figura nos balanços do PAC desde o governo Lula, não saiu do papel e agora tem previsão de contratação do projeto básico só para o fim deste ano.

Refinaria com execução de apenas 10%
A obra mais cara do PAC 1, a refinaria Premium 1, no Maranhão, incorporada ao PAC 2, aparecia no último balanço oficial, apresentado em outubro, com execução de apenas 10%, mesmo tendo sido concebida há mais de quatro anos. A previsão de início de operação passou de dezembro deste ano para outubro de 2017, mas a Petrobras recentemente desistiu do projeto original e agora procura parceiros no exterior para achar uma solução que reduza o custo da construção, de R$ 40 bilhões, sem comprometer o volume de produção.

Nos três anos do governo Dilma, segundo dados obtidos junto ao Ministério do Planejamento, responsável pelo PAC, a dotação do programa chegou a R$ 181,42 bilhões, sendo que R$ 152,4 bilhões foram empenhados (promessa de pagamento futuro). E R$ 112,03 bilhões foram efetivamente pagos, 61,75% da dotação original. O valor previsto no Orçamento federal de 2014 para o PAC é de R$ 61,4 bilhões.

Em 2013, foram gastos com o programa R$ 44,71 bilhões, mas a dotação original no Orçamento da União era de R$ 67,02 bilhões. Desses R$ 44,71 bilhões efetivamente pagos, a maior parte foi relativa aos chamados “restos a pagar”, em volume de R$ 25,12 bilhões. Ou seja, despesas de anos anteriores pagas no exercício. Para 2014, as obras do PAC têm uma verba de R$ 61,4 bilhões prevista no Orçamento da União.
O governo assegura que o ritmo de execução das obras não será prejudicado pelas eleições deste ano. Isso porque, em 2007, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou lei que permite o repasse de recursos para o PAC mesmo em período eleitoral, diferentemente das demais obras.

“Não haverá dificuldade para a liberação de recursos de obras do PAC, nem mesmo em ano eleitoral. Ao contrário, uma inovação fundamental do PAC é a garantia de recursos orçamentários e financeiros”, informou o Ministério do Planejamento por meio de nota.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Em pleno ano eleitoral, cumprindo seu último ano de mandato, convenhamos que lançar um pac qualquer, ainda mais sobre mobilidade urbana, é no mínimo cretinice explícita.

O governo Dilma sabe que a tal "mobilidade urbana" não passa de quimera. Mas sabia, desde assumiu, que se tratava de investimento indispensável para a Copa do Mundo. Dos 57 projetos previstos na tal matriz de responsabilidade, restaram apenas 46. E, destes, grande parte só será concluído após a Copa. 

Assim, precisando criar fato novo com vistas à campanha eleitoral, e encontrando um novo pac como ferramenta para mentir e enganar o eleitorado, o governo encontrou um motivo a mais para praticar mistificação conjugada com campanha  eleitoral antecipada. 

Tivesse um pingo de vergonha e decência, primeiro concluiria as duas versões anteriores do pac, cuja realização ficou muito aquém do prometido. ´

Esta imensa dispersão de recursos públicos em programas que nunca se completam, que ficam pela metade, com obras que, ou não saem do papel ou ficam pelo meio do caminho, é que fazem deste um dos governos mais medíocres da história do país. 



Comperj já custa o dobro e acumula problemas

Sabrina Valle  
O Estado de S. Paulo

Complexo petroquímico no Rio já passou de US$ 6,5 bi para US$ 13,5 bi e só deve ter a primeira unidade inaugurada em 2016, com 5 anos de atraso 

RIO - Uma das obras mais caras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), em construção para a Petrobrás, foi palco de um confronto de trabalhadores que acabou na semana passada com dois operários baleados e uma caminhonete incendiada. O conflito foi o último episódio de uma série de problemas sofridos pelo Comperj.

Projetado em 2006 por US$ 6,5 bilhões, terá sua primeira unidade inaugurada, na melhor das hipóteses, cinco anos depois do programado, em agosto de 2016, por pelo menos US$ 13,5 bilhões (R$ 32 bilhões, pelo fechamento de sexta-feira).

O valor compreende apenas uma refinaria (165 mil barris/dia), a menor de um total de duas previstas. Produzirá combustíveis e é uma das esperanças da Petrobrás para reduzir importações, que chegam a cifras bilionárias por mês e castigam as ações da petroleira.

Em oito anos, o projeto já foi alterado várias vezes, o preço inflado e houve anos de atraso pela dificuldade de chegada de equipamentos. A unidade petroquímica que batizou o empreendimento não sairá como planejada inicialmente. A segunda refinaria, para 300 mil barris/dia, quase o dobro da primeira, ainda não tem investimentos garantidos. Essa é uma das incógnitas em relação ao plano de negócios, que a companhia pode levar a apreciação no Conselho de Administração no próximo dia 25.

Trabalham no canteiro de obras na região metropolitana do Rio uma multidão de 29,2 mil funcionários, que neste momento negocia reajuste anual de salários. Parte entrou em confronto na semana passada com o próprio sindicato que os representa, o Sinticom.

"Descontam no nosso contracheque de R$ 30 a R$ 60 por mês. E mesmo assim falta água, usamos banheiro químico, a comida é ruim, omitem acidentes de trabalho, sabotam a negociação de dissídio salarial. O sindicato trabalha para o patrão", disse Samuel Souza, um dos líderes do movimento.

