quarta-feira, maio 21, 2014

O dom de iludir

Adelson Elias Vasconcellos

Tanto a presidente, senhora Rousseff,  quanto seu secretário da Aviação Civil, Moreira Franco, garantem que os aeroportos estão prontos.  Resta saber o que a dupla considera “pronto”.

Conforme vimos aqui, reportagem de Zero Hora fez um apanhado dos aeroportos das cidades sedes e, em todos, alguma coisa ficou para trás, o mesmo se conclui com a reportagem da BBC Brasil (ver nesta edição). Em situação crítica encontram-se o de Cuiabá, o de Fortaleza (que funcionará num puxadinho de lona!), o de Belo Horizonte e o de Viracopos, em São Paulo.  A gente pode incluir o de Manaus onde, bastou uma chuva mais forte, e as goteiras brotaram feito cascata. Resultado: o saguão teve parte bloqueada ao trânsito de pessoas.

Também a mesma presidente afirmou que os estádios estão prontos. Não, não estão. O Itaquerão, por exemplo, até problema de sinal de celular não funcionou, fora as goteiras, a cobertura incompleta. Aliás, mesmo que os paulistas rezem por chuva, dada a prolongada estiagem que levou o reservatório de Cantareira a situação crítica, as preces deverão ser combinadas com São Pedro para que, no dia 12 de junho, não chova na hora da festa de abertura. Seria o grande mico da história. 

Também outros estádios  terão problemas de sinal na área da telefonia e internet, conforme reportagem que reproduzimos nesta edição. 

No campo da mobilidade urbana,   é que encontraremos a grande falha na organização da Copa. Além da retirada de muitas das obras previstas no projeto original, também a grande maioria se encontra em andamento e, dentre estas, muitas só serão concluída nem Deus sabe quando. 

Assim, fica claro que os discursos da presidência, dos ministros dos Esportes e das Cidades, secretário da Aviação Civil, COL, além da própria CBF tentam vender uma obra inacabada como se concluída estivesse, revelando a imensa incompetência demonstrada pelos governos petistas, arranhando a imagem do país em nome de uma megalomania inominável.

Legado que é bom, além dos estádios elefantes brancos, serão as dívidas e as obras que ficarão por aí sendo tocadas a passo de tartaruga. 

E vamos rezar para que o esquema de segurança funcione a contento. Não só as autoridades estavam despreparadas para bancar um evento desta magnitude, mas o país também, está provado, não tinha mesmo condições de ignorar suas carências mais graves para dedicar, esforços e recursos, nessa aventura estúpida. 
É claro que haverá festas nas ruas, de modo geral, os turistas serão bem recebidos como é nosso costume em outros eventos. Mas a alegria não poderá, de maneira alguma, mascarar a dura realidade que foi a má gestão, o despreparo, o desperdício, a desorganização, a incompetência.  O povo brasileiro não merecia tamanha empulhação.

E ainda teremos dois anos de mais gastos e incompetência: vem aí os Jogos Olímpicos de 2016 que, mesmo faltando este tempo todo, já se sabe que o país não entregará o projeto prometido. 

Se dá prá confundir, chame o juiz
Teori Zavascki, ministro do STF nomeado por Dilma Rousseff,   conseguiu confundir-se a si mesmo. Se é o que diz a lei, isto é, os presos da operação Lava-Jato já não oferecendo perigo e ameaças às investigações, e não tendo sido julgados, liberá-los está dentro de sua autoridade.   

Porém, nem 24 horas se passaram e o senhor Teori voltou atrás, e resolveu manter todos presos, menos o ex-diretor da Petrobrás, Paulo Roberto. 

Ordenar que o processo fosse enviado ao STF, em razão de nele terem sido indiciados parlamentares com prerrogativa de foro, é uma coisa. Mas pegaram mal duas decisões do senhor Teori: a primeira, ter voltado atrás na soltura dos indiciados, menos aquele que, se falar,  pode complicar o governo petista, tanto o de Dilma quanto  o de Lula. E, dentre todos, era o que demonstrava maior perigo em abrir a boa.  

Segundo, se não havia parlamentares presos, por que razão suspender as investigações? Estas até poderiam livrar a cara de um ou de outro, ou até de ambos.  Que o processo fosse remetido ao STF em razão dos deputados envolvidos, nada a estranhar. Está na lei, mas suspender as investigações, convenhamos, não faz sentido. 

Além disto, com esta última decisão, o ministro criou confusão desnecessária. Levantou perigosa suspeita sobre a legalidade dos trabalhos da Polícia Federal e afrontou o juiz encarregado do caso, no Paraná. Precisava? E  um detalhe bem importante: o ex-diretor foi preso em razão de que foi pego, ele e familiares, destruindo provas.  Estará livre para se desvencilhar daquilo que sobrou. Ou seja, além de trancar as investigações, a decisão do ministro Teori, cria dificuldades para, se um dia elas forem retomadas, a cena do crime já tenha sido remexida e descaracterizada. Um verdadeiro atentado ao bom senso e à própria Justiça. 

Mas em todo este rolo fica um certo cheiro de se abafar o caso e impedir que Paulo Roberto, ex da Petrobrás, pudesse abrir o bico e desvendar a sujeira encoberta do alto escalão tanto da estatal  quanto do próprio governo. Quando de sua prisão, bateu um verdadeiro pavor no Planalto. Assim,  a medida Zavascki trouxe alívio para esta gente. E isto acontecer quando a presidente caía nas pesquisas e às vésperas do início da campanha eleitoral, cá prá nós, é muito, mas muito suspeito.

Aliás, no artigo do Josias de Souza, reproduzido mais baixo, ele relembra com muita propriedade, que o discurso do ministro Teori Zavascki antes de assumir o posto se confronta com a sua posição de agora. 

Leviano e moleque
Lobão Filho, senador pelo Maranhão, decidiu protagonizar uma molecagem que não cabe nem em adolescente. Em discurso político, afirmou com todas as letras, que se o senador do PSDB, Aécio Neves, for eleito, ele acabará com o bolsa família. Terrorismo puro. Mas não apenas isto. Lobão Filho pode ser acionado judicialmente dado que sua afirmação leviana e asquerosa, emoldura o crime de calúnia e difamação. O PSDB vai acioná-lo no TSE. É pouco. O crime vai muito além da seara eleitoral. E se o Judiciário honrar seu dever constitucional, não apenas deverá condenar Lobão Filho a cumprir  pena, mas também a pagar pesada indenização pelo ataque à honra. Mas ainda é pouco: gente da laia de Lobão Filho deveria ser expurgado da vida política nacional. É uma vergonha que o Senado agasalhe gente com tão pouca estatura moral.

 Em vez de racionamento, apagões
A ANEEL  informou que as geradoras e distribuidoras de energia recolheram mais de R$ 300 milhões, por terem  interrompido o fornecimento de energia além do limite previsto. Em média, em 2013, os brasileiros ficaram no escuro mais de 18 horas. Em anos anteriores, a média de apagões e apaguinhos também o mesmo limite. Ou seja, ao invés do governo providenciar uma campanha de conscientização para que a população poupasse energia elétrica, preferiu castigar os consumidores com cortes no fornecimento. 

Claro que o esvaziamento dos reservatórios das hidrelétricas em razão da escassez de chuvas, levando ao uso intenso das termelétricas,  mais caras e mais poluentes, deveriam ter alertado para o dever de um gestor público: orientação. 

Porém, em 2001, os petistas deitaram e rolaram no apagão de energia no governo FHC, que aconteceu pelos mesmos motivos, mas que não contavam ainda com a rede de termelétricas que depois foi  construída com segurança. Como os motivos foram os mesmos, o governo ao invés de orientar, fez o contrário: além de mentir para a população de que tudo estava sob controle, e não estava, ainda incentivou o consumo com redução de tarifas, feita a facão. Um ano depois, precisou praticamente anular a redução eleitoreira com elevação de 18% na média. E o que é pior: prevê-se para os próximos anos, novas majorações, ainda em índices superiores aos que foram agora praticados. 

Cuba na Copa
Houve elogios ao clipe produzido pela Fifa para a Copa, destacando parte da nossa cultura, carnaval, batucada e etc. Porém, o que poucos repararam, é que várias vezes aparece a bandeira de Cuba sendo tremulada. Fica difícil entender, também que o ex- atacante Adriano apareça quando está afastado há mais de dois anos. Mas, convenhamos, colocar imagens da bandeira de um país que sequer se classificou para a disputa que se inicia em 12 de junho, e onde o esporte nem popular é, é no mínimo muito estranho. Mas considerando a bagunça que tem sido para o país preparar e organizar o evento, este é apenas um detalhe que emoldura a incompetência. 

Dilma é melhor que Getulio Vargas

Adelson Elias Vasconcellos



É,  a senhora Rousseff é um monumento ao raciocínio desconexo da realidade. Consegue comparar laranja com abacaxi, abobrinha com tomate, batata com melancia. É um espanto! Deveria, contudo, antes de subir no palanque, informar-se melhor para não incidir em erros grosseiros nas comparações que tenta fazer. 

Nesta semana, ao anunciar o plano safra 2014/2015, para o qual serão destinados muitos bilhões de crédito à agropecuária,   a presidente fez uma descoberta sensacional. Ela conseguiu descobrir que o total da safra deste ano, conseguiu ser maior que a do último ano do governo FHC. ATENÇÃO: fez isto  sem lembrar-se que, entre um ano e outro, há um período de exatos DOZE ANOS. Ou seja, tanto as condições de crédito hoje são muito melhores,  como as condições do pais são, também, melhores. E, vejam só, a área plantada das diversas culturas aumentaram no período. Como a agropecuária, desde a década de 90 do século passado, agregou às condições de clima e vastas extensões de terras agricultáveis, tecnologia de ponta, o que a tornou a mais competitiva do mundo, natural que as safras aumentem ano após ano.. 

