domingo, abril 27, 2014

São resultados, e não má vontade, que geram o pessimismo no país

Adelson Elias Vasconcellos

Presidente que precisa pedir bênção ao seu tutor político até para nomear ministros e não pode andar desgarrada de um marqueteiro para implantar programas e políticas públicas, convenhamos, nem em banquinha de bananas, até porque, se descuidar, a base aliada dela rouba a mercadoria...


Bastaria a relação impressionantemente real de Sebastião Nery em artigo mais abaixo, e seria suficiente para qualquer governante, com tamanho resultado desastroso na Petrobras,  sequer tentar reeleger-se. Ou, se ainda fosse pequena a desgraça promovida de forma premeditada e consciente na Petrobrás, teríamos no artigo de Rolf Kuntz,  também mais abaixo, um impressionante relato   da verdadeira hecatombe que recai sobre a economia brasileira. Os dois textos são indesmentíveis, seja nos argumentos seja nos números. E são números reais, inquestionáveis, a configurar um dos piores governos que o país já teve ao longo de sua história. 

Nada se compara à mediocridade, incompetência e despreparo do governo da senhora Rousseff. Tivesse um pingo de senso de realidade, não apenas deixaria de fazer discursos país afora, cantando maravilhas que nunca realizou, como ainda mandaria suspender todas as propagandas que seu governo manda editar. Nada do que vai ali é real, nada guarda algum tom de verdade, tudo é falso, é meticulosamente manipulado, falsificado, mistificado. 

Em inúmeras ocasiões disse aqui que um governo deve ser avaliado pelo resultado que produz, não pela perfumaria com que tenta esconder sua inépcia. O caso de Dilma Rousseff chega ser absurdo: como mais de 50 milhões de brasileiros puderam eleger alguém tão completamente despreparada  para comandar os destinos de um país como nosso? 

Sim, havia de certo um padrinho forte, com mais de 70% de aprovação após 8 anos no poder. E isto nos faz lembrar uma história semelhante acontecida não faz tanto tempo em São Paulo. Alguém recorda da dupla Paulo Maluff - Celso Pitta? Não aconteceu agora algo parecido?

Mas voltemos aos governos  petistas. Quando Lula assumiu em 2003, teve na inteligência de Antonio Palocci alguém que soube manter as virtudes da política econômica herdada de Fernando Henrique. Lula saiu do poder aclamado pelo povo. Dava-se a ele as razões para o país ter avançado tanto. E, no entanto, ele teve a sorte de, primeiro, não mexer no que estava certo. E, segundo, montar uma máquina de propaganda, comandada por Franklin Martins, para torná-lo o tal pai dos pobres. Contudo, nem a economia foi resultante de políticas implementadas por Lula, nem na área social as melhoras começaram a partir dele. Se alguma virtude Lula teve neste ponto foi a de ter aprofundado os programas sociais já existentes, reunindo-os debaixo de uma mesma bandeira: o Bolsa Família. Porém, espertamente, retirou as portas de saída do programa que, com o tempo, resvalou de programa social para bolsa voto. 

Não vou entrar nos detalhes do por que o Bolsa Família ter perdido seu rótulo de programa social. Já o fiz diversas vezes, basta consultar o arquivo do Blog.  Na economia, Lula fez de seu segundo mandato um trampolim populista que a senhora Rousseff apenas deu seguimento. Foi a partir deste templo, que as contas nacionais passaram a se deteriorar. Como foi preservado o mesmo ministro da Fazenda de um governo para outro, o populismo esquizofrênico foi se tornando a veia principal que conduziu todas as ações de 2011 para cá. O resultado é o que vemos: crescimento insignificante, menor do que os países emergentes e inclusive dos que viveram crises profundas entre 2008 a 2011. Inflação que teima em queimar as projeções de Mantega, Dilma e, antes até, do próprio Lula. Déficit comercial. Déficit histórico nas contas correntes. Queda dos investimentos. Aumento da dívida pública em razão dos inúmeros subsídios  empurrados para o Tesouro, expansão irresponsável do crédito dos bancos públicos, não cumprimento das metas do superávit primário. 

Quando o IBGE começou trazer à tona os reais números do desemprego, o governo deu um jeito de interromper as pesquisas. Em ano eleitoral, é proibido exibir estatísticas reais que anulem o discurso do palanque eleitoral. Mas  o fato  é que o desemprego é superior a 7% e, assim mesmo, conforme o próprio IBGE aferiu, porque  mais de 60 milhões de desempregados deixaram de procurar emprego e, assim, ficam de fora das estatísticas. Ou seja, considerada a força de trabalho em idade ativa do país, é um número espantoso de pessoas fora do mercado. 

Se a gente for mais longe, para as tais obras da copa, então, a vergonheira é completa. Dilma afirmou com a maior cara de pau, nesta semana, que os estádios e os aeroportos estão prontos. Uma ova, senhora presidente. Respeite a inteligência dos brasileiros. Basta olhar o entorno dos estádios para sabermos que eles  estão muito aquém do que deveriam. Os aeroportos, então, Fortaleza e Cuiabá são dois símbolos do despreparo com que o Brasil abraçou sediar o evento, demonstram o quanto seu discurso é surreal. E o que dizer das obras de mobilidade que sequer sairiam do papel? Ou, então, daquelas que, simplesmente, foram retiradas da tal matriz de responsabilidade? Não adianta culpar a FIFA. Irresponsáveis fomos nós em querer sediar um evento desta magnitude sem termos competência para tanto. E que tal fazermos uma devassa completa em tudo o que foi gasto? Quantos  milhões de reais foram para o ralo do superfaturamento, que outra coisa não é senão o primeiro degrau para a corrupção?

Que tal lembrar, também do  desconcerto provocado no mercado de energia elétrica? E não foi por falta de aviso. Alerta foram dados muitos quando da edição da medida provisória baixando no atropelo as tarifas. Mas a teimosia, a prepotência, a arrogância falaram mais alto. Resultado: o país vai pagar caríssimo nos próximos anos,  pelo atropelo do bom senso. E hoje, como se vê, elas já estão mais altas do que estavam antes da senhora Rousseff intervir. 

Lula pode arrotar o quanto quiser sobre as tais qualidades de gestão da senhora Rousseff. Nada disso fará sentido diante de quatro anos de pura mediocridade e embromação. Trata-se de uma governante destemperada, desqualificada,  sem projeto de país, com um único objetivo a cumprir: manter o PT no poder, esquentando a cadeira para a volta do padrinho em 2018. Só que o país não pode se dar ao luxo de esperar tanto tempo diante de tantos desacertos e incompetências. Nossa indústria está naufragada faz horas. Nossos indicadores econômicos todos em queda livre. As contas públicas se deterioram de tal forma e em tal medida que falta pouco para perdermos o grau de investimentos junto às agências de risco. 

Agora, depois de 16 pacotes de benefícios variados, fala-se em mais uma vez abrir o cofre para as montadoras. Ok, e o resto da economia faz o quê? Continua sem incentivo algum? Continua sem política de benefícios para tornar menos inóspito o ambiente de negócios no país? Outros setores terão que arcar com mais impostos para as multinacionais exportarem bilhões de dólares em lucros para suas matrizes no exterior? E as empresas do mercado do etanol, fazem o que, sentam e choram antes de fecharem as portas? 

Olhando-se o espectro atual do país, ninguém em seu juízo perfeito, a não ser o clubinho que se esbalda no poder pelo poder, avaliza mais quatro anos de Dilma na presidência. Se mais de 70% da população anseia por mudanças, é preciso conscientizar esta população que estas mudanças só serão possíveis com a troca tanto do comando quanto da doutrina que nele impera. Precisamos de reformas profundas, e não de tratamento cosmético para termos mais do mesmo, com pequenos malabarismos que não nos levarão a lugar algum.  Como disse certa vez, o prazo de validade desta gente já passou do ponto. 

Assim como aqueles que hoje reclamam da copa no Brasil são os mesmos que a apoiaram e festejaram em 2007, assim também reconduzir Dilma Rousseff por mais quatro anos, diante do desastre de seu primeiro mandato, a ninguém será dado o direito de reclamar de mais desastres que ainda ela possa provocar. Todos tem consciência de que, no mundo fantástico em que vive esta senhora, há um único caminho: ladeira abaixo.
Juntando-se tudo numa só panela, economia, serviços públicos e ponham nesta cumbuca além de educação, saúde, segurança, saneamento, transporte público, infraestrutura, também o desastre provocado pelas péssimas medidas adotadas na área de energia, política industrial que nunca existiu, o abandono completo da política de etanol, a percepção que fica é de um governo descontrolado, sem rumo,   sem projetos, sem comando. Um governo mergulhado no seu próprio caos. Ninguém comanda seus auxiliares tampouco dirige os destinos de um país na base do  berro. E, fica claro, que a única qualidade (?) que se tem notícia da tal gerentona do faz-de-conta é o berro, o despreparo e o destempero.  Além da incrível capacidade de parecer competente...

Nossas dificuldades nada tem a ver com fatores externos. Durante onze anos de governo petista, o país viu a arrecadação de impostos crescer de maneira descomunal, em índices superiores aos da inflação e do crescimento econômico. De um lado, a melhora na fiscalização, de outro, aumento da própria carga tributária incidente. Mas nada se compara ao crescimento das despesas correntes.  Ou seja, como os investimentos se mantiveram nos mesmos níveis de antes, o que se viu foi dinheiro saindo pelo ralo do desperdício e da corrupção. O tamanho do ministério, tanto de Lula quanto de Dilma, é um convite aberto ao desgoverno.   O aumento dos recursos na educação e saúde se deu muito mais pelo aumento real da arrecadação do que fruto de maior cuidado e prioridade com estas áreas. E o que dizer da explosão da violência de norte a sul?  

