quarta-feira, fevereiro 19, 2014

O Brasil sente as dores do parto

Juan Arias  
El País

Se escutarmos nas ruas pessoas de diferentes estratos sociais e culturais, existe a sensação de certa irritação ou desconforto, de uma espécie de insatisfação difusa

Um amigo me liga da Espanha e pergunta: “O que acontece com o Brasil?”. E acrescenta antes de esperar a resposta: “Será que do paraíso caiu de repente para o inferno?”.

Respondi-lhe que, se nunca foi fácil entender o Brasil, um país-continente rico em complexidades, com uma sociedade que acumula diversidades e ao mesmo tempo com uma unidade que faz inveja a nós, os espanhóis, hoje então parece duplamente difícil analisar a crise real ou aparente que ele está atravessando.

O que acontece de verdade com o Brasil?

Se escutarmos nas ruas pessoas de diferentes estratos sociais e culturais, existe a sensação de certa irritação ou desconforto, de uma espécie de insatisfação difusa, sem que exista um motivo unificador desse mal estar.

Seria possível dizer que cada brasileiro se sente chateado com alguém ou com alguma coisa, sobretudo, ultimamente, com a violência e a corrupção que se revelam a cada dia mais generalizadas e truculentas, junto com o descaso pelos serviços públicos, que turvam e amarguram a vida cotidiana.

É uma insatisfação generalizada e ao mesmo tempo paradoxal, se for verdade, como indicam as pesquisas, que a grande maioria manifesta a convicção de que o futuro deste país será melhor do que hoje, e que os jovens viverão melhor do que seus pais.

Possivelmente poderíamos comparar a crise do descontentamento que aflige o Brasil àquele que uma mulher experimenta quando engravida pela primeira vez.

De repente, a jovem alegre e feliz da vida, orgulhosa da sua beleza corporal, começa a se sentir estranha. Seu corpo experimenta profundas modificações; suas sensações mudam; ela tem até desejos que nunca havia sentido. Percebe que está diferente e, às vezes, incomodada, sem saber por que, à medida que cresce a vida em seu ventre. São os medos que antecedem às dores do parto.

Como ocorre hoje com os brasileiros, entre os quais praticamente cada um se sente insatisfeito e incomodado por algo diferente, também as mulheres à espera das dores do parto percebem sensações diferentes de desconforto, sem saber ao certo como expressá-las.

Trata-se, entretanto, de uma moléstia e de um mal-estar que não terminam em desespero, porque se sabe que, ao final do túnel de toda essa insatisfação e de toda essa irritação, espera-lhe a alegria de poder carregar em seus braços uma nova vida, capaz de compensar a mulher de todas as dores e desconfortos anteriores.

O Brasil, com efeito, sente as dores do parto. Às vezes, em alguns, até com medo de que aquilo que vier a nascer de todas as agitações, convulsões e violências em curso possa ser um fruto de morte, e não de vida.

A maioria, entretanto, apesar de toda a insatisfação com a situação atual, que parece ter piorado em muitos aspectos que até ontem pareciam sorridentes, sente também uma sensação de que a sociedade, como um todo, está amadurecendo, revelando agora um maior apreço pelos valores da liberdade e de uma democracia mais real, menos manipulada e cooptada.

A sociedade brasileira cresceu. Quebrou o tabu do medo de protestar e de exigir melhores condições de vida para todos, não só para alguns privilegiados, como estava acostumada.

Cresceu e amadureceu porque está nascendo em seu seio uma maior capacidade de exigir dos poderes públicos aquilo que lhe pertence e que por muito tempo foi lhe negado.

Está mais adulta porque suporta menos a impunidade, a corrupção e os privilégios escandalosos de muitos que deveriam servir de exemplo. E adquiriu consciência de que, sendo filha de um país rico e próspero, tem o direito de poder participar desse festim, sem precisar se conformar, como antes, com as migalhas que caíam da mesa dos satisfeitos.

O Brasil já não passa fome, mas aprendeu que nem só de pão vive o homem. Sabe que é filho de uma democracia, embora imperfeita, onde ninguém tapa a boca de ninguém para que pare de falar, mas deseja, de agora em diante, ser também sujeito ativo na vida política e social. Quer ser mais bem escutado, e deseja ser ele quem determine.

A sociedade brasileira, que viaja mais, que estuda mais, que saiu de uma certa adolescência para sentir na carne os batimentos cardíacos da idade adulta e as dores e alegrias do parto, está como que à espera de que germine algo novo e possivelmente diferente do que foi vivido até agora. E parece disposta a lutar por isso sem violências físicas, mas sim com a violência moral de quem sabe que está exigindo do poder responsabilidades justas e devidas.

O Brasil sabe o que quer, embora possivelmente ainda não seja capaz expressar. Quer, como a mãe à espera do parto, que o nascituro seja saudável, motivo de orgulho e de alegria, e que seja o fruto de seus próprios esforços e cuidados.

Como dizia dias atrás neste jornal o agudo antropólogo Roberto Da Matta à minha colega Cecilia Ballesteros, os brasileiros já não querem mais ser uma sociedade que viva para servir ao Estado, e sim lutar para que o Estado esteja a seu serviço, atento aos seus legítimos anseios de felicidade.

Os Black Bandidos

Sebastião Nery
Tribuna da Imprensa


Morto Lampião, Ângelo Roque, o “Labareda”, cangaceiro, terceiro na hierarquia do bando, logo depois de Virgulino e Corisco, entregou-se às autoridades de Geremoabo, no sertão da Bahia. Foi a Júri. Tarcílo Vieira de Melo, o promotor, depois líder de Juscelino na Câmara Federal, acusou-o com agressividade. Oliveira Brito, Juiz, depois ministro do governo João Goulart, chamou-o de “desordeiro”.Labareda” levantou-se do banco de réu:

- Desordeiro, não. Os senhores me respeitem. Não sou um desordeiro, sou um cangaceiro. Não fui pegado no mato. Cheguei aqui de armas na mão, com minha cara limpa, meu corpo e minha vontade e me entreguei, confiando na palavra das leis.

Ninguém mais o agrediu.

LABAREDA
“Labareda”, pequenininho e valente, não disse mais palavra. Quando acabou tudo, condenado, ele se queixou ao meu amigo o  tenente e advogado João Nô, que o prendera nos sertões da Bahia:

- Tenente, perdi meu tempo no cangaço. Eu pensava que a pior coisa deste mundo era soldado de polícia. Passei a vida empiquetando (emboscando) soldado de polícia  Hoje, chego aqui preso, os soldados me tratam bem e  não disseram uma palavra contra mim. Mas aquele promotor falador e aquele juiz magrelo me disseram tudo quanto foi desaforo. Se eu soubesse, tinha passado meu cangaço empiquetando promotor e juiz.

LAMPIÃO
Cangaceiro era desordeiro, era criminoso, mas tinha caráter. Lutava com a cara de fora. Jogava a vida nas estradas.

Não viviam  escondidos atrás de máscaras, como esses black blocs nazifascistas, andróginos, sem ideologia e sem projeto, cuja histeria é sair quebrando tudo, janelas  e vitrines comerciais, sinais de trânsito e placas de rua, prédios públicos e privados, seculares monumentos nacionais, Palácios, sedes de Governo, Câmaras e Assembleias.

OAB E SEPE
Causa espanto, vergonha e asco ver entidades que têm deveres com a Nação, como a OAB, SEPE (Sindicato de Professores), jornalistas experientes, vereadores, deputados, partidos políticos, como babás do mal, acoitando, defendendo, protegendo, tentando justificar  esses covardes bandidinhos de capa preta.
Em alguns países vivi, em outros estive, onde fascismo e nazismo, brutais ditaduras, começaram. E começaram sempre assim: blocos de ataque escondendo-se atrás de roupas pretas, bonés e mascaras pretas,calças e camisas pretas ou marrons. E cabeças rolando nas avenidas ensanguentadas.

Levianamente desvairadas elites levam suas irresponsabilidades  e malditos interesses até um dia acordarem e não dá mais tempo. Seus filhos e netos levantarão muros e museus para chorarem o passado.

IMPRENSA
Escrevi essa coluna  ai em 22 de outubro de 2013. Em nenhum instante deixei-me enganar pelo vandalismo dos black blocs.

Surpreendia-me a estranha ingenuidade ou má fé de alguns colegas da imprensa, a serviço não sei de quem, mas evidentemente daqueles que tinham interesse em detonar as manifestações populares com as máscaras e  botas pretas. O nome deles era óbvio: capitães do mato do governo.

Agora estamos todos aqui desolados com o assassinato do Santiago.

HELOISA
Sempre brilhante e lúcida, a jornalista e escritora Heloisa Seixas pôs o dedo na ferida, em artigo no “Globo”:

“- Os black blocs, ou seja lá  que nome tenham, vinham dando sinais nos quais devíamos ter prestado mais atenção: havia  tintas de neonazistas no comportamento deles, inclusive na hostilidade à imprensa…

Poucos de nós, na imprensa, tivemos coragem de escrever contra eles com a força necessária… Melhor ficarmos quietos, em nome da democracia. Em nome do direito à livre manifestação – mesmo com bombas e pedras. E agora estamos assim, como meu amigo da Bandeirantes. Com esse nó na garganta, essa pergunta presa no peito: será que nosso silêncio constrangido nos faz cúmplices na morte de Santiago?

O neoescravagismo cubano

Ives Gandra da Silva Martins (*) 
Folha de S. Paulo

A leitura do contrato demonstra nitidamente que consagra a escravidão laboral, não admitida no Brasil.Fere os seguintes artigos da Constituição brasileira:1º incisos III (dignidade da pessoa humana)e IV (valores sociais do trabalho);o inciso IV do art. 3º (eliminar qualquer tipo de discriminação)...

