domingo, fevereiro 23, 2014

Até quando Mantega continuará enganando a si mesmo?

Comentando a Notícia


Não tem jeito: por mais que a gente fique esfregando a realidade da economia do país nos olhos de Guido Mantega, mais o ministro tende a se mostrar avesso à ela. Nesta quinta-feira, ao anunciar ao mundo o corte de R$ 44,0 bilhões no orçamento da União e  informar à plateia a meta de superávit, Mantega escorregou na maionese para repetir, pela enésima vez, que nossos problemas e dificuldades são decorrentes dos países ricos – estes eternos mal humorados para com emergentes e subdesenvolvidos -, falando ainda de crise lá fora  como a  desaceleração da China, das tempestades solares, dos anéis de saturno, etc.

Nelson Barbosa, saído do governo Dilma no ano passado, em entrevista a Miriam Leitão, na GloboNews, também se saiu com mesmo este discurso, acrescentando, entretanto, que temos autonomia para resolver muitos dos problemas que nos atingem, mas que há um preço a pagar. Qual seria o preço? O preço político.

É claro que assumir a iniciativa de tocar prá frente as reformas estruturantes que os petistas se negam em assumir, teria um custo político que o partido se nega  pagar. Por exemplo: reforma da previdência. Dado tamanho do rombo atual e considerando a maior expectativa de vida dos brasileiros, a exemplo do que já fizeram muitos países europeus, precisaremos, cedo ou tarde, enfrentar a necessidade de se alongar a idade mínima para aposentadoria. Trata-se de uma imposição que não poderemos fugir por muito tempo, sob pena e risco de tornarmos a previdência, nas condições atuais, totalmente inviável.  Porém, quem assumirá a reação da sociedade, dos sindicatos e centrais sindicais, dos ditos movimentos sociais, ONGs, partidos de esquerda e   toda a fauna de entidades que nem  querem ouvir falar do assunto? Esta turma toda esquece que dinheiro não dá em árvore! 

E a reforma tributária? Quantos projetos já foram enviados ao Congresso e acabam engavetados por absoluta falta de entendimento - e interesse - entre deputados e senadores? E, no entanto, produtos manufaturados e semi faturados brasileiros  são cada mais raros na nossa pauta de exportações.

A maior parte de nossas dificuldades encontram suas causas aqui dentro mesmo, e tentar culpar terceiros tem sido a regra para fugir-se de temas impopulares. Esta transferência de responsabilidades é marca indelével dos governos petistas. E se valem deste cretinismo hediondo justamente para deixar de fazer aquilo que é mais valioso para o país: reformas profundas.

Na oposição, os petistas moveram céus e terra contra o Plano Real e todas as medidas dele resultantes. E, no entanto, já no poder, tornaram-se herdeiros dos benefícios a tal ponto que se patronos da estabilidade econômica. Ou seja, nas virtudes, querem apropriar-se da obra contra a qual foram ferrenhos opositores e sair placidamente cumprimentando com o chapéu alheio.

Uma questão que o governo deveria mirar com atenção redobrada são os gastos excessivos. Desde que assumiram em 2003, os gastos correntes têm crescido continuamente em montantes superiores ao crescimento real da arrecadação e ao crescimento do PIB. Assim, para fazer frente à torração de dinheiro público,  ou aumentam-se os impostos – e isto tem sido feito mesmo que de maneira gradual -, ou se aumenta a dívida pública – e isto tem acontecido de maneira acelerada.  E este aumento de gastos nada tem a ver com crises externas ou com a desaceleração da economia chinesa. Tem a ver com a falta de controle, com o desatino do espírito de ostentação que habita as mentes e as almas de quem está no poder.  Os Estados Unidos tem território e população bem maiores do que as brasileiras, sua economia é cinco vezes maior do que a nossa e, no entanto, Obama governa a Casa Branca com apenas 15 ministérios, enquanto os petistas já chegaram ao absurdo ministério de 40 pastas. Isto exige uma estrutura cara e dispendiosa, e a maioria dos ministérios serve apenas de cabide de emprego para os gananciosos políticos de  uma base de apoio inchada e balofa ao extremo.

Ponham neste balaio cerca de 23 mil cargos de favor, uma penca de estatais inúteis e temos aí uma fábula de desperdício que consome recursos que escasseiam em áreas mais prioritárias e com benefício direto para a população.

Guido Mantega, até um certo tempo, conseguiu engambelar a plateia com este discurso vazio e disparatado,  completamente distante da realidade.  Na medida em que as pessoas foram se dando conta do papo furado do ministro, o próprio governo foi perdendo credibilidade. A desconfiança, é bom que se registre, não se dá por questões políticas, ou porque as pessoas estão de má vontade com quem está no poder. Esta falta de credibilidade é resultado de um discurso que não se casa com a realidade, e também fruto dos resultados ruins que a economia brasileira vem colhendo. Associem a isto tudo,  promessas que não se cumprem, previsões furadas ano após ano, malabarismos e mandracarias de todo o gênero para enfeitar com perfumaria barata a má gestão das contas públicas, e temos um quadro a justificar o pessimismo em relação as autoridades que teimam em não assumir seus próprios erros e desacertos.

Tanto é assim que,  parece  à primeira vista, o governo Dilma não esperou muito tempo para rever suas metas, tanto em relação ao crescimento do PIB, quanto ao possível de se alcançar em relação ao superávit primário. O corte de R$ 44,00 bilhões sinalizam a preocupação de dar um aviso ao mercado de que o governo está comprometido, em 2014, em cumprir as metas fiscais necessárias à boa gestão das contas públicas, procurando não perder de vista o indispensável equilíbrio fiscal.

Claro que todos sabemos o quanto de esqueletos mal cheirosos estarão sendo empurrados para 2015. A rubrica subsídios e subvenções, apesar do corte, tende a crescer num ano eleitoral. O que todos hoje se perguntam é se terá o governo Dilma disciplina necessária para atingir as metas propostas. E que fique claro: diante dos sinais de recuperação das principais economias do planeta, o não cumprimento daquelas metas terá que, necessariamente, encontrar outros culpados como alvo. 

Preocupa é que a deterioração das contas públicas segue em ritmo acelerado.  O déficit recorde de 11,591 bilhões de dólares nas transações correntes de janeiro - acumulando um total nos doze últimos meses superior a R$ 80 bilhões -, influenciado, sobretudo, pelo fraco desempenho da balança comercial e pelas remessas de lucros e dividendos das empresas é assustador. Durante o período que se seguiu à crise internacional de 2009, bilhões de dólares sobrevoaram o planeta em busca de oportunidades de investimento. O Brasil, contudo, continuou avesso em se aproveitar deste imenso capital em favor de seu desenvolvimento. Na medida em que o FED americano, agora, começa a retirar, gradualmente, estes bilhões de dólares, o único atrativo que restou ao Brasil são seus juros altos. Mas estes não vem para investimentos produtivos, e sim em busca de lucro fácil. Entra hoje, sai amanhã. É o chamado capital motel. Só que ele é necessário para cobrir os rombos provocados pela falta de responsabilidade fiscal. 

Enquanto isto, outros países, com muito menos riquezas e oportunidades, aproveitaram para fazer as reformas necessárias para aproveitar a liquidez internacional e atrair investimentos produtivos. É o caso da Aliança do Pacífico da qual participam Chile, Peru, Colômbia e México. Alguém ouve ou lê de parte das autoridades econômicas destes países alguma crítica aos países ricos?

E o que se dizer da enorme indisposição do governo Dilma para acelerar  acordos de comércio bilateral. Continuamos insistindo em nos prendermos a um Mercosul de países falidos e em crise institucional. O Mercosul, que era para ser uma aliança comercial, pouco a pouco foi se prostituindo e se convertendo num clubinho de politiqueiros sul americanos mal arranjados, todos devotos da cartilha dos irmãos Castro. Perdeu seu sentido, perdeu sua essência e hoje mais nos atrapalha e prejudica do que nos traz algum benefício.

Como se vê neste pequeno retrospecto, nossas dificuldades atuais nada tem a ver com causas externas. São frutos de nossos erros e más escolhas, nosso preconceito ideológico ao capital privado, nossa teimosia  em nos manter aliados a economias irrelevantes. Durante muito tempo criticamos aqui o despropósito do Brasil jogar bilhões de dólares em investimentos externos, quando por aqui faltavam-nos recursos em áreas essenciais como a infraestrutura, educação, segurança, transporte público, saneamento básico . 

É por tudo isso e outras tantas razões que aqui deixamos de abordar,  que nosso crescimento continua pífio, com inflação alta, déficits crescentes, juros nas alturas e dívida pública em níveis preocupantes. 

Como o discurso do governo teima em bater em teclas surradas, as perspectivas do Brasil em relação a, num futuro imediato, tomar um novo rumo são ruins. E como a perspectiva do bastão trocar de mãos também são mínimas, o país deve se preparar para viver os dois primeiros anos do próximo governo, independente de quem seja eleito, com muitas tempestades. Deixamos o tempo passar sem aproveitar as oportunidades que nos foram oferecidas. Resta-nos agora colher os maus frutos e, isto, já vem acontecendo.
     
Pesquisas e mais pesquisas, e o que realmente importa   
Duas pesquisas saídas do forno. Uma, dá a vitória a Dilma no primeiro turno. Nem poderia ser diferente. Dilma é assunto de manhã, de tarde e à noite em todas as redes de televisão, rádio, internet. Claro, ela já seria notícia pelo simples fato de ser presidente do país. Imaginem quando além de presidente, a candidata à reeleição continuando misturando a ação de governar com o palanque eleitoral.  Fora da período legal de campanha, Dilma ter o peso que tem, parece-me muito natural. Daí porque ser preocupante que nesta pesquisa se tenha apontado 24% de indecisos. Ora, difícil imaginar, diante de tanta exposição, que a senhora Rousseff não seja conhecida pelo povo brasileiro.  Como o segundo colocado, Aécio tem 17%, aquele bloco de indecisos pode definir a parada em favor ou não de Dilma, podendo levar a eleição presidencial para um segundo turno, totalmente indesejável pelos petistas.   

Já a outra pesquisa, sobre a aprovação do governo Dilma,  e por ora é o que interessa, aponta leve queda, de 43% para 39%. Também, aqui, um resultado normal, já que se situa dentro da margem de erro, ainda que perigosamente. 