Dentre os candidatos, estejam todos certos, ninguém terá coragem de mexer no tal Bolsa Família, muito embora o programa reclame urgente aprimoramento para não perenizar sua dependência. Assim, pode-se afirmar que a senhora Rousseff é, hoje, perfeitamente dispensável, bem como seu partido. O país viveu, cresceu e  progrediu sem eles. Mas é justamente com esta gente que estamos indo ladeira abaixo.  O Brasil,  mais do que nunca, precisa de verdadeiros estadistas, e não aprendizes de feiticeiros ou postes com luz queimada.  E, de preferência, alguém que tenha um compromisso mínimo com a verdade. Presidente que precisa pedir bênção ao seu tutor político até para nomear ministros e não pode andar desgarrada de um marqueteiro para implantar programas e políticas públicas, convenhamos, nem em banquinha de bananas, até porque, se descuidar, a base aliada dela rouba a mercadoria...

O Brasil do banquinho de três pernas

Rolf Kuntz  
O Estado de S.Paulo

Monteiro Lobato criou um símbolo perfeito para o governo comandado pela presidente Dilma Rousseff, ao sintetizar no banquinho de três pernas o mobiliário e as ambições do caboclo. Para que quatro pernas, se três o sustentam e ainda evitam o trabalho de nivelamento? Os banquinhos do governo estão desenhados com perfeição nos principais indicadores e projeções da economia nacional, aceitos comodamente pelo grupo no poder. O aumento de preços na vizinhança de 6% é um bom exemplo de como funciona essa filosofia de Jeca Tatu.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, prometeu nesta semana, para o fim do ano, uma inflação dentro do limite de 6,5%, ponto extremo da margem de tolerância. A taxa anual até poderá ultrapassar essa marca nos próximos meses, mas em seguida - palavra de ministro - vai recuar e permanecer na área delimitada. Meta de 4,5%? Nem pensar, pelo menos por alguns anos.

Crescimento econômico? Muito bom, se chegar a 2,5% em 2013, como está indicado no projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias. Contas externas? O Banco Central projeta para o ano um déficit em conta corrente de US$ 80 bilhões, muito parecido com o de 2013 (US$ 81,07 bilhões) e ainda perto de 3,6% do produto interno bruto (PIB), onde tem permanecido, sem grande agitação, desde março do ano passado.

Forçado a se mexer para atiçar o fogo, e de vez em quando provocado, o governo-Jeca se compraz na recitação monótona de façanhas discutíveis e ainda se permite, de vez em quando, alguma bravata. Uma das preferidas é a comparação das contas públicas brasileiras com as dos países mais avançados. Mas até essa lenga-lenga está ficando insustentável, porque os governos do mundo rico, menos propensos ao comportamento de Jeca Tatu, andaram tomando providências para melhorar as finanças. Resultado: o Brasil ficou muito pior na foto.

Segundo o Eurostat, o escritório de estatísticas da União Europeia, os 28 países do bloco reduziram seu déficit fiscal para a média de 3,3% do PIB no quarto trimestre de 2013. Nos 18 países da zona do euro a média diminuiu para 3%.

No Brasil, o déficit nominal das contas públicas (resultado total, como se mede em quase todo o mundo) ficou em 3,26% do PIB no ano passado e chegou a 3,3% nos 12 meses terminados em fevereiro deste ano. Não dá mais para esnobar os europeus, se forem consideradas aquelas médias.

Mas a bravata é igualmente insustentável quando se considera a maior parte dos resultados individuais. Em 18 dos 28 países do bloco maior o resultado fiscal de 2013 foi melhor que o brasileiro. Entre os 18 estão duas das maiores economias, a Itália, com 3% de déficit, e a Alemanha, com zero. Em quase todas as outras os resultados melhoraram de forma consistente entre 2010 e 2013. Além disso, também as economias mais afetadas pela crise começaram a vencer a recessão e suas perspectivas são de maior crescimento nos próximos anos.

Mas a dívida pública brasileira, pode insistir algum dirigente brasiliense, é menor que a da maior parte dos europeus como porcentagem do PIB. É verdade, mas esse argumento seria muito mais relevante se a classificação de risco do Brasil fosse tão boa quanto a desses países e se, além disso, os títulos brasileiros fossem aceitos no mercado com as taxas de juros cobradas dos governos europeus.

Além disso, ninguém acusou esses governos de ter recorrido a criatividade contábil para fechar seus balanços nos últimos anos, nem a truques para disfarçar indicadores incômodos, como a taxa de desemprego. Lances desse tipo têm sido frequentes no Brasil, mas em geral para outras finalidades. Empenhado em administrar os índices, em vez de cuidar da inflação, o governo tem controlado os preços dos combustíveis e recorrido a prefeituras e governos estaduais para conter as tarifas do transporte público. Além disso, forçou a contenção das tarifas de energia elétrica, impondo perdas a empresas do setor e pesados custos adicionais ao Tesouro.

Inútil no combate à inflação, essa política fracassada e desastrosa ainda levou o governo a tentar novas mágicas para disfarçar seus efeitos fiscais. Uma das saídas foi a montagem de um estranho esquema de financiamento bancário - R$ 11,2 bilhões - à Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), uma entidade sem fim lucrativo e sem garantias próprias para oferecer aos bancos. A garantia será dada pelas distribuidoras e dependerá das tarifas cobradas. O custo será incluído no cálculo das novas tarifas a partir de 2015. Toda essa complicação, incluídos os juros do financiamento, seria evitada sem a demagogia da contenção de tarifas.

Políticas desse tipo são tão eficientes quanto as rezas de benzedeiras em atividade nas Itaocas de Monteiro Lobato. Sua serventia principal é poupar à autoridade - o Jeca de plantão - o trabalho de pensar seriamente e de enfrentar tarefas desagradáveis. Sem disposição para fazer o necessário, resta ao caboclo em função pública inventar meios de contemporizar e de empurrar os problemas para a frente. Inflação longe da meta de 4,5% em 2015 e crescimento econômico de 3%, também indicados no projeto da LDO, combinam com a filosofia do tripé.

Alguns se deixam contaminar pelo conformismo do Jeca e até enganar por sua esperteza rasa. A conversa sobre a criação de empregos é parte dessa esperteza. As demissões na indústria e a baixa qualidade dos postos criados no setor de serviços são temas postos de lado, assim como se tentou fazer com a pesquisa continuada por amostra domiciliar. Esta pesquisa - coincidência notável - vinha apontando taxas de desemprego maiores que as da pesquisa tradicional, mais limitada territorialmente. Para que pensar em modernização econômica, educação séria e criação de empregos decentes, se é muito mais cômodo levar adiante a conversa mole?

Fala sério, Dona Dilma

Sebastião Nery
Tribuna da Imprensa


RIO – Rivadávia de Sousa, gaúcho, jornalista, amigo de Getúlio Vargas, assessor de João Goulart, redator da Agência Nacional, preso no golpe militar de 1964, estava depondo no III Exercito:

- O que o senhor sabe sobre enriquecimento ilícito no governo de Jango?

- Nada. Eu é que quero saber quem é o responsável pelo meu empobrecimento ilícito. O coronel mandou-o para casa.

PETROBRÁS
Em Pernambuco, fantasiada com o macacão dos trabalhadores da Petrobrás, a presidente da República, incorporando o realismo fantástico de Gabriel Garcia Marquez, pensando que estava em Macondo, disse que os críticos dos escândalos na Petrobrás são “inimigos da Petrobrás”.

Ora, os verdadeiros inimigos da empresa o pais agora conhece:

1 – São os que desvalorizaram a Petrobrás em 101 bilhões e 500 milhões de dólares, rebaixando-a de 12ª maior empresa do mundo em valor de mercado para a 120ª posição, afetando os programas de investimentos fundamentais para o futuro do desenvolvimento nacional.

2 – São os que nomearam e mantiveram por oito anos o diretor Paulo Roberto Costa na estratégica área de abastecimento e refino. Pela primeira vez na história, um dirigente da Petrobrás foi preso pela Polícia Federal como integrante de uma quadrilha de lavagem de dinheiro.

PASADENA
3 – São os que patrocinaram a compra da Refinaria de Pasadena, a um preço astronômico de 1 bilhão e 200 milhões de dólares, anteriormente comprada pelo Barão belga Albert Frère por 42 milhões de dólares.

4 – São os que lançaram a pedra inaugural da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, com custo projetado de 3 bilhões de dólares e hoje a previsão do seu custo final está próxima dos 20 bilhões de dólares, mostrando o superfaturamento caviloso e nocivo às finanças da Petrobrás.

5 – São os que promoveram o desalinhamento dos preços dos combustíveis em função da demagogia populista, obrigando a empresa a importar derivados de petróleo a preços de mercado e vender internamente a preço bem menor. A cada 30 dias a Petrobrás perde 1 bilhão de dólares.

6 – São os que não respeitam o padrão de excelência em tecnologias inovadoras construídas pelos seus quadros técnicos, ignorando que a Petrobrás responde por 12% do PIB brasileiro, sendo responsável, apesar de tudo, por um programa de investimento maior do que o da União.

LULA E DILMA
7 – São os que levaram o valor das ações da Petrobras a um recorde de desvalorização. Em janeiro de 2003, o seu valor era de R$ 46,56. Hoje o seu teto vem sendo de R$ 16,00. Para atingir o valor real teria de ter uma correção de 223%. Os acionistas minoritários, donos de 48% do seu capital, tiveram suas finanças confiscadas e deterioradas.

8– São os que pela primeira vez obrigaram a Policia Federal a entrar na sede da Petrobrás e ficar de 9 da manhã às 3 da tarde revirando papeis. São fatos chocantes e indesmentíveis e têm como responsáveis os governos Lula e Dilma Rousseff.

Quem são os inimigos da Petrobrás? O ex-presidente da empresa, Sergio Gabrielli, aponta Dilma. Disse e repetiu que “a presidente Dilma precisa assumir suas responsabilidades”. Vem dona Dilma e diz que são os críticos. Fala serio, dona Dilma.

