terça-feira, abril 29, 2014

Indecências e canalhices

Adelson Elias Vasconcellos


Lula já havia desqualificado, de forma cretina e abjeta, o Poder Judiciário italiano, ao acolher sob argumentos falsos o assassino Cesare Battisti. E um Poder Judiciário que vigia sob um regime absolutamente democrático.

O mesmo Lula, dentre todas as imposturas que disparou ao longo do tempo, também afirmou que a Venezuela de Chavez tinha democracia até demais.

Durante seu governo, não foram poucas as vezes que Lula se indispôs contra decisões do Tribunal de Contas da União por ele apontar irregularidades variadas e graves em obras conduzidas pelo governo do petista.

 Ora, para alguém que se considera acima da lei, que se coloca num pedestal que não admite sequer críticas, que só aceita o elogio fácil, que tentou cercear o Ministério Público e a imprensa, contestar decisões da suprema corte brasileira não é de todo estranho, não. Um presidente que fez questão de aproximar o Brasil de ditaduras sanguinárias, que sempre se espelhou em beijar a mão de outro ditador, Fidel Castro, que sempre se indispôs aos interesses do país que governava para apoiar até com dinheiro público regimes totalitários, deste personagem não poderíamos mesmo esperar que aceitasse a decisão do STF sobre algumas cabeças coroadas de seu partido no julgamento do mensalão.

Lula não tem autoridade moral nem para contestar o julgamento, tampouco para no exterior falar mal de uma das instituições pilares do regime democrático.  Não tem caráter nem competência para julgar os atos de um colegiado, cuja maioria de seus integrantes foi nomeada por ele e por Dilma Rousseff. 

Se, de fato, o julgamento tivesse ocorrido da forma como Lula tenta, cinicamente, fazer crer, e certamente ele, juntamente como todos os outros, também teria se sentado no banco dos réus. 

Cito quatro pontos que justiçariam tal condição de Lula ser julgado na ação penal:

1) O acordo com o PL de Waldemar Costa Neto foi costurado em presença de Lula. Esta história de que, na hora do acerto final, o ex se retirou para o quarto ao lado, é conversa mole. 

2) Em diferentes épocas e por diferentes mensageiros, Lula foi avisado sobre a existência do mensalão, bem antes do escândalo vir a público. Nada fez. Preferiu ignorar os fatos, fazer vista grossa para algo tão grave.

3) Sua campanha política foi paga em conta no exterior, com recursos não contabilizados. E sobre isto Lula nunca disse um “a”.

4) Todo o esquema era dirigido para beneficiar uma única pessoa: o próprio Lula. Dirceu, à época, disse para quem quisesse ouvir, que nada do que foi feito, o fora sem conhecimento e consentimento do chefe. 

Lançar, como fez, suspeita sobre a imparcialidade de juízes do Supremo Tribunal Federal é algo bem do feitio de sujeito imbuído de muita fé, de mau caráter e má índole.  Nossos juízes podem até errar em seu julgamentos, em suas leituras dos fatos quando confrontados com a lei. Contudo, são pessoas ali colocadas de forma legítima, de acordo com os preceitos constitucionais, e ninguém, nem Lula, pode negar-lhes o adequado saber jurídico. Ou será que Lula imaginava que, pelo fato de ter nomeado alguns, estes dever-lhe-iam obediência cega,   submetendo suas decisões, não às leis, e sim à vontade e aos caprichos do canalha que os nomeou?

Só pelo dever de informação, o blog se impõe noticiar a entrevista mau caráter concedida pelo ex em exercício à televisão portuguesa. São tantas as incongruências, as mistificações, as mentiras que chega ser ridículo levar-se a sério tantos disparates. 

Sobre a afirmação tresloucada e abominável de que o tal ex não confia nos condenados petistas que estão presos cabe um comentário. Ao afirmar que não confia nos mensaleiros petistas presos, permite que Dirceu, Delúbio e Genoíno considerem no íntimo:: com um amigo como Lula, ninguém precisa de inimigo. E  saber que, somente o silêncio dos amigos leiais, é que evitou Lula sentar no banco dos réus!!!!  

Que Lula comentasse aqui dentro do Brasil o que disse à televisão portuguesa, já seria um despropósito completo para quem ocupou a presidência da república. Dizê-lo lá fora, mostra sua cegueira completa e desrespeito total às instituições democráticas do país que governou. 

Infelizmente, não há verniz que sirva para ocultar a verdadeira índole de certos personagens. Lula é um deles. Mesmo tendo viajado muito, mesmo tendo as luzes do conhecimento ao seu alcance, mesmo tendo mantido relações com pessoas de todas as origens e condições sócio-econômicas, nada disso foi suficiente para aprimorar o caráter de Lula. Continua tão bestial como sempre. E pior: agora nem a pobreza pode servir de escudo para justificar o seu mau caráter.  Os anos estão tornando o ex numa pessoa abjeta. Lula jamais entenderá a essência do que seja uma democracia. 

A higienização do governo do Acre
O governo federal é petista, assim como o Ministério da Justiça e o governo do Acre estão nas mãos de petistas. A questão dos imigrantes haitianos não é assunto novo. Várias reportagens foram aqui reproduzidas sobre a situação precária em que se encontravam no Acre.

Se as cheias que se abateram naquele estado tornaram insustentável manter os imigrantes lá acampados, por conta do que o governador do Acre não pediu ajuda federal?

Fazer o que fez o senhor Tião Viana é não apenas desumano para com os haitianos, mas verdadeira canalhice para com o estado de São Paulo e sua capital, cujo prefeito é o petista Fernando Haddad. Embarcar os imigrantes e despachá-los para a capital paulista, sem nem ao menos avisar o seu colega, e depois ainda chamar a gente do sul de “elitistas” é coisa própria de um canalha.

Houve tempo no Brasil em que alguns prefeitos, às vésperas de receberem visitantes ilustres, fossem nacionais ou estrangeiros, tratavam de esconder seus moradores de rua em abrigos improvisados. O que o governador do Acre fez foi algo nesta linha. Tratou-se de “higienizar” seu estado, livrando-nos de maneira cafajeste seres indesejados. Ação deplorável.

O raio é que nem o Ministério da Justiça tampouco a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República se manifestaram até agora sobre este procedimento desonroso. E não é primeira vez que se denuncia que o Brasil não tem um programa de recepção adequada de imigrantes.  Vão esperar até quando? 

O silêncio da senhora Rousseff vai linha daquilo que tem sido a marca de seu governo: mediocridade. Simples nada fez nem antes, nem agora, e sequer tomou providências para contornar a aflitiva situação que agora se criou. Ah se o governo daquele estado fosse exercido por alguém da oposição? Seria execrado em praça pública e denunciado à ONU, OEA, UNASUL, ou qualquer outro organismo internacional.  

A casa não pode cair

J. R. Guzzo
Revista  VEJA

Todo brasileiro de olhos abertos para o que está acontecendo no país em geral, e na sua própria vida em particular, sabe muito bem que a coisa está preta. Há mil e uma razões para isso, como se pode verificar todos os dias pelo noticiário; seria pretensioso, além de inútil, tentar fazer uma lista de todas. Basta dizer, para encurtar o assunto, que, segundo as últimas pesquisas de opinião, mais de 70% da população acha que assim não vai, e quer mudanças na ação do governo como um todo. Será que os brasileiros, finalmente, se convenceram de que estão sendo dirigidos por um dos governos mais incompetentes que já tiveram de aguentar – ou, possivelmente, o mais incompetente de todos?

Mais interessante ainda: a propaganda descomunal que o poder público soca todos os dias em cima da população e o uso sistemático da mentira talvez já não estejam dando os resultados que costumam dar. A presidente Dilma Rousseff, por exemplo, ameaça combater a corrupção na Petrobras, mas diz que os “inimigos da empresa” são os que sugeriram mudar seu nome para “Petrobrax”, cerca de quinze anos atrás, com a intenção secreta de liquidá-la – e, ao mesmo tempo, faz tudo para impedir que se investigue a roubalheira pública de hoje. Quanta gente acredita num desvario desses? Tudo bem. O Brasil está em petição de miséria, e o presente já é um caso perdido. A pergunta, agora, é a seguinte: as coisas vão mudar para melhor depois da eleição presidencial de outubro ou vão ficar piores ainda?

Vão ficar piores, com certeza, se o Brasil não sair da armadilha que o governo, o PT e o ex-presidente Lula montaram: eles têm de ganhar todas, pois não podem mais admitir a alternância de poder. Se admitirem, a casa cai, e a casa não pode cair – pois os que mandam no país não conseguem mais viver fora do governo. Manter-se no poder todo mundo quer, nas melhores democracias do mundo. O problema atual do Brasil é que o PT não apenas quer continuar: precisa continuar, pois, se sair, o mundo de privilégio que construiu para si próprio nos últimos onze anos vai direto para o espaço. É essa ansiedade, e nada mais, que acaba de trazer Lula para dentro da campanha eleitoral – se Dilma continuar caindo nas pesquisas, é pouco provável que ele próprio e seu partido digam “que pena”, e fiquem só olhando o desastre acontecer na sua frente.

