sexta-feira, abril 04, 2014

Nada de mais

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

Pasadena acabou saindo por US$ 1,3 bilhão, e parece que só a presidente Dilma, no governo, diz que foi um mau negócio


Churchill, quando primeiro-ministro na época da guerra, dizia que era mais fácil comprar um submarino do que um pacote de chá para o lanche do gabinete. Claro, ninguém sabe quanto custa um navio, muito menos um de guerra. Se o almirante diz... Mas se lhe apresentam um orçamento de 300 reais por uma caixa de café, você desconfia: é de ouro essa embalagem?

Bom, quanto custa uma refinaria de petróleo em Pasadena, nos Estados Unidos? Assim, na lata, ninguém sabe, nem mesmo a presidente Dilma, uma especialista em energia. Logo, quando decidiram pela compra, em 2006, os conselheiros da Petrobras só poderiam se fiar no relatório dos técnicos e consultores.

Mas, convenhamos, dá para desconfiar na base do puro bom senso. Esqueça a refinaria. Pense assim: se alguém lhe oferece por 300 milhões metade de uma coisa que acabou de comprar por 40, você tem que achar estranho, muito estranho. E, logo, exigir muito mais argumentos — documentos da própria companhia e mais estudos de terceiros.

A presidente Dilma pode dizer que concordou com a compra da Pasadena, quando presidia o conselho da Petrobras, com base em estudos apresentados pela diretoria. E também pode reclamar porque, diz ela, não lhe mostraram todas as cláusulas do negócio.

Mas parece que ela e outros conselheiros caíram na história de Churchill. Trezentos e tantos milhões de dólares por meia refinaria, mas prontinha, nos EUA? É parece bom, vamos lá.

Os diretores executivos da Petrobras contestam a presidente Dilma e dizem que todos os documentos estavam à disposição do Conselho de Administração — ou seja, só não viu quem não quis.

Faz sentido, a menos que se prove que os então diretores deliberadamente esconderam dados. Mas aí, uma vez descoberto isso, era o caso de se fazer um escândalo, demitir todo mundo. O que não aconteceu.

Mas a Pasadena acabou saindo por US$ 1,3 bilhão — e parece que só a presidente Dilma, no governo, diz que foi um mau negócio. Quase todos os demais membros da administração e do PT não estranharam nada, continuam dizendo que foi um bom acerto e que estava tudo bem explicadinho na hora da compra.

Não tem nada demais, só ficou mais cara, acontece.

Dizem que a presidente é autoritária. Mandona, contam alguns assessores. Mas neste caso, está todo mundo contradizendo o que ela diz. E fica por isso mesmo.

Parece que esse pessoal não é de estranhar. Por exemplo; quando a diretoria da Petrobras, a mando de Lula, anunciou a construção da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, acharam normal o custo previsto de US$ 2 bilhões, e em associação com a PDVSA de Chávez, que já estava mal das pernas.

Reparem: a Abreu e Lima foi anunciada em 2005. A meia-Pasadena foi comprada em 2006, devendo estar sendo negociada antes disso. De todo modo, pelo menos em 2006, era possível estranhar: como uma refinaria pode custar mais de US$ 2 bilhões no Brasil , se tinha uma nos EUA por 40 milhões, no negócio original?

Ok, são refinarias diferentes, uma velha, outra nova, mas, gente, convenhamos: um dos dois preços tem de estar errado. E a Pasadena foi comprada e vendida no mercado livre.

Depois, na construção, a Abreu e Lima foi atrasando e ficando mais cara. Já está em US$ 18 bilhões. Nove vezes! O máximo de estranhamento, dentro do governo, foi o comentário da presidente atual da Petrobras, Graça Foster: foi um erro a não ser repetido.

E toca a obra. Acontece, não tem nada de mais.

Também parece normal o que acontece com as outras três refinarias: a Comperj, em construção no Rio e também atrasada e muito mais cara do que o projetado; a do Maranhão, que já teve obras de terraplenagem por mais de R$ 1 bilhão e ainda não tem projeto final detalhado; e a do Ceará, no papel e com uma planta inicial considerada inviável pela atual diretoria da Petrobras.

Qual o problema? São obras difíceis, não é como construir, digamos, uma transposição do Rio São Francisco? Nada de mais, pessoal.

Vá de jatinho
Você quer passar férias de verão em João Pessoa. Bobeou, não comprou as passagens e, quando vai ver, estão muito caras. Então, você pensa: vou alugar um jatinho.

Passa um e-mail para um amigo que é do ramo e ele arranja um avião na hora.

Se o solicitante é um deputado federal do PT, André Vargas, vice-presidente da Câmara, e se o amigo é um doleiro que, agora, está preso, qual o problema?

Uma agência de turismo diz que pagou R$ 100 mil pelo aluguel do jatinho. O deputado diz que pagou a gasolina.

Ficou baratinho, não é mesmo?

A polícia, o bem e o mal

J.R. Guzzo
Revista VEJA

O Brasil vem se acostumando nos últimos anos à ideia doente de que mostrar simpatia diante da delinquência e hostilidade diante da polícia é uma questão de princípio

Pode ser uma coisa que muita gente acha desagradável ouvir, e por isso é melhor dizer logo, para não gastar o tempo do leitor com prosa sem recheio. E o seguinte: os brasileiros fariam um grande favor a si mesmos se tomassem a decisão de ficar, com o máximo de clareza e na frente de todo mundo, a favor da polícia. Isso mesmo: a favor da polícia, e da ideia de que cabe exclusivamente a ela. Numa democracia que queira continuar viva, o direito de usar a força bruta para manter a ordem, cumprir a lei e proteger o cidadão. Tem. também, a obrigação legal de fazer tudo isso. Algum problema? É exatamente assim em todos os regimes democráticos. Eis aí, na verdade, uma afirmação evidente em si mesma; pode ser entendida sem a menor dificuldade após um minuto de reflexão. Mas estamos no Brasil, e no Brasil o que parece ser um círculo, por exemplo, é muitas vezes considerado um triângulo, ou um quadrado, ou qualquer outra coisa que não seja o diabo do círculo.

No momento, justamente, passamos por um desses surtos de tumulto mental. Segundo o entendimento de boa parte daquilo que se considera o “Brasil pensante”, “civilizado” ou “moderno”, nosso grande problema não é o crime, mas a polícia. Parece bem esquisito pensar uma coisa dessas, num país com mais de 50 000 assassinatos por ano e índices de criminalidade que estão entre os piores do mundo. Onde esses pensadores estão vendo o problema de que tanto falam? Vai saber. Os verdadeiros mistérios desse mundo não são as coisas invisíveis, e sim as que se podem ver muito bem. No caso, o que se pode ver com a clareza do meio-dia é a fé automática de boas almas e mentes num mandamento que ouvem desde crianças: o criminoso brasileiro é sempre “vítima das desigualdades sociais”, e o policial está errado, por princípio, quando usa a força contra ele. Seu dever, como agente do Estado, seria tratar os bandidos como cidadãos que precisam de ajuda, para que tenham oportunidade de entender por que não deveriam matar, roubar, estuprar e assim por diante. Será que esse jeito de pensar é alguma tara que nos sobrou do regime militar, quando polícia e liberdade eram coisas opostas? De novo: não se sabe.

Praticamente todos os dias há exemplos claros desse curto-circuito geral na capacidade de separar o certo do errado. O cidadão é assaltado, brutalizado, ferido — e no dia seguinte lê, ouve ou vê mais uma reportagem denunciando a polícia por algum erro, real ou imaginário. Ainda há pouco, o país teve oportunidade de testemunhar políticos, intelectuais e “celebridades” em geral, com a colaboração maciça da mídia, colocando a polícia no banco dos réus por reprimir bandos de marginais que vão para a rua decididos, treinados e equipados para destruir. Segundo essas excelentes cabeças, a polícia cria um “clima de violência” e de “provocação” que “força os ativistas” a se defenderem “previamente”. Para isso, veem-se obrigados a incendiar bancas de jornal, destruir carros, quebrar vitrines de loja e por aí afora. Esse tipo de julgamento vai se tornando mais e mais aceitável no Brasil de hoje. Deve ser maior do que se pensa o número de pessoas que não querem ter a tranqüilidade de sua fé perturbada por fatos ou por conhecimentos: além disso, cabeças em que não há ideias são sempre as mais resistentes a deixar alguma ideia entrar nelas. Quanto à imprensa, rádio e TV, acreditem: o que mais gostam de fazer é falar as mesmas coisas, pois se sentem mais seguros quando um repete o outro e todos atiram nos mesmos alvos. Alguém já viu, por exemplo, algum jornalista arrasando o técnico do Olaria?

Não há sete lados nesse debate. Só há dois. Um que está a favor da lei e o outro que está contra — e aí o cidadão precisa dizer qual dos dois ele realmente apoia. O primeiro é a polícia. O segundo é o que leva o crime para a rua. A única pergunta relevante, num país que tem uma Constituição em vigor, é: de que lado você está? Não vale dizer “depende”, ou declarar-se a favor da ordem, desde que a tropa se comporte com altos níveis de civilidade, seja muito bem-educada, fale inglês e não bata nunca em ninguém, nem cause nenhum incômodo físico a quem esteja jogando coquetéis molotov na sua cara, ou sacando armas contra ela. A questão real é apoiar hoje a polícia brasileira que existe hoje — não dá para chamar a polícia da Dinamarca, por exemplo, para substituir a nossa, ou tirar a PM da rua e só chamá-la de volta daqui a alguns anos, quando estiver suficientemente treinada, preparada e capacitada a ser infalível. É mais do que sabido que a polícia do Brasil tem todos os vícios registrados no dicionário, de A a Z. Mas, da mesma maneira como não é possível fechar todos os hospitais públicos que funcionam mal, e só reabri-los quando forem uma maravilha, temos de conviver com a realidade que está aí. É indispensável transformá-la, mas não dá para exigir, já, uma corporação armada que precise ter virtudes superiores às nossas.

