segunda-feira, maio 05, 2014

Ponto morto

Míriam Leitão e Alvaro Gribel  
O Globo

Não há uma crise no setor automobilístico. Aconteceu o previsto. A redução de impostos provocou antecipação de compras e agora as montadoras estão tendo um ano mais fraco. Além disso, a queda é principalmente nas exportações, e dar garantias para que um país em crise cambial importe carros do Brasil é uma insensatez. A decisão sobre isso está suspensa, por enquanto.

O governo já deixou claro que dará benefício às empresas e pressiona os bancos a liberarem mais crédito. Mas a inadimplência dobrou quando as vendas podiam ser feitas em 60 meses sem entrada.

No quarto ano seguido de PIB fraco, o governo está preocupado com o desempenho do setor automobilístico, principalmente porque é ano eleitoral. As vendas caíram 1,68% no primeiro trimestre e a produção recuou 8%, pela perda de fôlego da demanda interna e pelos problemas da Argentina. Com isso, outros setores da economia sentem os efeitos indiretos, como as siderúrgicas, que produzem aço, e os fabricantes de vidro e borracha.

Estimular novamente as vendas, para criar um novo ciclo de crescimento, vai trazer de volta velhos problemas. Não faz muito tempo, a inadimplência da carteira de veículos disparou. Subiu de 3,6%, em março de 2011 (início da nova série do Banco Central), para 7,23%, em junho de 2012. Os bancos e as próprias financeiras ligadas às montadoras se assustaram e fecharam a torneira do crédito. Foi exigido uma entrada maior para a compra do automóvel, e o prazo para o pagamento, que chegou a 60 meses, foi reduzido. As medidas deram resultados e a inadimplência recuou para 5,04%. Ainda alta, mas em queda em relação ao pico.

A pressão do governo para que os bancos aumentem a oferta de crédito não chega em boa hora. Os atrasos de até 90 dias nos pagamentos de veículos deram um salto em março. Subiram de 7,4% para 8,5%. Esse é um indicador antecedente da inadimplência, que passa a ser registrada quando o atraso ultrapassa três meses. Ou seja, mesmo com as regras mais rígidas, há risco de um novo repique à frente.

Os financiamentos de automóveis triplicaram nos últimos cinco anos. O saldo total de crédito concedido com esse objetivo saiu de R$ 60 bilhões, em 2007, para 193 bilhões em 2012. Uma alta de 221%. De lá para cá, entrou em estagnação e caiu para R$ 189 bilhões em março. O que tem incomodado as montadoras é que os novos financiamentos caíram 15% no primeiro trimestre deste ano em relação ao quatro do ano passado. O número foi 8% maior que o do mesmo período de 2013.

As vendas externas de carros caíram 32% no primeiro trimestre deste ano, segundo dados da Anfavea. Em dólares, a redução foi de 15%, com uma redução de receita de US$ 3,4 bilhões para US$ 2,9 bilhões, incluindo veículos e máquinas agrícolas. Com isso, os estoques subiram de 37 dias para 48, o que levou muitas montadoras a darem férias coletivas e adotarem programas de demissão voluntária. O problema é a crise cambial na Argentina e quanto a isso o Brasil nada pode fazer. Até mesmo executivos do setor são céticos de que as negociações entre os dois governos vão resolver o problema. A crise no país vizinho tem raízes profundas.

O número de carros nas ruas subiu muito, nos últimos anos. A venda anual de veículos saltou de 1,3 milhão, em 2002, para 3,6 milhões, em 2013. Quase triplicou. Poucas foram as obras de infraestrutura, nesse período, para melhorar as condições de tráfego e estacionamentos.

O governo já fez amplos pacotes de apoio às montadoras. Aumentou barreiras de importação, reduziu IPI e subsidiou o preço do combustível, por meio da Petrobras. A cada número negativo, a indústria vai a Brasília. Fazer novos pacotes não resolverá o problema do setor nem do baixo crescimento do país.

Contas maquiadas, de novo

O Estado de S.Paulo

Começou mais cedo neste ano a maquiagem das contas públicas, truque usado de forma cada vez mais escancarada pelas autoridades federais. Para fechar o balanço de março com superávit primário de R$ 3,12 bilhões, o governo central contabilizou R$ 2,99 bilhões de dividendos e R$ 10,5 milhões de receitas de concessões, além de R$ 2,4 bilhões da taxa de fiscalização da Anatel. Sem os dois primeiros componentes da maquiagem, o resultado primário - antes do pagamento de juros - teria sido praticamente nulo. Sem o terceiro, teria ficado no vermelho. O truque serviu também para tornar menos feios os números do primeiro trimestre, mas ainda foi insuficiente para ocultar a degradação das finanças federais.

As contas oficiais do governo central mostram um superávit primário de R$ 13,05 bilhões acumulado de janeiro a março. Esse resultado, 34,63% menor que o do primeiro trimestre do ano passado, já bastaria para mostrar o agravamento de um quadro fiscal já muito ruim em 2013. Mas o cenário real é ainda mais preocupante.

Isso fica evidente quando se eliminam do cálculo as receitas extraordinárias. Só de dividendos o Tesouro acumulou nos primeiros três meses R$ 5,89 bilhões. Esse valor é 667,6% maior que o registrado entre janeiro e março de 2013. Essa diferença basta para denunciar o truque. A receita de concessões, de R$ 765,3 milhões, foi 152,4% maior que a de igual período de 2013. A soma dos dois itens (R$ 6,65 bilhões) equivale a 51% do resultado primário contabilizado para o governo central - Tesouro, Previdência e Banco Central (BC).

A piora das contas federais ocorreu apesar do aumento da arrecadação. A receita total do trimestre, de R$ 305,94 bilhões, foi 11,8% superior à de um ano antes. A receita líquida - depois das transferências a Estados e municípios - chegou a R$ 248,33 bilhões e ficou 10,6% acima da contabilizada no trimestre inicial de 2013. Mas o aumento das despesas chegou a 15,1%. A folha de salários e encargos consumiu R$ 5,71 bilhões a mais que no ano anterior, com expansão de 12,3%. À Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) foram destinados R$ 2,77 bilhões, para cobertura parcial dos custos da desastrosa política de tarifas adotada pela presidente Dilma Rousseff. Nos primeiros três meses de 2013 nenhum centavo havia sido gasto com essa conta. O total aplicado no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), R$ 15,45 bilhões, foi 56,8% superior ao dos primeiros três meses do ano anterior. Mas a diferença, de R$ 5,6 bilhões, foi menor que o aumento da folha de pessoal.

As contas consolidadas do setor público, divulgadas pelo BC, também continuam em mau estado. O resultado primário do governo central, dos governos de Estados e municípios e das estatais chegou a R$ 25,63 bilhões no primeiro trimestre. O acumulado em 12 meses, de R$ 86,22 bilhões, correspondeu a 1,75% do Produto Interno Bruto (PIB) estimado. A meta do ano é um superávit primário equivalente a 1,9% do PIB. Esse resultado, a julgar pelos números conhecidos até agora, dependerá de mais arranjos contábeis.

Os cálculos do BC, baseados nas necessidades de financiamento do setor público, produzem números ligeiramente diferentes daqueles divulgados pelo Tesouro. Pelos valores consolidados, o superávit primário do governo central, de R$ 12,32 bilhões, correspondeu a apenas 44% da meta fixada para o primeiro quadrimestre, de R$ 28 bilhões. Para atingir essa meta o governo central teria de conseguir só em abril um saldo primário de R$ 15,68 bilhões. O resultado consolidado do primeiro trimestre foi parcialmente salvo pelos governos estaduais e municipais, com superávit de R$ 13,19 bilhões, quase igual ao de um ano antes e superior, em 2014, ao do governo central.

O secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, prometeu um resultado bem melhor em abril. Mas números melhores num ou noutro mês fazem pouca diferença. Para deter a indisfarçável deterioração das contas públicas, o governo teria de mudar sua política, agir com responsabilidade e aumentar drasticamente sua eficiência. Para isso, teria de violar os padrões de governo consolidados em mais de uma década.

