sexta-feira, maio 09, 2014

Por que não há espaço para linchamento em um país civilizado

Beatriz Souza
Exame.com

Morte da dona de casa espancada no litoral de SP acendeu a luz amarela na sociedade sobre fazer justiça com as próprias mãos. Veja 4 razões pelas quais isso é inaceitável

Reprodução/ Youtube 
Mulher é carregada por seus agressores: Fabiane Maria de Jesus foi confundida
 com uma sequestradora de crianças e espancada no litoral de São Paulo

São Paulo - No último sábado, Fabiane Maria de Jesus, 33 anos, foi espancada até a morte após ser confundida com uma mulher que teria sequestrado crianças para realizar trabalhos de magia negra. As pessoas que a amarraram e a agrediram não eram membros das forças policiais e de justiça, mas moradores da região. 

A dona de casa era casada, tinha duas filhas e morava com a família no Guarujá, no litoral de São Paulo.

Isso ocorreu mesmo não havendo nem mesmo queixa na polícia sobre desaparecimento de crianças. Mesmo assim, ela  foi punida pelos agressores com a morte.

Hoje, um suspeito de ter participado da ação foi preso pela Polícia Civil.

O caso está longe de ser o primeiro a chamar atenção da sociedade. Em fevereiro, no Rio de Janeiro, outro caso de espancamento e humilhação pública ganhou espaço na imprensa nacional.

Um grupo tirou a roupa de um adolescente e o prendeu a um poste preso por uma tranca de bicicleta. A justificativa era que o menino praticaria roubos e furtos na região. 

Na avaliação do advogado e coordenador da ONG Conectas, Rafael Custódio, apesar da sensação de que os casos de justiceiros estão acontecendo com mais frequência, eles estão apenas ganhando mais repercussão por causa das redes sociais. 

Mas apesar do apoio de uma parte (não estimada) da população, a justiça pelas próprias mãos não melhora o país – pior, o faz retroceder em nome da falsa sensação da população em ocupar o lugar do Estado.

"Pouco importa se ela era culpada ou inocente do crime que era acusada. É inaceitável de qualquer modo", diz Custódio.

Veja abaixo 4 razões pelas quais atos como esse não fazem sentido no Brasil de hoje.

1. Diferenciar culpados de inocentes? Melhor deixar com o judiciário
Se Fabiane fosse levada à polícia e, em última instância, mesmo a um tribunal - onde provas teriam que ser apresentadas, com defesa e acusação - a dona de casa ainda estaria viva. Tudo não teria passado de um mal entendido. 

Na verdade, seu caso nem chegaria à polícia, porque não existiam queixas de sequestro de crianças na cidade. 

Embora linchamentos sejam errados em qualquer circunstância, eles causam ainda mais indignação quando envolvem inocentes. E esse é um dos maiores perigos quando a população resolve agir por conta própria.
Recentemente, o programa CQC, da TV Band, mostrou a facilidade com que situações do tipo podem fugir de controle.

Em um dos quadros do programa, a produção contratou atores que simularam a ação de justiceiros diante de um roubo simulado de celular.

Cidadãos comuns, provocados pela equipe de atores, acabaram querendo agredir o falso ladrão, confiando na informação que haviam acabado de receber da boca de desconhecidos. 

2. A violência é monopólio do Estado
Assim como em qualquer país civilizado, o uso da força e da violência no Brasil é monopólio do Estado. Isto quer dizer que só a polícia pode usar da violência em suas atividades, quando necessário (os vários erros neste processo são outra história). 

Na prática, isto significa que, quando há a eleição de representantes que irão tomar as decisões pela população, passa-se ao poder público o dever de resolver os problemas da sociedade.

De acordo com a Constituição Federal, a segurança pública é um dever do Estado e um direito dos cidadãos.

A polícia e a justiça são as únicas com poder para coibir, investigar e julgar os crimes, de forma a garantir a ampla defesa, a apresentação de provas e que as penas aplicadas simplesmente não saiam da cabeça de cada um (ou de qualquer massa enfurecida de pessoas).

3. Existem meios legais de se exigir mais segurança
Não é novidade para ninguém que há uma descrença generalizada na polícia e na justiça brasileira por parte dos cidadãos. 

O descontentamento, é verdade, não é gratuito: apenas 8% dos homicídios registrados no Brasil são solucionados. 

Isso em um país que é o 16º colocado entre os países com maior taxa de homicídios, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). 

Se há uma insatisfação em relação à segurança pública, não há dúvidas de que é direito da população reclamar e buscar mudanças pelos meios legais. Apesar deles serem, comumente, mais longos e demorados.

Além de protestos, pode-se também ir atrás dos representantes nas Câmaras e nas Assembleias, procurar os órgãos competentes do governo municipal ou estadual, prestar queixa na própria polícia. Há diversos meios para isso.

Eles estão longe da perfeição, claro - mas os linchamentos, além de mais falhos ainda na busca de inocentes e culpados, implicam, em última instância, a um retorno a um estado primitivo em que cada um faz o que quer, quando quer.

Ninguém, nem mesmo os mais radicais, iriam gostar de viver em um país assim, se esse conceito fosse levado ao pé da letra.  

4. Não existe pena de morte no Brasil
Mesmo se fosse de alguma forma aceitável que cidadãos agissem no lugar da justiça, a pena imposta em vários casos é absurda diante do Código Penal brasileiro.

A pena máxima permitida no Brasil são 30 anos de prisão - não existe nem mesmo prisão perpétua.

Ou seja, é realmente justo que crimes das mais diversas nuances e graus de gravidade acabem em morte ou danos severos aos supostos culpados?

Cresce a violência nascida da intolerância

Editorial
O Globo

Falar em violência no Brasil, nos últimos 30 anos, chega a ser redundância. Há, é certo, políticas públicas que, em algumas regiões metropolitanas, como as de Rio e São Paulo, conseguiram reduzir bastante a taxa de homicídios, termômetro usual para mensurar-se o nível de segurança pública. Mas há um outro tipo de violência em ascensão, algo diferente, tão ou até mais grave, a qual esses indicadores clássicos não conseguem captar na sua totalidade.

O noticiário tem trazido uma mistura indigesta de atos de pura selvageria em linchamentos espalhados pelo país. Destacou o caso não menos bárbaro do torcedor assassinado ao ser atingido por um vaso sanitário jogado de cima do estádio do Arruda, em Recife, e tem acompanhado a sucessão sem-fim de embates violentos nas ruas de grandes cidades, principalmente São Paulo e Rio.

