domingo, março 09, 2014

Dinheiro há, mas só para alguns

Adelson Elias Vasconcellos

Trabalhadores da iniciativa privada: sustentam o país, mas são tratados como de 5ª categoria.

Não é de hoje que critico a posição do Estado brasileiro, e a do governo também, pelo tratamento que dispensam aos trabalhadores da iniciativa privada. Se não lhes é dispensado um chute no traseiro, pelo menos o descaso é a regra geral. 

A começar pela aposentadoria, a cada ano, lhes é tirado um pedaço do valor original. E, contudo, trabalham bem mais para se aposentar, e na labuta diária, muito mais horas também quando comparados aos servidores públicos. Uns precisam dos favores e humores do governo para terem aumentos reais no salário mínimo. Os da elite estatal gozam de um repositório de vantagens e privilégios que a iniciativa privada sequer sonha um dia alcançar. Sem falar da aposentadoria integral como a manutenção de todos os direitos dos servidores ativos. E nem vamos questionar que contribuição a elite estatal dá para o desenvolvimento do país, ou a riqueza são capazes de gerar, além do enorme rombo nas contas públicas que o montante de suas regalias provocam. 

Sabemos que a estabilidade econômica que vive o país tem duas alavancas: de um lado, o Plano Real que estabilizou os preços, trouxe decência às contas públicas e permitiu planejar o país com mais exatidão e em prazos maiores. E, de outro, a atividade agropecuária que mantém os preços estáveis e montou o colchão de segurança chamado de divisas internacionais, que nos mantém relativamente seguros diante de crises econômicas internacionais.

E esta, sabemos, é uma atividade estritamente privada. E, no entanto...

...e, no entanto, o governo continua financiando e patrocinando as atividades criminosas do MST e congêneres,  com dinheiro público, se e nega terminantemente em reconhecer os crimes que estas quadrilhas cometem. Vai  atrasar ou aleijar uma lei antiterrorismo justamente por reconhecer nas atividades ilegais do MST algumas como caracteristicamente terroristas, seja rural ou urbana.

Quem perde é o país,  a sociedade, pois a atividade honesta e rentável que a agropecuária proporciona, leva  progresso e desenvolvimento humano para as cidades do interior, esquecidas pelo poder público.

Quanto aos servidores sequer justificam a gama de privilégios exclusivos de que são beneficiários. Poucas são as repartições públicas em que o cidadão que a procura em busca de informação, documento, certidão, etc.,  consegue ser tratado com o respeito devido. A regra geral é sermos tratados com desdém, grosserias, enrolação, cara feia, mau humor. A tal ponto tal estupidez se tornou lugar comum no Brasil, que hoje parece que os servidores são donos do país e nossos patrões, quando na verdade quem lhes paga o salário para servir é o contribuinte privado, o verdadeiro trabalhador, urbano ou rural, que carrega o país nas costas e, por consequência natural, é o verdadeiro patrão desta elite apodrecida.

Claro que há muitas exceções no serviço público. Há gente educada, com firme propósito de bem servir e cumprir sua obrigação. Infelizmente, esta não é a regra. 

Todo o quadro acima é por demais conhecido, certo? Seria possível escrever verdadeira enciclopédia relatando casos em que o cidadão comum dos mortais é tratado como lixo. Pois bem, apesar deste ser um ano eleitoral, o governo Dilma, pretensamente candidata à reeleição (apesar do governo medíocre), resolveu escarnecer ainda mais dos trabalhadores da inicativa privada. Apesar de ter dinheiro em caixa para pagar os aposentados, empurraram o pagamento para após os feriados de carnaval, isto apesar da contração dos valores ao longo do tempo. Maldade pura. 

Como resultado deste despropósito, cerca de 9,5 milhões de aposentados e pensionistas do INSS, com benefícios acima do salário mínimo, só vão começar a receber o pagamento de fevereiro a partir de quinta-feira, dia 6 de março, muito embora o vencimento seja feito no primeiro dia útil de cada mês, critério não seguido para o benefício de fevereiro, que será pago quase uma semana depois. 

Já para os trabalhadores ativos da iniciativa privada, se o governo não consegue impedir que os pagamentos de salários sejam pagos com atrasos, a exemplo do que fez com as aposentadorias,  procura confiscar-lhes o salário o máximo possível. Deste modo, em uma década, triplicou-se o montante de imposto na fonte sobre o trabalho assalariado. Só neste ano, apesar da inflação ter se aproximado  dos 6%, a tabela de imposto incidente na fonte foi reajustada  em apenas 4,5%, o que aumenta o universo de contribuintes e a mordida do leão. Para se ter ideia do tamanho do confisco, em 2002, a faixa de isentos de imposto na fonte ia até cinco salário mínimos, o que  representaria, em valores atuais, R$ 3.620,00. Contudo, o governo petista, tanto de Lula quanto da senhora Rousseff, não se avexam de, ano após ano, aumentar esta facada. Assim, a faixa de isenção, se mantida a equiparação com 2002, que seria de R$ 3.620,00 cai para R$ 1.787,77, em 2014, ou 2,47 salários mínimos.

Seria interessante se as centrais sindicais e sindicatos, além das entidades representativas de classe como CREA, OAB, dentre outras,  pressionassem diariamente o governo da senhora Rousseff para corrigir o rumo.  Não é possível que mais de 20 milhões sejam sacrificados para beneficiar exclusivamente uma minoria.  Justiça social que honre o nome, não admite este tipo de tratamento diferenciado. Os trabalhadores da iniciativa privada não podem carregar o país nas costas para, mais tarde, serem tratados como de quinta categoria. E já bastam os degradantes e desumanos serviços públicos, cada dia mais deteriorados, apesar da carga tributária crescente e já exorbitante. 

Confisco salarial contínuo e atraso no pagamento de benefícios, mesmo tendo disponibilidade financeira para honrar o compromisso, com pessoas que destinaram 30 anos ou mais de suas vidas trabalhando honestamente  para a construção de um país, são, definitivamente, maldades que ninguém merece. 

Passa da hora do governo petista  fazer jus ao nome de partido dos “trabalhadores”, e não continuar se transformando numa congregação de abismo e suplício para estes brasileiros honrados. 

Dinheiro há,  o que falta é vergonha mesmo
Veja a foto abaixo. Nela mora cônsul geral do Brasil nos EUA. O custo da mansão, US $ 1,8 milhão é paga pelo contribuinte. Pois bem, informa o Cláudio Humberto, em “Diário do Poder”, que embaixadas brasileiras estão atrasando pagamentos de contas diversas inclusive salários. Segundo o jornalista, “...a  crise no Itamaraty agora chega às finanças, apesar do prometido “corte de despesas”: contratados locais de sete consulados-gerais e de duas embaixadas ainda não receberam os salários de fevereiro, após o atraso de janeiro. O “pendura” atinge a missão do Brasil na OEA, em Washington, da ONU em Nova York, além de várias embaixadas, o que poderá render multas milionárias ao governo brasileiro lá fora”.

Casa de 1,8 milhão de dólares onde vive um cônsul do Brasil nos EUA


O corte de despesas determinado pelo Itamaraty, que inclui até economizar material de escritório, não afetou a vida de milionário americano do cônsul-geral em Hartford (Connecticut), Cézar Amaral.

A mansão tem cinco quartos, seis banheiros, salão de jogos, academia de ginástica com cem aparelhos e quadra de basquete, longe da “muvuca” de brasileiros que emigraram em busca do sonho americano e deram um duro desgraçado. O aluguel da casa está avaliado em US$ 10 mil (R$ 23,5 mil) por mês

O pequeno castelo ocupado por Amaral em Greenswood Place 45, Glastonbury, apareceu na TV e no site americano “Casa dos Ricos” e está avaliada em US$1,8 milhão, o que para os padrões astronômicos de preços no Brasil pode ser considerada uma pechincha. Quem se habilita?

Nas asas da FAB
O jornal O Globo informa que o recém empossado ministro da Saúde, Arthur Chioro, nomeado há um mês ao cargo, levou sua mulher Roseli Regis dos Reis em viagens que fez a três capitais, no carnaval, em avião da Força Aérea Brasileira. Como bom esquerdista, parece ter encontrado seu verdadeiro ninho. Não demorou muito para, às vésperas do carnaval, deliciar-se nas asas dos jatos da FAB.  Chioro viajou de São Paulo para Recife, Rio de Janeiro e Salvador para promover, segundo alegou,  o uso de camisinhas, através de ações do ministério. Em Salvador, o ministro foi ao camarote do governador Jaques Wagner (PT) e ao Expresso 2222, do ex-ministro da Cultura Gilberto Gil, onde, alega, houve distribuição de preservativos. No Rio de Janeiro, compareceu ao bloco Sargento Pimenta, onde o ministério promoveu ação de prevenção à Aids.

Mas não foi o único. O Carnaval começou cedo para o presidente do Congresso, Renan Calheiros, e pelo menos sete ministros, embarcaram em jatinhos da FAB na quinta-feira passada, com a desculpa de que iam ‘a serviço’. Para poupar o bolso, diante dos altos preços das companhias aéreas, a turma da carona nos jatinhos não foi pequena: foram 42 passageiros extras em apenas oito voos.

Os ministros foliões que decolaram na quinta foram: Guido Mantega, César Borges, Marta Suplicy, Manoel Dias, Marco Raupp, Maria do Rosário e Afif Domingos além de Renan Calheiros. 

 A maioria dos caroneiros são assessores dos ministérios e convidados dos ministros, cuja lista não pode ser divulgada pela FAB. A turma economizou, e muito.

