terça-feira, maio 06, 2014

Era para ser um saquinho bondades eleitorais, porém...

Adelson Elias Vasconcellos

As mudanças que o país aspira devem ser propostas pelos governantes, coisa que o discurso vazio do PT não é capaz de mostrar

Uma coisa é certa: já não se fazem mais pacotinhos eleitorais como antigamente. É isto que se extrai do discurso movido a palanque eleitoral, da senhora presidente, em comemoração ao dia do trabalho e, como lembrou Sandro Vaia, e da sua candidatura.

Mas antes de falarmos do pacotinho, algumas considerações prévias. Por exemplo, a presidente tentou limpar a barra do tal mau negócio bom da refinaria de Pasadena. Apesar de sua base aliada ter movido montanhas de chantagens e atropelos, para evitar a instalação de uma CPI para INVESTIGAR o que de errado foi feito, a presidente cinicamente afirmou que tudo será apurado. Apesar de, em quatro anos, jamais ter conseguido atingir centro da meta de inflação, ela diz que tudo está sob controle. 

Assim, brigando contra os fatos, tanto o mico chamado Refinaria Pasadena, quanto a inflação fora do eixo, não passam de uso político da oposição, como se a oposição fosse impedida de exercer o seu papel que é... vejam só... fazer oposição. Alguém precisa lembrar a senhora Rousseff que é a liberdade de expressão (com críticas boas e ruins) e a oposição livre para agir, que justificam a democracia.

Se a presidente pretendia, por exemplo, limpar a barra do governo no caso da Petrobrás,  as incoerências e as múltiplas versões contraditórias ainda circulam na praça. Como também temos o caso do ex-diretor, do caso da dupla doleiro/deputado do PT, agora surgem evidências de que Alexandre Padilha mentiu sobre seu envolvimento com o laboratório de fachada Labogen, tem gente graúda do PT na Papuda, cumprindo pena, todas evidências de que o governo petista foi organizado para o crime. 

Claro que seria covardia nossa discorrer sobre as questões econômicas do governo Dilma. Os indicadores ruins e deteriorados desde 2010 falam mais do que qualquer discurso de 1º de Maio.

Tanto no plano econômico quanto no político-policial não uma única digital de quem quer que seja da oposição. Como também tanta notícia ruim publicada na mídia não é fruto da imaginação criativa de jornalistas. Eles apenas deram curso ao que acontecia no país. Ou será que a senhora Rousseff, bem como o senhor Lula e seus pares queriam o que, que a imprensa mentisse e dissesse que estava tudo bem na terra de Santa Cruz quando tudo vai mal? 

Em junho de 2013, quem botou o povo nas ruas não ninguém da oposição tampouco da imprensa. Quem vaiou as autoridades petistas nos eventos de 1º de Maio em São Paulo, não foi a oposição, e sim o povo de saco literalmente cheio de um país que não cresce, que gera corrupção atrás de corrupção, povo amedrontado pela violência nas ruas e pela inflação elevada.       

O clima no país é, além de constrangedor, de completa instabilidade e insegurança.  Chegamos a tal situação porque, 12 anos depois do PT chegar ao Poder, nesta quadra de 2014, é de andamos para trás. Somos um povo assaltado diariamente por impostos altíssimos, que corroem a capacidade aquisitiva até dos mais pobres.  Aumentar em 10% o Bolsa Família, diante de uma inflação de mais de 16% é rir do povo pobre. Aumentar a isenção de imposto de renda pessoa físicas é debochar da inteligência alheia. A defasagem é ainda assustadora: mais de 60%. E por que a senhora Rousseff não mexeu ,  por exemplo, na tabela do imposto de renda que castiga trabalhadores com salários de 2,5 salários mínimos, com um confisco salarial indecente?  

Uma das bandeiras petistas é exibir os números do desemprego. Vimos nesta edição a grande e salafrária mentira que se conta a respeito. Um país que utiliza menos de 1/3 de sua força total de trabalho está condenado a irrelevância. A outra bandeira, a social, é um deboche descarado sem par na história humana: considerar classe média quem recebe menos da metade de um salário mínimo é uma indignidade que nem os ditadores generais foram capazes de cometer tamanha desfaçatez.

Assim, o tal pacotinho de bondades que era para ser um apelo eleitoral irrecusável, tornou-se, na verdade, o sinônimo da mediocridade em que este governo se  transformou. 

Dilma pode até  ser reeleita, o que a esta altura é de se duvidar, como ainda Lula pode levantar o traseiro gordo da cadeira e substituir a candidata governista e tentar manter o poder nas mãos do PT. Porém, e conforme já mostramos aqui,  o ex em exercício sabe perfeitamente o abacaxi que aguarda o próximo presidente seja ele quem for. Não só o ambiente interno é de convulsão em todas as áreas, como o ambiente externo já não poderá ajudá-lo como em seu primeiro mandato. 

Além disso, para por o Brasil nos trilhos da modernidade, quem assumir deverá se comprometer em colocar seu capital político em risco diante dos desafios a serem enfrentados. Lula é esperto, sabe que, ou ele põe em risco este capital político fazendo aquilo que o país precisa, ou deixa a zorra correr solta e entregar o país pior do que quando o recebeu. Sem correr riscos, ficando de fora desta lambança, ele continua com a cabeça fora d’água. Pode até tentar voltar em 2018, o que também não é garantido, mas ainda assim é melhor de perder o que conquistou. Sendo assim, melhor que se vão os anéis, não é mesmo?  Claro que se trata de um ato de pura covardia coisa,  aliás, que ele, mesmo no poder, sempre comprovou ser.

Dizem que o PT já traçou a estratégia para atacar os adversários, e pelas primeiras informações que já circulam, parece que o PT vai insistir na chantagem, no velho discurso patrimonialista, nos velhos chavões de mentiras e calúnias. Ora, se este será o caminho que será adotado na campanha, é bom os petistas prepararem seus espíritos: não é isto que o povo quer ouvir. Ele quer mudanças, mudanças das porcarias que o PT instalou no país, mudanças na qualidade dos serviços públicos que se deterioraram estupidamente nos últimos 12 anos,  um país com menos violência, com empregos melhores, um país onde haja crescimento real, com menos mentiras e mistificações, com menos corrupção, com mais realizações. O que o povo quer mesmo é um governo devotado, de fato, em tempo integral, em trabalhar num projeto de Brasil pelo Brasil, e não de um país devotado aos amigos do reino inclusive ditadores sanguessugas de seus povos. 

O povo quer portos melhores, mas no Brasil  o dinheiro público financia portos no exterior,  quer rodovias melhores, mas no Brasil o dinheiro público financia rodovias no exterior,  quer aeroportos melhores, mas no Brasil o dinheiro público só financia puxadinhos. Assim, o que o povo quer é que o dinheiro que lhe arrancam todos os dias sejam aplicados no Brasil, em benefício dos brasileiros. Ou seja, o tal saquinho de bondades vai tornar o projeto de reeleição bem mais difícil. Porque, é bom reconhecer, o que o projeto do PT tem para oferecer ao país é apenas mais extravagâncias para os seus  e dificuldades e sacrifícios para todos os demais.  

Ou dona Dilma acha que não pegou mal  seu pacote distorcido no campo da energia e que resultou, um ano depois, em aumentos maiores que o desconto eleitoreiro? Ou dona Dilma acha que a inflação, beirando o teto da meta, mas que está represada de modo artificial não foi devidamente entendida como fora de controle? 

Lula acha que aqueles que hoje se mostram refratários a conceder mais quatro anos ao PT, não passam de mal agradecidos. Fala que ajudou as elites, as mesmas elites que ele a vida toda condenou. Fala que arrumou a economia o que é uma mentira gigantesca. Ele recebeu a economia arranjada. Modernizada e ainda foi beneficiado pelo momento econômico internacional. Qual a medida na área econômica que Lula implantou?   Fala que ajudou os pobres quando, na verdade, não só reuniu,  em uma única bolsa, cinco programas sociais já implantados, como ainda aplicou um confisco salarial, reduzindo a faixa de isenção do imposto de renda na fonte. E todos os indicadores sociais começaram a melhorar a partir de 1995, e não 2003. E tais dados são oficiais, e não pura fantasia. E que se registre: em doze anos, a saúde pública despencou, a educação continua corroída pelas porcarias ideológicas que o PT enfiou nos currículos, a segurança pública transformou o país numa praça de guerra, com mais de 50 mil homicídios por ano. Neste mesmo tempo, a infraestrutura ficou mais degradada. 

Por outro lado, mesmo que as “tais melhorias”,  de que se gaba Lula, fossem verdadeiras, a pergunta que se impõe é:  e Lula, e os petistas, e os aliados e amigos do reino, acaso não se beneficiaram também?  Todos não estão muito colocados na vida? Ninguém obrigou Lula ser presidente. Se ele se ofereceu para tanto, em troca dos muitos privilégios que se cercou, fazer qualquer coisa em benefício do país não seria uma obrigação que o cargo lhe impôs? 

Quem não teve competência para ler a alma do povo ao longo dos anos, e assim provocar as mudanças que se impunham  e que eram cobrados, não terá competência agora nem para propor – e o PT não propõe nada além de mais do mesmo – tampouco para liderar o movimento destas mudanças, muitas das quais o próprio sempre combateu e abortou. E, por mais que as correntes da escravidão imposta pelo Bolsão Família aos grotões de misérias existentes de norte a sul agora cobrem o seu preço no voto, o povo quer ser livre, viver num país melhor, com desenvolvimento, com empregos de melhor qualidade, com serviços decentes,  com educação digna, e quer ver que os impostos retornam-lhe em benefícios. 

Como já dissemos em várias ocasiões,  as mudanças que o país aspira devem ser propostas pelos governantes, coisa que o discurso vazio do PT não é capaz de mostrar. 