Aí, para não perderem a situação de proprietários privados do Brasil que conseguiram obter de 2003 para cá, tudo passa a valer: a presidente pode ser desembarcada sem maior cerimônia do seu posto de candidata à reeleição, e Lula entraria na disputa para salvar a pele de todos. Como explicar essa deposição de Dilma para o público? Inventa-se uma história qualquer – esse tipo de coisa jamais foi problema para Lula, um artista em escapar das situações mais sinistras sem explicar nada. A companheirada, por sua vez, dirá que lamenta – mas que a volta de Lula é essencial para salvar o “projeto do PT”, caso ele esteja ameaçado de “destruição” pela “direita”, pela “grande mídia”, pelos que “não se conformam” com a vitória da classe operária etc. Se a oposição ganhar, dizem, será a “volta da ditadura” – e não é possível permitir tal crime.

“Projeto do PT”? Que diabo seria isso? Nada mais simples: o projeto do PT é não ter projeto nenhum. Em vez de trabalhar para construir um Brasil mais justo, confortável e promissor para os brasileiros, todo o esforço do partido se concentra em não largar o osso do governo. Não se trata de desejo: é necessidade. O que muda, se saírem, não é nada que tenha a ver com ideias, princípios ou valores; o que muda, no duro, é a sua vida material. Vão-se embora os 20 000 altos empregos que têm no governo federal. Vão-se embora as oportunidades ilimitadas de negócios com o poder público. Vão-se embora as Pasadenas, os mensalões, a compra de certas empresas de videogames por empreiteiras de obras, na base dos 10 milhões de reais. Ficam as fortunas criadas nos porões da Petrobras. Ficam as rosemarys, os youssefs e milhares de outros como eles. Ficam o caviar de Roseana Sarney, os jatinhos, os planos médicos milionários. Ficam as diárias de hotel a 8 000 euros. Fica um STF obediente. Mais que tudo, fica garantida a impunidade.

O PT, como observou há pouco o ex-deputado Fernando Gabeira, é um partido que se baseia totalmente na obediência; não valem nada, ali, mérito, talento ou competição sadia. A única maneira de subir na vida é obedecendo a Lula – e para isso é indispensável que Lula, ou algum dos seus postes, esteja no governo.

Tião Viana desovou os haitianos

Elio Gaspari
O Globo

Na semana em que o Papa Francisco canonizou José de Anchieta, o governo do Acre completou a desova, em São Paulo, de 400 haitianos que se refugiaram no Brasil. É um truque velho, usado até mesmo com brasileiros. Quando um prefeito incomoda-se com a chegada de migrantes, dá-lhes algum dinheiro e passagem de ida para outro lugar, desde que não apareçam mais por lá.

Em São Paulo, os haitianos ficaram sob a proteção da Igreja Católica. No século XVI, quando Anchieta andava pelo Brasil, a cultura europeia entendia que os índios nem gente eram. Passaram-se cinco séculos, o governador Tião Viana mandou refugiados haitianos para São Paulo e acusou a “elite paulista” de “preconceito”, quando uma secretária do governo estadual classificou seu comportamento como “irresponsável”. Foi ele quem exportou os refugiados, sem dar um só telefonema ao prefeito petista Fernando Haddad. O problema que está no seu colo deveria ser tratado com o ministro petista da Justiça, não com a empresa de ônibus. Não é justo que a economia do Acre receba o impacto de 20 mil refugiados, mas a solução de Viana foi demófoba e sua justificativa, demagógica. Salvo a elite petista, nenhuma outra tem algo a ver com isso.

Os haitianos estão amparados pela mesma fé que movia Anchieta, na paróquia de Nossa Senhora da Paz. Faltaram recursos, comida e até mesmo colchões ao padre Paolo Parise, que cuida do lugar. Há dias, voluntários começaram a chegar à paróquia. Alguns foram cozinhar, outros ofereceram empregos. Até quinta-feira, a paróquia não havia recebido qualquer ajuda federal, estadual ou municipal.

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, faz o que deve, o comissário Fernando Haddad, também, e Tião Viana diz o que quer. Juntando tudo, nada.

O FMI sabe tudo, mas não conta o que fez
O Fundo Monetário Internacional voltou a assumir funções oraculares em relação à economia brasileira e advertiu para o alto grau de endividamento das empresas nacionais. É provável que tenha razão.

Mesmo assim, a doutora Christine Lagarde poderia ajudar a instituição que dirige, abrindo os arquivos do FMI relativos ao que se chama de “crise da dívida da América Latina”, mas também poderia ser chamada de “crise do crédito da banca americana”. Ela começou em 1982 e custou ao Brasil, com a primordial ajuda de seu governo, a famosa “década perdida”.

O país devia mais de US$ 50 bilhões, os bancos sabiam que não teriam como recebê-los, e o FMI entrou na parada oferecendo socorros temporários, assumindo o monitoramento da administração da economia brasileira. Chegaram a mandar inspeções quinzenais a Brasília. Nesse período, o governo assinou seis (ou sete) cartas de intenção. Cumpriu nenhuma.

Nos arquivos do FMI, pode estar uma chave desse mistério. Sabiam fazer contas, mas não sabiam ler?

A memória de um negociador brasileiro revela o seguinte: “Assinamos a primeira carta por engano. A segunda, por distração. A terceira, porque somos mentirosos, mas você não acha que, a partir daí, ou mesmo antes, estava tudo combinado?”.

Ajudado pelo governo americano, o FMI fazia a segurança da banca. Em 1989, quando os balanços das casas credoras já permitiam que remanejassem suas cifras, a Casa Branca empurrou-lhes goela abaixo um plano de espichamento da dívida. O Citi tentou refugar, mas o secretário do Tesouro americano, Nicholas Brady, ligou para o seu presidente, e ele cedeu. “Eu podia ouvi-lo com o telefone longe do meu ouvido”, contaria John Reed.

Lição de Anchieta
Coincidindo milagrosamente com o feriadão, o presidente do Senado, Renan Calheiros, e seu colega Ricardo Ferraço foram a Roma para assistir à cerimônia de canonização do padre José de Anchieta.

A gentileza dos senadores custou à Viúva R$ 9 mil em diárias, noves fora as passagens. Essa conta não saiu por menos de R$ 30 mil. Não é muito dinheiro, mas é mais do que Anchieta teve em toda a vida, andando pelos matos brasileiros.

O santo escreveu um poema louvando o governador Mem de Sá. Num verso, referindo-se aos índios que ele combateu, Anchieta ensinou:

“Para este gênero de gente não há melhor pregação do que a espada e a vara de ferro”.

Gleisi e Vargas
A política paranaense faz milagres. Em 2011, quando o desempenho patrimonial de Antonio Palocci levou-o à frigideira, a senadora perguntou a Lula se era “estratégico” defender o comissário que comprometia o projeto político do partido.

Passaram-se três anos. O deputado André Vargas era um dos coordenadores da campanha da senadora ao governo do Paraná. Ela lastimou suas traficâncias, sustentou que a sua renúncia ao mandato é questão de “foro íntimo” e generalizou o problema: “O fato em si foi muito negativo, não só para o PT, mas para a política brasileira”. Pegou leve.

Padilha
A vulnerabilidade da candidatura de Alexandre Padilha não vem só do que pode ter acontecido no Ministério da Saúde quando ele lá estava.

Vem da convicção com que defendia negócios que cheiravam mal e, comprovadamente, revelaram-se escandalosos.

Comemo-lo
Saiu nos Estados Unidos um livro que retoma um mistério cinquentenário. O que aconteceu em 1961 com Michael Rockefeller, filho de um dos homens mais ricos e poderosos do mundo, quando estava na Nova Guiné pesquisando uma comunidade que vivia na Idade da Pedra?

Na versão oficial, o jovem de 23 anos morreu afogado. O jornalista Carl Hoffman vai até o limite numa brilhante exposição do caso. Ele foi comido. Hoffman acha que chegou aos nomes e às causas. Contudo, quando faltava a prova final — os óculos de Michael —, venderam-lhe um modelo dos anos 90. O livro chama-se “Savage harvest” (“Colheita selvagem”) e está na rede por US$ 12,99.

Os magníficos totens que Michael recolheu na Nova Guiné estão no museu Metropolitan de Nova York, numa ala que leva seu nome.

Estatística
Na sua briga com a direção do PT, o deputado André Vargas teve o apoio de pelo menos 30 dos 88 colegas da bancada-companheira.

Conseguiu-se uma amostra do tamanho da banda que cultiva a tática do “partir-pra-cima”.

Eremildo, o idiota
Eremildo é um idiota e entendeu a decisão do Supremo Tribunal Federal. Fernando Collor de Mello foi absolvido das acusações de corrupção, e João Goulart teve o seu mandato restabelecido pelo Congresso. Ele lembra que houve uma época em que os descendentes da família imperial brasileira tinham direito a passaporte diplomático.

O cretino acha que falta pouco para que se revogue o ato de rebeldia de Pedro de Bragança em 1822. Quando isso acontecer, Eremildo poderá conseguir seu sonhado passaporte da União Europeia.