O voo mais lotado foi o de Maria do Rosário (SDH), com 12 passageiros. O jatinho fez escala no Rio e à noite levou a turma para a Base Aérea de Canoas, RS, sem pagar passagem, porque alegou “trânsito em serviço”. Na verdade, ela veio se divertir no Carnaval.

 Em Porto Alegre, desfilou com seu companheiro de PT, o deputado Oliboni, integrando a escola Samba Puro do Partenon, que prestou homenagem às Marias.

Não contente com a festa de Porto Alegre, Maria do Rosário viajou para São Lourenço, onde desfilou num carro alegórico da E.S. Estação Primeira do Cruzeiro, na noite de domingo. A escola entrou em terceiro lugar. A ministra levou junto fantasias, instrumentos musicais e muita gente. 

Em Porto Alegre e em São Lourenço, o samba-enredo foi o mesmo: "As Marias". Tudo ajustado para Maria do Rosário aparecer. 

Dinheiro do Tesouro há para bancar esta farra toda.

Amarildo, depois de morto, rende boa grana para ONG.  Já a família...
E o dinheiro do Amarildo, onde foi parar? Reportagem da Revista VEJA descobriu o mistério: quase 70% do dinheiro doado para a família de Amarildo, foi parar nas mãos de uma DDH, ONG que diz defender direitos humanos.  E o que foi feito com a grana? Por enquanto, nada, já que a ONG alega ter “projetos não definidos”. 

Na escola de pessoas sérias isto tem nome: ou é apropriação indébita ou estelionato mesmo. É só escolher. Alguém do Ministério  Público será capaz de se interessar em fazer com que a ONG devolva à família o dinheiro que lhe pertence? Do contrário, os doadores podem, sim, exigir o dinheiro desviado de seu propósito. 

Por que não vou à Copa
Faz sucesso na rede o vídeo abaixo, com legenda em português. 

Não culpem o tomate nem o petróleo

Rolf Kuntz  
O Estado de S.Paulo

Parem de caluniar o petróleo e o tomate. Nem o tomate foi culpado pela inflação, no ano passado, nem o petróleo é o vilão da balança comercial, como andaram dizendo nos últimos dias. Se os preços no varejo continuam subindo muito mais que no resto do mundo, é porque há desequilíbrios graves na economia brasileira, como tem havido há muitos anos. E o comércio exterior vai mal porque a atividade interna também vai mal, com custos altos e crescentes, produtividade baixa, indústria emperrada e governo incompetente. Se as importações de combustíveis e lubrificantes consumiram em fevereiro US$ 3,59 bilhões, 7,9% mais que um ano antes, foi principalmente porque a produção nacional tem sido insuficiente para acompanhar a demanda.

Em janeiro a produção interna de petróleo e líquido de gás natural (LGN) foi 2,4% menor que em dezembro - apenas a continuação de uma longa queda. O volume produzido caiu de 2,02 milhões de barris/dia em 2011 para 1,98 milhão em 2012 e 1,93 milhão no ano passado. Em contrapartida, a extração de água, em algumas áreas, passou a igualar a de petróleo.

Desde a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a interferência do governo central na condução dos negócios da Petrobrás levou a empresa a investimentos errados no Brasil e no exterior, distorceu prioridades, afetou a geração de caixa, aumentou seu endividamento e derrubou seu valor de mercado. A perda de produção e a maior dependência da importação de derivados foram desdobramentos dessa história de irresponsabilidades. A maior empresa brasileira foi subordinada às ambições políticas do grupo governante, usada para uma diplomacia contrária a seus interesses e convertida em instrumento de uma política industrial anacrônica.

Mas a decadência empresarial da Petrobrás explica só em parte o mau desempenho comercial do Brasil. A cena fica mais clara quando se consideram os números do primeiro bimestre. Em janeiro e fevereiro as exportações somaram US$ 31,96 bilhões, valor 1,4% maior que o de um ano antes. Mas a variação se torna negativa - queda de 3,4% - quando se comparam as médias dos dias úteis (42 em 2013 e 40 em 2014). No caso das importações, a comparação entre os valores absolutos indica um aumento de 3,6%. Quando se confrontam as médias dos dias úteis, o resultado é uma queda de 1,4%, bem menor que a das vendas ao exterior. Em 12 meses, pelo mesmo critério, a receita diminuiu 0,9% e a despesa aumentou 4,4%.

O déficit comercial de US$ 6,18 bilhões no primeiro bimestre é um retrato de um País com graves desarranjos. A receita obtida com a venda de produtos básicos aumentou de US$ 13,6 bilhões para R$ 14,06 bilhões, mas o valor médio diário diminuiu 1,5%. Considerando-se a evolução dos preços, foi um bom resultado. Ruins, mesmo, foram as vendas de produtos da indústria.

A receita dos manufaturados caiu 5,6%. A de semimanufaturados diminuiu 7,2%. O problema da competitividade continua muito grave. Além disso, o País sofre os efeitos da crise na Argentina, seu maior parceiro na América Latina e um dos principais mercados para a indústria brasileira. Em janeiro e fevereiro as vendas para o mercado argentino, US$ 2,37 bilhões, foram 16% menores que as do primeiro bimestre de 2013.

O melhor resultado foi o das vendas para a China. A receita de US$ 5,02 bilhões nos dois primeiros meses foi 25,5% maior que a de um ano antes. As exportações para os Estados Unidos também avançaram bem e renderam US$ 3,96 bilhões, 7,4% mais que em janeiro e fevereiro do ano passado. Mesmo com alguma desaceleração, o mercado chinês continua absorvendo enormes volumes de matérias-primas e de bens intermediários.

Mas o comércio com os Estados Unidos tem uma composição muito mais equilibrada, porque o mercado americano absorve boa parte das exportações brasileiras de manufaturados. Em janeiro, último mês com números detalhados até esse nível, apenas 4,5% das vendas brasileiras à China foram de manufaturados. O total dos industrializados (com inclusão dos semimanufaturados) chegou a 25,78%. Quase metade das exportações para os Estados Unidos (45%) foi de manufaturados. Os industrializados corresponderam a 66,23%.

O Império, portanto, é um bom cliente da indústria brasileira, enquanto o grande emergente, eleito como parceiro estratégico pela diplomacia brasiliense, mantém com o Brasil um comércio de tipo colonial.

Não há nenhum mal em exportar grandes volumes de commodities. Algumas das potências mais desenvolvidas, como Estados Unidos e Canadá, também são grandes vendedoras de matérias-primas e bens intermediários. A grande besteira cometida pelas autoridades brasilienses, a partir de 2003, foi desprezar os acordos comerciais com os mercados mais desenvolvidos, dar prioridade ao chamado comércio Sul-Sul e deixar esboroar-se o poder de competição da indústria nacional. O agronegócio ainda se mantém competitivo, mas até quando? A tentativa de ressuscitar políticas industriais talhadas segundo o modelo dos anos 50 e 60 produziu o efeito esperado pelas pessoas sensatas e menos provincianas. O fracasso era tão previsível quanto os efeitos da tolerância à inflação.

A esperança de resultados melhores com a depreciação do câmbio e a reativação do mercado global é igualmente enganadora. O câmbio é a menor parte do problema, como já mostraram os números do ano passado, e um mercado mundial mais favorável será aproveitado principalmente pelos produtores mais eficientes. Isso é óbvio, exceto para o governo brasileiro e, curiosamente, para uma parcela dos empresários da indústria. Mas essa parcela tem diminuído, como indicam as boas análises publicadas por algumas entidades do setor, como o Instituto de Estudos do Desenvolvimento Industrial (Iedi).

Me dá um dinheiro aí.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

No Carnaval, os grandes vencedores, no quesito "Cadê o Meu?", foram mais uma vez os bancos, num grandioso desfile patrocinado pelo Governo Federal. O dinheiro dos nove milhões de aposentados já estava em poder dos bancos na sexta-feira, 28 de fevereiro. O Governo transformou a segunda-feira de Carnaval, dia útil, em mais um feriado, exclusivo para o sistema financeiro. E o pagamento dos aposentados, que deveria começar a sair na segunda, foi liberado apenas a partir do dia 6. Nem vamos fazer as contas: só imagine quanto os bancos puderam faturar no overnight, aplicando o dinheiro que não era deles mas estava em seu poder. Por menor que seja a taxa, multiplicada por nove milhões é dinheiro. 

Por que a segunda-feira de Carnaval deixou de ser dia útil? O INSS explicou que o calendário de 2014 foi fechado em 2013. E daí? Daí, nada. Em 2013, como em 2000, como em 1956, a segunda-feira de Carnaval cai na segunda-feira. E, a menos que mude de nome, continuará caindo na segunda todos os anos. Enfim, só há uma explicação: se os bancos podiam ganhar mais algum, por que tirar dos banqueiros, que como se sabe quase não têm lucro, a chance de faturar de novo?

A segunda de Carnaval virou feriado e assim o primeiro dia útil do mês, para recebimento, passou para a quinta, 6. Já as contas que venceram no dia 5 continuaram vencendo no dia 5; os aposentados que paguem juros nos empréstimos consignados, nos cartões, nos financiamentos. Mais uma vez, ganham os bancos. Na guerra do Governo contra a pobreza, a pobreza está perdendo de goleada.

Bandeira branca
Mas, para que não se diga que os bancos faturam apenas graças ao auxílio do Governo, segue uma demonstração de que eles também sabem, sozinhos, descobrir o caminho do bolso dos incautos.

