domingo, fevereiro 16, 2014

Os dez anos de PT no poder deu nisso...




E a gente ainda poderia acrescentar ao legado, crescimento baixo, economia cambaleante, contas públicas maquiadas, infraestrutura deteriorada, saneamento zero, apagões dos serviços, violência fora de controle, tudo, segundo eles, com padrão FIFA. Errado. É com padrão PT mesmo...

E eles ainda querem mais tempo no poder. Que Deus nos livre!

Eles erram e maquiam e os outros é que são caras de pau

Rolf Kuntz  
O Estado de S.Paulo

A presidente Dilma Rousseff chamou de caras de pau os críticos de sua política econômica, bem representada em seus efeitos pela estagnação industrial, pela inflação elevada e, no último ano, por duas quedas trimestrais do índice de atividade calculado pelo Banco Central (BC). A última atualização desse índice foi divulgada nesta sexta-feira. A esses feitos, ou malfeitos, é possível somar várias outras façanhas, como a demora em fixar a meta fiscal para 2014, mais um claro sinal de falta de rumo. Daí um problema: se os críticos são caras de pau, como qualificar quem maquia as exportações com vendas fictícias de plataformas de petróleo inacabadas, sem condições de operação e até sem segurança? As exportações de mentirinha, destinadas inicialmente a produzir apenas efeitos tributários, eram conhecidas há muito tempo e já foram citadas muitas vezes. A novidade é a denúncia formulada pelo representante dos trabalhadores no Conselho de Administração da Petrobrás, José Maria Rangel. A história foi publicada no Estado. Segundo Rangel, para reforçar a balança comercial e para impressionar o mercado, o governo decidiu lançar as plataformas antes da hora e completar a construção no mar, com riscos e custos muito maiores.

Os críticos do governo - caras de pau e pessimistas, segundo a presidente - ganharam na segunda semana de fevereiro muito material para sustentar seu mau humor e nada para atenuá-lo. Um mês e meio depois da ressaca do réveillon, os brasileiros continuam sem conhecer, neste fim de semana, a mera do governo federal para as contas fiscais de 2014. Quanto a presidente pretende separar para o superávit primário, isto é, para o pagamento de juros da dívida pública? Até conselheiros informais da presidente andaram sugerindo metas um tanto ambiciosas, na faixa de 2% a 2,5% do produto interno bruto (PIB), para dar um bom sinal ao mercado e às agências de classificação de risco.

Funcionários importantes da equipe econômica divergem sobre o assunto, em busca de um objetivo ao mesmo tempo crível, suficiente para o mercado e alcançável sem muita complicação. Não se toca publicamente no assunto, mas um dos problemas, é claro, é conciliar a meta e as formas de alcançá-la com as conveniências de um ano de eleições.

As pressões inflacionárias ainda fortes e as incertezas quanto ao custo da energia elétrica neste ano também dificultam as decisões. O subsídio aos consumidores, em 2013, ajudou a administrar os índices de inflação. Custou cerca de R$ 9,7 bilhões em contribuição direta do Tesouro. O peso de uma política semelhante neste ano poderá ser muito maior. Especialistas em política energética têm estimado algo em torno de R$ 19 bilhões. Se o governo mantiver essa política, no entanto, continuará enviando um sinal errado aos consumidores e complicando a gestão de recursos para investimentos no setor.

Todos esses detalhes caracterizam um governo desorientado. A presidente sem dúvida conhece os seus objetivos. O mais importante é a reeleição. Esse objetivo, porém, depende, em primeiro lugar, do apoio do PT e do auxílio do chefe supremo do petismo, o ex-presidente e grande vendedor de postes Luiz Inácio Lula da Silva. Mas a governante é ela e a ela cabe descobrir como juntar e ordenar as peças da administração e da política para atender ao eleitorado, aos líderes de seu partido e aos companheiros de viagem, a começar pelos peemedebistas.

Por enquanto, nem as fontes oficiais de informação ajudam muito. De fato, mais atrapalham do que ajudam, quando publicam os indicadores econômicos e confirmam, a cada dia, o fracasso da política econômica. Essas informações se articulam cada vez mais claramente. O recuo da produção industrial nos últimos três anos foi acompanhado de redução do emprego no setor. O aumento do produto industrial em 2013, 1,2%, foi insuficiente para compensar a queda de 2,5% no ano anterior e para garantir um resultado positivo no acumulado de três anos. O nível de emprego na indústria caiu 1,4% em 2012 e mais 1,1% em 2013. Em 2011 havia subido apenas 1%. Esses números foram anunciados nesta semana pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Detalhe relevante: a indústria continua sendo a principal fonte de emprego decente.

Na sexta-feira saiu o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br). Dados mais importantes: queda de 1,35% de novembro para dezembro e de 0,17% do terceiro para o quarto trimestre. Foram dois trimestres consecutivos de queda, suficientes para caracterizar uma recessão. Mas uma avaliação mais segura dependerá da publicação, no fim do mês, dos dados gerais do PIB de 2013 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O IBC-Br vale basicamente como prévia.

O Brasil precisa de novos motores de crescimento, disse à revista Exame o presidente do BC, Alexandre Tombini. Não se pode crescer por muito tempo apenas pela absorção de novos contingentes de mão de obra, argumentou. Mais que um comentário, essa declaração é um diagnóstico de uma economia travada e impossibilitada de crescer sem pressões inflacionárias e sem desajustes nas contas externas. A novidade, nesse caso, é o avanço do presidente do BC no território da formulação da política de desenvolvimento. O governo, podem responder a presidente e seus auxiliares, já havia entendido o problema e procurado cuidar do investimento e das políticas de eficiência. Na melhor hipótese, isso mal chega a ser meia verdade. O investimento continua muito baixo (19,1% do PIB no terceiro trimestre de 2013) e a bateria de estímulos foi voltada, até agora, principalmente para o consumo, num evidente erro de diagnóstico e de estratégia. Os novos investimentos em infraestrutura, se forem além dos projetos iniciais, só produzirão efeitos nos próximos anos. Os caras de pau ainda terão assunto por longo tempo.

Outras perguntas

J.R. Guzzo
Revista VEJA

Por que Dilma deu de presente a Cuba um porto novo em folha, no valor de 1 bilhão de dólares, enquanto nossa soja ficará apodrecendo no pé?

Encaminhamos à apreciação das autoridades federais, novamente, algumas perguntas sobre questões de possível interesse para o leitor. Como costuma acontecer, não virá nenhuma resposta, mas é dever desta revista fazer o que pode, mesmo sabendo que o governo não reconhece a existência no Brasil de cidadãos capazes de ter dúvidas — brasileiros que terminaram o ensino básico, pensam com a própria cabeça e podem, eventualmente, não entender direito que diabo está acontecendo com seu país.

Por que o governo continua a olhar sem fazer nada, como se o fato estivesse acontecendo na Transilvânia, o estelionato praticado sistematicamente contra o trabalhador brasileiro pelas altas autoridades que decidem qual é o saldo que ele tem, ao fim de cada mês, no Fundo de Garantia? Ao longo dos últimos quinze anos, cerca de 20% do dinheiro que os trabalhadores têm no FGTS sumiu, mastigado por cálculos de reajuste que sempre ficam abaixo da inflação. O Partido dos Trabalhadores, a esse respeito, já teve onze anos inteiros para fazer alguma coisa a favor dos trabalhadores. Não fez. Por quê?

Os jornalistas Gustavo Patu e Mario Kanno, do blog “Dinheiro Público & Cia”, tiveram a paciência de ler do começo ao fim a ata que o Banco Central soltou depois de sua última reunião, no fim de janeiro. Chegaram a uma conclusão assombrosa: os dirigentes do BC precisaram escrever nada menos de 74 parágrafos para explicar por que subiram a taxa de juro em 0,5 ponto percentual. Embora o idioma oficial do Brasil seja o português, a maior parte do texto era ocupada por frases como a seguinte: “O Copom entende ser apropriada a continuidade do ritmo de ajuste das condições monetárias ora em curso”. Ou: “Não obstante a concessão neste ano de reajuste para o salário mínimo não tão expressivo quanto em anos anteriores, bem como a ocorrência nos últimos trimestres de variações de salários mais condizentes com as estimativas de ganhos de produtividade do trabalho, o Comitê avalia que a dinâmica salarial permanece originando pressões inflacionárias de custos”. Se era para ninguém entender nada, por que escrever tanto?

Haveria alguma explicação lógica para a presidente da República anunciar a “construção de 6 000″ creches e, ao fim do prazo fixado para isso, entregar só 1 000? Ou, pior ainda, por que Dilma prometeu um ano atrás construir “mais de 880 aeroportos regionais”, como lembrou há pouco o colunista Lauro Jardim, de “Veja”, e conseguiu a proeza de não entregar nenhum — um só que fosse? Como se pode explicar, mesmo para uma classe do 1º ginasial, que um governo com um mínimo de amor-próprio cometa erros tão grosseiros assim? Dilma também prometeu ferrovias que não vai entregar, e águas que não vai transpor, nem do São Francisco nem de lugar nenhum. “Falta de dinheiro” é a resposta comum em todos esses casos. Mas então por que, se o dinheiro está tão escasso, o governo paga 54 000 reais por mês de aluguel para dar um teto ao seu diplomata-mor em Nova York?

O Brasil, como já se estima há bom tempo, deve ter uma safra recorde de 90 milhões de toneladas de soja em 2014. Também já se sabe que mais de 20% desse total será simplesmente jogado no lixo, porque os portos brasileiros não têm condições de escoar uma produção de tamanho volume. Por que, sabendo perfeitamente disso tudo, o governo aplicou miseráveis 15 milhões de dólares em seus portos em todo o ano de 2013 — contra, por exemplo, 1,4 bilhão de reais gastos para construir o Estádio Mané Garrincha, em Brasília? Pior: por que Dilma deu de presente a Cuba um porto novo em folha, no valor de 1 bilhão de dólares, enquanto nossa soja ficará apodrecendo no pé?