Há um dia para plantar, e outro para colher. Durante doze anos no poder, Lula e seus seguidores tentaram dividir o país, tentaram semear ódio, tentaram mudar os fatos, quiseram reescrever a história do próprio país. Agora, chegou a obrigatória hora  da colheita. Divirtam-se, pois,  com seus frutos, tanto os bons quanto os ruins.

A diplomacia fantástica e a política da estagnação

Rolf Kuntz 
O Estado de S.Paulo

O governo estuda um novo pacote de ajuda às montadoras - mais um de uma longa série. Na Venezuela persiste a escassez de alimentos e até de papel higiênico. Prolonga-se o impasse nas negociações comerciais entre o Mercosul e a União Europeia. Mais do que nunca o Brasil depende da exportação de matérias-primas para o mercado chinês, numa relação semicolonial. A economia brasileira deve crescer entre 2,3% e 2,5% este ano, segundo o governo, ou nem 2%, segundo outras fontes, perdendo o bonde da recuperação global. Todos esses fatos estão estreitamente relacionados. São aspectos e consequências da opção do governo brasileiro, a partir de 2003, pela diplomacia da mediocridade, pelo caminho fácil do mais chinfrim populismo e pelo desfrute político e pessoal da administração pública. A decadência da Petrobrás, rebaixada de empresa a instrumento das fantasias, caprichos e interesses políticos da Presidência da República, também é parte desse filme.

A exportação rendeu às montadoras US$ 2,9 bilhões no primeiro trimestre deste ano, 15,3% menos que de janeiro a março de 2013. Os números foram publicados pela associação das indústrias. A produção de autoveículos foi 8,4% menor que a de um ano antes. Os empresários atribuem os problemas em parte à retração do mercado interno e em parte às dificuldades de embarques para a Argentina, destino de cerca de 80% da exportações brasileiras de veículos.

Há algo obviamente errado nessa dependência. O Brasil importa carros tanto de países avançados quanto de economias emergentes e de industrialização recente, como Coreia, China e Índia. Nenhum desses parceiros emergentes era mais industrializado que o Brasil nos anos 70, mas todos, hoje, produzem marcas próprias, vendem para todo o mundo e até investem por aqui. Sempre muito protegida, a indústria automobilística brasileira ainda se acomodou nos estreitos padrões da diplomacia comercial petista, concentrando suas exportações na vizinhança. Com isso, aceitou uma dependência excessiva do mercado argentino e, portanto, de um dos governos mais incompetentes, mais populistas e menos confiáveis do mundo.

A diplomacia da mediocridade amarrou o Brasil a um Mercosul estagnado, entravado por barreiras comerciais até no interior do bloco, e deu prioridade, na região, a relações com países comandados por governos autoritários. Num desses países, o governo realizou o quase milagre de converter uma das maiores potências petrolíferas numa economia com gravíssimos problemas de abastecimento, inflação acima de 50% ao ano e escassez de dólares.

Sem reservas cambiais, o governo venezuelano recentemente reteve US$ 3,9 bilhões de companhias aéreas estrangeiras. Sem matéria-prima, a indústria Alimentos Polar suspendeu a produção de duas marcas de massas em uma de suas fábricas, segundo informou nesta semana o boletim colombiano Notas Confidenciales, especializado em notícias regionais.

A crise do papel higiênico, um escândalo no ano passado, nunca foi inteiramente superada. Uma estatal desse país, a PDVSA, deveria ter sido parceira da Petrobrás na construção da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. Mais uma vez a fantasia diplomática do presidente Luiz Inácio Lula da Silva resultou em custoso fracasso, perfeitamente compatível com os atrasos de pagamentos a exportadores brasileiros.

Ainda fiel a esse terceiro-mundismo de circo, a presidente Dilma Rousseff seguiu a companheira Cristina Kirchner, em junho de 2012, na manobra para suspender o Paraguai do Mercosul e facilitar o ingresso da Venezuela.

A opção pelo realismo fantástico da diplomacia Sul-Sul, subproduto de um esquerdismo infantil, produziu o primeiro resultado em 2003-2004, quando os presidentes Lula e Kirchner decidiram liquidar o projeto da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Essa decisão condenou o Mercosul a perder o bonde da integração no mercado global, enquanto outros países sul-americanos negociavam acordos com os Estados Unidos e outros mercados desenvolvidos.

Lula e seus grandes conselheiros diplomáticos selecionaram como parceiros estratégicos alguns dos maiores emergentes - China, Rússia, Índia e África do Sul. Os governos desses países jamais incluíram o Brasil entre seus parceiros prioritários. Tinham outros objetivos e sempre se esforçaram muito mais para ampliar o comércio com as maiores economias capitalistas. Sem acesso preferencial ao mundo rico - até porque a Argentina sempre dificultou o acordo com a União Europeia -, o Brasil perdeu espaço no mercado internacional de manufaturados. Passou a depender muito mais do que antes da exportação de produtos primários e facilmente se converteu em fornecedor de matérias-primas para a economia chinesa.

Não há nada errado em exportar matérias-primas. Mas é um erro enorme tornar-se muito dependente desse tipo de exportação enquanto a indústria nacional perde dinamismo, competitividade e participação até em seus principais mercados, como a América do Sul.

A política interna, marcada por uma combinação de populismo, gastança federal, baixo investimento, desleixo com a educação, protecionismo, aparelhamento e loteamento do governo e de suas empresas, tolerância à inflação e desprezo à produtividade, levou a indústria à estagnação e erodiu as contas externas. A economia cresceu em média 2% ao ano entre 2011 e 2013 e talvez nem isso seja alcançado em 2014.

A presidente Dilma Rousseff é apenas parcialmente responsável pelo descalabro. A destruição começou no governo de seu antecessor. A prosperidade internacional puxava o Brasil, ainda restava boa parte dos fundamentos criados nos anos 90 e a demolição era menos visível, mas estava em marcha. Subdesenvolvimento, escreveu Nelson Rodrigues, não se improvisa.

Brasil brasileiro

J. R. Guzzo
Revista VEJA

Foi em São Paulo que o Brasil ouviu pela primeira vez a palavra ‘greve’, e os senhores da corte no Rio de Janeiro ficaram sabendo de uma novidade revolucionária — a de que um trabalhador era um ser diferente de um escravo, precisava ser pago e tinha direitos

Voltou a ser moda no mundo político brasileiro falar mal de São Paulo; aparentemente, essa velhacaria parida pelo ressentimento e pela demagogia foi incluída de novo na caixa de ferramentas dos heróis da nossa vida pública. Para muitas estrelas do PT é uma tentativa de enfiar-se no coro contra as elites inventado pelo ex-presidente Lula — num desses repentes de inspiração que só ele tem para criar inimigos imaginários, em cima dos quais pode jogar a culpa de tudo sem citar o nome de ninguém. São Paulo, segundo essa visão, seria o covil mais perigoso das “elites brasileiras” de hoje. Trata-se, também, de um alvo multiuso. Serve tanto para o infeliz deputado André Vargas como para o senador José Sarney. Serve para governadores calamitosos, que tentam explicar seus fracassos inventando que São Paulo fica com “todos os recursos do país”. Serve para a defesa de qualquer corrupto — estão sendo “linchados”, costumam dizer, porque combatem “os interesses da elite paulista”. Serve para rebater denúncias contra aberrações como a compra da refinaria de Pasadena ou a construção da refinaria Abreu e Lima, próxima ao Recife; tais denúncias, dizem os suspeitos, são armadas por elitistas de São Paulo, que querem “privatizar a Petrobras” e não se conformam com o avanço industrial de Pernambuco.

Junta-se à tropa, agora, o governador do Acre, Tião Viana, que acusa São Paulo de abrigar elites culpadas pelo triplo delito de preconceito, racismo e tentativa de “higienização” contra imigrantes haitianos. Recentemente, uma secretaria do governo paulista havia reclamado que em três dias vieram do Acre para São Paulo três vezes mais haitianos do que nos últimos três anos — todos com passagens entregues por funcionários do governo acriano, incapaz de lidar com a massa de imigrantes do Haiti que vem se acumulando em seu território. O governador, um servidor opaco do médio clero do PT, estava apenas aplicando o velho golpe dos grão-senhores que reinam nos fundões mais atrasados do Brasil: combater a miséria através da exportação dos miseráveis. Mas não resistiu à tentação de enfiar na história a “elite paulista”, embrulhando com palavrório “ideológico” o que é uma simples trapaça para esconder sua inépcia.
Esse gigante da luta de classes, como alguns ainda podem se lembrar, é o mesmo senador Tião Viana que em 2009 tentou empurrar para o Senado Federal uma conta de 15 000 reais que sua filha gastou com ligações no celular durante uma viagem particular de duas semanas ao México; só pôs a mão no bolso para devolver esse dinheiro aos cofres públicos depois que o caso foi revelado pela imprensa. 

Os outros militantes anti-São Paulo não estão muito acima. Até caciques do PT, como o secretário paulistano de Transportes, já chegaram a afirmar que “São Paulo é a cidade mais reacionária do Brasil”. O ex-deputado cearense Ciro Gomes, nascido em São Paulo, é outro que gosta de bater bumbo nessa banda. Tempos atrás, veio com uma teoria bem estranha. Pelo que deu para entender, ele acha que São Paulo “não é bem o Brasil”; seria uma espécie de território estrangeiro, habitado por gente que talvez nem devesse ter pleno direito à nacionalidade brasileira, por lhe faltar “brasilidade”. Esse tipo de devaneio, comum entre políticos do Nordeste, talvez venha da impressão de que São Paulo é o bairro dos Jardins, o único que conhecem. O deputado poderia passar uma ou duas horas num dos outros 500 jardins que há na cidade. Poderia ir, por exemplo, ao Jardim Peri-Peri ou ao Jardim Quá-Quá; teria oportunidade de verificar, então, se está ou não no Brasil.