Tudo junto compõe o clima de mau humor e exasperação que toma conta do país. Parece haver no ar uma eletricidade capaz de produzir faíscas a partir de qualquer situação banal. Rixa no trânsito, fila no banco, e assim por diante.

Pode-se fixar em junho do ano passado, na explosão de manifestações de ruas, inicialmente espontâneas, o marco zero do atual processo de degradação da convivência social. Mais precisamente quando aquelas manifestações foram sufocadas pelo oportunismo de grupos radicais, aproveitando-se daquela mobilização contra precariedades na infraestrutura e nos serviços públicos, para estabelecer um padrão de atos cada vez mais violentos, com depredações de bens públicos, privados e agressões. Entre os alvos, policiais e imprensa profissional. A intolerância também ganhou as ruas.

O ápice da escalada foi o assassinato do cinegrafista Santiago Andrade, da TV Bandeirantes, em fevereiro, na Central do Brasil, pelo disparo criminoso de um rojão por Fábio Raposo e Caio Barbosa, dois integrantes dos grupos de vândalos que atuam nesses ataques. A devida reação das instituições de Estado, Polícia e Justiça fez arrefecer a ação de black blocs e aparentados. Mas eles estão de volta.

O motivo inicial foi a tarifa dos transportes públicos. Logo, a Copa entrou na agenda dessas organizações e, nas últimas semanas, em São Paulo e Rio, cresce nesta agenda a questão da moradia, com a atuação orquestrada, nas duas cidades, de invasores de imóveis e terrenos.

O modelo é o de sempre: ocupação, resistência e passeatas, com desfecho violento — depredações, barricadas erguidas com rapidez e logo incendiadas, para dificultar o avanço dos batalhões de choque. Qualquer grupo de poucas dezenas de pessoas tem conseguido paralisar áreas vitais de São Paulo e Rio.

O Código Penal e a própria Constituição, no sentido mais amplo, têm sido revogados na prática, diante de um poder público inerte. Ou quase. É correto o cuidado das autoridades em não produzir um cadáver que possa ser manipulado a fim de turbinar os protestos. Mas a paralisia catatônica também não é a melhor postura.

Está evidente que há algo em curso, planejado, na linha da radicalização e da intolerância anárquicas. Até mesmo o atual momento de tensão em algumas favelas cariocas, em que o tráfico tenta retomar espaços perdidos para UPPs, tem sido aproveitado para se espalhar a violência em bairros da cidade, numa aliança espúria, tácita ou não, com criminosos.

Militantes desses movimentos chegam a perseguir pessoas em locais públicos, no estilo dos grupos nazifascistas nas décadas de 30 e 40, na Alemanha, na Itália e na Áustria. Há dias, o próprio ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, conhecido pelo trânsito fácil com organizações sociais, foi afrontado por um desses militantes, no Rio.

A questão vai, portanto, além de divergências partidárias —, embora se saiba que esquemas políticos têm aproveitado a radicalização com objetivos eleitorais. Esta infiltração é detectada há algum tempo no Rio de Janeiro.

A insegurança pública ganhou, portanto, de meados do ano passado para cá, este ingrediente explosivo de organizações semiclandestinas radicais. Elas têm todo o direito de se pronunciar, mas desde que nos limites da lei. Não é o que acontece.

O clima, já ruim, se deteriora, e o surto de incivilidade em todo o país é ainda mais aprofundado pela onda de linchamentos e atos de selvageria cometidos já para além das fronteiras da barbárie. Mesmo que linchamentos sejam um trágica tradição no país, segundo especialistas, eles aumentam seu espaço no noticiário, num momento nacional já de nervos à flor da pele.

Em janeiro, foi chocante o grupo de jovens “justiceiros” cariocas prender num poste, nu, um jovem delinquente negro. Casos vinham se sucedendo até que, na segunda-feira, a dona de casa Fabiane Maria de Jesus foi trucidada por vizinhos, na periferia de Guarujá, litoral nobre paulista, por ter sido acusada, na página no Facebook do “Guarujá Alerta”, de sequestrar crianças, para sacrificá-las em cerimônias de magia negra. Era mentira. E mesmo que fosse verdade, ali o Brasil retornou à Idade Média da caça literal às bruxas, a serem incineradas em praça pública.

O sociólogo José de Souza Martins, professor da Faculdade de Filosofia da USP, estimou, em entrevista ao “O Estado de S. Paulo”, que haja três ou quatro casos no Brasil, por semana. Souza Martins fala com a autoridade de quem estuda linchamentos há 30 anos, já tendo catalogado dois mil.

O Brasil deve ser o país em que mais se faz “justiça” pelas próprias mãos, afirma o sociólogo. O sintoma de descrença no Estado é claro. Como diz o professor, em um dos seus livros: “O linchamento não é uma manifestação da desordem, mas de questionamento da desordem.”

Desordem existente porque há um poder público — todo ele, nos mais diversos níveis — incapaz de agir para que a lei seja cumprida. Por black blocs ou quem seja. Que esta sucessão de selvagerias, país afora, faça todos refletirem sobre os rumos que a sociedade toma. No caso das autoridades, elas devem redobrar a atenção com a ordem pública.

Mas não se trata apenas de um caso de polícia. Há uma séria questão nisso tudo que é a percepção popular — mesmo que não seja verbalizada por todos — da falência de instituições. A situação se agrava com o péssimo exemplo dado por partidos políticos, do PT ao PSDB, pelo envolvimento de correligionários em casos de corrupção.

O mau exemplo do PT chega a ser mais daninho, por ter conquistado o poder com a aura de extrema seriedade e honestidade. Ao trair as promessas de defesa intransigente da ética dá grande contribuição, infelizmente, ao descrédito da população diante dos poderes constituídos. Não há culpado único por todo este drama social.

Sem fio nem meada

Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

Entra semana, sai semana, um novo ingrediente entra na discussão sobre a CPI da Petrobrás que há 40 dias continua sem solução. São sucessivos adiamentos, recursos, mudanças de posição num processo que, levado com lisura, não tem mistério: conseguidas as assinaturas, os partidos indicam seus representantes e os trabalhos começam.

Assim dizem a Constituição e o regimento, mas não é o que fazem suas excelências com a criação de embaraços e vaivéns que tornam esse cenário quase impossível de ser compreendido a olho nu. Primeiro era uma comissão do Senado para investigar a Petrobrás. Depois, era uma CPI para investigar denúncias que atingiriam também a oposição.