Contribuinte paga até R$ 7 mil a mais de Imposto de Renda

Clarice Spitz 
O Globo

Apesar do reajuste de Dilma, tabela continua defasada
Sindifisco calcula que menos 1 milhão deveriam pagar

Reprodução 
Imposto de Renda 2014 

RIO - Apesar do alívio anunciado pela presidente Dilma Rousseff de correção na tabela do Imposto de Renda (IR) em 2015, o contribuinte brasileiro está pagando de R$ 1.500 a R$ 7.384 a mais por ano para o Leão, fruto da defasagem na correção da tabela. A estimativa é do advogado tributarista Ilan Gorin, que leva em conta uma defasagem que já atinge 61,42%, entre os anos de 1996 e 2013, calculados pelo Sindicato Nacional dos Auditores da Receita Federal (Sindifisco).

As simulações feitas pelo tributarista a pedido do GLOBO valem para salários que variam de R$ 3.800 a R$ 15 mil mensais. Um contribuinte que recebe R$ 5 mil, por exemplo, teria 52,5% a menos de imposto retido na fonte, se não houvesse defasagem. Na prática, significa que ele desembolsaria R$ 6.825 a menos por ano ou R$ 525 por mês. Esses cálculos embutem descontos com dois dependentes e com o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) em valores de R$ 580 e R$ 418, respectivamente.

No caso de um contribuinte com salário de R$ 10 mil por mês, a parcela retida a cada ano seria 33,56% menor, o que significaria uma "mordida" de R$ 568 a menos por mês. No ano, a economia chegaria a R$ 7.384.

Na véspera do 1º de Maio, a presidente foi para a TV anunciar a correção da tabela do IR em 4,5% em 2015, entre outras benesses, como o reajuste do benefício do Bolsa-Família e a manutenção da política de valorização do salário mínimo. O alívio com a correção anunciada será de R$ 483,21 por ano para quem ganha de R$ 5 mil para cima.

Apesar de a correção tomar como base o centro da meta perseguida pelo Banco Central, a inflação oficial medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) está mais próxima do teto (de dois pontos percentuais para cima), em 6,15% nos últimos 12 meses terminados em março, segundo divulgado pelo IBGE.

A defasagem na tabela do IR, no entanto, foi maior dentro do período de governo do tucano Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Entre 1996 e 2001, não houve correção alguma da tabela, enquanto o IPCA acumulou alta de 45,68%.

Entre 2002 e 2013, a defasagem da tabela foi de 30,19%, já a inflação oficial acumulou variação de 110,49%. Foram dadas algumas correções pontuais, como a de 17,5%, em 2002. Seguida por nova pausa e novas correções em 2005, de 10% e, em 2006, de 8%. De 2007 a 2013, o percentual de correção ficou em 4,5% por ano.

— A defasagem de 61,42% tem dois terços até 2001 e um terço depois. É o acúmulo de defasagens ao longo do tempo. Faria sentido reajustar em pelo menos 6,5% a tabela em 2015. O governo deveria ser mais realista — afirma Gorin.

Na simulação do tributarista, o limite de isenção, caso não houvesse defasagem saltaria de R$ 1.868,22, previstos em 2015, para R$ 2.885. A renda limite na faixa sobre a qual incide alíquota de 7,5% sairia de R$ 2.799,86 para R$ 4.324. Na faixa seguinte, com alíquota de 15%, o novo limite superior ficaria em R$ 5.765, contra R$ 3.733,19, que passará a valer com a correção de 4,5%.

Defasagem rende R$ 28 bi ao governo
Segundo o vice-presidente do Sindifisco, Ayrton Bastos, um cálculo que levasse em conta a correção de 6,5%, significaria uma redução de cerca de 1 milhão de pessoas que foram incluídas na base de contribuintes da Receita em 2013. Bastos argumenta que desde 2007, quando a tabela começou a sofrer correções anuais de 4,5%, a inflação se manteve na banda superior da meta na maior parte das vezes: em cinco anos, esteve próxima de 6%.

O tributarista Gorin calcula que a defasagem do IR representa, somente em 2013, uma arrecadação adicional de R$ 28 bilhões aos cofres públicos, já descontadas a variação da inflação de 206% e a evolução do Produto Interno Bruto (PIB) do período de 60%.

O presidente executivo do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), João Eloi Olenike, vê uma injustiça na defasagem da tabela.

— É vergonhosa essa defasagem. Se fosse uma empresa, seria apropriação indébita — opina Olenike.

Ayrton Bastos vê disparidades no posicionamento do governo frente ao pacote de bondades. Segundo seus cálculos, se o governo optasse por repor as perdas de inflação em 2015, com uma correção de 6,5%, teria um gasto próximo aos R$ 2,2 bilhões que serão despendidos para se elevar em 10% os benefícios do Bolsa-Família.

Pasadena desmente Dilma

O Estado de S.Paulo

Em dado momento da sua fala de ostensivo tom eleitoral em rede de rádio e de TV, na véspera do Dia do Trabalho, a presidente Dilma Rousseff apregoou o seu empenho no combate à corrupção. "O que pode envergonhar um país não é apurar, investigar e mostrar." (…) "É varrer tudo para baixo do tapete." Até aí tudo bem: ela precisa mesmo polir a lembrança da "faxina ética" do começo de seu mandato. O curioso é que se alongou no assunto apenas para chamar à cena a Petrobrás, que "jamais vai se confundir com atos de corrupção ou ação indevida de qualquer pessoa".

A estatal foi empurrada para o noticiário pela confissão da própria Dilma, em março último, de que, na presidência do Conselho de Administração da empresa, aprovou em 2006 a sua associação a um grupo belga na Refinaria de Pasadena com base em nada mais do que um breve parecer. Dois anos depois, viria a descobrir que o texto era "técnica e juridicamente falho". Como se tornou amplamente sabido, a petroleira acabou enterrando na destilaria US$ 1,24 bilhão, com prejuízo contabilizado de US$ 530 milhões. Em 2012, oEstado havia trazido à tona as linhas gerais da transação.

O Ministério Público Federal, a Polícia Federal e o Tribunal de Contas da União abriram investigações sobre o caso - os primeiros focalizando eventual superfaturamento e evasão de divisas, o último voltado para possível negligência e gestão temerária na condução do negócio. Ou seja, "atos de corrupção ou ação indevida", como afirmou Dilma no seu pronunciamento. Mas Pasadena desmente as suas palavras. A presidente não só não tomou nenhuma iniciativa em sua alçada para deslindar o imbróglio e "lutar para que todos os culpados sejam punidos com rigor", como alardeou na TV sobre corrupção em geral, mas luta ainda, isso sim, contra a CPI da Petrobrás.

Só que ela está perdendo a batalha. A Justiça degolou a manobra governista de diluir o inquérito sobre Pasadena e a gastança nas obras da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, proposto pela oposição, misturando-os a escândalos tucanos em São Paulo. Fracassou também a tentativa petista de impedir que os deputados participem da investigação surgida no Senado, onde o Planalto tem folgada maioria para mantê-la sob controle. Sob forte pressão do presidente da Câmara, Henrique Alves - e ameaças de retaliação -, o presidente do Senado, Renan Calheiros, que vinha jogando em parceria com Dilma, concordou com a ideia de acrescentar uma CPI mista à original.

A presidente alega que o intento da oposição é armar um circo para desestabilizá-la e usar contra ela, na campanha eleitoral, os eventuais percalços da Petrobrás. Ainda que fosse verdade, ela não pode se desvencilhar pessoalmente do bilionário fiasco de Pasadena. Primeiro, porque, se tudo o que estava a seu alcance a respeito do contrato que dependia do aval do Conselho da empresa era um resumo de página e meia, ela deveria ter exigido mais informações antes de se comprometer com um investimento daquela envergadura. Em segundo lugar, como apontou a representação do Ministério Público no Tribunal de Contas, Dilma tornou a errar em detrimento da Petrobrás.

De fato, em 2008, ela vetou a compra da metade da refinaria ainda em posse dos belgas, como exigiam com base numa das cláusulas que o resumo omitira e que só então Dilma veio a conhecer. Ao desacatar o "direito líquido e certo" da associada, dizem os procuradores, ela arrastou a estatal a um litígio que terminou com a Justiça americana dando razão à recorrente, o que obrigou a petroleira a gastar em despesas legais US$ 173 milhões, que de outro modo teriam ficado nos seus cofres. Por fim, pesa contra a presidente o affair Nestor Cerveró, o autor do parecer cujas falhas ela viria a invocar. O diretor internacional foi então transferido para a BR Distribuidora. Demitido, só há pouco, seis anos depois.