A polícia, por piores que sejam as condutas individuais dos seus agentes e seus níveis de competência, é uma peça essencial para manter a democracia no Brasil e impedir a tirania daqueles que só admitem as próprias razões. É a polícia, na verdade, o que a população brasileira tem hoje de mais concreto na garantia de seus direitos. Alguém pode citar alguma força mais eficaz para impedir que o Congresso, o STF e o próprio Palácio do Planalto sejam invadidos, metidos a saque e incendiados? A PM está do lado do bem — goste-se ou não disso. No mundo das realidades, é ela a principal defesa que o cidadão tem para proteger sua vida, sua integridade física, sua propriedade, sua liberdade de ir e vir, o direito à palavra e tudo o mais que a lei lhe assegura. A autoridade policial já erra o suficiente quando falha ao cumprir quaisquer dessas tarefas. Não faz nexo criticá-la nas ocasiões em que acerta.

Não serve a nenhum propósito útil, igualmente, dar conforto ao inimigo — o que nossa elite pensante, como dito anteriormente, faz o tempo todo. O inimigo não vai deixar de ser seu inimigo; você não ganhará sua admiração, nem será deixado em paz. É um desafio à lógica, neste sentido, achar que delinquentes teriam a licença de armar-se para assegurar seu direito de “legítima defesa” contra a repressão policial. A lei brasileira, com todas as letras, diz que só a polícia tem o direito de portar armas, e de utilizá-las no combate ao crime e na defesa do cidadão — salvo em casos excepcionais, que exigem licença específica. Dura lex sed lex, claro. Mas não é só uma questão legal. Trata-se de simples sensatez. No caso dos atos de protesto — qual o propósito de levar para a rua mochilas com bombas incendiárias, estiletes, barras de ferro e outros artefatos desenhados unicamente para machucar? Por que alguém precisaria de qualquer dessas coisas para expressar suas opiniões em praça pública?

O Brasil vem se acostumando nos últimos anos à ideia doente de que mostrar simpatia diante da delinquência e hostilidade diante da polícia é uma questão de princípio — uma atitude socialmente avançada e politicamente progressista. Quem não pensa assim é visto como um homem das cavernas, extremista e inimigo da democracia. Mas é o contrário: opor-se ao crime e apoiar a polícia é ficar a favor da liberdade. Está na moda denunciar, com apoio da caixa de amplificação da imprensa, delitos como a “pregação do ódio”, “apologia do crime” ou “incentivo ao racismo”. Esse mesmo tribunal, entretanto, aplaude como uma forma superior de cultura popular os rappers que pregam abertamente, em suas músicas, o assassinato de policiais. Há alguma coisa muito errada nisso aí. Está na hora de deixar claro: é falso acusar çle “histeria” e outros pecados mortais quem não acredita, simplesmente, que no Brasil de hoje existe algum assaltante que rouba e mata porque está com fome ou tem de sustentar sua família; o que há é gente que quer satisfazer todos os seus desejos sem ter de trabalhar ou de respeitar o direito alheio. Em Cuba, regime-modelo para nosso governo, são chamados de sociopatas e enterrados na cadeia mais próxima, sem que a “sociedade” seja chamada a “debater” coisa nenhuma.

Deus não precisou da ajuda dos brasileiros para criar o Brasil. Mas, como diria Santo Agostinho, só poderá nos salvar se tiver o nosso consentimento.

Alegria, alegria.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Houve época, acredite, em que os jornais tinham uma seção, ou Editoria, de Polícia, que tratava de crimes; e outra, separada, a várias páginas de distância, de Política, que tratava da luta pelo poder e da ação administrativa. Hoje tudo se misturou: as editorias de Política e Polícia tratam basicamente de crimes e denúncias (na área de Política, os danos ao patrimônio público são em geral bem maiores). Até a luta pelo poder virou uma disputa de dossiês, para provar que o adversário é mais ladrão que o aliado. Chato demais, cansativo demais.

Mas ainda há espaço para a alegria e o repousar d’alma. O governador baiano Jaques Wagner, PT, decretou feriado em todo o Estado sempre que a Seleção brasileira jogar durante a Copa, não importa em que local. E será feriado em Salvador quando lá houver jogo de Copa de qualquer país, mesmo sem Brasil. 

Será feriado em toda a Bahia no dia 12 de junho, quinta, pela estreia do Brasil, no estádio do Corinthians, em São Paulo. E sexta, 13, em Salvador, por Espanha x Holanda. E segunda, 16, em Salvador, por Alemanha x Portugal; e em toda a Bahia dia 17, terça, jogo do Brasil. Na quarta, enfim, trabalha-se; quinta, 19, é feriado de Corpus Christi; sexta, 20, França e Suíça jogam em Salvador. Segunda, 23, joga o Brasil. Terça, 24, é feriado de São João. Quarta, 25, jogam Bósnia e Irã, em Salvador. Quinta, sexta e segunda, 26, 27 e 30, pausa para trabalhar. Terça, 1º de julho, oitavas de final em Salvador; quarta, 2 de Julho, feriado da Independência da Bahia. O calendário de folgas das finais ainda não saiu. 

Da alegria aos pontapés
E voltemos ao país de sempre. Para reduzir a repercussão da CPI da Petrobras, a bancada governista tenta criar outra CPI, para investigar a formação de cartel no Metrô e trens metropolitanos de São Paulo - iniciado e mantido durante Governos tucanos. E, ao mesmo tempo, retardar ao máximo a CPI da Petrobras. 

Daqui a pouco começa a Copa e espera-se que as denúncias percam a força.

O lado bom
A CPI do Cartel é uma ótima iniciativa: permite iluminar um caso até agora inexplicavelmente obscuro. É impossível acreditar que um único secretário do Governo tucano de Mário Covas, Robson Marinho, seja o exclusivo beneficiário de cartel e de propinas. Marinho era chefe da Casa Civil de Covas e seu homem de confiança; mas, por poderoso que fosse, não conseguiria, sem cumplicidades diversas, montar todo o esquema que lhe atribuem. 

Uma CPI poderia levantar quais secretários e altos funcionários de Covas (e dos governos que o sucederam) que tinham entre suas funções verificar a lisura das ações oficiais e o comportamento dos responsáveis pelos grandes contratos do Estado, e investigar como agiram. 

Uma coisa é certa: se Robson Marinho é culpado, não é culpado sozinho.

Pasadena, outro lado
Há pauladas sem parar no Conselho da Petrobras, por ter aprovado a compra da refinaria de Pasadena, EUA, sem se inteirar de todos os detalhes do processo. Mas isso é consequência de um velho hábito dos vários Governos brasileiros: paga-se um salário baixo a ministros e altos funcionários (muito inferior ao que teriam na iniciativa privada) e se dá um complemento nomeando-os para conselhos de estatais. Um bom exemplo é a então chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff: em 2006/2007, ganhava $ 8.362 de salário no Governo. E R$ 8.700 como conselheira da Petrobras e da BR, por uma reunião de dois em dois meses. A ministra Miriam Belchior estava, nessa época, no Conselho da BR. Itaipu paga R$ 19 mil aos conselheiros. O ministro Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência, está no Conselho Fiscal do Sesc nacional. O jeton é de R$ 20 mil.

Mas isso não é coisa de PT, apenas. O secretário-geral do PPS, o pernambucano Roberto Freire, foi conselheiro da Sabesp, estatal paulista de água e esgotos, junto com o ex-senador tucano Antero Paes de Barros, de Mato Grosso. Uns R$ 12 mil mensais. Freire foi também conselheiro de duas empresas municipais paulistanas, Emurb e SPTuris. Deu para viver enquanto estava sem mandato.

Poética
Da coluna Diário do Poder (www.diariodopoder.com.br), assinada por Cláudio Humberto: "O escândalo da Petrobras, com o perdão de Carlos Drummond, sugere o poema: ‘Gabrielli desmente Graça Foster, que culpa Paulo Roberto Costa, que enganou Dilma, que safou Lula, que não sabia de nada’." 

O poema que Cláudio Humberto parafraseia em sua coluna é um dos mais famosos de Carlos Drummond de Andrade. Seu título: Quadrilha.

Mamãe sabe tudo
Zilda Tavera Cardozo, mãe do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, requereu a cidadania portuguesa (a que, como descendente de portugueses, tem direito). A sra. Cardozo, informa-se, fez o pedido "por razões pessoais" e não tem intenção de mudar-se. O ministro da Justiça não pediu dupla cidadania - mas, se sua mãe receber a nacionalidade portuguesa, ele automaticamente terá o mesmo direito. Nada ilegal ou incomum, nem aqui nem lá. Esposa e filhos do ex-presidente Lula já obtiveram a cidadania italiana, como a família do ex-ministro Antônio Palocci. 

E Henrique Pizzolato já há muitos anos tem dupla cidadania.

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

Mais um petista graúdo aparece perto do doleiro Youssef: André Vargas, vice-presidente da Câmara. E o Ministério da Saúde estava na pauta!

Reinaldo Azevedo


André Vargas, o lulista roxo,
 e a grosseira com Joaquim Barbosa em favor dos mensaleiros

O deputado André Vargas (PT-PR) é mesmo um homem de comportamento bastante heterodoxo. Vice-presidente da Câmara, ele também é vice-presidente do Congresso. É aquele senhor, vocês devem se lembrar, que, na abertura do ano legislativo, na presença do ministro Joaquim Barbosa, presidente do Supremo e convidado para a solenidade, ergueu o punho esquerdo, cerrado, um gesto que virou símbolo dos mensaleiros.