Por intolerável que pareça

Percival Puggina
Zero Hora

Há bem poucos dias, o IPEA e o IBGE qualificaram-se para a linha de tiro da oposição. As duas instituições encarregadas de fornecer números aos analistas nacionais e às políticas dos setores público e privado foram acusadas de sujeição às conveniências eleitorais do governo e de seu partido. Quando isso ocorre em qualquer instituição permanente do Estado ou da administração pública, tem-se um verdadeiro sequestro, com severo dano ao interesse nacional. Aliás, reiteradamente, as redes sociais estampam imagens de policiais federais também manifestando contrariedade com a intrusão do partido do governo nas atividades da corporação. Embora as denúncias envolvendo a Petrobras sejam, agora, a face mais visível do fenômeno que descrevo, tais fatos se reproduzem e multiplicam na imensa estrutura dos poderes públicos. É para proporcionar isso que o Estado não pára de crescer. E de encarecer. É por isso que os partidos se multiplicam como coelhos e o tamanho do Estado avança na mesma cadência. Cada peça dessa imensa máquina, pequena ou grande, responde a algum partido em primeiríssimo lugar. O bem nacional vem depois. Ou, simplesmente não vem. 

Recordo os meses que antecederam à eleição de 2010. Cumpriu-se um cronograma de notícias oficiais, boas para o governo, divulgadas nos momentos propícios, e propagadas pela mídia sem a devida análise crítica. Tudo para nos convencer de que o Brasil era uma ilha de prosperidade e que nosso PIB cresceria segundo aqueles números sempre superiores a 4%. Números que o ministro Mantega traz na cabeça, todo Ano Novo, quando acorda do revellion. E passa o ano inteiro corrigindo para baixo. 

Por incrível que pareça, não entra no campo das análises políticas o motivo pelo qual se estabelece no Brasil esse assalto partidário a tudo que é público. Atribui-se ao velho patrimonialismo algo que tem causa institucional. Para bem entendermos o que acontece é preciso distinguir o que é Estado, o que é governo e o que é administração pública. Estado é um ente político de existência permanente, geograficamente delimitado, com poder soberano em relação a um povo que ali habita, zelando pelo bem comum num sentido amplo. O governo desempenha apenas uma das várias funções do Estado; cabe-lhe cumprir as leis e definir políticas, programas e ações para atender o bem comum nas circunstâncias dadas e por um período de tempo limitado. A administração, por seu turno, é o aparelho funcional através do qual tais políticas, programas e ações são executadas, atendendo de modo continuado os sucessivos governos. 

Nas democracias, como se pode presumir, o Estado, por ser de todos, não deve ter partido. A administração, por servir a todos, tampouco. Assim sendo, o governo e só o governo pode ser provido pelos partidos com seus partidários. Por isso mesmo ele é escolhido numa eleição entre as legendas e tem prazo de validade limitado. Deveria saltar dos enunciados acima o absurdo em que incorre nosso modelo institucional quando, além do governo, atribui a uma única pessoa e a seu partido também Estado e o aparelho da administração pública. 

É a raposa cuidando do galinheiro. É a festa do poder. É também por isso que quando a luz se acende sobre a festa de ontem, o salão está repleto de sinais da orgia. E como só ao povo, pagador da conta, interessa moralizar as instituições, nada muda para que tudo fique como está. Assim prossegue nossa democracia, por intolerável que pareça. 

O que o PT teme

Ricardo Noblat

Um doleiro é um doleiro, um doleiro, um doleiro. Pode até se apresentar como se fosse também outra coisa – um “homem de negócios”, talvez. Ou um empresário de qualquer ramo – quem sabe? Mas não deixará de ser um doleiro.

Sua fama o precede. Sua movimentação o expõe. Seus hábitos o denunciam. É impossível, por isso mesmo, conviver com ele e ignorar que se trata de um doleiro. Certo? Depende.

Submeta ao deputado federal Luiz Argôlo (PSD-BA) as mensagens eletrônicas que ele trocou no último dia 28 de fevereiro com Alberto Youssef, preso há pouco mais de um mês pela Polícia Federal sob a suspeita de chefiar um esquema de lavagem de dinheiro que movimentou cerca de R$ 10 bilhões.

E pergunte se na ocasião ele sabia que Youssef era doleiro. Com toda certeza dirá que não.

“Bom dia!”, saudou Argôlo. “Bom dia!”, respondeu Youssef. “Você sabe que tenho um carinho por você e é muito especial”, continuou Argôlo. “Eu idem”, retrucou Youssef. “Queria ter falado isso ontem. Acabei não falando. Te amo”, derramou-se o deputado. “Eu amo você também. Muitooooooooooo”, retribuiu o doleiro. “Sinto isso. E aí? Já melhorou? Melhorou?”, insistiu Argôlo. “Por favor, me diga alguma coisa”.

Foto: Joedson Alves / Estadão Conteúdo
Alberto Youssef, doleiro. 

Não se sabe se Youssef atendeu ao apelo de Argôlo e disse mais alguma coisa. Acabou por ali a transcrição da conversa que consta de um relatório da Polícia Federal. Foi Felipe Patury, colunista da revista ÉPOCA, quem a publicou primeiro.

Procura-se quem tenha conhecido Youssef como doleiro antes de ele ser preso. A autoridade policial (61 3223-2302/2024-8450/8452) agradece desde já por qualquer informação.

Forçado pelo PT a renunciar à vice-presidência da Câmara e a se desfiliar do partido, o deputado André Vargas admitiu que é amigo de Youssef há mais de 20 anos.

Pediu a Yousseff que providenciasse um jatinho para que ele e a família voassem do Paraná à Paraíba? Pediu, sim.

Uma vez pediu que lhe reservasse a mais luxuosa suíte de um hotel em Londrina de propriedade de Youssef? Pediu.

Vargas cobrou de Youssef pagamento supostamente devido a um dos seus irmãos? Cobrou. E falou sobre negócios com Youssef? Bem, em termos.

Agiu para favorecer um laboratório de Youssef em suas relações com o Ministério da Saúde, conforme indicam diálogos interceptados pela Polícia Federal com autorização da Justiça? Ah, nunquinha. Apenas “orientou” Youssef a como proceder quanto a isso.

Vargas sabia que Youssef era doleiro? Imagina! Vargas já disse e repetiu que jamais soube que Yousseff fosse doleiro.

Tampouco sabia Carlos Borges, diretor do fundo de pensão dos economiários Federais, o terceiro maior fundo do país, com um orçamento de R$ 52 bilhões. Borges confirma que se reuniu com Youssef no ano passado a pedido de Vargas. Mas daí a saber que ele fosse doleiro vai uma longa distância, argumenta.

O deputado Cândido Vacarezza (PT-SP) se recusa a “negar peremptoriamente” que tenha recebido Yousseff em seu apartamento de Brasília. Se isso ocorreu, porém, foi porque Youssef “estava na companhia de Vargas”.

Yousseff doleiro? Não. Youssef empresário – o mesmo que fez parte de uma comitiva oficial do governo brasileiro que visitou Cuba em 2008 ou 2009. O deputado Vicente Cândido (PT-SP) o viu por lá. E depois voltou a vê-lo em São Paulo.

Na época, Yousseff não era um desconhecido. Seu nome fora citado no escândalo que sacudira o Banestado. E depois no escândalo do mensalão.

A CPI do Correio começou investigando o pagamento de uma reles propina e acabou por descobrir o mensalão. O PT teme que a história se repita com a CPI destinada a investigar malfeitos na Petrobras.

Marcha sobre Brasília

Demétrio Magnoli
O Globo

Projeto petista de reforma não toca no alicerce do sistema de poder, que sustenta o atual sistema político-partidário: a colonização do Estado pelos partidos

Benito Mussolini comandou a Marcha sobre Roma, em 1922, para assestar o golpe final no frágil governo conservador italiano. A marcha fascista reuniu menos de 30 mil militantes, mas triunfou: sob o temor da guerra civil, e estimulado pela crença de que Mussolini salvaria a Itália dos sindicatos vermelhos, o rei Vittorio Emanuele III entregou ao Duce a chefia do governo. Hoje, o PT anuncia uma Marcha sobre Brasília para impor a sua versão de uma reforma política. O projeto tem o aval de Dilma Rousseff, expresso na declaração presidencial de que “é preciso uma conjuntura que envolva as ruas para pressionar o Congresso a fazer a reforma política”. A história se repete, obviamente como farsa. A farsa, contudo, esclarece muita coisa.

Um embrião do projeto veio à luz num artigo assinado pelo governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, no fim de janeiro. Intitulado “Uma perspectiva de esquerda para o Quinto Lugar”, o texto elucubrava sobre as virtudes do modelo econômico chinês para, na conclusão, preconizar a convocação de “uma nova Assembleia Nacional Constituinte no bojo de um amplo movimento político inspirado pelas jornadas de junho”, mas “com partidos à frente”. Não era uma proposta de médio prazo, mas um chamamento à ação: “Penso que as esquerdas no país devem abordar programaticamente estas novas exigências para o futuro, já neste processo eleitoral”, escreveu Genro.

As palavras de Genro têm um sentido. Assembleia Constituinte é, por definição, o órgão que, concentrando a soberania popular, introduz um novo regime. Historicamente, ela nasce da falência do Estado — ou seja, do desabamento do “antigo regime”. Quando, porém, é o próprio governo que, em plena democracia, conclama o povo a exigir a mudança de regime, estamos diante de uma tentativa de concentração de poder cujo alvo são as liberdades públicas e os direitos políticos da oposição. Por sorte, Genro não fala em nome do governo (e, aliás, esse é o motivo pelo qual ele se dá ao desfrute de publicar desvarios autoritários dessa espécie).