Sabe-se que o bacharel José Eduardo Cardozo é ministro da Justiça, mas de que país? Recentemente, comentando os horrores sem paralelo ocorridos na penitenciária de Pedrinhas, no Maranhão, ele disse o seguinte: “O sistema carcerário no Brasil é medieval”. E quem é o responsável por isso? O governo brasileiro, claro, e especialmente a área dirigida por ele próprio, Cardozo. Não dá para dizer que a calamidade — o Brasil tem no momento 550 000 presos para 350 000 vagas na cadeia — seja obra das elites de direita: o PT já está há onze anos no governo, e isso é tempo mais do que suficiente para melhorar alguma coisa, por menor que seja, em qualquer situação de catástrofe. De lá para cá, o ministro não mexeu um palito para eliminar o inferno de Pedrinhas; fez questão, porém, de levar a “solidariedade” do Palácio do Planalto à governadora Roseana Sarney, a quem cabe cuidar do presídio. Por quê?

O terrorismo da banca sobre o STF

Elio Gaspari 
O Globo

Queriam derrubar o pleito dos poupadores tungados nos planos econômicos da época da hiperinflação

No final do ano passado a banca fez uma ofensiva sobre o Supremo Tribunal Federal capaz de dar inveja às tropas do marechal Zhukov durante a Segunda Guerra. Queriam derrubar o pleito dos poupadores tungados nos planos econômicos da época da hiperinflação. Quem tinha mil cruzeiros novos (a moeda de então) na poupança em janeiro de 1989 deixou de receber 204 cruzeiros por causa da mudança do indexador. Esse dinheiro vale hoje R$ 880. Por mais de uma década a banca fez de tudo, inclusive manobras tenebrosas no Supremo. Quando chegou a hora do julgamento, apareceu um número mágico: se os tungados prevalecessem, os bancos perderiam R$ 150 bilhões e iriam à breca. Outro cálculo falava em R$ 600 bilhões e o procurador-geral do Banco Central chegou a mostrar uma conta de R$ 1 trilhão. Os interesses da banca chegaram a produzir um manifesto de 13 ex-ministros da Fazenda. Cinco signatários tinham em suas biografias a glória de terem copatrocinado a ruína da hiperinflação. Falavam com a autoridade do fracasso.

O julgamento do Supremo foi adiado e recomeçará no fim do mês. A repórter Karin Sato revelou que uma equipe de economistas do banco Credit Suisse estimou que a pancada da devolução do dinheiro tungado está longe dos R$ 150 bilhões. Ficaria entre R$ 8 bilhões e R$ 26,5 bilhões.

Há um aspecto relevante nessa iniciativa. Ela não se destinou a decifrar arcanas questões do direito nem a defender o andar de baixo, mas a orientar grandes investidores internacionais. Se houvesse um risco de R$ 150 bilhões, os grandes bancos brasileiros estariam vulneráveis e seria arriscado comprar suas ações. É o contrário. O Credit Suisse informa que “a preocupação com o resultado do julgamento do Supremo Tribunal é exagerada e, a nosso ver, cria uma oportunidade de compra (de suas ações).”

Beleza de situação: banca cria o pânico e se o Supremo vota com ela, tudo bem. Se acontece o contrário, meia dúzia de maganos do mercado financeiro que conhecem os números, alegram-se com a queda do valor da ações, compram-nas e ganham um dinheirinho fácil.

Mantega
Pode-se atribuir a Lula tudo o que a doutora Dilma faz ou deixa de fazer, mas não se deve botar na conta de Nosso Guia a manutenção de Guido Mantega no ministério da Fazenda.

Ele não defende sua permanência nem sua saída. Simplesmente já mostrou à doutora que deveria fazer o que achasse melhor.

Palpite
É possível, apenas possível, que a Comissão Nacional da Verdade leve em conta um sinal de fumaça visto no céu por alguns de seus membros.

Os comandantes militares produziriam um documento reconhecendo a prática de crimes durante a ditadura. A iniciativa é despicienda, visto que os crimes estão perfeitamente documentados, mas teria a virtude de tirar dos ombros da cúpula militar do século XXI uma cumplicidade continuada com delitos ordenados, estimulados e louvados pelos hierarcas do século XX. Ao calar sobre a tortura e os assassinatos os atuais comandantes se comportam como se o presidente do Banco Central não tratasse da hiperinflação na história da instituição.

Além desse reconhecimento, seriam abertos ao público novos documentos. A ver.

Em troca, seria deixado de lado o tema da mudança na lei da anistia de 1979, que protegeu torturadores e assassinos. Só estão vivos oficiais que, à época, eram, no máximo, majores. Os generais que puseram a roda em movimento nada têm a temer, pois morreram.

Ademais, para que a lei da anistia seja mudada seriam necessários o apoio do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, coisa difícil de acontecer.

Lewandowski piscou
A História é uma trapaceira. Às vezes, passa na porta da biografia de uma pessoa e ela não percebe. Na quarta-feira, o ministro Ricardo Lewandowski presidia a sessão do Supremo Tribunal Federal quando a multidão convocada pelo MST se colocou diante do prédio. Temendo uma invasão, suspendeu a sessão e foi para seu gabinete. Nenhum manifestante entrou no tribunal.

A biografia do ministro seria outra se tivesse outra atitude e dissesse: “Ninguém neste país interrompe uma sessão do Supremo Tribunal. Prossigamos.” A doutora Dilma, alertada, transferiu sua agenda do Planalto para o Alvorada.

Faz tempo, Juscelino Kubitschek dizia que a capital devia ir para o cerrado goiano porque um quebra-quebra de bondes no Rio era suficiente para sitiar o governo. Com exemplos como os de Lewandowki e da doutora, um dia a capital vai para Roraima.

Avanços sociais
Durante o governo de Lula o ministro Fernando Haddad anunciou a criação do Enem, que ofereceria à garotada dois exames por ano. A novidade diluiria a tensão que obriga milhões de jovens a jogar um ano de suas vidas num só exame. Em 2012, uma portaria do MEC oficializou a melhoria e em 2013 a doutora Dilma reiterou o compromisso. Cadê? Ao assumir o ministério da Educação, o doutor José Henrique Paim informou que a realização do segundo exame está fora de questão. Sobrou a lorota.

Haddad, por sua vez, está na prefeitura de São Paulo, onde sua administração cortou a cota de lápis dos alunos das escolas públicas de seis para quatro.

Gestão de avanços sociais é isso aí.

Paim nada teve a ver com o surto histérico
Estava errada a informação segundo a qual o senador Paulo Paim (PT-RS) é o autor do projeto que tipifica os crimes de terrorismo com uma definição ambígua e penas mínimas superiores àquelas impostas pela Lei de Segurança Nacional da ditadura. Há dois projetos em andamento no Senado. Um é do senador Pedro Taques (PDT) e outro de Romero Jucá (PMDB).

Paim nada tem a ver com eles. Pelo contrário, uma inciativa sua retarda a votação dos projetos. O senador Jorge Viana (PT-AC) propôs que eles fossem discutidos logo e pediu “um entendimento de líderes” para pôr “em apreciação já, no plenário, essa matéria”.

Felizmente isso ainda não aconteceu e o presidente do PT, Rui Falcão, dissociou o partido da iniciativa, contrariando a doutrina dos autores da Lei de Segurança da ditadura.

Enquanto o Senado teve um surto de histeria, veio do secretário de segurança do Rio uma proposta que racionaliza o debate. Em vez de criar fantasmas, é um texto básico que trata de coisas elementares. Proíbe mascarados, muda alguns dispositivos do Código Penal e repete leis já existentes. Fica faltando na proposta de Beltrame algo que responsabilize sua polícia por agressões a manifestantes. Por exemplo: jogar gás de pimenta nos outros como se os seus PMs fossem propagandistas de perfume. Nunca será demais lembrar que o governador Sérgio Cabral não mexeu nas tarifas dos transportes sob sua jurisdição.


Perigoso retrocesso

Raul Velloso
O Estado de S. Paulo

A segurança regulatória e a consequente atratividade do modelo de concessões públicas não podem ser postas em risco com quebras de contratos

Países que adotam um modelo econômico voltado para o consumo têm um duplo desafio. Primeiro, superar a carência de poupança, já que consumir é o mesmo que não poupar. Sem poupança, não há investimento; sem este, não há crescimento nem aumento de produtividade. O segundo desafio é criar um ambiente favorável para o investimento, pois não basta aumentar o consumo para o investimento acontecer.

Parte do problema se resolve pelo aumento das importações e da poupança externa que vem junto. O continuado aumento do consumo leva ao encarecimento relativo dos produtos não comercializáveis com o exterior, especialmente serviços, relativamente aos demais, basicamente industrializados, já que, não tendo como importar os primeiros, fica impossível aumentar sua oferta sem expandir a rígida produção interna. Já no caso dos demais bens, a oferta é flexível, por ser possível a importação, e os preços em dólares são determinados basicamente fora do país.

Essa mudança de preços relativos equivale a uma apreciação real da taxa de câmbio e leva ao aumento das importações dos industrializados, desde que inexista restrição relevante de financiamento. Assim, aumenta a competitividade dos não comercializáveis, que passam a atrair mão de obra e capital dos demais setores da economia.

Resta saber se maiores investimentos efetivamente ocorrem nesse setor, sob pena de forte subida dos preços internos, pois não há como importar substitutos próximos. Sem essa mobilização, impor-se-ia uma trava relevante ao funcionamento da economia.

Num mundo inundado de liquidez, havendo projetos rentáveis e boa vontade com os investidores privados, o dinheiro aparece. Maior volume de recursos ingressará no País, a não ser que o governo, pressionado pelo setor industrial, crie barreiras à entrada de dólares na economia, a fim de impedir uma maior apreciação do real.

Um problema fundamental é que, exatamente no segmento crítico dos serviços de transportes, os investimentos dependem basicamente do setor público, que: 1) desaprendeu a investir nos últimos anos, por ter passado a concentrar seus recursos em gastos correntes – uma das pernas do modelo pró-consumo; e 2) por seus atos, revela um forte viés antiprivado, o que se choca com a constatação anterior.