São Paulo, gostem ou não, é a mais brasileira das cidades do Brasil — nenhuma outra, nem de longe, é o lar de tantos brasileiros vindos de outros estados. Tem 3 milhões de habitantes nordestinos, mais que qualquer cidade do Nordeste. A eles se somam os filhos, netos e bisnetos das massas vindas do Norte — os verdadeiros paulistanos de hoje. “Elite branca”, na cidade onde milhões de moradores formam a maior mistura de etnias de todo o Brasil? A cidade mais reacionária do país? São Paulo é onde o Brasil descobriu, com os imigrantes estrangeiros, que existia algo chamado “trabalho”. Foi em São Paulo que o Brasil ouviu pela primeira vez a palavra “greve”, e os senhores da corte no Rio de Janeiro ficaram sabendo de uma novidade revolucionária — a de que um trabalhador era um ser diferente de um escravo, precisava ser pago e tinha direitos. O ex-presidente Lula nunca teria existido sem São Paulo; não é com Acre ou Ceará, esses paraísos de progressismo político onde a “elite branca” já foi varrida do mapa, que se constroem mudanças assim.     

O Brasil está com ódio de si mesmo

Arnaldo Jabor  
O Estado de S.Paulo

O Brasil está irreconhecível. Nunca pensei que a incompetência casada com o delírio ideológico promoveria este caos. Há uma mutação histórica em andamento. Não é uma fase transitória; nos últimos 12 anos, os donos do poder estão a criar um sinistro "espírito do tempo" que talvez seja irreversível. A velha "esquerda" sempre foi um sarapatel de populismo, getulismo tardio, leninismo de galinheiro e agora um desenvolvimentismo fora de época. A velha "direita", o atraso feudal de nossos patrimonialistas, sempre loteou o Estado pelos interesses oligárquicos.

A chegada do PT ao governo reuniu em frente única os dois desvios: a aliança das oligarquias com o patrimonialismo do Estado petista. Foi o pior cenário para o retrocesso a que assistimos.

Antes dessa terrível dualidade secular, a mudança de agenda do governo FHC por sorte criou um pensamento mais "presentista", começando com o fim da inflação, com a ideia de que a administração pública é mais importante que utopias, de que as reformas do Estado eram fundamentais. Medidas simples, óbvias, indutivas, tentaram nos tirar da eterna "anestesia sem cirurgia". Foi o Plano Real que tirou 28 milhões de pessoas da pobreza e não este refrão mentiroso que os petistas repetem sobre o Bolsa Família ou sobre o PAC imaginário.

Foi um período renegado pelo PT como "neoliberal" ou besteiras assim, mas deixou, para nossa sorte, algumas migalhas progressistas.

Tudo foi ignorado e substituído pelo pensamento voluntarista de que "sujeitos da história" fariam uma remodelagem da realidade, de modo a fazê-la caber em suas premissas ideológicas. Aí começou o desastre que me lembra a metáfora de Oswald de Andrade, de que "as locomotivas estavam prontas para partir, mas alguém torceu uma alavanca e elas partiram na direção oposta".

Isso causa não apenas o caos administrativo com a infraestrutura morta, como também está provocando uma mutação na psicologia e no comportamento das pessoas. O Brasil está sendo desfigurado dentro de nossas cabeças, o imaginário nacional está se deformando.

Há uma grande neurose no ar. E isso nos alarma como a profecia de Lévi-Strauss de "que chegaríamos à barbárie sem conhecer a civilização". Cenas como os 30 cadáveres ao sol no pátio do necrotério de Natal, onde os corpos são cortados com peixeiras, fazem nossa pele mais dura e o coração mais frio. Defeitos e doçuras do povo, que eram nossa marca, estão dando lugar a sentimentos inesperados, dores nunca antes sentidas. Quais são os sintomas mais visíveis desse trauma histórico?

Por exemplo, o conceito de solidariedade natural, quase 'instintiva', está acabando. Já há uma grande violência do povo contra si mesmo.

Garotos decapitam outros numa prisão, ônibus são queimados por nada, com os passageiros dentro, meninas em fogo, presos massacrados, crianças assassinadas por pais e mães, uma revolta sem rumo, um rancor geral contra tudo. O Brasil está com ódio de si mesmo. Cria-se um desespero de autodestruição e o País começa a se atacar.

Outro nítido efeito na cabeça das pessoas é o fatalismo: "É assim mesmo, não tem jeito não". O fatalismo é a aceitação da desgraça. E vêm a desesperança e a tristeza. O Brasil está triste e envergonhado.

Outro sintoma claro é que as instituições democráticas estão sem força, se desmoralizando, já que o próprio governo as desrespeita. Essa fragilização da democracia traz de volta um desejo de autoritarismo na base do "tem de botar para quebrar!". Já vi muito chofer de táxi com saudades da ditadura.

A influência do petismo também recriou a cultura do maniqueísmo: o mal está sempre no outro. Alguém é culpado disso tudo, ou seja, a 'media conservadora' e a oposição.

A ausência de uma política contra a violência e a ligação de muitos políticos com o tráfico estimula a organização do crime, que comanda as cadeias e já demonstra uma busca explícita do horror. A crueldade é uma nova arte incorporada em nossas cabeças, por tudo que vemos no dia a dia dos jornais e TV. Ninguém mata mais sem tortura. O horror está ficando aceitável, potável.

O desgoverno, os crimes sem solução, a corrupção escancarada deixam de ser desvios da norma e vão criando uma nova cultura: a cultura da marginalidade, a "normalização" do crime.

Uma grande surpresa foi a condenação da Copa. Logo por nós, brasileiros boleiros. Recusaram o 'pão e circo' que Dilma/Lula bolaram, gastando mais de 30 bilhões em estádios para "impressionar os imperialistas" e bajular as massas. Pelo menos isso foi um aumento da consciência política.

Artistas e intelectuais não sabem o que pensar - como refletir sem uma ponta de esperança? Temos aí a "contemporaneidade" pessimista.

Cria-se uma indiferença progressiva e vontade de fuga. Nunca vi tanta gente falando em deixar o País e ir morar fora. As mutações mentais são visíveis: nos rostos tristes nos ônibus abarrotados, na rápida cachaça às 6 da manha dos operários antes de enfrentar mais um dia de inferno, nos feios, nos obesos, no desânimo das pessoas nas ruas, no pessimismo como único assunto em mesas de bar.

Vimos em junho passado manifestações bacanas, mas sem rumo; contra o quê? Um mal-estar generalizado e sem clareza, logo escrachado pelos black blocs, a prova estúpida de nosso infantilismo político.

É difícil botar a pasta de dente para dentro do tubo. Há uma retroalimentação da esculhambação generalizada que vai destruindo as formas de combatê-la. Tecnicamente, não estamos equipados para resolver as deformações que se acumulam como enchentes, como um rio sem foz.

E o pior é que, por trás da cultura do crime e da corrupção, consolida-se a cultura da mentira, do bolivarianismo, da preguiça incompetente e da irresponsabilidade pública.

O Brasil está sofrendo uma mutação gravíssima e nossas cabeças também. É preciso tirar do poder esses caras que se julgam os "sujeitos da história". Até que são mesmo, só que de uma história suja e calamitosa.

Céu sem brigadeiro

Sandro Vaia
Blog Noblat

Um velho bordão muito popular nas redações de antigamente era “há algo no ar e não são aviões de carreira”.

Isso era vaticínio ou prenúncio, ou puro palpite, quando não teoria conspiratória, indicando a iminência de um fato não corriqueiro que estaria prestes a ocorrer.

Era uma senha para manter as redações em estado de alerta — ou de orelha em pé, em jargão mais popular.

Naqueles idos tempos, os aviões se moviam entre Jacareacanga a Aragarças transportando oficiais golpistas que sonhavam em derrubar governos constitucionais, e muitas vezes terminavam em rendições patéticas, sem apoio nem dos mecânicos das aeronaves, quanto mais de seus superiores, e que dirá então da sociedade, que praticamente ignorava esses lunáticos de plantão.

Se alguém disser hoje que há algo no ar e não são aviões de carreira, pode ser apenas sinônimo de novidade, de alguma coisa que parece estar andando fora do trilho da lógica pré-estalecebida ou do senso comum.

Podem ser sintomas disso a fenomenal confusão que o governo armou em torno das explicações a respeito do estranhíssimo negócio da compra da refinaria de Pasadena pela Petrobras, a respeito do qual já ouvimos de tudo, em todos os momentos, em todos os fóruns, e em mais de 50 tons de cinza.


Pronunciamento de 1º de maio

Um mau negócio, que poderia ter sido um bom negócio, mas que não chegou a ser propriamente bom, embora parecesse e pudesse ser bom, naquela época, ainda que não tenha sido totalmente ruim, no qual o dinheiro investido não está de todo perdido, porque ainda pode ser recuperado, desde que apareça uma alma generosa que esteja disposta a pagar 1,3 bi por algo que vale uns 180 milhões. Claro que você não entendeu, e quem tentou explicar entendeu menos ainda.

Uma CPI para esclarecer isso, segundo a base governista, seria aceitável — mesmo porque tem o apoio regimental para isso — desde que se investigue junto tudo o que se relacione a qualquer dúvida que persista desde a criação do Universo. O STF mandou restabelecer a chamada regra constitucional, mas nem por isso o avião pousou tranquilamente.

O fato é que em consequência de todos esses imbróglios, somados ao desequilíbrio das contas públicas, ao controle descontrolado da inflação e a toda a desordem administrativa que se acumula, o balão da presidente perde gás.

Alguns aliados pedem socorro ao Criador em suas duas versões: a divina e a terrena, cuja rempli-de-soi-même, como um clássico ponta direita ciscador, faz que vai mas não vai.

No pronunciamento republicano em rede nacional em comemoração ao Dia do Trabalho e à sua candidatura, a presidente abriu seu saco de bondades — aumentou a Bolsa Família em 10% e corrigiu a tabela do Imposto de Renda para o ano que vem — com a mesma expressão de alegria com que alguém toma uma injeção contra a gripe.

