quarta-feira, maio 14, 2014

Afirmações levianas

Adelson Elias Vasconcellos


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A senhora Rousseff, em verdadeiro desespero de causa, dada a queda nas pesquisas, parece estar apelando para afirmações um tanto esdrúxulas, quando não externando o pensamento chulo que a caracteriza. Nesta terça, tentando responder aos críticos sobre  o andamento das obras de seu governo, tentou desqualificá-los. Afirmou a presidente que “quem nunca fez obra, cobra de quem faz”. A gente até poderia indagar a senhora Rousseff quais obras ela fez em seu governo. 

Por exemplo, a gente vê nesta edição um quadro pavoroso sobre as obras da copa mundo, balanço feito pela Folha de São Paulo. O mesmo jornal, também nos traz à lembrança a lambança que tem sido a tal transposição do São Francisco. No site do Contas Abertas, o leitor pode localizar facilmente a imensa diferença entre as promessas e as realizações efetivas que a senhora Rousseff tem para apresentar.

A afirmação acima, portanto, de quem não faz, cobra, é no mínimo leviana, irresponsável e patética. Até porque, é bom lembrar, quem está cobrando nem é a oposição, é a própria população cansada de ouvir promessas que, passado algum tempo, caem no limbo. 

De certa forma, a senhora presidente tenta atingir os seus adversários, tentando mostrar aos eleitores que eles, quando puderam fazer, não fizeram nada.  Fosse assim, nem Aécio tampouco Eduardo Campos teriam saído dos governos de Minas e Pernambuco com os índices de aprovação que apresentaram. Há alguns dias atrás, a senhora Rousseff também fez referências  desairosas em relação ao governo FHC no que toca às rodovias. 

Vamos fazer, então, um exercício de bom senso.  Imaginemos que, no período de 1995 a 2002, FHC não tivesse investido um centavo em rodovias (o que não é verdade, mas consideraremos, por ora, tal possibilidade). Muito bem: há quantos anos o PT está no poder? São onze anos e meio,  certo?  Apenas pelo tempo de governo, já seria possível que os petistas pudessem produzir mais do que os oito do tucano.  Mas não é apenas isto que faz a diferença.  Acontece que FHC, ao assumir, encontrou um país quebrado, sem crédito, fruto dos governos irresponsáveis de Sarney e Collor, ambos hoje aliados da primeira hora dos petistas. Assim, além de encontrar o Brasil falido, encontrou as contas públicas em completo descalabro, uma inflação galopante e, durante o período que governou, o mundo enfrentou cinco graves crises mundiais.  Além disso, a média de crescimento da economia mundial não foi além de 2 % ao ano. 

Assim, que condições teria FHC para investir em rodovias com os cofres completamente raspados? FHC fez o que lhe competia: colocou a economia nos trilhos, o que assegurou que Lula pudesse navegar em mares tranquilos durante o período em que a economia mundial cresceu na média de 5% ao ano e sem crises. E, ora vejam, se compararmos os investimentos públicos entre os governos de FHC, que foram oito anos, e os doze do período petista, verificaremos que nunca foi além de 18% do PIB. E tal constatação desfaz o discurso cretino de que os petistas fizeram mais. Pelo contrário. Encontraram uma economia estabilizada, uma arrecadação crescente de impostos, , uma economia mundial sem crises e em franco crescimento, e não conseguiram avançar no investimento público muito além do que FHC realizou. 

Mais: Lula e Dilma lançaram repetidas versões de pacs disto e PAC daquilo. Na primeira versão, que tinha por objetivo investimentos em infraestrutura, 90% das obras previstas, eram meras continuações de obras que Lula encontrou em andamento e que interrompeu, de forma irresponsável no primeiro mandato. O exemplo clássico desta vigarice, já apontamos aqui, foi a ferrovia Norte-Sul iniciada quando José Sarney foi presidente. Mas no PAC de Lula versão 1.0, a obra aparece como sendo criação do gênio da raça. 

Além disto, se a gente for analisar as obras da Copa, seja em infraestrutura seja em mobilidade urbana, o país vai entregar menos da  metade do projeto prometido. O resto, nem Deus sabe quando será realizado. E, ainda assim, do que está sendo entregue, o que não falta é mistificação, como se vê em alguns aeroportos, estádios e obras de mobilidade urbana. Perguntem ao prefeito de Porto Alegre o que o governo Dilma lhe fez. Incentivou-o a transformar a capital em um canteiro de 55 obras viárias, com a promessa de lhe repassar um empréstimo de R$ 500 milhões, que jamais lhe foi entregue. Noventa por cento destas obras acabou interrompida, infernizando a vida dos habitantes da cidade. 

Quer falar de realizações, senhora Rousseff? Então não critique quem ao menos, com menos recursos e em piores condições,  começou e terminou alguma coisa. Já seu governo continua investindo no gogó, na impostura, na mentira, sem mostrar um mínimo de realizações que justificasse o voto que lhe foi dado pelos eleitores em 2010. Onde estão suas centenas de UPAs, creches, aeroportos regionais? Não basta lançar programas disto e daquilo, e depois segurar a grana para pagar a dívida contraída fruto do descalabro de gastos inúteis praticado por um governo medíocre como o seu. 

Se sua popularidade está em baixa não se deve à “campanha negativa da imprensa e das elites”. Se deve, sempre, a um governo que podendo fazer muito, fez pouco ou quase nada. Estes índices baixos de aprovação são dados não pelos jornalistas nem pelas elites, e sim pelo povo trabalhador que paga impostos e vê seu salário corroído tanto pela inflação crescente e contínua, como pelo confisco inescrupuloso sobre os salários via imposto na fonte. 

E um exemplo bem característico de um governo sem eira nem beira, é o imposto sobre bebidas, elevado para cobrir o rombo provocado pelo desarranjo provocado por uma medida eleitoreira de redução de tarifas.   Primeiro, fixou em pouco mais de 1% o aumento. Dias depois, a Receita reviu o cálculo e concluiu ser insuficiente: aumentou para mais de 2%. Falta de sensibilidade: o aumento se verificaria em plena copa do mundo. Diante da pressão da indústria e do comércio, agora o seu governo adiou o aumento para entrar em vigor a partir de setembro, muito embora a copa termine em julho. Mas a conta das distribuidoras continuará pendurada até lá, e um dia precisará ser paga.  Isto representa dizer que a grana para cobrir os empréstimos das distribuidoras, precisará sair de algum outro lugar para ser compensada. Assim, o governo nem resolve seus problemas atuais, tratando de empurrá-los com a barriga, por  sua falta de critério,  e ainda acaba por gerar problemas novos que irão estourar ainda mais a delicada situação das contas públicas logo ali adiante.

Além disso, tanto nos dois mandatos de Lula quanto neste da senhora Rousseff, os governos petistas tem sido pródigos em lançamento de programas, que irão ilustrar a propaganda eleitoral. Porém, quando vamos observar o que de concreto tais programas realizaram, o saldo é zero vezes zero.  

Portanto, seria bom para o país que a senhora presidente fosse menos leviana, se preocupasse menos em desqualificar o passado, e realizasse mais. Não foi eleita para governar o passado e, sim,  para administrar e resolver no presente obras, programas e políticas públicas que melhorem a qualidade de vida do povo brasileiro, povo este que se cansou do eterno discurso cínico e demagógico do por que não foi feito. Ele quer que seja feito sem rodeios, sem desculpas,  o que é preciso aqui e agora. Dizer que os estádios e os aeroportos estão prontos para a Copa é de uma deslavada mentira que nem cabe comentar, como também seria aconselhável que a presidente parasse de prometer meia dúzia de vezes a mesma verba para a mesma obra. Pega mal tanta promessa fajuta.  Chega, portanto,  de leviandades e de se empurrar os problemas com a barriga, tentando justificar com o passado o que se deixou de realizar no presente.  E, guarde isto: não é com terrorismo eleitoral, pura cretinice dos incompetentes e fascistas, que se constrói um pais melhor.  

Show de efeitos especiais, ou a Copa da desfaçatez.

Adelson Elias Vasconcellos


Assisti quase chegando às gargalhadas, o vídeo preparado pela equipe de propaganda e marketing do Palácio do Planalto, para tentar seduzir, iludir e enganar o povo brasileiro sobre as virtudes da Copa do Mundo, a chamada “Copa das Copas”.

De fato, considerando aquilo que ali se vê, a realidade que o país inteiro percebe e sente, dá para  imaginar o que vai na cabeça desta gente. É evidente que a equipe que preparou o comercial mistificador, estava cumprindo uma missão: por ordens da Presidência da República, mandou ver na mentira, no ilusionismo e no cinismo. A equipe é culpada? Não, apenas cumpria ordens superiores de quem pagou pela pilantragem, muito embora saia do bolso do contribuinte, alvo principal da mistificação.  

Pela peça publicitária que, do ponto de vista de produção midiática foi muito bem executada, a gente até pode dimensionar o tamanho das mentiras e das falsificações que o país assistirá no horário eleitoral da candidata à reeleição. Quando a obra é ruim, regra geral, candidatos  seguem o seguinte roteiro: primeiro, encobrem com mentiras uma obra de pura ficção e, depois, montam um arsenal de promessas que, se sabe,  jamais serão cumpridas.  No caso da senhora Rousseff, se a gente voltar no tempo,  comparar as promessas da campanha de 2010 com o que efetivamente se realizou neste tempo, o resultado final é extremamente negativo para a candidata.  Tivesse um pingo de vergonha na cara e, certamente, sequer se habilitaria a um novo mandato. Mas quem é PT não tem tempo a perder com ninharias como honestidade, sinceridade, competência, responsabilidade. Para se manter no poder, seja ele de que nível for, vale aliar-se ao diabo e por fogo no circo.

Metrôs, aeroportos, estádios,  mobilidade urbana com muitos viadutos, largas avenidas, tudo novinho em folha, mais parecendo o mundo mágico de Oz, onde a fantasia não tem limites.

Assim, a peso de muito dinheiro público, seja na produção quanto na veiculação, o país vai ser inundado com uma campanha asquerosamente falsa.  Verdadeira propaganda enganosa que, se as leis do país fossem cumpridas com rigor, seria mandada retirar do ar imediatamente, além de cobrar dos responsáveis que a autorizaram o devido ressarcimento aos cofres  da União.  

