quarta-feira, março 19, 2014

O comissariado destruidor

Elio Gaspari
O Globo

O truque do preço da energia custou um Bill Gates mais um Jorge Paulo Lemann, e ainda sobram alguns bilhões

Quando a doutora Dilma assumiu a Presidência, uma ação da Petrobras valia R$ 29. Hoje ela vale R$ 12,60. Somando-se a perda de valor de mercado da Petrobras à da Eletrobras, chega-se a cerca de US$ 100 bilhões. Isso significa que a gestão da doutora comeu um ervanário equivalente à fortuna do homem mais rico do mundo (Bill Gates, com US$ 76 bilhões), mais a do homem mais rico do Brasil (Jorge Paulo Lemann, com US$ 19,7 bilhões). Noutra conta, a perda do valor de mercado das duas empresas de energia equivale à fortuna dos dez maiores bilionários brasileiros.

Se o governo da doutora Dilma deve ser avaliado pela sua capacidade executiva, o comissariado petista contrapõe ao conceito de “destruição criadora” do capitalismo a novidade da destruição destruidora. No caso do preço dos combustíveis, de quebra, aleijou o mercado de produção de álcool.

Há empresas como a Polaroid, por exemplo, que vão à ruína porque vivem de uma tecnologia caduca. Outras cometem erros de concepção, como as aventuras amazônicas da Fordlândia e do Jari. É o jogo jogado. A perda de valor da Petrobras e da Eletrobras está fora dessas categorias. Acusar a doutora Graça Foster pelos maus números da Petrobras seria uma injustiça. A desgraça derivou de uma decisão de política econômica, mas responsabilizar o ministro da Fazenda, Guido Mantega, pelo que acontece nessa área seria caso de atribuição indevida.

O que agrava o episódio é que tanto a Petrobras como a Eletrobras atolaram por causa de uma decisão politicamente oportunista e economicamente leviana. Tratava-se de vender energia a preços baixos para acomodar o índice do custo de vida, segurando a popularidade do governo. O truque é velho. Mesmo quando deu resultados políticos imediatos, sempre acabou em desastres para a economia.

Vem aí a campanha eleitoral e o governo irá à luta buscando a reeleição de Dilma Rousseff com duas plataformas: a da qualidade de sua gerência e os avanços sociais que dela derivaram. Numa área em que os governos petistas produziram o êxito do ProUni, o ministro da Educação, Fernando Haddad, criou um novo Enem em 2009. Prometia a realização de dois exames por ano. Nada, mas continuou prometendo. Em 2012 a doutora Dilma anunciou: “No ano que vem [serão] duas edições.” Nada. Apesar de ela ter dito isso, o ministro Aloizio Mercadante e seu sucessor, José Henrique Paim, descartaram a segunda prova, que daria à garotada uma segunda chance de disputar a vaga na universidade. (Nos Estados Unidos, o equivalente ao Enem oferece sete datas a cada ano.) O novo presidente do Inep, organismo encarregado de aplicar o exame, dá a seguinte explicação: “É impossível se fazer dois ‘Enens’ por ano com esse Enem. O crescimento [de inscritos] foi de tal ordem que a logística se impôs.”

É um caso simples de gerência. Quem disse que ia fazer dois exames foi o governo. As dificuldades logísticas não explicam coisa nenhuma, porque elas já estavam aí em 2009 e, desde então, o Brasil não incorporou ao seu território a Península da Crimeia.

O que há no governo é mais do que má gerência. É uma fé infinita na empulhação, ofendendo a inteligência alheia.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Nunca Gaspari foi tão preciso em definir a incompetência de governantes brasileiros como no caso da senhora Rousseff que ele o faz no artigo acima. 

Quando ainda havia um certo receio por parte da imprensa em criticar o governo Dilma, fomos um dos primeiros a classificá-lo como medíocre. Hoje, o termo se alastra de norte a sul, diante das ações pouco recomendáveis adotadas pelo governo Dilma. Os indicadores econômicos pioram a cada dia, e as virtudes que sustentam o país com certa segurança econômica estão sendo depredadas a cada nova medida emanada do Planalto. 

Mesmo antes de assumir, e diante da herança que receberia de Lula, sugerimos  que a presidente deveria apertar o cinto da gastança, definir um projeto de país, buscar melhorias sensíveis no ambiente de negócios, abrir caminho para os investimentos produtivos dos quais o Brasil tanto precisava. Entendíamos que o equilíbrio fiscal deveria ser um passo vigoroso para permitir ao governo espaço para redução gradual de  impostos e juros, pois se teimasse em manter o ritmo de gastos desenfreados estaria estimulando a inflação. Tornar o país atrativo a investimentos produtivos também colaboraria para reequilibrar o mercado interno, que mantinha incentivos ao consumo sem que a oferta interna pudesse atender. As consequências, e estamos sentindo-as agora, é inflação com déficit na balança comercial, crescimento pífio do PIB e deterioração das contas públicas. 

Dilma fez tudo ao contrário. Passou o tempo todo apostando em fórmulas mágicas, de puro caráter populista, porque seu objetivo sempre foi um só: reeleger-se em 2014. Esqueceu-se do Brasil e dos brasileiros, mantendo a embromação como valor maior de sua gestão.

Também sugerimos, faz tempo, que o governo da senhora deveria mudar o discurso, parando de atribuir a fatores “externos” os maus resultados da economia. Os maus frutos que estão sendo colhidos se originam das plantações do próprio governo. Errar e não reconhecer, ou é incompetência ou má fé.

E, como estamos afirmando há mais de um ano, seja quem for o eleito em outubro, pertença o vencedor a que partido for, se quiser marcar o mandato  com ações pró-país, demandará metade do mandato para por a casa em ordem. Teremos um 2015 de muitas dificuldades, mas imprescindíveis se o desejo for a de mantermos estabilidade econômica, base sobre a qual se assentam todas as demais conquistas, inclusive e principalmente, as sociais.  

Quanto a Eletrobras, bem, cantamos a pedra tão logo Dilma mandou ver na MP que reduziu no berro a tarifa de energia. E a Petrobrás? Bem, também na estatal do petróleo, as digitais da má gestão Lula/Dilma estão bem identificadas. Graças à dupla, em uma década, as duas perderam R$ 100 bi em seu valor de mercado. Quem paga pelo prejuízo? Adivinhem...

Pior do que o diabo

Mary Zaidan
Blog Noblat

Especialidades do ex-presidente Lula, criticar as elites, estimular e manter em alta o antagonismo entre ricos e pobres, sempre lhe valeram bons frutos. Como ninguém, Lula consegue com o mesmo gogó desancar e afagar os endinheirados. E ainda usufruir deles.

Mas essa habilidade de iludir o público, xingando aqueles que o patrocinam – a ele e ao PT – é única. Seria prudente, portanto, que Dilma Rousseff nem mesmo tentasse se arriscar nessa seara, sob pena de despencar no ridículo, como na sexta-feira, em Araguaína, no Tocantins.

Irritada com as vaias durante inauguração de um conjunto habitacional do Minha Casa Minha Vida, Dilma acusou os manifestantes de terem nascido “em berço esplêndido”. E extrapolou ao se referir ao cartão Minha Vida Melhor, que financia compra de eletrodomésticos, afirmando que só não valorizam o programa aqueles que “nunca tiveram de ralar, de trabalhar de sol a sol para comprar uma televisão, uma geladeira, uma cama, um colchão".

O que Dilma não sabia – e ninguém contou a ela - é que o grosso dos apupos vinha de moradores do conjunto ao lado, entregue há dois anos pelo mesmo Minha Casa Minha Vida, já com rachaduras e sem equipamentos sociais.

Suas palavras agrediram pobres mais pobres do que os pobres que ela, durante a inauguração, dizia beneficiar. 
  
Foto: R.Stuckert / PR

Não satisfeita, também reagiu atabalhoadamente aos que protestavam contra o Mais Médicos, ao afirmar que antes do programa havia profissionais de saúde “somente para as camadas mais ricas". Ou seja, até o segundo semestre do ano passado, o SUS de Dilma só atendia “ricos”. Um desrespeito absoluto aos milhões e milhões de brasileiros que dependem da saúde pública.

Ao que tudo indica, Dilma foi instruída a promover ao máximo a tática vitoriosa de Lula de rivalizar ricos e pobres. Mas Dilma não é Lula. E, sendo Dilma, confundiu todas as bolas.

Tropeços à parte, causa estranhamento a escolha dos marqueteiros pela desgastada aposta na luta de classes. Especialmente para uma candidata que lidera as pesquisas com larga margem de vantagem e um governo que se orgulha de ter promovido mais de 30 milhões de pessoas à condição de classe média. Ainda que a nova média – rendimento de R$ 301 a R$ 1.090,00 – esteja muito aquém de garantir o mínimo.

Sem saber onde colocar esse batalhão de gente, Dilma continuará animando a disputa entre pobres e menos pobres.

Como estratégia eleitoral, difícil crer que esse tipo de discurso tenha alguma serventia com a protagonista Dilma. Mas suas consequências vão além do fazer o diabo para vencer a eleição. Promovem e alimentam o ódio; criam divisões devastadoras, muitas vezes intransponíveis. Isso é tudo de que o Brasil não precisa.

Henrique Alves:‘Não adianta guerrilha do governo, não pautarei Marco Civil’. E aí, Dilma, como é que vai ser?

Josias de Souza


A noite passada foi tensa em Brasília. Sem consenso, o governo decidiu votar o projeto do Marco Civil da Internet nesta quarta-feira. Quer fazer isso na base do vai ou racha. Mesmo que rachado. Em conversas telefônicas com os ministros José Eduardo Cardozo (Justiça) e Ideli Salvatti (Relações Institucionais), o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, desaconselhou. Foi ignorado. Ouvido pelo blog perto das duas da madrugada, o deputado desabafou:

“O governo quer porque quer votar o Marco Civil nesta quarta-feira. Informei que não tem condições, porque vários partidos decidiram obstruir a votação. Não quiseram me ouvir. A Ideli e a turma dela pressionam os líderes e acham que vão conseguir. Tenho informações que o governo não tem. Ou estão desinformados ou não confiam no presidente da Câmara. Não sou sabotador. O governo erra novamente. Só não vai errar mais porque não vou deixar. Quem faz a pauta é o presidente da Casa. Não adianta o governo se esgoelar, pressionar ou fazer guerrilha. Não vou pautar o Marco Civil agora, só na próxima terça-feira.”