Há algo no ar e não é céu de brigadeiro.


A que ponto chegamos!

Fernando Henrique Cardoso
O Estado de S.Paulo

Eu, como boa parte dos leitores de jornal, nem aguento mais ler as notícias que entremeiam política com corrupção. É um sem-fim de escândalos. Algumas vezes, mesmo sem que haja indícios firmes, os nomes dos políticos aparecem enlameados. Pior, de tantos casos com provas veementes de envolvimento em "malfeitos", basta citar alguém para que o leitor se convença de imediato de sua culpabilidade. A sociedade já não tem mais dúvidas: se há fumaça, há fogo.

Não escrevo isso para negar responsabilidade de alguém especificamente, nem muito menos para amenizar eventuais culpas dos que se envolveram em escândalos, nem tampouco para desacreditar de antemão as denúncias. Os escândalos jorram em abundância, não dá para tapar o sol com peneira. O da Petrobrás é o mais simbólico, dado o apreço que todos temos pelo que a companhia fez para o Brasil. Escrevo porque os escândalos que vêm aparecendo numa onda crescente são sintomas de algo mais grave: é o próprio sistema político atual que está em causa, notadamente suas práticas eleitorais e partidárias. Nenhum governo pode funcionar na normalidade quando atado a um sistema político que permitiu a criação de mais de 30 partidos, dos quais 20 e poucos com assento no Congresso. A criação pelo governo atual de 39 ministérios para atender às demandas dos partidos é prova disso e, ao mesmo tempo, é garantia de insucesso administrativo e da conivência com práticas de corrupção, apesar da resistência a essas práticas por alguns membros do governo.

Não quero atirar a primeira pedra, mesmo porque muitas já foram lançadas. Não é de hoje que as coisas funcionam dessa maneira. Mas a contaminação da vida político-administrativa foi-se agravando até chegarmos ao ponto a que chegamos. Se, no passado, nosso sistema de governo foi chamado de "presidencialismo de coalizão", agora ele é apenas um "presidencialismo de cooptação". Eu nunca entendi a razão pela qual o governo Lula fez questão de formar uma maioria tão grande e pagou o preço do mensalão. Ou melhor, posso entendê-la: é porque o PT tem vocação de hegemonia. Não vê a política como um jogo de diversidade no qual as maiorias se compõem para fins específicos, mas sem a pretensão de absorver a vida política nacional sob um comando centralizado.

Meu próprio governo precisou formar maiorias. Mas havia um objetivo político claro: precisávamos de três quintos da Câmara e do Senado para aprovar reformas constitucionais necessárias à modernização do País. Ora, os governos que me sucederam não reformaram nada nem precisaram de tal maioria para aprovar emendas constitucionais. Deixaram-se levar pela dinâmica dos interesses partidários. Não só do partido hegemônico no governo, o PT, nem dos maiores, como o PMDB, mas de qualquer agregação de 20, 30 ou 40 parlamentares, às vezes menos, que, para participar da "base de apoio", se organizam numa sigla e pleiteiam participação no governo: um ministério, se possível; senão, uma diretoria de empresa estatal ou uma repartição pública importante. Daí serem precisos 39 ministérios para dar cabida a tantos aderentes. No México do PRI dizia-se que fora do orçamento não havia salvação...

A raiz desse sistema se encontra nas regras eleitorais que levam os partidos a apresentarem uma lista enorme de candidatos em cada Estado para, nelas, o eleitor escolher seu preferido, sem saber bem quem são ou que significado político-partidário têm. Logo depois nem se lembra em quem votou. A isso se acrescenta a liberalidade de nossa Constituição, que assegura ampla liberdade para a formação de partidos. Por isso, não se podem obter melhorias nessas regras por intermédio da legislação ordinária. Algumas dessas melhorias foram aprovadas pelos parlamentares. Por exemplo, a exigência de uma proporção mínima de votos em certo número de Estados para a autorização do funcionamento dos partidos no Congresso. Ou a proibição de coligações nas eleições proporcionais, por meio das quais se elegem deputados de um partido coligado aproveitando a sobra de votos de outro partido. Ambas foram recusadas por inconstitucionais pelo Supremo Tribunal Federal.

Com o número absurdo de partidos (a maior parte deles meras siglas sem programa, organização ou militância), forma-se, a cada eleição, uma colcha de retalhos no Congresso, em que mesmo os maiores partidos não têm mais do que um pedaço pequeno da representação total. Até a segunda eleição de Lula, os presidentes se elegiam apoiados numa coalizão de partidos e logo tinham de ampliá-la para ter a maioria no Congresso. De lá para cá, a coalizão eleitoral passou a assegurar maioria parlamentar. Mas, por vocação do PT à hegemonia, o sistema degenerou no que chamo de "presidencialismo de cooptação". E deu no que deu: um festival de incoerências políticas e portas abertas à cumplicidade diante da corrupção.

Mudar o sistema atual é uma responsabilidade coletiva. Repito o que disse, em outra oportunidade, a todos os que exerceram ou exercem a Presidência: por que não assumimos nossas responsabilidades, por mais diversa que tenha sido nossa parcela individual no processo que nos levou a tal situação, e nos propomos a fazer conjuntamente o que nossos partidos, por suas impossibilidades e por seus interesses, não querem fazer - mudar o sistema? Sei que se trata de um grito um tanto ingênuo, pedir grandeza. A visão de curto prazo encolhe o horizonte para o hoje e deixa o amanhã distante. Ainda assim, sem um pouco de quixotismo, nada muda.

Se, de fato, queremos sair do lodaçal que afoga a política e conservar a democracia que tanto custou ao povo conquistar, vamos esperar que uma crise maior destrua a crença em tudo e a mudança seja feita não pelo consenso democrático, mas pela vontade férrea de algum salvador da Pátria?

A confissão de Dilma

Percival Puggina
Tribuna da Imprensa

Ouvi pelo rádio o pronunciamento da presidente. Sem dúvida, ela percebe a República como artigo de consumo e a nação como um bando de tolos. Valendo-se da oportunidade proporcionada pelo Dia do Trabalho, os marqueteiros que servem à candidata procuraram afastar as inquietações da sociedade com relação ao futuro próximo e dissipar, com esquivos circunlóquios, as pesadas acusações que pairam sobre a patroa e sobre seu governo. O tom do discurso se torna indesculpável porque foi inteiramente concebido, parágrafo por parágrafo, à luz da queda de prestígio da candidata do continuísmo.

A pesquisa eleitoral divulgada na véspera apontava um tombo espetacular nos índices da presidente. Reduzira-se em 10 pontos a distância que a separa do segundo colocado. Subira para 43% seu índice de rejeição, que é a mais importante informação quando a campanha sequer iniciou, superando as intenções de voto, que desceram aos 37%. Para quem sonhava com vitória no primeiro turno, haver mais eleitores dizendo que não votariam nela em hipótese alguma do que votantes dispostos a fazê-lo cria uma situação alarmante. É exatamente esse o fundo de cena em que se deve apreciar a lamentável fala presidencial do dia 30 de abril.

Tomemos, por exemplo, o caso dos bilionários escândalos envolvendo a Petrobras. Como se resume o que disse a presidente em relação ao tema? Que tudo será rigorosamente investigado (embora ela tenha procurado impedir e, depois, tentado bagunçar a CPI proposta para essa investigação). Afirmou, também, que não admitia o uso político do assunto para depreciar e prejudicar a empresa.

Pura retórica de militante petista. Quem vem fazendo, há 11 anos, uso político da Petrobras são os governos petistas, que dela se servem para arregimentar apoio parlamentar, fatiando-a entre as siglas da base e malbaratando os incertos recursos do pré-sal como se fossem um ativo político do PT e não uma futura riqueza do país. Como consequência, derrubaram a Petrobras do 12º lugar entre as grandes empresas mundiais para a 120ª posição. Prejudicar a empresa é o que o governo vem fazendo e não quem cumpre o incontornável dever de defendê-la de maus tratos e malfeitos.

COMÍCIO DE CAMPANHA
O discurso presidencial estaria perfeito num comício de campanha. Usou à exaustão expressões que apontam para um horizonte posterior: “continuar na luta”, “continuar fazendo”, “continuar as mudanças”, “seguir adiante”, “mudar mais rápido”, “recomeçar mais fortes”, “continuar a política de valorização”, “meu governo será sempre”, coroando com um happy end: “Quem está do lado do povo pode até perder algumas batalhas, mas sabe que no final colherá a vitória”.

Assistiu-se a um conjunto de piruetas retóricas, habilmente construídas por marqueteiros. Houve uso do horário nobre de televisão para falar sem contraditório a 80% dos brasileiros, posto que as oposições não dispõem de igual recurso. Alguém pode achar que foi simples deselegância, falta de fair play, ou algo assim. Mas não é. Tem todo o jeito de crime eleitoral. Alguns partidos, aliás, já anunciaram que vão recorrer à Justiça denunciando o fato como um formidável abuso de poder contra o princípio de isonomia que deve reger uma correta disputa política.

Age contra a democracia e contra os mais comezinhos princípios quem se vale do poder em benefício próprio e usa recursos que são de todos para obter votos para si. A presidente, ao ensejo do dia 1º de Maio, valendo-se das comemorações do Dia do Trabalho, promoveu consistente e inequívoca demonstração daquilo que pretendeu negar: os negligentes padrões morais que caracterizam seu governo e seus associados. Com a palavra o TSE.

Dilma paga o pato

Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

O PT procura espetar na conta exclusiva da presidente Dilma Rousseff um débito que é coletivo. O que há de errado agora foi celebrado pelo partido (e por que não dizer, por boa parte dos aliados e dos setores beneficiados) como acerto, seja na política econômica à época em que ela qualificou como "rudimentar" uma proposta de ajuste de rumos do então ministro Antonio Palocci, seja no enfrentamento da base parlamentar baseada na fantasia da "faxina" ou na lenda da gestora mais espetacular da face da terra.

