sexta-feira, maio 23, 2014

Um partido fascista

Sebastião Nery
Tribuna da Imprensa


Uma tarde de 1970, o governador do Paraná, Paulo Pimentel, conversou longamente com o deputado da Arena, Haroldo León Perez, no escritório do Estado, no Rio. Saiu Perez, Pimentel estava furioso:

- Este Haroldo é um idiota. Imagina que veio aqui me dizer que vai ser o próximo governador. Já está escolhido, mas gostaria de ter o meu apoio. Em troca, assegura um ministério para mim, o da Agricultura. Mal conseguiu eleger-se deputado, não tem prestígio nenhum, eu não o quero, o Ney não aceita, como é que vai ser governador e negociando ministério?

Uma semana depois, ao fim de um jantar, em Brasília, em um jogo de cartas,o general Médici disse à mulher do deputado León Perez (Paraná):

- A senhora está de parabéns. Amanhã, saberá.

MEDICI
No dia seguinte o governador Paulo Pimentel e o senador Ney Braga foram chamados ao Palácio do Planalto pelo presidente Médici:

- Quero comunicar aos senhores que o governador do Paraná vai ser o deputado Leopoldo Perez. Ney Braga, pálido, baixa os olhos. Paulo Pimentel sorri amarelo:

- Mas, Presidente, o deputado Leopoldo Perez, secretário-geral da Arena, é do Amazonas. Não tem nada a ver com o Paraná.

- Não é esse, não, governador. É o outro.

- Que outro, presidente?

Medici fica irritado, grita irado:

- É o outro, o do seu Estado.

- O Haroldo Perez?

- Sim, sim. Esse mesmo.

Paulo saiu do Palácio para o aeroporto, Ney para uma casa de saúde. Um ano depois o Perez de Medici foi posto fora do governo por ladroagem.

MUSSOLINI
O nome disso é fascismo. Quando o poder é imposto pela força. Medici queria, Medici podia, Medici nomeava. O pais que se danasse. Em 1922, na Itália, Benito Mussolini dizia-se um “líder socialista”. Criou seus camisas negras, seus grupos de assalto, os “Fascio”, organizou uma “Marcha Sobre Roma”, recebeu “plenos moderes” do Parlamento, prendeu seus antigos companheiros Antonio Gramsci, Silvio Pelico, matou milhares, criou o “Movimento Social Italiano” tendo como pedra angular a “unicidade sindical”, impôs à Itália o regime fascista e se aliou a Hitler.

Deu no que deu. Fanfarrão como Lula, acabou pendurado de cabeça para baixo, berrando como um bode imundo, em um posto de gasolina.

LULA
Lula começou a pôr as unhas de fora. Apareceu como um inofensivo líder sindical retirante protegido pelo legalista delegado Romeu Tuma, agarrado nas batinas da Igreja e nas botas do general Golbery. Tantos de nós, direta ou indiretamente, de uma forma ou de outra, o ajudamos. Criou o PT, o “Partido dos Trabalhadores”, como se só eles fossem trabalhadores, e a CUT, a Central “Única” dos Trabalhadores, como se só ela fosse dos trabalhadores. Era a repetição da “unicidade sindical” de Mussolini.

De repente, Lula convocou o PT a ser um partido fascista. (seus “fascio”) sob o comando de seu presidente Rui Falcão, indisfarçado “teórico fascista”, e “sair para a guerra, guerra total a quem ameaçar a conquista da hegemonia em torno do nosso projeto de sociedade” (Globo).

HEGEMONIA
Em política, em matéria de conquista de poder, “hegemonia” está com toda a simplicidade muito bem definida pelo saudoso mestre Houaiss:

- “Hegemonia – Supremacia ou superioridade cultural, econômica ou militar de um povo… supremacia, influencia preponderante… autoridade soberana… liderança, predominância ou superioridade”.

É toda a base do fascismo. Antes o PT rosnava. Agora já começaram a morder. Na TV, o deslumbrado baiano aprendiz de Goebbels (chefe da propaganda de Hitler) João Santana apela para o mais escrachado terrorismo, querendo fazer do medo o centro das próximas eleições. Com Dilma derrapando toda semana nas pesquisas, vaiada toda vez que aparece em publico, só podendo mostrar a cara nos fundos do Planalto ou nos convescotes do Alvorada, eles estão com medo de perderem as bocas sujas, os conselhos fajutos, as maracutaias passagenas. As urnas vêm ai.

Bala para todo lado

 J.R. Guzzo
Revista VEJA

Pelo jeito, a presidente está tendo dificuldades nos circuitos cerebrais que traduzem as ideias em sons, os sons em palavras e as palavras em frases inteligíveis

Alguma coisa acontece na cabeça da presidente Dilma Rousseff quando se cruzam ali dentro a avenida por onde passam os pensamentos que ela quer transmitir ao público e a avenida de onde eles saem para o mundo, depois de transformados em palavras. Ou, ao contrário, alguma coisa que deveria acontecer nessa hora não acontece. Seja por um motivo ou por outro, o fato é que a presidente, de uns tempos para cá, não está fazendo muito sentido, ou mesmo nenhum sentido, quando fala de improviso. Dilma, nessas ocasiões, imagina que está usando a linguagem do “grande público”. Mas a coisa não vai. Ela dá na chave, dá de novo, insiste, mas o motor não pega. O resultado final é que só vem conseguindo tornar-se cada vez mais incompreensível. Não é exagero. Tente, por exemplo, entender o seguinte: “Quando você chega num banco, ele te pergunta qual a garantia que você me dá? Eu vou pagar a vocês, para me aceitar emprestar um dinheiro para você me pagar”. Isso aí foi dito por Dilma em Feira de Santana, no fim de abril, numa viagem de sua campanha eleitoral em que presenteou prefeituras do interior da Bahia com tratores, escavadeiras e outras máquinas. Não é uma distorção do que disse, nem um boato — é o que consta nos registros oficiais do Palácio do Planalto. Não é tampouco uma “frase fora do contexto”; é fora da compreensão humana.

Pelo jeito, a presidente está tendo dificuldades nos circuitos cerebrais que traduzem as ideias em sons, os sons em palavras e as palavras em frases inteligíveis. As cordas vocais não estão obedecendo às ordens enviadas pelo cérebro — ou o cérebro está enviando ordens desconexas para as cordas vocais. No caso de Feira de Santana, não conseguiu acertar nem a pontuação. Poderia ter sido, talvez, apenas um momento infeliz? Infeliz o momento foi, com certeza; mas não foi um momento. Ao contrário, esse caos que Dilma constrói quando fala em público vem sendo um processo, ou pelo menos uma série de muita constância. É só ver o que ela anda falando. “Esse receituário que quer matar o doente, em vez de curar o paciente, ele é complicado”, disse numa viagem recente à África do Sul, referindo-se às ideias de controlar a inflação através da redução do gasto público. “Isso está datado.” Como assim? Matar o doente, como ela diz, não é “complicado”; é simplesmente estúpido. Também não é um tratamento “datado”, que já valeu, mas hoje está obsoleto; matar gente nunca foi certo.

Ainda outro dia, numa conversa com jornalistas em Brasília, voltou às suas aulas de economia: “Aí vem uma pessoa e diz que a meta da inflação é 3%. Faz uma meta de 3%… Sabe o que significa? Desemprego lá pelos 8,2%”. De onde vêm esses exatíssimos “0,2%” que ela acrescenta aos 8%, quando seu governo não acerta sequer uma previsão para o dia seguinte? Dilma já disse que “a inflação foi uma conquista desses dez últimos anos de governo, do presidente Lula e do meu governo”. Supõe-se que tenha havido aí um desencontro entre o que pensou e o que falou — e o que pensou era mentira. Num seminário nos Estados Unidos, enfiou-se de repente no tema de ônibus escolares e informou à plateia: “No Brasil não é assim conosco. Estamos criando o ônibus escolar padronizado do início do século XXI”. Logo depois explicou ao investidor privado que, “se quiser fazer o backroll perfeitamente, ele faça o backroll, se quiser fazer o backbone, perfeitamente, faça o backbone. Nós não queremos 1 mega real de banda larga, nós queremos o padrão, eu não vou dizer qual é o padrão”. Por que não? E essa história de backroll e backbone?

Dilma também foi capaz de fazer, em pleno exercício da Presidência da República, a seguinte oração: “Primeiro, eu gostaria de dizer que eu tenho muito respeito pelo E.T. de Varginha. Este respeito pelo E.T. de Varginha está garantido”. A presidente estava em Varginha, em Minas Gerais, para visitar, acredite-se ou não, um “museu do E.T.”, no qual o governo federal aplicou cerca de 1 milhão de reais. (Iniciado em 2007, o museu nunca ficou pronto, e jamais foi visitado por ninguém. Está abandonado desde 2010.) Outro grande momento foi no Ceará, agora em março. “Os bodes, eu não me lembro qual é o nome, mas teve um prefeito que me disse assim: “Eu sou o prefeito da região produtora da terra do bode”. Então nós vamos fazer um Plano Safra que atenda os bodes que são importantíssimos”. É bala para todo lado.

“Pobre Dilma Rousseff”, escreveu a seu respeito o Financial Times. Parecia uma Angela Merkel, com eficiência alemã. Acabou com um desempenho de irmãos Marx.

Atentado à ordem pública

O Estado de S.Paulo


A capital paulista viveu um dia de caos na terça-feira - e o problema continuou quase tão grave ontem - pela ação criminosa de motoristas e cobradores, que estacionaram ônibus em vias importantes para bloquear o trânsito, num movimento que só merece o nome de greve se a ele for acrescentado o adjetivo selvagem. Situação agravada pela omissão das autoridades estaduais encarregadas da segurança pública, com o argumento - absolutamente inaceitável - de que se tratava de uma questão afeta ao Município.