A agropecuária brasileira está na raiz da nossa estabilidade econômica.  Além de oferecer comida farta e barata, o que contribui para o controle da inflação em níveis mais baixos, os excedentes exportáveis contribuíram para que o país formasse um colchão de segurança com reservas internacionais superiores aos R$ 300 bilhões. 

Ora, uma atividade que orgulha o país todo, e não poderia ser diferente, mereceria de parte do governo federal, seja ele quem for e pertença a qualquer partido, um tratamento diferenciado, pelo menos na área de crédito. É devolver um pouco do muito que o setor acrescenta em desenvolvimento ao país.

Assim, com tanta excelência e avanço tecnológico,  a agropecuária só pode mesmo obter, ano após ano, recordes crescentes de produção e produtividade. E isto ela consegue apesar do governo petista, e não por conta deste.

Tanto é assim que,  perguntem a qualquer empresário do setor, sua opinião sobre o governo Lula e Dilma. Nenhum nem outro gozam da simpatia da categoria. A começar pela campanha difamatória que ambos sempre se encarregaram de espalhar sobre o tal “agronegócio”, a ponto de,  por parte da própria imprensa, tornar a expressão “agronegócio” uma sigla representativa do mal.

Segundo,  por conta da própria política cambial dos petistas que tiram da atividade agropecuária a possibilidade de ganhos maiores. A insistência, principalmente, nos dois mandatos de Lula, em manter o real sobrevalorizado, só pôde ser enfrentada graças aos preços internacionais terem se mantido altos. Do contrário, e a única atividade econômica que mantém e sustenta   o PIB brasileiro teria afundado.

Terceiro, graças a parceria público-privada, entre governo petista e MST e congêneres,  a atividade, em muitos recantos do país, padece de total insegurança, já que os governos petistas continuam sustentando as invasões e depredações de propriedades rurais. E a partir do segundo mandato de Lula, também tribos indígenas  passaram a fazer parte do bando de marginais. A política de  demarcação de terras, cujo base é amontoado indescritível de vigarices e laudos fraudados,  permitiram a desapropriação de áreas secularmente ocupadas por não índios.  Tanto é assim, que um projeto legislativo transferindo para a seara do Congresso a autorização  definitiva para demarcações, esbarra nas dificuldades interpostas pelo próprio governo.  Trata-se de um reacionarismo bucéfalo. O território nacional não pode ter sua delimitação centrada nas mãos de poucos. Trata-se de estratégia de segurança nacional e sua divisão interna não pode ser entregue a meia dúzia de defenestrados e picaretas. 

Se tudo isso não bastasse, o gargalo da infraestrutura brasileira, que retira dos agropecuaristas boa parte de seus ganhos,  tem um único culpado: a ineficiência do poder público.

Assim, senhores, não é pequena a rejeição que, historicamente, os petistas tem angariado junto aos agropecuaristas brasileiros. O Novo Código Florestal, talvez um dos que mais debates públicos tenham recebido, até hoje encontra imensas reação contrária por parte do governo petista. 

Voltando ao discurso de palanque da senhora Rousseff, ela conseguiu transformar  o Plano Safra, que sempre   foi bianual,  porque muitas culturas são plantadas num ano, e colhidas no ano seguinte como a soja, por exemplo,  e que é a que maior peso tem na produção total,  em Plano Meia-Boca. O que ela fez foi muito mais do que esperteza, foi vigarice mesmo. Simplesmente, tomou como definitiva a colheita de 2002, cujo plantio fora feito em 2001, e considerou aquele como o ponto máximo da curva. Mas fez isso no meio do caminho. Portanto, a safra de 2003 teve seu plantio em 2002, e deveria ser este o dado que a senhora Rousseff deveria ter tomado como medida. Assim, ao invés de 96 teríamos 123 milhões de toneladas.

Como lembra Editorial do Estadãqo (ver post nesta edição): “...Síntese dos fatos: a produção cresceu mais nos anos 90 que na década seguinte e mais neste segundo período que nas três safras de 2010/11 a 2013/14”.

Prossegue o Estadão, informando que “...Na safra 1990/91, o País colheu 57,9 milhões de toneladas em 37,89 milhões de hectares. Em 2000/01, a produção chegou a 100,27 milhões de toneladas, em 37,85 milhões de hectares. A produção cresceu, portanto, 73,17%, enquanto a terra cultivada diminuiu ligeiramente.

Entre as safras de 2000/01 e a de 2010/11, o total produzido aumentou 62,63%, para 162,8 milhões de toneladas, e a área ocupada cresceu 31,75%, para 49,87 milhões de hectares. A produção cresceu rapidamente, mas os ganhos de produtividade foram obviamente muito mais lentos. A safra 2013/2014 está estimada em 191,2 milhões de toneladas (mais 17,44%). A área usada passou a 56,4 milhões de hectares (aumento de 13,09%). A produção por hectare expandiu-se em média pouco menos que 1,2% ao ano nesse período. No decênio anterior, a taxa média havia sido de 2,1%.

E conclui: “... Não cabe discutir agora se a presidente Dilma Rousseff distorceu os fatos intencionalmente ou, como ocorre com frequência, por mera ignorância...”.

Além disto, é bom frisar que a revolução no campo começou quando o PT nem era nascido. É fruto de mais 4 décadas de trabalho e pesquisa da EMBRAPA, lá nos idos da década 70 do século passado. O dom de iludir da senhora Rousseff só não consegue ser maior porque, além dos números oficiais, o país não é ocupado apenas por desmemoriados.  

Se é para colher “frutos virtuosos”, dona Rousseff poderia ter retrocedido ao tempo de Getúlio Vargas. Garanto que teria muito do que se orgulhar. A colheita deste seu último ano de mandato foi infinitamente maior. Nem precisaria recorrer a truques de manipulação estatística. Poderia, se quisesse ainda ser mais precisa, comparar a colheita em seu governo, com a do Império, período da monocultura do café.

Também é de suprema picaretagem querer comparar valores entre períodos distantes mais de uma década entre si. A arrecadação federal entre 2002 e 2014 cresceu muitas vezes, até por conta do aumento da carga tributária. Como também seria muita pilantragem querer comparar o volume de recursos destinados à educação e à saúde, por exemplo, entre um governo e outro. Conforme já se demonstrou aqui muitas vezes, não é o volume de recursos que faz a diferença, e sim o bom uso e o resultado que se obtém de seu emprego que demonstram competências e incompetências. 

Mas se é para agradar o ego da presidente  a produção de vigarices e picaretagens com vistas a resultados maquiados, então podemos assegurar à senhora presidente que ela tem muito para comemorar: em seu governo, a produção agropecuária brasileira é muito melhor e maior do que a do governo Getúlio Vargas, mesmo que entre um governo e outro haja um hiato de tempo de mais 60 anos!!! Parabéns.
  
Mas na próxima vez, senhora Rousseff, respeite ao menos a história e não brigue com as estatísticas oficiais, ok?  Senão, ao invés de má informação, a presidente pode incorrer em má fé!!!!

Ir a pé ou ir de trem

Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

Convenhamos: no que mesmo o ex-presidente Luiz Inácio da Silva ajuda a campanha pela reeleição da presidente Dilma Rousseff quando trata com menosprezo questões que têm o apoio da população?

A capacidade de Lula de dizer coisas desprovidas de sentido é conhecida, faz parte do seu show. A novidade é a tendência de fazê-lo em contradição ao manual do populismo, cuja regra de ouro é dizer coisas que soem agradáveis, sábias e lógicas aos ouvidos da maioria.

Nessa fase em que volta com força à cena política convenientemente protegido por plateias simpáticas ou por entrevista à imprensa estrangeira que nem sempre dispõe de todos os dados da realidade nacional para contestá-lo, o ex-presidente tem fugido à sua prática de não entrar em divididas com o senso comum.

Há três exemplos recentes. Comecemos pelo último por ser, do ponto de vista dessa mudança de comportamento, o mais eloquente.

Se não falasse a blogueiros reverentes, mas a um público eclético que encontrasse na rua (onde, aliás, não tem circulado), Lula teria a ousadia de dizer que considera uma tolice (em expressão mais grosseira) as pessoas quererem estações de metrô nos estádios de futebol? Na melhor das hipóteses seria educadamente contestado. Na pior, estrepitosamente vaiado.

Nem o mais insensível integrante da "zelite" seria capaz de um pouco caso desta ordem: "Nós (os brasileiros) não temos problema em andar a pé". Os torcedores, acrescentou, vão aos estádios de qualquer jeito: "descalço, de bicicleta, de jumento".

Sim, e também vão de ônibus lotados, em seus carros para serem extorquidos pelos guardadores. Mas, por que precisam ter desqualificado o natural anseio por um maior conforto urbano? Ou Lula está dizendo que o brasileiro deve se conformar com pouco? Se não quis, disse. Que transporte público de qualidade é luxo desnecessário, dispensável para quem anda sem sapatos e, se preciso for, se locomove no lombo de jumentos. Certamente não por escolha.

Lula, por boa contingência da vida, conta com transporte terrestre e aéreo à disposição, trata da saúde no Sírio-Libanês e não enfrenta desconfortos do cotidiano. Nada contra, desde que não faça pouco caso de quem se ache no direito de querer algo além de comida (cara) no prato, serviços públicos de péssima qualidade e apelos à gratidão eterna para um governo que se tem na conta de inventor do Brasil.

No terceiro caso o ex-presidente fez uma conta em entrevista a uma jornalista portuguesa: o julgamento do mensalão foi 20% jurídico e 80% político. Pois segundo as pesquisas, é mais ou menos este último o porcentual de brasileiros que consideram o resultado justo.