Enquanto tudo ia bem todos achavam que estava tudo certo. As deficiências de Dilma eram evidentes desde a época em que chefiava a Casa Civil. Basta lembrar suas maneiras desajeitadas na tentativa de enfrentar os episódios do dossiê com as despesas de Ruth Cardoso quando Fernando Henrique ocupava a Presidência e as denúncias envolvendo Erenice Guerra, seu braço direito no ministério.

Deficiências estas que ficaram inscritas em letras maiúsculas nos registros da história dos primeiros momentos da campanha eleitoral de 2010, antes de o patrono e presidente Luiz Inácio da Silva entrar em campo e falar pela candidata praticamente o tempo todo. Ela era um desacerto só, inclusive nos debates. A despeito disso, foi vista e recebida com extrema boa vontade.

A Dilma Rousseff presidente não enganou ninguém. Não mudou. Diferentemente das circunstâncias. Quando as coisas começaram a dar errado - e para infortúnio do governo e do PT, começaram todas de uma vez - aí é que os companheiros de partido, os empresários, os aliados, boa parte do eleitorado e até seu criador acharam por bem notar seus defeitos, reclamar e atribuir a eles todos os males.

Mas, nos concentremos no PT que é quem mais se queixa e quem menos moral tem para se queixar. O partido é Lula, ninguém tem dúvida, pois não? Dilma é uma invenção de Lula e, portanto, do partido, que a aprovou, festejou e apoiou enquanto ela representava a certeza de que os empregos e o domínio da máquina pública estariam garantidos.

No momento em que sua figura passou a representar a incerteza, Dilma foi posta na condição de devedora do trem pagador. Como se seus índices de insatisfações fossem resultado do desempenho da pessoa física. Não são: dizem respeito à pessoa jurídica PT S/A, que assumiu o poder com o propósito explícito (dito à época com orgulho por seus dirigentes) de construir uma hegemonia política, social e cultural no Brasil.

Ocupar todos os espaços, o que significa reduzir (para não dizer dizimar) as outras forças a papéis meramente minoritários. Em português claro, quer dizer a intenção de desconsiderar o fator alternância de poder. Para isso, o partido não poderia criar atritos nem enfrentar conflitos, ainda que resultassem em avanços para o País.

Desde o início, o governo do PT escolheu o caminho que lhe pareceu o mais fácil. Não conseguiu maioria no Parlamento? Atraia-se com dinheiro a maioria. Seria difícil prosseguir com as reformas tributária, trabalhista, sindical, política, previdenciária? Abandonem-se as reformas. É complicado imprimir um padrão mais decente de relações entre Executivo e Legislativo? Revoguem-se as disposições em contrário e locupletem-se todos. As forças do atraso criarão dificuldades? Abram-se alas e recuperem-se seus espaços dando a elas lugares de honra, merecedores de todo apreço e proteção.

Isso não começou no governo Dilma. O esgotamento que se vê hoje é consequência de todos os abusos cometidos em nome da acomodação de interesses com vista à execução de um projeto partidário.

Quando Lula defendeu que o deputado André Vargas se jogasse ao mar para que o PT não pagasse "o pato", tentou transferir a responsabilidade de uma conta que foi por ele avalizada, pelo partido foi chancelada e cuja fatura mais dia, menos dia ao País seria apresentada.

Acabou o teflon.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

O deputado federal Paulinho da Força, do Solidariedade, foi grosseiro ao se referir à presidente Dilma Rousseff. Não precisava; não devia (e avançar na tequila num ato político é claramente inconveniente). 

Correu o risco de abafar a mais importante constatação dos festejos de Primeiro de Maio: a de que acabou a época em que acusações a líderes petistas não aderiam a eles. Dilma, ausente, foi vaiada; vaiados foram, presentes, os ministros Gilberto Carvalho e Ricardo Berzoini, o prefeito paulistano Fernando Haddad (ficou mui-to bra-vo!), o candidato ao Governo paulista, Alexandre Padilha. Não foram vaiados só na festa da Força Sindical, que montou um palanque oposicionista; foram vaiados também - e alvejados por latas e garrafas - na festa da CUT, o braço sindical do PT.

É importante lembrar, também, que a CUT, de longe a maior central sindical do país, reuniu muito menos gente em sua festa de Primeiro de Maio do que a Força Sindical. A Força reuniu mais de cem mil pessoas (e anunciou um milhão e meio). A CUT reuniu algo como três mil (e anunciou 80 mil). Até os números inflados por ambas as centrais mostram a diferença de público entre suas festas.

Pior ainda, a CUT festejava também o discurso como eu sou boazinha da presidente Dilma Rousseff em rede nacional de TV, com farta distribuição daquilo que o pessoal do Palácio chamou de "bondades". Não adiantou e as vaias dominaram a comemoração. A explicação oficial é que "houve infiltração".

OK. E tudo indica que a tal infiltração cada vez será mais visível e barulhenta. 

Coisa estranha
Certo, Polícia Federal é órgão de Estado, não de Governo. É mas não é. E por que, sendo oficialmente subordinada ao ministro da Justiça, criou com a Operação Lava-Jato tantos problemas para o Governo Federal? Atingiu a Petrobras (e, com isso, não apenas Graça Foster, um dos mais fiéis braços da presidente Dilma; atingiu a própria presidente Dilma); atingiu empreiteiras imensas, bem nas vésperas da eleição presidencial, na hora mais propícia para ordenhá-las; atingiu candidatos do bolso do colete do ex-presidente Lula, como o até há pouco ministro da Saúde, Alexandre Padilha, candidato-poste ao Governo paulista. Acertou André Vargas, petista roxo, capaz até da besteira de fazer desfeita ao presidente do Supremo, que se atreveu a votar pela condenação dos mensaleiros. 

Durante um determinado período, dizia-se que a Polícia Federal tinha uma ala ligada ao ex-ministro José Serra, do PSDB. Mas Serra saiu do Ministério há 12 anos. E?

Siga os salários
Quem nada tem a perder é perigoso, ensina Goethe. A Polícia Federal se queixa de estar há sete anos sem aumento. Queixa-se de ingerência política, de transferência a outros setores de suas atribuições constitucionais, de más condições de trabalho. Um delegado da Polícia Federal começa com R$ 14 mil. E o promotor, que fez o mesmo curso jurídico e também prestou concurso? O Ministério Público do Rio está contratando promotores substitutos por R$ 22.800. 

Talvez por isso a Polícia Federal ameace fazer greve na época da Copa. Ou, em vez de cruzar os braços, esteja fazendo o que é pior para o Governo: trabalhar. 

Os amigos de Vargas
Estranhando que o deputado paranaense André Vargas, ex-PT, tenha desaparecido para não ser intimado a depor a respeito de suas ligações com Alberto Youssef, acusado de, entre outras coisas, ser doleiro e articulador de negócios pouco ortodoxos na área governamental? 

Não estranhe: Vargas precisa de algum tempo para arregimentar seus aliados. Por exemplo, o presidente do PT paranaense, Enio Verri, já partiu em sua defesa. Falando à jornalista Joice Hasselman (http://blogdajoice.com), Verri acusa o PT nacional e o presidente do partido, Rui Falcão, de ser duros demais com Vargas. Afirma que, se pudesse votaria pela absolvição do velho amigo e orientaria a bancada a também votar por ele. Verri não é o único. 

Vargas sempre soube obter recursos e dividi-los com os colegas.

Sorria, você paga a folia
Veja o cálculo em http://www.contasabertas.com.br/website/arquivos/8426, do portal Contas Abertas: os partidos políticos receberam no ano passado, do Fundo Partidário, R$ 294 milhões em dinheiro público. Só? Não! Os horários destinados a cada partido são gratuitos para eles, não para nós. As emissoras deduzem o custo dos programas de seu imposto - e pela tabela cheia, que não é cobrada de nenhum outro anunciante (há más línguas que dizem que a tabela cheia só é utilizada na propaganda que chamamos de gratuita).

Neste ano, o custo se multiplica, com mais de 30 partidos usando o tempo na TV e no rádio para a campanha.

Notícia boa, notícia má
A notícia boa é que Renan Calheiros, do PMDB de Alagoas, não será candidato ao Governo do Estado (vai apoiar seu filho, Renanzinho). 

A má notícia é que, não sendo candidato ao Governo de Alagoas, Renan continua no Senado.

Para gregos e goianos
O PMDB de Goiás chegou a um acordo de pacificação. Íris Rezende desiste de ser candidato, Junior Friboi, preferido pela cúpula nacional do partido, vai enfrentar Marconi Perillo, PSDB. 

Íris tem os votos, mas Junior Friboi tem dinheiro. 

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

O PT manda consertar o espelho

Guilherme Fiuza
Revista ÉPOCA

É intolerável a existência de um instituto de estatística que divulgue números desagradáveis

Esconder inflação custa caro, e é insuportável que esses técnicos sem noção do IBGE venham jogar todo o esforço no lixo, com seus números desobedientes e alienados

A presidente da República declarou que a oposição tenta destruir a imagem da Petrobras. Dilma Rousseff continua, portanto, na linha da humildade absoluta – cogita existir alguém capaz de destruir a imagem da Petrobras melhor que ela e seu governo. É uma lição de modéstia. Andaram retrucando na internet que a verdadeira destruição da imagem da Petrobras é Dilma e a presidente da empresa posando juntas de macacão laranja – mas isso é coisa de gente machista e reacionária. É por essas e por outras que o PT trabalha duro para consertar as verdades nacionais, como se vê no IBGE.

É intolerável a existência de um instituto de estatística que possa, a qualquer momento, divulgar números desagradáveis para a revolução do proletariado. Só pode ser conspiração da direita, como diria o companheiro Delúbio. Note-se o índice de inflação. Com todo o trabalho do governo popular para dar um banho de loja nos preços, com a maquiagem caprichada das tarifas públicas, vem o IBGE e mostra, sem a menor sensibilidade, que a inflação estoura o teto da meta. Não há revolução que aguente um órgão público alienado desse jeito. O ideal seria internar todo o corpo técnico do IBGE no STF, para um workshop com aqueles juízes que sabem como inocentar quadrilheiros sem perder a pose acadêmica.