Assim, a resposta dos não comercializáveis tem estado abaixo das expectativas. Para completar, o governo tem priorizado a indústria com desonerações tributárias, crédito subsidiado, congelamento de preços críticos como energia elétrica e petróleo, etc., para compensar a perda de competitividade, que na verdade tem muito a ver com o modelo consumista. Tudo isso acaba desaguando no Orçamento e interferindo de forma nociva em segmentos importantes em que predominam concessões públicas. O pior é que tanto a produção industrial como a relação investimento/PIB estão estagnadas desde 2009, mostrando que há muito o que consertar nas políticas atuais.

Nesse contexto, a ausência do reajuste de tarifas e pedágios que os prefeitos e governadores de São Paulo e do Rio, além do governo federal, decretaram em 2013, em reação às manifestações, foi uma lástima. Em vez de enfrentar o problema de frente, as autoridades optaram, na prática, por descumprir os contratos de concessão, afugentando os investidores.

No ambiente conturbado da época, as empresas foram induzidas a aceitar uma compensação parcial dos prejuízos, como, por exemplo, a suspensão de certos investimentos importantes, algo que pode eventualmente pôr em risco a própria integridade física dos usuários. Isso levou a uma forte reação negativa dos investidores, especialmente dos externos, que se consideraram lesados nesse confuso processo.

A segurança regulatória e a consequente atratividade do modelo de concessões públicas não podem ser postas em risco com quebras de contratos e o uso da criatividade em soluções de reequilíbrio para atender a interesses políticos. A repetição de procedimentos lamentáveis como estes contribuirá para atrasar a retomada do crescimento do PIB e do emprego.

Se Dilma não fosse Dilma

Percival Puggina

Ao se desligar do programa "Mais Médicos", a doutora Ramona Matos Rodriguez abriu a caixa de Pandora desse suspeitíssimo convênio firmado entre o governo brasileiro e a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) para locação de médicos cubanos. 

Ramona exibiu à imprensa cópia do seu contrato com uma certa sociedade anônima "Comercializadora de Serviços Médicos" e informou que dos 10 mil reais por cabeça, pagos pelo Brasil, ela só recebia o equivalente a mil reais no câmbio atual. Ou seja, confirmou ganhar apenas aqueles 10% que eu, desde o início das tratativas para vinda dos médicos, afirmei que constituíam o padrão para contratos desse tipo na Castro & Castro Ltda. - antigamente conhecida como ilha de Cuba - empresa familiar com sede e foro na cidade de Havana. E ainda há quem ouse se referir a tais negociatas como evidências da "admirável solidariedade" da Cuba comunista para com os necessitados do mundo. Vê se eu posso! 

Em torno de dona Ramona se formou a primeira das encrencas que haverão de cercar esse convênio nascido nas confabulações do Foro de São Paulo (aquela supranacional esquerdista que a imprensa brasileira faz questão de solenemente desconhecer). Muitas outras encrencas virão porque tudo que é mal feito em algum momento cobra conserto. 

O problema é que Dilma, apesar de seus 40 ministros, não tem um ministério nem dirige um governo. Ela preside um clube, destinado ao lazer dos sócios, vale dizer, dos partidos políticos que compõem sua base de sustentação. 

Tivesse ela um bom ministro do Trabalho, este lhe diria que a situação dos cubanos é totalmente irregular perante a legislação brasileira (a doutora Ramona já anuncia que vai buscar na Justiça do Trabalho o que lhe é devido pelo Brasil). 

Tivesse ela um bom ministro da Saúde, ele a advertiria sobre a deficiente formação média dos profissionais médicos formados em Cuba. 

Tivesse ela um bom ministro da Defesa, ele haveria de alertá-la para os riscos decorrentes da importação, em larga escala, de agentes enviados por um país que, desde 1959, se caracteriza por infiltrar e subsidiar guerrilheiros no resto do mundo. 

Tivesse, Dilma, uma boa ministra de Direitos Humanos, menos fascinada por ideologia e mais pela humanidade, esta iria às últimas consequências para impedir que o Brasil protagonizasse escancarado ato de escravidão, trazendo os cubanos sob as condições postas por Havana. 

Tivesse Dilma um bom ministro da Fazenda, ele certamente lhe demonstraria o quanto é abusivo pagar um overhead de 900% em relação a cada profissional enviado pelos Castro. 

Tivesse ela um bom ministro da Economia, este abriria um berreiro para mostrar que a contabilidade desse convênio é altamente prejudicial ao interesse nacional diante da desproporção entre o valor do serviço prestado no Brasil e o montante enviado para a matriz cubana. 

Tivesse Dilma um bom ministro da Justiça, ele ficaria de cabelos em pé diante do atropelo que esse contrato produz nos mais comezinhos princípios de Justiça e na legislação nacional. 

Tivesse Dilma um bom ministro da Previdência Social, ele mostraria ser líquido e certo o caráter regressivo ao governo de qualquer ação dos médicos cubanos em busca de seus direitos previdenciários porque o patrão de fato desses profissionais é o governo brasileiro. 

Tivesse Dilma um bom ministro de Relações Exteriores, ele lhe mostraria o quanto resulta negativo à imagem do Brasil o conhecimento internacional das bases em que o país firmou esse convênio. 

Mas Dilma preside um clube. E se o clube está nem aí para suas verdadeiras ocupações, menos ainda haverá de estar para quaisquer preocupações. O clube, afinal, gosta mesmo é de festa e grana. 

Se Dilma não fosse Dilma e tivesse um bom ministério, se estivesse ocupada em solucionar problemas estruturais em vez de ficar quebrando galhos e agradando parceiros, ela teria atendido à reivindicação dos médicos brasileiros. Há muito tempo eles pedem uma carreira atrativa no serviço público, à exemplo de outras que iniciam em postos remotos e, gradualmente, promovem seus integrantes para centros maiores. Mas Dilma é apenas Dilma. 

É difícil dar certo

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

1 - Alguns milhares de manifestantes do Movimento dos Trabalhadores sem Terra, MST, ocuparam na quarta-feira a Praça dos Três Poderes, em Brasília. Ameaçaram invadir o Supremo Tribunal Federal e o Congresso; pouparam, sabe-se lá por que, o Palácio do Planalto. Entraram em confronto com a PM e feriram 30 soldados. Serão processados? Nada disso! Na quinta, a presidente Dilma fez questão de recebê-los em palácio, na companhia, claro, de seu ministro Gilberto Carvalho, e ainda ganhou um presente: uma cestinha de produtos agrícolas.

2 - O jornal O Estado de S.Paulo teve acesso à sindicância do Itamaraty para "investigar a conduta" do diplomata Eduardo Sabóia, que libertou o asilado boliviano Roger Pinto Molina, confinado havia 15 meses na nossa Embaixada em La Paz, e o trouxe ao Brasil. As informações da sindicância são tão vergonhosas, tão inacreditáveis, que o Estado as confirmou com quatro fontes diferentes, antes de publicá-las: o Brasil articulou com o presidente boliviano Evo Morales e seus aliados do continente um jeitinho de tirar Roger Pinto da Embaixada e levá-lo num avião venezuelano para Caracas ou Nicarágua. O asilado se comprometeria a aceitar a retirada sem ser informado do local para onde iria. Como não é maluco, recusou a proposta indecente. E logo Chávez morreu, fazendo gorar o plano. 

3 - Voltando ao ministro Gilberto Carvalho: em 9 de dezembro último, prometeu processar o delegado Romeu Tuma Jr. pelo livro Assassinato de Reputações. Tuma Jr. prometeu provar as acusações. E até hoje o processo não saiu.

É difícil dar certo - Petrobras
A notícia acaba de ser divulgada pelo Ministério Público holandês: em depoimento oficial, um ex-funcionário da SBM Offshore, locadora de plataformas petrolíferas, disse que a empresa pagou US$ 139 milhões, entre 2005 e 2011, a intermediários e funcionários da Petrobras, para obter encomendas (hoje, segundo o jornal Valor, os contratos somam US$ 23 bilhões). A SBM é investigada não só na Holanda, mas também no Reino Unido e nos EUA, sempre por suborno. No período citado, o presidente da Petrobras era José Sérgio Gabrielli (2005 a 2012). Hoje, Gabrielli é secretário do Planejamento da Bahia, no Governo do petista Jaques Wagner. 

A Petrobras informou que não vai comentar o assunto

É difícil dar certo - inexplicável
José Guilherme da Silva, 20 anos, foi preso por assalto em Limeira, SP. Antes de ser colocado no camburão, foi revistado e algemado com as mãos para trás. Entrou desarmado e imobilizado no carro policial, sob as vistas de umas 30 testemunhas. Morreu com um tiro na cabeça, disparado de cima para baixo. Segundo os PMs que o conduziam, o rapaz algemado com as mãos nas costas arrumou em algum lugar um revólver calibre 38 e atirou na própria cabeça. O cano da arma, revelam os exames de balística, estava 50 cm acima de sua cabeça. Segundo o perito, "é sabido nos meios policiais tanto sobre a habilidade de movimento de alguns detidos, bem como sua condição pessoal de burlar a revista". Só faltou acusarem o detento de ter dado também algumas punhaladas nas próprias costas.

Se era culpado ou não, não importa: estava preso, imobilizado, indefeso. Imagina-se que os PMs que o prenderam saibam revistar uma pessoa. E saibam impedir que um preso algemado com as mãos nas costas consiga mover-se com toda a liberdade. Mas, por incrível que pareça, há ainda algo pior nesta notícia: a morte ocorreu em 14 de setembro de 2013. 

Até hoje o inquérito não está pronto.

O caminho das pedras
Identificar e prender os dois acusados do assassínio do repórter Santiago Ilídio Andrade foi rápido: bastou examinar gravações e fotos de ambos quando manipulavam o rojão que atingiu a vítima. Mas abriu-se, agora, um caminho promissor, no sentido de encontrar a raiz da violência e seus articuladores: tanto o advogado dos dois acusados quanto a porta-voz informal de ambos, Elisa Quadros Sanzi, Sininho (ou, como ela se assina, Cininho), mencionam pagamentos aos jovens dispostos a promover quebra-quebras. Como dizia Garganta Profunda, fonte principal dos repórteres Carl Bernstein e Bob Woodward, que expuseram o escândalo Watergate, "follow the money" - sigam o dinheiro. 

