quinta-feira, abril 17, 2014

Refinaria Passeagrana

Sebastião Nery
Tribuna da Imprensa


RIO – Um amigo de Getulio Vargas, quando Presidente (eleito em 1950), criticava Ricardo Jafet, cunhado de Paulo Maluf:

- Presidente, nos primeiros encontros, no início da sua  campanha eleitoral, Jafet parecia o homem mais desinteressado do mundo. Não pedia nada em troca de sua ajuda. Dizia que era apenas um admirador e lutava como patriota pela volta do senhor ao poder. Depois, quando o senhor lhe entregou o Banco do Brasil, ele revelou seus verdadeiros intuitos.

- Eu sempre desconfio muito daqueles que nunca me pedem nada. Os que se sentam à mesa sem apetite são os que mais comem.

O BARÃO 
Em entrevista ao jornal “Estado de S. Paulo”, em 22 de março ultimo, o barão belga Albert Frére, que arrancou mais de um bilhão de dólares da Petrobrás, assim se definiu cinicamente:

- “Sou um financeiro parasita que compra e vende sociedade. Sou um parasita das finanças do Estado. Sou um vampiro do Estado. Enriqueço graças ao Estado, seja o Estado belga, o francês” …

- Ou o Estado brasileiro. -

“Sim, ou o Estado brasileiro.”

DILMA
Primitiva na ação política, arrogante no exercício do poder, o falso brilhante Dilma Rousseff durante anos recebeu dos áulicos e de colunistas da imprensa chapa branca o diploma de gerente competente, a “gerentona”. Hoje, o valor de mercado da Refinaria de Pasadena, no Texas, que a Petrobrás comprou por 1,2 bilhão de dólares, é de 180 milhões de dólares.

E o estarrecedor: em 2005, a empresa belga Astra Oil, do Barão, comprou a “Pasadena Refining System Inc”pelo valor total de 42,5 milhões de dólares. Ao tentar tirar o corpo fora, agora na Presidência da República, a presidente Dilma quis se eximir de responsabilidade na estranhíssima e milionária negociata. Alguém a enganou. Não é Pasadena é Passe a Grana.

PETROBRAS 
A engenheira Graça Foster, atual presidente da Petrobrás, que vem tentando reimplantar um ciclo de moralização na sua administração, lembrou que o debate no Conselho de Administração é sempre intenso e a preparação de uma reunião toma dias e semanas de discussão.

Na época a Petrobrás era a 12ª maior empresa do mundo em valor de mercado, atualmente é a 120ª.  Responde por 12% do PIB (Produto Interno Bruto) nacional. É responsável por programa de investimentos maior do que o da União. Igualmente responsável por 13% do total arrecadado com impostos pelo governo federal e 17% do ICMS pago aos Estados. É um escarno à bela historia da Petrobrás permitir que ela continue   frequentando a lista de escândalos policiais como o da Refinaria do Texas.

LULA 
Desde que Lula chegou ao governo, em 2003, a Petrobrás foi logo transformada em um deposito de escusos interesses e negócios suspeitos. Tomada de assalto por uma malta de falsos sindicalistas, lideres sindicais de araque, milhares e milhares, com salários privilegiados diante dos verdadeiros petroleiros, a Petrobrás virou uma cafua do PT,  a PTralha.

O PT imaginava que os escândalos não apareceriam jamais. De repente, em uma manhã qualquer, um diretor está preso acusado pela Policia Federal de roubar milhões, outro se esconde fugindo pela Europa, outros se abrigam em gabinetes do Congresso, negociam delação premiada. Quando o esgoto correr para o primeiro andar e aparecer a escumalha dos fantasmas, os verdadeiros empregados que dão a vida à empresa em terra e nos mares vão descobrir como são injustiçados e explorados.

PASSEAGRANA 
E o PT começa a jogar Lula contra Dilma, por “não cuidar bem do espolio”. O “Volta Lula” está em todas as colunas do “Exercito do Franklin”. O povo começa a ver tudo. Já está nas redes sociais furando a ferida. Muitos, com ironia, pedem que a Petrobrás  rebatize a refinaria nos Estados Unidos com o seu nome certo: “Refinaria Passeagrana”.

Aceitando desaforos

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

Estrangeiros não pensam em montar automóveis ou fabricar aço. Estão de olho na extraordinária taxa de juros brasileira

A Nissan gastou R$ 2,5 bilhões para instalar em Resende uma fábrica capaz de produzir 200 mil carros e 200 mil motores por ano. Considerando que a participação da montadora no mercado atual é muito pequena, a companhia só pode estar pensando no longo prazo. De fato, disse o presidente da Nissan, Carlos Ghosn, o momento brasileiro é “desapontador”.

Mas coloque no contexto. Se não crescer nada neste ano, a indústria automobilística local vai produzir algo como 3,7 milhões de veículos. É o quarto ou quinto mercado do mundo. Aqui se montam mais veículos do que na Inglaterra, na França, na Itália, no México. Em economia, tamanho é documento. Sendo grandão, o Brasil tem uma vantagem competitiva.

Resumindo: mesmo com um ritmo de crescimento “desapontador”, há boas vendas por fazer no Brasil. E, supondo uma expansão lenta, quase vegetativa, também tem espaço. Hoje, no Brasil, há 175 carros por mil habitantes. Na Europa, são 500. Se o Brasil levar uns dez anos para chegar perto da renda média europeia, o mercado aqui aumenta três vezes nesse período.

Se você acha que as cidades já estão congestionadas, ainda não viu nada. Sim, há menos congestionamentos nas principais cidades europeias, mas eles lá cuidaram melhor dos transportes coletivos e da organização do tráfego — coisas nas quais o Brasil não é propriamente um exemplo.

Mas, se consegue justificar bem sua nova fábrica, a direção da Nissan provavelmente não tomaria a decisão de iniciar a construção hoje. A decisão foi tomada entre 2010 e 2011, quando o Brasil saía rapidamente da crise global, mostrava um forte crescimento e parecia ser a aposta da vez.

Hoje, são já quatro anos de baixo crescimento e inflação alta, sem perspectivas de uma virada próxima.

Mas os investidores estrangeiros, depois de uma breve debandada, estão de volta ao mercado financeiro desde o fim de fevereiro. Tanto é assim que a entrada de dólares puxou a Bolsa para cima e a cotação da moeda brasileira para baixo.

Mas esse pessoal não está pensando em montar automóveis, muito menos fabricar aço. Está de olho na extraordinária taxa de juros brasileira. Num mundo de juros reais zero ou mesmo negativos, o título do Tesouro brasileiro paga inflação mais 6% ao ano. Não existe nada parecido em nenhum outro país.

Deixando de lado os mais desenvolvidos e ficando apenas na América Latina, eis a comparação. A taxa básica de juros no Brasil, essa fixada pelo Banco Central, é de 11% com uma inflação em torno de 6% anuais.

No México, nessa comparação, a remuneração real é zero. Na Colômbia, no Chile e no Peru, o investidor leva, com sorte, 1% real. As taxas de juros estão entre 3,5% e 4%, com inflação em torno dos 3%.

Já ouviu falar em carry trade? Pois se ouve muito por aqui. Trata-se de tomar dinheiro emprestado lá fora, a juros bem baixinhos, e comprar títulos do Tesouro brasileiro.

Por que, então, houve aquela debandada em 2013, que levou o dólar a R$ 2,40? Porque parecia que a política monetária dos EUA estava prestes a mudar — com a alta dos juros por lá — e que o Brasil ia ser rebaixado pelas agências de classificação de risco.

Bem, a política americana vai mudar, mas demora. Os juros certamente não sobem antes de 2015. E uma agência rebaixou o Brasil, mas informando que mantém o país em grau de investimento por um tempo razoável. No mínimo, até o próximo governo, mesma perspectiva indicada por outras agências.

Ora se os juros não vão subir por lá, se o Brasil não vai para a segunda divisão e se paga esses juros, quem não vem?

Perguntaram a um investidor estrangeiro que trazia uns dólares de volta ao Brasil: por que isso, se vocês criticam tanto o governo Dilma, acusando-o de incompetência e hostilidade ao investimento privado? Resposta: com juros a 7,25%, eu não aceito desaforos; a 12%, eu aceito.

De certo modo, os investidores em fábricas, comércio, serviços — em negócios reais — também estão aceitando desaforos. É difícil e caro produzir qualquer coisa no Brasil. Mas, caramba, são 3,7 milhões de veículos, 280 milhões de celulares, 80 milhões de internautas...

Sempre bom
Quem não perde a conversa é o ministro Mantega. Quando o dólar disparou para R$ 2,40, disse que seria bom para a indústria local, para a exportação, para as contas externas.

Quando o dólar caiu de volta, disse que tudo bem, será bom para derrubar a inflação.

O farmacêutico do ar

Fernando Gabeira
O Estado de São Paulo 

As coisas andam esquisitas. Ou sempre estiveram, não sei. Dia agradável de trabalho na Serra da Canastra, revisitei a nascente do São Francisco e vi uma loba-guará se movendo com liberdade em seu território. De noite sonhei com o PT. Logo com o PT.

Sentei-me na cama para entender como os pesadelos do Planalto invadiam meus sonhos na montanha. Lembrei-me de que no início da noite vira a história de André Vargas e do doleiro Alberto Youssef na TV, os farmacêuticos do ar que vendiam remédios dos outros ao Ministério da Saúde. Pensei: esse Vargas é vice, no ano que vem seria presidente da Câmara dos Deputados. Como foi possível a escalada de um quadro tão medíocre? A resposta é a obediência, o atributo mais valorizado pelos dirigentes, antítese de inquietação e criatividade, sempre punidas com o isolamento.

