terça-feira, abril 08, 2014

A incompetência

Arnaldo Jabor  
O Estado de S.Paulo

Nunca vi o Brasil tão esculhambado como hoje. Perdoem a palavra grosseira, mas não há outra para nos descrever. Já vi muito caos no País, desde o suicídio de Getúlio até o porre do Jânio Quadros largando o poder, vi a morte de Tancredo na hora de tomar posse, vi o País entregue ao Sarney, amante dos militares. Vi o fracasso do Plano Cruzado, vi o escândalo do governo Collor, como uma maquete suja de nossos erros tradicionais, já vi a inflação a 80% num só mês, vi coisas que sempre nos deram a sensação fatalista de que a vaca iria docemente para o brejo, de que o Brasil "sempre" seria um país do futuro. Eu já senti aquele vento mórbido do atraso, o miasma que nos acompanha desde a Colônia, mas nunca vi o país assim. Parece uma calamidade pública sem bombeiros, parece um terremoto ignorado. Por que será? É óbvio que não é apenas o maluco governo do PT, mas também as marolas que ele espalha, os nós frouxos de uma política inédita no País que nem atam nem desatam.

Agora, tudo vai muito além da tradicional incompetência que sempre tivemos: linear, a boa e velha incompetência pública de sempre. Dá até saudades. A incompetência de agora é ramificada, "risômica", em teia, destrutiva, uma constelação de erros óbvios que eu nunca tinha visto.

No dia a dia só vemos fracassos, obras que não terminam, maquiagem de números, roubalheiras infinitas e danosas, vemos o adiamento de tudo por causa das eleições. Tudo vai explodir em 2015, o ano da verdade feia de ver. O mal que essa gente faz ao País talvez demore muitos anos pra se reverter.

Mas, aqui, não quero falar da corrupção, burocracia, clientelismo e outras mazelas. Como é o "rationale" que usam para justificar o desmembramento do País que estão a executar?

Quais são as principais neuroses da velha cabeça da esquerda, suas doenças infantis, etc.?

Interessa ver o mapa do inconsciente petista. Interessa ver a incompetência dessa gente que conheço desde a adolescência, quando participava das infindáveis reuniões políticas para "mudar" o País - muito cigarro e a sensação de viver uma "missão profunda". As discussões sem-fim: "Questão de ordem, companheiro!", "o companheiro está numa posição revisionista" ou "a companheira está sendo sectária em não querer dar para mim".

Os fins eram magníficos, os diagnósticos tinham pontos corretos, mas, no fim das madrugadas, alguém perguntava: "O que fazer?" (como queria Lenin...).

Aí, todo mundo embatucava. Ninguém sabia nada. E tentavam agir, mas só apareciam erros desastrosos e a incapacidade de organização concreta; mas, tudo era desculpado pela arrogância de quem se achava na "linha justa". O povão era usado para a "boa" consciência, o povão era o salvo-conduto para a alma pacificada, sem culpas - o povão era nossa salvação.

Pensávamos: "Um dia eles serão 'homens totais', 'sujeitos da história', enquanto os mendigos vomitavam no meio-fio - os que a gente chamava com desprezo de "lumpens".

O ponto de partida da incompetência é se sentir competente. A incompetência atual é competente como nunca. O homem "bom" do partido não precisa estudar nem Marx nem nada, apenas derramar sua "missão" para o povo. Administrar é coisa de burguês, de capitalista. E dá trabalho, é chato pacas examinar estatística, analisar contratos da PTbrás, tarefas menores, indignas de líderes da utopia.

Para eles, o Estado é o pai de tudo. Logo, o dinheiro público é deles, a empresa pública é deles, roubar é "desapropriar" a grana da burguesia.

Os petistas se sentem "bons". Eles são o 'Bem' e o resto é ou massa de manobra, a massa atrasada, ou "elementos neoliberais da direita". Ser o Bem te absolve; é irresistível entrar para um partido assim. É prato feito para os narcisistas da pesada ou psicopatas - nada melhor do que um partido do "bem" para a arrogância descarada e legitimação de qualquer roubo e a mentira.

Outra doença infantil (ou senil) é a permanência de (não riam...) de Hegel nas mentes da "esquerda". O filósofo que formou Marx continua nos corações petistas. Por esse pensamento, qualquer erro é justificável por ser uma "contradição negativa", ou seja, qualquer cagada (perdão...) é o passo inicial para um acerto que virá, um dia.

Como escreveu o filósofo Carlos Roberto Cirne Lima em Depois de Hegel, de 2006, Hegel tem a tendência muito forte de dizer que tudo que "é", a rigor, tinha que ser. Hegel diz que para entender a história é preciso afastar a contingência. Hegel vai provocar o grande erro de Marx de que a história é inexorável e que, portanto, a revolução comunista é um momento da história, que necessariamente vai acontecer. Esse é o primeiro grande erro de Hegel. E Cirne Lima reclama: "Nenhum lógico lê nosso trabalho porque ele trata de Hegel, e nenhum hegeliano o lê porque é lógica".

Assim, se organiza a burrice, a estupidez (notem que falo do "id" petista), a negação de qualquer facticidade, a adoção só de ideias gerais, dedutivas, o desejo de fazer o mundo caber num ideário superado ('aufheben'). Daí a desconfiança no mercado, nos empreendedores, contra todos que trabalham indutivamente, com o mistério das coisas singulares no centro da sociedade civil que eles veem como uma anomalia atrapalhando o Estado. Os esquerdistas se sentem parte de uma dinastia desde Stalin - as palavras e conceitos ainda são usados. E, como no tempo do Grande Irmão, há o desejo de apagamento do sujeito ou seja, nem a morte tem importância para sujeitos que viram objetos. Vide Coreia. Até o assassinato pode ser absolvido como uma necessidade histórica.

Um dia, um companheiro (que morreu há pouco...) me disse: "Não tema a morte. Marx disse que somos seres sociais. O indivíduo é uma ilusão. Para o comunista, a morte não existe". E eu sonhei com a vida eterna.

Essas são algumas das doenças mentais que estão levando o Brasil para um pântano institucional. Temos que nos salvar desse determinismo suicida.

Se houver a vitória de Dilma ou a volta de Lula estaremos, como diria Hegel, fo&#dos - numa 'contradição negativa' que vai durar décadas para ser "superada".

Para baixo do tapete

Editorial
Folha de São Paulo

A prática é corriqueira, embora contrária aos interesses públicos de médio e longo prazo. Governantes aptos a disputar a reeleição, assim que divisam a campanha no horizonte, começam a deixar para depois ajustes impopulares, mesmo que necessários.

A presidente Dilma Rousseff antecipou tal rotina. Pesquisas de intenção de voto só agora indicam um cenário conturbado para a petista, mas faz tempo que seu governo adota medidas populistas no comando da economia.

O resultado será visto no tamanho das ações corretivas a serem tomadas a partir de 2015. Os problemas que se acumulam vão da contenção artificial das tarifas de combustíveis e eletricidade à inflação em alta, passando pela expansão de subsídios e garantias pouco transparentes no Orçamento.

As dificuldades do setor elétrico são a consequência mais evidente desse esforço pela preservação do eleitor. O represamento de preços tem causado às distribuidoras de energia prejuízos que podem superar R$ 20 bilhões neste ano.

O caminho mais responsável seria autorizar alta moderada na conta de luz e iniciar medidas de economia, a fim de evitar riscos excessivos. Mas a opção foi jogar o problema para a frente. Estima-se que as tarifas tenham de subir de 15% a 20% nos próximos dois anos.

O mesmo se dá com os preços dos combustíveis, ainda abaixo dos praticados no mercado internacional. A situação deficitária compromete a Petrobras, que amarga forte erosão de sua capacidade de geração de caixa e vê sua dívida crescer de forma temerária.

Quanto à inflação, nem o congelamento das tarifas tem evitado alta desconfortável. Aos preços dos serviços, que continuam subindo no ritmo anual de 8%, soma-se novo choque de alimentos. No conjunto, o índice deve uma vez mais superar 6% neste ano.

A alta da taxa de juros desde abril passado, de 3,75 pontos percentuais até aqui, não conseguiu consolidar na sociedade a expectativa de que a inflação cairá. Apesar de o Banco Central dar sinais de que encerrará em breve os aumentos, permanece o risco de que o controle dos preços exija ainda mais arrocho em 2015.

Há, por fim, a deterioração das contas públicas. O acúmulo de medidas equivocadas minou as condições para o governo manter a dívida estável. Evitar um cenário de desequilíbrio demandará aperto orçamentário no próximo ano. A carga tributária, com isso, deve continuar a crescer.

O adiamento de remédios amargos deixa como legado um cenário ainda mais difícil para 2015: arrocho tarifário, mais impostos e, possivelmente, juros mais elevados.