Não há grande segredo a desvendar: em suas páginas no Facebook, os cavalheiros falam abertamente de pagamentos. E já existem (embora ainda sem confirmação) listas de contribuintes dos black blocs, que envolvem de políticos a um juiz de Direito.

Seguindo as pistas 
E, além de seguir o dinheiro, há dois outros caminhos abertos à investigação:

1 - Responder "a quem aproveita o crime". Quem ganha com os black blocs nas ruas - e ganha tanto que investe recursos para que destruam bens dos outros?

2 - Seguir as pistas da reveladora reportagem Por dentro da máscara dos black blocs, de Leonel Rocha, revista Época, capa de 15 de novembro de 2013. 

O repórter esteve no sítio de treinamento do grupo, a 50 km de São Paulo, e conversou amplamente sobre pessoas e entidades que financiam o vandalismo.

É difícil dar certo - Brasília
O estudo é da Cornell University, EUA: o Brasil tinha 21 ministérios em 2002. Em 2013, já estava com 39. Os Estados Unidos têm 15 ministérios.

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

Entre caras de pau e pessimistas

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

Dentro do governo, dizem que a presidente sabe que seu modelo não funcionou e vai mudar. Mas não vai reconhecer isso

Janet Yellen não cai na categoria “cara de pau”, mas não escapa do grupo dos “pessimistas do fim do mundo” — conforme a classificação feita pela presidente Dilma na festa do PT na última segunda. Presidente do Fed, o banco central dos EUA, Yellen colocou o Brasil entre os cinco emergentes mais frágeis neste processo de mudança do cenário global. Mas não se meteu em política interna brasileira, nem sugeriu mudanças.

A categoria “cara de pau” se aplica mais a brasileiros, diretamente a políticos e especificamente ao governador de Pernambuco e pré-candidato a presidente, Eduardo Campos. Foi ele quem disse: o velho pacto político do PT já mofou e está na hora de o Brasil iniciar um novo ciclo.

Também é “cara de pau” o empresário Pedro Passos, sócio da Natura, que deu entrevista dizendo com todas as letras: “É preciso reconhecer que o modelo se esgotou e que precisamos lançar outro.” Mas Passos está associado a Marina Silva e, portanto, é classificado como “eleitoreiro”.

A categoria “cara de pau”, portanto, tem um propósito politico, enquanto a dos “pessimistas do fim do mundo” se aplica mais a economistas em geral, nacionais e estrangeiros. Caem nela todos aqueles que apontam desequilíbrios crescentes no Brasil.

Mas “cara de pau” cabe também a muitos economistas que, embora sem anunciar fim do ciclo político, entendem que, sim, um ciclo de política econômica terminou e é preciso fazer reformas profundas para sair da armadilha do baixo crescimento.

Delfim Netto, por exemplo, embora amigo do Planalto e embora faça questão de ressalvar que o Brasil está longe do fim do mundo, acaba classificado entre “cara de pau” e “pessimista”. Pode ser embaraçoso, mas é ali que o coloca a tese exposta em recente artigo para o “Valor”. A tese: estamos num fim de ciclo na economia mundial e especialmente para os emergentes, isso apanhando o Brasil com três desequilíbrios importantes e crescentes, a saber, dívida pública elevada, inflação alta e persistente e déficit nas contas externas “longe de ser saudável”.

Ora, esses são justamente os três fundamentos macroeconômicos que Dilma considera “sólidos”, de uma solidez tão evidente que só não vê quem é cara de pau ou quer jogar o Brasil no fim do mundo. O ataque se dirige, claro, aos economistas considerados de oposição militante, mas atinge mesmo aqueles que estão longe da hostilidade ao governo Dilma e até acreditaram que ele poderia ter êxito.

Yoshiaki Nakano, por exemplo, também escreveu no “Valor” que se esgotou o ciclo da bonança externa (que propiciou o salto nas exportações de primários), que essa bonança não foi bem aproveitada — muito consumo e pouco investimento — e que, logo, já está passando a hora de “vigorosas reformas”.

E para não ficar apenas nos nacionais, acrescente-se aos “pessimistas do fim do mundo” o americano Dani Rodrik, que é, por assim dizer, um amigo dos emergentes. Pois ele está dizendo que os emergentes, depois de terem sido empurrados montanha-russa acima, estão na iminência da descida. E o Brasil está no primeiro banco.

O chamado mercado diz a mesma coisa a seu jeito: a bolsa brasileira foi a que mais caiu entre os emergentes, o risco Brasil subiu e o real desvalorizou.

O leitor e a leitora podem encontrar muitos outros exemplos pelo noticiário local e internacional. Perceberão que o número de pessimistas e caras de pau é crescente. E que, no exterior, a má vontade em relação ao Brasil é maior do que sugerem os fatos.

Na verdade, é exagerado dizer que o Brasil é o segundo pior dos emergentes, ficando apenas atrás da Turquia. A macroeconomia e a política mostram que o Brasil está menos vulnerável que Índia e África do Sul, para ficar nos Brics, e sequer se compara aos desastres de Argentina e Venezuela.

Mais importante: graças ao consistente arcabouço de macroeconomia construído desde a introdução do real, o governo brasileiro tem instrumentos mais eficientes para agir e corrigir os desequilíbrios. O pessoal reconhece isso. Não está aí a má vontade. Está em outro lado: caras de pau e pessimistas desconfiam que Dilma, cuja administração enfraqueceu os fundamentos, não vai reconhecer erros e fazer mudanças.

Dentro do governo, alguns dizem que a presidente sabe que seu modelo não funcionou e vai mudar. Mas não vai reconhecer isso.

Aí fica difícil, não é mesmo? Política é confiança. Sem direção clara, o pessoal não embarca. Aliás, para Dilma, os críticos embarcaram, mas foi para o fim do mundo e “isso faz tempo". Parece que só ela está no começo dos tempos. Começo de quê?


Populismo energético virou-se contra feiticeira

Josias de Souza




O vídeo acima exibe pronunciamento de Dilma Rousseff levado ao ar em 23 de janeiro de 2013. Em cadeia nacional de rádio e tevê, ela anunciou “uma forte redução na conta de luz de todos os brasileiros”. E despejou sobre o tapete da sala dos telespectadores uma mensagem de otimismo e confiança: “As perspectivas são as melhores possíveis.”

Vale a pena ouvir novamente essa Dilma de um ano atrás: “O Brasil vai ter energia cada vez melhor e mais barata, significa que o Brasil tem e terá energia mais que suficiente para o presente e para o futuro, sem nenhum risco de racionamento ou de qualquer tipo de estrangulamento no curto, no médio ou no longo prazo.”

Nos últimos dias, o feitiço do populismo energético virou-se contra a feiticeira. Deus, como se sabe, é brasileiro. Mas quem acorda cedo para acender as caldeiras do mundo é São Pedro. E ele resolveu transformar o Brasil numa espécie de sauna seca. A falta de chuvas esvazia os reservatórios das hidrelétricas. O calor eleva o consumo de energia. Com o estímulo de Dilma, essa elevação bate recordes.

Na segunda-feira da semana passada (3), o ministro Edson Lobão veio à boca do palco para tranquilizar a clientela: “Posso dizer que a situação hoje é muito melhor do que foi o ano passado. Nós estamos com mais de 40% dos principais reservatórios. Não enxergamos nenhum risco de desabastecimento de energia no país. Nenhum risco. Risco zero.” No dia seguinte, um apagão desligou da tomada o Distrito Federal e mais 13 Estados. Além dos apagões, proliferam os “apaguinhos“.

Nas últimas 48 horas, o discurso do governo migrou do “risco zero” para o veja bem… “Não existe [risco] zero quando você trata de probabilidade e nem nunca se projetou um sistema para ser zero”, disse Márcio Zimmermman, o número dois da pasta de Minas e Energia, ao chegar para uma solenidade na Agência Nacional Energia nesta sexta-feira (14).

Presente à mesma solenidade, Lobão dessa vez falou sobre a solidez do sistema elétrico como quem dirige aos céus uma prece. “Desabastecimento é o que esperamos que jamais ocorra. Essa é minha crença, é a minha fé.” Quanto ao apagão da semana passada, ele contornou o problema chamando papagaio de meu loro. “Aquilo que houve não chamo de apagão. Isso é um neologismo. Eu chamo de interrupção temporária de energia.”

Na quinta-feira (12), o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), que funciona na pasta de Lobão, já havia escorado suas previsões nos humores de São Pedro. Em avaliação escrita, o órgão sustentara que está garantido o provimento da energia necessária para iluminar 2014. Mas, pela primeira vez, admitiu que há uma “baixíssima” probabilidade de faltar luz caso “ocorra uma série de vazões pior do que as já registradas.” No português do asfalto: se não chover bastante, babau.

Naquele pronunciamento de janeiro do ano passado, Dilma jactara-se: “Somos agora um dos poucos países que está, ao mesmo tempo, baixando o custo da energia e aumentando sua produção elétrica.” Ela enfileirou índices róseos:

“…A conta de luz, neste ano de 2013, vai baixar 18% para o consumidor doméstico e até 32% para a indústria, a agricultura, o comércio e serviços. Ao mesmo tempo, com a entrada em operação de novas usinas e linhas de transmissão, vamos aumentar em mais de 7% nossa produção de energia, e ela irá crescer ainda mais nos próximos anos.”

Os fatos atrapalharam o discurso. Em dezembro de 2013, 62% das obras destinadas a elevar a geração de energia estavam com atraso médio de 250 dias. Apenas 29% das obras da área de transmissão de energia estavam com o cronograma em dia. Das subestações em construção, só 26% encontravam-se dentro do prazo.

Agora, Lobão avisa que a rapadura de que falava Dilma é doce, mas é dura: “Se tivermos que ter uma sobra de energia elétrica para garantir uma segurança ainda maior do que temos hoje, e a que temos hoje é grande, é sólida, teremos que pagar por isso. Se 126 megawatts nos bastam hoje, uma segurança maior seria termos 130, 150, 200. Quanto custaria isto? A quem? Ao consumidor. À sociedade brasileira.”