Vargas fazia tudo o que o partido queria: pedia controle da imprensa e fazia até o que o partido aprova, mas não ousa fazer, como o gesto de erguer o punho na visita do ministro Joaquim Barbosa, do STF, ao Congresso. Em nossa era, esse deputado rechonchudo, que poderia passar por um burguês tropical, simboliza o resultado catastrófico da política autoritária de obediência, imposta de cima.

Num falso laboratório, com o nome fantasia de Labogen (gen é para dar um ar moderno), Vargas e Youssef tramavam ganhar dinheiro vendendo remédios ao ministério. O deputado, que ocupava o mais alto cargo do PT na Câmara, trabalhava para desviar dinheiro da saúde! É um tipo de corrupção que merece tratamento especial, pois suga recursos e equipamentos destinados a salvar as pessoas. A corrupção na saúde ajuda a matá-las.

A catástrofe dessa política autoritária se revela também na escolha de Dilma Rousseff para suceder a Lula. Sob o argumento de que os quadros políticos poderiam abrir uma luta fratricida, escolheu-se uma técnica com capacidade de entender claramente que Lula e o PT fariam sua eleição. A suposição de que o debate entre candidatos de um mesmo partido seria ameaçador para o governo é uma tese autoritária. Nos EUA, vários candidatos de um mesmo partido disputam as primárias. E daí?

Lula sabia que um quadro político nascido do choque de ideias seria um sucessor com potencial maior que Dilma para ganhar luz própria. E a visão autoritária de Lula – sair plantando postes nas eleições, em vez de aceitar que novas pessoas iluminassem o caminho – contribuiu para a ruína do próprio PT.

Tive um pesadelo com o PT porque jamais poderia imaginar que chegasse a isso. Os petistas, aliás, carnavalizaram uma tradição de esquerda. Figuras como André Vargas erguem os punhos com a maior facilidade, como se estivessem partindo para a Guerra Civil Espanhola na Disneylândia. E os erguem nos lugares e circunstâncias mais inadequados, como num momento institucional. Um vice-presidente não pode comportar-se na Mesa como um militante partidário. O correto é que tivesse sido destituído do cargo depois daquele punho erguido. Mas o PT e seus aliados não deixariam o processo correr. Ele são fortes, organizados, bloqueiam tudo. Será que essa força toda dará conta do que vem por aí?

Estamos em ano eleitoral e Dilma, nesse cai-cai. É compreensível que as esperanças se voltem para Lula como salvador de um projeto em ruínas. Mas como salvar o que ele mesmo arruinou? O esgotamento do projeto do PT é também o de Lula, em que pese sua força eleitoral. Ele terá de conduzir o barco num ano de tempestades.

Para começar, essa da Petrobrás, Pasadena e outras saidinhas. O vínculo entre Youssef, Vargas e a Petrobrás também está sendo investigado pela Polícia Federal. Mas a relação do doleiro com o governo não deveria passar em branco. Num dos documentos surgidos na imprensa, fala-se que Youssef estava numa delegação oficial brasileira discutindo negócios em Cuba. Por que um doleiro numa delegação oficial? Por que Cuba?

Muitas novidades estão aparecendo. Mas essa do André Vargas, homem influente no partido, um farmacêutico do ar que neste momento deve estar erguendo os punhos no espelho, ensaiando para ser preso, interrompeu meu sono em São Roque de Minas com uma clara mensagem: o PT é um pesadelo.

Tenho amigos que ainda votam no PT porque acham ser preciso impedir a vitória da direita. Não vejo assim o espectro eleitoral. Há candidatos do centro e da esquerda. Que importância tem a demarcação rígida de terrenos, se estamos diante de fatos morais inaceitáveis, como a corrupção na Saúde, o abalo profundo na Petrobrás, a devastação da nossa vida política?

Cai, cai, balão, não vou te segurar. Estivemos juntos quando os petistas eram barbudos e tinham uma bolsa de couro a tiracolo. Mudou o estilo. Agora têm bochechas e um doleiro a tiracolo. Naquela época já pressentia que não ia dar certo. Mas não imaginava essa terra arrasada, um descaminho tão triste.

É um consolo estar nas nascentes do São Francisco, ver as águas descendo para a Cachoeira Casca Danta: o lindo movimento das águas rolando para sentir a mudança permanente. Sei que essa é uma ideia antiga, de muitos séculos. Mas para mim sempre foi verdadeira. É o que importa.

Uma das grandes ilusões da ditadura militar foi interromper a democracia supondo que adiante as pessoas votariam com maturidade. A virtude do processo democrático é precisamente estimular as pessoas a que aprendam por si próprias e evoluam.

As águas de 2014 apenas começaram a rolar. Tanto se falava na Copa do Mundo como o grande teste e surge a crise da Petrobrás. Poucos se deram conta de que, com os sete mortos nas obras dos estádios brasileiros, batemos um recorde de acidentes em todas as Copas. De certa forma, são vítimas da megalomania, do ufanismo, de todas essas bobagens de gente enrolada na Bandeira Nacional comprando refinarias no Texas, deixando uma fortuna nas mãos de um barão belga que nem acreditou direito naquela generosidade. Ergam os punhos cerrados para o barão e ele responderá com uma merecida banana. Gestualmente, é um bom fim de história.

‘Missão impossível: defender o indefensável’

José Casado 
O Globo

Bancada de senadores governistas se perdeu, mesmo diante de uma oposição complacente

RIO — Defender o governo pode ser tarefa extremamente difícil, mesmo diante de uma oposição complacente. Foi o que mostraram senadores do bloco governista, sob liderança do Partido dos Trabalhadores, ontem no Senado, refletindo a divisão existente entre aliados.

“Temos de dizer que a nossa Petrobras é competitiva”, exaltou o senador Aníbal Diniz (PT-AC), diante da presidente da estatal, Maria das Graças Foster, que se esforçou durante seis horas no garimpo de adjetivos para definir o pagamento de US$ 1,2 bilhão na compra da refinaria de Pasadena (Texas), durante o governo Lula e sob a presidencia de José Gabrielli. “Não foi um bom negócio”, admitiu, indicando o prejuízo: US$ 530 milhões. Sem chance de recuperação.

Delcídio Amaral (PT-MS) se preocupou em multiplicar a cascata de elogios à presidente da estatal iniciada pela oposição — e foi do “competente” até “querida”.

José Pimentel (PT-CE) tentou o impossível, uma celebração da “forma de governança” da estatal, objeto de crítica até da presidente Dilma Rousseff. Então, apareceu a senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) para dizer que “o verdadeiro debate político é querer mudar o marco regulatório do petróleo”. Ninguém entendeu. Também incompreensível ficou o líder do governo Eduardo Braga (PMDB-AM): “A Petrobras é como alguém da nossa família”. E, ainda, o senador Inácio Arruda (PCdoB-CE), para quem a estatal “não será destruída porque é do povo brasileiro”.

Do lado de fora, um parlamentar experiente, aliado do governo, fazia uma curiosa anotação: “André Vargas, porta-voz do ‘Volta, Lula’, virtualmente cassado; Graça Foster, dilmista, joga culpa na administração anterior...”. Um jornalista o interrompeu, perguntando sobre rumores de que, após a Páscoa, surgiriam novos personagens nos inquéritos. Ouviu uma resposta enigmática, cantarolada em versos da dupla João Bosco e Aldir Blanc: “Há muito tempo nas águas da Guanabara/ O dragão do mar reapareceu/ Na figura de um bravo feiticeiro/ A quem a História não esqueceu...”.

Vem pra Papuda você também

Guilherme Fiuza
Revista ÉPOCA

Quem enquadrará Agnelo, o amigo dos mensaleiros? Cadê as ONGs legalistas? O congresso? O MP?

Delúbio Soares não pôde comemorar com a tradicional feijoada de sábado na prisão a decisão final do Supremo Tribunal Federal (STF) – livrando a quadrilha do crime de formação de quadrilha. O juiz Bruno Silva Ribeiro, da Vara de Execuções Penais, advertiu o detento e cortou a feijoada. Espera-se que o juiz Bruno tenha outro emprego em vista, porque todos sabem o que acontece com quem mexe com alguém da ex-quadrilha. O vice-diretor do Centro de Progressão Penitenciária, que mandou Delúbio cumprir as regras e tirar a barba, foi encostado num depósito de veículos. Só não se sabe quem é que enquadrará o dublê de governador do Distrito Federal e pombo-correio de prisioneiros.

Inicialmente, Agnelo Queiroz até que tentou ser discreto. Disse que estava numa inauguração próxima da Papuda e resolveu dar uma esticada até o presídio, onde acabou esbarrando com José Dirceu – que, por coincidência, residia lá. Questionado, disse que era governador e visitava quem quisesse. Com o aumento dos questionamentos a esse encontro, por assim dizer, exótico, o governador Agnelo rasgou a fantasia e declarou: “Vou continuar indo à Papuda visitá-los. Vou, sim”.

Essa turma acha que o Brasil é trouxa. E está coberta de razão. A questão central no julgamento do mensalão (que o Brasil evidentemente não viu) era a ligação entre réus e governantes. Não era um filme de época sobre um caso terrível de corrupção julgado em outro tempo. Quando saiu a ordem de prisão de Dirceu, Lula disse a ele: “Estamos juntos”. Dirceu até poderia ter respondido: “Então, vem pra Papuda você também”. Mas, como Lula não sabia, talvez não entendesse a piada.

