domingo, maio 18, 2014

E o Lula, hein: vai gostar de pobre assim lá na Venezuela, pô!!!!

Adelson Elias Vasconcellos



 Ontem prometi um texto sobre a enganação do Lula em relação aos pobres. Então vamos a ele.

Tentando se esquivar de sua responsabilidade sobre o vexam que se tornaram as tais obras da copa, ou o tal legado, Lula acabou falando demais. Mas como o “homi” é considerado espertalhão, acabou tirando um pedaço da máscara com que se traveste diante dos eleitores “destepais”.

Sempre disse que, cedo ou tarde, o cara ia mostrar sua verdadeira face. Mundo afora, isto já é  um fato. Mas em terras tupiniquins, o mito criado em torno dele ainda resiste bravamente. E não que não se tenham motivos o bastante para confrontá-lo com seus atos. Mas Lula mantém em torno uma tropa de choque ao estilo máfia, que o defende em qualquer ocasião, muito embora, ele não resiste em entregar e trair os companheiros diante do perigo. Fez isso na ditadura, e o livro do Romeu Tuma Jr. Está aí revelando em detalhes quem foi o “barba”, chegando ao ponto de desafiá-lo para uma confrontação. E o cara vai aceitar? Quem tem o passado que ele tem, vai fugir feito diabo da cruz. 

Ás vezes até pode-se ficar preocupado com o estado mental do ex-presidente, dado o discurso entupido de ódio que profere. Ou, quando, sob aplausos de um badno de adestrados, diz  coisas como essa: 

"Nós nunca reclamamos de ir a pé (ao estádio). Vai a pé, vai descalço, vai de bicicleta, vai de jumento, vai de qualquer coisa. A gente está preocupado? Ah não, porque agora tem que ter metrô até dentro do estádio. Que babaquice que é essa?".

Particularmente, há quarenta ou cinquenta anos atrás, jamais vi problema em ir a pé para o estádio. Afinal, morava há 30 minutos do Estádio Olímpico e há uns dez, se tanto, do Beira Rio, em Porto Alegre. Porém, com o passar dos anos, tendo ido morar bem mais longe, o uso do transporte público se tornou obrigatório.  Além disso, era pobre, não tinha carro e a grana era pouca para bancar um táxi.  

Contudo,  o mundo mudou muito nestes cinquenta anos, as distâncias ficaram maiores. Mas os pobres continuam dependendo de transporte público, se possível um metrô. Por que não? Acaso pobre não tem direito a conforto, tem ficar dependendo de jumento para se locomover? Por que o pobre, no entendimento de Lula, tem de se conformar em andar a pé, ou descalço, ou “qualquer coisa”, menos o conforto de um metrô? Até porque, convenhamos, esta Copa não é para pobre, não com o preço dos ingressos no nível que estão. Esta Copa vai receber, além disto, turistas estrangeiros, e o Brasil vai oferecer o que para eles se locomoverem, jumento?  Foi para isto que Lula quis trazer a copa para o Brasil? 

O grande caso aqui, é que Lula não tem discurso para justificar não ter cumprido as promessas que fez em 2007 e agora, confrontado com o fracasso do tal legado, precisa tirar da cartola uma piadinha esdrúxula para tentar ser espirituoso e sair por cima.  Ou seja, Lula se vê como verdadeiro babaca e tentar imputar nos outros aquilo que sente na própria pele. Você é um babaca, Lula da Silva. Mentiu sobre a Copa, mentiu sobre o legado, mentiu sobre os investimentos, você, em suma, mentiu sempre.

Porque, no fundo, você sente vergonha de ter sido pobre, tem preconceito contra os pobres, ou então por que seu governo implantou, desde que assumiu,  um confisco   vergonhoso sobre os salários mais baixos? Por que seu bolsa família jamais ofereceu portas de saída para que os pobres pudessem ascender na escala social? Ou, ainda,  por que seu governo ridicularizou o ensino público de onde as crianças saem sabendo muito menos do que deveriam? Sabe porque Lula, tudo isto? Por que, apesar de seu preconceito contra os pobres e de sua vergonha de um dia ter sido um, ainda depende deles, quer vê-los escravizado ao teu discurso rançoso, para se manter hoje na elite e durante anos no poder.  Ou seja, para subir e deixar de ser um deles, ao invés do estudo, do esforço e do trabalho, você preferiu descer. Chegou à política traindo e entregando amigos, enganou seus leais companheiros que fundaram o partido e te mantiveram em alta. A maioria deles acabou decepcionada e abandonando teu barco.  

No poder, resolveu aliar-se à escória da política nacional, a mesma escória que esmagou durante décadas os brasileiros pobres. Para ser elite, você vendeu sua alma ao capital, deixou sua origem enterrada no passado para construir um novo homem, mas sem as virtudes da humildade e da simplicidade e mantendo o mesmo jeito bronco e rancoroso de ser. Não será o hábito que fará você se tornar elite. Não será o terno Armani que fará de você uma pessoa melhor. Não valorize tanto o rótulo, Lula da Silva.  

Nesta semana, você querendo atacar a oposição, afirmou de maneira cretina, que a oposição quer um pouquinho de desemprego. Acaso você esqueceu os milhares de profissionais que seu governo desempregou na Varig, muitos dos quais precisaram migrar para outros países para continuarem sobrevivendo? Ou os milhares que foram desempregados na Eletrobrás? Ou agora, quando a Petrobrás abriu um programa de demissão e mais de 8 mil se inscreveram?  Ou ainda, mais de 1 milhão de desempregados da indústria? Ou os milhares do ramo sucroalcooleiro? Quer falar de desemprego, senhor Lula, e não quer lembrar do desastre da política industrial do teu governo?

Seu ódio à pobreza é tamanho que você, no poder, não vê a hora de tornar o povo brasileiro inteiramente pobre e dependente da esmolinha do Bolsa Família. Você deveria envergonhar-se de si mesmo, do seu rancor, de seus preconceitos, de suas traições, de suas aberrações. 

A sentença condenatória deste seu ódio em relação aos pobres ficou bem clara para todo o país. Ninguém manipulou suas palavras, até porque o discurso foi gravado. Isto é, você disse o que o que você disse. 

Para você, pobre deve andar a pé, descalço, em lombo de jumento. Porque a Copa não foi feita para os pobres, foi feita para você se mostrar ao mundo. Para exibir-se como o que só se alimenta da própria  imagem. Contudo, Lula da Silva, você, no fundo, não passa de um arrogante fanfarrão que passará por cima de qualquer um, até dos amigos e companheiros para se alimentar de poder, conforme deixou claro na entrevista concedida à TV portuguesa, quando negou confiar nos mensaleiros petistas presos na Papuda. Entendo: eles já não podem mais servi-lo e bajulá-lo, não é assim? 

Pobre, portanto, pedir metrô para se locomover numa cidade como São Paulo é babaquice, não é? Babaca é você, Luiz Inácio, porque vai gostar de pobre assim lá Venezuela, pô!!!!   

Hora de escolher entre o futuro e o caos.

Adelson Elias Vasconcellos

Chega de diabos e demônios transformando o país numa terra sem lei 


O jornalista Ruy Fabiano teceu em seu artigo Cenários da crise (ver post mais abaixo), um resumo bem apanhado de dois cenários pós-eleições.: um, com vitória de Dilma, outro, com vitória de alguém da oposição.

Na verdade, a oposição (o governo também, apesar de não confessar), sabe o que deve ser feito para que o país retome o caminho do desenvolvimento. Lula canta as glórias do desenvolvimento com distribuição de renda, porém, quem estabeleceu o modelo foi FHC e ponto. Como afirmei em artigo anterior, Lula apenas aprofundou e, claro, criou o marketing da esmola. Em outras palavras, dá com uma das mãos, para logo em seguida cobrar com a outra (às vezes até com as duas, mesmo).

Mas prefiro me ater ao cenário que o Ruy traçou para uma provável e não totalmente descartada possibilidade de reeleição de Dilma. Afinal,  e apesar das pesquisas, a senhora Rousseff conta com a máquina, os recursos, as nomeações e a chave do cofre. Pode, portanto, reverter até outubro a atual rejeição junto ao eleitorado.

Neste início de pré campanha, a estratégia do PT foi a do terror. Ingrato, tenta rotular um governo que lhe entregou um país ordenado, como se ele fosse o diabo agindo contra a população.  Contudo, quem acabou por falir e afundar o país são seus aliados Collor e Sarney, contra quem a voz dos petistas não  levanta uma única crítica.

Mas o jornalista alinha em seu artigo aquilo que seria o tesouro escondido do PT em caso de reeleição de Dilma. O projeto petista de poder é uma das coisas mais estúpidas que este país já presenciou. O modelo, caso vingue, implantará uma ditadura feroz. E seria bom que as oposições se ligassem  às ideias do partido, porque o PT investirá toda a sua energia para levá-las adiante. E nunca, ao longo de nossa história, um partido foi tão preciso no desenho de um regime ditatorial como o projeto que o PT preparou. E atenção: muito embora ninguém lhe cobre explicações, até porque o país está envolto em outros debates, seria oportuno que o PT fosse levado às cordas pela  imprensa e pela oposição, para que explicasse o seu ódio extremado à democracia que destila de seu projeto. 

Vamos rever alguns pontos descritos no artigo do Ruy Fabiano. Reflitam sobre estes temas:

a.- Convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte para fazer a reforma política, de que constam, entre outras coisas, financiamento público de campanha e voto em lista.Hoje, o eleitor já nem lembra em que convocou na ultima eleição, com a proposta, sequer terá o direito de escolher seu representante. 

b- O partido sonha com a tal democracia direta, que, na Venezuela, levou Chávez a construir seu regime bolivariano, pontuado por plebiscitos em que apenas o governo tinha acesso aos meios de propaganda. Ali também liberou-se a reeleição sem limites. 

c.- A extinção do Senado –  pondo fim à federação, centralizando ainda mais o poder no governo central;

d.- a regulamentação da mídia, estabelecendo a censura aos veículos de comunicação, como já ficou demonstrado em numerosas análises, inclusive aqui, neste blog.