Instado a se manifestar, o Supremo Tribunal Federal na palavra da ministra Rosa Weber vetou essa possibilidade, mas o presidente do Senado que havia reclamado da ingerência indevida do STF no Poder Legislativo recorreu ao mesmo tribunal para pedir a opinião do plenário. Ou seja, uma ministra não pode se imiscuir indevidamente, mas o colegiado pode. Vá entender.

Enquanto não se resolve esse impasse, os parlamentares decidem criar outra CPI sobre o mesmo assunto, desta vez conjunta da Câmara e do Senado, mas, ao mesmo tempo, discutem que não há necessidade de duas comissões de inquérito para investigar a Petrobrás. A oposição, que queria a do Senado, retira as indicações e passa a preferir a comissão mista.

O PT que não queria a do Senado agora quer (ou melhor, prefere), mas aceita como inevitável a mista. O presidente do Senado promete instalar a comissão mista num dia, adia para o seguinte (hoje) e paralelamente a isso promete cobrar dos líderes partidários a indicação dos integrantes para a CPI exclusiva de senadores. A mesma contra a qual apresentou recurso no Supremo.

O senhor entendeu? A senhora compreendeu? Pois é. Dá a impressão de que a ideia é deixar o tempo passar. A Copa chegar, as eleições se aproximarem, os partidos e os políticos se afastarem para cuidar dos afazeres de campanha e investigação séria mesmo que é bom sobre o que ocorre na Petrobrás tenha cada vez menos chance de acontecer.

Origem da espécie.
 O governo entregou ao tesoureiro do PTB uma vice-presidência da Caixa Econômica Federal em troca da manutenção do partido na coligação que apoiará a candidatura à reeleição da presidente Dilma Rousseff.

Nada que fira ao padrão vigente, embora destoe da imagem de austeridade que o marketing do Planalto vende da presidente.

Afinal, como bem lembrou o ex-presidente Lula dia desses, o mensalão começou com uma exibição do vídeo de um funcionário dos Correios indicado pelo PTB recebendo propina.

Deixa estar.
 A julgar pela posição do próximo presidente do Tribunal Superior Eleitoral e de outros integrantes do colegiado, não deve prosperar o pedido da oposição para que o pronunciamento da presidente Dilma Rousseff no 1.º de Maio seja considerado propaganda eleitoral antecipada passível de multa.

José Dias Toffoli e alguns de seus pares já se pronunciaram em favor da mínima interferência da Justiça em questões eleitorais.

Peça de museu. 
Com tanta coisa séria para se preocupar o PSB, ou parte dele, resolveu se assustar com críticas feitas na internet ao manifesto de criação do partido datado de 1947 e que defende a socialização dos meios de produção e limites à propriedade privada.

Como se a alteração do documento, cujo conteúdo a História já tratou de arquivar, fosse acrescentar ou subtrair votos à candidatura ou mesmo orientar ações do ex-governador Eduardo Campos.

Escolas!

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

Produtividade é tirar mais do capital e do trabalho. Não é colocar mais máquinas e mais homens trabalhando mais tempo

O “Jornal Nacional” e o “Jornal da Globo” exibiram duas extraordinárias séries de reportagens que, por caminhos diferentes, mostram a mesma realidade: como a falta de produtividade ou a baixa eficiência, tanto no setor público quanto no privado, atrasam e tornam o Brasil mais injusto.

Na semana passada, comentamos a série do “Jornal da Globo”, que se saiu muito bem de um desafio complicado: apontar a impunidade como causa primária da criminalidade. Hoje, falamos das reportagens do “Jornal Nacional”, que encarou outro desafio difícil: mostrar como a produtividade é a chave para o desenvolvimento brasileiro.

Produtividade é tirar mais do capital e do trabalho. Não é simplesmente colocar mais máquinas e mais homens trabalhando por mais tempo. Não raro, é o contrário: novas tecnologias, com novas máquinas e instrumentos, tornam o trabalho humano mais confortável e mais curto.

Mas produtividade é também fazer melhor com as mesmas pessoas e os mesmos instrumentos. Ou com menos. Por isso, muita gente diz que esses avanços de produtividade não são socialmente positivos para países emergentes. Nestes, a prioridade seria abrir vagas, mesmo que sejam empregos de má qualidade.

Por exemplo: cortar cana. Trabalho penoso. A cana precisa ser queimada e, se for colhida ainda quente, o trabalhador produz mais. Mas cada máquina de cortar substitui o trabalho de 45 pessoas, por turno. Qual a escolha correta do ponto de vista econômico e social? Noventa pessoas trabalhando duro ou duas máquinas, um operador cada, numa cabine com ar-condicionado?

Para uma reportagem de televisão, essa talvez fosse a parte mais complicada: mostrar como a nova tecnologia é melhor, em todos os aspectos, mesmo quando substitui postos de trabalho.

A agropecuária brasileira é um exemplo. Primeiro, trata-se de um tremendo sucesso. Só na primeira década deste século, sua produtividade cresceu 4% ao ano — um número muito forte. Nos EUA, por exemplo, o mesmo setor, altamente eficiente, teve ganhos de menos de 2% ao ano.

Basta observar a colheita em uma fazenda brasileira para ver tecnologia em ação. E pouca gente operando. Em compensação, os empregos são melhores, pagam mais. E a atividade em crescimento é um fator multiplicador: é preciso fabricar os tratores e desenvolver os métodos de aplicação.

Em resumo, é mais eficiente para a sociedade, e melhor para as pessoas, treinar os cortadores de cana em outro ofício do que manter um sistema de produção custoso e penoso.

Muitas vezes, nem é preciso equipamento novo para ganhar produtividade. Basta um método. As filas de caminhões embarcando soja nos portos de Santos e Paranaguá estão menores neste ano. O custo do transporte diminuiu, dizem os exportadores. O truque foi introduzir o prévio agendamento da entrada de caminhões nos portos. Antes, era por ordem de chegada. Agora, pelo horário marcado. Nem sempre cumprido, claro, mas os caminhoneiros dizem que estão perdendo menos horas parados.

Simples, organizar uma fila. E poderiam ter feito isso muito antes, não é mesmo?

Tudo considerado, a produtividade depende mesmo é de cérebros. E como ninguém nasce sábio e esperto, a produtividade depende mesmo é de escolas boas para todos. E isso está ao nosso alcance.