O apoio quase unânime da população às condenações feitas pelo STF significa reconhecimento de que houve um tratamento equânime no julgamento de crimes cometidos por poderosos, algo que vai ao encontro de uma aspiração civilizatória. As pessoas se sentiram bem.

Repetindo o raciocínio acima: o ex-presidente teria coragem de repetir - e mais, justificar - essa argumentação em discurso para público não selecionado previamente? Dificilmente.

Assim como seria de se ver para crer se Lula defenderia o controle dos meios de comunicação que, segundo ele, tratam com "desrespeito" a presidente Dilma Rousseff, diante das mesmas plateias que a têm recebido com vaias.

Ressurreição. P
ara o governo não é uma boa notícia a ordem do ministro Teori Zavascki para soltar os presos da Operação Lava Jato, notadamente o doleiro Alberto Youssef e o ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa.

Até agora quem porventura teme o que teriam a dizer estava salvo. Soltos, serão alvo de pressão para falar no Congresso. Seja em alguma das CPIs para investigar a Petrobrás ou nas comissões da Câmara e do Senado. O assunto ganha novo gás.

São dois pra lá, dois pra cá.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

A Justiça, diz a antiga sabedoria, precisa ter os olhos vendados, como a representa sua estátua. Deve aplicar a Lei, do jeito que a Lei é, não importa a quem. Mas ter os olhos vendados não a obriga a cambalear, a ir e vir, a escorregar, quase cair. Empunhar a balança da Lei não significa balançar nas decisões.

Doze pessoas foram presas por ordem do juiz Sérgio Moro na Operação Lava-Jato, da Polícia Federal. O ministro Teori Zavascki determinou a libertação de todos e a suspensão de oito inquéritos, porque três envolvidos no caso (nenhum deles preso) são deputados federais e devem ser julgados pelo Supremo. No dia seguinte, o ministro reconsiderou a decisão: foi solto apenas um dos presos, Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras. Os outros onze continuam presos. No vai-vem das decisões, talvez tudo tenha mudado no momento em que o caro leitor puder ler essas linhas. Talvez nem tudo tenha mudado; ou não.

O que se discute é se, como no caso do Mensalão, todos os réus de um caso, se algum deles tiver foro privilegiado. devem ser julgados pelo Supremo; ou se, como no Mensalão mineiro do PSDB, fique no Supremo quem tiver foro privilegiado, e sejam julgados em primeira instância os demais envolvidos. No caso do cartel do Metrô e dos trens metropolitanos em São Paulo, devem ser julgados pelo Supremo três deputados federais do PSDB; para os demais envolvidos, o julgamento começa no juiz de primeira instância, com os apelos previstos na lei.

Qual a diferença entre os diversos casos, exceto o partido dos acusados? 

Em boca aberta... 
Alberto Youssef, acusado pela Polícia Federal de comandar amplo esquema de lavagem de dinheiro, está mudo. Consta que nada falou. Continua preso.

...não entra mosca
Paulo Roberto Costa, que foi importante executivo da Petrobras, considerava-se abandonado por seus companheiros. Consta que, abalado, não resistiria por muito tempo aos insistentes pedidos de depoimento. Foi o único a ser solto.

Lá e cá
Está marcada para hoje uma greve nacional de policiais (ou quase nacional; são 13 Estados). Legal ou ilegal? Depende: a Constituição deixou o assunto para regulamentação posterior. E, de lá para cá, em 26 anos, o Congresso não achou tempo para tratar de greves no setor público. Na Justiça, variam as decisões; hoje, a mais comum é exigir que certa porcentagem do pessoal trabalhe, sob pena de multa. Multa e porcentagem variam, mas não faz diferença: a porcentagem não é obedecida e também não é costume pagar as multas. 

No resto do mundo é diferente: greve de policiais é proibida (como é proibida a greve nas Forças Armadas). E a proibição funciona - como, no Brasil, funciona nas Forças Armadas.

Um Brasil... 

O excelente jornalista Paulo Renato Coelho Neto, da revista Top Vitrine, nos manda uma estarrecedora notícia de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, colhida no jornal virtualwww.campograndenews.com.br: um menino de cinco anos levou de presente à professora um pacotinho de maconha. O menino sabia que era maconha e que era ilegal, já que a Polícia sempre dava batidas em sua casa para apreendê-la; mas, segundo a Delegacia da Infância, para ele aquilo era bom, saudável, tanto que o fumavam em seu quarto e pediam a que ele o entregasse. A mãe do menino cumpre pena por tráfico. Sua irmã mais velha, de 26 anos, é traficante e já cometeu um assassínio. Ele é criado por uma irmã de 16 anos, que tem um bebê. Todo estão agora sob tutela da Vara da Criança de Campo Grande.

...outro Brasil
A Copa do Mundo de 1958 só foi vista por quem esteve lá. Aqui, só houve a irradiação dos jogos. Mas agora a Copa de 58, que revelou Pelé, que mostrou Garrincha entortando os gringos, está ao alcance de todos: o engenheiro Carlos Augusto Marconi, usando antigos discos com a transmissão da Rádio Bandeirantes de São Paulo, com Pedro Luiz e Édson Leite, mais fragmentos da Rádio Nacional do Rio, com Jorge Cury e Oswaldo Moreira, montou o áudio. E mesclou-o com o filme sueco do jogo. Tem até replays. Resultado ótimo (e que podemos ver gratuitamente): https://www.youtube.com/watch?v=qd4TklxFOm8

Não dá pra perder
Humberto Werneck, jornalista de primeiro time, escritor titular da Seleção brasileira de texto, lança amanhã seu novo livro - que este colunista ainda não leu, mas sabe com certeza que é bom. Sonhos rebobinados tem noite de autógrafos nesta quinta, 22, na Livraria da Vila - rua Fradique Coutinho, 915, SP

Perfil de coragem
Em 1972, tempos sombrios do Governo Médici, um grupo de jornalistas escreveu em segredo oLivro Negro da Ditadura Militar. Carlos Azevedo, Elifas Andreato, Bernardo Joffily, Divo e Raquel Guisoni, Duarte Pereira, Márcio Bueno Ferreira, Jô Moraes, todos da Ação Popular, engajadíssimos, fizeram uma bela obra, distribuída clandestinamente. 

O livro, raríssimo, é agora relançado, em parceria da Editora Anita Garibaldi com a Fundação Maurício Grabois. Dia 24, sábado, às 14h, no Memorial da Resistência, largo General Osório, 66, SP.

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

Um país diferente e incrível

Gaudêncio Torquato
O Estado de São Paulo

Uma no cravo: "Não apareça pensando que o Brasil é a Alemanha". Outra na ferradura: "O Brasil é um país incrível". Os dois conceitos, expressos pela mesma boca em menos de uma semana, mostram como a verdade, por estas plagas, é tão relativa quanto as projeções que os brasileiros fazem do desempenho da seleção canarinho na Copa. O francês Jérôme Valcke, secretário-geral da Fifa, tem sido um dos melhores intérpretes do modus faciendi nacional, ora criticando a lentidão das obras nas 12 arenas esportivas que sediarão os jogos, ora alertando turistas contra a insegurança e a precária infraestrutura: "Na Alemanha você pode dormir no seu carro, mas você não pode fazer isso (no Brasil). Não apareça pensando que é fácil se locomover"; ora incentivando as torcidas: "Podem esperar um país que tem música, samba e uma série de coisas que o tornam único no mundo". Há alguns meses, esse cavaleiro andante já prometera "dar um chute no traseiro do Brasil". Desculpas esfarrapadas não desfizeram a impressão de que respingos da fala toldaram a bandeira de nossa soberania. Há tempos, porém, florescem por aqui a leniência, a cultura do "deixa pra lá", a mania de esconder sujeira debaixo do tapete.

O fato é que o País tem decaído no ranking da reputação internacional. A própria organização da Copa tem contribuído para as manchas que se acumulam na imagem brasileira, decorrentes da torrente expressiva em torno de construções inacabadas em quase todos os setores da infraestrutura, nas frentes da mobilidade urbana, nas áreas de portos e aeroportos e nas obras inconclusas dos estádios, principalmente em São Paulo, Curitiba e Cuiabá. Debaixo dessa aparente teia que une os fios da morosidade, da burocracia, da falta de planejamento, de alterações de projetos, improvisação e visões díspares, Valcke deve se sentir confortável para, vez ou outra, apertar os calos das autoridades, possivelmente imaginando que seu conterrâneo, Charles de Gaulle, teria mesmo declarado que "o Brasil não é um país sério" (a bem da verdade, o general nunca disse isso. O autor foi Carlos Alves de Souza Filho, genro do ex-presidente Artur Bernardes, na época em que era embaixador na França, entre 1956 e 1964. A referência teve como motivo a Guerra da Lagosta, envolvendo a captura de lagostas por embarcações francesas).

Também é fato que o País não tem reagido no mesmo tom às ferinas cutucadas que recebe, ou por não desejar pôr lenha na fogueira, preferindo driblar as controvérsias com a diplomática crença do ministro do Esporte, Aldo Rebelo, para quem "o objetivo comum do Brasil e da Fifa é a realização da melhor Copa do Mundo de todos os tempos", ou sob o argumento de que "somos a sexta economia do mundo, temos protagonismo importante nas relações internacionais e já fizemos muita coisa mais importante do que organizar uma Copa de futebol".

Nesse ponto, o ministro saltou além das pernas. Já não somos tão protagonistas como antes. Há cinco anos, o então presidente Luiz Inácio, por ocasião da reunião do G-20 em Londres, era cumprimentado efusivamente por Barack Obama com o chiste amistoso: "Este é o cara". O Brasil orgulhava-se de ter liquidado seu débito com o FMI e exibir um dos mais eficazes programas de distribuição de renda do planeta. A situação, hoje, mostra o País deixando de ser a sexta economia - posição que ostentou apenas por alguns meses em 2012 -, devendo encolher US$ 2,1 trilhões este ano, para ocupar o 9.º lugar, atrás da Índia e da Rússia, membros dos Brics.

