quarta-feira, abril 09, 2014

O Barão do PT

Sebastião Nery
Gazeta de Alagoas


Rio – Era uma vez um barão. Um barão belga. Albert Frère. O homem mais rico da Bélgica e um dos mais ricos do mundo. Era dono da refinaria de Pasadena, no Texas, que comprou por 42 milhões de dólares como sucata e vendeu à Petrobras por um bilhão e 300 milhões de dólares.

Um dos maiores negócios (ou negociatas) do século, no Brasil e no mundo.

Através da empresa Astra Transcor Energy, o barão comprou essa refinaria em 2005 por 42 milhões de dólares e no ano seguinte, em 2006, vendeu a metade dela à Petrobras já por mais de 300 milhões de dólares. Foi um milagre evangélico. Multiplicou os peixes. 

E virou o barão do PT.

GDF SUEZ
O barão Albert é dono também de 8% das ações da GDF Suez Global LNG, maior produtora privada de energia do planeta, da qual é vice-presidente mundial. Através da GDF Suez, o barão chegou ao Brasil.

A GDF Suez possui negócios com a Petrobras no Recôncavo Baiano, mas seu principal negócio no Brasil é a Tractebel Energia, que tem no País um 

faturamento de quase 6 bilhões de reais anuais e é também do barão.

A Tractebel é dona das usinas de Estreito, Jirau, Machadinho, Itá e dezenas de outras hidrelétricas, termelétricas, eólicas. Todas no Brasil.

LULA E DILMA
Essa Tractebel, que é da GDF Suez e também do barão, foi uma grande doadora da campanha de reeleição de Lula, em 2006: 300 mil reais. Também foi uma das patrocinadoras do filme Lula, Filho do Brasil. 

Em 2010, para a eleição de Dilma, a Tractebel doou quase 900 mil reais. Eis aí o rabo da serpente. O dinheiro que ajudou a reeleger Lula e eleger 

Dilma veio, assim, mesmo que indiretamente, da Petrobras, daquela suspeitíssima bolada que a Petrobras pagou, inexplicavelmente, pela refinaria Pasadena. “Como é pequeno (e gordo) este mundo da corrupção”.

PETROBRAS
Um espetáculo doloroso vem envolvendo a Petrobras na sua criminosa mutilação. Nos últimos anos, a maior empresa brasileira, orgulho de gerações, foi esquartejada, aparelhada pela incompetência, gerando um ciclo de “malfeitos” (corrupções) inédito na sua história. 

E não é de agora, mas dos últimos doze anos, quando foi transformada em palanque populista e apêndice da política econômica. Não fosse a imprensa buscar a operação dos desvios e negociatas e tudo continuaria.

Exemplo: quando Lula assumiu a Presidência, em 1º de janeiro de 2003, uma ação da Petrobras era cotada a R$ 46,56. Para voltar hoje a esse valor, teria de ter uma correção de 223%. Os acionistas minoritários, donos de 48% do seu capital, tiveram suas finanças confiscadas pela incompetência do governo brasileiro. E mais: hoje, a cada 30 dias, a Petrobras perde mais de US$ 1 bilhão com importação de derivados.

Só rezando: Ave Maria, cheia de Graça Foster.

UNE
Os 50 anos do ainda não suficientemente execrado golpe militar de 1964 também foram para a frente da UNE (União Nacional dos Estudantes), numa faixa denunciando o terrorismo dos histéricos que a incendiaram na manhã de 1 de abril de 1964.

Levantando a faixa, estavam lá os ex-presidentes Alfredo Marques Viana (Casa do Estudante do Brasil), José Frejat, João Pessoa de Albuquerque, José Batista de Oliveira Júnior, Milton Coelho da Graça, Arnaldo Mourthé e outros, representando gerações que honraram a UNE.

Na hora, surgiu uma preciosidade histórica: uma carta de 7 de agosto de 1942, do presidente dos Estados Unidos Franklin Roosevelt, para o então presidente da UNE, Luiz Pinheiro Paes Leme, parabenizando os estudantes brasileiros pela luta contra o fascismo. Curiosidade: o Paes Leme era membro do então ilegal Partido Comunista do Brasil.

RENAN
À maneira do saudoso Zózimo Barroso.

E o Renan, hein?

Quanto mais o cabelo cresce mais a biografia desce

Corrigir a tabela do IRPF é apenas parte do problema

Raul Haidar
Revista Consultor Jurídico

Noticiou-se recentemente que o Conselho Federal da OAB vai ingressar com Ação Direta de Inconstitucionalidade pleiteando a correção da Tabela do IRPF. De fato, o quadro atual de tributação do imposto não obedece às normas constitucionais, na medida em que não se leva em conta a verdadeira correção dos seus valores.

 Já o Sindicato dos Auditores Fiscais da Receita Federal, lastreado em estudos técnicos que indicam defasagem de mais de 60% na mesma tabela, encaminhou à Câmara projeto de lei com o mesmo objetivo.
 Justiça é dar a cada um o que é seu. Temos que dar ao Estado o que lhe pertence, não mais do que isso. Ora, a inflação é fenômeno que corrói o poder aquisitivo da moeda, com o que a não aplicação integral de seus índices à tabela provoca óbvio confisco, alcançando valores que não podem ser tributados. Confisco é vedado pelo artigo 170 da CF. Assim, o sistema é flagrantemente inconstitucional.

Quanto ao que o poder público nos deve dar em troca, é questão a ser resolvida pelos nossos representantes, especialmente no legislativo. Enquanto não escolhermos as pessoas certas e continuarmos a dar nosso voto a figuras folclóricas, notórios mentirosos ou políticos que deveriam estar presos, não teremos mais do que mulas sem cabeça ou meliantes vivendo às nossas custas.

Temos que exigir um novo sistema de tributos, a começar pelo IRPJ. E aqui o problema não é só a tabela. Os abatimentos com dependentes e as despesas com educação devem ter seus valores trazidos para a realidade. Não faz sentido, por exemplo, imaginar que se possa manter um dependente com cerca de um terço de um salário mínimo ou que exista escola privada cobrando mensalidade de menos de R$ 300. Tais valores, absolutamente irrisórios, acabam provocando outro tipo de confisco.

Quando o CTN (artigo 43) diz que o fato gerador do IR é a disponibilidade de renda ou o produto do capital ou do trabalho, bem como os acréscimos patrimoniais, deixa claro que não se pretende tributar a receita bruta, mas aquilo que resta para o contribuinte, depois de deduzidos os gastos essenciais.

Exatamente por isso que pessoas jurídicas pagam imposto sobre o lucro e nada pagam quando não o apresentam. Mas a pessoa física pode ter um grande prejuízo em determinado exercício (despesas com doenças, crimes de que foi vítima etc) e mesmo assim paga o imposto sobre o rendimento, ainda que seu patrimônio tenha sido reduzido.

Leve-se em conta, ainda, que limitar e manter abaixo da realidade os investimentos com educação do contribuinte ou seus dependentes, revela que nossos legisladores optam pela ignorância, pois qualquer pessoa com um mínimo de discernimento sabe que os investimentos (e não despesas como os iletrados afirmam) em educação provocam um imenso retorno econômico para o país. Tais valores deveriam ser incentivados, até mesmo com dedução em dobro, de forma a demonstrar o interesse público na evolução cultural da sociedade.

Se devemos exigir que o poder público reconheça nossos direitos, não podemos aceitar, de forma alguma, a prática de atos ilícitos com o objetivo de reduzir o imposto a pagar. Um péssimo exemplo disso é a utilização de recibos falsos (material ou ideologicamente) de deduções admitidas, especialmente as relativas a médicos, dentistas etc.

Com os recursos da informática hoje disponíveis, o fisco pode detectar com facilidade tais crimes e aqueles que os tenham praticado só possuem, no caso da descoberta, uma saída: pagar o tributo e seus acréscimos. Tal pagamento custa bem menos que o preço e o constrangimento de um processo criminal que pode causar dano irreparável à imagem do cidadão.

O crime contra a ordem tributária pode ser apurado através de inquérito de competência da Polícia Federal, na hipótese em que a autoridade fiscal entender que os recibos apresentados apresentarem indícios de falsidade. Não basta que o emitente do recibo declare que prestou os serviços e que recebeu por eles. Uma vez lavrado o auto de infração e esgotada a fase administrativa, não recolhido o tributo e os encargos mesmo com a inscrição da dívida, o delito pode ser objeto de inquérito.

Equivocam-se aqueles que imaginam ser o sigilo absoluto em tais casos. Ele pode ser rompido pelo Judiciário com base nos mencionados indícios e no resultado do procedimento administrativo. E, uma vez instaurado o processo penal, o contribuinte passa ser réu , podendo ser o emitente do recibo colocado na mesma condição.

Defesa em  tais casos apresentam custo elevado que muitas vezes superam o valor das quantias que se discutem. Advogados que atuam na área criminal não defendem o valor da infração, mas um bem maior: a liberdade das pessoas. O valor isso é fora de qualquer tabela.

Vale a pena lembrar que um erro não justifica o outro. De nada adianta argumentar que o imposto é muito elevado, se foi cometido um crime para tentar sua redução. As questões tributárias não se resolvem com mágicas ou milagres, mas apenas com o trabalho técnico de profissionais sérios.

******* COMENTANDO A NOTÍCIA: 
Eis aí: há pelo menos cinco anos consecutivos denunciamos este verdadeiro crime que o governo petista comete contra a economia popular. E, como o tributarista Raul Haidar deixa claro no texto acima, a defasagem de 60% na correção da tabela do IRF, caracteriza um estúpido confisco que afronta o artigo 170 da Constituição Federal. 

O assunto está sob análise do Supremo Tribunal Federal. Não há o que se discutir ou se alongar na decisão que atenda os preceitos constitucionais.Trata-se de um flagrante desrespeito à lei e cabe aos ministros do STF repor a legalidade em favor da sociedade trabalhadora do país, que vem sendo agredida pelo Executivo Federal de forma vil e de forma premeditada. Que o STF, pelo menos desta vez, atento ao texto constitucional, não degrade sua função e não frustre a expectativa dos trabalhadores.    

