sexta-feira, fevereiro 14, 2014

PT não gosta do Judiciário independente

Marco Antonio Villa
O Globo

A ‘vaquinha’ patrocinada pelos petistas e seus asseclas violou explicitamente a decisão do STF

O Partido dos Trabalhadores, que teve suas lideranças históricas condenadas no processo do mensalão, é incansável. Quer porque quer desmoralizar o Supremo Tribunal Federal. O PT não gosta do Judiciário independente. O partido fez de tudo para dificultar o andamento da Ação Penal 470. Pressionou ministros e insinuou até chantagem. Depois desqualificou as condenações. E transformou as prisões em espetáculo de “resistência”. Em seguida, forjou convites fantasiosos de trabalho desacreditando os postulados do regime semiaberto. Deu — para o bem da democracia — tudo errado.

O alvo seguinte foi o presidente do STF, o ministro Joaquim Barbosa. É o mais odiado pelos marginais do poder, feliz expressão do ministro Celso de Mello. Desde 2012 sofre ataque cerrado dos petistas e dos seus aliados, dos blogs sujos que infestam a internet — e que são financiados com dinheiro público. É injuriado e caluniado sistematicamente pelo Ministério da Verdade petista.

Recentemente, Barbosa passou por mais uma situação extremamente constrangedora, quando da abertura dos trabalhos legislativos. E a ofensiva continua: no último sábado, o ex-presidente Lula, com a grosseria habitual, voltou a atacá-lo. O sinhozinho de São Bernardo do Campo não perdoa a independência do ministro Barbosa. Mais ainda: sonha que o STF seja uma repartição do Palácio do Planalto, uma espécie de Suprema Corte ao estilo cubano.

Para os policiais da verdade, o ministro Barbosa não pode tirar férias. Quando o fez, teve os repórteres nos seus calcanhares. Privacidade, zero. E até com certa ironia foram descritos os presentes que comprou em Paris. No fundo estava implícito que negro brasileiro deveria levar daqui um berimbau (e por que não um pandeiro?). É o velho racismo cordial, tão nosso como a jabuticaba.

Os petistas e seus sequazes aproveitaram o momento para desviar a atenção pública dos crimes cometidos pelos apenados. Construíram uma versão de que eram inocentes e que estavam sendo perseguidos por Barbosa. Como se o processo do mensalão e as condenações fossem da sua exclusiva responsabilidade. Como se os seus substitutos legais na presidência não pudessem dar andamento às decisões de rotina da Ação Penal 470.

Dias depois o foco foi dirigido ao ex-deputado João Paulo Cunha. Deu diversas entrevistas, atacou o tribunal, principalmente, claro, o ministro Barbosa. O sentenciado chegou a promover almoço em frente ao prédio da Suprema Corte. Fez de tudo para achincalhar o STF.

Mas os petistas são insaciáveis: agora tentam desqualificar o cumprimento de uma das penas — a de multa. Muito citado durante o julgamento do mensalão, o jurista Claus Roxin defende que não “se pode aprender a viver em liberdade e respeitando a lei, através da supressão da liberdade; a perda do posto de trabalho e a separação da família, que decorrem da privação de liberdade, possuem ainda maiores efeitos dessocializadores. O desenvolvimento político-criminal deve, portanto, afastar-se ainda mais da pena privativa de liberdade. Em seu lugar teremos, principalmente, a pena de multa, e é em especial no seu uso que reside a tendência à suavização de que falei acima (‘Estudos de Direito Penal’, Renovar, 2008, pp.18-19)”.

Portanto, multa é uma pena. No caso da liderança petista, a pena de multa foi acrescida à privação da liberdade. Assim, neste caso, uma não está dissociada da outra. A nossa Constituição é muito clara quando determina que “nenhuma pena passará da pessoa do condenado” (artigo 5º, XLV) e a multa é uma das formas da individualização da pena (artigo 5º, XLVI,c). E, no Código Penal, o valor da multa está vinculado às condições econômicas do réu.

A “vaquinha” patrocinada pelos petistas e seus asseclas violou explicitamente a decisão do STF, a Constituição e o Código Penal. É absolutamente ilegal. Os petistas saudaram como uma manifestação de solidariedade. Até aí, nenhum problema. Afinal, o respeito ao ordenamento jurídico nunca foi uma característica do PT. O mais terrível foi encontrar até um ex-presidente do STF respaldando esta chicana. E mais: os ministros da Suprema Corte silenciaram — ou quando se pronunciaram foi sobre a forma da doação, que é importante, mas marginal frente à gravidade da questão central.

Contudo, nem sempre é possível controlar todas as variáveis de um projeto criminoso de poder, outra feliz expressão do decano do STF. Henrique Pizzolatto percebeu — ainda na fase processual — que tinha sido jogado ao mar pela liderança petista. Logo ele, o homem de 73 milhões de reais. Não quis representar o papel de mordomo, como nas velhas tramas cinematográficas. Resolveu com seus próprios meios fugir do país. Foi preso. Sabe muito. Deve ter medo, principalmente se recordar os acontecimentos de Santo André.
Vale destacar que foram os milionários desvios do fundo Visanet, oriundos do Banco do Brasil, a principal fonte de recursos do mensalão, como ficou comprovado no julgamento. Sem este dinheiro, não teria havido a compra de apoio parlamentar. E quem foi o organizador deste peculato? Henrique Pizzolatto. Mas teve a colaboração de comparsas, como é possível constatar no relatório final da CPMI dos Correios, e que não foram indiciados pelo procurador-geral Antonio Fernando de Souza, em 2007.

O governo brasileiro, obviamente, prefere que Pizzolato permaneça na Itália. O pedido de extradição é para inglês ver. Hoje, ele é o elo mais fraco entre os sentenciados petistas. E se romper com a lei da omertà poderá ser o homem-bomba da campanha presidencial.

Que tal tirar a máscara de quem quer ficar impune?

José Nêumanne 
O Estado de S.Paulo

Não havia brasileiro razoavelmente informado que já não soubesse que os black blocs sempre fizeram o possível e mais do que o razoável para que os policiais encarregados de reprimir seu vandalismo nas ruas das cidades brasileiras produzissem um mártir. Em 25 de janeiro, Fabrício Proteus Fonseca Mendonça Chaves, de 22 anos, foi baleado num protesto em São Paulo contra os gastos da Copa do Mundo. Poderia ter sido este, mas, socorrido pelos PMs e levado para a Santa Casa de Misericórdia, felizmente ele sobreviveu. Infelizmente, contudo, o cinegrafista da Band Santiago Andrade, de 49 anos, não teve idêntica sorte e morreu em consequência de ferimentos na cabeça, vítima da explosão de um rojão disparado no centro do Rio num protesto violento contra o reajuste da tarifa de transportes públicos. Eis o mártir!

Mas o cinegrafista, que trabalhava na cobertura da manifestação quando foi atingido, não foi vitimado pela violência policial, contra a qual dez entre dez políticos, militantes de direitos humanos, governantes politicamente corretos, acadêmicos bem-pensantes e repórteres apressados esbravejam. O buscapé disparado da calçada a poucos metros de onde a vítima estava foi criminosamente preparado por vândalos cujas feições estavam escondidas por máscaras e panos com os quais encobriam o rosto. O disparo podia não ter como objetivo especificamente aquele profissional. É até possível acreditar que seu alvo seria a tropa policial que procurava conter o quebra-quebra. Mas um repórter, fotógrafo ou cameraman presente na cena para transmitir informações ao público ou um inocente transeunte do anônimo exército das vítimas das balas perdidas na violência metropolitana brasileira fatalmente seria atingido. Pois a vareta que direciona o rojão para explodi-lo nas alturas foi quebrada e quem já soltou fogos de artifício sabe que nessas condições o buscapé não sobe, faz um trajeto aleatório e atinge o que estiver à frente. Assim, feriu a cabeça do jornalista a trabalho.

Naquela quinta-feira ninguém imaginou ser possível inculpar os black blocs pelo crime hediondo. Os telejornais da Rede Globo na noite do crime e na manhã seguinte reproduziram reportagem de Bernardo Menezes, da Globo News, atribuindo aos policiais o disparo do explosivo. Quem pôs o equívoco no ar não atinou para o fato de que a fogueira ateada na cabeça do colega jamais poderia ter sido produzida por bombas de efeito moral ou granadas de gás lacrimogêneo. Faltou um átimo de sensatez para evitar a divulgação do engano. O hábito de denunciar a violência policial levou o erro ao ar. Errar é humano, está certo, mas o jornalismo responsável requer mais diligência.

Depois que a polícia demonstrou o óbvio, William Bonner, o editor-chefe do Jornal Nacional, gaguejou um pedido de desculpas envergonhado e aproveitou para elogiar a humildade de voltar atrás ao reconhecer o erro. O reconhecimento do engano é uma virtude, mas é preciso que a autocrítica tenha relevo similar ao dado à falsidade divulgada.

E mais: é necessário também transmitir a convicção de que equívocos similares serão evitados. Não só pela emissora que engoliu uma "barriga" mastodôntica e cuspiu um mosquito. Mas também por todos os envolvidos na organização das manifestações populares, seja contra o que for; na manutenção da ordem pública nas ruas durante os protestos; na defesa jurídica dos manifestantes; e na cobertura e transmissão dos fatos para conhecimento da sociedade. Todos somos responsáveis. E todos devemos ter noção das evidências de que o cinegrafista foi vitimado pela leviandade geral vigente.