Em audiência na Câmara dos Deputados, na última quarta-feira, a presidente da Petrobrás, Graça Foster, responsabilizou o Conselho - Dilma Rousseff, em última análise - pela permanência de Cerveró no grupo. Bem que o antecessor de Graça, José Sérgio Gabrielli, disse que a presidente "não pode fugir da responsabilidade dela". É disso que se trata.

Para TCU, Petrobras repetiu com Pasadena os erros de termelétricas

O Globo

Tribunal de Contas da União aponta semelhanças de contratos com usinas de energia e o da refinaria do Texas

Auditores apontaram desequilíbrio na distribuição dos riscos

Agência Petrobras 
A refinaria Pasadena, da Petrobras, nos Estados Unidos 

RIO - As condições desfavoráveis do contrato de compra da refinaria americana de Pasadena pela Petrobras guardam muitas semelhanças com as de outro negócio conduzido por Nestor Cerveró, ex-diretor internacional da estatal, que também terminou em prejuízo bilionário. Cinco anos antes de negociar Pasadena com a belga Astra Oil, Cerveró esteve à frente da participação da estatal em consórcios para a construção de três usinas termelétricas, entre 2001 e 2002.

Os detalhes desses contratos mostram erros parecidos com os cometidos depois na aquisição da refinaria do Texas: exposição a riscos desequilibrados, garantia de remuneração aos parceiros, omissão de documentos e um litígio que terminou com a compra de100% das usinas a um custo de R$ 4 bilhões, bem mais do que valiam.

Conforme revelou O GLOBO, os contratos da Petrobras com os investidores privados das usinas Macaé (atual Barbosa Lima Sobrinho) e Eletrobolt (atual Mário Lago), no Estado do Rio, e Termoceará, no Ceará, foram objeto de uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) iniciada em 2007. As donas das usinas eram, respectivamente, as americanas Enron e El Palso e a brasileira MPX, do empresário Eike Batista, escolhidas sem licitação.

Segundo o TCU, essas empresas receberam R$ 2,8 bilhões da Petrobras entre 2001 e 2006 por causa de uma cláusula que obrigava a estatal a garantir o lucro delas. O valor é mais do que o dobro do que a estatal teve de pagar mais tarde para comprar as usinas e estancar a sangria financeira: R$ 1,2 bilhão. No final das contas, as três térmicas custaram à estatal R$ 4 bilhões, pelo menos quatro vezes o que elas valiam quando foram compradas pela Petrobras, entre 2005 e 2006.

Os ministros do TCU confirmaram a conclusão dos auditores de que houve "ato de gestão temerária e antieconômico" na negociação dos contratos, em julgamento de 2010, com exposição da empresa a "riscos desnecessários". Porém, só agora o processo entrou na fase final, em que será julgada a responsabilidade de cada um dos executivos envolvidos.

Cerveró é apontado como um dos responsáveis porque era o coordenador do programa de geração térmica da Petrobras no final do governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Na época, ele era gerente executivo da diretoria de Gás e Energia, então ocupada pelo senador Delcídio Amaral (PT-MS), também responsabilizado. Nove executivos subordinados a eles ou que os substituíram, além dos ex-presidentes da Petrobras Henri Phillipe Reichstul e Francisco Gros (falecido em 2010), também são alvo da auditoria.

Quando os contratos foram assinados, o país enfrentava uma crise energética semelhante à atual, com baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas. Porém, não havia geradoras térmicas suficientes para manter o abastecimento. A Petrobras foi convocada pelo governo para tocar um programa emergencial de termelétricas para aumentar a geração de energia elétrica na iminência de um racionamento.

A estatal ofereceria estímulos para que investidores construíssem, em pouco tempo, térmicas a gás para vender energia no mercado livre de curto prazo, o chamado "spot".

Os auditores do TCU constataram que foram oferecidas vantagens demais. A Petrobras assumiu quase todos os riscos dos empreendimentos. Sem ser sócia das térmicas ou investir na construção, assinou contratos com o compromisso de fornecer o gás natural, combustível das usinas, e cobrir os custos operacionais se elas não dessem lucro.

A estatal se comprometeu a pagar pelo retorno do capital investido nas usinas nos primeiros cinco anos de operação com rentabilidade de 12% ao ano. Essa garantia, para os auditores, era fora dos padrões do setor. Projetos similares geralmente são amortizados em 20 anos. "Um retorno de um investimento deste porte em cinco anos não é razoável", escreveram os técnicos.

O pior cenário para a Petrobras foi o que aconteceu.

Lucro tinha prioridade até sobre o gás fornecido
Na auditoria do TCU, os técnicos destacam um agravante do que chamam de “desequilíbrio” dos riscos assumidos pela Petrobras com as termelétricas. Os contratos deram prioridade ao lucro dos investidores até sobre o fornecimento de gás. Se não houvesse receita suficiente para remunerar os donos, as usinas não pagavam pelo gás. Por outro lado, se as térmicas tivessem lucro acima do piso, a estatal participaria só de 50% desses ganhos, com exceção da usina Macaé, onde a fatia seria ainda menor: 25%.

Em 2003, no início do governo Lula, a Petrobras tentou rever os contratos para reduzir as perdas, sem sucesso. A estatal enfrentou as usinas num processo de arbitragem que só terminou com um acordo: a estatal teve de comprar 100% da Eletrobolt e da Termoceará, em 2005 e da Macaé, em 2006.

O desfecho é parecido com o de Pasadena, no qual os contratos garantiram aos sócios belgas um rendimento mínimo de 6,9% ao ano, num mercado de muita oscilação. Divergências entre Petrobras e Astra em 2008, quando as margens de lucro de refino despencaram nos EUA, geraram processo arbitral: a brasileira foi forçada a cumprir a cláusula que a obrigava a comprar a outra metade da refinaria.

A Petrobras gastou US$ 1,9 bilhão. A estatal já reconheceu um prejuízo contábil de US$ 530 milhões, mas desistiu de vender a refinaria porque não teve oferta superior a US$ 200 milhões.

Dois contratos não tinham estudo de viabilidade
A presidente Dilma Rousseff acusou o ex-diretor Nestor Cerveró de omitir do Conselho de Administração da Petrobras, que ela presidia em 2006, cláusulas que poderiam ter impedido a compra de Pasadena. No caso das térmicas, também faltaram informações importantes para a aprovação da diretoria e do conselho. Ao requisitar os estudos de viabilidade técnica e econômica que basearam os contratos, os auditores descobriram que não existiam os da Eletrobolt e os da Termoceará. A Petrobras só entregou o da térmica de Macaé e um estudo das três usinas com data posterior à assinatura dos contratos.

Ao TCU, a Petrobras informou que não foram feitos estudos específicos para as duas térmicas porque o de Macaé serviu de base para as outras duas. Para os auditores, a justificativa “não é plausível” já que as usinas tinham características diferentes. Eles frisam que o documento é “uma peça essencial” à avaliação dos contratos e que poderia ter evitado os consórcios ou subsidiado “negociação mais favorável”.

Em outra irregularidade, os executivos assinaram compromissos com a MPX para a Termoceará sem autorização da diretoria ou análise do jurídico da estatal, como é praxe. Esses documentos impediram que a Petrobras desistisse de firmar o contrato em 2002, quando o preço da energia caía e as outras usinas já davam prejuízo. Nesse caso, Cerveró e Delcídio não são responsabilizados porque deixaram a diretoria antes da assinatura desse contrato.


Sem manutenção, portos limitam entrada de navios

Renée Pereira
O Estado de S. Paulo

Programa federal de dragagem, lançado em 2007, custou R$ 1,6 bilhão, mas não teve o resultado esperado pelo governo

São Paulo - O investimento bilionário feito pelo governo federal nos últimos anos não foi capaz de ampliar a capacidade da maioria dos portos para receber a nova geração de navios. Sem manutenção adequada, alguns portos já perderam o ganho obtido com a dragagem de aprofundamento, que custou R$ 1,6 bilhão aos cofres públicos, segundo dados da Secretaria de Portos (SEP).

Cada um centímetro perdido na profundidade do canal significa deixar de carregar, por exemplo, oito contêineres (ou R$ 24 mil) por navio. Quanto maior a profundidade de um porto, maior é o tamanho das embarcações que podem atracar nele - ou seja, mais produtos podem ser carregados numa única viagem e menor tende a ser o custo logístico.