O governo federal não poderia aceitar a escravidão dos médicos cubanos que recebem 10% do que ganham os demais estrangeiros 

A Constituição Federal consagra, no artigo 7º, inciso XXX, entre os direitos dos trabalhadores: "XXX "" proibição de diferença de salários, de exercício de função e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil". 

O governo federal oferece para todos os médicos estrangeiros "não cubanos" que aderiram ao programa Mais Médicos um pagamento mensal de R$ 10 mil. Em relação aos cubanos, todavia, os R$ 10 mil são pagos ao governo da ilha, que os contratou por meio de sociedade intitulada Mercantil Cubana Comercializadora de Serviços Médicos Cubanos S/A. Pela cláusula 2.1 "j" desse contrato, receberia cada profissional no Brasil, apenas 400 dólares por mês, depositando-se em Cuba outros 600 dólares. 

Em face da cláusula 2.1 "n", deve o profissional cubano guardar estrita confidencialidade "sobre informações não públicas que lhe sejam dadas". Pela cláusula 2.2 "e", deve abster-se de "prestar serviços e realizar outras atividades diferentes daquelas para que foi indicado", a não ser que autorizado pela "máxima direção da missão cubana no Brasil". Não poderá, por outro lado, "em nenhuma situação, receber, por prestação de serviços ou realização de alguma atividade, remuneração diferente da que está no contrato". 

Há menção de vinculação do profissional cubano a um regulamento disciplinar (resolução nº 168) de trabalhadores cubanos no exterior, "cujo conhecimento" só o terá quando da "preparação prévia de sua saída para o exterior". Na letra 2.2 "j", lê-se que o casamento com um não cubano estará sujeito à legislação cubana, a não ser que haja "autorização prévia por escrito" da referida máxima direção cubana. 

Pela letra 2.2 "q", só poderá receber visitas de amigos ou familiares no Brasil, mediante "comunicação prévia à Direção da Brigada Médica Cubana" aqui sediada. Pela letra "r", deverão manter "estrita confidencialidade" sobre qualquer informação que receba em Cuba ou no Brasil até "um ano depois do término" de suas atividades em nosso país. 

Por fim, para não me alongar mais, pela cláusula 3.5, o profissional será punido se abandonar o trabalho, segundo "a legislação vigente na República de Cuba". 

A leitura do contrato demonstra nitidamente que consagra a escravidão laboral, não admitida no Brasil. Fere os seguintes artigos da Constituição brasileira: 1º incisos III (dignidade da pessoa humana) e IV (valores sociais do trabalho); o inciso IV do art. 3º (eliminar qualquer tipo de discriminação); o art. 4º inciso II (prevalência de direitos humanos); o art. 5º inciso I (princípio da igualdade) e inciso III (submissão a tratamento degradante), inciso X (direito à privacidade e honra), inciso XIII (liberdade de exercício de qualquer trabalho), inciso XV (livre locomoção no território nacional), inciso XLI (punição de qualquer discriminação atentatório dos direitos e liberdades fundamentais), art. 7º inciso XXXIV (igualdade de direitos entre trabalhadores com vínculo laboral ou avulso) e muitos outros que não cabe aqui enunciar, à falta de espaço. 

O governo federal, que diz defender os trabalhadores --o partido no poder tem esse título--, não poderia aceitar a escravidão dos médicos cubanos contratados, que recebem no Brasil 10% do que recebem os demais médicos estrangeiros!!! 

Não se compreende como as autoridades brasileiras tenham concordado com tal iníquo regime de escravidão e de proibições, em que o Direito cubano vale --em matéria que nos é tão cara (dignidade humana)--, mais do que as leis brasileiras! 

A fuga de uma médica cubana --e há outros que estão fazendo o mesmo-- desventrou uma realidade, ou seja, que o Mais Médicos esconde a mais dramática violação de direitos humanos de trabalhadores de que se tem notícia, praticada, infelizmente, em território nacional. 

Que o Ministério Público do Trabalho tome as medidas necessárias para que esses médicos deixem de estar sujeitos a tal degradante tratamento. 

(*) Ives Gandra Da Silva Martins - Advogado, é professor emérito da Universidade Mackenzie, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e da Escola Superior de Guerra 

Fumaça nos olhos.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Quando um Governo não quer resolver um problema, nomeia uma comissão. Ou, como agora, propõe criar novas leis em vez de usar as leis que já existem.

Depois do assassínio do repórter Santiago Andrade, o Governo resolveu que finalmente chegou a hora de combater os black-blocs. De que jeito?

1 - Com uma lei antiterrorismo. Besteira: já existe a Lei de Segurança Nacional, duríssima (mas o delegado que nela enquadrou black-blocs foi afastado rapidamente). Mas, fora essa, lei não falta: por exemplo, o decreto-lei 1.847, de 1940, pune associação de três ou mais pessoas para cometer crimes com reclusão de um a três anos, e aumento de 50% da pena se a associação é armada ou envolve menores; o artigo 288-A da mesma lei prevê reclusão de quatro a oito anos para quem organizar, integrar, manter ou custear milícia, grupo ou esquadrão.

2 - Lei antimáscaras. Imaginemos: duas mil pessoas nas ruas, 50 mascarados entre elas, a Polícia pede licença aos manifestantes e pede aos mascarados que se identifiquem ou, por obséquio, tirem as máscaras e cumpram a lei. Ridículo.

3 - Comunicação de manifestações. Claro, claro. Na avenida Paulista, em São Paulo, as manifestações são proibidas, e é lá que se realizam. Na hora da manifestação, imaginemos de novo: o policial pede aos manifestantes que, por gentileza, mostrem o protocolo comprovando que avisaram da manifestação. Se não houver a papelada em ordem, por favor, cavalheiros e senhoras, dispersem-se.

Isso tudo ainda vai ser discutido por Câmara, Senado... Não é para funcionar.

Dúvida pertinente
Ah, a imaginação! Esse pessoal que gosta de manifestar-se queimando ônibus deve dirigir-se a que autoridade para comunicar com antecedência sua intenção? 

A luz escura
Smoke gets in your eyes, diz a bela canção de Jerome Kern e Otto Harbach. A fumaça nos olhos impede a visão. O Governo confia na fumaça que encobre o cenário: diz que o custo extra da eletricidade, causado pelo uso intenso de usinas termelétricas, mais caras, será dividido entre o consumidor e o Tesouro. Mas vale uma pergunta: de onde vem o dinheiro do Tesouro? Governo não gera dinheiro; seus recursos vêm dos impostos. Isso não quer dizer que o consumidor vai pagar duas vezes, na conta e nos impostos. É pior ainda: significa que quem usou pouca eletricidade vai pagar por quem usou muita. O desempregado que puxa um carrinho de mão, quando compra um pãozinho, paga IPI sobre a farinha. E uma parte do que paga vai ajudar a pagar a conta de luz de Eike Batista - que, em compensação, não precisará pagar o custo integral, já que o Tesouro o ajuda.

Traduzindo: é tudo encenação, com muita fumaça para os olhos do público.

O Mandrake suicida
A Secretaria da Segurança de São Paulo, comentando nota desta coluna sobre a morte de João Guilherme Silva - o cavalheiro que foi revistado, algemado com as mãos para trás e enfiado no camburão, onde, sabe-se lá como, arranjou um revólver e se suicidou - informa que o caso está sendo apurado rigorosamente, num inquérito policial-militar e pela Corregedoria da PM, e que uma comissão técnica da Superintendência de Polícia Técnico-Cientifica reavaliará o laudo do Instituto de Criminalística. Diz a nota que tanto o laudo do IPC quanto as investigações do IPM e da Polícia Civil apontam para o suicídio; o rapaz teria entrado armado na viatura, "devido a uma falha na revista feita pelos PMs". Diz também que o tiro não foi dado de cima para baixo, mas de baixo para cima.

A Secretaria da Segurança informa que, se houve abuso, haverá dura punição. OK, registrado. Mas, mesmo tendo contrabandeado uma arma, dar um tiro na própria cabeça com as mãos algemadas nas costas é notável. 

Pena que o fim da história tenha sido trágico: o rapaz teria uma bela carreira como contorcionista.

Bom exemplo
Por decisão da 4ª Vara da Fazenda, a capital da Paraíba, João Pessoa, está proibida de gastar com publicidade oficial e eventos festivos até que cumpra a sentença que determina a compra de remédios para doentes de câncer. O juiz Antônio Carneiro diz: "o direito à vida e à saúde são preceitos de ordem constitucional"; "os orçamentos destinados à construção de equipamentos públicos, por mais necessários que sejam, perdem a razão de ser quando confrontados com o risco de perecimento da vida"; "nada de propagandas oficiais ou festas populares sem que a saúde da população seja assegurada". 

Excelente exemplo!

Mas a festa continua
José Eduardo Cabral, 18 anos, filho do governador fluminense Sérgio Cabral, gastou R$ 40 mil na casa noturna Costa Brava, no dia 8. José Eduardo não tem fonte de renda conhecida; e R$ 40 mil, lembra o ótimo colunista Aziz Ahmed, do jornal O Povo, é o dobro do salário líquido mensal do pai. 

Mas os gastos daquela noite não pararam por aí: da Costa Brava, José Eduardo foi ao ensaio do Salgueiro e depois à boate Miroir, onde o DJ é Olin Batista, o filho mais discreto de Eike Batista. Quem sai aos seus não degenera: o pai de José Eduardo Cabral, lembre, era o chefe do pessoal que dançava de guardanapo na cabeça num restaurante em Paris, enquanto as esposas mostravam seus sapatos de solas vermelhas.