Ontem, publicamos e comentamos a entrevista concedida pelo presidente do partido, Ruy Falcão à Folha de São Paulo, em que ele, abertamente e sem rodeios, defende um controlo rigoroso do capital.

Mas há ainda outras cositas más no projeto do partido, e sobre as quais eventualmente são propagadas. Por exemplo: descriminalização das drogas e do aborto, desmilitarização das polícias militares. 

Outra questão central no projeto do partido, é impor tribunais populares  que terão o poder de praticar “justiça”antes mesmo das contendas serem enviadas à justiça comum. O Judiciário se transformará em mera peça decorativa. Terão o poder de julgar invasão de propriedade, sejam urbanas ou rurais. Seria o fim do direito de propriedade no país.

Convido, neste ponto, o leitor a refletir detidamente sobre o conjunto dos pontos acima:  representam ou não,  no seu todo, a instalação de uma ditadura de esquerda no país? 

Em 2002, Lula só conseguiu sensibilizar o eleitorado brasileiro quando, em carta aberta ao país, comprometeu-se em manter todos os fundamentos econômicos, fossem macro ou micro, implementados por FHC, renunciando, de vez, as baboseiras que durantes anos, tanto ele quanto seu partido, defenderam abertamente. 

Assim, não seria o caso agora das oposições exigirem de Dilma Rousseff uma carta aberta comprometendo-se perante o país, em não levar adiante nenhum dos pontos alinhados acima, renovando, assim, todos os direitos e garantias individuais garantidos na constituição democrática do Brasil?   

Em 2010, Dilma, dado entrevistas concedidas alguns meses antes, precisou assumir o compromisso perante à nação de que não modificaria a constituição sobre o aborto. Contudo, as ideias que o PT recentemente renovou, e algumas também defendidas de viva voz por Lula, como a Assembleia Constituinte para a reforma política, com financiamento público e voto em lista, e como vimos nesta edição, também  o tal controle da mídia,  se chocam frontalmente contra o aparato institucional do país. Será isso que a sociedade brasileira quer para si? Teria coragem a candidata governista de colocá-las, de forma aberta, tais temas em sua campanha eleitoral? Apontaria tais absurdos  na lista de metas de governo caso reeleita? Duvido!!!

E é por isto mesmo que a oposição não pode escorar-se nas cordas contra a propaganda de terror e ficar na defensiva. Se, de um lado,  é acusada, estúpida, caluniosa e injustamente, de representar  a volta dos fantasmas do passado na forma das forças do mal, o que se pode dizer, então, do PT e seu projeto autoritário de impor ao país um regime ditatorial de esquerda?  

E reparem num detalhe: tudo o que precisa ser feito no plano econômico , e do qual se alguém da oposição for eleito não poderá fugir caso pense no país, em nada será diferente do que a própria Dilma terá de fazer. Ou é isso ou é o caos: as circunstância cobrarão, de qualquer um dos eleitos, um brutal  choque fiscal. Ou, que outras artimanhas a senhora Rousseff tem em seu arsenal para trazer a inflação para níveis decentes? Como pretende recuperar a capacidade investimento da Petrobrás, face aos desafios do pré-sal, sem destravar os preços dos combustíveis  e do gás? Como manter e dar melhor qualidade ao transporte público sem destravar o preço das tarifas? Todas estas questões serão cobradas dos candidatos da oposição. Mas e ela, ao invés de apenas desqualificar seus adversários, que ideais e projetos trará na bagagem para resolver as questões dramáticas, tanto da economia quanto dos serviços, e sobre as quais a população já demonstrou sua total insatisfação? 

É fácil deitar falação no palanque sobre o que não pode ser feito, ou transferir responsabilidade à terceiros sobre o por que se deixou de fazer o que era preciso. É preciso ser claro, contudo, sobre o que, de fato, a presidente-candidata propõe para resolver problemas que, ATENÇÃO, foram criados em seu próprio governo. Certas magias, ela própria sabe disso, o mercado não aceitará sem impor ao Brasil rebaixamento em seu grau de risco. Em quatro anos, Dilma não conseguiu manter a inflação no centro da meta, elevar os investimentos, dar ânimo novo à indústria que se mantém estagnada,   recuperar a degradação dos serviços públicos,  dar rumo decente às contas públicas que se deterioram dia após dia, cumprir 1/10 das promessas lançadas em sua plataforma em 2010, cumprir as metas do superávit primário razão pela qual a dívida pública já ultrapassou os R$ 2,0 trilhões de reais, não conseguiu entregar sequer metade do pacote prometido para a Copa do Mundo, como ainda os investimentos em infraestrutura, tão indispensáveis para o país retomar um desenvolvimento decente, continuam travados face a marcos regulatórios caducos. E, como resultado disto tudo, o PIB do país coloca-se entre os últimos do ranking mundial. Nosso IDH permanece estacionado, nossa colocação no ranking do PISA está em antepenúltimo lugar a demonstrar o descaso com a educação das novas gerações. 

Diante disso tudo é de se perguntar: com um governo que conseguiu todas estas “proezas”, que elementos objetivos tem a senhora Rousseff para justificar que a população brasileira lhe confie mais quatro anos no poder? E com aquela plataforma de seu partido, ela espera o quê, ser aplaudida e reeleita com louvor? 

As oposições tem aí o passado da super gestora para avaliar e cobrar, mas têm, também, a plataforma do futuro projetado para questionar a presidente-candidata sobre suas reais intenções e o que, de fato, ela pretende levar adiante. 

Assim, nem há mérito conquistado   nestes quatro anos, nem há futuro promissor  quando nos deparamos com o real projeto de seu partido. Se alguém deve ser condenado por “fantasmas do mal” por quatro anos de absoluta mediocridade, e por representar o caos perante um futuro de devastação no aparato institucional que nos garante democracia, este alguém não está as atuais oposições.  

Chega de diabos e demônios transformando o país numa terra sem lei, impondo um regime de convulsão social, destruindo as forças econômicas e produtivas. A manter-se a atual elite governante, nos transformaremos de país do futuro em país sem futuro algum. No fundo, através da perenização da pobreza e da eterna ignorância, o que esta gente deseja  é eternizar no poder sob a escravização de todo um povo. Os brasileiros aceitarão passivos tal proposta?

Cenários da crise

Ruy Fabiano
Blog Noblat

A política convive desde sempre com um paradoxo: não é um campo propício a profecias – elas quase sempre falham -, mas os que nela se movem nutrem-se de prospecções. Não se dá um passo sem se pensar antes no que se desenha para o futuro.

Magalhães Pinto dizia que política é como nuvem: a cada momento adquire uma forma diferente.

Um acontecimento banal, uma declaração infeliz podem desencadear mudanças consideráveis. Ciro Gomes, por exemplo, ia muito bem na campanha eleitoral de 2006 quando declarou, num de seus momentos zen, que o papel de sua mulher na campanha era dormir com ele. Serrou assim o galho em que estava sentado.
Nas eleições de 1945, o brigadeiro Eduardo Gomes, candidato da UDN, saiu de cena ao declarar que não precisava do voto dos marmiteiros. Luiz Carlos Prestes, então senador do Partido Comunista, levou sua legenda à ilegalidade, na Constituinte de 1946, ao dizer que ficaria do lado da União Soviética na hipótese de uma guerra com o Brasil. Mordeu a isca da provocação.

Há inúmeros exemplos semelhantes, que obviamente, pelo inusitado, não constaram das projeções analíticas. Fiquemos, pois, com os dados disponíveis. Cenário 1: Dilma vence as eleições. Como será o day after? Pelo que está expresso em documentos recentes do PT, teremos a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte para fazer a reforma política, de que constam, entre outras coisas, financiamento público de campanha e voto em lista.

Sabe-se também que o partido sonha com a tal democracia direta, que, na Venezuela, levou Chávez a construir seu regime bolivariano, pontuado por plebiscitos, em que apenas o governo tinha acesso aos meios de propaganda. Ali também liberou-se a reeleição sem limites. O limite de Chávez foi a própria vida.

Também constam das pretensões do partido duas metas, uma há muito não mencionada – a extinção do Senado – e outra, sempre mencionada: a regulamentação da mídia. A primeira poria fim à federação, centralizando ainda mais o poder no governo central, e a segunda estabeleceria a censura aos veículos de comunicação, como já ficou demonstrado em numerosas análises, inclusive aqui, neste blog.

Cenário 2: vence alguém da oposição. Terá que promover ajustes profundos na economia, sobretudo na máquina estatal, hoje aparelhada pelo PT e aliados. Serão medidas em grande parte impopulares, mas inevitáveis. O futuro presidente terá que contar com uma oposição violenta e vingativa, que se empenhará em manter as ruas em sobressalto e sabotar, dentro e fora do Congresso, iniciativas do governo, como já fazia no passado.

Doze anos de poder conferiram mais substância à militância petista, que não admite a hipótese de derrota; diante dela, se dispõe à guerra total, como não cansa de repetir o chamado núcleo duro do partido. Quem o frequenta – e não é o meu caso, embora converse com quem o faz – garante que não passa pela cabeça dos comandantes do PT perder; mas, se ocorrer, não se pense em transmissão passiva ou pacífica do poder, inerente aos ritos democráticos. No parecido, não se fala em campanha, mas em guerra eleitoral.

Apertem os cintos, o piloto pirou.

São essas as projeções, nada agradáveis, que aqui resumo, na expectativa de que falhem.

Quem pariu a copa que a embale

Percival Puggina


De vez em quando me vem à lembrança a figura do Lula oferecendo o Brasil para sediar a Copa de 2014, com aquele ar de Moisés malandro levando o povo à terra prometida. Entre os anos de 2003 e 2007, o governo brasileiro suou o topete para alcançar o espetacular objetivo. Sempre fui contra. 

Antes da Copa da África do Sul, a propósito do "Let it be! (Pois que seja!)" com que o bispo Desmond Tutu respondeu aos jornalistas que lhe perguntaram se os estádios sul-africanos não se transformariam em elefantes brancos, eu escrevi: "A FIFA impõe aos países eleitos para acolher seu empreendimento exigências que só se cumprem despejando bilhões de dólares nos seus cofres, nas betoneiras das construtoras e nos altos fornos das siderúrgicas. Se fosse bom negócio, não faltariam empreendedores interessados em bancar a festa porque sobra no mundo dinheiro com tesão para o crescei e multiplicai-vos". 