Henrique Alves acrescentou: “Hoje, o governo tem um enfrentamento com o PMDB. Quando a crise começa a serenar, querem enfrentar o presidente da Câmara. Pra quê? Estabelecer uma relação de desconfiança com um parceiro e aliado como eu não é, definitivamente, um bom caminho. Em vez de reduzir, estão querendo alastrar a crise. Não quero brigar com ninguém. Mas não há hipótese de votar o Marco Civil nesta quarta-feira.”

Ironicamente, o presidente da Câmara promovia um jantar de pacificação na sua residência oficial quando recebeu a informação de que o Planalto decidira enfrentar o pedaço rebelado do bloco governista e as legendas de oposição. Participavam do encontro deputados do PT e do PMDB, entre eles o líder da bancada peemedebista, Eduardo Cunha, desafeto de Dilma Rousseff. Estava presente também o vice-presidente Michel Temer. O anfitrião conversou com o repórter depois de se despedir dos seus convidados.
Durante o jantar, Henrique Alves recebeu uma ligação de Ideli Salvatti. A ministra lhe disse que o governo reunira votos suficientes para aprovar o Marco Civil da Internet. Foi alertada para o fato de que uma obstrução suprapartidária impediria a apreciação do projeto. Ideli deu de ombros. Junto com José Eduardo Cardozo, ela participara de uma reunião noturna com parte dos líderes do consórcio governista, no Ministério da Justiça.

Estiveram com os dois ministros os líderes de cinco legendas: PT, PTB, Pros, PSD e PCdoB. Nesse encontro, os negociadores de Dilma concordaram em retirar da proposta um dos artigos que despertam polêmica. Trata-se do trecho que obriga empresas de internet a manter no Brasil os chamados ‘datacenters’, onde ficam armazenados os dados dos usuários da web. Mas não aceitaram recuar em relação ao pedaço do texto que dá ao governo poderes para regulamentar, por decreto, as regras sobre a neutralidade na web. Os líderes concordaram. E o governo estimou-se que, peitando o PMDB e outros aliados rebeldes, prevaleceria no plenário da Câmara com algo em torno de 270 votos.

Para Henrique Alves, trata-se de uma ilusão. “O governo não tem as informações que eu tenho. Eles só têm os dados daqueles que querem agradar ao governo. Quando conversarem direito com o presidente da Câmara, que tem informações de todos os lados, saberão que é impossível votar. Não digo isso porque quero. Digo porque é a realidade. Se eu soubesse que há chances de votar, ganhando ou perdendo, eu pautaria. Dane-se o resultado, cada um que assuma as consequências. Mas, como sei que haverá obstrução, não posso submeter a Câmara a mais esse desgaste. Quero ajudar o governo, mas eles não deixam. Se insistirem, passarão por derrotados. Desnecessariamente.”

Depois de Ideli, também o ministro da Justiça tocou o telefone para Henrique Alves. Cardozo insistiu na tese segundo a qual o governo reuniu infantaria suficiente para aprovar o projeto. O interlocutor convidou-o para uma reunião com os líderes de todos os partidos. A conversa foi marcada para as 9h desta quarta-feira. “Espero que mudem de ideia”, disse o presidente da Câmara ao repórter. “Do contrário, terão o desprazer de ouvir de pelo menos seis partidos, que vão fazer obstrução.”

Embora tenha encerado sua reforma ministerial e reativado o balcão das emendas orçamentárias, o Planalto ainda não conseguiu desativar completamente o chamado blocão, que reúne os partidos governistas rebelados. À tarde, para surpresa do governo, o líder do PMDB, Eduardo Cunha, reunira-se com os comandantes das bancadas do PTB, PR e PSC, além do oposicionista Solidariedade. Imaginava-se que pelo menos o PTB e o PR já haviam desembarcado do motim.

“Sei que não há chance de votar porque vários partidos decidiram obstruir a sessão”, afirmou Henrique Alves, antes de enfileirar os adeptos do bloqueio: “PMDB, PSB, PSDB, DEM, PPS, PSOL…” Pelas contas de Henrique Alves, a turma da obstrução reúne algo como 200 votos. Para complicar, diz ele, o governo não terá nem a totalidade dos votos dos partidos que imagina ter reconquistado.

“Eles não sabem, mas eu sei. Se houvesse a sessão, alguns líderes, por pressão, encaminhariam a votação numa direção. Mas suas bancadas iriam noutro sentido. Dependendo do caso, metade ou um terço não acompanha o encaminhamento do líder. Muitos nem comparecerão ao plenário, negando quórum.”

Henrique Alves disse esperar que os deputados petistas que estiveram em sua residência na noite passada contribuam para desaquecer a atmosfera política. Entre os convivas do presidente da Câmara estavam o antecessor Marco Maia (PT-RS); o atual vice-presidente da Casa, André Vargas (PT-PR); o ex-líder do governo Lula, Cândido Vaccarezza (PT-SP); e o ex-presidente do PT federal, Ricardo Berzoini (SP). “Todos sabem que não tenho plano B, nem plano C de Campos. Sou Dilma e Michel. Partindo dessa premissa, não há razão para desconfiança.”

Na opinião de Henrique Alves, se tiver a paciência de esperar até terça-feira, o governo não perde por esperar. Ganha. “Podemos aprovar o Marco Civil por consenso, sob aplausos de todo mundo. Digo isso porque sei que até a semana que vem o PMDB pode ser convencido a votar, confio que será possível evitar a obstrução a oposição. Se abandonarem esse plano guerrilheiro do Planalto, podemos fazer hoje uma sessão de discussão. Na terça-feira, entraríamos direto na votação. Mas, se insistirem no enfrentamento, não vou pautar nem a discussão.”

É dando que se recebe.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

O Governo Federal comemora o derretimento do blocão, o grupo de partidos que se uniu na Câmara para derrotá-lo (e que já o derrotou convocando ministros para responder a perguntas que preferiam não ter de ouvir, determinando investigações sobre propinas que funcionários de uma empresa holandesa dizem ter pago à Petrobras, coisas assim). À medida que o Governo usou a caneta para nomear ministros e distribuir cargos, os partidos atendidos deixaram de rosnar e voltaram a ronronar. Nada como afagos, acompanhados de leite e biscoitinhos.

Só que esta vitória significa uma tremenda derrota: mostrou aos descontentes o caminho das pedras. Agora eles sabem que a gerentona brava e ríspida passa a entender (e atender) pedidos, desde que seja devidamente pressionada. Mais: Eduardo Cunha, o deputado peemedebista que a presidente adora detestar, a quem nem permitia a entrada no Palácio do Planalto, provou que é o líder de verdade dos parlamentares reivindicantes. Ele não entrou no Planalto; mas foi chamado para uma reunião no anexo do Planalto, com ministros importantes, e de lá saiu como o grande vitorioso. De agora em diante, temos um Governo obediente às ordens de seus aliados que antes do blocão só tinham o direito de obedecer.

Dilma nomeou quem não queria (e, dizem as más línguas, precisará decorar o nome de alguns que nem conhecia). Teve de engolir a desfeita dos deputados do PMDB (e do próprio Cunha), que nem foram à posse dos novos ministros. Entre as derrotas e a rendição, Dilma optou pela rendição. E terá mais derrotas.

Siglas quebradas
1 - O PMDB rachou entre senadores (mais próximos de Dilma) e deputados (que se acham preteridos). No meio, Michel Temer, supremo comandante do partido que hoje não comanda. Ele quer continuar vice de Dilma. Talvez consiga.

2 - O pessoal do PMDB que não quer Dilma se divide entre Aécio e Eduardo Campos. Nada pessoal, nada ideológico, nada a ver com programas de Governo: vão ficar com quem tiver mais chances (e mostrar-se mais amigo dos amigos). 

3 - O líder do PR na Câmara, Bernardo Santana, rachou com o presidente do partido, Alfredo Nascimento (que foi ministro dos Transportes, acabou caindo na época da tal "faxina ética" e voltou a ter poder no Governo). Nascimento é Dilma e acusou Santana, um dos comandantes do blocão, de irresponsabilidade. Santana chamou Nascimento de frouxo, por ter sido acusado de ladrão, afastado do Ministério e continuar dilmista. Os deputados do PR estão com o rebelde.

Explorando o falecido
No PDT, o presidente Carlos Luppi é Dilma, ponto. Mas dois símbolos do partido, Christopher e Maria Tereza Goulart, neto e viúva do ex-presidente João Goulart, se sentem explorados politicamente e abrem fogo contra o Governo. Christopher Goulart, falando da exumação do corpo de seu avô, com espetáculo de TV comandado pela ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, disse na Rádio Guaíba de Porto Alegre: "Passados quatro meses, a ministra Maria do Rosário ainda não mandou para a França o material para os exames. Começo a achar que tudo isto tem efeito político e midiático, já com vistas às eleições de outubro. A demora no envio pode ter sido proposital, visando elevar o tom quando se aproximar a hora da eleição." 

E Maria Teresa, comentando as promessas de que receberia indenização e pensão: "Fizeram um carnaval na imprensa que iam me pagar. Só recebi parabéns de todo mundo. Dinheiro que é bom, nada".

FHC, vice? 
Por enquanto, os boatos de que Fernando Henrique poderia ser vice de Aécio são apenas boatos. O ex-presidente, 82 anos, disse que não tem mais idade para candidatar-se. E, presidente eleito duas vezes no primeiro turno, talvez não se entusiasme por um cargo menos importante. Só entraria - talvez - se as pesquisas mostrassem que seu nome seria decisivo na eleição. Hoje não seria. Se saísse para deputado, ajudaria a ampliar a bancada do PSDB. Mas vontade não tem.