Impressiona, sim, o grau de baixeza que certas autoridades do país são capazes de descer para tentar encobrir  sua incompetência e mediocridade, sua vilania e mistificação. Por mais que a grande maioria do povo brasileiro seja semianalfabeta, ela não é, contudo, tão imbecil a ponto de se deixar encantar pelo brilho vistoso da mentira exibida aos seus olhos. Aquilo que ele vê nas ruas, todos os dias, fala mais alto que a mais fascista das propagandas.  

Tivesse o governo da senhora Rousseff um mínimo de decência, ao invés de torrar dinheiro público com mentiras caras, destinaria a grana para pagar os salários atrasados das embaixadas e consulados brasileiros no exterior. Muitos entraram em greve exigindo o obrigatório pagamento de seus salários.   

Um secretário fora do prumo e do rumo
Gilberto Carvalho, secretário da Presidência da República e principal olheiro de Lula no governo da senhora Rousseff,  afirmou que a presidente, com a realização da Copa, vai acabar recuperando sua imagem porque o povo vai perceber os benefícios que o evento trouxe para o país. P marqueteiro João Santana, em 2013 fizera a mesma previsão após os protestos. Deu errado, como sabemos.

Que o secretário me desculpe, não há a menor chance disto acontecer. Primeiro, porque o povo já percebeu que a Copa prometida em 2007, ficará muito distante da copa que será entregue em 2014. E com um agravante: desviou para estádios dinheiro público que Lula prometera que não aconteceria. Foram bilhões de reais tirados da educação, saúde, saneamento, segurança. Foi esta mentira deslavada que fez eclodir a insatisfação popular

Depois, as obras que estão em andamento não serão concluídas antes da Copa. Fosse o contrário, e o transtorno que as obras provocam na vida diária nas cidades sede seria ao menos contemporizada. Mas o que se vê é que há obras que levarão muitos, mas muitos anos ainda para serem concluídas, até porque o principal motivo para sua construção, que seria a Copa, já terá passado. Assim, passada também a pressa em terminá-las.  

Há ainda os elefantes brancos que ficarão por aí torrando fortunas em manutenção sem que revolucionem o futebol nas cidades em que se localizam.

Na edição desta segunda feira, a GloboNews exibiu uma reportagem sobre os preparativos da Copa em Cuiabá. O leitor pode acessar a íntegra da reportagem clicando aqui. Reportagem da Folha reproduzida nesta edição, exibe um balanço minucioso entre o prometido e o realizado. E ono balanço final o que se tem é uma realização, sete anos depois, de apenas 41% concluído.

Para que se tenha uma ideia, das 56 obras projetadas para a Copa, apenas 15 foram concluídas. E esta é uma realidade que se repete pelo país como um todo, bastando ver a questão dos aeroportos do Rio, Viracopos, Cuiabá e de Fortaleza. Porto Alegre também padece com a mesma incompetência. Foram retirados 11 projetos de mobilidade inicialmente previstos.  Em termos de aeroportos, as capacidades de embarque e desembarque são as mesmas de 7 anos atrás. Uma vergonha completa. Resumo da ópera: o senhor Gilberto Carvalho é muito mais do que um visionário. É um estúpido se pensa que com conversa fiada conseguirá enganar o país. Não vai.

E estas são algumas das razões que fizeram com que a aprovação do evento tenha despencado de mais de 70% para menos de 50%. E, se por alguma razão, durante o evento, ocorrerem derrapadas de organização, a voz de contrariedade subirá muitos decibéis em seu grito de protesto. 

Fica claro que Gilberto Carvalho fala mais com o emocional do que com a razão. O povo, senhor secretário, já deixou de ser besta faz tempo. O papo petista já é visto, pela maioria, como furado e este fato já se tornou de domínio público. 

Lições para Aécio e Eduardo Campos

Sebastião Nery
Tribuna da Imprensa

Logo depois do suicídio de Getúlio em 24 de agosto de 1954, Nereu Ramos, presidente da Câmara dos Deputados e do PSD de Santa Catarina, chamou Juscelino, governador de Minas,ao Rio, para uma reunião no PSD. Lá estava o governador de Pernambuco, Etelvino Lins, do PSD.

Etelvino propôs o adiamento das eleições para o Senado, a Câmara e as Assembleias, que iriam realizar-se em 3 de outubro. Alegava que uma eleição ainda sob o impacto do suicídio de Vargas daria ao PTB uma votação em massa, que provocaria uma reação dos militares.

Com a tese de Etelvino concordaram Nereu Ramos, Benedito Valadares presidente do PSD de Minas, Lucas Garcez, governador de São Paulo, e outros. Lacerda, da UDN, e Raul Pila, do PL, também queriam o adiamento. Juscelino foi totalmente contra. Sabia que aquele era o ovo da serpente para adiar também as eleições presidenciais do ano seguinte. Mesmo assim Nereu, Etelvino e Lucas Garcez foram a Café Filho, vice de Getúlio, que tinha assumido a presidência e virado udenista desde criancinha, e propuseram o adiamento. E Juscelino declarou que “como governador de Minas, lançaria mão de todo o poder que lhe conferia o cargo para impedir que o calendário eleitoral fosse alterado”.

JUSCELINO
Recuaram. Houve as eleições e não aconteceu nada do que eles diziam. O PSD tinha 112 deputados e passou para 114, a UDN com 84 caiu para 74 e o PTB com 51 subiu só para 56. JK começava a ganhar a briga. Mas Benedito, presidente do PSD de Minas, com pavor dos militares, não queria Juscelino de jeito nenhum. Juscelino teve de derrotá-lo na executiva estadual.

Depois de horas trancados lá dentro, numa reunião dramática, até a madrugada, a porta se abriu e vimos Juscelino sair com um sorriso de arco-íris. Até os olhos presos arregalaram. Ganhou por um voto. Benedito, cabeça baixa, pálido, pela primeira vez derrotado numa reunião política do partido.

No dia 19 de novembro de 54, todos os diretórios do PSD de Minas mandaram telegramas a Benedito encarregando-o de indicar Juscelino à direção nacional. No dia 25, o diretório nacional do PSD, presidido por Amaral Peixoto, contra a oposição de Benedito, Nereu e Etelvino, e do PSD do Rio Grande do Sul e outros apavorados, aprovou Juscelino por 123 a 36 votos.

Afinal, no dia 10 de fevereiro de 1955, dos 1925 delegados da convenção nacional, 1646 lançaram Juscelino. Os diretórios de Pernambuco, Santa Catarina e Rio Grande do Sul e 160 da Bahia e 26 do Rio ficaram contra.

ETELVINO
A grande imprensa do Rio e São Paulo, quase toda antigetulista, procurava convencer a opinião pública de que o país atravessava uma situação de extrema gravidade, que só tenderia a aumentar com a disputa eleitoral.

Etelvino propôs a Milton Campos, ex-governador de Minas, para propor à UDN, uma lista tríplice (Juscelino, Gustavo Capanema e Lucas Lopes, todos do PSD) para uma candidatura interpartidária, com apoio do PSD, UDN, PL e outros penduricalhos. Juscelino não topou. Era contra ele. Fez uma visita aos ministros militares e comunicou que seria candidato. E saiu pelo país visitando o PSD. Desceu na Bahia. Antonio Balbino, governador do PTB, ainda estava em duvida:

- Juscelino, qual a verdadeira posição do Café?

- Qual deles, Balbino? O vegetal ou o animal?

DILMA
JK foi para Pernambuco. Etelvino insistia na “união nacional”.

- Etelvino, já sei que você está contra mim.Quando fala em união nacional está pensando em União Democrática Nacional. Candidato não faz união. Candidato disputa. Quem faz união é governo, depois da posse.

O chefe da Casa Militar da Presidência, Juarez Távora, depois candidato derrotado por JK, divulgou na “Voz do Brasil”, em 27 de janeiro, documento dizendo que “as altas autoridades militares apelavam para uma colaboração interpartidária, um candidato único e civil”.

Juscelino respondeu com um discurso duro, escrito por Schmidt: – “Deus me poupou o sentimento do medo”.

Conversando com os jornalistas, Juscelino ensinava:

- Em eleição, todo neutro é um adversário disfarçado.

As pesquisas mostram que Dilma cai, Aécio e Eduardo sobem. Hoje só há uma unidade nacional: O país não aguenta mais o PT.

O Brasil cansou de ser o “país do futuro”?

Juan Arias  
El Pais

Os políticos brasileiros devem se manter vigilantes contra um descontentamento difuso e uma revolução silenciosa que explodiu no país e que pode ser um presságio de tormentas maiores

O Brasil, o gigante americano, está numa encruzilhada. Para alguns com risco de derrapar na próxima curva. Neste momento, todos estão crispados e quase incrédulos. “O Brasil está um caos”, é a frase que mais se escuta na rua.

O fato é que o Brasil luta para sair de uma situação que começou a incomodá-lo: cansou-se de ser “o país do futuro” e quer ser o do presente, do agora. Não lhe bastam promessas, e menos ainda as descumpridas. E quer um hoje com qualidade de vida. Entre os brasileiros, 73% desejam “mudanças”, inclusive radicais.

Repetiu-se durante muito tempo que o Brasil era o “país do futuro”, e apresentava-se a Petrobras como a joia da coroa, emblema da eficiência empresarial, uma empresa modelo no mundo, da qual hoje estão sendo vistos os pés de barro.

Qualificar o Brasil como país do futuro acarretava implicitamente que ele ainda não era um país adulto, e sim um adolescente. Embalados por esse mantra, os brasileiros se sentiram esperançados, mesmo sofrendo as garras da realidade presente, cheia de injustiça social, desigualdades dramáticas e serviços públicos de Terceiro Mundo.

Agora, os brasileiros querem ser adultos, sem esperar esse futuro incerto, porque além do mais o relógio da História se acelerou, e seus filhos e netos – que serão, esses sim, o futuro o Brasil – nascem já com o pé no acelerador e a mão no smartphone.