O mesmo Jornal Nacional reproduziu uma enxurrada de manifestações de súbita condenação aos vândalos. Entidades que representam advogados, juízes, donos de meios de comunicação, jornalistas e poderosos da República deixaram de execrar somente a polícia.

"Não é admissível que protestos democráticos sejam desvirtuados por quem não tem respeito pela vida humana", registrou Dilma Rousseff no Twitter - uma platitude de dar dó. É lamentável que do alto do cargo mais importante da República ela se tenha comportado como se fosse apenas a candidata à própria reeleição. Reduzir tal crime a um slogan de campanha, utilizando o velório da vítima como extensão de seu palanque, é absurdo em si. Fazê-lo numa rede social, como numa fofoca de adolescentes, é espantoso. Assim como revolta a justificativa dada pelos vândalos em outra rede social, o Facebook, buscando inculpar a polícia por quatro mortes não noticiadas nem comentadas pelos meios de comunicação, tentando estabelecer uma relação de nexo inexistente e adotando uma contabilidade sinistra e sem sentido. Idêntico afã oportunista levou o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), a procurar limpar a própria imagem com o sangue da vítima ao propor enquadrar os vândalos por crime de terrorismo.

Quando os políticos que vendem a alma por um punhado de votos descobrirão que os anarquistas que encerram as passeatas ditas pacíficas nas ruas são criminosos comuns que agridem e depredam, devendo ser punidos como tal? E que a eles se acumplicia quem defende o uso de máscaras, porque estas dificultam a identificação deles pela polícia? Os repórteres sempre benevolentes com os mascarados nunca perceberão que lidam com inimigos da verdade? Afinal, isso se comprovou no atentado ao cinegrafista e na agressão a outro que captava imagens em manifestação em defesa do tatuador por cujas mãos passou o rojão e que terminou mentindo descaradamente à polícia ao pedir delação premiada. E advogados menos empenhados em defendê-los do que em aparecer não prestam serviço à lei, mas trabalham pela impunidade de meros quadrilheiros.

Esta não é hora de caçar bruxas. Mas, sim, de tirar a máscara de quem esconde o rosto para delinquir e ficar impune.

Os inimigos da democracia

Editorial
O Globo

O assassinato de Santiago jogou luz sobre a atuação, em várias níveis, de grupos autoritários. Agora, partidos, sindicatos etc. têm de mostrar, às claras, de que lado estão

Se grupos radicais buscavam um cadáver nas manifestações de rua, conseguiram. Mas não foi o que poderiam imaginar. Em vez de jogar mais combustível na ferocidade do vandalismo em cima do corpo de um manifestante, mataram um repórter-cinegrafista no exercício de uma atividade essencial para a democracia, relatar os fatos para a sociedade. Atingiram a própria democracia, que tanto desprezam.

A morte de Santiago Andrade tem de servir, ao menos, para uma intensa e profunda reflexão sobre distorções escondidas nos subterrâneos de militâncias expostas em perfis falsos nas redes sociais que difamam pela internet, em sindicatos de jornalistas aparelhados e desconectados da profissão, em universidades transformadas em centro de doutrinação política, em funções desvirtuadas em assessorias de partidos políticos — para citar os pontos de intoxicação ideológica autoritária mais visíveis.

O secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, propõe alterações na legislação para melhor tipificar e, portanto, punir, manifestantes delinquentes. Boa sugestão. Mas o importante agora é ampliar o debate sobre o que está por trás da morte de Santiago, além de processar e punir seus responsáveis diretos e indiretos. Não se pode perder esta oportunidade, até mesmo em homenagem a ele. Entender e expor o que se passa é a única maneira de se começar a agir para prevenir outras tragédias. O crime jogou luz sobre a inaceitável atuação do gabinete do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) em defesa de vândalos. Ele e partido precisam explicar a função dupla de Thiago de Souza Melo, assessor do deputado, pago, portanto, pelo contribuinte, e, ao mesmo tempo, advogado de black-bloc e similares. Não pode, também, deixar de responsabilizar a campanha, sistemática, via internet, contra os veículos da imprensa profissional, chamados pejorativamente de "mídia corporativa", quando é a publicidade privada que garante a independência de fato deles, ao contrário de sites, blogs e publicações bancados por verba pública.

Criou-se um ambiente tal de hostilidade que repórteres viraram alvo de marginais travestidos de manifestantes, até chegarmos ao assassinato de Santiago. É óbvio que a punição tem de ser exemplar, para sinalizar os limites que têm de existir num país democrático em qualquer manifestação popular.

Também são de praxe as declarações de pesar feitas por políticos, inclusive Freixo, já encontrado no passado em atos típicos de quem deseja mais "acirrar contradições" do que trabalhar pelo apaziguamento em conflitos sociais e políticos.

Agora, é preciso ir muito além do declaratório. Tem-se de repudiar estes grupos e agir para que eles, garantidos todos os direitos estabelecidos em lei, sejam de fato contidos e punidos. Partidos, organizações sociais, sindicatos têm de, às claras, mostrar de que lado estão: da violência justificada pelos fins ou a favor do estado de direito democrático, no seu sentido mais amplo.

Horário de verão termina amanhã à meia-noite

Laura Maia de Castro, Elder Ogliari e Mônica Reolom 
O Estado de S.Paulo

No ano passado, economia foi de 4,6% nos horários de pico, segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico


Após 119 dias, termina neste sábado, 15, à meia-noite, o horário de verão nas Regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Os relógios devem ser atrasados em uma hora. O objetivo do horário diferenciado é reduzir o consumo de energia, aproveitando a luz natural, sobretudo entre 18 e 21 horas.

No ano passado, o horário de verão permitiu uma economia de 4,6% nos horários de pico, segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico. Um balanço dos números deste ano, em que o baixo nível dos reservatórios, sobretudo no Sudeste, preocupa, deve ser divulgado nos próximos dias.

Mudança de hábito. E o calor preocupa não somente por causa do abastecimento. Diante de temperaturas recordes, o Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região vai enviar uma carta ainda nesta semana aos principais bancos para solicitar que não seja obrigatório o uso de terno e gravata em dias de calor excessivo. O sindicato vai pedir também que haja manutenção periódica do sistema de ventilação dos bancos, uma vez que, só em fevereiro, houve 118 denúncias de funcionários em relação ao ar-condicionado.

Ontem, uma agência bancária no Largo de Santa Cecília, região central de São Paulo, fechou as portas por causa de problemas no ar-condicionado. Neste ano, 34 agências deixaram de funcionar por causa do calor em São Paulo e em Osasco, segundo o sindicato.

No Rio Grande do Sul, desde a metade de janeiro um grupo de 25 soldados da Brigada Militar faz o policiamento do centro de Porto Alegre vestindo bermudas e calçando sandálias. O major Francisco Vieira, subcomandante do 9.º Batalhão, explica que se trata de um teste. "Vamos verificar se a população e os policiais recebem bem a inovação", diz. Se o novo fardamento for aprovado, pode ser adotado a partir do próximo verão, em zonas centrais das principais cidades.

Se depender da categoria, a iniciativa vai ser adotada. "Queremos desde já o uso de um uniforme mais leve", diz o presidente da Associação dos Cabos e Soldados da Brigada Militar, Leonel Lucas.

Brasil, entre dúvidas e quimeras

Monica Baumgarten de Bolle
Revista ÉPOCA NEGÓCIOS

Por que falhou estrepitosamente a ideia de deixar a inflação subir só um pouquinho para estimular o crescimento

Uma quimera, oscilando no vazio, pode comer segundas intenções?” O gracejo é de Rabelais, mas cai como uma luva para resumir as dúvidas que cercam a economia brasileira. Procurem no dicionário e verão que quimera não é só um monstro mítico, a mistura excessivamente heterogênea de três animais. A quimera, segundo o verbete do Houaiss, é o “sonho”, a “fantasia”, o “devaneio”, a “falsa ideia”. Eis, portanto, que a falsa ideia de deixar a inflação subir um pouquinho para que se possa gerar mais crescimento, esse devaneio que marcou as políticas do governo nos últimos anos, é uma quimera que oscila no vazio, engolindo qualquer segunda intenção que se possa ter para o desempenho da economia brasileira.

Nos últimos anos, a inflação ficou perigosamente próxima do teto da meta, de 6,5%, chegando a ultrapassá-lo em algumas ocasiões. O crescimento, por sua vez, minguou. É verdade que o período recente não foi nada fácil para os gestores da política econômica no Brasil e no mundo. A crise externa e a perda de referências para as políticas monetária e fiscal – os “afrouxamentos quantitativos” nos países desenvolvidos, a necessidade de adotar uma postura fiscal despudoradamente expansionista para evitar uma recessão mais profunda – dificultaram a gestão econômica brasileira. Contudo, esse quadro permitiu que algumas ousadias oportunistas, que algumas quimeras, fossem testadas. O sonho de reduzir os juros sem o compromisso de controlar as despesas do governo, por exemplo. A fantasia de eliminar a fama de país com os juros mais altos do mundo, enquanto se introduzia a versão tropical do afrouxamento quantitativo: a farra do crédito público, promovida pelo BNDES e pela Caixa Econômica Federal. As tentativas de explicar por que a inflação, afinal, não só podia, como devia, ficar um pouco mais alta para propelir o crescimento.

O raciocínio era mais ou menos assim: é preciso aumentar a capacidade de consumo da economia brasileira facilitando o crédito, inclusive por meio da redução dos juros. Afinal, se as pessoas consumirem mais, as empresas terão de investir mais para atender a essa demanda. Em um primeiro momento, a estratégia resulta numa inflação mais alta. Todavia, quando o investimento se materializa, a inflação cai, pois há mais oferta, e o crescimento vem, porque há mais de tudo – consumo e investimento.