Guerra virtual
O PT, que já tem uma tremenda máquina na Internet, mobilizadíssima para elogiar o Governo e seus aliados e atacar pesadamente os adversários, ainda quer mais: de 18 a 20 de abril, em São José dos Campos, gastará cerca de R$ 400 mil num campus party, para aperfeiçoar sua equipe. "Queremos combater as mentiras", diz o vice-presidente nacional do PT, Alberto Cantalice. Os criadores do MAV, Militância em Ambientes Virtuais, Franklin Martins, Marcelo Branco e o deputado André Vargas, deverão aparecer. E haverá show dos Racionais MC.

Um é falso. E os outros? 
O Setor Técnico do Ministério Público de São Paulo diz que um dos cinco casos de formação de cartel denunciados pela Siemens é falso. É o único do Governo José Serra. OK; mas é preciso examinar os outros quatro, um na gestão Mário Covas, três nas gestões de Geraldo Alckmin. Vale a pena, principalmente, fazer um pente fino na gestão Covas: há o caso do cartel, há o caso do depósito na conta suíça atribuída a seu chefe da Casa Civil, Robson Marinho, e há uma pergunta que tem de ser respondida. 

Quem tinha, no Governo, a incumbência de supervisionar e avaliar contratos, para evitar cartéis e superfaturamentos?

carlos@brickmann.com.br 
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Chover no molhado

Percival Puggina

Sei que choverei no molhado. Mas penso que em matéria de segurança pública precisamos de muita chuva no molhado. Só uma verdadeira avalanche, causada por sucessivas e repetidas manifestações, poderá frear a expansão da criminalidade a cujo crescente poder, leis e demandas estamos todos sujeitos. É exasperador ler que o provável assassino de um empresário está condenado a penas que se concluem em 2039, mas já flanava no semiaberto, liberado para trabalhar durante o dia. É intolerável saber que esse não foi um episódio ocasional, mas evento rotineiro, parte da agenda cotidiana de ocupações e reclamações, para magistrados, promotores e delegados. É profundamente frustrante, aos pagadores de impostos, saber que autoridades remuneradas com o fruto do nosso trabalho se declaram obrigadas a soltar indivíduos sabidamente perigosos "porque a lei assim determina". E mesmo essa justa frustração fica diminuta perante o sentimento que nos domina quando lemos que há, entre os magistrados, quem faça isso de bom grado, por motivos ideológicos. 

Ao fim e ao cabo, ainda que não o confessem, como aquele parlamentar, lixam-se quase todos. A criminalidade campeia solta, como repetidas vezes tenho afirmado, porque existe muito bandido agindo com inteira liberdade, rindo da lei e auferindo ganhos crescentes em atividades de quase nenhum risco. Parte significativa dos incontáveis crimes contra o patrimônio e a vida dos cidadãos é praticada por indivíduos que já se defrontaram com a polícia e com a justiça. E não deu nada, ou quase nada. Quem agiu para que gozassem de liberdade, a gosto ou contragosto, tem, sim, uma parcela pessoal de responsabilidade perante as vítimas. Que elas pesem nas respectivas consciências! De modo especial, têm responsabilidade direta os magistrados que usam os instrumentos legais com que contam para soltar, quando poderiam usar outros para manter presos indivíduos cuja periculosidade não pode proporcionar margem à dúvidas em quem ponha os olhos sobre seus prontuários. Têm responsabilidade os governos, que abandonam o sistema aos próprios azares, que entregam as penitenciárias ao crime organizado e deixam as corporações policiais à míngua por indigência de recursos humanos e materiais. Têm responsabilidade os legisladores, desatentos ao clamor da sociedade que pede por urgente revisão da legislação penal. E, muito especialmente, por revisão das execuções penais, via franqueada às facilidades e indulgências do semiaberto, das prisões domiciliares, das tornozeleiras aplicadas em quem, para o bem da população, tinha que estar com os dois pés do outro lado das grades. Sobre progressão de regime, a lei diz que o magistrado é quem decide. É um disparate que a superlotação dos presídios sirva como causa para as inauditas complacências. A superlotação deveria ser causa, isto sim, da construção de novas e mais dignas unidades de internação. 

Da população, por fim, não se cobre responsabilidades. Já nos basta recebermos das autoridades policiais orientações sobre como agir sob a lei do bandido. É bom que nos orientem. Mas essa confissão de impotência, de rendição, é mais uma evidência do grau de desamparo a que foi levada a sociedade brasileira, por motivos ideológicos e políticos. A realidade nacional derruba os chavões sobre pobreza e criminalidade. O desemprego cai, a renda aumenta e a criminalidade expande suas hordas. 

A segurança pública, a segurança da comunidade, é primeiríssimo fator de agregação social e primeiríssimo papel do Estado. Todo governante inapto, todo legislador insensível, toda autoridade leniente em qualquer dos poderes, deveria pendurar as chuteiras, pegar o chapéu e bater em retirada. Não ocorrendo isso, deveria, pelo voto dos leitores, ou por ato das respectivas instituições, ser afastado para tarefas onde resulte menos danoso ao interesse público. 

Na agenda do próximo governo

Albano Franco
O Globo

Brasil continuará enredado na armadilha do baixo crescimento,na casa dos 2%, caso avanços modernizantes não sejam deflagrados

Os déficits da balança comercial de US$ 4,05 bilhões e US$ 2,12 bilhões, respectivamente em janeiro e fevereiro, os maiores da série histórica mensal iniciada em 1994, chamam a atenção para o crescente alargamento entre os valores importados e exportados, e a consequente perda de competitividade de nossa economia. Sem dúvida, um mau começo para um ano de restrições no cenário internacional com a retirada gradual, pelo FED, dos incentivos à economia americana e pela acomodação do crescimento chinês, o que implicará na migração de dólares para os EUA atraídos por maiores juros e na redução das exportações e dos preços das commodities que já vêm caindo. Convém ainda atentar para a forte deterioração anual das transações correntes com o exterior, cujo déficit, em 2013, bateu na casa dos US$ 81,3 bilhões, cerca de 3,7% do PIB, quando em 2008, no auge da crise, esse percentual foi de 1,7%. Em apenas cinco anos o déficit externo mais que duplicou em relação ao PIB.

Diante desses dados, o financiamento das contas externas deverá se alicerçar na elevação das taxas de juros para atrair o investidor estrangeiro e na desvalorização do real para fomentar as exportações e restringir importações. São medidas que implicam na redução do crescimento da economia, já que atingem diretamente o consumo e o investimento, e, por outro lado, a apreciação do dólar acarretará a elevação dos preços internos, que deverá ser atenuada pela atuação do Banco Central com a utilização das reservas, ora na casa dos US$ 367 bilhões, o que afasta, em médio prazo, a possibilidade de uma crise cambial.

Entretanto, tais medidas, para serem eficazes, devem estar associadas a outras de cunho fiscal. O crescimento continuado da despesa pública acima da receita vem a cada ano elevando o déficit nominal que, em 2013, atingiu 3,28% do PIB, contra 2,38% em 2011, ao tempo em que o superávit primário, para o pagamento dos juros da dívida, vem sendo fortemente reduzido, pois, em 2013, foi de 1,9% do PIB, contra 3,11% em 2011, enquanto a despesa com os juros atingiu 5,18% do PIB. Tais informações atestam acentuado desequilíbrio fiscal e indicam a necessidade de se efetuar cortes na despesa pública, o que sinalizará para os investidores a decisão do governo de equilibrar as contas públicas e combater a inflação, trazendo-a para o centro da meta de 4,5%, além de afastar a possibilidade de rebaixamento do país pelas agências internacionais de risco. Nesse sentido, o governo anunciou um corte de R$ 44 bilhões no orçamento e estimou o superávit primário em 1,9% do PIB, o mesmo de 2013.

O fato é que o Brasil continuará enredado na armadilha do baixo crescimento, na casa dos 2%, caso avanços modernizantes não sejam deflagrados. Os investimentos não se disseminam e é preocupante a queda da produtividade pela carência de logística, o que redunda em elevados custos do setor produtivo e perda de parte da produção, notadamente a agrícola, por falta de escoamento. Por outro lado, a indústria, setor que deveria ser o carro-chefe do crescimento pelos efeitos germinativos e multiplicadores que acarreta na economia, teve expansão de 2,9% em janeiro, segundo o IBGE, depois de uma redução de 3,7% em dezembro e que, em face dos incentivos recebidos, continua com os mesmos níveis de produção de 2009. Certamente alvissareira foi a expansão de 10% do setor de bens de capital, entre dezembro e janeiro, o que poderá indicar não apenas reposição de máquinas e equipamentos, mas elevação da capacidade produtiva.

Todos esses dados sugerem a necessidade de medidas estruturantes voltadas à elevação da produtividade e competitividade da economia brasileira. Nesse sentido, ressalte-se a atitude meritória do governo em intensificar as privatizações no setor de logística, mas, complementarmente, será absolutamente necessária uma revolução modernizante nas áreas tributária e previdenciária, e, claro, na melhoria da educação, além de um choque de inovação tecnológica a fim de que o Brasil volte a trilhar os caminhos do desenvolvimento sustentável e participar da nova era de crescimento que se avizinha. Dificilmente tais reformas serão realizadas num ano eleitoral, mas, sem dúvida, integrarão a agenda do próximo governo. Oxalá!

Frentes frias

Dora Kramer 
 O Estado de S.Paulo

A semana passada começou com o Palácio do Planalto falando grosso e terminou com o governo falando fino para tentar conter a rebelião liderada pelo PMDB em sua base de suposto apoio do Congresso.

Na versão do departamento de propaganda oficial, o embate seria ótimo para a presidente Dilma Rousseff, que teria oportunidade de mostrar-se à opinião pública mais uma vez inflexível às demandas fisiológicas dos políticos, uma categoria em franca derrocada de imagem.