Contudo, os delírios de grandeza e a notória imprudência do líder máximo do petismo nacional mobilizaram a opinião pública que aceitou a Copa como um dos símbolos do Brasil potência emergente. A maior parte do povo brasileiro, do mesmo modo como espera o último dia de qualquer prazo para fazer o que deve, esperou o último ano anterior ao evento para perceber o descompasso entre o oneroso Brasil da FIFA, para inglês ver, e o carente Brasil dos brasileiros. E aí, alguns pularam, irresponsavelmente, do oito para os oitocentos: "Não vai ter Copa!". Como não vai ter Copa? Vai ter, sim, e não serão alguns milhares de meliantes presunçosos que vão impedir a realização do evento. A estas alturas, com o pouco de vergonha que nos reste na cara, faremos a Copa. 

O que me traz novamente ao tema é o fato de que Lula quis fazer uma borboleta e produziu um morcego. Os espaços que nestes dias a mídia do resto do mundo dedica ao Brasil, em vez de exibir as maravilhas nacionais como sonhava o Lula, estão tomados por severas admoestações aos viajantes sobre os riscos de vir ao nosso país. Nosso cotidiano, descobrem, é assustador. A potência emergente foi tomada de assalto pelo crime organizado, tanto nos últimos andares do poder, no grande mundo, quanto no submundo. (Não por acaso, A Tomada do Brasil é o título do meu próximo livro). Basta-nos assistir os noticiosos do horário noturno para nos depararmos com cenas que ora lembram ocorrências de países em guerra, ora nos nivelam com as mais atrasadas republiquetas da África Subsaariana. 

Se Lula, se Dilma, se o petismo dominante pretenderam transformar a Copa numa excelente oportunidade para o marketing pessoal, político e - até mesmo - nacional, seus burros empacaram dentro d'água. Foi mal, para dizer como a gurizada destes tempos. A atualidade brasileira, a violência e a insegurança de nossas ruas fazem lembrar o que Eça de Queirós escreveu numa crônica de 1871 quando se falava, em Lisboa, sobre os turistas que viriam à terrinha com a construção de uma ferrovia ligando Portugal à Espanha. Escreveu então o mestre lusitano: "A companhia dos caminhos de ferro, com intenções amáveis e civilizadoras, nos coloca em embaraços terríveis: nós não estamos em condições de receber visitas". 

Não estamos, mesmo. Mas agora, quem pariu a Copa que a embale. Que apresente e justifique ao mundo, aos nossos visitantes, o Brasil real, a insegurança das nossas ruas, a violência do cotidiano nacional, nossa incapacidade de cumprir prazos, a limitação monoglota de nossos aeroportos, hotéis, restaurantes e taxis e as muitas tentativas de passar-lhes a perna a que estarão sujeitos. É o lamentável Brasil de 2014. 


A inflação como promessa eleitoral

Rolf Kuntz
O Estado de São Paulo


Inflação disparada virou bandeira política e promessa eleitoral. Em campanha pela reeleição, a presidente Dilma Rousseff e seus trapalhões esconjuram toda proposta de conter a alta de preços e conduzi-la a um nível mais civilizado e mais compatível com os padrões internacionais. Baixar a meta de inflação produzirá desemprego, arrocho salarial e recessão, disse o ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, segundo a Folha de S.Paulo. Alguns dias antes, sua chefe, a presidente da República, havia criticado a proposta de baixar o alvo para 3%, como se essa fosse uma receita certeira para levar o desemprego a uns 8% ou até mais. A propósito, a desocupação no Brasil está mesmo na faixa de 5%, como indica a pesquisa tradicional do IBGE, limitada a seis regiões metropolitanas, ou na de 7%, como apontou Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) contínua, realizada em 3.500 municípios?

Prometer inflação elevada para conquistar ou manter eleitores pode parecer muito estranho a quem desconhece o Brasil. Mas espanta muito menos quando aumenta a familiaridade com o País. Afinal, se o ministro do Esporte promete aos visitantes um ambiente pelo menos tão seguro quanto a guerra do Iraque, os padrões de normalidade geralmente aceitos deixam de valer. Essa convicção se reforça quando o chefe da Casa Civil confirma e defende o represamento de preços, para conter a inflação, e é desmentido um dia depois pelo ministro da Fazenda.

Admitindo-se boa fé, só uma escandalosa ignorância da economia internacional, e até da sul-americana, pode explicar a paixão da troupe de governo por uma inflação em torno de 6%. Sim, em torno de 6%, porque esse tem sido o padrão brasileiro a partir de 2008.

Nesses anos, os preços agrícolas subiram e desceram nas bolsas internacionais e o real oscilou no mercado cambial. Ninguém pode seriamente atribuir a inflação nesse longo intervalo - resistente e quase constante - a choques desta ou daquela categoria de preços ou a impactos do câmbio.

A alta de preços em 12 meses pouco variou nesse período. Diminuiu por intervalos muito breves e mais de uma vez bateu no limite da margem de tolerância, 6,5%.

Na medida gregoriana, o produto interno bruto (PIB) cresceu rapidamente só em 2008 (5,2%) e em 2010 (7,5%, depois de uma recessão). Nos outros anos o resultado foi miserável: contração de 0,3% em 2009 e expansão de 2,7% em 2011, apenas 1% em 2012 e 2,3% em 2013, mas este número ainda será revisto. Com o novo cálculo da produção industrial, o aumento do PIB poderá ficar um pouco maior, mas com certeza continuará abaixo de medíocre.

Apesar da pífia expansão econômica, a inflação anual pouco mudou e permaneceu muito acima dos níveis observados em outros emergentes. O Brasil é uma raridade no quadro internacional, com essa combinação de baixo crescimento econômico e rápido aumento de preços. A diferença entre a inflação brasileira e as taxas observadas em outras economias é um permanente fator de desajuste cambial. Qualquer pessoa medianamente informada é capaz de reconhecer esse fato - menos, é claro, o governo brasileiro e uma parte do empresariado industrial.

Empresariados vivem cobrando câmbio mais favorável, como se alguma taxa cambial servisse, por mais que alguns meses, para compensar a baixa produtividade - tanto empresarial quanto sistêmica -, os custos elevados dentro e fora da fábrica, a insuficiente inovação e outras desvantagens. Em contrapartida, raramente um líder empresarial pressiona as autoridades para conter e tornar mais eficiente o gasto público ou para combater com mais eficiência a alta de preços.

Com a política centrada no estímulo ao consumo e na distribuição seletiva de benefícios fiscais e financeiros, nada mais previsível que a estagnação da indústria e seu enfraquecimento diante da concorrência externa. A participação das importações no consumo de bens industriais alcançou um novo recorde no primeiro trimestre deste ano, 22,5%. No começo de 2007 estava em 17%. Subiu até 20% no fim do ano seguinte, caiu até 15,9% no começo de 2010 e voltou a subir. Não se trata, convém sempre lembrar, do efeito de uma abertura maior da economia brasileira, uma das mais protegidas do mundo, mas do resultado de uma ineficiência cada vez mais danosa.

A redução do emprego industrial é um desdobramento dessa história. Em março, o número de assalariados na indústria foi 0,2% maior que em fevereiro, mas 1,9% inferior ao de um ano antes. De janeiro a março o total foi 2% menor que no primeiro trimestre de 2013.

A combinação de inflação elevada, destruição dos empregos mais decentes, aumento de juros e redução de alguns estímulos seletivos já se reflete no consumo. Em março, o comércio varejista restrito vendeu 1,1% menos que um ano antes. As vendas do varejo ampliado (com inclusão de veículos, autopeças e material de construção) foram 5,7% inferiores às de março de 2013. A mágica do consumo perde força.

O PIB do primeiro trimestre ainda será divulgado, mas o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), divulgado na sexta-feira, reforça a avaliação de um quadro muito ruim. Esse indicador diminuiu 0,11% de fevereiro para março. No primeiro trimestre foi apenas 0,3% maior que nos três meses finais de 2013 e 1,02% superior ao de janeiro a março do ano passado. O aumento acumulado em 12 meses ficou em 2,11%. Todos os números apontam uma desaceleração a partir do fim do ano. Nesta altura, o governo deve torcer pela mera repetição do mau resultado de 2013. Mas a fórmula para fortalecer a economia nos próximos anos é bem conhecida no Palácio do Planalto: mais do mesmo, com o cuidado especial de manter a inflação elevada.

Cría Cuervos.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

... y te sacarán los ojos, diz o provérbio espanhol. O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, MTST, que lidera tumultos, é ligado ao PT. Seu líder, Guilherme Boulos, tem no ministro Gilberto Carvalho um amigo; Dilma se deixa fotografar abraçada a ele. E é ele que ameaça impedir a Copa se suas reivindicações não forem atendidas agora, sejam legais ou não. Na lei ou na marra.

Não faz sentido: quem não quer a Copa são grupos contrários ao Governo, que buscam desgastá-lo. O Governo quer a Copa (e está certo - é um compromisso do país, não de Lula e Dilma; os gastos já foram feitos e é hora de colher o retorno, mesmo que pequeno). Será a prova de que tem condições de atingir suas metas. Como entender que governistas radicais, que consideram fascista quem quer que não acredite que o PT comanda as melhores administrações que já houve no mundo, melhores até que a de Cuba, prejudiquem seus ídolos maiores?

Parece incrível, mas tem lógica. No Chile, o Movimiento de Izquierda Revolucionaria, MIR, chefiado por um sobrinho do presidente Allende, fez o que pôde para realizar e radicalizar as propostas do Governo. No Brasil, cabos e sargentos, liderados pelo Cabo Anselmo (que mais tarde mudaria de lado, mas naquela hora pensava como o Governo), buscavam aprofundar as reformas propostas pelo presidente Goulart. O cunhado de Goulart, Leonel Brizola, dava-lhe total apoio: "Reformas na lei ou na marra". Deu errado: estes movimentos enfraqueceram Allende e Goulart. Mas quem não aprende com a História irá sempre repeti-la.