A irresponsabilidade ditou todos os atos praticados pelos motoristas e cobradores que, ao que tudo indica, integram um numeroso grupo que se opõe à diretoria do sindicato da categoria e acha insuficiente o reajuste salarial de 10% constante de acordo assinado com as empresas do setor.

Mas que sejam dissidentes ou não, pouco importa. O que conta é o caráter criminoso de seu comportamento.

Contrariando uma regra elementar em casos como esse, eles não comunicaram previamente às autoridades e à população a paralisação, que atingiu 16 dos 28 terminais de ônibus e 250 linhas que servem as mais diferentes regiões da cidade. Todos foram pegos de surpresa. E a coisa não parou aí, foi muito mais longe.

Também ao contrário do que acontece nas greves, os ônibus das empresas afetadas - que detêm 62% da frota - não foram deixados nas garagens. Foram levados para as ruas, como se fosse um dia normal de trabalho, e a partir das 9h30 os motoristas e cobradores os pararam, colocaram para fora os passageiros - abandonados no meio do caminho - e em seguida os estacionaram, aos milhares, em filas intermináveis, ao longo de ruas, avenidas, pontes e viadutos. Outros foram atravessados em vias públicas para bloqueá-las totalmente. E, para dificultar uma possível remoção dos veículos, eles tiveram pneus furados ou esvaziados.

Não há exagero, portanto, em dizer que os "grevistas" agiram deliberadamente para prejudicar tanto quanto possível os passageiros de ônibus, obrigados a completar seus percursos a pé ou - os que tiveram sorte - em metrô e trens ainda mais lotados que o normal, e os usuários de carros, que ficaram presos em enormes congestionamentos.

A gravidade dessa situação e os sofrimentos que ela impôs aos paulistanos tornam especialmente condenável a atitude adotada diante dela pelas autoridades de segurança pública. Se são discutíveis - porque por trás disso certamente estão motivações políticas - a acusação de "sabotagem" feita pelo prefeito Fernando Haddad aos "grevistas" e a intenção manifestada por ele de acionar a Polícia Federal para cuidar do caso, pois ela nada tem a ver com isso, o mesmo não se aplica ao que disse seu secretário de Transporte, Jilmar Tatto, sobre o comportamento da Polícia Militar (PM).

Segundo ele, a PM adotou uma atitude de "passividade" diante dos ônibus estacionados nas ruas de forma a prejudicar ou mesmo impedir a circulação. Se a polícia tivesse agido prontamente, disse ele, teria desencorajado a continuação dessa prática.

Não há como negar que a acusação procede. Por isso, é inaceitável a resposta da Secretaria da Segurança Pública de que a acusação de Tatto é um "escárnio". Escárnio é essa resposta.

Mais lamentável ainda, por causa de sua alta posição, foi a declaração do governador Geraldo Alckmin de que essa greve é um assunto municipal, estando a solução do problema fora da alçada do Estado.

A PM tinha, sim, de intervir com o rigor exigido pela situação e promover, pelos meios adequados, a retirada dos ônibus das ruas. A grave situação vivida pela cidade exigia que ela fosse colocada acima de disputas políticas.

Foi um claro problema de atentado à ordem pública, e é de perguntar se as autoridades que não percebem isso podem mesmo ocupar os cargos que ocupam.

Ontem houve um recuo do governo estadual, que mandou a Polícia Civil abrir inquérito sobre o caso e determinou à PM que reforce o policiamento nos terminais de ônibus. Mas infelizmente isso ainda é pouco diante da gravidade da situação.

Tudo bem. Ou, podia ser pior

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

Se foi bom, então as críticas são ataques eleitoreiros da oposição e da chamada grande imprensa. Se foi mau, paciência, pessoal

Há três linhas de propaganda no governo Dilma. A primeira é de defesa (linha Mantega, do vai tudo bem no Brasil); a segunda é de ataque (dos ministros Mercadante e Gilberto Carvalho, por exemplo, segundo os quais a imprensa e a oposição tentam criar falsas tempestades); e a terceira é uma velha conhecida, a linha do qual é o problema?

Dá para explicar qualquer coisa. Por exemplo: a compra da refinaria de Pasadena foi um bom negócio, como diz o ex-presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli, ou um mau negócio, como disseram Dilma e Graça Foster, a atual presidente da estatal?

Não importa.

Se foi bom, então, as críticas são ataques eleitoreiros da oposição e da assim chamada grande imprensa. Se foi mau, paciência, pessoal, essas coisas acontecem. Qualquer empresa do mundo comete erros, não é mesmo?

Todas as análises que mostram problemas na gestão da Petrobras, inclusive as derivadas dos balanços da própria empresa, recebem tripla resposta.

Primeira: a companhia vai muito bem, já tira petróleo do pré-sal, como, aliás, garante a intensa propaganda da estatal.

Segunda: oposição e imprensa disseram que a Petrobras estava falida e ia quebrar. Não quebrou.

A terceira é o modo de lidar com fatos que não podem ser ignorados, como o grande desastre da Refinaria Abreu e Lima: começou custando US$ 2 bilhões e já deveria estar pronta; pois demora mais um pouco e vai sair por US$ 20 bilhões. Pois é, diz o pessoal do governo e do PT, um erro, aconteceu, estamos consertando. Agora, a refinaria vai.

E a, digamos, circunstância de a bilionária obra ter sido liderada por Paulo Roberto Costa, preso pela Polícia Federal, acusado de desviar dinheiro para partidos do governo?

Bom, de fato, um problema, mas tudo será apurado, inclusive pela CPI governista do Senado.

A linha Mantega tem um truque. Arranjar sempre algum país que está pior. O Brasil está crescendo pouco? Nem tanto, tem uma crise mundial e, além disso, a Grécia...

Como esse truque foi perdendo eficácia — pois os países emergentes normais estão, de fato, em situação melhor — foi preciso arranjar outra comparação. Esta: o Brasil está melhor do que a oposição e a imprensa anunciaram.

Para isso, é preciso carregar no quadro atribuído aos “inimigos do país’’. O grande inspirador dessa linha é o próprio Lula.

Ainda ontem, o ministro Gilberto Carvalho dizia que, lendo os jornais, se tem a impressão que “o Brasil quebra amanhã’’. O ministro Mercadante diz que a oposição e a imprensa anunciaram a “tempestade perfeita’’ — com recessão, inflação disparada, falta de energia, perda do grau de investimento, juros altos etc. Também anunciaram, acrescentam, que ia dar tudo errado na Copa.

E nada disso aconteceu, garantem, triunfantes, esses membros do governo e do PT.

Com isso, o pessoal do governo tenta escapar da situação contrária: na verdade, o país mostra um desempenho pior do que o anunciado pelo próprio governo.

Ninguém disse que o Brasil ia acabar ou que racionamento de energia era fatal ou que a Copa não sairia. O que muita gente dizia, e diz, é o que está acontecendo: o país foi jogado numa armadilha de crescimento baixo, com inflação alta e juros na lua.

E o fato é que, no período Dilma, a economia cresce menos do que 2% ao ano, muito abaixo do “4,5% a 5%’’ alardeados pela própria presidente. A taxa de juros real voltou a ultrapassar os 4% ao ano, o dobro dos 2% previstos pela presidente. E a inflação caminha na casa dos 6%, sempre acima da meta de 4,5%, apesar dos controles de preços. A tarifa de energia está subindo de novo, com o setor metido em desequilíbrio financeiro e gastando toda energia de que dispõe.

E a Petrobras? Ninguém disse que ia falir, mas que poderia estar melhor do que hoje, se não tivessem ocorrido tantos erros e sabe-se lá o que mais.

E a Copa? Está saindo como muita gente dizia, atrapalhada, cara e com obras incompletas.

Mas o brasileiro, diz o governo, quer a Copa e vai torcer, assim como gosta do Brasil.

Verdade. Mas pode ser como na Copa das Confederações: o público cantou o Hino, vibrou com o time e... vaiou a presidente.

DESEMPREGO
Nisso tudo, o dado do desemprego é crucial. O governo fez do desemprego a 5% uma marca. É o que diz a pesquisa tradicional do IBGE, medindo emprego e renda nas seis principais regiões metropolitanas.

Mas, e se o desemprego for de 7%, como diz a Pnad Contínua, outra pesquisa, nacional, do IBGE? A coisa muda. É maior que a taxa dos EUA.

Por isso, essa Pnad Contínua causou tanto desconforto. É difícil responder em qualquer linha.

Salada indigesta

Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

Convencionou-se no mundo político que, a princípio, qualquer tipo de aliança partidária é uma boa jogada. Ainda que algumas se assemelhem a casamentos de jacarés com cobras d'água.

A lei permite que seja assim. Mas permite porque os senhores parlamentares decidiram mudar a Constituição para que assim passasse a ser permitido. Foi em 2006. Desde então, virou letra morta a obrigação dos partidos de reproduzirem nas eleições estaduais as alianças feitas para a disputa presidencial.
Derrubada a chamada verticalização, ficou institucionalizada a balbúrdia partidária. Cada um faz o que bem entender. Ninguém pode reclamar de ninguém, pois não há quem esteja incorrendo em ilegalidade. Muito embora seja tudo muito questionável sob o aspecto da legitimidade.

O assunto é recorrente. Sua abordagem justifica-se a cada eleição porque a prática da geleia geral é permanente e pelo visto perene. Reforma política? Pois sim. Da boca para fora raros são os políticos a defender a liberalização geral tal como está hoje em vigor. A maioria teoriza a favor da organização "vertical" como forma de fortalecimento dos partidos.