Terra do samba e pandeiro.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Obras públicas no Brasil. Aqui há alguns casos de lentidão. A transposição do rio São Francisco, que deveria estar concluída em 2010, ainda está em obras, mas um dia certamente ficará pronta. O trem-bala, que deveria estar pronto para a Copa, ou para as Olimpíadas, ainda não foi sequer licitado. Mas, de acordo com o Ministério do Planejamento, suas obras estão em "andamento adequado".

Obras públicas fora do Brasil. Depois do Porto de Mariel, em Cuba, construído com financiamento do BNDES brasileiro (e concluído no prazo), vem aí um novo campeão de infraestrutura: a hidrelétrica de Tumarín, Nicarágua - país governado pelo bolivariano Daniel Ortega. Custo orçado? Perto de US$ 1 bilhão. Obra a cargo de uma grande doadora de campanhas, a Queiroz Galvão. Financiamento do BNDES, que buscará acordos com o BID, Banco Interamericano de Desenvolvimento, e o Banco Mundial. Os nicaraguenses não terão gastos, é tudo por nossa conta. O acordo foi discretamente assinado em 21 de março. Pelo Brasil, os signatários são, entre outros, Valter Cardeal, da Eletrobrás, e o presidente da Queiroz Galvão, José Diniz da Silva Filho. Pela Nicarágua, Francisco López, da empresa de energia Alba e tesoureiro do partido governante, o Sandinista. 

Investigações sobre irregularidades. A Justiça rejeitou a segunda denúncia contra executivos acusados de montar um cartel na área de Metrô e trens metropolitanos em São Paulo. Motivo: a apuração, mesmo com ajuda da Siemens, uma das empresas envolvidas, demorou tanto, mas tanto, que o caso está prescrito.

As escolhas de Gleisi
O principal candidato a coordenador da campanha de Gleisi Hoffmann ao Governo do Paraná, pelo PT, era Eduardo Gaievski. Foi preso sob acusação de abusar sexualmente de menores. Foi substituído por novo coordenador, um peso-pesado, que já tinha coordenado a campanha de seu marido, o hoje ministro Paulo Bernardo, a deputado federal: vice-presidente da Câmara dos Deputados, secretário de Comunicação do PT, ousado a ponto de tuitar que queria "dar uma cutovelada", escrito desse jeito mesmo, no ministro Joaquim Barbosa, que visitava o Congresso. 

Um trator! E cheio de bons amigos. Seu nome, André Vargas. 

Gleisi não tem tido sorte ao escolher seus coordenadores de campanha.

Esfolando os doentes... 
Não faz muito tempo, este colunista publicou no Observatório da Imprensa uma série de casos de mau atendimento a clientes por seus planos de saúde. O colunista Elio Gaspari, insistentemente e com grande brilho, vem mostrando como é que o sistema privado suga verbas da saúde pública. O jornalista Ricardo Kotscho conta o seu caso, recentíssimo: quebrou o braço num acidente, fez uma operação de seis horas, gastou R$ 36 mil e teve reembolso de R$ 1.575,00 (a propósito, é cliente antigo do seguro-saúde). 

Qual a força que têm as empresas para atender tão mal e ficar sempre livres de problemas?

...e retribuindo aos amigos
Uma boa pista sobre a impunidade de quem atende mal aos doentes acaba de aparecer na Câmara: numa Medida Provisória que trata de tributação de empresas brasileiras no Exterior, nobres deputados enxertaram algo que não tem nada a ver com isso, com o objetivo de reduzir as multas que os maus planos de saúde eventualmente venham a sofrer. Se um plano de saúde cometer de duas a 50 infrações e for multado por elas, pagará apenas duas multas. Acima de mil multas, pagará vinte. 

Traduzindo em reais: se uma operadora negar uma cirurgia legítima, pode ser multada em R$ 80 mil. Se for multada 50 vezes, a conta será de R$ 4 milhões. Será, não: seria. Pela Medida Provisória, cai para R$ 160 mil. Se houver mil multas, em vez de R$ 80 milhões a má operadora pagará R$ 1,6 milhão e fica por isso mesmo. Atender mal aos clientes vira um negócio ainda melhor.

A festa de sempre
A Medida Provisória foi aprovada na Câmara (sendo relator o deputado Eduardo Cunha, do PMDB fluminense) e vai agora ao Senado. A grita dos meios de comunicação, mais alguma pressão dos eleitores, talvez derrube o absurdo.

Mas ainda restará algo a resolver: de janeiro a agosto do ano passado, as operadoras de planos de saúde pagaram apenas 20,7% das multas que sofreram.

E se der certo? 
Quase ninguém quer a CPI da Petrobras: os políticos têm compromissos ou com o Governo, ou com empresas fornecedoras, ou com ambos, a não têm qualquer interesse em ver essas ligações escarafunchadas e divulgadas pelos meios de comunicação. 

Mas acidentes acontecem: uma falha dos operadores políticos, alguém que se julgue prejudicado, um parlamentar que esteja mais interessado em atingir o adversário do que em preservar-se, nada é impossível (Roberto Jefferson, lembremos, ao lançar-se ao ataque acabou também parando numa Papuda). Uma CPI, com o ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró louco para vingar-se dos que o menosprezaram, pode mexer no clima político - e não falta muito para a eleição. 

A luta continua
Mesmo se houver CPI há como abafá-la. Em 2009, foi criada uma CPI da Petrobras. O presidente Lula pôs Romero Jucá de relator. A CPI não deu em nada.

carlos@brickmann.com.br 
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De dia vai faltar água, de noite vai faltar luz

José Nêumanne
O Estado de S.Paulo

Este autor ainda não era o que os anglófonos chamam de teenager (maior de 13 anos) quando uma marchinha de sucesso tornava relativa a definição de "Cidade Maravilhosa" para a então capital da República, apregoando: "Rio de Janeiro, cidade que me seduz, de dia falta água, de noite falta luz". Muita água já moveu as turbinas do parque hidrelétrico nacional nos últimos 50 e poucos anos. E agora, de posse de uma autorização de "idoso" para estacionar em vagas especiais e furar filas em agências de bancos e portões de embarque, espero o dia em que a lâmpada não acenderá e da torneira o "precioso líquido" não jorrará. Mais dia, menos dia, é o que acontecerá.

Já imaginou os holofotes das monumentais arenas padrão Fifa de custo proibitivo desligadas por um apagão monumental por falta de água nos reservatórios, assim denominados por, em teoria, armazenarem "reservas" do mais farto combustível energético disponível no Brasil, a água? Já pensou uma final da Copa do Mundo sem água nos banheiros do Maracanã? Não é nada improvável. Este sertanejo, xará do santo padroeiro da igreja matriz de Jesus, Maria, José, em Uiraúna, no sertão do Rio do Peixe, onde foi crismado e batizado, aprendeu com o avô que chuva que não chega até 19 de março, dia em que se celebra a memória do chefe da Sagrada Família, só virá no ano que vem.

Bem que a presidente Dilma Rousseff tentou. Não evitar o inevitável, mas, sim, pedir ajuda ao patrono das chuvas tardias. Bem que seu adversário tucano, Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, tem demonstrado inabalável fé no chaveiro do céu, ao esperar indefinidamente por seu socorro ou pelos préstimos de Tupã, deus primitivo das tempestades entre nossos índios. Mas o verão de soleira seca e atmosfera árida acabou, o outono velho de guerra entrou em cena e nem São José nem São Pedro abdicaram da imparcialidade de sua condição de protetores de todos e não têm mostrado grande disposição para fazer boca de urna para eles: é proibida até para habitantes do céu.

Além do mais, vamos convir que, se são santos, eles também precisam ser justos. E injustos seriam se premiassem a incúria dos gestores públicos brasileiros, sejam federais ou estaduais, em relação às necessárias providências para que não faltem água e luz à população que cresce e paga impostos pesadíssimos, mas não os vê transformados em obras planejadas para resolver os problemas de escassez de oferta, que deveriam ser previsíveis, e nunca simplesmente ignorados. O Sistema Cantareira, engenhosa conjugação de represas que, a uma razoável distância da Grande São Paulo, tem abastecido a maior parte de sua população, não serviu de modelo para nada depois.

Qualquer leigo em armazenamento de água, incluindo o que redige estas mal traçadas linhas, está, no mínimo, calvo de saber que a mais populosa região metropolitana do Brasil é carente de bacias fluviais nas proximidades de seus limites para atender à crescente demanda do insumo. Governadores tucanos sucederam-se no principal gabinete do Palácio dos Bandeirantes por anos a fio (Mário Covas, Geraldo Alckmin, José Serra e Alberto Goldman), com intervalo ocupado por aliado (Cláudio Lembo), sem que nenhum deles tivesse a luminosa ideia de gastar parte da dinheirama ao seu dispor para providenciar barragens similares que pudessem afastar para as calendas os riscos do "de dia falta água" dos velhos tempos. Só eles poderiam ter tomado a providência. Se não o fizeram, que diabos São Pedro tem que ver com isso?

O caso da eletricidade em nada é diferente. Desde as gestões do também tucano Fernando Henrique nosso sistema hidrelétrico tem dado sinais de esgotamento. Apagões em sequência na gestão dele ajudaram a eleger os petistas Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Oito anos depois da saída do PSDB do poder federal, a "gerentona" maldisse a gestão energética tucana.

Lula não enfrentou problemas de monta no setor, mas apagões têm ocorrido com frequência e em sequência sob a égide da sucessora que ele tirou do bolso do colete e elegeu. Com uma agravante: Dilma Rousseff foi ministra de Minas e Energia e, na condição de chefe da Casa Civil, mandou e desmandou na geração e distribuição de energia em território nacional. Apelar para São José, como ela fez dia destes, é de uma desfaçatez de fazer corar frade de pedra. Como hoje qualquer brasileiro medianamente informado está ciente de que as duas gestões petistas produziram descalabro vexaminoso na contabilidade das gigantescas estatais da eletricidade (Eletrobrás) e do petróleo (Petrobrás), não é segredo para ninguém que cabe à "mãe da luz" enorme responsabilidade pela falta de previdente planejamento que levou o setor ao risco de completar a praga da marchinha: noites de treva espreitam o calendário. Com as consequências desastrosas que produzirão: de eletrodomésticos desligados à impossibilidade de resguardar a segurança de transeuntes em vias públicas sem iluminação.

