domingo, abril 13, 2014

Medo de quê?

Adelson Elias Vasconcellos


Dez em cada dez governistas não se cansam de afirmar que o governo não tem medo de CPI. Que a gestão da Petrobrás é perfeita, que tudo é transparente e legal. Ok, mas qual motivo ou quais motivos levam o governo, petistas em geral e governistas em particular, a se moverem no lamaçal da canalhice explícita a exemplo do que fizeram Renan Calheiros e Romero Jucá, para impedir a instalação da CPI da Petrobrás?

Até agora todas as versões expedidas tanto pelo governo quanto pela Petrobrás não se sustentaram em pé. Se a alegação da senhora Rousseff de que decidira a partir de um relatório falho e juridicamente imperfeito, cai por terra sua defesa quando, em 2008, a empresa acionou a Petrobrás na justiça americana obrigando-a a comprar a outra fatia de 50% da refinaria de Pasadena. De lá para cá, até o estouro da boiada, a senhora Rousseff não só não tomou nenhuma medida contra a compra ou contra aqueles que a induziram ao erro. Pelo contrário: Nestor Cerveró acabou promovido a um cargo melhor na BR Distribuidora, com rasgados elogios da presidente.  

É estanha esta alegação de que não teme nada sobre uma investigação, está visto, se impõe obrigatória para apurar o que de fato aconteceu (e aconteceu como sabemos muita coisa), como ainda para apurar responsabilidades penais e criminais sobre operações danosas e ruinosas para a estatal. 

A tentativa canalha de se ampliar o espectro a ser investigado para outras questões, como o suposto cartel de trens em trens e as obras do porto de Suape, em Pernambuco, numa tentativa crápula de intimidar as oposições, só demonstram a que ponto de desespero chegou o estado de nervos do governo comandado pela senhora Rousseff. Até porque se trata de uma ação deliberadamente ilegal conforme o jornalista Josias de Souza demonstrou em artigo postado nesta edição. Que o governo queira criar uma CPI específica para o Porto de Suape, ok, é um direito seu, ou que deseje retaliar os adversários instalando uma CPI sobre cartel de trens em São Paulo, que siga em frente. Porém, são fatos específicos que devem ser investigados através de CPIs específicas. E, no caso dos trens, já que o governo quer tanto buscar a “verdade” que a investigação se amplie para todos os contratos firmados pela Allstom e Siemens Brasil afora. Não é demais lembrar que estas multinacionais não firmaram contratos apenas com o governo de São Paulo, mas também com o próprio governo federal para os trens de Porto Alegre, Salvador, Distrito Federal e Belo Horizonte.

Assim, teríamos três CPIs bem caracterizadas e com fatos bem determinados para o povo brasileiro saber o que os governantes, em qualquer nível de poder, andam fazendo com o dinheiro público, certo?

Veja-se um fato em relação à Petrobrás: a estatal instalou uma comissão interna para investigar uma suposta acusação de funcionários seus terem recebido propina da holandesa SBM. E a tal “comissão” encerrou suas investigações afirmando nada de irregular ter apurado. Vinte e quatro horas depois, a própria SBM desmentiu a conclusão da tal “comissão”,  afirmando que, sim, foram pagos   US $ 139 milhões de propina a funcionários da Petrobrás.  Neste mesmo dia, o Wikileaks divulgou que a Casa Branca consultou Dilma antes de autorizar aquisição de refinaria por Petrobrás. O governo dos Estados Unidos buscou garantias da parte de Dilma Rousseff em 2006 quando ela ainda era presidente do Conselho da Petrobrás antes de dar o sinal verde para que a empresa brasileira comprasse uma refinaria em Pasadena. Telegramas confidenciais da diplomacia americana obtidas pelo grupo Wikileaks revelam reuniões e missões enviadas ao Brasil pela Casa Branca diante da possibilidade de que a estatal brasileira comprasse a refinaria americana. Outro consultado foi o ex-diretor internacional da Petrobrás, Nestor Cerveró, epicentro da crise.

Um dos telegramas de 12 de junho de 2006 é explícito em relação ao assunto já em seu título: “A Aquisição da Petrobrás da Pasadena Refining Systems”. O documento foi enviado pela embaixada americana em Brasília ao Departamento de Estado norte-americano e relata os encontros de ministros e delegações de Washington com autoridades nacionais, entre elas Dilma Rousseff.

Ora,  a senhora Rousseff afirmou que sua decisão favorável à compra da refinaria se baseara exclusivamente no tal relatório falho de Cerveró. Será que, após reuniões diplomáticos com a turma da Casa Branca, não podiam ter despertado na senhora Rousseff maior curioso em se informar com maior profundidade sobre as condições da negociações coma belga Altra Oil?

Mas vamos lá: suponhamos que os fatos em torno da compra da refinaria tenham acontecido na forma como o governo quer fazer crer. Ora, uma CPI teria, neste caso, a virtude de dar ao governo um crédito de confiança sobre o mar de suspeitas que pairam sobre a operação de compra. Por que o temor? 

Aí, senhores, voltamos ao que aqui se afirmou,  há duas semanas atrás: a de que ainda não sabemos de toda a trama em torno desta ruinosa compra. E uma CPI poderiam trazer à tona outras tantas operações não apenas danosas para a estatal brasileira, mas também para o Tesouro Nacional, revelando uma teia de ligações criminosas entre a estatal e gente graúda do governo, petistas, fundos de pensão, sindicatos,  ong’s picaretas, além daquelas operações de lavagem de dinheiro que abasteceram caixinhas de campanha eleitoral.  É precisamente neste ponto que atuam os governistas para impedir que a CPI, se instalada, possa chegar. Seriam verdadeiras bombas a implodir os poderes da república. 

Não é de hoje que a sociedade brasileira pede por uma devassa na contabilidade da Petrobrás, como também não é de hoje que certas operações cheiram mal e são jogadas para debaixo do tapete. Vejam o desespero e verbosidade com que Lula exige que se impeça a instalação de qualquer CPI. Lula sabe dos porões e do submundo instalado na companhia, e a revelação desta podridão precisa ser evitada a qualquer preço,  sob pena e risco dele ver comprometido o projeto de poder de seu partido.

Porém,   esta é a grande oportunidade que as oposições têm para puxar o fio da meada de uma organização criminosa instalada no poder e que precisa ser expurgada, julgada, condenada e punida. Podemos até afirmar que, trazer à tona esta rede criminosa é essencial para o fortalecimento da democracia brasileira. Pode até faltar cadeia para abrigar a todos os envolvidos, mas o que não pode faltar é a revelação deste esquema espúrio que usa instituições do Estado para o cometimento de crimes diversificados atentatórios à ordem legal. Uma verdadeira CPI que investigasse, sem limites, as operações subterrâneas da Petrobrás  seria a verdade Comissão da Verdade em favor da depuração política do país. 

Medo do quê? Ora, medo de que a CPI revele o verdadeiro caráter dos petistas no poder, e é nisto que reside a motivação principal para que eles evitem, a qualquer preço, qualquer investigação na Petrobrás que, como se sabe, não produz apenas  óleo e gás...   

Aliás, se o Poder Judiciário fosse um pouquinho mais rigoroso, e se as instituições responsáveis pela fiscalização e controle dos atos dos executivos em todos os seus níveis, no fundo esta CPI revelaria que “alguém”, no poder, poderia muito bem ser enquadrado no que determina  o Artigo 10 da Lei 8.429:

Art. 10. Constitui ato de improbidade administrativa que causa lesão ao erário qualquer ação ou omissão, dolosa ou culposa, que enseje perda patrimonial, desvio, apropriação, malbaratamento ou dilapidação dos bens ou haveres das entidades referidas no art. 1º desta lei, e notadamente:
I – facilitar ou concorrer por qualquer forma para a incorporação ao patrimônio particular, de pessoa física ou jurídica, de bens, rendas, verbas ou valores integrantes do acervo patrimonial das entidades mencionadas no art. 1º desta lei;
II – permitir ou concorrer para que pessoa física ou jurídica privada utilize bens, rendas, verbas ou valores integrantes do acervo patrimonial das entidades mencionadas no art. 1º desta lei, sem a observância das formalidades legais ou regulamentares aplicáveis à espécie;
IV – permitir ou facilitar a alienação, permuta ou locação de bem integrante do patrimônio de qualquer das entidades referidas no art. 1º desta lei, ou ainda a prestação de serviço por parte delas, por preço inferior ao de mercado;
V – permitir ou facilitar a aquisição, permuta ou locação de bem ou serviço por preço superior ao de mercado;
XII – permitir, facilitar ou concorrer para que terceiro se enriqueça ilicitamente.

Portanto, as manobras cafajestes de Renan Calheiros  e Romero Jucá, vão muito além de enterrarem a criação de uma CPI sobre os negócios escabrosos da Petrobrás:  buscam impedir que “alguém” seja penalizada por ações de improbidade administrativa na forma da lei. 

Se condenado, este “alguém” até poderia perder o mandato. Sabem quem é este alguém? A presidente do Conselho de Administração da Petrobrás que autorizou a compra e que, mais tarde, conhecendo todos os mínimos detalhes da malfadada operação, não tomou medida alguma, omitindo-se em cumprir com seu dever.  É por isso que eles temem qualquer CPI sobre a Petrobrás. Muitos perderiam dedos, anéis, cargos e prebendas milionárias. Como diz velho ditado popular, quem tem rabo, teme... 