Na prática a conversa é outra. Primeiro porque suas excelências não sossegaram enquanto não derrubaram a interpretação constitucional da Justiça segundo a qual os partidos, tendo caráter nacional, conforme determinou o legislador constituinte, precisam necessariamente uniformizar nacionalmente suas coligações.

Em segundo lugar, e principalmente, porque a situação do cada um por si é extremamente confortável para todos. Se o eleitor não entende coisa alguma dessa salada indigesta, pior para o eleitor. Vire-se e vote.

Neste ano não será diferente. A situação apenas vai se repetir de maneira mais acentuada País afora em decorrência da insatisfação dos partidos ditos governistas com a candidata à reeleição e dos índices de popularidade adversos da presidente Dilma Rousseff nas pesquisas.

O mais provável é que ela tenha uma aliança formal ampla, com grande tempo no horário eleitoral. E aí termina o compromisso dos partidos. No Rio Grande do Sul, por exemplo, o PP fica com a candidata que apoiará Aécio Neves e o PMDB com o candidato que fará campanha para Eduardo Campos.

No Rio, o governador pemedebista assegura apoio a Dilma e o controlador de fato do PMDB põe os correligionários em busca de votos para o tucano Aécio. Em São Paulo temos o ex-prefeito Gilberto Kassab hoje em dúvida entre manter a candidatura ao governo ou concorrer a vice do PMDB ou do PSDB de Geraldo Alckmin.

O inusitado desta última hipótese é que Kassab, Alckmin e Aécio nos últimos tempos diziam-se desafetos assumidos. Os tucanos, no entanto, concluíram que precisam do PSD para enfrentar o PT e o ex-prefeito vê com naturalidade a reaproximação. E onde ficam as antigas críticas? Arquivadas em nome da eleição. Diga-se, não são os únicos.

Mas, se aceitar compor a chapa com Alckmin tendo acertado apoio a Dilma, como Kassab ficará em relação à candidatura presidencial de Aécio em São Paulo? Simples, não irá ao palanque da presidente.
Na opinião dele, nenhum problema. "No Brasil todo vai ser assim."

Eis o problema.

Meirelles. 
O ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles foi de fato procurado pelo tucano Aécio Neves depois que publicou um artigo com críticas à política econômica do governo Dilma. Não será, contudo, vice porque o apoio do PSD à presidente está fechado.

Isso não impede que Meirelles venha a declarar apoio pessoal ao PSDB. Kassab não será obstáculo.

Bem observado. 
Constatação de um espectador profissional da cena política: há dois tipos de "volta, Lula". O do PT tem medo que Dilma perca a eleição e o do PMDB tem medo que ela ganhe.


Um conto de dois partidos

Demétrio Magnoli
O Globo

Declínio petista não foi replicado por recuperação dos tucanos. A curva histórica declinante do PSDB acentuou-se ao longo dos governos do PT

Vermelho ou azul? PT ou PSDB? O PT controla o governo federal há quase 12 anos; o PSDB o controlou durante os oito anos anteriores. Lula e FH polarizam paixões políticas conflitantes. Não por acaso, a análise política convencional, refratada pela imprensa e nas redes sociais, costuma retratar o sistema político brasileiro à luz do modelo bipartidário. A série histórica de pesquisas do Ibope evidencia que esse modelo chegou a funcionar como uma simplificação razoável ao longo dos mandatos de FH, mas se tornou completamente inadequado desde a ascensão de Lula ao Palácio do Planalto. Hoje, só existe um grande partido nacional, que é o PT. Entretanto, o partido dominante ingressou numa nítida, talvez irreversível, trajetória de declínio.

Uma pesquisa realizada em 1988, nos meses derradeiros da Assembleia Constituinte, revelou que o PSDB tinha a preferência de quase 25% dos eleitores, enquanto o PT contava com apenas 12%. Contudo, os dois partidos percorriam trajetórias históricas inversas: em 1995, no início do primeiro governo FH, o PT assumiu a dianteira com 22% das preferências, e, em 1999, menos de um ano após a reeleição, a disputa estava igualada, com 18% para cada um. Três anos mais tarde, durante a campanha que conduziria Lula à Presidência e impulsionado pelas crises do segundo mandato tucano, o PT atingiu o seu apogeu, convertendo-se no partido de 34% do eleitorado.

Três governos petistas sucessivos inverteram o sentido da trajetória. A última pesquisa da série, realizada em março, mostrou o PT de volta a 1995: são 21% os que, hoje, preferem o partido. Contudo, o retorno às taxas de duas décadas atrás é uma ilusão estatística. A base eleitoral petista sofreu mudanças dramáticas no plano etário. No período 1995-2002, tempos de oposição a FH, os jovens com até 24 anos representavam 27% dos eleitores do partido, mais que os 25% de eleitores com mais de 40 anos. Hoje, em contraste, entre os que declaram voto no PT, apenas 17% são jovens, enquanto 38% têm mais de 45 anos.

A distribuição etária do eleitorado petista é um espelho bastante fiel da pirâmide etária brasileira. De um lado, isso atesta o enraizamento social do partido, que é um traço marcante na paisagem política do país. De outro, indica que o PT não mais se identifica com a aspiração de mudança. O partido de Lula converteu-se em pilar da ordem — ou melhor, da “velha ordem’’. Sua mais recente peça de propaganda tenta atemorizar os espectadores contrapondo o presente (supostamente estável e próspero) ao passado (supostamente desastroso). A renúncia ao discurso sobre o futuro, mesmo se justificado pelas circunstâncias perigosas que cercam a campanha de reeleição de Dilma, atesta o encerramento de um ciclo. No fim, o medo derrotou a esperança.

A base eleitoral petista também se deslocou regionalmente. Em 1995, o Sudeste concentrava mais da metade do eleitorado do partido e o Nordeste, apenas 24%. Hoje, são 43% e 32%. No Sul, estão apenas 9% dos que declaram voto no PT. O partido de Lula nasceu em São Paulo e se consolidou com os triunfos eleitorais de Luiza Erundina, na capital paulista, e de Olívio Dutra, em Porto Alegre, ambos em 1988. Na última década, a preferência pelo partido tornou-se mais rarefeita na heterogênea classe média do Centro-Sul, que abrange os trabalhadores qualificados. Ao mesmo tempo, expandiu-se no Nordeste, região mais dependente das transferências de recursos do governo federal, sob o influxo tanto dos aumentos reais no salário mínimo e nas aposentadorias quanto no Bolsa Família. A relativa “nordestinização” do PT não indica força: eleitoralmente, o partido depende cada vez mais do controle da máquina de Estado.

O declínio petista não foi replicado por uma recuperação dos tucanos. Ao contrário do que sugeriria o modelo bipartidário, a curva histórica declinante do PSDB acentuou-se ao longo dos governos petistas. Dos 18% do eleitorado de 1999, o partido de FH recuou para 14%, em 2001, e 8%, em 2006, quando foi ultrapassado pelo PMDB, até atingir a melancólica marca dos atuais 5%. Em contraste com o PT, os tucanos fracassaram no imperativo de formular uma narrativa política oposicionista — um fracasso, aliás, patente durante as campanhas presidenciais de Geraldo Alckmin e José Serra. O eleitorado que debandou do PT não rumou para a esquerda, como atesta a crônica fraqueza do PSOL, mas dispersou-se e, em parte, dirigiu-se para a utopia gelatinosa de Marina Silva. Já o PSDB parece ter perdido simpatizantes para todos os demais partidos — e, em especial, para a aversão profunda ao sistema político-partidário tão bem exposta durante as “jornadas de junho” do ano passado.

O panorama político não pode ser descrito nos termos do modelo bipartidário, mas exibe notável polarização. O Brasil tem um único grande partido nacional, mas também uma disseminada resistência à hegemonia petista. FH se elegeu e se reelegeu no primeiro turno. Lula só carimbou a reeleição no segundo turno e Dilma, igualmente, precisou dele — apesar, nos dois casos, das conjunturas econômicas favoráveis que impulsionavam as candidaturas governistas e da notória ausência de um discurso oposicionista coerente. O projeto continuísta de Dilma enfrenta o desafio da reversão do ciclo econômico, mas, ainda assim, pode ter sucesso, pois o PSDB carrega o fardo da reiterada incompetência de fazer oposição.

As sondagens eleitorais descortinam um cenário atravessado pela aspiração de mudança. Diferentemente de 2006 e 2010, a derrota do governo seria um resultado mais normal que a vitória nas eleições que se avizinham. Contudo, um triunfo tucano depende crucialmente da capacidade de Aécio Neves produzir uma pequena mágica: o candidato precisaria conectar-se com as ruas, dizendo em poucos meses aquilo que seu partido não disse em tantos anos. Na TV, o PT acaba de desafiá-lo a fazer isso.

O complexo do mega-Brasil

Ruth De Aquino
Revista ÉPOCA

Por que prometer a "Copa das Copas"? Por que não só uma Copinha alegre e hospitaleira?


O problema do Brasil não é ter complexo de vira-lata, mas cultivar a obsessão do “mega”. Uma obsessão cafona e perniciosa. Tudo precisa ser o “maior do mundo”. E assim foi o Maracanã em 1950, construído em apenas dois anos. Que inveja de nós mesmos.

Por que prometer a “Copa das Copas”? Por que não se conformar com uma Copinha alegre e hospitaleira, organizada e bem planejada, com dignidade? Não está no DNA tupiniquim? A ostentação é coisa nossa. A construção de Brasília é um dos exemplos do megadesperdício – seu estádio, agora, é uma continuação da megaincompetência na gestão de quase tudo.

Só um país sem noção como o nosso, com tantos problemas sérios e crônicos de prazos, infraestrutura, internet e transporte, numa área continental, resolve submeter estrangeiros e brasileiros a uma Copa em 12 sedes.