Na realidade, o governo viu-se obrigado a chamar os partidos menores da aliança para negociar caso a caso, cargo a cargo suas demandas fisiológicas a fim de tentar esvaziar o movimento dos rebeldes.

O que a presidente ganhou com isso, além de uma derrota humilhante? Absolutamente nada, uma vez que não poderá levar seu gesto de inflexibilidade à massa. O instrumento que teria para isso seria o horário eleitoral.

Nele, do total de 11 a 13 minutos dos quais poderá dispor se conseguir reeditar a aliança na última eleição, algo em torno de quatro minutos pertencem ao PMDB. Evidentemente estará impedida de atacar o aliado nessa tribuna.

Sendo assim, para que serviu o trato agressivo no Congresso? Se a ideia pretendida pelo marketing não for transmitida à massa, perde sua eficácia.

Mas, de outro lado, deixa como prejuízo um imenso mal-estar com os congressistas, cuja disposição de se empenhar pela reeleição da presidente junto aos eleitores será diretamente proporcional à má vontade com que foram tratados.

Pergunte-se a qualquer um dos deputados federais do PT o que acharam da condução do Planalto nesse episódio e se ouvirão críticas. Sob a proteção do anonimato, claro. O silêncio público da bancada na defesa da presidente nesse embate diz tudo.

Visto com especial desalento por ser mais um de uma série, iniciada com a "faxina ética" do primeiro ano de governo, desmentida com a volta de políticos e partidos então afastados.

Na sequência, a redução da tarifa dos bancos seguida por nove altas de juros e a queda no preço nas contas de luz de aumento já contratado para 2015.

X da questão. 
O cerne da crise do governo com o PMDB está na Câmara. É pelo número de deputados federais eleitos que se define o tempo de televisão destinado a cada legenda. Hoje com 75 parlamentares, o partido tem direito a cerca de quatro minutos.

O PT quer ajuda federal nos Estados para aumentar sua bancada na Câmara na próxima legislatura. Com isso, busca reduzir o tempo de TV e o poder do PMDB já nas eleições de 2016. Com um número maior de deputados, os petistas ficam em condições também de impor candidatura à Presidência da Casa.

Portanto, é de sobrevivência política que se trata. Se Dilma atende às demandas do PMDB por apoio nos Estados contraria os planos de hegemonia de seu partido; se não atende, põe em risco a construção desse projeto de poder, cujo pressuposto é o de que os aliados se contentem com o papel de subordinados.

Em ovos. 
A liderança do governo na Câmara não tem dúvida de que o PMDB votará contra o projeto que estabelece o chamado Marco Civil da Internet. Por essa avaliação, a bancada não tem como recuar da posição já anunciada.

Mais uma vez os parceiros de aliança serão adversários no plenário nesta semana. Se votação houver, bem entendido. Até sexta-feira o governo só tinha certeza de contar com os votos do PT, PC do B, PDT, PROS e PSB. Tinha esperança de conquistar o PTB e o PP, dúvidas sobre o PSD e quase certeza de que não teria o apoio do PR.

Este último está estressado com o ministro César Borges (Transportes), do partido, que tentou fazer a bancada abandonar o "blocão" e ouviu de volta que se alguém deveria sair de algum lugar era o ministro do cargo.

A questão federativa

Fabio Giambiagi
O Globo

Governadores alegam que são penalizados pelas regras da renegociação das dívidas estaduais

O fato de o ano de 2014 ser de eleições presidenciais motiva os potenciais candidatos a abrirem o baú das promessas. Nesse contexto, aqui e acolá, entre as palavras de ordem que começam a serem esboçadas, aparece com frequência a expressão “revisão do pacto federativo”. É preciso ter o máximo de cuidado com esse ponto.

O assunto, a rigor, é antigo. Na verdade, já formava parte, sem retroagir excessivamente no tempo, da pauta que os governadores tinham levado a Fernando Henrique Cardoso no começo do seu segundo mandato, em 1999 e na época envolvia, entre as principais reivindicações, a revisão do Fundo de Estabilização Fiscal (FEF), a recomposição dos recursos da Lei Kandir e a harmonização entre os interesses do governo federal e os governos subnacionais na reforma tributária discutida na época. Isso acabou sendo superado com o tempo: o FEF original, na prática, na parcela que representava uma perda imposta aos Estados, acabou; o tema da Lei Kandir é completamente extemporâneo, pelo fato de os recursos terem sido concebidos como uma transição entre diferentes regimes tributários, transição essa que deveria ter acabado há muito tempo, considerando que estamos falando de coisas aprovadas há mais de 15 anos; e aquela reforma tributária da época nunca vingou.

Nos últimos anos, os governadores e prefeitos têm se queixado de novos problemas. A questão é que ou os problemas não são tais ou a solução deles implica, em contrapartida, uma piora da situação da União, o que significa “vestir um santo e despir outro”. Vejamos em que consistiria essa agenda dita “federativa”.

Em primeiro lugar, queixam-se os governadores, o governo federal estaria fazendo “caridade com o chapéu alheio”, concedendo desonerações com recursos do IPI, dos quais, grosso modo, metade deve ser compartilhada com estados e municípios. Só que aqui é preciso ter uma visão mais abrangente e não restrita unicamente nem ao IPI nem a um ano em particular. Quando se soma o Imposto de Renda — também compartilhado com estados e municípios — e o IPI e se leva em conta uma série longa, constata-se que tal soma, em média, foi de 6,1% do PIB durante 1996/2000; 6,8% do PIB em 2001/2005; 7,1% do PIB em 2006/2010 e os mesmos 7,1% do PIB na média de 2011/2013. Não houve, portanto, perda de base de incidência dos impostos compartilhados.

Em segundo lugar, os governadores alegam que eles são penalizados pelas regras da renegociação das dívidas estaduais, cujas taxas de juros reais seriam muito maiores que as que vigoram no mercado. Aqui, durante um curto período, eles tiveram um ponto que de fato se apoiou na realidade, mas, primeiro, a taxa de juros real que o governo paga hoje pelos seus títulos de longo prazo é da ordem de 7 %, maior que os juros reais de 6% que ele recebe dos estados; e, segundo, qualquer concessão feita nesse campo redunda em redução do superavit primário de estados e municípios e, portanto, maior dívida pública. Não há solução indolor para esse tema, especificamente.

Em terceiro lugar, os governadores reclamam, com razão, de propostas aprovadas no Congresso que oneram o gasto dos estados, notadamente nas áreas de saúde e educação. Porém, os parlamentares que aprovaram tais medidas não o fizeram no Parlamento de Marte — e todos sabem da influência que um governador pode ter sobre a bancada do seu Estado quando ele arregaça as mangas para fazer lobby a favor ou contra algum projeto. É legítimo que os governadores reclamem por ter que pagar contas que lhes são “espetadas” pelo Congresso, mas não dá para fazer cara de paisagem quando projetos generosos são votados e depois reclamar quando seus efeitos começam a se cristalizar.

Há, é verdade, uma vasta agenda de pendências que tratam de questões que dizem respeito à Federação como um todo. Entre elas, destacam-se as regras do ICMS; a distribuição dos recursos do Fundo de Participação dos Estados (FPE); e os royalties.

Esses temas, porém, tratam da questão da distribuição de recursos entre diferentes unidades da Federação. A União, aqui, pode e deve desempenhar um papel de coordenação, mas não de doadora de recursos. A “questão federativa”, portanto, é um ponto bastante opaco da agenda de propostas, que faria bem ao país que fosse mais bem esclarecido.

Estelionato eleitoral

Vinicius Mota
Folha de São Paulo

SÃO PAULO - A oposição petista acusava o governo Fernando Henrique Cardoso de praticar "estelionato eleitoral" em 1998. Os tucanos mantiveram respirando por aparelhos o moribundo regime de câmbio fixo, e a ilusão de que o real era tão forte quanto o dólar, até a reeleição ser assegurada.

Veio logo a seguir, no início de 1999, o cataclismo da desvalorização e dos remédios recessivos para atacar a moléstia enfim desvelada. Um racionamento de energia de feitio soviético, dois anos depois, ajudou a consumar a impopularidade que marcou o segundo mandato de FHC.

Os petistas tinham razão em 1998 –como certos estão seus rivais que agora acusam a gestão Dilma Rousseff de "estelionato eleitoral", pela maquiagem passageira aplicada em preços nodais da economia. Não se iluda, leitor, sua despesa com gasolina e eletricidade está sendo artificialmente reduzida pelo governo federal.

Como sempre ocorre no mundo sublunar, se uns estão pagando menos, é porque outros estão arcando com parte desse custo. Nos combustíveis, a conta do subsídio fica com a Petrobras, obrigada pelo governo a vender gasolina com prejuízo.

Na energia elétrica, o abatimento oferecido ao consumidor é bancado ou afiançado pelo Tesouro –ou seja, pelo conjunto dos que pagamos tributos. Se os mais pobres no Brasil pagam proporcionalmente mais impostos, eles estão ajudando a financiar o banho quente dos mais ricos.

Preços maquiados dão o sinal errado para todos. No consumidor, estimulam a aquisição de um bem que está na verdade se tornando mais escasso. Inibem também o investimento na ampliação da oferta, pois ninguém com sensatez arrisca dinheiro em operações que dão prejuízo.

Distorções se acumulam em toda parte, mas o governo Dilma tem estoque de aspirina para evitar terapias de choque por mais alguns meses. Prepare-se para 2015, o ano do ajuste das contas. 

Hegemonia perde força

Gaudêncio Torquato
O Estado de São Paulo

A luta, vista de perto, deixa ver um embate engalfinhado por espaços na estrutura governativa entre dois gigantes partidários, PMDB e PT. Sobre o primeiro se colou a pecha de fisiológico, onipresente em qualquer governo. Sobre o segundo se conta um pouco de tudo, desde a versão de que deixou de ser "vestal" para se transformar em pecador igual aos outros, ao mito de que, à moda do Criador, teria plasmado a abóbada que adorna os céus dos nossos trópicos e aberto, "pela primeira vez", a torneira da bem-aventurança, despejando felicidade em milhões de brasileiros saídos do inferno para o gozo do paraíso. Ambos são parceiros na construção da aliança que pôs Dilma Rousseff no comando da Nação.