O enigmático PR –
Na lista com os nomes das empreiteiras e executivos corruptores apreendida com Paulo Roberto Costa, o ex-diretor da Petrobrás preso pela Polícia Federal, publicada neste final de semana pelos principais jornais e destacada na reportagem de capa da revista Veja apresenta um detalhe curioso. É que no item “Solução”, relacionado com cada empreiteira, Paulinho, como era carinhosamente tratado por Lula, trata de identificar o beneficiário pelos “favores”, ou seja, pelas milionárias propinas a ele alcançadas por pesos-pesados como IESA, Mendes Júnior ou UTC.  Em quase todos os casos, Paulo Roberto fecha a análise com um enigmático “vai ajudar a pedido PR”.

A imprensa, de um modo geral, traduziu o “PR” como sendo as iniciais de Paulo Roberto. Tenha cá minhas dúvidas. Não creio que Paulo Roberto tivesse tamanho poder de convencimento. É muito mais crível acreditar que o tal “PR” tão poderoso, seja de “Presidente da República”. Aliás, nas rodas do poder, Lula era identificado como “PR”, inclusive pela “secretaria” Rosemary Noronha, lembram ?  

Isto justifica a reação tresloucada de Lula diante de uma CPI na estatal Petrobrás. 

A turma de Londrina

Sebastião Nery
Tribuna da Imprensa

RIO – Airton de Oliveira Goulart, jovem, bigodudo, bem-vestido, bem falante, chegou a Curitiba. Era desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo e logo fez um amplo círculo de amizades. Não havia recepção no Palácio Iguaçu, ou aniversário de autoridade, que o paulista não estivesse lá. E brilhava. Em um mês já conversava sobre o Paraná, o poder, com a mais absoluta segurança e informação.

O desembargador Goulart ia se aposentar no Tribunal de Justiça de São Paulo e por isso estava em Curitiba procurando casa para morar, decidido a fugir da poluição paulista. Um dia um amigo advogado o achou jovem demais para desembargador:

- Você fez uma carreira muito rápida.

- Pois é. Minha família é importante. Pistolão, subi ligeiro.

Uma noite, estava o desembargador Goulart posto em sossego, no hotel, tocou o telefone:

- Desembargador, precisamos ouvi-lo na Universidade. Há muito estamos querendo que o senhor fale para nossos professores e alunos.

- Como não? Estarei lá com muito prazer.

Foi, deu uma aula debaixo de palmas. Desembargadores, juízes e professores ficaram encantados com as luzes do colega paulista. No dia seguinte, a imprensa de Curitiba publicou sua foto na tribuna, falando. Um dos jornais chegou a Araraquara, em São Paulo, e foi um sucesso na penitenciária, de onde o falso desembargador havia fugido há três meses, cumprindo pena por assalto à mão armada. Desapareceu.

ANDRÉ VARGAS
Não confundir Araraquara com Londrina. Mas a “Folha” informou: “O deputado André Vargas (PT-PR) e o doleiro Alberto Youssef, pivô do pedido de investigação contra o petista na Câmara, são réus no mesmo escândalo de corrupção no Paraná e respondem na Justiça desde 99.

O chamado caso Ama/Comurb é o maior escândalo de corrupção da história de Londrina, base política de Vargas. No final da década de 1990, pelo menos R$ 14 milhões, em valores da época, teriam sido desviados em licitações fraudulentas”.

Essa turma de Londrina era inseparável : o deputado José Janene, o chefão, foi condenado no Mensalão por pegar mais de 4 milhões (não está preso, porque morreu); Antonio Belinati, eleito prefeito, foi cassado e preso; Paulo Roberto Costa, diretor da Petrobrás. está preso; Alberto Youssef, doleiro, também preso. Falta André Vargas, o valentão “revolucionário” e negocista do PT. Já teve que devolver dinheiro e será cassado pela Câmara.

Onde fica mesmo Araraquara?

LULA
A venerável “Folha de S. Paulo” publicou : “O ex-presidente Lula criticou ontem as tentativas da oposição de criar uma CPI para investigar os negócios da Petrobrás e disse que o PT “tem que ir para cima” para evitar que ela seja usada contra o governo”:

- “Essas pessoas (que defendem a CPI da Petrobrás) nunca quiseram fazer CPI. Nesse aspecto, o PT tem que ir para cima. Se o PT tivesse feito o debate político no momento certo possivelmente a história teria sido outra”.

JANIO
No dia seguinte, o venerando colunista Janio de Freitas, terceiro na hierarquia do Conselho Editorial da “Folha”, escreveu na mesma “Folha” :

- “Nem Lula propôs que o PT impeça a CPI, nem disse que os petistas devem “partir para cima” da oposição. Não só Fernando Henrique leu tais recomendações não feitas. É que no jornalismo, cada vez mais, e ainda pior em fase eleitoral, nada garante que o não dito (sic) vire dito. E vice-versa”.

JORNALISMO
Lula diz, a “Folha” rediz, Janio desdiz. Como fico eu, meio século leitor da “Folha” e dez anos colaborador?
Cancelo a assinatura da “Folha” ou cancelo a leitura do Janio?

A lebre que mia

Percival Puggina

A compra da refinaria de Pasadena pela Petrobras, tanto na transação em si, quanto no que aconteceu após se tornar de conhecimento público, é dos atos mais constrangedores de nossa história administrativa. Nem encomendando se conseguiria produzir semelhante sucessão de ações e reações que primam pela falta de decoro e pela hipocrisia. Atenção, jornalismo nacional! Hora de acordar, rapaziada! O rolo é conhecido desde 2012! É difícil entender as razões pelas quais a pauta dormiu nas gavetas durante todo o ano de 2013. 

Seja como for, o melhor ficou para o fim. Aconteceu no Congresso Nacional, com a disputa entre governo e oposição sobre a proposta de criar CPI para investigar a operação. Como a medida se revelou inevitável, o PT partiu para o contra-ataque, e quis investigar, também, o metrô de São Paulo e o porto de Suape em Pernambuco. Foi uma antecipada confissão. Foi reconhecimento pelo réu de que comprometedoras digitais estavam na cena do crime. O que espera a sociedade de um partido político que respeite a própria imagem diante de fato com tal magnitude? Que participe das investigações, que controle o trabalho da oposição, que busque a verdade e, naturalmente, que evite maiores explorações políticas dos fatos apurados. Em vez disso, o PT quis tumultuar, embrulhar e inviabilizar a CPI, acrescentando-lhe outros objetivos que, supostamente, poderiam causar dano ao seus principais opositores na corrida presidencial em curso: PSDB e PSB. Tudo num grande esforço para "blindar a Petrobras". A Petrobras? Me poupem. 

A Constituição Federal não deixa margem para interpretações quando afirma que as CPIs devem tratar "de fato determinado" e não de fatos indeterminados. Se o PT tem conhecimento de determinados fatos a merecer investigação no metrô de São Paulo e no porto de Suape, envolvendo recursos federais, por que não pediu oportunamente as respectivas CPIs? Por que fazê-lo como contraponto à CPI sobre a refinaria de Pasadena? Ao agirem como estão agindo no caso, o PT e seus associados no Congresso Nacional tornam inequívoco perante a opinião pública que, de fato, houve rolo no negócio. Caso contrário, fosse a operação sábia e proba, economicamente interessante, como chegaram a afirmar alguns agentes partidários na frente de batalha das redes sociais, nada melhor do que uma CPI para comprová-lo e retocar a imagem da presidente. Afinal, ela foi vendida a seu eleitorado como gestora competente. Mas autorizou a Petrobras a pagar mais de um bilhão de dólares por uma lebre que mia. 

Todo esse imbróglio serve para mostrar o quanto é maléfica a confusão que fazemos no Brasil entre Estado, governo e administração pública, como se fosse tudo a mesma coisa. Não contentes, embrulhamos o pacote para presente e entregamos a um partido político. Só pode dar nisso! Que raios tem um partido político a fazer na Petrobras? E não só aí, mas também no Banco do Brasil, no BNDES, em dezenas de estatais e em todo o aparelho administrativo federal, ocupando dezenas de milhares de postos que deveriam ser providos por servidores de carreira com a formação adequada? 

O doleiro dos oprimidos

Guilherme Fiuza
O Globo

O despachante de André Vargas era o homem que operava duto entre cofres públicos e políticos amigos do rei (rainha)

O deputado André Vargas não fez nada de mais. Apenas cumpriu o primeiro mandamento para ascender no PT: siga o dinheiro. Ou, mais precisamente, siga e consiga o dinheiro. Sua intimidade com o doleiro Alberto Youssef, preso no centro de um esquema que teria movimentado 10 bilhões de reais, não deixa dúvidas: Vargas chegou lá. Quem não entendeu como o obscuro deputado curitibano saltou de secretário de comunicação do partido para vice-presidente da Câmara dos Deputados não entende nada de PT.

O despachante de André Vargas era o homem que operava o duto entre os cofres públicos e os políticos amigos do rei (rainha). Se alguém achar que isso se parece com a quadrilha do mensalão, esqueça. O ministro Luís Roberto Barroso já explicou que a quadrilha não existiu, e o STF assinou embaixo. A parceria fértil entre o doleiro de Vargas e o ex-diretor de abastecimento da Petrobras, também preso, tem impressionante semelhança com a tabelinha entre Marcos Valério e o então diretor de abastecimento do PT no Banco do Brasil, Henrique Pizzolato — hoje embaixador da república mensaleira na Itália. Mas isso não é quadrilha, é estilo.