Em plena reta final do julgamento do STF, Dilma Rousseff foi a um congresso do PT e participou, de braço erguido, de um ato em apoio aos mensaleiros. Para quem perdeu o fio da meada: a presidente da República foi se manifestar, em público, a favor de criminosos que roubaram o país e já estavam condenados pela corte máxima por isso.

O Brasil, que achou sua dignidade no lixo, nem ligou. Até as grades da Papuda sabem que Dirceu continua dando as cartas no PT. Em outras palavras: a ex-quadrilha está no comando da política brasileira. É por isso que um governador de Estado se presta, qual um vassalo, ao papel de plantonista de presídio. Se não for por isso, Agnelo tem de se explicar. Ou melhor: teria, se o Brasil ainda tivesse alguma instituição com um resto daquilo que antigamente se chamava vergonha na cara.

Onde está a heroica e pirotécnica OAB? Há um governador de Estado agindo com prepotência, por sobre instituições que guarnecem o estado de direito, indo visitar companheiros de partido presos por corrupção e flagrados com privilégios em área de jurisdição desse mesmo governador. Delúbio, o tesoureiro mais famoso do Brasil, mesmo preso, mostrou ser capaz de arrecadar milhões de reais em questão de dias. Chegou a ter reunião na cadeia com ninguém menos que o presidente do Sindicato dos Agentes Penitenciários, pré-candidato a deputado. Se fosse piada do Porta dos Fundos, diriam que o roteirista exagerou.

Quem enquadrará Agnelo, o amigo de fé dos mensaleiros? Onde estão as ONGs legalistas, que só servem para proteger black blocs assassinos? Onde estão a banda boa do Congresso Nacional e os procuradores intrépidos do Ministério Público? Ninguém interrogará formalmente o governador do Distrito Federal sobre o motivo de suas visitas aos correligionários criminosos? Ninguém suspeitará que esteja aí o flagrante da relação entre os crimes do passado e a desastrosa administração atual do país – repleta do mesmo parasitismo que originou o mensalão?

Ou já estariam todos devidamente domesticados, como a UNE, o MST e pencas de associações de classe agraciadas com belos convênios? Onde estará o respeitável senador Cristovam Buarque? Estará achando normalíssima essa conexão palácio-presídio? Ou terá sido mais um a capitular ante a cara de pau dos profissionais?

O Brasil resolveu achar que o julgamento do mensalão foi uma revolução. Afinal, os chefes da ex-quadrilha passaram Natal, Ano-Novo e Carnaval na cadeia. É a primeira vez na história que políticos são punidos exemplarmente sem deixar o poder. Cada país tem a revolução que merece.


Duas plutocracias, dois museus

Elio Gaspari
O Globo

Em 1871, havia em Nova York uma das mais endinheiradas plutocracias da História. Era demófoba, antissemita e racista. Do nada, ela criou o Metropolitan Museum com a ajuda de um general e conde italiano, que não era general nem conde, apenas um finório. O museu só abriu aos domingos em 1889 porque pobre cospe no chão. Judeu no conselho, só em 1909. Negro, em 1971. Hoje, o Met abre sete dias por semana, recebe 6 milhões de visitantes a cada ano, e os nomes de seus 960 grandes benfeitores estão nas placas de mármore que ladeiam sua escadaria.

São Paulo também tem sua plutocracia. Graças ao jornalista Assis Chateaubriand, dono da maior rede de comunicação do país na metade do século XX, existe o Museu de Arte. Recebe 50 mil visitantes por mês e está arruinado, deve R$ 8 milhões e recentemente ganhou notoriedade quando dele saiu a proposta para gradear seu vão livre.

Na sua enésima encrenca, saíram do Masp duas notícias. Uma boa, outra ruim. A boa é que existe a possibilidade de os bancos Itaú e Bradesco apadrinharem a instituição, remodelando-a. A ruim é que os governos do estado e da cidade querem participar da gestão do museu.

O Masp precisa blindar sua natureza privada. Os impostos estaduais dos paulistas sustentam uma boa instituição, a Pinacoteca, e uma ruína, o velho museu do Ipiranga, que está fechado (o Masp, pelo menos, está aberto). O governo de São Paulo e a prefeitura sustentam mais museus que os governos do estado e da cidade de Nova York. Os americanos dão benefícios às instituições, às vezes têm assentos em seus conselhos, mas não se metem na gestão.

O Itaú, o Bradesco e quem mais estiver disposto podem transformar o Masp na vitrine de excelência e gestão de uma elite. Nos anos 70, quando Nova York e o Metropolitan viviam dias de crise, quem presidiu a mudança do museu foi um banqueiro. Douglas Dillon, que havia sido secretário do Tesouro de John Kennedy, apoiou uma política que reorientou a instituição para o povo. O museu preocupou-se sobretudo em exibir. Foi na sua presidência que expandiram-se as lojas de lembranças, transformadas em agradáveis mafuás. Hoje, o Metropolitan opera uma máquina que é o sonho de qualquer banqueiro. Tem 170 mil pequenos contribuintes que a cada ano depositam cerca de 30 milhões de dólares, e não sacam.

Quem falou com Eduardo Cunha?
O líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha, prestou um serviço à moralidade pública defendendo o veto ao dispositivo da Medida Provisória 627, na qual incluiu-se um contrabando que alivia as operadoras de planos de saúde nas multas a que estão sujeitas por negarem os serviços que vendem. Ele foi claro: se o governo da doutora Dilma tivesse ficado contra a medida, teria tirado o gato da tuba. Mais: discutiu o assunto com comissários da Casa Civil, do Ministério da Fazenda, da Advocacia Geral da União e, por certo, com a liderança governista na Câmara.

Tudo bem, mas ele poderia dar os nomes dos bípedes com quem falou. Cada um se explicaria, e o assunto ficaria no seu verdadeiro tamanho. Varrendo para baixo do tapete, arrisca-se uma situação perigosa. Amanhã aparece uma gravação na qual um barão dos planos de saúde conversa com um hierarca, e produzem o seguinte diálogo:

— Como vai a MP 627?

— Acho que vai bem.

Não quer dizer nada, mas o silêncio de hoje acabará se transformando em suspeita.

Vale repetir: o contrabando fazia com que uma empresa multada cem vezes, devendo R$ 8 milhões, pagasse apenas R$ 320 mil. Isso em ano de campanha eleitoral.

Nosso Guia
Lula deu um jeito e conseguiu vestir seu velho macacão. Com o tom paternal de um pai da Pátria, faz oposição ao governo Dilma.

O mapa de Vargas
Até bem pouco tempo o deputado André Vargas era um dos principais coordenadores da campanha de Gleisi Hoffmann ao governo do Paraná. Hoje ele é um mapa das conexões do PT paranaense, mais precisamente do colégio eleitoral de Londrina.

Puxando-se um fio, viu-se que ele usava jatinho na conta do doleiro Alberto Youssef e ambos mercadejavam negócios no Ministério da Saúde atrás de uma “independência financeira”. Vargas fez sua carreira política no circuito ONGs-PT. Na campanha de 2010 adquiriu tamanha mobilidade que repassou doações legais para 13 candidatos do PT, no total de R$ 876 mil (R$ 45,8 mil para a doutora Dilma).

Londrina já teve um prefeito preso (Antonio Belinati) e outro, petista (Nedson Micheleti), condenado por improbidade administrativa. O poder do comissariado na região foi favorecido por sua aliança com o cacique José Janene, do PP, cujas pegadas apareceram no escândalo do mensalão.

As tramas de Youssef e Janene remontam à administração de Belinati, quando funcionou na Câmara dos Vereadores um “mensalinho”.

O PT de São Paulo carrega a cruz de sua aliança com Paulo Maluf. O do Paraná parece beneficiado por uma distração. Afinal, Janene conseguiu do comissariado coisas que Maluf nunca ousou pedir. Teve um pé na VisaNet do mensalão e outro na Petrobras.

Papuda
O Ministério Público começou a colher os frutos do julgamento do mensalão e da formação da bancada da Papuda.

Melhorou a memória de muitos depoentes, sobretudo a do doleiro Alberto Youssef.

Fingem não ver
Os sábios das ekipekonômicas tucanas sabem que o Planalto está deixando correr no Congresso a mutilação da Lei da Responsabilidade Fiscal, por meio da alteração retroativa dos índices de cálculo das dívidas que os estados e municípios têm com a União. Deram-lhe o nome de “novo pacto federativo”, mas é apenas a velha e boa revisão de contratos já assinados pelas partes. Feita a mudança, os beneficiados ganham uma folga de algo como R$ 100 bilhões para gastar.

Trata-se de aliviar os orçamentos dos governadores e prefeitos às custas da bolsa da Viúva federal. Todas as vezes em que isso foi feito, mais adiante, quebraram a Boa Senhora. Como há governadores e prefeitos do PSDB, é melhor mudar de assunto.

Eremildo, o idiota
Eremildo é um idiota e convenceu-se de que o atraso na entrega da hidrelétrica de Jirau é razoável. Devia gerar energia em setembro de 2015, mas ficou para meados de 2016. Em 2008 diziam que a obra estaria pronta em 2013, mas deixa para lá.