O brilho com que o País se apresentava nos foros internacionais ganha densa camada de pó. A fosforescência que iluminava sua aura parece se apagar, engolfada na poeira dos movimentos de rua e esmaecida pelo rufar de escândalos, denúncias de corrupção e ecos retumbantes da Ação Penal 470, tudo a indicar altas doses de efervescência e disposição de grupos para desfraldar as bandeiras pintadas de demandas.

Intensificam-se os movimentos que, esta semana, foram às ruas em cerca de 50 cidades; até policiais federais cruzam os braços. Pode-se compreender o animus animandi da sociedade quando se abrem as cortinas eleitorais e as portas dos estádios que abrigarão o maior evento esportivo mundial. Fica claro que parcela ponderável das correntes que gritam palavras de ordem quer aproveitar os ventos favoráveis do clima pré-Copa.

Os ecos tornam-se mais fortes, as demandas, mais audíveis, e os ouvidos dos atores políticos, mais atenciosos. A algaravia se estabelece, com troca de sinais entre concorrentes e adversários, cada qual imprimindo força ao discurso, sem compromisso com coerência ou consistência ideológica. O Brasil é mesmo o país do vice-versa. Quem pregava, anteontem, a lição do medo? O PSDB da era Fernando Henrique. Deu certo. Quem pregava, ontem, a lição da esperança contra o medo? O PT da era Lula. Deu certo. Hoje, petistas usam o medo e tucanos, a esperança, como alavanca das urnas. Nada como um dia após o outro para ver a troca de posição entre os opostos. A ética? Ora, uma questão de ponto de vista. O trigo de um é o joio do outro. Com os polos se invertendo, a paisagem institucional se vê tomada por uma crise de autoridade, perceptível em atos de vandalismo, invasões de espaços e devastação de patrimônios, a denotar estado de anomia.

Por fim, a inferência. Seja qual for o desempenho da seleção brasileira no tão aguardado evento, uma coisa parece certa: o Brasil não será o mesmo. O tal "legado da Copa" suscitará polêmicas: algumas arenas se transformarão em elefantes brancos? Haverá recursos para sua manutenção? À luz da arquitetura futurista dos estádios, como serão vistas escolas, hospitais, vias de acesso no entorno? A precariedade do Brasil em desmanche não contrastará com a exuberância do Brasil monumental? Jérôme Valcke, de longe, mas pertinho dos cofres locupletados da Fifa, deverá abrir um sorriso: "Que Brasil incrível; o passo maior que as pernas vai lhe dar dor de cabeça".

Os linchadores de luva branca

Juan Arias  
El Pais

Não se trata mais de um punhado de pessoas na rua, mas de um exército deles, escondidos detrás das cortinas imaculadas de seus gabinetes

Existem os linchamentos filhos da barbárie popular, perpetrados por pessoas anônimas com as quais cruzamos na rua e até trocamos um “Deus o abençoe”, e existem os linchamentos de luva branca, cometidos por pessoas importantes, que se escondem sob as máscaras do poder, que destroem não uma pessoa, e sim milhões de famílias torturadas durante uma vida inteira ao serem condenadas à pobreza, ao abandono e a desigualdades injustas.

Os linchamentos que ultimamente nos escandalizam e nos gelam a alma são perpetrados por pessoas comuns quando o demônio da violência, que se aninha em cada um de nós, se desata de repente com laivos de psicopatia.

Com um texto magistral, neste jornal, a escritora Eliane Brum denunciou com paixão civilizadora essa dupla barbárie cometida quando nos arrependemos depois de nos enfurecermos com uma vítima que afinal era inocente, como se tivéssemos carta branca para linchá-la se fosse culpada.

Existem os linchamentos realizados, às vezes com uma sanha que faria inveja aos torturadores de ofício, por pessoas que nos surpreendem porque, até minutos antes, eram pacíficas, às vezes mães de família, ou jovens felizes com suas namoradas.

Como é possível que tenham feito isso?, nos perguntamos. Os sociólogos e psicólogos explicam o fato com uma metáfora sobre a água que passa muito tempo estancada. À primeira vista é mansa e, de repente, transborda em uma avalanche de violência destrutiva.

Trata-se, dizem, da raiva contida dos cidadãos comuns. Uma raiva às vezes contra os governantes que nos deixam abandonados à nossa sorte, indefesos; outras, por substituição, contra o chefe déspota, a quem não se pode pisotear, ou como resposta a uma violência acumulada durante anos por humilhações sofridas em silêncio.

Não gostaria de aparecer como advogado defensor dos linchadores comuns, nem analista dos motivos que podem levar um cidadão, considerado horas antes como decente e bom cidadão, a se somar à lapidação de algum ente próximo, por mais bandido que seja. Nada, absolutamente nada, justifica tomar a justiça com as próprias mãos, porque ela nos arrasta para o poço negro da pior das barbáries, sala de espera de novos holocaustos, como lucidamente apontou Eliane.

Gostaria, sim, de ressaltar que também existem hoje, aqui e no mundo inteiro, os linchadores de luva branca, os que não precisam sujar as mãos de sangue nem se desopilar passando com uma bicicleta por cima do pescoço de uma mulher linchada.

Fazem-no com maior elegância, delegando. Não precisam escandalizar com a brutalidade do sangue derramado e da carne torturada das vítimas. E multiplicam por milhares, às vezes por milhões, o número de vítimas escolhidas, das quais nunca verão o rosto, como os nazistas que assinavam as sentenças no Holocausto judaico ou como tantos outros holocaustos perpetrados pelas ideologias de direita e de esquerda em nossa História atormentada e cruel.

São os linchadores que atuam entrincheirados nos palácios do poder político, econômico e judicial. E nem sequer me refiro aos corruptos que se apropriam, às vezes, do dinheiro público roubado dos contribuintes.

Eu me refiro aos que tornam possível que uma pessoa se suicide por ter sido despejada da sua casa após não conseguir pagar sua hipoteca ou o aluguel; aos culpados de que haja gente se vendo novamente em seu inferno de pobreza, quando já estava saboreando o sonho de ter saído do túnel escuro da miséria, antes de ser golpeada por uma inflação provocada às vezes por bastardos interesses políticos; aos que detêm um poder capaz de mover as alavancas da especulação financeira e da especulação imobiliária, ou que permitem que bancos e Bolsas engordem à custa de criar pobreza; aos partidos que deveriam representar os interesses dos cidadãos, mas que acabam se apoderando do Palácio de Inverno do Estado para usá-lo a seu favor e contra seus representados.

Não se trata mais de um punhado de linchadores na rua, e sim de um exército deles, escondidos detrás das cortinas imaculadas de seus gabinetes, de onde são incapazes de ouvir os gritos de dor de todos os martirizados, condenados à infelicidade.

A barbárie não admite adjetivos. É sempre fruto do nosso lado negro, dos nossos instintos ancestrais ainda não mediados pela cultura. Não existem barbáries maiores ou menores. Todas são desprezíveis porque toda pessoa, a mais humilde, a mais banal e até a mais malvada, tem direito de ser respeitada, e só a Justiça democrática pode julgá-la e condená-la.

Mas, se não existem barbáries melhores ou piores, existem, entretanto, responsabilidades diferenciadas. A responsabilidade, por exemplo, dos que têm em suas mãos as engrenagens e os destinos das sociedades, às quais podem conduzir à felicidade ou arrastar para a barbárie, é, sem lugar a dúvidas, mais grave, mais cruel que a do simples cidadão que, às vezes, desesperado perante a ausência dos responsáveis, se transforma em culpado verdugo improvisado.

A pergunta que fica, portanto, é: seria um erro afirmar que os responsáveis máximos, os linchadores oficiais que se escondem atrás de cada violência anônima, são os que desfrutam e abusam do poder que nós lhes demos e que tantas vezes dão as costas a esse sangue da barbárie comum que mancha a rua, porque estão ocupados em outras coisas que lhes parecem mais prementes do que os gemidos das vítimas da violência institucional?

O erro, quando é Supremo, pede correção divina

Josias de Souza


Sentados ao lado de Deus, os ministros do STF exercem o seu poder supremo. Deus existe, não há dúvida. Mas a onipresença é uma fábula celestial. Deus não dá expediente em tempo integral. É evidente que Ele foi tratar de outra coisa quando o ministro Teori Zavascki, em plena noite de domingo, subscreveu o despacho que mandou soltar os 12 presos da Lava Jato, trancou os oito inquéritos nascidos da operação e avocou tudo para a Suprema Corte.

Abalroado pela decisão, o juiz Sérgio Moro, de Curitiba, agiu com extrema prudência. Soltou apenas Paulo Roberto Costa, o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, cuja defesa recorrera ao Supremo. E enviou um ofício para Teori Zavascki. O doutor esclareceu à suprema autoridade que os acusados poderiam dar no pé.

Alguns, como o doleiro Alberto Youssef, dispõem de conta no estrangeiro. Uma, Nelma Kodama, foi presa no instante em que batia em retirada no aeroporto de Guarulhos, com 200 mil euros acondicionados na calcinha. Com outras palavras, o juiz Moro perguntou ao ministro Zavascki: É isso mesmo, Excelência? Tem certeza?

Ainda não se sabe onde diabos estava Deus entre domingo ã noite e segunda-feira. Mas sabe-se que Ele passou pelo STF nesta terça. Zavascki reviu parcialmente sua decisão. Manteve na cadeia os 11 presos e presas que o juiz Moro, por prudência, se abstivera de enviar ao meio-fio. Os crentes da República perguntam de si para si: e se o magistrado tivesse cumprido cegamente a ordem original?