E pensar que antigamente o PT mandava Waldomiro Diniz pegar dinheiro com Carlinhos Cachoeira. Que coisa cafona. Mas isso foi uma década atrás, quando o partido ainda não tinha estudado direito a planta do Estado brasileiro. Hoje está claro que a mensagem de André Vargas a Joaquim Barbosa, levantando o punho cerrado (símbolo da resistência mensaleira), era um aviso — como o de Raul Seixas sobre as moscas: se você mata uma, vem outra em seu lugar.

Os brasileiros, esses invejosos, já estão implicando com o Land Rover dado pelo doleiro ao diretor da Petrobras. Bobagem. Como ensinou Silvinho Pereira, o mais injustiçado e esquecido dos petistas, quem trabalha bem no setor petrolífero ganha Land Rover de graça. O Brasil está pensando pequeno. Diante da dimensão dos negócios no seio do governo popular, as propinas na Petrobras são o troco do cafezinho — aquelas moedas que você joga na mão do pedinte pela janela do seu Land Rover. Se o garoto ainda fizer uma graça com bolinhas de tênis, você pode até dar a ele uma refinaria superfaturada. Esse bilhão não fará a menor diferença no balanço.

Algumas das maiores empresas brasileiras estão sendo destroçadas, ao vivo, para fabricar bondade tarifária e esconder inflação. Esse é o jogo multibilionário que o Brasil aceita chupando o dedo, louco para virar Argentina. São esses dividendos populistas que garantem um ambiente de negócios seguro para os doleiros oficiais, mensaleiros reencarnados e demais sócios do país de todos (eles).

Até o FMI já espalhou por aí que o governo brasileiro passou a maquiar suas contas, para gastar escondido com a indústria do populismo. E vem aí mais uma transfusão bilionária do Tesouro para o BNDES, que vai injetando nas estatais vampirizadas e envernizando a orgia fiscal. É um complexo e fabuloso trabalho de pilhagem, com alcance de gerações — que naturalmente passou despercebido aos revolucionários da Primavera Burra. Nem a CPI da Petrobras mobilizou os engarrafadores de trânsito. Eles devem estar achando que pode ser um golpe neoliberal para tomar o que é nosso.

Com todo o seu profissionalismo, André Vargas sabe que não dá para contar a vida toda com a pasmaceira da opinião pública. Por isso, além de ter os amigos certos, ele também trabalhou com afinco no projeto petista que vale por mil doleiros espertos: o controle da informação. O PT sonha com a desinibição da companheira Kirchner na coação da mídia e no adestramento das estatísticas. André Vargas também serve para isso: assim como se presta a fazer molecagem com Joaquim Barbosa, prega sem constrangimento o “controle social da mídia”. E o ensaio vai indo muito bem, do controle social do Tesouro ao controle social do Ipea.

O tradicional e respeitado Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada ganhou de presente do governo popular uma estrelinha vermelha. Passou a ser dirigido por acadêmicos-militantes, uma espécie de transgênero com vocabulário técnico e alma ideológica. Estrelas da coreografia estatística como Marcio Pochmann — que saiu de lá para ser candidato do PT a prefeito de Campinas —, capazes de fazer os números dançarem conforme a música, trouxeram o charme chavista que faltava ao Ipea. Quem acompanhou essa metamorfose revolucionária não acreditou um segundo na famosa pesquisa que transformou o Brasil num país de estupradores.

O mais alarmante, porém, não foi a pesquisa em si, pois já se sabe que, com o PT, a inépcia e a desonestidade intelectual são quase indistinguíveis. O impressionante foi o Brasil comprar de olhos fechados mais uma bandeira fabricada pelo império do oprimido. Dá até para ouvir o comentário de André Vargas: kkkkkk.

A violência como argumento.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

O presidente do Judiciário, um dos três Poderes da República, é visto na rua por um militante petista assalariado (é funcionário do gabinete da deputada federal Erika Kokay, PT de Brasília, e recebe do Tesouro R$ 4.800 mensais). O militante chama amigos para vaiar o ministro, a quem não perdoa por ter votado pela condenação de réus do Mensalão, especialmente José Dirceu. Em seguida, o grupo decide perseguir o ministro Joaquim Barbosa e - na expressão que usaram - "botá-lo pra correr". Gravam as imagens do que consideram uma extraordinária façanha e a colocam no YouTube (http://youtu.be/9mlpV6Mq_4U). Se isso não é uma tentativa fascista de intimidar adversários pela força, de que é que se trata?

Alberto Youssef, preso na Polícia Federal em Curitiba sob suspeita de chefiar esquema de lavagem de dinheiro, localizou na cela um aparelho que, acusa, monitora conversas. É escuta ambiental clandestina, sem ordem judicial. Youssef sabe muito, é um arquivo vivo. Quem estaria interessado em saber se e o que ele está falando, e talvez pense em transferi-lo para a pasta de arquivos mortos? 

Sob a alegação de investigar o uso de um telefone celular por José Dirceu, no presídio, o que é proibido aos condenados, o Ministério Público pediu à Justiça autorização para monitorar telefones de áreas próximas. Mas não informou à Justiça que, nestas áreas, está o Palácio do Planalto, sede do Poder Executivo. Grampear a Presidência? E sem informar o juiz? Se nem a presidente da República tem garantias de respeito a seus direitos básicos, quem é que as tem?

O ovo da serpente
Em poucos dias, houve desrespeito aberto a dois dos três poderes da República. O outro é presidido pelo senador Renan Calheiros, para que desrespeitá-lo?

Prever é prover
O senador Édison Lobão Filho, PMDB, é um símbolo de tudo: chegou ao Senado como suplente, sem jamais ter tido um voto; é filho do ministro Lobão, que cuida da Energia, e da deputada Nice Lobão; é o candidato da família Sarney ao Governo maranhense. Ele promete, se eleito, "implodir o presídio de Pedrinhas". 

Lobãozinho sabe o que faz. Presídios no Maranhão, quanto menos, melhor. 

Dedo podre
A ex-ministra Gleisi Hoffmann, candidata do PT ao Governo do Paraná, não tem sido exatamente feliz em suas indicações. Seu assessor mais próximo, favorito para coordenar a campanha, era Eduardo Gaievski, agora preso pela acusação de pedofilia. A coordenadora da campanha na região de cidades importantes como Cianorte e Cascavel, Regina Dubay, PR, prefeita de Campo Mourão, é suspeita de comandar o esquema que obriga funcionários públicos comissionados a devolver parte dos salários para uma quadrilha que, segundo o Ministério Público, está "instalada no alto escalão". Um diretor da Secretaria Municipal da Saúde foi preso em flagrante após recolher o dinheiro dos funcionários. O delegado Elmano Ciriaco diz que haverá novas prisões, inclusive no alto escalão.

Em tempo: até há poucos dias, o coordenador da campanha de Gleisi, no lugar de Gaievski, era o deputado André Vargas - aquele do jatinho do doleiro.

Telhado pouco
O governador paulista Geraldo Alckmin, preocupado com a notícia de que, em tempo de falta dágua, o Palácio dos Bandeirantes aumentou o consumo em 22% de dezembro até agora, garantiu que está economizando, e que até "acelerou o banho". 

Ele pode. A cada dia precisa de menos tempo para lavar o cabelo.

Só sobrou um
O senador Pedro Simon, 84 anos, decidiu candidatar-se a novo mandato de oito anos no Senado. Simon é uma figura notável: é do PMDB, passou pelo PTB, exerce mandatos há 56 anos e ninguém jamais colocou em dúvida sua honestidade, devoção ao interesse público e dedicação ao trabalho. Mas desidratou o PMDB gaúcho, que já foi forte e hoje nem consegue formar uma boa chapa de candidatos a deputado federal. 

Sob sua sombra, nenhuma liderança floresceu. O PMDB gaúcho tem hoje quatro deputados federais, Osmar Terra, Alceu Moreira, Eliseu Padilha e Darciso Perondi. Padilha quis disputar o Senado, mas Simon teve preferência; então, se aposenta. Moreira, com ficha suja, não pode candidatar-se. Os demais astros do PMDB, como o ex-governador Germano Rigotto, foram-se apagando e perdendo votos. Saíram de cena sem deixar substitutos. 

Bonitos e gostosos
É meio difícil assistir a seco, mas deve-se fazer o sacrifício: a Exposição de Ovos de Páscoa decorados, em benefício do Instituto Cervantes, é uma beleza. Vale pelo aspecto, vale pelo aroma (mas quem quiser comê-los terá de entrar no leilão pelo portal www.satoleiloes.com.br). Até o próximo dia 7, de terça a sexta, das 14 às 22 horas, e aos sábados, das 9 às 14h, na Avenida Paulista, 2439, SP.

Eficiência
Aconteceu no Rio. Num poste, uma pichação com apologia ao crime. A Prefeitura, dona do poste, foi avisada, houve indignação geral com o vandalismo e a promessa de que o poste seria imediatamente pintado - o que significa, ao contrário do que possamos imaginar, que a pintura seria iniciada em cinco dias úteis.

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

Quem paga o pato é você

Ruth De Aquino
Revista ÉPOCA

Lula fala como se não fosse em nada responsável por tudo o que está aí. E a maioria ainda acredita nele

O maior líder da oposição atualmente, que cobra mais medidas concretas da presidente Dilma Rousseff, que mais reclama do estado preocupante da economia brasileira, que ganha mais manchetes, que mais mexe com o mercado quando abre o verbo, e que mais tem condições de ganhar a eleição, todo mundo sabe, é Lula, o criador da criatura.