Sob essa óptica é preciso analisar esse ardor, esse desencanto e até esses surtos de violência repentina e de desassossego generalizado de pessoas que já não se sentem satisfeitas e querem mudar tudo, embora sem saber ainda como fazer isso.

O Brasil deveria, neste momento, se olhar sobretudo no espelho dos países irmãos contagiados pelo vírus de um populismo destrambelhado e corrupto, vizinho do autoritarismo ditatorial, como denunciou neste jornal com dureza o escritor Mario Vargas Llosa, referindo-se ao socialismo bolivariano da Venezuela.

É sintomático que, em todos os países onde se desencadeou com violência um movimento de protesto para mudar as coisas, tal revolta tenha sido capitaneada sobretudo pelos jovens, que acabaram arrastando para a sua causa outros setores da sociedade que comungam das suas aspirações.

E no Brasil? Algo que deveriam levar em conta os que governam os países, inclusive os que vivem em uma democracia decente, embora sempre imperfeita, como a brasileira, é que os jovens representam um impulso para a mudança.

Os jovens precisam estar na primeira fila quando se trata de mudar as coisas, porque levam no seu sangue quente o aguilhão da pressa e a ânsia pelo novo. E suportam, por exemplo, pior que os adultos a corrupção política, porque ainda não estão viciados nessa perigosa roleta.

Os poderes podem às vezes cooptar esses jovens com falsos ideais apresentados a eles como revolucionários ou progressistas. Trata-se muitas vezes de operações populistas e enganosas, que acabarão um dia explodindo e se rebelando contra tais poderes. Os jovens costumam ser agregadores, grupais, ao passo que, muitas vezes, os políticos separam e discriminam a ponto de considerarem seus adversários como inimigos.

Os Governos de alguns países já estão pagando o preço por terem enganado os jovens impedindo-os de participar em plena liberdade das mudanças de época. E quando os jovens despertam dos pesadelos autoritários que lhes foram impostos, ressurgem em seus protestos com uma força renovada e até perigosa, como estamos vendo em várias latitudes do mundo.

Talvez os governantes devessem estudar um pouco mais de psicologia, um pouco mais de Freud, Jung e Lacan, para não dormirem sobre os louros na vã esperança de que os jovens numa democracia jamais pretenderão ser impertinentes com o poder. Ou de que seja possível curvá-los pelo medo ou o suborno. A rebeldia continua aninhada no subconsciente do jovem, pronta sempre para estourar.

Aqui no Brasil os jovens começam a dar sinais de desassossego, que se refletem cada vez mais em ações de vandalismo, no ressurgimento de gestos racistas nos estádios de futebol, que pareciam desaparecidos, ou em formas perigosas de tomar a justiça nas próprias mãos. Isso poderia significar que as águas do inconformismo e do desejo de criar algo melhor chegaram a um nível alarmante.

Os sintomas são estudados em Medicina como prognósticos de possíveis enfermidades graves. A febre é tão necessária para a segurança do nosso organismo que, segundo a ciência, sem ela morreríamos na primeira enfermidade grave.

Querer curar a febre quebrando o termômetro é a mesma prática estúpida do avestruz de esconder a cabeça diante do perigo, em vez de enfrentá-lo a cara descoberta.

Os políticos devem hoje mais do que nunca se manter vigilantes contra um descontentamento difuso e uma revolução silenciosa que estalou no país e que costuma ser presságio de tormentas maiores.

E, para conseguir o que querem, os jovens não se comportarão como filhos bons, educados e obedientes. Foram sempre, e continuam sendo hoje, iconoclastas, idealistas e pragmáticos ao mesmo tempo, por paradoxal que pareça. Atenção na Copa!

Tudo isso é, ao mesmo tempo, um alerta e uma esperança, para o Brasil e para todo o continente latino-americano, já que, enquanto as águas transbordadas podem ser benéficas ou devastadoras, as estancadas acabam sempre apodrecendo.

Ficar inativo, além de impossível, costuma ser perigoso.

Os jovens hoje são ecumênicos. Querem ser “cidadãos do planeta”, como escreveu neste mesmo jornal Nathan Gardeis. São filhos do presente. Ignorar isso é brincar com fogo. O Brasil será julgado pelo hoje, não pelo ontem nem por um futuro messiânico.

E as eleições estão às portas. E já há rugidos de alerta.

Barbosa injeta drama na pseudocomédia do PT

Josias de Souza


O mensalão não virou a “piada de salão” que Delúbio Soares previra. Mas o petismo insiste em viver o seu drama como se fosse uma comédia. Há duas semanas, numa entrevista concedida em Portugal, Lula contou uma anedora de brasileiro. Disse que julgamento do mensalão “teve praticamente 80% de decisão política e 20% de decisões jurídicas”. Declarou que “não houve mensalão” e que “o processo foi um massacre que visava destruir o PT.” Ou seja: esqueceu de maneirar.

É contra esse pano de fundo que Joaquim Barbosa decreta a revogação em série de autorizações dadas a mensaleiros do semiaberto para trabalhar fora do xadrez. Noves fora o indeferimento do pedido de José Dirceu, o relator do mensalão retirou o benefício de Romeu Queiroz, Rogério Tolentino, nesta segunda-feira, também de Delúbio Soares. A defesa diz que recorrerá. Ótimo. É do jogo. O petismo tacha de “arbitrariedade”. Beleza. Quem sai aos seus não endireita.

Pode-se gostar ou não de Barbosa. Mas uma coisa é preciso reconhecer: ele empurra drama para dentro da comédia do PT. Faz isso valendo-se da única ferramenta que uma toga pode manusear: a lei. Aplicando-a de forma draconiana, o ministro decidiu que o trabalho externo só pode ser obtido após o cumprimento de um sexto da pena. Escora-se em decisões pretéritas do próprio Supremo. Quem discordar que recorra! Exagero? Não, não, absolutamente. Ou o mensalão é levado a sério ou o Brasil se conforma em ser um desses países em que o rato escapa colocando a culpa no queijo.

A economia repetida como farsa

Rolf Kuntz  
O Estado de S. Paulo

Bem-vindos de volta aos anos 50, ou, melhor, bem-vindos ao arremedo dos anos 50, a história repetida como farsa. As professoras do curso primário ainda apresentavam o Brasil, naquele tempo, como "um país essencialmente agrícola", apesar da onda de mudanças – a criação recente da grande siderurgia, a fundação da Petrobrás, a organização do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico, a expansão das fábricas de bens de consumo e a bandeira da industrialização acelerada. Hoje, como há seis décadas, a exportação depende dos produtos básicos. De janeiro a abril deste ano, só essa categoria proporcionou uma receita maior que a de um ano antes. Esse faturamento, US$ 33,91 bilhões, foi 4,2% superior ao dos primeiros quatro meses de 2013. Ao mesmo tempo, recuaram as vendas de industrializados. Também como nos tempos de Getúlio e JK, incentivos especiais e esquemas de proteção comercial são usados para favorecer a indústria local. Mas essa indústria há muito tempo deixou de ser nascente, a substituição de importações perdeu sentido e muitos países naquele tempo subdesenvolvidos tornaram-se potências dinâmicas e competitivas.

Na repetição farsesca dos anos 50, o governo atribui à oposição o desejo de privatizar a Petrobrás, quando a privatização de fato é promovida pelo grupo no poder, ao aparelhar, lotear e submeter as estatais a interesses partidários e pessoais dos governantes e de seus aliados. Esse mesmo padrão de comando levou a Petrobrás a negócios desastrosos, prejudicou sua receita, dificultou seus investimentos, converteu-a na empresa mais endividada do mundo – como noticiou a imprensa internacional – e corroeu seu valor de mercado. Tudo isso bastaria para compor uma história de incompetência, irresponsabilidade e abuso, mesmo sem o complemento das suspeitas de pilhagem, das prisões e da investigação criminal.

Na farsa do retorno aos anos 50, a sexta ou sétima economia mundial aparece em 22.º lugar entre os exportadores e só escapa de uma posição mais humilhante graças ao agronegócio e a um setor de mineração ainda com sinais de vitalidade. A nova pesquisa da indústria, recém apresentada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com universo mais amplo e ponderação atualizada, serviu principalmente para confirmar as más condições do setor. Pelas novas contas, a produção industrial cresceu 2,3% em 2013, quase o dobro da taxa indicada pelo velho critério, 1,2%. Mas esse crescimento mal bastou para compensar o recuo do ano anterior, 2,3%.

Pelas novas contas, a produção de bens de capital – máquinas e equipamentos – também continuou em crise, com redução de 11,2% em 2012 e expansão de 11,3% no ano passado. No primeiro trimestre deste ano, as fábricas desses bens produziram 0,9% menos que entre janeiro e março de 2013. Esses dados confirmam a pouca disposição dos empresários de ampliar e modernizar a capacidade produtiva e tornam risível, mais uma vez, a promessa oficial de avanço econômico puxado pelo investimento.

Nos anos 50 o presidente Juscelino Kubitschek instalou uma administração paralela – os grupos executivos – para cuidar da implementação do Plano de Metas. A alternativa, segundo a avaliação da equipe de governo, seria atrasar o plano para reformar a máquina federal. Pode-se discutir se um caminho intermediário seria possível, mas um dado é inegável. No fim de cinco anos, a maior parte das metas havia sido alcançada: a industrialização havia avançado e uma nova capital havia sido plantada no centro do País.

Sobraram custos importantes e pressões inflacionárias, mas o governo seguinte, com alguma competência, poderia ter realizado os ajustes. Não se pode culpar JK nem pela renúncia de Jânio nem pelo desperdício de oportunidades na gestão de João Goulart, incapaz de sustentar politicamente a dupla Celso Furtado-San Tiago Dantas e garantir a execução do Plano Trienal.

Na reprodução em forma de farsa, o planejamento foi alardeado na retórica e abandonado na prática. Nem se planejou, nem se reformou a administração, nem se buscaram alternativas para maior eficiência. Falar em produtividade do setor público foi estigmatizado como discurso neoliberal. Escolheu-se como política a distribuição de postos a companheiros e aliados, tanto na administração direta quanto nas autarquias e empresas. Ao ocupar o Palácio do Planalto, em 2011, a presidente Dilma Rousseff prometeu cuidar da qualidade da gestão federal. Nunca deu um passo para isso.