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Esgotamento brasileiro

Heron Guimarães
Tribuna da Imprensa

Estamos nós, cidadãos brasileiros, em situação de esgotamento. Já estamos dando sinais de que a cabeça não trabalha bem, e quando isso ocorre o corpo também falha. Somos hoje seres doentes, maltratados por um estado de coisas que nos pressiona e que nos empurra, por meio de uma toada lenta, sádica e masoquista, para uma espécie de tripalium.

Somos vítimas de nós mesmos, de nossa consciência distraída e de um país em que não só os extremos, mas o seio da sociedade se perde em colapso. Os nossos direitos estão se evaporando e só temos os deveres cobrados se eles forem para fazer os acertos com o fisco.

A leniência faz parte dos três Poderes da República e os transforma em um conjunto esquizofrênico e estéril. Eles não têm mais o controle da situação.

Em ruas, escritórios ou em repartições públicas as pessoas não se entendem. Encontramo-nos de pé, fatigados, em uma torre de babel apertada e encalorada. As forças estão se exaurindo.

Toma conta de nós uma raiva contida, silenciosa, que, guardada, transforma-se em ressentimento. Somos, então, pessoas ressentidas, sem expectativa de dias melhores, o que faz a paisagem de nosso mundo ficar mais feia, mais cinza.

Faltam-nos gentileza, competência, vontade e uma certa porção de “raiva” boa, aquela que provoca mudanças de fato. Reações que não nos ressentem, mas que nos alertam.

E esse esgotamento do brasileiro como cidadão, do Brasil como nação, não traz somente prejuízos imediatos. Traz consigo a falta de esperança, o que de pior pode existir para uma pessoa, uma gente, um país.

PAÍS PARALISADO
O Brasil parece mais um barco remendado no meio do oceano, sem vento para soprar suas velas, seja para qual direção for.

O fim de um cansativo dia de trabalho não é mais motivo para irmos embora e recarregar nossas forças com os bons fluidos da família, que, também já intoxicada por notícias ruins proliferadas por todo tipo de ferramenta, esgota-se aos poucos, deixando às crianças o abandono e a falta de amparo.

Resta-nos, neste universo em desespero, nos contentar com o fato de que a desgraça do outro é maior do que a nossa.

Viver no Brasil, nos dias de hoje, não é somente sobreviver a tiroteios, enfrentar congestionamentos, ser roubado nas ruas e surrupiado em conchavos de gabinetes políticos. Não é mais ter que aceitar a precariedade da saúde e a falta de educação de mínima qualidade.

Ser brasileiro, sem sentir vexame, é ter a habilidade, quase transcendental, de se despir de todo o mal que a própria sociedade cria e se reinventar. Só um novo advento é capaz de mudar as coisas. Fiat lux! 

(Transcrito de O Tempo)

O consumo e o crescimento

Alexandre Bassoli (*) 
Valor 

A agenda de reformas que nos trará níveis mais elevados de crescimento passa pelo aumento da poupança


O Brasil alcançou em 2013 um déficit em conta corrente de 3,7% do PIB. Considerando que em 2012 o saldo fora negativo em 2,4% do PIB, houve uma acentuação da tendência de piora das contas externas que teve início em meados da década passada. Deveríamos ficar preocupados com isto? Déficits em conta corrente não são necessariamente ruins. Eles significam que nossa absorção total de bens e serviços excede o total que produzimos. Nesse sentido, estamos tomando emprestada uma parte da poupança gerada pelo resto do mundo para financiar nosso consumo e nosso investimento.

Em um primeiro momento, a absorção de poupança externa permite compatibilizar níveis de consumo e investimento que não seriam factíveis na ausência de financiamento externo. Contudo, como se aplica a cada um de nós individualmente, os países no longo prazo têm que viver dentro de seus meios. Isto significa que, em um segundo momento, quando a economia atingir um nível maior de desenvolvimento, será necessário exportar parte da poupança doméstica para saldar, ou pelo menos servir, o passivo externo que se acumulou no estágio anterior. Para tanto, o país precisará consumir menos do que o faria caso a acumulação de capital tivesse se dado por meio de um esforço de poupança estritamente doméstico.

Deve-se observar, nesse sentido, que a sustentabilidade dos déficits depende de em que medida o país será capaz de, pela maior absorção de poupança externa, acelerar a sua velocidade de acumulação de capital e de crescimento econômico. Em um ambiente de maior crescimento, o peso da acumulação de passivos externos será menor, e será maior a capacidade do país de servi-los no futuro.

O problema, quando observamos a dinâmica das contas externas brasileiras nos últimos anos, é que a ampliação dos déficits não nos permitiu elevar a velocidade de acumulação de capital. De fato, a formação bruta de capital fixo como proporção do PIB deve ter encerrado o ano passado ao redor de 18%. Isto significa um decréscimo da ordem de 1% do PIB em relação aos patamares observados em 2008. Contudo, ao longo desse mesmo período o déficit em transações correntes foi ampliado de 1,7% para 3,7% do PIB. Ou seja, a despeito da maior absorção de poupança externa, o Brasil investe menos agora do que fazia há cinco anos. Isto porque a poupança doméstica, que representava 18,8% do PIB em 2008, reduziu-se a apenas 14% nos 12 meses encerrados em setembro do ano passado.

Não há evidência, portanto, de que a ampliação do déficit em conta corrente esteja nos permitindo uma velocidade maior de acumulação de capital. Não é de se surpreender, assim, que nos últimos anos venham se acumulando sinais de redução, e não de aumento, do crescimento potencial. De fato, depois de manter um crescimento médio de 4,5% entre 2004 e 2010, o Brasil nos últimos três anos cresceu em média apenas 2%. E, a despeito disto, o desemprego seguiu declinando, o que sugere um problema de natureza estrutural, e não cíclica.

Em vez de uma aceleração do crescimento potencial, a contrapartida da ampliação do déficit em conta corrente tem sido um crescimento do consumo doméstico em velocidade superior à do PIB. Isto se explica em parte pelos desenvolvimentos no campo fiscal. A diminuição do superávit primário nos últimos anos reflete uma combinação de expansão dos gastos de consumo do setor público e ampliação das transferências às famílias. Isto significa redução da poupança pública e aumento do estímulo ao consumo privado, amplificado pelos diversos programas de desoneração de bens duráveis e pela atuação dos bancos públicos no financiamento ao consumo.

Deve-se dizer, a baixa poupança é uma característica histórica da América Latina. Contudo, o movimento do Brasil nos últimos anos nos coloca 5,5 pontos percentuais abaixo dos 19,5% observados em média na região no ano passado, de acordo com o FMI. Em comparação aos países emergentes da Ásia, a diferença é brutal: eles pouparam nada menos que 43,5% do PIB no ano passado.

Há um ponto adicional, nem sempre observado, em relação à tendência de redução da poupança doméstica nos últimos anos. Como vimos, ela nos obrigou a absorver mais poupança externa (o que equivale a um déficit em conta corrente mais alto) apenas para evitar uma queda mais forte da taxa de investimento. No caso brasileiro, dadas as vantagens comparativas que temos no setor de commodities, a piora em transações correntes não se dá pela importação de minério de ferro ou de soja. Nós passamos, evidentemente, a importar mais bens manufaturados. Nesse sentido, não deveria ser surpreendente que os estímulos ao consumo, mesmo que com o objetivo de beneficiar a indústria local, não tenham sido capazes de tirar o setor da estagnação nos últimos anos.

Em conclusão, nosso déficit em conta corrente não é alarmante, mas nos coloca em uma posição mais delicada porque veio acompanhado de uma diminuição da taxa de investimento e do crescimento potencial. Fica claro, também, que há um espaço muito limitado para utilizarmos ainda mais a absorção de poupança externa para financiar a ampliação do investimento, que é absolutamente necessária se quisermos ir além do crescimento pobre dos últimos anos. Sendo assim, é inescapável: teríamos que ampliar a poupança doméstica. E isto é parte de uma questão mais geral: estímulos ao consumo podem contribuir para o crescimento quando a economia está em recessão e, portanto, há insuficiência de demanda. Em horizontes mais longos, contudo, economias que exibem crescimento sustentadamente elevado são aquelas que poupam muito, como nos mostra o exemplo da Ásia emergente.

Pode parecer pouco intuitivo, mas a agenda de reformas que pode nos conduzir novamente a níveis mais elevados de crescimento passa necessariamente pelo esforço de ampliação da poupança doméstica, e a política fiscal terá um papel fundamental a desempenhar nesse processo.

(*) Alexandre Bassoli é economista-chefe do Opportunity

O porrete está no ar

Gaudêncio Torquato  
O Estado de S.Paulo

Literalmente. Na Venezuela, o segundo político mais importante do país, Diosdado Cabello, presidente do Parlamento, rival do presidente Nicolás Maduro no governismo, estreou programa semanal de TV, em horário nobre, exibindo um porrete com pregos para "golpear os discursos dos opositores". A imagem bate forte na lição que Simón Bolívar, o Libertador, herói e ícone dos venezuelanos, deixou pouco antes de morrer, em 1830, em Santa Marta, na Colômbia: "O sistema de governo mais perfeito é aquele que produz a maior quantidade de felicidade possível, maior quantidade de segurança social e maior quantidade de estabilidade política". Não é o que ocorre na Venezuela, onde tudo está escasso, até papel higiênico.

Mas o porrete não é arma exclusiva da Venezuela. Circula bastante por estas plagas. Sua multiplicação pelas ruas das grandes cidades não se deve à afinidade do Brasil com o regime implantado pelo falecido comandante Hugo Chávez. É fruto do nosso baixo produto nacional bruto de felicidade.