Lula sempre soube que não entende nada de economia. Mas entende de povo. Sabe que os brasileiros estão pessimistas e irritados com a inflação sentida no mercado e na feira. O tal “teto da meta” já foi estourado há muito tempo no dia a dia, e isso é fatal para uma líder sem carisma. As greves começarão a pipocar, para o povo recuperar o poder aquisitivo. Lula não gosta nadinha do que vê. Você pode chamá-lo do que quiser, menos de bobo.

Em sua entrevista a blogueiros, com repercussão na imprensa que ele ataca, Lula foi direto na jugular da companheira. “Poderíamos estar melhor, e a Dilma terá de dizer isso na campanha claramente: como a gente vai melhorar a economia brasileira.” Lula fala como se não fosse em nada responsável por tudo o que está aí. E a grande maioria dos eleitores acredita nele.

Se será ou não candidato, é outro papo. Lula interveio agora na Presidência de maneira mais bruta que o Comitê Olímpico Internacional interveio na Olimpíada do Rio. É o mesmo raciocínio. Quando um projeto corre o risco de desandar, entra no ringue o mais forte para evitar danos futuros. O projeto Dilma soçobra como os Jogos no Rio. Falta credibilidade a ambos.

Lula não quer ninguém atrapalhando o PT. Nem a pupila Dilma, nem o ex-vice-presidente da Câmara, André Vargas, hoje um náufrago abandonado à própria sorte. “No final”, disse Lula, “quem paga o pato (da amizade de Vargas com o doleiro preso Alberto Youssef) é o PT.”

Quem paga hoje o pato não é o PT, mas o cidadão brasileiro. Paga o pato, a galinha, os ovos, o tomate. Paga mais do que dizem os índices oficiais de inflação. Paga o pato do despreparo e do oba-oba da equipe econômica, que deitou no sofá do Planalto em tempos fáceis e agora não consegue nem maquiar a economia real. Adiam-se aumentos nas contas de luz e de gasolina, e ninguém acredita mais em meta nenhuma.

Na corrida contra o tempo e contra o descrédito, até a eleição, Dilma tropeça em si mesma, se encolhe, não pode aparecer em público porque será vaiada, torce para a Seleção ganhar a Copa e tem de engolir as broncas públicas de Lula. “Minha candidata é a Dilma”, repete Lula. Mas ele só alimenta o que chama de “boataria”, quando se diz insatisfeito com os rumos da economia no Brasil.

“O problema maior foi deixar a inflação bater no topo da meta”, diz o economista Edmar Bacha, um dos pais do Plano Real e ex-presidente do BNDES e do IBGE. “Estavam brincando com fogo e estão colhendo o que semearam.” Está claro, segundo Bacha, que a taxa de inflação real é maior que os 6,15% anuais. “Essa taxa, parcialmente oculta pelo controle dos preços administrados, contamina muito a própria ordem social.” Bacha não se assusta com as greves nem crê na argentinização do Brasil. “Não é o fim do mundo. Quem está parando é gente com poder de barganha, operários envolvidos em obras estratégicas.”

No Leblon, bairro nobre do Rio de Janeiro, funcionários em greve das obras de expansão do metrô irromperam com paus e pedras na esquina de minha rua. Estavam furiosos com os colegas que furavam a paralisação e insistiam em trabalhar. Os grevistas exigem pagamento de 100% sobre as horas extras, aumento da cesta básica de R$ 230 para R$ 300, retroativo a fevereiro, e 10% de aumento nos salários.

É só conversar com qualquer um na rua, taxista, segurança, lojista, feirante, dona de casa, que você ouvirá o que as pesquisas detectam: insatisfação, medo e desconfiança. O Rio teve a inflação mais alta do país, 7,87% em 12 meses. A alta em alimentos e serviços é muito maior, tanto que a moeda na cidade passou a ser apelidada de “surreal”. Como a maioria não acredita em “legado social da Copa”, tornou-se visível uma torcida cada vez mais militante contra o desempenho da Seleção.

Os grevistas da linha 4 do metrô carioca reivindicam só 10% de aumento porque não leem jornal nem revista. Se fossem bem informados, saberiam que o governo federal aumentou as despesas totais em 15%, só no primeiro bimestre de 2014. A conta de pessoal e encargos sociais cresceu 13,5% em janeiro e fevereiro. Péssimo exemplo! Com as finanças públicas sem controle no Brasil de Lula e Dilma, quem paga o pato não é o PT, é você. Até rimou. 

Registro de um retrocesso

Claudia Safatle
Valor 

O que mais impactou empresários que nutrem simpatia pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e compartilham do coro "Volta Lula", na entrevista que ele deu para um grupo de blogueiros que apoiam o governo, na terça feira, foi a forma dura e insistente com que o ex-presidente defendeu o controle da imprensa. "Perdemos um tempo precioso e não fizemos o marco regulatório da comunicação nesse país", disse Lula. "Temos que retomar com muita força essa questão da regulação dos meios de comunicação do país. O tratamento à Dilma é de falta de respeito e de compromisso com a verdade", completou, deixando claro que advoga a censura de conteúdo.

A perplexidade pode ser conferida em uma reunião habitual na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), no dia seguinte à entrevista. Segundo relato de um dos presentes, "a entrevista causou mal-estar". Até então se imaginava que a discussão sobre instrumentos de controle da mídia fosse somente uma proposta de um ou dois assessores do ex-presidente. "Mas não, é do Lula!", disse.

No Congresso, o divulgador da ideia que agora passou a ser vista como uma medida de força que conta com o apoio do ex-presidente, era o deputado André Vargas (PT-PR) que, por força de denúncia de corrupção, renunciou ao cargo de vice-presidente da Câmara.

Não foi só pelo ataque frontal que o ex-presidente fez à mídia que a entrevista "assustou" mas, também, pelo fato de que Lula "mostrou que fechou os olhos: não há Petrobras e não houve o mensalão", comentou a fonte.

Na tentativa de compreender os reais motivos que o estimularam a subir o tom da defesa do controle do que é divulgado pela meios de comunicação, concluiu-se que pode ter sido um "erro grosseiro" do ex-presidente que, no entanto, é capaz de criar uma resistência não desprezível "junto a pessoas que estão com ele".

Não é segredo que parte do setor privado é contra a reeleição de Dilma Rousseff e torce para que Lula se coloque como candidato ao Palácio do Planalto este ano.

Logo no início da entrevista de mais de três horas aos blogueiros, ele disse: "Acho que os meios de comunicação no Brasil pioraram do ponto de vista da liberdade, do ponto de vista da neutralidade e agora que vocês [os blogs] tão fortemente conquistaram a neutralidade da internet, têm que começar a campanha para conquistar a neutralidade dos meios de comunicação para eles pelo menos serem verdadeiros. Podem ser contra ou a favor, mas que a verdade prevaleça".

Como exemplo de supostas inverdades, o ex-presidente citou: "Vejo alguns números colocados por pessoas da Petrobras e os números colocados pela imprensa e eles não batem entre si", referindo-se aos dados divulgados sobre a compra da refinaria de Pasadena, no Texas, em uma operação muito controversa e obscura da estatal brasileira. "Estamos sendo conduzidos por uma massa feroz de informações deformadas", acusou o ex-presidente.

No decorrer da entrevista ele voltou ao tema e aumentou os decibéis. "No fundo, no fundo, e vocês todos são pessoas informadas, a imprensa construiu quase que o resultado desse julgamento [do mensalão]. Eu me pergunto como é possível uma CPI que começou investigando o desvio de R$ 3 mil em uma empresa pública [os Correios ], que era dirigida pelo PMDB e que investigava um cara do PTB, terminou no PT? É indescritível!".

Alguns minutos depois, retomou o assunto: "Espero que a história do mensalão seja recontada nesse país e, se eu puder, vou ajudar a reconta-la. Como uma CPI que começou por causa de R$ 3 mil nos Correios terminou no mensalão? Temos que mostrar qual foi o papel da imprensa!". Antes de encerrar, disse: "O mensalão foi o mais forte processo político desse país em que a imprensa teve papel de condenação explícita antes de cada sessão, de cada ato" E concluiu: "Nunca vi nada igual! O massacre era apoteótico!"

Dilma Rousseff, tão logo assumiu a Presidência, em janeiro de 2011, deixou claro que não apoiaria a ideia de um março regulatório da mídia que assessores do ex-presidente deixaram como herança para o novo governo. Dilma foi firme ao negar seu apoio à proposta: "Devemos preferir o som das vozes críticas da imprensa livre ao silêncio das ditaduras".

As críticas à condução da economia que os meios de comunicação veiculam também seriam, em boa parte, fruto de "notícias deformadas", na visão de Lula. Ele contou que em 2007, em um encontro com Mário Soares, ouviu deste que não estava entendendo o que estava acontecendo no Brasil. Com uma pilha de jornais e revistas do exterior debaixo do braço, o ex-presidente de Portugal disse: "Os jornais do mundo dizem que o Brasil é coqueluche, um país extraordinário, e nos jornais brasileiros vejo que o país está acabado!".

Lula convocou Dilma e todos os ministros a partirem para a ofensiva, irem para cima. "Hoje a gente não está só, a gente tem a internet. Cadê o blog da Petrobras que foi tão importante na CPI de 2009?". Ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que deu um conselho: "Guido, você tem que ter uma equipe de alerta. Saiu uma mentira, você tem que falar, usar o direito de resposta". Ele ressaltou alguns bons indicadores econômicos do país - reservas cambiais, a dívida líquida e bruta que diz não serem altas, o aumento da classe média, o crescimento que não é tão ruim. Mas, nesse caso, admitiu: "Poderíamos estar melhor e a Dilma vai ter que dizer isso na campanha, como é que a gente vai melhorar a economia".