O Brasil populista é mais megalomaníaco. As promessas ufanistas são típicas do populismo, de direita ou esquerda. Conclamar as massas ao patriotismo e a cerrar fileiras contra inimigos internos ou externos é um recurso primário, que já deu muito errado na história da humanidade.

A Copa mais bilionária das Copas passa a atrair, no gramado esburacado das ruas, a ira de uma população descontente e dos vândalos de ocasião. As cenas em Pernambuco, de saques de multidões, durante a greve da PM, são assustadoras, pela anarquia e pelos risos dos assaltantes, muitos menores de idade ou pais e mães.

É essa a população que se beneficia das bolsas do governo do PT? Imagens e relatos de um país lúmpen rodam o mundo. As fezes, lixos e pneus no mar, lagos e baías. Os ônibus depredados e incendiados. As lojas e escolas fechadas por medo de violência. As filas da vergonha nos hospitais públicos. Os confrontos sangrentos nas favelas. O vaso sanitário arremessado em pleno estádio, que matou um torcedor. Não foi uma banana, foi uma privada.

Por enquanto, a Copa das Copas se traduz pelo lado negativo. O maior atraso do mundo nas obras de estádios e aeroportos. A maior desorganização e falta de planejamento. O maior número de operários mortos. As maiores manifestações contra a Copa. Os maiores problemas nos aeroportos inacabados. Os custos mais altos. Os maiores preços nos hotéis. É o mega-Brasil em ação. Pra frente Brasil, salve a Seleção.

O grau de frustração segue o grau de promessas não cumpridas. Não fique de queixo caído, pessoal do Planalto. É só puxar pela memória e ler. A Refinaria Premium 1, no Maranhão, anunciada com estardalhaço por Lula e Dilma em 2010, deveria ser “a maior do país”. Uma megarrefinaria. Deveria gerar 25 mil empregos. Está parada. Foi orçada em R$ 38 bilhões pela Petrobras. O mesmo aconteceu com muitas obras.

Uma sondagem da Fundação Getulio Vargas revelou que o Brasil terá o terceiro pior PIB da América Latina neste ano. É a pior avaliação desde 1999, segundo a FGV.

A coisa está tão feia que a presidente Dilma Rousseff, gerentona do caos, fez um apelo na quinta-feira, para que os brasileiros recebam bem os torcedores nacionais e estrangeiros durante a competição. “Ninguém que vem aqui leva consigo, na sua mala, aeroporto, porto, obras de mobilidade urbana e estádios. Eles podem levar na mala a garantia de que este é um povo alegre e hospitaleiro.” Dilma disse que o Brasil não vai explodir, mas sim bombar em 2015. Já está bombando, mas o cheiro é de gás lacrimogêneo. O Brasil é a terra do improviso, segundo a imprensa estrangeira. Alguém discorda?

Já se prevê um festival de vaias. Dilma é vaiada. Pelé é vaiado. Bem capaz que Lula também seja. Ler que o governo Dilma prepara um Centro Integrado para proteger os turistas na Copa faz pensar no que o brasileiro enfrenta todos os dias, sem megaevento. Enfrenta uma megazona.

O Brasil sempre será assim? Só 41% das 167 intervenções prometidas para a Copa estão prontas, a 30 dias da competição. Precisamos enfeitar o passe e dar toque de calcanhar, mesmo com a meia puída. A criatividade, para ser eficaz, exige enorme disciplina. Caso contrário, até o futebol vira caricatura de nós mesmos.

Pela primeira vez em 23 anos, os clubes brasileiros estão ausentes das semifinais da Libertadores. O período de treino da Seleção para a Copa é o mais curto desde 1930 – apenas 18 dias. Só quatro dos 23 convocados por Felipão jogam no Brasil. Sete jogadores brasileiros lutarão contra os canarinhos, com uniformes de seleções estrangeiras.

Há um descrédito profundo no jeitinho verde-amarelo. Não precisamos virar alemães ou japoneses. Eles não são ideais de nada se contemplarmos a História. Podemos ser melhores se reivindicarmos com firmeza e serenidade nossos direitos. Sem cair na lorota de políticos caras de pau. Porque pernas de pau não somos. Quem sabe será esse o verdadeiro legado da Copa?

Onze anos em sete meses?

O Estado de S.Paulo

Mais de 11 anos depois de ter chegado ao poder, e só às vésperas do início oficial da campanha eleitoral - que já colocou nas ruas - para tentar obter mais quatro anos a partir de janeiro de 2015, o governo do PT anuncia ter pronto um grande plano de obras rodoviárias para todo o País. Decerto o País carece, e não é de hoje, de uma malha rodoviária extensa e, sobretudo, em boas condições de operação para facilitar a circulação de bens e pessoas, reduzir os riscos de acidentes e evitar custos adicionais a seus usuários, razão pela qual seria muito bem-vinda uma ação eficaz do poder público nesse sentido.

No entanto, não é crível que o governo tenha êxito com seu novo e mirabolante plano rodoviário - "mais de uma licitação por dia até o fim do ano", anuncia o diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), general Jorge Fraxe. Faltando pouco mais de sete meses para o encerramento do terceiro período presidencial do PT, a elite desse partido fez muito pouco na área de infraestrutura.

O Dnit e os planos rodoviários sintetizam os graves problemas que marcaram os 11 anos e meio da gestão do PT, retardaram os investimentos, implicaram perdas para os contribuintes e deixaram rastros de irregularidades, como favorecimentos para empresas privadas e ganhos ilícitos para ocupantes de cargos públicos.

O atual diretor-geral do Dnit foi colocado no posto para, em primeiro lugar, fazer uma limpeza no órgão que, há três anos, foi apontado como centro de um esquema de propinas e superfaturamento de obras. O Dnit foi controlado até meados de 2011 por pessoas indicadas pelo PR, partido da base governista no Congresso e que havia indicado também o ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento. Afastado durante as investigações das denúncias de que representantes do partido teriam montado no Dnit um esquema de recebimento de propinas de empreiteiras, o diretor-geral na época, Luiz Antônio Pagot, foi depois demitido e substituído pelo atual.

No início de sua gestão, o general Fraxe reviu contratos para afastar do Dnit as suspeitas que ainda restassem de atos irregulares e procurou dar ao órgão a competência técnica que dele se espera, dadas suas responsabilidades na ampliação e manutenção da extensa malha rodoviária federal. O Dnit não conseguiu, porém, desfazer sua imagem de lentidão.

Mesmo que o Dnit passasse a agir com a presteza exigida pela carência de infraestrutura no País, qualquer programa rodoviário federal seria tolhido, como tem sido, pela formação ideológica dos governantes petistas, contrária à participação do capital privado na prestação de serviços públicos.

Apesar da notória escassez de recursos públicos para a execução de obras, o governo do PT resistiu durante anos à participação do capital privado no setor rodoviário. O governo Dilma, quando finalmente aceitou a realidade, o fez de maneira equivocada, impondo aos investidores condições insustentáveis do ponto de vista econômico e financeiro. Interessante para o usuário, a chamada modicidade tarifária veio, porém, acompanhada da imposição de limites muito baixos para o cálculo da rentabilidade da operação ao longo do período de concessão, o que limitou o interesse dos investidores.

O fracasso, em setembro do ano passado, do leilão de concessão da Rodovia BR-262, entre Espírito Santo e Minas Gerais (não houve ofertas, dadas as condições impostas), obrigou o governo a rever as regras para os leilões seguintes.

O programa rodoviário, enfim, chegou com muito atraso, e os obstáculos criados pelo governo, além de sua limitada competência gerencial - notória também nos planos de concessão de ferrovias e de terminais portuários, que ainda não saíram do papel -, devem reduzir o ritmo de seu avanço.

O governo Dilma promete fazer, em sete meses, 400 licitações, investir R$ 8 bilhões em estradas, contornos, anéis rodoviários, pontes, viadutos e travessias de cidades, num total de 6,4 mil quilômetros de obras. Conhecendo seu histórico, dá para acreditar?

Diante do espelho

José Casado
O Globo

‘O que aconteceu?’ — talvez seja a melhor pergunta que a candidata Dilma possa fazer para a presidente. Resposta sincera seria confissão, sem absolvição

Começa amanhã uma nova rodada de pesquisas de intenção de voto em todo o país. PT, PSDB e PSB informam não apostar em surpresas na tendência do eleitorado quanto à disputa presidencial. Concentram atenção na expectativa de mudanças a partir de 2015.

Por isso, pesquisadores do Ibope, por exemplo, voltam às ruas de mais de 700 cidades com uma pergunta objetiva: “Gostaria que mudasse totalmente o governo do país?”

Mês passado, mais de dois terços (68%) dos entrevistados do Ibope disseram esperar alguma mudança na forma de governar o país. Quando questionados se desejavam mudar “com Dilma no governo ou com outro presidente’’, 64% indicaram “outro presidente’’, 25% citaram “Dilma” e 11% não souberam dizer ou não responderam.

Esse retrato, confirmado em outras pesquisas, mostra um ambiente político diferente — e contrário — ao dos meses anteriores à eleição de Dilma Rousseff, em 2010, quando a simples continuidade de governo era percebida como um valor. Na prática, reafirma-se hoje algo perceptível nas ruas desde o ano passado.

Avançou a percepção de perda de horizonte de progresso pessoal e coletivo. Em campanha, isso dá realce à crítica sobre a gerência rudimentar do governo em serviços básicos como saúde, educação, transporte e segurança, pelos quais se paga 36% do Produto Interno Bruto em tributos — carga equivalente à média da Europa.

As pesquisas, em geral, espelham uma ansiedade por crescimento econômico com serviços públicos de melhor qualidade.

Nos últimos três anos o país cresceu à média de 1,9% (aumento do PIB, descontada a inflação). Esse ritmo de avanço é dos menores da história da República, demonstra Reinaldo Gonçalves no livro “Desenvolvimento às avessas’’.