O que o idiota não entende, porque tenta fazer negócios semelhantes e não consegue, é por que a usina custaria R$ 9 bilhões e sairá por R$ 17,4 bilhões.

Soberba
Em 2008 o PSDB de São Paulo passou o rolo compressor em cima de uma proposta de abertura de uma CPI na Assembleia para investigar o cartel da Alstom.

Mágica besta. Arriscam tomar uma CPI federal.

CPIs fizeram do Congresso puxadinho do STF

Josias de Souza


A política é uma sucessão de poses. O político começa a fazer pose defronte do espelho, ao escovar os dentes de manhã. E só para na hora de se enfiar sob os cobertores, à noite. Tome-se o caso do presidente do Congresso. No momento, Renan põe seus melhores ternos, suas mais elegantes gravatas e suas melhores virtudes para demonstrar que não se considera o Calheiros que todos conhecem, mas um reles subordinado das togas do STF.

Renan tem sobre a mesa quatro pedidos de CPI. Duas só do Senado. Duas mistas, incluindo a Câmara. Duas só da Petrobras. Duas mais amplas, misturando a Petrobras com o metrô de São Paulo e o porto pernambucano de Suape, temas que incomodam a oposição. Com poderes para optar por qualquer uma, Renan decidiu não decidir. Pose.

Oposição e governo foram bater na porta do STF. Renan achou ótimo. Pose. Acionada, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado passou o trator sobre a minoria, aprovando a CPI ampliada. Renan aplaudiu. Disse que o melhor é investigar tudo. Pose.

Os líderes partidários informaram que preferem a CPI mista em vez da comissão exclusiva do Senado. Renan assentiu gostosamente. Pose. Na semana passada, ele prometera encerrar a novela na noite desta terça-feira. Pose.

Velho crítico da judicialização da política, Renan agora prega a submissão do Congresso Nacional à deliberação do Supremo Tribunal Federal. “O importante, primeiro, é que nós tenhamos a decisão do Supremo sobre o que é que podemos fazer em relação à criação de comissões parlamentares de inquérito quando há vários requerimentos. A prudência recomenda que nós esperemos”, disse Renan. Pose.

Renan atribui o impasse ao ineditismo do enredo. O Congresso jamais lidara com pedidos similares de CPIs, ele alega. Pose. Antes mesmo da deliberação do STF, Renan aventa a hipótese de o Congresso aprovar um projeto capaz de disciplinar os surtos investigatórios dos congressistas. Pose.

A plateia, em sua densa ingenuidade, talvez não imagine como Renan precisa de poses nesse instante. Articulador de patrióticas nomeações na Petrobras, cada movimento, cada frase, cada olhar de Renan é uma pose. Juntas, elas compõem um quadro plástico.

Todo mundo sabe que o Renan dos últimos dias é uma representação do velho Calheiros de sempre. Mas em vez de transformar cada discurso num comício, os incomodados, Aécio Neves à frente, preferem visitar a ministra Rosa Weber, do STF. Rogam-lhe que obrigue o Parlamento a fazer por pressão o que não é capaz de fazer por obrigação. Poses coletivas.

O Congresso virou um teatro. Se Dante fosse deputado ou senador no Brasil de hoje, estaria dispensado de fazer a Divina Comédia. Bastaria que protocolasse no STF um mandado de segurança. E Dante viraria um escritor por liminar. Em Brasília, a comédia já vem pronta. É 100% feita de poses.

CPI necessária

Merval Pereira
 O Globo

O depoimento da presidente da Petrobras, Graça Foster, serviu para reforçar a necessidade da CPI pedida pela oposição, em vez de desanuviar o ambiente político, como pretendia o Palácio do Planalto. Ela confirmou que um mau negócio foi autorizado pelo conselho da empresa sem que seus membros tivessem os dados completos para analisar.

Ao admitir que o prejuízo da compra da refinaria de Pasadena, nos EUA, foi de US$ 500 milhões, Graça só complementou com números o sincericídio da presidente Dilma, que havia admitido semanas antes que desconhecia duas cláusulas contratuais que considerou danosas aos interesses da Petrobras: a que obrigava uma das partes a comprar os demais 50% da companhia em caso de litígio, e a que garantia à vendedora um rendimento fixo ao ano próximo a 7%, independentemente dos resultados.

Não foi à toa que as ações da Petrobras começaram a cair na Bolsa de SP durante o depoimento no Senado. É preciso saber por que um mau negócio foi feito com documentos falhos, e a quem interessou no momento levar o conselho da Petrobras a tomar decisão errada.

É preciso esclarecer também por que diretores nomeados por pressões políticas foram responsáveis por decisões tão delicadas. O governo Dilma tenta se livrar de culpa, mas leva à suspeição de que pelo menos em gestões anteriores, no governo Lula, a política dominou as ações dentro da Petrobras.

Graça garantiu que em sua gestão não há diretores nomeados por critérios políticos, que todos são técnicos reconhecidos na empresa e no mercado profissional. Que assim seja. Mas é preciso que a CPI investigue desde quando, e até quando, as decisões políticas prevaleceram na empresa, e suas consequências.

O ex-diretor Paulo Roberto Costa, por exemplo, está preso e será indiciado por diversos crimes: lavagem de dinheiro, evasão de divisas, fraudes em licitações, corrupção ativa e passiva, formação de quadrilha. É preciso investigar com independência para saber desde quando ele atuava nesses ramos, e que outros prejuízos causou à Petrobras.

Sabe-se que o indigitado diretor estava anteriormente em situação peculiar na empresa, encostado em cargo desimportante justamente porque era reconhecido no meio em que trabalhava como não confiável.

Por que o presidente José Gabrielli, ao assumir, saído de uma escolha petista, retirou-o do limbo para colocá-lo na importante Diretoria de Operações?

Outro caso intrigante, para dizer o mínimo, é o de outro diretor, Nestor Cerveró, demitido nada menos que oito anos depois dos fatos ocorridos. Ele foi o autor do relatório “tecnicamente falho” que levou o conselho da Petrobras, presidido pela então ministra Dilma Rousseff, e composto por empresários do porte de Jorge Gerdau e Fabio Barbosa, a tomar a decisão errada.

Quando se descobriu, dois anos depois, que a cláusula de obrigatoriedade de compra da outra metade da refinaria seria prejudicial à Petrobras, Cerveró foi punido, segundo explicou ontem Graça: foi transferido para a Diretoria Financeira da Petrobras Distribuidora.

Que poderes tinha Cerveró, ou seu padrinho, para protegê-lo dessa maneira, contra todas as evidências? Como se vê, a necessidade de uma CPI independente só fez aumentar depois que a presidente da Petrobras esteve no Senado tentando acalmar os ânimos.

A renúncia da renúncia
Não é a primeira vez em que alguém do PT renuncia a uma renúncia anunciada. Depois de ter renunciado “irrevogavelmente” à liderança do partido no Senado, pelo apoio do Planalto ao então presidente do Senado, José Sarney, que respondia a um processo, o hoje ministro Aloizio Mercadante deu o dito por não dito após uma conversa com o presidente Lula.

Ontem foi a vez do ainda deputado federal André Vargas, mas sua renúncia atende a seus interesses próprios, e não aos do PT. Acontece que a Constituição determina que a renúncia de um parlamentar não encerra o processo de cassação de mandato a que ele responde.

Essa emenda, de 1994, foi aprovada para impedir que o sujeito escapasse da cassação e pudesse se candidatar de novo na eleição seguinte. Com a Lei da Ficha Limpa, de 2010, essa decisão tornou-se inócua, pois o parlamentar nessa condição fica inelegível por oito anos.

Como sua renúncia não traria benefício, Vargas resolveu tentar a sorte e permanecer no posto, lutando por sua absolvição, mesmo que pareça impossível.

Pior para o PT, que sangrará junto com o ex-vice-presidente da Câmara por mais tempo.

As múltiplas contradições de Graça Foster mostram que a compra da refinaria foi mesmo uma macronegociata

Carlos Newton
Tribuna da Imprensa


Não é preciso ser especialista para apontar as contradições do depoimento de Maria das Graças Foster no Senado. A presidente da Petrobras falou muito, mas não conseguiu explicar nada. Não apresentou documentos que comprovassem suas alegações e acabou se contradizendo muitas vezes, evidenciando que a compra da refinaria nos Estados Unidos (em Pasadena, Texas) foi mesmo uma negociata jamais vista na Petrobras.

1ª CONTRADIÇÃO: PREJUÍZO OU LUCRO
Como se viu, Graça Foster (ela prefere ser chamada assim) admitiu que hoje “não há como reconhecer contabilmente” que Pasadena foi bom negócio. Contudo, defendeu as premissas que embasaram a decisão, sob o argumento de que a Petrobras, antes da crise financeira de 2008, tinha margens “muito boas” (ou seja, dinheiro em caixa para esbanjar). Confessou que o prejuízo para a Petrobras com aquisição da refinaria foi de US$ 530 milhões. Depois, caiu em contradição, ao dizer que a usina tem operado em sua capacidade de processamento, de 100 mil barris por dia.

É uma argumentação falaciosa. Se a unidade realmente processasse 100 mil barris por dia, teria sido um grande negócio, a Petrobras estaria no lucro, o assunto estaria encerrado e nem haveria necessidade de CPI ou qualquer outra apuração a respeito.