Herança maldita

Míriam Leitão e Alvaro Gribel  
O Globo

A cena: reunião que aprovou o Ato Institucional número 5, o pior deles, que cassava todas as liberdades e instalava o terror de Estado. Dada a palavra ao ministro da Fazenda, Delfim Netto, ele disse que era pouco. Achou fraco. Era preciso, disse, que fosse ainda mais forte para fazer as reformas que o país precisava. Elas não foram feitas e ele afirma hoje que de nada se arrepende.

Nos anos seguintes o país cresceu; excluindo os pobres e concentrando renda. O crescimento mais forte foi o resultado de um conjunto de fatores. Chegou ao incrível número de 14% no ano em 1973. O economista Edmar Bacha conta que 70% do crescimento foram apropriados pelos 10% mais ricos.

O Milagre é só um lado da história. Entre 1981 e 1983 o país conheceu uma dolorosa recessão, com a economia sob o comando do mesmo Delfim, então ministro do Planejamento do último governo militar.

Não é verdade que na economia a ditadura acertou. Nem isso. A herança deixada para os governos democráticos foi uma inflação acelerada e indexada. A inflação carregava em si o fermento do seu crescimento. Era alta e explosiva. Nos primeiros anos do governo civil começou a luta contra ela. No livro que escrevi sobre o assunto chamei esse esforço nacional, penoso e longo, de saga. Só em 1994, quase uma década depois do fim do regime, foi possível livrar-se da hiperinflação indexada.

Quem vê a série histórica pode imaginar que depois que eles saíram é que os índices chegaram a números aterradores. Na verdade, os militares deixaram o índice num ritmo descontrolado, em torno de 300%, mas com o combustível que a faria crescer nos anos seguintes. As primeiras tentativas de romper com esse passado foram minadas pelo populismo do primeiro governo civil, presidido por um leal servidor da ditadura, José Sarney. A pior tentativa de domar a inflação foi realizada pelo voluntarismo simplista do governo Collor. O que nos livrou do tormento da superinflação foi o Plano Real.

O golpe dado contra as instituições teve como um dos pretextos acabar com a inflação, e, 21 anos depois, ela estava mais alta e mais forte. O preço político exigido do país foi pesado. Aquilo que o ministro Delfim Netto disse na reunião foi, é, sempre será indefensável: endurecer para fazer reformas modernizantes. Não foram feitas as reformas necessárias e o endurecimento enlutou famílias e revogou direitos civilizatórios. O Plano Real e outros avanços mostram que só o convencimento através do diálogo democrático cria mudanças permanentes.

A herança maldita deixada pela economia do governo militar foi além da inflação. O país se endividou a juros flutuantes e as taxas explodiram. No final, o Brasil tinha US$ 150 bilhões de dívidas e US$ 11 bilhões de reservas cambiais, uma parte sem liquidez. O país quebrou. Durante anos o Brasil viveu o vexame de redigir cartas de compromissos com o Fundo Monetário Internacional para não cumpri-las. O lema no governo era que dívida não se paga; administra-se. Ela ficou impagável. E assim acabou o governo militar, deixando, para os que organizariam o país, o trabalho de renegociar a dívida. Houve várias tentativas. Um dos que lutaram por uma proposta de solução foi o embaixador Jório Dauster, mas foi Pedro Malan quem conduziu a negociação que acabou trocando essa dívida velha por novos títulos.

Os militares, que impuseram o terror em nome da ordem, deixaram uma desordem fiscal. O orçamento que passava pelo Congresso era limitado. O importante era o orçamento monetário, que não tinha qualquer transparência. Um cordão umbilical ligava o Banco do Brasil ao Banco Central, permitindo a uma instituição, com acionistas privados, sacar o montante que quisesse da autoridade monetária. Os bancos estaduais eram praticamente emissores de moeda. Não havia Secretaria do Tesouro. A democracia precisou trabalhar muito para organizar essa bagunça e chegar à Lei de Responsabilidade Fiscal.

Bancos públicos financiavam os grandes empresários com farto dinheiro subsidiado na política de campeões nacionais. Soa familiar? Sim, o atual governo recriou essa política e alguns economistas próximos ao grupo no poder ainda dizem que a ditadura foi boa na economia.

É fundamental aprender com a História para não repetir seus erros. A maior lição é que não há justificativa econômica para uma ditadura.

Sino da morte toca para matriz econômica brasileira, diz FT

João Pedro Caleiro
Exame.com

Jornal britânico aponta fracasso da estratégia tocada por Dilma e diz que o mercado se pergunta quando o governo voltará para a ortodoxia

Ueslei Marcelino/Reuters 
Dilmaf fala durante uma cerimônia para assinar contratos de concessão de rodovias

São Paulo - O Financial Times voltou a falar da economia brasileira em tons alarmantes.

Em uma reportagem publicada neste domingo, o jornal britânico diz que o "sino da morte" está tocando para a estratégia econômica tocada pela presidente Dilma Rousseff.

O texto critica as medidas heterodoxas do governo, como o controle de preços da Petrobras e as desonerações fiscais pontuais, e lembra que os juros, depois de caírem para níveis historicamente baixos, já voltaram para os patamares altos de praxe.

Foram todos estes fatores que levaram ao crescimento baixo com inflação em alta - isso sem falar no rebaixamento da nota da dívida pela Standard & Poor's.

Neste cenário, a questão para os analistas do mercado é quando o governo vai retornar para a ortodoxia - e se há vontade política para tal.

"O argumento é que o Brasil precisa gastar menos, guardar mais e investir muito mais - especialmente o governo", diz o FT.

A Moody's à espera de 2015

O Estado de S.Paulo

A decisão da agência Moody's de manter a classificação do Brasil neste ano pode representar uma dor de cabeça a menos para o governo, já pressionado pelo rebaixamento da nota de crédito anunciada pela Standard & Poor's (S&P). Mas nada permite interpretar a trégua oferecida pela Moody's como demonstração de confiança na atual administração. Não se espera grande mudança no cenário brasileiro até o fim de 2014, segundo o diretor responsável pela avaliação de crédito soberano do Brasil, Mauro Leos. O crescimento, acrescentou, deve ficar ao redor de 2%, enquanto a inflação permanecerá próxima de 6%. A tradução parece fácil e segura: as perspectivas são ruins e os números finais poderão ser um pouco piores que os do ano passado, mas o resultado geral dificilmente será muito mais negativo.

Como grandes surpresas são dadas como improváveis, o ano de 2014 no Brasil está virtualmente liquidado para a agência, a julgar pelas declarações do diretor Mauro Leos. Outra implicação: do atual governo nada se espera, pelo menos até o fim do ano. Se nada extraordinário acontecer nos próximos meses, a próxima avaliação deverá ocorrer quando o novo governo tomar suas primeiras medidas e sua orientação econômica for conhecida.

Pode haver dúvida quanto à orientação efetiva a ser adotada, mas a lista mínima de tarefas para 2015 e provavelmente para os anos seguintes parece bem definida, segundo as palavras do analista. Quem assumir a administração federal terá de promover uma porção de ajustes para arrumar as contas públicas, conter a inflação e criar condições para um crescimento seguro. As mudanças deverão incluir uma nova política de preços para a Petrobrás. A transparência da política de preços, acrescentou, será importante para a classificação de risco do crédito brasileiro.

Em outras palavras, a lista de tarefas corresponde a uma ampla mudança dos padrões seguidos pelo governo nos últimos três anos e até agora mantidos pela presidente Dilma Rousseff e por seus principais auxiliares da área econômica.

A cobrança de transparência na política de preços de combustíveis vale também para as tarifas de eletricidade e, naturalmente, para os critérios de contabilidade fiscal.

Nenhuma das mágicas até agora usadas para maquiar o balanço das contas públicas envolve mistério para qualquer analista. Os técnicos das agências de classificação de risco podem dissertar sobre os truques da contabilidade criativa. Isso já foi mostrado pelos especialistas da S&P, quando justificaram a decisão de rebaixar a nota de crédito do País.

Os dirigentes da Moody's podem ter critérios diferentes daqueles seguidos pelos colegas da S&P para fixar notas e para definir os momentos de cada revisão. Mas a pauta de assuntos essenciais para a avaliação é essencialmente a mesma e o governo deveria levar em conta esse detalhe. Seria pelo menos uma exibição de prudência.

A expectativa para os próximos anos é ainda de crescimento baixo e inflação elevada, segundo o diretor da Moody's, e a avaliação dependerá basicamente de como o governo decida cuidar dos fundamentos da economia. Se o produto crescer apenas 1% por causa de um ajuste severo, a avaliação dará mais peso ao ajuste e será, portanto, positiva, segundo exemplificou o especialista.

Também isso a presidente deveria ter levado em conta desde o começo de sua gestão, mas o caminho escolhido foi outro e os resultados são indisfarçáveis. A orientação econômica seguida pelo atual governo - e herdada em boa parte do anterior - resultou em uma combinação de baixo crescimento, inflação elevada e resistente e deterioração tanto das contas fiscais quanto do balanço de pagamentos. A alegada prioridade à expansão do Produto Interno Bruto (PIB) fracassou em mais de um sentido. Não houve expansão maior em troca de inflação um pouco mais alta. O único resultado positivo tem sido o bom nível de emprego, mas à custa da criação de postos de trabalho de baixa qualidade e baixa produtividade, enquanto se acumularam as demissões na indústria. É essa uma política sustentável de emprego?