Em março do ano passado, reportagem da revista VEJA revelou que um militante petista chamado André Guimarães, especializado em montar perfis falsos nas redes sociais para atacar pessoas, era funcionário de Vargas. Esse tal Guimarães foi, por exemplo, o criador da RedePT13, uma organização virtual formada por gente que não existe e blogs apócrifos, usados para alvejar aqueles que são considerados inimigos do partido. O rapaz ganhou tal expertise no trabalho de difamação que, acreditem!, saía Brasil afora oferecendo o seu método para estados e prefeituras. O pacote oferecido, a depender do serviço, podia custar de R$ 2 mil a R$ 30 mil por mês.

André Guimarães e seu chefe: especialista em perfis falsos

Reportagem da Andréia Sadi na Folha desta terça informa que André Vargas pegou emprestado um avião com o doleiro Alberto Youssef, principal investigado da operação Lava-Jato, da Polícia Federal. Youssef, que está preso, é acusado de envolvimento com um esquema de lavagem de dinheiro que pode ter movimentado R$ 10 bilhões.

A viagem a João Pessoa, informa a Folha, “foi discutida em uma conversa entre os dois por um serviço de mensagem de texto, no dia 2 de janeiro, segundo documentos da investigação da PF”. Não fica claro se o avião pertence ao doleiro, que desejou ao deputado “boa viagem e boas férias”. Indagado pela Folha a respeito da conversa, adivinhem qual foi a resposta de Vargas ao jornal… Reproduzo: “Eu não sabia com quem eu estava me relacionando. Não tenho nenhuma relação com os crimes que ele eventualmente cometeu.” Não sabia, embora admita que conhecia o doleiro há 20 anos.

É a segunda vez que o nome do doleiro aparece ligado a um figurão do PT.  Reportagem da VEJA publicada no dia 23 de março informa que uma empresa chamada Labogen assinou com o Ministério da Saúde um contrato de R$ 150 milhões para o fornecimento de remédios, R$ 31 milhões desse dinheiro são destinados à compra de citrato de sildenafila, o princípio ativo do Viagra, substância usada no tratamento de uma doença grave: a hipertensão arterial pulmonar. Pois é… A PF descobriu que essa “empresa” não tem planta industrial e que os remédios seriam fabricados por outro laboratório, ao qual a Lobogen repassaria 40% do contrato. Ou por outra: segundo a Polícia, a turma pagaria R$ 60 milhões pelo produto e embolsaria nada menos de R$ 90 milhões. Uma beleza! 

E o que isso tem a ver com o doleiro? Segundo a polícia, a Lobogen, que tem capital de apenas R$ 28 mil, é um dos instrumentos de lavagem de dinheiro de Youssef. Só essa empresa teria remetido ilegalmente para o exterior US$ 37 milhões. O contrato foi celebrado pelo então ministro da Saúde, Alexandre Padilha, pré-candidato do PT ao governo de São Paulo.

Ah, sim: a polícia federal descobriu também outro diálogo entre André Vargas, que é um dos braços de Lula no PT, e o doleiro. Sobre avião? Não! Vargas diz ao doleiro que a reunião com o Gadhella foi “boa demais”. Num outro momento, cheio de intimidade, diz: “O Gadha vai nos ajudar”. Quem é Gadhelha, o Gadha? Conto pra vocês: é o secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do ministério da Saúde, um dos responsáveis pela compra de… remédios..

Não é lindo?

André Vargas e o PT 2.0

Elio Gaspari
O Globo

O comissário voou num jatinho de doleiro para um descanso porque, como se sabe, as passagens estão caras

Quem não se lembra do deputado André Vargas (PT-PR)? Quando o ex-governador gaúcho Olívio Dutra sugeriu que o deputado José Genoino renunciasse ao mandato, o companheiro foi-lhe à jugular: “Quando ele passou pelos problemas da CPI do Jogo do Bicho, teve a compreensão de todo mundo. (...) Ele está sendo pouco compreensivo. Ele já passou por muitos problemas, né?”

Falso. Olívio Dutra nunca assinou empréstimos fraudulentos, nunca foi acusado de envolvimento no caso do bicho e jamais foi condenado pela Justiça. Ao contrário, é uma das poucas lembranças da moralidade petista.

Quem não se lembra desse episódio talvez se recorde da cena em que o comissário Vargas, vice-presidente da Câmara, saudou seus companheiros com o punho cerrado, estando ao lado do presidente do Supremo Tribunal Federal. Parecia um Pantera Negra dos anos 60.

Vargas é um representante do PT 2.0. A repórter Andréia Sadi apanhou-o voando para as férias nas asas do doleiro Alberto Youssef, figurinha fácil de inquéritos policiais e poderoso intermediário na Petrobras.

Desde que os jatinhos tornaram-se símbolo de poder e conforto, hierarcas de todos os partidos recorrem a amigos para não voar com a patuleia.

Vargas, contudo, inovou na justificativa. Disse que cometeu uma “imprudência”. Teria sido imprudência se tivesse entrado por engano no avião fretado pelo doleiro, depois de ter sido chamado para embarcar num voo comercial. Não foi imprudência, mas onipotência.

Novo argumento: pediu o jatinho a Youssef porque os voos comerciais estão muito caros. Certo. A escumalha que vai para a rodoviária por esse mesmo motivo merece o desconforto porque não tem doleiro amigo.

O melhor momento do companheiro deu-se quando revelou que conhece Youssef há mais de 20 anos, mas não sabia com quem estava se relacionando. Seria então a única pessoa que não sabe a atividade de um amigo com quem se relaciona há mais de 20 anos. Youssef fornece jatinhos para amigos poderosos desde 2001. Anos depois, frequentou o noticiário do escândalo do Banestado, passou pela cadeia, refrescou-se colaborando com o Ministério Público, mas não se livrou de uma condenação.

Numa troca de mensagens com Youssef (cuja atividade comercial Vargas desconhecia), o companheiro tratou de um interesse da empresa Labogen junto ao comissário Carlos Gadelha, do Ministério da Saúde. Por coincidência, essa pequena empresa teria sido usada pelo doleiro para remeter US$ 37 milhões ao exterior.

O amigo de André Vargas não é um doleiro petista, mas um operador suprapartidário. Já cedeu jatinhos para gente do PFL e tem relações no PP, pelo menos com o ex-deputado José Janene, um dos ases do mensalão. A presença de Youssef em negócios da Petrobras, cobrando pedágios a fornecedores, é um sinal de que mudou de patamar. Ele tratava com o diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, a quem presenteou com uma Range Rover. Há um enorme cheiro de outro velho escândalo no ar. Quando por nada, pelas coincidências. Em 2005 descobriu-se que outro fornecedor da Petrobras presenteara Silvio Pereira, secretário-geral do PT, com uma Land Rover. André Vargas nunca diria uma palavra contra Silvinho, pois sabe quão compreensivo ele foi.

Uma reação previsível

O Estado de S.Paulo

"Em alguns momentos, expectativas, especulações, avaliações subjetivas e até mesmo interesses políticos podem obscurecer a visão objetiva dos fatos", declarou a presidente Dilma Rousseff no que poderia perfeitamente ser uma autocrítica sobre os rumos de seu governo. Mas não, é claro. Dilma falava de economia e promovia seu governo diante de banqueiros e investidores estrangeiros reunidos dias atrás na abertura do encontro anual do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), na Costa do Sauipe. A esse seleto público, sem mencionar o fato, mas também sem disfarçar a irritação com o recente rebaixamento da nota de crédito do Brasil pela Standard & Poor's (S&P), Dilma Rousseff reafirmou suas próprias expectativas, especulações, avaliações subjetivas e até mesmo interesses políticos. O resultado foi uma visão muito pouco objetiva dos fatos.

Em seu desabafo, a chefe do governo queixou-se do que classificou, numa clara tentativa de desqualificar a S&P, de "julgamento apressado" da situação econômica do País. Afirmou, no típico estilo ufanista do lulopetismo, que vai continuar "trabalhando duro" para manter o País no "rumo certo". E concluiu, triunfal: "Não vamos abdicar, em nenhum momento, do nosso compromisso fundamental com a solidez da economia e com a inclusão e o desenvolvimento social e ambiental do País". Ninguém se deu ao trabalho, certamente por delicadeza, de perguntar quando esse compromisso começará a ser, finalmente, cumprido.

A ênfase do pronunciamento da presidente da República revela que ela podia até pensar que sabia o que estava falando, mas parecia não saber exatamente com quem - uma plateia de homens de negócios estrangeiros. Garantiu que "o Brasil vai bem e irá melhor" e gabou-se de o governo petista ter transformado o Brasil na "sexta maior potência econômica do mundo". Banqueiros e investidores internacionais não se sensibilizam com retórica palanqueira, com o discurso vazio de quem, por se imaginar onisciente e infalível, se sente no direito de ser levado a sério por qualquer bobagem que proclame.

Todo o constrangedor episódio da reação do governo à decisão da S&P, na verdade, deve-se ao fato de a elite do PT só pensar nas eleições de outubro. Dilma, desde o primeiro minuto, demonstrou enorme irritação, como se uma agência de rating só existisse para apoquentá-la. Naquele mesmo instante exigiu do ministro da Fazenda uma "resposta dura" ao que certamente considerou uma ofensa pessoal. Mandou Guido Mantega denunciar a "inconsistência" do longo e circunstanciado parecer da agência - cujas advertências e conclusões não divergem das que vêm fazendo sérias e insuspeitas entidades nacionais, entre elas o Banco Central.

A orquestrada reação oficial foi além das considerações técnicas de natureza econômica e fiscal. Habitual porta-voz do Palácio do Planalto em situações de confronto, coube ao ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, atribuir a "interesses políticos" a atitude da S&P, chamando a atenção para a "coincidência" entre as críticas feitas à política econômica pelo provável candidato do PSDB à Presidência, o senador Aécio Neves, e os termos do parecer da agência: "Eles vieram aqui de prato feito, já com a opinião formada. E o Aécio está falando que já era esperada essa redução da nota do Brasil. É estranha essa coincidência de discurso".