2ª CONTRADIÇÃO: DECISÃO ESTRATÉGICA
Graça Foster disse aos parlamentares que, em 2005, a ampliação de refino fora do Brasil era “decisão estratégica”. Alegou que, no caso de Pasadena, o motivo principal era a localização da refinaria em um grande centro do maior mercado consumidor mundial. Como se isso significasse grande coisa, informou que o Citigroup deu aval para aquisição de Pasadena, com ressalvas comuns. “Precisávamos refinar o óleo pesado do Campo de Marlim fora do país”, completou, sem que nenhum parlamentar manifestasse estranheza.

A alegação da “decisão estratégica” de ter refinarias fora do Brasil precisa ser confirmada. Em que estudo técnico essa decisão se baseou? A melhor estratégia, por óbvio, sempre foi instalar mais refinarias aqui, como está acontecendo agora. Com essa desculpa sem a menor base, Graça apenas tentou abrir algum caminho que pudesse justificar a compra de Pasadena.

3ª CONTRADIÇÃO: A IMPORTÂNCIA DO AVAL
Dizer que o Citigroup deu aval, como se isso comprovasse alguma coisa, chega a ser ridículo. Qualquer organização bancária do mundo aceita avalizar as negociações da Petrobras, não só porque ganha dinheiro com isso, mas também porque a empresa brasileira tem patrimônio gigantesco, muito maior do que o do próprio Citigroup, que anda mal das pernas e recentemente teve de ser socorrido pelo governo americano.

4ª CONTRADIÇÃO: REFINAR ÓLEO PESADO
Por fim, dizer que “a Petrobras precisava refinar o óleo pesado do Campo de Marlim fora do país” é um disparate completo. Ocorre justamente o contrário. A Petrobras precisa desesperadamente refinar óleo pesado aqui no Brasil, mas não domina as melhores tecnologias, desenvolvidas por especialistas canadenses e venezuelanos, acreditem se quiserem. A Petrobras tem de importar óleo leve (mais caro) para misturar ao óleo pesado e conseguir processá-lo no país. Aliás, a importância da parceira com a Venezuela na refinaria Abreu Lima era justamente para adquirir tecnologia de refino do óleo pesado extraído em nosso país.

5ª CONTRADIÇÃO: PASSANDO DOS US$ 2 BILHÕES 
A presidente da empresa também informou que o investimento na refinaria de Pasadena, no Texas (EUA), chegou a US$ 685 milhões, desde sua aquisição pela companhia de petróleo brasileira em 2006. Mas esse valor não inclui o aporte total de U$ 1,23 bilhão que a Petrobras pagou pela refinaria. Ou seja, com a correção monetária, o gasto está passando dos US$ 2 bilhões, valor de uma refinaria zero quilômetro e de maior capacidade.

E sabe-se que a Petrobras já tentou vender a unidade (instalada pela dinastia Rockefeller em 1934), mas não conseguiu oferta que chegasse nem mesmo a US$ 200 milhões, o que significa apenas um décimo do total já “investido”, se é que podemos considerar assim.

CONCLUSÃO: O QUE FALTA SABER
A presidente da Petrobras omitiu as principais informações, que deveriam ser entregues por escrito aos parlamentares, em forma de relatório. O que se precisa saber agora é quanto a refinaria realmente produz por dia e quem fornece petróleo bruto, já que a produção da subsidiária Petrobras America é de apenas 22,9 mil barris diários. Ficam faltando, portanto, 77,1 mil barris diários para completar os 100 mil barris que Graça Foster alardeia, em sua missão impossível de tentar justificar o injustificável…

Como a tecnologia está destruindo a sua memória

Exame.com
Carolyn Gregoire, Brasil Post

A tecnologia muda a maneira em que vivemos no nosso dia a dia, como aprendemos, e a maneira em que usamos a nossa capacidade de atenção

Fábio Heizenreder/EXAME.com 
Mesa de trabalho: é difícil exagerar as implicações de memória de trabalho fraca
 no funcionamento do nosso cérebro e no nosso nível geral de inteligência

Pare um pouquinho e tente lembrar-se da última vez que você decorou o número de telefone de alguém.

Será que já faz muito tempo, talvez em 2001? E qual foi a última vez que esteve em um jantar ou conversando com os amigos e pegou o seu smartphone para achar no Google a resposta à pergunta de alguém? Provavelmente na semana passada.

A tecnologia muda a maneira em que vivemos no nosso dia a dia, como aprendemos, e a maneira em que usamos a nossa capacidade de atenção – e um volume crescente de pesquisas sugere que ela possivelmente afete profundamente a nossa memória(principalmente a memória de curto prazo ou memória de trabalho), alterando-a e em alguns casos e até prejudicando suas funções.

É difícil exagerar as implicações de uma memória de trabalho fraca no funcionamento do nosso cérebro e no nosso nível geral de inteligência.

"A profundidade da nossa inteligência depende na nossa habilidade em transferir informações da nossa memória de trabalho, um tipo de bloco de notas do nosso consciente, para a memória de longo-prazo, que é o sistema de arquivamento do mente” escreveu Nicholas Carr, autor do livro The Shallows: What The Internet Is Doing To Our Brains, na revista Wired em 2010.

"Quando fatos e experiências entram na nossa memória de longo-prazo, somos capazes de tecê-los numa trama de ideias complexas que enriquecem o nosso pensamento”.

Enquanto a nossa memória de longo prazo tem uma capacidade praticamente ilimitada, a memória de curto-prazo tem espaço de armazenamento limitado e essa capacidade é muito frágil.

“Uma quebra na nossa atenção pode apagar o seu conteúdo da nossa mente", explica Carr.

Novas pesquisas também revelaram que tirar fotos – uma prática cada vez comum na nossa cultura obcecada pelo smartphone – acaba prejudicando a nossa habilidade de lembraraquilo que estamos capturando com a câmera.

Você está preocupado com a perda de memória prematura? Provavelmente deveria estar. A seguir relacionamos cinco coisas que você deve saber sobre como a tecnologia está afetando a sua memória.

A sobrecarga de informação dificulta a retenção de informação.

3oheme / Flickr

Até uma única sessão de uso da Internet pode dificultar o armazenamento de informação na sua memória, diz Erik Fransén, professor de ciência da computação no KTH Royal Institute of Technology da Suécia.

E ainda de acordo com Tony Schwartz, especialista em produtividade e autor do livro The Way We're Working Isn't Working, a maioria de nós não consegue administrar de forma eficaz a sobrecarga de informação com que somos bombardeados constantemente.

Quando a memória de trabalho está com sobrecarga digital, é como um copo de água transbordando. Schwartz explicou o fenômeno em uma entrevista ao The Huffington Post em Junho:

"É como um copo em que se derrama água continuamente o dia inteiro, então o que estava ali na parte de cima acaba derramando à medida que mais água é derramada no copo. Estamos constantemente perdendo a informação que acabou de entrar – pois estamos constantemente substituindo-a e não há espaço para guardar o que já estava dentro. O resultado é uma experiência muito superficial; você só tem o que está na sua mente naquele momento. E é difícil as pessoas metabolizarem e entenderem a informação porque há tanta coisa vindo em sua direção e isso é muito atraente. Você acaba sentindo-se sobrecarregado porque o que você tem é uma quantidade infinita de fatos sem uma maneira de conectá-los em uma história que faça sentido.”

A Internet está se tornando um "HD externo" do cérebro.

Reprodução

Pesquisas mostram que quando sabemos que um dispositivo ou ferramenta digital irá lembrar alguma informação para nós, estamos menos propensos a lembrar dela nós mesmos. 

Um artigo recente da revista Scientific American descreveu a Internet como uma espécie de "HD externo do cérebro", explicando que o aspecto social da lembrança tem sido substituída por novas ferramentas digitais.

A lembrança é, historicamente, um processo social – lembramos de certas coisas e as compartilhamos com os outros, e por outro lado, dependemos de outros para nos lembrarem das coisas que esquecemos. 

De certa forma, delegamos tarefas mentais como a lembrança de fatos para outras pessoas do nosso convívio social, explica a Scientific American, mas agora podemos contar com a Internet para cumprir essa tarefa.

"A Internet muda tudo," afirmou a Scientific American. "Com acesso online praticamente constante, muitas pessoas fazem uma busca primeiro no smartphone ao invés de ligar para um amigo”.

Clive Thompson, autor de Smarter Than You Think, explica que agora, ao invés de recorrermos à sabedoria da nossa tribo social, estamos usando ferramentas como o Google e o Evernote ao invés de “ligar para um amigo”, como fazíamos antes, quando precisamos de alguma informação.

"Estamos tratando essas ferramentas como amigos com memórias incríveis que geralmente estão ao nosso dispor”, Thompson escreveu em um artigo na Slate. "Nosso ‘binômio íntimo’ agora inclui um cérebro de silício”.

A distração dificulta a formação de memórias.

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A atenção é um elemento chave para a formar memórias fortes. Sabe todas aquelas mensagens de texto e tweets que você mandou durante aquele filme ontem a noite?

Talvez você não consiga lembrar muitos detalhes quando um amigo te perguntar sobre o filme em alguns dias.

“O esquecimento... é um sinal de quão ocupados estamos,” disse Zaldy S. Tan, diretor da Clínica de Disfunções da Memória do Hospital Beth Israel Deaconess Medical Center, em entrevista à revista Seleções (Reader's Digest). 

“Quando não estamos prestando atenção, as memórias que formamos não são muito robustas, e temos problemas em acessar essas informações posteriormente”.