As limitações, no entanto, têm afetado portos como Santos (SP), Salvador (BA), Itapoá (SC) e Rio Grande (RS), entre outros. Quase todos passaram por obras do Programa Nacional de Dragagem (PND), lançado em 2007 para adequar os portos à nova frota de navios. Pelas regras da época, o governo federal ficava responsável pela dragagem de aprofundamento e as Companhias Docas, que administram os portos, fariam a manutenção. "Mas o resultado não foi o esperado", afirma o secretário de infraestrutura portuária da Secretaria de Portos, Tiago de Barros Correia.

Segundo ele, o PND I foi um aprendizado, com alguns casos emblemáticos de contratos, problemas de execução da obra e dificuldades de homologação da nova profundidade. No Porto de Rio Grande, por exemplo, a dragagem dos canais ainda não trouxe grandes resultados.

As novas profundidades obtidas com a obra não foram homologadas pela Marinha, o que significa limitar a entrada de navios maiores no porto. Segundo a administração de Rio Grande, a homologação só deve ocorrer no segundo semestre de 2014.

Risco.
 "O governo investiu pesado para ampliar a capacidade do porto, mas com a falta de homologação, as áreas correm o risco de assorearem novamente", afirma o presidente da Associação Brasileira de Terminais Portuários (ABTP), Wilen Manteli. O próximo a aguardar a homologação da Marinha é o Porto de Santos, que teve de refazer a dragagem depois que uma ressaca assoreou o canal de acesso e reduziu o calado (distância da lâmina d’água até a quilha do navio) dos navios que atracam no estuário de 13,2 de até 12,3 metros.

A dragagem feita de forma emergencial foi concluída semana passada. A profundidade do canal foi para 15 metros, mas, para garantir a segurança, o calado autorizado tem de ser, pelo menos, 10% menor que a profundidade. A nova medida, no entanto, ainda dependerá de aprovação da Marinha. Neste momento, a Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp) está fazendo a batimetria do canal, que deve durar três semanas, e só depois o relatório será enviado para a Marinha.

Segundo Correia, da SEP, a dificuldade de homologação tem sido decorrente da falta de profundidade linear das áreas dragadas. "Como as máquinas são grandes, não conseguem entregar todas as áreas com 15 metros exatos, por exemplo. Alguns locais podem ter 16 metros, outros 14,9 metros. Por isso, a Marinha não homologa a nova profundidade."

Para um executivo do setor, que prefere não se identificar, as batimetrias realizadas no País fogem dos padrões recomendados pela Organização Hidrográfica Internacional (OHI, na sigla em inglês). "Sendo assim, é natural que a Marinha não abra mão da segurança, que é o que se espera dela."

Os problemas nos portos, no entanto, vão além da demora na homologação. Há um descompasso entre a profundidade dos terminais e dos canais de acesso - o que significa que os navios têm de obedecer à medida mais baixa. Em Santos, os berços de atracação tem profundidade que varia de 11,5 a 14 metros - o canal tem 15 metros.

Em Salvador e Aratu, a dragagem foi contratada para elevar a profundidade para 15 metros. "Mas a obra não foi completa e os usuários continuam reivindicando melhorias. Apenas um berço teve ampliação da profundidade para 13,9 metros. Os demais continuam com medidas entre 8 e 12 metros", afirma o diretor executivo da Associação dos Usuários de Portos da Bahia (Usuport), Paulo Villa. O secretário da SEP explica que houve casos, no PND I, em que a responsabilidade pela dragagem dos berços era da iniciativa privada ou das Companhias Docas.

No Porto Itapoá, em Santa Catarina, a situação é contrária: o berço de atracação tem 16 metros, mas o canal de acesso não passa dos 14 metros. A limitação fica ainda mais grave devido a uma restrição numa curva de 90 graus no canal que só permite navios com calado de 11 metros, explica o diretor do porto, Márcio Guiot. Assim, o terminal é obrigado a reduzir o calado dos navios que atracam em seu cais para 11 metros. Ou seja, os benefícios de se ter uma profundidade natural elevada estão perdidos.

O terminal privado, um dos mais modernos do País, está localizado na Baía da Babitonga, onde também há o porto público de São Francisco do Sul, que foi beneficiado pelo PND I. "Precisamos de uma readequação da largura do canal e uma suavização da curva. Eliminando as restrições, o ganho por navio poderia chegar a R$ 4,8 milhões", afirma Guiot.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Pois é, apesar dos problemas que afetam a competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional, fruto da falta de investimentos nos portos, o governo petista desvia mais de  1 bilhão de dólares em recursos públicos para portos no exterior. Primeiro foi Cuba, e agora já se anuncia no Uruguai. Cadê o interesse público em favor do país?

Obra milionária falha e navio sai de Santos meio vazio

Dimmi Amora
Folha de São Paulo

Uma obra de quase R$ 190 milhões para aumentar a profundidade dos canais de acesso ao porto de Santos não alcançou seu objetivo e tem obrigado navios a sair sem carregar toda sua carga.

O projeto, iniciado em 2009, era ampliar para 15 metros o chamado calado (distância entre o solo submarino e a superfície do mar) dos acessos aos terminais portuários. Com isso, navios maiores poderiam usar o porto e os navios atuais poderiam sair com mais carga.

Até então, a profundidade média do porto era de 11,2 metros e era possível utilizar até 12,2 metros nos momentos de pico da maré alta.
 
Ao longo de quatro anos, um consórcio de empresas chamado Draga Brasil trabalhou no local e recebeu quase R$ 188 milhões. Ao fim do trabalho, em 2012, o calado estava apenas em 12,4 metros nos pontos mais profundos.

Nos momentos de maré alta, o que ocorre duas horas por dia, os navios podem usar mais um metro de calado.

Mas há outros problemas na dragagem.

Ricardo Falcão, presidente do Conselho Nacional de Praticagem, órgão que reúne os profissionais que conduzem os navios até o porto, aponta que, por uma falha de projeto, o canal ficou mais estreito, o que dificulta ainda mais a manobra dos navios.

"Tiraram cem metros de largura em alguns trechos", afirma Falcão.

Os navios mais prejudicados são os de contêineres.

Nesse tipo de navio, cada centímetro a menos de calado significa em média menos 6 a 8 contêineres transportados. Em um metro, são na média 700 contêineres.

Moacyr Lopes Junior/Folhapress
Navio de contêineres passa pelo canal do porto de Santos, 
cujas obras de dragagem já consumiram R$ 190 milhões
PERDA DE R$ 35 BILHÕES
Diretor-executivo do Centronave (Centro Nacional de Navegação), Cláudio Loureiro de Souza afirmou que as empresas haviam reprogramado seus navios para o país, escalando embarcações maiores, com a expectativa de que o calado de 15 metros fosse alcançado.

Mas, por causa das restrições, Souza diz que o porto deixa de transportar por ano 500 mil contêineres de 20 pés.

É quase 30% do que Santos -o maior porto brasileiro, com 25% do comércio exterior do país- transportou no ano passado.

"É uma tragédia para o país", disse Souza, lembrando que a restrição eleva custos para as empresas importadoras e exportadoras.

Cada contêiner traz ou leva nele cargas que, em média, custam R$ 70 mil. São R$ 35 bilhões que deixam de ser transportados por ano.

Com as restrições, as empresas têm duas opções. A primeira, mais usada, é sair com menos carga que a capacidade. Assim, o navio fica mais leve e não corre o risco de encalhar.

Outra solução é esperar pelo pico da maré para usar toda a capacidade do canal. Mas, como isso só ocorre duas horas por dia, um navio pode perder até 40 horas nas manobras de entrada e saída. É o dobro do tempo médio para carregar o navio.

Para um especialista no setor, a dragagem de Santos precisa ser pensada como um processo permanente, já que há uma tendência natural ao assoreamento.

OUTRO LADO
A Secretaria Especial de Portos, órgão do governo federal que funciona como um ministério para o setor, afirmou que o canal de Santos chegou a ser aprofundado a 13,4 metros ao longo do processo, mas que, por problemas de manutenção, voltou ao nível em que está agora.

O projeto, iniciado em 2009, visava ampliar de 11,2 para 15 metros a profundidade dos acessos aos terminais do porto de Santos. No momento, no entanto, a profundidade é de 12,4 metros.

Segundo a SEP, foi iniciado um processo administrativo para apurar as responsabilidades sobre o não cumprimento do contrato de manutenção.

Contatado, o consórcio Draga Brasil, responsável pelas obras, não respondeu.

Para tentar melhorar o canal de acesso, a Secretaria Especial de Portos tentou fazer duas concorrências, uma em 2013 e outra neste ano. Nenhuma teve interessados em levar adiante o projeto.