A farsa da repetição teve improvisação no lugar do planejamento, distribuição arbitrária de benefícios, excesso de gastos, promiscuidade entre Tesouro e bancos oficiais, interferência desastrada na formação de preços e muito mais estímulo ao consumo do que à produção. Um déficit em conta corrente próximo de 3,5% do PIB, bem maior que o investimento estrangeiro direto, foi uma das consequências. Outro resultado importante, além, é claro, da estagnação industrial, foi uma inflação sempre na vizinhança de 6% ao ano, muito acima da meta, 4,5%.

Em abril, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 0,67%. O governo pode apontar uma melhora, depois da taxa de 0,92% em março. Mas uma alta de 0,67% ao mês corresponderia, em um ano, a 8,34%. O acumulado efetivo em 12 meses ficou em 6,28%, muito perto do limite de tolerância (6,5%). Em outras economias emergentes, bem mais dinâmicas, a alta de preços tem raramente superado 3%. Mas o quadro da inflação brasileira pode piorar, com a descompressão de preços contidos politicamente e nenhum esforço do governo para conter seus gastos.

Há, no entanto, pelo menos uma boa notícia. Segundo o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, os torcedores ingleses podem vir tranquilos para a Copa da Fifa. Não haverá, garantiu, perigo maior que o enfrentado pelos soldados britânicos no Iraque. Faltou explicar se os torcedores deverão vir armados, como os militares enviados à guerra.

Calar é ruim, falar é pior.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

O ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, do PCdoB, reagiu do seu jeito às reportagens da imprensa britânica sobre a insegurança pública no Brasil: disse que visitar nosso país é menos perigoso do que foi, para os ingleses, a guerra do Iraque. Que beleza! Os britânicos devem estar felizes de gastar seu dinheiro para passear num país menos perigoso do que uma guerra com o Exército mais poderoso do Oriente Médio. Já dizia minha sábia vovó Maria que o silêncio é de ouro.

Mas nem sempre. Falta um mês para o início da Copa, um grande evento turístico internacional. O caro leitor sabe quem é o ministro do Turismo? Soube de alguma iniciativa de Sua Excelência para atrair mais turistas e convencê-los a ficar no Brasil o maior tempo possível, passeando, divertindo-se e comprando?

O ministro não está sozinho na cruzada para provar que o silêncio nem sempre é de ouro. O jogo inaugural da Copa, maior torneio esportivo do mundo, deve ocorrer no estádio do Corinthians, em São Paulo. O caro leitor sabe quem é o secretário de Esportes do Estado? E o secretário municipal de Esportes? 

Talvez seja melhor que não se manifestem nem entrem em ação. Pois a Prefeitura paulistana entrou em ação: o estádio do Corinthians é chamado, na programação oficial da FIFA e nos ingressos da partida inaugural da Copa, de Arena de São Paulo. A Prefeitura colocou placas de trânsito bilíngues com os dizeres "Estádio Itaquera" e "Itaquera Stadium". O turista que procura a Arena de São Paulo, ou The San Paulo Arena, talvez tenha alguma dificuldade para orientar-se.

Prepare seu coração... 
O caro leitor queria uma CPI? Pois tem três: duas sobre a Petrobras (uma mista, de deputados e senadores, outra só de senadores), uma (mista) sobre o Metrô de São Paulo. Traduzindo: desse mato não sai coelho. O deputado Mendonça Filho, DEM de Pernambuco, exigiu que o presidente do Senado, Renan Calheiros, PMDB de Alagoas, levasse a CPI a sério. Ficou sozinho: Aécio Neves estava lá, mantendo-se em ruidoso silêncio; havia muitos socialistas de Eduardo Campos, competindo para ver quem ficava mais quieto. 

E as CPIs? Bem, um dia desses, quem sabe. A Copa está chegando, depois vem o recesso, depois a campanha eleitoral - deixa o tempo rolar, quem é que quer saber de investigar alguma coisa?

...pras coisas que eu vou contar
O portal Congresso em Foco (http://congressoemfoco.uol.com.br/) levantou a ficha dos parlamentares da CPI da Petrobras no Senado. Dos dez até agora indicados, cinco estão sendo investigados pelo Supremo (ou enfrentam processo). Gim Argello (PTB-Brasília) responde a seis inquéritos e já tem condenação em segunda instância. Valdir Raupp (PMDB-Roraima) tem quatro ações penais. Vital do Rego (PMDB-Paraíba) responde a um inquérito. Acir Gurgacz (PDT-Roraima), a dois inquéritos. E Ciro Nogueira (PP-Piauí), a um.

Mas o mundo foi rodando
O Ministério Público estadual de São Paulo e a Procuradoria da República pediram à Suíça a quebra do sigilo bancário e o bloqueio das contas de 20 investigados no caso do cartel do Metrô e dos trens urbanos de São Paulo. E como pretende defender-se o PSDB, em cuja dinastia, iniciada em 1994 por Mário Covas, ocorreram os fatos a ser investigados?

Simples: os senadores Aécio Neves e Aloysio Nunes Ferreira levantam casos de cartel em obras do Governo Federal. Provar que nada houve? Não: mostrar que os outros fazem as mesmas coisas.

Mas com gente é diferente
Aécio disse que as investigações vieram com muitos anos de atraso, mas vão derivar também para outros cartéis. Mais um que abandona um companheiro de partido, o homem-forte do Governo Covas, Robson Marinho, que até agora sofre sozinho a acusação de ter sido beneficiado pelo cartel. Aécio não mencionou a necessidade de investigar o Secretariado de Covas, mais os subordinados cuja tarefa era verificar a lisura dos contratos. É impossível que um só secretário, por mais poderoso que fosse, cuidasse sozinho da empreitada. 

Esse tipo de coisa ou se divide, contentando todos os corruptos, ou não dura os 20 anos que durou.

Estranho no ninho
O MTST, Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, invadiu uma gleba próxima ao estádio do Corinthians, onde começará a Copa do Mundo, e foi em seguida muito bem recebido pela presidente Dilma. Na foto, próximo à presidente, o líder supremo do MTST: Guilherme Boulos. Sem-teto é o que ele não é. É formado em Filosofia, filho de um médico de excelente reputação, professor de Medicina da Universidade de São Paulo. Veste-se informalmente, mas com apuro. Há mais de dez anos este rapaz de classe média alta se dedica a invadir propriedades dos outros. 

Nada a estranhar: Bruno Maranhão, há pouco falecido, que liderava o Movimento de Libertação dos Sem-Terra, dirigente do PT e amigo de Lula, morava num palacete do Recife e tinha um bom apartamento em São Paulo, num bairro caro, Higienópolis. Maranhão também invadia a propriedade dos outros. E liderou a invasão ao Congresso, com quebra-quebra e 41 feridos.

Macacos, não
Não, não somos todos macacos. Não com a banana nesse preço.

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

'Dilmês' castiço

Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

Bom sinal que a presidente Dilma Rousseff tenha resolvido dedicar parte de seu tempo a conversar com a imprensa. Já fez dois encontros "temáticos" (com jornalistas da área de esportes e com profissionais mulheres), consta que pretenda fazer outros no esforço de estabelecer uma convivência mais civilizada em terreno tratado, quando interessa, como inimigo.

Muito melhor o diálogo do qual se beneficiam todos, governantes e governados. No caso da presidente, o convívio com réplicas e tréplicas - não sendo só uma fase decorrente da necessidade de angariar simpatia devido ao momento um tanto desfavorável - sem a barreira da subordinação pode ajudá-la a exercitar o uso do idioma, combinando sentidos e significados.

Nos pronunciamentos, principalmente nos improvisados, não raro a desconexão entre o pensamento e a linguagem desfavorece a compreensão do que de fato quis dizer a presidente. O jantar que reuniu um grupo de jornalistas na noite de terça-feira foi um exemplo de como a chefe da Nação ora pronuncia palavras que significam o oposto de suas ações, ora diz coisas que se contradizem e não formam um sentido lógico.

Ao defender sua política econômica, considerou "ridículas" as análises que apontam cenário de crise para 2015, ano em que, segundo ela, o "Brasil vai bombar". O que seria isso? Crescer espetacularmente? Atrair investimentos? Avançar na infraestrutura? Melhorar de maneira significativa a eficácia dos serviços públicos? Ou vão estourar bombas (no sentido figurado) de todos os lados? Não se sabe, porque a presidente não explica.

Reconhece, no entanto, o óbvio, que "não está tudo bem" com os preços. Não precisava dizer. Todo mundo vê. O que não se percebe com a mesma facilidade é como se combina essa situação adversa em relação aos preços com a assertiva da presidente sobre o absoluto controle sobre a inflação. Depende do que ela considera controle e se o fato de a inflação se instalar no teto da meta e o governo dizer que anda tudo bem pode transmitir segurança a alguém.

Dilma Rousseff tampouco atribui o mau humor que toma conta do ambiente ao aumento dos preços. Monta sua própria equação: para ela, a insatisfação decorre da "comparação entre a taxa de crescimento de bens e a taxa de crescimento de serviços".

Vamos tentar traduzir. As pessoas se afligem quando se dão conta de que compraram geladeira, carro, televisão, móveis novos, mas não conseguem ter segurança, saúde e educação públicas em grau minimamente decentes, é isso? Parece que sim e aí a presidente tira o corpo fora. "Os serviços dependem de investimentos que não foram feitos no passado."

Qual passado, se o partido de Dilma Rousseff está no poder há 12 anos incentivando o consumo e inerte quanto a mudanças estruturais?

A presidente da República assegurou que não haverá aumento de impostos. É de se perguntar, então, de onde o ministro da Fazenda, Guido Mantega, tirou a afirmação feita nesta semana de que o governo pode elevar tributos sobre bens de consumo para compensar o aumento de despesas e ajudar no cumprimento da meta fiscal.

Nesse passeio pela versão presidencial dos fatos, chegamos à CPI da Petrobrás. Muito convicta, Dilma garantiu que não tem "temor algum" da comissão de inquérito. Pelo seguinte motivo: "Não devo nada e o governo é de absoluta transparência".