Por aqui as porretadas começam nos vãos da política. Coisa natural em ano de eleições. O presidente do PT, Rui Falcão, golpeia opositores atribuindo-lhes a pecha de representantes do "neopassadismo" (Aécio Neves, do PSDB) e "neovelhismo" (Eduardo Campos, do PSB), em capciosa referência aos avôs dos dois pré-candidatos, Tancredo Neves e Miguel Arraes. O senador mineiro, em resposta à candidata Dilma Rousseff, que chamara os rivais de "caras de pau", viu nos neologismos e ataques a situação do PT, partido "à beira de uma crise de nervos", enquanto o governador socialista de Pernambuco anunciava que "o País parou" por causa de um "pacto mofado". Ao contrário, refuta a presidente, "todo dia a gente sobe um Himalaia". Estocadas à parte, e até reconhecendo que a expressão tende a subir o tom por conta da emblemática campanha - fim ou continuidade do ciclo petista? -, o fato é que o clima social é turvo: as tensões se acirram, a insegurança se expande, a desordem ocupa as ruas, as milícias mostram-se despreparadas para conter o ímpeto das turbas, os atores políticos encolhem o discurso e o sinal amarelo aparece no farol da economia.

A imagem de um país na corda bamba emerge com força. De um lado, um Estado que realiza uma das mais extraordinárias experiências contemporâneas na frente da distribuição de renda, cantada e proclamada no mote dos 30 milhões de brasileiros que ascenderam à classe média; de outro, um território com visível desequilíbrio na área de serviços públicos essenciais, a partir da mobilidade urbana, faísca que acende fogueiras por todo lado. Esse Estado preparou a infraestrutura para receber o novo contingente de classe média? Onde estão os equipamentos de lazer, as praças e parques, os espaços de convivência?

O porrete está banalizado. E baixa pesado sobre as turbas. Nunca bateu tanto no jornalismo, no qual estão os olhos, os ouvidos e as bocas das democracias. Os dados são assustadores: 118 jornalistas foram agredidos desde junho, 75% dos quais, segundo levantamento da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, vítimas dos porretes da Polícia Militar. Em 2013 seis profissionais foram assassinados a mando de grupos políticos, agiotas e narcotraficantes. Incêndio de ônibus virou rotina. Quase todos os dias, um ou mais. Cerca de cem já foram queimados no Estado de São Paulo nos últimos tempos, crimes atribuídos na maior parte ao PCC. O porrete informal açoita os costados do poder formal do Estado.

Os bastões dos vândalos também estão no ar. Para destruir, quebrar, matar. O assassinato de Santiago Andrade, da Band, comoveu o País. Pergunta-se: o que se fez ou se fará para evitar o vandalismo? Lembrança: "a bandidagem mascarada" ocupa as ruas desde meados do ano passado. O que os governos - federal, estadual, municipal - fazem para conter a violência das gangues? As providências são despejadas nos tonéis de promessas e vãs palavras. As autoridades contentam-se em anunciar a óbvia apuração de casos, imaginando que a prisão de delinquentes, como a do rapaz que matou o cinegrafista com o rojão, seja suficiente para produzir catarse e acalmar a alma social. Não veem que a primeira pedrinha do dominó rolou e as outras caem em sequência. A primeira pedra é a da credibilidade dos governantes e, por consequência, de toda a esfera política. Foi derrubada pelo descrédito, fruto da incapacidade dos atores de dar respostas satisfatórias às demandas da sociedade organizada. As outras pedrinhas também levam nome: impunidade, lerdeza, burocracia, ladroagem da coisa pública, superfaturamentos, máfias nas malhas da administração pública, politiquice, falta de seriedade, desprezo pela liturgia do poder.

O que dizer de um magistrado que deixa a toga de lado para sugerir suspeitas de campanhas de arrecadação de recursos para pagar multas de apenados na Ação Penal 470, quando poderia reservar-se e preservar a força simbólica do cargo, eis que imbróglios como o que chamou sua atenção poderão, mais adiante, bater em sua mesa? O que dizer de parlamentar que, com gesticulação incongruente com o evento solene de que participava, procurou fustigar o presidente da Suprema Corte, ao seu lado?

Os atos de desrespeito, deboche, humilhação espalham-se nas cercanias do império da desordem e da anomia que se alastra no País. Nossa vista já alcança a efervescência a ser causada pela Copa do Mundo. Mas não dá para ver se faltarão água e luz nas cidades e nos estádios. Ou se o acesso às arenas esportivas será fácil e tranquilo. A confiar nas autoridades, tudo correrá às mil maravilhas. A acreditar que Deus é brasileiro, teremos de fato a Copa das Copas. Com porretes contidos, claro. Sem quebra-quebra. E aplaudindo o equilibrista, vendo-o chegar ao outro lado da corda esticada a mil metros de altura. Leitor, acredite se quiser.

O macabro baile dos mascarados

Paulo Brossard
Zero Hora

A lassidão, a indiferença e a covardia passaram a ocupar o lugar reservado à fidelidade à lei, ao dever funcional e ao senso de responsabilidade

Tudo começou com manifestações que se distinguiram pela circunstância de apresentarem-se com máscara os manifestantes, o que impedia a identificação desses. Os mascarados permitiram-se a prática de atos ilícitos com danos materiais e morais, consistentes na depredação de prédios públicos, vitrines de estabelecimentos comerciais e bancários. Esta conduta se repetiu algumas vezes, e nenhuma vez nenhuma autoridade tomou nenhuma providência. Tinha-se a impressão de que a autoridade ou entendia que em uma manifestação em termos civilizados se continha a prerrogativa de destruir bens privados ou públicos, ou tinha medo de cumprir a lei, se é que lei alguma permite que alguém, a seu arbítrio, possa lesar gratuitamente o próximo.

A omissão oficial obviamente passou a servir de estímulo para os abusos aumentarem. Não era costume, até então, destruir ônibus, mediante o incêndio deles, mas o expediente macabro era curioso, uma vez que inédito, e a destruição desses bens se tornou mais ou menos habitual, porque também ela constituía uma novidade. Só na cidade de São Paulo mais de 30 ônibus foram consumidos pelo fogo, em questão de dias. Depois, era fácil iniciar a operação, bastando quebrar um vidro e jogar um coquetel molotov, para que o objeto ficasse reduzido a um esqueleto de máquina. A partir daí o quebra-quebra estava institucionalizado, seja pela passividade da custódia inerente ao poder público, revogada por omissão culposa, seja por ordem superior, como ocorreu aqui entre nós.

Pode-se dizer que a lassidão, a indiferença e a covardia passaram a ocupar o lugar reservado à fidelidade à lei, ao dever funcional e ao senso de responsabilidade. Era natural que os desvios do poder permitidos às escâncaras não parassem aí, era evidente que eles seriam agravados, só um tolo podia imaginar que a desordem ficasse satisfeita com os males causados. O que era inevitável ocorrer aconteceu.

Com efeito, em manifestação pacificamente iniciada na altura da Central do Brasil, no Rio, os mesmos mascarados começaram a fazer o que deles é habitual, duas pessoas conduziam sucessivamente um foguete e, a certa altura, foi ele aceso e jogado ao chão e em pleno movimento veio a atingir um profissional, cinegrafista da Bandeirantes, Santiago Ilídio Andrade; atingido na cabeça, foi levado ao Hospital Souza Aguiar e submetido a demorada intervenção; chegou em estado grave e assim continuou até a morte.

A reação social foi imensa e houve quem imaginasse que o fato poderia servir para afastar os excessos rotineiros, mas dois fatos ocorreram de imediato, que me deixaram cético; o primeiro deles ocorrido no Rio de Janeiro, na Avenida Presidente Vargas, na altura da Central do Brasil; como de estilo, os encapuzados iniciaram depredação da qual não ficaram imunes prédios e não faltaram feridos no quebra-quebra; o outro, manifestação realizada em Brasília, maior e mais expressiva, estimada em 15 mil pessoas, vestidas uniformemente, obviamente originários de vários Estados e que, depois de comprometer o trânsito local, tentaram ingressar no Planalto; diante da resistência, reagiram, resultando feridos, sendo dois em estado grave. Essa movimentação não se faz sem recursos abundantes. Fato que está a mostrar que há mais coisas no ar do que os aviões de carreira.

Este quadro esboçado, breve e superficialmente, está a indicar a natureza e gravidade das organizações que a esta altura dão fisionomia a um conflito que, talvez, a senhora presidente, no seu afã eleitoral, não tenha medido.

Antes que esqueça, assoalha-se até pela imprensa que os mascarados receberiam R$ 150 diários para melar as manifestações. Verdade? Fabulação?

Tolerância zero

Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

A intolerância está em toda parte. Na internet chegou a níveis insuportáveis. Nas ruas manifestações abrigam pistoleiros de aluguel. A presidente da República reage a críticas com termos de vulgaridade incompatível com o cargo, desatenta ao fato de que reeleição rima com reputação.

Na Praça dos Três Poderes os sem-terra tentam invadir o Supremo Tribunal Federal em conflito cujo saldo foi de 30 feridos, oito deles em estado grave. A oposição acorda da letargia e vai ao ataque, enquanto na base governista a revolta se avoluma e no tradicionalmente submisso setor empresarial a grita é diária e cada vez mais contundente.

À atmosfera ruim acrescenta-se o imprevisível: o rumo da economia, o risco de a Copa do Mundo se transformar num presente de grego e uma campanha eleitoral que será tão mais acirrada e conturbada quanto maior for a redução do favoritismo da presidente Dilma Rousseff. Com isso, o aumento da probabilidade de o PT se ver em via de voltar à planície.

A tensão aproxima-se do clímax, mas não surgiu de repente nem nasceu por geração espontânea. É filha legítima da dinâmica beligerante que o PT imprimiu ao seu modo de governar, tendo Luiz Inácio da Silva como o comandante em chefe.