Se o ex-presidente pretendeu colocar um freio de arrumação no governo e na campanha de Dilma, os excessos do seu discurso vistos até por alguns de seus colaboradores pode ter fragilizado sua intervenção.

O fato de ele dizer que "a Dilma é minha candidata" pesou pouco para os que estão convencidos de que ela pode perder a reeleição e não vislumbram saída para Lula senão lançar-se em sua própria campanha. Para uma fatia de representantes do setor privado que o apoia, a entrevista de Lula aos blogueiros teria mostrado o retrocesso de um personagem que despertou para a política e para a história impulsionado pela cobertura da imprensa e por mais de uma vez se considerou "um produto da imprensa".

O gato de Schrödinger

Celso Ming 
 O Estado de S.Paulo

Quem ouve as entrevistas de algumas autoridades brasileiras da área econômica corre o risco de achar que este é um dos países avançados em física quântica.

Pois, em física quântica, tem o gato de Schrödinger. Em famoso debate com Albert Einstein, em 1935, o físico austríaco Erwin Schrödinger propôs um experimento em que um gato estaria vivo e morto ao mesmo tempo. (Para explicações pormenorizadas, confira no Google.) E a mesma física quântica apresenta o Princípio da Incerteza, formulado em 1927 pelo físico alemão Werner Heisenberg, segundo o qual o observador nunca consegue determinar a posição exata de uma partícula subatômica, porque ele próprio altera a posição do objeto.

O ministro Guido Mantega, por exemplo, repete que a inflação é temporária e está sob controle, o que contraria a percepção das pessoas comuns que há meses se assustam quando vão à feira. Às vezes, Mantega também diz, como a partir de 2011, que a forte oferta de dólares no câmbio interno é o produto de uma guerra cambial promovida por grandes bancos centrais e deve ser revertida por subtrair competitividade à indústria dos emergentes. Outras vezes, como agora, o ministro sustenta que a forte entrada de dólares é bem-vinda porque ajuda a combater a inflação e já não sustenta que é coisa ruim, causada pela guerra cambial, ainda que a ação dos bancos centrais continue.

Mantega não é o único. O secretário do Tesouro, Arno Augustin, está sempre pronto a produzir fenômenos quânticos, especialmente quando se trata de calcular as contas públicas. Em síntese, as autoridades dizem que estão vendo uma coisa enquanto os demais estão vendo outra. Mais, ainda, em momentos diferentes, a mesma coisa é vista de outro jeito, como no caso da guerra cambial, que agora joga a favor.

Em política existem ainda dois princípios sobre como proceder diante de coisas ruins e de coisas boas. Velho procedimento determina, por exemplo, que as ruins devem ser escondidas e as boas, escancaradas. A ideia é sempre tirar proveito próprio do que acontece ou deixa de acontecer. Outro princípio de sabedoria política, enunciado pelo pensador Nicolau Maquiavel, é o de que o príncipe (o dirigente) deve fazer o mal de uma vez e o bem, aos poucos.

Quando não é claro ou escamoteia a realidade, o dirigente tenta reduzir um problema. Ao dizer que a inflação está sob controle e é suportável, não quer enfrentar o custo político do ataque às causas. Mas, quando admite que a distribuição à população de determinadas contas a pagar só ocorrerá depois das eleições, cria o problema de como isso se fará, se aos poucos ou se de uma vez. Pelo conselho de Maquiavel, é melhor que o atraso das tarifas da energia elétrica, dos combustíveis e dos transportes urbanos seja descarregado de uma vez. Mas já há quem avance que uma marretada assim provocaria vítimas demais. Daí por que melhor seria distribuí-las em marretadinhas sucessivas.

O problema adicional é que tudo isso cria incerteza, que não guarda simetria rigorosa com o princípio de Heisenberg. Para o empresário que planeja um investimento ou para o consumidor que tem em mente uma grande compra, fica difícil saber em que terreno estará pisando dentro de um ano. Nem que se aprofunde em física quântica.

Conta pendurada para 2015

Josie Jeronimo 
Revista ISTOÉ

Com os dois olhos na eleição, governo evita adotar ações impopulares e deixa para o próximo ano iniciativas inevitáveis que serão amargas para a população e o País

Na tarde chuvosa do dia primeiro de janeiro de 2011, Dilma Rousseff recebeu de Luiz Inácio Lula da Silva a faixa presidencial e a administração de um país com economia estabilizada, inflação sob controle e uma Petrobras que lucrava R$ 35 bilhões ao ano. O vencedor das eleições de 2015 não terá o mesmo privilégio. A conta que vem para o sucessor de Dilma ou mesmo para ela enfrentar, caso seja reeleita, será salgada. Isso porque, de olho nas eleições, o governo adiou a adoção de medidas impopulares, mas que eram necessárias, ao conter artificialmente as tarifas de combustíveis e eletricidade e expandir subsídios. Por isso, a partir do próximo ano, serão inevitáveis para quem estiver governando o País iniciativas amargas para a população, como o aumento dos combustíveis e da conta de energia elétrica. E para evitar impacto forte sobre a inflação de 2015 serão necessárias medidas de contenção que geralmente afetam o consumo e a geração de empregos, além da política de reajuste do salário mínimo.


Em todo ano eleitoral costuma ocorrer o mesmo. Governantes, independentemente de partidos e ideologias, resistem a levar a cabo às vésperas da eleição iniciativas que possam desgastar sua imagem perante o eleitorado. Ocorre que muitos desses problemas que se acumularão para o próximo ano poderiam ter sido evitados, se não fossem equívocos gerenciais cometidos pelo governo. Em 2003, Dilma Rousseff era ministra de Minas e Energia e caiu nas graças do então presidente Lula ao reformar o sistema de distribuição elétrica, criando um arranjo com termelétricas para socorrer o abastecimento em época de seca. O plano de Dilma incluía a interligação das linhas de transmissão para deslocar energia de Estados que produziam muito para outros que estivessem deficientes. A ideia foi considerada genial, pois foi adotada como resposta do governo petista ao racionamento tucano de 2001. À época, os consumidores foram obrigados a reduzir o consumo por oito meses e, quando o fornecimento voltou ao normal, a tarifa foi reajustada. Assim, Dilma ganhou o status de grande gestora. Uma década depois, Dilma, sob o pretexto de inovar a gestão do setor, criou, em 2012, mecanismos para forçar a redução da tarifa elétrica. Em pouco mais de um ano, a medida popular se transformou em uma dor de cabeça para o governo.

IMAGEM PREJUDICADA
Em 2012, a presidenta Dilma Rousseff criou mecanismos para forçar a redução
da tarifa elétrica. Em pouco mais de um ano, a medida popular
se transformou em uma dor de cabeça para o governo

Nem todas as empresas concessionárias aderiram à proposição, feita por meio de medida provisória, e o governo terá de desembolsar R$ 20 bilhões para subsidiar as distribuidoras de energia elétrica que não conseguiram operar no mercado regulado pelo Estado. O governo jogou a toalha e admitiu que não poderá continuar com o prejuízo. Com isso, o aumento da tarifa será repassado ao consumidor. O governo ainda conseguiu empurrar o impacto da ação para 2015. Depois das eleições, o consumidor deve esperar aumento de 15% a 20% na conta de luz.

Os aumentos na conta de luz e na bomba de gasolina ficarão para 2015, mas nos últimos três meses as famílias não conseguiram encher os carrinhos nos supermercados e voltar para casa pagando a mesma conta. O aumento consecutivo no custo dos alimentos em 2014 alertou os analistas econômicos para o risco de a inflação bater no teto estabelecido pelo próprio governo. A equipe econômica argumenta – contra os que chama de “alarmistas” – que o preço dos mantimentos subiu devido à mesma estiagem que colocou as termelétricas para operar. Os serviços, que também puxaram os índices, ficaram mais caros em março graças à grande demanda do turismo de Carnaval. Mas, para o consumidor, o trauma das máquinas de remarcar preços do início da década de 1990 ainda segue vivo na memória. O Planalto está preocupado. Inflação alta foi o que ajudou a puxar a queda de popularidade da presidenta na última pesquisa Datafolha. Aliados do senador Aécio Neves (PSDB-MG), adversário de Dilma na corrida presidencial, já pegam carona nos números do mercado para atacar o governo. “A inflação é resultante da péssima gerência dos gastos públicos e da perda de credibilidade do Brasil junto aos investidores internacionais”, afirma o senador Cyro Miranda (PSDB-GO).

PREPARE O BOLSO
Depois das eleições, o consumidor deve esperar
aumento de 15% a 20% na conta de luz

Outra questão que o governo terá de enfrentar a partir do próximo ano é a política de reajuste do salário mínimo. Em 2011, o governo aprovou lei que garantia aumento real do salário, independentemente do patamar da inflação. A lei de reajuste é datada e precisa ser renovada em 2015. Analistas garantem que a medida ajuda a indexar os preços e contribui para a alta inflacionária. Agora, às vésperas da eleição, o governo precisa sinalizar se pretende ou não manter a política de recuperação do salário mínimo, mesmo se o preço a pagar for mais inflação.