Pois bem. Reduzidos os danos, resta um impasse que só Deus —ou um de seus supremos prepostos— pode dissolver. Afora os 11 acusados, continuam trancados os oito inquéritos da Lava Jato. As prisões são provisórias. Para que se tornem definitivas —ou não— é imperioso que o juiz, o Ministério Público e a Polícia sejam autorizados a fazer o seu trabalho.

Ao STF cabe cuidar dos indícios recolhidos contra os deputados que cruzaram o caminho do doleiro Youssef. O juiz Sérgio Moro enviou esses achados a Brasília. Mas Teori Zavascki sustenta que cabe ao Supremo, não ao magistrado de primeiro grau, deliberar sobre o desmembramento. Prevalecendo esse entendimento, o STF terá de chafurdar nos meandros dos inquéritos para checar se a Vara de Curitiba portou-se com acerto. Por ora, a competência do magistrado, auxiliar da ministra Rosa Weber no julgamento do mensalão, não mereceu do Supremo nem o benefício da dúvida.

Há oito meses, numa entrevista ao site Conjur, o ministro Teori Zavascki queixou-se da quantidade de ações penais que chegam ao STF. “Esse é o principal problema”, disse ele. “Hoje, qualquer tema criminal chega ao Supremo, seja constitucional ou não.”

O ministro prosseguiu: “O STF dedica um tempo muito grande a questões penais não constitucionais. E isso tem o custo da demora e de travar processos. Sou partidário de que o Supremo, para se viabilizar institucionalmente, tenha sua competência reduzida no futuro.”

Ao enviar a Brasília apenas os trechos da Operação Lava Jato que envolvem deputados, o juiz Sérgio Moro ofereceu ao STF a oportunidade de organizar “sua competência”, cuidando só do que lhe cabe.

Porém, ao ordenar que lhe sejam remetidos todos os inquéritos da operação, Zavascki informa que faz questão de dedicar “um tempo muito grande a questões penais não constitucionais.” Mesmo que ao “custo da demora e de travar processos.” Quer dizer: além de ser uma espécie de loteria de toga, a Justiça também perde o nexo de vez em quando.

Na entrevista de setembro, o ministro Zavascki dizia que, “só de Direito Tributário, temos mais de 120 processos esperando julgamento” no STF. Que Deus nos acuda. O erro, quando é Supremo, exige correção divina.

O governo da gerentona está tonto

Elio Gaspari
O Globo

RIO - A doutora Dilma deveria chamar os ministros Aloizio Mercadante e Guido Mantega para saber se é verdade que seu governo está represando tarifas e preços de combustíveis. Um diz que está, para o “bem da sociedade”. O outro diz que não. Essa pode ser uma discussão interminável, sobretudo se depender da retórica de sábios como Mercadante e Mantega. Ambos patrocinam mais uma versão do Refis (pode me chamar de Bolsa Sonegador). Na sua oitava temporada, ele ressurgiu no entulho da Medida Provisória 627. Trata-se de um mecanismo pelo qual quem deve à Receita Federal inscreve-se no programa, livra-se de multas e parcela o débito a perder de vista. O Congresso aprovou um absurdo, esquecendo-se até mesmo de estabelecer um prazo para a quitação. A doutora Dilma vetou a maracutaia, mas sua essência tramita numa nova MP, a 638. Os beneficiários desse mimo serão sobretudo grandes empresas. Nas versões anteriores, bancos e multinacionais safaram-se de autuações que iam a R$ 680 bilhões. A Vale ganhou um desconto de R$ 45 bilhões. A Companhia Siderúrgica Nacional livrou-se de um espeto de R$ 5 bilhões e a petroquímica Braskem limpou uma conta de R$ 1,9 bilhão.

Em 12 anos de governo, com sucessivas versões do Refis, o comissariado criou uma segunda porta nas relações com o Fisco. Numa, quem deve paga. Nessa modalidade estão pequenos empresários apanhados num pulo de gato ou num erro. Grandes empresas, com serviços financeiros (e advogados) de primeira, aprenderam que o governo se assusta quando fica sem caixa e, para raspar o tacho, reduz suas cobranças a preços camaradas. Assim, o melhor negócio é não pagar o que a Receita cobra, à espera do próximo Refis.

Bola na rede
A doutora Dilma cobrou e marcou. Vetou o contrabando incluído na Medida Provisória 627 que aliviava as operadoras de planos da saúde do pagamento das multas por negativa de serviços contratados pelos quais recebem.

Era uma verdadeira gracinha. Quanto mais procedimentos a operadora negasse, menor seria o custo unitário da multa. Um claro estímulo à delinquência.

Fica um mistério: quem pôs o gato na tuba e conseguiu aprovar a medida na Câmara e no Senado.

O deputado Eduardo Cunha, relator da MP, diz que não foi ele. Quem foi, não diz. Informa apenas que discutiu o assunto com comissários da Casa Civil e do Ministério da Saúde.

Sabe-se que pelo menos uma grande operadora achou que aquilo era uma maluquice. Sabe-se também que o próprio Cunha teria advertido os interessados que o truque ia dar bolo.

O lobo de Trilussa
Vendo-se a fala de Lula propondo que o PT recupere “o orgulho” no combate à corrupção, sai da tumba do poeta italiano Trilussa (1871-1950) uma de sua fábulas:

“Um lobo disse a Deus: —Algumas ovelhas dizem que eu roubo muito. Precisamos acabar com essa maledicência. E Deus respondeu: — Roube menos.”

(A fábula vale para qualquer cacique que venha com o mesmo discurso.)

A grande refinaria
De um sábio:

“Pela tradição, as CPIs em torno da Petrobras dão em nada ou em denúncias envolvendo quinquilharias. Se essa nova comissão trabalhar a sério, vai-se perceber que a refinaria de Pasadena é mixaria, se comparada com o que aconteceu na Abreu e Lima, de Pernambuco.”

Eremildo, o idiota
Eremildo é um idiota e há anos insiste em proclamar que se faz uma injustiça quando se diz que Paulo Maluf tinha milhões de dólares no exterior. O deputado nega que esse dinheiro fosse dele e tem razão. O ervanário é do idiota, que está pronto para assumir a paternidade das contas.

Agora, um tribunal suíço revelou que a Alstom depositou US$ 2,7 milhões numa conta controlada por Robson Marinho e sua mulher. Ele foi chefe da Casa Civil no governo tucano de Mário Covas e hoje é conselheiro do Tribunal de Contas de São Paulo. O doutor diz que nunca recebeu dinheiro da Alstom. É verdade, de novo. O ervanário era do cretino.

Se a Justiça aceitar o pleito de Eremildo, resolve-se uma parte do problema, pois ninguém precisará perguntar para onde ia o dinheiro depois que a Alstom pingava os capilés.

Pedra cantada
O senador Aécio Neves sabia perfeitamente em que água navegava quando orgulhou-se de ter no Solidariedade o primeiro partido a apoiar sua candidatura.

Se não lhe bastasse a sombra do mensalão mineiro, aproximou-se da rede de influência do doleiro Alberto Youssef, que estava restrita ao PT e ao PP. O deputado Luiz Argolo, do Solidariedade, trocou 1.411 telefonemas com o doleiro.

Refis-Piloto
Nos próximos quatro domingos o signatário estará ausente deste espaço, integralmente dedicado ao projeto-piloto de um novo tipo de Refis. Em vez de trabalhar e pagar impostos, continuará pagando o que lhe cobram, mas ficará sem trabalhar. Se der certo, muda a História do mundo.

Celso Daniel volta a assombrar o PT
O sequestro e o assassinato de Celso Daniel pareciam esquecidos. O prefeito de Santo André era o coordenador da campanha de Lula em 2002, foi capturado na saída de um restaurante e dois dias depois seu corpo apareceu numa estrada deserta, com 11 tiros. Segundo a polícia paulista, o sequestro foi coisa de uma quadrilha que o confundiu com outra pessoa. A execução teria sido praticada por um menor de idade. Parte da família de Celso Daniel não acredita nessa conclusão. Passados 12 anos, coisas esquisitas aconteceram: seis pessoas envolvidas no caso foram assassinadas a tiros e uma promotora que investigava o fato sofreu um acidente automobilístico, mas sobreviveu.

Os inquéritos da polícia foram contestados pelo Ministério Público, mas a iniciativa foi travada na Justiça, iniciando-se um litígio que está no Supremo Tribunal Federal. Os promotores acusam de envolvimento no crime o empresario Sérgio Gomes da Silva, o “Sombra”, que dirigia o carro do prefeito quando ele foi sequestrado. Se essa tese prevalecer, não houve delito comum, mas outra coisa, mais grave.

A deputada Mara Gabrilli, filha de um empresário de transportes de Santo André, diz a quem quiser ouvir que seu pai era extorquido por uma quadrilha anexa à prefeitura que levava o dinheiro ao comissário José Dirceu. Segundo ela, Celso Daniel queria desmontar o bando.

Assim como o tucanato desafiou a sorte mantendo o caso do cartel da Alstom em banho-maria, o comissariado poderá perceber que a procrastinação do julgamento do empresário foi manobra temerária.
Gabrilli pergunta: “Por que ‘Sérgio Sombra’ não foi julgado?”

Se o Supremo destravar o processo, é difícil, mas pode até acontecer de “Sombra” ir a juri antes da eleição.

Volto ou não volto?

Arnaldo Jabor  
O Estado de S.Paulo

"Volto ou não volto?" Fico aqui no meu banheiro pensando, diante de espelhos sem-fim. Quantos Lulas refletidos ao infinito! É como se fosse um povo de lulas. Isso! Eu sou o povo. Sou um fenômeno de fé. Quanto mais me denunciam, mais eu cresço. Eu desmoralizei escândalos, vulgarizei alianças, subverti tudo, inclusive a subversão. Eu tenho o design perfeito para isso. "Lula" é um nome doce, carinhoso, familiar. "Lula" é fácil de entender. Agora, aqui sozinho, Mariza está dormindo, posso me analisar. Volto ou não volto?