Infelizmente, o IBOPE não fez, e se fez não divulgou, a avaliação por item de atuação do governo, isto é, qual o conceito de aprovação/desaprovação para educação, saúde, transporte, segurança, saneamento, carga de impostos, inflação, etc. O índice divulgado é amplo demais, genérico demais para se ter uma ideia sobre os efeitos causados pela ação de governar de Dilma sobre a população. Que a avaliação geral seja divulgada, tudo bem, mas melhor seria para os analistas políticos se as avaliações abrangessem campos específicos da ação de governar da presidente. E,  neste caso,  teríamos muitas surpresas. Porque, rigorosamente, em itens específicos, o conceito geral sequer é superior ao regular. 

Amarrando bandidos em postes
Piadinha na internet:



Avanço para o passado

J.R. Guzzo 
Revista VEJA

A governante número 1 de um país com as misérias do Brasil simplesmente não tem o direito moral de gastar 8 000 euros do Tesouro Nacional para pagar uma noite de sono

Imaginem por um curto instante o estado de choque em que ficariam o comitê central do PT, seus milhares de militantes e sua agressiva (e cada vez mais cara) máquina de propaganda, se esta revista, para dar um exemplo de entendimento bem fácil, publicasse um texto no qual o povo brasileiro fosse chamado de “essa gente”. Mais: que “essa gente” está cometendo uma enorme “ingratidão” ao protestar contra o governo, depois de todos os presentes que tem ganhado das nossas mais altas autoridades. O mundo viria abaixo – eis aí, diria a esquerda nacional, a prova definitiva da sordidez sem limites da “grande mídia” brasileira. Mas, graças ao bom Deus, quem disse isso não foi VEJA, e sim o secretário-geral (com nível de ministro) Gilberto Carvalho, descrito como homem de importância praticamente sobrenatural dentro e fora do Palácio do Planalto. Será que foi mesmo ele? Sim, está provado que foi, numa viagem recente a Porto Alegre. “Fizemos tanto por essa gente”, queixou-se Carvalho, “e agora eles se levantam contra nós.” Essa gente? Eles? Ingratidão? É um concentrado de insultos à população que parece ter saído diretamente da linguagem utilizada no Brasil antes da abolição da escravatura.

Está tudo errado nessa declaração, a começar pelo sujeito da frase. “Fizemos”? Quem “fizemos”? É como se o ministro e seus companheiros estivessem tirando dinheiro do próprio bolso para dar aos pobres; mas quem banca tudo é o povo, a cada tostão que tem de pagar em impostos quando compra um palito de fósforo que seja. Ao mesmo tempo, está tudo certo, certíssimo: a frase do companheiro é provavelmente a tomografia mais fiel já feita até hoje dos verdadeiros sentimentos que os donos atuais do Brasil têm em relação à sociedade brasileira. O secretário, simplesmente, disse em público aquilo em que ele e os companheiros acreditam em particular. Foi uma espécie de hora da verdade — por distração, ou sabe-se lá por que, Carvalho esqueceu a regra-base de seu partido, que manda os chefes não falarem como pensam e, mais do que tudo, não agirem como falam. “Essa gente” a que se refere o companheiro Carvalho, exatamente como os barões do café falavam no Brasil do atraso, é a mesma de sempre: o povão da fila do ônibus ou da sala de espera do SUS, essa grande massa sem rosto ou nome, ignorante, preguiçosa, inepta, desinformada, capaz de ler não mais do que três palavras juntas na telinha do celular, sem noção de seus direitos, só utilizável para o trabalho braçal e ainda por cima ingrata. Quando um dos mais notáveis lordes do almirantado petista fala como falou sobre a nossa “gente”, aparece à vista de todos o real projeto das forças que estão no governo: reinar sobre uma opinião pública obediente, inconsciente e boçal, que tem de agradecer quando recebe um pouco daquilo a que tem direito. O que querem é manter o Brasil exatamente como está e sempre esteve, mas com a astúcia de fingirem que estão mudando tudo.

O governo do ex-presidente Lula, de Dilma Rousseff e do PT é uma das mais bem-sucedidas farsas jamais levadas ao público na história política brasileira. Por conta de progressos ocorridos nos níveis de bem-estar, os mesmos que dezenas de outros países alcançaram nos últimos anos (ou até menos do que muitos deles conseguiram), Lula e seu entorno, com endosso de gente séria pelo mundo afora, garantem que sua missão de fazer uma revolução social no Brasil foi um espetáculo — o tipo da operação concluída com sucesso, como dizem as vozes que desbloqueiam cartões de crédito pelo telefone. Mas não mudou nada no modo como o país é governado, nem como o poder é distribuído, nem como o bolo é fatiado; não houve nenhuma “mudança estrutural”, que é a maneira de os economistas dizerem que foi trocada a pintura do carro, mas não se mexeu em nada no motor. De concreto, mesmo, é o compromisso do governo petista de manter intacto o Brasil do passado — injusto, desigual, atrasado, onde o importante não é ser cidadão brasileiro, e sim depender de quem está no governo. Lula e seu auditório tinham prometido acabar com esse Brasil obsoleto e colocar em seu lugar uma nação pronta para o século XXI. Onze anos após eles chegarem à Presidência da República, o Brasil, na sua essência, está idêntico ao que receberam em janeiro de 2003 — e seus melhores aliados são justamente os chefes políticos que equivalem, hoje, aos senhores de engenho de ontem. Com certeza não houve revolução nenhuma em todo esse período. Como estava, ficou.

O Brasil seria um país bem melhor se Carvalho fosse uma exceção — um “ponto fora da curva”, como se diz hoje. Infelizmente, não é assim. Na verdade, o secretário-geral da Presidência é a própria curva — um espelho que reflete sem piedade a vida como ela é no ano 11 da Era Lulista. Mais que isso, reflete o exemplo de conduta que o homem recebe de quem está acima, e quem está acima dele é a presidente da República. Essa última viagem de Dilma à Suíça e a Cuba, por exemplo, é um perfeito improviso do falso esquerdismo do governo, que tenta ocultar, com palavrório, notas oficiais de sintaxe primitiva e a pura e simples mentira, os hábitos de sultão que seus barões adotam na realidade do cotidiano: falam de um jeito, vivem de outro. O que poderia comprovar melhor seu desprezo pelo cidadão comum do que a mentira que a presidente obrigou seu ministro do Exterior a dizer em público, para esconder os motivos de uma escala “não programada” que fez em Portugal – e, ainda por cima, uma mentira incompetente, incapaz de resistir a 24 horas de investigação? A atitude oficial é: “Inventem aí uma coisa qualquer para dizer ao público”. Para piorar, Dilma hospedou-se num hotel onde a diária da principal suíte passa dos 8 000 euros, soma de meter medo em qualquer campeão das nossas elites mais vorazes. Pode uma coisa dessas? Não pode. Não é uma questão legal; é uma questão de compostura, só isso. A governante número 1 de um país com as misérias do Brasil simplesmente não tem o direito moral de gastar 8 000 euros do Tesouro Nacional para pagar uma noite de sono. O conserto ficou pior que o defeito quando Dilma decidiu esclarecer uma conta de cerca de 300 reais que pagou em seu jantar em Lisboa. “Paguei com o meu dinheiro”, disse ela. “Se o dinheiro é meu, eu como onde quiser. Estou pagando.” Há linguajar que reproduza tão bem o vocabulário truculento da elite brasileira, nos seus piores momentos de onipotência, grosseria e mania de grandeza? Nada de admirar, no fundo, quando se sabe que a presidente aluga um caminhão só para levar suas roupas em viagens internacionais — ou acha comum requisitar hospedagem para 45 assessores, como nesse último passeio. É um dos vícios públicos brasileiros que mais agradam ao PT — a ideia de “aproveitar” até o bagaço tudo o que o “governo está pagando”.

O fato é que existe hoje, nas massas que habitam a máquina estatal, uma imensa distância separando a pregação revolucionária que fazem no palanque das ações que praticam na vida diária. Para manter a pose de “esquerda”, e ao contrário do que ensina o dito popular, o cidadão come presunto Pata Negra, mas arrota mortadela da venda. Quer falar como socialista e, ao mesmo tempo, viver como burguês; não pode dar certo. Há um preço mínimo a pagar para sustentar uma imagem, e esse preço exige que se enfrente um pouco de desconforto para segurar a onda de herói popular. Fidel Castro, por exemplo, hospedou-se num pulgueiro do Harlem em sua primeira visita a Nova York — não no Excelsior de Roma ou no Ritz Four Seasons de Lisboa, como fez sua companheira Dilma. Demagogia? Fidel achou que não; parece que sabia o que estava fazendo.

Os fatos, essa coisa irritante, oferecem muitos outros exemplos da obra de falsificação construída por Lula, Dilma e pelo PT para convencer a plateia de que a “direita”, os “ricos” e os que querem a volta do pelourinho e da chibata são os únicos brasileiros que discordam do governo. É o contrário: estes todos, no mundo das realidades, estão casados com o PT e o PT está casado com eles. Basta olhar um pouco. Não há um único trabalhador no ministério do Partido dos Trabalhadores; em onze anos de governo, e num país com 200 milhões de habitantes, não conseguiram encontrar nenhum até agora, um só que fosse. Ao longo desses anos todos, não foi eliminado no Brasil nem um privilégio sequer, essa praga que mantém nossa vida pública amarrada no século XIX. Não foi cortado um único dos 20 000 a 25 000 cargos públicos para os quais a presidente, seus ministros, os burocratas mais lustrosos e os onos do poder podem nomear quem bem entenderem. A propriedade privada continua sendo sagrada para quem conta com amizades “lá em cima” — sobretudo depois que tantos companheiros passaram a desfrutar dos seus aspectos mais agradáveis. Usineiros continuam, como acontece há séculos, recebendo dinheiro do contribuinte para resolver seus problemas — só neste ano de 2014, levarão perto de 400 milhões de reais para casa. Os “rentistas”, maldição-mor na linguagem da moda entre os economistas de esquerda, nunca viveram tão bem com as suas rendas.