Duas inverdades. 
A presidente ainda deve explicações sobre a aprovação da compra da refinaria de Pasadena com base em relatório parcial, sem a requisição da documentação completa e o governo não é transparente quando no oficial diz que não teme e no paralelo faz manobras para postergar a investigação.

Nesse particular, atendendo ao apelo "ir para cima" contra a CPI, feito pelo ex-presidente Lula, a quem Dilma tem reiteradamente renovado votos de lealdade.

Professores, acordem!

Gustavo Ioschpe
Revista VEJA

O respeito da sociedade não virá quando vocês tiverem um contracheque mais gordo. Virá com a educação de qualidade para nossos filhos

(Rania Rego/Ag. Brasil) 
Greve de professores - Muitos gostam do modelo cubano, mas esquecem 
que lá o salário mensal de um professor é de aproximadamente 28 dólares 

Normalmente escrevo esta coluna pensando nos leitores que nada têm a ver com o setor educacional. Faço isso, em primeiro lugar, porque creio que a educação brasileira só vai avançar (e com ela o Brasil) quando houver demanda pública por melhorias. E, segundo, porque nos últimos anos tenho chegado à conclusão de que falar com o professor médio brasileiro, na esperança de trazer algum conhecimento que o leve a melhorar seu desempenho, é mais inútil do que o proverbial pente para careca. Não deve haver, nos 510 milhões de quilômetros quadrados deste nosso planeta solitário, um grupo mais obstinado em ignorar a realidade que o dos professores brasileiros. O discurso é sempre o mesmo: o professor é um herói, um sacerdote abnegado da construção de um mundo melhor, mal pago, desvalorizado, abandonado pela sociedade e pelos governantes, que faz o melhor possível com o pouco que recebe. Hoje faço minha última tentativa de falar aos nossos mestres. E, dado o grau de autoengano em que vivem, eu o farei sem firulas.

Caros professores: vocês se meteram em uma enrascada. Há décadas, as lideranças de vocês vêm construindo um discurso de vitimização. A imagem que vocês vendem não é a de profissionais competentes e comprometidos, mas a de coitadinhos, estropiados e maltratados. E vocês venceram: a população brasileira está do seu lado, comprou essa imagem (nada seduz mais a alma brasileira do que um coitado, afinal). Quando vocês fazem greve — mesmo a mais disparatada e interminável —, os pais de alunos não ficam bravos por pagar impostos a profissionais que deixam seus filhos na mão; pelo contrário, apoiam a causa de vocês. É uma vitória quase inacreditável. Mas prestem atenção: essa é uma vitória de Pirro. Porque nos últimos anos essa imagem de desalento fez com que aumentassem muito os recursos que vão para vocês, sem a exigência de alguma contrapartida da sua parte. Recentemente destinamos os royalties do pré-sal a vocês, e, em breve, quando o Plano Nacional de Educação que transita no Congresso for aprovado, seremos o único país do mundo, exceto Cuba, em que se gastam 10% do PIB em educação (aos filocubanos, saibam que o salário de um professor lá é de aproximadamente 28 dólares por mês. Isso mesmo, 28 dólares. Os 10% cubanos se devem à falta de PIB, não a um volume de investimento significativo).

Quando um custo é pequeno, ninguém se importa muito com o resultado. Quando as coisas vão bem, ninguém fica muito preocupado em cortar despesas. E, quando a área é de pouca importância, a pressão pelo desempenho é pequena. No passado recente, tudo isso era verdade sobre a educação brasileira. Éramos um país agrícola em um mundo industrial; a qualificação de nossa gente não era um elemento indispensável e o país crescia bem. Mas isso mudou. O tempo das vacas gordas já era, e a educação passou a ser prioridade inadiável na era do conhecimento. Nesse cenário, a chance de que se continue atirando dinheiro no sistema educacional sem haver nenhuma melhora, a longo prazo, é zero.

Vocês foram gananciosos demais. Os 10% do PIB e os royalties do pré-sal serão a danação de vocês. Porque, quando essa enxurrada de dinheiro começar a entrar e nossa educação continuar um desastre, até os pais de alunos de escola pública vão entender o que hoje só os estudiosos da área sabem: que não há relação entre valor investido em educação — entre eles o salário de professor — e o aprendizado dos alunos. Aí esses pais, e a mídia, vão finalmente querer entrar nas escolas para entender como é possível investirmos tanto e colhermos tão pouco. Vão descobrir que a escola brasileira é uma farsa, um depósito de crianças. Verão a quantidade abismal de professores que faltam ao trabalho, que não prescrevem nem corrigem dever de casa, que passam o tempo de aula lendo jornal ou em rede social ou, no melhor dos casos, enchendo o quadro-negro de conteúdo para aluno copiar, como se isso fosse aula. E então vocês serão cobrados. Muito cobrados. Mas, como terão passado décadas apenas pedindo mais, em vez de buscar qualificação, não conseguirão entregar.

Quando isso acontecer, não esperem a ajuda dos atuais defensores de vocês, como políticos de esquerda, dirigentes de ONGs da área e alguns “intelectuais”. Sei que em declarações públicas esse pessoal faz juras de amor a vocês. Mas, quando as luzes se apagam e as câmeras param de filmar, eles dizem cobras e lagartos.

Existem muitas coisas que vocês precisarão fazer, na prática, para melhorar a qualidade do ensino, e sobre elas já discorri em alguns livros e artigos aqui. Antes delas, seria bom começarem a remover as barreiras mentais que geram um discurso ilógico e atravancam o progresso. Primeira: se vocês são vítimas que não têm culpa de nada, também não poderão ser os protagonistas que terão responsabilidade pelo sucesso. Se são objetos do processo quando ele dá errado, não poderão ser sujeitos quando ele começar a dar certo. Se vocês querem ser importantes na vitória, precisam assimilar o seu papel na derrota.

Segunda: vocês não podem menosprezar a ciência e os achados da literatura empírica sempre que, como na questão dos salários, eles forem contrários aos interesses de vocês. Ou vocês acreditam em ciência, ou não acreditam. E, se não acreditam — se o que vale é experiência pessoal ou achismo —, então vocês são absolutamente dispensáveis, e podemos escolher na rua qualquer pessoa dotada de bom-senso para cuidar da nossa educação. Vocês são os guardiães e retransmissores do conhecimento acumulado ao longo da história da humanidade. Menosprezar ou relativizar esse conhecimento é cavar a própria cova.

Terceira: parem de vedar a participação de terceiros no debate educacional. É inconsistente com o que vocês mesmos dizem: que o problema da educação brasileira é de falta de envolvimento da sociedade. Quando a sociedade quer participar, vocês precisam encorajá-la, não dizer que só quem vive a rotina de “cuspe e giz” é que pode opinar. Até porque, se cada área só puder ser discutida por quem a pratica, vocês terão de deixar a determinação de salários e investimentos nas mãos de economistas. Acho que não gostarão do resultado...

Quarta: abandonem essa obsessão por salários. Ela está impedindo que vocês vejam todos os outros problemas — seus e dos outros. O discurso sobre salários é inconsistente. Se o aumento de salário melhorar o desempenho, significa que ou vocês estavam desmotivados (o que não casa com o discurso de abnegados tirando leite de pedra) ou que é preciso atrair pessoas de outro perfil para a profissão (o que equivale a dizer que vocês são inúteis irrecuperáveis).

O respeito da sociedade não virá quando vocês tiverem um contracheque mais gordo. Virá se vocês começarem a notar suas próprias carências e lutarem para saná-las, dando ao país o que esperamos de vocês: educação de qualidade para nossos filhos.

Um estuário de mágoas

José Casado
O Globo

Em documento, cúpula do PT desqualifica adversários e anuncia guerra total a quem ameaçar ‘a conquista de hegemonia em torno do nosso projeto de sociedade’

São 2.200 palavras espalhadas por dez páginas com as “diretrizes” do programa de governo, da tática de campanha e da política de alianças do Partido dos Trabalhadores para a disputa em outubro. Foram proclamadas na semana passada por 800 dirigentes do partido, sob a batuta de Lula, na sagração da candidatura de Dilma Rousseff à reeleição.

O conteúdo surpreende: revela que o maior partido político brasileiro, a cinco meses da eleição e com sua candidata liderando todas as pesquisas, planeja uma campanha eleitoral raivosa sobre os adversários, na defensiva diante da “complexidade da conjuntura” e dos “reflexos da crise mundial”.

O documento, disponível na rede do PT, é cinco vezes mais extenso que o da campanha de 2010. Indica uma drástica mudança no humor petista depois de 12 anos no poder.

Dissiparam-se o tom de leveza e o autojúbilo com a certeza de que se mudavam “substancialmente o Brasil e a vida dos brasileiros”.

Agora, a “resolução” do PT é pela guerra total a quem ameaçar a “conquista de hegemonia em torno do nosso projeto de sociedade”.

Os dirigentes creem ter uma missão salvacionista: “Superar a herança maldita, cujas fontes são a ditadura militar, o desenvolvimentismo conservador e a devastação neoliberal.”

Assim, veem como “tarefa” o “aprofundamento da soberania nacional, a aceleração e radicalização da integração latino-americana e caribenha, e uma política externa que confronte os interesses dos Estados Unidos e seus aliados”.

Em síndrome persecutória, enxergam “um pesado ataque ao nosso projeto, ao nosso governo e ao PT, por parte de setores da elite conservadora e da mídia oligopolista, que funciona como verdadeiro partido de oposição”. O “principal exemplo”, afirmam, foi o “julgamento de exceção” do mensalão no STF.

Supõem ser essencial desqualificar os adversários: “Representam um projeto oposto ao nosso, muito embora um deles se esforce em transmutar-se em uma suposta terceira via. Guardadas as diferenças secundárias e temporais, arregimentam os interesses privatistas, rentistas, entreguistas, sob o guarda-chuva ideológico do neoliberalismo e de valores retrógrados do machismo, racismo e homofobia, daqueles que pretendem voltar ao passado neoliberal, excludente e conservador.”