O quadro negro da educação

O Estado de S.Paulo

O Brasil voltou a sair-se mal no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, em inglês), um levantamento comparativo promovido pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) desde 2000, com o objetivo de medir e comparar o quanto e como os países participantes preparam seus jovens para uma vida adulta produtiva. Há quatro meses, a entidade divulgou a classificação geral da edição de 2012, mostrando que, num ranking de 65 países, o Brasil ficou na 55.ª posição em leitura, no 58.º lugar em matemática e na 59.ª colocação em ciências. A diferença em relação aos alunos mais bem classificados - da província chinesa de Xangai - foi de mais de 200 pontos, o equivalente a cinco anos escolares.

Com base no mesmo levantamento, a OCDE agora está divulgando um estudo específico sobre a capacidade dos estudantes de resolver problemas práticos da vida cotidiana e, num ranking de 44 países, o Brasil ficou na 38.ª colocação - à frente apenas da Malásia, Emirados Árabes Unidos, Montenegro, Uruguai, Bulgária e Colômbia. Os estudantes de Cingapura, da Coreia do Sul e de algumas províncias chinesas ficaram nas primeiras posições do ranking, seguidos por canadenses e europeus.

A amostra é de alunos de 15 anos matriculados nas séries correspondentes à sua idade - o final do ensino fundamental e o início do ensino médio. Aplicado a cada três anos, o Pisa testa os conhecimentos das três disciplinas escolares básicas - linguagem, matemática e ciências - de mais de 500 mil alunos nessa faixa etária, em 34 países considerados desenvolvidos e em outros 31 convidados, como é o caso do Brasil. Os testes são formulados para aferir habilidades essenciais para o sucesso dos alunos na escola, no mercado de trabalho e na vida econômica. A edição de 2012 do Pisa enfatizou, basicamente, a matemática.

Segundo o estudo divulgado esta semana, enquanto a média dos alunos dos países da OCDE ficou em 500 pontos, a dos brasileiros foi de 428 pontos. O relatório também mostra que 47,3% dos estudantes brasileiros tiveram um desempenho ruim, ficando na última categoria, a dos chamados "poor performers", e apenas 1,8% conseguiu solucionar problemas de matemática complexos, integrando o grupo de elite - o dos "top performers". Esses números mostram que a maioria esmagadora dos estudantes brasileiros sai do ensino fundamental sem saber o mínimo necessário para resolver questões simples do dia a dia.

Em comparação, na Coreia do Sul, 27,2% dos estudantes ficaram na categoria "top" e apenas 6,9% na categoria "poor". Na América Latina, o país que alcançou resultados mais expressivos foi o Chile, com menos estudantes do que o Brasil nas categorias mais baixas, mas sem formar um número significativo de alunos capazes de integrar o pelotão de elite.

O estudo sobre a capacidade dos estudantes de lidar com informações e problemas práticos da vida cotidiana só confirma o que a OCDE havia apontado no relatório geral divulgado em dezembro. Segundo ele, 2 em cada 3 alunos brasileiros de 15 anos não conseguem interpretar situações que exigem somente deduções diretas de uma informação dada, entender porcentuais ou frações e usar informações de uma tabela ou de um gráfico para calcular uma média ou tendência.

Estudos comparativos da qualidade internacional da educação são importante fonte de informações para a elaboração de diagnósticos, definição de prioridades e formulação de políticas públicas. Desde a criação do Pisa, muitos países utilizam seus resultados para reformar seus sistemas de ensino. É o caso da Polônia, que ganhou posições nas últimas avaliações, depois de ter investido em educação básica e formação de professores. Em contraste, o Brasil ainda não conseguiu aprovar o Plano Nacional de Educação, que define as metas que o País deve atingir entre 2010 e 2020. A tramitação é tão morosa que o plano corre o risco de ser aprovado nos anos finais de sua vigência. Isso mostra por que o Brasil tem ficado nas últimas colocações nos rankings do Pisa.

Nem a raciocinar os brasileiros estão aprendendo

Daniel de Barros
O Estado de são Paulo

 “Aos dezesseis anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa — e qual defesa seria mais legítima? — logrei ser absolvido por cinco votos contra dois e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris”.

Assim começa o romance A lua vem da Ásia, de um dos únicos escritores surrealistas que tivemos no Brasil, Campos de Carvalho. Parece que a maioria dos adolescentes brasileiros está cometendo o mesmo crime, numa verdadeira chacina lógica.

O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA, na sigla em inglês), que tradicionalmente já humilha o país ao comparar as habilidades linguísticas e matemáticas de estudantes ao redor do globo, fez agora uma rodada testando a capacidade de resolver problemas complexos usando o raciocínio lógico. Mais uma vez a prova colocou o Brasil na retaguarda, amargando a trigésima oitavaposição entre 44 países. Dos seis graus de dificuldade do teste quase metade dos nossos alunos não conseguiu passar dos dois primeiros níveis.

A gravidade da situação, de meu ponto de vista, não vem apenas de nosso orgulho ferido. O problema é que a prova era baseada em questões práticas do mundo real, como utilizar equipamentos eletrônicos ou encontrar a menor distância entre dois pontos. E num mundo cada vez mais abstrato, dominado pela tecnologia, a dificuldade de achar saídas não óbvias para obstáculos pode ser uma desvantagem competitiva enorme – se não atuarmos especificamente nesse aspecto – além de ensinar o idioma e matemática – estaremos criando uma geração ainda mais defasada no cenário internacional do que já estamos.

Uma das alternativas para enfrentar o problema é adotar a utilização de jogos de tabuleiro em sala de aula. Há diversas escolas indo nessa linha, mas sem uma articulação do currículo oficial até onde eu saiba. Os jogos de tabuleiro são uma ferramenta bastante eficaz para treinar concentração, tomada de decisão, raciocínio lógico e planejamento executivo. Embora já não sejam uma moda tão forte como há algumas décadas existem iniciativas interessantes, como o site Ilha do Tabuleiro, ou a publicação de livros como “O livro dos 10 melhores jogos de todos os tempos”, da especialista em jogos Àngels Navarro, lançado esse ano no Brasil. Trata-se praticamente de um livro-objeto, trazendo não só informações interessantes sobre dez jogos clássicos, como também as regras e os próprios tabuleiros e peças necessárias para jogar cada um deles.

A capacidade de resolver problemas é uma habilidade fundamental em qualquer área de atuação humana. No mundo globalizado, onde não haverá espaço para o jeitinho brasileiro, é importante que aprendamos logo como ensinar as crianças a pensar.

Um retrato do Brasil analfabeto – Sobrevivendo na selva das vogais e consoantes

Branca Nunes
Veja online

Os obstáculos enfrentados diariamente pelos brasileiros que não sabem ler

Ivan Pacheco 
Verônica exibe o título de eleitor com a digital que denuncia o analfabetismo 

"Às vezes tenho a sensação de que não sou ninguém, mas eu sou alguém. Posso não ler, mas sou inteligente", diz Verônica

"Onde é a saída?", perguntou Maria Verônica Marcelino da Cruz Conceição a um funcionário da linha 4 do metrô de São Paulo ao desembarcar pela primeira vez na estação República, no centro da maior metrópole brasileira. "É só subir a escada rolante que você já verá as placas", ouviu em resposta. Essas 12 palavras teriam bastado se não tropeçassem na barreira invisível. Verônica não sabe ler (nem escrever) – e, naquele 13 de fevereiro de 2014, como o trajeto lhe era desconhecido, não podia contar com a maior aliada dos 14 milhões de analfabetos que circulam diariamente pelo território brasileiro: a rotina.

É graças a essa rotina que utilizar o transporte público para ir e voltar do trabalho, fazer compras no supermercado ou buscar o filho na escola se tornam atividades tão banais. Quando está no ponto perto de casa, Verônica sabe dizer, por exemplo, se o ônibus que desce a rua é o Tamboré ou o Vale do Sol só de olhar para o desenho do nome escrito no letreiro do coletivo.

Mas naquele 13 de fevereiro, quando precisou utilizar um metrô que não conhecia, andar por ruas onde nunca tinha estado e ir até um prédio que jamais tinha visto, o sentimento que a acompanhava era o medo. "Tenho medo de me perder, ou que me passem a informação errada", confessou. "Tenho medo do que não conheço".