Ao comparar o desempenho de Dilma com o de outros 29 presidentes, no período entre 1890 e 2014, ele conclui que o atual governo estacionou em 28º lugar, com o terceiro pior desempenho da história republicana: “Só não perde para os de Fernando Collor (queda de 1,3% no PIB) e Floriano Peixoto (declínio de 7,5%).”

Sob Collor, ressalva, o país enfrentou crise institucional (com impeachment), e com Floriano atravessou autêntica guerra civil — “a capital (o Rio) foi bombardeada durante seis meses’’.

O quadro não melhora quando o Brasil de Dilma é observado no mapa-múndi. Entre 2011 e 2013, a economia brasileira cresceu 2,5%; e a mundial, 3,5%.

O país (com 1,9%) ficou abaixo da metade da média de crescimento (4,3%) de 152 países em desenvolvimento — entre os 188 acompanhados pelo Fundo Monetário Internacional, esclarece Gonçalves. A situação permanece ruim quando se compara à vizinhança: os 32 países da América Latina e do Caribe cresceram muito mais (3,2%).

Em 2010, Dilma Rousseff se apresentou, com êxito, como melhor alternativa para “gerenciar” o progresso dos brasileiros. Hoje, informam as pesquisas, apenas um em cada quatro eleitores a reconhecem como opção para realizar as mudanças desejadas. “O que aconteceu?” — talvez seja a melhor pergunta que a candidata Dilma possa fazer para a presidente na intimidade do espelho. Resposta sincera seria confissão, sem absolvição.


O desastre em números

O Estado de S.Paulo

O falatório triunfal da presidente Dilma Rousseff, empenhada cada vez mais em fazer campanha e cada vez menos em governar, foi desmentido mais uma vez por números oficiais. A economia continua emperrada e nem a repetição de um resultado pífio como o do ano passado está garantido, segundo o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), considerado uma prévia do Produto Interno Bruto (PIB). A atividade encolheu 0,11% de fevereiro para março e no primeiro trimestre foi apenas 0,3% maior que nos últimos três meses de 2013. Esses e outros dados apontam um começo de ano muito ruim, com indústria em ritmo de tartaruga, inflação elevada, contas externas em mau estado e muita desconfiança entre empresários, investidores e consumidores.

Em março, a atividade foi 0,27% mais alta que a de março de 2013, na série depurada de efeitos sazonais. A média do trimestre foi 1,02% maior que a de janeiro a março do ano passado. Em 12 meses o crescimento acumulado ficou em 2,11%. Além de muito fracos, os números apontam uma desaceleração iniciada em novembro.

Com base no material do BC, consultorias e departamentos econômicos de bancos tentaram estimar, já na manhã de sexta-feira, a evolução do PIB nos primeiros três meses deste ano. Os primeiros resultados ficaram entre crescimento zero e um avanço muito pequeno. Nesta altura, mesmo as taxas de expansão projetadas para o ano, geralmente abaixo de 2%, parecem otimistas, segundo técnicos do mercado.

Na segunda-feira, o BC havia divulgado a mediana das projeções coletadas na sexta-feira anterior na pesquisa Focus, uma consulta semanal a cerca de cem consultorias e instituições financeiras. Essa mediana havia subido de 1,63% para 1,69%. Apesar da ligeira elevação, continuava abaixo da estimativa publicada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) na segunda semana de abril: 1,8%.

Projeções são sujeitas a erros e apenas para especulação vale a pena apostar neste ou naquele número, quando as diferenças, para todos os demais efeitos, são pouco relevantes. Neste caso, o ponto importante parece muito claro: nenhuma estimativa, nem mesmo do governo, aponta para um desempenho econômico muito melhor que o do ano passado.

Pela primeira estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o PIB cresceu 2,3% em 2013. A segunda estimativa deverá refletir, entre outros fatores, o novo critério de cálculo da produção industrial, com universo maior e nova ponderação dos subsetores. Com essa mudança, o aumento do PIB da indústria passou de 1,2% para 2,3%.

Essa alteração, tomada isoladamente, dificilmente levará o cálculo total do PIB a um resultado muito melhor que o já divulgado. Em resumo, os dados oficiais do ano passado continuarão ruins - ou muito ruins, se comparados com os de outros países emergentes - e os números deste ano só serão melhores que os de 2o13 se algum fator especial turbinar a produção nos meses restantes. Nenhum fenômeno desse tipo parece ter ocorrido a partir de abril.

Até o estímulo ao consumo, linha principal da política econômica nos últimos anos, parece perder eficácia. O crédito continua em expansão, mas em ritmo mais lento que nos anos anteriores e os juros estão mais altos. Além disso, a redução do estímulo fiscal seletivo já se reflete no menor dinamismo da indústria automobilística. Como complemento, a inflação persistente afeta o poder de compra das famílias e reduz o entusiasmo dos consumidores. Em março, o comércio varejista restrito vendeu 1,1% menos que um ano antes. O comércio ampliado (com inclusão de veículos, autopeças e material de construção) ficou 5,7% abaixo do nível de março de 2013. O resultado é explicável principalmente pelo setor de veículos e componentes, com vendas 16% inferiores às do mesmo mês do ano anterior.

Esse quadro é consequência previsível de uma política centrada no estímulo ao consumo, sem preocupação com a produtividade e com inegável tolerância à inflação. Até agora, a reação do governo tem consistido em prometer mais do mesmo.

Razão e emoção

Merval Pereira
 O Globo

O que já desandou na estratégia política governista foi a realização da Copa do Mundo como instrumento galvanizador dos anseios nacionais

No limiar do que promete ser a disputa mais acirrada para a Presidência da República dos últimos 20 anos, estamos entrando em uma campanha política em que os recursos da moderna propaganda serão usados à exaustão para explorar as descobertas mais recentes da neurociência, que já definiu que o eleitor vota mais com a emoção do que com a razão.

O sociólogo Manuel Castells, baseado também em estudos da neurociência, diz que o medo é a emoção primária fundamental, a mais importante de nossa vida a influenciar as informações que alguém recebe.

O livro de John Mearsheimer sobre o hábito de mentir dos governantes, da Editora Zahar, debruça-se sobre o que ele chama de mentiras estratégicas, e uma das muitas facetas dessas mentiras para o bem da pátria é a difusão do medo.

Está aí a raiz da recente propaganda partidária do PT, apelando para o receio do que classificam de retrocesso caso a sigla seja derrotada nas urnas. Para se contrapor à tendência à mudança que as pesquisas apontam como a principal motivação para o voto nesta eleição.

É interessante observar que, embora esteja na frente nas pesquisas, a presidente Dilma concorre à reeleição com dificuldades que a fazem dizer uma frase como a revelada por Renato Maurício Prado no GLOBO, num encontro da presidente com jornalistas esportivos recentemente no Palácio da Alvorada em Brasília: É a minha hora. E vou até o fim. Perdendo ou ganhando.

As primeiras campanhas propagandísticas com vistas à reeleição foram realizadas com o objetivo de evitar a derrota, o que indica uma fragilidade que não seria de se supor em uma presidente de posse de todas as forças inerentes ao cargo que ocupa. O que revela que ela não tem pleno controle dessas forças.

Não é de estranhar que esse tenha sido o caminho escolhido pelo marqueteiro João Santana, que já admitiu certa vez que, numa campanha, trabalham-se produções simbólicas, tentando captar o imaginário da população, não exatamente a verdade dos fatos.

Nessa guerra que se avizinha, como em todas as guerras, a verdade é a primeira vítima, na frase famosa atribuída geralmente ao senador americano Hiram Johnson. Em sua obra A República, Platão afirma que os governantes têm o direito de não dizer a verdade para os cidadãos, e até mesmo de mentir no interesse da própria cidade.

O governo Dilma leva essa permissão platônica ao pé da letra e cria um mundo de ficção que esbarra na realidade. É o caso dos aeroportos, que Dilma declarou ontem prontos para receber os milhões de turistas esperados para a Copa.

É por isso que estamos vendo um verdadeiro festival de traições nos bastidores da política, à medida que a campanha eleitoral vai se aproximando das datas marcadas pelo calendário oficial para a definição das candidaturas.

Quem mais sofre nessas situações é o governo, que tem mais a perder do que a depauperada oposição. A começar pelos minutos de propaganda oficial, que podem dar a Dilma quase três vezes o tempo do candidato em 2º nas pesquisas, o senador Aécio Neves, do PSDB.

Cada minuto retirado da principal oponente pode valer até o dobro para a oposição, e quem tem tempo de propaganda para negociar, como o PMDB (perto de 5 minutos) ou o PSD (cerca de 2 minutos), ganha dimensões políticas que a atuação parlamentar muitas vezes não justifica.

A vice-presidência da chapa tucana está na mesa de negociações, enquanto Michel Temer, do PMDB, o vice de Dilma Rousseff, precisa ser ratificado na convenção de junho para garantir aos governistas a hegemonia na propaganda partidária.

Correndo por fora, a dupla Eduardo Campos-Marina Silva joga com a rejeição aos políticos tradicionais para superar as barreiras logísticas impostas pela fragilidade de suas bases partidárias formais.

O que já desandou na estratégia política governista foi a realização da Copa do Mundo como instrumento galvanizador dos anseios nacionais. Ao contrário, as necessidades da população nos grandes centros urbanos do país contrastam com a orgia de gastos públicos nos 12 estádios, colocando em xeque, talvez pela 1ª vez na História do país tratando-se de futebol, as prioridades do governo, definidas em detrimento das mais prementes demandas da população.

A seleção não deixará de ser a pátria de chuteiras, na definição perene de Nelson Rodrigues, mas o patriotismo não servirá de refúgio para as deficiências do governo.