O ano de 2015 promete ser de austeridade em todas as áreas. Na análise do cientista político Carlos Melo, Dilma Rousseff pegou o governo ao fim do ciclo de “16 anos exitosos” dos governos Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Os oito anos de FHC, pontua Melo, se destacaram por melhorias institucionais e Lula conseguiu promover transformações históricas na área social nos seus dois mandatos. Ao fim do ciclo, o Brasil vivenciou um “esgotamento dos mecanismos” que coroaram as administrações anteriores. Para dar sequência aos anos de ouro, Dilma teria de apelar para a política, reunir a classe política e a iniciativa privada em grandes agendas para investir nos gargalos estruturais que ainda travam o desenvolvimento do País. As medidas impopulares para 2015 são imprescindíveis, afirma o cientista político. Carlos Melo acredita que sairá na frente o candidato que tiver a coragem de dizer isso claramente à população, em vez de usar a criatividade para lançar subterfúgios de curto prazo. “É preciso inverter a lógica dos marqueteiros e falar claramente: temos esses problemas e vamos resolver assim. Mas somente um líder com credibilidade poderia conquistar a confiança da população para dizer que o esforço de 2015 garantirá uma vida melhor em 2018. Para isso, é preciso política. Os gerentes são fundamentais para qualquer governo, mas não o bastante”, afirmou.





VIGARICE: Governo deixa R$ 44 bilhões de fora das contas do PAC 2

Danilo Fariello e Cristiane Bonfanti 
O Globo

Balanço aponta conclusão de 82% das obras, mas ignora projetos bilionários que estão atrasados

Guito Moreto 
Fora da conta. Obras do Arco Rodoviário Metropolitano do Rio,
 em Magé. Projeto, atrasado, não foi incluído no balanço do PAC 

BRASÍLIA - No balanço da segunda etapa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2) apresentado nesta terça-feira, o governo considerou concluídas 82,3% das obras previstas para esta fase do programa, que se encerra em 2014, mas deixou de fora do cálculo grandes obras. Não entraram na conta, por exemplo, a Refinaria Abreu Lima, a Ferrovia Nova Transnordestina e o Arco Rodoviário Metropolitano do Rio, que somam R$ 44 bilhões e estão atrasadas. No lugar destes empreendimentos, o governo incluiu outros de menor complexidade, em especial do programa Minha Casa Minha Vida, mantendo a previsão original de R$ 708 bilhões em obras concluídas no mandato da presidente Dilma Rousseff.

— O total previsto é aquele de quando a gente lançou o PAC 2, o que estava previsto concluir em 2014. Esses valores estão todos incluídos (...) a partir do qual se obtém os 82,3% — disse a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, na apresentação do balanço de três anos do PAC 2.

Segundo o balanço do PAC, já foram concluídas obras no valor total de R$ 583 bilhões, sendo que 56% desse total se refere a obras do programa Minha Casa Minha Vida e a financiamentos habitacionais. No lançamento do PAC 2, em março de 2010, o volume de investimentos previstos para o Minha Casa Minha Vida equivalia a menos de 30% do total de R$ 955 bilhões previstos para serem executados até o fim deste ano.

No lançamento do PAC 2, o governo já previa que obras de grandes proporções, como o complexo petroquímico do Comperj, a hidrelétrica de Belo Monte e a usina nuclear de Angra 3, ficariam prontas só depois de 2014. Outras obras que vêm desde o PAC 1, pelo cronograma original, deveriam estar prontas, mas a conclusão desses projetos foi sendo adiada ao longo da evolução do PAC 2. É o caso, por exemplo, da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) e da Integração da Bacia do São Francisco.

Segundo o balanço divulgado nesta terça, já foram investidos até dezembro R$ 773,4 bilhões pelo programa — 76% do previsto entre 2011 e 2014 e 25% a mais do que os investimentos do PAC 1.

Maior parte vem do Minha Casa Minha Vida
A evolução indica que o governo deverá bater a meta de R$ 955 bilhões em volume de investimentos até o fim deste ano.

Do total já investido, porém, a maior parte dos desembolsos se refere a financiamentos habitacionais (R$ 253,8 bilhões) ligados ao Minha Casa Minha Vida, seguidos dos investimentos de estatais (R$ 206,7 bilhões). Os investimentos referentes ao Orçamento Geral da União (OGU), Fiscal e Seguridade ficaram em R$ 78,9 bilhões até dezembro. No ano passado, o governo conseguiu acelerar o ritmo de execução do PAC 2 em relação a 2012. Foram R$ 301 bilhões, contra R$ 268 bilhões no ano anterior.

As obras do PAC que não ficarem prontas até o fim deste ano deverão fazer parte do PAC 3, a ser lançado em abril deste ano para vigorar até 2019, assim como ocorreu com as obras originadas no PAC 1, de 2007, que continuaram a ser tocadas no PAC 2, lançado em 2010.

— A necessidade da continuidade dos investimentos do país é um consenso. Já se fala no PAC 3 de maneira absolutamente natural. Nós não temos ainda posição quanto a isso, mas ninguém vai parar o Comperj, evidentemente. Quero dizer que o Arco Metropolitano do Rio, parte substancial dele será entregue ainda este ano, provavelmente ainda no primeiro semestre — disse a ministra.

Preço dos alimentos aumenta 9% ao ano no Brasil desde 2010

Mariana Carneiro
Folha de São Paulo

Embora o governo esteja tratando a disparada dos preços dos alimentos deste início de ano como pontual, esse fenômeno já dura cinco anos.

Seguidos problemas climáticos, no país e no exterior, vêm fazendo os alimentos subirem em média 9% ao ano no Brasil, desde 2010.

Entre 2010 e este ano, os alimentos subiram bem mais do que a inflação. Só nos últimos dois anos, esses itens subiram 23% contra uma inflação acumulada de 14%.

O aumento do consumo, tanto no Brasil quanto em outros países, como a China, ajuda a explicar por que esses produtos não ficam mais baratos, mesmo com o crescimento econômico mais fraco.

Mas existem fatores domésticos que estão fazendo com que os alimentos fiquem ainda mais caros.

A economista Ignez Vidigal Lopes, especialista em economia agrária da FGV, afirma que custos com mão de obra estão aumentando também no campo, com a perda de trabalhadores para empregos na área urbana.

"Produtores de culturas que ficam próximas às cidades têm relatado que não têm empregados ou que o custo para contratar aumentou."

Na última quinta-feira, durante seminário no banco HSBC, o ex-presidente do Banco Central Luiz Fernando Figueiredo, sócio da gestora Mauá Sekular, disse que, de tão recorrentes, os aumentos de alimentos já poderiam até ser tratados como "sazonais" (que ocorrem com frequência, em certa época do ano).

Beto Barata/Folhapress
A presidente Dilma em assinatura de contratos de concessão de rodovias

MAIOR PESO
Os alimentos são os principais itens consumidos pelas famílias brasileiras. Por isso, representam um quarto do índice que mede a inflação oficial, calculada pelo IBGE. O seu aumento, portanto, afeta imediatamente o padrão de vida do brasileiro.

Períodos de seca na Rússia (2010) e nos EUA (2012) fizeram com que produtos exportados pelo Brasil, como milho e soja, subissem.

Em 2014, são os produtos in natura, como verduras e frutas, que mais aumentam de preço. Segundo Wladimir Caramaschi, estrategista do banco Credit Agricole, a pressão neste momento está localizada no Brasil, ou seja, não é importada.

É o caso do tomate e da alface, que ficaram 31% e 38%, respectivamente, mais caros para o consumidor.

A expectativa de economistas é que os preços desses alimentos cedam com um novo ciclo de plantio. Porém produtos cuja produção é mais demorada, como café, feijão, leite e carnes, também estão sofrendo o impacto da estiagem, e um recuo de seus preços no curto prazo é considerado menos provável.

As carnes estão subindo na esteira de exportações maiores. As vendas externas aumentaram 21% no ano passado e já subiram 25% nos primeiros dois meses do ano (ante o mesmo período de 2013). No entanto, a oferta interna só cresceu 11%, segundo levantamento do Bradesco. Neste ano, afirma o banco, "o volume abatido não tende a crescer no mesmo ritmo". Nos 12 meses encerrados em março, as carnes acumulam alta de 10,9%, segundo o IBGE, contra uma inflação de 6,15%.

A pressão dos preços desses alimentos foi um dos elementos que fez o banco rever a previsão de inflação deste ano de 5,9% para 6,3%, perto do limite estipulado pelo governo (6,5%).

Na avaliação de Caramaschi, a alta dos alimentos é um problema, neste momento, porque pode se espraiar para outras áreas. Isso porque, com a inflação já girando em um patamar mais elevado, aumentam as chances de que esses aumentos sejam repassados para outros preços.

"Corre-se o risco de que o choque se perpetue", diz. 

A inflação surpreende o BC

O Estado de S.Paulo

Derrubar a inflação vai dar mais trabalho do que se imaginava até há pouco tempo e o governo poderia ajudar cuidando melhor de seus gastos. Esta é a mensagem principal da ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), um texto nada surpreendente diante da alta de 0,92% do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Nesta altura, é perfeitamente razoável esperar mais um aumento da taxa básica de juros na reunião de maio do comitê. Seria arriscado apostar no fim da política de juros iniciada há um ano. Os principais fatores de pressão inflacionária permanecem, não serão revertidos por iniciativa oficial num ano de eleições e os preços ainda poderão ser afetados nos próximos meses pela alta do dólar.

O aumento da inflação projetada para 2014 foi um dos elementos considerados para o aumento de juros de 10,75% para 11%, na reunião do Copom, no começo do mês. Pioraram tanto as projeções do Banco Central (BC) como as do mercado, em contraste com o otimismo da equipe do Ministério da Fazenda.