Aos 49 anos, com menos de 1,60 de altura, pele morena e cabelos alisados tingidos num tom puxado para o vermelho (a cor preferida), ela montou um acervo de técnicas para vencer desafios semelhantes: primeiro, pede alguma dica sobre o trajeto para quem lhe passou o endereço (qual linha de ônibus, trem ou metrô deve pegar, para qual direção, o nome do bairro e pontos de referência). Antes de sair de casa, a filha mais nova ou a patroa escrevem o nome da rua em um pedaço de papel. Por fim, sai perguntando, a cada nova etapa do caminho, qual o próximo passo a seguir.

 (Foto: Ivan Pacheco) 
Maria Verônica reconhece o ônibus que desce a rua
 pelo desenho do nome escrito no letreiro do coletivo 

Dentro dos vagões de trens e metrôs, o áudio que informa em voz alta qual é a estação é uma ajuda e tanto. Do lado de fora, Verônica depende da bondade de estranhos. Com o papel na mão e baseando-se em critérios bastante pessoais, mostra o nome da rua para aqueles que considera confiáveis – curiosamente, a maioria dos escolhidos naquele dia eram homens, com menos de 40 anos, bem vestidos, quase todos com um celular na mão – e pergunta: "Como faço para chegar aqui?". Jamais confessa que não sabe ler. Esconde a informação não só de desconhecidos como de pessoas próximas.

Tão próximas quanto um ex-namorado com quem Verônica se relacionou por dois anos. Ele mandava mensagens por celular, ela mostrava para a filha. Ele pedia para Verônica ler alguma coisa, ela dizia que estava sem óculos. Ele perguntava por que ela nunca lhe escrevia, ela justificava que preferia conversar por telefone. "Acho que ele desconfiava, mas nunca perguntou nada", conta. "Morria de medo que ele deixasse de gostar de mim".

Noel, o segundo marido de Verônica (e o que a fez mais feliz), demorou três anos para descobrir o segredo. "Eu queria perguntar uma coisa, mas não é para você ficar chateada", ensaiou Noel. "Você sabe ler?". Ela criou coragem e respondeu: "Presta atenção, porque eu só vou falar isso uma vez: eu não sei ler". Nunca mais tocaram no assunto até que ele morreu de enfarte algum tempo depois.

Com o segundo marido, teve Giovana – a quem chama Jojó –, a caçula de seis filhos: Cláudia, Ana Paula, Liliane e Jonathan, do primeiro casamento, e Daiane, sobrinha da ex-mulher de Noel, adotada pelo casal aos 10. Embora todos saibam ler, só um terminou o ensino médio. A esperança é Jojó que, aos 11 anos, sonha ser pediatra. 

O começo - 
Paraibana de Santa Rita, município na região metropolitana de João Pessoa distante 11 quilômetros da capital, Verônica foi confrontada aos 9 anos com o dilema: estudar ou trabalhar? Obrigada a optar pelo segundo para ajudar a mãe a conseguir comida, tornou-se babá de outra criança sete anos mais nova. "Ela era uma menina má, que dizia que eu roubava seus brinquedos", recorda. Quando a situação da família tornou-se insustentável, o pai abandonou a mulher com os nove filhos e partiu para São Paulo.

A babá se transformou em ajudante de cozinha num restaurante e, depois, em operária de uma fábrica de bolachas. Aos 15 anos, foi levada com a mãe e os irmãos para São Paulo pelo tio, que já não suportava ver a cunhada e os sobrinhos em estado tão degradante. Quando chegaram ao destino, o pai de Verônica tinha outra vida, outra casa e outra família – que acabou deixando ao deparar-se com a visita inesperada. Os pais, que continuam juntos, moram hoje em Registro, no litoral paulista.

Verônica casou com Manoel logo depois do desembarque na metrópole. "Achei que ganharia minha liberdade. Foi um doce engano". O relacionamento durou 16 anos. Desde a mudança para São Paulo, nunca mais colocou os pés – nem pretende colocar – na Paraíba. "Não tenho nenhuma lembrança boa da minha infância", encerra o assunto.

Até matricular os filhos na escola, a leitura nunca lhe fizera falta. "Eu conseguia me virar bem", garante. "Mas comecei a querer acompanhar as lições de casa e participar mais da reunião de pais". Hoje, o analfabetismo é um tormento.

 (Foto: Ivan Pacheco) 
Embora não saiba escrever, quando está calma
 Verônica consegue desenhar o próprio nome

"Às vezes tenho a sensação de que não sou ninguém, mas eu sou alguém. Posso não ler, mas sou inteligente", diz. Verônica reconhece marcas como Café Pilão, Coca-Cola, McDonald’s e Adidas pelo logotipo. Para fazer a lista de compras na casa de Regina Vilma Ruiz, onde trabalha como empregada doméstica há mais de duas décadas, copia o nome dos produtos da embalagem – de vez em quando consegue associar que o 'A', de arroz, é a mesma letra do 'A', de açúcar. Tornou-se uma exímia cozinheira apenas observando outras pessoas ao pé do fogão e, quando não está nervosa, é capaz de desenhar o primeiro nome.

Alguns anos atrás perdeu a carteira de identidade. Decidida a não ter mais a digital estampada no documento sobre a sentença "não alfabetizada", matriculou-se num curso de alfabetização de adultos. Estava quase conseguindo juntar consoantes e vogais quando foi surpreendida pela morte de dois irmãos – um de morte morrida, o outro de morte matada. Cláudio, o xodó de Verônica, foi assassinado ao ser confundido com o patrão no momento em que chegava para trabalhar. O choque foi tão grande e a depressão tão intensa que as letras simplesmente desapareceram da memória.

Também é para não expor o analfabetismo que ela optou por fazer parte da multidão de mais de 50 milhões de brasileiros que não possuem conta bancária. Alçada à nova classe média pelos malabarismos federais, Verônica insiste em continuar considerando-se pobre. Os cerca de 1 500 reais – somados vale transporte, seguro saúde e outros benefícios – que recebe de salário desaparecem no fim do mês. Roupas novas, restaurantes e viagens são luxos que ela não pode ter nem proporcionar para os filhos. Por causa do aumento dos preços dos alimentos – inflação que só o governo insiste em não enxergar – o sonho de conhecer Porto Seguro nas férias que se aproximam precisará ser adiado por mais um ano.

Outro documento que a intimida é o título de eleitor. Embora não seja obrigada, garante que participa de todas as eleições. Apesar disso, não se recorda em quem votou em 2012 nem em 2010. Não sabe o nome do prefeito e do governador de São Paulo nem quem foi o presidente da República antes de Lula – só faz questão de dizer que nunca votou nele. Se lhe pedem que cite algum político, lembra de Dilma Rousseff, Lula, Paulo Maluf e Marta Suplicy e em seguida ressalva que não simpatiza com nenhum. "Gostava muito do José Sarney, aquele que morreu", confunde-se. Sobre o mensalão? "Não sei o que é". Propina envolvendo a construção do metrô da capital paulista? "Nunca ouvi falar".

Suas fontes de informação são os telejornais, as novelas ou conversas com vizinhos e amigos. Adora filmes, principalmente as sequências de Harry Porter e Rambo, mas raramente vai ao cinema. Afirma que não gosta de espetáculos de teatro antes de admitir que nunca viu uma peça. Prefere o forró com o namorado.

(Foto: Ivan Pacheco) 
Maria Verônica em frente à casa onde mora em Barueri, na Grande São Paulo 

Vaidosa, abusa dos decotes que exibem o bonito colo e jamais usa saias para ocultar as varizes que deixam ainda mais doloridas as pernas castigadas pelos 54 degraus absurdamente íngremes que é obrigada a subir diariamente para sair de casa.

Na residência alugada de três cômodos em que mora com a filha caçula, localizada num bairro pobre de Barueri, na Grande São Paulo, o bordado dos panos de prato e da toalha sobre o fogão combina com o rosa da parede da cozinha. O azul do quarto aparece também no enfeite do armário recém-comprado em seis prestações pelo carnê das Lojas Marabrás e a sala, pintada de laranja, ostenta porta-retratos com fotos de Jojó e de Mery, a melhor amiga. É ali que Verônica guarda seu maior tesouro: uma antiga coleção de livros de receitas que ganhou da patroa faz três anos.

Não conseguiu ler nenhum. Mas folheia com olhar apaixonado os cinco volumes, observa as imagens desbotadas, tenta adivinhar os ingredientes pelas fotos e reproduzir os pratos. São os únicos livros da casa.
Há um mês, fez uma promessa: "Vou conseguir ler esses livros". Para isso, vai matricular-se novamente num curso de alfabetização para adultos. Quando isso acontecer, a jornada, que começa diariamente às 5h30 e é encerrada por volta das 19h, depois de quase duas horas nos vagões dos trens metropolitanos lotados, será prorrogada até as 22h, quando as aulas terminam.

Caso complete o curso, ela fará parte de uma minoria. De cada 10 adultos que decidem se alfabetizar, sete desistem do objetivo antes de ler a primeira palavra. Enquanto isso, Maria Verônica Marcelino da Cruz Conceição será apenas mais um nome entre os milhões de brasileiros perdidos na selva das vogais e consoantes.