Desde 1986, quando elegeu 22 dos 23 governadores, 260 deputados federais e 44 senadores, o PMDB tornou-se a maior organização partidária, elegendo, em pleitos seguintes, o maior número de prefeitos e as bancadas mais cheias nos Legislativos federal, estaduais e municipais. De lá para cá acumulou extraordinária capilaridade, fazendo-se presente nos rincões distantes e se tornando o pêndulo de qualquer governo.

Desde 1984, quando foi criado sob o epíteto do "socialismo democrático", que hoje se esconde sob o esparadrapo de feridas abertas pela Ação Penal 470, o PT se esforça para liderar o ranking da política. Puxando os cordões do poder pelas margens sociais, conseguiu chegar três vezes à Presidência da República e este ano busca a quarta vitória, com a qual reforçará a base do projeto mais longo (e vertical) de poder da História contemporânea: dirigir o Brasil por um tempão. Vertical na perspectiva de concentrar o poder nas próprias mãos, evitando dispersão de forças.

Vista de longe, a esganiçada contenda entre os dois atores mostra que eles não lutam apenas para conquistar espaço na Esplanada dos Ministérios (o PT comanda 17 pastas e o PMDB, apenas 5). Trata-se de algo mais abrangente e que, pouco a pouco, acirra os ânimos dos parlamentares plantados nas legendas governistas. O busílis tem nome: o projeto hegemônico do PT. O escopo pode ser assim descrito: alijar o principal parceiro, o PMDB, do centro do poder, deixá-lo à margem, transformando-o em partido médio igual aos outros; portanto, de arreio curto e sem condição de alçar voo em direção ao comando das duas Casas do Congresso Nacional, como hoje. A meta petista é eleger este ano 130 deputados federais, o maior número de governadores, a mais extensa bancada de deputados estaduais, pavimentando um gigantesco campo que servirá de base para a decolagem de candidatos a prefeito e vereador em 2016, com os quais a sigla resgataria, sob ecos triunfantes, o "volta Lula" em 2018, com direito a reprise na reeleição de 2022. O resto, SDS (Só Deus Sabe).

Hegemonia - eis o fulcro do imbróglio entre os maiores partidos políticos. O poder hegemônico engendrado pelo PT é que está em jogo. Tal estratégia começa a esquentar a peroração política. A sensação, no momento, é de que o domínio político e administrativo por uma sigla, que abre intensa polêmica, ameaça criar divisões profundas no meio da sociedade. Ortodoxos chegam a aventar a hipótese de mudança de regime e da instalação de um Estado com extensos braços intervencionistas, a par do controle dos meios de comunicação, caso os petistas consigam seu intento.

Vamos à análise. São tênues, para não dizer improváveis, alternativas que apontem para o estreitamento das colunas do nosso edifício democrático. Governos de partidos únicos, regimes totalitários, visões intervencionistas e modelagens que fecham as tubas de ressonância social são cada vez mais escassas na esfera planetária. A contemporaneidade abre-se para o respiro social e a hegemonia, ao menos nos termos do passado, não condiz com a atualidade. Hegemonia expressa domínio, força, poder de mudar, controlar e impor. Denota o predomínio de visão unilateral por um partido ou um grupo, engenharia que não condiz com o espírito de nosso tempo.

Não se divisa "o fim do poder" nas condições que Moisés Naim, editor-chefe da revista Foreign Policy, mostra em seu livro lançado em outubro, e, sim, sua degradação, seu arrefecimento. Basta enxergar a teia por onde se move a política. As crises econômicas em série, a organização das comunidades de todos os tipos, a elevação do conceito de igualdade entre gêneros, os conflitos no mundo do trabalho, a delinquência e a violência expandida nos centros urbanos, a queda dos mercados financeiros constituem, entre outros, fatores que alteram a maneira de agir dos poderes centrais. As dificuldades enfrentadas pelas administrações públicas, em todo o planeta, impõem novos paradigmas, levando os poderes a se tornar fragmentados. O palco da política está mudando. Na esteira da dispersão, antigos centros de poder perdem sua capacidade de coordenação e controle.

Os arsenais das democracias enchem-se de armas menores, mas tão eficientes como os grandes armamentos, tendo capacidade de vetar, contrapor, combater e limitar as margens de manobra dos grandes atores. Essa nova artilharia é composta e suprida por micropoderes, ajuntamentos de pessoas formados no interior de categorias profissionais, na escala dos gêneros, nas geografias regionais e no espaço das organizações intermediárias. E o que se vê? Governantes, mesmo os que detêm imenso poder, como os nossos, ancorados num modelo presidencialista de caráter imperial, enfrentam vulnerabilidades. A presidente Dilma, mesmo dispondo de formidável rolo compressor - uma base governista em torno de 350 parlamentares na Câmara -, não acaba de ver a aprovação da convocação de dez ministros?

Moisés Naim pinça um bom retrato: "A figura de Gulliver, amarrado no chão por milhares de minúsculos liliputianos, capta bem a imagem dos governos destes tempos - gigantes paralisados por uma multiplicidade de micropoderes".

MARCELO YUKA: ‘Estão vencendo, no Brasil de hoje, a truculência, o fascismo e a burrice’

Sônia Racy
O Estado de São Paulo

Prestes a fazer 50 anos, Marcelo Yuka lança biografia para virar a página e mostrar que sua história vai muito além dos tiros e da passagem como baterista d’O Rappa.

Treze anos depois de levar nove tiros – que o colocaram para sempre em uma cadeira de rodas –, Marcelo Yuka ainda convive com uma inquietação. Quer entender como seu destino se cruzou com o daqueles que o alvejaram na esquina das ruas Andrade Neves e José Higino, na Tijuca, no Rio. “Quero chegar um dia, chamar para tomar uma cerveja e perguntar o que aconteceu. Talvez eles me deem esse direito”, disse o músico, que se denomina um dos “últimos pacifistas”.

(Foto: Jaque Machado) 
Marcelo Yuka 

Mas Yuka não quer restringir sua história a esse episódio. Para tanto, lança, quarta-feira, na Fnac da Paulista, sua biografia Não se Preocupe Comigo, escrita em parceria com Bruno Levinson: “O público identifica os tiros e a saída d’O Rappa como as grandes coisas a serem ditas sobre mim, porque só conhece isso. Mas existem outros momentos importantes, inclusive aqueles que ainda estão por vir. A história é minha e sei exatamente onde colocar os pesos”.

E os pesos, hoje, para ele – que foi vice de Marcelo Freixo em 2012 – se dividem em muitos. Voltar ao mar, em uma travessia Rio-Niterói, de caiaque; finalizar seu disco solo; abrir uma exposição com suas pinturas; e, como não poderia deixar de ser, manter viva a reflexão sobre a violência. “A guerra se dá quando o Estado assume que terminou o diálogo. E o Estado não foi feito para se curvar à falta de diálogo. Existe um pensamento burro no ar”, afirmou em entrevista à coluna, em sua casa, no Rio. E a política? Pensa em voltar a se candidatar? “De maneira nenhuma. Mas se o Freixo me pedir…” Ele continua filiado ao PSOL – ou, como gosta de dizer, “filiado ao Freixo”.

A personalidade inquieta já era conhecida de suas letras em O Rappa. Foi ele quem compôs grandes sucessos da banda – como Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero) –, com a qual rompeu menos de um ano depois dos tiros. “Confesso que me perturba ainda estar agarrado a essa história. Não que tenha vergonha de ter vivido, nem de ser associado a ela. Faz parte da minha biografia e eu a assumo, mas isso não quer dizer que vou defender essa parte como a coisa mais importante de minha vida.”

A seguir, os melhores trechos da entrevista.

Sabe o que aconteceu com os que atiraram em você?
Em certa altura do filme (o documentário ‘Marcelo Yuka no Caminho das Setas’, de Daniela Broitman), quis encontrar um deles e fazer uma entrevista. Não era para ser incriminatório. Queria entender o que estavam fazendo ali, quem eles estavam roubando. E como meu destino cruzou com o deles. Queria e sempre vou querer entender. Mas a Daniela não levou adiante, acho que teve medo.

Sabe quem eles são?
Sei alguma coisa, que alguns foram presos, outros não. Sei de onde são. Até já estive lá algumas vezes. E pediram para eu sair da comunidade. Mas quero chegar um dia, chamar para tomar uma cerveja e perguntar o que aconteceu. Talvez eles me deem esse direito.

Você já disse que há muito folclore sobre a sua vida.
A história de que salvei a moça (que estava sendo assaltada no momento em que ele foi baleado). Estou há 13 anos falando que não salvei ninguém e até hoje passo na rua e as pessoas falam: “Olha lá o cara que salvou a menina”. Já desisti. Hoje em dia, falo que sou eu mesmo. (risos)

Encontrou-se com ela depois?
Sim. Aliás, achei muito decente ela não ter capitalizado o que aconteceu. Ela é bonita, podia ter posado nua, essas coisas, mas nunca a vi dando entrevista nem nada. Um dia, estava almoçando com meu fisioterapeuta e ela se aproximou. Até achei que era jornalista, mas vi o rosto de quem estava na mesa mudar. Ela falou pra mim: “Você sabe quem eu sou? Nunca me viu antes?”. E começou a chorar. Eu pensei: “Porra, fudeu! Será que sou pai do filho dela?” (risos). Ela falou: “Sou a pessoa que você salvou”. Falei que não era, porque nunca tinha salvado ninguém. E ela: “Pra mim e pra minha família, você roubou o destino que era para mim”.

E o que foi que você disse naquela hora?
Que, do fundo do meu coração, nem sabia que ela estava ali. Mas não adianta falar. A ideia de que eu posso ter sido esse cara, com esse perfil, é tão mais fascinante do que ter sido tudo ao acaso… Essa é a construção do mito.