Entre os preços maquiados pelo governo popular está o da gasolina. Isso não ajudou a destruir a imagem da Petrobras, coisa da oposição. Ajudou a destruir a própria Petrobras, derrubando o valor da empresa no mercado. Ou seja: esconder inflação custa caro, e é insuportável que esses técnicos sem noção do IBGE venham jogar todo o esforço no lixo, com seus números desobedientes e alienados.

Mas isso não ficará assim. Numa manobra revolucionária, a presidência do IBGE suspendeu até o fim do ano a divulgação da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios) Contínua, que traz dados sobre emprego e renda. A ideia é rever a metodologia. As pesquisas sobre desemprego são importantes demais para ficar nas mãos de pesquisadores.

Houve de imediato uma rebelião no corpo técnico, com a renúncia da diretora de pesquisa e ameaça de paralisação das atividades. Se o governo popular tivesse a coragem da companheira Cristina Kirchner, botava logo todo mundo no olho da rua e passava a divulgar números feitos em casa, com sensibilidade social e consciência política – como deve ser toda estatística. Espelho bom é o que satisfaz o dono.

Interessante notar que o pedido formal para a manobra metodológica do IBGE veio da senadora Gleisi Hoffmann, candidata do PT ao governo do Paraná. Quem é o amigo de fé, irmão camarada e coordenador da campanha eleitoral de Gleisi? Ele mesmo, o político mais famoso do momento, o homem que era vice-presidente da Câmara dos Deputados e teve de renunciar por pressão dos invejosos que não têm um doleiro para chamar de seu: André Vargas.

Foi, portanto, muito oportuna a iniciativa de Gleisi Hoffmann pela intervenção no IBGE, dentro da doutrina petista de botar a verdade nos trilhos. Alguém que convive com André Vargas e a turma que faz brotar dólares na palma da mão não pode deixar que a informação circule por aí solta assim, como uma libertina. Vai que a oposição fica sabendo o que não deve e resolve destruir também a imagem da senadora – como fez com a Petrobras?

Por uma dessas coincidências da vida, o mesmo doleiro que sugava a Petrobras abastecia o companheiro e financiador de Gleisi Hoffmann. Deve ser tudo uma armação da oposição para destruir a imagem de todas essas pessoas de bem. Curiosamente, uma das empresas do tal doleiro repartiu negócios com a Delta, líder das pilantragens no Dnit e nas obras do PAC – área sob supervisão da Casa Civil, então chefiada por Gleisi Hoffmann. Naturalmente ela não sabia de nada. Só sabia que podia confiar em André Vargas.

O bom disso tudo é que o Brasil também confia em todos eles. A linhagem da Casa Civil que desemboca na parceira de André Vargas tem ninguém menos que Erenice Guerra, Antonio Palocci e José Dirceu, entremeados por Dilma Rousseff. O novo IBGE deveria fazer a pesquisa de renda só com essa turma. 

Chega de estatísticas tristes


Os estudantes

Mario Vargas Llosa  
El Pais

A mais importante batalha pela liberdade está se dando nas ruas da Venezuela e não é justo que os jovens, que a lideram, não obtenham o apoio de Governos e organizações 
democráticas Maduro fracassará se tenta calar o movimento estudantil com um banho de sangue

FERNANDO VICENTE

As palavras também se gastam com o uso. Liberdade, democracia, direitos humanos, solidariedade vêm a nossos lábios com frequência e quase já não querem dizer nada porque as utilizamos para dizer tantas coisas, ou tão poucas, que se desvalorizam e se tornam fantasmas ao extremo de se transformarem em meros ruídos. Mas, de repente, circunstâncias sociais e políticas as recarregam de conteúdo e de verdade, as impregnam de sentimento e de razão –e é como se ressuscitassem e expressassem de novo o sentir de todo um povo.

É o que vivo nestes dias na Venezuela, escutando dirigentes estudantis e líderes da oposição, homens e mulheres comuns e normais que nunca antes fizeram política e agora a fazem, pondo em jogo os trabalhos, a tranquilidade, a liberdade e até a vida, impelidos pela consciência de que, se não houver um choque nacional democrático que o desperte e mobilize, o país vai à ruína, a uma ditadura totalitária e à pior catástrofe econômica de toda sua história.

Embora o processo venha de trás – as últimas eleições viram crescer de modo gradual a oposição ao regime chavista –, a mudança qualitativa teve lugar no começo de fevereiro deste ano, em San Cristóbal, Estado de Táchira, quando uma tentativa de violação de uma jovem na Universidade dos Andes levou os estudantes a convocar uma grande marcha contra a insegurança, a falta de alimentos, os sequestros, os desmandos dos assassinos e a sistemática restrição das liberdades dos cidadãos. O regime decidiu usar mão dura. A Guarda Nacional e as forças paramilitares – indivíduos armados com pistolas, facas e bastões, montados em motos e com os rostos cobertos – atacaram os estudantes, os espancaram e balearam, matando vários deles. Levaram dezenas de detidos a quartéis distantes onde foram torturados com choques elétricos, golpes, sodomizados com paus e fuzis, e as moças,

A ferocidade repressiva resultou contraproducente. A mobilização estudantil se estendeu por todo o país e em todas as cidades e povoados da Venezuela gigantescas manifestações populares expressaram seu repúdio ao regime e sua solidariedade com as vítimas. Por toda parte se levantaram barricadas e o país inteiro pareceu viver um despertar libertário. Os 500 advogados voluntários que constituíram o Foro Penal Venezuelano, para defender os detidos e denunciar os assassinatos, desaparecimentos e torturas, elaboraram um relatório que documenta com riqueza de detalhes a selvageria com que os herdeiros do comandante Chávez tratam de fazer frente a esta formidável mobilização que mudou a correlação de forças na Venezuela, atraindo para as fileiras da oposição uma inequívoca maioria de venezuelanos.

Minha impressão é que este movimento seja irrefreável e mesmo que Maduro e seus cúmplices tentem esmagá-lo com um banho de sangue, fracassarão – e a matança só servirá para acelerar sua queda. A liberdade ganhou as ruas da terra do verdadeiro Bolívar (não a caricatura que fez dele o chavismo) e o apregoado “socialismo do século 21” está ferido de morte.

Quanto mais rápido ele for embora, melhor será para a Venezuela e para a América Latina. A maneira como o regime, em seu empenho frenético de coletivizar e estatizar a nação, empobreceu e destruiu um dos países potencialmente mais ricos do mundo ficará como um caso emblemático dos desvarios a que pode conduzir a cegueira ideológica em nosso tempo. Além de ter a inflação mais alta do mundo, a Venezuela é o país de menor crescimento em todo o continente, o mais violento, e no qual a asfixia burocrática se reproduz mais rápido, ao extremo de manter na paralisia quase total a administração pública. O regime de controles, preços “justos” e intervencionismo estatal esvaziou todos os armazéns e mercados de produtos, e o mercado negro e o contrabando alcançaram extremos de vertigem. A corrupção é o único item em que o país avança a passos de gigante.

Desconcertado pela mobilização popular encabeçada pelos estudantes que ele não consegue esmagar mediante a repressão, o governo de Maduro, com a cumplicidade dos países da Alba, tenta ganhar tempo, abrindo diálogos de paz. A oposição tem feito bem participando deles, mas sem se desmobilizar e exigindo, como prova de boa fé governamental, pelo menos a libertação dos presos políticos, começando pela de Leopoldo López, a quem o governo, ao encarcerá-lo, converteu, segundo todas as últimas pesquisas, no líder político mais popular da Venezuela, juntamente com María Corina Machado. Conheci a mãe e a esposa de López, duas mulheres admiráveis, que enfrentam com coragem fora do comum a perseguição de que são vítimas por estar na vanguarda da batalha pacífica que a oposição trava para impedir o desaparecimento das últimas frestas de liberdade que ainda restam na Venezuela.

Mas queria sublinhar uma vez mais o papel destacadíssimo que desempenham os estudantes na grande gesta libertária que vive a Venezuela. A chavista deve ser a única revolução em sua história que mereceu, desde o começo, a hostilidade quase generalizada dos intelectuais, escritores e artistas, assim como a dos estudantes, que, neste caso, deram muito mais demonstrações de lucidez e olfato político que, no passado, seus congêneres latino-americanos.

É estimulante e rejuvenescedor ver que o idealismo, a generosidade, o desprendimento, o amor à verdade e a coragem estão tão vivos entre a juventude venezuelana. Aqueles que, frustrados pela futilidade das lutas políticas em seus países de democracia medíocre e rotineira, tornam-se cínicos, desprezam a política e optam pela filosofia do “quanto pior, melhor” deveriam dar uma volta pelas guarimbas venezuelanas, como aquela da avenida Francisco de Miranda, no centro de Caracas, onde moços e moças convivem já há várias semanas, organizando conferências, debates, seminários, explicando aos passantes seus projetos e desejos para a futura Venezuela, quando a liberdade e a legalidade retornem e o país desperte do pesadelo que vive há 15 anos.

Aqueles que chegaram à deprimente conclusão de que a política é uma atividade imunda, de medíocres e ladrões, e que é preciso, portanto, dar-lhe as costas, venham à Venezuela, onde ouvindo estes jovens, falando e aprendendo com eles, comprovarão que a ação política pode ser também nobre e altruísta, uma maneira de enfrentar a barbárie e derrotá-la, de trabalhar pela paz, convivência, justiça e liberdade, sem dar tiros nem detonar bombas, com razões e palavras, como fazem os filósofos e os poetas – criando a cada dia gestos, espetáculos, ideias, como fazem os artistas, que comovam e eduquem os outros e os embarquem num empreendimento libertário. Centenas de milhares, milhões de jovens venezuelanos estão dando nestes dias à América Latina e ao mundo inteiro um exemplo de que ninguém deve renunciar à esperança, de que um país, não importa quão profundo seja o abismo no qual a demagogia e a ideologia o precipitaram, sempre pode sair dessa armadilha e redimir-se.