Mas tem muito mais histórias na série que pode ser vista no site do “JN”. Tomara que os políticos vejam.

O NOMEADO DA ESQUINA
Conta-se que, em dezembro de 1968, o então vice-presidente Pedro Aleixo tentava argumentar junto ao então presidente, general Costa e Silva, que o Ato Institucional 5 seria uma ameaça aos cidadãos. Costa e Silva respondeu algo assim: não se preocupe, saberei usar com responsabilidade os poderes conferidos pelo AI-5.

E Aleixo: não estou preocupado com o senhor, estou preocupado com o guarda da esquina.

A nomeação de diretores da Petrobras para atender a interesses de partidos é, em si, uma prática desastrosa. Os atuais problemas da estatal, que vão de suspeitas de corrupção a enorme ineficiência, resultam desse aparelhamento.

Mas e os outros? Os nomeados por seus partidos por esse Brasil? Se o partido nomeia diretores da Petrobras, por que um diretório não pode nomear um diretor de escola ou de posto de saúde em um remoto interior?

Dirá o leitor mais cético: escola e posto de saúde do interior não dão dinheiro.

Dão, sim. Na proporção, dão até mais dinheiro e mais correligionários empregados. E até mais fácil: ali na esquina do interior, quem se importa?

É o que faz do setor público uma imensa ineficiência. Vem de cima.

A dança do eu te amo.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Eleição é um tempo lindo, uma celebração de bons propósitos, a primavera das grandes amizades. Aécio e Serra se detestam; um jamais tomará cafezinho oferecido pelo outro sem ter um bom provador por perto. Mas o Sol brilha, brilham as estrelas, brilham os olhos de um ao ver que é desejável aliar-se ao outro.

Lula já criticou Dilma para amigos comuns, Dilma já se sentiu abandonada pelo protetor e patriarca. Lula sabe que Dilma, que antes da eleição já ignorou conselhos como o de livrar-se de Mantega, poderá, num segundo mandato, já que não terá como reeleger-se, esquecer os amigos do passado e eventualmente sugerir que ele, quando quiser encontrar-se com ela, marque uma audiência. Mas a eleição vem aí, um levanta o braço da outra, a outra se diz petista desde criancinha - o que será verdade, se considerarmos que só nasceu após esquecer o PDT.

Alckmin e Kassab, então? Kassab derrotou Alckmin na eleição para prefeito de São Paulo, e contou com o apoio de gente importante do partido de Alckmin - inclusive o governador José Serra. Alckmin acabou sendo sucessor de Serra no Governo e dedicou seu tempo a esquartejar Kassab, deixando-o quase sem saída. Quase: Kassab, adversário histórico do PT, virou amigo dos petistas desde criancinha e montou um partido forte, aliado a Dilma. Aliado, mas não tanto: não o suficiente para deixar de hostilizar o PT paulista. E, talvez tocado pela bondade que preenche o coração de políticos em época de eleição, para voltar a arrulhar com Alckmin (que, por sua vez, voltou a ser amigo de Serra). 

A vida é bela!

Amores para sempre
No encontro do PT, em que Lula garantiu apoio a Dilma na luta pela reeleição, ficou claro que todos se amam. Dilma ama Lula que ama Tarso que ama Dirceu que ama Delúbio que ama Genoíno que ama Gleisi que ama Vargas que não ama ninguém. Drummond escreveu um belo poema sobre a teia de aranha dos amores e desamores, e o título que escolheu não poderia ser mais perfeito.

O amor é cego
O caso mais interessante de gente que tenta fazer o impossível para preencher expectativas equivocadas é o do ministro Gilberto Carvalho. Gilbertinho é homem de bastidores, discreto, com bom trânsito em importantes setores religiosos, capaz de montar articulações sem sair de sua escrivaninha. 

Aí o colocaram na linha de frente, nos palanques, exposto a vaias - vaias que vieram, claro. Não podia dar certo. É como escalar Felipão, técnico vitorioso, para jogar no gol.

O amor também é surdo
No Encontro Nacional do PT, o ex-presidente Lula foi claríssimo. Muita gente fingiu que não ouviu, outros tantos deixaram as palavras do Grande Líder entrar por um ouvido e sair pelo outro sem passar pelo cérebro. Os meios de comunicação registraram as frases de Lula mas sem dar-lhes destaque. Eis o que disse:

"Nós criamos um partido político foi para ser diferente de tudo o que existia quando nós criamos esse partido. Esse partido não nasceu para fazer tudo o que os outros fazem. Esse partido nasceu [há 35 anos] para provar que é possível fazer política de forma mais digna, fazer política com P maiúsculo".

"Precisamos então recuperar o orgulho que foi a razão da existência desse partido em momentos muito difíceis, porque a gente às vezes não tinha panfleto para divulgar uma campanha. Hoje parece que o dinheiro resolve tudo.Os candidatos a deputado não têm mais cabo eleitoral gratuito. É tudo uma máquina de fazer dinheiro, que está fazendo o partido ser um partido convencional".

O tempo passa. Há 35 anos, Lula era aliado de FHC e adversário de Collor.

O fim do amor
O deputado mineiro Bernardo Santana, líder da bancada federal do PR, aquele que em seu gabinete trocou o retrato de Dilma pelo de Lula, fala com certeza, como quem tem informações de cocheira, sobre Alberto Youssef, preso na Operação Lava-Jato da Polícia Federal: "O Youssef vai abrir o jogo. Dizem que vai entregar cerca de 45 parlamentares, entre deputados federais e senadores."

Adeus, amor
Foi bom enquanto durou. Agora, a Petrobras está se livrando de 8.300 funcionários, graças ao Plano de Demissão Voluntária que implantou. São 12,4% dos empregados, parte de uma equipe de grande competência, que ajudou a transformar a Petrobras numa das maiores empresas do mundo. O objetivo do PDV é "adequar o efetivo da companhia aos desafios do Plano de Negócios e Gestão 2014-2018". Em nota, a Petrobras diz que as dispensas ocorrerão por etapas, de modo a garantir "a necessária retenção do conhecimento, indispensável ao crescimento e à continuidade operacional, segura e sustentável, da companhia". Com o PDV, a Petrobras espera reduzir suas despesas em R$ 18 bilhões até 2018.

O amor no papel
Um grupo de executivos engravatados, narra o excelente colunista Aziz Ahmed, de O Povo, do Rio, se reúne diariamente na Praça Quinze, perto do prédio da Bolsa de Valores fluminense. Como o fazem em seus escritórios, cuidam de câmbio: reúnem-se para trocar figurinhas da Copa. 