Reprovação vergonhosa

Camila Brandalise 
Revista ISTOÉ

Últimas posições no ranking do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes mostram que os alunos têm dificuldade para resolver problemas de raciocínio lógico. Por que o Brasil não avança nas políticas de educação?

Um estudo divulgado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) na terça-feira 1º colocou o Brasil mais uma vez nas últimas posições de um ranking de educação. Desta vez, o alvo da pesquisa foi a capacidade de os alunos de 15 anos resolverem problemas, avaliando seu raciocínio lógico. É a primeira vez que o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) faz um levantamento das habilidades cognitivas, que envolvem capacidades como interpretação, análise e organização de informações, motivado por números da própria OCDE. Um estudo publicado no ano passado mostrou que 57% dos adultos que chegam ao primeiro nível de competência dessas capacidades estão empregados, enquanto 79% dos que chegam aos níveis quatro ou cinco têm emprego. Ficar em 38º lugar em um ranking com 44 países é um péssimo resultado para o Brasil. Mas assusta ainda mais o fato de 75,1% dos jovens estarem no nível dois de proficiência ou abaixo. São adolescentes carregando uma lacuna de desenvolvimento cognitivo que pode se estender para o resto de suas vidas. E quem perde com isso, além deles, é o País. 

CURRÍCULO
Para melhorar o desempenho dos alunos, especialistas sugerem
que o raciocínio seja trabalhado em sala de aula com
questões relacionadas ao cotidiano

Apesar de ter apresentado uma baixa performance na prova, o Brasil ainda ficou acima do esperado em comparação a outros países que tiveram desempenho similar no Pisa de matemática, ciências e leitura, divulgado em dezembro de 2013, segundo Andreas Schleicher, diretor-adjunto de educação e competências da OCDE. Para Ernesto Martins Farias, coordenador da Fundação Lemann e especialista em análises de dados educacionais, isso mostra que há um potencial de aprendizado dos alunos que o nosso sistema escolar não está conseguindo acompanhar. “Acredito que, basicamente, é preciso melhorar o ensino de matemática, já que a disciplina pesa bastante no desenvolvimento do raciocínio lógico”, diz. Resolver o problema, porém, não é tão fácil, pois partimos de índices muito baixos. De acordo com dados da última Prova Brasil, aplicada em 2011, apenas 12% dos jovens cursando o nono ano da rede pública demonstram aprendizado adequado.


Um importante passo para melhorar esse cenário é avançar em relação à equidade e garantir o acesso à escola de qualidade a todos os estudantes brasileiros. O Pisa mostra que, regionalmente, a diferença é gritante. Quando se dividem alguns países por regiões e os distribuem em rankings, Sudeste, Sul e Centro-Oeste do País apresentam pontuação maior do que a média geral nacional, enquanto Nordeste e Norte aparecem mais de dez posições abaixo. “O Brasil é um país desigual. O que o Pisa mostra não é diferente de outros levantamentos”, diz Chico Soares, presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Mudar isso requer esforços em políticas públicas, como capacitação de professores. Mas, quando se trata de investimentos, a questão fica ainda mais delicada e nebulosa. Segundo estudo do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) divulgado na quinta-feira 3, o País está entre as 30 nações que mais arrecadam impostos, porém é o que tem pior retorno dessa verba, não só em educação, mas também em áreas como saúde e saneamento. 

AVALIAÇÃO
"Precisamos caminhar para que os brasileiros
tenham oportunidades educacionais mais completas",
diz Chico Soares, presidente do Inep

Revisão da base curricular unificada e capacitação de professores estão entre as soluções propostas por especialistas para desenvolver o raciocínio lógico dos alunos brasileiros. Já é possível notar mudanças. Se há alguns anos a escola focava mais no conteúdo, hoje há uma preocupação em incitar a reflexão e a análise. O enunciado da prova deixa de ser somente uma conta e passa a ter um texto com uma situação cotidiana. A psicopedagoga Quézia Bombonatto, diretora da Associação Brasileira de Psicopedagogia, defende essa mudança no perfil das escolas e ressalta a importância de ensinar o aluno a aprender, a construir o conhecimento, e não a decorar ou chegar a conclusões de maneira automática. “Fazer isso significa instrumentalizá-lo para a vida.” Essa modernização da educação, porém, ainda está limitada, em grande parte, às escolas particulares. Isabel Santana, educadora e superintendente da Fundação Itaú Social, defende que a escola pública garanta educação integral, com ampliação da jornada e diversificação de conteúdos, para que os alunos em desvantagem por causa da diferença socioeconômica recuperem esse “prejuízo” com mais atividades. “É preciso colocar intencionalmente no currículo a necessidade de valorização do desenvolvimento das habilidades mais complexas”, afirma Isabel.


Embora a própria OCDE reconheça que o Brasil tem mostrado progressos, aumentando o acesso e as taxas de alfabetização de crianças, avaliações como o Pisa deixam claro que ainda há muito a ser conquistado. É consenso que universalizar e aumentar a qualidade do ensino levará décadas. Enxergar a educação como algo essencial para o desenvolvimento do País é uma ideia relativamente recente. Segundo especialistas, há avanços concretos, principalmente a partir da década de 1970. O problema é que, mais de 40 anos depois, a área ainda não parece ser uma prioridade do governo. Enquanto isso não acontecer, corre-se o risco de o baixo desempenho se arrastar por mais tempo e continuarmos amargando os últimos lugares dos rankings. “A lógica é: precisamos caminhar para que os brasileiros na sua totalidade tenham oportunidades educacionais mais completas”, diz Chico Soares, presidente do Inep. Estamos, sim, caminhando. Mas precisamos ter mais pressa.

Foto: Washington Alves/Estadão Conteúdo

Governo entregou apenas 10,6% do “PAC Saúde”

Dyelle Menezes
Contas Abertas


A um ano do final da segunda etapa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2), apenas 10,6% das iniciativas da Saúde foram entregues pelo governo federal. Nos últimos três anos encerrados, das 503 Unidades de Pronto Atendimento (UPA) previstas, somente 14 ficaram prontas. No caso das Unidades Básicas de Saúde (UBS), apenas 9% dos 15.652 projetos previstos em todo o país foram concluídos.

De acordo com levantamento das informações do 9º balanço oficial do PAC 2, das 24.006 obras “tocadas” pelo Ministério da Saúde e pela Fundação Nacional de Saúde por meio da segunda fase do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), apenas 2.547 obras foram concluídas. Os dados são de dezembro de 2013.

Das 21.519 restantes, apenas 9.509 encontram-se em execução. Cerca de metade (12.010) das obras de Saúde inscritas no PAC 2 ainda estão “no papel”. A maior parte (10.328) encontra-se em ação preparatória. Sete estão em fase de licitação e 1.675 de contratação.

As informações, relativas ao período 2011/2013, englobam investimentos previstos pela União, empresas estatais, iniciativa privada e contrapartida de estados e municípios em projetos de construção e de reforma de Unidades Básicas de Saúde, Unidades de Pronto-Atendimento e ações de saneamento.

As ações relativas ao saneamento em áreas urbanas apresentaram melhor execução (14%), mas estão longe de serem finalizadas – das 7.911 iniciativas, apenas 1.129 ficaram prontas.

Entre as regiões do país, a que apresentou pior resultado percentual de execução foi a Sudeste, onde o governo conseguiu concluir somente 318 (7%) das 2.441 obras previstas. Na sequência aparece o Nordeste, que apesar de concentrar o maior volume absoluto de obras – mais de 11 mil –, teve apenas 1.119 (10%) empreendimentos concluídos nos últimos três anos.

Nas regiões Sul e Centro-Oeste, o percentual de conclusão oscila entre 11% e 12%, respectivamente. Já os estados do Norte tiveram um resultado relativamente melhor, mas igualmente mínimo. Somente 464 (10%) das 2.861 ações foram concluídas.

Em nota, o Ministério da Saúde informou que atualmente existem 23.450 obras relacionadas à construção e ampliação de UBSs e UPAs, obras de saneamento básico e programa Água para Todos, os dois últimos da Funasa. Do total, 6.353 são projetos aprovados ainda no segundo semestre de 2013. “Portanto, o gestor local ainda está em fase de preparação para início das obras”, afirma.

Outro ponto destacado pelo Ministério para o atraso é que diferentemente de outras obras do PAC, com execução realizada diretamente pelo governo federal, a construção de UPA, UBS e obras de saneamento são executadas através dos Estados e principalmente dos municípios.

Em relação às obras de saneamento, a Funasa informou que as iniciativas têm duração média de quatro anos. “Portanto, as obras referentes ao PAC 2, ou seja, aquelas iniciadas no fim de 2011, estão dentro do prazo médio previsto.

Para a especialista e doutora em saúde pública da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Lígia Bahia, os atrasos são uma evidência dos imensos equívocos e dificuldades do planejamento das atividades e ações previstas para concretizar políticas públicas no Brasil.