Como alguém que estuda violência, qual sua opinião sobre os “justiceiros do Rio”, que amarraram um garoto no Flamengo?
Cara, não vivi o período de ditadura militar, mas acho que existem fatos sociais que “startam” uma mudança ou uma possibilidade de sair do armário. Quando o José Padilha exibiu o primeiro Tropa de Elite, um pensamento saiu do armário – tenho certeza de que ele não queria isso. Mas toda vez em que o Capitão Nascimento torturava e matava um bandido no filme, a plateia comemorava como se fosse um gol.

Qual é esse pensamento? 
Há, hoje em dia, um discurso de que existe um inimigo público número um – que é o narcotráfico. E esse inimigo, diz o poder, cria “pessoas matáveis”. O narcotraficante virou uma pessoa matável. Se repararmos, quando tem invasão no morro, fala-se em morte de traficantes e não de pessoas. E a sociedade olha assim: “Não foi uma atitude violenta, só morreu traficante”. Opa, espera aí! Olha o pensamento reaça, uma cadeia de pensamento que vem crescendo e que hoje é exposta de peito aberto. O que significa que, o que está vencendo, é a truculência, o fascismo, a burrice. Vejo tudo interligado.

Interligado como?
Outro dia, um ator que nem sei o nome (Caio Castro) deu uma entrevista para a Marília Gabriela dizendo que não lia e não gostava de teatro. Entendo que é um direito dele falar o que falou, mas só teve coragem porque existe um pensamento burro no ar que o respalda. E esse pensamento é reacionário. Ele teve um conforto – que nem sabe de onde veio – para falar de peito tão aberto assim. É o mesmo conforto do cara que fala “traficante tem de morrer” e dos meninos do Flamengo – que apelidei de JEF, Jovens Espancadores do Flamengo.

No documentário, você fala da vontade que tem de conversar com o dono da Taurus. Você também fez parte do Estatuto do Desarmamento…
Parece que toda a luta que eu tinha se resumiu a depois da cadeira. Mas a verdade é que há muitos anos eu já estava envolvido com a questão do desarmamento. O que me chamou a atenção foi que precisei fazer uma ressonância magnética – e tinha de saber qual o material da munição. Na época do exame, escrevi um documento com meu advogado, perguntando isso aos fabricantes de armamentos e de munição. E todos eles mandaram como resposta um documento judicial que lhes assegurava o direito de não responder. Se sou vítima daquele artefato, por que eles se respaldam na lei pelo direito de não me informar? Além do quê, essa coisa de arma de fogo é medieval. Assegurar o direito à arma é a maior prova do uso do medo como ação política. Cada vez que a gente dá um passo para a frente, continua ainda muito conservador e retrógrado.

Quando se deve usar a arma?
O cerne do meu ponto de vista é que a arma de fogo é o fim da tolerância. A guerra se dá quando a tolerância termina. E não há regras numa guerra. Isso só acontece a partir do momento em que o Estado assume que terminou o diálogo. E terminar o diálogo é uma posição política absoluta, ditatorial. O Estado não foi feito para se curvar à falta de diálogo, mas, sim, para promover sua importância. Não enxergo as manifestações como causa, mas como consequência. Sou, talvez ingenuamente, um dos últimos que se assume como pacifista.

Acha que isso está presente nas manifestações?
As manifestações vêm mostrando que não existem armas não letais. Estive nos protestos e quase morri duas vezes. Por motivos óbvios, não pude correr. Fiquei gritando “sou aleijado, sou aleijado”. Quando cheguei ao protesto, as pessoas me olharam na cadeira de rodas e te confesso que meu ego inflou quando me perguntaram: “E aí, Yuka, o que a gente faz?”. Me senti um coronel no front e disse: “A rua é pública, temos de ganhar posição”. (risos) Esse negócio de “efeito moral” não é só moral, não. Se aquela porra bater em você, você tá fodido.

Nesse contexto, falou-se em lei antiterrorista.
Está vendo como há uma mentalidade reaça no ar? O que não entendo é como pessoas que militaram e viveram o período da ditadura não estão se posicionando. Tem muito mais gente com poder de pressão social. Até porque se mata mais hoje do que se matou naquele período.

Acha que vai ter Copa?
Não sei se vai ter Copa… acho que sim. Mas, cada vez mais, acho importante a frase “não vai ter Copa”. É a única que pode ser gritada nas ruas hoje e que tem poder de pressão social. Não amedronta só o Estado, mas também as corporações, o mercado. Quando se grita isso, não quer dizer que não vai ter. Quer dizer que vai ser perturbador.

O que acha dos rolezinhos?
Não existe nada mais nazista no Brasil dos últimos 20 anos do que a proibição dos rolezinhos. Foi pior até que a proibição do funk aqui no Rio de Janeiro. Já estamos acostumados a ver a agressividade do Estado que mata muito, mas institucionalizar esse tipo de preconceito é outra história. Estamos perto da barbárie mesmo.

E a ideia de que a Polícia não tem motivos para tratar bem a sociedade, porque é maltratada por ela?
A questão é mais profunda. A polícia não nasceu para tomar o partido da sociedade. Nasceu para tomar partido do poder e, como tal, cumpre muito bem seu papel.

Como está a sua não-relação com O Rappa?
Esse livro é um marco dessa história. De agora em diante, quando me perguntarem o que acho disso, posso responder “leia o livro”. Confesso que me perturba ainda estar agarrado a essa história. Não que tenha vergonha de ter vivido, nem de ser associado a ela. Faz parte da minha biografia e eu a assumo. Mas não quer dizer que vou defender essa parte como a mais importante da minha vida. O público identifica os tiros e a saída d’O Rappa como os grandes fatos a serem ditos sobre mim, porque só conhece isso. Mas existem outros momentos importantes, inclusive os que ainda estão por vir. A história é minha e sei exatamente onde colocar determinado peso.

O Falcão disse que nunca mais cantaria suas músicas.
Canta até hoje. E mais do que isso: foram feitos não sei quantos acústicos. Costumo dizer que O Rappa é a maior banda cover de si mesma do mundo. Porque eles estão repetindo, repetindo. Sou capaz de admitir que fui e sou um músico idiota, ridículo e medíocre, mas tenho conceito. Sei o peso musical que tive n’O Rappa, principalmente no Lado B, Lado A. Sei o peso que tenho, musicalmente, naquilo ali.

Tem ligação com o Freixo?
Quase que homoafetiva. (risos) Quando um homem em um cargo público é procurado pelas mais diferentes pessoas, é louvável. Quer dizer que estabelece um diálogo. No começo dos nossos encontros como candidatos(à prefeitura do Rio, em 2012), ele falou: “Se a gente ganhar, vamos fazer um bom governo, inclusive para o Eduardo Paes e para o Sérgio Cabral. Quero que a rua em que eles moram seja tão boa quanto as ruas na favela. Aí é que é diferente! Temos de esquecer as diferenças partidárias. Administração não tem rancor”. Ou seja, Mandela estava certo. 

Com Marilia Neustein e Thais Arbex

Um “saco” com quatro filhos

María Martín 
El País

A morte de uma mulher no Rio, após ser vítima de uma troca de tiros e ser arrastada por uma viatura policial, mostra como a vida continua perdendo valor no Brasil

THIAGO LONTRA (AGÊNCIA O GLOBO) 
O enterro de Cláudia Silva Ferreira
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A morte de Cláudia Silva Ferreira, uma auxiliar de limpeza de 38 anos, vítima de bala perdida e cujo corpo ainda foi arrastado durante 250 metros por uma viatura da polícia militar, rebaixou mais um pouco a cotação de uma vida no Brasil.

Seria mais uma morte por um projétil sem rumo, cotidianas trajetórias fatais nas quais a responsabilidade do Estado ainda não foi definida, mas o episódio não acabou no alto do morro da Congonha, em Madureira, no norte do Rio de Janeiro.

Três policiais do 9º BPM (Rocha Miranda), que participaram de uma troca de tiros com supostos criminosos na favela, pegaram a mulher, ferida de bala no pescoço e nas costas, e a jogaram no porta-malas –e não no banco traseiro– de uma viatura. A intenção seria a de socorrê-la, pois o relatório da polícia afirma que a vítima ainda estava viva. Porém, essa prática tem sido questionada infinitas vezes pela quantidade de irregularidades e imprudências que podem ser cometidas dentro de um camburão –o Estado de São Paulo já proibiu em janeiro do ano passado que policiais socorram feridos de bala.

Desta vez, não deu certo. Um motorista que, com aparente temor de ser surpreendido escondia o celular entre as pernas toda vez que podia ser visto pelos agentes, gravou parte do percurso de Cláudia até o Hospital Carlos Chagas. A gravação, publicada pelo site do jornal Extra, mostra o porta-malas da viatura aberto e o corpo de Cláudia pendurado pelas roupas, enquanto era arrastado ao ritmo da ultrapassagem apressada do veículo policial.

As primeiras informações indicam que vários pedestres e motoristas alertaram aos policiais que arrastavam o corpo de uma mulher, mas foi só em um semáforo que os agentes desceram e carregaram de novo no carro um corpo, agora, em carne viva.

Ferida a bala e jogada na mala do camburão, 
Claudia acabou caindo e foi arrastada por 250 metros

Cláudia Silva, mãe de quarto filhos e responsável pelos cuidados de outros quatros sobrinhos, chegou morta no hospital. Sua filha Thaís Silva, de 18 anos, foi a primeira a encontrá-la sem vida. “Eles arrastaram minha mãe como se fosse um saco e a jogaram para dentro do camburão como um animal”, gritou aos choros a jovem à imprensa.Alexandre Fernandes da Silva, de 41 anos, marido de Cláudia há 20 anos, também disse abalado que arrastaram o corpo da sua mulher como se ela fosse um saco. “A perna dela ficou toda em carne viva. Não podiam ter feito isso com ela”.