A secretaria informou que está reformulando os termos e as condições dos editais, para reiniciar a concorrência.

ENTULHO NO FUNDO
A pedido do Draga Brasil, o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) investigou o fundo do canal, para detectar obstáculos aos trabalhos das dragas.

O site do instituto informa que foram detectados vários objetos de grande porte na área da dragagem, como fragmentos de embarcações, correntes e âncoras.

A localização exata dos objetos, feita por GPS, foi demarcada pelo IPT.

O atraso na conclusão dos serviços já preocupava empresas exportadoras de commodities no ano passado.

A Al Khaleej Sugar, operadora da refinaria de açúcar de Dubai, afirmava em fevereiro que não podia carregar quantidade maior de açúcar a granel, o que provocava aumento nos custos de fretes. 

CVM apura fraude em fundo de pensão dos Correios

O Globo

O fundo de pensão Postalis, o terceiro maior do país, teve influência do doleiro Alberto Youssef, preso na Operação Lava-Jato da Polícia Federal

Rombo em plano de previdência do Postalis pode chegar a R$ 2,5 bilhões

Geraldo Magela / Agência Senado 
Influência do doleiro Alberto Youssef no Postalis é antiga,
 tendo aparecido na CPI dos Correios, em 2005

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) abriu investigação para apurar uma série de operações fraudulentas no mercado financeiro que atinge o fundo de pensão Postalis, dos funcionários dos Correios, o terceiro maior do país com cerca de 130 mil participantes. O GLOBO identificou uma delas: um aporte de R$ 40 milhões, de 19 de dezembro de 2012, no Banco BNY Mellon por meio da gestora DTW Investimento LTDA, que teria sido direcionado pelo ex-diretor da fundação Ricardo Oliveira Azevedo após influência do doleiro Alberto Youssef, e dos donos da Tino Real Participação, Maria Thereza Barcelos da Costa e Eric Davi Bello, alvos da Operação Lava-Jato da Polícia Federal. O Postalis confirmou o aporte, cujo principal resultado foi uma rentabilidade aquém da esperada para o fundo irrigado com dinheiro público.

Um ex-dirigente do Postalis relata que Maria Thereza foi apresentada ao sócio-majoritário da DTW, Paulo Roberto Caneca, por Youssef, quando a empresa ainda não se chamava DTW e tinha apenas dois meses no mercado. À época, as negociações com Azevedo iniciaram. Eles então teriam acertado que uma pessoa da confiança de Azevedo, Bruno Rodrigues Leal, entraria como laranja na sociedade da empresa de Caneca. Segundo profissionais do mercado, Caneca é conhecido como doleiro. Ele nega. Ao GLOBO, o dono da DTW admitiu ter se encontrado com Azevedo “meia dúzia de vezes”, mas disse que jamais se envolveu com Youssef e o casal Maria Thereza e Bello.

A influência de Youssef no Postalis é antiga. Na CPI dos Correios, em 2005, o doleiro já aparecia como responsável por indicações feitas ao PMDB para a presidência do fundo, quando o partido assumiu o Ministério das Comunicações.

Azevedo foi afastado do cargo de diretor financeiro do Postalis em outubro do ano passado após a Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc) constatar irregularidades em investimentos que provocaram prejuízos calculados em quase R$ 1 bilhão. As investigações apuraram a prática de fraudes, com a organização aplicando recursos da entidade previdenciária em fundos controlados pelos próprios sócios da DTW. A identificação de Bruno Rodrigues Leal como homem de Azevedo na M. Asset pela Previc fez com que ele deixasse a sociedade, dando lugar ao irmão Caio Rodrigues Leal, este com 30% de participação na empresa, agora com o novo nome de DTW após cinco alterações contratuais. A Previc e o BNY Mellon não quiseram comentar o caso.

Fundo está sem gestor
Irregularidades na DTW também estão sendo apuradas pela CVM. A primeira delas é que Caneca teria omitido para a comissão ter sido investigado pela Polícia Federal por suspeita de lavagem de dinheiro em ação penal no Ministério Público Federal do Paraná, que apurou evasão de divisas do Brasil para paraísos fiscais na CPI do Banestado. A outra é que o fundo DTW está sem o gestor responsável há mais de dois meses, o que contraria as normas da CVM, que não foi avisada da saída de Cristiano Maroja nem pela DTW e tampouco pelo Mellon, administrador da gestora de fundo.

Também é analisado o fato de o sócio da DTW, Caio Rodrigues Leal, ter sido o estruturador da empresa Dogma Empreendimentos Imobiliários S.A., por meio de sua outra empresa, a Prime Consultoria e Gestão Financeira. Do aporte de R$ 40 milhões do Postalis no BNY Mellon, Leal utilizou R$ 10 milhões na compra de 25% de uma Cédula de Crédito Imobiliária (CCI) da Dogma. Portanto, ele estava nas duas pontas da operação, o que no mercado financeiro é chamado de “Zé com Zé”, prática proibida pelas normas da CVM. O que chama atenção é que a Dogma deu como garantia um terreno comprado para a construção de um condomínio no centro de Curitiba — e que ainda não saiu do chão — um dia depois do aporte da Postalis. A estruturação de um projeto CCI se dá quando uma empresa é contratada para intermediar a operação junto a entidades de fiscalização. O preço médio pago pelo serviço de estruturação está em R$ 200 mil.

O ex-gestor Cristiano Maroja contou que se desligou da empresa por “não se identificar com visões de negócio" dela. Ele detinha 5% das cotas na sociedade. Caio Leal diz que entrou na gestora DTW depois de estruturar a CCI da Dogma. Procurada, a CVM disse que “acompanha e analisa as movimentações e tomará as medidas cabíveis quando necessário, e que pode aplicar as punições aos infratores das regras em vigor no mercado de capitais”. Mas segundo a reportagem apurou, a comissão não descarta atuação em conjunto entre o BNY Mellon e a DTW na troca de informações para direcionar a aplicação do aporte antes mesmo de a operação ser solicitada pelo Postalis. Se confirmadas as irregularidades, BNY e DTW poderiam ser enquadrados por responsabilidade solidária.

Postalis perdeu dinheiro nas aplicações
Um ano e quatro meses depois do aporte de R$ 40 milhões na DTW, as duas aplicações do Postalis no Banco BNY Mellon — uma de R$ 30 milhões em renda fixa e outra de R$ 10 milhões em ações — rendem hoje ao fundo de pensão valores muito aquém do que se a fundação tivesse aplicado em investimentos considerados mais conservadores, como poupança ou Notas do Tesouro Nacional (NTN). Especialistas do mercado financeiro consultados pelo GLOBO disseram que se o Postalis apostasse em NTNs, por exemplo, teria tido um rendimento durante esse período de 17,5%, o que deixaria o valor aplicado em renda fixa no patamar de R$ 35,25 milhões, enquanto o montante aplicado em ações estaria hoje na casa dos R$ 11,75 milhões. O cálculo foi facilitado por não ter havido resgate do fundo durante os 16 meses.

No site da CVM, é possível confirmar o desempenho das aplicações. A Postalis confirmou o fraco desempenho. O investimento em renda fixa apresentou rentabilidade de 0,01%, e em ações, 7,64 pontos percentuais negativos. Soma-se a esses valores, o pagamento de uma taxa anual de 2% do Postalis aos prestadores de serviço, no caso, o BNY Mellon e a DTW. Pode-se concluir que o Postalis pagou ainda cerca de R$ 800 mil, em 2013, pela administração do fundo. De acordo com o Postalis, o BNY Mellon dá ao gestor “a liberdade de escolha para investimentos, desde que estejam de acordo com as políticas de investimentos dos planos e a legislação em vigor”. Já o BNY alegou sigilo das operações. Caneca negou prejuízo nas aplicações.

Rombo como consequência por má gestão
Gestões de eficiência duvidosa do Postalis durante os mandatos dos ex-diretores financeiros Adilson Florêncio da Costa e Ricardo Oliveira Azevedo podem ter contribuído para que um déficit técnico em um dos planos de previdência da fundação alcançasse cifras bilionárias desde 2009 — o que levou a entidade a aumentar a contribuição dos funcionários e causar uma queda de braço entre os sindicatos dos trabalhadores, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) e o Tesouro Nacional sobre quem deve pagar a dívida. Em 2008, os Correios decidiram encerrar as atividades do plano de Benefício Definido (BD) e transformar a expectativa de direitos dos participantes em números, totalizando valor projetado para aporte de R$ 700 milhões, para equilibrar as contas do BD, algo assumido pela patrocinadora. Porém, um ano depois se constatou que o valor necessário para efetivar o saldamento (interrupção de pagamento das contribuições) do BD mais que dobrou, indo a R$ 1,5 bilhão.