O ato de confraternização em que Lula vestiu o boné do MST logo no início de seu primeiro governo soou como um aval do então presidente às ações do movimento. Raras as que não tinham caráter violento. Quando não de agressão física, de ofensa ao direito de propriedade consagrado pela Constituição.

A sucessora agora repete o ato de fiança aos renitentes infratores da lei quando os recebe em Palácio no dia seguinte à promoção de um conflito ali mesmo às portas do Planalto. A motivação? Reatar o diálogo com o MST, como se fosse conversa o objetivo de quem invade, depreda e destrói laboratórios de pesquisa.

Dilma retoma, assim, a mecânica conflituosa que Lula resumiu na expressão "nós contra eles" ao dividir o País entre apoiadores patriotas e críticos conspiradores.

Não há, pela lógica do governo, opositores. Há inimigos a serem dizimados. O exemplo "de cima" espalhou-se pirâmide social abaixo, contaminou os oposicionistas igualmente enraivecidos e fez da tolerância artigo em extinção.

A ausência de civilidade se generalizou. Não se trocam ideias, altercam-se insultos.

Sabem o senhor e a senhora do que anda precisando nosso País? Uma mudança de hábitos. Por exemplo, competência e honestidade são valores a serem bem pesados e medidos na hora da escolha de governantes.
Mas se a esses atributos acrescentarmos a familiaridade com bons modos e respeito ao melhor da língua portuguesa, podemos contar com a expectativa do retorno a um País senão ilusoriamente cordial, ao menos minimamente civilizado.

Meia-trava. 
O voto aberto para cassações de mandatos de parlamentares é providência merecedora de todas as homenagens recebidas. Convém, contudo, confiar desconfiando.

Levar em conta o outro lado da moeda e aguardar para conferir se não vai diminuir consideravelmente o número de casos de pedidos de punição por quebra de decoro parlamentar levados ao Conselho de Ética, que chegarão ao plenário.

Ou, por outra: como o voto no conselho também é aberto, o travamento pode se dar nas Mesas Diretoras da Câmara ou do Senado.

As bancadas dos partidos também se esforçarão para impedir que seus deputados e senadores sejam alvos de processos de cassação. É uma forma de o Congresso se proteger sem abrir mão do corporativismo.

Militância. 
A se aceitar a versão do governo de que os críticos à condução do País se dividem entre pessimistas e oposicionistas, fica a dúvida sobre a posição do banco central americano.

Se enquadrado na categoria dos pessimistas, não fica claro qual o interesse do negativismo. Classificados no grupo dos eleitoralmente engajados, ficam abertas as apostas sobre o número de eleitores dispostos a votar sob orientação de Mrs. Janet Yellen, presidente do Federal Reserve.

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Delegações poderão ser atacadas em protestos durante a Copa, diz black bloc

A declaração de apoio a Maduro adverte: o Mercosul começou a agir na clandestinidade e está com cara de organização criminosa

Augusto Nunes
Veja online



Às vésperas da reunião de cúpula do Mercosul em Caracas, o presidente venezuelano Nicolás Maduro amparou-se na cirurgia a que foi submetida Cristina Kirchner para adiar por um mês a sessão de abertura marcada para 17 de dezembro. Foi a primeira mudança de data. A segunda ocorreu em 5 de janeiro: invocando a necessidade de preservar a saúde da colega argentina, o herdeiro de Hugo Chávez transferiu o encontro do dia 17 para o dia 31. Em 16 de janeiro, misteriosos “problemas de agenda” serviram de pretexto para o terceiro adiamento, que empurrou o piquenique bolivariano para “meados de fevereiro”.

Como fevereiro vai chegando ao fim, está claro que vem aí o quarto adiamento. O encontro dos sócios do bloco econômico mais raquítico do mundo deverá ficar para março. Mas talvez fique para quando Deus quiser, avisam os desdobramentos da crise venezuelana e as evidências de que os quatro sócios de Maduro querem distância de Caracas. Fazem muito bem, concordam as cenas perturbadoras agrupadas no vídeo abaixo (gravado durante os protestos da última quinta-feira, dia 13) e as fotos que registram a gigantesca manifestação promovida nesta terça-feira. A tempestade está em seu começo.

Um comunicado divulgado neste domingo pelo Ministério das Relações Exteriores da Venezuela atesta que a turma do Mercosul decidiu apoiar incondicionalmente o chefe de um governo em decomposição ─ mas prefere combater à distância e por escrito. No texto cuja autoria foi atribuída por muita gente ao sucessor do bolívar de hospício, “os Estados membros do Mercosul, diante dos recentes atos violentos na irmã República Bolivariana da Venezuela e as tentativas de desestabilizar a ordem democrática, repudiam todo tipo de violência e intolerância que busquem atentar contra a democracia e suas instituições, qualquer que seja sua origem“.

E a prisão do líder oposicionista Leopoldo Lopez? E os ataques abjetos à deputada Maria Corina Machado? E os manifestantes assassinados com tiros na cabeça? O documento que tenta socorrer o companheiro em apuros não perdeu tempo com tais detalhes, comprova o palavrório que conclui o monumento ao cinismo:

“Os  Estados membros reiteram seu compromisso com a plena vigência das instituições democráticas e, neste contexto, rejeitam as ações criminosas de grupos violentos que querem espalhar a intolerância e o ódio na República Bolivariana da Venezuela como uma ferramenta política. Expressam seu mais forte rechaço às ameaças de ruptura da ordem democrática legitimamente constituída pelo voto popular e reiteram a sua posição firme na defesa e preservação das instituições democráticas, de acordo com o Protocolo de Ushuaia sobre compromisso democrático no Mercosul (1998)”.

“Sugerem que as partes a continuem a aprofundar o diálogo sobre as questões nacionais, dentro do quadro das instituições democráticas e do Estado de direito, como tem sido promovido pelo presidente Nicolás Maduro nas últimas semanas, com todos os setores da sociedade, incluindo parlamentares, prefeitos e governadores de todos os partidos políticos representados. Finalmente, expressam suas sinceras condolências às famílias das vítimas fatais, resultado dos graves distúrbios causados, e confiam totalmente que o governo venezuelano não descansará no esforço para manter a paz e plenas garantias para todos os cidadãos”.

Os cinco patetas que pilotam o naufrágio do Mercosul acabam de consumar a dez mãos uma proeza e tanto. Pela primeira vez, uma declaração conjunta foi aprovada sem que se perdesse tempo com reuniões, debates, sugestões de acréscimos, propostas de cortes e outras miudezas. Pela primeira vez, não aparece uma única e escassa assinatura sob o texto que expõe pontos de vista e argumentos avalizados por vários países. Pela primeira vez, foram promovidos a segredos de Estado o nome do redator, a identidade dos envolvidos nos trabalhos de parto e o local de nascimento da peça histórica.

A gestação do documento reforça a suspeita de que o Mercosul caiu na clandestinidade e começou a agir nas sombras. Pelo prontuário dos parceiros, ninguém ficará surpreso se, daqui a pouco, a entidade se transformar em mais uma organização criminosa.


É cara de pau

Mary Zaidan
Blog do Noblat

Trem-bala, seis mil creches, 500 UPAs, Brasil rico, sem miséria. Fome Zero, transposição do Rio São Francisco, presídios federais de segurança máxima. Promessas de um futuro espetacular que nunca chega. Especialidade da geração de marqueteiros que alcançou o ápice no período Lula, a venda do paraíso - que tem sido repetida com sucesso - pode não ter tanta valia em 2014.

Os sinais são muitos. Nas ruas e fora delas. No bolso do cidadão que paga cada vez mais impostos sem a recíproca de serviços mínimos, no cotidiano de quem depende da esfera pública para ter educação, saúde e transporte.

Daí ser quase incompreensível a insistência dos arquitetos eleitorais da presidente Dilma Rousseff em apostar nos fogos de artifício do PAC 3, previsto para abril.

Apresentado por Lula em 2007, o primeiro PAC era arrebatador, com obras que pretendiam revolucionar o País. Ganhou forte apoio do empresariado, chegou a causar inveja até em gente da oposição. Mas empacou.

Para turbinar a campanha de 2010, o PAC ganhou uma segunda edição, e uma mãe, a então ministra Dilma Rousseff, a quem Lula atribuía o sucesso da versão anterior que mal saíra do papel: 54% das obras nem projeto tinham. Na época, anunciou-se com estardalhaço que o PAC 2 significaria investimentos em torno de R$ 1,6 trilhão. Os últimos dados apontam a execução de R$ 665 bilhões, a maior parte em financiamento habitacional. O 9º balanço, aguardado para a semana que passou, nem mesmo foi divulgado.
  
Foto: Ed Ferreira / AE

Pouco importa se os demais PACs empacaram. O ano de 2014 tem eleição e vem aí o PAC 3. Apelidado como PAC da mobilidade, o mesmo termo que sustentou a ilusão do upgrade das cidades que sediarão a Copa do Mundo da Fifa.

Na mesma toada que deu certo na eleição anterior, no site do PAC, o futuro é hoje. Em destaque estão investimentos de R$ 2,5 bilhões em Belo Horizonte, capital do estado-base do candidato tucano à presidência, Aécio Neves. Antes de tudo, reforça a campanha do mais querido dos auxiliares de Dilma, o ex-ministro Fernando Pimentel, que disputará do governo de Minas.

O PAC oficial festeja ainda o legado dos Jogos Olímpicos de 2016, com quase R$ 1 trilhão de investimentos. Comete-se o mesmo erro dos sonhos dourados da Copa.

Difícil imaginar que os marqueteiros de Dilma, com todo o instrumental de que dispõem, incluindo pesquisas de opinião pagas com o dinheiro do contribuinte, errariam o tom. Deve ser por isso que decidiram misturar o requentado discurso do “quem não está conosco está contra o País” à promessa do Brasil Xangri-La.