Por sua vez, o secretário-geral da Presidência, ministro Gilberto Carvalho, encarregou-se de vasculhar o passado da S&P para descobrir que se trata de uma agência que "mal conhece o País". Mas preferiu omitir o fato de que foi a própria S&P a primeira agência a conferir ao Brasil, em abril de 2008, o então celebradíssimo grau de investimento, agora rebaixado.

Essa reação comandada pela presidente Dilma, coerente com a tática consagrada por Lula de que a melhor defesa é sempre o ataque, torna-se ainda mais desarrazoada ao ser comparada com a serenidade e a racionalidade com que o mercado - tão ou mais interessado no assunto que o governo - encarou a questão. Mas não se pode esperar das pessoas mais do que elas são capazes de dar.

De pedras e cobras

Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

O governo vai de novo enfiando os pés pelas mãos na tentativa de administrar politicamente um problema. No caso, a CPI da Petrobrás.

Na semana passada, deu de graça para a oposição a vitória no primeiro lance. Sem número suficiente para conseguir as assinaturas necessárias, a minoria chegou lá nas asas do descompasso da articulação política do Palácio do Planalto, que ainda não percebeu que os tempos são outros.

O governo quis aplicar agora o mesmo truque que esvaziou a CPI sobre os negócios de Carlos Cachoeira, em 2012: ampliar as investigações de modo a não se investigar nada.

A ideia seria incluir na pauta da comissão da Petrobrás os casos do cartel dos trens do Metrô de São Paulo e irregularidades no Porto de Suape, em Pernambuco.

Manobra primária. Só dá certo quando o adversário está de boa vontade e o exército aliado, unido e fiel. Não é o que acontece. O governo não levou em consideração a evidência de que nos últimos dois anos o cenário mudou. Nada mais é como antes.

A começar pelo fato de que existem dois candidatos de oposição à Presidência da República; ambos são políticos experientes, todos os dois com controle de votos dentro do Congresso. Governador duas vezes, presidente da Câmara uma vez, deputado federal quatro vezes, Aécio Neves é senador e presidente do PSDB. Governador duas vezes, deputado federal três vezes, Eduardo Campos é presidente do PSB. Os dois aprenderam a fazer política com os avôs, Tancredo Neves e Miguel Arraes.

Atuam em consonância na medida e no limite dos respectivos interesses, com um ponto de convergência: atrapalhar a vida da presidente Dilma Rousseff, do ex-presidente Lula e de quem mais represente o projeto de poder do PT.

Com esse objetivo em mente e a possibilidade de uma CPI como a da Petrobrás nas mãos para servir como instrumento de agitação eleitoral (sim, é disso que se trata, não obstante haja hordas de esqueletos a serem tirados dos armários) Aécio e Campos não se intimidariam diante de tão tosca ameaça de chantagem.

Os governistas querem investigar o Metrô de São Paulo e o Porto de Pernambuco? Expliquem porque estavam quietos até agora diante desses episódios e organizem comissões de inquérito específicas. Com outras palavras, foi o que os dois responderam. Inclusive porque era a única reação possível. E previsível.

Como se já não bastasse a entrada em cena de uma oposição interessada e empenhada em roubar a cena, o governo encontra outros obstáculos para desmanchar no ar comissões de inquérito.

Em 2012 não havia, mas agora há o acentuado desapego - para dizer de maneira suave - dos parlamentares governistas pelo dever de compromisso em relação à presidente da República. O desagrado com ela é pessoal. Com o PT a questão é política. Juntas, as duas motivações não formam um ambiente amigável.

Além disso, há a eleição. Vale para a oposição e para a situação. Nenhum senador que seja candidato a governador, por exemplo, vai optar por fazer a vontade do Planalto se ficar a favor da CPI lhe rende pontos com o eleitorado. A mesma conta devem fazer aqueles deputados que há meses reclamam do favorecimento do Planalto em relação aos colegas petistas em suas bases.

Portanto, não é preciso desenhar, está suficientemente explicada a diferença do pano de fundo entre a CPI da Petrobrás e aquele arremedo de investigação de dois anos atrás.

Isso não quer dizer que o governo não consiga seu objetivo. Significa que será mais difícil, custará mais caro e mostrará a uma governante refratária ao diálogo político que, uma vez aceitas as regras do jogo, é preciso jogar.

Quando foi buscar apoio dos partidos para se eleger, Dilma Rousseff sabia dos termos do contrato. Nunca propôs uma revisão às claras, embora tivesse força no início para isso. Agora enfrenta dois adversários que conhecem mais que ela os meandros dos caminhos e a fazem pular miudinho entre as pedras sob as quais se escondem as cobras.

Após nadar de braçada, Vargas virou afogado

Josias de Souza


Vice-presidente da Câmara, André Vargas (PT-PR) sempre nadou de braçada. É do tipo que fala duas vezes antes de pensar. Esculachou as sentenças do mensalão, debochou de Joaquim Barbosa, tachou de ‘inábil’ o staff político de Dilma Rousseff… Fez e aconteceu. Quando todos já pareciam convencidos de que o deputado nascera para nadador, a Polícia Federal informa que Vargas pode ser um afogado.

A repórter Andréia Sadi apalpou documentos da Operação Lava a Jato. Lendo-os, descobriu que o companheiro Vargas tomou emprestado um avião. Usou-o nas férias de janeiro, para viajar à capital paraibana, João Pessoa. Providenciou a aeronave o doleiro Alberto Youssef, preso sob a suspeita de lavar R$ 10 bilhões em verbas sujas.

Procurado, Vargas soou desconexo. Primeiro, disse que conhece Youssef há 20 anos. Depois, insinuou ter convivido por duas décadas com um estranho. “Eu não sabia com quem eu estava me relacionando. Não tenho nenhuma relação com os crimes que ele eventualmente cometeu.”

Vargas pede compreensão. A PF suspeita que seu caso pode ser de interrogatório. O deputado chama de “imprudência” o uso do avião. A papelada da PF informa que pode ser mais do que isso. O deputado aparece no inquérito como suspeito de agenciar interesses privados do doleiro no Ministério da Saúde.

Vargas nega que tenha cometido malfeitos. Resta saber se a plateia lhe dará ouvidos. No momento, o principal problema do brasileiro é que ele é incapaz de reconhecer seriedade em certos homens públicos. E esses são incapazes de demonstrá-la. Nada, Vargas, nada.

O preço do despreparo

Tribuna da Imprensa
Luiz Tito, O Tempo

A presidente Dilma Roussef viu firmar-se nas últimas semanas um quadro de intolerância e resistência ao seu governo que tornou mais forte a preocupação do PT e de seus aliados em relação ao seu estilo de relacionar-se com a classe política e sua base de apoio.

O conflito – que começou na relação com o líder na Câmara, deputado Eduardo Cunha – ganhou força dentro do PMDB e trouxe para o centro da briga os demais partidos, ávidos em rechear suas reservas para enfrentarem com mais conforto a disputa de outubro. A reeleição de Dilma, a renovação da Câmara, de um terço do Senado, das assembleias legislativas e a escolha de governadores norteiam os sentidos das conversas.

Não há divergências programáticas, não há disputas ideológicas em jogo nem questões de princípio: há interesses eleitoreiros e materiais, cargos, poder, grana mesmo, e somente. Para flexibilizar o jogo, os núcleos de resistência ameaçaram com a abertura de CPIs e sinalizaram com investigações sobre a Petrobras.

Dilma e seus assessores mediram mal o tamanho do braço de seus contendores, deram de ombro e a oposição aproveitou-se da janela aberta para tornar públicas mutretas mil, denúncias de superfaturamento, favorecimentos a grupos, desperdício, enriquecimento ilícito, corrupção, práticas que há muito tempo o Código Penal define como formação de bando ou quadrilha.

DESGASTES
Aos desgastes desse episódio somaram-se maus resultados dos números da economia, que ameaçam a gestão das contas públicas, os investimentos e o crédito internacional. E mais grave: a perspectiva de descontrole da inflação. Isso realmente assustou. Para atender os partidos e manter calada a base, o governo terá que fazer gastos, quase sempre invertendo opções e adiando prioridades essenciais; o jogo político quando praticado no espaço menor, no varejo, priorizando interesses de grupos às preocupações com a coletividade é caro e sem fim.

Infelizmente o governo da presidente Dilma Roussef está refém desse modelo e com o governo, refém também estamos todos e tudo que compõe a nação. Que lástima. A presidente que começou seu governo com imagem de durona, que consolidou apoios e aumentou sua popularidade quando teve a coragem de confrontar-se com estruturas políticas que infestavam a administração federal, que assumiu como essencial a faxina de órgãos e ministérios, que frequentou as listas de líderes mais importantes do mundo agora está de pires na mão, desnorteada, absolutamente entrincheirada, dependente da concessão que lhe oferecerão ou não um Congresso e partidos incapazes de construírem a própria imagem.

Dilma ficou vítima da própria arrogância, do despreparo de seu grupo em construir um governo alinhado ao mundo moderno, atento e sintonizado com as demandas internacionais políticas e econômicas. Atingida em pleno voo no momento em que se dirige para sua reeleição, a presidente terá que flexibilizar seu estilo para chegar a outubro com vigor para a disputa. E essa conta, infelizmente, pagaremos todos: com tributos, com trabalho, com as consequências de nossos atrasos. E pior, com a desesperança.  