Empresários amigos, e amigos dos amigos, continuam desfrutando o caixa do BNDES, a juros inferiores a 1% ao ano, como sempre desfrutaram durante os governos a serviço da “alta burguesia”. Tem sido especialmente simpático com frigoríficos, gente da celulose, capitães da “indústria nacional” e empreendedores da modalidade Eike Batista, a quem conseguiu emprestar 200 milhões de reais para reformar um hotel no Rio de Janeiro; Eike não reformou um único mictório, a carcaça do hotel já foi vendida e o BNDES, naturalmente, ainda não recebeu um centavo de volta. As empreiteiras de obras públicas vivem uma nova época de ouro, tão rentável como viviam nos governos de “direita”. Uma delas, a Odebrecht, despacha direto com Lula na construção de um incompreensível estádio para o Corinthians, e construiu para Cuba, com dinheiro do povo brasileiro cedido por Dilma, um porto avaliado em quase 1 bilhão de dólares.

O FGTS virou uma festa para milionários. Não há dinheiro que pertença de forma mais clara e direta ao trabalhador — na verdade, existe uma lista, nome por nome, de quem é proprietário das somas ali depositadas e quanto, exatamente, cada um tem na sua conta. O Partido dos Trabalhadores, porém, permite que o governo gaste como bem entender o dinheiro do trabalhador: inventou um “Fundo de Investimento” para o FGTS investir os recursos que recebe todo mês através da folha salarial das empresas, e já tinha, segundo revelação recente da revista EXAME, quase 30 bilhões de reais em carteira no fim de 2013. Três quartos dessa montanha de dinheiro estão aplicados — onde mais poderia ser? — em títulos de dívidas e ações de empresas privadas, muitas de capital fechado. Se algo der errado com elas, as garantias que o FGTS terá serão os papéis de companhias quebradas. Belo investimento para o trabalhador brasileiro, não? Só mesmo um governo dos trabalhadores cuidaria tão bem dos seus interesses financeiros. Na maior parte esse dinheiro está espalhado pela finíssima flor da elite que o PT fala todos os dias em exterminar: a incansável Odebrecht, a Friboi, construtores de sondas para a Petrobras, empreiteiras de obras, construção naval e por aí afora. Deu para entender? O melhor da história é como se decide quem vai receber o dinheiro do fundo. Um conselho de doze membros é quem realmente manda – e ali o governo tem seis representantes, mais três que vêm dessas entidades chapa-branca como Confederação Nacional da Indústria etc. E não há ninguém para falar pelo trabalhador? Sim, um só — um cartola da CUT. Se no lugar dele se sentasse o marajá de Baroda, os trabalhadores brasileiros estariam mais bem representados.

É difícil levar adiante essa vigarice de “governo do povo” quando se considera, além de tudo o que já foi dito, que a presidente da República, como se cogita com certa angústia no Palácio do Planalto, está ameaçada de não poder ir a nenhum jogo da Copa do Mundo, para não levar uma vaia de 24 quilates. Que “governo popular” é esse? O companheiro Carvalho está achando que é uma tremenda injustiça. Mas o que se vai fazer? “Essa gente” é mesmo uma dor de cabeça.

Ela é ele.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Todos levaram na brincadeira e atribuíram a frase engraçada da ministra do Planejamento, Miriam Belchior, a um ato falho: referiu-se à presidente da República como "presidenta Lula". Ato falho, claro. Mas haverá algo de que a ministra sabe, e nós não, que a tenha levado a cometer este curioso equívoco?

Há um clima estranho em Brasília. Partidos normalmente submissos ao Governo - a qualquer Governo, especialmente ao de uma presidente voluntariosa como Dilma Rousseff - resolvem reunir-se publicamente para falar mal da chefa, da autoridade que detém o poder de nomear e demitir, da candidata à reeleição. O presidente da Câmara, o peemedebista Henrique Alves, cuja postura diante de Dilma faz com que o ministro Guido Mantega pareça um altivo dissidente, estava lá junto com expoentes de legendas famosas por sua coerência - sempre ao lado do Governo, seja qual for - como PP, PTB, PSD, PR, Pros, PDT, PSC, mais o Solidariedade, que agora é Aécio. Que é que levou a combativa turma do "sim, senhora" a falar mal de Dilma, deixar vazar a conversa e discutir a formação de um bloco que possa contrapor-se à motoniveladora parlamentar do Governo?

Desta vez, parece, não se trata de ameaçar com dificuldades para valorizar-se. Nem se pode esquecer que, pela pesquisa CNT, Dilma seria reeleita no primeiro turno. Bom, para Suas Excelências, seria ficar a seu lado. Por que não ficam?

Há algo diferente no ar. Sábias raposas garantem que Lula quer ser o candidato. Por Lula, Dilma desiste. Aí só faltaria a justificativa para trocar Ela por Ele.

Experiência de sobra
O jornalista Ricardo Noblat, mais de 30 anos de experiência em Brasília, publicou, sem citar fontes, mas assumindo as informações, este intrigante texto: 

"Lula só pensa em suceder Dilma a partir do próximo ano. Dona Marisa só pensa no vestido da posse. O PT só pensa em como se livrar de Dilma".

"Aliás, os políticos em geral, independentemente de partido, só pensam em ver Dilma pelas costas".

"Isso quer dizer que Lula vai ser candidato do PT em outubro próximo? Bem, o futuro a Deus pertence." Fonte: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/

Fio de barba
Lula, citado pelo colunista Lauro Jardim (http://veja.abril.com.br/blog/radar-on-line/), assim comentou a possibilidade de substituir Dilma como candidata: 

"Todo mundo me fala nisso, mas a candidata é ela".

Os números da reeleição
O índice de intenção de voto em Dilma, na tradicional pesquisa da Confederação Nacional dos Transportes, é excelente: 43,7%, vitória no primeiro turno. Melhor ainda, para ela, é o fraco desempenho de seus concorrentes: Aécio, PSDB, 17%; Eduardo Campos, PSB, com apoio da Rede de Marina Silva, 9,9%. 

Professora do mundo
Quem sai aos seus não degenera: seguindo a presidente Dilma, que ensinou economia à primeira-ministra alemã Angela Merkel, indiferente às evidências de que a Alemanha tem indicadores melhores que os do Brasil, a ex-ministra Gleisi Hoffmann, do PT paranaense, resolveu partilhar seus conhecimentos com o Federal Reserve Bank americano. Gleisi prometeu apresentar no Senado um voto de censura à avaliação do Fed sobre a economia brasileira, que classifica como a segunda mais vulnerável numa lista de 15 países emergentes, atrás apenas da Turquia. Gleisi acusou o Fed de ter extrapolado seu mandato. 

Os americanos, que deram o mandato ao Fed, não comentaram a Escolinha da Professora Gleisi.

O mestre da professora
O senador Cristovam Buarque, do PDT de Brasília, ex-ministro da Educação do presidente Lula, ridicularizou a Escolinha da Professora Gleisi. "Você pode dizer se um documento do Banco Central (função exercida pelo Fed nos EUA) está errado. Não pode julgar se é do bem ou do mal. Voto de protesto não se faz contra documento técnico". Completou: se o protesto for recusado, é como o Congresso desse apoio ao Fed. "Se for aprovado, cairemos no deboche mundial".

Buarque sugeriu a Gleisi esquecer o voto de censura às autoridades dos EUA.

Uva sim, Noruega não
A ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, agendou audiência ao ministro das Relações Exteriores da Noruega, Börgen Blende, para as 10 horas do dia 20, quinta-feira. A Noruega tem o melhor Índice de Desenvolvimento Humano e a segunda renda per capita do mundo. Visita importante? Nem tanto: dez minutos antes do horário marcado para a audiência, o chanceler norueguês foi informado de que Sua Excelência, a ministra brasileira, tinha preferido mudar de ideia. Maria do Rosário viajou ao Rio Grande do Sul, deixando de lado a agenda oficial, para participar da Festa da Uva. 

Mais do que ministra, Sua Excelência é candidata a deputada federal e isso é que é importante para ela.

Passeio, diárias
A proposta é da oposição: enviar uma comitiva de parlamentares à Holanda para acompanhar as investigações sobre pagamento de propina à Petrobras. Como poderiam os holandeses investigar sem o auxílio das Excelências brasileiras?

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

Retórica do berro e do silêncio

Percival Puggina

O Partido dos Trabalhadores, há bem mais de uma década, nada de braçada nas águas revoltas da nossa política. Isso não aconteceu por sorte ou acaso. Foi perícia coletiva, dentro de bem traçado planejamento e perfeita execução. De um lado, o partido se constituía na tradição dos partidos de massa, rara entre nós, e aplicava com tenacidade os métodos de infiltração que o fizeram presente e ativo nos corpos sociais e nas instituições do Estado. De outro, partia para o ataque a seus opositores sem tréguas nem misericórdia. O objetivo era produzir a demolição moral de quem estivesse em seu caminho. Pela cartilha petista, escândalo no território inimigo era e continua sendo coisa que ou existe ou se fabrica. Onde houvesse o mais tênue fio de fumaça da suspeita o partido era o primeiro a chegar, com um tonel de gasolina. 

Impoluto, apontava o dedo acusador para as privatizações, por exemplo, com a autoridade moral de quem jamais o usou para contar dinheiro mal-havido. Quando seus líderes clamavam por CPIs para investigar as privatizações e a base do governo FHC não os apoiava, roíam-me desconfianças e suspeições. "Ai tem!", pensava eu. Se o nariz petista acusava algo, se sua alma se ouriçava, se seu fino tato acusava, era certo que algo havia. Afinal, eles sabiam tudo, mas tudo mesmo, sobre o governo dos outros. 

Foi assim que o partido, sem muito esforço diga-se, destruiu moralmente os governos Collor e Sarney. Foi assim que o partido requereu contra o governo FHC mais de duas dezenas de CPIs. As investidas foram tantas, tão contínuas e violentas que o prestígio do ex-presidente despencou dos elevados índices a que chegara nos pleitos que venceu. Quanto de verdade havia naquelas acusações? O PT atribuía a falta de provas cabais ao engavetamento dos processos na Procuradoria Geral da República e à recusa da base do governo em conceder à oposição os votos necessários à formação das CPIs. 

