quinta-feira, abril 24, 2014

Nossos exterminadores

Adelson Elias Vasconcellos


Sempre que o PT se mete na gestão de entidades e empresas, acaba dando em atraso de vida. 

A Eletrobrás precisou criou um programa de demissão voluntária e rever todo o seu planejamento estratégico, graças a uma decisão do governo de querer, na marra, reduzir as tarifas de energia elétrica sem medir as consequências. Pensou apenas nas urnas, como sempre.

A Petrobrás já vendeu mais de R$ 10 bilhões para fazer caixa e graças “a competência” da gerentona, que resolveu represar os preços dos combustíveis, trazendo apertos para o caixa da estatal. Além disso, os projetos de expansão de novas refinarias sofrem com o superfaturamento e atrasos. Como o governo resolveu incentivar  a venda de carros, sem a contrapartida das necessárias obras viárias para amortizar o imenso tráfego,  aumentou-se o consumo de combustíveis, superando a capacidade de refino da Petrobrás. Resultado: passamos a importar petróleo, desequilibrando ainda mais as finanças da Petrobrás e a própria balança comercial do país.

Ah, a Petrobrás, de 2010 para cá, já perdeu mais de R$ 200 bilhões de mercado, caindo do 12º no ranking das maiores empresas do mundo, para 120º.

O IBGE, antes uma ilha de excelência e credibilidade, já mergulhou em crise. A Embrapa está em crise faz tempo dado o aparelhamento cretino a que foi submetida. O IPEA transformou-se numa entidade a dar sopros de incompetência  quando passou a divulgar estatísticas ao gosto do governo petista.  A Valec virou um poço sem fundo de corrupção. A rede pública de saúde mergulhou na indigência.

Nossos indicadores econômicos estão franca queda.  E o emprego, hein? Já nem me ocupo mais dos índices de emprego/desemprego. Trata-se de uma trucagem estatística que fantasia a realidade.  Não se pode falar de pleno emprego quando apenas um quarto da força de trabalho é considerado. 

De volta à Petrobrás. O que surpreende nesta gente petista, é a cara de pau que eles tem de agredir o bom senso e a inteligência alheia. Ora, como se pode considerar um bom negócio uma operação que causou um prejuízo monstro de R$ 1 bilhão? Mais: como os eleitores já tiveram oportunidade ler , atualmente Pasadena produz apenas e tão somente 16 mil barris/dia, o que torna o buraco ainda maior. 

Manipulação descabida
Informa-se que a equipe econômica estuda retirar o item alimentos do cálculo da inflação. Não adianta. O governo da senhora Rousseff não se emenda. Adora uma maquiagem para esconder seu governo medíocre e sua incompetência.

Seria assinar um atestado de estupidez completa e total Aliás, os candidatos da oposição adorariam que o governo decidisse por este caminho. Seria mamão com açúcar para a período. 

Um governo que já manipulou vergonhosamente a tal nova classe média, royalties para o atual presidente do IPEA, Marcelo Nery, que maquia de forma desavergonhada a estatística do emprego/desemprego, que aplica uma contabilidade de ficção no superávit primário para enganar o mercado, não seria apenas cretino em retirar do cálculo da inflação o peso dos alimentos. Seria apenas mais uma manipulação descabida para mostrar uma competência que tem.    E, mesmo que não venha adotar tal prática, o simples fato de se debruçarem para estudar uma possibilidade de adotá-la, já é um descabimento completo.

Cala a boca, ministro! 
 O ministro Aldo Rebello, do alto se sua sabedoria esportiva, tentando se esquivar dos atrasos nas obras para a Copa do Mundo saiu-se com uma daquelas pérolas que, se pensassem melhor, teria ficado de boa fechada. Afirmou que um pais que realiza o carnaval com o sucesso do nosso, pode muito bem realizar uma Copa do Mundo cem por cento.

Primeiro: o carnaval é organizado e efetivado pelo povão, sem a interferência do poder público. 

Segundo: o carnaval só é sucesso no Rio, Salvador, Recife, São Paulo e Salvador, portanto, são cinco  cidades, e não 12 como será na Copa. 

Terceiro: sempre que o poder público se intrometeu deu porcaria. Para fazer festa, a sabedoria popular é mais competente que qualquer político intrometido.

O general e a Petrobras

Sebastião Nery
Tribuna da Imprensa


RIO – Na primeira semana de abril de 1964, um magote de militares fardados e estrelados chegou ao edifício Ultramarino, no Rio, ao lado da Basílica da Candelária, esquina das avenidas Rio Branco com Getulio Vargas, então sede da Petrobras (hoje é na Avenida Chile). Era o general Olimpio Mourão Filho e sua trupe que vinham militarmente ocupar a Petrobras, em nome do “Comando da Revolução”.

Derrubado o presidente João Goulart no dia 31 de março, o marechal Osvino Ferreira Alves e sua diretoria tinham sido afastados da empresa por ordem das forças golpistas vitoriosas e o advogado Roberto Toledo ficara provisoriamente como administrador-geral. Era uma situação caótica. Prisões e cassações se multiplicavam nas diversas unidades da empresa em diferentes Estados. No Rio, na administração central, importantes servidores de nível gerencial eram afastados pelos dedos-duros de plantão.

Chegando de Juiz de Fora na madrugada de 1 de abril, o general Mourão imaginou que ia assumir o ministério da Guerra. Mas, lá chegando, já encontrou o general Costa e Silva sentado na cadeira, mãos para o alto: – Mourão, sou o mais velho. O chefe sou eu. Vá para a Petrobras.

MOURÃO
Mourão foi. Nesse cenário surrealista, o bravo Doutor Toledo recebe o pelotão do general Mourão. Arthur da Costa e Silva, ministro da Guerra (era essa designação à época) ordenara que o general Mourão deveria ser empossado novo presidente da Petrobras. Era “uma ordem revolucionária”. Experiente e conhecedor da legislação interna da empresa, o advogado Toledo comunica ao general que a posse não poderia se efetivar naquele instante. Seria necessária a convocação, por edital, da Assembleia Geral para que o processo de posse se tornasse legal.

O general Mourão Filho acatou o argumento e voltou com sua turma para esperar a publicação que lhe daria a Petrobras e a legitimidade no cargo. Não ganhou nem uma nem outra. Cada general mordia seu pedaço de poder.

Nomeado e empossado presidente da Republica o solerte, ambicioso e esperto general Humberto Castelo Branco, um de seus primeiros atos foi vetar o nome de Mourão para a Petrobras e escolher o respeitado marechal Ademar de Queiroz para a direção da estatal. No que acertou. Sua administração foi um marco positivo e consolidador da autonomia gerencial, imprimindo um forte sentido nacionalista. Enfrentou e derrotou a tese do ministro Roberto Campos, do Planejamento, que desejava dividir a Petrobrás em várias unidades autônomas.

TOLEDO
O advogado Roberto Toledo foi por décadas a memória viva da história do petróleo brasileiro. Aposentou-se próximo dos 80 anos. Foi assessor jurídico de todos os presidentes da Petrobras ao longo dos anos 50, 60, 70, 80 e 90. Uma longevidade alicerçada na competência jurídica e conhecimento técnico e histórico da estrutura organizacional da empresa. Um exemplo de servidor público e republicano.

O brilhante professor e economista Helio Duque, também ele patrimônio da Petrobras, três vezes deputado pelo MDB e PMDB do Paraná, relembra a historia e não perde a esperança no futuro da empresa.

GRAÇA
No Senado, a presidente da Petrobras, Graça Foster, passou por um constrangimento ao dizer que seu marido ‘não tem negócios” com a Petrobrás e ser desmentida pelo senador Mario Couto, do PSDB do Pará, que lhe mostrou uma “Folha de S. Paulo” de 2010, quando a empresa C. Foster, de Colin Vaughan Foster, tinha “20 dispensas de licitação para fornecer componentes eletrônicos”. E “desta vez ela silenciou” (Folha”).

Não precisava ter silenciado, se conhecesse as “Confissões” do incomparável Santo Agostinho. Bispo de Hipona (hoje Annaba, na Argélia), ele fugia a um cerco policial quando o barco em que estava como único passageiro foi interceptado. Perguntaram-lhe:

- O bispo Agostinho passou por aqui?

- Não.

Liberado, o barqueiro estava escandalizado:

- Senhor bispo, o senhor, que é um santo, mentiu.

- Não menti. Ele me perguntou se eu “havia passado”. Eu disse que não. “Estava passando”. É diferente. Não menti. Fiz uma “restrição mental”.