COLLOR
Pela segunda vez o Supremo Tribunal absolveu o ex-presidente Collor das acusações do Impeachment de 1992. O saudoso advogado Evaristo de Morais Filho, o Evaristinho, me disse na época e publiquei:

- Quantas vezes esse processo contra o Collor chegar ao Supremo ele será absolvido. A denúncia do procurador Aristides Junqueira não tem um só fato consistente. É pura bolha. É puramente política.

O lúcido jurista e ex-senador Amir Lando, relator do processo do Impeachment no Congresso, disse a um grupo de estudantes de Direito de Minas, que lhe perguntavam como ele definiria o Impeachment:

- Foi uma quartelada parlamentar.

“O tempo é o senhor da razão”. Só que anda devagar e chega tarde.

Me engana que eu gosto.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

A CPI da Petrobras está aprovada, por decisão liminar do Supremo; começar a trabalhar é outra coisa. Os partidos têm de indicar seus representantes, e é muito possível que os governistas adiem ao máximo as indicações. Isso obrigará a oposição a recorrer de novo ao Supremo, para que determine a imediata escolha dos membros da CPI. Mas estamos em 27 de abril. Há um feriadão no caminho. Não é preciso segurar muito: em 12 de junho começa a Copa. Mesmo que a CPI trabalhe, a repercussão será pequena. E depois da Copa começa a campanha.

Pode dar samba? Até pode; há tanto escândalo - o que inclui a informalíssima retirada de um cheque de US$ 10 milhões do caixa da Petrobras, sem autorização escrita - que talvez as barreiras sejam rompidas. Um dia, talvez, quem sabe.

O PT reclama do veto judicial à CPI ampliada, que investigaria também o cartel do Metrô e trens urbanos em São Paulo - cartel iniciado no Governo Covas, no começo da dinastia do PSDB. O PT reclama de barriga cheia, só para efeito público: a CPI ampliada é ilegal, mas criar outra CPI para o cartel que envolve o tucanato paulista é absolutamente legal. Com maioria no Congresso, os governistas só não abrirão a nova CPI se não quiserem - e talvez não queiram, porque as empresas acusadas de cartel em São Paulo fizeram e fazem obras em todo o país, em governos de vários partidos. 

Mas seria ótimo que a CPI do cartel fosse formada para valer. Não dá para acreditar que um único integrante do Governo Covas comesse sozinho todo o butim. Quem mais do Governo esteve na comilança?

Engane-me, eu gosto
O deputado goiano Carlos Alberto Lereia, do PSDB, amigo de fé e irmão camarada do bicheiro Carlinhos Cachoeira - tão próximo que Cachoeira lhe forneceu a senha de seu cartão de crédito - teve o mandato suspenso por 90 dias, por conduta inconveniente. Foi condenado por impressionante maioria: 353 a 26.

Na prática, Lereia perde oito dias de trabalho em maio (dois por semana, quarta e quinta), e três em junho (aí começa a Copa). Em julho há recesso. Em agosto o nobre parlamentar reassume suas funções. É campanha; o Congresso funcionará duas semanas, no total, em agosto e setembro. Lereia receberá por 60 dias e trabalhará quatro, se não faltar. 

É o último sofrimento de sua punição.

Ludibrie-me, aprecio
O ex-presidente Lula disse que está "por fora" do caso de Pasadena. É evidente que Lula não sabia de nada. O negócio foi feito quando ele era presidente da República. A Petrobras, maior estatal do país, era dirigida por Sérgio Gabrielli, seu homem de confiança. A atual presidente da Petrobras, Graça Foster, era diretora de Gás e participante da reunião que decidiu a compra da Refinaria de Pasadena. A presidente do Conselho era a ministra Dilma Rousseff, tão próxima a Lula que ele a indicou para sucedê-lo na Presidência. 

Não podia saber, mesmo! 

Me iluda que amo
Já que o deputado André Vargas, do PT paranaense, não quer renunciar ao mandato, o PT ameaça expulsá-lo. Onde já se viu manter no partido um político amigo de um doleiro? É comovente tamanha preocupação ética. De acordo com o artigo 231 do Estatuto do PT, deve ser expulso o condenado por crime infamante ou práticas administrativas ilícitas, com sentença transitada em julgado. 

Delúbio, José Dirceu e Genoíno, presos, com sentença transitada em julgado, continuam no partido. E Vargas, que nem a processo responde, seria expulso? 

Amo quem me ilude
A promotora Márcia Milhomens Correa, que pediu à Justiça que grampeasse telefones de uma certa região, sem especificar que nela ficam o Palácio do Planalto, o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional, explicou-se: precisava "apurar denúncias trazidas ao Ministério Público em caráter informal", feitas por informantes que preferiram manter-se anônimos. Não se sabe quem denunciou, nem o que, quando ou como. E se pede para grampear todo mundo. Pois é.

Gosto que me enrosco
A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, Anfavea, procurou o Governo, buscando mais incentivos. A situação é difícil: com a queda do mercado, as fábricas pararam de comprar e muitas empresas de autopeças do ABC paulista deram férias coletivas. Mas, explicou o presidente da Anfavea, Luiz Moan, a preocupação da entidade, que a leva a buscar maneiras criativas de ordenhar o Tesouro para elevar o consumo, é com o desemprego. 

Então, tá.

Tudo resolvido
Associações patronais e sindicatos de trabalhadores podem ficar tranquilos. Já, já, sai uma nova pesquisa do IPEA mostrando que não há nenhum problema.

Pode ser
Apesar dos esforços para manter em banho-maria a CPI da Petrobras, apesar da má vontade em criar a CPI do Metrô, pode ser que algo resulte dessas iniciativas. Divergências internas nos partidos talvez levem a boas revelações. O ex-presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli, exigiu que Dilma "assuma suas responsabilidades". O ex-diretor Cerveró contemporiza, mas a oposição tenta convencê-lo a falar. E a Alstom, que pode ser vendida à GE, manterá seus segredos? 

carlos@brickmann.com.br 
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Bom dia, Cinderela

Fernando Gabeira
 O Estado de S.Paulo

As pesquisas eleitorais recentes mostram Dilma Rousseff em queda. Quando se está caindo, a gente normalmente diz opa!. Não creio, porém, que Dilma vá dizer opa! e recuperar o equilíbrio. Além dos problemas de seu governo, ela é mal aconselhada por Lula nos dois temas que polarizam a cena política: Petrobrás e Copa do Mundo.

São cada vez mais claras as evidências de que se perdeu muito dinheiro em Pasadena. Lula, no entanto, não acredita nas evidências, mas nas versões. Se o seu conselho é partir para a ofensiva quando se perdem quase US$ 2 bilhões, a agressividade será redobrada quando a perda for de US$ 4 bilhões e, se for de US$ 6 bilhões, o mais sábio será chegar caindo de porrada nos adversários antes que comecem a reclamar.
Partir para a ofensiva na Copa do Mundo? Não é melhor deixar isso para os atacantes Neymar e Fred? Desde o ano passado ficou claro que muitas pessoas não compartilham o otimismo do governo nem consideram acertada a decisão de hospedar a Copa.

O governo acha que sufoca as evidências. O próximo passo desse voluntarismo é controlar as evidências. O papel do IBGE e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), por exemplo, começa a ser deformado pelo aparelhamento político. Pesquisas que contrariam os números de desemprego são suspensas. E o Ipea foi trabalhar estatísticas para Nicolás Maduro, que acredita ver Hugo Chávez transmutado em passarinho e, com essa tendência ao realismo mágico, deve detestar os números.

Controlar as evidências, determinar as sentenças pela escolha de ministros simpáticos à causa, tudo isso é a expressão de uma vontade autoritária que vê a oposição como vê os números desfavoráveis: algo que deva ser banido do mundo real. A visão de que o País seria melhor sem uma oposição, formada por inimigos da Petrobrás e por gente que torce contra a Copa, empobrece e envenena o debate político.

Desde o mensalão até agora o PT decidiu brigar com os fatos, e isso pode ter tido influência na queda de Dilma nas pesquisas. O partido foi incapaz, embora figuras como Olívio Dutra o tenham feito, de reconhecer seus erros. Está sendo incapaz de admitir os prejuízos que sua política de alianças impôs à Petrobrás ou mesmo que a Copa do Mundo foi pensada num contexto de crescimento e destinava-se a mostrar nossa exuberância econômica e capacidade de organização a todo o planeta. Gilberto Carvalho revelou sua perplexidade: achava que a conquista da Copa seria saudada por todos, mas as pessoas atacaram o governo por causa dela.

Bom dia, Cinderela. O mundo mudou. Dilma e o PT não perceberam, no seu sono, que as condições são outras. Brigar com os fatos num contexto de crescimento econômico deu a Lula a sensação de onipotência, uma crença do tipo "deixa conosco que a gente resolve na conversa". Hoje, em vez de contestar fatos, o PT estigmatiza a oposição como força do atraso. Ele se comporta como se a exclusão dos adversários da cena política e cultural fosse uma bênção para o Brasil. A concepção de aniquilar o outro não é vivida com culpa por certa esquerda, porque ela se move num script histórico que prevê o aniquilamento de uma classe pela outra. O que acabará com os adversários é a inexorável lei da história, eles apenas dão um empurrão.

Sabemos que a verdade é mais nuançada. O governo mantém excelentes relações com o empresariado que financia por meio do BNDES e com os fornecedores de estatais como a Petrobrás. Não se trata de luta de classes, mas de quem está se dando bem com a situação contra quem está ou protestando ou pedindo investigações rigorosas contra a roubalheira, na Petrobrás ou na Copa.

A aliança do governo é aberta a todos os que possam ser controlados, pois o controle é um objetivo permanente. Tudo o que escapa, evidências, vozes dissonantes, estatísticas indesejáveis, tudo é condenado à lata de lixo da História. Felizmente, a História não se faz com líderes que preferem partir para cima a dialogar diante de evidências negativas, tanto na Petrobrás como na Copa ou no mensalão. Nem com partidos incapazes de rever sua tática diante de situações econômicas modificadas.