No entanto, a eleição vem aí e tanto Alckmin, carola convicto, quanto Dilma, agnóstica oportunamente convertida, preferem contar com a visita inesperada das monções tropicais em estações de estiagem a compensar com o mínimo de coragem o máximo de imprevidência que, a exemplo de seus antecessores, cometeram. Afinal, racionamento, impopular, é voto perdido na certa. E, por enquanto, as pesquisas dão como certa a reeleição de ambos. O jeito é manter a fé nos deuses e santos dos temporais e pé firme nos índices prometidos pelos institutos. O cidadão que vota, neste raciocínio, é mero detalhe, naturalmente. Até porque ninguém pode contar com Tupã, São Pedro ou São José. Deus e santos jamais poderiam acumpliciar-se com quem abusou de dilapidar o patrimônio do povaréu em tenebrosas transações. E, não sendo estas devidamente investigadas, terminam é premiados com a impunidade garantida.

Planos de saúde recebem, mas não pagam

Elio Gaspari
O Globo

Artigo de MP aprovada na Câmara concedeu anistia parcial aos planos de saúde que não cumprem os contratos

Articula-se no Congresso uma CPI para a Petrobras. Pode ser boa ideia, mas seria bom se alguém pudesse criar a CPI do Congresso. Na terça-feira passada, a Câmara aprovou a Medida Provisória 627, que trata da tributação de empresas brasileiras no exterior. Como é praxe, seu texto foi enxertado por 523 contrabandos. Entre eles, um artigo concedeu anistia parcial aos planos de saúde que não cumprem os contratos, apesar de embolsarem as mensalidades das vítimas. O truque é simples. Há multas que vão de R$ 5 mil a R$ 1 milhão. Como nas infrações de trânsito, cada multa é uma multa.

Até dia 31 de dezembro deste ano eleitoral em que o Senado poderá ratificar a maluquice e a doutora Dilma poderá sancioná-lo, as empresas terão a seguinte pista livre: a empresa que tomou de duas a 50 multas da mesma natureza, pagará apenas duas; de 50 a 100, mais duas; acima de mil, vinte. Assim, quem foi multado cem vezes, pagará quatro penalidades. Em números: uma multa por negativa de procedimento custa R$ 80 mil. Quem delinquir cem vezes, paga R$ 8 milhões, mas com a mudança pagará R$ 320 mil.

Os defensores do truque deveriam contar por que não aplicam a mesma tabelinha aos clientes que deixarem de pagar as mensalidades estabelecidas nos contratos. Caloteou 50 pagamentos, paga dois.

A maracutaia estimula a delinquência, penaliza quem não delinque e favorece poderosos delinquentes, quase todos grandes financiadores de campanhas. (Entre 2006 e 2012 elas cresceram 37,2%, para pelo menos R$ 8,6 milhões.)

Se tudo isso fosse pouco, a doutora Dilma indicou para uma diretoria da Agência Nacional de Saúde o doutor José Carlos Abrahão. Ele é um sincero adversário das normas legais que obrigam as operadoras a ressarcir o SUS quando seus clientes são atendidos pela rede pública. Pelo cheiro da brilhantina, se algum dia vierem a cobrá-la por essa indicação, poderá dizer que se baseou em “informações incompletas” ou num parecer “técnica e juricamente falho”, como no caso da refinaria de Pasadena.

Pagar imposto é coisa de otário
Pela ordem social do andar de cima há no país os cavalgados e os cavalcantis. Os cavalgados compram suas coisas e pagam todos os impostos no caixa. Trabalham o mês todo e quando recebem o contracheque, ele vem com a mordida do imposto de renda.

Os cavalcantis não pagam o que a Receita cobra e, uma vez autuados, esperam que o governo lhes ofereça um plano de refinanciamento do débito. Os descontos são tamanhos que não pagar torna-se bom negócio. O truque atende pelo nome de Refis, e num acordo do governo com a oposição (em ano eleitoral) a Câmara dos Deputados, numa Medida Provisória relatada pelo deputado Eduardo Cunha, acaba de patrocinar mais uma festinha. É o Refis 8.0. Resta saber se a doutora Dilma vai sancioná-la,

O Refis socorre sonegadores desde 1999. Por meio de engenhosos mecanismos, tornou-se um benefício contínuo. Houve empresa com a dívida parcelada por 1.066 anos. Outra, que devia R$ 128 milhões, passou a pagar R$ 12 por mês. Bancos e multinacionais já refinanciaram R$ 680 bilhões. A Vale parcelou uma cobrança de R$ 45 bilhões com 50% de desconto. A Companhia Siderúrgica Nacional safou-se de uma dívida de R$ 5 bilhões. A Braskem podou um espeto de R$ 1,9 bilhão.

Em 2009, a secretária da Receita, Lina Vieira, disse que, com esse gatilho, “o bom contribuinte se sente um otário”. Ela foi demitida pouco depois pelo ministro Guido Mantega.

Sempre que o governo maquia o Refis vem o argumento de que com ele arrecada-se cerca de 15% do que está emperrado. É verdade, mas deixa-se de receber o que se cobrou aos cavalcantis, o que nunca acontece com os cavalgados.

Eremildo, o idiota
Eremildo é um idiota e soube que a Vale arrisca tomar um tombo de US$ 507 milhões na Guiné. Em 2010 ela comprou a um empresário israelense parte da concessão da grande jazida de minério de ferro de Simandou. Mudou o presidente e seu sucessor resolveu reexaminar a maneira como a concessão foi vendida e ameaça cancelá-la.

Mesmo sendo idiota, Eremildo não consegue entender o que há na cabeça de sábios brasileiros que se metem em negócios com sobas africanos. O cretino sabe que a Guiné Equatorial nada tem a ver com a outra Guiné, mas convenceu-se de que Lula foi lá em 2011 para representar a doutora Dilma num encontro da União Africana em busca de encrencas. Nosso Guia viajou num avião da Odebrecht e incluiu um diretor da empresa na sua comitiva.

A Guiné Equatorial é um pequeno país de 700 mil habitantes que flutua sobre petróleo. Tem a maior renda per capita da África, mas os nativos vivem na miséria (70% da população com menos de dois dólares por dia). Já o clã dos Obiang, que governa a terra desde 1979, vai bem, obrigado. Um deles tem um apartamento de US$ 15 milhões em São Paulo, e outro negociou a compra de um triplex de US$ 10 milhões na Avenida Vieira Souto. Quando Lula foi ver Obiang, o embaixador Celso Amorim disse que “negócios são negócios”. Resta saber quais eram os negócios.

A empresa holandesa SBM, locadora de plataformas de petróleo, acaba de informar que pagou US$ 18,8 milhões em propinas na Guiné Equatorial. Se esse dinheiro fosse para o povo, renderia 26 dólares para cada um. Para o Fundo Obiango, renderia mais um apartamento.

Isonomia
Ameaçando criar a CPI do Fim dos Mundo 2.0, o PT não conseguirá limpar uma só nódoa nos negócios da Petrobras. Apesar disso, demonstrou que o tucanato está disposto a qualquer coisa para não mexer com o cartel da Alstom.

Estão nessa desde 1995, quando o patrono da empresa organizou uma revoada de notáveis para assistir a posse de Bill Clinton. O pior é que a turma dizia que foi convidada pelo governo americano, quando se sabe que a posse de presidentes em Washington é um evento doméstico.

Lorota
Sabendo-se que é falsa a informação do ex-diretor Nestor Cerveró, segundo a qual os conselheiros da Petrobras receberam o contrato de compra da refinaria de Pasadena com 15 dias de antecedência, fica uma pergunta: Qual é a linha que separa a verdade das lorotas dos petrocomissários?

Madame Natasha
Madame Natasha zela pela malha do idioma e concedeu mais uma de suas bolsas de estudo aos sábios que redigiram o Plano Diretor Estratégico da prefeitura de São Paulo pelo paragrafo único do seu artigo 178, que diz o seguinte:

“A Zona Rural do Município de São Paulo é multissetorial e multifuncional, comportando a diversidade de atividades integrantes das cadeias produtivas da agricultura e do turismo, incluindo infraestrutura e serviços a elas associados, e exercendo as funções de produção, inclusão social, prestação de serviços e conservação ambiental características da ruralidade contemporânea.”

A senhora acredita que eles poderiam ter escrito a mesma coisa a respeito da Lua.

Vara curta

Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

Essa história tem 30 anos. O senador Aécio Neves lembrou-se dela outro dia, quando a pesquisa do Ibope registrou queda na popularidade da presidente Dilma Rousseff e, no PT, agitaram-se as vozes defensoras do "volta, Lula".

Mário Andreazza e Paulo Maluf disputariam a legenda da Arena para a candidatura presidencial. Para Tancredo Neves, avô de Aécio, então seu secretário particular, interessava a vitória de Maluf na convenção, pois Andreazza teria, na sua avaliação, mais condições de vencê-lo no colégio eleitoral de janeiro de 1985.

Tancredo, então, resolveu "confidenciar" a uma jornalista que corria um burburinho sobre uma possível renúncia de Maluf à candidatura. No dia seguinte, diante da manchete, Maluf desmentiu com veemência, reafirmando a postulação da qual, jurou, não desistiria de forma alguma.

Inspirado nesse episódio, o agora candidato à Presidência da República há cerca de dez dias decidiu abordar pela primeira vez o assunto da possibilidade de o ex-presidente ser candidato nesta eleição, dizendo que para ele tanto faz enfrentar Lula ou Dilma.