Dona Graça, como Santo Agostinho, seu marido “não tem” mesmo contratos com a Petrobras. “Teve”. É diferente. Na próxima, dona Graça, quando for falar à CPI, leia Santo Agostinho. Quem vai ficar constrangido e calado é o Mario Couto.

O PRIMO
Sabem por que o PT se lambuzou tanto com o doleiro Youssef? Pensaram que ele é primo da Dilma Roussef. O som é o mesmo.

A inflação do povo e dos economistas

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

Estão subindo bem acima da média preços que afetam todos: comida e serviços, de corte de cabelo a mensalidade escolar

Em fevereiro deste ano, o Datafolha perguntou em uma de suas pesquisas nacionais: você acha que a inflação vai aumentar ou vai cair? “Vai aumentar”, responderam 59% dos entrevistados. Já mostrava uma expectativa negativa.

No mesmo mês, analistas de fora do governo, consultados pelo Banco Central, estimavam que a inflação chegaria ao fim deste ano em 5,9%, medida pelo IPCA, índice do IBGE. Não chegava a ser uma novidade, pois a média de inflação nos últimos anos tem ficado em torno dos 6%. Mas continuava sendo um número alto, considerando que a meta oficial é de 4,5%, podendo ir até 6,5%, na margem de tolerância.

Vamos para abril. O Datafolha fez a mesma pergunta. E nada menos que 65% disseram que a inflação vai aumentar. Uma alta de seis pontos percentuais.

O BC, como faz toda semana, consultou novamente os analistas. No último dia 17, eles elevaram a previsão de inflação para este ano para 6,51%, conforme mostra o Boletim Focus, que pode ser acompanhado no site do BC. É só um pouquinho acima do teto da meta (a margem de tolerância), mas o movimento tem sido de alta direto. Além disso, é a primeira vez no ano que passa do teto.

Logo, especialistas e povo têm a mesma expectativa. Os economistas não acreditam que a alta de juros promovida pelo Banco Central e a promessa de corte de gastos do governo farão o efeito de bloquear a inflação. As pessoas ou os eleitores não acreditam nas repetidas afirmações da presidente Dilma, do ministro Mantega e do presidente do BC, Alexandre Tombini, segundo os quais o governo vai derrubar o IPCA.

Do ponto de vista técnico, se diz que o BC não está conseguindo “ancorar” as expectativas. No regime de metas, é meio caminho andado quando o mercado acredita que a “autoridade monetária” está mesmo empenhada em colocar a inflação no alvo e tem instrumentos e autonomia para fazer isso. No caso, autonomia para elevar os juros o quanto for necessário. O mercado acha o contrário, neste momento, e opera, negociando taxas de juros, por exemplo, na expectativa de que a inflação é alta e resiliente.

De ponto de vista da população, vale a experiência de compras. Índice de inflação de 6% é uma média entre preços que sobem e caem. Tem cigarro e cerveja no índice. Se você não fuma nem bebe, não percebe a inflação desses itens. Ocorre que estão subindo mais, bem acima da média, preços de itens que afetam todo mundo: comida e serviços em geral, desde corte de cabelo a mensalidade escolar. E, mais recentemente, tarifas de energia elétrica e de transporte público.

Até chegaram a cair preços de alguns eletrodomésticos, por causa da demanda mais fraca e do crédito mais difícil. Muitas pessoas perceberam, mas você não compra geladeira todo ano. Já supermercado e salão de beleza...

Nesse ambiente, acontece algo muito conhecido: quando todos acham que a inflação vai subir... ela sobe.

O empresário trata de colocar no preço a expectativa de alta. Os sindicatos começam a pedida salarial de 7% para cima. Se o mercado está aquecido, o prestador de serviço eleva seus preços mais frequentemente.
A persistência da inflação relativamente alta vai incomodando aos poucos. A pessoa está empregada, com salário em dia, mas toda semana vê que algo ficou mais caro. O dono do negócio, a um determinado momento, não sabe mais que preço estimar — e dá uma parada. O próprio governo vai ficando incomodado, pois seus integrantes percebem que precisam elevar alguns preços e salários.

A sensação de desconforto econômico se transforma em disposição de voto contra o governo. Esse é o maior risco para a presidente Dilma, além, claro, do caso Petrobras: entrar na campanha em ambiente inflacionário.

Mas, pergunta o leitor, não seria possível combater e derrubar essa alta de preços? Sim, é possível, mas, como o governo errou na política econômica, colhendo inflação alta e crescimento baixo, e como tolerou por muito tempo o ritmo elevado dos preços, o remédio necessário é cada vez mais amargo. E de efeitos demorados. Trata-se de juros ainda mais altos e de um forte corte nos gastos públicos, atitudes politicamente negativas e nas quais, a rigor, a presidente Dilma e o ministro Mantega nem acreditam.

Por isso, tentam controlar alguns preços “no braço” e ganhar a batalha das expectativas no grito. Toda hora repetem que a inflação está sob controle. Mas não é o que dizem os analistas e o povo, numa rara combinação.


Proposta indecorosa

O Estado de S.Paulo

Acostumados a empurrar seus problemas para o governo, empresários e sindicalistas do setor automobilístico tentam mais uma vez sangrar o setor público para compensar a ineficiência e o baixo poder de competição das empresas. A proposta indecorosa, desta vez, é usar dinheiro do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) para pagar durante até dois anos parte do salário de empregados com jornada reduzida. Para justificar o corte das horas de trabalho e a nova proposta, os porta-vozes da indústria e dos sindicatos mencionam a diminuição das exportações, a redução das vendas no mercado interno, a acumulação de estoques e o freio na produção. O esquema de proteção do emprego, argumentam, seria similar ao usado na Alemanha há muitos anos. Mal contada desde o início, essa história desanda de forma irrecuperável quando aparece a desavergonhada referência ao exemplo alemão.

A indústria automobilística instalada no Brasil é uma das mais protegidas do mundo. Cercada por barreiras comerciais, tem sido há muito tempo um dos setores mais favorecidos pelas políticas oficiais. Vendeu sem dificuldade, nos últimos anos, graças a incentivos fiscais ao consumo e a esquemas generosos de financiamento. Acordos com o governo em tempos de crise - ou de risco de crise - têm sido tradicionais. Nenhum outro setor tem recebido tantas facilidades para a manutenção de lucros e a preservação de empregos.

Protegida e cevada pelos favores oficiais, essa indústria tem feito muito menos do que poderia - e deveria - para adotar padrões de qualidade e segurança similares àqueles mantidos em países com economias mais abertas e mais competitivas. Até há pouco tempo as montadoras se opuseram à instalação de airbags e freios ABS em todos os modelos.

Por essas e outras razões, é um despropósito a comparação com a indústria alemã - ou com qualquer outra exposta à concorrência internacional e comprometida com a eficiência e a qualidade. Os dirigentes do setor, no Brasil, há muito se acomodaram na mediocridade de um comércio exterior restrito e desambicioso. As vendas são concentradas na Argentina (80% das exportações de veículos) e em poucos mercados da vizinhança. Ao mesmo tempo, a concorrência internacional no mercado interno é limitada por barreiras muito altas.

Com a economia argentina em crise e o comércio bilateral submetido a regras formuladas na Casa Rosada, as vendas para o segundo maior mercado do Mercosul diminuíram muito. Essa é a principal explicação do encolhimento das exportações, 32,7% menores, de janeiro a março, do que no primeiro trimestre do ano anterior.

A referência ao esquema alemão de socorro às empresas e de manutenção de emprego é quase uma brincadeira infeliz. A indústria alemã é referência global de produtividade e de qualidade. Crise nas montadoras alemãs é normalmente reflexo de problemas sérios em seus principais mercados. Não é consequência de baixo investimento, qualidade insatisfatória e produtividade inferior à dos principais concorrentes.

Nem todos os problemas da indústria brasileira - automobilística ou de outros setores - têm origem nas empresas. O baixo poder de competição da maior parte delas é explicável em boa parte por um mau ambiente de negócios. Os tributos são excessivos e mal concebidos, a burocracia é sufocante, as regras do jogo são incertas, os custos logísticos são absurdos, a mão de obra qualificada é escassa e a interferência governamental é desastrosa. Mas é preciso reconhecer a cumplicidade de parte do setor privado.

Certos empresários batalham muito mais por protecionismo e favores do que por medidas para elevar a produtividade e a competitividade. Acomodam-se, como se acomodaram as montadoras, no comércio medíocre com a Argentina e alguns vizinhos. No caso do setor automobilístico, ninguém se queixou enquanto os incentivos ajudaram a desovar a produção e a manter o emprego. As queixas e a nova proposta indecorosa compõem um roteiro conhecido. E ninguém fica ruborizado ao fazer a comparação com a indústria alemã.