O raciocínio falhou estrepitosamente. O consumo veio, mas o câmbio mais valorizado, resultado tanto dos desequilíbrios externos quanto dos desarranjos domésticos, incentivou as pessoas a comprarem produtos mais baratos lá fora. Portanto, as empresas brasileiras, oneradas pelos tributos elevados e pelos salários salgados, perderam capacidade de investir, além de não terem sido beneficiadas pela promessa do consumo, que vazou para além das nossas fronteiras. Quando o investimento engasgou, o governo se assustou. Lançou mão de diversas medidas para recuperá-lo, mas, sem uma estratégia clara e um discurso coerente, não conseguiu reverter o pessimismo caudaloso. Enquanto o investimento empacava e o governo agia com desonerações setoriais e uma série de outras políticas pontuais, o quadro fiscal piorava. A deterioração das contas públicas pariu a quimera da contabilidade criativa, essa que corroeu o que restava de credibilidade ao governo. Deu-se o círculo vicioso de pessimismo e de discursos disparatados.

Enquanto isso, as políticas desgovernadas alimentavam a inflação. A própria inflação alimentava a si, já que os mecanismos de indexação informais são implacáveis. A regra de reajuste do salário mínimo, essa que o corrige pela variação do PIB de dois anos atrás e pela inflação do ano anterior, também deu a sua contribuição. Quando tudo ficou complicado demais, caro demais, perigoso demais, o governo interferiu. Não mudando os rumos das políticas, isso não. O governo seguiu outro caminho, o das interferências diretas no processo de formação de preços, não só dos combustíveis, mas das tarifas de energia elétrica e de transporte. A inflação não cedeu, as expectativas pioraram e tudo ficou ainda mais difícil.

E agora, faz-se o que com essa mistura de leão, cabra e serpente que é a economia brasileira, esse bicho que ninguém consegue imaginar? Aprumar as políticas é um começo. O Banco Central já está fazendo isso. Urge que o Ministério da Fazenda o acompanhe. Caso contrário, corremos o sério risco de continuar oscilando no vazio. E de virar um verbete indigesto de dicionário.



Iugoslávia, PT e Brasil

Gastão Reis
O Globo

Medidas para reativar economia fazem água

A Iugoslávia ficará para a História como uma experiência a ser evitada. Existiu como país por cerca de um século e depois se desagregou em meia dúzia de nações. O que teria acontecido? Como o PT entra no script? E qual seria a lição para o Brasil? É o que veremos a seguir.

O que, afinal, deu errado com a Iugoslávia, país onde os operários eram donos das fábricas, um tipo de socialismo diferente do capitalismo de Estado imposto por Stálin a seus países satélites? Em linhas gerais, tem a ver com o sistema de incentivos estabelecido pelas novas regras. Sistematicamente, os trabalhadores, agora donos, passaram a se dar generosos aumentos, esquecendo a imperiosa necessidade de investir nas empresas para obter ganhos de produtividade e de competitividade. Resultado: o país virou o maior exportador líquido de mão de obra para o resto da Europa e o salário real dos operários ficou estagnado, a despeito dos aumentos nominais. O paradoxo é que os novos donos das fábricas passaram a agir contra seus próprios interesses de longo prazo. Quem estava certo era o “amaldiçoado” empresário capitalista cujos lucros eram reinvestidos, gerando empregos e ganhos reais de salários, como aconteceu nas economias capitalistas clássicas.

Na verdade, a Iugoslávia caiu no que poderíamos chamar de armadilha consumista, coisa que lembra bastante bem a política econômica do PT dos últimos anos. Durante uma década, a Receita Federal bateu recordes de arrecadação de 10% ao ano, em termos reais, enquanto o PIB saía pela porta dos fundos com crescimento pífio a ponto de hoje estar reduzido a um reles pibinho. A carga tributária, de quase 40% do PIB, diminuiu brutalmente a capacidade de investir do setor privado sem que o governo contrabalançasse a insanidade aumentando sua taxa de investimento, hoje inferior a 2% do PIB.

Esgotadas a herança bendita de FHC e as condições excepcionalmente favoráveis do mercado internacional, começou a faltar pinga para a festa continuar a pleno vapor. A conta, sentida na pele pela população, foi bater no supermercado com aumentos expressivos nos preços dos gêneros alimentícios e também nos serviços, nos combustíveis e na energia elétrica.

As medidas pontuais adotadas para reativar a economia estão fazendo água, pois faltam investimentos de caráter estratégico que deveriam ter sido feitos ao longo dos anos em infraestrutura e em outros setores críticos. O corte de gastos para tornar o Estado mais eficiente e a ampliação das privatizações foram retardados durante anos por puro preconceito ideológico. Pouco ou nada ensinou ao PT o tempo perdido pela ex-URSS e pela China em seguir, por tanto tempo, a cartilha da estatização e da ingerência do Estado no cerceamento das liberdades individuais, que são fontes de criatividade e geração de inovações e conhecimentos capazes de melhorar a vida de todos.

O Brasil certamente não é a Iugoslávia, mas, dados os precedentes históricos, nossa marcha da insensatez tem semelhanças e já foi longe demais. E com pleno conhecimento de causa perdida. Até quando?

Pecado original

Alexandre Schwartsman
Folha de São Paulo

É fácil ver paralelos entre o Brasil de hoje e a Argentina há 10 anos; a crise se origina da recusa em lidar com a inflação

Tempos atrás um dos luminares da heterodoxia econômica no país argumentava, um tanto cinicamente, é verdade, que a tarefa de controlar a inflação não podia ser deixada exclusivamente a cargo do Banco Central, mas deveria envolver o “governo todo”.

Era, contudo, outra época; suas sugestões foram devidamente ignoradas e seu potencial destrutivo ficou limitado a outras áreas de atuação. Mais recentemente, porém, essas ideias voltaram a ganhar força.

Em meados de 2011, apostando na desinflação que viria do frio, o BC embarcou num programa temerário de redução da Selic apesar das claras tensões inflacionárias então existentes. Desprezando décadas de estudos, cortou a taxa de juros mesmo com expectativas crescentes de inflação, dando a entender que seu compromisso com a meta já não existia. Perdeu, portanto, a capacidade de “ancorar” as expectativas inflacionárias, isto é, de convencer agentes econômicos de que o melhor “palpite” para a inflação seria a própria meta.

Não bastasse o descaso do BC, o governo federal adotou uma política fiscal extraordinariamente expansiva, mal e mal disfarçada por uma contabilidade criativa facilmente detectável por qualquer analista com um mínimo de experiência no assunto. Os gastos federais, sem contar as transferências a Estados e municípios, saltaram de R$ 795 bilhões (17,8% do PIB) em 2010 para R$ 927 bilhões (19,0% do PIB) em 2013, já descontada a inflação do período.

Em outras palavras, as políticas que deveriam agir no sentido de reduzir a inflação atuaram na direção oposta, agravando o problema. E foi aí que as ideias descartadas em tempos mais sérios começaram a voltar. Assim, em vez de tratar as causas da inflação, o governo (“como um todo”) passou a se concentrar nos sintomas. Reduções localizadas de impostos e controles de preços substituíram as políticas monetária e fiscal.

Apenas o subsídio ao consumo de energia custou pouco menos de R$ 8 bilhões ao Tesouro no ano passado (outros R$ 2 bilhões vieram de contas de reservas), o que se adiciona a perdas não reveladas da Petrobras, originadas da desastrosa iniciativa de manter os preços domésticos de combustíveis inferiores aos internacionais. Isso para não mencionar a renúncia fiscal dos impostos sobre, por exemplo, a cesta básica.

Agora, devido à situação precária dos reservatórios e, portanto, ao uso mais intenso da energia termelétrica, já se fala na necessidade de mais R$ 18 bilhões em 2014 para indenizar as empresas, impedidas de repassar os custos mais altos por receio dos efeitos sobre a inflação.

Com as contas de reservas esgotadas, trata-se de recursos do Tesouro que beneficiarão os maiores consumidores de energia, não exatamente a parcela mais pobre da população. E o governo ainda vem acenar com promessas de moderação fiscal…

A verdade é que, como ocorrido em outros países, a tentativa de engajar “o governo todo” na tarefa de controlar a inflação para “ajudar o BC” implica exatamente o oposto.

Em primeiro lugar desestimula a expansão da oferta, como ficou claro, por exemplo, na redução do volume de investimentos do setor elétrico após a edição da MP 579, em setembro de 2012, ao mesmo tempo em que incentiva o aumento do consumo, agravando o problema setorial. Do ponto de vista macroeconômico, adiciona ao deficit fiscal, fator que impulsiona a inflação à frente, depois de passado o alívio transitório sobre os índices de preços.

Quem teve a oportunidade de seguir o padrão de política econômica argentina pós-2004 não há de ter dificuldade de achar paralelos entre o Brasil de hoje e a Argentina há dez anos. Os desequilíbrios fiscais e cambiais, assim como as várias instâncias de controles de preços que puseram a economia platina de joelhos, tiveram origem precisamente na recusa em lidar com o problema inflacionário. Sabemos o fim do filme, mas ninguém parece interessado em mudar o roteiro.

Vulnerabilidade

Celso Ming 
O Estado de S.Paulo

O governo Dilma tem duas atitudes a tomar diante da advertência do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), de que o Brasil é a segunda economia emergente mais vulnerável ao processo de desmonte do pacote de estímulos que se inicia.