De acordo com levantamento do Idec, Instituto de Defesa do Consumidor, as anuidades de cartões de crédito subiram em um ano, em média, o triplo da inflação. O banco que mais elevou preços atingiu inacreditáveis 85%; houve quem elevasse a anuidade em 50%. Dos seis maiores bancos do país, só dois - ambos estatais, pertencentes ao Governo Federal - não elevaram as anuidades: Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.

Perdendo tempo
O debate sobre a legalidade da reunião de campanha entre Dilma, Lula, João Santana, Franklin Martins e outros políticos no Palácio da Alvorada é inútil. Em princípio, o Palácio da Alvorada, sendo a residência da presidente, não está sujeito à proibição do uso de edifícios públicos para campanha eleitoral. Pode-se discutir se o horário não era de expediente. Mas é outra bobagem: se a Justiça eleitoral considerar a reunião ilegal, vai multar o PT e/ou os políticos que estavam no palácio. Para um partido que já mostrou sua capacidade de arrecadação, que tem entre seus integrantes especialistas renomados na captação de recursos, a multa não fará a menor diferença. 

A oposição continua lutando a guerra errada.

O longo braço... 
Preste atenção, neste ano, na Campanha da Fraternidade da Conferência Nacional de Bispos do Brasil: Fraternidade e o Tráfico Humano. Os traficantes de gente tiram as pessoas de seu país e as escravizam sem referências, sem amigos, sem documentos, em situação ilegal, em outras regiões do mundo. 

Só no Brasil, segundo a CNBB, há mais de 240 rotas de tráfico humano, que envolvem desde a prostituição forçada até, no caso de crianças e adolescentes, a remoção de órgãos para venda em casos de transplante - "e não se pode admitir que seres humanos sejam tratados como mercadoria", nas palavras do papa Francisco.

... do papa
E por que essa campanha é mais forte que as demais? Por dois motivos: primeiro, porque o presidente da CNBB, cardeal d. Raymundo Damasceno, arcebispo de Aparecida, SP, é especialista no tema, e vem forçando sua discussão há mais de dez anos; segundo, porque é ligadíssimo ao papa e tem apoio do Vaticano para propor providências ao Governo. D. Raymundo está com o prestígio em alta, a tal ponto que até o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, normalmente autossuficiente e avesso ao diálogo, decidiu colaborar com a campanha.

Descolando
Desta vez, vai - dizem: o processo da Varig contra o Governo, que se arrasta na Justiça há 21 anos, foi colocado em pauta pelo ministro Joaquim Barbosa, para exame na quarta-feira. Na época do Plano Cruzado, o preço das passagens aéreas foi congelado, embora os custos, especialmente no Exterior, continuassem livres. A Varig estimou seus prejuízos em R$ 3 bilhões, atualizados para a moeda de hoje; e alega que essas perdas a levaram à quebra. 

Agora, o pouco que restou da Varig não é o principal interessado na questão: quem se interessa são os aposentados, que recebiam complementação salarial pelo fundo de pensão dos aeroviários, Aeros, para o qual contribuíram durante toda a carreira. Pararam de receber há anos. O processo entrou em julgamento em maio de 2013. A ministra Carmen Lúcia, relatora, votou em favor da Varig. Mas Barbosa pediu vistas do processo, que ficou parado até agora. Se a Varig vencer e receber rapidamente a quantia, o pagamento aos beneficiários do Aeros será logo retomado.

carlos@brickmann.com.br 
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‘Sorriso’ mostrou a Paes a alma do Rio

Elio Gaspari
O Globo

As cidades têm alma, e o prefeito Eduardo Paes parece não entender a da sua

As cidades têm alma, e o prefeito Eduardo Paes parece não entender a da sua. O Rio tem a capacidade de se encantar com personagens do andar de baixo. No Império havia um filho de escravos, veterano da Guerra do Paraguai, que se intitulava D. Obá II d'África. D. Pedro II obsequiava-o nas audiências públicas. Houve Madame Satã, um marginal gentil, brigão, homossexual, que passou boa parte da vida preso e é um patrono da velha Lapa. E também o Profeta Gentileza, que pregava pelas ruas e deixava murais nos viadutos da Avenida Brasil. O último desses adoráveis personagens é o gari Renato “Sorriso", aquele que varria a passarela do samba dançando e alegrou o mundo no encerramento das Olimpíadas de Londres.

"Sorriso" aderiu à greve dos garis do Rio. Na outra ponta, o prefeito Eduardo Paes teve seu momento Ronald Reagan. Diante da greve, demitiu 300. Quando a cidade ficou parecida com Nápoles durante sua terrível paralisação de 2011, aceitou readmiti-los, pagando os dias parados. O presidente Reagan havia sido ator, mas não fazia teatro, demitiu 11 mil controladores de voo, quebrou a greve, e nenhum deles retornou ao emprego. Depois do recuo, Paes chamou grevistas de “delinquentes”. Nisso, a cidade continuava imunda, pois, ao contrário de Reagan, que armou um plano B, a prefeitura entrou só com a agressividade do gogó. Disse que a greve era coisa de 300 garis. Tudo bem. Se fosse assim, cada um deles deveria ganhar R$ 100 mil por mês, pois, quando pararam, a cidade virou um lixo. Desfeita a patranha, reconheceu-se que o movimento envolveu pelo menos 30% dos quatro mil servidores. Em vez de tentar um caminho que o levou ao fracasso, poderia ter acompanhado a alma do Rio, evitando a linha do posso-logo-faço. Filmado arremessando pedaços de fruta na rua, explicou que os jogou na direção de uma lixeira longínqua “ou para que um de seus assessores fizesse o descarte em local adequado". Fica criada assim a categoria de assessor de descarte ou gari de prefeito. Seria mais fácil cantar: "Viver é arte. Errar faz parte".

Brigar com gari pode não ser uma boa ideia, mas, quando um prefeito está de um lado, e um sujeito como "Sorriso" está do outro, ele deve pensar duas vezes.

Três viúvas do Haiti no gaveteiro da Justiça
Em 2010, durante o terremoto do Haiti, morreram 18 militares brasileiros que integravam a força internacional que policiava o país. Lula recebeu os caixões com pompa e circunstância, e o governo deu às famílias as pensões a que tinham direito, bem como um auxílio especial de R$ 500 mil a cada uma.

Encerrada a marquetagem, começou uma encrenca. Todas os mortos tinham seguro de vida vendido pelo Bradesco, consorciado com a Fundação Habitacional do Exército. Até hoje não se sabe o que pode levar um exército a se juntar a uma seguradora privada. As viúvas diziam que os militares morreram em serviço (o que é óbvio) e, portanto, tinham direito ao dobro do valor da apólice. A seguradora dizia que eles morreram num cataclismo ao qual o contrato não dava cobertura. Foram para a Justiça, e o Bradesco fez acordo com 15 famílias. Sobraram três, que reivindicam também indenização por danos morais ocorridos durante a disputa. Como seus maridos foram promovidos post-mortem, são viúvas de dois generais e um coronel. Com elas, não houve oferta formal de acordo, além de um telefonema.

Desde 2012, um recurso dessas três senhoras está no gaveteiro do Tribunal Regional Federal 1. Se o Exército não tivesse se associado a uma seguradora que vende apólices de grupo dentro de suas instalações, a questão estaria resumida a um negócio privado.

Terror
O ministro Ricardo Lewandowski recebeu uma carta de um advogado que defende a banca no julgamento pelo STF do processo dos poupadores tungados nos planos econômicos. Dizia o seguinte:

“A prevalência do entendimento até agora adotado por numerosas decisões judiciais provocará uma convulsão econômica que lançará o país numa corte de horrores que, sem exagero, irão do desemprego em massa à fome da população mergulhada nos sortilégios de uma crise econômica que afetará toda a nação.”

A banca da banca deve estar lendo demais sobre a Ucrânia.

Burle Marx
Um carioca de alma exilado em Brasília estava esperando sua hora no aeroporto do centro da cidade e não acreditou no que viu. Sumiu o jardim de Burle Marx que ficava na pracinha em frente.

Virou estacionamento e sobraram só as árvores, para dar sombra aos carros.

Sucessão
Durante um almoço do andar de cima, no Rio, falava-se nas virtudes de Eduardo Campos como candidato à Presidência, até que um grande empresário que estava à mesa perguntou ao garçom:

— Você sabe quem é Eduardo Campos?

— Não senhor —, respondeu o rapaz, com sotaque nordestino.

O assunto morreu.

Madame Natasha
Madame Natasha vai a Brasília pedir aos educatecas do Inep que estudem as mudanças anunciadas para o sistema de testes do SAT americano. Nos Estados Unidos os estudantes podem fazer esses exames em sete ocasiões ao longo de um ano. No Brasil, Lula e Dilma prometeram duas provas anuais do Enem, mas era lorota.

A instituição que cuida do SAT anunciou que retirará dos exames os fatores de “ansiedade improdutiva”. Para começar, banindo expressões que são colocadas nas provas com o propósito de humilhar e confundir os estudantes. Algumas palavras, como “síntese” ou “empírico” não são corriqueiras, mas devem ser conhecidas. Outras, como “deletério”, podem ser substituídas. (Por “destruidor”, por exemplo.)

Natasha foi a uma prova do Enem de 2012 e achou coisas assim: “canalizar as pulsões”, “cultura lipofóbica”, “sentimentos de pertencimento” e “biorremediação”.