Crise? Que crise?

Elio Gaspari
O Globo

Arma-se mais uma bolsa, resta saber se é a Bolsa Montadora, a Bolsa Metalúrgico, ou um mimo híbrido

A repórter Cleide Silva revelou que a Casa Civil da Presidência da República, as montadoras e os sindicatos estão discutindo um socorro para os trabalhadores ameaçados com a perda do emprego por causa da queda nas vendas de veículos. No ano passado elas caíram 0,9%, e, no último trimestre, mais 2,1% em relação ao mesmo período de 2013. Cerca de 1.500 operários já perderam seus empregos.

As empresas e os sindicatos discutem a importação de um mecanismo eficaz, usado na Alemanha. Nele, o trabalhador reduz sua carga horária, mantém seus benefícios e, durante um período de seis meses a dois anos, recebe até 67% do que lhe é devido. No limite, recebe mesmo sem trabalhar. Um pedaço dessa conta vai para a Viúva. Aí está o primeiro problema.

O segundo está no exemplo. O mecanismo alemão foi acionado pela primeira vez no século passado, quando a banda federal engoliu a comunista. Depois, em 2009, diante da crise financeira mundial, quando a venda de veículos caiu 30% e o PIB do país sofreu uma contração de 4%. Nada a ver com o que sucede no Brasil, onde a taxa desemprego é baixa, mas o ministro Guido Mantega repete a marchinha: “Este ano não vai ser igual àquele que passou.”

Ninguém quer ver trabalhadores desempregados e as montadoras, com razão, preferem preservar sua mão de obra qualificada. Contudo, do jeito que as empresas e os sindicatos formularam-na, a proposta assemelha-se mais a uma empulhação do que a um programa social. Mais um caso em que a sacrossanta “destruição criadora” do capitalismo é reciclada no Brasil destruindo a Bolsa da Viúva para criar puxadinhos de cartórios. A redução dos impostos cobrados às montadoras permitiu que vendessem 3,8 milhões de veículos em 2012. Seus operários mantiveram os empregos, mas não viram a cor desses lucros. Essa mesma desoneração resultou em menos arrecadação e, portanto, em menos dinheiro de volta para quem paga impostos. (Admitindo-se que o dinheiro pago volta, o que é uma licença poética.)

Se os empresários e sindicalistas estão diante de uma crise, devem botar a boca no mundo, expondo as razões pelas quais as vendas de veículos caíram. É verdade que isso não faria bem à campanha eleitoral da doutora Dilma e de seu comissariado. Coisas da vida. O que não se pode é viver num país sem problemas, importando-se um mecanismo de amparo social usado na Alemanha quando ela estava engolindo uma nação sucateada ou quando o mundo estava se acabando.

Resta também discutir o tamanho da conta. É uma Bolsa Metalúrgico ou uma Bolsa Montadora? Num aspecto, o problema deriva da rigidez das leis trabalhistas nacionais. Lula entrou na política dizendo que a Consolidação das Leis do Trabalho era “o Ato Institucional nº 5 dos trabalhadores”. O PT está no Planalto há 11 anos, refestelado no conforto que essa legislação dá a quem tem a chave do cofre do Ministério do Trabalho.

O presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Moan, diz que “esse é o momento para retomarmos a discussão sobre um plano de estabilização dos empregos, mas pensamos no longo prazo, e não apenas na situação atual”. Ótimo, para todos os setores da economia e para todos os trabalhadores.

As vítimas no poder

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Parece destino - um cruel destino de que nós, brasileiros, não conseguimos livrar-nos. Na ditadura, os especialistas em interrogatório (também conhecidos como "torturadores") da Escola das Américas, instituição americana com sede no Panamá, vieram ao Brasil ensinar o que sabiam aos militares brasileiros. Os torturados, os mortos, os mutilados fazem parte de seu legado. E que é que fizeram os atuais governantes petistas, também vítimas dos instrutores internacionais?

Fizeram denúncias fortes, duras, muitas delas comprovadas. E, no poder, trouxeram ao Brasil os mercenários da Blackwater, sucessores privados da Escola das Américas. A Blackwater - que hoje, para tentar desvencilhar-se da fama das barbaridades cometidas no Afeganistão e Iraque, mudou de nome para Academi - foi contratada pelo Governo Federal petista para treinar os grupos especiais de Polícia que devem garantir a segurança da Copa. O pessoal da Blackwater, ou Academi - ou United Secret Services International, outro nome que usa - deve ser competente. A dúvida é: em que área reside sua maior competência? A turma da Escola das Américas era também macabramente competentíssima.

A Blackwater, seu antigo nome, mereceu um interessante livro, A ascensão do exército mercenário mais poderoso do mundo, do repórter Jeremy Scahill. No livro aparecem as ligações da Blackwater com a CIA e com a Halliburton, empresa do ramo petrolífero pertencente à família de Dick Cheney, secretário da Defesa e, mais tarde, vice-presidente da República. A Halliburton opera no Brasil.

O nome das coisas
Blackwater, água negra. Halliburton, ouro negro. Petrobras, águas turvas.

Descendo a ladeira1
Em frente à catedral do Rio, uma receita quase infalível de crise: grupos de invasores de imóveis, despejados de um prédio que haviam ocupado, acamparam cercando as entradas da igreja e obrigando o cardeal-arcebispo do Rio, d. Orani Tempesta, a suspender as comemorações de Páscoa que ali se realizariam. O objetivo dos manifestantes foi atingido: chamar atenção. Mas talvez tenham chamado mais atenção do que gostariam. Boa parte da população do Rio é católica, e prejudicar os festejos de uma das principais datas cristãs soa como provocação que, no mínimo, irá envenenar os ânimos. Talvez não haja revide imediato, mas a irritação se acumula: mexer com coisas terrenas é uma coisa, mexer com o culto a Jesus Cristo, ainda mais no Domingo da Ressurreição, é outra - e perigosa.

Descendo a ladeira 2
Numa só garagem, 34 ônibus incendiados em São Paulo. Por que? Por nada. Os bandidos que vêm destruindo um dos principais meios de transporte da população não dizem por que agem. Talvez não seja errado ligar essa onda de incêndios a ônibus com as notícias de que o Governo pretende colocar dois líderes presos do PCC, Marcola e Barbará, no duro Regime Disciplinar Diferenciado, em que ficariam isolados e seriam obrigados a permanecer na cela pelo menos 22 horas por dia. 

O jornalista João Alckmin, que acompanha de perto a crônica policial (e por isso já sofreu dois atentados, sem que ninguém tenha sido preso por eles), faz uma pergunta que embute a própria resposta: por que os bandidos sempre incendeiam ônibus, e nunca vans? Terá isso algo a ver com as informações de que parte substancial das vans de transporte clandestino pertence ao PCC, o Primeiro Comando da Capital, braço mais forte do crime organizado?

Socializando o prejuízo
O caro leitor alguma vez viu pingar em sua conta alguma parcela dos lucros da indústria automobilística, nos tempos em que carros e caminhões, com substanciosos estímulos fiscais, tinham números exuberantes de vendas? Pois é: agora que as vendas caíram, a indústria automobilística está procurando um jeitinho de compartilhar os prejuízos. A proposta é que, durante a crise de vendas, os operários sejam temporariamente licenciados; e o Governo - nome pomposo dado a seu bolso, caro leitor - pague boa parte de seus salários, com verba do seguro-desemprego e do FAT, Fundo de Amparo ao Trabalhador. 

E as empresas que investiram pesadamente, acreditando que o mercado cresceria o tempo todo, sem nenhum recuo? Seu rico dinheirinho, caro leitor, ajudará a mantê-las no azul. 

Vargas vai... 
O PT reclama, diz que o deputado paranaense André Vargas prometeu renunciar, para não desgastar o partido, e não renunciou. E ameaça convocar a Comissão de Ética do partido (existe, claro que existe) para julgá-lo, condená-lo e expulsá-lo. Se a Comissão for convocada, não haverá outro resultado possível, já que Vargas cometeu a maior infração possível à ética partidária: foi apanhado. 

O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, do PMDB, diz que, renuncie ou não, Vargas será julgado no Conselho de Ética da Casa, onde, com voto aberto, não tem qualquer chance de escapar da cassação de mandato e da perda de direitos políticos por oito anos. Serão duas eleições que não poderá disputar.

...Vargas vem
Como nada tem a perder, André Vargas até agora se recusou a renunciar. Talvez até conte quem lhe prometeu apoio e o deixou sozinho. E se contar tudo?