Só eles? Não: a presidente Dilma Rousseff está trabalhando no seu álbum em parceria com o neto Gabriel.

carlos@brickmann.com.br 
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Saudades de 2014

 Alexandre Schwartsman
Folha de São Paulo

O tamanho do esforço requerido para recuperar a estabilidade e nossa capacidade de crescimento sustentável é proporcional ao peso da verdadeira herança maldita, resultado de anos de políticas econômicas equivocadas

Estima-se que o “pacote do desconforto eleitoral” anunciado pela presidente na semana passada custe algo entre R$ 8,5 bilhões e R$ 9 bilhões em 2015.

Trata-se, é claro, de sinal de irresponsabilidade fiscal, mas, medido relativamente ao valor esperado do produto para o ano que vem, é algo como 0,2% do PIB (Produto Interno Bruto). Ruim, mas dificilmente a gota d’água que faria transbordar o pote até aqui de mágoa em que se transformaram as contas fiscais brasileiras.

É, na verdade, café pequeno perto dos desafios que esperam qualquer um que se sente na cadeira presidencial no dia 1º de janeiro de 2015.

Para começar, o valor real do superávit primário do país – deduzidas a contabilidade criativa, receitas não recorrentes etc.- não deve alcançar 1% do PIB em 2014, provavelmente bem menos.

Idealmente deveríamos retornar aos patamares que vigoravam antes de 2009, em torno de 3% do PIB, mas não é necessário muito esforço para perceber que se trata de uma impossibilidade tanto política quanto econômica, em face da já conhecida rigidez do Orçamento nacional e das regras de reajuste de salário mínimo.

Há, em segundo lugar, a questão a cada dia mais premente da inflação reprimida. Preços de combustíveis, energia, transportes urbanos, para ficar apenas nos mais visíveis, terão que ser corrigidos a partir de 2015. Resta saber se à vista (conforme recomendado) ou em suaves prestações (no caso colaborando para manter as expectativas inflacionárias devidamente inflamadas), mas não há como escapar dos reajustes sob pena de agravamento das condições financeiras nada confortáveis da Petrobras, bem como das distribuidoras de energia.

E, apesar da repressão dos preços administrados, a inflação corre sério risco de ultrapassar o teto da meta no fechamento de 2014, o que provavelmente forçará o Banco Central (constrangido, claro) a retomar o processo de aperto monetário que, por ora, ameaça interromper sob a argumentação de que… Bom, na verdade, sem argumentação alguma, além do fato óbvio de ser ele quem determina as taxas de juros de curto prazo.

Por fim, a se materializar o cenário em que o Federal Reserve começaria a elevar a taxa de juros em algum momento de 2015, o BC também teria que abrir mão da maciça intervenção sobre a taxa de câmbio e permitir que esta se ajuste a condições internacionais bastante distantes das que vigoraram até há pouco.

Note-se que os itens dessa agenda dizem respeito apenas à questão da recuperação da estabilidade perdida, isto é, trazer a inflação de volta à meta em prazo razoável, eliminar os demais desequilíbrios macroeconômicos e corrigir as imensas barbeiragens setoriais cometidas nos últimos anos.

Há, além dessa, uma agenda adicional, com foco em questões como produtividade, liberalização, redução de entraves burocráticos, avanço na infraestrutura etc., sem a qual continuaremos limitados ao crescimento medíocre, na casa de 2% ao ano, observado recentemente.

O tamanho do esforço requerido para recuperar a estabilidade e nossa capacidade de crescimento sustentável é proporcional ao peso da verdadeira herança maldita, resultado de anos de políticas econômicas equivocadas, cujos efeitos transparecem no crescimento irrisório, inflação persistentemente acima da meta (4,5%, não 6,5%!), desequilíbrios crescentes das contas externas, desarrumação do setor energético, baixo investimento e as demais (in)consequências do experimento heterodoxo a que o país foi submetido.

Quem fizer a coisa certa ainda terá que conviver inicialmente com inflação alta e crescimento baixo, preparando o terreno para recuperação da estabilidade e do crescimento à frente. Caso, porém, não seja feita, o tamanho da conta continuará a crescer, como faz ininterruptamente desde 2010.

Tudo indica que 2015 será um ano que dará saudades de 2014; mas que seja por bons motivos, senão em 2016 nossa saudade será ainda maior.

O risco de nova implosão da imagem do Brasil

Carlos Chagas
Tribuna da Imprensa

A Guerra dos Trinta Anos terminou, na Europa, em 1648, com o Tratado de Westfália. Entre os entendimentos feitos pelas potências antes em choque, estava o da proteção à figura dos embaixadores. A partir daquele ano e supostamente até a eternidade, quando dois ou mais estados entrassem em guerra, seus embaixadores no país adversário não poderiam ser presos, punidos ou sofrer qualquer coação. Passou a obrigação dos governos onde estavam   acreditados devolve-los sãos e salvos aos países de origem.

Vieram novas conflagrações, na Europa e no resto do mundo, e o compromisso foi respeitado. Mesmo Hitler garantiu a devolução a Londres e a Paris, depois a Washington e até ao Rio de Janeiro, dos embaixadores dos países em guerra com a Alemanha. Mesmo no caso de guerras não declaradas formalmente, ou de revoluções internas, seus líderes e responsáveis preservavam os representantes de outros países, ainda que implicados nos entreveros locais. Preveniam-se todos, porque o que acontece de um lado pode acontecer do outro.

Isso até setembro de 1969, quando o Brasil, não propriamente deu lições ao mundo, mas um péssimo e execrável exemplo. Assistimos adversários do regime militar sequestrarem os embaixadores dos Estados Unidos, da Suíça e da Alemanha Ocidental, além de um cônsul do Japão.Quaisquer que fossem as motivações dos que lutavam contra a ditadura, foi um horror. Não havia no mundo know-how para sequestros de diplomatas. O governo americano impôs que o governo brasileiro, então uma abominável junta militar, cumprisse todas as exigências dos sequestradores, inclusive as de mandar 15 prisioneiros políticos para o México. Depois, nos sequestros seguintes, outros para a Argélia e o Chile.