É proibido... 
O Superior Tribunal de Justiça, a pedido da Advocacia Geral da União, proibiu greves na Polícia Federal. Proibiu também o recurso à "operação padrão" - um tipo de greve tipicamente brasileiro, em que o funcionário cumpre rigorosamente a lei e, portanto, tudo anda mais devagar que discurso do senador Suplicy. Temia-se que a Polícia Federal entrasse em greve bem na época da Copa. O desrespeito à decisão judicial custará R$ 200 mil diários de multa.

...e daí? 
Só há dois problemas: a) se a Polícia Federal entrar em greve, "contra a decisão de seus sindicatos e da Federação", de quem cobrar a multa? b) E, claro, mesmo que a multa seja cobrada, quem irá pagá-la? Que entidade sindical já pagou as multas devidas por desrespeito a ordens referentes a greves?

Ninguém imagina que, irritados com a proibição, alguns delegados lancem operações que deixem mal o Governo, como aquela que atingiu Rose Noronha ou esta, que expôs a Petrobras. Como diria o padre Quevedo, isto não ekziste.

Campanha do medo
Quem assiste a uma disputa eleitoral em que surgem Michel Temer, Édison Lobão, José Serra, Graça Foster, Pezão, Heloísa Helena, Nestor Cerveró e Garibaldi Alves não vai ficar com medo só por causa de um anúncio na TV.

A voz do silêncio
Um jornalista de primeiro time lembra que há muitos anos participou de reportagens sobre acusações contra o hoje conselheiro do Tribunal de Contas Robson Marinho. Marinho foi o braço-direito do governador paulista Mário Covas no início da dinastia tucana que perdura até hoje; bem na época em que se formou o cartel do Metrô e dos trens urbanos, com as respectivas propinas. Quer saber como, com tantas suspeitas, ele chegou ao Tribunal de Contas. 

Boa pergunta! E há outra: Marinho, depois que a Suíça o apontou como dono de uma conta bancária de US$ 1 milhão, vem sendo crucificado, como único responsável no caso. Por que só ele? Sabe-se que onde há corrupção muita gente põe a mão. Não seria o caso de verificar também seus colegas, a equipe do Governo Covas?

O passado absolvido
O ex-presidente Lula e a presidente Dilma comandam o PT nos palanques de Renan Calheiros Filho, candidato a governador de Alagoas, e Fernando Collor de Mello, a senador. Quando presidente, Collor usou uma camiseta com a frase "O tempo é senhor da razão". 

Hoje, usaria "O tempo é senhor da absolvição".

O caminho das pedras
Pesquisas, análises, balanços macroeconômicos, comparações entre índices de rejeição nas várias campanhas, tudo isso é útil. Mas há um jeito ainda melhor de prever o resultado de uma eleição: a atitude dos políticos diante de cada candidato. Político tem faro apurado, sabe de onde vem o vento. Seu instinto de sobrevivência é ainda mais apurado que o faro: não pula em piscina seca. Veja o caminho dos políticos e terá uma ótima previsão do que está para ocorrer. 

O pessoal do PMDB está entre os melhores na descoberta do caminho das pedras. Se o PMDB está dividido, se muitos peemedebistas pularam fora do barco do Governo, isso significa que Dilma não está tão forte assim. Mas atenção: isso não quer dizer que a eleição esteja perdida para ela. A maioria do PMDB e do PR continua apoiando sua candidatura. E Kassab, que conhece o jogo, também continua com Dilma, embora liberando os diretórios estaduais do seu PSD para trocar de candidato. Se Dilma estivesse perdida, até Sarney e Renan estariam defendendo a alternância democrática no poder, declarando que é para permitir novos avanços.

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Uma noite na ópera

Sandro Vaia
Blog Noblat

Groucho Marx , num acesso hiperbólico de auto-ironia, dizia que não frequentava clubes que o aceitavam como sócio.

Groucho Marx era um comediante e a sua profissão não apenas lhe permitia como o obrigava a ser engraçado.

Quando o “Financial Times”, o jornal cor salmão que representa o espírito da outrora poderosa “City” londrina, coração do capitalismo financeiro que metade do mundo ama odiar, disse que o governo de Dilma Rousseff se parece mais aos irmãos Marx embora pretenda ter a eficiência de uma Angela Merkel, estava exercitando o cruel sarcasmo inglês.

Ao contrário de Groucho, os integrantes do governo Dilma não só frequentam os clubes que os aceitam como sócios, como têm a inequívoca tentação de controlar todas as diretorias do clube, apossar-se da sede social, estabelecer uma hegemonia irremovível sobre todas as suas atividades, e ameaçar quem se opuser ao som monocórdico da orquestra que comanda o baile com a danação do fogo eterno.

Apesar da aparente crueldade do jornal inglês, qualquer semelhança dos últimos acontecimentos no país com as gags da troupe de irmãos no clássico “Uma Noite na Ópera”, não é mera coincidência.

Groucho, Harpo, Chico e Zeppo (que não trabalhou em “Uma Noite na Ópera”) tinham um tipo de humor surrealista -- porém voluntário -- que pode ser comparado, por exemplo, ao surrealismo involuntário do ministro dos Esportes Aldo Rebelo aplacando os receios ingleses sobre a organização da Copa afirmando que “o Iraque é muito mais perigoso”.

Os 4 irmãos, com exceção de Harpo, que não se dava ao trabalho de falar, conseguiriam montar uma cena melhor do que os ministros Mercadante e Mantega, falando, no mesmo dia, um à imprensa e outro à Câmara, que o governo controla sim alguns preços para segurar a inflação e que o governo não controla nenhum preço, e cada um comprovando a sua tese com fatos escolhidos ao seu bel prazer?

Nem em “Uma Noite em Pasadena” os irmãos Marx seriam capazes de repetir Lula, Dilma, Gabrieli e Graça Foster dizendo que a controvertida compra da refinaria por um preço muito acima do mercado, foi ao mesmo tempo um bom negócio, um mau negócio, um negócio mais ou menos, um negócio que podia ter sido bom, um negócio que se tornou mau -- enfim, um teste de múltipla escolha cujas respostas serão preenchidas por uma CPI de senadores chapa branca, que será capaz de concluir que qualquer negócio pode ser bom desde que acabe bem nas urnas.

Quando Lula escreveu um artigo para “El País” dizendo que tem gente torcendo para a Copa dar errado “com objetivos eleitorais”, fingiu esquecer que quando se atirou com tanta volúpia e alegria aos braços da Fifa no dia do “sorteio” da escolha da sede da Copa de 2014 -- o ano eleitoral já estava gravado nas estrelas. E que se a Copa der errado não será culpa nem do país nem da oposição, mas de quem transformou as obras de infra-estrutura e os estádios numa noite na ópera.

Hello! Palco não é palanque!

Lobão
Revista VEJA

Na semana passada foi a vez do Roger. A patrulha ideológica, com sua percepção assimétrica e distorcida da realidade, promoveu mais um episódio lamentável de atentado a reputações. Para quem não ouviu falar do caso, o Roger Moreira, do Ultraje a Rigor, foi perseguido na internet por militantes do PT (os MAVs, militantes em ambiente virtual) por estar “ganhando dinheiro” de um governo que ele critica. Ele participou de um show em São Paulo organizado pelo Ministério da Cultura e pelo Banco do Brasil.

Isso também ocorreu comigo no ano passado, por ocasião da Virada Cultural de São Paulo. Tive de fazer um esforço inaudito, auxiliado por uma campanha nas redes sociais, para furar o bloqueio ao meu nome — e conseguir intimidar com o clamor popular os curadores da Secretaria de Cultura municipal, que só assim me incluíram no evento. Logo em seguida, começaram a pipocar na rede as mesmas críticas vindas desse mesmo grupo, que dizia ser uma contradição um oposicionista ferrenho como eu aceitar tocar em um show promovido pela prefeitura do PT.

Pois então vamos acabar com essa palhaçada de uma vez por todas: os órgãos públicos que porventura sejam patrocinadores de eventos culturais não podem coibir, filtrar nem excluir vertente alguma de expressão artística, credo ou pensamento político discordantes ou mesmo contrários aos da administração vigente, pois dessa forma estarão lidando com a coisa pública como se fosse privativa de um partido, o que é inconstitucional. Simples assim.

Os palcos dos festivais financiados com o dinheiro do contribuinte estão abertos a todos, são espaços públicos — eventualmente sob a administração desse ou daquele partido político.

O fato de o PT não entender isso não deve ser tolerado pela população que paga seus impostos. Ela tem o direito de exigir acesso a qualquer tipo de manifestação cultural e artística, inclusive as de que o PT não gosta. E o governo não pode substituir a pluralidade cultural pelo seu monopólio ideológico.

Antes de o partido chegar ao poder, alguém se lembra de ver patrulha linchar artista porque ele tocava na gestão Maluf? Ou Jânio? Ou Serra?

Mas o ideário petista, assim como a mentira, tem pernas curtas e, por mais truculenta que seja a atitude desses militantes que forçam a barra numa tentativa de fazer terrorismo ideológico, essa presepada não prevalecerá. Assim como não prevalecerão a cantilena ideológica de terceira categoria, o ódio plantado entre as classes e esse déficit intelectual de proporções politibúricas que exala das universidades e dos órgãos dominados por essa gente dodói. Primeiro porque a população não vai deixar e depois porque esses carinhas não possuem a força que pensam ter.

Imaginem que surreal seria termos os holofotes e as atenções voltados exclusivamente para artistas filiados ao PT, que sobem no palanque do partido e recebem uma grana preta para fazer campanha publicitária dos órgãos públicos em TVs, rádios, outdoors, jornais e revistas. Como seria se a gente só pudesse assistir a filmes, peças teatrais e minisséries com temas “customizados”, destinados a favorecer a imagem do governo? E que tal se fôssemos obrigados a engolir só o que passa pelo filtro ideológico do PT? Teríamos uma cultura monomaníaca, cinza e medíocre, feita por puxa-sacos de alma coloidal que transformariam em caricatura a cultura nacional, travestindo a história com mentiras canastronas e mamando descaradamente no Erário. Escrevo no condicional porque esse jogo não está ganho. Vamos virá-lo, como já estamos fazendo.