Interpretam a ansiedade por mudanças (expressa por 74% dos eleitores, no Datafolha) como atestado da própria onisciência, pois “todas estão contidas em nosso programa, como é o caso exemplar da reforma política, a democratização da comunicação, a reforma agrária, a reforma urbana e a reforma tributária”.

Acham que o epicentro está na “luta pela reforma política”. Porque “nosso grande objetivo é democratizar o Estado, inverter prioridades e estabelecer uma contra-hegemonia ao capitalismo, construir um socialismo radicalmente democrático para o Brasil”.

Essas “diretrizes” esvanecem a possibilidade de sedução do eleitor pela oferta objetiva de um futuro de progresso pessoal e coletivo. Elas pressupõem que a militância petista vá às ruas intimar o eleitorado a votar em Dilma por solidariedade à cúpula, que parece se afogar num estuário de mágoas. Seria um exercício eleitoral inovador sobre a arte de viver da fé. Só não se sabe fé em quê.

Social-democracia à brasileira

Gaudêncio Torquato
O Estado de S. Paulo

De repente, a bola chegou quadrada aos pés de Eduardo Campos: rever ou não rever o manifesto do PSB, datado de 1947, cujo item 7 prega que o objetivo do partido no terreno econômico "é a transformação da estrutura da sociedade, incluída na gradual e progressiva socialização dos meios de produção, que procurará realizar na medida em que as condições do País a exigirem". O pré-candidato à Presidência da República se vê no meio de uma enroscada. De um lado, empresários do campo privado temerosos de que a pelota seja chutada para os braços de Karl Marx; de outro, correligionários duros, que não admitem tesoura para cortar documento histórico. A par do simbolismo implícito no texto que ainda prega a "manutenção da propriedade privada nos limites da possibilidade de sua utilização pessoal, sem prejuízo do interesse coletivo", o documento suscita a indagação: de que social-democracia o Brasil necessita e que peculiaridades devem ser examinadas nas propostas dos candidatos à Presidência da República? Essa é a questão em jogo, ainda mais quando o tema da concentração de renda e igualdade social ganha o foro mundial, a partir do livro do francês Thomas Piketty, Capital no século XXI. Ao traçar o histórico da concentração de renda nos últimos três séculos, ele mostra que os ricos ficam cada vez mais ricos e a desigualdade fica cada vez pior.

O fato é que nossa social-democracia carece de aperfeiçoamentos. A título de lembrança, tal modelagem começa a tomar corpo a partir da ofensiva liberal conservadora que impacta o País nos anos 70, ganha corpo na onda de organização dos movimentos sociais impulsionados pela Constituição de 1988 e resulta na ampliação dos direitos coletivos,base do Estado do bem-estar. Não se trata, como alguns podem imaginar, de opor as bandeiras do socialismo clássico às do liberalismo ortodoxo. Trata-se de alinhar o sistema ao espírito do nosso tempo. Ganhando consistência progressiva entre 1919 e 1939, na Europa, sob a égide das identidades regionais e revisões constantes do escopo socialista, a social-democracia ganhou nuances aqui e ali, sem romper os pressupostos econômicos, políticos e sociais do liberalismo. Elege o Estado como regulador da economia, coisa necessária para corrigir desequilíbrios causadores de crises, aliás, na esteira das lições de John M. Keynes.

O modo de produção capitalista, por sua vez, atravessou um longo corredor de mudanças. As organizações foram instadas a ampliar a pletora de direitos dos trabalhadores. A configuração do mundo do trabalho adquiriu novos contornos com a multiplicação de micro e pequenos negócios, abrindo aos trabalhadores acesso ao território dos empreendimentos. Nesse ambiente, a social-democracia incorporou transformações nas esferas organizativas, políticas, econômicas e sociais. Ao perceber a impossibilidade de um só partido juntar mais de 50% dos votos de um país e chegar, sozinho, aos píncaros do poder, passou a agregar alianças. E a coabitar. Na França, pôde-se ver um presidente socialista (François Mitterrand) convivendo com um primeiro-ministro da direita conservadora (Jacques Chirac); ou um presidente direitista (Chirac) ao lado de um primeiro-ministro socialista (Lionel Jospin). A clássica luta de classes abriu vez para a conciliação entre grupos e classes; a esfera dos trabalhadores estendeu seus domínios, agora integrando as classes médias (com profissionais liberais), e não apenas os peões do chão de fábrica. Os partidos de massas substituíram os classistas.

Dito isso, cheguemos ao panorama brasileiro. Que caráter e programas devem ancorar nosso sistema social-democrata? O pressuposto inviolável, intransferível, imutável é o compromisso com o Estado dobem-estar. Em outros termos, o sistema deve desenvolver uma economia viável, ajustada aos parâmetros do território, capaz de beneficiar todas as parcelas da população e endossada por partidos que se juntem em aliança para implantar programas consensuados. Tal ideário não pode desequilibrar o orçamento público ou ancorar políticas populistas. Esse é o ponto de atenção. Urge enxugar a máquina administrativa usando critérios racionais e dar ao Estado o tamanho adequado para cumprir suas tarefas. Fernando Henrique tentou diminuir a extensão da máquina. Foi acusado de privatista. O ciclo Lula voltou a inchar a máquina com milhares de contratações. Mas não desconstruiu os pressupostos liberais. Na era Dilma, o Estado é considerado "mais intervencionista". Afinal, que instrumentos o Estado deve dispor para preservar seu papel de regulador da economia, promover o bem-estar e orientar a iniciativa privada no caminho do bem comum? Ampliar ou não as Parcerias Público-Privadas (PPPs) a concessão de serviços públicos e impor limites à privatização de bens públicos? O que cabe em nossa social-democracia? Com a palavra, os postulantes à Presidência da República.

É hora de atribuir a cada qual o que lhe pertence. É inegável que o braço assistencialista dos anos PT contribuiu para acelerar a dinâmica social. Da mesma forma, as estacas do Estado atual foram fincadas na era tucana do Plano Real. Outro ajuste seria nos vãos do nosso presidencialismo. A Tríade do Poder parece torta. O sistema presidencialista, com extrema concentração de força, precisa diminuir seu ímpeto legislativo. Tudo passa pela tinta da caneta do mandatário-mor, que mora na fortaleza que distribui verbas, cargos, empregos e favores. Todo esforço se fará necessário para atenuar aquilo que José Murilo de Carvalho chama de "estadania", contraponto à cidadania. A organicidade social, a constelação de entidades que se transformam em novos polos de poder, as manifestações de rua abrem um amanhã para a democracia participativa, cujo papel é o de fazer pressão sobre a democracia representativa. 

Nota de pé de página: não há por que temer o manifesto de 1947 do PSB. O mundo girou, e muito, desde os tensos anos da guerra fria.

Miséria da diplomacia

Demétrio Magnoli 
O Globo

‘Respeito instruções, respeito leis, mas não respeito caprichos nem ordens manifestadamente ilegais.” A declaração, concedida ao jornal “A Tribuna”, de Vitória (4/5), deveria constar no alto de um manual de conduta dos funcionários públicos. É do diplomata Eduardo Saboia e tem endereço certo.

Saboia chefiava a embaixada brasileira em La Paz até a sexta-feira, 23 de agosto de 2013, quando decidiu que um limite ético fora ultrapassado e orquestrou a fuga do ex-senador boliviano Roger Pinto Molina para o Brasil. Hoje, o diplomata sofre a covarde punição tácita do ostracismo: a comissão de sindicância aberta no Itamaraty, com prazo previsto de 30 dias, segue sem uma resolução depois de oito meses.

O cineasta Dado Galvão prepara um importante documentário sobre a saga de Molina e Saboia. Será uma história incompleta, pois uma longa série de detalhes sórdidos permanece soterrada pela lápide do sigilo que recobre tanto as comunicações entre a embaixada e Brasília quanto os autos do processo administrativo contra Saboia. Mas o que agora se sabe já é de enrubescer cafetões.

Depois de receber asilo diplomático do governo brasileiro, Molina permaneceu confinado na embaixada em La Paz durante 15 meses. Enquanto o governo boliviano negava a concessão de salvo-conduto para que deixasse o país, ele não teve direito a banho de sol ou a visitas íntimas.

A infâmia atingiu um ápice em março de 2013, quando emissários de Brasília reuniram-se, em Cochabamba, com representantes do governo boliviano para articular a entrega do asilado aos cuidados da Venezuela.

A “solução final” só não se concretizou devido à crise desencadeada nas semanas finais da agonia de Hugo Chávez. No lugar dela, adotou-se a política da protelação infinita, que buscava quebrar a resistência de Molina, compelindo-o a render-se às autoridades bolivianas.

Cochabamba é um marco no declínio moral da diplomacia brasileira. A embaixada em La Paz ficou à margem das negociações. O embaixador Marcel Biato, que solicitava uma solução legal e decente para o impasse, foi sumariamente afastado do cargo. (De lá para cá, circulando sem funções pelos corredores do Itamaraty, Biato experimenta um prolongado ostracismo.)

Molina, por sua vez, teve o direito a visitas restringido a seu advogado e sua filha. Uma ordem direta de Brasília proibiu a transferência do asilado para a residência diplomática, conservando-o num cubículo da chancelaria. Naqueles dias, vergonhosamente, o ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota, chegou a flertar com a ideia de confisco do celular e do laptop do asilado.

Convicções, crenças, valores? Nada disso. Dilma Rousseff conduziu todo o episódio premida pelo temor — ou melhor, por dois temores conflitantes. No início, por sugestão de Patriota, concedeu o asilo diplomático temendo a crítica doméstica — e, pelo mesmo motivo, não o revogou na hora da reunião de Cochabamba.

Depois, a cada passo, temendo desagradar a Evo Morales, violou os direitos legais de Molina, entregou à Bolívia o escalpo do embaixador Biato e converteu Saboia em carcereiro do asilado. As concessões só estimularam o governo boliviano a endurecer sua posição.

A prorrogação abusiva da prisão dos 12 torcedores corintianos em Oruro foi uma represália direta da Bolívia contra o Brasil. O patente desinteresse de Brasília pela sorte dos cidadãos brasileiros encarcerados representou uma nova — e abjeta — tentativa de apaziguamento.