A moda pegou lá fora. Em Montevidéu, tupamaros uruguaios apoderaram-se de um diplomata brasileiro. Em Lima, o Sendero Luminoso prendeu treze embaixadores estrangeiros de uma só vez. E foi assim por diante, a ponto de a diplomacia dos Estados Unidos estabelecer regras rígidas que valem até hoje: não negociar com terroristas. Quem quiser ser diplomata que seja, mas sabendo que seu governo não tomará qualquer iniciativa negociada para libertá-lo, à exceção de invasões armadas de comandos nos locais do cativeiro.

Mesmo assim, com as exceções de sempre, mais as cautelas ligadas à segurança de embaixadores e de altas autoridades em visita a outros países, tinha-se a impressão da volta gradativa ao civilizado espírito de Westfália.

Pois não é que corremos o risco de o Brasil ministrar novas antilições ao mundo? Às vésperas da copa do mundo ficamos sabendo da preparação de fartos contingentes da Polícia Federal e demais entidades nacionais de segurança, especializando-se em evitar sequestros de diplomatas e até de chefes de estado e de governo estrangeiros dispostos a vir assistir as partidas de seus selecionados. Detalhado esquema de proteção aos ilustres visitantes está sendo elaborado, envolvendo aeroportos, hotéis, trajetos e estádios para onde se dirigirão. A um custo muito alto, previne-se o aparato brasileiro de segurança, claro que com o auxílio de serviços afins de países estrangeiros, para evitar o vexame de sequestros. As atenções voltam-se para os black-blocs e grupos ligados às campanhas contra a realização da copa. Pelo jeito, estão de olho também nos líderes do tráfico de drogas, na verdade os chefes dessa malta de depredadores e assassinos.

Só admitir-se essas providências, convenhamos, é uma vergonha. Se alguma tentativa de sequestro acontecer, mesmo malograda, a imagem do Brasil se desfará em mil pedaços pelo planeta inteiro. Graças a uma minoria de deletérios irresponsáveis que deveriam estar enjaulados.

Nada como uma vaia depois da outra para abalar a fé dos devotos, emudecer o chefe da seita e tirar o sono da guardiã do rebanho

Augusto Nunes
Veja online


Nada como uma vaia depois da outra para embaralhar a partitura da ópera dos malandros, desafinar o coro dos contentes, tirar o sono dos sacerdotes da seita, emudecer o seu único deus, escancarar a indigência mental da guardiã do rebanho, abalar a fé do mais fanático devoto, induzir convertidos de aluguel a flertar com outros altares. Nada como uma vaia depois da outra para assombrar as madrugadas de quem até outro dia dormia contando votos da vitória no primeiro turno e acordava sonhando com a proclamação da república bolivariana.

As manifestações de rua de 2013 implodiram a farsa do Brasil Maravilha, mas os alvos dos protestos não foram identificados tão claramente quanto neste outono. Os destinatários das mensagens sonoras agora têm nome, sobrenome, endereço e filiação partidária. Cresce em progressão geométrica a imensidão de brasileiros que enxergam as coisas como as coisas são. Milhões de lesados descobriram que o bando acampado no coração do poder foi longe demais até para os padrões do País do Carnaval. E exigem mudanças imediatas.

Todos constataram que o governo lulopetista recruta e acoberta corruptos. Que a roubalheira impune agora é medida em bilhões de dólares. Que os ineptos e os larápios se associaram para enterrar em estádios padrão Fifa o dinheiro que poderia abrandar pavorosas carências no universo da saúde e da educação. Que as promessas não descem dos palanques. Constataram, enfim, que lidam há 12 anos com vendedores de nuvens e camelôs de si próprios.

Alheio às alterações na paisagem, o marqueteiro João Santana imaginou, depois de consumir uma semana na releitura de pesquisas recentes, que a curva descendente da candidata à reeleição seria invertida por outro comício eletrônico transmitido em cadeia nacional. Péssima ideia: a discurseira na véspera do Dia do Trabalho só serviu para comprovar que as cartas na manga acabaram, que as mágicas de picadeiro perderam o encanto e que truques outrora infalíveis ficaram subitamente grisalhos.

Habituada a conjugar impunemente os três verbos preferidos de Lula — mentir, tapear, distorcer —, Dilma soube tarde demais que o senador Aécio Neves e o ex-governador Eduardo Campos não deixariam nenhum embuste sem revide, nenhuma invencionice sem réplica. Dispostos a provar que a oposição voltou de vez das férias, os candidatos do PSDB e do PSB à sucessão presidencial assumiram o papel de porta-vozes dos descontentes.

Dilma garantiu, por exemplo, que “a inflação continuará rigorosamente sob controle”. Ouviu que não se pode continuar o que não começou. Ao “reafirmar o compromisso do governo com o combate incessante e implacável à corrupção”, foi convidada a suspender a guerra de extermínio movida contra quem se atreve a investigar patifarias bilionárias consumadas nas catacumbas da Petrobras. E a tentativa de responsabilizar a oposição pelos estragos na imagem da estatal soou como anedota improvisada por patriotas de galinheiro.

“Os brasileiros não aceitam mais a hipocrisia”, recitou no fim do comício. Não aceitam mesmo, reiteraram as comemorações do Primeiro de Maio em São Paulo. Pela primeira vez desde a fundação do PT em 1980, figurões do Partido dos Trabalhadores foram impedidos de discursar no Dia do Trabalho. O ministro Ricardo Berzoini e o prefeito Fernando Haddad, por exemplo, não conseguiram abrir a boca sequer no palanque da CUT, controlada desde sempre por pelegos companheiros. Lula e Dilma nem deram as caras por lá. Na tarde seguinte, obrigada a visitar a Expozebu, a presidente reencontrou em Uberaba — três vezes — as vaias das quais escapara na véspera.

Nas primeiras 72 horas de maio, João Santana aprendeu, entre outras lições sempre úteis, que o país que não é para amadores também trata sem clemência adivinhos de botequim. Confrontado com a epidemia de apupos (e com mais uma pesquisa atulhada de más notícias para o Planalto), ele certamente se lembrou da entrevista, concedida em dezembro de 2010, em meio à qual resolveu restaurar a monarquia, transformar o gabinete presidencial em sala do trono e coroar Dilma Rousseff.

“Como se trata de uma figura única, que uma nação precisa de séculos pra construir, a ausência de Lula deixa uma espécie de vazio oceânico”, ressalvou o marqueteiro do reino. Apesar disso, ou por isso mesmo, Dilma tinha tudo para transformar-se na herdeira que todo súdito pede a Deus. “A República brasileira não produziu uma única grande figura feminina, nem mesmo conjugal”, ensinou Santana. “O espaço metafórico da cadeira da rainha só foi parcialmente ocupado pela princesa Isabel. Dilma tem tudo para ocupar esse espaço”.