A mobilização anunciada pelo PT segue rota um tanto distinta. O partido prepara a coleta de 1,5 milhão de assinaturas para respaldar um projeto de lei de iniciativa popular articulado em torno das propostas de financiamento público de campanha eleitoral e voto em listas partidárias fechadas. No projeto petista, a “Assembleia Nacional Constituinte” cede lugar à curiosa ideia de uma “Constituinte exclusiva” destinada a legislar unicamente sobre a reforma política. A conclamação de Genro tinha uma certa coerência política: Assembleia Constituinte é, sempre e inevitavelmente, um órgão soberano, pois reúne os representantes eleitos pelo povo para produzir uma Constituição. A versão branda da Marcha sobre Brasília, por outro lado, equivale a inventar uma roda quadrada: uma Constituinte amputada de soberania, circunscrita a uma esfera de decisões desenhada pelo Executivo e pelo Congresso. É farsa — e um tanto ridícula.

A farsa, porém, tem a sua própria lógica. Por que, no 12º ano de poder, o lulopetismo proclama a urgência de uma ampla reforma política? A primeira resposta encontra-se no calendário eleitoral. Os estrategistas da reeleição de Dilma pretendem, por meio da Marcha sobre Brasília, colorir a campanha com as cores de um “mudancismo” ilusório, conectando-se de alguma forma com a vontade de mudança expressa nas jornadas de junho e registrada nas sondagens eleitorais. O sucesso do truque depende das reações — ou da ausência delas — dos candidatos oposicionistas.

A primeira resposta, entretanto, não perfura a película da questão. Segundo depoimento de uma militante, Dilma explicou a interlocutores de “movimentos sociais” que a reforma política “não é só uma questão de caneta”, pois “a maioria que ela tem no Congresso não é uma maioria em todos os temas”. As palavras da presidente têm um sentido. O lulopetismo almeja, efetivamente, um tipo singular de reforma política: a criação das regras mais propícias à cristalização de seu poder. A Marcha sobre Brasília é o instrumento escolhido para atemorizar os parceiros da santa aliança governista, dobrando-os à vontade do PT.

Os dois eixos da proposta petista de reforma política têm objetivos distintos. O financiamento público de campanha, que não exclui o recurso subterrâneo ao caixa 2, destina-se a libertar completamente os partidos da necessidade de arrecadar dinheiro junto à sua base eleitoral. Somado à manutenção do Fundo Partidário e do horário “gratuito” nos meios eletrônicos de comunicação, ele cristaliza a constelação de “partidos estatais” (que abrange os partidos de aluguel), funcionando como um escudo defensivo do conjunto da elite política. É, sobretudo, uma contrarreforma.

Já o voto em listas partidárias fechadas destina-se a reforçar o controle das direções partidárias sobre os representantes eleitos e, também, a ampliar o potencial eleitoral da sigla partidária com maior reconhecimento, que é o próprio PT. O principal prejudicado seria o PMDB, um partido-ônibus, heterogêneo e descentralizado, que congrega máquinas políticas estaduais. No cenário dos sonhos do PT, o parceiro privilegiado da coalizão de poder seria reduzido a um partido de porte médio, condenado a orbitar inerme, ao lado de outros, em torno da estrela vermelha.

Elucidativamente, o projeto petista de reforma não toca no alicerce do sistema de poder, que sustenta o atual sistema político-partidário: a colonização do Estado pelos partidos políticos. A oportunidade de conquistar frações valiosas do poder público — aparelhos ministeriais, empresas estatais, agências regulatórias — constitui o motor do sistema político brasileiro e, também, a fonte primária da corrupção estrutural no país. A Marcha sobre Brasília passará ao largo desse tema, que ocupa o lugar de um tabu no discurso falsamente reformista do PT.

A grande família petista

O Estado de S.Paulo

Nem é preciso fazer escavações profundas. Arranhe-se apenas a superfície do sistema petista de poder e, certo como a noite que se segue ao dia, se encontrará um escândalo, uma maracutaia, uma armação, uma negociata, um vexame, um ato mal explicado ou inexplicável à luz da ética pública. E não se diga que é intriga da oposição em ano eleitoral.

Para ficar apenas na safra da semana, ora é uma auditoria da Petrobrás que afirma que em 5 de fevereiro de 2010 alguém foi autorizado verbalmente a sacar US$ 10 milhões de uma conta da Refinaria de Pasadena, na qual a empresa ainda tinha como sócia a Astra Oil. A revelação foi publicada pelo Globo. Quem autorizou, quem sacou, o porquê do saque e o que foi feito com a bolada, isso a Petrobrás não conta. Diz, burocraticamente, que o procedimento seria "uma atividade usual de trading" e nele "não foram constatadas quaisquer irregularidades".

Ora, para variar, são as sucessivas apurações da Polícia Federal (PF) sobre a amplitude da rede de conveniência recíproca em que se situam as ligações do deputado André Vargas, do PT paranaense, com o doleiro Alberto Youssef. O cambista foi preso no curso da Operação Lava Jato, que expôs um esquema de branqueamento de dinheiro, por ele comandado, da ordem de R$ 10 bilhões. O monitoramento, com autorização judicial, das comunicações do já agora réu Youssef trouxe à tona uma história de tráfico de influência que reduz a mera nota de rodapé o pedido de Vargas ao parceiro para que lhe arranjasse um jatinho para levá-lo numa viagem de férias ao Nordeste - descoberto, o favor custou ao favorecido o cargo de vice-presidente da Câmara, ao qual teve de renunciar.

A traficância, essa sim, era coisa graúda. Prometendo a Vargas que, se fizesse a parte dele, os dois conquistariam a "independência financeira" - palavras textuais do doleiro captadas pela PF -, ele acionou o deputado para que o Ministério da Saúde, então chefiado pelo também petista Alexandre Padilha, contratasse com o laboratório Labogen, de que Youssef é controlador oculto, o fornecimento de uma partida de medicamentos contra a hipertensão. O negócio renderia R$ 31 milhões em cinco anos. Quando a tratativa foi noticiada pela Folha de S.Paulo, Padilha imediatamente tirou o time de campo. Deu-se o dito pelo não dito, nenhum contrato foi assinado, nenhum real desembolsado.

Mas Padilha, pré-candidato ao governo paulista, era muito mais do que, digamos, o polo passivo do arranjo. Relatório da PF praticamente sustenta que, em novembro passado, ele ofereceu a Vargas um nome para dirigir o Labogen. Numa mensagem de celular lida pelos federais, o deputado identifica o apadrinhado para o doleiro e lhe dá o número de seu telefone, antes de arrematar: "Foi Padilha que indicou". Dois dias antes, Vargas tinha escrito a Youssef: "Falei com Pad agora e ele vai marcar uma agenda comigo". Naturalmente a PF não pode afirmar com todas as letras de que Padilha, ou Pad, se tratava. Mas quem mais poderia ser?

Afinal, o indicado pelo interlocutor de ambos para ser o executivo da Labogen, Marcus Cezar Ferreira de Moura, o Marcão, tinha sido nomeado pelo ministro, em 2011, coordenador de promoção e eventos da Saúde. No ano anterior, ele trabalhara na reta final da campanha de Dilma Rousseff. Só achando que o ministro era um rematado nefelibata, o suprassumo da ingenuidade, para imaginar que ele considerasse o Labogen um laboratório sério. A sua folha de pagamento não soma mais do que R$ 28 mil. A polícia apurou que foi uma das firmas de fachada usadas por Youssef para remeter ilegalmente ao exterior US$ 444,7 milhões.

Vargas, a PF também averiguou, não é o único petista das relações do doleiro. Outros citados, por ora, são os deputados Cândido Vaccarezza e Vicente Cândido, de São Paulo. Um admite ter se encontrado com o cambista no prédio onde ele e Vargas moram. O outro diz que o conheceu - em Cuba, ora vejam - em 2008 ou 2009. Em suma, formam todos uma grande família com parentes de sangue e por afinidade que às vezes brigam, mas em geral se ajudam a conseguir poder, prestígio e riqueza. Há mais de dez anos o solar da família fica em Brasília. Na sua fachada se lê: "Tudo pelo social".

A coalização dos indignados

Gaudêncio Torquato
O Estado de São Paulo

A burocracia do ar condicionado é refratária ao calor das ruas, vielas e becos. Por isso mesmo, fechados na redoma de estatísticas frias, em grande parte pinçadas de complexas operações e cruzamentos de dados que passam ao largo das feiras livres, os burocratas costumam desenhar cenários de um país diferente daquele em que vivem seus habitantes.

São também afamados pela “contabilidade criativa”, que usam com frequência para puxar para baixo as contas que batem no bolso do consumidor, principalmente em ciclo de disputa eleitoral. Pouco adiantará mostrar para eles que o preço do tomate já subiu 31,72% este ano, que a batata inglesa aumentou 17,27% ou que os serviços tiveram alta de 9%.

A inflação das ruas não conta para o burocrata. Sua visão é esdrúxula: “tomate e chuchu não são produtos insubstituíveis; ninguém come morango o tempo inteiro; e não é o índice de feirinhas e botecos que guia a política monetária”. A aritmética das massas não entra nas quilométricas planilhas dos senhores dos cálculos.
E assim, longe dos gritos de feirantes e da reclamação das donas de casa, a insensibilidade da burocracia econômica arruma a “cama” dos gestores públicos, sob o risco de provocar torcicolo em candidatos. São bons em promessas, como a de que a inflação, este ano, se manterá na meta de 4,5%, com dois pontos para mais ou para menos. A par do “pouco caso” dado ao fator que impacta o bolso do consumidor, outros ensaios de insatisfação começam a se espalhar pelo território.