A posse de Lula seria, também, a hora da verdade para sua oposição? Eu pensava que sim,. Os petistas não mais dependiam das CPIs para investigar e exibir as negociatas alheias. Passavam a dispor de todos os meios de investigação, servidos em bandeja de prata, com guarnição de veludo azul. Ministério da Justiça, Controladoria-Geral da União, ABIN, Polícia Federal, Receita Federal, eram apenas alguns dentre os muitos instrumentos disponíveis. Sem esquecer, ainda, os arquivos de todos os ministérios, repartições e empresas estatais do país. Vai ter muito colarinho branco na cadeia, pensava eu. 

Surpresa! Em 1º de janeiro de 2003 a inquisição petista deve ter embarcado em Alcântara rumo a algum asteróide distante. O outrora refinado faro não capta mau cheiro sequer quando vem da sola do próprio sapato. Seus sherloques, seus produtores de dossiês, que antes sabiam de tudo que acontecia na República, foram acometidos de um alheamento, de um autismo em que não apenas ninguém está a par do que acontece na sala ao lado, mas é a própria mão direita a primeira a desconhecer o que a esquerda faz. Sobre essa duplicidade de conduta nada se fala, nada se escreve. Quando não há explicação moralmente aceitável é preferível deixar o dito pelo não dito. E Lula maneja com perfeição a prolongada retórica do silêncio. 

Gosto de quero mais

Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

A classe média está no radar de todas as campanhas presidenciais. Mais do que sempre esteve, porque agora inclui público muito maior que tem mostrado nas pesquisas qualitativas seus anseios com gosto de quero mais.

Depois da estabilidade da economia que marcou a eleição de Fernando Henrique Cardoso; dos ganhos sociais que levaram Luiz Inácio da Silva aos píncaros da popularidade e da continuidade que elegeu Dilma Rousseff, o eleitor desta vez quer ouvir falar em melhoria de vida. Não de mera sobrevivência.

Exige condições decentes, não se conforma com o básico, almeja bem-estar, reciprocidade por parte do Estado a quem paga parcela substancial de seus salários em impostos, e está bem mais escolado na defesa contra promessas vãs.

É nesse cenário que os aliados dos três candidatos, a presidente e seus dois adversários, Aécio Neves e Eduardo Campos, analisam com franqueza protegida pelo anonimato que a disputa não está fácil para ninguém.

O favoritismo de Dilma apontado nas pesquisas só é analisado com o otimismo de vitória no primeiro turno na conta matemática de manchete de jornal.

Com 43,5% de avaliação positiva, oscilação negativa de avaliação de governo e críticas generalizadas em setores que até pouco tempo elogiavam ou prestavam silêncio reverencial, no dizer dos correligionários não configuram um ambiente confortável.

Os oposicionistas tampouco soltam foguetes. Reconhecem que não capitalizaram esse descontentamento. Esperam fazê-lo mais à frente quando o jogo efetivamente começar.

Mas, o patamar de 17% para Aécio e 9% para Eduardo Campos não autorizam os festejos dessa mesma época em 2010 quando José Serra navegava em índices de 40%.

A canoa virou, argumentam. E pode virar de novo, a favor deles. É verdade, mas quem sabe o que vem por aí na economia e na Copa? Ninguém. Quando se procura saber o que os oposicionistas pensam em fazer diante dos possíveis protestos a resposta é: preferencialmente nada.

Tirar proveito de possíveis tragédias ou de manifestações contra todos os políticos e que atingem também governadores de Estados onde haverá jogos pode ser um risco. Melhor não correr.

Conclusão: diante da constatação que dá início à nossa conversa, por ora preferem todos ficar na muda, preparando seus discursos de acordo com o que as pesquisas mostram que o eleitor quer ouvir e esperando o vendaval (para o bem ou para o mal) da Copa passar para, então, se apresentarem.

Até lá, é tudo aperitivo.

Faz sentido. 
No fim do ano passado num encontro de representantes de um grande banco de investimentos americano em Foz do Iguaçu na América Latina era grande a preocupação com a simpatia do governo brasileiro pelos países ditos bolivarianos.

O ex-presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, estava na plateia. Na ocasião soou algo estranha sua indagação sobre a possibilidade de o Brasil como líder da região seguir o rumo da Venezuela.

Para quem vive aqui a resposta é óbvia: zero. Mas, pensando bem, para quem acompanha o panorama a distância, agora ouve o silêncio do Brasil ante a convulsão venezuelana e não conhece a fundo a capacidade de resistência das instituições nacionais, é uma inquietação pertinente.

Em movimento. 
Está praticamente fechada a escolha do vice na chapa ao candidato do PMDB ao governo do Rio, Luiz Fernando Pezão. Será Ronaldo Cézar Coelho, ex-tucano agora filiado ao PSD de Gilberto Kassab.

O ex-prefeito é candidato ao governo de São Paulo com dois objetivos: mostrar ao seu eleitorado de perfil conservador que seu apoio a Dilma Rousseff é tático, não significa que tenha virado petista e ajudar a impedir a reeleição do governador Geraldo Alckmin.

Os Irmãos Metralha e os embargos

Carlos Chagas
Tribuna da Imprensa


É preciso recorrer às histórias em quadrinhos do Pato Donald, com todo o respeito aos advogados dos condenados e a eventuais ministros do Supremo Tribunal Federal que venham a admitir embargos infringentes sustentando não terem os mensaleiros formado quadrilha. Porque naquela genial criação de Walt Disney sempre apareciam os Irmãos Metralha, criminosos abomináveis que, além de irmãos, eram um cópia dos outros. Será que eles constituíam uma quadrilha só porque usavam roupas e máscaras iguais, ou porque filhos do mesmo pai e da mesma mãe? Ou porque dedicavam-se a assaltar, sequestrar e assassinar?

Vale o mesmo para os defensores dos embargos: imaginam que quadrilha só se constituiria entre os mensaleiros caso usassem as mesmas roupas e fossem irmãos? Como nem primos longínquos são, ou muito menos usavam máscaras para gerir o mensalão, devem então ficar livres da condenação por formação de quadrilha?

Nada mais igual a uma quadrilha organizou-se à sombra do palácio do Planalto, com ramificações no Congresso, num banco e numa agência de publicidade com sede em Belo Horizonte e em diversos partidos políticos. Como um motor de diversas engrenagens, estavam todos mancomunados para obter dinheiro sujo e comprar votos de parlamentares em apoio ao governo. Claro que havia um chefe e diversos comandantes, cada um exercendo uma parte do plano comum que era corromper deputados.

Rejeitar a acusação de quadrilha é o mesmo que sustentar haver Al Capone atuado sozinho na extorsão, assassinato, contrabando, venda ilegal de bebidas, prostituição e demais crimes que cada integrante de seu bando também praticava isoladamente. Nada tinham um com o outro? Não era uma organização com a finalidade de cometer crimes? Ficou para quarta-feira a decisão, pelos onze ministros do Supremo Tribunal Federal, a respeito da condenação já expressa pela maioria deles. Seria cômico se não fosse trágico imaginar uma reviravolta e a conclusão de que os mensaleiros não formavam uma quadrilha, que agiam isoladamente…

TRISTEZA E DECEPÇÃO
Foram esses os sentimentos expressos da tribuna do Senado por Roberto Requião, também indignado porque dos 44 colegas que assinaram o requerimento de constituição de uma CPI para investigar os transportes urbanos no país, parte deles começava a retirar as assinaturas. O ex-governador do Paraná denunciou manobra engendrada no governo e executada pelo PT, mas inconstitucional, pela inexistência da figura de retirada de assinaturas em requerimentos de CPIs. Está sendo sufocado o direito das minorias. Conforme decisão do Supremo Tribunal Federal, a maioria não pode frustrar a prerrogativa de grupos minoritários investigarem denúncias de irregularidades. Além de acusar o líder do PT, Humberto Costa, Requião também culpou o atual presidente do PMDB, Waldir Raupp, de estar envolvido na trama.

No olho do furacão

Ruy Fabiano
Blog do Noblat

O maior adversário do governo Dilma não é a oposição – inerte, sem discurso ou proposta -, mas a própria base aliada, à esquerda, em que despontam, sobretudo, partidos oriundos do PT, como PSOL e PSTU, sem esquecer o próprio, a nave mãe.

As franjas radicais do partido – MST, ONGs indígenas, Black Blocs, CUT e que tais – agem, por meio de seus ativistas, de dentro do próprio governo, com destaque para a figura cada vez mais óbvia do ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, o braço direito de Lula.

O objetivo é acelerar o movimento revolucionário, o que implica o desgaste da presidente e de seu governo, de modo que sua candidatura perca competitividade e justifique o retorno de Lula. Dilma seria uma espécie de Kerensky, primeiro-ministro russo, que governou após a queda da monarquia e não conseguiu evitar a Revolução de outubro de 1917.


Alexander Kerensky, primeiro-ministro russo

Kerensky, como Dilma, era acusado pelos revolucionários, dos quais se julgava companheiro, de manter alianças espúrias à direita e acabou deposto por eles próprios. Teve que se exilar na Europa e, posteriormente, nos EUA.

O que Lênin e Trotsky disseram a respeito de Kerensky é o mesmo que há dias Pedro Stédile disse de Dilma:

“A Dilma pessoalmente é uma coisa, mas outra coisa é o governo Dilma. É um governo de composição e lá dentro tem os banqueiros, os empresários, a classe média; tem até a Kátia Abreu no governo Dilma.”

E deu o mapa da mina, mostrando de onde vem a sabotagem:

“Mas tem também companheiros de esquerda e companheiros que defendem a reforma agrária, que temos que valorizar; não podemos botar tudo no mesmo balaio. Mas é um governo de composição de forças antagônicas – e num governo assim é difícil avançar.”

A palavra-chave é esta: “avançar”, que Gilberto Carvalho, no final de 2012, traduziu por “o bicho vai pegar”. Pegou – e continua pegando. Stédile faz sua parte. Incentiva a retomada da invasão de terras e avisa aos companheiros:

”Não pense que a burguesia vai se assustar com nosso congresso (aquele, em Brasília, que feriu 30 PMs, oito em estado grave); ninguém bota na imprensa. A burguesia vai se assustar com nós (sic) quando voltarmos a fazer ocupação com mil famílias, com 2 mil famílias. A burguesia vai se assustar quando nós ocuparmos a Monsanto, quando ocuparmos usinas. Aí, vão nos respeitar.”