Em novembro de 2012, festejou o acerto da profecia. “Foi uma metáfora que está se cumprindo simbolicamente”, cumprimentou-se o imaginoso publicitário baiano. “Grandes camadas da população têm um respeito, uma admiração e um carinho tão sutil por Dilma que chega até a ser de uma forma majestática”. Os fatos já aposentaram faz tempo o professor de história e o vidente. O marqueteiro só sobreviverá se esquecer os escombros do trono e concentrar-se nas rachaduras do palanque.

Mas vai perder seu tempo se ceder à tentação de descobrir a cura da vaia. E acabará perdendo o emprego.

A lição da doutora Wasmália

Elio Gaspari
O Globo

A presidente do IBGE deu uma aula ao comissariado e à oposição: a vida é arte, errar faz parte

Com uma simples frase, a presidente do IBGE, Wasmália Bivar, resgatou o prestígio da instituição e ofereceu uma aula aos doutores que se apresentam como salvadores da pátria. Três semanas depois da eclosão de uma crise provocada pelo adiamento de uma pesquisa, voltou atrás e, perguntada pelo repórter Pedro Soares se as críticas influíram na decisão, disse o seguinte:

“Eu não vou dizer para você que não teve nenhuma influência, seria bobagem.”

A canção diz que “a vida é arte, errar faz parte”, mas tanto o comissariado petista como seus adversários cultivam a soberba da infalibilidade. Quanto mais erram, mais persistem na dissimulação ou mesmo no erro.

Descobre-se que o programa do PSB do doutor Eduardo Campos defende a “socialização dos meios de produção”, e ele se justifica dizendo que esse texto é um eco do programa de 1947. Nesse ano, o candidato a presidente não havia nascido. Nada custava dizer que “seria bobagem” manter a proposta. Afinal, programa de partido ninguém lê e, se lê, perde tempo. Se lê e acredita, cretiniza-se.

O último texto programático dos candidatos Eduardo Campos e Marina Silva é um cartapácio indigesto de 14.500 palavras. Ganha uma viagem a Londres, onde está o túmulo de Karl Marx, ou a São Francisco, onde foram jogadas as cinzas do economista conservador Milton Friedman, quem for capaz de decifrá-lo.

O PT e o PSDB ainda não digeriram as denúncias de seus mensalões. Num caso, os acusados já estão na Papuda. No outro, o deputado Eduardo Azeredo renunciou ao mandato para fugir da lâmina do Supremo Tribunal Federal. Os notáveis tucanos mantiveram-no por algum tempo na presidência do partido. Admitir o erro e voltar atrás nas práticas, nem pensar.

Cartel da Alstom, Pasadena, Refinaria Abreu e Lima e Alberto Youssef, para ficar em poucos nomes, são todos casos em que os hierarcas da política defendem suas criações até o último momento. Admitir o erro, só às vezes, quando já foram apanhados pelo Ministério Público ou pelas algemas da Polícia Federal. Até lá, a culpa é da imprensa.

A doutora Dilma, Eduardo Campos e Aécio Neves poderiam olhar para a biografia de Angela Merkel. Ela era um quadro inexpressivo do seu partido, protegida pelo primeiro-ministro Helmut Kohl, um gigante da política europeia do século passado, unificador da Alemanha contra a vontade da Rússia e dos Estados Unidos. Ele a chamava de “minha menina”. Kohl foi apanhado num lance de caixa dois e a doutora Merkel escreveu um artigo pedindo sua renúncia. Deu no que deu. Limpo, seu partido já venceu três eleições.

A doutora Wasmália atravessou a crise do IBGE sem que seus críticos atacassem sua honorabilidade profissional ou a integridade da instituição. O mesmo não se pode dizer da conduta do mesmo IBGE e da Fundação Getulio Vargas nos anos 70, quando se deixaram fazer de bobos no cálculo do índice da inflação, e um dos conselheiros da FGV (Eugênio Gudin) confidenciava que o ministro Delfim Netto era “diabólico”.

O embuste da inflação de 1973 só foi desmascarado anos depois, num documento do Banco Mundial, desencavado por Paulo Francis, graças ao barulho que a imprensa fez com ele. Antes, como hoje, a culpa foi da imprensa.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Entendo o entusiasmo do Gaspari em relação à decisão da presidente da IBGE de voltar atrás na suspensão da PNAD. Porém, deveria o jornalista ser mais cauteloso. A suspensão não foi uma decisão pessoal, exclusiva da senhora Wasmália. E, sua revogação, também não. Em ambas, pesou a pressão do governo da senhora Dilma. Na primeira vez, a senhora Rousseff valeu-se de sua ajudante de ordens, a senadora Gleisi Hoffmann. Na segunda, apesar do mensageiro ser desconhecido, o mal estar junto à sociedade provocado pela suspensão vergonhosa, obrigou o governo a pressionar o IBGE em revogar a tal suspensão e retomar as pesquisas da PNAD.

Assim, para uma instituição presidida por alguém que se deseja independente, mas que se sujeita a pressões, convenhamos, não é lá um bom exemplo. Até porque, se o Gaspari quiser elogiar atitudes nesta história, deveria fazê-lo para as técnicas que, contrárias a suspensão, simplesmente pediram demissão e puseram a boca no trombone. 

VERGONHOSO: Brasil ocupa antepenúltima posição em ranking internacional de educação

Marina Azaredo
O Estado de São Paulo

O Brasil aparece na 38.ª posição entre 40 países analisados no The Learning Curve (Curva do Aprendizado, em inglês), realizado pela The Economist Intelligence Unit (EIU) e Pearson Internacional. Em relação ao estudo anterior, de 2012, o País subiu uma colocação, apesar de ter piorado seu desempenho no índice.

O levantamento da EIU e da Person considera diferentes avaliações, relacionando-as com a produtividade do país. O índice leva em conta habilidades cognitivas e de desempenho escolar a partir do cruzamento de indicadores da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE): Programa Internacional de Avaliação dos Alunos (Pisa), Tendências Internacionais nos Estudos de Matemática e Ciência (Timms) e avaliações do Progresso no Estudo Internacional de Alfabetização e Leitura (Pirls). Também são usados dados educacionais de alfabetização e taxas de aprovação.