Convém lembrar que período de eleições é o mais propício às manifestações populares, sejam as que dizem respeito ao bolso do contribuinte, sejam aquelas voltadas para a defesa de interesses de grupos e corporações.

Este ano eleitoral possui, portanto, uma identidade peculiar, ainda mais por abrigar a Copa do Mundo, o maior evento esportivo mundial, cujo reflexo sobre o processo eleitoral ainda é uma incógnita. Mas, nesse momento, já é possível enxergar um alto grau de tensão a energizar setores e grupamentos, que pode originar ondas concêntricas de insatisfação social.

É bastante previsível a hipótese que aponta para a existência de bolsões represados aguardando o momento para despejar sua indignação.

Veja-se essa paralisação dos policiais federais. Trata-se de um movimento inusitado que agita um braço investigativo do Poder Executivo, cuja forte atuação nos escândalos mais impactantes da ontemporaneidade o posiciona como um dos atores fundamentais no combate à corrupção.

Os quadros se ressentem de precárias condições de trabalho, salários defasados, “ingerências políticas nas investigações” e repasse de atribuições constitucionais da PF a outros órgãos.

Quem imaginaria um movimento paredista envolvendo policiais federais? O que pode ocorrer se esses quadros cruzarem os braços em momentos críticos como os que o país viverá logo, logo?

O aparato policial militar em muitos Estados desfralda também uma larga planilha de reivindicações, centradas em salários e condições de trabalho. A insatisfação das forças policiais se expande. Teria esse fenômeno ligação com o incremento das ocorrências policiais no país? A desmotivação dos batalhões das ruas seria motor da expansão da criminalidade?

Cheguemos, agora, ao epicentro das manifestações de rua, formado por grupos com origem na classe média C, os emergentes que escalaram os degraus de baixo da pirâmide para chegar ao primeiro andar do meio. Nesse espaço, alinham-se os grupos que puxam a corrente do “queremos mais”.

O pão sobre a mesa já não lhes é suficiente. Exigem serviços públicos qualificados, a partir dos transportes urbanos, parques de lazer, segurança, saúde e educação. Jovens, desempregados, comerciários, biscateiros, comunidades, torcidas fanáticas de clubes de futebol, integrantes de ONGs, e, claro, radicais, oportunistas e baderneiros, tendem a assumir papel de vanguarda na agitação das ruas, sob os ares catárticos da Copa e competitivos do pleito de outubro.

Esses segmentos colarão suas ações às demandas das periferias, que, a par de velhas demandas, correm o risco de ver as torneiras secas por falta d’água, como é o caso de São Paulo, onde o sistema Cantareira se aproxima dos 10% da capacidade, o índice mais baixo de sua história.

As classes médias tradicionais também disparam fortes sinais de descontentamento, menos por conta da pressão da inflação das ruas e mais por se verem inundadas por uma volumosa torrente de escândalos em série.

O longo episódio que culminou na condenação de implicados na chamada Ação Penal 470; o desvendamento de teias de corrupção nos intestinos da administração pública e que batem na Petrobras, empresa-símbolo do país; a polêmica que se estabeleceu em torno de programas polêmicos, como é o caso do Mais Médicos; as nuvens que se formam em torno das arenas esportivas, cujo atraso no cronograma de obras ameaça causar reação popular durante a Copa; a repetição de mantras da velha política, com as interjeições do passado a mostrar a perpetuação de vícios- esse é o cenário da degradação que acolhe a gestão pública e a esfera política.

Não por acaso, elevado índice de brasileiros – 72%, segundo o Ibope – não tem nenhum ou quase nenhum interesse na eleição. Na pesquisa espontânea da última rodada, 56% não marcaram intenção de voto em nenhum candidato.

Os setores produtivos, por sua vez, se mostram igualmente insatisfeitos. Vale lembrar que nunca se abriu tanto a caixa das desonerações tributárias como no governo Dilma. Mesmo assim, são claras as manifestações de desagrado com a política econômica, a traduzir inconformismo com os rumos da economia.

Como se pode inferir, há um Produto Nacional Bruto de Insatisfação que a burocracia brasiliense teima em não enxergar ou não querer medir. Sem aviso prévio, grupinhos, contingentes, categorias, setores vão formando o que se pode designar de “coalizão dos indignados”. Ameaça a todos os candidatos.

Está esquisito

Luiz Werneck Vianna
O Estado de São Paulo

Está esquisito: a que se devem essa difusa sensação de mal-estar e esses pequenos abalos que vêm surpreendendo a rotina do cotidiano não só nos grandes centros metropolitanos? Por que uma parte da juventude escolarizada se empenha, nos espaços da internet, na procura por um herói sem rosto e anônimo - a multidão, construção cerebrina da fabulação de profissionais de utopias, de quem se espera a recriação do nosso mundo?

Também está esquisita essa descrença generalizada nas pessoas e nas instituições diante da Constituição mais democrática da nossa história republicana e das políticas bem-sucedidas de inclusão social levadas a efeito nos últimos governos. Esquisitice que beira a ironia quando se constata que as Forças Armadas, em meio a um processo de revisão da Lei da Anistia que as contraria, são mobilizadas para tudo, até para intervenção direta na questão social, como na chamada pacificação das favelas cariocas. E, como se sabe, não haverá Copa do Mundo sem elas.

É crível compreender tal estado de coisas pelo preço dos tomates? E quanto às jornadas de junho, ainda resiste a explicação singela de que foram desencadeadas pelo aumento em centavos dos preços das passagens dos serviços de transportes urbanos? Faz algum sentido esperar pela próxima campanha à sucessão presidencial com o olhar fixo nos índices da inflação? O mal-estar pode até ser medido, como se pode ver nas recentes pesquisas eleitorais que indicam robustos 24% do eleitorado com a opção de votos brancos e nulos, inocentando o observador de fazer uma avaliação idiossincrática.

O economicismo, ideologia reinante entre nós, fruto nativo do nosso longevo processo de modernização, retruca com acidez aos argumentos que lhe são estranhos com o bordão "é a economia, estúpido!", com o que filosofa sub-repticiamente, identificando o homem real com o consumidor, e não com o cidadão, a seu juízo uma simples abstração.

Nessa visão rústica da dimensão do interesse, somente o que importa é o bolso, o poder de compra, e as ideias e as crenças de nada valem, dando as costas a lições de clássicos como Marx e Weber, que estudaram seu papel na produção da vida material. Basta lembrar a análise do primeiro sobre a ética calvinista e a formação do espírito do capitalismo e a afirmação do segundo sobre como as ideias podem se tornar uma força material.

Alexis de Tocqueville, em sua obra-prima dedicada ao estudo da Revolução Francesa, O Antigo Regime e a Revolução, demonstrou não só a importância para a produção daquele evento, capital na passagem para o mundo moderno, do papel das ideias e dos intelectuais - os iluministas que forjaram o conceito de direito natural com base na Razão -, como expôs, com base em sólida empiria, o processo especificamente político com que a monarquia se teria isolado da sua sociedade, em particular do Terceiro Estado, a sociedade civil da época. E sem deixar de registrar que, às vésperas da revolução, a França estaria conhecendo um bom momento em sua economia, e que o campesinato - personagem decisivo naqueles acontecimentos - estaria experimentando um inédito movimento de acesso à terra.

Entre nós, desde que se fixou a hegemonia do viés economicista no senso comum, para o que a influência do marketing político tem sido considerável, toldando a percepção do que é próprio à política como o lugar da produção de consenso e de legitimação do poder incumbente, nada de surpreendente que ela venha sendo degradada a um mero registro desconexo de questões de bagatelas.

Esquisito, então, que a presidente da República, quadro do Partido dos Trabalhadores (PT), possa vir a ter sua indicação à sucessão presidencial substituída pela do presidente de honra do seu partido, seu mais ilustre personagem e responsável por sua eleição, caso não sustente até o momento da convenção partidária indicadores aceitáveis de inflação. Esquisito que a Copa do Mundo, a ser disputada em nossos estádios pela nossa seleção de futebol, a Pátria de chuteiras - expressão que, como sentimos, tem seu quinhão de verdade -, seja recebida pelos brados de "não queremos Copa!", inclusive por um partido político no seu horário eleitoral.

Debalde procurarmos as razões desse estado de coisas na dança dos indicadores econômicos. Elas estão noutra parte, visível o fio vermelho com que ele se liga às jornadas de junho, que denunciaram a distância entre o governo e a sociedade civil, especialmente da juventude. Em princípio, isso não era para ser assim, uma vez que o PT tem em suas marcas de fundação a vocação para agir na sociedade civil e favorecer sua organicidade - e, de fato, começou sua história fiel a essa orientação -, de resto, refratárias à época, em certos casos até acriticamente, ao Estado e à sua história institucional.

No governo, porém, essa plataforma de lançamento cedeu, com uma guinada em favor da recuperação da política de modernização da nossa tradição republicana, aí compreendida até a vigente no regime militar. Nos seus fundamentos, passam a ser incorporados elementos da estratégia política de Vargas, com a ampliação do Estado a fim de nele incluir sindicatos e movimentos sociais, em alguns casos mesmo que informalmente, caso do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST).