Dilma já lançou 23 pacotes, mas PIB não reage

Exame.com
João Villaverde, Estadão Conteúdo

Depois do mais recente pacote, uma injeção de R$ 12 bilhões no setor elétrico, críticas do mercado ao "intervencionismo" do governo voltaram com força

AFP/Getty Images 
Dilma Rousseff: sócio da Tendências Consultoria criticou uma das principais medidas
 de estímulo à economia do governo Dilma - a desoneração da folha de pagamentos

Brasília - O governo Dilma Rousseff lançou 23 pacotes com medidas para estimular a economia brasileira, mas todo esse ativismo, até agora, não gerou uma taxa de crescimento do PIB próxima ao patamar de 3%.

Depois do mais recente pacote, que consistiu numa injeção de R$ 12 bilhões no setor elétrico para manter a conta de luz baixa e competitiva para as empresas e famílias, as críticas do mercado ao "intervencionismo" do governo voltaram com força.

Internamente, os próprios técnicos da equipe econômica admitem que houve um excesso de medidas, mas a visão do governo é clara: não fossem os estímulos fiscais e monetários concedidos nos últimos anos, o ritmo da economia brasileira seria ainda mais lento, e a inflação ainda mais alta.

No Palácio do Planalto, o entendimento é que as medidas estruturais, como a desoneração da folha de pagamentos, as concessões ao setor privado e a desvalorização da taxa de câmbio, ainda vão surtir efeito pleno sobre a atividade produtiva.

"A economia entrou em compasso de espera, porque as regras do jogo foram mudando rapidamente, tanto setorialmente, como no caso dos ramos automobilístico, da mineração e do setor elétrico, quanto no campo macro, com juros e câmbio subindo e descendo bruscamente em pouco tempo", disse Juan Jensen, sócio da Tendências Consultoria e responsável pela área de macroeconomia e política do grupo.

Para Jensen, o elevado número de pacotes com medidas para estimular a economia não só deixaram de cumprir seu objetivo principal, como acabaram por minar as expectativas com a atividade econômica.

"Todo remédio tem efeito colateral. O problema do governo é que ele atacou os efeitos colaterais dos seus remédios com novos medicamentos", disse o economista, que citou o caso do setor de combustíveis.

Para auxiliar a Petrobras, mas ao mesmo tempo evitar que um reajuste da gasolina chegasse ao consumidor, o governo zerou o principal tributo do setor, a Cide. Com isso, reduziu sua arrecadação, e deixou a gasolina mais competitiva que o etanol. Então, concedeu um pacote ao etanol, com redução do PIS/Cofins, o que reforçou a piora fiscal.

O sócio da Tendências Consultoria criticou uma das principais medidas de estímulo à economia do governo Dilma - a desoneração da folha de pagamentos, medida presente no primeiro dos 23 pacotes, o Plano Brasil Maior.

Segundo ele, cada emprego formal nos mais de 60 setores beneficiados pela medida custou R$ 140 mil aos cofres públicos. Como a média de salários nesses setores é de R$ 40 mil anuais, afirmou Jensen, o governo poderia simplesmente "transferir esse dinheiro diretamente ao trabalhador, criando uma 'bolsa salário', e ainda poupar R$ 2 bilhões por ano", disse ele.

"A medida puniu as empresas que tinham mecanizado sua produção, e tornou mais complexa a operação de pagamento de tributos. Diversas empresas nos avisaram disso", afirmou.

De acordo com Thais Marzola Zara, economista-chefe da Rosenberg Associados, os 23 pacotes de medidas indicam "um claro improviso" da política econômica.

"Defrontado com algum problema, o governo tirou alguma medida da cartola sem um plano de mais longo prazo, sem estratégia mais clara. O resultado foi uma redução da transparência e na previsibilidade da economia, o que gerou o efeito reverso sobre os agentes", disse Thais.

A economista da Rosenberg avalia que a justificativa apontada pelo governo, de que o cenário atual seria muito pior não fossem as várias intervenções feitas na economia, é falha. Thais citou o caso do setor elétrico, alvo de um dos principais pacotes da gestão Dilma, em setembro de 2012, que resultou na redução das tarifas ao consumidor em 2013 - corte mantido em 2014 por meio do 23º pacote, anunciado no mês passado.

"Não fosse a intervenção, a conta de luz estaria mais cara hoje, de fato, mas o consumo teria sido inferior também. Desta forma, menos usinas termelétricas seriam acionadas, e o preço da energia no mercado livre estaria mais baixo, e o quadro geral do setor muito mais saneado do que agora. O Tesouro, também, teria muito menos gastos para sustentar o setor", disse a especialista.

Pacotes:


1. Brasil Maior. Desoneração da folha de pagamentos de quatro setores; criação do programa Reintegra, de devolução imediata de crédito tributário à indústria exportadora (02/08/2011).

2. Liberação de crédito. Banco Central (BC) reduz de 16,5% para 11% o requerimento de capital mínimo para empréstimos ao consumo; corta de 20% para 15% o porcentual mínimo de pagamento das faturas de cartão de crédito (16/10/2011).

3. Desoneração. Governo reduz de 3% para 2,5% a alíquota do IOF que incide sobre o crédito para o consumidor; corta o IPI sobre eletrodomésticos da linha branca; zera o PIS/Cofins sobre massas (01/12/2011).

4. Ampliação do Brasil Maior. Desoneração da folha de pagamentos é ampliada de 4 para 15 setores; Tesouro Nacional repassa R$ 45 bilhões ao BNDES; forte redução das taxas de juros nas linhas PSI e Finame; e anúncio do novo regime automotivo (02/04/2012).

5. Medidas emergenciais para veículos. BC libera R$ 18 bilhões do depósito compulsório dos bancos para financiamento de carros novos; redução do IPI para indústria automotiva; nova redução do IOF que incide sobre o crédito ao consumidor, de 2,5% para 1,5% (21/05/2012).

6. Investimento dos Estados. BNDES cria linha especial de R$ 20 bilhões (Pró-Investe) para financiar os investimentos em infraestrutura dos Estados; elevação do limite dos Estados para contratação de PPPs, de 3% para 5% da receita corrente líquida (15/06/2012).

7. Dilma vai às compras. Governo anuncia programa de R$ 8,4 bilhões em compras públicas de máquinas, equipamentos, material escolar, retroescavadeiras, materiais hospitalares e fármacos; redução da TJLP, a taxa básica dos empréstimos do BNDES, de 6% para 5,5% (27/06/2012).

8. Concessões começam. Presidente Dilma Rousseff anuncia concessões de R$ 166 bilhões em 7,5 mil km de rodovias e 10 mil km de ferrovias (15/08/2012).

9. Pacote na TV. Dilma anuncia o corte nas tarifas de energia elétrica a partir de 2013 durante seu pronunciamento em cadeia nacional de TV e rádio para as festividades da Independência (06/09/2012).

10. Estímulos para construção civil. Governo anuncia estímulos para financiamento habitacional; inclui o setor de construção civil na desoneração da folha de pagamentos (03/12/2012).

11. Reforma no setor portuário. Nem o velório de Oscar Niemeyer diminui o ritmo do governo. Horas antes da cerimônia no Palácio do Planalto, Dilma anuncia ampla reforma nos portos do País (05/12/2012).

12. Linha do BNDES. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, anuncia a prorrogação do PSI por mais um ano, e leva o caixa dessa linha do BNDES a R$ 100 bilhões para 2013 (05/12/2012).

13. Novo modelo para aeroportos. Governo anuncia a concessão de três grandes terminais à iniciativa privada, um programa estatal de R$ 7,2 bilhões em investimentos em construção e reforma de 270 aeroportos regionais (20/12/2012).

14. Cesta básica pela TV. A presidente Dilma anuncia a desoneração total de tributos federais dos produtos da cesta básica, numa renúncia de R$ 5,5 bilhões em receitas já em 2013. A cesta também é ampliada de 13 para 16 produtos. Dilma também anuncia medidas para aumentar a defesa do consumidor (08/03/2013).

15. Inovação. Governo lança o nova Empresa, com linha especial de crédito subsidiado da ordem de
R$ 32,9 bilhões (entre Finep e BNDES) para financiar investimentos de seis setores em inovação, além da criação de uma nova empresa pública para aumentar a relação entre empresas e universidades, a Embrapii, e de um Observatório de Inovação (14/03/2013).

16. Mais desoneração da folha. Governo edita MP com a inclusão de novos 14 setores no benefício, além de desonerações para construção civil. Renúncia fiscal total de R$ 5,4 bilhões. (05/04/2013).

17. Setor químico. Governo reduz de 5,6% para 1% a alíquota do PIS/Cofins para os fabricantes de matérias-primas para a indústria química. Renúncia fiscal de R$ 1,1 bi em 2013 e R$ 1,7 bi em 2014. (23/04/2013).

18. Etanol. Governo zera o PIS/Cofins dos fabricantes de etanol e mantém o crédito presumido das usinas com o Fisco. Renúncia fiscal de R$ 1 bi em 2013 e R$ 1,4 bi em 2014. Além disso, há redução dos juros do BNDES, de 8,5% para 5,5%, para linha voltada a renovação dos canaviais. (23/04/2013).

19. Governo reforça caixa da Valec e do BNDES para aumentar o crédito e os investimentos em infraestrutura. (08/06/2013).

20. Governo anuncia novo marco regulatório da mineração, para aumentar arrecadação e estimular os investimentos no setor. (18/06/2013).

21. Dilma anuncia pacote de R$ 3 bilhões para melhorar contas das prefeituras e pede em troca mais investimentos (16/07/2013).

22. Governo altera regras do FGTS e amplia o teto para contrapartida de investimentos do PAC e do Minha Casa, Minha Vida. Objetivo era ampliar os investimentos no setor. (30/09/2013).