Pode até dar certo de novo. Mas é muita cara de pau.

Transparência de meia tigela

Gil Castello Branco
O Globo

Saber o que comeram os funcionários nos voos da FAB, à custa dosimpostos, é questão de segurança nacional

Na semana passada, após pressão da sociedade, 467 deputados federais votaram nominalmente a cassação do mandato do deputado Natan Donadon. Com a cara de pau peculiar à maioria, seis meses depois de considerarem natural manter como “colega” um condenado pelo Supremo Tribunal Federal, mudaram radicalmente de opinião. Certamente, a inversão do comportamento não ocorreu pelo florescer repentino das consciências dos nobres parlamentares, mas sim pelo medo da opinião pública nas próximas eleições. O fato faz lembrar a frase de um juiz americano, Luiz Brandeis, proferida há mais de um século: “A luz do sol é o melhor dos desinfetantes.”

No Brasil, leis recentes ampliaram a transparência da gestão pública. A Lei Complementar 131, de 2009, obrigou a União, estados e municípios a publicarem suas contas na internet. A chamada Lei de Acesso à Informação (lei 12.527/2011) permitiu que qualquer cidadão faça solicitações ao Estado e este seja obrigado a respondê-las ou negá-las por escrito. Na prática, porém, obter esclarecimentos da administração pública — muitas vezes banais — ainda é uma odisseia.

O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e o BNDES, por exemplo, consideraram confidenciais as condições do financiamento de R$ 1,6 bilhão que o Brasil concedeu ao governo de Cuba para a construção do Porto de Mariel. O valor repassado à ditadura cubana é três vezes maior do que todos os investimentos em 2013 das Companhias Docas, responsáveis por administrar 18 dos 34 portos brasileiros. Somente em 2027, dois anos antes do prazo final para a quitação da dívida, é que a sociedade brasileira conhecerá os termos dessa operação caribenha misteriosa.

A Presidência da República também tem segredos. No ano passado, o Contas Abertas tentou saber o que comiam e bebiam os burocratas e convidados durante as viagens nos jatinhos da Força Aérea Brasileira (FAB). Somente o contrato do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI-PR) com a empresa RA Catering prevê o valor de R$ 1,9 milhão. No cardápio estão guloseimas como coelho assado, costeleta de cordeiro, rã, pato, sorvetes Häagen-Dazs e canapés de camarão e de caviar, entre outras. Como só é pago o que for degustado, foram solicitadas à GSI-PR, por meio da Lei de Acesso à Informação, cópias das notas fiscais e faturas em que estão discriminadas as iguarias que realmente foram consumidas, ao custo de R$ 824.600, desde a assinatura do contrato em outubro de 2013. Em resposta, o Palácio do Planalto considerou a informação “sigilosa” por colocar “em risco a segurança de instituições ou de altas autoridades nacionais ou estrangeiras e seus familiares”. Ou seja, saber o que comeram os funcionários da Presidência da República nos voos da FAB, à custa dos impostos que os brasileiros pagam, é questão de segurança nacional.

Os absurdos não param por aí. Há vários anos, as Leis de Diretrizes Orçamentárias mencionam claramente que cidadãos e entidades sem fins lucrativos podem ser habilitados a consultar diversos sistemas informatizados do governo federal, para fins de acompanhamento e fiscalização orçamentária. Assim, o presidente da OAB, Marcus Vinicius Coelho, solicitou acesso a esses sistemas para uso da Comissão Especial de Controle Social dos Gastos Públicos, do Conselho Federal da OAB. No entanto, o Ministério do Planejamento negou o ingresso aos sistemas com uma desculpa esfarrapada. A meu ver, cabe à OAB recorrer à Justiça para que a Lei seja cumprida.

No caso dos estados e dos municípios, a transparência também caminha à meia-boca. Quanto à Lei de Acesso à Informação, quase dois anos após a sua vigência, sete estados e nove capitais ainda não a regulamentaram. Entre os municípios com mais de cem mil habitantes, apenas 24% — incluindo capitais — já o fizeram. O próprio Supremo Tribunal Federal, em péssimo exemplo, ainda não regulamentou a lei, sob a justificativa de que será objeto de análise pela “Comissão de Regimento”. Em relação aos portais, várias prefeituras não possuem sites ou, se existentes, são de péssima qualidade, inviabilizando o controle social.

Enfim, o que tanto querem esconder os nossos homens públicos? O perigo é que as novas leis de transparência acabem, como muitas outras, restritas aos anais do Congresso, às páginas do Diário Oficial e às estantes dos advogados. Tal como dizia Luiz Brandeis, a luz do sol é um ótimo detergente e a administração pública brasileira — ninguém duvida — precisa ser desinfetada.

#VaiTerCopa

 Demétrio Magnoli
Folha de S. Paulo

A Copa no Brasil é uma desgraça –ou melhor, é uma síntese de diversas desgraças. Mas é legítima

Protesto é quando digo que não gosto disso ou daquilo. Resistência é quando faço com que as coisas das quais não gosto não mais aconteçam.” O mês era maio; o ano, 1968; o lugar, Berlim Ocidental; a autora, Ulrike Meinhof, uma jornalista de extrema-esquerda que, dois anos depois, organizaria o ato terrorista inaugural do grupo Baader-Meinhof. O “protesto” contra a Copa no Brasil impulsionou as manifestações de massa de junho do ano passado. A “resistência” à realização da Copa, expressa no dístico “#NãoVaiTerCopa”, ameaça degradar ainda mais nossa democracia, dissolvendo a política no caldo da arruaça e da violência.

A Copa é uma desgraça –ou melhor, é uma síntese de diversas desgraças: desperdício de recursos escassos, desvio de dinheiro público para negócios privados, desprezo a prioridades sociais, desrespeito aos direitos de moradores submetidos a remoções compulsórias. Mas a Copa é legítima: dois governos eleitos, o de Lula e o de Dilma, decidiram sobre a candidatura brasileira, a legislação do evento e a mobilização de recursos para a sua realização. “#NãoVaiTerCopa” é a bandeira de grupúsculos políticos que não reconhecem as regras do jogo da democracia.

A Copa da Fifa, dos “patrocinadores oficiais” e das “marcas associadas” é um “negócio do Brasil” fincado no terreno do sequestro legal de dinheiro público. A Copa da Fifa, de Lula e de Dilma é uma tentativa política de restaurar o passado, em novas roupagens: o “Brasil-Grande” dos generais Médici e Geisel, emblema da coesão social em torno do poder. O “protesto” contra a Copa evidencia o fracasso do governo na operação de ludibriar o país inteiro, embriagando-o num verde-amarelismo reminiscente da ditadura militar. Mas a “resistência” contra a Copa só revela que, no 12º ano do lulopetismo, a praça do debate público converteu-se no pátio de folguedos de vândalos e extremistas.

Quando escreveu sobre “protesto” e “resistência”, Meinhof concluíra que a Alemanha Ocidental era um “Estado fascista” disfarçado sob o véu da democracia representativa. Fanáticos sempre podem dizer isso, descartando com um gesto banal todo o aparato eleitoral, institucional e jurídico das democracias. “Estado policial” é a versão brasileira do diagnóstico de Meinhof. Ao abrigo dessa invocação, configura-se uma perigosa aliança tática entre lideranças radicalizadas de “movimentos sociais”, pseudo-anarquistas, extremistas de direita e black blocs. Nas suas redes sociais, misturam-se delírios revolucionários, iracundas acusações contra a “mídia” e líricos elogios ao regime militar. Depois do “#NãoVaiTerCopa”, emergirá o “#NãoVaiTerEleições”, prometem esses depredadores da política, enquanto acumulam arsenais de rojões de vara.

O “protesto” contra a Copa tocou fundo na consciência das pessoas. Contudo, foi represado pela lona impermeável da coalizão governista e, ainda, pela adesão voluntária de governadores e prefeitos dos partidos de oposição à farra da Copa. Na Copa das Confederações, os cordões policiais de isolamento de um “perímetro de segurança” em torno dos estádios atestaram que, no Brasil rendido à Fifa, o direito à manifestação pacífica tem uma vergonhosa cláusula de exceção. Os incautos interpretam o “#NãoVaiTerCopa” como prosseguimento dos protestos de junho. Mas, de fato, o estandarte autoritário funciona como antídoto contra manifestações pacíficas e pretexto ideal para a repressão ao protesto legítimo.

“Agora, depois que se demonstrou que existem instrumentos outros além de simples manifestações; agora, quando se quebraram as algemas da decência comum, a discussão sobre violência e contraviolência pode e deve começar novamente”, escreveu Meinhof. O “#NãoVaiTerCopa” é uma atualização tupiniquim daquela conclamação à “contraviolência”. A resposta certa a ela é dizer: #VaiTerCopa –infelizmente.

Alguma dúvida?

Maria Helena RR de Sousa
Blog do Noblat

Alguém duvida que o Brasil precise de mais médicos? Muitos mais?

Um país continental, com áreas onde jorra dinheiro, outras onde vive uma burguesia que luta para manter a cabeça fora d’ água e uma imensidão de miseráveis, não haveria de precisar de muitas e muitas coisas, mas, sobretudo, de mais médicos?

Dona Dilma, filha e sobrinha de idosas, mãe e avó, sabe o quanto é importante um médico ao alcance de nossa angústia diante da doença de um de nossos queridos. Tenho certeza disso.

Outros, quando ouvem ou leem alguém que discorda do programa padilho/caribenho, se apressam em dizer que é porque nós, os insensíveis, não sofremos o que sofrem os desvalidos dos grotões do Brasil.