Essa inclusão, contudo, não significou a adesão a um programa e a uma política, mas a satisfação de interesses segmentados, como atesta hoje o quadro atual da fragmentação das centrais sindicais. O triunfo maior da lógica dos interesses sobre a política veio com a adoção, e o sucesso, do programa Bolsa Família, perfeitamente compatível com os princípios neoliberais de raiz economicista. Sob esse registro, a sociedade não se educou nem se organizou, e corre o risco de se converter na multidão dos profetas apocalípticos que estão por aí. Ficou esquisito.

O IBGE resiste

Mary Zaidan
Blog Noblat

Taxa de desemprego de 5%. Ainda que não seja a menor do mundo, como Dilma Rousseff gosta de se vangloriar, é um número e tanto para os palanques do 1º de Maio e da reeleição. Mas bastaram dois pontos percentuais para despertar a ira.

Sem medir consequências, seu governo escolheu suspender a divulgação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, responsável pelo par de dígitos a mais. De uma só tacada, acertou em tudo o que não devia: desrespeitou o quase octogenário IBGE e ofuscou, sem caminho de volta, o que poderia ser uma de suas poucas estrelas brilhantes.

Discutida desde 2007, conforme informa o site do IBGE, a Pnad Contínua é uma pesquisa ampla – com 211 mil domicílios em 3.500 cidades – e mais próxima das diretrizes da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Foi pensada para substituir, até o final de 2015, a Pnad Anual (147 mil entrevistas em 1.100 municípios) e a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), feita em 44 mil residências de seis regiões metropolitanas.


Se os 5,4 % apurados em 2013 pela PME já ficam longe do discurso oficial de ter a menor taxa do mundo – entre os emergentes o Brasil perde para China com 4,6% e Índia com 3,8%; também fica atrás do México, com 4,6% -, os 7,1% da Pnad Contínua descabelaram o governo: superam os 5,8% da Rússia e a média da América Latina, de 6,5%.

Foi uma bobagem monumental. Não tivesse se metido nessa barafunda, os números de maio até poderiam ser melhores do que da última amostragem trimestral. E ninguém misturaria alhos e bugalhos, assim como não se compara a PME do IBGE com os dados do Dieese/Seade, sempre superiores, hoje acima de 10%.

Enroscada na sua própria trama, Dilma ainda sofrerá o desgaste de ações do Ministério Público que começam a pipocar para garantir a divulgação da pesquisa.

Outra consequência desastrosa para o governo foi a de contaminar a mágica taxa de 5%. Notícias sobre os parâmetros do índice, em especial o fato de ele não incluir a geração nem-nem – 19,6% dos jovens de até 29 anos que nem trabalham nem estudam – como desocupados, saíram do seleto grupo de analistas econômicos e ganharam o rádio e a TV. Populariza-se também o despreparo do trabalhador brasileiro para ocupar postos mais qualificados, escancarando a precariedade da educação, do básico ao superior.

Nefasta em todos os sentidos, a intromissão do governo já golpeou a credibilidade do Instituto de Pesquisas Avançadas (Ipea), tão servil que mantém uma inexplicável sucursal na Venezuela.

Não há como evitar a proliferação de pulgas por detrás das orelhas quanto à intervenção em todo e qualquer índice quando esses não forem de agrado do governo.

O IBGE resiste. E o Brasil agradece.

Quando fala sobre mensalão, Lula é 100% cínico

Josias de Souza



Em entrevista à emissora portuguesa RTP, Lula contou uma piada de brasileiro. O julgamento do mensalão “teve praticamente 80% de decisão política e 20% de decisões jurídicas”, disse, antes de divertir a audiência com duas teses: “não houve mensalão” e “o processo foi um massacre que visava destruir o PT.” Ao se referir aos “companheiros do PT presos”, o entrevistado levou a anedota a sério: “Não se trata de gente da minha confiança.”

Ficou entendido que, em matéria de mensalão, Lula é 100% cínico. Ele maneja o cinismo com tal sofisticação filosófica que acaba se aproximando da realidade. Como no trecho em que declarou que “é apenas uma questão de tempo, e essa história vai ser recontada para saber o que aconteceu na verdade”. De fato, ainda há algo por esclarecer: qual foi o verdadeiro papel de Lula no enredo do mensalão?

Há quatro Lulas dentro do escândalo. Nenhum deles se parece com o autêntico. Logo que o escândalo estourou, em 2005, um primeiro Lula tentou reduzir tudo a mais um caso de caixa dois: “O que o PT fez, do ponto de vista eleitoral, é o que é feito no Brasil sistematicamente”. Sentado num banco de CPI, Duda Mendonça jogou a campanha presidencial dentro do caldeirão, provocando o surgimento de outro Lula.

Esse segundo Lula jurou que “não sabia” do que se passava sob suas barbas, pediu “desculpas” em rede nacional de rádio e tevê e declarou-se “traído”. Na prática, pediu aos 52.788.428 eleitores que o haviam acomodado na Presidência que o enxergassem como um bobo, não como um cúmplice.

Em 2006, a campanha da reeleição produziu um terceiro Lula. Dizia coisas assim: “Esse negócio de mensalão me cheira a um pouco de folclore dentro do Congresso Nacional”. Foi nessa época que o então procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza, nomeado por Lula, serviu-se das evidências colecionadas pela Polícia Federal do doutor Márcio Thomaz Bastos para formular a denúncia sobre a troca de dinheiro sujo por apoio congressual ilegítimo. A ausência de Lula no rol de acusados deu à peça a folclórica aparência de mula sem cabeça.

Reeleito, Lula sentiu-se autorizado a potencializar a desfaçatez. Que aumentou na proporção direta da elevação dos índices de popularidade. Em maio de 2010, quando carregava nos ombros a candidatura presidencial de Dilma Rousseff, Lula referiu-se ao escândalo que tisnara seu primeiro reinado como “um momento em que tentaram dar um golpe neste país.” Esse quarto Lula é irmão gêmeo do comediante que acaba de se apresentar na RTP, a emissora portuguesa.

Com a tese do “golpe”, Lula soara, além de ilógico, ingrato. Cinco anos antes, quando a lama rocava-lhe o bico do sapato e o vocábulo impeachment era pronunciado à larga, o pseudopresidente mandara ao olho da rua o chefe de sua Casa Civil, José ‘Não se Trata de Gente da Minha Confiança’ Dirceu. E despachara três ministros para apagar os ânimos da oposição.

Márcio Thomaz Bastos, foi ao encontro do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ciro Gomes voou para uma conversa com o então governador mineiro Aécio Neves. E um Antonio Palocci pré-escândalo do caseiro reuniu-se com a nata da plutocracia e com seus amigos tucanos. Em poucos dias, sob a voz de comando de FHC, o tucanato desembarcou da tese do impeachment. Ou seja: houve complacência, não “golpe”.

Numa passagem do extraordinário livro “Lula, o Filho do Brasil”, lançado em dezembro de 2002, o personagem central da narrativa desenhara um bonito retrato de si mesmo. Em depoimento a Denise Paraná, autora da obra, Lula dissera: “…Se eu não tivesse algumas [qualidades pessoais] não teria chegado aonde cheguei. Eu não sou bobo. Acho que cheguei aonde cheguei pela fidelidade aos propósitos que não são meus, são de centenas, milhares de pessoas.”

Os quatro Lulas que se seguiram ao mensalão não fazem jus a esse Lula de outrora, fiel aos propósitos da coletividade. Na Presidência, um ex-Lula disse que preferia “ser considerado uma metamorfose ambulante” (reveja abaixo). Quando a história puder falar sobre o mensalão sem as travas que a conveniência impõe a algumas línguas companheiras, o país talvez descubra as razões que levaram um arauto da ética a sofrer a metamorfose que o tornou um cínico contador de anedotas.

'Desqualificação da Corte é fato grave e merece repúdio', diz Barbosa

Mariângela Galucci 
O Estado de S. Paulo

Presidente do Supremo repudia críticas de Lula ao mensalão; em entrevista a uma rede de TV portuguesa, ex-presidente da República disse que julgamento foi 80% político e 20% jurídico

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa

Brasília - O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, repudiou as críticas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao julgamento do mensalão. "Lamento profundamente que um ex-presidente da República tenha escolhido um órgão da imprensa estrangeira para questionar a lisura do trabalho realizado pelos membros da mais alta Corte de Justiça do País", disse.

Para o ministro, "a desqualificação do Supremo Tribunal Federal, pilar essencial da democracia brasileira, é um fato grave que merece o mais veemente repúdio. Essa iniciativa emite um sinal de desesperança para o cidadão comum, já indignado com a corrupção e a impunidade, e acuado pela violência. Os cidadãos brasileiros clamam por justiça".

Relator do processo do mensalão, Joaquim Barbosa disse que a tramitação do processo foi "absolutamente transparente". "Pela primeira vez na história do tribunal, todas as partes de um processo criminal puderam ter acesso simultaneamente aos autos, a partir de qualquer ponto do território nacional uma vez que toda a documentação fora digitalizada e estava disponível na rede."

O ministro acrescentou que as cerca de 60 sessões consumidas com o julgamento foram públicas, com transmissão ao vivo pela TV Justiça. "Os advogados dos réus acompanharam, desde o primeiro dia, todos os passos do andamento do processo e puderam requerer todas as diligências e provas indispensáveis ao exercício do direito de defesa."