Não tem mistério. Mal comparando, o país funciona como um prédio hipertrofiado. Na pele de síndica, Dilma estimulou os condôminos a desperdiçarem luz elétrica e ainda prometeu baixar a taxa de administração do prédio. Agora, a oito meses da assembleia em que os moradores decidirão se vale a pena reelegê-la, a síndica não tem coragem de regular o interruptor.

As distribuidoras que eletrificam o grande prédio Brasil compravam energia nos leilões do governo. Com a explosão do consumo, viram-se compelidas a recorrer ao mercado livre, que vende energia térmica —mais suja e mais cara. O preço deu um salto: o megawatt/hora custava menos de R$ 250 no início do ano. Na semana passada, era vendido a R$ 822.

Em condições normais, a diferença seria repassada à conta de luz. Como a palavra da síndica não pode ser quebrada antes da assembleia em que ela pleiteará a reeleição, abre-se um buraco na escrituração das distribuidoras de energia. Para tapar o rombo, o prédio entra, por assim dizer, no cheque especial.

No ano passado, o Tesouro Nacional repassou às distribuidoras de energia a bagatela de R$ 7,8 bilhões. Para esse ano, reservaram-se mais R$ 9 bilhões. Descobriu-se que é pouco. A estimava atual é de que a conta pode passar dos R$ 20 bilhões. A síndica determinou a Guido Mantega, o contador do prédio, que se vire para cobrir o rombo sem mexer na conta de luz.

Na próxima quinta-feira (20), Mantega precisa divulgar para todo o condomínio a previsão de superávit fiscal, que é a economia que o prédio faz para amortizar pelo menos os juros de sua dívida. No ano passado, essa economia foi mixuruca: 1,9% do PIB. O contador precisa produzir uma meta de superávit maior. Um desafio que o buraco energético torna mais difícil de atingir.

Ao ler o pronunciamento do ano passado, Dilma equilibrava sobre o nariz um par de óculos invisíveis, com lentes cor-de-rosa: “Estamos vendo como erraram os que diziam, meses atrás, que não iríamos conseguir baixar os juros nem o custo da energia, e que tentavam amedrontar nosso povo…Os juros caíram como nunca.”

Hoje, os juros voltaram aos dois dígitos. E a mágica da conta de luz é desfeita nos desembolsos do Tesouro. Cedo ou tarde, a tarifa vai ter que subir. Não sobe agora porque provocaria sobressaltos instantâneos nos índices de inflação. E a síndica não pode irritar os moradores do prédio antes da assembleia geral de outubro.

A situação atual é a seguinte: metade dos condôminos está nervosa porque a síndica diz que o sistema elétrico do prédio está sob controle mas sabe que ela está mentindo e que o edifício estaria às escuras se o PIB não fosse ridículo e a indústria não definhasse. A outra metade está nervosa porque a síndica diz que está tudo sob controle e sabe que ela acredita mesmo nessa lorota. E a síndica está nervosa porque não sabe se faz diz que tem um ‘Plano B’ que não fez ou se faz o ‘Plano B’ e não diz. E vice-versa.

Diante de um quadro como esse não resta senão acender uma vela para São Pedro e rezar para que ele acorde de bom humor, mande apagar o Sol e derrame uma boa quantidade de chuva.

Muito ruim a prévia do PIB

O Estado de S.Paulo

O mau desempenho da economia brasileira no ano passado, já denunciado pelos dados muito ruins da indústria e do emprego industrial e pelos últimos números do consumo, é confirmado por mais um indicador calculado por um órgão de governo. A produção encolheu 0,17% do segundo para o terceiro trimestre e 1,35% de novembro para dezembro, segundo o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), considerado uma prévia imperfeita, mas útil, do Produto Interno Bruto (PIB). De janeiro a dezembro houve crescimento de 2,57%, segundo a série livre de fatores sazonais, e de 2,52%, de acordo com as informações registradas sem depuração. Qualquer desses dois números aponta mais um ano de resultados medíocres, o terceiro consecutivo. O PIB cresceu apenas 2,7% em 2011 e 1% em 2012. O número oficial de 2013 deve ser anunciado no fim do mês pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pelas estimativas do mercado financeiro e de consultorias independentes, muito dificilmente será mais animador que o IBC-Br.

Não há discriminação de setores na tabela desse indicador, mas a fraqueza da economia, já se sabe, é explicável, principalmente, pelas más condições da indústria, especialmente do segmento de transformação, pelo baixo nível de investimento e por uma ampla coleção de ineficiências. O crescimento da indústria geral, 1,2% segundo já informou o IBGE, nem sequer bastou para o setor se recuperar da queda de 2,5% no ano anterior.

Pela estimativa do BC, a atividade econômica diminuiu em dois trimestres consecutivos: 0,21% do segundo para o terceiro e 0,17% do terceiro para o quarto. Reduções em dois trimestres seguidos configuram tecnicamente uma recessão. Mas é cedo para usar essa palavra, embora a segunda metade do ano tenha sido indiscutivelmente muito ruim. Mas só os dados do IBGE poderão confirmar ou desmentir um cenário tecnicamente recessivo. Parte da informação necessária já é conhecida. No período de julho a setembro o PIB foi 0,5% menor que nos três meses anteriores. Falta ainda conhecer a estimativa do PIB entre outubro e dezembro.

Para o planejamento empresarial faz pouca diferença, nesta altura, o reconhecimento de uma recessão na segunda metade do ano passado. Tampouco fará diferença o registro oficial de um modesto crescimento do PIB nos três meses finais. De toda forma, o período foi desastroso para a maior parte da indústria, inegavelmente, e quem sobreviveu deve cuidar de outros assuntos para alcançar maior expansão e maior segurança neste ano e nos próximos.

Essa tarefa será especialmente complicada, se o governo insistir nas políticas seguidas nos últimos três anos e der prioridade - como geralmente se espera - às conveniências eleitorais. Um maior dinamismo econômico seria muito conveniente para as pretensões políticas da presidente, mas o empresariado precisa de mais confiança para investir e assumir riscos maiores. Mas a equipe de governo tem mostrado, até agora, pouca disposição para mudar o repertório de políticas.

Completadas as duas primeiras semanas de fevereiro, o Executivo nem sequer anunciou sua meta fiscal para este ano. O compromisso em relação às contas públicas tem de ser ao mesmo tempo crível e realizável sem muita dificuldade, para atender às conveniências eleitorais da presidente. De toda forma, seria precipitado imaginar um ano de austeridade fiscal, com redução da gastança.

O BC, tudo indica, deve continuar sendo o responsável principal - talvez o único - pelo combate à inflação. A contenção dos preços dependerá, portanto, principalmente dos juros. O acesso ao crédito de longo prazo continuará difícil para a maior parte das empresas no País, e mais escasso no exterior.

O câmbio um pouco mais depreciado e pressões salariais mais brandas poderão dar algum oxigênio às indústrias, mas outros custos, como o da energia, poderão pesar nas contas. Se os investimentos em infraestrutura deslancharem, as perspectivas ficarão melhores, mas os bons efeitos só deverão surgir nos próximos anos. É difícil, hoje, apostar em resultados muito melhores que os de 2013.

Travessia possível

Míriam Leitão  
O Globo

Pelo Banco Central, o país está em leve recessão. Ontem foi divulgado o IBC-Br negativo pelo segundo trimestre consecutivo. Mas a estimativa do BC pode não ser confirmada pelo IBGE. Vários analistas esperam crescimento, ainda que baixo, no quatro trimestre, e isso evita a feia palavra: “recessão”. Mesmo assim, o risco não está afastado. As projeções do PIB de 2014 estão menores.

O Itaú Unibanco acha que o IBGE divulgará, dia 27, que o Brasil cresceu 0,4% no último trimestre. Se isso acontecer, não será recessão, porque ela é considerada após dois trimestres negativos. O economista José Márcio Camargo, da Opus Gestão de Recursos, tem outra visão. Acha que há um risco de ter havido encolhimento no último trimestre do ano passado.

— Minha projeção está próxima de zero e há uma margem de erro que pode levar a taxa para o negativo — explicou.

Na agricultura, mesmo com alguma quebra de safra, o país terá uma boa produção de grãos. É o que disse, em vídeo divulgado aos clientes, o economista Alexandre Mendonça de Barros, da MBAgro. Apesar de o país ter sido castigado por um fenômeno climático muito forte — um calor que chegou a oito ou nove graus acima da época — a colheita de grãos será boa. Mas ele acredita que no segundo semestre haverá uma pressão maior nos preços de alguns alimentos.

A volta da chuva não afasta as sombras sobre o quadro energético, porque elas foram formadas pela soma de erros gerenciais, falhas no modelo e uma estação chuvosa anormal. O mais sensato seria o governo iniciar imediatamente um programa de racionalização de energia. O tema deveria sair do palanque, mas é mais provável que a presidente Dilma continue negando a existência do problema e empurrando o ajuste para 2015.

O Itaú Unibanco divulgou a nova previsão de crescimento para 2014: de 1,9% para 1,4%. Os economistas do banco projetam um dado positivo de 0,4% para o PIB do quarto trimestre, mas zero no PIB do primeiro trimestre. Haverá dados de confundir os não economistas. A indústria pode ter uma recuperação, mas o que eles chamam de “carrego estatístico" vai puxar o número do PIB para baixo. Será preciso crescer o suficiente para anular a queda de dezembro, para então, estatisticamente, haver alta do PIB.

E por que haveria crescimento da indústria num ano fraco, com confiança empresarial diminuindo? É que a queda de 3,5% de dezembro foi, em parte, decorrência dos estoques elevados. A indústria deu férias coletivas e vendeu os estoques. Precisará agora renová-los. Um fato negativo virá da Argentina. A crise cambial dos vizinhos vai reduzir a produção que seria exportada para lá.

Camargo tem uma projeção ainda pior para o PIB de 2014: 1%. Ele explica que há muita incerteza na política econômica para este e o próximo ano:

— Os investimentos estão se retraindo. Os problemas no setor elétrico retraem os investimentos porque pode não haver energia ou ela ficar muito cara. Os juros estão em alta e a inflação permanece elevada.