A irmã de Cláudia, Jussara Silva Ferreira, de 39 anos, ficou revoltada ao ver o vídeo do traslado da irmã. “Acham que quem mora na comunidade é bandido. Tratam a gente como se fôssemos uma carne descartável. Isso não vai ficar impune. Esses PMs precisam responder pelo que fizeram”, afirmou ao jornal Extra.

Três policias foram detidos pelo episódio. “Eles estão presos em flagrante criminalmente e vão responder por causa da condução do corpo, que não é para ser feita daquele jeito. Vi irregularidades, sim”, afirmou ao Extra o comandante do 9º BPM, tenente-coronel Wagner Moretzsohn.

Em nota, a PM justificou que este tipo de conduta não condiz com um dos “principais valores da corporação, que é a preservação da vida e dignidade humana”.

O corpo de Cláudia, velado por mais de duzentas pessoas, foi sepultado, na tarde desta segunda-feira. O enterro foi seguido de um protesto dos moradores da comunidade contra a violência policial. A polícia não deu informações sobre a origem da bala que matou Cláudia quando ia comprar pão.

Corte de vento

Celso Ming 
O Estado de S.Paulo

As autoridades da área econômica juraram que não apelariam mais para contabilidades criativas com a finalidade de fechar as contas públicas e manter as aparências. No entanto, já há mais do que indícios de que as manipulações continuam. São da mesma natureza das que foram feitas nos anos anteriores e foram denunciadas.

Ontem, o jornal Valor avisou que, para efeito de definição do superávit primário de 1,9% do PIB, ou seja, para cálculo da poupança do governo para abater a dívida pública, o Ministério da Fazenda subestimou propositalmente em pelo menos R$ 10 bilhões (pode ser mais) o rombo da Previdência Social deste ano.

Quem está dizendo isso não é um desses cricas que estão sempre à procura de pelo em ovo. Quem está dizendo que o governo Dilma está subestimando em tais proporções o déficit da Previdência e, com isso, se dedicando a "corte de vento" é ninguém menos do que o ministro da Previdência Social, Garibaldi Alves.

Este não é o único dado que reforça a impressão de que o governo segue enganando brasileiras e brasileiros a respeito da administração das contas públicas. O anúncio da obtenção do superávit primário de 1,9%, feito no dia 20 de fevereiro, também superestimou a arrecadação do Tesouro. Colocou no cálculo um avanço do PIB de 2,5%, quando o Brasil inteiro não conta (em média) com mais de 1,7%, como a Pesquisa Focus, do Banco Central, vem revelando todas as semanas.

Na semana passada, o banco Morgan Stanley avisou que apenas a possibilidade de racionamento de energia elétrica já derrubou para 1,5% as expectativas de avanço do PIB do Brasil neste ano. Ora, crescimento mais baixo da atividade econômica implica arrecadação também mais baixa, portanto, é fator de encolhimento do resultado das contas públicas. Insistir em arrecadação inconsistente com o tamanho do PIB é insistir no jogo manipulatório.

E por falar em energia elétrica, há evidências de que também está subestimado o aumento de R$ 21 bilhões na conta de luz, que fez parte do pacote de socorro para as distribuidoras de energia elétrica anunciado na semana passada. Se isso se confirmar, serão inevitáveis ainda maiores transferências do Tesouro para o setor.

Esta Coluna também já vinha chamando a atenção para o estrago sobre a arrecadação dos Estados que tem sido provocado pelo achatamento de preços e tarifas comandado pelo governo. O ICMS sobre combustíveis e energia elétrica é importante fonte de arrecadação dos Estados. Se mantém represados esses preços, a decisão populista do governo Dilma concorre ainda para que o restante do setor público também deixe de cumprir suas metais fiscais.

É frágil o atual arranjo em que se baseia a sustentação das contas públicas. O governo sabe disso e mal consegue disfarçar as contradições em que se enreda. A estratégia está clara. Consiste em tentar aguentar como der, empilhar esqueletos para dentro de um armário qualquer, esperar pelo resultado das eleições e depois ver como se consertam os estragos.

A principal consequência dessa postura é o aumento das incertezas. Hoje, qualquer empresário sabe que, em sua empresa, as decisões que podem esperar devem ser adiadas até que haja mais clareza.

Ares de ficção avançam sobre as contas públicas

Editorial
O Globo

O uso de artifícios para transferir despesas para 2014, cifras irreais no Orçamento e nova manobra contábil no setor elétrico arranham ainda mais a credibilidade

O ministro da Previdência, Garibaldi Alves, indicado pelo PMDB, não é do ramo da sua Pasta, como vários outros. Mas não parece disposto a ser atropelado pela realidade, como demonstra o fato de ter afirmado ao jornal “Valor” que é irreal a estimativa de R$ 40 bilhões de déficit para o INSS incluída pela Fazenda no Orçamento deste ano. Pelas contas dos técnicos da Previdência, deve-se acrescentar R$ 10 bilhões à cifra.
O Planalto não digeriu a entrevista, porque deve estar preocupado com a fragilização crescente da imagem da qualidade das contas públicas, sob a lupa de agências internacionais de risco. A Standard & Poor’s, que em 2013 rebaixou a perspectiva de solvência do Brasil de “estável” para “negativa”, acabara de despachar analistas para o país.

Evidentemente pressionado, Garibaldi emitiu nota voltando atrás. Talvez o Planalto pudesse ficar tranquilo, não houvessem muitas outras provas concretas de que as contas públicas avançam firmes para o reino da ficção.

A virada de ano foi um período fértil para maquiagens executadas pela “contabilidade criativa”, a fim de que o superávit primário ficasse em 1,9% do PIB, meta assumida também para este exercício. A receita aplicada foi simples: jogar despesas para 2014. Por isso, as despesas públicas em janeiro explodiram como nunca.

Artigo do economista Gil Castello Branco, da ONG Contas Abertas, publicado ontem no GLOBO, trouxe mais informações sobre a manobra: foi retida nos cofres federais a parcela de estados e municípios dos recursos recolhidos no refinanciamento de dívidas tributárias de empresas (Refis); de 1º de dezembro a 27, a União pagou apenas R$ 2 bilhões a empreiteiros (obras e equipamentos), mas, entre 28 e 31, R$ 4,1 bilhões, para que fossem efetivamente retirados do Tesouro apenas no início de 2014. São exemplos da criatividade fiscal.

Há mais cifras suspeitas, distantes da realidade, no Orçamento deste ano, além da bisonha estimativa do déficit da Previdência. Também o jornal “Valor” já revelara discrepâncias evidentes entre estimativas incluídas no Orçamento de receitas oriundas de dividendos de estatais, concessões, royalties e venda de ativos e o que se pode arrecadar de fato. Nestas rubricas, são previstas receitas de R$ 88,56 bilhões, quando em 2013 elas somaram R$ 75,66 bilhões. Surgiram quase R$ 13 bilhões do nada. Na verdade, parlamentares inflaram os números — o conhecido artifício de inventar receitas para inflar valor das emendas dos políticos. Mas, desta vez, o governo não vetou o jogo do faz de conta.

Para fechar, por enquanto, este show de criatividade, surgiu o tal crédito bancário de R$ 8 bilhões à Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CEE), uma entidade sem ativos a fim de servir de garantia a bancos, para embonecar a conta dos subsídios às distribuidoras, até passarem as urnas de outubro. Está cada vez mais difícil resgatar a credibilidade da administração fiscal.

Consenso negativo

Carlos Melo (*)
O Estado de São Paulo

Ao conceder superpoderes à Presidência e transferir decisões para o Judiciário, parlamentares viraram judas de malhação

É fato que durante algum tempo o presidencialismo de coalizão do Brasil fez o seu papel: o antipático "é dando que se recebe" foi impiedosamente apedrejado pela opinião pública, mas contribuiu para a efetivação de importante agenda econômica e social. O País saiu da ditadura e do caos inflacionário para um regime que distribuiu renda e fez considerável inclusão. Modernizou-se em vários aspectos e, mesmo com tanta desinteligência que há, é mais democrático do que jamais foi. Houve inegável avanço. Pode-se dizer que o preço - na moeda corrente de cargos e recursos públicos que distribuiu - valeu, já que a transformação não foi pequena. Política também é custo-benefício, e o Brasil de hoje é melhor do que há 20 anos. Ademais, em qualquer lugar, fazer reformas profundas é tarefa custosa.

Dida Sampaio/Estadão
'Blocão'. Temos partidos que não mais representam partes do todo social

Mas é necessário reconhecer que, de uns tempos para cá, esse mesmo presidencialismo mudou de caráter e a relação ficou deficitária. Aliados de ocasião recebem seu quinhão de poder, mas já não garantem a execução de programas. As tais "maiorias" são incapazes de fazer reformas e pouco colaboram com os governos. Delas se espera, antes, que não atrapalhem, aprovem "alguma coisa", mas que, sobretudo, anulem a oposição e garantam tranquilidade na esfera parlamentar, evitando o constrangimento de CPIs e outros perrengues. Antes que se atribua responsabilidade exclusiva ao PT, é bom dizer que nos Estados governados pela oposição as Assembleias Legislativas têm, em regra, o mesmo padrão. 

Culpa dos governos que não têm agenda, ou não têm agenda porque não acreditam na capacidade de suas coalizões cumprirem acordos sem impor novos custos, tornando o processo de reforma mais dispendioso que o mal que se procura curar? O fato é que há um vazio de projetos, planos, propostas; um irritante vazio de Política com o "P" maiúsculo. O Brasil chegou à perfeição ou houve uma rendição incondicional às impossibilidades colocadas pela pequena política? Estamos longe, muito longe, da perfeição.

Burocratas tocam o barco, esperando pelo final do expediente; acreditam em ordens. Já estadistas são visionários, enxergam adiante com olhos no futuro distante; trabalham com a persuasão, a todo o momento. Estão escassos no Brasil de hoje. A impressão é que a realidade dobrou espíritos ousados e a única providência possível é contornar os problemas em vez de resolvê-los; deixar que o longo prazo e a crise resolvam o que a timidez e os interesses imediatos não permitem no presente. Quem nasceu primeiro: o vazio de propostas ou a desconfiança dos governos de seus aliados? É possível que sejam gêmeos. O fato é que esvaziar a agenda parlamentar aliciando partidos e políticos tornou-se o mais comum.