23. Governo baixa pacote de R$ 12 bilhões e anuncia leilão extraordinário de energia térmica para evitar que a conta de luz subisse em 2014, e assim travasse investimentos e aumentasse preços. (13/03/2014)

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
A falta de reação do PIB se deve unicamente a incompetência do governo atual de fazer a correta leitura dos problemas postos à sua frente. E poderia lançar outros tantos pacotes que nossas dificuldades tenderiam a permanecer os mesmos ou até piores. Quando se tenta ir contra o bom senso, ou até contra as lições do passado, tentando repetir modelos que não deram certo, o resultado é infalível: coleção de maus resultados.

Por que tamanha quantidade de medidas não produziram os resultados que se esperava?  Primeiro, por serem desconexas de um projeto maior de desenvolvimento que este governo nunca teve. Segundo, por atuar apenas no varejo,  buscando resultados imediatos, de curto prazo, que produzissem resultados apenas de apelo eleitoreiro. Terceiro, porque o governo pôs de lado as reformas estruturais básicas para estimular o crescimento. E quarto, por teimar em manter como ponto central de sua atuação, incentivos ao consumo, esquecendo que o modelo já esgotara e que, um consumo aquecido não atendido, ou provoca inflação ou deteriora o saldo da balança comercial,ou, como ocorreu, ambos.

Outro exemplo bem característico desta visão unicamente eleitoreira das ações do governo da senhora Rousseff está no tal pacote que reduziu as tarifas de energia. A redução pesou muito mais na rentabilidade das empresas tirando-lhes a capacidade de investir até em manutenção de linha,estações, e rede. O rombo, em apenas um ano, já passa dos R$ 20 bilhões que será empurrado para os consumidores, mas só depois das eleições que é para não comprometer o projeto eleitoreiro da presidente e seu partido. Outro exemplo foi a redução no grito das taxas de juros, sem que se criassem as condições para que esta redução se desse ao natural. O resultado foi o aumento da inflação, muitas vezes ultrapassando o teto da meta, e que obrigou o Banco Central a reverter o processo, repondo a taxa nos mesmos patamares de antes. 

Um governo se mede e se avalia pelos resultados que  produz, para o mal ou para ou para bem. Não são discursos, não é propaganda, não é ideologia que tornam um governo bom ou ruim.

O governo da senhora Rousseff arranhou os fundamentos econômicos do país em tempo integral. Tentou usar de feitiçaria (e ainda tenta) para iludir os incautos sobre a realidade das contas públicas. O diabo é que, nem Dilma pode reclamar de “herança maldita” depois de oitos anos de poder de seu padrinho e mentor, tampouco delegar a terceiros aquilo que era sua responsabilidade. 

É claro que seu primeiro ano, depois da farra de gastos cometida por Lula para elegê-la, impunha certa cautela, certo comedimento, para recuperar a saúde financeira do Tesouro. Porém, Dilma quis mostrar ao mundo que era capaz de reinventar a roda, que suas ideias tinham mais valia do que a dois outros, que suas teorias eram mais robustas do que as que o mundo aprendeu, a muito custo, a seguir.  Já no primeiro ano, quis dar aulas de economia e desenvolvimentismo para os europeus ainda se recuperando da crise de 2008.

A senhora Rousseff e seu ministro da Fazenda,  Guido Mantega, desperdiçaram mais de 3 anos em mandracarias inúteis, em previsões furadas, em promessas tolas e jamais cumpridas, quando deveriam ter, primeiro, feito a leitura correta das dificuldades que cercavam a economia brasileira, e segundo, assumido os próprios erros e desvios de rota. O resultado deste esforço estapafúrdio é o que vemos acima, 23 pacotes que demonstram a completa desorientação tanto da presidente quanto do senhor Mantega.

Há poucas semanas, Mantega passou a fazer prognósticos para os próximos dez anos. E, claro, todos eles muito vistosos, bastante otimistas em relação ao país, mas nenhum coerente com a realidade. A começar que, já em 2015, independente de quem seja eleito para a cadeira presidencial, deverá enfrentar uma enxurrada de pepinos: a necessidade de tapar o buraco criado pelo setor energético cujo rombo será coberto pelos consumidores; liberação dos preços dos combustíveis antes que oi represamento quebre de vez com a capacidade de investimentos da Petrobrás,  liberação  das tarifas de transporte público  sem que nada tenha sido feito para minorar sua péssima qualidade, além da conclusão das dezenas de obras não concluídas da Copa do Mundo. 

A este quadro, o próximo presidente terá que conviver com um monstruoso déficit comercial, déficit em conta corrente, crescente déficit da previdência, além da horrorosa qualidade dos serviços a pedirem socorro antes dos próximos protestos de rua. E, claro, isso será uma herança maldita que custará pelo menos meio mandato de sacrifícios seja ao governo seja para a sociedade, porque haverá uma inflação fora da meta que, se os gastos não forem controlados ao máximo desaguarão em juros mais elevados, dificultando ainda a atividade econômica, o que implicaria em mais anos de crescimento pífio. E é bom que alguém registre de forma bem nítida: esta má herança produzida pelo governo Dilma teve o aval do senhor Lula, patrono deste poste totalmente apagado.

Moral da história: todos os indicadores econômicos do pais estão deteriorados ou, se preferirem, negativados. A única tábua de salvação em que este governo se agarra é a tal taxa de desemprego. Contudo, foi preciso que o IBGE, no final de 2013, mostrasse a verdadeira face daquela estatística. Enquanto cerca de 24 milhões de brasileiros pertencem aos números oficiais, outros 61 milhões de pessoas, em plena idade ativa de trabalho, não estão empregadas nem procuram trabalho e, por conta disso, e somente disso, não entram na estatística oficial do desemprego. Portanto, da  força total de trabalho, 3/4 estão fora do mercado e das estatísticas. Apenas um quarto trabalha para sustentar o país todo. Não é a toa que  incide sobre este pequeno grupo uma carga tributária tão alta, com retorno praticamente zero. O país precisa modificar este quadro com urgência. É o nosso desafio  maior, ao lado da educação,  para os próximos anos. 

Anistia tem legitimidade política e histórica

Editorial
O Globo

Rever a Anistia seria trocar a normalização institucional, pela qual tanto o país lutou, por princípios duvidosos e casuísticos. Crimes cometidos após a promulgação, sim, deveriam ser punidos

A Lei da Anistia, de 1979, foi um passo crucial para repor o país no caminho da redemocratização, processo que demandaria mais alguns anos, àquela altura já com sinais de irreversibilidade, mas ainda travado por arestas que dificultavam a imediata normalização institucional do Brasil. A lei foi pactuada ao curso de delicada costura política, de um lado da mesa os generais, que permaneciam no comando do regime de 64, e, de outro, representantes do amplo arco de oposição ao governo dos militares. Trata-se, portanto, de convenção sólida, com lastro político e jurídico inquestionável, essencial para a pacificação de um país que procurava saídas para encerrar o longo período de desvio do estado democrático.

No entanto, a Lei de Anistia ainda é alvo de contestações, mesmo tendo ela explicitamente incorporado o pressuposto do perdão recíproco — tanto a agentes da ditadura envolvidos, nos porões do regime, em atos reprováveis como a guerrilheiros/terroristas, inclusive aqueles ligados a ações que resultaram em mortes. Isso, apesar de o princípio da reciprocidade ter sido referendado pelo Congresso, no ato legislativo de aprovação da lei, e também em posteriores decisões do Supremo Tribunal Federal, que a ratificou integralmente.

É discussão que não se sustenta, mas que, infelizmente, ainda alimenta tentativas de uma revisão tão impossível quanto indesejada. Inviável porque, além de estar lastreada por decisão soberana do Congresso e por pareceres incontestáveis do STF, a Lei de Anistia tem uma legitimidade política e histórica cristalina. Mesmo a referência que, recentemente, o Ministério Público fez a decisões da Corte Interamericana de Direitos Humanos como base para pugnar pela anulação de seus efeitos é insustentável. Pela palavra do próprio presidente daquela Corte, no fim do ano passado, decisões desse tribunal não podem se sobrepor a vereditos de uma Justiça nacional. E é indesejada porque o Brasil hoje é uma nação pacificada, em plena democracia. Em última análise, seria trocar a normalização institucional, pela qual tanto a sociedade brasileira lutou, por princípios tão duvidosos quanto casuísticos.

Neste sentido, o discurso de anteontem da presidente Dilma Rousseff, pregando o desarmamento político em relação a pactos e acordos políticos “que nos levaram à redemocratização”, precisa ser entendido e respaldado. A Lei de Anistia é perene. Dilma, vítima do regime militar, o qual combateu como militante de organização de oposição e pelo qual foi feita prisioneira, é a chefe do Executivo, eleita democraticamente, e tem legitimidade para reconhecer e valorizar os compromissos traduzidos na Constituição 1988.

Por outro lado, a anistia se restringe a ações anteriores a 79. A lei não pode ser estendida a crimes cometidos após sua promulgação. Esses, sim, deveriam ter os responsáveis punidos.

Lula enganou a si próprio ou a nós?

Aloísio de Toledo César (*)  
O Estado de S.Paulo

Está fresca na memória de milhões de brasileiros a exaltação que o ex-presidente Lula fazia da capacitação e da competência de sua candidata Dilma Rousseff, quando ela disputava as eleições de quatro anos atrás. Pelas palavras que usava em relação à futura sucessora, tinha-se a impressão de que seria mesmo uma pessoa preparada para a função.

Como ele a conhecia, e detinha prévia ciência de seu gênio ora voluntarioso, ora arrogante, bem como da enorme incapacidade administrativa que vem demonstrando, é forçoso concluir que houve comprometedor engano.

Com sua invejável erudição, o imortal padre Antônio Vieira costumava repetir que "os homens amam as coisas não como são, senão como as imaginam". No caso do ex-presidente Lula, com bastante boa vontade é possível concluir que talvez o engano não tenha sido proposital; ou possivelmente ele não sabia quem era Dilma Rousseff, cujas virtudes demonstrava apreciar. Assim, estaria a elogiar uma pessoa que ele pensava ser uma, quando, na verdade, era outra.