Voltará ao tema sempre que considerar oportuno. Oportunidade esta de atingir múltiplos objetivos. O primeiro foi lançar um dos motes da campanha, que é a ideia de derrotar "o modelo do PT" independentemente de quem for o candidato a fim de capitalizar "uma antipatia generalizada que existe contra o partido".

O segundo, desmistificar a figura de Lula como um candidato considerado imbatível. "Quis mostrar que não temos medo." Outro, e aí a provocação assemelha-se ao gesto do avô, amplificar o coro do "volta Lula" de forma a mais cedo ou mais tarde obrigar a presidente Dilma a reafirmar sua candidatura.

Qual a finalidade? Evidentemente, tornar cada vez mais difícil a hipótese da troca de nomes. Além disso, na concepção do tucano, falar abertamente na possibilidade de outra candidatura que não seja a da reeleição de Dilma é uma maneira de disseminar a cizânia no campo adversário e dar a entender que o jogo do lado de lá não está definido.

Além disso, Aécio Neves quis mandar um recado à própria tropa, pois considerou que o PSDB estava muito passivo diante do assunto. Melhor dizendo, acuado mesmo. "Achei que era hora de furar essa bolha, tratar o tema com naturalidade porque Lula não é um fantasma nem é uma unanimidade."

Arsenal. 
Os adversários já contam com a ausência da presidente Dilma Rousseff nos debates antes do primeiro turno das eleições.

Ainda assim vão explorar o tema Petrobrás, deixando no ar à presidente os questionamentos tanto sobre os negócios que renderam prejuízos quanto a respeito da redução do valor e da capacidade de investimento da estatal durante sua gestão.

Isso nos debates e nos programas do horário eleitoral. Dilma será convidada a explicar também por que o governo se empenhou tanto contra a CPI.

A Petrobrás será presença recorrente na campanha. Pesquisas internas feitas no campo da oposição identificaram que mais de 70% dos consultados já ouviram falar das denúncias "de corrupção" (a pergunta foi posta nesses termos) na empresa e que o assunto é de fácil entendimento por parte da população.

Tudo junto. 
Para tentar superar as dificuldades do PSDB no Rio, Aécio Neves vai jogar em duas vertentes: na aliança informal com o PMDB e na candidatura própria ao governo do Estado.

Enquanto no oficial assegura apoio à presidente Dilma, no paralelo Sérgio Cabral Filho cala e consente ante a articulação do voto "Aezão" por pemedebistas defensores do apoio ao tucano para presidente e Luiz Fernando Pezão, candidato de Cabral, para governador.

A fim de marcar presença do número 45 na disputa, o PSDB estuda lançar a candidatura de um economista. Está entre três nomes: Elena Landau, Edmar Bacha e Gustavo Franco.

PAC, PAC, PAC

Mary Zaidan
Blog Noblat

As obras dos PAC 1 e 2 continuam empacadas, boa parte delas só existe no papel. Ainda assim, sem qualquer constrangimento, nem mesmo um leve rubor, a presidente Dilma Rousseff anunciou que lançará o PAC 3 em agosto, dois meses antes da eleição. Cumprindo à risca o cardápio dos marqueteiros de sua campanha, insiste na troça.

Depois de derrapar nos trilhos do trem-bala – prometido para antes da Copa 2014, quando ela foi alçada à categoria de “mãe do PAC” pelo ex Lula -, a presidente reincidiu na prática ilusionista. Desta vez com a promessa de incluir o contorno ferroviário de São José do Rio Preto no próximo PAC.

Lançado por Lula em 2007, com o nobre propósito de acelerar investimentos na escassa e sucateada infraestrutura nacional, o PAC mais atrasou do que avançou. Obras como o Arco Rodoviário do Rio de Janeiro ou a transposição do Rio São Francisco, previstas para quatro anos atrás, que o digam. Foram lançadas para as calendas.

 Foto: Paulo H. Carvalho / Casa Civil - PR
Lançamento PAC2. 

Três anos mais tarde, o PAC mostrou a sua verdadeira vocação: ser o principal instrumento de campanha para a candidata que Lula inventou. Em março de 2010, quando o calendário eleitoral definiu o lançamento do PAC 2, apenas 11,3% do PAC original tinham sido executados; 54% estavam só no papel ou nem nele. Até Lula teve vergonha. “Eu não estou contente com o que fizemos até agora e acho que nenhum de vocês está contente”, disse o ex à época.

A reclamação de Lula foi só mais do mesmo: jogo de cena. Estava ruim e ruim continuou.

De acordo com levantamento do site Contas Abertas, publicado sexta-feira, dia 4, das 50 mil obras e empreendimentos do PAC 2, apenas 12% foram concluídas ou estão em operação. Mais da metade, 53,3%, não abandonou o papel. Pior. A maioria das obras estacionadas são as de que as pessoas mais necessitam: creches e unidades de saúde.

Tudo em torno do PAC parece ficção. Embora a dotação orçamentária de 2013 tenha sido de R$ 67 bilhões, foram desembolsados R$ 44,7 bilhões, mais da metade, R$ 25 bilhões, restos a pagar do ano anterior. Ou seja, em um ano, os recursos aplicados nas obras do PAC somaram menos da metade dos US$ 18 bilhões enterrados em Abreu e Lima (PE), negócio feito entre Lula e então presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que até hoje não refina uma só gota de óleo.

Ao que parece, Dilma não se apoquenta com os resultados pífios do programa selado como de sua maternidade. Se uma obra não sai do lugar, promete-se outra e outra. Lança-se o PAC 3, quem sabe o PAC 4 ou quantos for preciso.

No palanque, vale tudo, faz-se o diabo, como a própria presidente antecipou. Resta saber até quando os eleitores vão crer nas histórias de carochinha que essa mãe conta.

O gesto e o fato

Merval Pereira 
O Globo

Depois de meses acompanhando o julgamento do mensalão, já é de conhecimento público que o crime de corrupção passiva, descrito no artigo 317 do Código Penal, é de mera conduta, sendo consumado com o simples ato de “aceitar promessa” de vantagem, sendo desnecessário o recebimento da propina. Desse ponto de vista, basta o diálogo entre o agora deputado federal petista licenciado André Vargas e o doleiro Alberto Youssef para caracterizar a corrupção.

O doleiro garante que o negócio no Ministério da Saúde, para o qual pede o apoio do deputado, fará a “independência financeira” dos dois. E ainda termina a mensagem de texto com uma gargalhada digital (kkkkk). Vargas não apenas não rejeita a oferta como, em outra mensagem, garante que vai “atuar” para agilizar o processo no ministério a fim de ajudar o “amigo de 20 anos”.

O contrato da Labogen Química Fina e Biotecnologia, que segundo a Polícia Federal é um dos braços do esquema de lavagem de dinheiro do doleiro, com o Ministério da Saúde, no valor de R$ 150 milhões para o fornecimento do princípio ativo do Viagra, foi assinado pelo ministro Alexandre Padilha, outro cardeal do PT, hoje candidato ao governo de São Paulo.

Além disso, haveria um empréstimo do próprio ministério para a empresa de cerca de R$ 30 milhões, que acabou suspenso quando surgiu a investigação que colocou na cadeia os sócios do laboratório, que na verdade era uma empresa de fachada para remessa de dólares para o exterior e contratos fraudulentos como esse.

O ex-provável futuro presidente da Câmara André Vargas agora trata de tentar salvar a própria pele em vez de fazer planos grandiosos que não cabem em seu histórico. Ao pedir afastamento por 60 dias do mandato, ele joga com a possibilidade de esfriar o escândalo nesse período, mas dificilmente isso acontecerá.

A série de telefonemas entre ele e o doleiro está com a Polícia Federal e ele sabe que suas conversas, assim como as do ex-senador Demóstenes Torres com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, desnudam sua relação com o doleiro, que já está caracterizada pela Polícia Federal como muito mais que uma simples amizade.

Seu processo acaba de ser enviado para o Supremo Tribunal Federal (STF) para que seja feita uma investigação que só essa instância da Justiça pode fazer com os que têm mandato parlamentar. O mesmo Supremo que Vargas tentou desmoralizar ao erguer os punhos cerrados ao lado do presidente Joaquim Barbosa.

O ex-secretário nacional de Comunicação do PT ainda caiu na besteira de enviar uma mensagem pelo celular dizendo que teve vontade de dar uma cotovelada em Barbosa, que estava a seu lado. Não é à toa que o deputado licenciado, prestes a perder o mandato, sempre esteve na linha de frente pelo “controle social da mídia”.

Todos os seus desvios éticos, desde a carona no jatinho do doleiro, os contratos nebulosos com o Ministério da Saúde que lhe dariam “independência financeira”, até a má educada mensagem sobre Joaquim Barbosa, foram revelados pela imprensa que ele sonha controlar um dia através de “conselhos da sociedade”.

Os partidos oposicionistas PSDB, DEM e PPS, por um lado, e o PSOL pelo outro, apresentaram nesta segunda-feira uma representação no Conselho de Ética da Câmara, e sua licença para cuidar de “assuntos pessoais”, como se seu trabalho de lobista de doleiro não fosse exatamente isso, não terá o condão de interromper as investigações.

Ele pode optar pela renúncia ao mandato para evitar a cassação e se candidatar novamente em outubro. Mas nada disso parará as investigações. O gesto “revolucionário” de erguer o punho em sinal de resistência pode ser repetido mais adiante no mesmo cenário que seus companheiros petistas o fizeram, na entrada do presídio da Papuda, em Brasília.

A revisão da anistia

Paulo Brossard
Zero Hora

Uma revisão da lei de anistia se assemelharia a uma anistia retroativa a deparar com o vácuo

Confesso estar impressionado, e não é de hoje, com o que me parece uma espécie de esquecimento quanto ao que foi feito, progressivamente, em matéria das instituições nacionais, estaduais e também municipais. Dirigentes partidários, administradores de mérito, parlamentares de variado prestígio, pela lei da morte ou não, foram se extinguindo sem renovação. Hoje é difícil saber quais e quantos são os ministros, e se faz necessário divulgar o respectivo curriculum vitae para saber-se de quem se trata. E o mesmo se pode dizer das representações parlamentares. Não se sabe donde vem, nem para onde vão.