Em uma pesquisa realizada ano passado na MIT, foi identificado um circuito neural que ajuda o cérebro a criar memórias de longa duração, e esse circuito mostrou-se mais eficaz quando o cérebro está prestando atenção ativamente àquilo que está olhando. 

Vários estudos também descobriram que quando estudantes fazem várias outras coisas enquanto fazem a tarefa de casa, acabam entendendo e retendo menos informações.

A sobrecarga de informações nos impede de ver o todo (e depois os detalhes).

Dreamstime.com

O professor de física da Harvard John Edward Huth escreveu no New York Times em Julho que a Internet talvez afete o nosso senso de significado mais do que percebemos. 

Ele explicou que uma dependência excessiva na tecnologia tende a nos estimula a isolar informações sem encaixá-las em um esquema cognitivo mais amplo.

“Infelizmente, muitas vezes atomizamos a informação em pedaços que não se encaixam em uma estrutura conceitual maior”, escreveu Huth. “Quando isso acontece, nós relegamos o significado das informações aos guardiões do conhecimento e elas perdem o seu valor pessoal”.

Mas nós necessitamos dessa história mais ampla para nos ajudar a lembrar do detalhes menores. Muitas vezes precisamos desse contexto mais abrangente para fixar o detalhe na nossa mente.

Na psicologia, isso é conhecido como o paradoxo Baker-baker. O paradoxo recebeu o nome de um experimento em que os participantes foram colocados em dois grupos e mostrados a foto de um homem – um grupo recebeu a informação de que o sobrenome do homem era Baker, enquanto o outro grupo recebeu a informação de que ele era um ‘baker’, palavra em inglês que significa ‘padeiro’. 

Depois de algum tempo, ao verem a imagem do homem novamente, pediu-se que tentassem lembrar da palavra associada à imagem. 

O grupo que havia recebido a palavra com a ocupação do homem, teve mais facilidade em lembrar da palavra. 

Tem tudo a ver com o poder do contexto: quando pensamos em um padeiro, outras imagens e o esboço de uma história vem à mente (aventais, cozinha, pão fresquinho), enquanto que o sobrenome Baker existe isoladamente, sem fazer parte de um contexto maior.

O que isso significa? Se você perde a visão do todo, dessa história mais ampla, é capaz de perder os pequenos detalhes também.

A memória dos millennials está rapidamente se degenerando.

Getty Images
Geração Z: eles olham para a geração Y 
como referência do que não fazer, segundo especialista

Dados recentes mostram que os "momentos gagá" (quando a pessoa tem um branco, fica confusa) são cada vez mais comuns entre pessoas mais jovens, e acredita-se que são causados, pelo menos em parte, pela dependência excessiva na tecnologia. 

Uma pesquisa de 2013 do Instituto Trending Machine revelou que os milenni (geração com idade entre 18 e 34 anos) estão mais propensos do que aqueles com mais de 55 anos a esquecer qual é o dia da semana (15 por cento x 7 por cento) e onde colocaram as chaves (14 por cento x 8 por cento). 

A geração Y, outra denominação para os millennials, esquecem até de tomar banho (6 por cento) com mais frequência do que os idosos. 

Os crescentes níveis de estresse (que também pode estar relacionados à constante conectividade) podem estar contribuindo para o fenômeno também.

"O estresse muitas vezes leva ao esquecimento, depressão e falta de discernimento”, Patricia Gutentag, terapeuta familiar e ocupacional, em uma coletiva de imprensa sobre a pesquisa.

“Encontramos índices mais altos de diagnósticos de TDAH em jovens adultos. Essa é uma população que cresceu fazendo múltiplas tarefas ao mesmo tempo usando a tecnologia, muitas vezes combinada com a falta de sono suficiente, que são fatores que resultam em altos níveis de esquecimento”.

A IGNORÂNCIA NO PAÍS NÃO POUPA NEM O HINO NACIONAL: crianças de cidade mineira recebem cadernos com erros na letra do Hino Nacional

Bianca Bibiano
Veja online

Prefeitura de Vespasiano diz que vai contornar o problema distribuindo adesivos com a letra correta para serem colados no material

 (Reprodução de TV) 
Cadernos com erro no Hino Nacional foram distribuídos 
para mais de 16.000 alunos de Vespasiano, Minas Gerais

Cerca de 16.000 alunos da rede pública de Vespasiano, cidade mineira com 115.000 habitantes, receberam cadernos com erros de grafia na letra do Hino Nacional. O descuido aparece na contracapa dos 55.000 cadernos que começaram a ser distribuídos para os estudantes no fim de março, quase dois meses após o início das aulas.

Na impressão dos cadernos, a palavra "desafia", do trecho "desafia a própria morte", aparece como "desafa". "Flâmula", "flores" e "florão" aparecem sem a letra L, e a palavra "filho", do verso "verás que um filho teu não foge à luta", foi grafada sem a letra I.

A assessoria de imprensa da prefeitura de Vespasiano informou à reportagem do site de VEJA que a Secretaria de Educação tinha conhecimento dos erros quando começou a distribuir os cadernos, mas que "devido a um atraso da empresa responsável, optou por entregá-los do mesmo jeito".

Ainda segundo a prefeitura, "o material foi distribuído com uma ressalva aos diretores, para que distribuíssem um novo hino e orientassem os alunos quantos aos erros".

A solução encontrada para não recolher o material, que custou 280.400 reais, foi pedir a impressão de adesivos com a letra correta do hino, que deverão ser distribuídos nas escolas até a próxima semana para serem colados nos cadernos. De acordo com a prefeitura, a ação não terá custos adicionais para os cofres municipais.

Investimentos em queda

O Estado de S.Paulo

As mudanças de atitude do governo em relação ao novo Código de Mineração tornaram mais turvo o cenário para as empresas do setor, já afetadas pela queda dos preços internacionais dos minérios e pela redução do ritmo de crescimento da China - maior importador mundial de minérios -, o que reduziu a programação de investimentos para os próximos anos. Projeções do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), que reúne as empresas do setor, indicam que, entre 2014 e 2018, os investimentos no setor mineral deverão alcançar US$ 53,6 bilhões. Esse valor é US$ 10,1 bilhões menor do que o projetado para o período 2013-2017, de US$ 63,7 bilhões.

São muitos os fatores que explicam a queda dos investimentos, como tem ressalvado o presidente do Ibram, José Fernando Coura. Além do ambiente internacional, o Ibram aponta dificuldades históricas que afetam os investimentos em geral no Brasil, como a burocracia, as excessivas exigências ambientais, a precariedade de infraestrutura e o sistema tributário. Para o setor mineral, em particular, a iniciativa do governo Dilma de propor um novo Código Mineral, que teria o objetivo de destravar os novos projetos de exploração, acabou se tornando um fator adicional de inibição dos investimentos.

Depois de ter suspendido durante um ano e meio a liberação de títulos de lavra, enquanto elaborava o novo projeto do Código de Mineração para substituir o que está em vigor desde 1967, o governo parecia disposto a estimular investimentos no setor. Em junho do ano passado, afinal, enviou ao Congresso o projeto do novo marco regulatório para o setor mineral, que deveria tramitar em regime de urgência.

O objetivo, como declarou então a presidente Dilma Rousseff, é criar condições para que a pesquisa, a exploração e a comercialização de bens minerais se tornem mais eficientes, rentáveis e competitivas, assegurando maior retorno à sociedade. O projeto estabelece a necessidade de licitação de blocos de minas e jazidas para o setor privado, como já ocorre com o petróleo e com o gás. Também dá ao governo o poder de fixar, caso a caso, a alíquota da Contribuição Financeira sobre a Exploração Mineral (Cfem), já chamada de "royalty da mineração".

Mais de 400 emendas foram apresentadas ao texto original e, com dificuldades para alcançar um acordo com os congressistas, a presidente encaminhou em setembro mensagem ao Congresso retirando a urgência para a tramitação do projeto. Não há, desde então, nenhuma previsão de data para o exame do texto.

Apesar do impasse a respeito de questões centrais, como a competência do Executivo para fixar por decreto as alíquotas da Cfem, o relator do projeto na Câmara, deputado Leonardo Quintão (PMDB-MG), acredita que o texto possa ser votado na Casa ainda este ano. Empresários do setor, no entanto, consideram mais realista esperar a votação só no ano que vem, pois, além da Copa do Mundo, este ano tem eleições.

O governo parece ter desistido da pressa na votação. Decreto publicado em dezembro reforça as competências do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) para a concessão de licenças para a exploração de jazidas, o que, do ponto de vista do governo, parece resolver provisoriamente o problema. As empresas interessadas em novos projetos, no entanto, reclamam da demora das decisões do governo.

Embora o Brasil continue como o principal destino dos investimentos em mineração na América Latina, estudos de empresas internacionais de consultoria vêm mostrando uma tendência de deslocamento das aplicações para outros países grandes produtores de minérios, como Canadá, Austrália e Estados Unidos.

É um risco para toda a economia brasileira. No ano passado, enquanto a balança comercial registrou superávit de US$ 2,5 bilhões, o saldo do setor mineral alcançou US$ 32 bilhões. Nas projeções mais recentes do Banco Central, a indústria extrativa mineral deverá ser a grande responsável pelo aumento da produção industrial brasileira em 2014.