O ano não será fácil, mas não será tão ruim quanto os que se assustam com a instalação do Brasil na incômoda lista dos “mais frágeis”, feita até pela nova presidente do Fed. O Brasil tem reservas, é credor externo líquido, terá superávit comercial, ainda que pequeno. Tem armas para cumprir a travessia pela qual passa a economia internacional que reduz o interesse dos investidores pelos países emergentes. Não estaríamos em situação difícil se o governo tivesse ouvido os que apontaram os erros na política econômica. Mas o governo preferiu politizar o que deveria ser encarado de forma objetiva e técnica.

O perigo de que nos roubem a rua

Juan Arias
El País

Nenhum presente é melhor para os que guardam sonhos autoritários do que gerar o medo de se manifestar

Um perigo paira sobre a democracia deste país após a morte violenta e covarde do jornalista Santiago Andrade: o de que possam roubar a rua e a liberdade de se manifestar nela dos cidadãos que pretendem reivindicar pacificamente melhores condições de vida.

Engendrar o medo de sair à rua é um tópico de todos os ditadores que preferem ver as pessoas presas em suas casas, vendo de maneira passiva a televisão. Nenhum presente melhor para os que guardam sonhos autoritários do que gerar medo de que as pessoas se manifestem alegando que é perigoso sair para protestar porque isso se revestiu de violência.

O fato de que a presidenta Dilma Rousseff decida desistir, segundo aFolha de São Paulo, de participar da abertura do estádio Amazônia em Manaus “por medo de possíveis manifestações” contra ela, motivadas pela Copa, ou de que não vá encontrar com os 12 governadores dos Estados que receberão as partidas da Copa do Mundo para discutir medidas de segurança, é um fato grave e alarmante. Como o é que jornalistas profissionais de diferentes meios se vejam obrigados a esconder sua identidade por medo de serem agredidos pelos grupos violentos, algo que não ocorre nem nas guerras onde há leis internacionais que protegem e vigiam para que eles possam trabalhar em liberdade.

Se o fruto da morte de Andrade, no lugar de abrir com seu sacrifício novos espaços de liberdade, é impedir que os cidadãos pacíficos possam sair de novo à rua, sem medo, para reivindicar melhores condições de vida, estaríamos cultivando germens para tentações ditatoriais.

Não há melhor sonho para o poder que ter encontrado a chave, através do medo, para pôr fim neste país às manifestações democráticas. Seria a maior ofensa aos centenas de milhares de cidadãos que em junho passado tomaram a rua para reivindicar seus direitos de maneira pacífica.

Se a morte do jornalista servisse como estopim para impedir que, motivadas pela Copa do Mundo, possam acontecer novas manifestações em massa, estaríamos ante a pior das tragédias e manipulações.

O medo das ruas, os toques de recolher, os abusos policiais, o medo infundido nos cidadãos para que se fechem em suas casas, é o fermento que faz fermentar todas as ditaduras.

Foi um só tiro o que provocou a Primeira Guerra Mundial. E pode ser às vezes o simples estopim de um foguete que arranca a vida de um jornalista o que acabe frustrando os anseios de liberdade de uma sociedade como a brasileira, que se orgulha de ser uma das democracias mais consolidadas dos países emergentes.

Medo das ruas e batalha aberta ou germinal contra os meios de comunicação que acabam sendo fechados ou censurados pelos ditadores da vez costumam ser sempre o presságio de sombrios autoritarismos.

Em outros países do mundo, a ação violenta dos Black Bloc foi neutralizada pelas forças da ordem convenientemente treinadas, sem que consigam impedir as manifestações pacíficas.

Se no Brasil estes grupos violentos continuam atuando sem que o Governo seja capaz de lhes frear e lhes neutralizar, até o ponto de impedir aos cidadãos verdadeiramente democráticos exercer seu direito de ocupar a rua para gritar seus anseios de liberdade e suas justas reivindicações, poderia ser aberta a suspeita de que essa situação acaba servindo ao poder.

Tudo o que seja incitar a ira dos cidadãos contra os meios de comunicação lhes acusando de exercer com liberdade seu direito de crítica ao poder, ou deixar livres aos violentos como muro eficaz para que a gente tema sair de novo à rua, seria a melhor demonstração de que está em curso uma involução autoritária que poderia acarretar graves prejuízos à imagem do país dentro e fora dele.

Já vivi em minha carne, durante a ditadura franquista da Espanha, a afronta de ter que sofrer que um censor do regime decidisse gratuitamente se publicaria minhas crônicas ou se as mutilaria a seu desejo.

Já vivi não o medo, senão o terror de sair à rua para protestar pacificamente durante tal ditadura, onde as manifestações se pagavam com a tortura e a morte.

Brasil é um país que deixou para trás a ditadura militar para dar lugar a uma democracia real que os cidadãos desfrutam há quase 30 anos. E todas as vezes que nestes anos a gente saiu em massa à rua foi para fortalecer os valores democráticos.

Impedir agora as manifestações, seja pelos grupos violentos ou pelo desejo subliminal do poder de evitar protestos que prefeririam ver emudecidos, seria assassinar duas vezes o jornalista, primeira vítima do dever sagrado de informar.

Nenhum antídoto melhor contra a barbárie e o autoritarismo que a informação livre de toda censura ou de qualquer outro controle por social que possa existir.

A presidenta Dilma Roussef pode ser criticada por muitas coisas, mas uma a honra sobretudo: sua postura intransigente contra o controle dos meios de comunicação. Em seus já quase quatro anos de governo foi firme na sua promessa realizada durante seu discurso de tomada de posse: “Prefiro o ruído da imprensa livre ao silêncio das ditaduras”. Ela apoiou o clássico ditado que diz que na democracia é “melhor um mau jornal” que a ausência do mesmo.

O medo à informação, o acosso aos jornalistas deixados à própria sorte nas mãos dos violentos, poderia ser convertido em um bumerangue contra os que com isso pretendem se sentir mais seguros, menos vigiados e criticados.

Esse bumerangue já parece estar atuando, se é verdade que até a presidenta está com medo de aparecer em público para inaugurar um estádio de futebol.

Nada mais quebradiço, efetivamente, que uma democracia e nada mais difícil de derrotar que uma ditadura.
E quando em uma democracia, desde a máxima autoridade até aos simples cidadãos manifestam o medo de sair à rua, significa que as liberdades começam a ser amordaçadas de forma aberta ou dissimulada.

Daí o perigo de que possam roubar a rua dos cidadãos que amam a democracia e que neste país, felizmente, são a imensa maioria.

‘Cria cuervos que te sacarán los ojos’

Sandro Vaia
Blog do Noblat

Não é preciso ter visto o filme de Carlos Saura para entender o significado da célebre expressão espanhola.
O rojão na cabeça que matou o cinegrafista Santiago Andrade da TV Bandeirantes durante um distúrbio no Rio é o olho arrancado por um corvo criado, alimentado, paparicado e incentivado por boa parte do pensamento político que imagina construir uma sociedade perfeita cheia de fadas Sininho e de rios de leite e mel, onde a justiça social estará disponível nas prateleiras dos supermercados a preços de liquidação.

Não importa se o morteiro foi disparado por 150 reais. Há assassinatos mais baratos do que esse disponíveis no mercado. Importa é o caldo da cultura que criou assassinos-vítimas que aparecem com cara de Dr. Jeckyll nos seus gestos de confissão e arrependimento e são fotografados em ação no auge de sua monstruosa transfiguração de Mr. Hyde.

Se, além do curling, houvesse na olimpíada russa de inverno que transcorre em Sochi a modalidade de pisar em ovos, a imprensa, as autoridades, os políticos e o governo brasileiro criariam um escrete imbatível.

Pede-se uma lei contra o terrorismo, mas terrorismo não é. E se terrorismo for, como não enquadrar os não muito amigáveis manifestantes do MST, que ocuparam a praça dos Três Poderes, tentaram invadir o prédio do Supremo e entraram em combate com policiais militares?

Mas não se pode criminalizar os movimentos sociais, reza a cartilha do poder. Por isso, prudentemente o ministro da Justiça guardou em sua gaveta um ante-projeto do secretário de segurança do Rio, Mauro Beltrame, prevendo punições para manifestações violentas.

Como se não bastasse, representantes do pacífico MST, cujo líder José Pedro Stédile chamou o governo Dilma de “bundáo” em questões de reforma agrária uma semana antes, foram recebidos e afagados pela própria presidente, depois de ferir 30 policiais nos choques do dia anterior.

Mas se o movimento for contra a Copa do Mundo, não será mais movimento social, mas pode ser enquadrado como terrorismo, conforme um projeto de lei que está atravancado em alguma gaveta do Congresso Nacional.

A confusão conceitual se instalou na seara do politicamente correto, e os concorrentes da maratona de pisar em ovos, não sabem mais pra que lado atirar: os pobres meninos desamparados da periferia que atiram rojões a esmo são vítimas da sociedade ou da exploração de políticos inescrupulosos que pagam pela sua violência?

O diabo é que todos dizem querer uma sociedade mais justa e em nome disso são capazes de pregar e acreditar que a justiça está em desmoralizar o Poder Judiciário porque condenou correligionários por corrupção ou em escrever que o “superávit primário é uma invenção diabólica do capitalismo para explorar os povos”.

Quem cria esses corvos? E os olhos de quem eles comerão?

'O Ovo da Serpente'

Fernando Gabeira
O Estado de S.Paulo

O Ovo da Serpente é o nome de um filme de Ingmar Bergman que mostra os conflitos e a desordem que antecederam a ascensão do nazismo. Vivemos um momento complicado de violência, deboche, em que quase todos os conflitos degeneram em agressões, incêndios: a democracia não anda bem em nosso país. Ainda assim, acho inadequada a expressão ovo da serpente. Não vejo na conjuntura internacional uma brecha para regimes autoritários com o nível de inserção econômica e política do Brasil. Mesmo porque a visão de Bergman do ovo da serpente pode não ser a única para descrever a situação brasileira. Há serpentes e serpentes.

Se fosse atribuir o ovo a algum réptil, diria que o processo de conflitos está gestando uma iguana - uma situação esdrúxula em que todos podem sair perdendo, mesmo quem sonha em se aproveitar dela.