O mesmo padre Vieira dá o exemplo desses enganos que ocorrem na vida, lembrando a propósito o relatado com talento por Luiz de Camões, no conhecido soneto em que o pastor Jacó serviu a Labão, por sete anos, porque como prêmio pretendia sua filha Raquel, mas ao final deram-lhe a irmã dela, Lia. E o infeliz pastor concordou em servir mais sete anos para merecer Raquel, dizendo que ainda mais serviria "se não fora para tão longo amor tão curta a vida".

No caso de Dilma, não foram sete anos, mas já quase quatro - e nesse período ela conseguiu cometer repetidos erros grosseiros que a desmerecem, comprometem gradativamente sua administração e começam a influir nas avaliações de sua imagem pessoal e na de seu governo. Quem sabe para camuflar seu despreparo, ela acabou criando uma infinidade de ministérios, cujos ocupantes não serão lembrados a não ser com a ajuda do computador.

Não se viu surgir um único talento nessa equipe de políticos que lutaram tanto para obter o prêmio da nomeação. Mesmo que se filtre com boa vontade o trabalho desses assessores diretos da presidente da República, e se elimine a comparação que toda hora se faz com os cartolas do futebol, é forçoso concluir que nenhum deles alcançou o menor destaque ou notoriedade. Nem mesmo o nome deles será lembrado pela grande maioria de brasileiros.

Quando Lula estava no poder sempre se lhe dava o desconto pelos erros grosseiros, porque, afinal, ele vinha lá de baixo, numa linda carreira política jamais trilhada antes por outro brasileiro. Pouco erudito, muitas vezes tosco, outras vezes incapaz de perceber os próprios desacertos praticados, detinha, porém, a habilidade de fazer costuras políticas bem-sucedidas, como a de indicar e eleger um medíocre ministro da Educação para a Prefeitura de São Paulo (os resultados lamentáveis também desse engano são sentidos pelos paulistanos a toda hora).

Quando esteve no poder - e mesmo agora -, Lula tinha um grupo político que lhe era fiel e sobre o qual exercia efetiva liderança. A presidente Dilma, ao contrário, desastrada na gestão do País, chegou ao poder em função de uma luz emprestada e não teve a habilidade de construir a sua - por isso propaga a ideia de que está às escuras.

Talvez alguém diga que, apesar desse despreparo e de seu temperamento nada simpático, ela ainda tem chance de se reeleger presidente da República. Sim, tem mesmo. Desastrada para governar e para impulsionar o País ladeira acima, e não abaixo, Dilma Rousseff foi esperta o suficiente para manter o gigantesco curral eleitoral constituído por pessoas que recebem os benefícios sociais do governo.

Essas pessoas, de baixa escolaridade, não estão nem um pouco preocupadas com o escândalo do mensalão nem com o progressivo desmanche da Petrobrás, que foi durante décadas motivo de orgulho para os brasileiros. Essas pessoas, que ascenderam economicamente por causa da manutenção do valor da moeda nacional, estão preocupadas preferencialmente em ver o preço de uma nova televisão ou de uma geladeira, até mesmo de um veículo usado.

Não lhes faz diferença alguma se os escândalos de corrupção estouram a toda hora e se a imagem externa do Brasil despenca progressivamente. A verdade nada animadora é que esse curral eleitoral tem dono e nós todos sabemos em quem seus integrantes tenderão a votar na eleição para a Presidência da República. Eles se encontram na base da pirâmide social, constituem a grande maioria do eleitorado e são eles, portanto, que poderão decidir as eleições do fim do ano.

Sem nenhuma dúvida, isso incomoda, sobretudo porque se percebe claramente a tendência governamental de manter essa grande massa humana na condição de baixa escolaridade. Todos sabemos que a educação liberta - e por isso é muito melhor para o grupo que está no poder deixar tudo como está. Nada de querer dar mais educação a essas pessoas.

Suportar uma presidente trapalhona e malsucedida é castigo que este país não merece. Dizem os velhos políticos que a política é feita de fatos novos e, por isso, existe a expectativa de que de repente alguma coisa mude e desenhe a possibilidade de um revezamento de pessoas no poder, coisa saudável para a democracia e para a Nação brasileira.

A forma mais segura de garantir um futuro melhor seria proporcionar efetiva educação ao curral eleitoral de dona Dilma, libertando essas pessoas do castigo de ter de votar em alguém que não mostrou mesmo o necessário preparo para dirigir o País.

Curiosamente, curral eleitoral é capitulado como crime pela legislação eleitoral, mas mesmo assim é um fantasma que sempre nos assombra.

(*) Aloísio de Toledo César é desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo

Dilma e sua circunstância

Ruy Fabiano
Blog Noblat

Ortega y Gasset cunhou a máxima de que o homem não é um ser isolado: é ele e sua circunstância. E é como tal que tem de ser avaliado. Em política, isso é ainda mais verdadeiro. Nenhum líder fala e age apenas por si. Expressa sua circunstância.

Portanto, a presidente Dilma Rousseff não pode ser avaliada apenas como indivíduo, pessoalmente honesta e empenhada em acertar. Há a sua circunstância – e aí reside sua tragédia.

É ela – sua circunstância – que a obriga a comprometer seu patrimônio moral e pessoal, avalizando transações tenebrosas como a compra da refinaria de Pasadena, ora objeto de CPI, ou fazendo vista grossa aos “malfeitos” de sua caótica base parlamentar.

De um lado, o PT, com suas facções, empenhadas em eternizar-se no poder, fazendo caixa com dinheiro público, aparelhando o Estado. De outro, os aliados fisiológicos, PMDB à frente, indiferentes ao projeto de poder dessas facções, desde que lhes caiba um naco nutritivo do aparelho do Estado.

Dilma, a rigor, não simpatiza, nem é simpatizada por nenhuma dessas alas. É vista no PT como uma arrivista, já que não fez parte de sua gênese, oriunda que é do PDT brizolista. Não fosse o apadrinhamento de Lula e jamais chegaria aonde está. Furou a fila, o que, em política, custa caro, gera inimigos.

Com relação aos fisiológicos, teve sempre grandes dificuldades, pois tal convívio impõe negociações constantes, concessões, o que lhe contraria a índole autoritária de neófita em política. Experiência não se improvisa.

Daí as frequentes tensões com os aliados, que resultaram na recente dissidência do PMDB, liderada pelo líder na Câmara, Eduardo Cunha, personagem pelo qual Dilma nutre particular e notória aversão – que, diga-se, é recíproca.

A perda de apoio na base coincide com a difusão mais ampla dos escândalos da Petrobras, que pode desembocar numa CPI mista, desastrosa às suas pretensões reeletivas, para dizer o mínimo. O espírito autofágico da política induz parte dos aliados do PT – os que sonham com a volta de Lula – a torcer intimamente pelo colapso eleitoral da presidente.

Dilma, pois, está exposta ao fogo amigo, que frequentemente é mais impiedoso e destrutivo que o da oposição. Na melhor das hipóteses, a CPI joga ao lixo a imagem que lhe foi construída de gerentona; na pior, pode até lhe levar ao impeachment, o que, embora improvável, não é impossível. Sempre que se fala em CPI, tem-se em mente o axioma de que se sabe como começa, porém nunca como acaba.

Para agravar a circunstância da presidente, a economia vai mal. E economia, como se sabe, não é ciência exata. Reflete o ambiente psicossocial. Prova disso é que a queda da presidente nas pesquisas e a iminência da CPI da Petrobras, em vez de gerar pessimismo junto aos agentes econômicos, produziram o inverso. As ações da Petrobras, por exemplo, subiram.

Não há como dissociar essa mudança da expectativa que a crise criou de mudança a partir das eleições de outubro. Dilma deixou de ser vista como fatalidade eleitoral – e com ela a manutenção do status quo petista. E isso começa a ser celebrado em setores que até aqui deram sustentação pragmática ao petismo, sobretudo empresários do setor financeiro.

Como coroamento desse quadro, há o silêncio de Lula. A pergunta que não quer calar é: o que estará pensando disso tudo? É beneficiário da crise ou provável co-réu da CPI? Afinal, tudo se deu em seu governo. 2014 promete ser (já está sendo) um ano de muitas, muitas emoções.

Serviço público profissional: uma reforma política

Mailson Ferreira da Nóbrega
Revista VEJA

Já é hora de profissionalizar o serviço público, elegendo o mérito como critério único da escolha dos funcionários

A recente crise entre o governo e o PMDB tem a ver, era última análise, com espaço de poder e cobiça por empregos públicos

Não desvalorizo a política partidária, mas creio que a demanda por melhor tratamento na indicação de ministros reflete o interesse do PMDB por nomeações para cargos que carreiam votos e financiamento de campanhas. Na área federal, mais de 20 mil deles são preenchidos por indicação política.

O primeiro serviço público profissional surgiu na China. A dinastia Qin (221-207 a.C.) selecionava funcionários à base de rigorosos concursos públicos, que depois serviam também para promoções. A dinastia Song (960-1279) proibiu altos funcionários de se relacionarem com parentes; membros da família real não podiam assumir cargos públicos. A dinastia Ming (1368-1644) estabeleceu a rotatividade de cargos a cada três anos. A ascensão da China muito deveu a esse profissionalismo, que viria a ser abolido em 1905, na dinastia Qing, em um dos momentos finais do longo declínio do país.