Natasha teme que o Inep diga que é isso mesmo, porque a doutora Dilma disse o seguinte há dias:

“Tem uma infraestrutura muito importante para o Brasil, que é também a infraestrutura relacionada ao fato de que nosso país precisa ter um padrão de banda larga compatível com a nossa, e uma infraestrutura de banda larga, tanto backbone como backroll, compatível com a necessidade, que nós teremos para entrarmos na economia do conhecimento, de termos uma infraestrutura, porque no que se refere a outra condição, que é a Educação, eu acho importantíssima a decisão do Congresso Nacional do Brasil em relação aos royalties” (84 palavras em busca de um sentido.)

Não é o Brasil, senhores!

Percival Puggina
Zero Hora

Dize-me a quem admiras. E eu te direi que isso me basta. Muito tem sido escrito sobre as afeições do governo brasileiro no cenário internacional. Eu mesmo já escrevi sobre a carinhosa saudação de Lula na 10ª Reunião do Foro de São Paulo, em Havana, no ano de 2001: “Obrigado, Fidel, por vocês existirem!”. E não satisfeito com tão derretida manifestação de afeto, Lula arredondou o discurso com esta faiscante pérola: “Embora o seu rosto esteja marcado por rugas, Fidel, sua alma continua limpa porque você não traiu os interesses do seu povo”. Que coisa horrível! E note-se: é uma adoração coletiva. Interrogue qualquer membro do governo sobre violações de direitos humanos, prisões de dissidentes, restrições às liberdades individuais na ilha dos Castro. Verá que ele, imediatamente, passa a falar de ianques em Guantánamo. Essa afinidade entre nossos governantes e os líderes cubanos é carnal, como unha e dedo. Quando se separam, dói. Noutra perspectiva, parece, também, algo estreitamente familiar. Filial, como quem busca a bênção do veterano e sábio pai, fraternal na afinidade dos iguais, e crescentemente paternal, pelo apoio político, moral e financeiro à velhice dos dois rabugentos ditadores caribenhos. E haja dinheiro nosso para consertar o estrago que a dupla já leva mais de meio século produzindo. 

Um pouco diferente, mas ainda assim consistente e comprometida, solidária e ativa, a relação do nosso governo com o delirante Hugo Chávez e seu fruto Maduro. Ali também se estendeu - e estendida permanece, resolutamente disponível - a mão solidária do governo brasileiro. Pode faltar dinheiro para as penúrias humanas do nosso semiárido, para um tratamento menos indigno aos aposentados e pensionistas do país, para os portos e aeroportos nacionais, mas que não faltem recursos para pontes, portos e aeroportos na Venezuela e em Cuba. Parece, também, que entramos num infindável ano bíblico de perdão de dívidas. Onde houver um tiranete africano ou ibero-americano em necessidade, lá vai o Brasil rasgar seus títulos de crédito. Quando foi deposto o virtuoso Fernando Lugo, com suas camisas tipo clergyman adornadas com barras verticais que lembravam estolas, nosso governo experimentou tamanha dor que preferiu perder a amizade dos paraguaios. A parceria se reuniu, expulsou o Paraguai do Mercosul e importou, não a Venezuela, mas o folclórico Hugo Chávez. 

Eu poderia falar sobre o silêncio do Brasil em relação ao que a Rússia está fazendo na Criméia. Aliás, haveria muito, mas muito mais, do mesmo. Mas isso me basta. Percebam os leitores que em todos os casos, a reverência, o apreço, a dedicação fluem para as pessoas concretas dos líderes políticos, membros do clube, e não para os respectivos povos. Não são os cubanos, mas os Castro. Não são os venezuelanos, mas os bolivarianos Chávez e Maduro. Não eram os paraguaios, mas Lugo. Não são os bolivianos ou os nicaraguenses, mas Evo e Ortega. Não são os povos africanos, mas seus ditadores. Há algo muito errado em nossa política externa. Tão errado que me leva a proclamar: não é o Brasil, senhores, mas é Lula, Dilma e seus companheiros! 

Isso me basta. No entanto, ocorre-me uma investigação adicional e para ela eu peço socorro à memória dos meus leitores: você é capaz de identificar uma nação ou um estadista realmente democrático, uma democracia estável e respeitável, que colha dos nossos governantes uma consideração minimamente semelhante à que é concedida nos vários exemplos que acabo de citar? Pois é, não tem. 

Palácio da Alvorada virou um comitê reeleitoral

Josias de Souza


Diz o artigo 73 da Lei Eleitoral: é proibido aos agentes públicos "ceder ou usar, em benefício de candidato, partido político ou coligação, bens móveis ou imóveis pertencentes à administração direta ou indireta da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Territórios e dos Municípios."

Certas leis implicam com muita gente. Mas pouca gente implica com certas ilegalidades. Preocupados em assegurar ao povo brasileiro a felicidade de mais quatro anos de presidência petista, Dilma, Lula e Cia. converteram o Palácio da Alvorada em comitê reeleitoral.

O Alvorada já sediou pelo menos quatro encontros de campanha. Num deles, em outubro do ano passado, Dilma reuniu-se por cinco horas, em pleno horário de expediente, com Lula, o marqueteiro João Santana, o presidente do PT Rui Falcão, o ex-ministro Franklin Martins e o ministro Aloizio Mercadante.

Além de financiar o palácio, o conforto, a água mineral, o cafezinho, o serviço de copa e o garçom, os contribuintes brasileiros —inclusive os que votam em Eduardo Campos e Aécio Neves— pagaram os salários de Dilma e Mercadante para que eles trocassem os negócios da nação pelas articulações partidárias.

Nesta Quarta-Feira de Cinzas, o grupo voltou a carnavalizar o Alvorada. Além dos personagens de sempre, participaram da conversa Edinho Silva, futuro tesoureiro do comitê, e Giles Azevedo, que deixará a chefia de gabinete de Dilma para integrar-se formalmente à campanha.

Dilma e Lula já nem se preocupam em maneirar. A pretexto de silenciar o zunzunzum do ‘volta Lula’, divulgou-se nas redes sociais e no site do Instituto Lula um retrato da ilegalidade. Nele, Dilma e Lula estreitam suas diferenças num aperto de mãos na biblioteca do Alvorada. 

Lindo. Porém, ilegal.

O Brasil passou de prodígio a problema

Fabiane Stefano, 
Revista EXAME

Um realinhamento da economia global está transformando o Brasil, até outro dia o queridinho dos investidores internacionais, numa economia frágil e de perspectiva incerta. O que aconteceu com o país que prometia tanto e agora parece não entregar nada

Fernando Frazão / Agência Brasil 
Protestos no Rio de Janeiro: o baixo crescimento e
 a falta de perspectivas mostram a outra face do Brasil

São Paulo - O biólogo americano Robert Trivers ficou famoso por seus estudos sobre o autoengano. Trata-se de um conceito simples: o ser humano mente para si mesmo com o objetivo de enganar de forma mais eficaz os outros.

A ideia de Trivers, um evolucionista que passou boa parte da carreira na Universidade Harvard e na Universidade da Califórnia, se aplica tanto à conquista de uma companhia amorosa quanto à tentativa de inflar ativos no mercado financeiro. No Brasil de 2014, o comportamento das autoridades tem demonstrado outra evidência do conceito de Trivers.

Ficamos sabendo pela equipe econômica que não há má gestão das contas públicas. O governo nega que a inflação preocupe. Nega a deterioração do ambiente de negócios. Nega que haja um desajuste no setor elétrico. E, por fim, nega que a economia do país se fragilizou nos últimos anos.

Seria ótimo se todas essas negativas bastassem para mudar nossos graves desequilíbrios. Na vida real, porém, elas de nada servem. O Brasil de hoje não é mais a estrela reluzente de 2010. Em janeiro, num ensaio de crise de confiança nos mercados emergentes, fomos apontados por investidores como uma das economias mais frágeis.

Em seguida, no começo de fevereiro, um relatório do Federal Reserve, o banco central americano, citou 11 vezes o Brasil como uma das nações emergentes mais vulneráveis — ficamos atrás só da Turquia, epicentro da atual turbulência. Como passamos, em tão pouco tempo, de prodígio a problema?

Na última década, o Brasil viveu as benesses de ser alçado à condição de uma das economias mais promissoras do século 21. Junto com China, Rússia e Índia, o país formou oBric, grupo com potencial capaz de compensar o baixo desempenho dos países ricos, que davam sinais de não ter mais fôlego.

De 2000 a 2007, enquanto as nações desenvolvidas cresceram em média 2,3%, o mundo emergente avançou 6,6% ao ano. Para o Brasil, foi um pe¬río¬do especial de prosperidade. Era o auge do boom de commodities, momento em que o país vendeu montanhas de soja e de minério de ferro para a China a preços exorbitantes (só o minério valorizou 220% de 2003 a 2013).

Foi também a fase que apresentamos ao mundo uma riqueza inesperada, o petróleo do pré-sal. A ascensão de uma nova classe média e o aumento do consumo completaram o quadro e ajudaram a atrair um volume recorde de investimento estrangeiro ao país. Não havia quem não se encantasse com a narrativa do país que fazia tudo errado e que agora dá certo.

Corrosão lenta
A questão é que o Brasil se agarrou apenas à parte desfrutável dessa história e deixou de lado as arrumações de casa que arrasta de longa data. Como resultado, viu sua economia perder gás e um déficit em conta-corrente se avolumar. “As reformas estruturais que não foram feitas nos tempos de bonança são preo¬cupantes”, diz o economista Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia, em Berkeley.