Ou dirá que o Fed, agora presidido por Janet Yellen, só olha para trás, não sabe o que acontece no Brasil - e, nessas condições, estará desqualificando o conteúdo do documento; ou se convencerá de que o diagnóstico está fundamentalmente correto e, por isso, proverá os ajustes necessários para reduzir a vulnerabilidade.

O governo brasileiro já havia passado mil recibos de que a economia estava frágil ao longo do processo anterior, o de emissão de moeda pelo Fed para tentar desencalhar a economia dos Estados Unidos. Foi o tempo em que a presidente Dilma se queixava do tsunami monetário provocado pelos grandes bancos centrais e o ministro Guido Mantega tentava acionar os organismos internacionais contra o que chamou de guerra cambial contra as moedas dos emergentes. Referiam-se, então, à abundância nunca vista de recursos nos mercados internacionais, parte dos quais tomou o rumo do Brasil e puxou o câmbio para baixo.

Dilma e Mantega reivindicavam, então, que essa política prejudicial aos vizinhos fosse desmontada. Agora que o desmonte está começando, Dilma e Mantega temem pela secura de moeda estrangeira no Brasil.

Independentemente dessas queixas, o discurso das autoridades brasileiras foi repetir que a economia é sólida o suficiente para enfrentar trancos externos e que os juros já subiram; que as reservas externas são colchão de bom tamanho para atravessar temporadas de sumiço de dólares; e que a nova demanda interna criada pelos tais 40 milhões que acabaram de ascender às classes médias garante mais investimentos.

Suponhamos que o Fed esteja errado, ou "defasado", como argumenta nosso Banco Central, e que o Brasil esteja bem na foto, como quer fazer crer o governo Dilma, em tantas manifestações.

Este é um documento oficial do Fed, entregue ao Congresso dos Estados Unidos e não um rabisco qualquer. Não são nem palpites ocasionais de advertência feitos por algum analista de agência de classificação de risco. É o Fed que avisa que o Brasil é uma economia vulnerável. E basta essa manifestação, ainda que equivocada, para produzir consequências. No mínimo, certo volume de investimentos a ser canalizado para o Brasil continuará trancado nas gavetas dos administradores de recursos.

De todo modo, a ação do Fed está sendo antecipada e é previsível. Há outra forte acumulação de cúmulus nimbus pela proa, em relação à qual as informações são bem mais escassas. Trata-se da desaceleração do crescimento econômico da China.

A economia brasileira está precisando apertar os cintos para enfrentar novas turbulências e não de desmentidos ou de contabilidade criativa que camufle suas fraquezas. Nos próximos dias, o governo terá oportunidade para dar uma resposta mais adequada do que tem dado à opinião pública, tanto daqui quanto do exterior. Basta que anuncie uma meta forte, consistente e crível na sua política de administração das contas públicas.

Três crises

Míriam Leitão  
O Globo

É importante entender a dimensão e a natureza da crise que nos aflige agora. Do ponto de vista externo, o que está acontecendo é muito menor do que o que vimos nos últimos cinco anos. Internamente, acumulamos algumas fragilidades, mas temos também forças para enfrentar eventuais turbulências. O clima e as imperícias no setor energético criaram um problema a mais.

A primeira crise, em 2008, foi gravíssima. Naquele momento, o sistema financeiro internacional chegou perto do colapso por erros de política monetária e bancaria das maiores economias. O Brasil foi afetado porque todos os países o foram. Uma grande onda bateu na nossa costa. Empresas expostas em derivativos cambiais ampliaram a crise aqui dentro. Houve um dia de a bolsa ter que suspender o pregão três vezes. O Brasil estava crescendo e foi à recessão.

A segunda crise foi a Europeia. Ela não foi aguda, mas foi crônica. Meses e meses de países quebrando e de dúvida até sobre se a União Europeia sobreviveria.

Esta terceira, agora se dá, em parte, por bons motivos. Os Estados Unidos, crescendo, estão retirando os estímulos monetários, o dólar está se valorizando, e os títulos de longo prazo americano estão com ganhos maiores. O capital está mudando de rota. Saindo de mercados emergentes para os Estados Unidos ou outros países em processo de recuperação.

O volume alto de reservas ajudou nas duas primeiras crises e ajuda agora. Mas o que nos fragiliza é um déficit em conta-corrente que aumentou demais, principalmente nos últimos anos. O país não aproveitou o dólar baixo para ter uma inflação mais baixa. E está, neste momento, com a taxa anual muito mais alta do que a de inúmeros países com os quais somos comparados na hora de se escolher o investimento. A crise energética interna é mais uma incerteza neste momento.

O quadro é sério, mas a crise externa não tem a dimensão das outras duas. Agora, está havendo um redirecionamento dos capitais porque o pior já passou na economia americana. Na sexta-feira, foi divulgado o dado de desemprego de 6,6%. A economia americana sair do buraco é uma boa notícia para todos porque ninguém tem a ganhar com as dificuldades deles.

O que nos atinge é o fato de haver menos interesse de vir capital para o Brasil quando precisamos financiar o déficit em conta-corrente que aumentou. Precisamos mais deles, quando eles estão com menos interesse em nós.

A inflação alta precisa ser combatida. A boa notícia anunciada na sexta-feira, de um IPCA mais baixo do que o esperado em janeiro, pode se prolongar pelo trimestre. Há grande chance de a taxa acumulada do trimestre ser bem menor do que do primeiro trimestre do ano passado. Isso será um alívio.

O clima diminui a força desse ganho da queda da inflação trimestral. Parte da safra está se perdendo pela falta de chuvas. Esse verão tórrido e esse fevereiro de pouca chuva está tornando mais difícil manter a fórmula que o governo montou desde o ano passado: o Tesouro compensa as distribuidoras pelo custo extra, adiando as más notícias para depois das eleições. O custo maior está aumentando a incerteza fiscal.

Há muitas complicações na conjuntura econômica, como temos falado aqui, mas quando se fala da crise atual, e o mercado financeiro estabelece que há cinco países mais frágeis — nós, entre eles —, deve-se ter em mente que a crise externa não é tão grave, e o Brasil tem ativos para enfrentar as turbulências.

Mark Mobius disse, em reportagem publicada pelo "Valor Econômico", que desta vez não é crise, é choque. Ou seja, a evolução seria menos intensa do que os últimos eventos. O que ele aponta como fonte de desagrado em relação ao Brasil é o inesperado, que acontece com frequência demais. No caso, ele se queixa da descapitalização da Vale para pagar o Refis, que interferiu nas projeções de rentabilidade do papel. Esse é apenas um dos vários inesperados com que a economia brasileira tem afugentado investidores. Não é o momento de sustos em quem ajuda a financiar a economia do país nesta transição.

Em resumo, a crise externa é menos intensa que as outras duas, mas o Brasil criou para si alguns complicadores. O cenário é menos emergencial, mas exige perícia na administração diária da política econômica.

Para sair da lista dos países vulneráveis

Editorial
O Globo

Por enquanto, há o discurso a favor da austeridade, que precisa ser aplicado na vida real. Mas, se não retomar a agenda das reformas, o Brasil ficará à margem no mundo

Até anteontem, a inclusão do Brasil no chamado grupo dos “Cinco Frágeis”, ao lado de Índia, Turquia, Indonésia e África do Sul, poderia ser tachada de “terrorismo psicológico” praticado por analistas neoliberais do mercado financeiro. Ora, se há fuga de divisas do país com a virada de chave da política monetária americana, outros, e não apenas estes quatro “frágeis”, também padecem do mesmo mal e consequentes desvalorizações cambiais. Mas, na terça feira, Brasil e seus companheiros de infortúnio econômico apareceram mencionados, nesta condição, no relatório semestral do Federal Reserve, Fed, o banco central americano. Já sob a presidência de Janet Yellen, o BC dos Estados Unidos reconhece formalmente a maior vulnerabilidade destas cinco economias diante da função semelhante à de um gigantesco aspirador de pó que passou a ter a economia americana, com a perspectiva de elevação dos juros em Wall Street.

A já enorme atratividade dos títulos do Tesouro americano passou a aumentar, em meados de 2013, quando o então presidente do Fed, Ben Bernanke, mencionou que chegaria o momento em que a autoridade monetária americana começaria a reduzir a política de relaxamento monetário (recompras bilionárias de títulos e hipotecas), lançada para acelerar a retomada da economia.

Isso vem acontecendo e, para evitar futuro surto de inflação e novo ciclo de bolhas especulativas, o Fed passou a recomprar menos papéis, na contagem regressiva para a primeira elevação de juros desde 2008. E como mercados atuam nas expectativas, desde o ano passado o fluxo financeiro mundial tomou o rumo preferencial dos Estados Unidos, depois de se aproveitar das altas taxas de retorno em mercados emergentes como o brasileiro. Se os títulos do Tesouro americano são imbatíveis no quesito segurança, também passam a ser mais rentáveis, e segurança e rentabilidade são mistura irresistível para qualquer investidor.

O Brasil perde tempo. O atual discurso de austeridade fiscal chega com algum atraso. Mas, se for aplicado na prática, pode recuperar algum tempo perdido. Porém, ainda falta muito para a adaptação do país a um mundo mais “normal”, com o dólar mais forte, devido à recuperação americana.