As mediações políticas acabaram. A democracia brasileira é um veículo sem o jogo de molas, que avança aos solavancos ameaçado pelo perigo de empacar. Carece de um lubrificante essencial: o diálogo. Os idos de junho aprofundaram o abismo entre os partidos políticos e a sociedade. Apesar da retórica populista, os políticos mergulharam no seu mundo, perdidos nas transações fisiológicas.

Renan Calheiros chegou aos limites do seu corpo implantando cabelos em Pernambuco. Mas foi o mais perto da realidade exterior que conseguiu aproximar-se. Os petistas decidiram questionar o Supremo de braços erguidos e o clima de desafio só tende a enfraquecer o edifício institucional.

Um cinegrafista da Band foi atingido por um desses foguetes de fogo de artifício. Atingido covardemente. O artefato tem uma vara e funciona mais ou menos como um míssil terra-ar. Ao dispará-lo rente ao chão, transforma-se num míssil terra-terra. Santiago morreu.

Com instrumentos disponíveis no mercado é possível fazer uma guerra urbana. Mas quem fere um cameraman se arrisca a ser ferido pelas próprias câmeras, que revelam vários ângulos do atentado. Como diria Garrincha, não combinaram com os russos. A televisão russa apresentou imagens que mostram claramente como aconteceu o incidente. Inúmeras outras câmeras cobriram o episódio, oferecendo detalhes. As próprias câmeras do Exército, pois o episódio aconteceu perto do Comando, devem ter registrado dados importantes.

Nunca na história das manifestações, violentas ou não, houve tanta câmera em ação, se contarmos também com os celulares. É possível desvendar tudo. Nesse sentido, é um passo democrático. Mas quase nunca se pune depois do fato desvendado. Isso é um atraso.

Não foi acidental a presença de uma equipe russa no centro do Rio. Nosso objetivo não era atrair a imprensa estrangeira para a gloriosa Copa do Mundo? Uma vez aqui, não podem ignorar as manifestações nem, por exemplo, o apagão e as dificuldades energéticas que vivemos. Claro, podem acreditar no discurso de Lobão, para quem vivemos no melhor dos mundos. Mesmo eles, com o tempo, acabarão percebendo que Lobão é apenas o Lobão.

As circunstâncias levam-nos a uma exposição em função da Copa, num momento confuso que dificilmente será equacionado pelas eleições. Estas podem agravá-lo. Muitos de seus temas desembocam na luta ideológica do século passado. Com o caso da médica cubana que rompeu com o Mais Médicos.

O pensamento mais clássico de esquerda considera natural que alguém financiado retribua o investimento social feito nele. É possível aceitar o programa Mais Médicos, mesmo admitindo sua limitação. É possível aceitar a vinda de médicos estrangeiros, cubanos entre eles. É possível até admitir que Cuba não lucre só com a diplomacia médica, pois montou um esquema sanitário em lugares remotos do Haiti. Mas é difícil aceitar que a relação de trabalho não se faça na base do consentimento recíproco. O contrato com os cubanos, mesmo com a intenção de atender o interior do País, importa mais um grande problema.

É proibido proibir que se denunciem contratos de trabalho e que as pessoas viajem para onde queiram. Quando o governo, ao tentar solucionar um problema, cria um novo e complicado enredo, é sinal de que não funciona como timoneiro, apenas indica que perdemos o rumo.

No setor de energia, o discurso não é só o de Lobão descrevendo o melhor dos mundos. É também o discurso da natureza incontrolável, constatação que Lula atribuiu a Freud. Como caem os raios neste verão. Quando caem na cabeça das pessoas simples, elas são fulminadas. Quando se esgotam no estrondo e no clarão, servem de pretexto para explicar as lacunas da nossa política energética.

O consumo cresce, a produção de energia, detida por uma série de obstáculos, não evolui como o planejado. E o verão ainda não acabou. Em vez de reconhecer a realidade, o governo se perde na defensiva.

Não vejo num ano eleitoral grandes mudanças na economia. Nem creio que Dilma, diante do princípio de caos, fará mais do que convocar reuniões que resultam, por sua vez, em comissões e grupos de trabalho.

O veículo democrático está condenado aos solavancos. Mas o filme de Bergman mostra algo importante. Acostumar-se com a violência cotidiana é perigoso, pois esses fatos tendem a desembocar em algo pior. Um adolescente no Flamengo, no Rio, preso por um cadeado foi mais um episódio revelador do nível de intolerância que vivemos. Justiça pelas próprias mãos, combates armados na rua, incêndios - tudo isso vai sucedendo sem nenhum nexo com uma visão de mudança do País. Os que sonham em apenas manter-se no poder se arriscam a perder, mesmo na vitória eleitoral. Que País vai emergir desses confrontos cotidianos em 2014? Será governável apenas distribuindo cargos aos aliados?

A resposta é sempre esta: está tudo bem, vocês é que são pessimistas, Com sorriso profissional nos lábios, um marketing glorioso, cotoveladas e rasteiras na rede, la nave và. Lobão dirá que há risco zero de apagão, punhos erguidos para interpretar o mensalão, para a violência uma nova comissão. Quanta rima, meu Deus, e nenhuma solução, como diria o poeta.

Direitos humanos seletivos

Ruy Fabiano
Blog do Noblat

A defesa dos direitos humanos, imperativo civilizatório, perde sentido e substância quando contaminada pelo viés ideológico. Direitos humanos não são nem de direita, nem de esquerda; ou se aplicam a todos ou apenas instrumentalizam um projeto de poder, o que configura mais um tipo de violação.

É o que tem ocorrido no Brasil há já muitos anos, ao ponto de sua simples menção provocar mais suspeita que conforto em grande parte da sociedade. Isso porque raramente as organizações humanitárias preocupam-se com o destino das vítimas, concentrando-se habitualmente nos agressores ou naqueles que personificam a luta política que consideram emblemática.

Vejamos os fatos mais recentes. O ajudante de pedreiro Amarildo de Souza desapareceu de sua residência, na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, em julho do ano passado.

As investigações indicam que foi morto por PMs. Mas, bem antes de sua morte estar evidenciada, fez-se campanha nacional, de grande repercussão, para denunciá-la. Muito justo e necessário. Artistas interrompiam shows para reclamar de seu paradeiro.

Porém, dia 2 passado, a PM Alda Rafael Castilho, de 22 anos, foi covardemente assassinada, com um tiro no estômago, em seu posto na UPP de Vila Cruzeiro, no Rio.

Eram 15 os bandidos, que balearam outro PM, Melquisedeque Basílio, de 29 anos, e atingiram, com balas perdidas, um casal, sendo que a moça, Elaine Mariano, ferida na cabeça, está em estado grave no hospital. Alda foi o oitavo policial morto desde que as UPPs se instalaram, em 2008.

Alguma manifestação? Algum artista interrompeu seu show para reclamar sua morte? Algum muro na cidade para lembrar o crime? Alguma ONG empenhada em auxiliar a família das vítimas? Alguma declaração da ministra dos Direitos Humanos? Não.

O episódio circunscreveu-se ao noticiário de jornal. Policial, segundo se depreende de tal silêncio, não é humano – e, portanto, não tem direitos. Vamos em frente.

No dia 3 passado, em São Luís, Maranhão, bandidos tocaram fogo em um ônibus cheio de passageiros. Vários feridos e uma criança de seis anos, Ana Clara Santos Souza, carbonizada. O crime chocou a opinião pública, mas não se tem notícia de qualquer protesto por parte das ONGs humanitárias ou qualquer pronunciamento da ministra dos Direitos Humanos.

Dia 11, Kaíque Augusto Batista dos Santos, de 17 anos, foi encontrado morto em São Paulo, embaixo de um viaduto, com o rosto deformado e uma fratura exposta na perna.

Antes que a perícia se manifestasse, a ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, ao saber que se tratava de um negro e homossexual, resolveu todo o enigma: o rapaz fora assassinado por homofóbicos racistas. Aproveitou, em nota oficial, para pedir rapidez na aprovação da lei que criminaliza a homofobia.

Ato contínuo, organizações de homossexuais, ONGs de direitos humanos e partidos de esquerda entraram em cena para reverberar as palavras da ministra. Chegaram a fazer uma manifestação de protesto no local. Dias depois, o diagnóstico da polícia, reconhecido pela família, silenciou o protesto: Kaíque se suicidara. Seu cadáver perdeu então importância.

No dia 31 passado, um adolescente negro foi espancado e amarrado a um poste no bairro do Flamengo, Rio. Ele teria praticado roubos nas redondezas e fora justiçado por rapazes de classe média, que, na ausência da polícia, decidiram agir como milicianos. Um absurdo, claro.

Porém, o alarido que as mesmas organizações promoveram em defesa do rapaz – justa, diga-se – contrasta com o silêncio em torno da morte da PM Alda e da menina Ana Clara.

Em São Paulo, dia 25 passado, a polícia baleou o black bloc Fabrício Proteus Chaves, de 22 anos, que investira contra um policial com um estilete na mão. A mesma turma dos direitos humanos, antes que as imagens colhidas do episódio viessem à tona – e comprovassem que a polícia agiu em legítima defesa – julgaram e condenaram os PMs.

Fabrício tinha em sua mochila, entre outros artefatos, duas bombas caseiras e uma chave inglesa, usada para quebrar vitrines e caixas eletrônicos. O episódio serviu também para que diversos personagens do meio político e artístico reiterassem a legitimidade da ação predadora dos black bloc.

No Rio, dois black bloc mataram o cinegrafista Santiago Andrade. Antes que as imagens fossem divulgadas – e mostrassem a autoria efetiva -, um repórter de TV disse ter visto a polícia jogar a bomba. Abriu-se uma discussão para atenuar o crime. Os rapazes não queriam matar o cinegrafista. Quem então? Um policial? Talvez. Não haveria tanto barulho. Polícia não é gente.

Esta semana, em Brasília, uma manifestação do MST feriu 30 PMs, sendo oito em estado grave. Alguma solidariedade às famílias, alguma declaração da ministra contra a violência? Nada.

Indignação seletiva é sempre falsa – e, em vez de combater a violência, realimenta-a.