Dilma, com a queda continuada nas pesquisas, sai da área de conforto e cai no mundo em que os candidatos dependem muito de si próprios e não contam com vitória antecipada pelo peso da máquina. Será a hora de pôr de novo em xeque a onipotente tática de eleger um poste. Nem o poste nem seu inventor hoje conseguem iluminar sequer um pedaço de rua. Estão mergulhados no escuro e comandarão um exército de blogueiros amestrados para nublar as redes sociais. Com a máquina do Estado, o prestígio de Lula, muita grana em propaganda e na própria campanha eleitoral, o governo tem um poderoso aparato para enfrentar a realidade. Mas essa abundância de recursos não basta. Num momento como este no País, será preciso horizonte, olhar um pouco adiante das eleições e estabelecer um debate baseado no respeito às evidências.

Esse é um dos caminhos possíveis para recuperar o interesse pela política. No momento, a resposta ao cinismo é a indiferença com forte tendência ao voto em branco ou nulo. Embora a oposição também seja parte do jogo, a multidão que dá as costas para a escolha de um presidente é uma obra do PT que subiu ao poder, em 2002, prometendo ampliar o interesse nacional pela política, mas conseguiu, na verdade, reduzi-lo dramaticamente. Para quem se importa só com a vitória eleitoral, essa questão da legitimidade não conta. Mas é o tipo de cegueira que nos mantém no atraso político e na ilusão de que adversários são inimigos. O PT comanda um estranho caso de governo cujo discurso nega o próprio slogan: Brasil, um país de todos. De todos os que concordam com a sua política.

Até nas relações exteriores o viés partidário sufocou o nacional, atrelando o País aos vizinhos, alguns com sonhos bolivarianos, e afastando-o dos grandes centros tecnológicos. Contestar esse caminho quase exclusivo é defender interesses americanos; denunciar corrupção na empresa é ser contra a Petrobrás; assim como questionar a Copa é torcer contra o Brasil.

Bom dia, Cinderela, acorde. Em 2014 você pode se afogar nos próprios mitos.

O povo está irritado

Vinicius Torres Freire
Folha de São Paulo

Daqui a menos de dois meses começa a Copa. Os candidatos a presidente fazem as festinhas de lançamento oficial de seus nomes. Os Protestos de Junho fazem um ano. Um ano de mal estar extra com a incivilidade brasileira.

Um ano em que, de vez em quando, espirra óleo quente da panela: uma revolta no Pavão-Pavãozinho, mais ônibus queimados na periferia de São Paulo, para mencionar as queimaduras mais recentes.

Nos dias da Copa e do aniversário do "Junho de 2013" pode haver novo pico de mau humor. Os milhares de candidatos a alguma coisa terão o que conversar com o público?

Um ano depois das propostas de pactos e de constituintes e até do esquentamento de ânimos revolucionários marginais, a conversa não melhorou de nível. A impaciência do eleitorado borbulha em fogo baixo.

O cansaço não é crítico, mas crônico. O Datafolha registra um nível de insegurança econômica inédito desde os piores dias de FHC, embora a situação econômica e social seja muito melhor agora. Vários números da pesquisa mostram que existe um desejo vago porém inequívoco de mudança, um "não-sei-quê" de anseio por outra história, a qual não parece ser contada por nenhum candidato ou partido.

É um despropósito dizer que há tumulto no país, mas muita gente está disposta a mostrar na rua, com tumulto se for preciso, que a paciência acabou. Os moradores de bairros pobres do Rio, vítimas de bandidos ou da banda podre das polícias "descem o morro" mês sim, mês não, a fim de dizer que não toleram mais tortura e assassinato seguidos de fraude policial e de outros esbulhos de direitos civis. No fundo, claro, cansaram de viver calados em zona de guerra civil molecular.

Em São Paulo, o incêndio de ônibus se tornou endêmico. Mais foram queimados até agora em 2014 do que em todo ano passado. Em muitos desses tumultos, pobres revoltam-se com violências várias (da repressão ao funk ao crime) e, por vezes, tornam-se instrumento de bandidos organizados. Nada disso é por acaso.
A princípio, é improvável que o clima melhore até junho. Houve greves de policiais, como a da Bahia, e há outras, planejadas. Há protestos previstos contra a Copa; noutro plano, sindicatos querem aproveitar a oportunidade a fim de obter acordos melhores, ameaçando greves.

Para temperar a situação, há vexames em penca dos desclassificados da política.

Surgem os primeiros indícios, muito preliminares, de problemas no emprego. O número de pessoas ocupadas parou de crescer nas grandes metrópoles. As fábricas de carros ameaçam demitir.

A inflação, o "ruído de fundo" que irradia da política econômica ruim, subiu ainda mais por acidente climático, pinçando o nervo mais sensível, o preço da comida.

"Imagina" se houver racionamento na maior metrópole do país, São Paulo, 20 milhões de pessoas já esquentadas submetidas ainda por cima à falta d'água.

Tudo parece "fait divers", notícias variadas do cotidiano, ainda que horríveis. Só que não. São sintomas de inépcias e negligências "estruturantes", como dizem tecnocratas.

Dos candidatos, quase silêncio, fora os oportunismos de costume. Ninguém conversa com o cidadão. Cada um a seu modo, FHC e Lula souberam conversar. 

O realismo mágico

Sandro Vaia  
Blog do Noblat

Gabo morreu e deixou aí o seu realismo mágico.

Falta um narrador de sua qualidade literária para descrever a espécie de Macondo em que se transformou a novela da Petrobrás, desde o momento que emergiu a tenebrosa história da compra da refinaria de Pasadena até o capítulo da CPI que o governo quer transformar, como Nizan Guanaes quer fazer com a Copa, na CPI de todas as CPIs.

Tudo começou com a posse de Graça Foster, funcionária de carreira da Petrobrás, de perfil marcadamente técnico, engenheira química de formação, na presidência da empresa, em fevereiro de 2012, em substituição a José Sérgio Gabrielli.

No discurso de posse prometeu “metas mais realistas” no planejamento da empresa, demitiu quatro diretores diretamente ligados a Gabrielli, mandou rever todos os contratos referentes a projetos fundamentais aprovados pelo seu antecessor e deixou um certo tom de perplexidade no ar — afinal de contas para um acionista meia palavra basta.

Prometer metas “mais realistas” não deixa margem a outra leitura: as metas que estavam no planejamento eram irrealistas.

A imprensa, na época, procurou explicar a que se referia a nova presidente, falou nas metas não cumpridas, e antes que os ânimos se acirrassem um pouco além do que é conveniente à convivência política entre criaturas políticas gêmeas, ainda que não univitelinas, apareceu a turma dos panos quentes.

Graça amenizou a sua linguagem, e para responder à exacerbação de quem atribuía a ela “a desconstrução da gestão Gabrielli” (que durara 7 anos), fez novos discursos dizendo que a sua gestão seria “uma gestão de continuidade”. Comme il faut.

Depois que se tornou público o episódio da refinaria de Pasadena, a diplomacia político-empresarial da gigante petrolífera voltou a derrapar e os pelos dos gatos ficaram eriçados de novo.

A presidente da República, que na época de Pasadena era presidente do Conselho da Petrobras, disse que baseou seu voto favorável num parecer técnico (na verdade um sumário executivo, um resumo do contrato) “falho e incompleto”.

Gabrielli demorou mas respondeu dizendo que a presidente deveria “assumir suas responsabilidades” na aprovação do negócio e Graça Foster, depondo no Senado, foi enfática: definitivamente, não foi um bom negócio.

No meio do caminho, um diretor preso pela PF, um diretor demitido em plenas férias, e algum anjo Gabriel tocando as cornetas na tentativa de hipnotizar a plateia defendendo, contra todas as evidências e os depoimentos de todos os envolvidos, de que, afinal, foi um bom negócio “para a época”. (Para quem? — persiste o mistério).

O governo, a Petrobrás, a base aliada em sua luta contra a CPI exclusiva, reafirmada pelo STF, cabem no realismo mágico que Gabo retratou assim na pg 261 de “Cem anos de solidão”: “Dotados de recursos que em outra época eram reservados à Divina Providência, modificaram o regime das chuvas, apressaram o ciclo das colheitas e tiraram o rio de onde ele sempre esteve”.


Eu também estou por fora

Ruth De Aquino
Revista ÉPOCA

Você também se sente igual a Lula ou está por dentro do escândalo de Pasadena?

Salamanca é uma cidade universitária, na Espanha, toda de pedras douradas, pontuada por monumentos, palácios e praças. Na Universidade de Salamanca, fundada em 1218, Lula recebeu na semana passada o título de doutor honoris causa e disse, sobre a polêmica de Pasadena: “Estou por fora”. Você se sente igual a ele, ou está por dentro do escândalo? Imagino que acompanhe a novela nos mínimos detalhes, pela imprensa. Não? Cansou? Acha que não vai dar em nada?

São bilhões demais, personagens demais, corretoras, laboratórios, empreiteiras e multinacionais, provas de corrupção em vários níveis, bandidos de toda sorte e escalão, doleiros, executivos, políticos, ministros, fantasmas. É um roteiro difícil de destrinchar até para um país viciado em telenovelas. Um enredo quase inverossímil de tão sujo, envolvendo “nossa” Petrobras. A primeira marca institucional, em 1958, era um losango amarelo, de contorno verde, com a palavra “Petrobrás”, ainda com acento, em azul. Em 1994, perdeu o acento, passou a não seguir as regras gramaticais, tornou-se um logotipo.