O ex-ministro Delfim Netto, em colunas no “Valor” e em recente entrevista à “Folha de S.Paulo” bate na tecla de que o mau humor com o Brasil não tem muito lastro na realidade. A inflação é alta, mas nada indica que escapará ao controle. O déficit em conta corrente, de mais de 3% do PIB, não é saudável, porém a desvalorização do real pode ajudar a recuperar exportações. É certo.

Mas mesmo Delfim reconhece que o Brasil precisa voltar às reformas. Na agenda, estão a previdenciária, a trabalhista, entre outras. Não será em ano eleitoral que esta pauta será lançada. Mas, em 2015, seja qual for o presidente, o tema se imporá por si mesmo. Disso dependerá a perpetuação ou não do Brasil em listas de países fragilizados.

PIADA DA SEMANA: Dilma recebe MST e promete assentar 30 mil famílias em 2014

Lisandra Paraguassu e Erich Decat
Agência Estado

Previsão da presidente é apresentada durante reunião com lideranças do movimento no dia seguinte a protesto ocorrido em Brasília; movimento cobrou agilidade e assentamento para 100 mil famílias

Brasília - Depois de uma hora de reunião com a presidente Dilma Roussef, nesta quinta-feira, 13, os representantes do Movimento sem-terra (MST) saíram com a promessa de conseguirem do governo mais agilidade no processo de assentamento, mas em números muito inferiores ao reivindicado. Enquanto o MST pede a alocação de 100 mil famílias até o final de 2014, o governo federal estima que poderá assentar apenas um terço disso, ou seja, aproximadamente os mesmos 30 mil de 2013. O encontro foi realizado no dia seguinte à manifestação realizada pelo movimento, que terminou em confronto e deixou 32 feridos, segundo a Polícia Militar.

"Nossa estimativa é conseguir vistoriar um milhão de novos hectares. Com os decretos existentes, avaliamos que dá para chegar este ano a 30 a 35 mil famílias", afirmou o ministro do Desenvolvimento Agrário, Pepe Vargas, que também estava na reunião. De acordo com o ministro, é possível que se aumente esse número se uma das reivindicações feitas pelo movimento à presidente, a utilização de lotes vagos nos perímetros irrigados da Região Nordeste, der resultados. Dilma prometeu ao MST um levantamento dos lotes e das possibilidades de uso para reforma agrária.

Alexandre Conceição, da coordenação nacional do MST, avaliou que a reunião foi boa, apesar do governo ter oferecido apenas estudos e promessas. "Deixamos claro para a presidente que não tem reforma agrária se não houver desapropriação de terra. São 100 mil famílias hoje esperando há 10, 15 anos na lona preta e ela se comprometeu a criar um grupo de trabalho para acelerar as desapropriações", disse. Antes do encontro, lideranças do movimento entregou uma carta com reivindicações em que pedem mudança "urgente" na política agrária.

O MST cobra do governo mais desapropriações e alega que os números do governo estão inflados porque a maioria desses assentamentos seria regularização fundiária e reposição de lotes já concedidos e que teriam sido abandonados, o que eles não consideram como assentamentos. Em dezembro do ano passado, Dilma assinou decreto com a desapropriação de 92 áreas. Até então, o governo Dilma era o que menos havia desapropriado terras para assentamentos. "Eles consideram assentados apenas os ligados aos movimentos deles e também consideram apenas em áreas desapropriadas particulares. Não é de hoje essa diferença porque eles não levam em consideração áreas públicas", afirmou Pepe Vargas.

Uma outra reivindicação foi a ampliação do número de assentados que participam do Programa de Aquisição de Alimentos, em que o governo compra a produção dos assentados para estoques. Hoje, apenas 5% estão no programa e, de acordo com o ministro, é preciso melhorar a produção dos assentamentos para garantir qualidade e regularidade. "O problema não é falta de recurso. Tem tido sobra de recursos. Mas tem que ter regularidade e qualidade de oferta. É possível aumentar", disse o ministro.

De concreto, o MST saiu com apenas uma promessa de Dilma: a extensão do Programa Nacional de Ensino Técnico (Pronatec) Rural para os acampados. A intenção é dar treinamento agrícola para quem ainda está nos acampamentos.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Há dois significados no fato da senhora Rousseff receber a malta do MST, no dia seguinte à baderna que a quadrilha promoveu em Brasília. Uma, por mais que a sociedade exija uma legislação contra o terrorismo social, ou urbano,  não há a menor possibilidade dos petistas permitirem uma lei igual para todos, que atingiria em cheio as ações truculentas promovidas pelo MST. 

O segundo significado é que, ao recebê-los, o governo federal dá um recado torto sobre de que forma ele pretende conduzir estas agitações criminosas e a própria violência que assola o país. Vai promover efeitos especiais visuais, mas sem  focar nenhuma ação prática de combate tanto à criminalidade quanto ao terrorismo urbano.  É a forma como eles entendem de manter a população acuada, por medo de “mudanças”. 

Contudo, a alma brasileira já suportou o quanto podia esta negligência do governo medíocre da senhora Rousseff em relação à violência. Em vários pontos do país, a população já começa a tomar a iniciativa de enfrentar a bandidagem, fazendo justiça com as próprias mãos. Trata-se de ação que muitos condenam, claro, mas que deveria acender um sinal de alerta para o descaso das autoridades. Se a omissão permanecer, dividido o país  do jeito que está, caminhamos lentamente rumo a convulsão social. 

Exagero? Não, partir para a justiça com as próprias mãos, no fundo, trata-se de ação de legítima defesa, diante da ameaça que todos sentem em relação à sua vida, ao seu patrimônio, e até o mais comezinhos dos direitos individuais, que é de ir e vir. 

Evidente que tal desgraça é possível de ser evitada. Mas é preciso ter firmeza e vontade política para tomar as medidas necessárias.  Entretanto, desde que os petistas assumiram em 2003, o que se percebe é o país está sendo governo pelo crime organizado no poder.    

Agora, espero que os discípulos de Stédile, o todo poderoso do MST, não caiam na conversa fiada da senhora Rousseff quanto ao incrível de 30 mil assentamentos até dezembro DESTE ANO. Em seu primeiro ano, 2011, o governo atual assentou 22.021 famílias; em 2012, foram 23.075 famílias e, em 2013, o melhor ano de Dilma, foram 30.239 famílias. Porém, em ano eleitoral, com Copa do Mundo concentrando total atenção do governo antes do início da campanha, esta promessa 30 mil famílias parece-me irreal. Pode até conseguir, mas serão assentamentos fantasmas. Feitos a toque de caixa, sem amparo técnico para as famílias, sem infraestrutura exequível para tamanha quantidade possa se viabilizar economicamente.     

Além disto, se a margem de manobra para controlar a inflação já é reduzida, se a necessidade de podar investimentos para não comprometer ainda mais as contas públicas já está anunciada, com pouca atratividade para receber investimentos externos, tudo faz com que os recursos disponíveis para aplicação em assentamentos sejam ainda amais reduzidos.

Mas, como sempre acontece, sempre que o governo é pressionado, nasce da sacolinha de fantasias demagógicas mil e uma promessas vazias. E, como é usual, sempre tem trouxa que leva fé.   

Número de planos de fundos de pensão com déficit subiu 90%

O Globo
Com informações Valor

SÃO PAULO - A difícil conjuntura do mercado financeiro no ano passado levou diversos fundos de pensão a registrar déficit em seus planos de benefícios. Levantamento da Abrapp, associação que reúne o setor, com a Gama Consultores Associados, mostra que o número de planos no vermelho subiu para 262 planos em setembro de 2013, ante 136 no fechamento de 2012. Ou seja, 126 planos que estavam equilibrados há um ano têm, hoje, um ativo menor do que o seu passivo.

– Em setembro de 2013, 122 entidades possuíam ao menos um plano em déficit – disse Antônio Gazzoni, presidente da Gama Associados, em evento em São Paulo.

O número de planos com superávit também caiu, de 385 em 2012 para 287 em setembro do ano passado. A Abrapp estima que os fundos de pensão tiveram uma rentabilidade média negativa de 1,26% no ano passado, ante uma meta de rentabilidade de 11,57% para o período, equivalente a INPC mais 5,75% no ano.

Gazzoni chama a atenção para o fato de que a maior parte dos títulos públicos na carteira dos fundos de pensão tem duração superior a 10 anos e, por isso, sofrem mais com a alta volatilidade que tem sido vista desde meados do ano passado.

– Esses fatores conjunturais têm trazido impactos significativos aos resultados dos planos – disse Gazzoni.

Com esse resultado, a solvência do setor caiu de uma média de 105% em 2012 para 98% no ano passado. Ou seja, agora o sistema tem patrimônio para cobrir 98% de suas obrigações. Gazzoni comparou o Brasil com outros países. Segundo ele, a Holanda mostra nível de solvência de 110%, Estados Unidos de 95% e Reino Unido de 87%.

– Os EUA recuperaram 21 pontos de solvência desde 2007, na crise, o que mostra que a recuperação do sistema é possível por se tratar de uma questão conjuntural – disse Gazzoni.

O setor discute com o governo a flexibilização das regras de equacionamento de déficit dos fundos de pensão.

Petrobras entrega plataformas incompletas, diz sindicato

Exame.com
Sabrina Valle, Estadão Conteúdo

Plataformas são inauguradas inacabadas por pressão política, para melhorar o saldo da balança comercial e para dar satisfação ao mercado

Roberto Stuckert Filho/PR 
Dilma posa para foto com trabalhadores durante cerimônia de conclusão
 das obras da plataforma P-62: plataforma saiu do estaleiro incompleta

Rio - Última plataforma da Petrobras a ser entregue, em cerimônia em dezembro com a presença da presidente Dilma Rousseff, a P-62 saiu do estaleiro incompleta. Não foi a primeira, segundo sindicalistas. Por pressão política, para melhorar o saldo da balança comercial e para dar satisfação ao mercado, as plataformas são inauguradas inacabadas e depois finalizadas em mar - o que é mais caro e lento para a empresa, além de menos seguro para trabalhadores.