Aos amigos e inimigos, a lei.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

O marechal Eurico Dutra foi o grande suporte da ditadura do Estado Novo e participou de um Governo que comemorou a conquista de Paris pelos nazistas. Quando ouvia falar em democracia punha as tropas de prontidão. Com a queda da ditadura, elegeu-se presidente; e foi exemplar no cumprimento da lei. A qualquer problema, queria saber o que dizia "o livrinho" - a Constituição; e o que a Constituição mandasse, fazia. Transformou-se em exemplo. Elegeu o sucessor.

Black blocs, baderneiros, vândalos? Lei neles. Adeptos do pancadão, que perturbam o sossego público? Lei neles. Casas noturnas tipo Kiss, sem condições? Lei nelas. "Justiceiros", "milicianos"? Lei neles. Traficantes? Lei neles.

As leis existem; é só aplicá-las. Não é preciso criar uma lei antiterror para punir os assassinos que mataram o repórter ao alvejá-lo com um rojão; não é preciso ter leis novas para conter e punir vândalos que desafiam a Polícia e se divertem em quebrar vitrines e destruir patrimônio alheio. Eles se dizem ideologicamente motivados; então, que expliquem isso à Justiça. Lei neles. Ou, como diz a memorável letra da música dos Titãs, "Polícia para quem precisa de Polícia".

A lei existe para ser aplicada. A Polícia existe e, mesmo que não seja a ideal, está aí para enquadrar os transgressores da lei. A ação policial em defesa da tranquilidade pública e dentro da lei não pode ser coibida a pretexto de que pode eventualmente haver excessos. Se houver excessos, que sejam punidos. Mas o país tem de poder viver normalmente. E para isso não é preciso reinventar a roda.

Duplo pensar 1
Do ex-presidente Lula, num discurso em Ribeirão Preto, atacando os tucanos: "Ninguém tem um bico daquele tamanho à toa. É bico de bicho predador, de comedor de filhotinho". 

OK, ele atacou os adversários. Mas por que resolveu também falar mal daquele senhor que deveria comandar no Paraná a campanha de sua candidata Gleisi Hoffmann, e acabou preso pela acusação de pedofilia?

A volta de quem não foi
Da coluna Cláudio Humberto (www.diariodopoder.com.br): "Alguns ministros que saíram dos cargos há dias e dirigentes do PT têm em comum a certeza de que Lula trabalha para assumir a candidatura presidencial, em substituição a Dilma Rousseff. Sua intervenção para impor ministros, como Aloizio Mercadante (Casa Civil), e fazer seu grupo assumir o controle da comunicação do governo fazem parte da estratégia. A única dúvida é se tudo foi combinado com a presidenta. Deixar a barba crescer, retomando feições originais, e bater boca com a oposição, a pretexto de ‘poupar Dilma’, são parte do plano de Lula. Lula tem ignorado o PMDB, em suas articulações nos Estados, porque sua ideia é tornar esse partido mero coadjuvante, como PR, PP, PSD… Segundo petistas influentes, Lula deve articular a própria candidatura a presidente contando com o amigo Eduardo Campos (PSB) como vice. Parece até um jogo combinado: Eduardo Campos tem dito que jamais enfrentaria Lula nas urnas. Isso o credencia e garante a vaga de vice".

Duplo pensar 2
O ex-governador e deputado tucano Eduardo Azeredo, acusado no Mensalão mineiro, disse que é "tão inocente como Lula". Mais se vive, mais se aprende: nunca antes na história deste país uma confissão tinha sido usada para a defesa.

Desmancha sem bater
A informação é oficial, do corregedor nacional de Justiça, ministro Fernando Falcão: "Pasmem os senhores! No ano de 2013 o Tribunal de Justiça da Bahia consumiu oito mil latas de leite em pó".

Mas os mamíferos exagerados não se contentam com leite industrializado: não dispensam uma boa mamada nas tetas estatais. Citando de novo o ministro Fernando Falcão: a filha de uma desembargadora (não citou os nomes) recebe R$ 15 mil mensais no Tribunal de Justiça da Bahia, mesmo morando em São Paulo.

E ainda querem que as contas públicas fechem direito!

Não é só dinheiro que some 1
Com a prisão, na Itália, do mensaleiro Henrique Pizzolato, resta um foragido de nome a ser encontrado: o médico Roger Abdelmassih, condenado por estupro de uma série de pacientes. Sabe-se que Abdelmassih se casou, teve filhos; os boatos são de que está no Líbano. Talvez não: há muitos brasileiros circulando pelo Líbano, algum o reconheceria. E há ordem internacional de prisão contra ele.

Não é só dinheiro que some 2
Lembra das seis vigas de aço, cada uma com 20 toneladas, que sumiram há quase quatro meses no Rio de Janeiro? Pois é: as vigas, além de exercitar amplamente sua capacidade de disfarce (ninguém as viu sumir, embora estivessem numa área movimentadíssima da cidade), devem ter excelentes esconderijos, já que até agora ninguém conseguiu encontrá-las. 

No total, são 120 mil quilos de aço longo, que só pode ser transportado em veículos especiais (e invisíveis). 

O perigo
Talvez por isso a Câmara Federal alugue carros blindados para parlamentares que visitam o Rio. Se aço, que vale muito, ninguém acha, imagine deputados!

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

A bondade dos assassinos

Guilherme Fiuza
O Globo

País começou a matar Santiago ao ficar na dúvida sobre o que fazer diante dos boçais mascarados e seus chiliques medievais

O Brasil bonzinho assassinou o cinegrafista Santiago Andrade. Não foi outro o criminoso. Quem matou Santiago foi esse Brasil envernizado de bondade e infernizado de hipocrisia. Nenhum débil mental mascarado poderia ter matado Santiago sem a cumplicidade desse monstro.

A herança maldita da Primavera Burra foi apontada exaustivamente neste espaço. Os bem-pensantes e os demagogos — hoje praticamente indiscerníveis — continuaram matraqueando que os políticos precisavam ouvir “o recado das ruas”. Mentira. Não houve recado nenhum. Não há uma mísera mensagem aproveitável daquele carnaval cívico, onde multidões exuberantes marcharam contra tudo e contra nada — na mais patética perda de oportunidade política na era do Império do Oprimido.

É claro que esse heroísmo imaginário das passeatas não poderia acabar bem. Qualquer bando de almas penadas que fechava uma rua podia ser aplaudido pela sociedade engarrafada. “Desculpem o transtorno, estamos mudando o Brasil”, diziam os revolucionários de videogame. Mudando o Brasil para onde? Para o Afeganistão?

Ninguém perguntou. E a natureza não perdoa: onde não há luz, há treva. Rapidamente, o espaço sacralizado da revolução sem cabeça foi tomado pelo obscurantismo. E o Brasil começou a matar Santiago Andrade quando se permitiu ficar na dúvida sobre o que fazer diante dos boçais mascarados e seus chiliques medievais. Ou melhor: a parte mais bondosa e solidária desse Brasil não ficou na dúvida. Criou um movimento pela libertação dos detidos nas arruaças, black blocs e idiotas associados.

Deputados bonzinhos, intelectuais do bem e artistas antenados gritaram — alto — pela liberdade dos presos em manifestações. Não há artefato mais letal do que a bondade prenhe de ignorância e flacidez moral. E os comandantes da segurança pública, intoxicados pelo arrastão populista, passaram a declarar que “a polícia não está preparada para esse novo tipo de manifestação”. Um escárnio. A barbárie nunca foi tratada com tanto carinho.

Ora, o que se faz com criminosos que saem pelas ruas destruindo o patrimônio público e privado, sitiando cidadãos e atentando contra a sua integridade física? Prende-se. Depois processa-se, julga-se e condena-se. Com as leis que estão aí, com o aparato judicial e policial que está aí, sem um segundo de conversa fiada sobre novos tempos e nova boçalidade. Esse Brasil progressista que matou Santiago se permitiu hesitar diante da afronta ao estado de direito. Confundiu atentado com protesto, e resolveu (embora jamais vá confessar isso) relativizar a violência. Assassino.

Os criminosos que explodiram o crânio do cinegrafista foram identificados sem dificuldade, e estão presos. Mas eles mesmos e seus coleguinhas de terror se cansaram de protagonizar atos igualmente letais, fartamente filmados e fotografados — e puderam voltar tranquilamente para o Facebook e combinar o próximo programinha. Isso porque a sociedade civilizada cismou que não sabe combater “esse novo tipo de manifestação”. A mãe do sujeito que disparou contra Santiago, assustada, não sabia que tinha um criminoso em casa. O Brasil escondeu isso dela.

Quem se meteu a investigar os computadores dos covardes mascarados, chegando a deter alguns dos articuladores desse câncer, foi bombardeado pelos progressistas nas redes sociais. E lá ia o Brasil discutir se pode ou não pode condenar os facínoras ideológicos, deixando as mamães sem uma notícia decente de quem eram os seus pimpolhos homicidas.

Brasil, explique isso agora aos filhos de Santiago.

Não, ninguém vai explicar nada. Já estão chovendo teorias sobre o que é terrorismo, o que é black bloc, que reformas devem ser propostas ao Congresso Nacional (só rindo). Daqui a pouco o irrevogável Mercadante propõe um “plebiscito popular”, e o país volta tranquilamente à sua letargia assassina. Por falar em assassinato, os diplomatas do MST deixaram dez policiais gravemente feridos em Brasília. O Brasil está esperando um deles morrer para se horrorizar.

E o que aconteceu com os agressores? Foram recebidos em seguida por Dilma Rousseff no palácio, para um bate-papo de uma hora sobre reforma agrária. O que você está esperando para pegar sua borduna e ir atrás do que é seu?

Mas vá logo, porque o que é seu está sendo devorado rapidamente pelos amigos do povo — esses que a Primavera Burra não viu. Santiago morreu cobrindo um suposto protesto contra aumento das passagens de ônibus, e não se viu um único revolucionário ninja apontando sua revolta contra a usina de inflação do governo popular S.A. E Dilma pode ir ao aniversário do PT apoiar os mensaleiros presos — numa boa, sem nem um herói das ruas para vaiá-la na saída.

Santiago não teve sorte. Quem tem sorte no país dele é Delúbio Soares, que arrecada pela internet R$ 1 milhão em uma semana — livre de impostos e de covardes mascarados.