Imagino que, se fizessem uma pesquisa simples, em todo o Brasil, com uma única pergunta – “o que é Pasadena? (pa-ssa-di- n¬a)” –, o cidadão comum teria dificuldade de responder, ou mesmo de pronunciar corretamente o nome da refinaria americana. Depois que a lama veio à tona, quem primeiro disse que a compra de Pasadena foi um “mau negócio” foi a presidente da Petrobras, Graça Foster. Ela também afirmou que a Petrobras “não é uma quitanda”. Não é mesmo, isso a gente sabe.

Tenho uma intuição, posso estar errada: o cidadão comum não lê mais nenhuma reportagem sobre a Petrobras, a não ser que se anuncie aumento da gasolina. Olha os títulos do escândalo, com desânimo. Deveria ler mais, se quisesse votar com consciência. Mas não. O cidadão comum está “por fora”, igual a Lula. É na ignorância, no cansaço e na descrença que o governo aposta.

Pasadena, passa boi, passa boiada, e o cidadão comum não consegue se relacionar com reportagens que citam valores estratosféricos e esmiuçam detalhes técnicos como “a arqueação dos tanques de armazenamento da refinaria”, saques milionários sem registro, milhares de barris de petróleo que somem em trânsito ou dossiês confidenciais. Na pesquisa nacional, poderíamos também perguntar ao cidadão comum o que é “put option”. Corremos o risco de ele se sentir ofendido. “Put... o quê?”

Para que Lula e o cidadão comum não fiquem tão por fora, só resta mesmo criar uma CPI séria, concentrada na Petrobras, com poderes criminais, depoimentos no Congresso de todos os envolvidos... e que comece rápido, antes de o país parar tudo para ver os jogos da Copa. O tempo ruge. O governo federal sabe disso, o Congresso também. Dilma não quer uma CPI investigando apenas Pasadena.

Não é bom. Porque Pasadena está ligada umbilicalmente à alegada incompetência gestora de Dilma. O negócio piorou quando o ex-presidente da Petrobras José Sergio Gabrielli, do núcleo lulopetista da novela, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, afirmou: “Dilma não pode fugir da responsabilidade dela”. Gabrielli não gostou de ser apontado como único responsável por um “parecer falho e incompleto”. Quem mais se rebelará contra o script?

É importante que o cidadão comum saiba que o mau negócio da compra de Pasadena já é investigado pela Polícia Federal, pelo Ministério Público, pelo Tribunal de Contas da União, pela Controladoria-Geral da União e pela própria Petrobras.

O ideal é que se investigue também, a jato, a extraordinária rede de propinas construída pelo ex-diretor da Petrobras, o engenheiro Paulo Roberto Costa, um vilão de folhetim. A rede envolve dezenas de empresas, no Brasil e no exterior, e vários partidos políticos.

Dilma e o PT preferiam uma CPI ecumênica. Que investigasse simultaneamente a Petrobras e os podres de Aécio Neves e Eduardo Campos, em São Paulo e em Pernambuco. Uma CPI assim, agindo em três frentes ao mesmo tempo, não faz sentido, não conseguiríamos ligar lé com cré. O Brasil não está preparado para isso. Deveríamos abrir três CPIs. Afinal, temos tempo de sobra, é ano de eleição e só estamos totalmente atrasados para sediar a Copa do Mundo.

A ministra do STF Rosa Weber decidiu enfrentar a bancada de Dilma e mandar instalar de imediato no Senado a CPI da Petrobras, escândalo nacional. Em defesa da “autonomia do Senado”, Renan Calheiros prometeu recorrer contra a CPI, mas de Roma. Logo depois da Páscoa esticada, em Alagoas, Renan foi para a Itália por seis dias, em viagem paga por nós, para ver a canonização de José de Anchieta, como bom católico que é. O vice-presidente Michel Temer também foi. A fé desse povo de Brasília move montanhas.

A cada um o que lhe compete

Juan Arias 
El Pais

Brasil não é um país em guerra, mas é difícil fazer os estrangeiros entenderem isso

Primeiro foi a FIFA que fez uma cartilha para os turistas que chegarão ao Brasil para a Copa do Mundo, que beirava o ridículo e que chegou a recomendar castidade aos estrangeiros ao mesmo tempo que descrevia os brasileiros de forma depreciativa, já que falar com eles era o mesmo que conversar “com uma parede”.

A FIFA tinha esquecido, no entanto, de fazer recomendações sensatas sobre os perigos reais que existem em algumas das cidades que sediarão as partidas, como que alguns sujeitos violentos possam aproveitar para assaltar ou roubar o turista.

Agora é a séria Alemanha, através do seu Ministério de Assuntos Exteriores, que divulgou um relatório sobre a grave periculosidade em matéria de segurança pública no Brasil aos cidadãos daquele país que viajariam para assistir a Copa.

E, uma vez mais, o Brasil foi objeto de excessiva severidade. Quem não conhece este país e lê o longo relatório da diplomacia alemã poderá pensar que a Copa será no Irã ou na Ucrânia, para citar dois países em conflitos bélicos. Não, o Brasil não é um país em guerra, embora é verdade que é um dos locais com alto índices de violência, seja por parte de traficantes de drogas, seja por uma polícia que ainda mantém resquícios da dureza e da falta de sentido democrático dos tempos da ditadura militar.

Que hoje as chancelarias dos países mais comprometidos com a Copa lembrem que o Brasil, como outros países da América Latina, tem uma forte carga de violência e insegurança cidadã em algumas de suas grandes cidades, é justo e até desejável, para que ninguém chegue aqui desprevenido.

O que não é nem elegante nem justo com a verdade é vender este país -sétima potência econômica mundial, com altos índices de modernidade e com grande riqueza cultural- como se se tratasse de uma antiga república bananeira, onde seus habitantes são insaciáveis em seus apetites sexuais, pouco sérios em tudo, dispostos a tirar vantagem daqueles que chegam para prendê-los entre suas garras.

Se a FIFA poderia ter se poupado de dar a dica ridícula aos turistas para que mantivessem a castidade durante o Mundial, a Alemanha poderia ter prescindido, entre sua longa lista de conselhos (alguns muito justos), de pedir aos torcedores que não acompanhem uma prostituta “a um hotel escolhido por ela”.

Os brasileiros têm todo o direito de exigir dos seus governantes uma política mais eficaz contra uma violência que tem uma safra anual de 50.000 vidas perdidas por armas de fogo. E são os políticos, em boa parte, os responsáveis pelo Brasil ser visto desde fora como um país em guerra, de terceiro mundo, onde não se pode fiar de ninguém.

A diplomacia alemã talvez exagere em criar um pouco de paranoia aos que virão à Copa, mas o que a diplomacia brasileira fez para que lá fora os brasileiros, em realidade, sejam vistos como pessoas de paz, acolhedoras, capazes de ser felizes com menos que muitos outros privilegiados?

O Brasil não é um país em guerra nem com vocação guerreira, mas é difícil fazer os estrangeiros entenderem isso, quando a chancelaria deste país é conivente com países como Irã, Venezuela ou Cuba ou não protesta contra as ameaças do presidente de Rússia à paz mundial, com seus planos de intervir na Ucrânia, se abstendo de condenar esses aventureiros bélicos.

A cada um o que lhe compete.

A dificuldade dos brasileiros em aceitar críticas

Tim Vickery
BBC Brasil

Brasileiros terão que conviver com as opiniões de estrangeiros sobre o país após a Copa


Um dos destaques da TV aberta no Brasil atualmente é um programa chamado O Mundo Segundo os Brasileiros. Toda semana, o programa explora algum lugar do mundo do ponto de vista dos brasileiros que estão vivendo por lá. Ali eles têm a chance de contar suas histórias.

O programa é uma oportunidade para aprender muitas coisas sobre as atrações turísticas do lugar e sobre como é o dia a dia por lá, enquanto também revela muito sobre a perspectiva daqueles brasileiros que estão apresentando o local.

Em menos de dois meses, o processo irá se reverter. Pessoas de 31 nacionalidades diferentes (além de inúmeros outros "neutros") estarão acompanhando suas seleções pelo país como parte de uma experiência gigantesca e fascinante.

O produto final - assim como o troféu levantado no Maracanã no dia 13 de julho, após a final - será um O Brasil segundo o mundo - um programa que não será transmitido de uma vez em termos definitivos, mas que será transmitido nas TVs, nas rádios, nas mídias sociais e nas conversas por um sem-número de bares, cafés, restaurantes, de Sidney a Seul.

O resultado será inevitavelmente diverso, porque as pessoas que estarão fazendo o julgamento são diferentes. Esse, com certeza, é o momento apropriado para acabar com as visões infantis de um mundo "dualizado", dividido entre os "brasileiros daqui" e os "gringos de fora".

Todos os tipos da diversidade humana estarão nas ruas de 12 cidades brasileiras. É o tempo de abraçá-las. Mas abraçá-las significa aceitar uma ampla gama de opiniões diversas, e não apenas o que soar mais confortável aos ouvidos.

Os ataques e abusos recentes contra o jornalista dinamarquês Mikkel Jensen não são um sinal promissor. Ele desistiu de cobrir a Copa do Mundo depois de aprender português, viver um tempo no país e chegar à conclusão de que ele não se sentia mais confortável para fazer parte do evento.

Ele decidiu que a Copa de 2014 não estava cumprindo seu potencial social - talvez ele pensou que o torneio estava até piorando a situação nesse aspecto - e então ele foi embora para casa.

Nós podemos não concordar totalmente com a conclusão que ele tirou e com a atitude que ele tomou - apesar de eu pensar que muitos de nós que têm algum contato com esses megaeventos acabam ficando com um peso na consciência de alguma forma.

Mas o que é indiscutível é que ele tem o direito de ter sua opinião - especialmente, no caso dele, depois do tempo que ele passou observando, aprendendo e ponderando.

Jensen parece ter o melhor interesse da maioria da população brasileira no coração - seu post de despedida no Facebook fala sobre o contato que ele teve com crianças de rua em Fortaleza.

E ainda assim, muitos por aqui tentaram apresentá-lo como um "inimigo do Brasil", outra voz arrogante do rico colonialismo europeu olhando de nariz empinado para o Terceiro Mundo.