Joaquim Barbosa disse ainda que todos os réus e o Ministério Público puderam indicar testemunhas. "Foram indicadas, no total, cerca de 600." O presidente do STF afirmou que a acusação e a defesa tiveram mais de quatro anos para trazer ao STF as provas de seus interesses. "Além da prova testemunhal, foram feitas inúmeras perícias, muitas delas realizadas por órgãos e entidades situadas na esfera de mando e influência do presidente da República, tais como Banco Central do Brasil, Banco do Brasil, Polícia Federal, Coaf."

"Portanto, o juízo de valor emitido pelo ex-chefe de Estado não encontra qualquer respaldo na realidade e revela pura e simplesmente sua dificuldade de compreender o extraordinário papel reservado a um Judiciário independente em uma democracia verdadeiramente digna desse nome."

Lula mente na TV portuguesa, renegando amigos mensaleiros

Diário do Poder

Na RTP, Lula renega amigos mensaleiros e diz que ‘não são de confiança’

Durante entrevista à RTP, 
Lula disse que os amigos mensaleiros não são da sua confiança

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse em entrevista exibida neste domingo a uma TV portuguesa que o julgamento do processo do mensalão teve “viés político” e que os petistas presos por envolvimento no caso “não são de sua confiança”.

Em novembro do ano passado, o Supremo Tribunal Federal (STF) decretou a prisão de três integrantes da cúpula petista por participação no esquema de compra de apoio político no Congresso no início do governo Lula, entre 2003 e 2005. Foram presos o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu; ao ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares; e ao ex-presidente nacional do partido, José Genoino.

“O mensalão teve praticamente 80% de decisão política e 20% de decisão jurídica. O que eu acho é que não houve mensalão”, afirmou ele, em uma das poucas manifestações públicas que fez sobre o caso após o fim do julgamento. Em seguida, Lula interrompeu a repórter, que começou uma pergunta sobre o fato de pessoas da confiança do ex-presidente terem sido presas.

“Não se trata de gente da minha confiança”, disse Lula, para se referir a mensaleiros como José Dirceu, que exerceu o cargo de maior confiança em seu governo, o de ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República, espécie de “primeiro-ministro”. Ou de José Genoino, velho companheiro de lutas, deputado federal que o ex-presidente Lula transformou em presidente nacional do PT, o Partido dos Trabalhadores. à TV portuguesa, Lula remendou: “Tem companheiro do PT preso. E eu também não vou ficar discutindo a decisão da Suprema Corte. O que eu acho é que essa história vai ser recontada”. Lula esteve em Portugal para participar da comemoração dos 40 anos da Revolução dos Cravos.

Ao renegar amigos, Lula causou mal-estar no PT
O ex-presidente Lula provocou grande mal-estar no governo e no PT ao declarar, em entrevista à TV portuguesa RTP que os mensaleiros cumprindo pena no presídio da Papuda não são da sua “confiança”. Até porque não é verdade: um dos presos, José Dirceu, por exemplo, exerceu em seu governo o cargo de maior confiança de presidente da República: ministro-chefe da Casa Civil, espécie de “primeiro-ministro”.

Um dos mais afetados pela declaração de Lula, segundo fontes do PT, foi o ex-deputado José Genoino, velho amigo do ex-presidente.

Outros velhos amigos, que estão presos e não entregaram o líder, como Delúbio Soares, sentiram-se ofendidos com a afirmação de Lula.

Estas são as 4 prioridades para a educação funcionar no país

Beatriz Souza
Exame.com

Há milhares de coisas a fazer para que alunos brasileiros compitam em pé de igualdade com estudantes de outros países. Mas estas são as prioridades, segundo especialistas

Elza Fiuza/Agência Brasil 
Alunos de escola pública em Brasília: a relação entre professor e aluno 
é o núcleo da melhoria da qualidade da educação no Brasil, dizem especialistas

São Paulo - A cada novo ranking internacional de educação - e a cada mau resultado do Brasil neles -, muito se questiona sobre o que fazer (primeiro) para elevar a qualidade da educação brasileira, hoje praticamente universalizada.

Os números não mentem. No último ranking divulgado pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) 2012, da OCDE, o Brasil ficou em 38º lugar entre 44 países em uma avaliação de raciocínio rápido associado a problemas do dia a dia. 

Isso significa que na prova aplicada a estudantes de 15 anos sobre problemas matemáticos da vida real, o país teve uma média de 428 pontos, enquanto Singapura, que ficou com o 1º lugar, fez 562.

Nos resultados oficiais do último Pisa, divulgados em dezembro do ano passado, entre os 65 países comparados, o Brasil ficou em 58º lugar em matemática, 55º em leitura e 59º em ciências. Perdemos posições nas três áreas, em relação à prova anterior.

Para a pedagoga Paula Louzano, da Faculdade de Educação da USP, os péssimos resultados dos estudantes brasileiros são reflexo do atraso da agenda da educação brasileira em comparação ao resto do mundo.

"Começamos tarde na agenda da inclusão, agora estamos tentando entrar na agenda da qualidade - enquanto os paises desenvolvidos estão na agenda da equidade", disse em debate sobre a educação brasileira realizado pelo jornal O Estado de S. Paulo nesta semana. 

Das centenas de soluções apontadas para melhorar a situação, veja a seguir quatro apontadas por especialistas como prioritárias para que seja possível um salto de qualidade educacional.

1. Escolas de verdade


Só 15% das escolas do Brasil podem ser consideradas escolas no melhor sentido do termo. Isto é, têm sala de professores, sala de diretor, salas de aula suficientes, biblioteca, sala de informática e quadra esportiva - e isso sem nem entrar no mérito da qualidade desses ambientes. 

Segundo Louzano, quase metade das escolas não tem nem sala de professor. "Como se faz um trabalho em equipe se não tem nem espaço para reunir os professores?", questiona a pedagoga. 

2. Envolvimento dos pais na briga pela educação de qualidade
Para Gustavo Ioschpe, economista especializado em educação, enquanto os pais não encabeçarem a briga pela melhoria do ensino, a situação não vai mudar. 

"A maioria das pessoas, tanto da população comum quanto das que estão dentro do sistema educacional, não se importam se as escolas educam ou não as crianças. Elas enxergam a escola como uma forma de tirar as crianças da rua e alimentá-las. O resultado educacional é uma consequência secundária", disse o economista no debate desta semana.

Segundo Ioschpe, embora os pais saibam que uma boa educação é importante para o futuro de seus filhos, eles ainda não se deram conta de que a escola brasileira é muito ruim. 

Uma pesquisa do Inep com pais de alunos da escola pública revelou que a qualidade do ensino da escola do filho merecia, na avaliação deles, nota média de 8,6, de um total de 10.

"Esses pais precisam saber que os filhos deles estão recebendo uma educação ruim e que isso não vai mudar sem a cobrança deles", afirmou o economista.

Para ele, a questão envolve saber como chegar a esses pais porque eles estão excluídos das discussões sobre o rumo da educação no país, quando deveriam ser os personagens principais. 

3. Padrão de qualidade para a formação dos professores
"Cada vez mais estamos nos despreocupando em estabelecer um padrão de qualidade nos cursos de formação de professores", disse Paula Louzano.

Segundo ela, mais de um terço dos professores brasileiros atualmente são formados em cursos à distância, sem nenhuma prática em sala de aula. Não é esse o padrão nos países com os melhores sistemas educacionais.

"Na relação de professor e aluno, a tarefa dada pelo professor, seu monitoramento e acompanhanmento são fundamentais para que o ensino seja efetivo", diz a pedagoga.

É essa relação que precisa ser melhorada. 

O caminho, na opinião de Louzano, não poderia ser outro senão investindo no professor - da formação universitária à carreira. Para melhorar a formação é preciso haver um controle da qualidade dos cursos de Pedagogia que estão sendo oferecidos pelas universidades e priorizar os cursos presenciais.

Os baixos salários também são parte central no processo de valorização da profissão, mas Paula destaca que mais que um aumento salarial, o professor precisa de apoio para não desistir da carreira.

4. Currículo nacional desafiador
Outro grande problema que emperra o desenvolvimento da educação no país é a inexistência de um currículo nacional unificado que determine aquilo que se deve aprender e quando.

Além disso, o currículo que se tem (ou pelo menos o que é cobrado nas provas nacionais de avaliação, como a Prova Brasil e o Enem), carecem de um caráter desafiador.

Enquanto no Canadá, 9 em cada 10 alunos do 7º ano do ensino fundamental conseguem resolver uma equação básica, no Brasil apenas 16% dos alunos do 9º ano têm o mesmo desempenho. 

Abatimento anual com educação no IR equivale a uma mensalidade escolar

Bianca Pinto Lima e Gustavo Santos Ferreira 
O Estado de S. Paulo

Índice usado para reajustar as cobranças das escolas acumula alta de 335% desde 1996, ante correção de 90% no valor da dedução 

SÃO PAULO - O limite anual para abatimento de gastos com educação no Imposto de Renda (IR) já se aproxima do valor de uma única mensalidade nas principais escolas do Brasil. Na declaração deste ano, pode-se deduzir até R$ 3.230 da base de cálculo do tributo, considerando apenas esse benefício. O montante é similar ao cobrado por mês nos colégios mais bem classificados no último Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), divulgado em novembro de 2013.