Então, para concluir: palco não é palanque, público não é privado, ideia não é ideologia e nem traseiro de pinto é escovinha, como dizia o meu pai.     

Mercancia Eleitoral

Tribuna da Imprensa
Paulo Brossard, Zero Hora

Semana finda, foi divulgado com precisão e clareza que a senhora presidente Dilma Rousseff nomeou Luiz Rondon para vice-presidente da Caixa Econômica Federal para obter o apoio do PTB à sua reeleição.

Do personagem nomeado pouco se dizia, referindo-se apenas alguma relação com o mensalão. Até aqui, a notícia nua e crua. Em tais termos e circunstâncias, a meu juízo, o ato de mercancia eleitoral seria expresso e confesso.

Dada minha passagem pela Justiça Eleitoral e em várias posições, ocorre-me lembrar que, diante de semelhantes situações, embora infinitamente menores e apenas por indícios, não faltou a palmatória da lei e da justiça; a título ilustrativo, e sem sair do Rio Grande, lembro que na oportunidade em que alguém ligado a negócios, sem uma palavra acerca de votação ou de eleição, na suposição de que seria candidato, o Tribunal Regional Eleitoral fulminou a elegibilidade do presumido candidato por estar a fazer propaganda eleitoral intempestiva. Valeu como exemplo. Ao que sei, não foi repetido.

Agora não se trata disso, mas da senhora presidente da República, candidata à reeleição, que anunciou haver nomeado o futuro vice-presidente da Caixa Econômica Federal, para o fito de, com apoio respectivo do Partido, aditar alguns minutos ao tempo a que teria de acesso ao rádio e à televisão.

O negócio ou a transação é confessada explicitamente; salvo erro meu, inequívoca sua ilicitude. Ela tem, o que se poderia dizer, o esplendor de evidência.

A única pergunta a fazer seria no sentido de indagar se a lei permite à presidente da República eximir-se das normas legais para haver vantagem pessoal, palpável e inegável em relação a seus concidadãos.

Ora, até onde sei, não há precedente que autorizasse a mágica agora iniciada pela preclara governante, a menos que, à sorrelfa, os nossos costumes houvessem se decomposto arrostando normas centenárias que modelaram a nacionalidade.

As empresas não votam, mas elegem

Gil Castello Branco
O Globo

Segundo o Instituto Kellogg, para cada real aplicado nas campanhas, as doadoras obtêm R$ 8,50 em contratos públicos

A democracia não tem preço, mas as eleições brasileiras estão cada vez mais caras. O ciclo eleitoral completo para presidente, governadores, senadores, deputados, prefeitos e vereadores movimentou, nos últimos quatro anos, cerca de R$ 9,5 bilhões. A soma inclui as doações, o Fundo Partidário e a isenção fiscal às emissoras para a transmissão do horário eleitoral gratuito. As verbas oficiais não incluem a dinheirama que circula em malas, meias e cuecas. A título de comparação, somente o caixa 1 supera os R$ 8,1 bilhões previstos para as 45 obras de mobilidade urbana da Copa 2014.

Nos bilhões das últimas eleições municipais existem várias curiosidades. Entre elas, quais seriam os motivos que levaram um empresário a doar, como pessoa física, quase R$ 3 milhões a partidos políticos adversários, sendo R$ 1,9 milhão para o Diretório Nacional do PT e R$ 1 milhão para o Diretório Estadual do PSDB? Como explicar que 4.443 candidatos tenham feito autodoações superiores a 50% dos bens que declararam à Receita Federal?

Quanto às doações de pessoas jurídicas, a maioria dos ministros do STF já decidiu proibi-las, mas o julgamento ainda não foi concluído. Assim, em 2014, os empresários continuarão a dar as cartas. Até mesmo nos anos sem eleições, as empresas bancam generosamente alguns partidos, notadamente os governistas e aqueles com perspectivas de poder, chegando ao ponto de quase 100% das doações serem empresariais. Em 2013, por exemplo, o PT recebeu o total de R$ 79,8 milhões e o PSDB, R$ 20,4 milhões. Curiosamente, o PSB, do candidato Eduardo Campos, amealhou R$ 8,3 milhões, quantia surpreendente para uma agremiação com arrecadação zero em 2009 e 2011. Em resumo, de 2011 a 2013, o PT arrecadou quatro vezes mais do que o PSDB e quase 12 vezes mais do que o PSB. É uma união promíscua entre o capital e o trabalho.

As doações atendem ao princípio franciscano do “é dando que se recebe”. Conforme estudo do Instituto Kellogg, para cada real aplicado nas campanhas eleitorais, as empresas obtêm R$ 8,50 em contratos públicos. Além do excepcional retorno financeiro, os empresários colocam azeitonas nas próprias empadas, haja vista que dos 594 parlamentares, 273 são empresários (46%) e 160 compõem a bancada ruralista (27%), conforme dados do Departamento Intersindical de Assistência Parlamentar (Diap).

A cada eleição os custos sobem exponencialmente. Para eleger-se em 2010, cada deputado federal gastou, em média, R$ 1,1 milhão; os senadores, R$ 4,5 milhões; os governadores, R$ 23,1 milhões. Assim, mal tomam posse e os políticos já estão preocupados com verbas para a renovação do mandato. Parodiando Fernando Pessoa às avessas, tudo vale a pena se a doação não for pequena. Como consequência, de cada dez inquéritos sobre corrupção na Polícia Federal, seis envolvem questões eleitorais.

Diante desses fatos, o veto às doações das pessoas jurídicas resolverá apenas parte do problema. Sem o caixa empresarial, será imprescindível a fixação de limites que reduzam os custos das campanhas eleitorais, tal como previsto em lei desde 1965. A definição de um teto nacional e de tetos regionais — compatíveis com os PIBs estaduais e municipais — irá atenuar os efeitos do poder econômico. Tetos iguais para cargos e regiões, associados à transparência plena quanto às receitas e despesas, irão desidratar o caixa 2, pois os próprios candidatos estarão de olho nos adversários.

A retração dos recursos empresariais também poderá ser compensada com o melhor uso do Fundo Partidário e das isenções fiscais. Exemplo de desperdício são as propagandas políticas, repetidas seguidas vezes em horário nobre. Que dirá o pagamento de advogados com o Fundo para defesa de condenados dos partidos.

Enfim, a próxima eleição ainda não será a que desejamos. De positivo, a resolução do TSE que elimina as “doações ocultas” ao exigir nas prestações de contas os CPFs e os CNPJs dos doadores originais. No próximo governo, porém, quaisquer que sejam os eleitos, temas como os sistemas eleitorais, formas de financiamento, voto facultativo, reeleição, candidaturas avulsas, entre outros, precisam ser enfrentados, ainda que não exista consenso.

No momento em que 76,3% dos brasileiros não confiam no Congresso (segundo o Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo), só uma ampla reforma político-eleitoral renovará a relação dos cidadãos com seus representantes. Essa reconciliação, se houver, irá ampliar o financiamento privado individual e a participação dos brasileiros na vida política nacional. Dinheiro à parte, os eleitores somos nós.

O risco da propaganda destrutiva

Murillo de Aragão
Blog Noblat


A propaganda do PT na televisão insinuando, por meio de um vídeo, que o voto nos adversários da presidente Dilma Rousseff nas próximas eleições significará retrocesso e poderá trazer de volta “fantasmas do passado” causou forte impacto. O assunto, abordado por toda a mídia e pelas redes sociais, foi um dos mais discutidos nos últimos dias.

A Folha de S.Paulo observou que a mensagem é uma alusão às propostas feitas por candidatos da oposição, como Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB). Aécio tem dito que será preciso tomar “medidas impopulares” na economia, e Campos promete uma taxa de inflação anual de 3% em 2019.

Os críticos lembraram que o comercial é cópia da fórmula usada pelo PSDB em 2002 quando a atriz Regina Duarte apareceu na TV dizendo que temia a perda dos ganhos do Plano Real se Lula, candidato do PT, se elegesse.

Outro argumento utilizado foi associar a novelinha política ao suposto sentimento de desespero do partido com a constante perda de popularidade da presidente.

Ao comentar a propaganda, Campos condenou a tentativa de incutir medo no eleitor: “Apelam com o terror contra a mudança de governo. O jogo será muito duro, mas estou preparado para enfrentá-lo”. Aécio partiu para o contra-ataque: “Esse comercial é o retrato daquilo em que se transformou o PT e o espelho do fracasso”.

O estardalhaço que a mídia está fazendo procede em parte, já que na política é lícito alardear as próprias qualidades e tentar desqualificar o adversário, desde que não ocorram ataques pessoais, parâmetros respeitados pelo vídeo. Além de não apelar para ataques abusivos, a peça de propaganda é tecnicamente impecável.

Nos Estados Unidos, o nível de beligerância das propagandas eleitorais é muito maior. Não são meras insinuações, e sim ataques diretos a candidatos e partidos. Tal cultura é fruto da histórica polarização eleitoral, principalmente ideológica, entre democratas e republicanos.

Os anúncios negativos, como são chamados, têm como objetivo, primeiro, convencer – e amedrontar – eleitores que em situações normais não compareceriam às urnas, já que o voto não é obrigatório no país. Mas também aliciar eleitores em dúvida, os cobiçados “swing voters”.

O comercial em questão utiliza uma fórmula antiga, cujo resultado é duvidoso. Embora a maioria do eleitorado não gaste muito tempo com leituras nem com reflexões profundas sobre política, tem consciência de que retrocessos em políticas públicas são difíceis de acontecer impunemente.

Da mesma forma que entenderam que o Plano Real não seria destruído por Lula, boa parte dos favorecidos pelos ganhos sociais da era Lula sabe que tais benefícios não serão revogados nem por Aécio nem por Campos.