Mas há alguns pontos a serem considerados aqui. O primeiro é óbvio: as pessoas não são necessariamente ou mesmo geralmente, meros porta-vozes de sua terra nativa.

Segundo, o grande império dinamarquês não passou para a história como um dos mais tiranos e tem pouca relevância para qualquer debate sobre o Brasil.

E terceiro, milhões de brasileiros são eles próprios descendentes de europeus. Então eles também carregam consigo os pecados do colonialismo do passado? Ou nós estaríamos vendo, na verdade, o exagero de uma perversa "cultura da vítima".

Muitos brasileiros por si só parecem ter chegado à conclusão de que eles prefeririam não sediar a Copa do Mundo, que o evento está fazendo mais mal do que bem. Por que um jornalista dinamarquês não pode ter a mesma opinião?

O caso de Mikkel Jensen é um dos primeiros de muitos. Nos próximos meses, visitantes de muitos outros lugares diferentes formarão suas opiniões a respeito do Brasil - muitos deles sem investirem o mesmo tempo e fazerem o mesmo esforço que Jensen fez.

Algumas dessas opiniões podem não valer nada. Outras merecerão pelo menos uma reflexão. Algumas podem ser bastante ofensivas. Todas fazem parte do processo pelo qual o Brasil escolheu passar: o de ser anfitrião para o mundo inteiro.

Os 20 anos que passei aqui me levaram à concluir que a única relação madura possível com o Brasil é uma de amor e ódio.

Conforme o planeta começa a conhecer o país melhor como conseqüência da Copa, parece-me que alguns dos simples mitos sobre o Brasil, tanto os bons quanto os ruins, podem dar lugar a visões mais elaboradas sobre os pontos positivos e negativos do país.

Seria legal se as muitas versões do Brasil Segundo o Mundo pudessem homenagear a capacidade dos brasileiros a tolerar opiniões de pessoas que têm perspectivas diferentes, mesmo que ouvi-las pode às vezes machucá-los por dentro.


Enredo patético

Rogério Furquim Werneck
O Globo

Alarmante agravamento da crise energética parece trama de filme catástrofe

A forma inconsequente com que o governo se vem permitindo conduzir a crise energética parece extraída de um patético enredo de filme-catástrofe.

Há várias décadas Hollywood vem despejando no mercado cinematográfico um fluxo interminável de filmes-catástrofe. O gênero é mais do que conhecido. Dispensa definição mais precisa. Quase tudo é de qualidade lamentável, mas os muitos casos de sucesso espetacular de bilheteria mostram que, mundo afora, há grande demanda por cinema-catástrofe. E tudo indica que a demanda vem crescendo, na esteira das inovações tecnológicas que têm possibilitado efeitos especiais cada vez mais convincentes.

O gênero inclui dois tipos de filme. De um lado, há os que versam sobre catástrofes inevitáveis, como terremotos, tsunamis, deslizamentos de montanhas e colisões de corpos celestes com a Terra. De outro, os que tratam de catástrofes perfeitamente evitáveis que, no entanto, acabam ocorrendo, devido a erros humanos. São esses que aqui merecem atenção.

Filmes desse tipo costumam apelar para um mesmo truque para prender a atenção da plateia. O espectador sabe perfeitamente que a catástrofe pode ser evitada. E, com alguma aflição, acompanha uma trama em que a insensatez acaba prevalecendo. O que muda de filme para filme, além da catástrofe específica, é a natureza da inconsequência imediatista dessa insensatez. Pode ser um prefeito que não quer estragar o pico da temporada de praia, como em “Tubarão”; ou um empresário que se recusa a adiar a inauguração de uma torre de 140 andares, feericamente iluminada, mesmo tendo sido informado de que as instalações elétricas haviam sido feitas com material subdimensionado, como em “Inferno na torre”; ou, ainda, um dono de companhia de navegação que, fixado na repercussão da quebra do recorde de travessia do Atlântico Norte, força o capitão de um transatlântico em viagem inaugural a manter as máquinas a pleno vapor numa região de alta incidência de icebergs, como em “Titanic”.

Na gestão da crise energética, assiste-se agora ao desenrolar de uma trama similar. Mas em clima incomparavelmente mais dramático, porque não se trata de ficção, mas da dura realidade. A sinopse é bastante simples. Uma presidente, em campanha para se reeleger, tenta a todo custo evitar que o eleitorado perceba a extensão da precariedade da oferta de energia elétrica com que conta o país.

Esse quadro tão grave poderia ter sido evitado se, há meses, o governo tivesse deflagrado estímulos à conservação de energia. Mas, tendo feito e desfeito o que bem entendeu no setor elétrico por mais de uma década, a presidente recusou-se a incorrer no custo político de reconhecer que havia um problema de insuficiência de oferta de energia a enfrentar. Muito pelo contrário, continuou insistindo em ruinosa escalada de subsídios ao consumo de energia elétrica. E apostou todas as fichas na possibilidade de que os níveis dos reservatórios das usinas hidrelétricas se recuperassem com as chuvas do verão.

Com o encerramento da estação chuvosa, neste fim de abril, já não há mais espaço para ilusões sobre o desfecho de tal aposta. Os especialistas mais conceituados da área já estimam em quase 50% a probabilidade de que um racionamento de energia elétrica se torne inevitável. Sugerem que o mais prudente seria o anúncio de um racionamento já em maio. E alertam que, quanto mais tarde for anunciado, mais profundo, prolongado e custoso terá de ser o racionamento. (Ver entrevista recente de Mario Veiga Pereira em http://zip.net/bsncp8)

A cinco meses das eleições, a presidente considera tal proposta impensável. Prefere redobrar a aposta na sorte. E, nesse quadro, o que os especialistas mais temem é que o governo parta para o que rotulam de estratégia camicase: simplesmente deixar que os reservatórios se esvaziem — até 10% da capacidade, se necessário — e que a bomba estoure depois de outubro.

Na verdade, o que o país está presenciando nessa área é a alarmante filmagem de um documentário-catástrofe.

A disputa de poder no PT expõe um racha inédito na história do partido

Daniel Pereira e Adriano Ceolin
Veja online

Reportagem de VEJA desta semana mostra que Intrigas, ameaças, traições e corrupção podem colocar em risco a reeleição da presidente Dilma Rousseff

 (Roberto Castro)
A queda de popularidade de Dilma nas pesquisas tira o PT do prumo 

A presidente Dilma Rousseff enfrenta um momento inédito de fragilidade. Além de ter problemas na economia, como o crescimento baixo, a inflação persistente e o desmantelamento do setor elétrico, ela perdeu apoio popular e força para barrar, no Congresso, iniciativas capazes de desgastá-la. A aprovação ao governo caiu a um nível que, segundo os especialistas, ameaça a reeleição. Partidos aliados suspenderam as negociações para apoiá-la na corrida eleitoral. Já os oposicionistas conseguiram na Justiça o direito de instalar uma CPI para investigar exclusivamente a Petrobras. Acuada, Dilma precisa mais do que nunca da ajuda do PT, mas essa ajuda lhe é negada. Aproveitando-se da conjuntura desfavorável à mandatária, poderosas alas petistas pregam a candidatura de Lula ao Planalto e conspiram contra a presidente. O objetivo é claro: retomar poderes e orçamentos que foram retirados delas pela própria Dilma. A seis meses da eleição, o PT está rachado entre lulistas e dilmistas — e, para os companheiros mais pragmáticos, essa divisão, e não os rivais Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB), representa a maior ameaça ao projeto de poder do partido.     

Com carreira política construída na resistência à ditadura militar e posteriormente no PDT, Dilma nunca teve alma petista. Ao assumir a Presidência, ela herdou boa parte da cúpula do governo Lula, como ministros, dirigentes de estatais e até a então chefe do escritório da Presidência em São Paulo, Rosemary Noronha. O governo era de continuidade mesmo nos nomes escalados para comandar o país. O plano de Dilma era dar uma feição própria à sua gestão de forma gradativa, reduzindo a influência do antecessor ao longo do tempo. Antonio Palocci, seu primeiro chefe da Casa Civil, ilustrou a estratégia: “No primeiro ano de mandato, será um governo Lula-Dilma. No segundo, um governo Dilma-Lula. No terceiro, será Dilma-Dilma”. Esse cronograma, no entanto, foi atropelado pelos fatos. Já em 2011 a presidente foi obrigada a demitir seis ministros acusados de corrupção e tráfico de influência — quatro deles egressos do governo anterior. Dilma se mostrava intransigente com os malfeitos, ao contrário de Lula, acostumado a defender políticos pilhados em irregularidades. Com a chamada faxina ética, ela atingiu recordes de popularidade e conseguiu força para tirar das mãos de notórios esquemas partidários setores estratégicos da administração. Nem mesmo o PT foi poupado nessa ofensiva.

O partido perdeu terreno em fundos de pensão e na Petrobras, que teve sua diretoria reformulada em 2012. A faxina ética era acompanhada da profissionalização da gestão. Com essas mudanças, muitos petistas estrelados, como o mensaleiro preso José Dirceu, perderam influência. Havia um distanciamento crescente entre a presidente e a engrenagem partidária, mas Lula mantinha o PT unido e silencioso. Ele alegava que a “mídia conservadora” — ao exaltar as demissões promovidas pela sucessora, com o intuito claro de atacá-lo — ajudava Dilma a conquistar eleitores que historicamente tinham aversão ao PT. Ou seja: a comparação entre os dois beneficiava o partido. Se alguns petistas registravam prejuízos em casos isolados, o conjunto estava sendo fortalecido. Esse discurso manteve a companheirada sob controle até 2013, quando a popularidade da presidente despencou devido à inflação e às manifestações populares de junho. Petistas, então, passaram a criticar Dilma, conspirar contra ela no Congresso e defender a candidatura de Lula. A cizânia interna se desenhava, mas ainda era incipiente e restrita aos bastidores. Esse dique foi rompido pelo escândalo da Petrobras.