É claro que para explicar um fenômeno haverá uma pluralidade de causas, mas, para mim, uma das maiores reside no período de governo absoluto servido por uma censura absoluta. Tudo poderia ser feito e tudo veio a ser feito, sem que notícia deles chegasse sequer a uma parcela mínima da comunidade. O segredo era total. Basta dizer que durante o tempo em que estive próximo aos acontecimentos, nunca chegou ao meu conhecimento algum dado concreto relativo a uma atrocidade, que me tivesse sido revelado, por exemplo. De outro lado, por incrível que possa parecer, ninguém estranhou que a “Constituição” ostentava a declaração dos direitos e garantias individuais, que eram excluídos pelo AI-5; em outros tempos, em casos semelhantes, não faltaram manifestações de entidades docentes ou culturais, que naquela época fora omissas.

A certa altura, a oposição passou a defender a anistia _ “ampla, geral e irrestrita”, e como falasse em “anistia recípocra” o governo, irritado, proclamou que os vencedores não precisavam de perdão. Certo dia, porém, a “bomba do Riocentro” estilhaçou os segredos e num dado momento o governo percebeu que a ele também interessava a anistia e, mediante transigências ela foi aprovada; posso dizer que sem elas, então, a anistia não seria decretada. Não foi a anistia que eu queria, mas foi a possível e que, Deus louvado, sem exagero, mudou a face do Brasil. A anistia decretada pela Lei 6.683 de 28/8/1979, agora apontada como merecedora de revisão, parece não ter sido desprezível. A meu juízo, foi necessária e benéfica, mudou a face do Brasil. A propósito, lembro que a senhora Dilma Rousseff foi por ela anistiada, e hoje é a presidente da República.

Pois se lembro dessas coisas é porque, agora, ao ensejo dos 50 anos do movimento que culminou no afastamento do presidente Goulart, começou a falar-se abundantemente em “revisão da lei de anistia”, quando, decorrido mais de um terço de século, uma unanimidade nacional se estabeleceu a seu respeito.

Ora, a anistia é de aplicação instantânea e imperativa, independente de quererem ou não seus destinatários; sua amplitude atinge até condenação criminal transitada em julgado; a que foi decretada em 28/8/1979, pela Lei 6.683, apagou a todos os que, entre setembro de 1961 a 15 de agosto de 1979, cometeram “crimes políticos ou conexos com eles, eleitorais…”. De modo que, o que havia deixou de existir, como se nunca houvesse existido; destarte, uma revisão da lei de anistia se assemelharia a uma anistia retroativa a deparar com o vácuo. Enfim, a anistia de 1979 anistiou.

Lamento que não possa estender-me sobre a anistia, importante e interessante. Premido pelo espaço, noto apenas que ela não se funda na Justiça, mas na temperança, no esquecimento, e particularmente na paz, que a juízo da lei, se faça aconselhável.

Os gigolôs da memória

Marco Antonio Villa
O Globo

Não é possível ignorar o caos instalado no país em março de 1964

A lembrança dos 50 anos da queda de João Goulart ocupou amplo espaço na imprensa. Nenhum outro acontecimento da história do Brasil foi tão debatido meio século depois do ocorrido. Para um otimista, isto poderia representar um bom sinal. Afinal, o nosso país tem uma estranha característica de esquecer o que ocorreu ontem. Porém, a reflexão e o debate sobre 1964 e o regime militar acabaram sendo dominados justamente por aqueles que conduziram o país à crise da república populista e que negaram os valores democráticos nos anos 1960-1970.

A tendência à hagiografia mais uma vez esteve presente. João Goulart foi transformado em um presidente reformista, defensor dos valores democráticos e administrador capaz. Curiosamente, quando esta narrativa é cotejada com relatos de assessores, como o ministro Celso Furtado, ou de um amigo, como o jornalista Samuel Wainer, cai por terra. Furtado, em entrevista à revista “Playboy” (abril, 1999) disse que Jango “era um primitivo, um pobre de caráter”. Wainer relatou que “uma vez por mês, ou a cada dois meses, eu visitava os empreiteiros e recolhia suas doações, juntando montes de cédulas que encaminhava às mãos de João Goulart. (…) Eu poderia ter ficado multimilionário entre 1962 e 1964. Não fiquei.” (“Minha razão de viver”, p. 238).

Não é possível ignorar o caos instalado no país em março de 1964. A quebra da hierarquia militar incentivada pelo presidente da República é sabidamente conhecida. A gravidade da crise econômica e a inépcia governamental em encontrar um caminho que retomasse o crescimento eram mais que evidentes. O desinteresse de Jango de buscar uma solução negociada para o impasse não pode ser contestado: é fato. O apego às vazias palavras de ordem como um meio de ocultar a incompetência político-administrativa era conhecido. Conta o senador Amaral Peixoto, presidente do Partido Social Democrático, que em conversa com Doutel de Andrade, um janguista de carteirinha, este, quando perguntado sobre o projeto de reforma agrária, riu e respondeu: “Mas o senhor acredita na reforma agrária do Jango? No dia em que ele fizer a reforma agrária, o que vai fazer depois?” (“Artes da política”, p.455)

Também causa estranheza a mea culpa de alguns órgãos de imprensa sobre a posição tomada em 1964. A queda de Jango deve ser entendida como mais um momento na história de um país com tradição (infeliz) de intervenções militares para solucionar crises políticas. Nos 40 anos anteriores, o Brasil tinha passado por diversas movimentações e golpes civis-militares. Basta recordar 1922, 1924, Coluna Prestes, 1930, 1932, 1935, 1937, 1938, 1945, 1954, 1955 — tivemos três presidentes da República e dois golpes no mês de novembro – e 1961.

Jogar a cartada militar fazia parte da política. E nunca tinha ocorrido uma intervenção militar de longa duração. Esperava-se um governo de transição que garantisse as eleições de 3 de outubro de 1965 e a posse do eleito em 31 de janeiro de 1966. Esta leitura foi feita por JK — e também por Carlos Lacerda. Os dois principais antagonistas da eleição que não houve imaginavam que Castello Branco cumpriria o compromisso assumido quando de sua posse: terminar o mandato presidencial iniciado a 31 de janeiro de 1961.

JK imaginou que Castello Branco era o marechal Lott e que 1964 era a repetição — um pouco mais agudizada — da crise de 1955. Errou feio. Mas não foi o único. Daí a necessidade de separar 1964 do restante do regime militar. Muitos que foram favoráveis à substituição de Jango logo se afastaram quando ficou patente a violação do acordado com a cúpula militar. Associar o apoio ao que se imaginava como um breve interregno militar com os desmandos do regime que durou duas décadas é pura hipocrisia.

Ainda no terreno das falácias, a rememoração da luta armada como instrumento de combate e vitória contra o regime foi patética. Nada mais falso. Nenhum daqueles grupos — alguns com duas dúzias de militantes — defendeu em momento algum o regime democrático. Todos — sem exceção — eram adeptos da ditadura do proletariado. A única divergência é se o Brasil seguiria o modelo cubano ou chinês. Não há qualquer referência às liberdades democráticas — isto, evidentemente, não justifica o terrorismo de Estado.

A ação destes grupos os aproximaram dos militares. Ambos entendiam a política como guerra — portanto, não era política. O convencimento, o respeito à diversidade, a alternância no governo eram considerados meras bijuterias. O poder era produto do fuzil e não das urnas. O que valia era a ação, a força, a violência, e não o discurso, o debate. Garrastazu Médici era, politicamente falando, irmão xifópago de Carlos Marighella. Os extremos tinham o mesmo desprezo pelo voto popular. Quando ouviam falar em democracia, tinham vontade de sacar os revólveres ou acionar os aparelhos de tortura.

Em mais de um mês não li ou ouvi qualquer pedido de desculpas públicas por parte de ex-militantes da luta armada. Pelo contrário, se autoproclamaram os responsáveis pelo fim do regime militar. Ou seja, foram derrotados e acabaram vencedores. Os policiais da verdade querem a todo custo apagar o papel heroico da resistência democrática. Ignoraram os valorosos parlamentares do MDB. Alguém falou em Lysâneas Maciel? Foi ao menos citado o senador Paulo Brossard? E a Igreja Católica? E os intelectuais, jornalistas e artistas? E o movimento estudantil? E os sindicatos?

Em um país com uma terrível herança autoritária, perdemos mais uma vez a oportunidade de discutir a importância dos valores democráticos.

Eu sei o que você escreveu ontem

Demétrio Magnoli 
Folha de S. Paulo

Carta foi quercista quando Orestes Quércia tinha poder (e manejava verbas publicitárias). Hoje, é lulo-dilmista até o fundo da alma

 “Os senhores escravocratas do século 21 ainda se movem ao sabor das crenças de 50 anos atrás (…)”, escreveu Mino Carta na revista “CartaCapital” do dia 2/4, para concluir: “Daí a oposição sistemática aos governos Lula e Dilma”. Na política, o passado é uma massa de modelagem sempre disponível para servir aos interesses do presente. Sugerir que os críticos do lulismo são reencarnações dos golpistas de 1964 já se tornou um clássico da “imprensa” chapa-branca. Quando, porém, a fábula emana do teclado de Carta, um cheiro de queimado espalha-se no ar.

Nos idos de 1970, Carta ocupava o cargo de diretor de Redação da revista “Veja” e assinava os editoriais com suas iniciais. O que M.C. escreveu em 1º de abril de 1970, sexto aniversário do golpe, está no acervo digital da revista:

“Propostos como solução natural para recompor a situação turbulenta do Brasil de João Goulart, os militares surgiram como o único antídoto de seguro efeito contra a subversão e a corrupção (…). Mas, assumido o poder, com a relutância de quem cultiva tradições e vocações legalistas, eles tiveram de admitir a sua condição de alternativa única. E, enquanto cuidavam de pôr a casa em ordem, tiveram de começar a preparar o país, a pátria amada, para sair da sua humilhante condição de subdesenvolvido. Perceberam que havia outras tarefas, além do combate à subversão e à corrupção –e pensaram no futuro.” Fofo?