Ai, que saudades das mãos da rainha Elizabeth - eu beijei sua mão com um vago perfume de verbena. Ai, que saudades dos tempos em que eu posava com outros presidentes, com o Obama me puxando o saco, dizendo que eu era o "cara". Como era bom ver intelectuais metidos à besta me olhando com fervor, me achando o símbolo do futuro, como se eu tivesse uma foice e um martelo na mão. Comi várias professoras da universidade; eu era um messias para elas, que nunca tinham visto um operário, a não ser o encanador de seus banheiros. E os banqueiros e os empresários que tinham medo de mim, mas se ajoelhavam por grana do BNDES, enchendo o partido com dinheiro para campanhas?

Mas está na hora de decidir. Tenho de ser cruel comigo mesmo. Vamos lá. Ninguém está vendo. Autocrítica: A verdade é que eu nunca me interessei pelo bem do povo. Essa visão de um operário pensando no País é uma imagem romântica de pequenos burgueses. Operário quer é subir na vida. Fui mestre nisso. Eu odiava o calor daqueles tetos de Eternit na fábrica, aquela cachaça morna na hora do almoço.

Aquele torno que cortou meu mindinho foi minha primeira grande sorte (tem gente que até acha que eu mesmo cortei...). Virei líder sindical. Foi a sorte grande. Sem dedo, descobri a massa. A massa operária se postava diante de mim e eu, com meus olhos em fogo, vi o mar de gente na greve dos metalúrgicos e tive a luz de berrar: "Vocês me dão o posto de comandante das negociações com os patrões?".

Foi um mar de vozes: "Sim! Lulaaa!". Naquele momento, eu vi que chegaria à presidência. Eu vi a facilidade de convencer o povão de fazer o que eu quisesse. Depois, os evangélicos descobriram o mesmo, mas eu fui pioneiro. Aliás, me baseei no Jânio Quadros, com vassoura e caspa artificial. Ele foi o criador da política do espetáculo. Eu era bonitinho, boas sindicalistas eu papei... Era fácil, não precisava nem cantar. Mas sejamos sérios. Ali, no espelho, me vejo multiplicado e tenho de decidir.

Que é melhor para mim? Os caras falam: "Volta, que o povo quer!". E eu? Será que me interessa?

Será que vai ser bom para minha imagem no futuro? Porque hoje minha imagem está joia. Ganho 400 paus por palestra, vou ao exterior e falo qualquer coisa, eles me amam a priori, eu, um herói operário.

Os franceses e outros babacas, bisbilhoteiros das "revoluções" tropicais, jamais entenderão o que tive de fazer para crescer no poder.

Jamais entenderão as sujeiras que tolerei para manter as mãos limpas, como me dei bem com os 300 picaretas que denunciei antes e que depois foram minha tropa de choque. Jamais entenderão que eu nunca soube de nada, sabendo de tudo...

Foi aí que se fez a luz! Eu entendi que se eu quisesse fazer reformas, mudanças radicais, eu perderia meu poder de messias. Eu vi que o verdadeiro Brasil é o PMDB e os corruptos todos. Tudo foi construído assim, por séculos, nesse adultério entre a grana pública e privada. Só a corrupção move o País. Mantive o legado do FHC e chamei-o de herança maldita... FHC não sabia falar com o povão... Ele fez tudo e não é nada, eu não fiz nada e sou tudo. Também nunca entendi por que os tucanos não defenderam o governo dele. Nem ele.

Quando vi que era a "estratégia do medo", caí matando.

Me aproveitei do Plano Real e depois disse que eu é que fizera a queda da inflação. E agora a p... está voltando.

Até o Roberto Jefferson me deu sorte, me ajudou muito, denunciando os babacas dos comunistas, que me atazanavam desde o início. A Mariza dizia: "Essa gente não presta...". E eu não ouvia... Veio o Jefferson (obrigado, Roberto...), expulsa os bolcheviques da minha cola e eu pude inventar a nova ideologia: um grande balé na mídia para manter o povo feliz. Eles pensavam: se ele chegou lá, nós também podemos... Ele é "nóis". Não entendo como o FHC não teve a grandeza nem de um "populismozinho".

Tudo tão simples; basta falar como eles, falar de futebol, fingir de vítima, injustiçado por ter origem humilde, dividir o mundo em ricos e pobres, mentir estatísticas numa boa, falar do futuro.

Depois, espelho meu, tive mais sorte. Começou o surto dos emergentes. Como entrou grana, aqui! Gastei tudo para consolidar meu poder. Mas chega de saudade; a realidade é: afinal, volto ou não volto?

O perigo é eu voltar e ter de lidar com a cagada que eles fizeram. Essa Dilma e o Mantega... P...

Já pensou? Ter de acordar cedo, beber meu uísque 30 anos só de noite... E aguentar o Berzoini, o Rui Falcão, falando como se morassem na URSS... E, pior, é que os comunas vão ficar mais assanhados, mais "aloprados" ainda. Vão querer mais "bolivarianismo". Já me aporrinharam e fu*&ram tudo com o mensalão... Eu bem que avisei: "Vão com menos sede ao pote!...". Só fizeram merda e depois tive de me virar, dizer que não sabia. Só me encheram o saco. Mofem na Papuda.

Se eu voltar, vou ter de satisfazer essa laia. Vou ter de reprimir a mídia. Disso até gosto, para assegurar minha bela imagem no futuro.

Será que vale a pena botar em risco minha imagem?

E tem mais: minha maior descoberta foi que o Brasil não tem conserto. É impossível governar. A política não rola mais. É um parafuso espanado. Se os tucanos ganharem, vão se fu*&er também.

Minhas imagens: quantos lulas refletidos nos espelhos...

"Lula! Que você está fazendo aí, trancado?" "Já vou, Mariza; p..., não posso nem ir ao banheiro?"

Isso, espelhos meus! Batam palmas para mim! Milhares de "eus" me aplaudindo! Obrigado, meu povo!

E aí? "Volto ou não volto?"

O avesso do avesso

Alexandre Schwartsman
Folha de S. Paulo

"Aí vem uma pessoa e diz que a inflação vai ser 3%, que a meta de inflação é 3%. Ah, é? Faz uma meta de inflação de 3%. Sabe o que ela significa? Desemprego. Em que proporção? Lá pelos 8,5%, 9%, 10%, 11%, 12%. Por aí." O português pedestre já tornaria desnecessária a identificação do personagem responsável pelo enunciado acima, mas, tivesse sido expresso pelo próprio Camões, o conteúdo (ou melhor, a falta de) não deixaria dúvida que a autora do descalabro não poderia sem ninguém menos que a presidente da República.

Em que pese o diploma de economista (sem mestrado ou doutorado, bem entendido), a fala revela desconhecimento abissal dos fundamentos da profissão, como se os últimos 46 anos de teoria e prática macroeconômica simplesmente não tivessem existido.

Havia, de fato, ali pelos anos 60 a crença de uma troca estável entre inflação e desemprego expressa, entre outros, por economistas do calibre de Paul Samuelson e Robert Solow, ambos mais tarde agraciados com o Nobel de Economia (por contribuições em outras áreas). No caso, inflação mais baixa implicaria, em qualquer circunstância, desemprego mais alto e vice-versa.

No entanto, trabalhos posteriores, começando por Milton Friedman e Edmund Phelps ainda em 1968, revelaram as bases frágeis desta construção, antecipando a possibilidade da convivência de elevadas taxas de desemprego e inflação, que se tornou uma triste realidade poucos anos depois, um raro exemplo da teoria econômica à frente dos fatos.

A descoberta fundamental destes economistas foi o papel das expectativas de inflação na formação de preços e salários. Em particular, caso um governo tente persistentemente reduzir o desemprego permitindo inflação mais elevada, tanto trabalhadores como empresas passarão a incluir em suas decisões de salários e preços um adicional que reflita a inflação esperada ao longo do horizonte em que os preços estão contratados. 

Concretamente, se trabalhadores têm que conviver com um salário fixo nos próximos 12 meses, o reajuste hoje deve ser tanto mais alto quanto maior for a inflação esperada neste período, de modo a preservar o poder de compra dos salários. Assim, em prazo mais longo, quando expectativas e realidade se aproximam, não é possível trocar mais inflação por menos desemprego.

Obviamente, não se sabe com certeza qual será a inflação futura, mas, se há um compromisso do BC em termos de manter a inflação flutuando próxima a determinada meta, o natural é que as expectativas acabem por convergir para este valor, processo que chamamos de "ancoragem", crucial para o sucesso deste tipo de regime.

Não se trata de milagre, mas depende essencialmente do comprometimento do BC com a meta, que, diga-se, não se mede com palavras. Independente das juras de fidelidade que se faça à meta, o que ancora as expectativas é a ação da autoridade monetária. 

Ao elevar a taxa de juros quando a inflação se desvia para cima da meta (e baixá-la em caso contrário), o BC consegue estabilizar expectativas, como mostrado pela experiência internacional e mesmo a brasileira de pouco anos atrás, sob, é claro, administração bem diferente da atual.

Assim, caso a política monetária seja bem administrada, as expectativas tendem a convergir para a meta e não há necessidade de grandes flutuações na taxa de desemprego para manter a inflação ao redor daquele valor. Pelo contrário, neste cenário o desemprego também tende a se manter ao redor do nível consistente com a meta, independente de esta ser 3%, 5% ou 8%.

Ao contrário, portanto, da crença presidencial, a redução da meta de inflação não requer aumento de desemprego (a propósito: de onde veio o número de 12% de desemprego para reduzir a inflação a 3%? Puro chute!). Requer, porém um BC autônomo e comprometido com seu objetivo, o oposto do observado no Brasil dos últimos anos, em particular sob o comando da presidente.