O quadro que se delineia é o de sublevação geral. Nas ruas dos centros urbanos – em especial, no eixo Rio-São Paulo e agora já se fala em Brasília -, a ação predadora dos black blocs.

Na área rural, MST e milícias indígenas (fenômeno inédito desde Pedro Alvares Cabral) matam pequenos agricultores, considerados “intrusos” pelas demarcações truculentas da Funai.

O mais grave, no curto prazo, é o propósito de inviabilizar a Copa do Mundo – ou, ao menos, de criar um ambiente hostil à sua realização. Quem paga o pato da impopularidade pelo desgaste que tudo isso ocasiona é o governo Dilma – e, portanto, sua candidatura à reeleição. São esses grupos “aliados” que comandam, desde dentro do governo, esse processo.

Esta semana, Gilberto Carvalho, com a maior cara de pau, tentou ressuscitar o 2º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH), rejeitado em 2009 pela opinião pública, por sua índole totalitária, provocando o compromisso da candidata Dilma de jamais acolhê-lo.

O 2º PNDH, entre outras aberrações, previa censura à imprensa e, em casos de invasão de terras, impunha a mediação com o invasor, arbitrada por uma comissão da sociedade civil, antes de a vítima ter o direito postular a reintegração de posse.

Pois Carvalho, na quinta-feira, veio à cena expor as conclusões de um estudo da Secretaria da Reforma do Judiciário do Ministério da Justiça, segundo o qual “a cultura da judicialização de conflitos fundiários não é eficaz e deve ser superada”.

O invasor, segundo esse estudo, adquire direitos de coproprietário, passando a “negociar” a posse da terra em condições de igualdade com a vítima, antes que esta tenha o direito de recorrer ao Judiciário, que também aí é enxovalhado.

E não só: acusa o Judiciário – vejam só! – de estar “tomado por uma postura legalista”, como se outra pudesse ter, já que lhe cumpre exatamente zelar pela ordem jurídica e pela aplicação da Justiça. O contrário disso é a conivência com o crime.

Carvalho lamenta que o próprio governo de que faz parte “se posicione claramente contra tudo que é insurgência e reivindicação de direitos”. Que outra posição pode ter um governo, fruto da democracia e da Constituição?

Os conflitos fundiários no Brasil têm sido artificialmente alimentados por grupos ativistas radicais, estimulados por declarações levianas como estas. Quem paga o desgaste (na verdade, já está pagando)?

Acertou quem disse Dilma Rousseff.

O que resultará objetivamente se a presidente perder competitividade eleitoral? Acertou outra vez quem disse: a volta de Lula. A oposição, até aqui espectadora silente, certamente investirá contra Dilma; é, afinal, seu papel. E se somará ao discurso de alucinados como Stédile, que, em tempos normais, fala sozinho, mas em tempos conturbados encontra audiência – e seguidores.

Neobrasileirismos ou o sucesso da vaquinha

Roberto Damatta  
O Estado de S.Paulo



Brasileirismos são invenções brasileiras. No campo da música, da comida e da sexualidade, elas abundam. São brasileirismos o jogo do bicho, o samba, a feijoada, confundir fama com inteligência, não prender autoridade e dizer que bunda não tem sexo.

A presença mascarada dos elos pessoais abraçados pela norma do dar-para-receber e do vice-versa como algo obrigatório no espaço público é um outro brasileirismo que contraria a lei válida para todos e nos faz desconfiar da liberdade.

Liberdade que leva a escolhas, individualiza e acontece justamente na rua. Toleramos a liberdade porque ela é um conceito chave nas constituições "avançadas" que copiamos dos americanos, franceses e ingleses. Daí a contradição tragicômica: temos leis avançadíssimas, sínteses das melhores normas jamais produzidas no chamado "mundo civilizado", mas lamentavelmente não temos franceses, americanos e ingleses para segui-las.

Voltemos, entrementes, aos temas clássicos. Se a liberdade tem sido usada pelas elites sobretudo para matar o competidor, a igualdade permanece sem solução.

Continuamos alérgicos à sua aplicação e o seu uso é sempre constrangido pelos rotineiros "esse tem biografia", "esse é meu amigo", "esse é do nosso partido", que são parte de um outro brasileirismo. A duplicidade ética, expressa no axioma: aos inimigos a lei; aos amigos, tudo. Um postulado que impede, no modelo e na realidade, o tratamento igualitário e um mínimo de coerência.

* * *

A brasileiríssima máscara entra em cena em tempos democráticos. Impossível não tomá-la, como ocorre em outras sociedades, como um símbolo de forças antissociais: do incesto que nega a oposição entre afinidade e consanguinidade, ou de condutas abusivas e licenciosas cuja concretização exige a invisibilidade ou o disfarce como no Carnaval.

Estamos pensando em legislar o uso da máscara. Balas de borracha para policiais; máscaras para os manifestantes. Mas se até em centro espírita as almas dizem quem são, como admitir o poder dado a mascarados quando o ideal democrata é justamente conhecer o adversário? Em meio aos elos confusos entre as injustiças seculares e direito ao ativismo, o uso da máscara aumenta ou diminui a possibilidade do irracionalismo e da boçalidade contida na violência? Afinal, estamos querendo consolidar ou liquidar instituições?

* * *

Vivemos um momento de exigências igualitárias que demandam o fim da separação entre a casa e a rua: lei e cadeia na rua para os pé rapados; e, na casa, embargos de todos os tipos para os amigos e parentes. Chamam isso de "corporativismo" mas o nome verdadeiro é personalismo, como disse faz tempo.

Brasileirismo agradável foi testemunhar a sinceridade que baixou na Câmara dos Deputados com o voto aberto. O voto sem máscaras porque ele liquida a duplicidade entre casa e rua. "Como companheiro e colega eu não posso te cassar. Amanhã pode ser minha vez e você, mesmo sem ser do meu partido, retribui. Mas no plenário eu sou obrigado a fazê-lo, compreende? Antigamente, quando o voto secreto era minha máscara eu votava contra a perda do teu mandato, pois tu és realmente um ladrão! Mas, agora, temos essa lei que me obriga que eu seja o mesmo tanto em casa quanto na rua. Então, vejam que coisa triste para a ética da casa e das amizades, eu sou obrigado a tirar a mascara e a ser sincero!"

A sinceridade é um neobrasileirismo.

Ser o mesmo em todos os lugares é impossível. Mas ter o propósito de ser o mesmo é o que chamamos de honestidade.

A próxima eleição vai dizer se a honestidade é uma tortura ou uma bênção.

* * *

O ministro Gilmar Mendes aponta uma anomalia. As multas que os condenados devem pagar não podem ser transferidas, por meio de uma brasileiríssima vaquinha, para outras pessoas. A sugestão do ministro seria a de fazer uma vaquinha capaz de pagar o mensalão.

Tal parecer me lembra um evento bizarro mas idêntico, ocorrido nos primórdios da ditadura militar, em 1964, no governo Castelo Branco. Foi a campanha "Ouro para o bem do Brasil", destinada a reunir ouro para pagar a dívida externa brasileira. Tal vaquinha fez com que muitas pessoas doassem alianças e medalhinhas mas, diferentemente da vaquinha dos mensaleiros, jamais se soube onde o ouro foi parar.

Mas o brasileirismo da vaquinha que retorna, como na ditadura, para livrar as multas do mensalão, é um sucesso.

E se um condenado a 20 anos, pergunta-me um amigo irritado, resolver fazer uma vaquinha e conseguir na internet gente que fique em seu nome na prisão por um dia? Façamos o calculo: 20 vezes 365 é igual a 7.300 dias. Ora, diz ele, considerando o que os mensaleiros condenados já arrecadaram até agora, seria tranquilo conseguir 7 mil e tantas pessoas solidárias para ficarem por um dia na cadeia no lugar do condenado. E eles, é claro, iriam continuar atuando como heróis nacionais injustiçados por uma mascarada de cunho político. Se tudo é injustiça burguesa, por que não aplicar a brasileiríssima vaquinha para outras penalidades?

Tento argumentar, mas o amigo toma uma cerveja.

* * *

O mesmo sujeito me diz o seguinte: "Olha aqui, DaMatta, estou pensando em fazer uma vaquinha para deixar de trabalhar como um condenado. Quero poder dizer não - esse imenso privilégio dos abençoados". Como bom brasileiro, não disse nada. Mas pensei: se der certo eu também faço!

Contra a retração

Oliver Stuenkel (*)
Valor

Nos últimos dez anos, a atuação mais forte do Brasil, seja no Conselho de Segurança da ONU, seja como pacificador no Haiti, contribuiu para um debate global mais rico e equilibrado. A sociedade civil deveria tentar convencer a presidente que a retração não é uma opção


Quando os representantes das grandes potências reuniram-se em janeiro na Suíça para discutir o futuro da Síria, o ministro das Relações Exteriores do Brasil - Luiz Alberto Figueiredo - estava em Natal (RN) para participar da cerimônia de inauguração de um estádio de futebol. Ele havia rejeitado o convite para participar da conferência de paz.

No dia seguinte, um dos principais jornais brasileiros convidou-o para uma entrevista, cujo foco seria a crise síria. Era uma excelente oportunidade de expor a perspectiva brasileira ao público e, mais uma vez, o ministro a rejeitou. Na Conferência de Segurança de Munique, um fórum para o diálogo global sobre políticas de segurança, realizada pouco depois da conferência sobre a Síria, o Brasil foi a única potência econômica sem representantes. Figueiredo, que substituiu o brilhante, mas desafortunado, Antonio Patriota após uma crise diplomática no ano passado, tem se mantido notavelmente invisível e à parte do debate público.

Dilma Rousseff é a principal culpada. Obsessiva em centralizar a tomada de decisão, a presidente considera a política externa como um campo minado de pouca utilidade em sua campanha pela reeleição. Ela está cercada por seguidores pouco inspiradores, sendo um deles responsável por enfraquecer o prestígio do Itamaraty. O ex-ministro da Educação e atual ministro da Casa Civil - Aloizio Mercadante - provocou uma cisão entre a presidente e o ex-chanceler Patriota, há muito tempo considerado o conselheiro mais confiável de Dilma. Atualmente, Mercadante é quem decide os que participam das reuniões presidenciais com líderes estrangeiros. Na história recente do Brasil, nenhum outro presidente menosprezou tanto o papel do ministro das Relações Exteriores, historicamente considerado acima da disputa política.