Enquanto Paulo Malhães lançava corpos em rios, M.C. batia bumbo para Médici. A censura não tem culpa: os censores proibiam certos textos, mas nunca obrigaram a escrever algo. Os proprietários da Abril não têm culpa (ou melhor, são culpados apenas pela seleção do diretor de Redação): segundo depoimento (nesse caso, insuspeito) de um antigo editor da revista e admirador do chefe, hoje convertido, como ele, ao lulismo, Carta dispunha de tal autonomia que os Civita só ficavam sabendo do conteúdo da “Veja” depois de completada a impressão.

Carta foi quercista quando Orestes Quércia tinha poder (e manejava verbas publicitárias). Hoje, é lulo-dilmista até o fundo da alma. Na democracia, não é grave ter preferências político-partidárias, mesmo se essas (mutáveis) inclinações tendem quase sempre na direção do poder de turno. Mas aquilo era abril de 1970, bolas! As máquinas da tortura operavam a plena carga –algo perfeitamente conhecido, não pelo povo, mas por toda a imprensa. A bajulação condoreira a Médici não deve ser qualificada como um equívoco de avaliação: era outra coisa, que prefiro não nomear.

“CartaCapital” de 2 de abril publicou, também, um ensaio histórico sobre as relações entre a imprensa e a ditadura no qual –surpresa!– não há menção aos editoriais da “Veja” assinados por M.C. em 1970. A revista de Carta faz coro com os arautos do “controle social da mídia”, eufemismo de censura em tempos de democracia. Cada um a seu modo, os grandes jornais acertaram as contas com o próprio passado, oferecendo desculpas (“O Globo”), reconhecendo erros (“Folha”) ou produzindo revisões circunstanciadas (“Estadão”). Carta optou por um caminho diferente: a camuflagem.

O artigo de Carta na “CartaCapital” é uma catilinária contra os “reacionários nativos” que, “instalados solidamente na casa-grande” e “com a colaboração dos editorialistas dos jornalões”, perpetraram o golpe de 1964. De tão santa e barulhenta, a indignação editorializada induzirá algum desavisado leitor estrangeiro a imaginar que o autor denuncia, corajosamente, um golpe militar em 2014. Mas, no fim, é mesmo do presente que trata o grito rouco, o adjetivo sonante e o chavão escandido: por meio dessas técnicas, Mino Carta esconde M.C.

Acervos digitais são uma dessas maravilhas paridas pela revolução da informação. A França do pós-guerra não tinha algo assim, para sorte dos colaboracionistas de Vichy. O Brasil de hoje tem. Sorte nossa.

O adversário de Dilma

Ricardo Noblat

Nem Marina Silva, nem Aécio Neves, nem Eduardo Campos.

O principal adversário da presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição, é Luiz Inácio Lula da Silva – por cinco vezes candidato a presidente, eleito em 2002, reeleito em 2006, e agora aspirante ao terceiro mandato.

Não acredite se Lula voltar a dizer que não deseja subir outra vez a rampa do Palácio do Planalto. Simplesmente não acredite.

Dilma e Lula travam uma batalha de morte para Dilma e de adiamento de um sonho para Lula.

Caso não concorra a um segundo mandato - ou concorra e acabe derrotada -, o mais provável é que Dilma saia de cena. Política não é a praia dela – pelo menos a política do “me empresta seu jatinho que eu lhe ajudo a fazer negócios com o governo”.

Foto: Ricardo Stuckert

Lula preferiu ser sucedido por Dilma ao imaginar que isso facilitaria sua volta. Afinal, ela lhe seria grata para sempre. Outro nome do PT que o sucedesse, talvez não.

Passados quatro anos, Dilma cederia o lugar a Lula sem oferecer resistência. Quem mais do PT seria capaz de se comportar assim? É o que Lula deve ter pensado.

De resto, Dilma nunca foi do PT. Foi do PDT de Leonel Brizola. Por conveniência, filiou-se ao PT. Mas nunca se reconheceu como uma petista de verdade. Nem o PT a reconhece como tal.

Ocorre que Dilma gostou do poder. E quer provar que não é um poste que Lula acende ou apaga ao seu gosto. Compreensível, pois não. Daí...

Daí a batalha surda que travam. Por ora essa é a batalha que importa.

Marina como vice de Eduardo, Aécio e Eduardo ainda não entraram no ringue. Preparam-se para entrar. Dilma está no meio do ringue. E defende-se sozinha.

Lula? Só finge que a defende. O PT? Nem isso. Os demais partidos torcem pelo fim do seu governo.

Com poucos telefonemas, se quisesse, Lula enterraria de vez o movimento “Volta, Lula”, que recrudescerá depois da queda de Dilma na mais recente pesquisa Datafolha sobre intenção de voto.

Ela caiu seis pontos percentuais, embora ainda se reeleja no primeiro turno. O mais preocupante para Dilma: aumentou a vontade dos brasileiros por mudanças.

Pouco mais de 70% querem que o próximo presidente aja de maneira diferente da maneira de Dilma. Em cerca de um ano cresceu de 34% para 63% o percentual dos que dizem que Dilma faz pelo país menos do que eles esperavam.

O fantasma do desemprego assombra mais gente. Assim como o pessimismo com o poder de compra.

O enfraquecimento de Dilma favorece a volta de Lula, mas um enfraquecimento em excesso atrapalha ou inviabiliza.

Quer dizer então que Dilma não foi melhor administradora do que ele? Lula garantiu que ela seria. A culpa é de quem? De Dilma que jamais cogitou de ser candidata a presidente? Ou de Lula que cogitou por ela?

Termina em 30 de junho o prazo para que os partidos indiquem seus candidatos às eleições deste ano. Se até lá se convencer de que será derrotada, Dilma abdicará da reeleição.

Lula não poderá esperar tanto tempo. A costura das alianças políticas nos Estados está avançada ou quase pronta. Lula teria dificuldades para desmanchá-la.

Enquanto isso...

A revelação de que a Petrobras fez negócios podres atinge os dois governos de Lula. O PT sofre com a revelação de que um dos seus dirigentes foi parceiro de um doleiro preso. E não falta munição contra Lula e o PT.

Dilma nada tem a ver com isso - nada. E a tudo assiste desolada...


A presidente reprovada

O Estado de S.Paulo

"Se a eleição fosse hoje…" Pesquisas de intenção de voto são obrigadas a partir dessa premissa para que as preferências manifestadas pelos entrevistados sejam menos abstratas do que se esperaria se lhes fosse perguntado em quem deverão votar na eleição vindoura para o Executivo. Mas, se a fórmula adotada pelos institutos é dos males o menor, também é verdade que todo levantamento anterior ao período em que o grosso do eleitorado passa a prestar atenção na disputa vale o que lhe queiram atribuir as partes interessadas e os analistas que por dever de ofício se arriscam a erguer castelos no ar.

Isso explica o aparente paradoxo que emergiu da mais recente sondagem do Datafolha, realizada na semana passada e divulgada domingo, sobre a sucessão presidencial. Consiste na redução de seis pontos no voto dilmista (de 44% em fevereiro para os atuais 38%), com a estagnação do apoio aos seus principais adversários, no cenário eleitoral mais provável. O senador tucano Aécio Neves tinha 16% e com 16% permanece. O ex-governador pernambucano Eduardo Campos, do PSB, foi de 9% para 10%, um grão de areia estatístico.

Pudera: enquanto 87% dos entrevistados disseram conhecer ou muito bem ou um pouco a presidente da República, 60% apenas ouviram falar de Aécio ou nem sequer o conhecem e 75% responderam o mesmo em relação a Eduardo Campos. Tão ou mais importante do que isso para que os dilmistas se guardem de dar por certa a vitória de sua candidata já no primeiro turno - que é o que a aritmética ainda aponta a meio ano do pleito - e os seus adversários não saiam proclamando que a queda da petista é o começo de um inevitável declínio é o fato de praticamente 30% dos eleitores ou rejeitarem os nomes que lhes foram mostrados ou não saberem escolher um deles.

Outra zona de sombra incide sobre o trio. Dilma convive com o espectro do "Volta Lula", que se adensa na razão inversa da popularidade de sua pupila, por mais que ele negue querer substituí-la na cédula eletrônica; Aécio tem em Fernando Henrique Cardoso o mais rejeitado dos cabos eleitorais (57% dos entrevistados disseram que não votariam em quem ele apoiasse); e Campos, para encorpar, depende de ter o seu nome associado ao da sua provável vice, Marina Silva - numa hipotética disputa em que a ex-ministra fosse a candidata do PSB, ela e não Aécio é quem levaria a eleição para o segundo turno. Em mais de um sentido, Marina está para Campos como Lula para Dilma.

De todo modo, o importante não é o que os eleitores ouvidos fariam "se a eleição fosse hoje", mas o que acham que tem sido o desempenho da presidente e o que esperam do próximo período presidencial. Nessa frente, a reprovação é inequívoca. A satisfação com o governo - que chegou ao recorde de 65% pouco antes dos protestos de junho passado, caiu a menos da metade disso no seu auge e vinha se recuperando gradativamente - tornou a embicar para baixo. Hoje, só 36% consideram a sua gestão ótima ou boa. Se ela não se recuperar de novo, talvez nem Lula consiga evitar a segunda rodada - e aí será o imponderável.

Por que Dilma voltou a perder prestígio? Porque - e esse é o dado singular mais importante do levantamento do Datafolha - quase 2/3 dos entrevistados (63%) acreditam que ela fez pelo País menos do que se esperava. O pior para a presidente é que a frustração vem acompanhada (ou é reforçada) por uma onda de pessimismo que parece ter dissipado de vez o feel-good factor graças ao qual Lula fez a sua sucessora em 2010. Também 2/3 (65%) preveem mais inflação; 45%, mais desemprego; e 35%, menor poder de compra dos salários. Quanto ao próximo mandato, nada menos de 72% clamam por mudanças - e identificam em Lula, com o dobro das citações a Dilma, a figura mais preparada para fazê-las.