No Ocidente, as ideias de profissionalização apareceram na Revolução Francesa (1789), mas o paradigma do serviço público moderno nasceu na Inglaterra vitoriana. Escândalos de incompetência, fisiologismo e corrupção deram origem à comissão Northcote-Trevelyan (1853), cujo relatório foi a base das mudanças. Entre as distorções identificadas estava a presença de analfabetos em empregos públicos. A comissão recomendou a criação do serviço público profissional, politicamente neutro e escolhido por mérito. Outras propostas foram adotadas ao longo do tempo, incluindo o estabelecimento, em 1855, de um órgão independente, ainda existente, para supervisionar a seleção de funcionários. Os servidores ficaram impedidos de concorrer a cargos eletivos. Dirigentes passaram a ser nomeados com o auxílio de consultorias independentes (headhunters). Hoje, pouco mais de 100 cargos dependem de indicação política, incluídos os ministros. A recente designação do novo presidente do Banco da Inglaterra (o banco central) foi precedida da publicação de edital para atrair candidatos. O escolhido foi um canadense.

Nossas origens são outras. Herdamos tradições de Portugal patrimonialista, cujo serviço público era composto de fidalgos. Como disse Raymundo Faoro (1925-2003), comerciantes buscavam ser funcionários para se tornar nobres e obter benefícios pessoais. Aqui não foi diferente, segundo João Francisco Lisboa (1812-1863), para quem “indivíduos há que abrem mão de suas profissões, deixam ao amparo suas fazendas, desleixam o seu comércio, e se plantam na capital anos inteiros à espera de um emprego público”. Para Joaquim Nabuco (1849-1910), “o funcionalismo será a profissão nobre e a vocação de todos. Tomem-se, ao acaso, vinte ou trinta brasileiros em qualquer lugar onde se reúna a nossa sociedade mais culta: todos eles ou foram ou são. ou hão de ser, empregados públicos; se não eles, seus filhos”.

No livro “Caráter e Liderança” (Mameluco, 2013), Luiz Felipe D’Ávila informa que dom Pedro II (1825-1891) defendia “a institucionalização da meritocracia no serviço público”, mas o primeiro esforço de modernização esperou até 1938, quando se criou o Departamento Administrativo do Serviço Público (Dasp) com a função de melhorar a máquina pública, assessorar o presidente da República e elaborar a proposta orçamentária. Muito se evoluiu desde então, mas o vasto número de cargos preenchidos por indicação política só aumentou.

Já é hora de profissionalizar o serviço público, elegendo o mérito como critério único da escolha dos funcionários. Dirigentes de órgãos e entidades públicos, inclusive empresas estatais, deveriam ser nomeados com base em métodos competitivos. A melhoria da eficiência dos serviços públicos, a redução do potencial de corrupção e a moralização dos costumes seriam as consequências mais relevantes dessa verdadeira revolução, que equivaleria a uma ampla reforma política.

Tudo isso contribuiria para a eficácia das políticas de governo, e estas reforçariam a estabilidade e a legitimidade da democracia brasileira. Espera-se surgir um candidato presidencial que empunhe essa bandeira.

PeTerização da Petrobras

 Paulo Brossard
 Zero Hora

O que o partido da presidente está fazendo na Petrobras enseja a criação de outro neologismo: a PeTerização da empresa

Não é necessário ser douto para compreender a enormidade do que foi sendo feito com a Petrobras

Em 2005 a empresa belga Astra Oil adquiriu a refinaria de Pasadena, no Texas, por US$ 42,5 milhões. No ano seguinte _ 2006 _, o Conselho de Administração da Petrobras, então presidido pela atual presidente da República, Dilma Rousseff, autorizou a aquisição de 50% das ações da refinaria por US$ 360 milhões. Adquirindo a metade das ações, granjeou também um sócio, que conservava a outra metade e com o qual, parece, não teria especiais relações. Em 2007 a Petrobras recebeu de sua consocia oferta dos restantes 50%, sem obter a anuência do Conselho da empresa, o que levou a belga a exigir da Petrobras, nos termos contratuais, a compra das ações restantes.

A Petrobras se envolveu em vários litígios sem êxito, e em 2010 a Justiça Federal do Texas lhe determinou pagasse os restantes 50% por US$ 639 milhões.

Repetindo, em 2012 pagou a empresa Astra pelos 50% das ações a importância US$ 820,5 milhões, somados honorários e despesas. Quer dizer, a refinaria que em 2005 fora adquirida pela empresa belga por U$S 42 milhões, já custava à Petrobras US$ 820,5 milhões. Ao cabo, desembolsara mais de US$ 1 bilhão, cerca de US$ 1,2 bilhão.

Esse o resumo do resumo de uma refinaria por fim reconhecida como obsoleta, que nunca chegara a funcionar, a estória de uma entidade que haveria de transformar-se em monumental e malcheiroso elefante branco.

Isto posto, dizendo o que é notório, estava armado com pompa e circunstância o maior dos escândalos administrativos e políticos da empresa que chegou a ser em ordem de grandeza a 12ª em termos mundiais, caindo para o 120º lugar em cinco anos, segundo o jornal “Financial Times”. Esse dado completa de uma forma visível o perfil daquilo que se poderia chamar de forma melíflua uma insensatez; em verdade, a meu juízo, talvez não fosse o maior escândalo, mas adquiriu tais dimensões que, certo ou erradamente, veio a ser proclamado como o maior. Nem foi apenas uma sandice.

Esses números, desidratados, mas objetivos, são de tal significação que não é necessário ser douto para compreender a enormidade do que foi sendo feito com a Petrobras.

Se eu tivesse de definir o quadro instaurado poderia dizer que o chão está resvaladio, mas prefiro dizer movediço. Basta registrar que a senhora presidente da República, que é candidata à reeleição, em dias, caiu sete pontos em sua popularidade. Fato a assinalar, se não estou em erro, resulta na progressiva inserção do partido na administração, não apenas em sua vida administrativa, mas em suas entranhas, com a tendência de chegar à intimidade da mancebia; o fenômeno não é bom, nem para a administração nem para o partido, cuja evolução natural no plano dos partidos, sempre foi em outro sentido. A verdade é que, hoje, a questão da refinaria se confunde com a Petrobras, e esta se identifica com aquela. Aliás, esse dado não é de ser estranhado, uma vez que a refinaria desde seu nascimento está ligada à pessoa, nem mais nem menos, que exerce a presidência da República, sem ela a refinaria não teria nascido, sem ela não teria continuado a viver, ainda que viver morrendo e, sem ela, talvez a Petrobras poderia continuar a ser a 12ª empresa no âmbito mundial.

No período eleitoral a então candidata ameaçava que seu adversário iria privatizar a Petrobras. Seus companheiros de partido, alguns dos quais hoje estão na penitenciária, criaram o pejorativo de privatização na palavra privataria.

Pois bem, o que o partido da presidente está fazendo na Petrobras enseja a criação de outro neologismo: a PeTerização da empresa, que já foi orgulho nacional.

O fator Argentina

Celso Ming  
O Estado de S.Paulo

No primeiro trimestre do ano, as exportações do Brasil para a Argentina caíram 14,4% em relação ao primeiro trimestre de 2013 (veja o gráfico). Como pesam cerca de 8% sobre as vendas externas totais, essa retração tem impacto significativo na balança comercial brasileira, especialmente para o setor de veículos.

A Argentina passa por uma forte crise cambial. Não tem moeda conversível em volume suficiente para pagar todas as contas. Daí as travas sobre as importações do mundo inteiro, e não só as do Brasil, apesar dos tratados de livre-comércio e de união aduaneira que amarram os dois países.

Após meses em estudo, o governo Dilma acabou desistindo da proposta de liquidar em moeda nacional as contas com a Argentina porque esse acerto deixaria um mico enorme no Banco Central, pois o Brasil é superavitário nas relações comerciais com o vizinho: depois das compensações, sempre sobra um tanto a ser pago pela Argentina. Em 2013, o superávit foi de US$ 3,15 bilhões.

Nas últimas semanas, o Ministério do Desenvolvimento anunciou uma linha de crédito a ser aberta pelo setor privado e candidamente dizia acreditar na eficácia da gambiarra. É que o problema de fundo continua. Nem o Tesouro nem o Banco Central da Argentina estão dispostos a dar garantias para o pagamento futuro dessa dívida, nem tampouco esses avais podem ser dados pelo Brasil.

O ex-secretário da Indústria da Argentina no governo Duhalde Dante Sica, hoje consultor, não vê futuro em soluções desse tipo. Isso implica emperramento das exportações do Brasil para a Argentina até que as condições se normalizem, sabe-se lá quando.

Dante Sica não acredita que as atuais negociações de abertura comercial entre Mercosul e União Europeia tenham sucesso. Para ele, o máximo que conseguirão será certa encenação para manter as aparências e adiar indefinidamente um acordo. "Não há condições na economia da Argentina para avanços significativos de um acordo comercial", diz.

Não dá para dizer que as coisas por lá estejam inteiramente paradas. O governo de Cristina Kirchner começou a reduzir subsídios, especialmente sobre as tarifas da água e do gás. Também encaminhou um acordo com a espanhola Repsol, que perdeu por decreto o controle da petroleira argentina YPF. E começa a negociar um acordo com o Clube de Paris, que cuida das dívidas entre governos.

O ajuste está sendo descarregado quase inteiramente sobre o setor privado. O rombo das contas externas exige cobertura das reservas e o das contas públicas, das emissões de moeda. Em dezembro, as reservas estavam a US$ 30,6 bilhões; hoje, estão a US$ 27,2 bilhões; e a base monetária cresce a 18% ao ano. É o que explica que a inflação esteja em 33% ao ano pelos cálculos da Consultoria Abeceb, que Dante Sica dirige. Essa inflação põe em risco a relativa estabilidade cambial obtida a partir da última semana de janeiro, em torno de 8 pesos por dólar.

Normalmente, esse tipo de distribuição de contas a pagar pela população cobra alto custo eleitoral. Aparentemente, a presidente Cristina já desistiu de mais um mandato e trata de empurrar a administração econômica até o final de 2015.