Mesmo aqueles que criticam a política externa de Lula estão começando a perceber que a estratégia de Dilma é muito pior: o Brasil tem simplesmente deixado de participar de diversos debates internacionais. Um ex-ministro das Relações Exteriores comentou recentemente que "Lula ao menos tinha uma opinião e assumia uma posição". De fato, mesmo antes de Dilma assumir a Presidência, muitos previram que o período de ouro da política externa brasileira, ativa e inovadora, havia acabado. A diplomacia de Lula e Amorim foi profundamente personalizada e difícil de ser copiada por qualquer sucessor. Além disso, o cenário global mudou. Enquanto a primeira década deste século presenciou a ascensão dos Brics e a crise dos EUA, Rousseff herdou uma situação econômica mais difícil, que implica em um maior foco em assuntos domésticos. No entanto, a atual crise econômica brasileira não justifica o recuo. Afinal de contas, qual é a utilidade de um país que só participa dos debates globais quando sua economia está indo bem?

Em seu segundo mandato, há uma possibilidade real de que a presidente irá sistematicamente reverter muitas das mais importantes conquistas da política externa do presidente Lula. Enquanto Lula se dedicou ao Oriente Médio, Dilma optou por não assumir a liderança no Irã ou Síria. Enquanto Lula abriu inúmeras embaixadas no continente africano, há hoje rumores que Dilma considera encerrar as atividades de várias delas - um movimento que enviaria um sinal desastroso para a comunidade global: o último país a fechar embaixadas na África foi a Rússia após o colapso da União Soviética. Um dos efeitos imediatos da nova política externa brasileira é o de que a Embaixada do Brasil em Cabul, idealizada por Lula e que teria sido a 140ª embaixada brasileira, não se concretizou. Como consequência, o Brasil depende de relatos de outros países e não pode participar de maneira séria na discussão sobre o futuro do Afeganistão.

Além disso, o Brasil não se empenhou em antecipar seu retorno ao Conselho de Segurança da ONU, o que não é um sinal de grande ambição para entrar no Conselho como membro permanente. Finalmente, após a decisão de Dilma de assumir a liderança no debate sobre a governança da Internet no ano passado, percebe-se uma nítida incerteza nos outros países sobre o que exatamente o Brasil preten de alcançar quando se realizará uma grande conferência sobre o tema em São Paulo. Da mesma forma, o governo tem-se mantido em silêncio sobre suas ideias e metas para a 6ª Cúpula do grupo Brics que será realizada em Fortaleza no mês de julho.

São péssimas notícias tanto para o Brasil quanto para a comunidade internacional como um todo. Em um mundo cada vez mais multipolar, o domínio de grandes potências na conversa global não produz soluções sustentáveis para os problemas mais urgentes do mundo, tais como mudanças climáticas, volatilidade financeira, direitos humanos e proliferação nuclear. Nos últimos dez anos, a atuação mais forte do Brasil - seja no Conselho de Segurança das Nações Unidas, durante as negociações no Irã, como um pacificador no Haiti, na América do Sul, ou na África emergente - contribuiu para um debate global mais rico e equilibrado. Para assegurar que continue dessa forma, o Ministério das Relações Exteriores e a sociedade civil devem convencer a presidente que a retração não é uma opção.

(*) Oliver Stuenkel, PhD, é professor de relações internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV) em São Paulo.

Vácuo e descontrole

Marco Aurélio Nogueira (*)  
O Estado de S.Paulo

Não deveria ter sido preciso a trágica morte do cinegrafista Santiago Andrade para que nos déssemos conta de que a situação é complicada. O País parece saturado da falta de opções, ouve com tédio os discursos políticos, no máximo, com aquela vã esperança de que algum mágico dê jeito nas coisas. O clima de exasperação, a rejeição passional da divergência e a ausência de debate público bloqueiam quase tudo. As manifestações estão aí, mas a qualquer momento podem derivar para o caos ou esfriar. Também elas carecem de sustentabilidade e eixo.

Desponta no horizonte uma enorme crise social, que não derrubará governos, mas os desafiará como nunca.
Um olhar que não desça às profundezas da sociedade pode achar que tudo vai bem, melhor do que antes, que o País se tornou um player de respeito no mundo e a população está feliz. Não considera que novas modalidades de ação, novos protagonistas e demandas pressionam os governos. E se as deficiências estruturais do País - na educação, nos transportes urbanos, na saúde, nos aeroportos - não são atacadas com determinação, as pessoas se irritam e se frustram, adubando o terreno para todo tipo de explosão.

Foi esse o recado das ruas de junho de 2013. Poderia ter havido ali uma inflexão positiva, um salto na compreensão crítica do País que se vem formando, a abertura de uma nova dialética Estado-sociedade. Não se ouviu, porém, o recado.

Em vez disso, seguiu-se com a mesmice de sempre, com o ufanismo que nos caracteriza, a subserviência ao sistema internacional, aos bancos e aos mercados, a obsessão pelo crescimento. Em vez de inventarmos um modo nosso de fazer as coisas - por exemplo, de organizarmos a Copa, para ficar com algo simples e oportunista -, compramos um pacote fechado. Fazemos de conta que não há desperdício, que as prometidas obras de infraestrutura virão no devido tempo, que os bilhões de reais canalizados para construir ou reformar estádios são a precondição para que o País organize "a melhor Copa de todas". As pessoas não acreditam. Preferem esperar para ver. Não há correntes sociais ativas para sustentar o que se decide fazer no País.

As coisas não pioram, vão até melhorando em alguns aspectos. Mas faltam entendimentos para que se dê um arranque expressivo. De dentro e de fora do governo federal ouve-se que o Estado precisa gastar menos, como se fosse possível reduzir ou redefinir despesas públicas a esta altura do campeonato. Se a vida de parte dos mais pobres melhorou, graças às políticas de incentivo ao consumo e à Bolsa Família, daí virão mais exigências de gasto, não menos. Surgirão arranjos inusitados e expectativas que nem sempre poderão ser atendidas. As pessoas quererão mais saúde, educação e transportes, e tudo com mais qualidade. Coisas que exigem investimento, políticas e coordenação estatal - um projeto de País, em suma, que é precisamente o que mais falta.

As manifestações têm-se sucedido. Vão de rolezinhos a espasmos cívicos e protestos contra a Copa. Em todas, as agendas são idênticas: transparência, respeito a direitos, reconhecimento, espaços de lazer, mobilidade urbana, outra política. Em todas, o despreparo policial desaba sem muito critério sobre as multidões e se faz acompanhar de uma violência "simbólica" que o reverbera e amplifica, adicionando a ele o despreparo dos manifestantes. Destaca-se a tragédia da hora, esquecem-se as mortes enfileiradas ao longo dos anos, o cotidiano pesado, a falta de perspectiva dos jovens, o ambiente sociocultural que não agrega. Joga-se luz sobre os violentos sem que se expliquem as raízes da violência e o porquê de ela estar-se convertendo em opção de vida.

É equívoco grosseiro usar a situação para atacar o governo federal, como se fosse ele o culpado pelo descontrole e pela violência que estão por aí. Mais polícia e repressão não solucionarão nada, assim como leis "antiterrorismo" ou contra mascarados. Poucas vozes políticas se fazem ouvir. O Congresso Nacional nem sequer se manifesta. A manipulação vem de todos os lados. Fatos soltos, interpretações descabidas e acusações levianas passam a servir de base para que se façam ilações absurdas. Ora se atinge um deputado, como Marcelo Freixo (PSOL-RJ), ora a culpa por tudo seria da mídia. Há quem glamourize os black blocs como filhotes destemperados da desobediência civil e quem se aproveite deles para desgastar o regime ou propor endurecimento político. Poucos consideram o estrago que a "tática" causa à democracia.

O País parece estar num vácuo político, no sentido preciso de que está sem direção e coordenação. Se há vácuo, é porque não há matéria que preencha o espaço: governo e oposição, instituições e sociedade civil. Como a vida muda depressa, o descontrole tende a ser grande. Não se trata do governo federal, mas de crise dos governos, das instituições, do Estado em seu conjunto, crise da cultura e de uma hegemonia. Isso se expressa, por exemplo, no afã esteticizante e performático dos manifestantes atuais. Eles não aceitam o modo "tradicional" de protestar. Querem se mostrar, aparecer, e máscaras são usadas também para isso.

Não é, porém, o fim do mundo. Numa situação complexa, difícil de ser governada, não se deveria estar a desancar instituições - igrejas, partidos, entidades, órgãos de imprensa; o melhor seria exigir que cumpram alguma função construtiva. Nossos políticos desprezam a gravidade do momento, seguem batendo uns nos outros, não ensaiam nenhuma aproximação ou acordo. Estão picados pela disputa eleitoral que se aproxima. Só contribuem para complicar o quadro.

É preciso decifrar essa paisagem que desponta na neblina. O levantar de poeira, a culpabilização e as teorias conspiratórias não ajudam a que se enfrente uma condição emergencial. Serenidade, clareza, apuração rigorosa de fatos, perspectiva política e união dos democratas são o que temos de melhor: recursos indispensáveis.

(*) Marco Aurélio Nogueira é professor titular de Teoria Política e diretor do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da UNESP. 

Os brasileiros estão endurecendo?

Juan Arias 
El País

Não sei se é bom ou se é mau, mas existe uma sensação, cada vez mais visível, de que os brasileiros, pessoas cordiais, estão enrijecendo

Não sei se é bom ou se é mau, mas existe uma sensação, cada vez mais visível, de que os brasileiros, pessoas cordiais, estão endurecendo. São só sintomas ainda, mas que começam a afetar a todo o país.

Sempre destaquei que os brasileiros acabam conquistando aos estrangeiros por sua capacidade de acolhimento, por sua paciência, sua elasticidade e por sua falta de agressividade, algo que, por exemplo, afeta mais a nós espanhóis, mais impacientes.