Saboia assumiu o comando da embaixada após o afastamento de Biato, e tentou, inutilmente, acelerar a valsa farsesca das negociações conduzidas por uma comissão Brasil/Bolívia formada à margem da representação diplomática em La Paz. Cinco meses depois, rompeu o impasse, aceitando os riscos de transferir Molina para o Brasil.

Em tempos normais, o diplomata que fez valer a prerrogativa brasileira de concessão de asilo seria recepcionado de braços abertos pelo governo brasileiro. Mas, em “tempos de Dilma”, o mundo está virado do avesso.

Antes que os familiares de Saboia pudessem deixar a Bolívia, o governo transmitiu à imprensa o nome do responsável pela fuga do asilado. Na sequência, reservou-se a Saboia um lugar permanente na cadeira dos réus.

Tempos de Dilma, uma era de “ordens ilegais” e “caprichos”. A presidente expressou, em público e pela imprensa, sua condenação prévia de Saboia antes da abertura da investigação oficial. Pela primeira vez na História (e isso abrange a ditadura militar!), uma comissão de sindicância do Itamaraty não é presidida por um diplomata, mas por um assessor da Controladoria-Geral da União que opera como interventor direto da Presidência da República.

“É evidente que existe uma pressão política”, denuncia Saboia. “Há uma sindicância que não está, pelo visto, apurando os fatos que levaram uma pessoa a ficar confinada 15 meses; está voltada para me punir.”
Em março, emanou da comissão um termo provisório de indiciação que omite os argumentos da defesa e cristaliza as mais insólitas acusações — inclusive a de que Saboia violou os “usos e costumes” (!!!) da Bolívia.

A mesquinha perseguição a Biato e Saboia não é um caso isolado, mas a ponta saliente de uma profunda deterioração institucional: pouco a pouco, o Estado se converte numa ferramenta de realização dos desígnios dos ocupantes eventuais do governo.

Não é mais segredo para ninguém que o governo ignora solenemente as violações de direitos humanos em Cuba e na Venezuela. Menos divulgado, porém, é o fato de que a política externa do lulopetismo tem perigosas repercussões internas: no Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), um órgão presidido pelo Ministério da Justiça, as solicitações de refúgio político de dezenas de bolivianos dormem no limbo.

“Não respeito caprichos nem ordens manifestadamente ilegais.” No Brasil de Dilma, quem diz isso é réu. A presidente exige obediência cega. Vergonha.

‘- Está tudo certo, mas não bate’

Maria Helena RR de Sousa
Blog Noblat

Leio aqui no Blog um comentário que podia ser o slogan do Brasil DilmoLuloso: “Está tudo certo, mas não bate”. O autor? Um antigo leitor que usa um apelido simpático: Juca Leiteiro.

Ele comentava uma afirmação de dona Dilma com jornalistas escolhidas, sobre a inflação, na qual a presidente disse: ‘Não está tudo bem, mas está sob controle'.

Juca Leiteiro, ao ler essa informação, de pronto se lembrou de um auxiliar contábil que costumava dizer ao fim das contas e balancetes: ‘Está tudo certo, mas não bate’.

Mas é que não bate mesmo! Inflação adquirindo pujança, greves em serviços essenciais causando um dano terrível a uma população sofredora, que acorda no escuro para sair para o trabalho, volta quando a noite já caiu, ganha mal e paga caro para viver uma vida de segunda – que digo – de terceira classe!

Dona Dilma disse também: "A única pessoa que te derrota é você mesma. Em qualquer circunstância, a derrota está aqui dentro (apontando para a cabeça) e eu não me deprimo. Não sou uma pessoa deprê”.

É apavorante saber que ela não se deprime ao olhar pelas janelas e ver o Brasil que preside. Um país violento, amargo, desesperançado, sem ânimo, habitado por brasileiros infelizes, que não distinguem o Bem do Mal e que estão se tornando brutais, onde crimes inimagináveis até o final do século 20 viraram notícias do dia a dia.

Deprimir-se, nessas circunstâncias, seria um bom sinal. Se não cabe a ela resolver todos os nossos problemas, ao menos saberíamos que tem coração e que sofre com o nosso sofrimento.

Nossa imagem sempre colorida e com trilha sonora de primeira água, engana e enganou durante muito tempo. Neste último fim de semana Roberto D’ Ávila, um craque em entrevistas, ouviu no Palácio Doria Pamphili, em Roma, o sociólogo Domenico de Masi, aquele do ‘Ócio Criativo’. O papo entre os dois abre sobre a beleza ímpar da Piazza Navona, em parte nossa. 

Piazza Navona: ao lado da nossa embaixada,
 a Igreja de Santa Agnese in Agone

Esse intelectual tão respeitado disse que a civilização brasileira era, junto com a grega, uma das mais criativas. Que nossos índios eram grandes artistas e que se não temos Capelas Sistinas era porque os índios pintavam no corpo da pessoa amada em vez de pintaram sobre coisas inertes.

Segundo esse senhor (que já veio muitas vezes ao Brasil e desmente a noção que as viagens formam a juventude, ou a maturidade), somos o povo mais doce que há, doçura que herdamos dos índios, depois enriquecida pelos outros povos que para cá vieram.

Gentilmente interpelado pelo jornalista sobre a violência que o Brasil enfrenta, ele rapidamente disse que isso é fruto dos shoppings que vendem Ferraris ao lado de favelas.

A entrevista naquela galeria deslumbrante que é nossa e que graças a Deus foi pintada em matéria inerte, foi encerrada com um sorriso bem doce do entrevistador ao agradecer ao sociólogo seu amor pelo Brasil. Agradecimento merecido. Isso é que é amor. Cego.

Aécio, ou Tancredo Neves 2.0

Elio Gaspari
O Globo

A indicação da pesquisa Datafolha de que hoje Aécio Neves é o candidato com mais probabilidades de chegar a um eventual segundo turno numa disputa com Dilma Rousseff recomenda que seus adversários estudem a campanha que levou seu avô à Presidência em 1985.

Até agora, Aécio jogou parado. Tudo o que ele precisa é chegar ao segundo turno, sem inimigos de morte e com o máximo possível de acordos. Aécio precisa de votos que há quatro, oito ou 12 anos foram para o PT. Em circunstâncias diferentes, Tancredo precisava chegar a uma eleição direta com o apoio de eleitores da bancada do governo.

Indo para uma eleição direta, Aécio ainda não anunciou um programa substantivo. O avô fez melhor, elegeu-se indiretamente sem anunciar programa algum. Essa mágica foi inteiramente eficaz para o avô, mas é duvidoso que o seja nas condições de hoje. Afinal, só 42% dos entrevistados dizem conhecê-lo, e são exatamente os outros 58% que precisam de motivos concretos para votar nele.

Aécio vem sendo beneficiado pela erosão de Dilma, provocada, entre outros fatores, pelo Lula-volta-Lula-não-volta. Tancredo foi beneficiado pela ambiguidade do presidente João Figueiredo, que alimentou a ideia da própria reeleição e não foi a lugar algum.

Tancredo encarnava o fim de um regime de 20 anos. Aécio quer encarnar o fim de um domínio democrático que pretende durar 16. Com uma diferença: tanto na ditadura, que durou 21 anos, como na República Velha, com seus 36, havia uma real rotação dentro do grupo governante. Com o PT no Planalto jamais houve essa rotatividade.

Rodando o programa Tancredo 2.0, Aécio respondeu a um ataque de Marina Silva (“o PSDB sabe que já tem cheiro de derrota”) com um calmante (“não vou cair na armadilha do PT, que é dividir a oposição”). Até agora, deu certo, pois tudo o que pode dar errado com os adversários, errado dá. Contudo, Lula continua no banco de reservas, com 58% dos entrevistados achando que ele deve ser o candidato do PT.

Mais um telenegócio esquisito
Está no forno, com o beneplácito do Planalto, uma curiosa transação. Articula-se na Europa a venda da TIM, a segunda maior operadora de telefonia do país, para a Oi. Uma pertence à Telecom Italia, que é controlada pela Telefonica espanhola. A outra é da Portugal Telecom. Uma empresa comprando outra e reduzindo o número de concorrentes já é coisa esquisita, mas há um segundo lance. Feita a compra, a TIM será fatiada. A Oi ficaria com um pedaço, outro iria para a Vivo, que pertence à Telefonica espanhola, que já é a maior operadora de Pindorama. O que sobrar iria para a Claro, mexicana.

São muitos os países em que a simples discussão desse enredo traz tenebrosas complicações legais. Nessa transação há mais duas curiosidades. O Brasil tem hoje quatro operadoras, e sobrarão três. Não há no mundo tamanha concentração de mercado. A segunda curiosidade será a expansão da Oi. Ela é filha da falecida Telemar, produzida pela privataria tucana e chamada de Telegang pelo então presidente do BNDES. Na privataria petista, anunciou-se que a sua associação com a Portugal Telecom criaria a SuperTele brasileira. Fantasia. Criou-se e expandiu-se a SuperTele portuguesa, para alegria de Lula, ao tempo em que ele anabolizava as “campeãs nacionais”. Boa parte do dinheiro saíra do BNDES e tomara o rumo devido.

Os donos dessa ideia já convenceram o comissariado de que convêm ao governo e ao mercado o sumiço de uma operadora e a contração da concorrência. Falta explicar aos consumidores.

Grande negócio
Outro dia, o bilionário Warren Buffett disse que está estudando um novo grande negócio, associado ao empresário brasileiro Jorge Paulo Lemmann. Ele é o terceiro homem mais rico do mundo. O outro é o mais rico do Brasil.

Faz tempo, depois de ter comprado as Lojas Americanas, Lemann disse a um sócio: “Agora vamos comprar a Brahma”. O outro achou que ele queria tomar uma cerveja. Meses depois, Lemann começou a negociar a compra da cervejaria.

Se Lemann disser que vai comprar um refrigerante, isso não significará que está com sede. Ele e Buffett poderão comprar a Pepsi, ou a Coca-Cola.

Buffett é o maior acionista individual da Coca-Cola e votou contra os bônus milionários dados à diretoria da empresa.