“Os problemas começam com a definição de prioridades e se estendem para a transposição de metas para o orçamento e sua execução. Mas, esse perverso ciclo constituído por recursos e realizações fictícias se converte no já instituído saldo (como se politica publica pudesse ter sobra) denominado restos a pagar (cujos recursos nunca retornam para a saúde)”, explica.

De acordo com Lígia, a demora nas obras da saúde pode ser atribuída a questões estruturantes combinadas com ignorância e descontinuidade administrativa, leniência e corrupção. Para ela, os obstáculos estruturantes são razoavelmente conhecidos. “São poucas ou apenas uma empresa que se apresentam nas chamadas públicas. Depois, as mesmas alegam que os recursos aprovados são insuficientes e/ou os contratos são aditivados ou as obras param”, explica Lígia.

Questionada sobre a criação do Mais Médicos em um contexto em que até mesmo as obras do PAC não conseguem sair do papel, a especialista afirmou que a questão da substituição de programas que não deram certo é um dos problemas a serem enfrentados.

“O programa se torna obsoleto rapidamente e é substituído por outro com outro nome. Claro que é melhor ter algum tipo de atendimento do que a desassistência. Mas a ideia que uma coisa puxa outra não é um fato no Brasil. Como um médico seja lá de que nacionalidade for vai resolver problemas de saúde sem dispor de condições básicas, inclusive de ambiência? O discurso oficial é: onde tem médico terá unidade de atenção básica em ótimas condições de funcionamento. Só que na prática isso não ocorrerá. Ouvimos uma promessa parecida no período da expansão da estratégia de saúde da família e a situação física da maioria dessas unidades permanece ultra precária”, conclui.

Série sobre o PAC 2
Os dados utilizados nesta matéria foram levantados pelo Contas Abertas e divulgados em parceria com a Veja.com. Esta é a segunda de uma série de matérias que estão sendo divulgadas desde a última sexta-feira (4). A intenção é aprofundar o acompanhamento do maior programa de infraestrutura do governo federal.

Relatório aponta os problemas dos grandes hospitais do país

André De Souza 
O Globo

Paciente reclamou da quantidade de baratas no hospital Souza Aguiar, no Rio

BRASÍLIA - Os grandes hospitais públicos brasileiros de urgência e emergência sofrem com problemas como a carência de leitos, filas de espera e falta de profissionais, equipamentos e investimentos. Em alguns casos, falta até mesmo água para beber e dar a descarga. As conclusões são de relatório feito pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados (CDHM), pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e por outras entidades ligadas à saúde, após visita a oito grandes hospitais de diferentes cidades. No Rio de Janeiro, foi observada a situação do Hospital Municipal Souza Aguiar.

- Foi mera percepção do óbvio - afirmou o deputado Arnaldo Jordy (PPS-PA), coordenador do grupo de trabalho da CDHM que visitou os hospitais.

Além do Souza Aguiar, foram visitados o Hospital Arthur Riberio de Saboya, em São Paulo; Hospital Geral Roberto Santos, em Salvador; Pronto Socorro João Paulo II, em Porto Velho; Pronto Socorro Municipal Mario Pinotti, em Belém; Hospital de Base, em Brasília; Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Porto Alegre; e Pronto Socorro Municipal de Várzea Grande, na região metropolitana de Cuiabá.

"Foram observados extremos em que a atenção à urgência e emergência apresentava um nível satisfatório, embora ainda com problemas a solucionar (como na unidade de SP), até degradante caso que se assemelhava a uma 'enfermaria de guerra', em que além de pacientes 'internados em macas' nos corredores da emergência, havia aqueles 'internados em colchões sobre o chão' (como na unidade de RO)", destaca o relatório.

Um dos casos que chamou a atenção do deputado foi a do Pronto Socorro Municipal Mario Pinotti, em Belém, onde a falta de água foi classificada como uma situação surreal.

- Em Belém, no dia da visita, não tinha água no bebedouro, água no chuveiro. A descarga não estava funcionando por falta de água - afirmou Jordy.

O Souza Aguiar, no Rio, também chamou a atenção do deputado. Segundo ele, uma das feridas do acidente com o bondinho de Santa Teresa reclamou da quantidade de baratas.

- À noite, ela ficava acordada, porque, com a quantidade de baratas, ela ficava apreensiva para impedir que esses insetos chegassem aos pacientes.

O relatório produzido pela CDHM destacou quatro casos testemunhados pela comissão no Souza Aguiar. Um deles trata de um menino de três anos, vindo de ambulância de Jacarepaguá, em busca de um cirurgião pediátrico para uma cirurgia de urgência. "Já havia passado por outros dois hospitais públicos municipais. Não encontrando o especialista, estava sendo recusado pelo Souza Aguiar também. A Comissão apelou à direção e ele foi atendido por um profissional habilitado", diz o relatório.

Houve outro caso envolvendo criança que precisou de intervenção da CDHM. "Mãe chega com seu filho de ouvido inflamado e febre, pele com escaras, vinda de Niterói, encaminhada pelo serviço de saúde de lá. Não pode ser atendida. Mais uma vez a CDHM intervém e pede solução. A criança é encaminhada para atendimento ambulatorial", aponta o relatório.

"Os deputados concluem que são graves os problemas na cidade do Rio. Sugerem que a CDHM retorne ao município para visitar outros hospitais, entrevistar gestores do sistema e realizar audiência pública", conclui o relatório.

Jordy reclamou principalmente do subfinanciamento. Segundo ele, nos últimos dez anos, foram aprovados R$ 53 bilhões de investimentos da União em saúde, mas somente R$ 5,5 bilhões foram efetivamente gastos. Ele também defendeu que 10% da receita orçamentária seja destinada para o setor, conforme prevê uma proposta em tramitação no Congresso.

Filme para pedir mais recursos
Junto com o relatório, foi divulgado um filme de uma campanha publicitária do CFM exigindo mais recursos para a saúde. O filme também diz que é preciso abandonar as medidas paliativas e adotar medidas concretas. Questionado se entre elas está o Mais Médicos - programa do governo federal que traz médicos de fora, principalmente de Cuba, para atuar no Brasil e que enfrentou forte oposição do CFM - o presidente da entidade, Roberto d'Ávila, respondeu:

- Não somente. Todas as medidas que não são definitivas, que não são programas de Estado provisórios.
O relatório faz várias recomendações ao Executivo, entre elas aumentar o número de leitos, monitorar filas de espera, agilizar exames e obrigar efetivamente os planos de saúde a ressarcir o SUS pelos serviços públicos que eles utilizam.

- Os planos de saúde não têm encontro de contas com o SUS. Apesar de ter portarias, resoluções do ministério, geralmente isso é interditado via judicialização, à medida que a alegação feita é que o sistema de saúde é universal, é porta aberta. Portanto não é cabível esse tipo de questionamento, o que agride nosso entendimento - disse Jordy, acrescentando: - Estamos fazendo o SUS financiar plano de saúde. E os planos de saúde financiando time de futebol "y otras cositas más". Quer dizer, é uma inversão completa do sistema.

Bandeira eleitoral de Dilma, construção de creches patina

Gabriel Castro
Veja online

Meta de erguer 6.000 novas unidades foi uma das promessas eleitorais de Dilma em 2010. Obras de quadras em escola também estão atrasadas

(Roberto Stuckert Filho/PR) 
MUITA PROMESSA – 
A presidente Dilma Rousseff durante cerimônia de assinatura de termos de compromisso 
para construção de creches do Programa Proinfância, do PAC 2, em 2012 

Uma das propostas mais marcantes de Dilma Rousseff durante a campanha eleitoral de 2010 foi a de construir 6.000 creches pelo Brasil até o fim do seu mandato, em 2014. Mas o compromisso, reforçado após a vitória nas urnas, dificilmente será cumprido. Quando iniciou seu quarto ano de mandato, em janeiro, Dilma havia inaugurado apenas 223 creches – 3,7% do total prometido. O total de obras listadas, mesmo as que ainda não saíram do papel, também estava abaixo do previsto: 5.257.

Os dados integram o amplo levantamento feito pelo site de VEJA e pela ONG Contas Abertas nos balanços oficiais do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) 2 disponibilizados pelo governo federal.

Levando em conta o prazo de conclusão das obras (pelo menos um ano a partir do início da licitação), é certo  que a construção das 6.000 creches serão mais uma meta não cumprida pela presidente.

A construção das unidades é feita em parceria com as prefeituras: o governo federal repassa os recursos mas é o gestor municipal quem fica responsável por escolher o local da obra e realizar o empreendimento. A demanda por creches é real no país. Mas, por causa da burocracia ou por falta de interesse, os prefeitos parecem não ter ficado impressionados com o plano de Dilma.

Em 2013, já ciente de que a procura era menor do que a prevista, o governo flexibilizou as regras para a adesão ao programa e passou a oferecer um projeto-padrão de engenharia, para agilizar os trabalhos.