Isso se notava até na rua, quando se perguntava algo; nas lojas, onde era atendido com uma grande paciência, algo que deixa a minha filha admirada cada vez que vem de Barcelona para o Brasil : “É que aqui todos são tão amáveis sempre?”, me perguntava surpreendida.

Eu mesmo contei mil episódios que vivi agradavelmente no trato com as pessoas nos 15 anos que já estou neste país, escrevendo para este diário, entre elas a solidariedade com quem, em algum momento, precisava de ajuda.

Tudo isso mudou? Talvez ainda não. Os processos de mudança negativos em uma sociedade são lentos, precisam às vezes de anos para se consolidar e costumam ser o fruto amargo de alguma crise que a afeta gravemente, como ocorreu ultimamente em alguns países da União Europeia onde a crise econômica e o desemprego que arrastou consigo, fizeram com que ditas sociedades se enrijecessem.

No Brasil não existe essa situação grave que pudesse explicar esse endurecimento que começa a ser observado nas pessoas já que o país, em muitos de seus parâmetros melhorou e, de modo geral, se vive melhor que há 20 anos. Algo, no entanto, está ocorrendo, embora ainda seja mais bem subterrâneo. Algo que dá a sensação de que as pessoas estão enrijecidas com algo que as levam, por exemplo, a fazer justiça com as próprias mãos ou a parecer menos solidária quando alguém pede ajuda. Começa a se ver a vingança como uma medicina eficaz, algo sobre o que os sociólogos e escritores começam a alertar. Barbara Musemeci, em seu artigo com o irônico título “Injustiça com as próprias mãos”, publicado no diário O Globo, alerta sobre o momento que o Brasil está vivendo, ao afirmar que “a experiência não deixa dúvidas de que a vingança é um atalho para eternizar a violência”. A socióloga lembra que “a ideia que sustenta a vingança, começa a se enraizar em nossa cultura”.

O agudo escritor Veríssimo em seu artigo "O Alarme", publicado no mesmo dia e no mesmo diário, adverte que existe um momento nas sociedades em que começa a soar um alarme e que o difícil e perigoso é saber quando esse alarme já se disparou. Usa como exemplo a tragédia judia de Hitler. Quando soou o alarme que pressagiava o Holocausto?

O agudo escritor afirma que diante da “falta de uma sentinela” que nos alerte de que “os bárbaros estão chegando”, devemos confiar em nosso instinto.

E esse instinto é o que começa a nos avisar de que uma verdadeira barbárie começa a se incorporar a uma sociedade que teve sempre vocação de civilização e de convivência.

Estamos vendo, por exemplo, as pessoas defendendo a cadeira elétrica para os “bandidos” e, o que é pior, defendendo o “linchamento” de alguém que roube ou assalte, com a desculpa de que o Estado “lava as mãos” e que os políticos vivem blindados e escoltados e parece que não se inteiram do medo que as pessoas têm na rua, sobretudo nas grandes cidades.

Damos por bem que o policial, só por ser tal, merece ser objeto de violência chegando a se apagar a fronteira entre o policial “corrupto” e o que se esforça para cumprir seu dever.

Uma dureza e violência que exercem até os que assaltam, que já não se conformam em roubar o que passa ao seu lado e acaba lhe ferindo ou lhe matando gratuitamente, como contou a um diário o cidadão que no Aterro do Flamingo, no Rio, um jovem não se conformou em lhe roubar sua motocicleta, mas sim que lhe deixou de presente uma punhalada no peito que podia ter sido mortal.

Por que essa violência acrescentada?

Nos cárceres sempre teve cenas de violência gratuita, mas ao que parece, esses horrores estão se agravando ao mesmo tempo em que a polícia, talvez contaminada por esse despertar da dureza coletiva, também acaba pagando com a mesma moeda invés de ser um elemento de segurança cidadã.

Eu sou um leitor atento às cartas dos leitores dos jornais ou dos comentários nos artigos dos diários on-line que costumam ser um termômetro do humor das pessoas. E também esses comentários estão se radicalizando e cada vez mais, invés das reflexões de outrora, abundam as grosserias e os insultos contra tudo e contra todos. E existem até blogueiros pagos para desacreditar os que pensam de outro modo.

O diapasão da violência está aumentando. Até as favelas pacificadas do Rio estão voltando perigosamente às velhas guerras entre traficantes e policiais.

Nos estádios de futebol, sobe a temperatura da intransigência diante da derrota da própria equipe, provocando agressões dos adversários.

Nas manifestações, que deveriam ser pacíficas, como sempre foram no passado, estão entrando cada vez mais grupos violentos encapuzados. E, ao que parece, incentivados por forças políticas, que deveriam ser as guardiãs da ordem.

Crescem a violência doméstica, a violência contra a mulher e a violência entre adolescentes. A cada dia os meios e comunicação relatam os crimes dentro das mesmas famílias. A violência não só se estende, mas está ficando mais brutal.

Essa sensação de endurecimento em vários camadas começa a preocupar sociólogos e psicólogos e divide às vezes os que deveriam rechaçar esse movimiento da sociedade, ao politizar a violência, distinguindo entre a violência simples, que é condenável, da violência social, que poderia ser permitida, aceitando a falácia de que os fins justificam os meios.

Em uma sociedade como a brasileira, destacada por sua capacidade de aceitação do estrangeiro, por seu pouco apreço pelas guerras e por seu gosto pela vida e pela festa, seu exemplo de convivência pacífica entre regiões tão diferentes e seu ecumenismo religioso, a violência estava limitada ao tráfico de drogas e às truculências de uma polícia pouco preparada e, às vezes, corrupta

Por isso, deva ser ouvida com atenção o alerta de Veríssimo a essa espécie de enrijecimento generalizado que começa a ocorrer, e ao qual não estávamos acostumados.

Embora ainda se trata mais de pequenos sintomas, as autoridades responsáveis devem impedir que isso aumente. Todos sabemos muito bem que os incêndios que acabam arrasando os bosques começam com uma bituca de cigarro atirada ao chão. E quando em nosso organismo aparecem sinais de febre, o médico se preocupa em checar o motivo da anomalia.

Todos os fascismos, de direita ou de esquerda, beberam desde sua infância na fonte envenenada da violência gratuita e da intolerância e da vingança.

O Brasil, no delicado e perigoso caminho da agressividade que começa a tomar, nesse intuito de fazer justiça com as próprias mãos, ainda não soou esse alarme, mas os sinais dessa febre registram uma verdadeira intolerância coletiva, que preocupa muito. Talvez nenhum de nós seja inocente e a sociedade não pode se dividir salomonicamente em vítimas e carrascos.

É cedo para acreditar na promessa de austeridade

Rolf Kuntz
O Estado de S.Paulo

O governo vai entrar no combate à inflação, prometeu o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ao anunciar, com quase dois meses de atraso, a meta fiscal para 2014, uma economia de R$ 99 bilhões para o pagamento de juros da dívida pública. Com atraso muito maior - três anos ou mais - ele reconheceu, ao apresentar uma decisão política, a importância de uma boa gestão orçamentária para a estabilidade dos preços. A economia prometida é o chamado superávit primário, o dinheiro posto de lado para os compromissos financeiros. A contenção de gastos, segundo o ministro, ajudará a frear a alta de preços e abrirá espaço para uma política monetária "menos severa", isto é, menos focada na alta de juros, como tem sido, de novo, desde abril de 2013.

Há dois anos e meio, no fim de agosto de 2011, os dirigentes do Banco Central (BC) cortaram a taxa básica, a Selic, e iniciaram uma fase de afrouxamento, só interrompida em abril do ano passado. Uma de suas alegações para iniciar os cortes foi a previsão de austeridade fiscal no ano seguinte. A outra foi a expectativa de acomodação dos preços internacionais das commodities. As duas apostas foram erradas. Mas o erro maior foi, sem dúvida, a confiança na condução mais séria das finanças federais.

A insistência no erro, até os primeiros meses do ano passado, erodiu a confiança na política monetária e comprometeu a imagem do BC como entidade autônoma de fato, embora formalmente subordinada à Presidência da República. Com a inflação desembestada e a inegável crise de credibilidade, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu enfim voltar à velha política e iniciar uma nova alta de juros. Será ainda capaz de manter essa orientação? A taxa básica, hoje 10,5%, deverá chegar a 11,25% ainda este ano, segundo as previsões coletadas no mercado pelo BC no dia 14, na pesquisa Focus. Mas pelo menos uma parte dos analistas parece ter adotado novas expectativas depois do anúncio da meta fiscal, na quinta-feira.

Previsões de uma política monetária mais branda começaram a difundir-se logo em seguida. O alcance dessa mudança deve ser conhecido quando o BC divulgar, na segunda-feira, a nova pesquisa semanal. Mas o mais importante é saber se os dirigentes do BC, membros do Copom, vão novamente demonstrar confiança nas promessas de uma política orçamentária mais cuidadosa e responsável, especialmente num ano de eleições e de muita pressão por gastos e favores.

A nova programação orçamentária, disse o ministro da Fazenda, foi elaborada sem preocupação com objetivos eleitorais. Pode ser. Desde o começo do ano o governo tem procurado reconquistar a confiança e a boa vontade dos mercados e eliminar o risco de rebaixamento da nota de crédito do Brasil. Foi esse o principal objetivo da viagem da presidente Dilma Rousseff a Davos, em janeiro, depois de esnobar por três anos o Fórum Econômico Mundial. O risco permanece, porque o governo ainda terá de mostrar sua seriedade na prática, isto é, na execução da política fiscal, pelo menos durante alguns meses. Os avaliadores de crédito provavelmente ficarão à espera dessa demonstração, antes de consolidarem uma opinião sobre a nova política.

Mas a presidente e sua equipe vão precisar de muita firmeza para seguir o rumo da austeridade - ou, mais provavelmente, um rumo um pouco mais austero que o dos últimos três anos. A base parlamentar do governo tem estado notavelmente indócil, cobrando mais postos na administração federal e mais atenções. A reunião de líderes da base num jantar em Brasília, com participação do presidente da Câmara, deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), foi suficientemente difundida para eliminar qualquer dúvida sobre o assunto. Os aliados querem muito mais e podem criar problemas para a presidente.