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

Problemas às pencas

Merval Pereira
O Globo


Nos últimos dias, o PT anda às voltas com problemas que afetam sua imagem, faltando poucos meses para a eleição presidencial. Alguns deles poderiam ser evitados, outros, não.

Cada notícia sobre os atrasos das obras para a Copa, especialmente os estádios de futebol, é mais um ponto negativo na avaliação da capacidade de gestão do governo. Poderia ter sido evitado se o governo, desde que foi anunciada a decisão da Fifa, em 2007, tivesse trabalhado com seriedade.

Mas, por um bom tempo, pareceu que a propaganda seria o suficiente para aumentar a popularidade do governo. A realidade tratou de colocar as coisas nos devidos trilhos, e o gasto excessivo (que seria bancado pelo setor privado, lembram-se da promessa?) acabou explicitando as verdadeiras necessidades da população: hospitais e escolas “padrão Fifa”, e não estádios de futebol.

A crise da Petrobras poderia ter sido evitada se a presidente Dilma não tivesse furado, com seu “sincericídio”, a bolha de mentiras que protegia o mau negócio da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos. Uma reação correta, mas atrasada, que parece estava martelando a cabeça da presidente — que evitou estourar a bolha antes para não atrapalhar a eleição do presidente Lula em 2006.

Estávamos lidando com os escândalos do mensalão, e seria demais surgir outro escândalo, e logo na Petrobras. Foi nessa campanha, aliás, que o governo jogou todas as suas fichas na demonização das privatizações, e deu certo, para espanto do próprio marqueteiro João Santana — que, mais tarde, admitiu em entrevista que ficara surpreso com a falta de reação do PSDB em defesa da privatização da telefonia, por exemplo, que levara os celulares para a classe média e até para os trabalhadores.

Como presidente do conselho, a presidente Dilma lutou contra a compra da outra metade de Pasadena, mas, como agora, não tinha condições de ir mais fundo na apuração. Hoje, ela bate boca em público com o ex-presidente da Petrobras José Sergio Gabrielli, mas não tem condições de ir adiante, pois exporá ao cidadão as transações ocorridas na gestão da Petrobras durante o governo Lula.

O caso do deputado André Vargas, que insiste em não renunciar, porém, é exemplar de como a situação política foge ao controle dos caciques petistas, até mesmo do maior deles, o ex-presidente Lula.

Na já famosa entrevista aos “blogueiros confiáveis”, como definiu muito bem um “jornalista confiável”, o ex-presidente Lula jogou Vargas ao mar, dizendo que ele tinha que se explicar, “porque senão é o PT que paga o pato”.

Foi nessa entrevista também que Lula, num ato falho, pediu empenho para impedir a CPI da Petrobras, lembrando que uma CPI para investigar uma corrupção de R$ 3 mil nos Correios do PTB acabou se transformando na CPI do mensalão. Lula tem toda a razão de temer que a CPI da Petrobras acabe em coisa pior para o governo e para o petismo, e é por isso que recomenda que o governo se dedique a inviabilizá-la.

Também a ex-ministra Gleisi Hoffmann mostra-se preocupada com a situação de Vargas e fez um comentário bizarro sobre essa situação: “O envolvimento do deputado com um doleiro não encontra justificativa para ter acontecido e acaba impactando no PT e na política”.

Como não encontra justificativa para ter ocorrido, senadora? A senhora não ouviu o diálogo de Vargas com o doleiro Alberto Youssef em que este diz ao deputado que está tratando da “independência financeira” dos dois?
Mas tanto Lula quanto Gleisi Hoffmann têm razão em uma coisa: esses casos estão mesmo impactando a imagem do PT, já muito abalada desde os tempos do mensalão.

A Copa quebrada

Juan Arias 
El Pais

O Brasil já perdeu e já ganhou o Mundial


O Brasil ao mesmo tempo já perdeu e já ganhou a Copa, o que não é nenhuma tragédia. Ganhou-a, fora dos estádios, porque o país amadureceu e deseja algo mais do que futebol. Quer uma vida melhor e mais digna, com a Copa ou sem ela.

Perdeu-a porque já não é segredo que o país do futebol chegou tarde, com estádios, além de milionários, remendados na última hora, com possível esbanjamento de dinheiro público, quando a promessa era de que os gastos seriam bancados por empresas privadas. A população, além disso, não obteve vantagens das prometidas novas infraestruturas, sobretudo as de transportes, levadas a cabo nas cidades-sede das competições. E nos aeroportos ainda há obras que deverão ser ocultadas dos turistas.

E como se fosse pouco, observa agudamente Vinicius Torres Freire em sua coluna do jornal Folha de S.Paulo, a Copa, que estava destinada a ser uma ocasião de festa, “teve de ser tratada como operação literalmente de guerra”, já que se anuncia o uso do Exército nas ruas, por temor de protestos violentos, e, segundo alguns, poderá haver uma espécie de “estado de exceção branco” durante o mês da competição. Pode a FIFA governar um país, mesmo que seja só por algumas semanas?

O Brasil estava destinado a fazer a melhor Copa da história, e falta pouco para que acabe sendo uma das mais mal organizadas e mais criticadas até pelos anfitriões. Perdeu-se a Copa antes de disputá-la, algo que, conforme escutei em um ônibus onde viajava gente de classe média, envergonha os brasileiros. Senti no ar o eco da volta do complexo de vira-latas que durante tanto tempo assolou este país grande, rico e de gente invejável por sua capacidade de acolhimento e resistência à dor. A Copa, de certa forma, já foi perdida.

Mas o Brasil também já ganhou a Copa, haja ou não manifestações nas ruas contra o torneio. Ganhou-a por uma razão muito simples e até paradoxal: porque a maioria dos brasileiros revelou que, se pudessem decidir, não votaria para que a Copa fosse realizada aqui, 64 anos depois do Mundial de 1950, tristemente famoso pelo gol com o qual o Uruguai ganhou do Brasil no Maracanã recém-estreado.

O fato de os brasileiros –sem renunciarem a sua paixão pela bola, que levam impressa em seu DNA, em seu sangue e na sua cultura – já não se sentirem apenas filhos do futebol e sonharem mais alto significa mais do que ganhar a Copa.

É um país que cresceu, amadureceu, desenvolveu-se economicamente desde aquele fatídico 1950 e tomou consciência de que não deve ser amado e admirado no mundo só porque sabe chutar uma bola como poucos, mas também porque é capaz de exigir o que lhe pertence e o que merece.

Ainda há famílias pobres das favelas que sonham com a possibilidade de que algum de seus filhos possa virar um novo craque que tire seus parentes dos apuros econômicos. A maioria, entretanto, tem outros sonhos para seus filhos, longe dos gramados. Escutei inclusive de pessoas com origens modestas que há duas coisas que elas já não desejariam para seus filhos: que fossem policiais ou jogadores de futebol. É uma mudança de paradigma que revela, mais do que muitos levantamentos científicos, como este país mudou.

As autoridades governamentais estão a cada dia mais nervosas com as possíveis manifestações. Os políticos também temem que o Brasil possa, de novo, na segunda Copa com uma final no Maracanã, perder a taça.
Esse medo indica que eles não entenderam que, para este país, já não é essa a maior preocupação que se vive nas ruas, onde um grupo de pescadores aos quais perguntei se estavam nervosos com a Copa me respondeu: “Aqui, ‘seu’ jornalista, desta vez não há clima de Copa. Estamos preocupados com outras coisas.”

Claro que desta vez, se o Brasil voltar a perder a Copa, e outra vez no Maracanã, não veremos ninguém se atirar de uma ponte em desespero. O Brasil sofre hoje com outras coisas, como a inflação disparada e a precariedade dos serviços públicos. Preocupa a barbárie dos linchamentos, que revelam também uma falta de credibilidade em relação às autoridades do Estado, incapazes de proteger a população.

Os brasileiros desfrutam hoje de outras coisas além do futebol, como o desejo de se superar, de ganhar o tempo perdido reciclando-se profissionalmente para poder dar um salto social e, desse modo, estimular os seus filhos a não perpetuarem a fatalidade da pobreza material e cultural de seus pais e avós.

Hoje, quando são feitas pesquisas sobre tudo o que acontece e está por acontecer, até sobre as minissaias que provocam os homens, seria interessante que perguntassem aos brasileiros quais são seus sonhos com os olhos abertos, se é ganhar a Copa ou poder ter uma vida sem sofrimentos econômicos, com um Governo que lhes devolva em serviços decentes o sacrifício de tantos impostos, um futuro com menos violência, com menos desigualdades insultantes. Ou a possibilidade de poder desfrutar de algumas das coisas materiais e espirituais que, até agora, eles só viram um punhado de privilegiados aproveitar.