Na ocasião, Dilma fingiu que os trabalhos estavam prosseguindo no ritmo ideal: "O nosso compromisso era 6.000, mas é muito possível que seja um número maior que nós vamos entregar de creches", disse ela. 

O Ministério da Educação afirma que parte dos atrasos se devem às prefeituras, e diz que o governo trabalha para contratar 6.000 obras de creches até o fim do ano. Aquelas que não estiverem prontas estarão em fase avançada de construção. Mesmo sendo verdadeiras a alegações, a justificativa não é suficiente para eximir o governo de cumprir a promessa feita na campanha. Em 2010, Dilma não se preocupou em explicar ao eleitor que, na verdade, os prazos não dependiam apenas da União. 


Quadras – 
Na campanha de 2010, Dilma também havia prometido construir ou reformar 10.000 quadras esportivas de escolas públicas. Em maio de 2011, a presidente foi além: "Nós vamos construir dentro do PAC 2 em torno de 12.000 quadras cobertas", disse ela, em um discurso no Palácio do Planalto.

Mais uma vez, o resultado foi decepcionante: 481 obras concluídas, de um total de 9.158 contratadas, segundo os dados do próprio governo. 

Situação ainda pior é a do Centro de Artes e Esportes Unificados: a lista do governo tem 357 empreendimentos, mas apenas 22 estavam prontos quando foi feito o último balanço. Se mantivesse o ritmo de inauguração de obras, nem a reeleição seria suficiente para Dilma cumprir as promessas que fez para os seus quatro anos de governo.

O sistema viário não vai comportar tantos carros

Mariana Barros
Veja online

Transformado em vilão das metrópoles e cobiçado por uma legião de novos consumidores, o carro chegou a uma encruzilhada

(Sunglin Kin/Getty Images) 
Saída pela tecnologia: tráfego em Seul: o monitoramento eletrônico
 aumentou em 11% a velocidade nas vias 

A conclusão é inevitável como um congestionamento na volta de um feriado: se tudo continuar como está, vai faltar asfalto para tanto carro. A cada minuto, 152 novos automóveis deixam as fábricas do mundo para ganhar as ruas. Em seis anos, serão 203. 

No Brasil, entre 2002 e 2012, o ritmo do aumento da frota foi de seis vezes a taxa de crescimento da população urbana — enquanto o número de habitantes das cidades cresceu 14%, a quantidade de automóveis aumentou 85%. 

“A era dos megacongestionamentos chegará ao seu momento mais agudo em poucos anos”, diz o urbanista americano Michael Kodransky. Até o início do século passado um luxo para deleite exclusivo dos muito ricos, o carro entrou na esteira da produção em série e saiu de lá transformado no sonho — possível — das multidões. 

Agora, chega ao século XXI como o bode expiatório das metrópoles — culpado não só pelo tormento dos engarrafamentos, mas pela poluição do ar, pela poluição sonora, pelo aquecimento global e até pela obesidade das populações. De herói, virou vilão. Conseguirá escapar dessa encruzilhada?






É essencial voltar a exportar mais

Editorial
O Globo

No primeiro trimestre deste ano o país teve um déficit da ordem de US$ 6 bilhões na balança comercial, contrariando as expectativas de recuperação

As exportações brasileiras diminuíram no primeiro trimestre em relação ao mesmo período do ano passado, que também não foi brilhante. Mesmo com um pequeno recuo nas importações, o resultado da balança comercial nos primeiros três de meses de 2014 foi um déficit da ordem de US$ 6 bilhões. A recuperação esperada não se concretizou, pois houve queda expressiva nas vendas de manufaturados e semimanufaturados para o exterior, exatamente os itens que incorporam mais valores à economia brasileira, pois envolvem extensas cadeias produtivas.

Os números frustrantes das exportações de manufaturados, especialmente, são atribuídos aos problemas enfrentados pela Argentina, terceiro maior parceiro comercial do Brasil. O aumento mais expressivo na produção de petróleo, que se traduzirá em novas exportações, igualmente não se concretizou no primeiro trimestre.

Houve um salto fantástico nas exportações brasileiras a partir de 1999, saindo de um patamar de US$ 65 bilhões para cerca de US$ 250 bilhões anuais. Nos dois últimos anos, porém, as exportações estagnaram, embora o Brasil tenha mantido posições de liderança em diversos produtos, como minério de ferro, soja, café, açúcar, carnes. A capacidade de produção de veículos e de celulose, dois itens que contribuem significativamente para o resultado da balança comercial, se expandiu, com a ampliação e inauguração de fábricas.

O câmbio se tornou bem favorável às exportações nesse período de dois anos. Alguns avanços ocorreram na logística e a burocracia até diminuiu um pouco nos portos.

Então o que está se passando com as exportações deveria ser objeto de mais reflexão. Mesmo com a crise financeira internacional não superada, o mundo não parou de se mexer no comércio exterior, mas o Brasil manteve uma postura estática, muito em função das alianças políticas que acabaram engessando a estratégia comercial do país. Veja-se o caso do comércio com os Estados Unidos e a Europa.

O Brasil depende fundamentalmente de saldos na balança comercial para fechar suas contas externas de maneira equilibrada. Sem saldo na balança comercial, o déficit em transações correntes continuará aumentando, e para cobri-lo o país dependerá de um fluxo positivo de investimentos diretos e de financiamentos. Qualquer retração nesse fluxo financeiro provocaria uma depreciação considerável no câmbio, com risco de provocar mais inflação e até uma recessão.

Desse modo, não há como ser leniente em relação à trajetória das exportações, pois é por essa via que se pode melhorar os resultados da balança comercial, e não como era feito no passado, com barreiras e até a proibição de importações.

Queda de Dilma coloca estatais novamente no topo do Ibovespa

Karla Mamona
Exame.com

A intenção de voto para a presidente Dilma Rousseff recuou seis pontos percentuais

AFP/Getty Images 
A presidente tem 38% das intenções de voto

São Paulo - As estatais eram destaque do Ibovespa na manhã desta segunda-feira. O índice era puxado pela Petrobras, que liderava a alta. A ação ordinária da companhia chegou a avançar 3,42% na máxima, enquanto a preferencial subia 3,56%.

As ações ordinárias da Eletrobras também avançavam, chegando a 3,62% na máxima do dia, enquanto o Banco do Brasil, subia 1,57%.

O mercado repercute a última pesquisa DataFolha divulgada no sábado. De acordo com o levantamento, a intenção de voto para a presidente Dilma Rousseffrecuou seis pontos percentuais na comparação com a pesquisa de fevereiro, passando de 44% para 38%.

Apesar da queda, se a eleição fosse hoje, a presidente seria reeleita. Ainda segundo a pesquisa, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) teria 16% dos votos e ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB) teria 10%.

PAC 2: dos 106 empreendimentos em aeroportos, 32% ainda estão “no papel”

Marina Dutra
Contas Abertas


Para garantir atendimento à crescente demanda nos aeroportos do país, que se acentuará durante a Copa do Mundo, o governo prometeu investir, por meio do PAC 2, em 106 empreendimentos em aeroportos. Passados três anos do início da segunda etapa do programa, no entanto, 32% das obras previstas ainda estão “no papel”, seja em estágio de ação preparatória ou licitação de obra.

Conforme balanço realizado pelo Contas Abertas com base nos dados divulgados no 9º balanço do PAC 2, dos empreendimentos em aeroportos, apenas 32 já foram concluídos. Quatro estão em execução, 36 em obras, oito em licitação de obra e 26 em ação preparatória.

Com a prioridade de investir nos aeroportos das cidades que sediarão a Copa do Mundo, as aplicações nos aeroportos regionais ficaram prejudicadas. Dos 53 empreendimentos previstos em aeroportos afastados das capitais, 20 ainda estão em ação preparatória e oito em licitação de obra. Apenas 12 foram concluídos e 13 encontram-se em obras.

No PAC Aeroportos, a promessa relacionada aos investimentos nos aeroportos regionais é fazer com que a população do interior possa acessar as grandes capitais com transporte aéreo de qualidade, além de incentivar novas rotas regionais.

Contrariamente aos dados do 9º balanço do PAC 2, que informa que todos os empreendimentos são de responsabilidade da Infraero, a empresa afirma que entre os aeroportos regionais, apenas 26 intervenções em 16 aeroportos das 53 previstas estão sob a gestão da estatal. De acordo com a empresa, dez já foram concluídas, 12 estão em obras e quatro em ação preparatória.

A estatal afirmou ainda, que os empreendimentos da Infraero no PAC 2 incluem somente 21 Aeroportos, com 49 intervenções, sendo dois projetos, três torres de controle, três terminais de cargas, sete módulos operacionais, 13 pistas e/ou pátios e 21 terminais de passageiros. “Das 49 intervenções, temos 19 concluídas, 22 em obras, duas em elaboração de projeto e seis em ação preparatória”, afirma a empresa.