Apesar de oito aumentos da Selic desde abril do ano passado, os preços de bens e serviços continuaram subindo. A inflação foi mais persistente do que se previa, um fato assinalado várias vezes nos documentos do Copom e mencionado mais uma vez na ata publicada nessa quinta-feira. Pela nona vez foi preciso elevar a taxa básica. O texto lembra a defasagem entre as medidas de política monetária e seus efeitos. Mas os dirigentes do BC parecem ter julgado muito fraca a medicação, daí a decisão de reforçar a terapia.

O texto repete os principais fatores inflacionários mencionados em outras atas. O descompasso entre a demanda e a oferta interna de bens e serviços permanece. Segundo a ata, a diferença tende a estreitar-se, mas isso dependerá, também de acordo com o documento, da confiança de consumidores e empresários e do sucesso do programa de investimentos em infraestrutura. Não se discute, na ata, por que os agentes econômicos deveriam tornar-se mais confiantes.

Como fatores positivos, a ata menciona a moderação dos reajustes salariais e a menor expansão do crédito. Mas o aumento salarial acima dos ganhos de produtividade continua pressionando os custos, admitem os membros do Copom. Os efeitos dos ganhos salariais sobre a demanda de consumo também parecem evidentes. Além disso, atas anteriores também mencionaram a moderação do crédito, mas os efeitos dessa mudança, se tiverem ocorrido, foram até agora limitados. Além disso, o salário real parece ter sido mais afetado nos últimos meses pela própria inflação do que pela resistência patronal nas negociações.

Com diplomático otimismo, os membros do Copom mais uma vez indicaram uma tendência das contas públicas à "neutralidade". Não se esperam - esta é a tradução - novos impactos inflacionários derivados de uma piora da situação fiscal. Mas a aparente expectativa otimista logo se converte numa quase solicitação de ajuda, com verbos no modo condicional: "A geração de superávits primários compatíveis com as hipóteses de trabalho contempladas na projeção de inflação, de um lado, contribuiria para arrefecer o descompasso entre as taxas de crescimento da demanda e da oferta; de outro, contribuiria para criar uma percepção positiva sobre o ambiente macroeconômico no médio e no longo prazo". Além disso, superávits primários "próximos da média dos gerados em anos recentes contribuiriam para diminuir o custo do financiamento da dívida pública, com repercussões favoráveis sobre o custo do capital de modo geral". Isso estimularia o investimento privado no médio e no longo prazos.

Esta é uma excelente mensagem para os empresários acostumados a atribuir ao BC todos os males decorrentes dos juros altos. Deveriam olhar um pouco mais, e mais criticamente, para a gastança governamental. Como esperar juros mais baixos e mais compatíveis com o padrão internacional, quando a indisciplina do governo eleva o custo de financiamento de suas contas, impõe ao setor privado uma competição desleal pelos fundos disponíveis e ainda alimenta a inflação, forçando novas altas da taxa básica?

Inflação sob controle depende do governo

Editorial
O Globo

O fraco crescimento da economia gerou um clima de pessimismo, pois não se espera por parte das autoridades medidas de austeridade em ano de eleições

A perspectiva de baixo crescimento da economia brasileira, agora agravada pelo recrudescimento da inflação, gerou um clima de pessimismo que vai além do empresariado. Pesquisas recentes mostram que os brasileiros estão prevendo alta da inflação (e quando esse tipo de expectativa passa a ser reinante, aumenta a possibilidade de que a profecia se torne realidade). Os mesmos dois terços dos consultados que se mostram pessimistas quanto à trajetória dos preços clamam por mudanças. Em proporção menor, metade dos consultados acredita que haverá mais desemprego, e um terço prevê queda de poder aquisitivo dos assalariados.

Um esforço mais contundente contra a inflação exige uma austeridade nas finanças públicas que não combina muito com ano de eleições gerais. No entanto, no ritmo em que se encontra, a inflação poderá ter mais influência no cenário político do que a repercussão de medidas de austeridade.

A presidente Dilma, candidata à reeleição, reafirmou nos últimos meses seu compromisso com uma inflação sob controle, e dentro das metas estipuladas pelo governo. A partir desses pronunciamentos, a equipe econômica anunciou como objetivo um efetivo superávit primário nas finanças públicas de pelo menos 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB), sem recorrer à contabilidade “criativa”, que caracterizou o fechamento das contas em 2013.

A promessa permanece ainda literalmente como uma dívida, porque os resultados não apareceram nas estatísticas econômicas dos primeiros meses do ano.

A falta de uma resposta adequada na política fiscal, com gastos governamentais de fato contidos, obriga o Banco Central a um forte aperto monetário, com elevação das taxas básicas de juros para um patamar que pode inibir a realização de investimentos privados no futuro. Desse modo, o combate à inflação não pode se restringir à ação da política monetária.

As críticas à política econômica se concentram, assim, no lado fiscal. O país tem uma carga tributária excessiva e, por outro lado, há novas pressões de gastos que partem, por exemplo, de subsídios às tarifas de energia elétrica. O clima adverso do início do ano teve impacto sobre os alimentos in natura. Diante dessa difícil situação, era de se esperar que o governo desse mais demonstração de austeridade nos demais gastos, mas o que se viu foi uma elevação de mais de 15% nas despesas de pessoal no primeiro bimestre, se comparado a mesmo período do ano passado.

Se números como esses continuarem a se repetir, o ambiente de pessimismo já percebido nas ruas não será revertido, prejudicando a economia do país e causando estragos na candidatura à reeleição, pois a presidente pouco terá a exibir a uma sociedade que há muito tempo optou pelo controle rígido da inflação.

Presidente da Infraero reconhece atraso e fala em 'tapear' obra

Diário do Poder 

Gustavo do Vale reconheceu o atraso do Aeroporto de Confins e disse, nesta terça, que usou o verbo tapear quando, na verdade, queria dizer etapear (?).


A infraestrutura de transportes que o Brasil precisa oferecer durante a Copa do Mundo vai ter lacunas. Seis terminais de passageiros dos aeroportos que passam por reformas só vão ficar prontos depois do mundial. E uma das situações mais críticas é a obra em Fortaleza.

O novo terminal de passageiros do Aeroporto Internacional de Fortaleza é uma construção com entulho e materiais amontoados. As estruturas metálicas estão enferrujadas. Entre canteiros alagados, estruturas se tornaram alvo de pichações. Poucos operários trabalham no local onde até pontes de embarque e desembarque, que sequer foram usadas, permanecem sob sol e chuva.    

"Uma obra que teve, no mesmo período do ano passado, 800 trabalhadores e hoje se encontra, junto com a administração, 50 trabalhadores dentro do canteiro de obras", declara Arquimedes Fortes, coordenador de Fiscalização do Sindicato de Construção Civil.

A própria superintendência do aeroporto, em oficio entregue ao Ministério Público Federal, considera o consórcio "CPM Novo Fortaleza" despreparado para executar grandes obras públicas.

O procurador da República Alessander Sales recomendou à Infraero a rescisão imediata do contrato. 

"Com este consorcio as obras não chegarão ao final, portanto, ou se retoma o andamento das obras neste momento ou então, com o passar do tempo esta obra pode entrar para a galeria das grandes obras inacabadas no país”, afirmou Alessander Sales, procurador da República.

Só na semana passada, faltando pouco mais de dois meses para a Copa do Mundo, outra empresa começou a construir um terminal provisório de passageiros que deve ficar pronto em 30 dias. A conclusão da obra, agora, ficou para fevereiro de 2017.

Em outros cinco aeroportos administrados pela Infraero em cidades que vão sediar o evento, o cronograma de reformas também foi dividido em antes e depois da Copa.

A situação é crítica em Porto Alegre. Na capital gaúcha, somente 1, 8% da obra no terminal de passageiros ficou pronta até fevereiro.

Todas as obras do aeroporto só serão concluídas em janeiro de 2016. Prometido para este mês, o terminal 3, do Aeroporto de Confins, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, teve apenas 41,7% das obras concluídas até fevereiro. Os passageiros dizem que os transtornos estão em todas as áreas.

“Banheiro, lugar de desembarque, embarque. Tudo. Não fez nada ainda. Eu viajo aqui sempre, parece que não mudou nada”, afirma Antônio de Jesus, gerente vendas.

Na segunda-feira (7), o presidente da Infraero, Gustavo do Vale, reconheceu o atraso do Aeroporto de Confins e falou sobre as obras.

“ Eu gostaria de enfatizar que o aeroporto não tem essa questão da obra terminar e não se fazer mais nada, isso é uma coisa constante. Nós podemos, vamos dizer assim, tapear as obras de modo que você melhore a operacionalidade sem terminar ela como um todo. Você pode, em determinada área que está em obra, você isola aquela área, mas libera outras áreas em que as obras já terminaram de modo que, vamos dizer assim, o aeroporto como um todo não sofre nenhuma solução de continuidade dentro do processo”, declarou o presidente da Infraero.

Nesta terça-feira (8), o presidente da Infraero, Gustavo do Vale, divulgou uma nota sobre essa declaração. Disse que usou o verbo tapear quando, na verdade, queria dizer etapear. É uma palavra sem registro nos nossos dicionários que, segundo ele, significa o acompanhamento das etapas das obras.

O Jornal Nacional foi ouvir o Governo Federal sobre os atrasos nas obras administradas pela  Infraero.