Mansamente, o Legislativo se deixou cooptar, abriu mão de prerrogativas e concedeu superpoderes aos presidentes da República. Também transferiu ao Judiciário a responsabilidade de decidir questões que lhe caberiam. Fez de Dilma e de Joaquim Barbosa os heróis de cada uma das metades em que o País tem se dividido. Mas, também, transformou parlamentares num consenso negativo nacional: judas em sábado de aleluia. A safra de políticos é ruim - raros resistiriam a testes mínimos de qualidade. Isso faz com que se despreze a própria atividade. Sem plantar boas sementes de Política, por geração espontânea só crescerá erva daninha nesse pasto.

Partidos políticos deveriam, como diz o nome, representar partes do todo social; parlamentares negociariam interesses difusos, amalgamando a sociedade. O Brasil tem hoje 34 partidos; seria interessante se pudéssemos creditar essa expressiva quantidade à variedade de grupos e interesses reais em ação. Não há, entretanto, setores que se sintam realmente representados. O descolamento revela que o sistema assumiu uma lógica própria, funcionando, basicamente, para si mesmo. Os cargos e o poder que lhes cabem na divisão de recursos - escassos - retornam à sociedade apenas se, ocasionalmente, os interesses de partidos e políticos vierem a coincidir com interesses sociais mais amplos. A coincidência de interesses deixou de ser regra, é exceção.

Pelo ângulo estrito da real política que se faz, a crise entre o governo Dilma e sua base não surpreende. É o que tem sido, uma mesmice sem novidades. Então, não há momento melhor para garantir posições e recursos do que períodos pré-eleitorais; arriscar a reeleição de Dilma parece ser pressão suficiente para derrubar barreiras, nos Estados e no ministério. Assim, o PMDB e aliados acautelam-se para que a fonte de sua força não se esgote. Já o governo, apoiado no suposto favoritismo da presidente, busca sujeitar aliados incômodos que têm retirado do PT importantes nacos de poder - no Congresso Nacional, nos Estados e no ministério. Falta Política num grau elevado. E mesmo para a política que se tem, inexiste coordenação capaz de fazer a partilha. Não se sabe que a alcateia é controlada com sagacidade, não com rugidos de tigres desdentados? Enfim, não se trata de projeto, visões de mundo, conflitos ideológicos: a parada se resume ao cretinismo eleitoral a que a Política foi reduzida. Só isso.

(*)  Carlos Melo é cientista político, professor da Insper e autor de Collor - o ator e suas circunstâncias (Novo Conceito).

Dilma apoiou compra de refinaria de Pasadena, em 2006; agora culpa 'documentos falhos'

Andreza Matais e Fábio Fabrini 
O Estado de S.Paulo

Então chefe da Casa Civil de Lula e presidente do Conselho de Administração da Petrobrás, petista afirma que dados incompletos a fizeram dar aval à operação que custou US$ 1 bilhão


BRASÍLIA - Documentos até agora inéditos revelam que a presidente Dilma Rousseff votou em 2006 favoravelmente à compra de 50% da polêmica refinaria de Pasadena, no Texas (EUA). A petista era ministra da Casa Civil e comandava o Conselho de Administração da Petrobrás. Ontem, ao justificar a decisão ao Estado, ela disse que só apoiou a medida porque recebeu "informações incompletas" de um parecer "técnica e juridicamente falho". Foi sua primeira manifestação pública sobre o tema.

A aquisição da refinaria é investigada por Polícia Federal, Tribunal de Contas da União, Ministério Público e Congresso por suspeita de superfaturamento e evasão de divisas.

O conselho da Petrobrás autorizou, com apoio de Dilma, a compra de 50% da refinaria por US$ 360 milhões. Posteriormente, por causa de cláusulas do contrato, a estatal foi obrigada a ficar com 100% da unidade, antes compartilhada com uma empresa belga. Acabou desembolsando US$ 1,18 bilhão - cerca R$ 2,76 bilhões.

A presidente diz que o material que embasou sua decisão em 2006 não trazia justamente a cláusula que obrigaria a Petrobrás a ficar com toda a refinaria. Trata-se da cláusula Put Option, que manda uma das partes da sociedade a comprar a outra em caso de desacordo entre os sócios. A Petrobrás se desentendeu sobre investimentos com a belga Astra Oil, sua sócia. Por isso, acabou ficando com toda a refinaria.

Dilma disse ainda, por meio da nota, que também não teve acesso à cláusula Marlim, que garantia à sócia da Petrobrás um lucro de 6,9% ao ano mesmo que as condições de mercado fossem adversas. Essas cláusulas "seguramente não seriam aprovadas pelo conselho" se fossem conhecidas, informou a nota da Presidência.

Ainda segundo a nota oficial, após tomar conhecimento das cláusulas, em 2008, o conselho passou a questionar o grupo Astra Oil para apurar prejuízos e responsabilidades. Mas a Petrobrás perdeu o litígio em 2012 e foi obrigada a cumprir o contrato - o caso foi revelado naquele ano pelo Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado.

Reunião. A ata da reunião do Conselho de Administração da Petrobrás de número 1.268, datada de 3 de fevereiro de 2006, mostra a posição unânime do conselho favorável à compra dos primeiros 50% da refinaria, mesmo já havendo, à época, questionamentos sobre a planta, considerada obsoleta.

Os então ministros Antonio Palocci (Fazenda), atual consultor de empresas, e Jaques Wagner (Relações Institucionais), hoje governador da Bahia pelo PT, integravam o Conselho de Administração da Petrobrás. Eles seguiram Dilma dando voto favorável. A posição deles sobre o negócio também era desconhecida até hoje. Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobrás na época, é secretário de Planejamento de Jaques Wagner na Bahia. Ele ainda defende a compra da refinaria nos EUA.

O "resumo executivo" sobre o negócio Pasadena foi elaborado em 2006 pela diretoria internacional da Petrobrás, comandada por Nestor Cerveró, que defendia a compra da refinaria como medida para expandir a capacidade de refino no exterior e melhorar a qualidade dos derivados de petróleo brasileiros. Indicado para o cargo pelo ex-ministro José Dirceu, na época já apeado do governo federal por causa do mensalão, Cerveró é hoje diretor financeiro de serviços da BR-Distribuidora.

Desde 2006 não houve nenhum investimento da estatal na refinaria de Pasadena para expansão da capacidade de refino ou qualquer tipo de adaptação para o aumento da conversão da planta de refino - essencial para adaptar a refinaria ao óleo pesado extraído pela estatal brasileira. A justificativa da Petrobrás para órgãos de controle é que isso se deve a dois motivos: disputa arbitral e judicial em torno do negócio e alteração do plano estratégico da Petrobrás. A empresa reconhece, ainda, uma perda por recuperabilidade de US$ 221 milhões.

Antes de virar chefe da Casa Civil, Dilma havia sido ministra das Minas e Energia. Enquanto atuou como presidente do conselho nenhuma decisão importante foi tomada sem que tivesse sido tratada com ela antes.
Dilma não comentou o fato de ter aprovado a compra por US$ 360 milhões - sendo que, um ano antes, a refinaria havia sido adquirida inteira pela Astra Oil por US$ 42,5 milhões.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Até hoje, a lenda que se contava sobre a compra da refinaria Pasadena, no Texas, era de que a senhora Rousseff, quando consultada, à época, sobre a compra, teria sido contrária. E, tendo em vista que Sérgio Gabrielli, apesar da posição contrária da senhora Rousseff, teimou em levar avante a negociata, tornou-se mal visto. 

Gabrielli, até hoje, levou a culpa sozinho do péssimo negócio e a Dilma jamais veio a público para desmentir a lenda. Claro, né, revelar a verdade desmistificaria a auréola de “gerentona” que carregou até hoje, apesar   do governo medíocre que comanda. 

Agora, confrontada com a verdade, apresenta como desculpa que avalizou a operação por culpa de “...informações incompletas..." de um parecer "técnica e juridicamente falho"? Convenhamos, isto é passar atestado de incompetência total, já que não ocupava qualquer cargo, já que carregava na época a mística de “gerentona”,  a tal ponto que Lula esparramou mundo afora que não havia ninguém mais bem preparado e capacitado para governar o Brasil do que Dilma Rousseff. E esta senhora, pega na mentira e na incompetência, ainda quer governar o Brasil por mais quatro anos? Bem que Eduardo Campos tem razão ao afirmar que o país não aguenta mais quatros anos com Dilma. Não aguenta mesmo!!!   

E um detalhe: o fato da Petrobrás não ter realizado até hoje nenhum investimento, apesar das desculpas “técnicas”, a Pasadena Refining System Inc., cuja metade a Petrobras comprou dos belgas a preço de ouro, vejam vocês!, não tinha capacidade para refinar o petróleo brasileiro, considerado pesado. Para tanto, seria preciso um investimento de mais US$ 1,5 bilhão! Assim, além de inútil, tratava-se de uma refinaria totalmente obsoleta. Os belgas devem estar festejando o maior negócio de sua história, e rindo da nossa cara de pau em querer contar piada de português... 

As dificuldades pelas quais passa a Petrobrás, não podem ser imputadas apenas ao represamento dos preços dos combustíveis para controlar a inflação. Também tem suas causas em negócios absurdos como este, sob o aval da senhora Rousseff, sempre competente em parecer competente!!! 

E é por estar sob investigação a negociação, que a mentira mantida por Dilma até aqui somente agora foi  revelada, mesmo que sob o lustro fantasiado de que “os outros é que são culpados”. Ou seja, para não parecer mentirosa e incompetente, inventou-se uma nova mentira. Esta é a presidente  que nos desgoverna, e que se acha em condições de dar lições ao mundo. Arre!!!