O Colégio Bernoulli, de Minas Gerais, ocupa o topo do ranking e tem mensalidade para o terceiro ano de R$ 1.459 - quase metade da dedução anual. No terceiro lugar da lista, o fluminense São Bento exige desembolso mensal de R$ 2.807. Já o paulistano Vértice, o quarto mais bem posicionado, cobra R$ 3.854, valor 19% superior ao abatimento permitido no IR. Essa classificação considera instituições em que mais de 50% dos alunos realizaram a prova do Enem.

Esse descasamento entre as mensalidades e o valor da dedução, válida para um ano inteiro, resulta da falta de reajustes que compensem totalmente os efeitos inflacionários dos últimos anos.

Entre 1996 e 2001, não houve reajustes no IR - tanto dos benefícios fiscais como das faixas de cobrança da tabela progressiva. Nos anos seguintes, quase todos as elevações foram inferiores às variações do IGP-M (índice de inflação utilizado pela maioria das escolas para calcular as mensalidades) e do IPCA (índice oficial usado como referência pelo governo).

Assim, nos últimos 17 anos, o IGP-M subiu 335% ante correção de apenas 90% na dedução.


O valor do abatimento com educação em 1996 era de R$ 1.700. Caso esse montante tivesse sido corrigido pelo IGP-M até 2013, hoje seria possível deduzir R$ 7.389 ou 129% a mais que o teto atual. Já se o IPCA fosse considerado no período, o total a ser abatido seria de R$ 5.213 (61% a mais) - veja o gráfico acima. Os cálculos foram realizados a pedido do Estado pelo professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Fernando Zilveti.

Procurada pela reportagem, a Receita Federal não quis se pronunciar sobre o assunto.

‘Efeito devastador’. Para Zilveti, o efeito dessa defasagem é devastador: "O brasileiro está pagando mais impostos, e sobre o que não é renda". Conforme diz, renda é a sobra de dinheiro após os gastos com serviços básicos, como educação e saúde. "Além disso, a dedução deveria funcionar como um atrativo para o contribuinte investir em conhecimento", diz.

O Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Sindifisco) defende que a correção dos abatimentos com educação considere o gasto médio por aluno da rede pública. De acordo com o presidente do sindicato, Claudio Damasceno, a ideia é que o reajuste seja feito ao longo de dez anos, de modo gradual. "Assim não haveria tanto impacto sobre a arrecadação federal e devolveria um pouco de justiça tributária ao contribuinte", afirma. Se a nova norma começasse a valer no ano que vem, o limite de dedução para esses gastos alcançaria cerca de R$ 21 mil em 2024.

Baseado nessa proposta, um projeto de lei de deputados da base de governo e da oposição deve ir à votação em maio na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara. Fora a correção do teto para educação, o texto prevê ajuste de 61,42% para a tabela progressiva do IR.

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) apoia a iniciativa e vai além: defende que não haja limite máximo para o abatimento com a educação. Atualmente, apenas as deduções com despesas médicas não têm um teto preestabelecido. "A educação é um bem essencial, previsto constitucionalmente, tal qual a saúde", afirma o presidente da OAB, Marcus Vinicius Furtado Coêlho.

A OAB tem dois processos sobre o tema correndo no Supremo Tribunal Federal. Um, sob relatoria da ministra Rosa Weber em caráter prioritário, exige o fim do teto do IR para educação. Outro, nas mãos do ministro Luís Roberto Barroso, pede que a tabela seja corrigida pela inflação oficial, o IPCA.

Restrições. 
Fora a defasagem no valor do abatimento, existem limitações ainda em relação às despesas dedutíveis. Material didático, transporte escolar e uniforme, por exemplo, não são considerados pelo Fisco como despesas com instrução. O mesmo serve para cursos de línguas e preparatórios (vestibular e concurso) e programas de intercâmbio.

A lista atual de abatimentos está restrita às anuidades e mensalidades de educação infantil (incluindo creches e pré-escolas); ensinos fundamental, médio e superior (graduação, pós-graduação, mestrado, doutorado e especialização); e educação profissional (ensinos técnico e tecnológico).

"O trabalhador assalariado, que tem desconto na fonte, é o principal prejudicado. Ele antecipa o imposto ao governo e só recebe um ano e meio depois sem parte da correção, devido exatamente a essa defasagem", destaca Zilveti, da FGV.

Para lembrar. 
O prazo para a temporada do IR 2014 acaba nesta quarta-feira, 30. Quem não declarou ainda, tem de correr para organizar os documentos e baixar os programas no site da Receita Federal . Veja dez erros que podem levar à malha fina.

O contribuinte que perder o prazo (23h59 do dia 30) paga multa de 1% ao mês sobre o imposto devido, sendo valor mínimo de R$ 165,74. O Fisco espera receber um total de 27 milhões de declarações neste ano - 1 milhão acima do registrado em 2013. Até a última sexta, 10 milhões ainda tinham de prestar contas.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Para o governo não há limites para confiscar, por todos os meios, os ganhos dos trabalhadores brasileiros. E a defasagem acima mostrada pela reportagem, é prova inconteste de que a educação, para eles, jamais será prioridade. Governam contra o povo e contra o país.

O setor tecnológico rejeita a ideia de acabar com a neutralidade na rede

Cristina F. Pereda 
El Pais

A ampla rejeição à proposta da FCC para acabar com o princípio de neutralidade que orientou a rede até agora

As grandes operadoras de internet dos Estados Unidos mantêm sua defesa do princípio de neutralidade da rede, em xeque desde que veio à tona que a Comissão Federal de Comunicações (FCC, na sigla em inglês) cogita acabar com ele. As novas normas, pendentes de votação no próximo 15 de maio, podem criar uma internet de “duas velocidades”, em que grandes corporações possam pagar para que seus conteúdos tenham uma maior velocidade de download.

Em uma troca de acusações entre a Comcast, um dos principais fornecedores de televisão a cabo e internet, e o Netflix, bem-sucedido serviço de streaming, a operadora alegou que nenhuma empresa jamais defendeu a neutralidade nos EUA como ela. “Continuamos comprometidos com o acesso dos nossos usuários a uma rede aberta e livre, e respaldamos que a FCC crie as regras pertinentes para que esse acesso esteja juridicamente protegido”, afirma a companhia em um comunicado.

O princípio de neutralidade na rede foi garantido desde o momento da criação da internet, para que todos os usuários pudessem acessar todos os conteúdos de maneira igualitária. Essa condição sempre foi defendida como sendo uma garantia de inovação e florescimento de empresas e iniciativas na rede, incluindo muitas companhias que, como Google, Facebook e Amazon, passaram a líderes em seus setores poucos anos depois de surgirem em um canto qualquer do país.

O jornal The New York Times, depois de vir a público a possível mudança de regras, condena em seu editorial desta sexta-feira a possibilidade de as futuras regras criem um novo conceito de rede. “Elas dariam às empresas fornecedoras de banda larga o direito a criar o equivalente digital às pistas para veículos de alta ocupação, como Netflix ou Amazon, que tenham suficiente riqueza para pagar o pedágio.”

O Times cita, além disso, uma das grandes preocupações dos principais detratores dessa mudança e alerta que “sem dúvida nenhuma” as empresas que concordarem em desembolsar mais por uma velocidade mais rápida “acabarão transferindo esse pagamento aos consumidores”. Já o The Washington Post, propriedade do Jeff Besos – também dono da Amazon, empresa que poderia ter interesse na dupla velocidade –, explica que a mudança anunciada pela FCC “pode modificar dramaticamente a experiência on-line dos usuários”.

Tais queixas se unem às pronunciadas por numerosos empreendedores norte-americanos. Marco Arment, um dos fundadores do Tumblr e depois responsável pelo Instapaper, afirma que a FCC permitirá aos fornecedores “desacelerar de maneira seletiva o tráfego do qual não puder se beneficiar economicamente”. O especialista Dan Gilmor vai um passo adiante ao observar que a mudança pode alterar o futuro político dos EUA , já que as operadoras poderão determinar quais conteúdos – como o das redes de televisão – serão baixados mais rapidamente.

Uma das críticas mais contundentes à guinada que a FCC pretende adotar foi feita por Tim Wu, especialista na regulamentação da internet e autor do livro The Master Switch, onde cunhou o termo “neutralidade na rede”. Wu escreve na The New Yorker que as novas regras podem ser definidas como “discriminatórias” e ameaçam “fazer da internet um reflexo de outros âmbitos na sociedade norte-americana: de tamanha desigualdade, ela ameaça profundamente o progresso em longo prazo”.

Wu afirma que as grandes operadoras defenderam na última década o seu direito a criar diferentes velocidades de acesso à rede, algumas mais rápidas em detrimento de outras mais lentas. “Infelizmente, o presidente da FCC está a caminho de violar uma das promessas principais aos inovadores, ao setor da tecnologia e a todos os usuários da internet”, escreve o professor da Universidade Columbia.

A FCC alegou nesta semana que não pretende acabar com o princípio de neutralidade, e sim ajustar sua regulamentação às exigências do sistema judicial, expostas numa sentença proferida em janeiro. Na ocasião, os juízes consideraram que a Comissão excedeu suas atribuições e deram ganho de causa à Verizon, que reivindicava numa ação judicial o direito de criar diferentes velocidades de download. As novas normas serão votadas pelos conselheiros da FCC no próximo dia 15.