O outro medo (real) do PT

João Bosco Rabello
O Estado de São Paulo

A necessidade de desconstruir o discurso da oposição em relação à economia, mostrando-o como um retrocesso social, impôs ao governo o ônus de aprofundar o fosso que o separa do mercado, consolidando a expectativa de que um eventual êxito na reeleição representará o agravamento da atual política intervencionista.

O discurso da presidente Dilma Rousseff, de seu antecessor, Lula, e, agora, do ministro da Casa Civil, Aloísio Mercadante (Folha de S.Paulo de hoje), revelam sintonia e sincronia indicadores de que a mensagem eleitoral prevalece como versão de momento, mascarando a realidade do ajuste inevitável em 2015.

O conteúdo dos três está resumido eleitoralmente na propaganda do PT que foi ao ar ontem nos canais de televisão aberta, reproduzindo estratégia já utilizada por candidatos em diversas eleições, de incutir no eleitor o medo de reversão de conquistas sociais, o que equivale a acusar os adversários de revogá-los se eleitos.

Na prática, a sintonia dos discursos é quebrada pelo próprio governo quando a presidente da Petrobrás, Graça Foster, anuncia o aumento da gasolina, represado às últimas consequências, desmentindo a tese insustentável do ministro Mercadante que traduz controle de preço artificial por “administração” em favor da população.

O medo que o PT tenta vender com sua propaganda partidária, no entanto, é estratégia de risco, própria das aflições políticas que se orientam justamente pelo temor da perda. O medo que semeia é o mesmo que sente e passa a orientar as ações de marketing do partido, à falta de perspectivas concretas para oferecer diante das demandas para as quais não existem respostas rápidas como convém em período eleitoral.

Para um partido que impôs ao contribuinte um aparelhamento da estrutura pública em escala inédita, uma eventual derrota do projeto de reeleição representará também a porta de saída para mais de 20 mil ocupantes de cargos de confiança só no governo federal, nomeados por critério político, o que os torna, em grande parte, insuficientes para as funções que exercem.

A conta aumenta fora do organograma dos cargos de confiança, em levantamento que ainda precisa ser feito com precisão. O fim da meritocracia responde pelos desmandos e malfeitos levantados por investigações da Polícia Federal, mas também pelo atraso e desorganização nos projetos de infraestrutura, inclusive os de caráter mais social, que o ministro Gilberto Carvalho admite como “frustrante”.

Uma das frases do programa partidário do PT pode, nesse contexto, ser aplicada a essa imensa legião de apadrinhados que experimentou uma ascensão profissional que, por mérito, não alcançaria. “Nosso emprego de hoje não pode voltar a ser o desemprego de ontem”, ofertada ao eleitor, serve também ao militante, cujo temor com o risco eleitoral anda, lado a lado, com a perspectiva da perda pessoal de status profissional.

Para esse contingente, a eventual derrota eleitoral diz respeito à sobrevivência no status novo galgado a partir da ascensão do partido ao poder, que estabeleceu a filiação e a fidelidade  partidárias como critério para a ocupação de cargos públicos, muitos dos quais estratégicos ao Estado.

“Não podemos deixar que os fantasmas do passado voltem e levem tudo o que conseguimos”,diz ainda a propaganda. O problema é que a demanda da sociedade hoje se refere ao que não foi conseguido – um vasto rol de ações que poderiam ter atenuado a complexa questão da mobilidade urbana, das más condições da Saúde, Educação e Segurança, que resumem o mau humor e o desencanto do eleitorado.

Especialmente se os sete anos que antecederam a Copa do Mundo, desde a conquista da condição de país-sede, tivessem sido usados para preparar o país para o evento, deixando, aí, sim um legado à população. O padrão Fifa reclamado para o país poderia preceder o evento esportivo, se a aversão do governo ao lucro e a falta de planejamento não o isolassem dos investidores.

Na vida real, fora da propaganda partidária, o PT continua errático. A tentativa do ministro Mercadante de transformar represamento de preços em doutrina capitalista, instrumento adequado ao controle da inflação, é a institucionalização de um discurso eleitoral que termina no dia 1º de outubro, para mostrar seu resultado recessivo em 2015.

A reeleição de Dilma, nesse contexto, a manterá de costas para o mercado num eventual segundo mandato em que a reaproximação com as forças produtivas do país e, por extensão, com os investidores, significará a negação do discurso de campanha.

Mas essa hipótese não é considerada pelo mundo capitalista: a reafirmação do discurso intervencionista na campanha consolida a desconfiança com que sempre foi olhado o governo pelos agentes econômicos, mesmo nas fases em que a presidente se empenhou em reverter esse quadro.

Seu discurso jamais traiu a convicção nas próprias teses, o que explica a resistência do mercado em absorvê-lo como dado de realidade. Foi uma questão de tempo para que a conveniência eleitoral o mostrasse como mera peça retórica para reconquistar investimentos.

Por que enterrar as verdades de agora?

José Nêumanne
O Estado de S.Paulo

Na sexta-feira, a professora Marilena Nakano fez parte de um grupo de ex-militantes contra a ditadura convidados para receberem uma homenagem prestada por movimentos sociais, sindicatos e pela Prefeitura Municipal de Mauá, na Grande São Paulo. Ela, porém, recusou-se a participar do evento por discordar ética e moralmente de alguns de seus organizadores. E aproveitou a ocasião para divulgar um documento intitulado Carta aberta de repúdio contra aqueles que desejam o poder pelo poder e fazem uso político dos mortos, presos, torturados e exilados dos tempos da ditadura como trampolim para permanecer no poder. Esse título denota uma dura condenação aos atuais donos do poder na República e situa a signatária entre os que não concordam com o uso politiqueiro do combate armado ao arbítrio militar. Ou seja, torna-a uma crítica singular dos que tentam usar os porões da repressão como comitês de campanha eleitoral.

Urge, de início, prestar um esclarecimento que convém ser dado, a começar por um questionamento. Ela própria foi vítima da crueldade e da abominação na forma com que os militares que subiram ao poder em 1964 e do qual foram apeados em 1984 com a eleição de Tancredo Neves para suceder ao último general-presidente, João Figueiredo, combateram todos quantos se opuseram ao seu arbítrio, seja de armas na mão ou protestando nas ruas. Que razões teria ela para não se acomodar às benesses do poder, tornadas possíveis nas gestões dos presidentes eleitos pelo voto direto e universal depois da queda da ditadura: Fernando Henrique, Lula da Silva e Dilma Rousseff? Na ditadura, ela militou na política estudantil e, depois, fez parte da Ação Popular (AP), grupo de extrema esquerda originado na ala progressista da Igreja Católica. Poderia agora, como alguns sobreviventes da repressão, estar à sombra de um cargo público. Mas não: preferiu ficar na posição solitária, inóspita e desconfortável de denunciar o oportunismo e a desfaçatez de ex-companheiros de jornada.

Irmã de Maria, viúva de Betinho, o "irmão do Henfil" que virou símbolo da volta dos exilados na canção O Bêbado e a Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc, tornada hino da anistia na voz de Elis Regina, a sra. Nakano carrega nas veias a chance de ser tratada como sobrevivente da porfia quixotesca do cunhado contra a fome no País. Nas três gestões petistas, cuja permanência no poder é garantida pela esmola mensal do Bolsa Família para miseráveis, ela poderia ter virado ícone do imenso curral eleitoral beneficiado pela benemerência feita com dinheiro tomado da Nação por um Fisco de apetite pantagruélico. Mas pelo mesmo motivo com que recusou a última homenagem, rejeitou também esse benefício.

Não o fez por capricho, mas por fidelidade a antigos princípios e a outros laços de família, mais recentes, com os parentes de Celso Daniel, prefeito de Santo André cujos assassinos gozam até hoje de impunidade. Ela não aceita a versão oficial de que o cunhado teria sido assassinado por acaso.

Melhor deixar que ela própria explique sua atitude. "Esses mesmos ideais que me conduziram à prisão no passado conduziram-me recentemente a viver a experiência do exílio no período de 2006 a 2010, porque ousei, com meu companheiro, Bruno José Daniel, não aceitar o silêncio como forma de agir diante do assassinato de Celso Daniel. Pelo fato de não termos abdicado ao direito à palavra, nos deparamos com nossos algozes atuais, que são capazes de tudo em nome do poder. Com uma mão eles acariciam, homenageiam e, com a outra, realizam atos que se assemelham aos praticados pelos ditadores, com os quais convivemos, mas de formas sutis, porque hoje se encontram travestidos de democratas e defensores dos trabalhadores, dos pobres de nosso país... A minha ausência é a forma de dizer que sigo na luta, que meus algozes não me farão calar, salvo se me matarem", escreveu.

Os inimigos da sra. Nakano podem argumentar que ela exagera no tom para chamar a atenção para a causa a ser perdida pela família Daniel. Trata-se de gente muito poderosa. O secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, foi acusado, em acareação, por João Francisco Daniel, irmão do prefeito morto, de transportar malas com dinheiro das mãos de Celso para as do então presidente nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), José Dirceu, hoje, como se sabe, residente no presídio da Papuda, em Brasília, por outros crimes pelos quais foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). De qualquer maneira, nunca será demais lembrar que seis pessoas envolvidas no caso foram mortas nestes 12 anos depois da morte do então coordenador do programa de campanha de Lula à Presidência em 2002.