“Agora, tudo ficou mais difícil.” Nos últimos anos, lentamente, o país vem corroendo os dividendos conquistados na época em que era uma celebridade global. Entre dezembro de 2010 e janeiro de 2014, a bolsa de valores brasileira perdeu 410 bilhões de reais em valor de mercado — um terço dessa riqueza sumiu nas ações da Petrobras.

“Parte do otimismo em relação ao Brasil era fruto de uma expectativa exagerada quanto ao petróleo do pré-sal. Como não é claro se essa riqueza virá, houve frustração”, diz o economista Jeffrey Sachs, professor da Universidade Colúmbia, em Nova York.

Um levantamento da Associação Latino Americana de Private Equity e Venture Capital mostra que os fundos de investimento em participações reduziram em 70% sua atuação no Brasil nos últimos dois anos. Em 2013, eles alocaram 2,3 bilhões de dólares no país — ante 8,1 bilhões em 2011.

Fábrica de trens na China: a segunda economia do mundo
 parece caminhar para uma gradual desaceleração

Obviamente, essa deterioração não ocorreu de repente. As evidências estão por aí há algum tempo. O que motivou os mercados a rever suas posições em relação aos emergentes, porém, é um realinhamento de forças no cenário global. As duas maiores economias, Estados Unidos e China, se movimentam em direções opostas, e isso deve mudar o padrão de crescimento do mundo nos próximos anos.

Após cinco anos de atividade apática, os Estados Unidos deverão crescer 3% em 2014. Os sinais de retomada estão por toda parte: o desemprego está abaixo de 7%, a venda de automóveis e a construção de casas atingiram o maior nível desde 2007 e os lucros das empresas americanas listadas em bolsa subiram 5% em 2013.

Essas evidências motivaram o Fed a diminuir os estímulos monetários dados à economia americana, o que deverá reduzir o volume de dinheiro em circulação pelo mundo. Se em maio de 2013, quando o Fed deu o primeiro aviso de que iria cortar os incentivos, os juros subiram e as moedas de países emergentes desvalorizaram, agora, com a efetiva redução, a expectativa é de mais turbulência.

“Sabíamos que o mundo iria passar por uma reacomodação por causa das mudanças nos Estados Unidos. Mas a sensação é que o Brasil deixou o tempo passar e não fez o seu dever”, diz Márcio Utsch, presidente da fabricante de calçados Alpargatas. Utsch, que tinha um plano otimista para 2014, já traçou uma estratégia preventiva de contenção de despesas caso a situação se agrave.

Na outra ponta está a China, que vem desacelerando. Após décadas crescendo à média de 10%, no ano passado o PIB do país avançou 7,7%. Com o novo direcionamento da economia chinesa, que deverá privilegiar o consumo em vez do investimento, há quem projete que a média de crescimento anual cairá para 6% no longo prazo.

“Esse é apenas o começo de um processo que deve durar anos”, diz Michael Pettis, professor de finanças na Universidade de Pequim e uma das maiores autoridades mundiais em China.

Forças contrárias
A combinação dessas duas forças não parece favorável ao Brasil. Em um passado não muito distante, a perspectiva de melhora da economia americana era suficiente para garantir maior crescimento das exportações brasileiras. Hoje, essa correlação é menor. Apenas 10% dos produtos exportados daqui seguem para os Estados Unidos — já foram 25% no início da década passada. 

“Os americanos não compram nossas commodities e acabam atuando mais como nossos concorrentes no mercado internacional de manufaturados”, diz o economista Roberto Giannetti da Fonseca, especialista em comércio exterior. Se não seremos muito beneficiados pelo crescimento americano, podemos, sim, ser prejudicados com a desaceleração chinesa.

Dos 242 bilhões de dólares exportados pelo Brasil em 2013, 19% seguiram para a China — 85% disso em commodities. Um dos itens da pauta que mais podem ser afetados é o minério de ferro, cuja demanda deve cair na China nos próximos anos.

Um relatório do banco americano Goldman Sachs aponta que o preço da tonelada do minério de ferro, hoje cotado a 140 dólares, pode chegar a 108 no fim do ano e a 80 dólares em 2015.

Nesse novo cenário global, a vida ficou mais dura para os emergentes em geral — e para o Brasil em particular. Embora nas primeiras semanas de 2014 os investidores tenham nivelado por baixo todos os emergentes sem lá muito critério, pouco depois os analistas passaram a reconhecer diferenças entre eles.

Um levantamento da gestora de recursos sul-africana Investec mostrou que os países que registram superávit nas contas externas e exportam manufaturados, caso da China e da Coreia do Sul, tendem a ser menos afetados em tempos de escassez de divisas.

Já os emergentes que têm déficit em conta-corrente e exportam sobretudo commodities são os que concentram mais risco — grupo do qual o Brasil faz parte. 

Diante desse quadro, cada país emergente tenta agora mostrar que pertence à turma dos prodígios, não dos problemas. Turquia, Índia e Chile acabaram de elevar suas taxas de juro. O Brasil já vinha fazendo isso.

Em janeiro, a presidente Dilma Rousseff tentou reconquistar a confiança dos investidores no Fórum Econômico Mundial, na Suíça, com um discurso em que tratava da importância do controle da inflação e do equilíbrio das contas públicas. A estreia de Dilma em Davos foi até bem recebida, mas não causou o mesmo impacto que outro novato por ali: o presidente mexicano Enrique Peña Nieto.

Nova celebridade emergente, Nieto angariou em Davos 7,7 bilhões de dólares em anúncios de projetos das multinacionais Cisco,¬ Nestlé e Pepsico para seu país. Aparentemente, Dilma não trouxe nada na bagagem. “O fato de o Brasil ser classificado como problemático é resultado da adoção de políticas ruins e de má gestão”, diz o investidor americano Jim Rogers, ex-sócio do megainvestidor George Soros.

Quase um mês depois de ir a Davos, Dilma voltou à Europa, desta vez para tentar destravar um acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. Em Bruxelas, reiterou que tem compromisso com o equilíbrio das contas públicas e tentou minimizar a volatilidade da moeda brasileira. “Flutuação do câmbio não deve ser confundida com vulnerabilidade”, disse Dilma.

A tentativa mais relevante de conter a crise de imagem brasileira veio com a divulgação da meta de superávit, em 20 de fevereiro. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou um corte orçamentário de 44 bilhões de reais, para entregar um superávit primário de 99 bilhões, equivalente a 1,9% do PIB.

Escondido nesse número está, de novo, o autoengano. Os números foram calculados tendo como base um crescimento econômico de 2,5% e inflação de 5,3% em 2014. De acordo com o Boletim Focus, do Banco Central, o mercado projeta crescimento de 1,8% e alta de preços de 5,9%.

Além disso, o cálculo ignora gastos com o setor elétrico (veja reportagem na pág. 44). O governo previu gastos de 9 bilhões de reais. A consultoria Tendências estima que a conta possa chegar a 22 bilhões. 

Sim, a situação não é um primor. Porém, é bom ressaltar, o país não está à beira do precipício. O desemprego continua baixo, o mercado interno é forte e grandes riquezas esperam por ser exploradas. Podemos, enfim, voltar a brilhar.

“O crescimento do Brasil depende da adoção de boas políticas e da recuperação da confiança na estratégia econômica”, diz Jeffrey Sachs. Mas para isso é preciso agir. Um bom começo seria justamente parar de se enganar e enfrentar a realidade.

O dom de iludir

Míriam Leitão  
O Globo

Na economia, muitas vezes ficam todos presos a minúcias, sem ver o panorama. O Banco Central disse na ata do Copom que está "especialmente vigilante" no combate à inflação. Mas o fato concreto é que o Brasil está muito longe do centro da meta e não a encontrou desde o começo do governo Dilma. Comparado a vários países, nossos vizinhos, o Brasil tem taxa e meta altas.

A cada 45 dias, o Banco Central divulga a ata do Copom, sempre na quinta-feira da semana seguinte ao dia da reunião. Esses rituais têm seu valor. Servem para dar previsibilidade, o que na economia é muito importante. Mas esses comunicados não podem ser um palavrório atrás do qual se esconde a verdade. E ela é cristalina. O governo se acostumou com a taxa alta demais, o BC finge que acredita nos anúncios de austeridade fiscal e aceita a distorção de preços administrados congelados. Prevê, por exemplo, que os combustíveis não vão subir. Coisa estranha num período de volatilidade de preços e câmbio.

Assim que foi divulgada ontem a 181ª ata do Copom, ela foi comparada palavra por palavra com a anterior. Com lupa, procuram-se as inclusões e supressões para que os economistas possam traduzir tudo. A conclusão é que os 32 parágrafos são quase idênticos aos da ata da última reunião. O BC justificou a redução do ritmo de alta dos juros lembrando que as elevações se manifestam com defasagem. Ou seja, como as taxas já subiram bastante, o efeito continuará sendo sentido na economia nos próximos meses. E, com uma palavrinha aqui outra ali, os economistas concluíram que a autoridade monetária fará pelo menos mais uma elevação, para 11%, mas também pode parar de subir.

Isso resolve? Não. Não se combate inflação apenas com juros. É preciso controle de gastos públicos, como aprendemos há muito tempo. É preciso ter confiança de que o governo está mesmo determinado a levar a taxa para a meta. E a própria meta tem que ser declinante, porque 4,5% é muito.

Tudo o que se sabe é que para este governo um número que seja de 6,5% para baixo é considerado bom, comemorado e tratado como cumprimento de meta. Com os preços estacionados em nível tão alto, qualquer choque, crise ou inesperado eleva os preços.