Em todo o mundo, os ditadores, de direita e de esquerda, usaram o esporte, e sobretudo o futebol, para embriagar as pessoas e distraí-las dos seus verdadeiros problemas e anseios.

Hoje, entretanto, os brasileiros não optariam por ganhar a Copa à custa de continuar sofrendo nas garras da pobreza e da exclusão, que durante tantos anos os atormentaram. Preferem perdê-la se isso significar poder desfrutar de uma maior democracia.

E se ganhar? Então ganharia duas vezes, mas a Copa não seria a razão principal da sua felicidade. Seria só uma boa sobremesa depois do prato principal. E esse prato é um Brasil que já não aceitaria voltar a perder sua democracia para afundar-se de novo no túnel da ditadura; um país que, apesar de estar vivendo um momento difícil em sua economia, continua sendo um dos países mais ricos do planeta e que aspira a ganhar muitas outras batalhas. Se fosse necessário, voltaria a sair à rua para se fazer escutar.

A alma do negócio

O Estado de S.Paulo

O governo federal gastou no ano passado R$ 2,3 bilhões em publicidade com a administração pública direta e indireta, o que inclui as estatais. É a maior despesa desse tipo já registrada desde o ano 2000, quando começou a ser divulgada.

Assim, a presidente Dilma Rousseff supera seu mentor e padrinho, Luiz Inácio Lula da Silva, cuja Presidência, em 2009, usou R$ 2,2 bilhões para trombetear as reais e supostas conquistas de seu governo. Somente com a administração direta, a despesa foi de R$ 761,4 milhões, também um recorde.

Não terá sido por mera coincidência que, tanto no caso de Lula quanto no de sua sucessora, espantosas quantias de dinheiro tenham sido despejadas no período imediatamente anterior a um ano eleitoral.

Lula teve de ampliar o investimento em publicidade porque precisava eleger um "poste", e não se faz isso sem uma formidável máquina marqueteira. Em 2013, como o "poste" não traiu sua natureza - com a agravante de que mais e mais brasileiros começam a se dar conta de sua incompetência -, o governo repetiu a dose e foi além, atingindo um valor que coloca a administração pública federal entre os maiores anunciantes do País.

Com efeito, o governo Dilma aparece em quarto lugar no ranking do Ibope sobre os investimentos em publicidade em 2013. Supera até mesmo a gigante Ambev, cuja necessidade de disputar mercados - coisa que a maior parte das empresas estatais e o governo não precisam fazer - a levou a gastar R$ 1,8 bilhão.

Sem o carisma de Lula e agora com sua alardeada capacidade administrativa em xeque, em decorrência dos atrasos em obras importantes, dos problemas na administração da economia e dos erros crassos na Petrobrás, a presidente Dilma Rousseff sabe que sem reforçar os gastos com publicidade não conseguirá se manter no Planalto.

A dependência de Dilma em relação à publicidade se comprova não apenas pelos números de 2013, mas pelo conjunto de seu mandato até aqui. Na média do primeiro biênio, o atual governo gastou R$ 1,78 bilhão por ano, 23% a mais do que a média de Lula em seus dois mandatos. Se a comparação for apenas com o primeiro termo de Lula, que gastou, em média, R$ 1,32 bilhão por ano, Dilma é ainda mais perdulária.

Além da despesa exorbitante, o problema é a óbvia utilização político-eleitoral da propaganda de governo, atitude que afronta a lei. A Constituição, em seu artigo 37, estabelece que "a publicidade dos atos, programas, obras, serviços e campanhas deve ter caráter educativo, informativo ou de orientação social". A publicidade do governo, no entanto, atende a outras finalidades.

Conforme o jornal Folha de S.Paulo, a Secretaria de Comunicação da Presidência argumenta que "em 2013 o governo federal apresentou novas campanhas de utilidade pública voltadas à prevenção de acidentes de trânsito, de combate ao uso do crack e de lançamento do programa Mais Médicos".

Assim, o governo mistura no mesmo balaio utilidade pública com campanha eleitoral explícita, caso da publicidade do Mais Médicos - que usa as mesmas técnicas de propaganda para candidatos e partidos.

O objetivo das peças que "vendem" esse controvertido programa, portanto, não é informar, educar ou orientar ninguém; é simplesmente fazer autopromoção - como se sabe, o Mais Médicos deverá ser o carro-chefe da campanha de Dilma à reeleição e da de seu ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha ao governo do Estado de São Paulo.

O padrão da gastança continua firme neste ano. Conforme a legislação, o teto para a despesa com esse tipo de publicidade oficial em ano eleitoral deve ser a média dos três anos anteriores - que, como se observou, foi substancialmente elevada por Dilma. O site Contas Abertas, que acompanha os gastos públicos, mostrou que, nos dois primeiros meses de 2014, o governo Dilma já despendeu R$ 30 milhões a mais em publicidade do que no mesmo período de 2013.

Para um governo que se diz tão popular e tão competente, e que se jacta de ter revolucionado o País, é estranho que a presidente tenha de gastar tanto em publicidade para mostrar o que realizou.

Com André Vargas, PT vive fase do pós-cinismo

Josias de Souza


O PT reedita no microcosmo partidário um debate antigo: o que prevalece na formação de um delinquente, a cultura ou a genética? As opiniões vão de um extremo ao outro. Há os que apostam na influência do ambiente e os que acham que o bandido nasce feito.

Nos casos que envolvem crimes cometidos por miseráveis, os especialistas ainda não conseguiram responder se a sociedade é responsável ou não. No caso do PT, não há dúvidas. Se há alguém que pode ser chamado de um produto do meio é o deputado André Vargas.

Vargas é um filho da cultura mensaleira, que admite usar todos os estratagemas ilegais para atingir os subterfúgios ilegítimos. O companheiro pode escorar sua defesa nas suas circunstâncias. A culpa é do PT, que o estimulou a ser o que é com todas as facilidades, a impunidade e a cumplicidade que assegurou aos filiados do mensalão.

Se a cúpula da legenda, condenada pelo STF e recolhida ao xilindró, não perdeu as regalias partidárias e o poder político, Vargas só podia esperar tolerância e incentivo de uma cultura política cada vez mais caracterizada pela amoralidade. Pilhado com a mão no bolso do doleiro Alberto Yossef, o mínimo que o companheiro merecia era que o PT sentisse remorso do que fez com ele e se apiedasse.

Deu-se, porém, o oposto. O PT adotou com André Vargas a política do mata-e-esfola. Ameaça expulsá-lo da legenda caso não renuncie ao mandato de deputado. Espremido nesta terça-feira (22) por Rui Falcão, presidente do PT federal, Vargas estufou o peito como uma segunda barriga e anunciou: “Não renuncio”.

Abespinhado, Falcão acusou Vargas de prejudicar com sua má reputação as campanhas de Dilma Rousseff ao Planalto, de Alexandre Padilha ao governo de São Paulo e de Gleisi Hoffmann ao governo do Paraná. Vargas deu de ombros. Natural. Se a história recente do PT ensinou alguma coisa é que nenhum companheiro paga pelo que fez. O amigo do doleiro cobra apenas respeito à tradição.

Ao condenar José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares, o STF impusera ao PT um desafio. Afora a necessidade de reformular a lorota segundo a qual o mensalão é uma “farsa”, o partido fora convidado a decidir o que fazer com seu estatuto. Ou expulsava de seus quadros os sentenciados ou rasgava o documento.

As hipóteses em que a pena de expulsão deve ser aplicada estão listadas no artigo 231 do estatuto do PT. O item de número VII anota que o filiado será expurgado do partido quando houver “condenação por crime infamante ou por práticas administrativas ilícitas, com sentença transitada em julgado.”

Em 2005, quando o mensalão foi pendurado nas manchetes, Lula declarou-se “traído” e o PT expulsou o tesoureiro Delúbio. Em 2011, já na condição de ex-presidente, Lula esforçava-se para empinar a tese da “farsa” e Delúbio, à época ainda uma condenação esperando para acontecer, foi readmitido na legenda. Dirceu e Genoino jamais foram submetidos à Comissão de Ética partidária. Ao contrário, são celebrados como “guerreiros do povo brasileiro”.

Diferentemente da cúpula mensaleira, André Vargas ainda está solto. O STF ainda nem deliberou sobre o pedido da Procuradoria da República para que seja aberto um inquérito contra ele. É nessa condição que o deputado reivindica do PT o direito de se defender no Conselho de Ética da Câmara, por ora o único foro em que está sendo processado. E o PT, tomado de súbita intransigência: negativo, companheiro. Aos mensaleiros, tudo. Aos amigos de Youssef, os rigores do estatuto.