Somado a esse valor, há ainda um déficit de R$ 935 milhões provenientes, em sua maioria da área de investimento do Postalis, identificado no balanço do ano passado e que onera ainda mais o Plano BD — levando o rombo, caso os Correios não aceitem saldar a dívida, a um valor de cerca de R$ 2,5 bilhões, ou 35% do patrimônio do plano, estimado em R$ 7 bilhões. O Conselho Fiscal dos Correios, ligado ao Tesouro, questionou o pagamento, mas concordou em saldar, por enquanto, a cota mensal da dívida.

— Dentro da empresa há um litígio. Enquanto a ECT propõe dividir esse valor com os funcionários, as entidades dos trabalhadores reagem com indignação, porque o Postalis, com aval da patrocinadora, no caso os Correios, fizeram o saldamento obrigatório sem nos consultar e prometeram assumir a dívida — diz Rogério Ubine, ex-conselheiro do Postalis e atual membro da Associação Nacional dos Participantes dos Fundos de Pensão (Anapar) e diretor da Federação Nacional dos Trabalhadores nos Correios (Fentect).

Segundo Ubine, uma proposta defendida pelo Tesouro para que a ECT não assuma sozinha o prejuízo e divida, como prevê a lei, com os participantes do BD, está sendo discutida em âmbito administrativo. Para ele, a ECT não reconheceu até hoje essa dívida, que já comprometeu o lucro da empresa. As entidades questionam ainda a rentabilidade de outro plano de pensão, o PostalPrev, cuja participação é de apenas dos funcionários da ativa. De acordo com o presidente da Federação Interestadual dos Sindicatos dos Trabalhadores e Trabalhadores dos Correios (Findect), José Aparecido Gimenes Gandara, o rendimento em 2013 foi negativo em 0,52%, quando sua meta era de 12,5%. Os sindicatos denunciam ainda que, mesmo com rentabilidade negativa, o Postalis pagou prêmio ao gestor que administra o investimento.

O GLOBO não conseguiu localizar Adilson Florêncio da Costa e Ricardo Oliveira Azevedo.

Ministério da Justiça acabou programa que reduzia violência nos estádios

Diário do Poder

Violência nos estádios é tarefa de polícias locais, diz Dilma

O do Recife é vítima da omissão do governo federal, que engavetou
 o Programa Operacional padrão (POP), que reduzia violência nos estádios.

A presidenta Dilma Rousseff transferiu para as polícias locais a responsabilidade pelo combate à violência nos estádios, ao defender neste domingo uma obviedade: a instalação de “delegacias especializadas” nos estádios de futebol. Por meio do Twitter, ela comentou o enterro do corpo do torcedor Paulo Ricardo Gomes da Silva, de 26 anos, morto após partida entre o Santa Cruz e o Paraná, válida pelo Campeonato Brasileiro da Série B. Na sexta-feira (20), ele foi atingido por um vaso sanitário, jogado do alto da arquibancada, quando deixava o Estádio do Arruda, em Recife. Dilma não fez mais uma vez qualquer referência ao programa “Procedimento Operacional Padrão (POP)” concebido no Ministério da Justiça e engavetado pelo atual ministro José Eduardo Cardozo. O POP nasceu de um pedido do Ministério do Esporte, no início de 2010, após a violência sem controle ocorrida em Curitiba, por ocasião do rebaixamento do Coritiba para a Série B.

Diante da constatação de que o “País do futebol” não tinha padrões de segurança nos eventos esportivos, deliberou-se no próprio Ministério da Justiça, que, ao contrário do que sugeriu a mensagem de Dilma neste domingo, a União não pode limitar-se a segurança da Copa e deixar somente aos Estados o dia a dia dos eventos esportivos. Ficou também decidido que se deveria definir protocolos nacionais mínimos de segurança em 2010, testá-los nos campeonatos estaduais e nacionais em 2011, reajustá-los em 2012 e testá-los no evento internacional da Copa das Confederações de 2013. Mas tudo ficou no papel. Ou melhor, na gaveta do ministro Cardozo.


Dilma no twitter: lavando as mãos

A Secretaria Nacional de Segurança Pública, do Ministério da Justiça, chegou a convocar reuniões  técnicas, com os mais experientes profissionais na área de segurança de eventos esportivos (bombeiros, policiais militares e civis de vários Estados), resuktando daí o documento denominado Procedimento Operacional Padrão (POP) para policiamento em eventos esportivos. O POP foi debatido com torcidas organizadas, CBF e com as diretorias dos clubes de futebol. Encerrada a fase de planejamento, criou-se a Câmara Técnica Permanente de Combate à Intolerância Esportiva (Portaria SENASP/MJ n. 13, de 27 de abril de 2010), que centralizou as informações, análises e procedimentos da segurança em eventos esportivos. A violência nos estádios chegou a registrar queda. Com a posse de José Eduardo Cardozo, a Câmara Técnica foi encerrada e se implodiu o POP.

Cartolas ingleses estão 'apavorados' com violência no Rio

Veja online

Responsável pela segurança da seleção na Copa foi flagrado pelo jornal 'Daily Mail' enquanto relatava a preocupação dos dirigentes com os crimes na cidade

(Antonio Scorza/Agência O Globo) 
Ônibus são incendiados durante manifestação no Rio de Janeiro 

"Os problemas daqui estão em todos os jornais. Está ruim. Eu recebo ligações dos meus chefes, apavorados, perguntando: 'Tony, você tem certeza de que é seguro?' Eles querem saber se o time estará protegido. Estão preocupados mesmo"

O responsável pela segurança da delegação da Inglaterra na Copa do Mundo visitou o Brasil recentemente – e foi flagrado por um repórter do jornalDaily Mail enquanto relatava os temores de seus superiores na Federação Inglesa (FA, na sigla original). Em reportagem publicada neste domingo, o diário londrino afirma que Tony Conniford, ex-policial que está trabalhando nos preparativos para a chegada dos ingleses ao Brasil, revelou ao seu interlocutor (um brasileiro que não foi identificado) que os dirigentes ingleses estão "apavorados" com as notícias sobre o banditismo no Rio de Janeiro, cidade onde a equipe ficará concentrada. O jornal destaca que o hotel escolhido pela FA (o Royal Tulip) é próximo da favela da Rocinha, e que a onda de ataques às UPPs na cidade aumentou a preocupação dos ingleses com a segurança na Copa.

"Os problemas daqui estão em todos os jornais. Está ruim. Eu recebo ligações dos meus chefes, apavorados, perguntando: 'Tony, você tem certeza de que é seguro?' Eles querem saber se o time estará protegido. Estão preocupados mesmo", contou o ex-policial no diálogo ouvido pelo repórter do Daily Mail. O jornal critica a decisão da FA de colocar o time no Rio e lembra que a única outra seleção que decidiu ficar na cidade, a Holanda, escolheu um hotel mais próximo ao seu local de treinamentos. A Inglaterra vai treinar na Escola Militar da Urca, distante cerca de 15 quilômetros do Royal Tulip. "O trânsito é terrível. Será um pesadelo mesmo com escolta policial. Precisamos achar uma forma de levar o time de um ponto a outro sem que fiquemos parados no trânsito. Caso contrário, ficaremos presos no ônibus o tempo todo", disse o chefe de segurança inglês.

Pelo que é possível concluir num dos trechos da conversa, o interlocutor de Conniford estaria ligado à organização do evento. "Vocês precisam saber que devem exigir de qualquer um a exibição de uma credencial. Eles devem checar e rechecar todo mundo", diz o inglês ao brasileiro não-identificado ao tratar da segurança no hotel e no local de treinos. "Não podemos deixar ninguém entrar, porque uma vez dentro de lá, alguém pode ir direto para o elevador e para os quartos dos jogadores." Deixando claro que está tão preocupado quanto seus superiores, o ex-policial reitera: "Devemos estar totalmente vigilantes. Não podemos cometer nenhum erro. A segurança deve ser uma prioridade máxima." A FA disse apenas que confia no trabalho de seu especialista em segurança e que "Tony foi ouvido enquanto fazia o seu trabalho, apenas isso".