O erro de se afrouxar a responsabilidade fiscal

Editorial
O Globo

Ano eleitoral não é adequado para o Congresso mudar regras que balizam dívidas de estados e municípios renegociadas no passado com a União

No Brasil, antes da Lei de Responsabilidade Fiscal, governantes usaram e abusaram da dívida pública, recorrendo ao envidamento até mesmo para cobertura de gastos correntes, de custeio da própria máquina governamental. O sucesso inicial do Plano Real somente teria continuidade se o país conseguisse pôr em ordem as finanças públicas, traçando-se objetivos de curto, médio e longo prazos. E dentro dessa ótica é que o governo Fernando Henrique, no segundo mandato, propôs a Lei de Responsabilidade Fiscal e obteve o apoio da maioria do Congresso — com a oposição do PT.

Governos estaduais e grandes prefeituras estavam em situação pré-falimentar e não tinham qualquer autoridade moral e política para contestar a nova Lei. Assim, estabeleceram-se limites para o endividamento e um cronograma de redução, atrelando o valor da dívida a uma proporção da receita líquida disponível dos estados e municípios. Não foi mais uma “jabuticaba” brasileira, e sim algo baseado nas práticas de mercado. 

Empresas contraem dívidas para realizar investimentos e alavancar negócios, mas tendo sempre como referência uma proporção do capital próprio e a geração de caixa. Em face da experiência do setor público, limites mais prudenciais foram estabelecidos para o endividamento. Tais regras contribuíram para aumentar a confiança no real e assegurar a estabilidade monetária conquistada a duras penas após um longo período de inflação aguda e crônica. A Lei mirou o futuro, mas era preciso encontrar uma solução para o estoque de dívida acumulada. O mercado não se dispunha a refinanciar, a custos razoáveis, esse estoque. Como alternativa a um calote generalizado, com consequências imprevisíveis, o Tesouro Nacional resgatou grande parte dos papéis estaduais e municipais “micados”. Em troca, estados e municípios assumiram o compromisso de ressarcir o Tesouro a longo prazo, comprometendo na amortização de principal e juros um percentual máximo anual de suas receitas líquidas. 

Os entes federativos que alienaram ou transferiram patrimônio para amortizar de imediato 20% do estoque da dívida obtiveram condições de pagamento mais favoráveis. Já se passaram alguns anos dessa renegociação e o indexador que corrige a dívida remanescente com o Tesouro (IGP) tem sido motivo de discussão. Governadores e prefeitos (especialmente o de São Paulo, atraído pelo grande aumento de margem para endividamento) têm interesse em adotar um indexador mais brando (IPCA, Selic ou TJLP, o que estiver mais baixo), e para tal buscaram apoio no Congresso. Têm a simpatia dos “desenvolvimentistas” do Planalto.

Mas a mudança do indexador, de forma retroativa, terá impacto direto, negativo, sobre o Tesouro. Por isso, a alteração é inaceitável, até por ferir o espírito da Lei. O próprio governo pediu que a tramitação do projeto, já no Senado, seja sustada. Não foi ouvido. Para um país que acaba de ter a nota de risco rebaixada por agência internacional, aprovar o virtual fim da LRF será uma catástrofe.

Para S&P, crescimento baixo aumenta pressão sobre o Brasil

Altamiro Silva Júnior 
O Estado de S.Paulo

Diretora da agência voltou a criticar a política econômica; Márcio Holland diz que agência cometeu um erro

NOVA YORK - A diretora para a América Latina da Standard & Poor's (S&P), Lisa Schineller, destacou que a perspectiva de baixo crescimento para os próximos anos do Brasil coloca uma pressão a mais nas contas fiscais do País, que já vêm se deteriorando nos últimos meses.

A S&P trabalha com a expectativa de crescimento em torno de 2% para o Brasil em 2015, e segundo Lisa este ano o ritmo deve ser um pouco menor. A diretora explicou ontem as razões do rebaixamento da nota do Brasil durante a "Brazil Summit", seminário promovido pela Câmara de Comércio Brasil-EUA, em Nova York, citando a deterioração das contas fiscais, das contas externas e o cenário de baixo crescimento.

Além disso, Lisa disse que o governo tem enviado sinais mistos sobre a condução da política econômica, o que compromete a credibilidade na política fiscal. Ela ressaltou que tem dúvidas sobre ajustes significativos na política econômica este ano, por causa das eleições, e mesmo depois de outubro as perspectivas não são muito boas.

A diretora da S&P destacou que a agência olhou um conjunto de fatores para rebaixar o Brasil, que não se limitaram à relação dívida/Produto Interno Bruto (PIB). No caso da economia brasileira, ela citou que fatores estruturais e conjunturais têm contribuído para um enfraquecimento da atividade e deterioração de alguns indicadores. Também tem pesado um conjunto de fatores externos.

Na sua apresentação, Lisa ressaltou o baixo nível de investimento na economia brasileira, sobretudo quando comparada a padrões internacionais. Tudo isso, afirmou, é uma justificativa para colocar o rating soberano brasileiro no último nível da categoria grau de investimento.

Outro lado. 
"Discordamos da avaliação da Standard & Poor's sobre o Brasil", afirmou o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Márcio Holland. Ele fez sua apresentação logo após a diretora para a América Latina da S&P.

A S&P, disse Holland, só viu o que eles achavam ser as fraquezas da economia brasileira. "Eles cometeram um erro", afirmou, destacando que o cenário na economia mundial mudou muito nos últimos meses e é bem diferente do começo do ano. Uma das razões da melhora foi o maior entendimento dos investidores sobre a retirada dos estímulos monetários nos Estados Unidos.

O Brasil, segundo o secretário, transitava de um período de política contracíclica, adotada para contornar os efeitos da crise internacional, para uma "política de consolidação". Nesse meio tempo, a S&P rebaixou o rating soberano.

Holland mostrou em sua apresentação vários gráficos para exemplificar a melhora de alguns indicadores nos últimos anos. "A inflação foi reduzida de altos níveis para algo em torno de 5,9%", afirmou. Ele destacou ainda que o Brasil tem responsabilidade fiscal e comprometimento com o regime de metas de inflação. "O País tem dez anos consecutivos com a inflação dentro da faixa da meta", afirmou Holland. "Apesar de fatores desfavoráveis, o Brasil manteve crescimento robusto."

O secretário citou os "altos níveis de reservas internacionais, solidez das contas fiscais e bancos bem capitalizados e resistentes" para destacar que o Brasil está bem preparado. "Bons fundamentos macroeconômicos permitiram ao País usar políticas econômicas de resposta."

Economia brasileira pisa no freio e avança 0,24% em fevereiro, segundo o BC

Gabriela Valente 
O Globo

Em janeiro, segundo dados revisados, alta foi de 2,35%
Economistas projetam crescimento de 0,4% a 0,5% no primeiro trimestre


BRASÍLIA - Com a desaceleração das vendas do comércio e da produção da indústria, o país pisou forte no freio e cresceu apenas 0,24% em fevereiro nas contas do Banco Central (BC). A expectativa dos analistas do mercado financeiro para o IBC-Br (índice do BC que mede a atividade no Brasil) era de uma expansão da economia de 0,3% no segundo mês do ano, ou seja, um ritmo mais lento da economia já estava previsto pelos analistas do mercado financeiro, mas ainda assim ficou abaixo do esperado.

Na comparação com o mês anterior, a desaceleração é forte: o dado de janeiro foi revisado de 1,26% para 2,35%. Em 12 meses, o índice acumula alta de 2,41%, segundo dados dessazonalizados. A projeção do mercado financeiro para o crescimento no ano está em 1,65%.

Para Octavio de Barros, diretor de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco, o resultado de fevereiro é compatível com sua expectativa de desaceleração do PIB no primeiro trimestre deste ano. O economista projetava avanço de 0,2%.

IBC-Br é diferente do cálculo do PIB
"Esse resultado de fevereiro, mesmo que positivo, confirma a tendência de desaceleração do IBC-Br no início deste ano. Considerando-se a manutenção do atual patamar em março, o indicador aponta para crescimento de 0,50% no primeiro trimestre", diz ele, em relatório enviado a clientes na manha desta quarta-feira.

Armando Castelar, Coordenador de Economia Aplicada do IBRE/FGV e professor do Instituto de Economia da UFRJ, acredita que o dado de fevereiro é condizente com suas expectativas, de que o PIB do primeiro trimestre de 2014 vai avançar apenas 0,4% sobre os últimos três meses do ano passado. Ele afirmou que até mesmo a revisão para cima do dado de janeiro é compreensível, pois o IBC-Br tinha vindo muito fraco em dezembro e novembro e o resultado do primeiro mês de 2014 pode ter sido uma correção dos dados.

— Os dados do comércio também já mostram um consumo mais fraco, da mesma forma que os bancos públicos também devem crescer menos neste ano, os investimentos também terão ritmo menor de expansão e a indústria não deverá repetir o bom resultado do ano passado, muito influenciado pela produção de caminhões e máquinas agrícolas. Ou seja, o dado do BC está bem próximo do que estamos vendo — afirmou Castelar, que estima que o PIB do ano apresentará alta de 1,8%.

Índice ajuda a formular política monetária
O IBC-Br não pode ser considerado um espelho ou uma prévia do PIB porque o dado oficial é muito mais complexo. E as divergências aparecem nos números. Por essa discrepância, os economistas alertam que os dados do BC não refletem totalmente o que ocorre na economia brasileira.