"A Infraero tem autonomia, tem responsabilidade na condução da execução dessas obras. A empresa tem que ser punida, eu não tenho a menor dúvida disso, mas o sistema de punição tem que ser de tal maneira que não cause um dano pior para a população, que não é o atraso da obra, mas é a paralisação com ações na Justiça, com demandas que atrasam e dificultam cada vez mais", destaca Moreira Franco, ministro da Aviação Civil.

CEGUEIRA: Dilma diz que aeroportos do país ‘dão de sobra’ para a Copa

Flávio Ilha 
O Globo

Presidente afirmou que obras não são para o evento, mas sim, para o povo
Emissário inaugurado, que custou R$ 146 milhões, só funcionará integralmente em 2015

Divulgação/Governo do Rio Grande do Sul
Dilma Rousseff inaugura emissário cloacal em Porto Alegre  Sul

PORTO ALEGRE – A presidente Dilma Rousseff minimizou os atrasos em obras de infraestrutura para a Copa do Mundo e disse que os aeroportos do país “dão conta de sobra” para o mundial, que inicia dentro de dois meses em 12 capitais. Dilma falou sobre os atrasos no cronograma estabelecido pelo governo durante inauguração de um emissário para escoamento de esgoto que funcionará integralmente apenas em março de 2015, em Porto Alegre.

Dilma citou como exemplo os terminais de Brasília e da cidade visitada, que estão com os projetos de ampliação atrasados em relação ao cronograma estabelecido pelo governo.

— Em Porto Alegre, os terminais 1 e 2 dão conta de sobra para a Copa. Não dão conta para a população, que antes nem entrava num aeroporto e agora entra. Estamos de olho nessa expansão de demanda. Em Brasília a mesma coisa: vamos entregar o Píer Sul agora e dá com sobra para a Copa. Mas nós temos que aligeirar (as ampliações) porque cada vez mais, a cada ano, mais gente usa aeroporto e por isso nós temos que expandir. As obras, rigorosamente falando, atendem a Copa, mas elas não são para a Copa. Elas são para o povo deste país – disse.

A presidente também participou de formatura de várias turmas do Pronatec. Dilma lembrou que os projetos sociais do governo são bancados pelos impostos e que o dinheiro que se arrecada “tem que voltar para o povo brasileiro”. A presidente lembrou que o programa de ensino técnico, que tem como meta 8 milhões de matrículas até o final de 2014, “não é um favor”.

— Só é gratuito (o Pronatec) porque o povo brasileiro paga imposto e ele tem de ser devolvido. Indiretamente, é um curso que vocês pagam – declarou aos formandos no Salão de Atos da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul).

Emissário só funcionará plenamente em 2015
O emissário para escoamento de esgoto inaugurado por Dilma só terá seu funcionamento integral em 2015. Na cerimônia, a presidente reclamou das críticas da oposição aos projetos do governo, especialmente na área social, e exaltou a situação de “baixa vulnerabilidade” do Brasil em relação ao resto do mundo.

Dilma exemplificou dizendo que não é possível criticar a situação da saúde pública do país e, ao mesmo tempo, os investimentos em saneamento que estão sendo feitos pela União, que somam mais de R$ 30 bilhões, segundo ela.

— Muitas vezes, no Brasil, você é criticado por ter o cachorro e outras vezes por não ter esse mesmo cachorro. Não é possível criticar simultaneamente por não fazer projetos para melhorar a saúde pública e por fazer os investimentos em saneamento, que impactam diretamente na saúde da população. Não é possível, não fecha. Essa equação, no Brasil, tem que fechar e a responsabilidade de cada um de nós tem de aparecer – criticou a presidente em seu discurso.

A obra, que custou R$ 146 milhões e foi parcialmente financiada com recursos da Caixa, iniciou a fase de testes no dia 12 de março. Dilma fez questão de participar da cerimônia porque acompanhou as negociações para o financiamento do projeto quando ainda era secretária da Fazenda no governo do prefeito do Alceu Collares (PDT), entre 1985 e 1988.

A presidente visitou a estação acompanhada do governador Tarso Genro (PT) e do prefeito José Fortunati (PDT).

Visivelmente resfriada, Dilma lembrou que projetos na área de saneamento básico estão vinculados diretamente a recursos de saúde pública. No discurso de 23 minutos, em que teve interromper sua fala três vezes para tossir, a presidente também reclamou das críticas sistemáticas da oposição.

- Investir em saneamento significa ter mortalidade infantil menor e melhor qualidade no abastecimento de água da população, o que impacta nos indicadores de saúde. Agora, não dá para ser criticado por ter um cachorro e depois ser criticado por não ter o mesmo cachorro. Tem que equilibrar isso aí - disse.

A estação de tratamento Serraria, que faz parte do Programa Integrado Socioambiental (Pisa), só poderá operar plenamente daqui a um ano, quando a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) irá avaliar a necessidade de se alterar a estrutura implantada. O impasse começou no final de 2012, quando o Departamento Municipal de Água e Esgoto (Dmae) solicitou a licença de operação ao órgão ambiental correspondente.

O Pisa tem orçamento de R$ 672 milhões - quase metade dele financiado pela Caixa. A estação vai elevar para 77% o índice de esgoto tratado em Porto Alegre, mas ainda não recebeu aval para funcionar porque houve redução em um quilômetro no tamanho da tubulação que despeja esgoto no Rio Guaíba. A Fepam considerou insuficientes os estudos adicionais sobre a viabilidade de manter o despejo final em 1.600 metros, em vez dos 2.600 metros do projeto original.

O acordo firmado em dezembro do ano passado entre a prefeitura e o governo do estado prevê que a estação inicie a operação com apenas 13% de sua capacidade (530 litros por segundo) e chegue a 60% (2,5 mil litros por segundo) em março de 2015, se o modelo de dispersão for cumprido. Não está descartada a possibilidade de que o emissário seja prolongado em mais um quilômetro por exigência da Fepam, o que demandaria mais 18 meses de obra a partir do ano que vem.

Governo tenta diminuir impacto na conta de luz

Veja online
Com Estadão Conteúdo

Bancos e governo negociam condições para que empréstimo às elétricas não contribua para aumentar a tarifa de energia para os consumidores

(Adriano Machado/Bloomberg) 
Rede de energia elétrica próxima à hidrelétrica de Itaipu

O custo financeiro do empréstimo de 11,2 bilhões de reais que treze bancos farão à Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) será fechado na semana que vem, e o superintendente da CCEE, Luiz Eduardo Barata, afirmou que o empenho da instituição e do governo Dilma Rousseff é "total" para que as taxas de juros e condições gerais sejam as melhores para que haja menor impacto possível na conta de luz. Em sua primeira entrevista exclusiva após o início das negociações, Barata garantiu que as distribuidoras de energia terão o dinheiro até o dia 28 deste mês.

"Como esse custo do empréstimo será repassado, depois, para a conta de luz de todos os consumidores, há um empenho geral para que essa taxa seja reduzida ao mínimo", afirmou Barata. A operação envolverá os seguintes bancos: Bradesco, Itaú Unibanco, Santander, BTG Pactual, Citibank, J.P. Morgan, HSBC, Votorantim, Credit Suisse, Bank of America, Goldman Sachs, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. "São vários bancos, de vários tamanhos, então acreditamos que a taxa de juros possa ser boa".

Barata afirmou que há uma "força-tarefa" no governo para que tudo saia do papel até 28 de abril, quando as distribuidoras devem pagar suas obrigações referentes a fevereiro - a liquidação financeira da energia comercializada em fevereiro e o custo com combustíveis usados pelas geradoras naquele mês. O preço da energia neste ano tem sido mais alto pelo uso de combustíveis fósseis nas termoelétricas.

Esse pagamento já deveria ter sido feito, mas foi excepcionalmente prorrogado pelo governo para evitar uma crise financeira nas distribuidoras. Diante da estiagem verificada no País desde o fim do ano passado, o preço da energia no mercado livre disparou. As distribuidoras, então, ficaram com exposição involuntária às condições mais adversas, e o governo federal esquematizou uma saída para evitar tanto uma crise nas distribuidoras quanto um gasto elevado do Tesouro Nacional - assim nasceu a ideia do empréstimo bancário à CCEE.

A CCEE fechará a operação com os bancos na semana que vem, e então remeterá as condições aos seus associados em assembleia no dia 22. "A aprovação será quase unânime, tenho certeza", disse ele. Depois, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) vai homologar o empréstimo, e os bancos vão efetivamente depositar o dinheiro na conta das distribuidoras, que pagarão no dia 28 os custos com geradoras e a liquidação referente a fevereiro.

"Não vamos tomar de imediato os 11,2 bilhões de reais junto aos bancos", explicou Barata. "Esse valor representa o teto, e a cada mês vamos cruzar a exposição involuntária das distribuidoras com aquilo que já está contemplado pela tarifa, que é uma informação da Aneel, e a diferença será coberta com o dinheiro do empréstimo, que sairá mês a mês."

Segundo o superintendente da CCEE, somente após a realização do leilão de energia existente, previsto para o dia 30 de abril, é que a Aneel e a CCEE saberão se o empréstimo dos treze bancos "será suficiente, ou acima das necessidades, ou se faltará dinheiro". As distribuidoras estão, hoje, com uma defasagem de 3,3 mil megawatts por hora (MWh), e o objetivo do leilão emergencial é suprir as companhias com energia mais barata do que aquela que vigora no mercado livre. Há dois meses, o preço está no teto permitido para o ano, de 822 reais por Mwh.

Segundo Barata, a sinalização de interesse dos bancos, de diferentes tamanhos, públicos e privados, em participar da operação demonstra "que o negócio foi bem feito, é robusto, e isso nos deixa muito seguros".