"Precisam justificar ao mercado que a empresa vai ter capacidade de produção nos próximos meses, tem muita pressão", diz o representante dos trabalhadores no conselho de administração da Petrobras, José Maria Rangel, que levará o assunto a discussão na reunião do órgão no próximo dia 25.

O diretor de segurança e saúde do Sindipetro-NF, Norton Almeida, credita o lançamento ao mar de plataformas ainda não operacionais a pressão política. No início do mês, ele embarcou na P-62 e conferiu pessoalmente os problemas. O sindicato diz que o sistema náutico saiu do estaleiro sem um cabo de ré, sem uma das amarras do sistema de ancoragem de bombordo (lado esquerdo) e sem o sistema elétrico pronto, entre outros itens.

O cabeamento de energia incompleto forçou, por exemplo, a instalação de um gerador de energia que pegou fogo em janeiro, quando a plataforma navegava em direção ao campo de Roncador, na Bacia de Campos. Foram 40 minutos para controlar o incêndio, ao lado de um tanque de diesel, segundo Almeida. A unidade chegou à locação com duas semanas de atraso.

O sindicato diz que se a plataforma ficasse mais alguns dias no Estaleiro Atlântico Sul (EAS, Pernambuco) muitos dos problemas poderiam ter sido resolvidos, já que em terra milhares de operários podem trabalhar simultaneamente, enquanto em mar a legislação internacional limita a tripulação. A P-62 está com 160 homens embarcados e 20 em barco de apoio. Além disso, a instabilidade marítima traz riscos para manipulação de itens pesados e a distância torna toda a logística mais cara e lenta. Hoje, qualquer parafuso precisa viajar 125 km da costa para chegar ao destino final

"Não é um cálculo nada matemático, mas um serviço em mar pode levar dez vezes mais tempo do que em terra, e custar dez, quinze vezes mais. Tudo fica mais difícil", disse Almeida. O lançamento ao mar no Estaleiro Atlântico Sul (EAS), em 30 de dezembro, fez cumprir, em calendário, o compromisso da Petrobras de pôr na água nove plataformas em 2013.

Em 31 de dezembro, foi lançada ao mar também a P-61, que saiu do estaleiro BrasFels, na baía de Angra dos Reis (RJ), para o campo de Papa-Terra, na Bacia de Campos. Também no último dia do ano a P-55 entrou em produção, às 22h30m, depois de ter sofrido reparos em mar.

Depois de concluída, a plataforma se enquadra num benefício tributário (Repetro). As embarcações passam ao guarda-chuva de uma subsidiária da Petrobras na Europa e podem ser contabilizadas pelo País como exportação, mesmo sem sair do país. Só no quarto trimestre, quatro plataformas tiveram impacto de US$ 5,3 bilhões na balança comercial, maior valor já contabilizado num trimestre.

As nove plataformas têm potencial para adicionar capacidade de até 1 milhão de barris/dia e são apresentadas pela Petrobras como a promessa da empresa para tirar a produção de petróleo da estagnação. Mesmo com o pré-sal, há quatro anos a produção não descola dos 2 milhões de barris/dia.

O Sindipetro lembra que o problema não acontece com plataformas construídas por terceiros e afretadas (alugadas) pela Petrobras. Estas só vão ao mar prontas, mesmo quando construídas em estaleiros brasileiros.

"Em maior ou menor grau, isso (ir ao mar inacabada) aconteceu com as últimas 12 plataformas próprias da Petrobras", disse Almeida, citando a P-43, P-48, P-50, P-51, P-52, P-53, P-54, P-55, P-56, P-57, P-58 e P-63. Procurada, a Petrobras não se manifestou até o fechamento dessa matéria.

Petrobrás é citada em denúncia de propina

Sabrina Valle, Vinicius Neder e Jamil Chade
O Estado de S.Paulo

RIO/GENEBRA - Denúncia de ex-funcionário da SBM Offshore, empresa holandesa que aluga navios-plataforma (FPSOs) a petroleiras, sugere que funcionários da Petrobrás receberam propina para fechar negócios. Segundo o Ministério Público da Holanda, depoimento do ex-funcionário, publicado na internet, faz parte de investigação no país.

O relatório de denúncia, assinado apenas por FE (former employee, ou ex-funcionário), acusa a SBM de pagar US$ 250 milhões em propinas a autoridades de governos e de estatais de vários países, incluindo o Brasil. O esquema brasileiro ficaria com a maior parte, envolvendo US$ 139,2 milhões, destinados a funcionários e intermediários.

Segundo o denunciante, que se autointitula diretor de vendas e marketing, o pagamento de propinas estaria claro numa troca de e-mails entre executivos da SBM, em abril de 2011. Atas confidenciais de reuniões da Petrobrás teriam sido incluídas, com a constatação de que a obtenção desses documentos foi garantida depois de pagamentos a funcionários da estatal. As mensagens citariam uma reunião com o então "engenheiro-chefe" da Petrobrás, citado apenas como Figueiredo.

São citadas duas FPSOs ainda a serem entregues à estatal, batizadas de Saquarema e Maricá, encomendadas em julho de 2013 por US$ 3,5 bilhões. Segundo o denunciante, o negócio não foi devidamente divulgado.

Julio Faerman, representante comercial da SBM no Brasil, seria o principal repassador das propinas, sempre segundo a denúncia, cuja veracidade ainda é investigada. Além do Brasil, o esquema abrangeria Itália, Guiné Equatorial, Angola, Malásia, Casaquistão e Iraque, envolvendo negócios entre 2005 e 2012. No caso de Guiné Equatorial e Angola, a denúncia cita funcionários dos governos e de estatais que teriam recebido suborno.

A denúncia do ex-funcionário foi revelada na quinta-feira pela revista de negócios holandesa Quote, afetando as ações da SBM na Bolsa de Amsterdã. O relatório foi publicada em 18 de outubro de 2013, na página sobre a SBM na Wikipédia, enciclopédia colaborativa online.

O material foi retirado do ar, mas a reportagem da Quote publicou o link antigo com o relatório do ex-funcionário. O jornal Valor Econômico noticiou o caso ontem. A Petrobrás não comenta a denúncia, segundo a assessoria de imprensa.

Procurada em sua sede, a SBM não respondeu ao Estado. Os contatos com a imprensa são feitos exclusivamente pela sede mundial, informou o escritório da empresa no Brasil, com quatro andares no centro do Rio.

José Sérgio Gabrielli, presidente da estatal em parte do período das denúncias, disse "nunca ter ouvido falar" de intermediário de suposto esquema de suborno e que quem teria de falar sobre o caso é a Petrobrás. Ontem, o PSDB protocolou uma representação na Procuradoria-Geral da República (PGR) pedindo investigação da denúncia.

Chantagem. Em nota à imprensa divulgada no dia 7, a SBM acusou o ex-funcionário de chantagem e ressaltou que o relatório publicado na web não faz parte de investigação interna da empresa. Em abril de 2012, a companhia informou sobre a investigação interna. No relatório, o ex-funcionário acusa a apuração de acobertar o caso.

A nota classifica o relato do ex-funcionário de "parcial" e "fora de contexto". A companhia nega acobertar o caso. No discurso oficial, a investigação é sobre "práticas de vendas potencialmente impróprias". Em nenhum momento a SBM fala do Brasil.

Segundo o relato incluído na investigação na Holanda, nos e-mails de 18 e 21 de abril de 2011, nas quais seria citada a reunião com o engenheiro-chefe da Petrobrás, a SBM pediria a ampliação do contrato com a Petrobrás sem "licitação aberta". Os e-mails incluiriam Bruno Chabas, atual CEO da empresa.

A Justiça holandesa confirmou a investigação. Faerman seria o contato para o pagamento de propinas desde 1999. Segundo documento de 27 de março de 2012, uma comissão de 3% em propinas era dividida em 1% para Faerman e 2% para funcionários da Petrobrás. 

Colaborou Tiago Décimo

Petrobras paga a conta de equívocos do governo

Editorial
O Globo

Ações da companhia continuaram se desvalorizando este ano na bolsa de valores, porque o mercado está cético quanto à recuperação dos resultados da empresa

Os preços das ações da Petrobras continuaram amargando fortes perdas após a virada do ano. A empresa espera recuperar produção e melhorar os resultados ao longo de 2014, mas o mercado tem reagido com ceticismo. A queda acumulada em doze meses é da ordem de 25%, enquanto, na média, os papéis mais negociados na Bovespa se desvalorizaram 12%.

No quatro trimestre de 2013 e nas primeiras semanas de 2014, a Petrobras pôs em operação nove novas plataformas, que aumentam sua capacidade de produção em mais de 1 milhão de barris diários de petróleo e gás. Algumas delas foram instaladas em campos promissores da camada do pré-sal. É bem possível que a trajetória da curva de produção se inverta a partir de agora, rumo a quatro milhões de barris diários até o fim da década (o que significará o dobro do atual volume).

O descrédito de mercado se deve a seguidas frustrações no alcance das metas. A recuperação anunciada para 2013 não ocorreu. Houve até uma queda surpreendente, que a companhia justificou com atrasos na entrada em operação de algumas unidades.