A mensagem foi um movimento de risco, e suas repercussões tendem a ser positivas entre o eleitorado menos esclarecido. O que preocupa não é o uso da fórmula do medo, mas sim a clara mensagem de que esta eleição poderá ser um campo de disputa de classe, em lugar da busca de um entendimento em favor do fortalecimento de todos os ganhos – econômicos, fiscais e sociais – dos últimos 20 anos.

Não é surpresa o fato de, mais uma vez, a campanha presidencial no Brasil focar o passado e pessoas, ao invés de propostas e ideias.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Ironia: em 2002, Lula venceu com "esperança vencendo o medo!". Agora, para não perder, Dilma apela para o "medo vencendo a esperança".

A luz no dia difícil

Míriam Leitão e Alvaro Gribel  
O Globo


O país parece tão confuso. Manifestações,greves, bloqueios de ruas, os estrangeiros chegando e nada pronto ainda. De repente, uma luz no noticiário: a Justiça Federal aceitou denúncia contra os envolvidos no atentado do Riocentro. Isso foi há muito tempo. Foi há 33 anos. Por que trazer de volta esse caso? Ele é um dos mais emblemáticos episódios da ditadura militar.

O que tem isso a ver com o desconforto de ficar horas para atravessar um engarrafamento que pode surgir a qualquer momento por causa de uma manifestação? Ou ter que sair andando por falta de transporte? Ter medo de ser apanhado por um rojão de bombas de gás? Toda essa agitação vai passar. Pode-se superar cada greve, cada movimento e protesto — até os mais oportunistas — preservando as leis do país. Existem temores, sim. De que mais algum inocente seja atingido, de que a Polícia se exceda, de que os bandidos se aproveitem. Mas tudo será, mais dia menos dia, resolvido.

Há a preocupação com os retrocessos na economia que as decisões de controle de preço representam. Há represamento de tarifas de energia e combustível, que é escondido através de gasto público ou perda de receita das empresas. Cada solução que inventam tem produzido outro desajuste. No futuro, haverá correções sérias a serem feitas. Seria insensatez manter os atuais desequilíbrios minando a economia brasileira.

A grande certeza da democracia é que, mesmo defeituosa, ela acabará encontrando a sua maneira de amortecer as tensões, resolver os conflitos e eleger vencedores.

E uma ditadura, o que pode fazer? Programar um atentado num show de música para estudantes, num grande centro de convenções, que poderia matar inúmeros jovens. O atentado do Riocentro é emblemático.
Foi planejado já no fim do regime. Era apenas a contagem regressiva até o fim daquele governo infeliz de um general que gostava de cavalo, mas não de povo, e que pediu que o esquecessem.

Ele foi lembrado agora, quando este jornal trouxe à luz uma informação histórica: a de que a cúpula do governo fora informada de tudo. O próprio presidente Figueiredo soubera do atentado. Não era correto definir os autores de atentados assim de “bolsões sinceros porém radicais”, como eles diziam. Havia bolsões sinceramente radicais na defesa do regime e acobertados pelos altos escalões.

Foi impressionante, aquele caso, pela longa impunidade, exibida nos jogos da praia, de Wilson Luiz Chaves Machado. Ele estava ao lado do sargento em cujo colo a bomba explodiu. E teve uma vida tranquila, certo da impunidade. Ele sempre foi blindado pelo Exército contra qualquer pergunta constrangedora. E sempre manteve o seu silêncio providencial. Os outros da lista dos que ontem se tornaram réus, como o general Newton Cruz, mostram que havia a cadeia de comando consciente de tudo o que faziam os bolsões.

A Lei da Anistia era usada como se fosse uma segunda blindagem nesse país tão pouco afeito a enfrentar seu passado. No caso, é tão estranho o uso desse argumento porque a Lei da Anistia é de 1979 e perdoava os crimes até então cometidos. O atentado do Riocentro não havia acontecido ainda, é de 1981. Uma lei pode perdoar um crime ainda não cometido no período de sua entrada em vigor? A Justiça Federal do Rio, em decisão histórica, aceitou denúncia do Ministério Público, tornou réus e abriu processos contra o coronel Wilson Machado e outros cinco acusados. A juíza Ana Paula Vieira de Carvalho considerou que aquele foi um crime contra a humanidade.

A decisão tão esperada chegou num dia de manifestações no Brasil, em que várias insatisfações vieram à tona. A coincidência ajuda a mostrar que, qualquer que seja o dia difícil numa democracia, ele será sempre melhor do que o Estado totalitário, em seu mais alto escalão, armar seus agentes e mandá-los sorrateiramente com bombas para explodir no meio de jovens que apenas assistiam um show musical. A bomba explodiu antes, mas o país teve que esperar 33 anos pela Justiça. E ontem foi apenas o primeiro passo.

Dilma subestima a voz da rua

Jorge Oliveira
Diário do Poder

Portugal, Cascais – O governo não quis ver as manifestações contra a Copa do Mundo no Brasil e em vários países do mundo. Preferiu subestimar a capacidade do povo de se organizar para cobrar mais saúde e educação em vez do pão e circo que vem oferecendo aos brasileiros nos últimos doze anos. Mas, na verdade, o governo pensa diferente do povo, por isso não consegue enxergar as manifestações que pipocam por todos os  cantos do país por cobrança de promessas feitas pelo PT e  nunca concretizadas. As obras de infraestrutura estão paralisadas, as creches prometidas não saíram do papel, a violência pública se alastra com o crack, a droga que ela prometeu combater nos seus primeiros programas de campanha. E o país está parado com Mantega, o mágico da economia, fazendo malabarismo para impressionar o mundo de que a economia vai bem, obrigado.

As manifestações, os saques, a violência que se espalham por todos os cantos do Brasil não sensibilizam a presidente Dilma, que parece habitar outro planeta. Como Brasília é uma cidade mística quem sabe se esse pessoal que ocupa o Palácio do Planalto não é extraterrestre de outra galáxia? A saúde está um caos, a corrupção e os saques nas estatais são tão vorazes que empresas como a Petrobrás e a Eletrobrás, antes símbolos de orgulho dos brasileiros, estão praticamente falidas com a queda de mais de 50%  de suas ações no mercado.

Se os petistas pensavam em se perpetuar no poder, trazendo para o Brasil a Copa do Mundo e as Olímpiadas em 2016,  quebraram a cara. Descobre-se agora que essas organizações esportivas são mais corruptas do que pareciam quando agiam à distância para selecionar os países sedes dos jogos. A FIFA, que organiza as copas, vive enrascada com acusações de corrupção. João Havelange, ex-presidente de honra da entidade, e seu ex-genro Ricardo Teixeira deixaram o futebol pela porta dos fundos depois das denúncias de que receberam propinas milionárias quando estavam à frente das entidades – FIFA e CBF. O Comitê Olímpico vire e mexe aparece na mídia por desvio de conduta. Não faz muito tempo seus dirigentes no Brasil tiveram que prestar esclarecimentos no Congresso Nacional sobre desvio de dinheiro.

Essa mistura da corrupção esportiva com a governamental chegou em boa hora no Brasil para concluir o projeto do propinoduto petista. A pretexto de construir a infraestrutura para a Copa e Olímpiadas, o governo decidiu que as obras não seriam licitadas pelo caráter emergencial,  incentivando assim os contratos superfaturados da construção dos estádios e das obras urbanas. Sem licitação e sem auditoria para fiscalizar o dinheiro público, as próprias empreiteiras estipularam os valores dos negócios.

Enquanto tudo isso ocorre aos olhos dos mais desavisados brasileiros, a presidente Dilma continua mostrando-se uma estadista, principalmente quando faz discurso de improviso para entusiasmar a plateia, esta mesma que está nas ruas se rebelando contra o desgoverno. Veja aqui mais um pronunciamento da presidente,  uma pérola digna de passar para a história como um discurso de impacto para futuras gerações:  “O legado da Copa é nosso porque ninguém que vem aqui assistir a Copa leva consigo, na sua mala, aeroporto, porto, não leva obras de mobilidade urbana, nem tampouco estádios. O que eles podem levar na mala? É a garantia e a certeza de que este é um país alegre e hospitaleiro. Pode levar isso na mala. Agora, os aeroportos ficam para nós, as obras de mobilidade ficam para nós, os estádios ficam para nós”.

Da série Coisas do Brasil.

A CPI da trapaça

O Estado de S.Paulo

Passou pelo duto que liga o Palácio do Planalto ao gabinete do presidente do Senado, Renan Calheiros, a viscosa manobra destinada a transformar em letra morta a decisão da ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal (STF), que deveria impedir, como solicitara a oposição, que a CPI da Petrobrás a ser instalada na Casa fosse contaminada com a inclusão de questões completamente alheias ao objeto específico da investigação. Pela enésima vez acaba de ficar demonstrado que jamais alguém perderá dinheiro apostando na criatividade dos políticos para a trapaça.

Quando ficou claro para a patota de Calheiros e a tropa de choque do PT no Senado, em linha direta com a presidente Dilma Rousseff, que não conseguiriam obstar "no tapetão" a abertura do inquérito sobre as suspeitas em relação a práticas da Petrobrás, trataram de desfigurá-lo. A iniciativa do PSDB e do DEM, como se recorda, nasceu da confissão da presidente de que, na qualidade de titular do Conselho de Administração da empresa, aprovara em 2006 a compra de metade de uma refinaria em Pasadena com base apenas em um parecer "técnica e juridicamente falho", o que só mais tarde ela viria a descobrir.

Além do escândalo de Pasadena, onde a petroleira acabaria enterrando US$ 1,246 bilhão, com um prejuízo contabilizado de US$ 530 milhões, a oposição se voltou para outro caso escabroso - a multiplicação por dez dos custos da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco (dos US$ 2,3 bilhões inicialmente previstos para os mais de US$ 20 bilhões que deverá custar). Completavam o pacote a história dos US$ 139 milhões em subornos pagos a funcionários da estatal por uma fornecedora holandesa e a denúncia de operações inseguras em plataformas operando em mar aberto.