Hoje, o PT testemunha uma batalha pública e cruenta entre a soldadesca dos dois presidentes. Palocci não previu, mas o último ano de mandato também tem seu epíteto: governo Dilma versus Lula. 

Os dois lados de um mesmo problema 


"Se alguns setores, seja por que motivo for, instilarem desconfiança, especialmente desconfiança injustificada, isso é muito ruim. A guerra psicológica pode inibir investimentos e retardar iniciativas." - Presidente Dilma Rousseff

"Hoje você tem um problema, que é: o povo quer mais. Poderíamos estar melhor. E a Dilma vai ter de dizer isto claramente na campanha: como vamos melhorar a economia brasileira."- Ex-presidente Lula

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As irregularidades na compra da refinaria 


"O que a presidente fez foi revelar, com a verdade, com a transparência, com a humildade de quem reconhece que houve uma falha, os erros que aconteceram."- Graça Foster, presidente da Petrobras

"Não posso fugir da minha responsabilidade, do mesmo jeito que a presidente Dilma não pode fugir da responsabilidade dela, que era presidente do conselho. Nós somos responsáveis pelas nossas decisões. " Sergio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras

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O envolvimento com o crime organizado 


"Eu continuo achando que a melhor solução é que o companheiro André Vargas deveria renunciar. Mas essa é uma decisão personalíssima, a gente não pode votar isso."- Rui Falcão, presidente do PT

"A direção do nosso partido é mais valente com os seus que cometem equívocos do que com a oposição. Fui vítima de vazamentos seletivos e criminosos. " - André Vargas, deputado do PT

Os gastos sigilosos do governo

Izabelle Torres 
Revista ISTOÉ

Para dificultar a fiscalização, despesas confidenciais com cartões corporativos têm aumentado desde a gestão de Lula. No gabinete de Dilma, 98% do que é comprado está sob sigilo. Na Esplanada dos Ministérios, 54%

O governo vem dificultando, nos últimos anos, a transparência e a fiscalização de seus gastos. As despesas sigilosas realizadas com cartões corporativos desde 2007, quando começou o segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, eram de 20,9% do total. Na gestão de Dilma Rousseff o percentual do sigilo do governo mais que dobrou, superando a marca dos 50% de tudo o que é gasto anualmente por todos os ministérios. Na rubrica de confidenciais estão os serviços pagos pela Agência Brasileira de Inteligência, pela Polícia Federal e, principalmente, pelo gabinete pessoal da Presidência da República, que decretou sigilo em mais de 98% das compras realizadas.  

A prerrogativa de manter em segredo informações do Poder Público é exclusiva para casos em que a publicidade dos dados coloque em risco a segurança nacional. Entretanto, desde que assumiu o poder, praticamente todas as despesas com  diárias, compras de mantimentos, roupas e locomoção realizadas para Dilma Rousseff estão protegidas. No primeiro bimestre deste ano, os registros de gastos não divulgados com cartões corporativos do seu gabinete aumentaram  33% em relação ao mesmo período do ano passado, enquanto a despesa geral de todo o governo subiu apenas 4,5%, um percentual compatível com a inflação do período.


O antecessor de Dilma, o ex-presidente Lula, tornou-se adepto do sigilo depois que seu governo foi denunciado, em 2008, pelo uso indevido que ministros e funcionários faziam dos cartões. Antes das denúncias, Lula mantinha a média de 82% das suas despesas em caráter sigiloso. Foi aumentando a partir de 2009 e atingiu 99% em 2010, patamar médio que foi mantido pelo gabinete de Dilma desde então. Hoje, 98,5% das despesas feitas pelo seu gabinete estão protegidas. Em 2013, 2012 e 2011 o índice das despesas protegidas efetuadas pelo gabinete da presidenta ficou em 99%.

Considerando tudo o que foi gasto pela Esplanada dos Ministérios nos dois primeiros meses deste ano, um total de R$ 6,9 milhões, 54%, ou R$ 3,8 milhões, levaram a rubrica de sigiloso. No ano passado, o percentual de confidencialidade dos gastos do governo todo com os cartões corporativos foi de 44,6%. Em 2010, quando Lula iniciou seu último ano de mandato, o percentual de segredo das despesas com os cartões foi de 39,6%, mesmo depois da queda de ministros e do desgaste sofrido com uma CPI dois anos antes. A CPI, na ocasião, expôs as fragilidades na fiscalização dos órgãos de controle. O governo petista chegou a prometer a órgãos como TCU e Ministério Público que disciplinaria esses gastos. Entretanto, uma análise sobre prestação de contas desses cartões desde então mostra que o que houve foi apenas a migração dos gastos públicos para a rubrica de sigiloso.


Outra estratégia foi a redução do número e do poder dos ecônomos, nome técnico dos funcionários autorizados a realizar despesas com cartões corporativos. No primeiro mandato de Lula, eram 22 pessoas no gabinete presidencial aptas a fazer compras em nome do presidente. No ano seguinte esse número subiu para 36, mas foi caindo gradativamente, até que apenas quatro funcionários permaneceram com a prerrogativa. A redução do número de ecônomos foi inversamente proporcional aos registros de gastos sigilosos. Não por acaso. Depois da CPI dos cartões corporativos, os nomes desses funcionários se tornaram conhecidos e seus CPFs passaram a constar no sistema da Controladoria-Geral da União junto aos detalhes das compras realizadas. 

A consequência disso pode ser notada nas contas da gestão de Dilma Rousseff deste ano. Os ordenadores de despesas realizaram até agora apenas compras irrelevantes, a maioria inferior a R$ 200. Grande parte dos gastos tornados públicos foi realizada em postos de gasolina. As despesas relevantes – R$ 1.013.459,93 do R$ 1.027.432,09 gasto pela Presidência da República – não são conhecidas por estarem cobertas pelo sigilo. 

Para corrigir erros de Dilma, PT sugere Rousseff

Josias de Souza


No livro de Cameron Crowe sobre suas conversas com Billy Wilder, ele enumerou os dez mandamentos do seu  interlocutor para os roteiristas de cinema. O sexto mandamento é um convite à autocrítica: ‘If you have a problem with the third act, the real problem is in the first act’. Ou: “Se você está tendo problemas com o terceiro ato, o verdadeiro problema está no primeiro ato”.

Pois bem. No próximo final de semana, dias 2 e 3 de maio, o PT realiza em São Paulo um encontro nacional para aprovar as diretrizes do programa de governo da recandidata Dilma Rousseff. A peça está sendo preparada por Marco Aurélio Garcia, o mesmo redator dos programas de 2006 e de 2010. O mote do documento é um paradoxo: “continuidade com mudança.”

Ou seja: Dilma será vendida pelo marketing da campanha de 2014 como a pessoa mais indicada para corrigir os erros de Rousseff. Ou vice-versa. As pesquisas já haviam informado que, na visão dos brasileiros, a gestão de Dilma desanda desde o terceiro ato. O desejo de mudança já roda na casa dos 70%. Pela fórmula de Wilder, o verdadeiro problema de Dilma está no primeiro ato. Chama-se Lula.

A lista preparada por Crowe traz um conselho extra de Wilder, um 11º mandamento: “That’s it. Don’t hang around”. Algo assim: ‘Pronto. Dê o fora’. Dito de outro modo: saiba identificar o momento exato de terminar o seu filme, não deixe passar do ponto. Em 2010, Lula trombeteou Dilma como a mulher-maravilha. E permaneceu no palco, tutelando a pseudogerente. Esqueceu de dar o fora.

Lula e Dilma participarão da abertura da pajelança petista, na próxima sexta-feira (2). Ambos irão ao microfone. Ele, para espantar o “volta, Lula”. Vamos e venhamos: como poderia voltar alguém que nunca foi?. Ela, para dizer à plateia, com outras palavras, algo assim: nunca digas desta água não beberei mais. Ferve antes e engole por pelo menos mais quatro anos.

Antes de seguir para o encontro do PT, Dilma talvez telefone para Lula. Como ele anda irritado com ela, não atenderá na primeira ligação. Quando a presidente estiver quase saindo do hotel, finalmente, virá o telefonema com a instrução: “use aquele vermelhinho”. Dilma trocará o terninho verde, colocará o recomendado e irá à luta.

Nos dias subsequentes, bastará seguir o que for determinado, nos seus mínimos detalhes, para triunfar em outubro. Além de dizer diariamente como Dilma deve escovar os dentes, Lula passará instruções mais específicas. Por exemplo: para controlar a CPI, não mexa com o homem do Renan Calheiros na Transpetro. Ou ainda: se a economia se desmantelar um pouco mais, se a inflação estourar a meta, jogue o Guido Mantega ao mar.

Dilma às vezes faz cara feia, especialmente quando o padrinho lhe torce as orelhas. Mas já aprendeu: no PT, deixar tudo nas mãos de Lula corresponde a entregar tudo para Deus. Dilma é a prova de que a entidade não é infalível. Mas, que diabo, todo mundo merece uma nova chance. Com mais dois mandatos, o PT aproximará o Brasil da perfeição em 2022. Com mais quatro, levará o brasileiro à felicidade perpétua em 2030.

Combinar as mentiras

Celso Ming  
O Estado de S.Paulo

Quando era embaixador do Brasil em Londres, durante o governo Geisel, Roberto Campos recebeu em seu gabinete o então embaixador do Brasil em Paris, o ex-ministro Delfim Netto. A imprensa quis saber o que afinal os dois campeões da economia do governo militar tinham tratado. "Apenas combinamos nossas mentiras para que a gente fale a mesma coisa", disse o embaixador, em meio a gostosas gargalhadas.