Como tudo que vem do PT e dos petistas, é assim que a banda toca: eles são anjos de candura e, nós, os antipetistas, monstros tenebrosos. Mas algo me diz que dentro de alguns anos teremos em Brasília muitos retratos de Dorian Grey...

Nesse programa há médicos de outros países, como já se sabe. Algum deles ganha dez mil e recebe mil? Algum deles foi obrigado a deixar a família para trás? Algum deles, para se movimentar aqui dentro do Brasil, é obrigado a prestar contas a uma vigilante tipo a cubana Vivian Isabel Chávez Pérez? (VEJA, 19/02/2014).
  
Angústia e Vergonha, por David Alfaro Siqueros

O governo dos outros países recebe o salário dos seus médicos que aqui estão? Permite que eles sejam alocados na cidade tal e que de lá não possam sair sem ordens de um vigilante? Concordam em que só o médico tenha visto de entrada no Brasil e a família não?

Pior: por que os nossos médicos precisam confirmar sua graduação e os cubanos entram aqui com a cara e a coragem e nós temos que acreditar em sua graduação e mais, em suas especialidades?

Outra coisa é a barreira da língua. Só quem nunca morou em país de língua estrangeira acha que é possível explicar o que se sente, quais os sintomas da queixa, ou responder às perguntas dos médicos sem conhecer muito bem a língua falada por eles. Se em Portugal ou Angola ou Moçambique podemos nos confundir, imagine em Madrid, Lima ou Havana. E o vice-versa é a mais pura verdade.

Nós precisamos de Mais Médicos, não há a menor dúvida. Mas precisamos de Mais Vergonha na Cara: para reformar e restaurar as maravilhosas Santas Casas que herdamos de Portugal; para espalhar pelo país ambulatórios bem equipados; para atender às Escolas de Medicina de norte a sul; e, pelo amor de Deus, para prover de esgoto sanitário todas as ruas e praças de nosso Brasil.

E mais depressa do que imediatamente, cancelar esse absurdo contrato com Cuba. Se multa houver – e eu não acredito que algum tribunal dê ganho de causa a Cuba – ainda assim sairia mais barato indenizar os irmãos Castro do que passar pela vergonha de sermos o último país a abolir a escravidão e o primeiro a reinaugurá-la.

Um esquerdista pode tudo

Rodrigo Constantino
O Globo

Ser de esquerda, no Brasil, significa ter um salvo-conduto para defender todo tipo de atrocidade e cair nas maiores contradições. É o monopólio das virtudes após décadas de lavagem cerebral demonizando a direita liberal ou conservadora.

Um esquerdista pode, por exemplo, mostrar-se revoltado com o regime militar, tentar reescrever a história como se os comunistas da década de 1960 lutassem por democracia e liberdade, tentar mudar o nome até de ponte, e logo depois partir para um abraço carinhoso no mais velho e cruel ditador do continente, Fidel Castro.

Um esquerdista pode, também, repudiar o “trabalho escravo” em certas fazendas brasileiras, o que significa não atender às mais de 200 exigências legais (incluindo espessura de colchão), e logo depois aplaudir o programa Mais Médicos do governo Dilma, que trata cubanos como simples mercadoria.

Um esquerdista pode tentar desqualificar uma médica cubana que pede asilo político, alegando que tinha problemas com bebida e recebia amantes em seu quarto (é proibido isso agora?), para logo depois chamar de preconceito de elite qualquer crítica ao ex-presidente chegado a uma cachaça e a “amizades íntimas”.

Um esquerdista pode culpar o embargo americano pela miséria da ilha-presídio caribenha, ignorando que toda experiência socialista acabou em total miséria, e logo depois condenar a globalização e chamar o comércio com ianques de “exploração” (decidam logo se ser “explorado” pelo capitalismo é bom ou ruim).

Um esquerdista pode execrar uma jornalista que diz compreender a revolta que leva ao ato de se fazer justiça com as próprias mãos, e logo depois aplaudir invasores de terras e outros “movimentos sociais”, que se julgam acima das leis em nome de suas “nobres” causas. Pode até receber os criminosos no Palácio do Planalto!

Um esquerdista pode aliviar a barra do criminoso, tratar o marginal como “vítima da sociedade”, e logo depois posar como defensor dos pobres honestos, ignorando que a afirmação anterior representa uma grave ofensa a todos aqueles que, apesar da origem humilde, mostram-se pessoas decentes por escolha própria.

Um esquerdista pode repudiar a ganância dos capitalistas, condenar o lucro, e logo depois aplaudir socialistas milionários, ou “homens do povo” que vivem como nababos, que cobram fortunas para fazer palestras, ou artistas que negociam enormes cachês com multinacionais para seus filmes ou comerciais.

Um esquerdista pode ser um músico famoso ou um comediante popular, e basta a fama por tais características para fazê-lo acreditar que é um grande pensador político, um intelectual de peso, alguém preparado para opinar com embasamento sobre os mais diversos assuntos sem constrangimento.

Um esquerdista pode insistir de forma patológica na cor do meliante preso ao poste, um rapaz negro, e logo depois ignorar outro bandido amarrado a um poste, pois este tinha a cor “errada”: era branco. Pode, ainda, acusar todos que condenam as cotas raciais de “racistas”, e logo depois descascar Joaquim Barbosa, inclusive por causa de sua cor.

Um esquerdista pode alegar ser a pessoa mais tolerante do mundo, isenta de qualquer preconceito e apaixonada pela diversidade, para logo depois ridicularizar crentes evangélicos, conservadores católicos ou liberais céticos.

Um esquerdista pode surtar com o uso de balas de borracha pela polícia contra “ativistas” mascarados que quebram tudo em volta, para logo depois cair em um ensurdecedor silêncio quando o governo socialista venezuelano manda tanques para as ruas para atirar a esmo em estudantes durante protestos legítimos contra um simulacro de democracia.

Um esquerdista, por fim, pode pintar as cores mais românticas e revolucionárias sobre as máscaras de vândalos e arruaceiros que atacam policiais, para logo depois chamar de “fascista” a direita liberal, ignorando que o fascismo de Mussolini tinha os camisas-negras que agiam de forma bastante similar aos black blocs.

Assim caminha a insanidade na Terra do Nunca, com “sininhos” aprontando por aí enquanto os artistas e “intelectuais” endossam a agressão contra o “sistema”. No fundo, defendem a barbárie contra a civilização. Abusam da dialética marxista, do duplo padrão moral de julgamento, da revolta seletiva, do cinismo, do monopólio da virtude.

Um esquerdista jamais precisa se importar com a coerência, com o resultado concreto de suas ideias, com pobres de carne e osso. Ele goza de um álibi prévio contra qualquer acusação. Afinal, é de esquerda, ou seja, possui as mais lindas intenções. É o suficiente. Um esquerdista pode tudo!

A cegueira da presidente

O Estado de S.Paulo

Tido como o mais ponderado dos ministros da linha de frente do governo Dilma Rousseff, o titular das Comunicações, Paulo Bernardo, encarnou a beligerância com que a presidente reage costumeiramente quando se sente contrariada. Confrontado, numa entrevista a este jornal, publicada domingo, com a realidade ofuscante da insatisfação do empresariado com o Planalto, o ministro retrucou de bate-pronto: "Empresário ficar fazendo beicinho não dá". Um viajante recém-chegado de Marte não poderia ser criticado se imaginasse, diante desse enunciado desdenhoso, que a economia nacional está bombando e que o setor choraminga porque é de seu feitio, qualquer que seja o governo de turno.

Não bastasse a canelada, Bernardo ainda reduziu o descrédito da presidente nos meios empresariais a uma rusga conjugal que pode ser superada com uma boa conversa. "Temos de melhorar o relacionamento. Só isso", diagnosticou. E, numa bizarra mistura de burocratês com psicologia de esquina, prescreveu: "É preciso fazer uma boa DR com os empresários e ouvir". Saibam os capitães da indústria e do agronegócio, além do público em geral, que, na sintaxe bernardina, DR significa "discutir a relação". À parte a falta de senso do ridículo, vá o ministro chamar para o equivalente a uma terapia de grupo o presidente do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Pedro Passos.

Ele e a entidade que chefia podem ser tudo, menos opositores do Estado como indutor do crescimento econômico. No domingo anterior, também em entrevista a este jornal, o insuspeito Passos provocou ondas de choque ao declarar, singelamente, que a confiança dos seus colegas no governo "acabou". Ou vá o ministro sugerir o mesmo ao usineiro Maurílio Biagi Filho que, dias atrás, refugou o convite para ser o vice do candidato do PT ao governo paulista, Alexandre Padilha. "É difícil ganhar a eleição em São Paulo com o agronegócio ruim", disse na presença do mentor da candidatura, o ex-presidente Lula. "O problema é causado pela política do governo federal e não adianta mais promessa."

Bernardo ainda poderia testar a poção mágica da "DR" junto ao presidente do Moinho Pacífico, Lawrence Pih, ligado ao PT até o mensalão. "Não adiantam só palavras", aponta. Ele demanda "ações concretas" para conter a "desindustrialização". A expressão remonta aos anos Collor quando os beneficiários da reserva de mercado entraram em polvorosa com a abertura da economia. Voltou à tona contra a política de rigor fiscal de Fernando Henrique. Eram falsos alarmes. Mas a atual derrocada da indústria se traduz em evidências incontestáveis - que, entre outros estragos políticos, obrigaram Dilma a nomear um interino para a Pasta do Desenvolvimento, à falta de líderes empresariais interessados.