No entanto, como chamou atenção o consultor Jorge Camargo (que foi alto executivo na própria Petrobras e em outras companhias petrolíferas), em artigo publicado sábado no GLOBO, a queda da produção nos campos maduros da Bacia de Campos, principalmente, está ocorrendo mais rapidamente do que seria natural, o que denota falta de investimento na perfuração de novos poços e de equipamentos adequados para separação do óleo extraído dos reservatórios junto com grande volume de água salgada.

O consultor usou a imagem de uma gigante extenuada para descrever a situação da Petrobras. A estatal tem um programa de investimentos da ordem de US$ 250 bilhões, e, para executá-lo, teve de atingir o limite aceitável de endividamento. Não pode recorrer mais ao mercado para se capitalizar nesse ambiente de ações desvalorizadas. E os recursos gerados nos seus negócios têm sido insuficientes devido a uma política de preços imposta pelo governo que a leva a registrar elevados prejuízos na importação de óleo diesel, gasolina e gás.

É uma questão não resolvida, que este ano esbarra no calendário eleitoral. O ajuste de preços sem dúvida pode encarecer todo o custo de transportes, e infelizmente a inflação já está em um patamar que não permite absorver esse choque sem ultrapassar o teto (6,5%) da meta estabelecida pelo governo.

Mas o responsável por esse quadro é o próprio governo, cuja combinação de políticas fiscal e monetária expansionistas permitiu que a inflação se mantivesse nesses patamares perigosos e arriscados. Mas jogar o peso desse equívoco sobre a Petrobras, obrigando-a a subsidiar o consumo de combustíveis, é persistir no erro.

Governo discute corte nos investimentos para melhorar situação fiscal

João Villaverde 
O Estado de S. Paulo

Técnicos dos ministérios da Fazenda e do Planejamento têm passado madrugadas tentando calibrar a meta fiscal que será anunciada na semana que vem 

BRASÍLIA - O governo está discutindo, pela primeira vez na gestão Dilma Rousseff, um contingenciamento das despesas com investimentos e inversões financeiras. Em situação crítica no front fiscal, com aumento de gastos previstos com o setor elétrico e sem contar com o enorme volume de receitas extraordinárias que irrigaram os cofres no ano passado (R$ 35 bilhões), a Junta Orçamentária discute um possível corte nos investimentos ou uma redução importante do subsídio dado pelo Tesouro Nacional ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Não há decisão tomada, mas os técnicos dos ministérios da Fazenda e do Planejamento têm passado madrugadas debruçados em projeções de receitas e estimativas de despesas para o ano, de forma a calibrar a meta fiscal que será anunciada na semana que vem.

A área econômica do governo tem se esforçado para anunciar a maior meta fiscal possível, mas tem ficado cada vez mais difícil alcançar uma economia robusta de recursos em 2014 mantendo a blindagem dos investimentos que Dilma implementou para estimular a atividade econômica durante a crise. Para piorar, o contingenciamento de despesas federais desta vez não poderá recair principalmente sobre as emendas parlamentares, foco principal dos cortes aplicados aos orçamentos dos últimos anos. Com o dispositivo do orçamento impositivo, ficou mais difícil reduzir as emendas.

Esforço. 
Internamente, o governo trabalha com uma economia de recursos fiscais do setor público consolidado de "pelo menos" 1,8% do Produto Interno Bruto (PIB), sendo 1,3% do PIB referente ao esforço do governo central, formado por Tesouro Nacional, Banco Central e Previdência Social, e 0,5% do PIB acumulados por Estados e municípios. Como as discussões estão a pleno vapor, a meta a ser anunciada pode ser maior.

Embora inferior ao patamar de 1,9% do PIB alcançado em 2013, essa meta fiscal seria "um esforço ainda maior", segundo uma fonte envolvida nas discussões, dado que a combinação seria diferente. Enquanto o superávit primário do ano passado foi principalmente construído pelo ingresso de receitas extraordinárias - como os R$ 15 bilhões do bônus de assinatura do contrato pelo pré-sal do campo de Libra, e os R$ 21 bilhões referentes ao parcelamento de débitos tributários, o Refis - e dividendos de estatais, a meta fiscal deste ano seria alcançada com um aperto maior nos gastos públicos.

Risco. 
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, tem sido um defensor de maior austeridade, temendo o risco de rebaixamento da nota do Brasil pelas agências de rating neste ano. Reduzir os repasses do Tesouro ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e à Caixa é uma política mais consensual do que reduzir a carga de investimentos para o ano. Gastos considerados prioritários, como o programa Minha Casa, Minha Vida, por exemplo, estão blindados da tesoura do governo.

O governo avalia que o mercado financeiro nacional e os investidores estrangeiros concederam uma "trégua" à equipe econômica, após o discurso de Dilma no Fórum Econômico Mundial em Davos (Suiça) e a elevação dos juros pelo Banco Central em janeiro. Agora, o mercado aguarda um movimento firme de política fiscal.

Governo admite pela primeira vez risco de racionamento, ainda que 'baixíssimo'. É mesmo?

Danilo Fariello 
O Globo

Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico se reuniu nesta quinta-feira e produziu uma nova resposta aos apontamentos dos agentes do mercado sobre os riscos faltar energia no país

Antonio Cunha/ CB/D.A Press 
Abaixo do nível. Reservatório na Usina Hidrelétrica de Queimado, 
em Unaí (MG), está baixo com a falta de chuvas 

BRASÍLIA - Pela primeira vez, o governo assumiu que existe um risco, embora de "baixíssima probabilidade", de haver dificuldades no suprimento de energia elétrica no país. O Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) se reuniu nesta quinta-feira e produziu uma nova resposta aos apontamentos dos agentes do mercado sobre os riscos faltar energia no país.

A cúpula do governo para o setor elétrico sustenta que "a não ser que ocorra uma série de vazões (de água nos reservatórios das hidrelétricas) pior do que as já registradas, evento de baixíssima probabilidade, não são visualizadas dificuldades no suprimento de energia no país em 2014".

A nota ratifica que "o sistema elétrico está atravessando uma situação conjuntural desfavorável em termos climáticos, em um momento em que o período úmido ainda não está caracterizado, mas dispõe das condições de equilíbrio estrutural necessárias para o abastecimento do país".

O governo destacou que, com a capacidade de geração de energia no país, incluindo as expansões previstas para 2014, "o sistema apresenta-se estruturalmente equilibrado, com sobras, em termos de balanço energético, considerando-se tanto os critério probabilístico (riscos anuais de déficit), como as análises com as séries históricas de vazões, para o atendimento de uma carga prevista para 2014, da ordem de 67.000 MW médios de energia".

Com as altas temperaturas do início do ano, o consumo de energia tem batido recordes sucessivamente. Na semana passada, três minutos após mais um recorde ser superado, um apagão afetou 12 estados e o Distrito Federal. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), no entanto, nega que o alto consumo tenha sido responsável pela falha.

Nesta quinta-feira, reportagem do GLOBO mostrou que o governo já não conta com 17 hidrelétricas previstas no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), cujas obras devem atrasar. Estudo da consultoria PSR estima em 17,5% o risco de falta de energia. Já a agência de classificação de risco Fitch aponta para uma probabilidade "razoável" de que ocorra um racionamento no Brasil.

A nota indica ainda que, considerando-se o risco de déficit de 5%, conforme critério estabelecido pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), há uma sobra de 6.200 MW médios, equivalente a 9% da carga prevista.

A nota, lida por Ildo Grüdtner, secretário de energia elétrica do Ministério de Minas e Energia, informou que a malha de transmissão de energia elétrica "opera dentro de padrões de segurança, tanto nas interligações entre regiões, quanto na malha de atendimento regional, mesmo com os recordes na demanda máxima, por elevação das temperaturas".

Até o momento, o CMSE ainda não debateu especificamente o apagão da semana passada, conforme previsto.

Economist: rezar para São Pedro não soluciona crise energética

Veja online

Publicação britânica critica falta de planejamento do governo diante da situação dos reservatórios do país

(Mariana Pekin)

Funcionário caminha pela área da represa Jaguari, que faz parte do Sistema Cantareira, em Bragança Paulista, no interior de São Paulo, que está 8 metros abaixo do seu nível de vazão devido à falta de chuvas 
A revista britânica The Economist que chega às bancas nesta quinta dedicou reportagem à situação energética do Brasil. Segundo a publicação, o governo parece estar contando com a ajuda de São Pedro - que, segundo a credince popular, é responsável pelas chuvas - para evitar uma crise energética. O tom de crítica aparece logo na primeira frase: "Rezar para São Pedro não é bem uma política energética".

Ao longo do texto, a revista lista os fatores climáticos que levaram diminuição da água nos reservatórios e, ao mesmo tempo, ao aumento do consumo. A reportagem aponta que, o fato de o país vivenciar seu verão mais quente em oitenta anos e, além disso, os reservatórios das usinas hidrelétricas - responsáveis por 80% da geração energética do país - atingirem os níveis mais baixos desde 2001 não eximem o governo de culpa. Para a Economist, o Ministério de Minas e Energia peca ao continuar com o discurso de que o país têm capacidade para atender à demanda de energia.

Nas últimas semanas o Brasil enfrentou novos apagões, além de quedas de energia em diversos pontos do território nacional. Às vésperas de eleições presidenciais, o governo tem adotado um tom de "anticrise" e negado que a sobrecarga seja a responsável pela falta de energia. Nesse sentindo, a Economist aproveita para lembrar - e criticar - as renovações antecipadas dos contratos distribuidoras, realizada em 2012. A medida foi imposta pela presidente Dilma Rousseff para garantir um desconto médio de 20% na conta de luz dos consumidores. Contudo, o próprio governo que cortou também colocou, no início desta semana, em audiência pública, uma proposta de reajuste de 4,6%.