No dia 8 de abril, o ex-presidente Lula sentenciou que "o governo não pode admitir as mentiras sobre a Petrobrás; tem de ir pra cima". E concluiu: "Temos de defender os fatos que acreditamos serem verdadeiros". Mas Lula não se atreveu a adiantar os fatos verdadeiros em que acredita, talvez porque ninguém da turma fale coisa com coisa. São depoimentos e orientações contraditórios, feitos por pessoas que ocupam cargos do mesmo governo e que partilham a mesma estrela vermelha do PT.

No caso da Refinaria de Pasadena, o governo não consegue combinar nem verdades nem mentiras. A presidente Dilma disse, por escrito, que, se o Conselho de Administração que ela presidia em 2006 conhecesse todas as cláusulas do contrato, não o teria aprovado. Ou seja, para a presidente Dilma, já naquela época, a compra foi lesiva à Petrobrás.

No entanto, o então diretor da Área Internacional, Nestor Cerveró, disse dia 16 de abril, no Congresso, que essas cláusulas "são irrelevantes". Se são irrelevantes, poderiam não figurar no contrato. E, no entanto, foram responsáveis pelos prejuízos seguintes.

A atual presidente da Petrobrás, Graça Foster, foi clara, também em depoimento no Congresso: "A compra de Pasadena não foi um bom negócio". Mas o então presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli, disse há cinco dias que, à época, o negócio parecia bom, depois deixou de ser e agora voltou a ser.

São declarações que, decididamente, não combinam entre si e não explicam por que o mesmo ativo, que o grupo belga Astra comprou por US$ 360 milhões (segundo outras versões, foi por apenas US$ 42,5 milhões) saiu para a Petrobrás por US$ 1,25 bilhão.

O rombo do setor energético é outra caixa-preta de proporções avassaladoras. No dia 13 de março, o ministro Guido Mantega garantia que a conta extra da energia elétrica em consequência de graves erros estratégicos do governo e também da falta de chuvas não passava de R$ 12 bilhões. O Tesouro arcaria com uma despesa adicional de R$ 4 bilhões, além dos R$ 8 bilhões já previstos no Orçamento da União; e a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) se encarregaria de contratar empréstimos de R$ 8 bilhões a serem repassados às concessionárias e que, depois, cobrariam dos consumidores.

Em semanas, esse empréstimo, fechado em condições técnicas pouco claras, saltou para R$ 11,2 bilhões. Foi imposto não só aos bancos, mas, também, à própria CCEE. Quarta-feira, três dos cinco membros do Conselho de Administração da CCEE pediram demissão. Eles reprovam a operação porque temem o calote. Foi mais um ato de rebeldia dos que espocam dentro da burocracia federal. (Outra rebeldia é a do pessoal do IBGE.)

Se essas coisas acontecem na área energética que a presidente Dilma garante entender a fundo, imagine-se o que não deve acontecer nas áreas que ela entende menos.

Deficit do Brasil nas transações com o exterior deve ser o 2º maior do mundo

Folha de São Paulo

O Brasil acumulará um deficit de US$ 80 bilhões nas transações de bens e serviços com o resto do mundo neste ano, segundo projeção divulgada hoje pelo Banco Central.

Nos cálculos do FMI (Fundo Monetário Internacional), o deficit brasileiro, em valores absolutos, deve ultrapassar o do Reino Unido e se tornar o segundo mais alto do mundo, atrás apenas do norte-americano.
O deficit significa que o país gasta mais do que recebe no conjunto de suas operações de comércio, turismo, pagamentos de juros, remessas de lucros de multinacionais e serviços em geral.

Essa diferença deve ser coberta pela atração de capital externo, na forma de empréstimos, investimentos e aplicações financeiras -do contrário, o país perderá reservas em moeda estrangeira.

O Brasil é deficitário porque a população e o governo poupam pouco. Como os gastos brasileiros superam a produção nacional, é preciso recorrer à poupança de estrangeiros.

Em termos relativos, o deficit do país é o terceiro maior entre as principais economias do mundo, reunidas no G-20. Equivale a 3,6% do Produto Interno Bruto, ou seja, da renda nacional.

As situações mais graves são as da Turquia (6,3% do PIB) e da África do Sul (5,4%), países incluídos pelo mercado na lista dos mais vulneráveis a turbulências financeiras -na qual ainda estão, além do Brasil, as também deficitárias Índia e Indonésia.

Deficits nas contas externas provocam crises quando falta capital para cobrir o rombo. Os EUA foram forçados a reduzir seu deficit de US$ 700 bilhões para US$ 400 bilhões de 2007 para cá (de 4,9% para 2,2% do PIB).

País tem rombo de US$ 25 bilhões no trimestre, o maior desde 1970

Eduardo Rodrigues e Victor Martins
Agência Estado

Antes, o maior déficit nas contas externas havia sido registrado no primeiro período de 2013, quando somou US$ 24,7 bilhões

BRASÍLIA - As contas externas do País registraram um recorde negativo no 1º trimestre. O déficit em transações correntes somou US$ 25,186 bilhões no acumulado do trimestre, o maior da série histórica do Banco Central, iniciado em 1970. Antes, o maior rombo nas contas externas havia sido registrado no primeiro período de 2013, quando somou US$ 24,7 bilhões. Em março, o déficit foi de US$ 6,248 bilhões.   
As transações correntes fazem parte de uma conta maior, o Balanço de Pagamento, que representa a poupança do País. O BP teve saldo positivo de US$ 1,7 bilhão. Entenda mais sobre as contas externas do País.

O chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Tulio Maciel, avaliou que os resultados das contas externas de março ficaram próximos do esperado, sendo inferior aos déficits apurados de fevereiro deste ano e março do ano passado. "Em doze meses, esse déficit caiu. No trimestre ficou muito próximo do mesmo período do ano passado", afirmou.

Para Maciel, a reação lenta da balança comercial do primeiro trimestre fez o déficit aumentar nessa comparação. "O resultado comercial ficou abaixo do esperado nesse período em função dos preços desfavoráveis de produtos importantes da nossa pauta, que estão em patamar relativamente baixo, em especial os produtos agrícolas. A gente espera melhora da balança comercial ao longo do ano, porque os preços estão melhorando na margem", acrescentou.

Maciel destacou ainda uma mudança na conta de serviços, com destaque para os gastos com viagens internacionais. "Os gastos vinham crescendo de maneira expressiva em 2013, mas o primeiro trimestre de 2014 mostrou estabilidade em relação ao mesmo período de 2013", disse o economista. Segundo ele, a mudança está relacionada com a alta do câmbio. "O dólar mais alto desestimula essas viagens, isso influencia mais do que o crescimento da massa salarial", completou. 

O resultado de março ficou dentro do intervalo previsto, segundo levantamento daAgência Estado, que apontava déficit entre US$ 5,5 bilhões e US$ 8,100 bilhões, mas abaixo da mediana de US$ 6,400 bilhões.
De acordo com o BC, a conta de rendas ficou negativa em US$ 2,812 bilhões. A de serviços, negativa em US$ 3,658 bilhões. Essas saídas de recursos não puderam ser compensadas por um superávit comercial de apenas US$ 112 milhões no mês e por transferências unilaterais positivas em US$ 110 milhões.

No acumulado dos últimos 12 meses até março, o saldo está negativo em US$ 81,556 bilhões, o que representa 3,64% do PIB.

Investimento estrangeiro. 
Os Investimentos Estrangeiros Diretos (IED) somaram US$ 4,995 bilhões em março, abaixo dos US$ 5,739 bilhões registrados no mesmo período do ano passado. No acumulado de 2014, o IED soma US$ 14,171 bilhões (2,65% do PIB). No mesmo período do ano passado, o IED acumulado era de US$ 13,256 bilhões (2,47% o PIB). Em 12 meses até março, o IED está em US$ 64,961 bilhões, o que corresponde a 2,90% do PIB.

Ações. 
O Banco Central informou que o investimento estrangeiro em ações brasileiras, dentro e fora do País, ficou positivo em US$ 1,303 bilhão em março. No mesmo período do ano passado, estava positivo em US$ 1,850 bilhão. No acumulado do ano até março, o valor caiu de US$ 7,094 bilhões em 2013 para US$ 319 milhões em 2014.

O saldo para ações negociadas no País ficou positivo em US$ 1,310 bilhão em março e está positivo em US$ 317 milhões no acumulado de 2014. Em relação aos papéis negociados no exterior, o investimento estrangeiro ficou negativo em US$ 7 milhões no mês passado e está negativo em US$ 2 milhões no acumulado do ano.

Renda fixa. 
O saldo de investimento estrangeiro em títulos de renda fixa negociados no País ficou positivo em US$ 5,785 bilhões em março. No mesmo mês de 2013, o resultado havia sido positivo em US$ 1,448 bilhão.

No acumulado do ano, entraram no País US$ 11,643 bilhões para renda fixa, ante US$ 1,752 bilhões no mesmo período do ano passado. Em junho de 2013, o governo zerou o IOF sobre esse tipo de aplicação.

O investimento em títulos negociados no exterior ficou negativo em US$ 591 milhões em março. No mesmo período do ano passado, o saldo dessas aplicações ficou positivo em US$ 949 milhões. No acumulado do ano, o valor passou de positivo em US$ 260 milhões nos três primeiros meses de 2013 para negativo em US$ 598 milhões no mesmo período de 2014.

Lucros e dividendos. 
O saldo de remessas de lucros e dividendos ficou negativo em US$ 1,892 bilhões em março. As receitas (US$ 170 milhões) ficaram abaixo das remessas (US$ 2,062 bilhões) no mês passado. No mesmo período de 2013, o resultado foi uma saída líquida de US$ 2,732 bilhões. No acumulado de 2014, o saldo está negativo em US$ 5,677 bilhões, ante US$ 6,974 bilhões no mesmo período de 2013.

O BC informou ainda que as despesas líquidas com juros externos somaram US$ 949 milhões em março e US$ 3,526 bilhões no acumulado do ano. Em 2013, o gasto com juros totalizou US$ 811 milhões em março e US$ 3,146 bilhões nos primeiros três meses do ano.