Há muito mais no governo, além do impróprio "beicinho" do ministro das Comunicações e de sua fé na "DR". As ideias, digamos assim, que circulam no centro do poder contêm material suficiente para uma versão dilmista do Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago. Conforme o Estado noticiou, a presidente estaria querendo criar um fórum empresarial voltado para a campanha da reeleição para tentar neutralizar as críticas do setor, amplificadas pela oposição. Cada um fica livre para imaginar o calibre e os efeitos desse novo Conselhão, o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social criado em 2003 e que ainda precisa dizer a que veio. É certo, de todo modo, que o fórum será mais uma câmara de eco para Dilma.

A certidão de batismo desse ente seria um documento em que ela proclamaria os seus compromissos com o soerguimento da indústria, à maneira da Carta ao Povo Brasileiro do candidato Lula em 2002 - como se o empresariado precisasse de compromissos em vez de atos que, já não sem tempo, façam sentido. E estes não virão, a menos que, por um sortilégio, a presidente se transfigure. Boa parte do seu fracasso na economia se explica pelo caráter errático de suas decisões, ao sabor da vontade da hora. Some-se a isso o vezo autoritário, donde o déficit de audição de Dilma, e o resultado só pode ser o ceticismo dos agentes econômicos. Se algo faltava, era a acusação de fazerem beicinho.

Projeto do governo para proibir baderneiros mascarados em manifestações é UMA PIADA. Ministro Cardozo, o senhor quer nos fazer de palhaços?

Ricardo Setti
Veja online

(Foto: Paulo Campos / Futura Press / Estadão Conteúdo) 
Vândalos mascarados avançam sobre catraca do metrô de São Paulo: 
projeto do governo prevê que eles serão reprimidos, exceto se 
se identificarem perante um policial DURANTE as manifestações 

Amigas e amigos do blog, o Brasil, definitivamente, é o país da piada pronta, como diz o Zé Simão.

Vocês viram a bravura e a coragem do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que quer proibir o uso de máscaras em protestos públicos?

Sou totalmente favorável a isso — e até mais, pois já sugeri, em post, que a polícia PRENDA mascarados em manifestações, porque quem vai sem revelar a identidade em protestos que vêm resultando em violência em quase 100% dos casos não pode estar e não está bem intencionado.

O problema é a ressalva feita pelo projeto de lei a ser remetido pelo governo ao Congresso, “em regime de urgência”.

LEIAM VOCÊS MESMOS, COM SEUS PRÓPRIOS OLHOS, REPORTAGEM DO SITE DE VEJA. Volto em seguida:

“Quem quiser pintar o rosto pode pintar, mas será vedado o uso de máscara ou camisa cobrindo o rosto, sem que as pessoas se identifiquem, para evitar o vandalismo”, afirmou o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. “A lei proíbe o anonimato. As pessoas têm de arcar com as consequências do que fazem. Ninguém pode se infiltrar em manifestações para depredar o patrimônio, agredir, matar e não ser punido.”

Pelo projeto de lei, os manifestantes mascarados que se recusarem a apresentar a identificação serão encaminhados à polícia. “Se a pessoa se negar a sair do anonimato, estará cometendo crime de desobediência. E casos de reincidência configuram sanção penal mais elevada”, afirmou Cardozo.

AGORA, VOLTO A COMENTAR:
Piada! Piada! Piada!

O ministro vive em que lugar? Em Marte?

 (Foto: Marcelo Casal Jr. / Agência Brasil)
É piada pronta o projeto engendrado pelo cérebro do ministro Cardozo: 
baderneiro mascarado não terá problemas se se identificar perante um policial 
— isso em uma manifestação de milhares de pessoas! 

Vamos imaginar a cena propiciada pela imensa bobagem proferida por ele. Há uma manifestação contra o governo, a Copa do Mundo ou o que seja. Cinco mil pessoas nas ruas. No meio delas, 300 mascarados.

Do outro lado do local público, a tropa de choque da Polícia Militar, pronta a intervir.

Avistando os mascarados, os policiais militares deixam de lado seus escudos, suas outras proteções e seus instrumentos de dissuasão, como bombas de gás lacrimogênio e de efeito moral, e caminham em direção à multidão, pedindo licença para passar até começarem a chegar aos black blocs.

Aí, vão de um a um, perguntando:

– Por gentileza, o senhor, que está mascarado, poderia me mostrar sua identidade?

Isso para 300 baderneiros!

O ministro, se não estiver fora de si, ou está brincando ou acha que todos nós, brasileiros que nos consideramos de bem e pacíficos, somos BOBOS!

Como é possível colocar essa ressalva — de os mascarados precisarem se identificar ante a autoridade policial — quando se trata de manifestações de massa?

Uma sugestão: pesquisa de campo. O ministro deveria receber um treinamento básico, fardar-se de PM e ir, pessoalmente, executar a manobra que seu cérebro imaginou durante uma manifestação de massa, hostil e ululante.

Santo Deus, o governo poderia, pelo menos, deixar de zombar de nós, brasileiros!!!

Tirando a máscara

Ruth De Aquino
Revista ÉPOCA

O capuz de Caio e o voto secreto no Congresso escondiam quem sabotava a democracia

A máscara é um disfarce. O capuz de Caio e o voto secreto do Congresso serviam para esconder o nome e o rosto de quem sabotava a democracia. Nem Caio nem os deputados queriam assumir seus atos diante da sociedade e da opinião pública. Tudo faziam para não se expor.

É natural que se tente disfarçar a autoria de um crime contra a vida ou um delito de consciência. No escurinho da máscara, na proteção do anonimato, seja aliciado, recrutado, manipulado ou favorecido, fica mais fácil explodir os valores, as crenças, os ideais e até a vida de um cinegrafista, de um manifestante, de um policial. Ou boicotar o futuro político de uma nação.

Agem todos como assaltantes da esperança num país melhor. Uns ganham R$ 150, quentinhas e vale-transporte, outros ganham milhões de dólares e a gratidão de poderosos. Até que a prisão de mensaleiros e a morte de Santiago acendem um rojão vermelho na cabeça de todos os brasileiros.

No velório de Santiago, as camisetas dos jornalistas traziam nas costas a inscrição: “Poderia ter sido qualquer um de nós”. É verdade. Vamos parar com o ciclo da violência e da ignorância acobertadas e financiadas por quem quer ver o circo pegar fogo. Chega de black blocs e white blocs mascarados! Chega de mártires como Amarildo e Santiago! E chega de corrupção premiada!

Chega de caçar jornalistas como se fossem bruxas! Desde junho de 2013, quando começaram as manifestações públicas, lindas, emocionantes e populares, houve 118 casos de violência contra jornalistas. Isso inclui agressões e prisões indevidas. Desse total, 88 atos de violência partiram de policiais, e 30 de manifestantes. Em 60% dos casos, as agressões não foram aleatórias. O jornalista se identificou. De nada adiantou. Ao contrário. Ao se identificar, o jornalista tem-se tornado alvo – e isso demonstra o medo das autoridades e o desconhecimento de parte da sociedade civil sobre como a imprensa realmente trabalha no Brasil.

Uma coisa é criticar a abordagem de um veículo de informação. Isso não só é legítimo, mas recomendável. Outra é assediar e tentar desmoralizar a imprensa em geral e seus profissionais. Ou, pior, tentar coibir a liberdade de informação. Isso equivale à censura, típica de regimes totalitários.

Com a cassação do deputado-presidiário Natan Donadon, por 467 votos a favor e uma abstenção, na primeira sessão de voto aberto na Câmara, o Congresso tira finalmente a máscara. Donadon mantivera o mandato anteriormente, em votação secreta, envergonhada e vexaminosa. Manter ativo o mandato de um deputado condenado pela Justiça é dar um tapa na cara do eleitor, traído por seus representantes fichas-sujas.

Houve hipocrisia populista em ano eleitoral? Prefiro celebrar esse momento histórico. De cara lavada, a ética se impõe. Se as máscaras do Congresso já tivessem sido tiradas antes, provavelmente não teríamos na presidência do Senado e da Câmara Renan Calheiros e Henrique Alves. O voto aberto nos renova a confiança num Congresso melhor.

Que os manifestantes imitem os congressistas. Que saiam às ruas sem máscaras e assumam seus atos, financiados ou não. Caio estava de rosto livre e feições indignadas no protesto contra o aumento das passagens de ônibus. Vestiu o capuz pouco antes de detonar a bomba caseira, em parceria com seu amigo Fábio Raposo, e fugir em disparada. Caio Silva de Souza, um sobrenome composto, tão brasileiro e tão comum. Um rapaz que desgraça a própria vida ao matar um profissional inocente, que estava na praça para registrar e mostrar a insatisfação popular com o alto custo de vida no Rio de Janeiro.

“Manifestações políticas são feitas por cidadãos que devem ter o orgulho e a responsabilidade de ser autores de seus gestos”, afirma o professor de Direito e formação político-econômica José Garcez Ghirardi. A máscara, segundo Ghirardi, serve como síntese para um desafio complexo das democracias: como legitimar as ações indivi¬duais no espaço público? Indivíduo e cidadão são conceitos distintos, mas temos misturado tudo. Esquecemos assim a civilidade e favorecemos o arbítrio. Ghirardi cita o sociólogo francês Alain Touraine: “Uma sociedade de indivíduos pode destruir uma sociedade de cidadãos”.

Estamos a duas semanas do Carnaval. No Brasil, as máscaras dos foliões, que costumavam ser apenas divertidas, nos últimos anos se politizaram. Agora, em 2014, nessa festa tardia de março, uma das máscaras trará o rosto do pedreiro Amarildo, torturado e morto na Rocinha por policiais. Se os cinegrafistas filmassem o Carnaval com a máscara de Santiago, seria uma homenagem-protesto de imenso peso simbólico.

Nosso baticumbum pré-carnavalesco se reveste de drama épico. Esperamos que, no fim, a verdade e a transparência não sejam só fantasias.