Para todos os efeitos, a meta foi cumprida no ano passado, apesar de sabermos que a energia foi reduzida a um custo de R$ 9 bilhões para o Tesouro e que este ano o gasto será maior. O governo está dando para os consumidores a informação errada sobre o preço da energia. Isso faz com que não se reduza o consumo. E quanto mais consumo houver mais será preciso usar as térmicas e maior será a conta, que um dia chegará.

O BC sempre fala de dois cenários, o de referência e o de mercado. Nos dois, a inflação permanece acima do centro da meta até 2015. Da mesma forma que aconteceu em 2011, 2012 e 2013. E isso apesar de várias manobras como a que está arruinando o caixa da Petrobras. O governo administra mensalmente o índice, mas não consegue levar a inflação a 4,5% nem em um ambiente em que a economia cresce pouco.

É preciso mais ousadia e sinceridade em alguns comunicados. A previsibilidade da política monetária é boa, mas esse vocabulário ascético tem sido usado, hoje, apenas para encobrir problemas que estão ficando crônicos. Os países que estão com inflação do tamanho da do Brasil ou acima estão todos na lista dos frágeis e vulneráveis. Lista na qual não queremos ficar. Por isso, é necessário buscar taxas mais baixas da forma certa e não se dizer "especialmente vigilante" no quarto ano em que o país está perto do teto da meta.



O aumento dos déficits da balança comercial

O Estado de S.Paulo

O déficit de US$ 6,18 bilhões da balança comercial do primeiro bimestre, muito elevado, alimenta dúvidas sobre o comportamento das contas comerciais do ano. As previsões estão falhando, por otimismo. No final do ano passado previa-se um superávit de cerca de US$ 10 bilhões, hoje reduzido a menos de US$ 6 bilhões, segundo a pesquisa Focus de 28/2. O comércio exterior poderá contribuir para piorar o saldo em conta corrente, principal baliza das contas cambiais.

Em 2013, o Brasil teve superávit comercial de US$ 2,5 bilhões, incluída a exportação de plataformas de petróleo operadas no País pela Petrobrás. Em janeiro, houve déficit de US$ 4,05 bilhões, pior resultado para o mês na história. Um novo recorde negativo (US$ 2,12 bilhões) surgiu em fevereiro.

Analistas não preveem que o desequilíbrio persista nem que haja déficit, mas, caso o saldo aponte para zero, soa o sinal de alarme.

Entre as causas objetivas dos déficits assinalados no comércio exterior está a erosão econômica de parceiros como a Argentina e a Venezuela. Os fornecedores brasileiros não recebem pontualmente da Venezuela pelo que já entregaram. E a Argentina cortou importações, inclusive de veículos. Por grandes blocos, só os embarques para a China crescem. As incertezas se acentuam com a volatilidade de preços das commodities, inclusive da soja.

Restaurado o crescimento dos países desenvolvidos, o Brasil poderia aproveitar a onda, não fosse a fragilidade das exportações. Quando não falta câmbio, faltam transporte barato, infraestrutura portuária, tributação compatível com a de outros exportadores, juros módicos e armazéns suficientes para estocar a safra de grãos. Mas, em especial, falta uma política bem traçada para o petróleo. A importação de petróleo respondeu por 38% do déficit de fevereiro. No ano, o saldo negativo do bruto é de US$ 6,1 bilhões, agravado pela demanda das termoelétricas.

O resultado comercial se traduz na queda das exportações, de 7,8%, em relação ao mesmo mês de 2013 pelo critério de médias diárias (estas só cresceram 2,5% no mês porque fevereiro de 2014 teve quatro dias a mais do que fevereiro de 2013), e no aumento de importações.

Há risco de que o saldo de março seja afetado pelo menor número de dias úteis. O déficit corrente, estimado em US$ 75,69 bilhões na pesquisa Focus, é menor que o de 2013 em cerca de US$ 6 bilhões. A esta altura, a previsão parece otimista.

Trabalhadores formados aceitam empregos de baixa remuneração

Exame.com
Katherine Peralta, Bloomberg

Nova dinâmica que está forçando quem saiu da faculdade a competir com quem saiu do ensino médio por trabalhos de baixa remuneração

Jason Alden/Bloomberg 
Funcionária do McDonald's servindo uma batata frita: taxa de desempregados
 entre americanos de 25 a 34 anos que só concluíram o ensino médio para 10,6% em 2013

Washington - Jeanina Jenkins, de St. Louis, tem 20 anos, se formou no ensino médio e está presa em um trabalho de meio período na McDonald’s, que paga US$ 7,82 por hora e ao qual ela se refere como “último recurso”, porque ninguém lhe ofereceria algo melhor.

Stephen O’Malley, 26, formado na Universidade de West Virginia, quer utilizar seu diploma em História para dar aulas no ensino médio. Mas o que ele encontrou foi um trabalho como barman em sua cidade natal, Manasquan, Nova Jersey.

Jenkins e O’Malley são os dois extremos de uma dinâmica que está forçando quem saiu da faculdade a competir com quem saiu do ensino médio por trabalhos de baixa remuneração que não exigem título universitário. Essa concorrência se intensificou durante e após a recessão, significando um desemprego relativamente mais alto, redução da participação no mercado de trabalho e salários mais baixos para aqueles com menos escolaridade.

A taxa de desempregados entre americanos de 25 a 34 anos que só concluíram o ensino médio aumentou 4,3 pontos porcentuais para 10,6 por cento em 2013 desde 2007, de acordo com dados do Departamento de estatísticas do trabalho. O desemprego para aqueles dessa faixa etária que têm um título universitário subiu 1,5 ponto porcentual para 3,7 por cento no mesmo período.

“O subemprego de universitários afeta as partes menos escolarizadas da força de trabalho”, disse o economista Richard Vedder, diretor do Centro para Acessibilidade e Produtividade Universitárias, uma organização de pesquisa sem fins lucrativos em Washington. “Aqueles com diplomas do ensino médio que normalmente não teriam dificuldade para conseguir trabalhos de barman ou motorista de táxi às vezes perdem esses postos para pessoas com diplomas universitários”, disse Vedder, que também contribui para a Bloomberg View.

Posições de baixa remuneração
Recém-formados em universidades estão indo parar em mais posições de baixa remuneração e de meio-período, à medida que se torna mais difícil encontrar trabalhos adequados ao nível educacional, de acordo com uma pesquisa de janeiro realizada pelo Banco da Reserva Federal de Nova York.

A concorrência reduz as opções de emprego para indivíduos com menos escolaridade que também são capacitados, disse Heidi Shierholz, economista do Instituto de Política Econômica em Washington.

“Os universitários podem não estar em um trabalho que requeira um título universitário, mas é mais provável que eles consigam um trabalho”, disse.

Os jovens adultos com menor escolaridade têm então maior probabilidade de abandonar o mercado de trabalho, disse Paul Beaudry, professor de economia da Universidade de British Columbia em Vancouver, que estuda as tendências de emprego dos EUA.

“No fundo do poço, vemos pessoas aceitando os piores tipos de trabalho ou desistindo de vez”, disse Beaudry.

A proporção de jovens adultos de 20 a 24 anos que não estão trabalhando ou estudando subiu a 19,4 por cento em 2010, de 17,2 por cento em 2006. Na faixa etária de 25 a 29 anos, ela passou de 20 por cento para 21,3 por cento no mesmo período, de acordo com um relatório de dezembro do Banco da Reserva Federal de Boston.

Como o número de formados universitários supera a disponibilidade de trabalhos adequados para esse nível educacional e eles terminam aceitando o que vier, todos os outros são empurrados para baixo na pirâmide, disse Katie Bardaro, economista-chefe e gerente de análise da PayScale, que fornece informações de remuneração.

“Eles não podem passar para um nível inferior de trabalho porque já estavam em um nível baixo”, disse Bardaro.

Objetivo: enfermagem
Jeanina Jenkins sabe que atingir seu objetivo de se tornar uma enfermeira registrada requer uma formação do ensino superior. Seu trabalho atual na McDonald’s paga pouco por hora em comparação com os salários esperados para uma enfermeira registrada, com uma mediana anual de salário de US$ 65.470 em 2012, de acordo com o BLS.

“Para trabalhar em outro lugar você precisa mais do que o diploma do ensino médio”, disse Jenkins, que teve que abandonar o primeiro ano da Universidade de Missouri-St. Louis no fim do ano passado para ajudar a sustentar sua família. “Temo por minha carreira porque já não estou estudando”.

Na metade da vida, Ciência sem Fronteiras é criticado por má gestão

Karina Gomes
Deutsche Welle

Adiamento de viagens, flexibilização de proficiência em língua estrangeira e financiamento falho colocam em xeque sucesso do programa do governo federal. Especialista defende mudança de perfil do estudante beneficiado.


O técnico em manutenção de aeronaves H.G. já deveria estar no Canadá para um intercâmbio de um ano no Canadore College, na província de Ontário. Mas as sucessivas alterações no edital na chamada 147/2013 do programa Ciência sem Fronteiras, do governo federal, deixaram incerto o futuro dele e dos outros estudantes aprovados. Atrasos e mudanças repentinas no cronograma geraram frustração e desconfiança.

"A intenção era viajar ainda em 2013 para poder possivelmente concluir o programa no ano seguinte e continuar o curso no Brasil. Mas vimos novas chamadas serem lançadas e outros alunos embarcarem", conta o aluno do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo, que preferiu não se identificar.