Quatro anos depois, a África do Sul continua enfrentando o “legado da copa”, diz jornalista

Tribuna da Imprensa
Helena Martins,  Agência Brasil 

Joanesburgo, maior cidade da África do Sul, viveu por anos a expectativa de melhoras na condição de vida da população, com a realização da primeira Copa do Mundo no Continente Africano, em 2010. Quatro anos depois, no entanto, o país enfrenta problemas, como o endividamento público e estádios ociosos, de acordo com o jornalista sul-africano Niren Tolsi.

Ele conta que as duas arenas construídas para receber partidas do Mundial, o Ellis Park Stadium e o Soccer City, estão subutilizadas. O último recebe atualmente mais atividades musicais e políticas do que partidas de futebol.

Tolsi veio ao Brasil para participar do Encontro dos Atingidos – Quem Perde com os Megaeventos e Megaempreendimentos, em Belo Horizonte.

O jornalista relata que os moradores esperavam que a preparação para a Copa projetasse Joanesburgo internacionalmente e proporcionasse mudanças na infraestrutura urbana, com o alargamento de estradas e a multiplicação de opções de transporte coletivo.

CORRUPÇÃO
As obras de mobilidade feitas no país à época são úteis para a população. Porém, o Mundial foi marcado também por denúncias de corrupção na construção dos estádios, deslocamentos forçados de famílias, aumento da repressão policial e expulsão de moradores de rua e de vendedores ambulantes das áreas centrais de Joanesburgo, segundo o jornalista.

“A Fifa foi embora com R 25 milhões [R é o símbolo de rand, moeda oficial da África do Sul] de lucro e o país ficou endividado”, lamentou.

Tolsi vê semelhanças entre os problemas apontados pelos movimentos sociais no Brasil e o que ocorreu, há quatro anos, em seu país. Com a mobilização dos movimentos sociais e populações atingidas pelos grandes eventos, ele espera que “essa lógica mude e que a Fifa tenha que parar de agir em outros países, como faz hoje, trabalhando a favor das corporações, colocando em questão a soberania nacional”.

O Mundial na África do Sul também não aqueceu o mercado de trabalho, como previsto, por causa da crise financeira que abala a Europa, de onde sairiam muitos dos turistas que o país esperava receber em 2010.

TAMBÉM NA GRÉCIA…
Não somente na África do Sul, a população ficou desapontada com o legado deixado por grandes eventos. A ativista grega Chará Tzouna avalia que os empréstimos tomados para a realização das Olimpíadas de 2004 intensificaram o problema econômico que o país já vivenciava. “Há 30 anos, já tomavam empréstimos para viver. Nas Olimpíadas, criaram mais empréstimos para construir edifícios e estádios, que não conseguem se manter. Além das dívidas, ficamos com elefantes brancos”, diz.

Para Chará Tzouna, a organização popular foi um dos pontos positivos do evento esportivo. “Houve o crescimento da participação e da organização política. As pessoas estão tentando recuperar espaços públicos que foram privatizados ou que estão inativos”, disse.

Área com caso de vaca louca tem inspeção precária

Exame.com
José Maria Tomazela, Estadão Conteúdo

Numa faixa de 160 quilômetros de fronteira entre o Brasil e a Bolívia, no sudoeste do Mato Grosso, foram encontrados só dois postos de fiscalização em operação

Dado Galdieri/Bloomberg 
Gado: Fazenda Talismã, em Porto Espiridião (MT), 
abrigava vaca nelore com sintomas da doença da vaca louca

Porto Espiridião (MT) - Na região em que surgiu o novo caso suspeito de encefalopatia espongiforme bovina, conhecida como mal da vaca louca, no sudoeste de Mato Grosso, a fiscalização do trânsito de animais é precária. Numa faixa de 160 quilômetros de fronteira entre o Brasil e a Bolívia, na mesma semana em que o caso foi constatado, a reportagem do 'Estado' encontrou dois postos de fiscalização em operação. No espaço de mais de cem quilômetros entre eles, há passagens pela fronteira sem a presença de fiscais.

Um dos postos está a 40 km da Fazenda Talismã, no município de Porto Espiridião, de onde saiu para o abate a vaca nelore com os sintomas da doença. O local, conhecido como Posto Fortuna, fica na MT-265, uma rodovia estadual não pavimentada que dá acesso à Bolívia.

Ali, apenas dois fiscais do Instituto de DefesaAgropecuária (Indea) se revezam na abordagem dos veículos que deve ser ininterrupta, dia e noite. Enquanto um trabalha, o outro dorme - as acomodações são simples, mas confortáveis. No mês passado, um fiscal adoeceu e não havia substituto.

Por estar na rota de traficantes, os postos contam com a escolta de três policiais militares que se revezam na cobertura do trabalho dos agentes. O segundo posto fica em Corixa, próximo à boliviana San Matias, no acesso à BR-070, que liga a Bolívia a Cáceres (MT). Entre uma barreira e outra, a reportagem encontrou, no lado brasileiro, dezenas de animais soltos na MT-265, a menos de um quilômetro do Posto Fortuna.

No lado boliviano, além do gado transitando livremente até mesmo na linha de fronteira, há abate clandestino de animais. Na vila de Ascension, moradores locais expunham partes de carcaças bovinas que seriam assadas no churrasco de inauguração de uma casa de jogos. Segundo um deles, Nestor Mora, é comum o gado boliviano ser levado para o lado brasileiro pelas "cabriteiras", picadas abertas na mata por contrabandistas e traficantes de drogas.

De acordo com o fiscal agropecuário Denilson Nunes Pereira, a entrada do gado boliviano é proibida por razões sanitárias, já que não há controle, por exemplo, sobre as vacinações. Segundo ele, para elevar o nível de segurança, o governo brasileiro doa a vacina contra aftosa e faz a vacinação assistida do rebanho da Bolívia na fronteira.

As fazendas de gado se espalham entre Ascension, Las Petas e San Matias, mas a região não tem frigoríficos. O brasileiro Pedro Cândido, que mora em San Matias, diz que o gado é abatido em frigoríficos brasileiros. "Os criadores daqui repassam os novilhos para a terminação (engorda) em Mato Grosso."

O agente do Indea informou que, ao longo da fronteira, existem nove postos fixos, além de equipes volantes. A reportagem percorreu mais de 400 quilômetros e não se deparou com nenhum posto volante. Para o diretor de Relações Institucionais da Famato, Rogério Romanini, o controle dos agentes do Estado e do Ministério da Agricultura e Pecuária nas fazendas é eficiente. Ele citou como exemplo a suspeita de vaca louca. Assim que os sintomas foram observados, quando a vaca esperava abate no frigorífico da JBS Friboi, os agentes interditaram a fazenda de onde saiu o animal e rastrearam o gado da vizinhança.

Por cautela, segundo ele, outros 49 bovinos foram submetidos ao abate de emergência. O material coletado para exame apresentou resultado negativo para a encefalopatia espongiforme bovina, conforme divulgou o ministério na quinta-feira. "O caso está sendo tratado com total transparência. O gado foi abatido e incinerado mesmo com a certeza, agora confirmada pelos exames, de que estava sadio." Os proprietários serão indenizados pelo Fundo Emergencial de Saúde Animal (Fesa), mantido pelo governo com recursos dos próprios pecuaristas.

Pasto fértil
No sudoeste de Mato Grosso, formam-se as cabeceiras do Pantanal, e as pastagens exuberantes atraíram criadores de gado de várias partes do País. A pecuária expandiu-se até se tornar a base da economia de muitas cidades. De acordo com a Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), a área já abriga quase um quarto dos 25,6 milhões de cabeças de gado do Estado, que tem o maior rebanho nacional. Municípios como Porto Espiridião e São José de Quatro Marcos, onde a suspeita da doença foi constatada, têm rebanhos de 1 milhão de cabeças.

Quatro Marcos, com 19,5 mil habitantes, "respira" boi, afirma o comerciante e pecuarista Joaquim Tanaka Tosta, dono de uma loja de insumos agropecuários. "Se disser que 80% da nossa economia está ligada ao gado não é exagero. Basta dizer que as duas únicas empresas de porte são um frigorífico de bovinos e um laticínio." Ele conta que o frigorífico da JBS Friboi emprega cerca de 900 pessoas, enquanto o laticínio Vencedor tem outros 300 funcionários.