Alguns desses jovens já passaram pela prisão e sofreram torturas, e alguns deles podem morrer, como os cerca de 50 companheiros que já perderam a vida nas mãos dos assassinos encapuzados com que Maduro pretende calá-los. Não os silenciarão, mas não é justo que estejam tão sozinhos, que os governos e as organizações democráticas não os apoiem e às vezes até fiquem do lado de seus verdugos. Porque a mais importante batalha pela liberdade de nossos dias está ocorrendo nas ruas da Venezuela e tem um rosto juvenil.

© Direitos mundiais de imprensa em todas as línguas reservados a Ediciones EL PAÍS, SL, 2014.
© Mario Vargas Llosa, 2014.

A sortida herança de problemas para 2015

Editorial
O Globo

Além do represamento de tarifas e da desarrumação do setor elétrico, espera o próximo presidente, tudo indica, uma conta bilionária de gastos correntes postergados

Seja qual for o presidente a partir de 1º de janeiro, já se sabe que a — ou o — esperará no principal gabinete do Palácio do Planalto uma lista razoável de questões intrincadas no campo da economia. Todas derivadas de erros cometidos no presente governo.

Ultimamente, quando se fala em “herança maldita” para o próximo presidente, pensa-se no setor elétrico. De fato, a desarrumação patrocinada por Dima, ao intervir de maneira radical no setor e forçar um corte eleitoreiro nas tarifas conjugado com a renovação de concessões, não será de simples conserto.

Com a infeliz coincidência de uma seca histórica no Sudeste — potencializada pela teimosia eleitoreira do governo em não recuar no corte e/ou fazer campanhas de moderação do consumo —, as termelétricas, de custo operacional mais elevado, são forçadas a operar em três turnos e, com o veto palanqueiro ao repasse às contas de luz, cria-se no armário das contas públicas um “esqueleto” fiscal de grandes dimensões.

O represamento desta e de outras tarifas, como os preços de combustíveis, subsidiados pela já sobrecarregada Petrobras, precisa ser equacionado logo no início do governo. Para fugir de um tarifaço — possibilidade não afastada —, quem estiver com a faixa presidencial em 1º de janeiro precisará escalonar o ajuste.

Mas há outros ingredientes também preocupantes neste pacote de heranças. A própria “contabilidade criativa” é um deles, porque continua em funcionamento a usina de produção de números pouco ou nada confiáveis sobre o fluxo de dinheiro público, embora tenha sido este jogo de ilusionismo estatístico um dos fatores que contribuíram para o rebaixamento da nota de risco do país pela agência S&P.

Reportagem do GLOBO da última segunda-feira revelou que continua o represamento artificial de despesas, feito pelo Ministério da Fazenda/Secretaria do Tesouro na virada do ano, para maquiar as contas públicas.

Um dos truques — além da subestimativa de gastos feita no Orçamento — é retardar repasses obrigatórios. O Tesouro nega que a Previdência padeça do problema. Mas a operação-tartaruga neste fluxo financeiro, sempre com o objetivo de melhorar a aparência do superávit primário, iria além. Atingiria, por exemplo, o programa Minha Casa, Minha Vida, até mesmo o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT).

Trabalho feito pela Consultoria de Orçamento da Câmara, a partir de dados do Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi), detectou que o Tesouro empurrou de janeiro para fevereiro 5,66% dos desembolsos previstos. Em fevereiro, 18,9%, e, março, 10,86%.

Nesta progressão, o próximo presidente também herdará uma conta bilionária postergada para 2015 nas despesas correntes. Já ampliadas pelo pacote populista-eleitoreiro de 1º de Maio. Sem falar, nas tarifas irreais. Trabalho e dores de cabeça não faltarão.


Imagina depois da Copa!

Paulo G. M. de Moura
O Estado de S.Paulo

No marketing político, as pesquisas qualitativas são importantes ferramentas para auxiliar os estrategistas no posicionamento, na administração da imagem pública e na calibragem do discurso das candidaturas. Informações veiculadas pela Folha de S.Paulo recentemente dão conta de que a presidente-candidata Dilma Rousseff teria mudado seu discurso sobre a Copa de 2014 após ver pesquisas de avaliação do impacto das jornadas de junho de 2013 na opinião pública. Segundo essas sondagens, a população vê com ceticismo o legado da Copa e como "maquiagem" as obras para garantir o sucesso do mundial.

Em razão disso, a presidente-candidata passou a minimizar a retórica do legado da Copa associado às obras de infraestrutura, passando a focar seu discurso no orgulho ufanista dos brasileiros, eufóricos em ver o "país do futebol" sediar o principal evento global contemporâneo. O bordão desse novo discurso de Dilma seria "a Copa das Copas", sugerido pelo consagrado publicitário Nizan Guanaes, que foi o estrategista das campanhas vitoriosas de FHC em 1994 e 1998.

Por trás da percepção de "maquiagem" relacionada às obras da Copa residiria o sentimento da sociedade de que, passado o evento, tudo voltará a ser como antes e de que subjacente ao propalado legado da Copa estaria o velho "jeitinho brasileiro", agora percebido como algo negativo. Apesar do ufanismo de parte da população, a Copa de 2014 estaria sendo contaminada pelo temor da falta de segurança pública e pela herança de um amontoado de obras inacabadas.

Por fim, a associação do governo com a Fifa seria foco "das mais cáusticas críticas", razão pela qual o governo passou a se apresentar à opinião pública como fiscal das obras, e não como construtor dos estádios - elogiados pela qualidade, mas criticados pelo contraste com os péssimos serviços públicos de transporte, saúde, educação e segurança.

Neste momento em que as pesquisas quantitativas publicadas projetam o favoritismo da presidente-candidata, as conclusões dessa sondagem qualitativa do governo suscitam reflexões.

Em primeiro lugar, chama a atenção a percepção revelada pela pesquisa de que o "jeitinho brasileiro", que antes era visto como atributo de criatividade, agora é associado à conotação de "esperteza" e "maquiagem". Em segundo lugar, impressiona a consciência dessa parcela da sociedade, que já percebeu que os verdadeiros legados da Copa serão os estádios vazios e mal acabados, obras urbanas inacabadas, corrupção e desperdício de dinheiro público. Foi essa camada da população que forçou a presidente-candidata a reposicionar seu discurso para o foco no bordão "a Copa das Copas".

E o que sugere o slogan "a Copa das Copas"? No mínimo, que "nunca antes na história" deste planeta haveria uma Copa tão grandiosa como a Copa de 2014. Certo, Monsieur Jérôme Valcke? Mas o que seria a melhor Copa do Mundo de todos os tempos? Aquela em que o Brasil terá um desempenho arrasador, infinitamente superior ao dos adversários, vencendo todas as partidas de goleada e sagrando-se hexacampeão? É isso, Nizan Guanaes? Será, João Santana?

Se não, então "a Copa das Copas" seria aquela em que o Brasil daria um show de cobertura de TV, superando espetacularmente a qualidade midiática das Copas anteriores? Nossa televisão, notadamente na cobertura do futebol, já é uma das melhores do mundo. Estamos bem nesse quesito, mas certamente não será por isso que a Copa de 2014 seria "a Copa das Copas". Certo, Galvão Bueno?

O que seria "a Copa das Copas" para o povo brasileiro? Levando em conta as expectativas forjadas e alimentadas pelo ex-presidente Lula quando se envolveu de forma direta - e inédita para um presidente da República - com a atração da Copa de 2014 para o Brasil, intui-se que a sociedade brasileira foi levada a crer que, após o crescimento de 7,5% do PIB em 2010 e a eleição da presidente Dilma, o ano que se inicia seria o da entrada triunfal do Brasil no G8+1. Com direito a trem-bala, assento no Conselho de Segurança da ONU e, é claro, a reeleição de Dilma para um quarto mandato consecutivo do PT na Presidência da República.

Teríamos, assim, pelas mãos de Lula, chegado àquele momento mágico da história da Nação em que o gigante se levantaria do berço esplêndido para transformar em presente o bordão do regime militar, que nos anos 70 nos vendeu o sonho do "país do futuro". E legou-nos a hiperinflação e dívidas astronômicas.

No entanto, aprende-se nas disciplinas de qualquer curso de introdução ao marketing que o produto cujo conteúdo não corresponde aos atributos anunciados na embalagem e enaltecidos pela publicidade não sobrevive no mercado.

O que dizer deste "produto", o Brasil com que Lula embalou os sonhos da maioria que elegeu Dilma? O ex-presidente Lula está entregando ao povo o Brasil que "vendeu"? O Brasil que Lula nos lega "nunca antes" foi este país que temos hoje?

Serviços públicos "padrão Fifa"? Esquece! Mas e os estádios? Sim, pelo menos as arenas "padrão Fifa" Lula precisaria nos entregar para termos uma Copa equivalente à da África do Sul. Mas nem isso, presidente Lula? O que dizer da infraestrutura urbana? Maquiagem e improviso na finalização dos estádios; obras inacabadas; jeitinho aqui, jeitinho ali; desperdício; corrupção; dívidas bilionárias.

Assim, a Copa de 2014, com ou sem vitória do Brasil, se esgota como produto de consumo, no mês de julho, substituída que será pela pauta da eleição presidencial. As pesquisas qualitativas já apontavam, em 2013, o "mercado" dividido na percepção do legado deste evento. Já ali existia a sensação da população de que, passada a Copa, "tudo voltará a ser como antes". Que sentimento prevalecerá quando a avalanche de euforia midiática da "Copa das Copas" se converter em horário eleitoral gratuito, em pleno "mês do cachorro louco"?