O troco dos governistas, que a ministra Weber parecia ter neutralizado, foi incluir na agenda da CPI os indícios de formação de cartel em contratos do Metrô de São Paulo, em governos tucanos, e possíveis irregularidades na construção do Porto de Suape, em Pernambuco. O intento era duplo: sufocar as apurações sobre a Petrobrás desde a ascensão do PT ao poder - alcançando, pois, a presidente Dilma - e levar ao pelourinho os seus adversários nas eleições de outubro, Aécio Neves, do PSDB, e Eduardo Campos, do PSB.

Conseguiram o que queriam, trocando tortuosamente seis por meia dúzia. Em vez de tratar do Metrô paulistano, exumaram o episódio do afundamento da Plataforma P-36 em março de 2001, no governo Fernando Henrique, e confeccionaram um obscuro nexo entre obras da Petrobrás e o Porto de Suape. A CPI foi instalada na quarta-feira. Apenas 1 oposicionista, dos 3 que poderiam integrar o colegiado de 13 membros, aceitou fazê-lo. Sob a presidência do peemedebista Vital do Rego e com o petista José Pimentel no cargo de relator, é certo que o inquérito chapa branca nada fará em prejuízo dos interesses de Dilma.

Numa jogada de aceleração dialética, por assim dizer, o governo mandou apressar o início dos trabalhos no Senado para abafar a outra CPI sobre a Petrobrás que a oposição afinal conseguiu emplacar, incluindo também a Câmara. Se vingarem as tramoias dos governistas, a sua instalação corre o risco de ser adiada para o fim do mês - a duas semanas, portanto, do início da Copa. Mas, se e quando vier a funcionar efetivamente, não apenas remeterá a anterior a segundo plano, como terá tudo para tirar o sono da presidente. De um lado, por sua composição. De outro, pela fartura de material a merecer investigação.

Dos 32 membros da CPI farão parte deputados que só no papel pertencem à base majoritária, tão duras as suas críticas a Dilma. É o caso do próprio líder da bancada do PMDB e principal criador de casos com o Planalto na Câmara, Eduardo Cunha. Quanto à abundância de prováveis malfeitos, as denúncias se empilham. Ainda ontem, o jornal Valor revelou que a Petrobrás assinou contratos bilionários e pencas de aditivos para as obras da Refinaria Abreu e Lima muito antes da aprovação do estudo de sua viabilidade. O conselho de administração do empreendimento era liderado por Paulo Roberto Costa, então diretor da petroleira. Em março último, ele foi preso na Operação Lava Jato, da Polícia Federal.

Baixa adesão, altíssima voltagem

Alberto Dines  
El Pais

A utilização das jornadas de junho passado como base de comparação com o Dia Internacional de Lutas Contra a Copa é um truque aritmético e retórico

Governo e imprensa raramente convergem – o que é ótimo para a democracia –, porém nesta sexta-feira estavam afinadíssimos ao avaliar as manifestações do 15-M, o primeiro Dia Internacional de Lutas Contra a Copa: apoio reduzido e baixa adesão.

A utilização das jornadas de junho passado como base de comparação é um truque aritmético e retórico que não resiste a um exame mais atento dos fatos. A gigantesca participação em 2013 teve como alvo principal a inoperância do Congresso, corrupção, a precariedade dos serviços públicos, notadamente na esfera da saúde e transporte público. A Mini-Copa (das Confederações) não foi o alvo preferencial, entrou na pauta das demandas por contingência cronológica, deveria realizar-se dentro de poucas semanas e os novos estádios estavam no meio do caminho.

O pífio apoio obtido pelo 15-M não deve ser visto sob a ótica exclusivamente estatística. Até hoje pouco sabemos sobre o número de manifestantes que em 1789 foram a Versailles e depois percorreram Paris para derrubar a monarquia francesa, mas não restam dúvidas sobre a intensidade e a efetividade do histórico protesto.

Junho de 2013 foi acontecendo, rolando, se espraiando, ajudado pela repressão policial e pela catatonia do aparelho do Estado, enquanto o atual movimento anti-Copa, ainda que em dimensões experimentais, é organizado, tem estratégia, cronograma, desdobramentos, conexões. E um contexto político frenético, tanto no âmbito nacional, continental como internacional.

O agito deste maio -- enganosamente inexpressivo como o veem os otimistas -- tem algo de 1968, no início limitado, depois expandido pelo mimetismo de uma sociedade ainda analógica, porém intensamente politizada. Hoje, as ideologias são virais, instantâneas, contagiosas, fulminantes. Os estados de espírito transferem-se em alta velocidade, Caracas pode ser aqui e agora.

No ano passado, o então imbatível premiê Recep Erdogan começava a ser confrontado nas ruas de Istambul por ambientalistas, neste momento é bode expiatório, culpado até por fatalidades. Uma Ucrânia na ressaca da revolução laranja (2004), de repente despertou como campo de provas para um novo tipo de conflito bélico internacional, acionado por agentes provocadores e travado nas ruas por milícias mascaradas.
O mito do futebol – idolatrado, inviolável, inatingível, inatacável – despencou do pedestal. Tal como a China confrontada nas ruas de Saigon pelos vietnamitas. O impensável tornou-se possível. Isso pega, hoje tudo pega, basta um espirro.

As apressadas avaliações sobre o que aconteceu na última quinta não levam em conta que foi a primeira: até 12 de junho (quando a brazuca começar a rolar no gramado do Itaquerão, em São Paulo), há ainda três outras quintas-feiras. Cada uma estimulada pelas malfeitorias disponíveis no mercado da incivilidade: depredações estimuladas, greves ilegais, infiltrações partidárias e o suporte do crime organizado.

Cada um destes motins aumentará a tremenda pressão emocional sobre os 25 rapazes convocados para defender sozinhos nossos brios, cores, nossa capacidade de improvisar e, principalmente, o Esporte-Rei sequestrado pela corrupta multinacional chamada FIFA.

Fim da pobreza exige mais que dobrar gasto do Bolsa Família, diz estudo

Folha de São Paulo

A eliminação da pobreza, ao menos nas estatísticas oficiais, exigiria mais que duplicar os gastos do programa, aponta um estudo recém-concluído.

Nos cálculos das economistas Celia Kerstenetzky e Elisa Monçores, da Universidade Federal Fluminense, seriam necessários mais R$ 29 bilhões anuais para atender a todas famílias cuja renda se encontra na faixa de pobreza adotada pelo governo, de menos de R$ 140 mensais por pessoa.

Hoje o Bolsa Família desembolsa quase R$ 25 bilhões por ano, com atenção maior para os brasileiros na faixa de miséria, abaixo de R$ 70 mensais.

“É Possível Acabar com a Pobreza no Brasil?”, pergunta o título do trabalho. O texto responde que a pobreza vai muito além da mera falta de renda -mas procura estimar quanto custaria enfrentar essa deficiência.

A partir de dados coletados pelo IBGE em 2012, o estudo aponta que, considerando os parâmetros adotados pelo governo, há 17,3 milhões de pobres e miseráveis no país, ou 9,2% da população.

Esse contingente dispõe de renda familiar abaixo da linha oficial, mesmo considerando os efeitos dos programas sociais.

Na teoria, seria possível extinguir essa pobreza -estatisticamente, ao menos- a um custo menor, pagando a cada família a diferença entre a renda presente e a renda almejada de R$ 140 por pessoa.

“Contudo, implementar essa decisão é virtualmente impossível, por razões de ordem prática”, diz o texto

Como não seria viável encontrar todos esses pobres e miseráveis e pagar benefícios no valor preciso a cada um deles, as economistas defendem que o valor da linha de pobreza seja integralmente pago a todos.

“É uma fração ainda muito restrita da riqueza nacional, ainda que venha a implicar a duplicação do orçamento do programa”, argumenta o estudo.

Os custos são maiores quando a pobreza é medida por critérios mais realistas que os adotados pelo governo.

O estudo fez simulações com base em uma linha de R$ 206 mensais, a partir de cálculos publicados pela Folha no ano passado.

Nesse caso, o número de pobres sobe para 30,8 milhões (16,3% da população), e a despesa adicional, para R$ 76 bilhões.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:

O estudo a que refere a reportagem demonstrava, de forma indiscutível, que o valor fixado pelo governo da senhora Rousseff e considerado ideal para alguém sair da miséria (segundo os “especialistas” do governo), sequer consegue cobrir as necessidades de uma dieta básica. E, mesmo com o aumento recente, prá lá de eleitoreiro, o valor corrigido chega à metade do que seria necessário ainda em 2013. Imaginem hoje!

Assistência social no Brasil não chega aos mais necessitados

Pollyane Lima e Silva
Veja online

Pesquisa mostra que maior parte das cidades tem estrutura para atender a população em risco, mas não consegue, na prática, acolher quem precisa

(Divulgação/Secretaria Municipal de Assistência Social do Rio de Janeiro)
Equipes da Secretaria Municipal de Assistência Social do Rio 
abordam moradores de rua na favela Parque União

Entre 2009 e 2013, os municípios brasileiros ampliaram a rede de assistência social para a população, mas, na prática, grupos expostos a riscos e aos quais o serviço deveria ser oferecido – entre eles, idosos, menores infratores e mulheres – ainda não são atendidos. A conclusão está em uma nova etapa de divulgação da Pesquisa de Informações Básicas Municipais 2013 (Munic), apresentada nesta quarta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O documento, elaborado com base em respostas a questionários encaminhados às administrações municipais, expõe um contraste: apesar de quase a totalidade das cidades (99,9%) contar com estruturas organizacionais para tratar da política de assistência social, só 34,4% dispõem de abrigos para acolher pessoas em situação de risco. O estudo lembra que todo governo (seja municipal, estadual ou federal) “tem o dever de formular políticas e realizar ações que protejam aquela parcela da população que se encontra vulnerável, permitindo alcançar a plena cidadania”.