Os grupos de oposição, apesar de sua indiscutível incompetência, também podem criar problemas, cobrando, por exemplo, liberação mais ampla de verbas para as emendas orçamentárias. O corte dessas verbas é parte do programa de austeridade prometido pelo ministro da Fazenda. A oposição hoje se distingue da base aliada principalmente pela espantosa inépcia no planejamento e na execução de suas ações. Quanto ao fisiologismo e à concepção pífia da função parlamentar, é difícil encontrar alguma diferença entre os dois grupos.

Além dessas pressões, o governo terá de enfrentar uma porção de problemas técnicos para produzir o resultado fiscal prometido. Não se sabe, ainda, como as contas do Tesouro serão afetadas pelo aumento do custo da energia. Se o governo insistir em subsidiar o consumo, a despesa poderá ir muito além dos R$ 9 bilhões previstos no Orçamento. Além disso, o superávit primário dependerá, mais uma vez, de receitas extraordinárias - no mínimo, R$ 13,5 bilhões resultantes de concessões, segundo se anunciou.

Por todos esses fatos, e também porque a inflação continua vigorosa e inquietante, seria uma imprudência o BC afrouxar sua política, apostando mais uma vez na contribuição da política fiscal. Não se deve menosprezar a prévia da inflação de fevereiro. O IPCA-15, com a mesma estrutura do Índice de Preços ao Consumidor Amplo, subiu 0,7% entre o meio de janeiro e o meio deste mês. A apuração do mês anterior havia mostrado 0,67%. O acumulado em 12 meses ficou em 5,65%. O detalhe mais importante do mês talvez seja o indicador de difusão: houve aumento em 70,4% dos itens. Foi uma taxa menor que a de janeiro (75,1%), mas ainda muito alta. Não se trata de pressões localizadas em alguns preços, mas de um movimento de alta ainda muito amplo.

Não é hora de afrouxar a política anti-inflacionária. Se a gestão fiscal ajudar, tanto melhor. Mas o BC já errou uma aposta, há mais de dois anos, e o Brasil pagou caro - literalmente - por esse engano, com uma humilhante combinação de economia estagnada, contas públicas em deterioração e inflação alta, muito mais alta que a dos países concorrentes.

Samuel Pessoa: “Temos que reformar o Estado de dentro para fora”

Comunicação Millenium

O incômodo do mercado frente à política econômica do governo não é infundada. Para Samuel Pessôa, especialista do Instituto Milenium e chefe do Centro de Crescimento Econômico do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (IBRE/FGV), a desaceleração do crescimento brasileiro se deve à adoção de uma agenda nacional-desenvolvimentista para o país. Contrário ao discurso oficial que aponta a crise econômica mundial como causa dos problemas internos, o pesquisador diz que o orçamento brasileiro não comporta um Estado de bem-estar que financie, via BNDES, o desenvolvimento econômico e social. Leia a entrevista:

Instituto Millenium – O senhor afirma que o Brasil, desde 1980, foi capturado por uma “armadilha da renda média”. Países nessa situação têm dificuldade de competir com nações de renda mais baixa e com países mais ricos, seja com produtos de baixo valor agregado, seja com sofisticação de produtos e serviços. Como atualmente o Brasil se enquadra nessa questão?
Samuel Pessôa – Nós continuamos na renda média e temos uma exportação de baixa e média tecnologia, com exceção da Embraer. Em 20 anos, nesse quesito, não houve muitas mudanças.

Imil – O senhor enxerga possibilidades para escaparmos dessa armadilha?
Pessôa – Vai ser um processo gradativo que levará algumas décadas. Não sairemos dessa situação nem a médio prazo. O atraso do Brasil com relação às nações líderes é um fenômeno do século 19. Na virada do século 18 para o século 19, o PIB brasileiro marcava aproximadamente 70% ou 80% do PIB americano. Do século 19 para o século 20, caímos para cerca de 20% do PIB dos EUA e hoje mantivemos esse percentual. Estamos ainda no mesmo patamar. No século 21, vamos ganhar mais terreno frente aos países líderes, mas não seremos tão rápidos como foram Coreia do Sul, Japão e até mesmo a China. O processo que acabará com nosso atraso brutal de produtividade de trabalho vai ser longo. Se hoje somos 20% dos EUA, acho que no final do século seremos cerca de 60%, 70%.

Imil – Nos últimos anos o governo Dilma estimulou fortemente o consumo e reduziu os juros a “níveis históricos”. Os resultados obtidos têm sido insatisfatórios e o governo aponta a crise como o fator da desaceleração. No entanto, alguns países não apresentaram quedas do crescimento tão acentuadas como o Brasil. Em que medida os fatores externos contribuem para os nossos atuais problemas econômicos?
Pessôa - Eu acho que o regime de política econômica adotada pelo governo, a partir de 2009, está totalmente equivocado. A maior parcela da nossa desaceleração, na minha opinião, se deve a isso. É verdade que e o mundo piorou, mas países como Chile, Peru, Colômbia e até mesmo México registraram baixíssimas perdas de desempenho. Nossa situação não se explica muito pela situação internacional. Levando em conta que o Brasil crescia a 4% durante o governo Lula e agora cresce a 2% – uma perda de 2% – eu diria que 0,5% desse percentual está relacionado à situação internacional; 0,5% devido ao esgotamento do mercado de trabalho e 1% pela piora do regime econômico do governo.

Imil – Em uma recente entrevista, o senhor disse que o Estado brasileiro atualmente abraça o nacional-desenvolvimentismo ao mesmo tempo em que tenta manter uma espécie de walfare state. Como esse claro distanciamento de políticas liberais prejudica nosso desempenho econômico e social?
Pessôa - Há duas agendas no orçamento público que juntas são insustentáveis. A primeira é estrutural, no sentido de que é uma decisão da sociedade tomada na Constituição de 88, que estabelece o Brasil dentro do escopo do bem-estar social – o walfare state – ou seja, que oferece seguros aos indivíduos que estão submetidos aos sinistros naturais de uma economia de mercado. Acho difícil algum político defender uma agenda contrária a esse Estado provedor.

A outra agenda, menos estrutural, foi implantada a partir de 2009, cujo marco é a mudança das diretrizes econômicas da era Palocci [Antonio Palocci, ministro da Fazendo no governo Lula, até 2006] para a era do ministro Guido Mantega. Essa mudança é a adoção de um projeto chamado nacional-desenvolvimentismo, vigente no país num período compreendido entre as décadas de 1930 e 1980. Essa forma de conduzir a economia é baseada em programas que subsidiam pesadamente o capital físico e coloca o Estado na frente do processo econômico, determinando a natureza e os detalhes da economia. O maior exemplo desse regime é o papel do BNDES na alocação do crédito a longo prazo com forte subsídio privado. O problema é que o nacional-desenvolvimentismo é muito caro e os resultados têm sido frustrantes.

Imil – Esse modelo será deixado de lado?
Pessôa – Dado que a sociedade não defende  esse projeto, que foi adotado por questões ideológicas dos nossos representantes políticos e por grupos de pressão, principalmente da indústria, acredito que essa segunda “agenda” será desfeita em algum momento. Não cabem dois Estados dentro do orçamento brasileiro.  Acredito que a guinada para o nacional-desenvolvimentismo de 2009 ou vai ser desfeita em 2015 ou nós precisaremos de uma transição política para ela ser acabar.  Mas, mesmo com o welfare estabelecido, acho que o ganho de eficiência será uma pauta futura.

Imil – Como assim?
Pessôa - A abordagem de questões que busquem soluções para que o Estado melhore os serviços essenciais, como educação, saúde, segurança e justiça. Essa pauta melhora a governança do setor público. Temos que reformar o Estado de dentro para fora. Alguma coisa avançou um pouco no primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, quando o ministro Bresser-Pereira estava à frente da pasta de Reforma do Estado. Desde o segundo mandato FHC essa pauta foi deixada de lado. Certamente o governo petista tem poucas condições de assumir essa agenda por ser um governo completamente capturado pelas corporações de funcionários públicos. Vamos ter que esperar mais um tempo para que essas questões progridam.

Imil – Especialistas apontam que a falta de direcionamento econômico e a expansão de programas sociais não sinalizam para um rumo econômico sustentável e eficiente. O governo vem perdendo a credibilidade frente ao mercado e o discurso oficial tende a valorizar o “sucesso” de concessões para neutralizar esse “insucesso”. Esse ano, com as eleições, o senhor acha que Dilma vai tentar acalmar os ânimos do mercado?
Pessôa – Ela já está fazendo isso com a alta de juros. Dilma percebeu que não dava pra continuar com essa “intervenção branca” no Banco Central. Com os juros mais altos acho que ela segura a economia até as eleições.

Imil – E como senhor avalia a inflação em ano eleitoral? Em que medida o crescimento do crédito na economia contribui para o fator inflacionário?
Pessôa - Há dois tipos de credito no Brasil, o direcionado e o livre. O direcionado é aquele, em geral, intermediado pelos bancos públicos, seja para as empresas via BNDES, seja para os produtores agrícolas via Banco do Brasil, seja o credito imobiliário – e agora o Minha Casa, Minha Vida, através da Caixa Econômica Federal. Esses fazem parte de um pacote de crédito subsidiado.

O crédito livre é o que todo mundo faz via cartão de crédito, cheque especial, crédito pessoal etc. Esse já vem crescendo a taxas próximas a zero há quase um ano. O que mantém o crédito total crescendo, em termos reais, a 8% ao ano, são os créditos direcionados. A carteira de crédito direcionada continua crescendo em termos reais a 20% ao ano. Em grosso modo, temos o credito direcionado crescendo a 20% e crédito livre crescendo a 0%. Tiramos a média de cerca de 10%, um pouco menos, na verdade. Uma parte grande do ajustamento já ocorreu. Evidentemente, o período que o crédito cresce muito rápido é um período que há maior pressão inflacionária. Seria melhor que o governo começasse a colocar um pé no freio no credito direcionado. Isso ajuda o Banco Central a conter a inflação.

Imil – O senhor acredita que isso acontecerá em 2014?
Pessôa - Acho que o governo vai tentar fazer algum ajuste sim, mas não será brusco porque isso pode ser ruim para ele. Vai ser um processo mais lento, para os próximos quatro ou cinco anos.