O relatório do PAC confirma o já divulgado pela imprensa: as obras no aeroporto de Porto Alegre estão em estado de atenção. Das três ações previstas no aeroporto, uma ainda está em obras e outra em ação preparatória.

De acordo com a Infraero a obra de reforma e ampliação do terminal de passageiros do Aeroporto Internacional de Porto Alegre será entregue em duas etapas: a reforma e ampliação do piso térreo de desembarque, com duas novas esteiras de restituição de bagagens será entregue em maio; e a ampliação do terminal, 2º e 3º pavimentos, com elevadores, escadas rolantes, e duas pontes de embarque e conexão da ampliação com o terminal existente ficarão prontas apenas em 2016.

A estatal afirma, no entanto, que o atraso nas obras não vai prejudicar os passageiros do aeroporto, principalmente durante a Copa. “O Aeroporto de Porto Alegre tem capacidade para 13,1 milhões de passageiros ao ano. Para 2014, a demanda prevista é de 10,7 milhões de embarques e desembarques, ou seja, mesmo sem as obras, o Salgado Filho já tem capacidade de atender a demanda prevista para este ano”, explica a empresa.

Dos empreendimentos concluídos pela Infraero, têm destaque a construção do terminal de passageiros 4, em Guarulhos, a concessão dos aeroportos de Brasília, Guarulhos e Campinas, e a implantação de módulos operacionais em sete aeroportos.

Outras ações significativas
A obra de modernização, reforma e ampliação do Terminal de Passageiros do Aeroporto de Confins, em Belo Horizonte (MG) só deve ficar pronta em setembro de 2014. A Infraero pretende realizar 60% da obra até o dia 30 de abril. Os investimentos previstos no aeroporto chegam a R$ 260 milhões.

As intervenções no Aeroporto de Manaus (AM) também só devem ser concluídas em setembro. Com investimento previsto de R$ 444,5 milhões, a expectativa é de que 93% das obras fiquem prontas até o final de abril. As ações incluem a reforma e ampliação do terminal de passageiros, a construção de novas áreas de check-in, embarque remoto e novas esteiras de bagagem.

O relatório do PAC prevê para o mês de abril a conclusão das obras de recuperação e revitalização dos sistemas de pistas e pátios, iniciadas em outubro de 2011. Os investimentos somam R$ 85,1 milhões. No total, incluindo as obras previstas nos dois terminais e nos sistemas de pistas e pátios, os investimentos da Infraero no Galeão chegam a R$ 439,9 milhões.

Melhoria na infraestrutura não acompanhou aumento da renda, diz Dilma. E de quem é a culpa, presidente?

Ezequiel Fagundes 
O Globo

Presidente assinou nesta segunda-feira contrato de concessão de Confins, em Minas
Segundo ela, governo está modernizando setor para atender à crescente demanda da população

Roberto Stuckert Filho/PR 
Dilma Rousseff e Moreira Franco na assinatura de 
contrato de concessão do Aeroporto Internacional Tancredo Neves 

BELO HORIZONTE – A presidente Dilma Rousseff afirmou nesta segunda-feira, durante solenidade de assinatura de concessão do Aeroporto Internacional Tancredo Neves, em Confins, na região metropolitana da capital, que as obras de infraestrutura do país não acompanharam o rápido processo de distribuição de renda do governo nos últimos dez anos. Às vésperas da Copa do Mundo, as obras no aeroporto mineiro não vão ficar totalmente prontas a tempo para a competição internacional. Atualmente, passageiros dividem espaço com operários e máquinas num ambiente de muito barulho e poeira.

— As pessoas que não viajaram nesse país dez anos atrás hoje viajam. As pessoas que vieram do Nordeste para o Sudeste voltam para visitar suas famílias no Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte. As pessoas do Sul do país com imensa curiosidade em relação as belíssimas praias do Nordeste vão passar suas férias no Nordeste. Todas as pessoas que nunca tiveram acesso ao avião, que nunca tiveram acesso a viagens rápidas neste país continental passaram a ter. Então o que aconteceu com o país: esse processo de distribuição de renda foi mais rápido do que o de melhoria na infraestrutura. Nós estamos criando condições para que isso ocorra o mais rapidamente possível — declarou a presidente.

Em seu discurso, a presidente defendeu a política de concessão dos aeroportos:

— O objetivo desse modelo é providenciar a modernização do setor, um setor que tem crescido extraordinariamente, o que reflete uma característica do nosso modelo de crescimento econômico. Quando nós elevamos para a classe média 42 milhões de brasileiros e tiramos da pobreza extrema em torno de 36 milhões de brasileiros nós criamos um mercado que demanda serviços e criamos também todo um processo de necessidades novas.

 ‘Podemos tapear as obras’, diz presidente da Infraero
Em novembro do ano passado, o aeroporto foi arrematado pela construtora CCR e pelos operadores aeroportuários internacionais Flughafen München e Flughafen Zurich por R$ 1,820 bilhão. O prazo de concessão é de 30 anos. A expectativa é de que sejam investidos R$ 3,5 bilhões. Assim como no Galeão, cujo contrato de concessão foi assinado na semana passada, a Infraero fica com 49% e o Consórcio AeroBrasil, agora BH Airport, com 51%. O contrato prevê melhorias no aeroporto, entre elas a construção de um novo terminal de passageiros e a ampliação do pátio de aeronaves.

Em coletiva à imprensa, o presidente da Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero), Gustavo do Vale, reconheceu o atraso na reforma do aeroporto de Confins e admitiu a possibilidade de “tapear” as obras durante o evento.

— Reconheço que as obras não ficarão com aquilo que prevíamos para a Copa. Podemos tapear as obras de modo que melhore a operacionalidade sem terminar ela como um todo. Em determinada área que está em obra, você isola aquela área mas libera outras áreas onde as obras já terminaram — afirmou.

Mesmo diante da corrida contra o relógio, Gustavo do Vale garantiu que Confins receberá os turistas com conforto e tranquilidade.

— O Terminal 3 vai ficar pronto até a primeira semana de maio, assim como como roda a parte operacional do Terminal 1 — disse.

Primeira etapa das obras termina em maio
Prometido para março, o Terminal 3, apelidado de “puxadinho”, está com apenas 41,71% da construção concluída, segundo a Infraero. Com capacidade operacional de 5,3 milhões de passageiros, o terminal remoto é fundamental para que Belo Horizonte receba bem os turistas que virão à capital. Os investimentos são de R$ 26,8 milhões. Também preocupa a situação do Terminal 1, cujas obras começaram em setembro de 2011. O percentual de conclusão da reforma e ampliação era, em 31 de janeiro, de apenas 43,26%.

Com o atraso no cronograma, a Infraero dividiu a obra em duas etapas. A primeira, com data limite em abril deste ano, agora estendida a maio, inclui a reforma e ampliação do saguão de embarque, nove novas pontes, oito elevadores, seis escadas rolantes, novos acessos de embarque, ampliação das salas de embarque, ampliação da sala de desembarque internacional, novo terraço panorâmico com praça de alimentação, cobertura da antiga via de acesso, dois novos banheiros e novas áreas administrativas.

Ficaram para a fase pós-Copa, com previsão de entrega até setembro, a nova área de check in, mezanino, salas de embarque remoto, de desembarque doméstico e internacional no térreo, prédio comercial, galerias técnicas, escadas de concreto, novos elevadores, esteiras de bagagem, Central de Utilidade Técnica, anexo social e a integração dos sistemas eletrônicos.

A reforma e ampliação da pista de pouso e do sistema de pátios também andam a passos lentos. A previsão de término nas intervenções no pátio é abril de 2014, enquanto a promessa para a pista de pouso é de conclusão ainda este mês. No entanto, até janeiro deste ano, só 33,04% haviam sido foram executados.

Hoje, Confins tem capacidade para 10,2 milhões de passageiros. Com a conclusão das obras do Terminal 1, a capacidade aumentará em 1,5 milhão/ano. E com o Terminal 3, crescerá mais 5,3 milhões, totalizando 17,1 milhões de passageiros por ano. A demanda prevista para 2014 é de 14 milhões de passageiros.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Ora quem, senão o senhor Lula da Silva, passou oito anos no poder e impediu com seu preconceito, a modernização da infraestrutura?  Quem, senão a senhora Dilma Rousseff fechará quatro anos e a infraestrutura nem se mexeu? 

É fácil ir para os palanques deitar falação sobre as necessidades do país e transferir a responsabilidade para os outros. Porém, o PT fechará dentre de poucos meses um ciclo contínuo de 12 anos no poder sem que a infraestrutura do país tenha recebido os investimentos que precisa para o Brasil avançar. Pelo contrário:  os investimentos definharam e o preconceito estúpido contra o capital privado se acentuou, e a tal ponto que a senhora Rousseff quis impor uma tabela de lucro para as concessões. Seria muito mais honesto se  os petistas tivessem a coragem de assumir seus próprios erros, o que não se enquadra no seu perfil.