O risco de colapso na cidade por causa da vaca louca assusta os moradores. Anísio Cássio de Almeida, do Sindicato Rural, diz que a hipótese é remota. "Está havendo um exagero. Foram confiscados e abatidos mais bois do que seria necessário."

O criador Jorge Luiz Dantas acha que houve precipitação do veterinário. "A vaca louca pode estar em outro lugar, mas não aqui." Ele reclama da condição das estradas na região. "O gado sofre mesmo é no transporte."

As notícias sobre a vaca louca já reduziram o preço do boi na região. Segundo Dantas, o frigorífico estava pagando R$ 115 a arroba para o mercado interno e já baixou para R$ 113. Os leilões de gado também esfriaram. Em Rondonópolis, a média para novilhos caiu de R$ 1.100 para R$ 950. Além da unidade da Friboi, outros frigoríficos instalados em Mirassol do Oeste, Pontes e Lacerda e Tangará disputam o rebanho da região.

O caso suspeito surgiu em um dos melhores momentos recentes da pecuária nacional. Segundo Romanini, da Famato, as cotações vinham subindo desde janeiro e deram uma freada, mas não foi por causa da suspeita de vaca louca. "O mercado acomodou, o que é normal." 

Beber mais café ajuda a evitar diabetes tipo 2, diz estudo

Veja online

Pesquisadores de Harvard concluíram que passar a consumir uma xícara a mais da bebida todos os dias é suficiente para ajudar a prevenir a doença

(Thinkstock) 
Café: Passar a beber uma xícara a mais por dia é suficiente
 para diminuir em 11% o risco do diabetes tipo 2 

Uma pesquisa feita na Faculdade de Saúde Pública de Harvard, nos Estados Unidos, sugere que aumentar a ingestão diária de café ajuda a reduzir o risco de diabetes tipo 2. Por outro lado, reduzir esse consumo parece elevar essa chance.

O diabetes tipo 2 acontece quando o organismo de uma pessoa se torna resistente à ação da insulina, hormônio responsável por controlar a quantidade de glicose no sangue. A doença pode surgir devido a fatores genéticos ou ambientais – incluindo obesidade, sedentarismo e má alimentação. Um levantamento divulgado nesta semana pelo Ministério da Saúde mostrou que o número de brasileiros com diabetes aumentou nos últimos cinco anos – de 5,5% da população em 2006 para 6,9% em 2013. 

A nova pesquisa, publicada na última edição do periódico Diabetologia, examinou dados coletados ao longo de vinte anos de cerca de 100 000 pessoas. Os autores do estudo analisaram a relação entre consumo de café e o risco de diabetes.

A equipe concluiu que as pessoas que, durante esse tempo, passaram a beber no mínimo uma xícara de café a mais todos os dias tiveram um risco 11% menor de ter diabetes tipo 2 do que aquelas que não alteraram o consumo da bebida. Por outro lado, a chance da doença foi 17% maior entre os indivíduos que passaram a ingerir uma xícara de café a menos no dia.

O estudo não levou em consideração, porém, quantas xícaras de café as pessoas bebiam antes de alterar o consumo — apenas observou os efeitos do aumento ou redução da quantidade ingerida, independentemente do total de café que passaram a beber diariamente.

A pesquisa também indicou que, entre as pessoas que não mudaram o consumo da bebida, aquelas que bebiam mais café — ou seja, três xícaras ou mais ao dia — tiveram um risco 37% de apresentar a doença do que as que ingeriam menos – ou seja, uma xícara ou menos por dia, em média.

Segundo os autores, evidências sugerem que esse efeito do café não se deve à cafeína, mas sim a outros compostos presentes na bebida. “O café tem muitos antioxidantes e outros componentes importantes no metabolismo da glicose. E esse mesmo efeito foi observado em café descafeinado por estudos anteriores”, diz Shilpa Bhupathiraju, pesquisadora da Universidade Harvard e coordenadora da pesquisa.


Gripe: vacinação atinge só 30% da meta

O Globo 

Campanha nacional entra nesta segunda-feira em sua última semana


RIO — A Campanha Nacional de Vacinação contra a Gripe entra. nesta segunda-feira, na última semana, mas a meta ainda está bem longe de ser atingida. Apenas 471.668 pessoas tomaram a vacina no Rio. O número corresponde a 30,2% da população-alvo — formada por idosos, crianças de 6 meses a 4 anos, gestantes, mulheres no período de até 45 dias após o parto, indígenas, doentes crônicos e profissionais de saúde. A meta do município é vacinar cerca de 1,25 milhão de pessoas nesta nova campanha, ou seja, 80% de cada um dos grupos considerados prioritários.

De acordo com o subsecretário de Atenção Primária, Vigilância e Promoção da Saúde, Daniel Soranz, o Rio é até agora a capital do Sudeste que mais vacinou:

— Como normalmente tem sido, acredito que a maior parte das pessoas deixou para se vacinar na última hora. Isso é ruim, porque as unidades de saúde ficam mais cheias, e a espera aumenta. O mais indicado é que elas não deixem para ir no último dia.

Há mais de 200 salas de vacinação em todos os centros municipais de saúde e Clínicas da Família. A vacina protege contra os três subtipos do vírus da gripe que mais circularam no inverno passado (H1N1, H3N2 e influenza B), como recomenda a Organização Mundial da Saúde (OMS). Estudos demonstram que a imunização pode reduzir entre 32% e 45% o número de internações por pneumonias, e de 39% a 75% a mortalidade por complicações da influenza.

De acordo com a Secretaria municipal de Saúde, as crianças precisam tomar duas doses da vacina. A segunda delas deve ser administrada 30 dias após a primeira, nas unidades de saúde da prefeitura.

Portadores de doenças crônicas precisam apresentar, nos postos, a prescrição médica com a indicação do imunizante.

Cuiabá é a capital brasileira com mais obesos

Beatriz Souza
Exame.com

Pouco mais de 22% da população de Cuiabá (MT) é obesa, segundo dados do Ministério da Saúde. Já São Luís, é a capital com menos obesos

Guido Krzikowski/Bloomberg News 
Obesidade: em Cuiabá, um em cada cinco moradores da cidade é obeso

São Paulo - Pela primeira vez em 8 anos, a obesidade parou de crescer no Brasil. A boa notícia foi revelada na pesquisa Vigitel 2013 (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), feita pelo Ministério da Saúde e divulgada nesta semana.

De forma geral, a pesquisa mostrou que os brasileirosestão com hábitos mais saudáveis. Ainda assim, metade da população do Brasil continua acima do peso, sendo que 17,5% destes são obesos.

Entre as capitais brasileiras, Cuiabá (MT) é a que concentra a maior quantidade de homens e mulheres obesos: 22,4% da população da cidade está nesta condição. 

Na outra ponta, São Luís (MA) é a capital que tem menos problemas com a obesidade. Apenas 13,2% dos moradores da cidade são considerados obesos. Nas duas cidades, a situação é pior para as mulheres.

Veja na tabela abaixo como está a situação em casa capital:

Ranking
Capitais
Total da população com obesidade (%)
Mulheres obesas (%)
Homens obesos (%)
1
Cuiabá
22,4
22,8
21,9
2
Rio de Janeiro
20,7
20,3
21,1
3
Manaus
18,8
19,5
18
4
Maceió
18,4
18,1
18,8
5
Macapá
18,3
14,2
22,8
6
Fortaleza
18,1
17
19,4
7
Rio Branco
18,1
19,3
16,7
8
Recife
18
19,2
16,4
9
São Paulo
17,9
18,2
17,5
10
Porto Velho
17,8
16,3
19,2
11
Campo Grande
17,7
20,5
14,6
12
Porto Alegre
17,7
17,1
18,5
13
Curitiba
17,6
16,6
18,8
14
Aracaju
17,5
18,4
15,4
15
Boa Vista
17,3
16,3
18,4
16
João Pessoa
17
18,3
15,3
17
Palmas
16,8
13,1
20,8
18
Natal
16,6
15,2
18,2
19
Goiânia
16,3
14,9
18
20
Teresina
16,2
14,6
18,1
21
Vitória
16,1
16,3
15,9
22
Belém
15,8
15,7
15,9
23
Florianópolis
15,4
14,6
16,4
24
Distrito Federal
15
14,4
15,7
25
Salvador
14,9
16,3
13,1
26
Belo Horizonte
14,6
15,4
13,7
27
São Luís
13,2
13,9
12,3

Brasil
17,5
17,5
17,5