Louve-se a resistência de André Vargas. Sem nada que o redima, o lobista do doleiro ganhou nova serventia. Tornou-se uma denúncia de carne e osso do meio apodrecido que o produziu. O excesso de promiscuidade e a aliança do PT com o amoralismo produziram um Vargas. Ao ameaçá-lo de expulsão depois de ter servido refresco aos mensaleiros, o partido se desobriga de examinar suas próprias culpas. O petismo mergulhou numa fase nova. Vive a fase do pós-cinismo.

CASO RACHEL SHEHERAZADE: Silvio Santos, uma vez mais, cedeu a pressões, acovardou-se e foi omisso

Ricardo Setti
Veja online

(Foto: Roberto Nemanis / SBT) 
Rachel Sheherazade: uma vez mais, Silvio Santos não resistiu a pressões.
 Não custa lembrar o quanto ele bajulou também a ditadura 

O comunicado no qual o SBT anunciou que ejetava a âncora Rachel Sheherazade de sua cadeira de comentarista da emissora foi formal e, ao mesmo tempo, cínico.

Quem não se lembrar, vale dar uma lida, é curtinho:

“Em razão do atual cenário criado recentemente em torno de nossa apresentadora Rachel Sheherazade, o SBT decidiu que os comentários em seus telejornais serão feitos unicamente pelo Jornalismo da emissora em forma de Editorial. Essa medida tem como objetivo preservar nossos apresentadores Rachel Sheherazade e Joseval Peixoto, que continuam no comando do SBT Brasil”.

Ah, bom! Então o objetivo é “preservar” a jornalista, que, devido a ameaças, já andava de carro blindado e tomara outras providências do tipo.

Quer dizer que, diante de ameaças, a resposta do SBT foi… fazer justamente o que os autores das ameaças queriam?

Calar a moça? Tapar-lhe a boca?

Quero deixar claro aqui que NÃO compartilho das opiniões de Rachel Shererazade em 90% dos casos, ou mais. Em certos casos, considerei abjetos seus comentários.

Mas ela nunca se afastou da linha que deve guiar os democratas — os limites da lei.

Quem se sentiu ofendido, tinha — como tem — o direito de entrar na Justiça.

(Foto: Roberto Nemanis/SBT) 
Ao primeiro sinal de polêmica e intriga com o governo, Silvio Santos se intimidou. 

Não gostaram nem um pouco de vários comentários o deputado Ivan Valente (PSOL-SP) e Jandira Feghali (PCdoB-RJ), e por causa disso a Procuradoria Geral da República está estudando representação enviada contra a comentarista, para ver que providências, eventualmente, tomar junto à Justiça.

O caso de Sheherazade foi muitíssimo comentado, e não vou repetir o que outros colegas já escreveram ou disseram em favor da liberdade de expressão e de o direito de a jornalista expressar suas opiniões.

O que quero comentar é a fraqueza, a omissão e a submissão de Silvio Santos, o dono do SBT — que se omitiu e se acovardou de forma espantosa. Nem comentou o caso. Foi como se não tivesse acontecido nada.

Bastou uma pressão maior, vinda de onde vier, e Silvio vai correndo entregar os pontos. Sobretudo quando, como ocorreu, determinados setores do lulopetismo espalharam o boato de que até a possibilidade de rever a concessão de seu canal estaria sendo estudada pelo governo — um absurdo e uma mentira, como se não existissem sólidas garantias legais para uma rede como o SBT continuar operando dentro do prazo legal.

Sem esquecer, é claro, a mãozinha oficial para livrar Silvio de seu banco Panamericano, com rombo de bilhões, que foi passado adiante. Silvio cumpriu corretamente suas obrigações financeiras na ocasião, mas, sem o governo, as coisas seriam catastróficas.

Mas, para quem, como Silvio, sempre se curvou docilmente ao poder, um estalar de dedos já basta. Aos que eram muito jovens ou não se lembram, é bom recordar que o empresário e apresentador foi um adulador da ditadura, e era quem conduzia, pessoalmente, um rastejante programa puxando o saco do governo militar chamado A Semana do Presidente.

Intervalos de plena autonomia no telejornalismo da emissora, como nos tempos de Boris Casoy, foram uma exceção para Silvio Santos — nunca a regra.

No caso de Sheherazade, a coisa se repetiu. Em troca do silêncio, ela vai ganhar um programa só dela. No qual, certamente, poderá opinar dentro de limites bem definidos.



Atrasos agravam a crise

O Estado de S.Paulo

Se a expansão do sistema de geração e transmissão de energia elétrica estivesse seguindo o cronograma anunciado pelo governo, o País não estaria sob o risco de enfrentar novo racionamento ou grandes cortes de fornecimento de luz, como está no momento. E a presidente Dilma Rousseff - apresentada pelo ex-presidente Lula como a gerentona desse plano, imagem que ajudou a impulsionar sua candidatura em 2010 - estaria com um problema a menos para resolver em sua antecipada campanha para a reeleição, que já enfrenta muitas outras dificuldades.

Caso as obras de cerca de 70 usinas programadas para entrar em operação no primeiro trimestre deste ano tivessem sido concluídas no prazo, praticamente não haveria o risco de crise provocada pela escassez de chuvas - e fortemente agravada pelas dificuldades impostas às empresas pelo modelo para o setor elétrico definido pelo governo Dilma no fim de 2012. Com todas as novas usinas operando, teria sido possível reduzir a utilização das que já estão em produção há mais tempo, o que pouparia seus reservatórios. Calcula-se que, neste momento, o nível desses reservatórios poderia ser até 25 pontos mais alto, o que afastaria qualquer risco de racionamento ou de crise no abastecimento.

Além disso, com a oferta de energia gerada pelas novas usinas, seria bem menor a demanda da energia produzida por usinas termoelétricas, que vêm operando de maneira ininterrupta para evitar que o nível de reservatórios das hidrelétricas baixe ainda mais. Dado o alto custo de operação das usinas térmicas, sua utilização impõe um pesado ônus aos consumidores e aos contribuintes.

Cerca de 3 mil megawatts (MW) - o suficiente para abastecer uma cidade de 8 milhões de habitantes ou todo o Estado do Ceará - deixaram de ser produzidos por causa dos atrasos das obras, como mostrou reportagem de Renée Pereira, no Estado (14/4). Esse número foi obtido a partir de cruzamento das informações mensais divulgadas pelo Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) - órgão colegiado que, como informa o Ministério de Minas e Energia, tem "a função de acompanhar e avaliar permanentemente a continuidade e a segurança do suprimento eletroenergético" em todo o País - com os dados dos relatórios da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Quase 90% dos projetos em execução protelaram o início de operação. Num caso, a responsável alegou problemas no recebimento de equipamentos; em outro, alegou-se atraso na obtenção do licenciamento ambiental; em outro ainda, necessidade de adequação do projeto às condições geológicas.

O que tem ocorrido na execução do plano de expansão do setor elétrico, como na implementação de outros grandes programas anunciados pelo governo Dilma, é uma combinação de falhas. Projetos mal feitos, dificuldades de obtenção de licenciamento ambiental, problemas técnico-administrativos na área pública, dificuldades jurídicas nas desapropriações ou nas relações trabalhistas e descompasso entre diferentes planos (às vezes, usinas são concluídas, mas não podem gerar energia porque faltam linhas de transmissão) compõem o problemático cenário das obras no setor elétrico.

Em sua defesa, o Ministério de Minas e Energia apresenta a questão por outro ângulo. Em vez de reconhecer que quase metade das obras está atrasada, prefere dizer, como o fez em nota, que "mais da metade está com o cronograma em dia". O Ministério afirma ainda que as alterações dos cronogramas "são ponto de atenção e de ações permanentes". Se com essa "atenção" já há tanto atraso, dá para imaginar como estaria o andamento do plano de obras do setor elétrico sem ela.

Mas, diz o Ministério, agora tudo vai mudar. "Essa dinâmica de atraso", segundo a nota, forçou o CMSE a criar um grupo de trabalho "com o objetivo de melhorar o diagnóstico" dos atrasos e das mudanças frequentes dos cronogramas. Quem não conhece a dinâmica dos atrasos no setor elétrico, mas conhece a dos grupos de trabalho no setor público, sabe o que isso quer dizer: nada.