Contra a teimosia dos Daniel argumenta-se que a polícia paulista, sob comando do PSDB e do PFL, desde então, garante que Celso foi sequestrado por bandidos que o confundiram com outra pessoa e que um menor o teria atingido de madrugada, num matagal, com uma certeira bala na testa disparada de uma distância de dez metros. Não é mesmo fácil argumentar contra isso. Mas, como o clã Daniel, o Ministério Público Estadual (MPE) desqualifica a investigação policial. E da luta de poucas esperanças de quem nega esse óbvio aparente resultam dúvidas graves. Os argumentos do MPE dormem nas gavetas do Supremo em que repousa o habeas corpus, concedido por Nelson Jobim à época em que presidiu o órgão máximo do Poder Judiciário, ao principal suspeito de quem desconfia que houve execução encomendada: Sérgio Gomes da Silva.

A carta da sra. Nakano soa como cobrança para o STF decidir já sobre isso. E provoca uma desconfiança: por que o governo, que manda exumar cadáveres enterrados há mais de 40 anos, empenha sua força no Congresso para manter sob sete palmos de terra verdades atuais, como o arrombamento dos cofres da Petrobrás?

Polícia Federal poderá deixar de emitir passaportes

Veja online

De acordo com o Ministério da Justiça, Itamaraty será procurado para acumular a função. Ainda não há posicionamento oficial sobre a alteração

(Marcos Santos/USP) 
Passaporte brasileiro 

O Ministério da Justiça e a Polícia Federal analisam a possibilidade da polícia não ser mais responsável pela emissão de passaportes. Os dois órgãos estudam transferir a função ao Itamaraty. 

A ideia da Justiça é manter a PF como polícia judiciária e voltada para investigações. Numa espécie de restruturação, atividades administrativas devem sair do âmbito da instituição. "A PF deve deixar cada vez mais as funções administrativas com outros órgãos", afirmou o ministro José Eduardo Cardozo ao jornal Valor Econômico. 

A direção-geral da PF apoia a medida. A avaliação interna de delegados e agentes é de que a atividade, além de burocrática, não tem relação com o propósito da atividade policial. A PF alega que, como o passaporte é seguro e difícil de ser falsificado, não há necessidade de ser expedido pelo órgão. A instituição ficaria apenas com o controle das informações sobre passaportes, para efeito de registro de entrada e saída de pessoas do país e realização de investigações.

Para que a medida seja efetiva é necessário confirmar a transferência das emissões de passaportes para outra pasta do governo e a tendência é a de que o Ministério das Relações Exteriores seja procurado para absorver essa tarefa. Procurado, o Itamaraty informou que não há entendimentos para que o órgão se torne responsável pelo procedimento e que ainda não vai se pronunciar sobre a possível transferência de função. No Brasil, apenas passaportes diplomáticos e oficiais são emitidos pela Pasta.

A PF alega que o serviço atualmente é 90% terceirizado nos Estados e poderia ser transferido para outro órgão administrativo. A sucursal de São Paulo emite, em média, três mil passaportes por dia. Mesmo assim, o sistema é ineficaz. Com frequência há falhas nas emissões de passaportes. 

Falta autoridade

Carlos Chagas
Tribuna da Imprensa

Falta autoridade no país. Nada que se confunda com ditadura ou regime de exceção. Pelo contrário. Torna-se imprescindível demonstrar que democracia não é sinônimo de baderna. Que a liberdade não pode conviver com o caos.

Torna-se inadmissível numa sociedade livre e organizada o que temos assistido nas últimas semanas em matéria de greves, depredações, ocupação de áreas públicas e privadas, bem como ruas e avenidas.

Engana-se quem imaginar que terminada a copa do mundo tudo voltará ao normal, ou seja, a um sistema que admite o debate aberto, protestos, manifestações e até paralisações, mas sem perturbar a não ser de forma rápida e sem violência a vida do cidadão comum. É aquela história que ouvíamos em criança, do tigre da Índia.Velho, sem forças para perseguir os bichos da floresta, o animal postou-se na entrada de uma aldeia e passou a comer crianças. Gostou, não precisava fazer força e não queria outra refeição. Até que um dia a comunidade organizou-se e conseguiu matá-lo.

A greve é necessária, em muitas situações. Deve ser feita contra o patrão, seja ele empresário ou governante. Jamais contra o povo. É preciso inteligência, muito mais do que truculência.

Tome-se os rodoviários de São Paulo. Em vez de deixar os ônibus nas garagens, furar seus pneus e até estimular para que sejam queimados, por que não continuar circulando , mas com as catracas abertas? Sem cobrar passagem, fazendo feliz a multidão de usuários. Cada categoria de reivindicantes encontrará seu artifício para obter resultados até mais eficazes.

Quanto às depredações, é uma questão de polícia. E bem simples, se desenvolvido um sistema de informações mesclado à repressão necessária. Cadeia nos vândalos. Não seria difícil um entendimento com o Judiciário para tornar difíceis os recursos que em poucas horas levam os bandidos de volta às ruas,

Do jeito que as coisas vão, viver ficará impossível, no Brasil. Claro que menos para os governantes, isolados em seus gabinetes refrigerados e dispondo, quando não de helicópteros, ao menos de carrões de luxo. Não é com eles a greve dos ônibus, assim como as greves dos hospitais, da polícia, dos professores, dos aeroviários, dos metalúrgicos ou quaisquer outras categorias. Disporão sempre de privilégios especiais, jamais receberam salário mínimo. Em suma, a autoridade perdida começaria por eles, se descessem à planície. Para exercê-la, precisariam sofrer os males de sua ausência.

TODO O PODER AO JUDICIÁRIO
Em 1945, quando depuseram Getúlio Vargas, os militares não assumiram o poder. Foram buscar o presidente do Supremo Tribunal Federal, José Linhares, para ocupar a presidência da República até a realização de eleições livres e diretas. Nos estados, foram recrutados os presidentes dos Tribunais de Justiça para substituir os governadores. A palavra de ordem no país era “todo o poder ao Judiciário”. Até que funcionou, naquela emergência.

TOFFOLI PERDEU: STF barra limite a investigação eleitoral

Mariângela Gallucci 
O Estado de São Paulo

Plenário da Corte suspende resolução do TSE que obrigava Ministério Público a pedir autorização à Justiça para apurar crimes eleitorais 

Brasília –O plenário do Supremo Tribunal Federal suspendeu nesta quarta-feira, 21, uma regra imposta em dezembro pelo Tribunal Superior Eleitoral segundo a qual o Ministério Público teria de pedir autorização à Justiça para investigar suspeitas de crimes eleitorais. Foi uma derrota do ministro Antonio Dias Toffoli, que assumiu o comando do TSE na semana passada. Ele era a favor da restrição.

Por 9 votos a 2, o plenário do Supremo concedeu uma liminar suspendendo o artigo 8º. da resolução por considerar que ele feria a Constituição.

Os defensores da restrição argumentaram que a medida servia para evitar o uso político das investigações, como, por exemplo, manter uma suspeita em segredo e só divulgá-la às vésperas de uma votação.

Autora da ação julgada pelo Supremo, a Procuradoria-Geral da República sustentou, no entanto, que a regra violava o princípio acusatório, o dever de imparcialidade da Justiça.

‘Ferramentas’. Ex-integrante do Ministério Público, o presidente do STF, Joaquim Barbosa, afirmou que o TSE extrapolou ao editar a resolução. “Quanto maior for o número de legitimados para fazer a apuração, mais ferramentas o Estado disporá para investigações sobre eventuais práticas delitivas”, disse.

Ele afirmou que não conseguia ver razões ou benefícios para dar à Justiça Eleitoral a “exclusividade” para determinar a abertura de inquéritos”.

O presidente do STF disse ainda que a Constituição garante ao Ministério Público a prerrogativa de requisitar diligências e instalar inquéritos.

“Condicionar as investigações a uma autorização do juiz, instituindo uma modalidade de controle judicial inexistente na Constituição Federal, é incompatível com o sistema acusatório. A independência do Ministério Público ficaria significativamente esvaziada”, afirmou o relator do processo no STF, ministro Luis Roberto Barroso.

“Contraria a Constituição Federal a submissão da instauração de inquérito a uma decisão judicial’, acrescentou. Para a ministra Cármen Lúcia, que já presidiu o TSE, “o Ministério Público é o advogado da sociedade que, na Justiça Eleitoral, atua de frente, de maneira direta”. “Não me parece razoável retirar qualquer tipo de função que ele possa desempenhar, para que o cidadão não fique desguarnecido”, afirmou ela.

Coube a Toffoli a defesa veemente da resolução do tribunal. Ele foi acompanhado apenas pelo ministro Gilmar Mendes, que é vice-presidente do TSE. Toffoli foi o relator da resolução no tribunal eleitoral.

“Não há nenhum cerceamento do poder investigatório de quem quer que seja. A detenção do poder de polícia judiciária nas mãos da magistratura visa impedir que órgãos que não sejam imparciais – e o Ministério Público é parte – atuem e infiram no processo eleitoral de maneira direcionada ou parcial”, disse. De acordo com o ministro, a medida teve o objetivo de garantir “transparência, oficialidade e segurança jurídica aos procedimentos eleitorais”.

‘Sujeito’. 
Em nome do Ministério Público, a vice-procuradora-geral eleitoral, Ela Wiecko, afirmou que, pela Constituição, o juiz não pode determinar a instauração de inquéritos nem participar da produção de provas. “O juiz é sujeito do processo. Não é parte”, afirmou ela.

Impostos contra o País

O Estado de S.Paulo

Com um dos mais pesados, complicados e irracionais sistemas de tributação do mundo, as empresas brasileiras gastam em média 2.600 horas, a cada ano, só para se manter em dia com os impostos e contribuições, segundo levantamento do Banco Mundial. Todo esse trabalho é apenas para manter informações atualizadas, atender à burocracia do Fisco e processar as operações necessárias. São necessárias 291 horas no Chile, 338 na China, 207 na Alemanha, 243 na Índia e 175 nos Estados Unidos. Não há muita surpresa, portanto, quando a tributação é classificada como o maior problema das empresas e uma enorme desvantagem para competir no mercado internacional. Essa avaliação - o maior problema - foi apresentada na terça-feira pelo gerente executivo de Políticas Econômicas da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Flávio Castelo Branco. Ele participou de mais um debate do Fórum Estadão Brasil Competitivo, promovido em colaboração com a CNI.