A inútil futurologia do “Volta Lula”

Juan Arias 
El Pais

Lula nunca apostaria nesse pôquer. Conseguiu a categoria de mito e prefere, diz, demonstrar que pode ser tão importante ou mais “sem cargos” do que com eles

Falta só consultar os astros sobre a possibilidade de que Lula volte a candidatar-se às presidenciais. E todos opinaram, ao que parece, até os adivinhos. E todos os intelectuais.

O “Volta Lula” se transformou em um jogo que de jogo tem pouco porque se trata dos destinos de um país da importância do Brasil fora e dentro de suas fronteiras.

A política pode estar desprestigiada o quanto se quiser, mas sem ela caminharíamos para algum dos fascismos do passado e do presente. Não se pode brincar com fogo.

Lula sabe disso e Dilma também. E os que fingem não saber e se divertem seguindo com o jogo, revelam que para eles a política é só isso, um jogo, mas de conveniência, interesseiro e às vezes rasteiro.

O ex-presidente torneiro mecânico pode ter muitos defeitos e às vezes também ele se divertiu brincando com sua vocação de metamorfosear-se, dizendo sem dizer, mas nesse caso ele que sempre foi um político com visão do futuro, e que, além do mais, gosta do poder, não quis pegar cartas do jogo.

Lula disse de todos os modos, no Brasil e no exterior, a jornalistas de todas as cores, inclusive deste mesmo diário, que não se apresentará, que sua candidata é Dilma e que se empenhará ao máximo para que seja reeleita, o que é honestamente democrático.

Os que ouvem suas confidências confirmaram isso a este jornalista: Lula não tem a menor intenção de apresentar-se como candidato nestas eleições. E nas próximas? Aí, como ele mesmo afirmou “na vida não se pode dizer nunca”. E nisso tem razão.

Mas agora, não. E isso a pesar de que o grito de “Volta Lula” lhe chega forte de alguma caverna de seu partido e até das fileiras de alguns dos aliados e de não poucos empresários e banqueiros.

E os pobres? Os pobres ainda gostam de Dilma “a mulher de Lula”. E gostam justamente porque Lula a apresentou como a melhor candidata da praça. E acreditaram nele.

Poderia hoje Lula desmontar, sem desfazer seu mito, todo aquele castelo que ele mesmo levantou pedra por pedra? Dilma, quando foi escolhida por Lula, tinha 3% nas pesquisas.

Há quem assegure que Lula não teria escrúpulos em abandonar a Presidenta, sua criatura, se se tratasse de salvar o partido ou de salvar a economia do país.

Esquecem-se que Dilma nesses quatro anos se cansou de dizer que não tomava decisões importantes sem contar com Lula. Como fez em todos os momentos cruciais.

Aos que dizem ou insinuam que Lula poderia trair Dilma, ela se antecipou respondendo que confia de pés juntos em “sua lealdade”.

E se Dilma desistir? E por que deveria fazê-lo? Porque poderia perder, dizem, mas quem garante que se Lula a fizer sair e se colocar em seu lugar ele ganharia as eleições? Como interpretar o eleitor?

Lula é inteligente demais para apostar nesse pôquer. Conseguiu a categoria de mito. Como ele mesmo disse, prefere demonstrar que pode ser tão importante ou mais na política “sem cargos” do que com eles.

A tudo isso deve-se acrescentar que, se o PT, com o propósito de não sair do poder forçar uma volta de Lula que parecesse uma deslealdade à sua criatura Dilma, sob a desculpa que for, estaria dando um mau exemplo à democracia. Felizmente, o Brasil conquistou um estado democrático com lacunas, como todas as democracias, mas onde funcionam a divisão de poder e a liberdade de expressão. É a democracia mais sólida dos Brics.

E no jogo das democracias está incluso que as forças políticas e os governos se alternem no poder. Ganhar ou perder na democracia não é uma tragédia, é a regra do jogo.

Por acaso algum dos possíveis presidenciáveis de outubro constitui um perigo evidente para a democracia brasileira? Não são seus partidos tão democráticos como o PT? Não têm o direito de chegar ou voltar também eles ao poder?

Lula sabe que é assim. Dilma também. Ambos farão tudo o possível para seguir no comando, mas de modo limpo, para continuar com seus programas de governo ou até para mudá-los se considerarem necessário. E têm todo o direito de lutar para continuar no poder. O mesmo direito que as oposições têm de brigar para conseguir desbancá-los.

E precisamente por que Lula sabe muito bem como é o jogo da política, não pode a essa altura – nem quer – desmanchar o baralho para entrar no jogo.

Dilma também sabe como é esse complexo e às vezes cruel jogo de poder. Demonstrou que gosta desse jogo e confirmou que, apoiada pelos aliados ou só, o disputará. Alguém poderia contestar-lhe esse direito?

Alega-se que se Dilma perdesse as eleições seria uma derrota de Lula. Não, seria um resultado que faz parte de toda a disputa política. Uma derrota muito maior, várias derrotas ao mesmo tempo, seria se Lula forçasse de algum modo Dilma a desistir para ele sair à arena, em uma clara evidência de que é melhor do que ela, sem, além disso, ter a certeza – que somente as urnas podem dar, não as pesquisas – de que ele venceria as eleições.

Lula sabe disso. Por isso não se apresentará. Pode até ter se divertido com o jogo, embora a esta altura, e com o país com os nervos à flor da pele, disposto a exigir o que acredita que lhe pertença por direito, nem sequer esse jogo já deva diverti-lo.

A Lula, por sua biografia, por seus êxitos em seus oito anos de governo, por seu prestígio internacional, por sua devida lealdade em quem confiou há quatro anos para que o sucedesse, não só não interessa, mas também nunca se arriscaria a criar um terremoto político e eleitoral.

Ao fazê-lo, teriam se equivocado todos aqueles milhões de brasileiros que confiaram nele ao colocar as rédeas do poder, pela primeira vez, nas mãos de um torneiro mecânico sem estudos, mas doutorado como poucos em sabedora política.

E teriam se equivocado também os milhões de eleitores que há quatro anos voltaram a dar-lhe crédito e elegeram, quase sem conhecer, aquela que ele enalteceu como a melhor capitã para pilotar o país.

Se Dilma perdesse as eleições, ela perderia. Se as ganhasse, ganhariam os dois juntos. Se Lula se equivocasse, perderiam os dois e, sobretudo, o seu partido perderia.

O importante não é quem ganhe, mas que o país ganhe para poder continuar melhorando com mais democracia, menor desigualdade social e melhor qualidade de vida para todos.

Lula não voltará agora, e Dilma disputará com garra as eleições democraticamente. E os brasileiros, soberanos nas urnas, darão sua última palavra. E, no final, lula aplaudirá.

Teremos recall?

Maria Helena RR de Sousa
Blog Noblat

O 1º de Maio no Reino Petista foi de estarrecer.

Em São Bernardo do Campo a CUT reuniu militantes para shows, discursos e um ato que misturava religião com invectivas contra a Mídia! Representantes de diversas crenças pregando contra a Imprensa, orando pelo fim da sua liberdade. Um espanto!

Em Santo André, Lula culpa as elites e a Mídia por críticas contra o governo. E diz não temer as manifestações contra a Copa.

As declarações, em ambas as festas, foram sensacionais! Não sei dizer quem foi mais extravagante, se o ‘padre argentino’ (sem nome ou ordem à qual pertença), o pai de santo, ou o ex-presidente.

O ‘padre’ disse que “As informações que chegam até vocês, de Venezuela, Cuba e Argentina, são tortas. Precisamos lutar por uma mídia mais democrática, mais justa”.

Democrática igual à venezuelana? Ao Granma? Aos jornais pró-Kirchner?

O pai Cássio (curioso não dizerem a qual Terreiro ou Tenda pertence...) disse que “A mídia, sempre mancomunada com a ditadura, se cala na questão da anistia a torturadores. Torturadores não podem ser perdoados, e a mídia se omite nessa questão até hoje”. A calúnia é tão infame, que o melhor é ignorar a figura.

Já o Lula, ah! o Lula! Esse continua apelando para o tema das ‘zelites’, as que têm preconceito contra os pobres.

“Eles que não gostam de nós, que têm preconceito contra o PT, que não gostam de mim, é por causa disso. Não é pelas coisas erradas que nós fazemos, é pelas coisas certas. Porque o Prouni e o Fies (programas de incentivo ao ensino superior) permitem que a filha da empregada doméstica possa ser médica, que o filho do pedreiro possa ser engenheiro, que o filho do jardineiro possa ser advogado”, eis o que ele disse no 1º de maio em Santo André.

Sinceramente, esse disco já furou. Ou o Lula o troca rápido, ou vai levar o susto da sua vida. Ninguém aguenta mais essa lenga-lenga e assim não vai haver força que faça o recall funcionar...

Disse também que não gostaria que os meios de comunicação falassem bem ou mal de seu governo, mas “falasse a verdade” (sic), de acordo com sua interpretação:

- As pessoas ficam assistindo a televisão falando bem de nós, e como falam bem. Eu até acho que a imprensa é chapa-branca de tanto falar bem da Dilma - afirmou, em tom de ironia.

Ontem, a Imprensa ‘chapa-branca’ transmitiu o discurso da talvez-futura-quem sabe candidata do PT à reeleição. Ainda não era hora disso, mas afinal, era o Dia do Trabalhador e da Trabalhadora. E dona Dilma estava trabalhando. Pelo recall.

Reprodução RTP

Já o Lula eu não sei por quem trabalhava em sua entrevista à RTP – Mídia Internacional! Sei que foi um tapa na cara dos brasileiros. Um ex-presidente falar mal de um dos Três Poderes da República para o microfone de uma emissora estrangeira? Com que intuito?

E precisava dizer que os companheiros presos não eram de sua confiança? Tem mais: precisava tanto make-up?