A pesquisa, que compara 2009 com 2013, destaca que nesse período aumentou em 44,9% o número de municípios com Centros de Referência de Assistência Social (Cras) – estruturas voltadas exclusivamente ao atendimento socioassistencial. Há cinco anos, 72,5% das cidades tinham criado essas unidades; no ano passado, esse índice havia passado para 97,6%. Entre as regiões do país, o Sul surpreende ao apresentar a menor proporção desse serviço (96,1%), seguido pelo Sudeste (96,4%), enquanto Nordeste lidera com 99,5%. O Norte tem 97,6%, e o Centro-Oeste, 98,7%.  O principal trabalho do Cras é de Proteção e Atendimento Integral à Família (Paif), criado com o objetivo de ajudar no fortalecimento das famílias e evitar a ruptura de vínculos.

Atendimento – 
Entre os serviços oferecidos pelo Paif estão os centros de convivência, divididos por faixa etária: há, no país, 45,4% destinados a idosos, 37,3% para crianças e adolescentes e apenas 16,3% aos jovens. Os porcentuais ainda estão aquém do ideal, mas representam um crescimento em relação a 2009, quando essas unidades eram encontradas em cerca de um terço dos municípios – no ano passado, mais da metade contavam com pelo menos uma delas.

Essas estruturas ainda são separadas de acordo com o nível de proteção social exigida por determinado grupo da sociedade, entre média e alta. Pela primeira vez, o recorte da Munic apresenta essa divisão, não permitindo comparação com os anos anteriores. Um dos centros considerados de média complexidade é voltado ao adolescente em conflito com a lei, condenado pela Justiça a prestar serviços comunitários, por exemplo. Em 2013, foram identificadas 1.918 unidades distribuídas em 1.240 municípios, o que representa somente 22,3%. Os dados, segundo o IBGE, “revelam que a assimilação integral do serviço de medidas socioeducativas ainda permanece como um desafio a ser enfrentado”.

Na proteção especial de alta complexidade, as unidades físicas disponíveis destinam-se ao acolhimento das pessoas em situações de risco, “a fim de lhes garantir proteção integral”, detalha a pesquisa. Acontece, de forma geral, quando os vínculos familiares já foram rompidos ou fragilizados. Para isso, é necessário que o município tenha abrigo institucional ou casa-lar para prestar esse serviço de forma personalizada. O atendimento precisa ser feito em pequenos grupos, separando crianças e adolescentes e mulheres em situação de violência, adultos com deficiência e idosos.

No ano passado, apenas 34,4% das cidades brasileiras afirmaram ter um local para receber pelo menos um tipo de público. E o índice é ainda menor quando se olha separadamente cada um dos atendimentos: abrigos dedicados ao acolhimento de crianças e adolescentes não passam de 29%; para idosos, chega só a 20,3%; população em situação de rua, 5,4%; pessoas com deficiência, 4%. E as mulheres são as que menos podem contar com o serviço – há 192 unidades voltadas para elas no país, distribuídas em 152 municípios, o que equivale a míseros 2,7%.

******* COMENTANDO A NOTÍCIA: 

Quanto mais o tempo passa e a informação da nossa dura realidade vai brotando, mais a gente percebe as mentiras e barbaridades inventadas pelo petismo, e elevadas à quinta potência das virtudes.

A tal revolução social de que tanto falam e se exibem, a decantada preocupação com os pobres com a qual sobem na arrogância e estufam o peito, não passa de papo furado. 

Na reportagem acima, vemos parte do drama e do caos em que o povão brasileiro encontra-se mergulhado. E recomendamos lerem também o próximo post, texto da Folha, sobre a mentira que se conta sobre o Bolsa Família.

Claro que toda esta mistificação ganhou corpo em razão da imensa, bilionária e enganosa propaganda  com “feitos” foram divulgados. E também porque boa parte da imprensa aderiu à mentira e a voz da oposição não se ouviu em protesto e desmentido. 

Quem quer que viaje pelo interior do Brasil, norte e nordeste principalmente, se deparará com a imensa condição de miséria  com que vive boa parte da população, muito embora a senhora Roussef, no melhor estilo cretinismo, tenha acaba com a miséria no gogó e por decreto.  Visitem os presídios brasileiros, onde a indignidade fez sua morada.

O caminho, portanto, para construirmos um país socialmente justo, é sim muito longo. O desafio a ser vencido  não o será com publicidade asquerosamente mentirosa nem com papo furado de autoridades totalmente ausentes da nossa realidade diária. 

Uma das chagas que aflige a sociedade brasileira é disseminação das drogas que, alguns imbecis defendem seja descriminalizada. Agora, perguntem à senhora Rousseff onde foi parar o tal programa de combate ao crack, lançado com pompa e majestade, e que consumiu alguns milhares de reais em publicidade de lançamento?

País que não cuida de suas crianças, que abandona seu velhos e que fecha os olhos para a violência à mulher, que deixa ao Deus dará milhões de pessoas degradadas pelas drogas,  que não oferece às novas gerações educação de qualidade e ao povo saúde decente, não pode se vangloriar de possuir programas sociais revolucionários. Aliás, tal quadro desumano demonstra a inutilidade de secretarias especiais que só servem para torrar dinheiro público e empregar companheiros vagabundos. E este descaso todo coma população não se deve culpar apenas o Executivo. Também Legislativo e Judiciário tem boa parcela de culpa, basta ver com o luxo aristocrático com que se cercam. 

Machado copidescado

José Miguel Wisnik
O Globo

A demagogia social é um álibi inconsciente para copidescar o escritor

Escritor Machado de Assis

A trapalhada é tamanha que fica difícil decidir por onde começar. Mas trata-se de oferecer gratuitamente a novela “O alienista”, de Machado de Assis, para trabalhadores pobres não habituados à leitura. Como enfatiza a autora do projeto, Patricia Engel Secco, a tiragem de 300 mil exemplares, com o selo do Ministério da Cultura e da Lei de Incentivo à Leitura, quer chegar a esses não leitores, privados dos benefícios da literatura.

Diríamos que a causa, de um ponto de vista genérico, é nobre, e o dia em que ela se cumprir será o da redenção do país desigual e mal letrado (mal letrado na média, fique bem claro, e em todos os níveis sociais). Mas a edição propõe-se a resolver, num desastrado salto mortal, a quadratura do círculo: pessoas que nunca leram nada lerão Machado — esse autor deveras fascinante, capcioso, sibilino, cujos textos não se reduzem à anedota, e que pressupõem certa convivência anterior com a leitura. A solução encontrada foi a de facilitar o texto original expurgando-o das supostas dificuldades: palavras difíceis são substituídas por outras corriqueiras; construções sintáticas enviesadas, tornadas mais diretas; alusões de duplo sentido e passagens que exigem uma leitura relacional menos linear, eliminadas.

O argumento dos que são a favor, que se soma ao da serventia social, é o de que essa não é a primeira nem será a última adaptação de textos clássicos. Quem não leu algum “Moby Dick”, “Dom Quixote”, a “Odisseia” ou Shakespeare em alguma versão condensada e facilitada? Quem negaria que essa prática promove de alguma maneira o incremento da leitura, e o acesso a outros textos e a obras originais? Uma linha influente da teoria literária critica, por sua vez, o chamado cânone literário, o panteão das obras “imortais”, a sacralização dos textos e a sua transformação em fetiches intocáveis, ligados a privilégios de classe que também se querem intocáveis. Essa concepção pragmática vem geralmente acompanhada, no entanto, da dificuldade de identificar propriedades singulares dos textos literários que são inerentes à sua composição, ao ritmo, ao corpo da linguagem, e que os fazem insubstituíveis e irredutíveis a qualquer outra forma que não a sua. Mas, para não cair na pendenga sem saída entre o purismo e o completo relativismo, o melhor é analisar cada caso concreto.

O caso da adaptação de “O alienista” é muito diferente do das outras obras clássicas citadas, em que se faz uma redução genérica da estória, claramente distinta do original. Em vez disso, trata-se aqui de uma intervenção linha a linha sobre o estilo, a pontuação, o ritmo, o vocabulário e a sintaxe, e como se nada disso estivesse acontecendo. É escandaloso que a informação “texto facilitado para incentivo à leitura” apareça apenas no final do volume, sem nenhum destaque, perdida entre outros créditos menos relevantes (produção, concepção, projeto gráfico, imagens e tiragem), e onde a referência (nem digo reverência) à autenticidade do texto original vira pó.

Nas primeiras linhas, “filho da nobreza da terra” vira “filho de nobres”, “regendo a universidade” vira “dirigindo a universidade”, “o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas”, vira “da Espanha”. O pretexto, discutível em todos esses casos, é o de que palavras mais usuais deixam o texto mais compreensível, mas junto com isso vem, na verdade, a mentalidade da padronização, praga generalizada e generalizante que não faz senão tirar o travo, o gosto e o sabor de qualquer texto. Prova disso é que, na primeira linha, a adaptadora insere vírgulas inexistentes no original (“dizem que, em tempos remotos, vivera ali um certo médico”), que não se explicam senão pela pulsão de copidesque que quer adequar textos a normas editoriais, atropelando o que vier pela frente. Chego a pensar que a demagogia social envolvida no projeto é um álibi inconsciente para copidescar Machado. Tanto assim que, mais adiante, “achou-se a mais desgraçada das mulheres” vira “considerou-se a mais desgraçada das mulheres”. A palavra “achou-se” era simples demais, dessa vez, e fez-se necessário procurar outra menos usual? Qual é afinal o critério? Aqui e ali pinga uma nota de rodapé, mas uma citação de Dante Alighieri em italiano passa batida.

Literatura nos pega ao pôr em contato o que somos com o que não somos — tempos, experiências individuais e coletivas, linguagens e valores que se tornam nossos sem serem nossos. É preciso passar pela diferença a que o texto nos submete. O narcisismo contemporâneo reage a isso querendo facilitação, padronização e autorreconhecimento. Ironicamente, Machado de Assis é um dos mais incríveis analistas do narcisismo, em toda a literatura universal. Não há como chegar a ele sem chegar a ele. Há modos e modos: o livro organizado por Marcos Bagno, “Machado de Assis para principiantes”, por exemplo, faz uma boa introdução antológica sem precisar alterar uma vírgula do original.

Num país de analfabetos funcionais, como o nosso, uma verdadeira política de leitura é crucial para todas as políticas. O episódio é um índice gritante da falta disso. Machadiano.