A análise do economista Flávio Castelo Branco é especialmente significativa, por se tratar de um técnico da mais importante associação industrial do País. Empresários do setor frequentemente dão mais importância a outros fatores quando o assunto é a competitividade. Reclamam do câmbio, cobram maior desvalorização do real e pedem ao governo mais barreiras contra os concorrentes estrangeiros. Mas a taxa de câmbio oscila, o câmbio real depende também da inflação e barreiras comerciais, destinadas apenas a fechar o mercado interno, em nada contribuem para tornar a empresa nacional mais competitiva no exterior.

Capacidade para competir nos mercados globais depende principalmente de fatores estruturais, como a produtividade, a inovação, a eficiência da logística, a oferta de mão de obra qualificada e, de modo especial, a tributação. "A complexidade do sistema tributário brasileiro traz custos elevados de recolhimento de impostos e incerteza quanto a regras, gerando contenciosos e dificuldade de harmonização com outros sistemas." Esta dificuldade, ressaltou o economista, pode resultar em bitributação. A reforma tributária, segundo ele, deveria equacionar competências federativas e proporcionar a desoneração dos investimentos, da folha de salários e das exportações.

Não se trata apenas do peso dos impostos e contribuições, mas também de sua qualidade. Os tributos incidem de forma irracional, dificultando os ganhos de produtividade (ao encarecer as máquinas, por exemplo) e impondo uma barreira à saída dos produtos nacionais. O governo protesta contra a imposição de obstáculos ao ingresso de mercadorias brasileiras em outros países, mas também joga contra a exportação nacional ao cobrar pedágio na saída.

A irracionalidade se manifesta igualmente na guerra fiscal entre Estados, fator de distorção no uso de recursos, como lembrou o diretor de Políticas Públicas e Tributação da LCA Consultores, Bernard Appy.

A disfunção é visível também na concessão de benefícios, isto é, na redução de impostos a favor de alguns segmentos e no protecionismo. A indústria automobilística brasileira tem 60 anos, mas é tratada como infante, observou o economista Marcos Lisboa, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e atual vice-presidente do Insper. Além disso, os benefícios setoriais se prolongam sem avaliação de resultados, acrescentou.

Outros países têm tributação tão pesada quanto a do Brasil e até mais pesada, mas com menos distorções e com melhores serviços à população. No caso do Brasil, a contrapartida dos enormes impostos e contribuições é a prestação de serviços ineficientes e de baixa qualidade. A uma tributação de Primeiro Mundo corresponde um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) miserável: 85.º lugar numa lista de 187 países, observou Lisboa.

Seria preciso, concordaram os debatedores, complementar a reforma com melhor uso do dinheiro arrecadado e maior parcimônia na despesa. São condições para um aumento geral da eficiência, para uma distribuição mais justa de encargos e de benefícios e até para uma eventual diminuição da carga.

Determinantes do crescimento

Samuel de Abreu Pessôa 
Folha de São Paulo

Há intenso e importante debate sobre os fatores que causaram a piora do desempenho da economia brasileira no governo Dilma, que deve fechar seu quadriênio com crescimento anual médio de 2%, em comparação a 4% de Lula.

Vários analistas, de diversas colorações ideológicas, enfatizam o bom momento vivido pela economia internacional no período conhecido pela grande moderação, de 2002 até 2008, como o maior responsável pelo bom desempenho da economia brasileira no governo Lula.

Como já expressei em outras oportunidades neste espaço, penso que o impacto da economia mundial para explicar o bom momento vivido no período Lula é superestimado. Certamente contribuiu, mas está longe de ser toda a história.

Uma evidência de que a situação internacional com Lula foi boa, mas não excepcional, encontra-se no quadro nesta página. Representamos nela a evolução dos termos de troca de 1995 até março de 2014. As linhas horizontais representam as médias vigentes ao longo dos oito anos do governo FHC e Lula e no quadriênio incompleto de Dilma.

Os termos de troca medem a evolução do preço da pauta exportadora em unidades de pauta importadora. Um ganho de 10% nos termos de troca significa que, com a mesma quantidade de bens exportados, a sociedade consegue adquirir 10% a mais de bens importados.

Editoria de Arte/Folhapress

Dois fatos emergem da figura. Primeiro, o período de ganhos de troca excepcionais é o que se segue à crise de 2008. Até o momento, Dilma se beneficiou de termos de troca 23% maiores do que FHC, enquanto os de Lula foram somente 2% maiores aos do governo tucano.

O segundo fato é que, no segundo mandato de FHC e no primeiro de Lula, os termos de troca foram uns 10% menores do que no primeiro mandato de FHC e no segundo de Lula. Parte da dificuldade que FHC teve em eleger José Serra e da facilidade que Lula teve de eleger Dilma deve-se, sim, à situação internacional, mas certamente ela não é toda a história.

Outra indicação de que a situação externa não pode explicar muito do desempenho da economia brasileira ao longo do governo Lula é dada pela composição setorial da produtividade. Ao longo da era Lula, a produtividade do trabalho da indústria de transformação caiu, enquanto a produtividade dos serviços elevou-se. Serviços são setores não comercializáveis internacionalmente e, portanto, menos afetados pela conjuntura econômica externa.

Como argumentei em outras oportunidades, atribuo parte da aceleração do governo Lula à maturação das reformas institucionais do governo FHC e dos primeiros anos do governo Lula, período Palocci, além dos impactos positivos de uma transição política muito ordenada.

Minha interpretação é que a desaceleração ao longo do governo Dilma deve-se a três fatores: redução do crescimento do comércio internacional; esgotamento do mercado de trabalho; e impactos ruins, sobre o crescimento da produtividade, da piora do regime de política econômica a que assistimos desde 2009. 

O ciclo das commodities

Míriam Leitão e Alvaro Gribel 
O Globo

No meio de uma sessão de perguntas e respostas no Twitter, sobre o romance que estou lançando, um dos participantes me fez uma pergunta nada a ver com o livro e tudo a ver com a economia: está chegando ao fim o ciclo das commodities? Elas ainda estão com preços muito mais altos do que quando começaram a subir, em 2002, mas já não têm a mesma força.

A notícia de segunda-feira foi a queda do minério de ferro para abaixo de US$ 100. Foi a primeira vez que isso aconteceu em dois anos. As ações da Vale caíram e derrubaram o Ibovespa. O minério de ferro e as commodities metálicas têm caído, mas ainda têm cotações muito mais altas do que as do ponto inicial. Algumas ainda estão em patamar quatro vezes maior. O problema é que elas também estão distantes do recorde, observou a rede de notícias australiana ABC News. Para Brasil e Austrália, países que têm o minério de ferro como principal produto de exportação, essa pergunta deve estar na cabeça das autoridades: o que fazer quando a China reduzir suas compras?

A cada número ruim da China, cai a ação da Vale e aumenta a dúvida sobre o Brasil. Chegou-se a esse ponto pela dependência excessiva de um produto só. A exportação de minério de ferro foi de US$ 32 bilhões no ano passado. O segundo item é a soja triturada, também com exportação expressiva, mas 32% menor, de US$ 22 bi. Quem olha os processos de desenvolvimento dos países sabe que eles consomem minério de ferro e aço intensamente durante um período, depois, o consumo cai. A China tem milhões de chineses para integrar ao mercado de consumo, mas, recentemente, houve sinais de que o excesso de construção imobiliária, financiada pelo sistema bancário que é mal regulado e fiscalizado, pode produzir turbulências. Além do mais, o país, mesmo mantendo por três décadas o ritmo acelerado de crescimento, começa a ter uma redução gradual de patamar. Portanto, os chineses não serão eternamente grandes compradores de minério de ferro como foram na última década.

O que muitos analistas consideram é que os chineses e outros países vão continuar comprando commodities agrícolas, como a soja, e, assim, a demanda seguirá forte nos próximos anos. Elas tiveram altas de preços, num ritmo um pouco menor, mas devem manter espaço no mercado internacional.

Então a resposta para a pergunta é sim e não. Há commodities que podem ter mais dificuldades; outras continuarão com preços altos. Um clima mais instável pressionará os preços dos alimentos. Isso significa que as commodities agrícolas podem oscilar, mas não estão altas apenas por um ciclo passageiro. Essa continuará sendo a tendência. Uma boa safra reduzirá preços, mas ao longo do tempo eles devem ter mais períodos de alta do que de baixa.

A questão do fim do ciclo das commodities deve assombrar os responsáveis pela balança comercial. Ela vem dando sinais de fraqueza. Aliás, a queda foi vertiginosa, saindo em poucos anos de US$ 40 bilhões para o que pode ser déficit em 2014. Se dependermos de apenas alguns poucos produtos, e poucos países, o país enfrentará dificuldades nos próximos anos.

O Brasil hoje é outro e não precisa fazer megasuperávits para garantir divisas para a dívida externa. Mas sua estratégia de comércio exterior deveria ser a de integrar-se à cadeia global de suprimento, aumentar o número de produtos exportados e de países parceiros. A concentração, como a que se acentuou nos últimos anos, não faz bem.

O déficit na balança neste começo de ano - e no começo do ano passado - tem menos a ver com a queda das commodities e mais com o custo cada vez mais pesado do petróleo nas importações. Os derivados pesam nas contas da Petrobras e do país, por isso esse assunto tem que ser olhado de forma global. O que temos que perguntar é se queremos ou não manter o déficit por incentivar o consumo de combustível fóssil.