Comício do plano-safra

O Estado de S.Paulo

Em mais um comício patrocinado pelo governo, a presidente Dilma Rousseff aproveitou o lançamento do Plano Agrícola e Pecuário 2014/2015 para falar da contribuição do PT à criação de uma agricultura eficiente e competitiva, como se nada ou quase nada tivesse ocorrido nos 30 anos anteriores à chegada dos petistas ao poder. A cômica versão dilmista do "nunca antes na história deste país" pode ter enganado algum cidadão patologicamente desinformado. Como outras patranhas petistas, é fácil de desmenti-la com dados oficiais de produção e produtividade. Se a intenção fosse apenas lançar mais um plano de apoio à produção, como se faz todo ano, a comparação com o governo tucano - de resto ingênua e inepta - teria sido dispensável. A referência foi obviamente mais um lance eleitoral, mas a oradora havia sido mal instruída sobre temas como produção e produtividade.

A presidente mencionou "dificuldades" no início da gestão petista para "fazer uma política de crédito adequada". Além disso, comparou a produção de grãos e oleaginosas no ano anterior à posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva - 96,8 milhões de toneladas em 40,2 milhões de hectares - com a estimada para este ano, 191,2 milhões em 56,4 milhões de hectares. "Tamanho crescimento da produtividade somente é possível com muita pesquisa e muito trabalho qualificado", pontificou. Trabalho de quem: do governo petista?

Para falar sobre produção e eficiência a presidente deveria ter mobilizado mais informações. Isso teria servido para ilustrá-la um pouco mais e talvez poupá-la de algumas bobagens. Síntese dos fatos: a produção cresceu mais nos anos 90 que na década seguinte e mais neste segundo período que nas três safras de 2010/11 a 2013/14.

A transformação da agropecuária brasileira numa das mais eficientes e competitivas foi trabalho de décadas. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) foi fundada nos anos 70. Resultados de seu esforço começaram a tornar-se visíveis nos anos 80 e apareceram ainda mais claramente nos 90. Uma das consequências foi a redução do peso dos alimentos no orçamento familiar, fato logo registrado pelos institutos de pesquisa de preços.

Na safra 1990/91, o País colheu 57,9 milhões de toneladas em 37,89 milhões de hectares. Em 2000/01, a produção chegou a 100,27 milhões de toneladas, em 37,85 milhões de hectares. A produção cresceu, portanto, 73,17%, enquanto a terra cultivada diminuiu ligeiramente.

Entre as safras de 2000/01 e a de 2010/11, o total produzido aumentou 62,63%, para 162,8 milhões de toneladas, e a área ocupada cresceu 31,75%, para 49,87 milhões de hectares. A produção cresceu rapidamente, mas os ganhos de produtividade foram obviamente muito mais lentos. A safra 2013/2014 está estimada em 191,2 milhões de toneladas (mais 17,44%). A área usada passou a 56,4 milhões de hectares (aumento de 13,09%). A produção por hectare expandiu-se em média pouco menos que 1,2% ao ano nesse período. No decênio anterior, a taxa média havia sido de 2,1%.

Não cabe discutir agora se a presidente Dilma Rousseff distorceu os fatos intencionalmente ou, como ocorre com frequência, por mera ignorância. De toda forma, se ela de fato estivesse interessada em contar a história tal como se passou, teria de mencionar o esforço do presidente Lula para aparelhar a Embrapa para permitir a reorientação ideológica de seu programa de pesquisas. Teria citado o apoio a invasores de terras e a insegurança criada entre os produtores rurais por erros políticos dos governos petistas.

Teria lembrado também os longos anos sem investimento em logística (o PT está no poder desde 2003) e os enormes problemas dos exportadores, nos últimos anos, para embarcar seus produtos.

Era objetivo da presidente, sabia-se desde antes do discurso, conquistar o apoio eleitoral dos empresários do agronegócio. Por segurança, cuidou também dos interesses da indústria automobilística, anunciando a renovação de crédito especial para equipamentos. Esse tipo de apoio à modernização agrícola está longe de ser uma inovação petista, embora alguns jovens desprevenidos até possam acreditar nisso.

STJ decide sobre perdas de poupadores em planos econômicos

Exame.com
Marcelo Brandão, Agência Brasil

A corte decidirá se os juros de mora serão contados a partir da citação coletiva ou a partir da citação na execução individual

Wikimedia Commons 
STJ: o Idec defendeu a contagem da taxa a partir da citação coletiva

Brasília - O Superior Tribunal de Justiça (STJ) retoma hoje (21) à tarde o julgamento sobre a contagem de juros de mora em casos de perdas na poupança causadas por planos econômicos passados.

A corte decidirá se os juros de mora - a taxa que incide sobre o atraso de pagamento - serão contados a partir da citação coletiva ou a partir da citação na execução individual.

Em nota, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) defendeu a contagem da taxa a partir da citação coletiva. De acordo com o Idec, uma decisão contrária prejudicaria os poupadores, que deixariam de computar vários anos de juros, corridos desde a citação coletiva.

“Se o STJ decidir que os juros devem ser contados somente a partir da execução individual, o poupador deixará de receber o acréscimo justo (…) pela demora demais no pagamento por parte do devedor (o banco)”.

Já a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) entende que os juros devem contar a partir da execução individual. “Não houve ganho para os bancos, que cumpriram o papel de meros intermediários nessas operações”, disse o presidente Fabio Barbosa, no site oficial da entidade.

Serão julgados dois recursos de poupadores beneficiados por ações civis públicas movidas, respectivamente, contra o Banco do Brasil e o Banco Bamerindus (atual HSBC).

A eles foi reconhecido o direito à diferença da correção monetária do Plano Verão, de 1989, restando saber a partir de quando começam a contar os juros de mora.

A decisão que for tomada vai balizar outros tipos de ações, como reajustes de planos de saúde, cobranças indevidas ou perdas ocorridas em outros planos econômicos.

STF julga hoje regra sobre investigação de crimes eleitorais

Exame.com
André Richter, Agência Brasil

A proposta quer suspender a resolução da Justiça Eleitoral que trata da investigação de crimes nas eleições de outubro

Wilson Dias/ABr 
Janot: o procurador recorreu ao STF por achar a norma inconstitucional

Brasília - O Supremo Tribunal Federal (STF) julga hoje (21) a ação proposta pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, para suspender a resolução da JustiçaEleitoral que trata da investigação de crimes nas eleições de outubro. O relator é o ministro Luís Roberto Barroso.

Em março, Janot recorreu ao Supremo por considerar a norma inconstitucional, ao limitar o poder de investigação do Ministério Público Eleitoral (MPE) e impedir a requisição de diligências à polícia e a abertura de inquérito pelo órgão.

A Resolução 23.396/2013, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), foi aprovada pelo plenário da corte em dezembro do ano passado. De acordo com a norma, a partir das eleições de outubro, a instauração de inquérito para apurar crimes eleitorais só poderá ser feita com autorização do juiz.

Em janeiro, Janot pediu ao TSE a revogação da decisão, mas o pedido não foi levado a julgamento. Diante da demora do tribunal e da proximidade do período eleitoral, o procurador recorreu ao STF para garantir a suspensão da norma.

Na sexta-feira (16), o presidente do TSE, Dias Toffoli, disse que a resolução não limita o poder de atuação do Ministério Público e evita investigações sem transparência.

Ele defendeu que o MP submeta a demanda ao Poder Judiciário, para que o juiz autorize o prosseguimento.

Novo oportunismo nas concessões

Raul Velloso
O Globo

Na prática, a busca por modicidade tarifária a qualquer custo acabou gerando o conhecido ‘barato que sai caro’

Na segunda etapa do Programa de Concessão de Rodovias Federais (PCFR), o governo anunciou uma nova era, na qual passaríamos a contar com um serviço de qualidade a preços ínfimos. Já em 2012, publiquei um livro intitulado “Infraestrutura: os caminhos para sair do buraco” (disponível em www.raulvelloso.com.br), onde demostrei que a “modicidade tarifária” alcançada não passou de aparência. O que aconteceu, de fato, foi a outorga de rodovias para empresas que acabaram renegociando os contratos, seja requerendo aumento do pedágio, seja reduzindo os investimentos. Na prática, a busca por modicidade tarifária a qualquer custo acabou gerando o conhecido “barato que sai caro”.

Em 2013, com alguns anos de atraso, várias idas e vindas e até o adiamento de leilões por provável falta de interessados, o governo conseguiu, enfim, destravar a terceira etapa do PCFR, transferindo à iniciativa privada quase cinco mil quilômetros. Para tentar evitar que as outorgas fossem entregues a empresas incapazes de cumprir os contratos, foram tomadas algumas precauções, como exigência de maior valor depositado em garantias e de capital social para os consórcios constituídos.

O que se teme agora não é mais o outorgado descumprir a promessa, mas o governo, ao longo do contrato, tentar impor tarifas de pedágio incompatíveis com o custo de provisão do serviço. Em primeiro lugar, devemos lembrar que esse é um risco inerente ao investimento em infraestrutura: uma vez incorridos os chamados custos afundados, a concessionária se encontra, em larga medida, presa ao investimento. Um governo oportunista pode fazer populismo tarifário com o intuito de obter dividendos eleitorais.

Infelizmente, há evidências de que o atual governo poderá assumir uma postura como essa. A primeira é a própria forma como vêm sendo tratados os preços administrados, com reajustes da gasolina, eletricidade e tarifas de ônibus em níveis inferiores à evolução dos custos.