Para o assessor do Sinticom, Marcos Hartung, no entanto, os conflitos têm um fundo político. "O Comperj é uma obra muito grande. É muito cobiçada por gerentes sindicais. Desde 2011 temos problemas com grupos radicais", disse. "Eles querem tomar o sindicato. Tem R$ 800 mil de arrecadação por mês por trás. Cresceu o olho."

Os trabalhadores, por sua vez, reclamam de luxo no sindicato, como o uso da caminhonete Amarok, da Volkswagen, que, no confronto, acabou incendiada. Na quinta-feira, durante os protestos, dois motoqueiros atiraram nos operários Felipe Feitosa, de 21 anos, que levou três tiros, e Françiuélio Rodrigues, de 20 anos, que levou dois. Ambos foram internados no Hospital Municipal Desembargador Leal Junior.

O delegado-assistente Pablo Valentim, da 71ª Delegacia de Polícia, investiga a possibilidade de que motoqueiros ligados ao sindicato tenham sido responsáveis pelo ataque.

O Sindicato dos Petroleiros do Rio (Sindipetro) apoia os funcionários dissidentes e defende que o conflito com o Sinticom seja resolvido. "Apoiamos os trabalhadores em greve, alguns estão sem salário desde dezembro, falta até água potável", disse o secretário-geral do Sindipetro, Emanoel Cancella.

Desde o início o projeto foi envolto por controvérsias. A escolha do terreno para instalação foi a primeira delas. Na época, Itaguaí, também na região metropolitana, mas às margens da Baía de Sepetiba, com uma infraestrutura já montada, estava no páreo. Campos, no norte do Estado do Rio, reduto eleitoral do ex-governador do Rio Anthony Garotinho, oponente do atual governador, Sérgio Cabral (PMDB), também era opção.

Venceu Itaboraí, às margens da Baía de Guanabara, onde os trabalhos de terraplanagem seriam mais custosos e o licenciamento ambiental, mais difícil, por causa dos impactos.

A gigante extenuada

Jorge M. T. Camargo
O Globo

É como se a Petrobras fosse uma superatleta tendo que enfrentar várias maratonas, mas obrigada a correr com uma mochila carregada de pedras às costas

A Petrobras tem duas tarefas hercúleas pela frente: desenvolver as formidáveis descobertas no pré-sal na Bacia de Santos e sustentar a produção dos campos maduros da mesma bacia. Ambos desafios têm apresentado dificuldades e demandado recursos além dos que a empresa antevia e dispõe.

Sustentar e estender a vida produtiva de campos de petróleo em processo de envelhecimento não tem o mesmo charme que desenvolver novas descobertas. Mas, além da obrigação de aproveitar ao máximo essas preciosas reservas, é fundamental para a saúde financeira de uma empresa de petróleo. São as receitas dos velhos campos que financiam os investimentos em exploração e desenvolvimento de novas descobertas. Campos maduros se transformam com o tempo em grandes produtores de água salgada, tendo o petróleo como subproduto.

Os campos mais antigos da Bacia de Campos vêm apresentando em média taxas de declínio da ordem de 10% ao ano. É alta, mas dentro da normalidade. Estender-lhes a vida significa perfurar mais e mais poços, adequar as plataformas para processar volumes crescentes de água. Exige sondas de perfuração, gente capacitada e pesados investimentos.

Dobrar a produção de petróleo da Petrobras dos atuais 1,9 para 4,2 milhões de barris em 2020 é uma meta ambiciosa, mesmo que a empresa tivesse recursos financeiros ilimitados e fosse capaz de mobilizar toda a capacidade de fornecimento de bens e serviços mundiais. Mas não é esse o caso da Petrobras. Além dos imensos desafios operacionais e financeiros do seu programa de investimentos, é obrigada a subsidiar o consumo nacional de gasolina e diesel — que lhe custou cerca de R$ 45 bilhões nos últimos dois anos e elevou sua dívida para além de R$ 250 bilhões, testando os limites de sua capacidade de endividamento — e fomentar o desenvolvimento da indústria local de bens e serviços. Como se a Petrobras fosse uma superatleta tendo que enfrentar várias maratonas, mas obrigada a correr com uma mochila carregada de pedras às costas.

As dúvidas sobre a capacidade da empresa de sustentar seu programa de investimentos e entregar as metas anunciadas têm contaminado não só o humor dos seus acionistas — que vêm punindo com extrema severidade seus papéis —, mas também toda a indústria no seu entorno. A falta de confiança do mercado, em virtude dos claros sinais de sobrecarga da principal locomotiva do setor, vem afetando decisões de investimento que, por sua vez, diminuem a capacidade produtiva da indústria. Demonstra também o equívoco de concentrar em uma única empresa, por mais competente que seja, as operações no pré-sal. Operador único significa cliente único e maiores riscos, como os que estão hoje evidentes, para seus fornecedores locais.

As agruras conjunturais por que passa a Petrobras também enublam a visão do brilhante futuro que a empresa e a indústria do petróleo brasileira têm pela frente. As extraordinárias reservas do pré-sal, as bases tecnológicas e produtivas já instaladas no Brasil, nos permitem sonhar em triplicar a produção e as reservas nacionais. A receita para transformar o sonho em realidade é simples: um mercado aberto, transparente e competitivo; uma Petrobras governada por objetivos comuns a todos seus acionistas, não apenas do majoritário, capaz de vender seus produtos e planejar receitas e investimentos com independência; políticas macroeconômicas e industriais executadas por ministérios e autarquias do governo, não através de empresas estatais.

A Petrobras ajuda melhor o país entregando produção e resultados, com segurança e eficiência. Uma tarefa gigantesca.