E não se pode esquecer de que ela está em permanente campanha, desfrutando, graças ao cargo, de acesso privilegiado à mídia eletrônica. Em menor escala, os seus adversários também fazem a propaganda antecipada assim tida pelo arbitrário - e afinal hipócrita - calendário eleitoral que inibe o debate político, tutela o público e retarda a sedimentação das preferências eleitorais, como espelham as pesquisas.

Após 4 anos, Dilma continua ‘lulodependente’

Josias de Souza


Digamos que em janeiro de 2011, ao tomar posse, Dilma Rousseff tivesse 55,7 milhões de votos, uma fama de supergerente, um mandato novinho em folha, um padrinho chamado Lula, e a vida lhe sorrisse. O último Datafolha indica que a situação dela, hoje, é a seguinte: precisa verificar, rapidamente, se pode mesmo contar com Lula. O apoio dele talvez seja a única coisa sólida que lhe restou.

A seis meses da eleição presidencial, 63% dos brasileiros acham que Dilma saiu-se pior do que a encomenda. Fez menos do que esperavam dela. E 72% desejam que o próximo presidente adote ações diferentes das de Dilma. Repetindo: sete em cada dez brasileiros querem algo novo no Planalto a partir de 2015. Nem que seja uma Dilma com penteado renovado. A última vez que o país desejou tanto uma mudança (76%) foi no ocaso da Era FHC, em 2002. Naquela época, deu em Lula.

Quem está mais preparado para fazer mudanças no Brasil?, perguntaram os pesquisadores do Datafolha. Lula, responderam 32% dos entrevistados. Marina, 17%. Dilma, 16%. Aécio Neves, 13%. Eduardo Campos, 7%. Suprema ironia: após vender Dilma em 2010 como a melhor continuidade de si mesmo, Lula tornou-se o não-candidato favorito a protagonista da mudança. É como se um pedaço do eleitorado o intimasse a corrigir o próprio erro.

Não é difícil deduzir o que seria das pretensões de Dilma se o padrinho dela dissesse à turma do “volta Lula” um singelo “eu topo”. A recandidatura de Dilma viraria poeira instantaneamente. Desde o final de fevereiro, Dilma caiu seis pontos no Datafolha. De 44% foi a 38%. Aécio Neves manteve-se no mesmo patamar: 16%. Eduardo Campos oscilou um ponto para o alto: de 9% para 10%. No cenário em que seu nome substitui o de Dilma, Lula belisca 52%. Aécio, 16%. Campos, 11%.

São duas as sortes de Dilma. A primeira é que Lula soa sincero quando diz não querer o lugar dela. A segunda é que Aécio e Campos, que ambicionam ardentemente roubar-lhe a poltrona, não conseguem se firmar como alternativas viáveis. Em parte, isso ocorre por falta de conhecimento do eleitor. Segundo o Datafolha, 42% dos eleitores desconhecem Campos. Ignoram Aécio 25%. Apenas 1% não sabe quem é Dilma.

A taxa de invisibilidade dos rivais de Dilma diminuirá na proporção direta da aproximação do dia da eleição. Talvez lhes falte um discurso. Mas Dilma se esforça para prover-lhes matéria prima: corrupção na Petrobras, rebaixamento do grau de investimento do Brasil na Standard & Poor’s, represamento das tarifas de energia e combustíveis, má qualidade dos serviços públicos, crescimento baixo, inflação alta. Nada menos que 65% dos brasileiros acham que a inflação vai subir.

Chega um momento na rotina do poder que um presidente precisa tomar decisões. O que ele decidir pode marcar sua biografia. Não são escolhas banais —com gás ou sem gás, com açúcar ou adoçante. São opções definidoras. Por exemplo: neste final de mandato, Dilma decidiu preocupar-se mais com sua própria reeleição do que em fazer o que precisa ser feito. Se a providência é impopular, ela empurra para 2015. Mesmo as almas mais ingênuas já perceberam que a conta ficará mais alta.

Outro exemplo: Dilma decidiu manter com Lula uma relação do tipo unha e cutícula. Desde a posse, encontra-se com ele pelo menos uma vez por mês. Solidificou-se a impressão de que a suposta supergestora é gerida pelo padrinho. Se triunfasse, teria de dividir os louros com Lula. Como tropeça, o petismo propaga a conveniente versão de que ela nem sempre segue as orientações.

A plateia começa a se perguntar: se podemos ter o criador de volta, por que reeleger a criatura? Como o deus do PT recusa a candidatura, cerca de 29% do eleitorado busca refúgio no voto nulo, branco ou na tribo que reúne os indecisos e os que se recusaram a dar uma resposta ao Datafolha. Toda essa gente está olhando em volta. Talvez não provoquem uma reviravolta. Mas não são negligenciáveis as chances de produzirem um segundo turno. E Dilma ficará ainda mais lulodependente.

(Clique na imagem abaixo para ampliar)


Eleição ‘precificada’ e o paradoxo Dilma

Julia Duailibi
O Estado de São Paulo

O mercado financeiro começou a “precificar” uma probabilidade maior de derrota da presidente Dilma Rousseff (PT) na eleição de outubro. Relatórios de bancos e consultorias enviados a clientes ontem e hoje, na esteira da divulgação das pesquisas Ibope e Datafolha, já ponderam um cenário de vitória da oposição, embora ainda coloquem a petista como favorita.

Aliada a outros fatores, como ação do Banco Central no mercado vendendo dólares, essa avaliação impactou o câmbio e, principalmente, o preço das ações das estatais. Ontem, após divulgação do Datafolha no final de semana, a bolsa fechou com alta de 2%, e o dólar recuou para o menor patamar em cinco meses, com queda de 1,2% - hoje o dólar segue em queda acompanhando o mercado internacional.

O banco de investimentos Brasil Plural calculou a probabilidade que os investidores dão ao cenário de vitória de Dilma em outubro. “Nós estimamos que o preço da ação da Petrobras está baseado numa probabilidade de 75% de Dilma vencer a eleição de outubro”, afirmaram analistas em relatório enviado ao mercado hoje, no qual dão peso de 25% ao cenário de derrota. O papel da Petrobras, que hoje vale R$ 15, passaria a R$ 29 se Dilma perder a eleição. Em caso de vitória, estimam, cairia para R$ 12 – há pouco ações da Petrobras começaram a cair, após declarações de Lula de que o PT tem de defender a empresa com “unhas e dentes“.

Desde meados de março, quando começaram os rumores de que o governo Dilma perderia popularidade, ações de estatais dispararam: Petrobras, Eletrobrás e Banco do Brasil valorizaram cerca de 35%, 33% e 30%, respectivamente. De acordo com um paper do Citi  divulgado hoje, uma das razões que levaram à valorização dessas ações nas últimas três semanas foram “as pesquisas eleitorais mostrando um crescimento da chance de mudança de governo”.

“O mercado estava precificando a zero a chance de alternância de poder, mas agora está precificando uma boa probabilidade”, diz um economista de um banco estrangeiro ao explicar a movimentação da Bolsa e do dólar nos últimos dias. Os investidores ajustaram suas posições a essa probabilidade, ainda que pequena.

E é aí que ocorre um paradoxo. O mau humor do mercado com Dilma influencia positivamente a Bolsa e o dólar, quando ela cai nas pesquisas. Mas Ibovespa alto e dólar baixo ajudam quem? O candidato governista, ou seja, Dilma. Uma eventual melhora no ambiente econômico, principalmente na inflação, amparada pela queda do dólar, tem reflexo direto na popularidade da presidente. “O dólar baixo pode eleger Dilma”, comenta um economista de um fundo de investimento. Para qualquer candidato governista, é muito melhor enfrentar uma campanha com o Ibovespa nas alturas e o dólar no subsolo, do que o contrário. Que o diga José Serra, candidato do governo Fernando Henrique Cardoso, na eleição de 2002.

Naquela disputa, os sinais eram invertidos. A cada avanço da oposição, capitaneada por Lula, o mercado tremia, ajudando a contaminar ainda mais o ambiente econômico, que já sofria com os efeitos de uma crise financeira internacional.  “Começou uma espécie de especulação pré eleição, mas, ao contrário de 2002, ela é positiva à medida que a situação do atual governo piora”, afirmou o economista Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central e sócio da consultoria Tendências, em reportagem publicada no Estado hoje.

Com os candidatos de oposição ainda desconhecidos, o mercado baseia seu otimismo na queda da aprovação do governo – mais do que no índice de intenção de voto. “A essa altura esses números (de intenção de voto) são menos importantes para fazer um prognóstico da eleição que o índice de aprovação da presidente”, avaliou em relatório ontem a Eurasia, consultoria em risco político.

Há uma semana o banco de investimento Morgan Stanley soltou breves perfis elogiosos de Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB). No caso do tucano, destacaram como fator positivo a proximidade com Arminio Fraga, presidente do Banco Central no governo FHC e um “crítico da política econômica atual”. Ao apresentar Campos, colocaram como uma qualidade do pré-candidato declarações “simpáticas ao mercado”, entre as quais a defesa da independência do Banco Central e as críticas à influência política na Eletrobrás e Petrobras.

Semelhanças - Se por um lado o mercado age de maneira diferente na eleição deste ano, as disputas de 2002 e 2014 guardam algumas semelhanças. Talvez a mais visível delas seja o sentimento de mudança. De acordo com o Datafolha, 72% dos eleitores querem que o futuro presidente atue de maneira distinta da de Dilma. O cenário era parecido há doze anos, quando o oposicionista Lula enfrentou o governista Serra. Tanto que, à época, o tucano adotou o slogan “continuidade sem continuísmo”.