'Não há crise' — 
Nesta quinta-feira, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) reiterou que o sistema elétrico brasileiro opera com folga e afirmou que, "a não ser que ocorra uma série de vazões piores do que as já registradas, evento de baixíssima probabilidade, não são visualizadas dificuldades no suprimento de energia no país em 2014".

Segundo nota oficial do Comitê, considerando o risco de déficit de 5%, que é um critério técnico estabelecido pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), o sistema tem ainda uma sobra de 6,2 mil megawatts (MW) médios, o equivalente a 9% da carga prevista.

Estiagem já aumenta preços de café, ovos e carne no campo

Lucianne Carneiro e Eliane Oliveira

No atacado, verduras sobem 30%. Sem chuvas, alta pode chegar ao varejo

Guito Moreto 
Prejuízo. Alface mais cara. Em São Paulo, no Ceagesp, 
os preços das verduras subiram 30% por causa da seca 

RIO E BRASÍLIA - Apesar de ainda não aparecerem nos índices de inflação, os preços de produtos agropecuários já estão subindo no campo por causa do clima quente e seco no país. Relatório divulgado nesta terça-feira pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Esalq/USP aponta que itens como café, carne, milho e ovos são alguns que já sofreram reajuste pela falta de chuva.

O preço do café do tipo arábica subiu 12,48% em fevereiro, enquanto o do boi gordo avançou 19%. O clima seco também tem diminuído o ritmo de plantio da segunda safra de milho em parte de São Paulo, Mato Grosso do Sul e Paraná, e o preço da saca avançou 6,45% em fevereiro. O calor tem aumentado a mortalidade de galinhas, o que reduz a oferta de ovos e pressiona os preços, que subiram 10,9% no caso do tipo extra branco, informa o Cepea.

— As coletas de preços no atacado em janeiro e fevereiro ainda estão mostrando deflação, mas, com a falta de chuvas, pode haver reversão rápida da trajetória dos preços de alimentos — afirma o economista-chefe do ABC Brasil, Luis Otávio de Souza Leal.

Açúcar também pode subir
Sua projeção é que a inflação de alimentos seja de 0,70% em fevereiro e em março, pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o que sugere desaceleração frente à alta de 0,84% do preço de alimentos em janeiro.

No atacado, as verduras já estão sofrendo com a estiagem. Na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), que é o maior centro de abastecimento de hortifrutigranjeiros do país, alface, agrião e rúcula chegaram a subir até 60%. Em média, afirma Josmar Macedo, assistente executivo da Ceagesp, as verduras estão 30% mais caras do que em janeiro. Brocólis e couve-flor também foram afetados.

— A oferta de verduras caiu 17% frente a fevereiro do ano passado. Os produtores estão colhendo antes por causa da falta de chuva e isso diminui a oferta — diz Macedo.

O levantamento do Cepea constatou que os atacadistas chegaram a relatar perdas de até 40% das cargas de alface. O centro de estudos afirma ainda que, embora sem impacto no preço, o açúcar também pode ser afetado porque a seca limita o desenvolvimento dos canaviais.

Projeção de safra é reduzida
Por causa da falta de chuvas, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) decidiu rever para baixo sua estimativa de safra de grãos para este ano, de 196,67 milhões para 193,6 milhões de toneladas. O novo volume também é recorde e representa alta de 3,6% frente à safra passada (186,9 milhões de toneladas).

Segundo a Conab, a soja é o maior destaque, com um crescimento de 10,4%, ou 8,5 milhões de toneladas a mais que a safra anterior. O total a ser produzido será de 90 milhões nas contas da estatal, volume levemente abaixo da estimativa passada, de 90,33 milhões de toneladas.

Já o milho não teve um desempenho satisfatório, com reduções de 6,2% e 7,2% nas primeira e segunda safras. O produto perdeu terreno para a soja, que tem preços mais favoráveis no mercado internacional. O total projetado é de 75,47 milhões de toneladas, ante 78,97 milhões estimados em janeiro.

Apesar da queda na projeção, o presidente da Conab, Rubens Rodrigues, disse que a situação é “extremamente positiva". O diretor de Política Agrícola e Informações da Conab, João Marcelo Intini, disse ser recorrente a estiagem nesta época do ano em algumas regiões produtoras.

— Há uma expectativa otimista também quanto à manutenção das exportações do setor — disse.

Os números coletados pelos técnicos no campo levaram a companhia a prever que o Brasil se tornará líder mundial na produção de soja, deixando para trás os Estados Unidos. Dados do governo americano indicam que a safra do produto naquele país ficará entre 89 milhões e 90 milhões de toneladas.

Consumidor poderá arcar com alta no custo de energia

Martha Beck, Danilo Fariello e Ramona Ordoñez 
O Globo

Governo já cogita não bancar integralmente os gastos das distribuidoras

André Teixeira / O GLOBO 
Usina Termoelétrica de Seropédica, no estado do Rio 

BRASÍLIA E RIO - O governo já trabalha com a possibilidade de não conseguir bancar integralmente o rombo na Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) e de precisar de recursos extras para compensar as distribuidoras pelo uso de energia térmica no país. Na terça-feira, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) apontou um potencial déficit de R$ 5,6 bilhões na CDE neste ano, que, se não for subsidiado pelo governo, terá que ser repassado às tarifas de energia e bancado pelo consumidor.

Para cobrir essa diferença, a Aneel recomendou um aumento médio de 4,6% nas contas de luz, adicional ao reajuste anual. O Orçamento de 2014 já contempla a transferência de R$ 9 bilhões em recursos do Tesouro Nacional à CDE, principalmente para compensar a utilização das usinas térmicas. Mas a conta deve ficar bem acima desse valor.

Se o governo aportar mais recursos na CDE, poderá elevar os gastos fiscais exatamente no ano em que a equipe econômica precisa realizar um superávit primário (economia para o pagamento de juros da dívida pública) mais robusto. O mercado vem cobrando esse comprometimento federal com as contas públicas.

Repasse pressionaria inflação
Se o governo for mais austero no controle fiscal e contiver o aporte na CDE, isso terá impacto na inflação e, mais precisamente, no preço da energia elétrica, uma das bandeiras do governo. Subir demais a tarifa este ano seria jogar para o alto parte da conquista obtida no ano passado com a queda de 20% da energia para consumidores domésticos.

Apesar desse componente político, tem ganhado força no governo a visão de que, se o valor necessário para equilibrar a CDE ficar muito acima dos R$ 9 bilhões já previstos, será preciso deixar uma parte do custo ser transferida para as tarifas de luz, mesmo que isso pressione a inflação. Os técnicos lembram que ainda não há números certos sobre a necessidade total da CDE, pois o uso de energia térmica vai depender de quando as chuvas vão chegar com mais intensidade. Mas, a cada dia que passa, o rombo na conta fica maior. O mercado prevê que o custo total com o uso das térmicas este ano ficará entre R$ 18 bilhões e R$ 20 bilhões, porém o governo ainda torce para que as chuvas venham com intensidade e contenham essa despesa.

O nível de armazenagem dos reservatórios das usinas do Sudeste/Centro-Oeste (SE/CO), responsável por cerca de 70% da capacidade instalada do país, ficou em 36,6% no último dia 11, segundo dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Esse é o menor nível para o mês de fevereiro desde 2001, ano do racionamento, quando o nível dos reservatórios foi de 33,45%.

Na Região Sul, o nível dos reservatórios está em 46,31% e, no Nordeste, em 42,4%. A Região Norte é que está em melhores condições, com 70,1%.


Mais caras e poluentes, usinas térmicas têm geração recorde

Vanessa Barbosa
Exame.com

Níveis críticos de água nos reservatórios levaram a um pico histórico na carga das térmicas nos 10 primeiros dias do mês

Geraldo Falcão/Petrobras 
A todo vapor: Brasil tem 21.317 megawatts de capacidade instalada de termelétricas

São Paulo – Pela primeira vez, as usinas térmicas atingiram um pico histórico de carga no país: 12.887 MW médios no mês, considerando os dez primeiros dias de fevereiro.

O levantamento feito pelo jornal Folha de S. Paulo, com base em dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), mostra que a carga gerada nesse período a partir das térmicas foi 20,4% maior que nos primeiros dez dias de janeiro.

Mais poluente e até 50% mais cara que a produção das hidrelétricas, essa fonte representou 18,4%, em média, da geração total de energia no início do mês, ante uma participação de 16,1% em janeiro.

Ainda segundo o jornal, em 2013, o recorde de geração térmica ocorreu em maio, com 11.862 MW médios.

No ano anterior, o recorde se deu em novembro, com 11.475 MW médios. Em ambos os casos, as térmicas responderam por 20% da produção nacional de energia.

Ao todo, o Brasil tem 21.317 megawatts de capacidade instalada de termelétricas.

Reservatórios sob pressão
As usinas térmicas são acionadas como backup nesses tempos de calor e pouca chuva, quando o sistema elétrico opera no limite.

Ontem, o nível dos reservatórios registrou o menor percentual para o período desde 2001, segundo o ONS.
O nível dos reservatórios de água das hidrelétricas do Subsistema Sudeste/Centro-Oeste caiu de 40,1% para 37,6% desde o início de fevereiro.