Outras indicações estão em edital e contrato de concessões recentes. Destaque-se, em primeiro lugar, a proibição de apresentar um Plano de Negócios, onde se detalham as projeções de receitas e gastos das empresas. Sem ele, parâmetros importantes como o custo de construção de determinado trecho, a projeção de demanda e a taxa de retorno esperada são ignorados pelo regulador.

Criam-se, assim, situações potencialmente prejudiciais para as empresas. Por exemplo, se vier a ser constatado que não é mais necessário construir um trecho previsto em contrato, é o próprio órgão regulador que terá de determinar o custo da obra que não será executada, com o objetivo de recalcular o valor do pedágio. Da mesma forma, em caso de obras adicionais, a taxa de retorno será aquela estipulada pelo regulador. Se impuser uma taxa muito baixa, sem o Plano de Negócios a concessionária terá maior dificuldade de pleitear uma recomposição de margens na Justiça ou em cortes arbitrais.

Os contratos atuais também abrem espaço para decisões discricionárias por parte da agência reguladora (ANTT). O primeiro exemplo é o cálculo do custo de capital. Essa variável é importante, porque baliza a recomposição tarifária decorrente de realização de obras adicionais ou de fatores intervenientes que afetem as receitas do empreendimento. Apesar de haver estudo detalhando a metodologia de cálculo da taxa de retorno do capital , a Resolução ANTT nº 4.075, de 2013, dá à agência a prerrogativa de alterá-la sempre que for constatada mudança significativa nas condições de financiamento do setor.

O segundo exemplo é a introdução do chamado fator X nos contratos recentes de concessão. O fator X é um redutor de tarifa, cujo objetivo é capturar a parcela dos ganhos de produtividade e transferi-la ao usuário. Ocorre que os contratos limitam-se a prever a presença desse fator X, sem especificar qualquer metodologia de cálculo ou um teto para o seu valor.

A discricionariedade dada à ANTT, em um ambiente institucional precário como o brasileiro, reduz fortemente o poder de barganha das concessionárias. Isso abre espaço, em primeiro lugar, para negociações espúrias, com benefícios puramente individuais. Também facilita a adoção de comportamento oportunista por parte do governo. Se isso de fato ocorrer, o setor privado se sentirá mais reticente em participar de futuras concessões, exigindo, para tanto, tarifas mais altas com o objetivo de compensar o maior risco assumido. E o Brasil, mais uma vez, ficará sem a infraestrutura de que tanto necessita.

Na companhia de alguns colegas, apresentarei amanhã no Fórum Nacional do Instituto Nacional de Altos Estudos um trabalho atualizando livro de nossa autoria sobre concessões. Esse trabalho é parte do esforço maior de mostrar por que a situação fiscal se deteriorou fortemente e o modelo econômico em vigor está fadado ao fracasso, objeto de dois outros estudos. Também lançaremos um livro sobre energia elétrica. Todos eles estarão disponíveis na página acima mencionada.



Gás: indústrias criticam falta de planejamento

Lino Rodrigues, Roberta Scrivano, Ramona Ordoñez e Bruno Rosa 
O Globo

Com térmicas a plena carga, setor teme escassez do insumo. Empresa do Rio compra gerador a diesel

Domingos Peixoto 
A diesel. Gerador da empresa de Alex Buchheim
 não é a gás por questão de segurança 

SÃO PAULO e RIO - Diante da crise de energia que já levanta preocupação sobre a procura de gás na indústria, especialistas e empresários alertam para a necessidade de uma política de longo prazo para o setor. Carlos Cavalcanti, diretor do departamento de Infraestrutura da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), reclama da falta de planejamento pelo governo e da ausência de uma política específica para o insumo no país. Ele afirma que o gás natural não chega às unidades fabris e prejudica o desenvolvimento de planos de investimento no Brasil.

— Não há política industrial para o gás. Isso é gravíssimo e atrofia investimentos — disse o representante da Fiesp.

O presidente da Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás), Augusto Salomon, destacou, por sua vez, que o problema não é a oferta no curto prazo do gás. O executivo da Abegás também disse que está faltando uma política energética no país e que defina uma política para o gás natural que dê previsibilidade tanto de oferta como de preços futuros, para permitir a expansão da indústria.

Sem uma política definida, as indústrias não têm garantias firmes de suprimento do gás nem de preços. Isto está fazendo com que as indústrias brasileiras percam já a competitividade em relação às indústrias instaladas em países como Estados Unidos, México e Canadá, onde o gás está cada vez mais barato.

— Definir essa política é fundamental, considerando que a perspectiva é de que o aumento da oferta do produto chegue a 30 milhões de metros cúbicos por dia, equivalente às importações da Bolívia, a partir de 2017. Mas quem vai investir se, de um lado, não há preços definidos e, de outro, não há garantias da expansão da malha de gasodutos para esse gás chegar ao mercado? — indagou Salomon.

Segundo ele, se não for definida uma efetiva política de estímulo, com garantia firme de volumes e preços atrativos, não haverá mercado para esse volume adicional de gás esperado a partir de 2017.

— O maior problema é o artificialismo dos preços. Hoje, a Petrobras vende o gás nacional com 30% de desconto, mas ninguém sabe até quando. Como investir? Cada R$ 1 bilhão em incentivos no setor representaria uma redução de R$ 0,10 por metro cúbico nas tarifas do gás para as indústrias — destacou Salomon.

O presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Mauricio Tolmasquim, disse ontem que a Petrobras poderá ampliar o volume de importação do gás natural liquefeito (GNL) e do gás boliviano caso a indústria necessite. Ele deu a resposta ao ser indagado sobre o temor do setor produtivo de ficar sem o combustível por conta da maior utilização do insumo pelas térmicas da estatal para a geração de energia elétrica.

— Pelo que eu saiba, saiu um informe da Petrobras dizendo que não está faltando gás para ninguém. Existe gás para todo mundo até onde eu sei. Não chegou ao meu ouvido nenhuma reclamação da indústria (...) Se for necessário, a Petrobras pode importar mais gás — afirmou Tolmasquim, depois de participar de evento sobre infraestrutura promovido pelas federações das Indústrias do Rio e de São Paulo (Firjan e Fiesp) na capital paulista.

Mas as importações de GNL já causam prejuízos para a Petrobras porque a estatal compra por cerca de US$ 17 o milhão de BTU (medida internacional do gás) e vende para as térmicas a um preço médio de US$ 9. Cálculos feitos pela consultoria Gas Energy indicam que a estatal está tendo um prejuízo de US$ 120 milhões mensais com as importações de GNL.

— A Petrobras ainda se beneficiava com a venda de uma pequena parcela da energia gerada por suas térmicas no mercado livre, onde a energia custa R$ 822 o megawatt/hora. Mas no leilão do mês passado para reduzir a exposição das distribuidoras nesse mercado à vista, a Petrobras foi obrigada a vender quase toda energia que ainda tinha livre (574 megawatts médios) — destacou Tavares.

Gás vira ‘questão de segurança’
Entre outras prioridades nessa política industrial para o uso do gás, deveria haver, por exemplo, segundo Cavalcanti, um padrão pré-definido para a determinação do preço do insumo e contratos com prazos longos de fornecimento para os grandes consumidores. Desta forma, o empresário não ficaria sujeito à disponibilidade do combustível, nem à oscilação de valores gerada por sazonalidades na oferta. De acordo com Cavalcanti, esse tipo de previsibilidade é essencial para a tomada de decisão de investir ou não.

O economista Antonio Corrêa de Lacerda, professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), sustentou o argumento de Cavalcanti ao lembrar que a estratégia de reindustrialização dos Estados Unidos está calcada justamente na maior oferta de gás .

— O atrativo usado por (Barack) Obama para atrair a atenção das indústrias é o combustível, neste caso o gás. Então, no melhor estilo “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil", eu pergunto: há alguma dúvida sobre a importância de haver uma política industrial de longo prazo para o gás? — indagou o professor.

A crise energética já está mudando o planejamento de indústrias. No caso da Limppano, fabricante de artigos de limpeza e de utensílios domésticos, a empresa decidiu que só vai ampliar os investimentos após conseguir aumentar, em contrato, a oferta de gás. Segundo Alex Buchheim, diretor-geral da companhia, iniciar a ampliação fabril sem ter o gás na mão é "uma questão de segurança".

— É preciso ter uma garantia do gás. Sem isso, é um perigo. Atualmente, a indústria fica em segundo plano. Decidimos investir cerca de R$ 500 mil na compra de geradores a óleo diesel para termos segurança, se esse cenário se repetir. Nossa ideia era que esses geradores fossem a gás, mas ficamos preocupados por conta da oferta de gás. Esse investimento nos geradores poderia ser feito na compra de novas máquinas — disse Buchheim.

A falta de previsibilidade na oferta de gás é o principal problema envolvendo as fábricas do país. Segundo Lucien Belmonte, superintendente da Abividro, associação que reúne os fabricantes do setor, a decisão do investimento é afetada em função das incertezas.

— O gás para a indústria está a conta-gotas. Além disso, há uma questão de preço alto, com custos que a indústria não consegue acompanhar. As perdas da Petrobras com GNL acabam sendo pagas pela indústria — diz Belmonte.

Julio Bueno, secretário de Desenvolvimento do Estado do Rio, diz que a principal reclamação das indústrias é a falta de previsibilidade do fornecimento de gás. Segundo ele, a política brasileira é "exótica":

— A Petrobras não diz qual é a sua oferta de gás. Além disso, há a questão do preço elevado. A questão é que a Petrobras é monopolista no gás. Os preços, que deveriam ser controlados, são livres e, assim, a Petrobras faz o preço que quer.

Nos primeiros três meses deste ano, a Petrobras registrou lucro líquido de R$ 515 milhões na área de Gás e Energia, um recuo de 41% em relação ao mesmo período do ano passado. Isso ocorreu, diz a companhia, devido aos maiores custos com importação de GNL e de gás natural.