O edital foi aberto em 23 de maio de 2013 e deveria comunicar os resultados aos candidatos até 14 de novembro passado. Mas as cartas de aceite necessárias para fazer o pedido de visto e outros documentos que o programa precisa emitir aos aprovados só começaram a chegar aos alunos na segunda semana de janeiro de 2014.

"Perdi bolsas de auxílio moradia e alimentação que recebia da minha instituição e quase perdi o semestre escolar por faltar às aulas para correr atrás de toda a documentação da viagem. Já estávamos com tudo pronto para embarcar. E agora não sei o que vou fazer", conta.

A carta de aceite diz que o estudante deve estar na universidade canadense até o dia 2 de maio, mas um comunicado da Fundação Capes, uma das agências do governo que gere o programa, informa que os candidatos que possuem proficiência em inglês, como H.G., devem iniciar as atividades acadêmicas apenas no mês de setembro.

"É um descaso. O edital simplesmente não foi cumprido. Nenhuma data do cronograma é respeitada desde o ano passado", lamenta o estudante.

Dois anos de estrada
Lançado em 2011 para financiar 101 mil bolsas de estudo a alunos de graduação e pós-graduação, técnicos e professores, o programa Ciência sem Fronteiras passa por episódios crescentes de falhas na gestão.

Atrasos no depósito das bolsas, baixo conhecimento de idiomas por parte dos candidatos selecionados, falta de acordo com o setor industrial – um dos principais financiadores privados do projeto –, viagens remarcadas em cima da hora. Todos esses problemas podem comprometer o sucesso do programa que tem o objetivo de quadruplicar, até 2015, o número de brasileiros que estudam no exterior.

Autor do artigo Cem mil bolsistas no exterior, o sociólogo Simon Schwartzman, membro da Academia Brasileira de Ciências, já previa, em 2012, os grandes desafios que a Capes e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) teriam pela frente ao gerenciar o projeto ambicioso. Foi naquele ano que os primeiros estudantes começaram a ser enviados.

Mais de 45 mil estudantes foram enviados para o exterior

"O programa não foi bem pensado. Foi lançado às pressas. O governo obrigou as agências a implementá-lo, mas não houve uma análise cuidadosa sobre como isso seria feito", avalia. "Quando, de repente, se cria um programa com metas quantitativas muito altas e se muda de maneira drástica o perfil do aluno beneficiado, surgem os problemas que estão se evidenciando agora."

Dos 45,6 mil bolsistas beneficiados até o momento, 80% são alunos da graduação. De acordo com as exigências feitas pelo programa, os estudantes de graduação devem prestar contas e apresentar um relatório técnico-científico final para ser aprovado pelo CNPq. Para o especialista, falta integração entre o aprendizado adquirido no exterior e o retorno dos bolsistas às universidades no Brasil.

"Quando se manda alguém para fora com financiamento público, se espera que ele vá se integrar em um projeto como pesquisador, por exemplo. O programa aparentemente não tem esse lado. Não se sabe o que as pessoas fazem depois que voltam", critica Schwartzman.

Problemas de financiamento
Com a elevação das taxas de câmbio e o pagamento de cursos de idioma no exterior a estudantes que não possuem fluência no idioma estrangeiro exigido, o governo federal retirou 1 bilhão de reais do Fundo Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico para custear bolsas de estudo.

"Esse fundo não foi desenhado para isso e já é considerada uma fonte pequena de financiamento para a ciência. Foi garantido para a comunidade científica que o Ciência sem Fronteiras teria dotação própria", argumenta Helena Nader, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). "Os recursos para a ciência são insuficientes e estão aquém do que é investido em países desenvolvidos. Esse dinheiro não deveria ser utilizado para o programa."

O custo estimado do Ciência sem Fronteiras é de 3,2 bilhões de reais. O governo se comprometeu a bancar 75 mil bolsas; as outras 26 mil são custeadas pela iniciativa privada. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), duas das principais entidades industriais do país, deveriam financiar 11 mil bolsas. No entanto, elas ainda não contribuíram com o envio de estudantes para o exterior por não concordar com o atual modelo.

A CNI argumenta que as bolsas deveriam ter caráter profissionalizante e outro tempo de duração. Já a Abdib, que reúne construtoras como Camargo Corrêa e Odebrecht, alega falta de recursos. Outras seis empresas e entidades, como a Petrobras e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), têm cumprido as metas até o momento, de acordo com levantamento feito pela DW Brasil.

Apesar de o Ciência sem Fronteiras consumir boa parte do financiamento existente para o setor, a SBPC acredita que o programa irá gerar um impacto positivo para o país. "É um incentivo ao intercâmbio e à troca de novos conhecimentos. Em alguns anos, acredito que iremos ver bons resultados", diz Nader.

Barreira do idioma
Os primeiros bolsistas do Ciência sem Fronteiras começaram a embarcar em 2012 para intercâmbios de um ano, no caso da graduação. No decorrer do programa, ficou evidente que muitos estudantes não tinham condições de assistir às aulas e participar de atividades de estágio ou laboratório por não ter o nível mínimo de idioma estrangeiro exigido.

Como manobra para contornar o problema, bolsistas foram realocados para Portugal. Isso gerou um excesso da demanda e o Ministério da Educação resolveu tirar, em abril do ano passado, as universidades portuguesas da lista de instituições de graduação do programa com o objetivo de estimular o aprendizado de outras línguas.

"Aprendi inglês, mas a graduação ficou parada. Eu tenho amigos que foram obrigados e refazer a prova de proficiência. Eles nem sabem se vão poder continuar aqui depois de abril", relata um estudante de ciências da computação realocado de Portugal para o Canadá.

Programa também enfrenta problemas de financiamento

Devido ao grande número de estudantes que não conseguiram a proficiência em inglês, a nota mínima no exame Toefl, exigido nos Estados Unidos, passou de 72 para 42 pontos, numa escala que vai de 0 a 120. A nota do IELTS, que testa o nível de inglês britânico, caiu de 5,5 para 4,5. Os alunos que não conseguem atingir esse patamar mínimo ganham cursos de idiomas de três ou seis meses de duração. Apenas depois de serem aprovados no exame podem iniciar o curso acadêmico.

Um estudante da Universidade de Brasília (UnB) teve de voltar para o Brasil por não ter conseguido atingir o nível de proficiência em inglês, mesmo após ter realizado o curso de idiomas no exterior. "São casos isolados. A grande maioria dos alunos tem obtido êxito", diz Marcelo José de Mello Rezende, coordenador institucional do programa Ciência sem Fronteiras na UnB. "A maioria volta e cria a expectativa de fazer pós-graduação no país onde estudou."

Para o sociólogo Simon Schwartzman, estudantes mal preparados acabam não se encaixando na rotina da universidade. "Se o aluno não domina a língua, não domina os conteúdos. O que se faz com ele? Do ponto de vista do estudante, ter um subsídio para passar um ano no exterior é sempre muito agradável e útil, mas do ponto de vista de uma política de formação científica e técnica para o país eu acho que não faz muito sentido", avalia.

O especialista defende que o Brasil envie mais pesquisadores para realizar programas de doutorado no exterior. De acordo com ele, o governo poderia aumentar os recursos para intercâmbio dos bons departamentos de pesquisa de pós-graduação do país que tenham condições de fazer parcerias internacionais. "A área de pós-graduação sabe como fazer isso. Se o governo estivesse interessado, poderia dar mais recursos."

Questionada a respeito das críticas à gestão do Ciência sem Fronteiras, a Capes não se manifestou.

Edição Nádia Pontes

Brasileiro confia mais no jornal impresso, aponta pesquisa

Rafael Moraes Moura 
 O Estado de S. Paulo

Segundo levantamento encomendado pelo governo federal, índice de confiabilidade da informação é maior na publicação impressa quando comparada ao rádio, TV e internet

Brasília - Os jornais impressos do Brasil apresentam as informações com maior nível de confiança, quando comparados a outros meios de comunicação, como TV, internet, rádio e revistas, aponta pesquisa encomendada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), divulgada nesta sexta-feira, 7. De acordo com o levantamento, 53% dos entrevistados que usam jornal impresso afirmaram confiar sempre ou muitas vezes nas notícias veiculadas.

A porcentagem cai para 50% quando o universo em questão são as notícias exibidas no rádio, 49% no caso da televisão e chega a 40% entre os leitores de revistas.

Contratado por meio de licitação, o Ibope ouviu 18.312 pessoas em 848 municípios entre os dias 12 de outubro e 6 de novembro de 2013, para coletar os dados que compõem a "Pesquisa brasileira de mídia 2014 - Hábitos de consumo de mídia pela população brasileira". De acordo com o governo, o objetivo é subsidiar a elaboração da política de comunicação do Executivo federal.

A índice de confiança é baixo entre os entrevistados que usam a internet: apenas 28% dos usuários afirmaram confiar sempre ou muitas vezes nas informações veiculadas em sites. A confiança nas notícias veiculadas em redes sociais é de 24% e ainda menor entre os blogs, com 22%.

O Ibope também questionou as pessoas sobre a confiança nas propagandas veiculadas em diferentes meios de comunicação. De novo, os jornais impressos lideraram os resultados: 47% dos entrevistados que usam esse meio afirmaram confiar sempre ou muitas vezes em anúncios de publicidade publicados nesse veículo, índice superior ao constatado entre os anúncios de TV (42%), rádio (42%), revistas (36%), sites (23%), redes sociais (22%) e blogs (19%).