O índice foi criado pelo Banco Central para balizar a condução da política de juros para controlar a inflação. Hoje, a taxa básica de juros (Selic) está em 11% ao ano. A estimativa do mercado financeiro é que o Comitê de Política Monetária (Copom) aumente os juros até 11,25% ao ano. A expectativa dos analistas para a inflação este ano está bem próxima ao teto da meta oficial de 6,5%, segundo o último boletim Focus, divulgado pelo BC: 6,47%.

No último documento oficial que faz projeções para o comportamento da economia (o relatório de inflação, divulgado em março), o BC previu um quadro ruim para a economia brasileira. Nas apostas do Banco Central, o Brasil deve crescer apenas 2% neste ano. Em 2013, a atividade no Brasil aumentou 2,3%.

Se a previsão for confirmada, a presidente Dilma encerraria o mandato com uma média anual de 2,04% de crescimento: menor que as médias dos dois mandatos de Lula e de FHC. No entanto, o BC chamou atenção para a mudança na qualidade dessa expansão.

O consumo das famílias também deve desacelerar dos 2,3%, registrados em 2013, para 2%. Já o consumo do governo deve aumentar de 1,9% para 2,1%. Investimento crescerá num ritmo menor: 1% ante 6,3% em 2013.

Colaborou Henrique Gomes Batista

Salário mínimo será R$ 779,79 em 2015, calcula governo

Renata Veríssimo, Adriana Fernandes e Laís Alegretti, Agência Estado
Com informações Agência Brasil

Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias foi encaminhado nesta terça ao Congresso Nacional

BRASÍLIA - O Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) encaminhado pelo governo nesta terça-feira, 15, calcula o reajuste do salário mínimo em 2015 para R$ 779,79. A quantia é 7,71% superior à atual, de R$ 724. O aumento apontado para o ano que vem supera porcentualmente o ocorrido neste ano, de 6,78%.

Pelo PLDO, o governo estima que o crescimento da economia em 2015 será de 3%. A inflação em 12 meses, ao final de dezembro, está projetada em 5%. As novas estimativas mostram uma deterioração das expectativas do governo em relação à economia.

Há um ano, quando o governo divulgou a LDO de 2014, a área econômica estimava que o PIB (produção de bens e serviços da economia) teria crescimento de 5% em 2015, com inflação de 4,5%. Para 2016 e 2017, o governo estima expansão do PIB de 4%.

A LDO de 2015 prevê que a dívida líquida do setor público no ano que vem será de 33% do PIB, ante 33,6% em 2014. A dívida líquida deve cair para 32,1% do PIB em 2016 e 2017, segundo as projeções do governo. A dívida bruta projetada é de 55,2% do PIB em 2015, ante 56,8% do PIB em 2014.

Superávit primário. 
O governo federal (formado pelo Tesouro Nacional, Banco Central e Previdência Social) promete esforço fiscal maior em 2015 do que em 2014, com superávit primário mínimo de 2% para o próximo ano. Já a meta de superávit primário do setor público consolidado (formado pelo governo central,Estados, municípios e estatais) será de R$ 143,3 bilhões, o equivalente a 2,50% do PIB.

Para este ano, no entanto, a meta de superávit primário das contas do setor público é menor: de R$ 99 bilhões, o equivalente a 1,9 % do PIB. Trata-se de proporção idêntica à obtida em 2013.

A meta de superávit primário mínimo para 2015 é de R$ 114,7 bilhões (2% do PIB), diz o documento. Os abatimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) podem ser de até R$ 28,7 bilhões, o que representa 0,5% do PIB.

Superávit primário é a poupança para pagar os juros da dívida que o governo tem com outros países e outros credores. Na medida em que o país consegue alcançar as metas de superávits primários, indica que tem condições de pagar suas dividas.

A meta do governo central para o próximo ano é de R$ 114,7 bilhões, ou 2% do PIB. Para Estados e Municípios, a meta é de R$ 28,7 bilhões, ou 0,5% do PIB. Para este ano, os valores são menores: a meta fiscal dos governos regionais é de R$ 18,2 bilhões, o equivalente a 0,35% do PIB. Já a meta fiscal do governo central é de R$ 80,8 bilhões, ou 1,55% do PIB.

Cronograma. 
A LDO tem de ser enviada pelo Executivo ao Congresso até 15 de abril e aprovada pelo Legislativo até 30 de junho. Se não for aprovada nesse período, o Congresso não pode ter recesso em julho. A aprovação da LDO é a base para elaborar o Projeto de Lei Orçamentária Anual (LOA), que deve ser apreciada pelo Congresso Nacional até agosto.

Como é lei, após sancionada, nenhum governante deve aumentar despesas, gastar mais do que está previsto na Lei Orçamentária ou criar novos impostos para o pagamento de suas contas sem autorização do Legislativo.

Com a Lei de Responsabilidade Fiscal, a LDO passou a ter um papel importante na condução da política fiscal do governo, devendo estabelecer e indicar as metas fiscais a serem atingidas a cada exercício financeiro a que se refere. 



PAC 2: De cada dez obras de abastecimento de água, apenas duas foram entregues

Marina Dutra
Contas Abertas


Ainda não há prazo para que os milhões de brasileiros que não têm acesso a água tratada vejam o problema solucionado. Dos 3.064 empreendimentos previstos no eixo “Água em Áreas Urbanas”, apenas 652 foram concluídos. As obras de expansão do abastecimento de água fazem parte da segunda etapa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2), lançada em 2011.

A menos de nove meses do fim da segunda etapa do Programa, não há como determinar quantas obras ficarão prontas a tempo. Dados do Ministério do Planejamento afirmam que 104 empreendimento só ficarão prontos em 2015, 36 em 2016, 12 em 2017, três em 2018 e dois apenas em 2019. No entanto,1.748 ações possuem uma lacuna no lugar da data de conclusão no balanço divulgado.

Questionada pelo Contas Abertas, a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) afirmou que foram contratados 2.915 empreendimentos, dos quais 1.231 encontravam-se concluídos em 31 de dezembro de 2013, dados que não batem com o 9º Balanço do PAC 2 que, como já citado, aponta 652 ações concluídas. O relatório oficial afirma ainda que 475 iniciativas estão em “ação preparatória”, 148 “em contratação”, 92 “em execução”, 36 em “licitação de obra”, 30 em “licitação de projeto” e 1.631 “em obras”.

A iniciativa tem o objetivo de expandir a rede de abastecimento de água em áreas urbanas, com a construção de adutoras, estações de tratamento e reservatórios, além de redes de distribuição de água. Em março, o Instituto Trata Brasil divulgou em estudo que o déficit de saneamento no Brasil totalizou 14,3 milhões de moradias sem acesso à água tratada.

De acordo com o balanço do PAC, nos últimos três anos, foram selecionados 809 empreendimentos para execução de obras de abastecimento em 686 municípios. As 3.042 iniciativas restantes foram selecionadas entre 2007 e 2009 para ampliar e melhorar os sistemas de abastecimento de água de 1.568 municípios.

Emblemáticos
Entre os 3.064 empreendimentos previstos no eixo “Água em Áreas Urbanas”, três são classificados como emblemáticos: a ampliação do abastecimento de água integrado em Salvador e na Ilha dos Frades (BA), nas zonas norte e leste de Manaus (AM) e em João Pessoa (PB).

Desses, dois ainda estão em obras: o de Salvador e o de João Pessoa. O andamento das obras em Salvador é classificado pelo Ministério do Planejamento como em estado de “atenção”.

No balanço do PAC, o órgão afirma que há morosidade na adequação dos projetos e na aprovação das reprogramações das ações que prevêem a ampliação e melhoria do sistema integrado de abastecimento de água de Salvador e localidades da Ilha dos Frades, Paramana, Porto Loreto, Praia da Costa e Ponto de Nossa Senhora de Guadalupe. O empreendimento deve ser concluído no fim deste ano.

A ampliação do sistema de produção e tratamento de água em João Pessoa está 92% concluída, segundo o Ministério. A obra tem por objetivo a construção do canal de aproximação e captação, duas estações elevatórias, três adutoras e um reservatório semienterrado. A conclusão está prevista para junho de 2014.

As obras de Manaus foram finalizadas em fevereiro. O empreendimento tinha por objetivo a regularização emergencial e ampliação do sistema de abastecimento de água nas zonas leste e oeste, incluindo a construção de uma nova estação de tratamento de água, reservatórios, adutoras, redes de distribuição e ligações prediais.

Responsabilidade compartilhada
O presidente executivo do Instituto Trata Brasil, Édison Carlos, afirmou em artigo publicado no portal do instituto que com o baixíssimo interesse das autoridades pelo saneamento básico nas últimas décadas, os brasileiros aprenderam a conviver com o problema.

“Passamos décadas sem cobrar nenhuma providência de nossos prefeitos, vereadores, deputados, senadores, governadores, presidentes da República. Com tanta carência de serviços públicos, nos limitamos a pedir postos de saúde, hospitais, asfalto, segurança pública. A questão ambiental sequer tangenciou as prioridades do brasileiro em várias eleições”, explica.

Para Édison Carlos, essa falta de cobrança criou um círculo vicioso e perigoso: “o cidadão não cobra, a autoridade não faz. E com a degradação das águas as doenças se proliferaram, crianças se afastaram das aulas, leitos hospitalares foram ocupados por doenças da água poluída, turistas mudaram de destinos”.

“Com a maior disposição do governo federal em garantir recursos para o saneamento básico, por exemplo, é fundamental cobrarmos maior envolvimento dos prefeitos e dos governadores, mas também cobrar mais agilidade e desburocratização dos órgãos em Brasília”, conclui.