Agora o presidente do PT, Rui Falcão, recicla a ideia ao lançar o “continuidade com mudança” ou “mudança com continuidade”. No começo de 2014, as pesquisas mostram que o eleitor ainda acha que Lula ou Dilma são mais indicados para promoverem as mudanças que Aécio Neves ou Eduardo Campos. Mas isso tende a mudar, com maior ou menor intensidade, conforme o eleitor conhecer as demais candidaturas.

Em 2002, a retórica eleitoral governista naufragou. Em 2014, caberá a João Santana, para desgosto do mercado financeiro, fazer essa máxima de Falcão colar.

Logística deficiente

Rubens Barbosa
O Globo

Rentabilidade dos produtos de exportação está caindo

A perda da competitividade da economia brasileira é um problema sistêmico e sua correção demandará um enorme esforço por parte do governo e do setor privado. O comércio exterior é uma das áreas mais afetadas pelos altos custos e ineficiências da economia. O Brasil possui sérias deficiências na infraestrutura de distribuição de bens e serviços. As despesas de transporte, manutenção da frota e armazenagem representam uma fração relevante dos custos das indústrias e dos exportadores. As deficiências de logística representam 1,8% do preço dos produtos industriais no Brasil, segundo estudo da Fiesp.

O World Economic Forum coloca o Brasil em 114º lugar entre 148 países no quesito infraestrutura. O Banco Mundial (BM), na semana passada, divulgou trabalho em que mostra que o Brasil perdeu 20 postos no ranking mundial de logística, passando para 65º lugar entre 160 países. Com apenas 1,5% do PNB do Brasil em investimentos em infraestrutura de todas as fontes, pública e privada, o Instituto McKinsey Global estima que o valor total da infraestrutura no Brasil está em 16% do PIB, enquanto na India é de em 52%, e a média dos países desenvolvidos, 71%.

Nas rodovias, após o recente fracasso dos leilões e depois de varias modificações, o governo admitiu conceder subsídios para atrair investidores e evitar o fiasco recente onde nenhuma empresa quis participar da licitação. Nos portos, como apontou “The Economist”, nos anos recentes, a autoridade reguladora suspendeu a concessão de licenças para os terminais privados, exceto para aqueles voltados principalmente para as cargas de seus proprietários.

De acordo com o BM, o Brasil poderia exportar cerca de 30% a mais somente com a melhoria da logística de estradas, ferrovias, portos e aeroportos. Os custos dos transportes de bens primários e industriais nacionais para exportação — segundo o BM — são maiores do que as tarifas e o protecionismo.

A rentabilidade dos produtos de exportação está caindo de forma gradual e constante. Os produtos manufaturados foram os primeiros a perder mercado no exterior devido à baixa competitividade, como ocorreu, de forma significativa, nos EUA e na América Latina, as duas únicas regiões que absorvem a maior parte de nossos produtos industrializados. Os produtos agrícolas, que vêm sustentando o comércio exterior brasileiro nos últimos anos, começam a sofrer pela deficiência logística. O déficit de armazéns está sendo contornado pelos caminhões, em filas quilométricas nas vias de acesso aos portos para descarregar. O que acendeu o sinal vermelho foi o fato de a China ter cancelado a compra de dois milhões de toneladas de soja por atraso no carregamento dos navios.

As consequências da má gestão e da ineficiência podem ser medidas pelo resultado da balança comercial em 2013. O superávit de cerca de US$ 20 bilhões em 2012 evaporou-se, colocando mais pressão sobre o déficit nas transações correntes, que ficaram em 3,6% do PIB no fim do ano.

Povo deveria se rebelar, afirma Gerdau durante fórum

Exame.com
Elder Ogliari, Estadão Conteúdo

Empresário chegou a admitir que a população se rebele diante da falta de infraestrutura e da qualidade dos serviços

Agência Brasil 
O empresário Jorge Gerdau Johannpeter: 
"uma placa que vi e achei interessante diz que a Central do Brasil há 30 anos é igual", citou

Porto Alegre - O empresário Jorge Gerdau Johannpetter criticou a insistência do Brasil em se aproximar do Mercosul, sugeriu que o próximo governo brasileiro tenha apenas seis ministérios a chegou a admitir que a população se rebele diante da falta de infraestrutura e da qualidade dos serviços do País, durante palestra para os participantes da 27ª edição do Fórum da Liberdade, nesta terça-feira, 7 em Porto Alegre. O evento é promovido anualmente pelo Instituto de Estudos Empresariais (IEE), entidade de jovens empresários de tendências liberais.

"Uma placa que vi e achei interessante diz que a Central do Brasil há 30 anos é igual", citou. "Tem que ter rebelião, gente", prosseguiu. "Quem tem esposa e uma filha e tem que enfiar dentro daquele trem, não dá para aceitar".

Ao longo dos 40 minutos da palestra, Gerdau insistiu na necessidade de o Brasil aumentar sua poupança, investir em infraestrutura e melhorar sua governança e produtividade para crescer mais dos que os índices próximos a 2% dos últimos anos. Também sugeriu metas ousadas, como dobrar o PIB per capita até 2030.

O empresário também revelou que, na conversa reservada que teve com o pré-candidato do PSDB à presidência da República, Aécio Neves, na segunda-feira, foi questionado sobre o número de ministérios que considera ideal para o Brasil.

"Eu disse que com seis dá", confidenciou. E citou cinco pastas, sem se referir a qual seria sexta, para a área social, área econômica, segurança, parte internacional e condução política.

Gerdau deu a entender, ainda, que preferiria ver o Brasil menos ligado aos países vizinhos e mais atento ao mercado global. "Enquanto os países do grupo do Pacífico têm crescimento de 5% a 6% ao ano, se aproximando do bloco norte-americano, que está se integrando com a Europa, nós ficamos brincando de Mercosul bolivariano", comparou. "Será que a Cristina Kirchner (presidente da Argentina) tem que dizer o que o Brasil tem que fazer? Não dá!", concluiu.

Meia dúzia de sinais

José Roberto de Toledo 
O Estado de S.Paulo

Seis sinais extraídos das pesquisas Datafolha e Ibope divulgadas nas últimas semanas sobre a corrida presidencial:

1. A eleição presidencial caminha para o segundo turno
Embora Dilma Rousseff ainda tenha mais intenções de voto do que seus adversários mais prováveis juntos, sua vantagem vem diminuindo pouco a pouco. Na simulação com Marina Silva no lugar de Eduardo Campos como candidata do PSB na mais recente Datafolha, a soma dos rivais já supera a presidente em intenções de voto: 43% a 39%.

É um cenário improvável, mas mostra que quando há um nome menos desconhecido na parada, Dilma perde uma franja de seu eleitorado para a oposição. Mesmo que Marina não seja candidata a presidente, o efeito pode vir a se repetir com outros nomes à medida que eles se tornarem mais reconhecidos pelos eleitores.

À tendência recente das pesquisas, soma-se o peso da história. Nem Luiz Inácio Lula da Silva nem Dilma em situações mais favoráveis conseguiram se eleger no primeiro turno. Em 2006 e 2010, os saldos de popularidade do ex-presidente eram maiores do que é hoje o de sua sucessora. A popularidade rege a votação.

2. Aumenta a chance de pulverização dos votos
Não é um cenário tão pulverizado quanto o de 1989, mas os candidatos nanicos estão roubando votos dos favoritos como há muito não acontecia. Na pesquisa Datafolha eles já somam 6% das intenções de voto. Pastor Everaldo (PSC), Eduardo Jorge (PV) e outros do mesmo porte mostram que podem crescer durante a campanha e favorecer a realização de um segundo turno.

Não é só Dilma que eles podem atrapalhar, porém. O fato de os nanicos estarem saindo do zero é um sinal de que Aécio Neves (PSDB) e Campos não são suficientemente conhecidos nem têm sido convincentes o bastante para conseguirem atrair todos os eleitores que estão saindo da órbita de Dilma.

A dificuldade de fazer uma pré-campanha eficiente por causa da Copa do Mundo no Brasil e a vantagem excepcional de Dilma em exposição na propaganda na TV e no rádio vão tornar ainda mais difícil para Aécio e Campos se destacarem dos nanicos. Fica assim mais aberta a disputa pela segunda vaga no segundo turno.

3. Mudança depende de haver um novo rumo claro
O desejo de mudança brota da insatisfação. A insatisfação vem da perda da perspectiva de melhora de vida por grande parte da opinião pública. Salvo o Nordeste, no resto do Brasil os avanços da era Lula já foram assimilados e não propulsionam Dilma tanto quanto antes. Mais do mesmo não levará a presidente à reeleição.

Se não acreditam que o rumo está certo, os passageiros pressionam o capitão a corrigi-lo. A presidente tem duas opções: sinalizar com mudanças em um eventual segundo mandato, ou responder com a difusão da incerteza. Foi a narrativa de Fernando Henrique Cardoso na campanha de 1998. O medo de perder o rumo foi mais forte do que a esperança de mudar o curso.

4. Pessimismo econômico e mau humor são os inimigos de Dilma
Previsões coletivas de que a inflação vai aumentar são autorrealizáveis. Quando a grande maioria da população começa a acreditar nesse prognóstico, qualquer aumento abusivo de preço parece descontrole inflacionário. O tomate excepcionalmente caro sanciona a expectativa negativa e a cultura da indexação faz o resto. Salários perdem poder de compra, e o governo perde poder. Ponto.

5) O que estará em jogo na Copa é o orgulho de ser brasileiro
Mais do que o resultado da competição, a imagem projetada pela organização da Copa é o que mais tende a influir na eleição. De nada adiantará a seleção ser campeã se o sentimento dos anfitriões for o de vergonha por não terem feito uma boa festa. Especialmente se faltar água e luz. A sorte de Dilma depende menos de Felipão do que das construtoras e da meteorologia.

6) O "Volta, Lula" é uma armadilha disfarçada de último recurso
Substituir Dilma por Lula na chapa petista é um jeito rápido de enterrar a biografia de um e admitir a incompetência de ambos.