Recordar é viver
Durante a campanha eleitoral de 2006, o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, ligou para pelo menos um empresário paulista que tinha negócios com a companhia, pedindo-lhe que recebesse um ministro.
O encontro ocorreu, e o ministro pediu uma doação formal para a campanha do PT. Nada feito. Oito anos depois, vê-se no que deu o desembaraço do comissariado.

Caminhões
O governo diz que a venda de caminhões caiu 14% neste ano. Um grande fabricante assegura que esse número é otimista. A queda estaria próxima dos 20%.

Mau sinal
A doutora Dilma voltou a defender a necessidade de uma reforma política para consertar o país.

“Reforma política” é um bordão ao qual o governo recorre quando não tem o que dizer.

Met Gala
A festa anual do Metropolitan Museum foi uma beleza, mas Anna Wintour, a alma da noite, errou a mão ao sugerir que os homens fossem vestindo casaca e condecorações.

Metade dos convidados não atendeu ao pedido, no que fez muito bem. Pelo menos dois foram de casaca, sem meias, o que é engraçado, mas deixa uma ponta de ridículo. A maioria dos senhores de casaca mostrou-se desengonçada, uns pela roupa mal cortada, quase todos pelo colete branco desajustado; outros, pelo próprio chassi. Alguns calçavam sapatos de cadarço mal engraxados. (O rigor inglês pede sapatilhas de verniz.)

O desastre deu-se com as condecorações. Apanágio na Inglaterra de La Wintour, as patacas não fazem parte da cultura americana. Resultado: o mais enfeitado foi o fotógrafo Mario Testino. (O melhor conselho sobre condecorações é atribuído ao primeiro-ministro português Oliveira Salazar e também ao pensador francês Raymond Aron: “Nunca as peça, nunca as recuse e nunca as use”.)

A noite foi ganha pela atriz Lupita Nyong’o, que vestiu uma instalação de pedras e penas verdes da Prada, sugestão de fantasia para o Império Serrano no próximo carnaval.

Aviso amigo
As greves dos lixeiros e dos motoristas de ônibus do Rio mandaram um recado ao empresariado: sindicato de trabalhadores dirigido por amigos não garante paz. Pelo contrário, joga categorias nos braços de movimentos radicais e avulsos.

O Amor É Lindo!

Percival Puggina

Tenho certeza de que você conhece alguém assim. Pessoa idealista. Cheia de boas intenções. Levava a maior fé no PT oposicionista do século passado. Empolgava-se com a severa vigilância moral que o partido exercia sobre os governos e governantes aos quais se opunha. Enfim, o partido de seus amores não roubava e não deixava roubar. Percebia maracutaias a quilômetros de distância. 

Essa pessoa votou no Lula, em vão, durante três eleições. Persistiu até que, finalmente, em 2002 - Aleluia! Lula se elegeu. A partir daí PT poderia investigar tudo e nada permaneceria oculto nas gavetas e nos armários. Com a posse de Lula em 1º de janeiro de 2013 passavam às diligentes e virtuosas mãos do partido todos os meios necessários para acabar com a colorida tucanagem. Até um novo procurador-geral o PT nomeou em junho de 2013 e ele recebeu as chaves das silenciosas e supostamente cúmplices gavetas de seu antecessor. Mas o novo procurador - surpresa! - nada desengavetou, que se saiba. Nem ele, nem a PF, nem o CADE, nem a Receita Federal, nem a ABIN, nem o BC, nem a CGU. Silêncios sepulcrais! Na miríade de ministérios, repartições federais e empresas estatais, nada apareceu, nem que fosse para comprovar minimamente o muito que antes se denunciava. Nem um grampeador sumido. E olha que depois de tanto estardalhaço, de tanta reputação assassinada, havia um quase dever moral de apontar pelo menos duas ou três falcatruas. Afinal, todos os contratos, concorrências, convênios que vinham dos nebulosos tempos pretéritos, estavam ali, para serem vasculhados, escrutinados. Mas nada foi feito e nada foi dito. O assunto se dispersou como uma nuvem que passa sem chover. 

Um ano e meio depois, o PT virou alvo do maior escândalo político da história republicana! E nem para se defender o partido decidiu fuxicar no governo tucano. Já os escândalos petistas e de seus associados, esses não mais pararam, numa sequência infindável. Não satisfeito, o PT se uniu aos maiores patifes da política nacional. Trouxe ao braço e abraço todos aqueles a quem combatera. Santo Deus! Sarney virou homem forte no Congresso. Renan Calheiros, Jader Barbalho, Fernando Collor (até ele!) prosperaram como fungos à sombra do novo governo. Maluf virou aliado, merecedor de afagos, com fotos para a mídia benevolente em meio às ninfas e tritões de seus jardins. 

Por mau caráter ninguém deixou de ser recrutado para a corte petista. E o outrora sensível faro do partido não percebe mais a sujeira nem na sola do próprio sapato. O infeliz eleitor sobre cujas agruras iniciei falando, ainda defensor ferrenho do petismo, ainda movido pela afinidade ideológica, tem que ir catar nos tenebrosos armários e gavetas dos governos anteriores (aqueles que o PT dizia conter assombrações) motivos para exalar, em derradeiro suspiro, alegações de que "os outros eram ainda piores". Não é de causar compaixão? Deve doer como um nó de tripa na consciência. Logo ele, um cidadão do bem, um varão de Plutarco, precisa argumentar como aquele sujeito que defendia a namorada com alegações de que as outras eram ainda mais vadias. É um caso de mansidão submissa. Mas o amor é lindo. 

Empresas querem investir em educação. Falta um plano

Bianca Bibiano
Veja online

Aprovação do Plano Nacional de Educação, parado há quatro anos no Congresso, pode dar fôlego a projetos financiados pela iniciativa privada

(Thinkstock) 
Empresas investem cerca de 1,4 bilhões de reais em educação pública
 e aguardam votação do PNE para investir mais

As empresas investem ao menos 1,4 bilhão de reais ao ano em educação básica — isso inclui aportes em redes de ensino mantidas por governos e também projetos de entidades privadas que oferecem ensino gratuito. A estimativa é do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife), que realizou um mapeamento sobre o assunto. O dinheiro chega a escolas por meio de parcerias entre redes de ensino e empresas, como a instituída pela Associação Parceiros na Escola, que recebe doações de 70 empresários e beneficia 55 unidades públicas em São Paulo. A soma de quase 11 milhões de reais arrecadada pela ONG em 2013 é usada na melhoria da infraestrutura e na capacitação de professores e funcionários. Em contrapartida, os diretores das escolas se comprometem a melhorar os índices de ensino.

O montante destinado por empresários ao setor de educação poderia ser maior, diz Andre Degenszajn, secretário-geral do Gife. Bastaria para isso que o Brasil contasse, por exemplo, com um Plano Nacional de Educação (PNE) vigente — o conjunto de metas e diretrizes aguarda votação no Congresso há quase quatro anos. "O PNE deve estabelecer prioridades e assegurar os meios para que objetivos sejam cumpridos. Isso aumentaria o número de iniciativas encabeçadas pelas empresas", diz Degenszajn. "Hoje, as ações são muito pontuais e, por isso, seu alcance é restrito a um número limitado de escolas."

A falta de metas e diretrizes para a educação é a principal cobrança das empresas. "Sabemos que o desenvolvimento do Brasil passa obrigatoriamente pela educação. Contudo, não temos um plano de Estado que mostre aonde queremos chegar e como as empresas podem colaborar para esse avanço necessário", diz Cláudia Calais, diretora executiva da Fundação Bunge. O braço social da multinacional de agronegócios é um dos interessados na aprovação do PNE para ampliar projetos. Por meio da fundação, a empresa investe em média 4,5 milhões de reais por ano no treinamento de professores e construção de bibliotecas em escolas públicas: o objetivo é melhorar a formação de estudantes e, no futuro, recrutar profissionais entre os ex-alunos. Segundo Cláudia, a Bunge poderia investir mais se o projeto ganhasse escala — com frutos igualmente em escala. "Para isso, é preciso que o poder público coloque esses projetos na agenda, garantindo que os projetos cheguem a todas as escolas de maneira uniforme."

Ganhar escala é, de fato, um grande desafio. "Os projetos que não são feitos em parcerias com as redes de ensino se esgotam. Por isso, muitos empresários se unem para criar projetos de impacto", afirma Anna Penido, diretora do Inspirare, instituto familiar que ajuda escolas na Bahia e também atua para difundir inovações tecnológicas que podem melhorar a educação brasileira. Para o vice-presidente da Fundação Itaú Social, responsável, entre outros, pela realização da Olimpíada de Língua Portuguesa, as empresas e seus braços sociais poderiam ainda agregar capacidade de gestão ao sistema de ensino nacional. "As empresas poderiam fazer mais por possuírem maior capacidade de gestão. Porém, temos graves problemas de articulação na condução de uma agenda nacional de educação. O PNE seria a oportunidade para reverter parte do problema", diz Antonio Jacinto Matias.

O investimento privado em educação pública é feito de duas maneiras. A mais comum é via fundações e institutos familiares vinculados a empresas. Estruturadas como organizações sem fins lucrativos, essas instituições recebem doações, garantindo aos benfeitores deducação do valor doado no imposto de renda. As fundações e institutos podem ainda se registrar como organizações da sociedade civil para receber recursos públicos. A segundo forma de investimento é a doação de dinheiro, livros ou outros itens diretamente para as escolas. O valor investido também pode ser abatido do imposto de renda.

De acordo com o último censo do Gife, a maioria das empresas investidoras (65%) trabalha com projetos de capacitação de professores. Em segundo lugar aparecem os projetos de reforço ou complementação escolar (48%). Elas preferem investir mais em projetos não vinculados à educação regular, como atividades de apoio familiar. Isso pode ser explicado pela dificuldade de estabelecer parcerias com o poder público. Ainda de acordo com o censo do Gife, 85% dos investidores fazem avaliação constante dos projetos nos quais investem.

Na terça-feira, a comissão especial da Câmara dos Deputados para debater o PNE aprovou o plano e encaminhou o texto para votação final no plenário. A votação ainda não tem dada marcada. Se for aprovado pelo plenário, o PNE segue para sanção presidencial. Confira a seguir um resumo das principais metas do PNE.