No estudo deste ano, o Brasil passou o México no ranking, porque aquele país teve um recuo ainda maior no índice. O último lugar continua ocupado pela Indonésia. As primeiras posições trazem novidades, com nações asiáticas, como Coreia do Sul e Japão, tomando o lugar da Finlândia, que havia muitos anos figurava na liderança da maioria das avaliações.

“O sucesso desses países destaca a importância de ter objetivos claros para o sistema educacional e uma forte cultura de responsabilidade na prestação de contas”, afirma o relatório.

Qualidade. Para Michael Barber, chefe de Educação da Pearson, os governos de todo o mundo estão sob pressão para melhorar a aprendizagem. “Isso é cada vez mais importante para o sucesso das pessoas”, disse.

O relatório ressalta a ligação estatística entre o tempo médio gasto na escola por um estudante de um país e a produtividade dos trabalhadores. Aponta ainda que é imprescindível a qualidade da formação básica, mas a retenção de habilidades depende da continuidade da aprendizagem ao longo da vida adulta.

A professora Maria Helena Guimarães de Castro, presidente da Fundação Seade, afirma que o Brasil tem resultados muito positivos na inclusão dos últimos 25 anos, mas que o desafio agora é a qualidade. “O essencial está no ensino fundamental, com professores estimulados e bem formados”, diz ela, que foi consultora do relatório. “A produtividade do Brasil é muito baixa e precisamos avançar. Mas é claro que esse não é o único sentido da educação.”

Para o presidente da Pearson no Brasil, Giovanni Giovannelli, o diagnóstico também pode ajudar os gestores por mostrar as práticas que funcionam no mundo. “Tem quase 200 países nas Nações Unidas e só esses 40 têm essa medição. Só isso é em si um fato positivo para o Brasil”, diz ele.

POSIÇÃO 2014
PAÍSES
Z-SCORE
POSIÇÃO 2012
MUDANÇA NO SCORE 2014 / 2012
1
COREIA
1.30
1
0.07
2
JAPÃO
1.03
2
0.14
3
CINGAPURA
0.99
2
0.15
4
HONG KONG
0.96
-1
0.05
5
FINLÂNDIA
0.92
-4
-0.34
6
REINO UNIDO
0.67
0
0.07
7
CANADÁ
0.60
3
0.05
8
HOLANDA
0.58
-1
-0.01
9
IRLANDA
0.51
2
-0.02
10
POLÔNIA
0.50
4
0.08
11
DINAMARCA
0.46
1
-0.04
12
ALEMANHA
0.41
3
0.00
13
RÚSSIA
0.40
7
0.14
14
ESTADOS UNIDOS
0.39
3
0.04
15
AUSTRÁLIA
0.38
-2
-0.08
16
NOVA ZELÂNDIA
0.35
-8
-0.22
17
ISRAEL
0.30
12
0.45
18
BÉLGICA
0.28
-2
-0.07
19
REPÚBLICA TCHECA
0.27
3
0.07
20
SUÍÇA
0.25
-11
-0.30
21
NORUEGA
0.21
5
0.10
22
HUNGRIA
0.17
-4
-0.16
23
FRANÇA
0.17
2
0.04
24
SUÉCIA
0.17
-3
-0.06
25
ITÁLIA
0.11
-1
-0.03
26
ÁUSTRIA
0.10
-3
-0.05
27
ESLOVÁQUIA
0.09
-8
-0.23
28
PORTUGAL
0.04
-1
0.03
29
ESPANHA
-0.08
-1
0.01
30
BULGÁRIA
-0.26
0
-0.03
31
ROMÊNIA
-0.44
1
0.16
32
CHILE
-0.79
1
-0.13
33
GRÉCIA
-0.86
-2
-0.55
34
TURQUIA
-0.94
0
0.30
35
TAILÂNDIA
-1.16
2
0.30
36
COLÔMBIA
-1.25
0
0.21
37
ARGENTINA
-1.49
-2
-0.09
38
BRASIL
-1.73
1
-0.08
39
MÉXICO
-1.76
-1
-0.16
40
INDONÉSIA
-1.84
0
0.19

Nota: As pontuações do Índice são representadas pelo Z-Score (pontuação Z), que indica quantas divergências de padrão uma observação está acima ou abaixo da média. O processo de normalizar todos os valores no Índice com o Z-Score permite uma comparação direta dos desempenhos dos países em todos os indicadores. Note que os Z-Scores listados são específicos à sua respectiva versão no Índice e seus países. Ao fazer comparações de países individuais nas versões do Índice, é importante focar na colocação do país no ranking e não na pontuação do Z-Score. 
FONTE: : The Economist Intelligence Unit

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Análise: Países que tratam educação como assunto estratégico colhem desenvolvimento econômico


Por Ilona Becskeházy, consultora em educação

O projeto “A Curva de Aprendizado”, que apresenta agora seu segundo relatório, organiza dados complexos, obtidos de fontes diversas, de forma a potencializar seu uso informativo, além de permitir a comparação entre cenários e resultados educacionais de cerca de um quarto dos países do mundo. Entre eles, o Brasil. As conclusões que o projeto vem apresentando, assim como as informações que o compõem, não são desconhecidas por quem se interessa pelas políticas educacionais, mas têm permanecido ao largo dos desenhos das intervenções propostas para o setor em nosso País.

O relatório tem o diferencial de analisar a educação levando em conta o contexto socioeconômico de cada país, que guarda relações tanto de causa como de efeito de sistemas educacionais competentes ou incompetentes. Os que trataram o tema da educação como assunto estratégico e implementaram, por décadas, reformas estruturantes, além de fazer investimentos em recursos humanos e materiais para garantir patamares altos de exigência a todos os seus alunos, colhem as recompensas de maior desenvolvimento econômico e bem estar individual. Os que não fizeram, simplesmente não colheram. Entre eles, o Brasil.

O responsável pela elaboração do relatório menciona o interesse de Ministros da Educação em saber como melhorar seus sistemas educativos. Entre eles, não está o Brasil. Por aqui, desdenhamos o que se aprendeu nos processos de estruturação educacional em países que hoje são industrializados porque nosso desenvolvimento prescindiu da educação. A nação se satisfez com o consumo baseado na exploração de riquezas naturais e não cobrou a distribuição do conhecimento. Escolhemos parâmetros medíocres e soluções paliativas para que ninguém se sinta incomodado.

Perspectivas de mudança? Basta ler o que vai proposto no Plano Nacional de Educação que será votado em breve, para se perceber que mantemos a prática de deixar como está para ver como fica.