Frequência. 
De acordo com a "Pesquisa brasileira de mídia 2014 - Hábitos de consumo de mídia pela população brasileira", 75% dos brasileiros não têm o hábito de ler jornais. Cerca de 85% dos entrevistados afirmaram não ler as revistas e 53% não usam a internet.

Entre os que afirmaram ler jornais impressos, a média diária de leitura é de uma hora e cinco minutos - em Goiás, chega a duas horas e doze. Em São Paulo, a média é de uma hora e um minuto.

Lula queixa-se de quê?

João Mellão Neto 
O Estado de S.Paulo

Tive algumas poucas oportunidades de conhecer o Lula em pessoa, todas elas na década de 1970. Naquela ocasião houve eleições para o Senado - a de governadores ainda estava proibida - e para a Câmara dos Deputados e as Assembleias Legislativas (deputados federais e estaduais). Ainda estudante, decidi apoiar Fernando Henrique Cardoso, que, de longe, era o candidato ao Senado mais respeitável. O problema que existia dizia respeito à "popularidade" do meu candidato. Na época praticamente ninguém o conhecia. Nós mesmos, que o apoiávamos, o alcunhamos de "Fernando quem?". Pois bem, tivemos de engolir a nossa língua: poucos anos depois ele seria eleito presidente da República. Um excelente presidente, aliás.

Mas o tema deste artigo não é Fernando Henrique, e sim seu sucessor, o Lula. Espero que ele o leia, apesar de sua aversão à leitura.

Lula é um vitorioso em muitos sentidos. Só que há uma coisa que eu não entendo nele: quase todas as teses que defende se chocam frontalmente com a sua história. Por vezes ele combate a livre-iniciativa, rechaça o capital estrangeiro, vê com má vontade a nossa realidade fundiária e afirma que o Brasil, do jeito que é, não tem a menor viabilidade. Eu lanço os olhos ao seu passado e, paradoxalmente, a leitura que faço é exatamente a contrária.

Quando Lula nasceu, em 1945, todas as mazelas que atualmente ele atribui ao Brasil não existiam. A expectativa de vida ao nascer, lá, em Pernambuco, era de 35 anos e os poucos que sobreviviam ficavam raquíticos ou idiotizados. Lá, em Caetés, não havia capitães de indústria inescrupulosos e muito menos multinacionais para sangrar as veias dos trabalhadores. No sertão, ninguém discutia luta de classes, até porque lá nem havia classes, não havia socialismo pela falta de seu contraponto, o capitalismo e o nacionalismo eram desnecessários porque aquele fim de mundo, com a sua exuberante miséria, não despertava a cobiça de nenhuma empresa estrangeira.

Naquelas bandas, com exceção de dois ou três coronéis, o ideal de igualdade era exercido em toda a sua plenitude: todos eram igualmente pobres, identicamente desnutridos e homogeneamente desesperançados. Mas foi ali, no santuário ideológico de Caetés, que Luiz Inácio da Silva venceu a sua primeira prova: mudou-se com a família para São Paulo.

Aqui ingressou no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). A partir do momento em que conquistou seu primeiro diploma, sua vida começou a mudar: passou a trajar-se melhor, adquiriu sua casa e seu primeiro automóvel. Paralelamente, foi conseguindo prestígio na carreira de sindicalista, até se consagrar como o presidente do poderoso Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Em 1980 foi fundado o Partido dos Trabalhadores (PT) e ele era o candidato natural para presidi-lo.

A nota dissonante, nessa trajetória de vitórias, está nas opiniões amargas que Lula emite sobre o Brasil após a retumbante carreira que fez. E olhem que ele se elegeu presidente da República por duas vezes, carregou um poste (as palavras são dele mesmo) para lhe suceder e, agora, ameaça carregá-lo de novo caso a reeleição da sucessora corra algum risco.

O governo de sua sucessora tem-se mostrado abaixo da crítica, com políticas econômicas erráticas, o Brasil crescendo menos do que qualquer outro país na América Latina. Mesmo assim, eles continuam fortes e inabaláveis nas pesquisas de opinião. Alguma explicação para esse fenômeno? A única que me ocorre é a seguinte: crédito abundante e barato para os muito ricos, Bolsa Família para os muito pobres e nada para os setores de renda média. Afinal, o Tesouro Nacional não é a casa da mãe Joana...

A esse tipo pernicioso de política se dá o nome de populismo. Algo que devasta o nosso continente a cada 10 ou 15 anos. E demanda muito tempo para ir embora. Os populistas hoje dominam a Bolívia, a Venezuela, a Argentina, o Equador e ameaçam tomar o poder em numerosas nações da América Central. Em Cuba, a versão castrista já está no poder há 55 anos. E comportam-se todos como certos cães de pequeno porte: quanto menores são, mais rosnam e latem.

É uma tarefa árdua livrar-se deles, até porque sempre têm um discurso muito bem concatenado, que se inicia por um passado no qual seus países teriam sido cruelmente explorados e se estende até os dias atuais, em que continuariam a ser cruelmente explorados. A exploração sempre permanece, o que teria mudado são os exploradores. No passado eles eram vítimas dos espanhóis, hoje são vítimas dos Estados Unidos. E existem até os que se queixam de não serem vítimas de ninguém, como é o caso de Cuba em relação aos norte-americanos.

O fato é que todos têm de quem se queixar. É o caso, então, de perguntar: se é tudo tão difícil para eles, e levando em conta que a natureza sempre lhes foi pródiga, por que não se uniram aos norte-americanos para explorar o que têm de melhor, ou seja, a própria natureza? Mas não se deve fazer esse tipo de pergunta a eles, sob o risco de receber de volta um sonoro palavrão. É pena, mas eles preferem viver assim, cercados por uma exuberante floresta, mas todos perto de passar fome. E continuar a se queixar da insensibilidade dos "gringos", porque é isso que os mantém no poder.

Voltando ao Lula, havemos de convir que ele inovou no estilo. Ao menos não ficou se lamuriando, como tantos fizeram. Ao contrário, travestiu-se de "Brasil potência" e passou a vender uma imagem da Nação muito maior do que seus potenciais. Se, de um lado, isso restaurou a autoestima do povo, de outro, criou uma expectativa que jamais poderá ser satisfeita a contento.

Mas nada disso tem importância. O que vale é o enredo vitimista. E disso eles sabem cuidar de cor.

Na briga PT X PMDB, a Viúva entra com a cara

Josias de Souza

 Liderada por Lula e Michel Temer, a turma do ‘deixa disso’ entrou em campo para apartar os pugilistas do PT e do PMDB. Mas o ringue continua aceso. No domingo, Dilma Rousseff receberá os dirigentes do córner peemedebista. Vai tentar convencer o suposto aliado a aceitar uma derrota por pontos, sem a humilhação de um nocaute.

Nesta sexta-feira (7), em encontro promovido pela agência de notícias EFE, o presidente do PT federal, Rui Falcão, fixou as balizas da negociação. A coisa foi combinada no Palácio da Alvorada, na reunião que Lula e Dilma tiveram com o alto comando da campanha de 2014.

“Não vamos ceder um novo ministério para o PMDB”, bateu o pé Rui Falcão. “Agora, concessão para discutir projeto de lei, espaço em estatal, para isso estamos abertos à negociação.” Hummmm!!!

O que o dirigente do PT declarou, com outras palavras, foi o seguinte: o governo deseja satisfazer as pulsões fisiológicas do PMDB. Mas não pode entregar um sexto ministério à legenda porque o PT não abre mãos de nenhuma das suas 17 pastas e Dilma ainda precisa acomodar na Esplanada o Pros, o PTB e o PSD. Mas a presidente admite barganhar com o “espaço” das estatais.

A metodologia não é nova. Vem pelo menos da administração FHC, talvez antes. O governo divide a máquina pública em dois setores. Um, mais “sério” (aspas em negrito), é gerido segundo critérios técnicos —vale para Fazenda e Planejamento, por exemplo. Outro setor, mais político (no pior sentido da palavra), é oferecido aos aliados no baixo mercado do clientelismo.

Numa Brasília em que se barganha tudo, com a possível exceção da mãe, é impossível localizar no calendário a data em que as estatais desceram ao balcão. Já faz muito tempo. Na era dos governos petistas, elas foram oferecidas desde a primeira hora, em meio a odaliscas e domadores de cobras.

Repare bem: você nunca viu o senador Renan Calheiros mover os lábios para pedir mais “espaço” no governo. Por quê? No alvorecer do primeiro reinado de Lula, Renan plantou o apadrinhado Sérgio Machado no comando da Transpetro, um cobiçado “espaço” da Petrobras. Machado se mantém no posto há 11 anos. É grande, muito grande, enorme o ciúme que o prestígio de Renan desperta no núcleo pobre do PMDB.

Foi por um misto de ciúmes e vingança que outros habitantes do condomínio estouraram um “espaço” que o PTB de Roberto Jefferson mantinha na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. A filmagem daquele funcionário do setor de compras recebendo propina e dando os detalhes de como o rateio era feito acendeu o pavio de Jefferson. A explosão, como se sabe, deu no mensalão.

Ao sinalizar que as estatais continuam à disposição, Rui Falcão informa que Lula, Dilma e o resto do PT realmente não retiraram do escândalo um mísero ensinamento. Tudo continua como antes. Com uma diferença: a turma já nem se preocupa em procurar um canto escuro para tran$acionar. Melhor assim. Qualquer criança de cinco anos agora percebe que, no boxe do PT com o PMDB, a Viúva entra com a cara. Ou, por outra: nesse grande circo, você, caro contribuinte, entra com a bilheteria.