Mais que a meta

Míriam Leitão e Alvaro Gribel  
O Globo


A inflação deve estourar a meta em maio. O índice de abril pode ficar no mesmo nível da prévia, em torno de 0,8%, o que manteria o número em 12 meses perto de 6,4%. Depois disso, há uma chance de a taxa se desacelerar e ficar em torno de 0,5% em maio, mas como é mais do que maio do ano passado, o acumulado iria para mais de 6,5%. E deve continuar pelos meses seguintes.

O professor da PUC-Rio Luiz Roberto Cunha acredita que essa é a trajetória que a inflação cumprirá nos próximos meses. Curiosamente, ele acha que a chance de voltar a ficar mais baixa que a meta vem no fim do ano, porque em dezembro de 2013 ela ficou em 0,92%. Um número tão ruim assim não deve se repetir.

Ontem, no entanto, a mediana das previsões do mercado para 2014 ficou pela primeira vez acima do teto da meta. O Banco Central pesquisa, como se sabe, uma centena de instituições financeiras e consultorias sobre as suas previsões e divulga a mediana dessas projeções uma vez por semana. No fim de fevereiro, a pesquisa dava 6% de taxa para o final do ano e ontem chegou a 6,51%, mostrando uma rápida deterioração das expectativas. Há mais de um mês, no entanto, o grupo das cinco instituições que acertam mais — o chamado Top 5 — já havia apontado essa tendência.

A boa notícia é que há uma desaceleração dos reajustes em curso. A prévia de abril fechou um pouco abaixo do que se esperava. Houve redução da pressão em alguns alimentos. O resultado final não deve ficar muito diferente do IPCA-15, que ficou em 0,8%, calcula Luiz Roberto. Houve aumento de vestuário, loteria, energia, mas a redução do ritmo de alta dos alimentos vai ajudar. E essa desaceleração continuará acontecendo em maio, só que no ano passado maio deu 0,37%. Agora deve ficar em 0,5%, segundo Cunha.

O câmbio tem ajudando. O real foi a segunda moeda que mais se valorizou em relação ao dólar em abril, em parte pelas intervenções do Banco Central vendendo a moeda americana.

Com o câmbio a favor, o país crescendo pouco, os juros subindo há um ano, a inflação está teimosamente em nível alto e testando o topo da meta. No governo Dilma, durante 11 meses ficou acima de 6,5% e agora em maio deve voltar a estourar. Em junho, julho e agosto do ano passado, a inflação ficou bem baixinha. Julho chegou a ser zero. É difícil este ano repetir o feito. Há muito mais pressão para a alta dos preços.

E tudo isso com a inflação represada dos preços de energia e combustíveis. Na crise da Petrobras, um dos poucos pontos em que a atual e o ex-presidente da empresa concordam é que a gasolina precisa subir para reduzir os prejuízos da estatal com a importação do combustível. A energia teve reajustes que nada tem a ver com a pressão de custos que as distribuidoras enfrentam agora na compra da energia das termelétricas e no mercado de curto prazo. Esses custos serão jogados para depois das eleições.

Inflação represada consegue ser um bumerangue. Como os agentes econômicos ficam na expectativa de inflação maior no futuro, eles tentam se proteger agora com elevação dos preços. Outros não investem pela incerteza quanto ao custo de produção. Em todos os sentidos, uma inflação acima da meta é desorganizadora.

O governo Dilma está colhendo o que plantou. Não deu atenção devida ao tema, deixou várias vezes pessoas influentes darem demonstração de que o combate à inflação estava em segundo plano, ampliou os gastos, permitiu que os indicadores fiscais perdessem credibilidade. Terminará esses quatro anos tendo ficado sempre com a taxa perto ou acima do teto da meta. E pior: com uma inflação represada que terá que ser corrigida no começo do próximo governo.

Reflexões sobre o número real de desempregados no Brasil

Ricardo Fróes
Tribuna da Imprensa


Em 2013, o governo destinou 20,6 bilhões de reais para bancar o Bolsa Família a 14,1 milhões de famílias – ou seja: um em cada quatro brasileiros. Pois bem, alguma coisa não bate aí, já que o governo alega termos só 6% de desemprego. Como é que pode?

Na verdade, os 61,3 milhões de brasileiros de 14 anos ou mais que não trabalham nem procuram ocupação não entram nas estatísticas do desemprego. Ou seja, trata-se de 38,5% da população considerada em idade de trabalhar pelo IBGE (159,1 milhões), ou o equivalente à soma do total de habitantes dos Estados de São Paulo e do Rio.

Mesmo tirando da conta os menores de 18 e os maiores de 60 anos, são 29,8 milhões de pessoas fora da força de trabalho, seja porque desistiram de procurar emprego, seja porque nem tentaram, seja porque são amparados por benefícios sociais.

Portanto, se somarmos esses 61,3 milhões aos 9,5 milhões de “desempregados oficiais”, vamos ter 70,8 milhões de desempregados reais, ou 44,5% da população considerada em idade de trabalhar pelo IBGE.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Ricardo Fróes tem toda razão. E esse cálculo do número real de desempregados (70,8 milhões) inclui, é claro, também os subempregados, como camelôs, bóias-frias, entregadores e biscateiros de toda ordem, que para sobreviver se submetem a qualquer trabalho sem registro em carteira. (C.N.)

A mentira que Dilma conta sobre a indústria naval

Carlos Newton
Tribuna da Imprensa

Dilma não teve a menor participação na adoção da política que reativou a indústria naval, mas agora tenta assumir a autoria


Para tentar se defender no caso da desastrada compra da refinaria de Pasadena, no Texas, a presidente Dilma Rousseff sai pela tangente, destacando a política de recuperação da indústria naval, que teria sido “desenvolvida” em seu governo.

“Graças à política de compras da Petrobras iniciada no governo Lula e desenvolvida no meu governo, renasceu uma indústria naval dinâmica e competitiva, que irá disputar o mercado com as maiores indústrias navais do mundo” — disse Dilma, em seu programa de rádio, semana passada.

Na verdade, o mérito não é dela nem de Lula. Quem traçou essa política em 2003, logo no início do governo Lula, foi o BNDES, então dirigido por Carlos Lessa (presidente) e Darc Costa (vice). Foram eles que procuraram a diretoria da estatal, então presidida por Sérgio Gabrielli, e celebraram o acordo entre BNDES e Petrobras para que a empresa não somente possibilitasse a reativação da indústria naval, mas também priorizasse a compra de outros produtos nacionais.

Traduzindo: sem ter como se defender no escândalo da aprovação da compra da refinaria sucateada, quando presidia o Conselho de Administração da Petrobras, agora Dilma Rousseff tenta assumir a autoria de uma ação político-administrativa na qual não teve a menor participação.

Em 2003, embora ela fosse ministra de Minas e Energia, não foi consultada por ninguém e não teve a menor atuação no estabelecimento dessa parceria BNDES/Petrobras, que realmente conseguiu reativar a indústria naval. Se alguém tem alguma dúvida a respeito, pode perguntar a Carlos Lessa, a Darc Costa ou ao próprio Sérgio Gabrielli. 

Na verdade, o PT não tinha nenhum projeto. O partido chegou ao poder completamente despreparado. Quem estruturou a vitoriosa política econômica do primeiro governo Lula foi o BNDES. Quando Lessa saiu da presidência do banco e foi substituído por Guido Mantega, o trabalho de planejamento da economia feito por ele e Darc Costa já estava pronto. Simples assim. E Lessa até avisou que a retomada do crescimento econômico, atrapalhada pelo então ministro da Fazenda Antonio Palocci, seria “um vôo de galinha”. Não deu outra.

Rosa Weber determina instalação imediata da CPI 'exclusiva' da Petrobrás

Felipe Recondo  
O Estado de S. Paulo

Na decisão que atende aos pedidos feitos pela oposição, ministra do Supremo Tribunal Federal ordena a suspensão da discussão em plenário sobre a abrangência da comissão parlamentar

Ministra do Supremo Tribunal Federal Rosa Weber


Brasília - A ministra do Supremo Tribunal Federal Rosa Weber determinou na noite desta quarta-feria, 23, a instalação imediata da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigação exclusiva das suspeitas de irregularidades envolvendo negócios da Petrobrás.

Ela ainda determinou que, até que o mérito da ação seja julgado, que o Senado suspenda a discussão em plenário da abrangência da CPI. A ministra ainda rejeitou o pedido de liminar feito pelo PT para que impedisse a instalação da CPI exclusiva.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
A ministra Rosa Webber acabou fazendo a coisa certa. O lamentável no caso foi sua excessiva demora em decidir, protelando uma decisão que poderia ter tomado de pronto. E aquela história de pedir explicações a Renan Calheiros, francamente, nada a ver.  

Mau, não. Péssimo negócio

Ana Clara Costa, de Pasadena
Veja online

Graça Foster reconheceu que Pasadena foi um erro e que o dinheiro gasto não será recuperado. Mas isso só reforçou na oposição o ímpeto de conseguir a instauração de uma CPI da Petrobras


(Gilberto Tadday) 
OVELHA NEGRA -
Quase centenária, Pasadena tem diversos equipamentos sucateados 

A presidente da Petrobras, Graça Foster, e o ex-diretor da área internacional Nestor Cerveró foram ao Congresso prestar esclarecimentos sobre a contestada compra da refinaria de Pasadena (PRSI) no Texas — foco de uma virtual CPI. Antes da sabatina, eles se encontraram para alinhar o discurso. Graça alertou Cerveró de que nenhuma afirmação que aumentasse a crise seria tolerada. A estratégia era apresentar o caso tão somente como um investimento fracassado — nada mais que isso. Sabatinada por seis horas na terça-feira, a executiva seguiu à risca esse roteiro. Reconheceu que a compra “não foi um bom negócio”. Mais ainda, afirmou que não há chance de que o dinheiro despejado na refinaria seja recuperado.

Quando chegou seu dia de falar, Cerveró reafirmou que em 2006, quando a compra de uma participação de 50% em Pasadena foi decidida, o negócio estava em consonância com a estratégia de internacionalização da Petrobras. Corroborou aquilo que Dilma Rousseff afirmara um mês antes: as cláusulas que obrigaram a Petrobras a comprar a parte da belga Astra Oil no empreendimento, elevando o valor total do negócio a 1,25 bilhão de dólares, não constavam do resumo executivo apresentado ao conselho de administração, que ela presidia à época. Anteriormente, Cerveró havia dito que o conselho dispunha de todas as informações necessárias — daí o alerta de Graça. 

Desta vez, baixou o tom. “Não tive a intenção de enganar Dilma”, disse ele, acrescentando que não mencionou as cláusulas por julgar que elas “não eram relevantes”. Ao fim de cinco horas, os governistas se apressaram em dizer que os esclarecimentos eram suficientes. O fato, porém, é que o discurso alinhado de Graça e Cerveró não bastou para afastar da oposição o objetivo de que se faça uma investigação aprofundada. Há outros esqueletos no armário da Petrobras: as refinarias Abreu e Lima, em Pernambuco, e de San Lorenzo, na Argentina, estão igualmente cercadas por dúvidas. Quem conhece de perto a questão diz que, se Pasadena foi um mau negócio, Abreu e Lima é um negócio da China.

(Gilberto Tadday) 
Detalhe de edifício deteriorado da refinaria de Pasadena, no Texas 

Cidades com refinarias não são lugares aprazíveis. Pasadena, onde estão instaladas dezenas de plantas, não se desvia um milímetro dessa regra. Seu apelido é Stinkadena — um trocadilho com a palavra inglesa que significa “fedor” — e, por causa das emissões de gases, o céu tem uma permanente coloração cinzenta. Para minimizarem o ônus de viver em um lugar assim, autoridades e moradores fazem pressão constante sobre as refinarias, apontando aquelas que se qualificam como boas e más “corporações-cidadãs”. A PRSI é hoje a ovelha negra entre as empresas locais.

É a pior refinaria da região em todos os sentidos”, afirma Rock Owens, procurador do condado. Segundo a agência de proteção ambiental do governo americano, a refinaria teve o maior número de violações ambientais graves nos últimos cinco anos em Pasadena. Em 2013, do total de 1,8 milhão de dólares em penalidades aplicadas no Texas, a maior fatia coube a ela: 757.000 dólares. “O estado é leniente em relação às políticas ambientais. Mesmo assim, ela conseguiu levar a multa”, diz Owens.

O estado de conservação da refinaria é a origem de todos esses problemas. A planta foi construída em 1920, pela Crown Central Petroleum, e não passou por nenhuma grande modernização nos últimos cinquenta anos. Para todos que navegam pelo Houston Ship Channel, a principal via de escoamento dos derivados de petróleo produzidos na região, o cartão de visita da PRSI é uma instalação queimada, caindo aos pedaços. Trata-se de uma estrutura que explodiu em 2011. Os escombros nunca foram removidos.  

(Gilberto Tadday) 
Vista aérea da refinaria de Pasadena, comprada pela Petrobras no Texas 

Como em qual¬quer indústria, quanto mais antigas as instalações, mais cara é a manutenção e maior o seu passivo ambiental — um fator importante em Pasadena, uma vez que a legislação do Texas exige que qualquer reforma contemple também o tratamento do solo, da água e dos resíduos produzidos pelas obras. Recentemente, a petroleira americana Chevron anunciou que gastará 1 bilhão de dólares na modernização de sua planta em Richmond, no Estado da Califórnia. Tr¬ata-se de uma das maiores e mais antigas refinarias dos Estados Unidos. Mas, ao contrário de Pasadena, reformas no local são empreendidas há décadas e o plano de engenharia vem sendo discutido abertamente com os acionistas e os moradores. Estimativas em poder da Petrobras indicam que a modernização de Pasadena custaria ao menos 1,5 bilhão de dólares. Segundo o procurador Rock Owens, o valor é maior. “Acredito que apenas para lidar com o passivo ambiental seja preciso desembolsar cerca de 1 bilhão de dólares”, diz.

(Gilberto Tadday) 
Detalhe de edifício deteriorado da refinaria de Pasadena, no Texas 

sso explica por que Graça Foster afirmou ao Senado que dificilmente o dinheiro já gasto em Pasadena será recuperado. Pelas contas apresentadas por ela, o montante é hoje de quase 1,9 bilhão de dólares. Nele estão inclusos os 360 milhões de dólares gastos em 2006 na compra de 50% da PRSI, os 820,5 milhões de dólares pagos em 2012, quando a petroleira brasileira teve de adquirir a fatia da sócia, por causa das cláusulas contratuais omitidas por Cerveró do resumo executivo, e os 685 milhões de dólares investidos na planta em oito anos — que serviram apenas para deixar a refinaria no estado em que está. Graça comemorou o fato de que neste ano Pasadena vem operando com capacidade plena, ou seja, produzindo 100.000 barris por dia. Até o final de 2013, a capacidade máxima de produção nunca havia sido atingida: nos melhores meses, chegava a 85.000 barris por dia. Está implícito no discurso de Graça, contudo, que isso não basta — e que os bilhões extras necessários para a modernização não estão nos planos da estatal. Restaria a opção de vender a refinaria. Graça disse que não pretende se desfazer de um ativo que está sob investigação.

A oposição continua firme na convicção de que existem elementos suficientes para justificar a criação de uma CPI que lance luz sobre as engrenagens que acarretaram prejuízos à Petrobras, a seus acionistas minoritários e ao Brasil. A briga judicial entre a Petrobras e a Astra em torno de Pasadena é rica em detalhes que revelam a mentalidade dos diretores da empresa brasileira em anos recentes. Um e-mail enviado em 2006 pelo executivo Terry Hammer a seus colegas da companhia belga atesta: “Como Alberto (Feilhaber, ex-funcionário da estatal e então diretor da Astra) disse tantas vezes, a Petrobras não tem nenhum problema em gastar dinheiro”. Há uma ligação direta entre esse estilo de gestão e a maneira como as diretorias da Petrobras passaram a ser ocupadas desde a chegada do PT ao poder. Nesses anos, o governo tratou a empresa, acima de tudo, como ferramenta política. Se aliados estão rebelados, loteiam-se os cargos da Petrobras entre os partidos. É esse tipo de engrenagem que produz desvios de recursos e prisões como a do ex-diretor Paulo Roberto Costa. É esse tipo de engrenagem que, talvez, só uma CPI seria capaz de expor e desmontar.     

(Gilberto Tadday) 
Detalhe de edifício deteriorado da refinaria de Pasadena, no Texas 

(Gilberto Tadday) 
Refinaria de Pasadena, no Texas, foi comprada pela Petrobras em 2006 

(Gilberto Tadday) 
Equipamentos da usina de Pasadena são corroídos pela ferrugem 

(Gilberto Tadday) 
Vista aérea dos galpões da refinaria de Pasadena, comprada pela Petrobras no Texas 
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(Gilberto Tadday) 
Refinaria de Pasadena, no Texas, foi comprada pela Petrobras em 2006 

(Gilberto Tadday)
Vista aérea da refinaria de Pasadena, comprada pela Petrobras no Texas 

Vídeo (aqui) mostra instalações deterioradas da refinaria