domingo, maio 25, 2014

Na Copa das Copas da Dilma, a FIFA agradece.

Comentando a Notícia


A senhora Rousseff mostrou-se surpresa com as críticas feitas pelo ex-jogador Ronaldo Fenômeno. No fundo, o que ele vê de errado, o país todo já percebeu faz tempo. Pena que Ronaldo tenha demorado tanto.

Mas Dilma não seria Dilma se não soltasse seus estribilhos prediletos como "não somos mais vira-latas" "esta vai ser a Copa das Copas", etc.

De fato, o Brasil deixou de ser vira-latas faz tempo, antes até do PT chegar ao poder. Mas não há dúvidas que a Copa das Copas é coisa de vira-latas: vamos ficar com o legados dos elefantes brancos, das obras inacabadas, com as dívidas. Enquanto isto, a FIFA  comemora o sucesso financeiro  estrondoso do evento. Nunca ganharam tanto dinheiro nas costas dos trouxas. 

É pensando, bem, esta será mesmo a Copa das Copas...mas prá FIFA!!!!

A administração pública está em estado de coma

J.R. Guzzo
Revista EXAME

Incapaz de concluir projetos, a administração pública brasileira chegou a uma situação calamitosa: há obras de infraestrutura que viram ruínas antes mesmo de terminadas. A má notícia é que existe espaço para a coisa piorar

Marcelo Curia/EXAME.com 
Secura: a transposição do Rio São Francisco, prometida para 2010, 
ainda não rendeu nem uma caneca de água ao sertão

São Paulo - Numa conversa recente com um repórter do jornal The New York Times, o ministro dos Transportes, César Borges, teve um acesso de sinceridade e, talvez, de pura e simples exasperação.

A entrevista era sobre os chocantes índices de inépcia nas obras públicas do Brasil, que pelo jeito começam a se tornar um caso de espanto internacional — provocado, certamente, pela atenção crescente que o miserável desempenho brasileiro na construção das obras da Copa vem despertando pelo mundo.

“Vá construir uma obra”, desabafou o ministro, “onde estão em cima de você, o tempo todo, o Tribunal de Contas da União, a Controladoria-Geral (também da União), repartições que fiscalizam possíveis e impossíveis impactos ambientais na área da construção, agentes da Funai para verificar se estaria havendo algum problema com índio, mesmo que não haja índio nenhum em volta, fiscais para detectar quilombolas, o Ministério Público da União, os dos estados, procuradores-gerais e não gerais — arre... Será que ficou faltando alguma coisa?”

O ministro Borges foi enumerando todos os fatores que o próprio poder público põe em ação para garantir que não se faça nada, seja lá o que for, em qualquer área em que houver presença do Estado. Em que lugar deste planeta seria possível construir uma obra pública em tais condições?

A obra em questão era a Ferrovia Transnordestina, uma história apavorante de incompetência do governo como executor de qualquer tarefa — mesmo uma mísera linha de trem, coisa que já se faz no mundo há 200 anos.

Com 1 700 quilômetros de extensão, foi iniciada oito anos atrás, em 2006, e já deveria estar funcionando há quatro se tivesse sido inaugurada em 2010, como o ex-presidente -Lula e sua candidata e sucessora, Dilma Rousseff, prometeram nessas cerimônias filmadas para aparecer em telejornais — onde fingem estar inaugurando alguma coisa, quando não há inauguração nenhuma.

Deveria custar menos de 2 bilhões de dólares; já passou dos 3 bi, fácil, e só Deus sabe quanto custará até ficar pronta — ou simplesmente ser abandonada, como tantas outras.

A promessa do momento é entregar a Transnordestina em 2016. Vai ser difícil. Enquanto o doutor fulano conversa com o doutor beltrano, ladrões aparecem à noite para roubar trilhos já colocados. Quer dizer: se está demorando colocar 1 metro de trilho hoje, imagine quanto mais vai demorar se tiverem de botar os trilhos uma segunda vez.

Essa Transnordestina é uma humilhação para Lula, Dilma e quem mais teve alguma coisa a ver com ela. Na propaganda que o governo soca na população, é mais uma realização do “projeto PT”. Basta passar na TV um filminho pago com dinheiro público mostrando algum trecho já feito e de onde ainda não tenham roubado os trilhos. Quem vai duvidar? Só mesmo a mídia de direita a serviço das elites brancas.

Os canais de concreto que deveriam estar conduzindo águas do Rio São Francisco para “matar a sede do Nordeste”, como anunciou Lula, não renderam até agora uma caneca sequer de H2O — quem acreditasse que a transposição ficaria pronta em 2010, como prometido, estaria há quatro anos sem beber água.

As obras, em grande parte abandonadas, são hoje apenas um espantoso amontoado de ruínas, possivelmente as maiores em exposição no país. O metrô de Salvador vem sendo construído desde 1997, sem ter transportado um único passageiro até hoje. A promessa é que alguma coisa ainda possa ser entregue lá para o fim deste ano.

A torre de TV digital de Brasília, projetada — é claro — por Niemeyer e chamada de “Flor do Cerrado”, custou 30 milhões de dólares e foi inaugurada em 2012, mas não emitiu nem um sinal eletromagnético nestes dois anos. Faltam geradores, cabos e outros itens rudimentares para que funcione e venha a ter alguma utilidade.

A má notícia? A culpa disso tudo está longe de ser só de Lula, Dilma e PT. É uma doença que começou antes. Eles levaram a administração brasileira ao atual estado de coma — mas ainda há um bom espaço para piorar.

A economia da marmota

Rolf Kuntz 
O Estado de S.Paulo

No filme Feitiço do Tempo, de 1993, um repórter especializado em meteorologia vai a uma pequena cidade para cobrir a celebração do Dia da Marmota. Nessa data, 2 de fevereiro, a reação do bicho ao sair da toca para a luz do dia indica se o inverno logo terminará ou vai durar pelo menos mais seis semanas. Essa é a crença tradicional. Terminado o trabalho, o repórter quer partir, mas fica preso na cidade, numa armadilha de cenas repetidas. O noticiário econômico no Brasil é cada vez mais parecido com a história de Groundhog Day, título original do filme. O governo vai mais uma vez maquiar suas contas com receitas excepcionais, segundo confirmou o Ministério do Planejamento na revisão bimestral do Orçamento. A inflação anual continua rodando em torno de 6%. O déficit em conta corrente permanece na vizinhança de 3,6% do produto interno bruto (PIB) em 12 meses. O País mais uma vez apareceu numa das últimas posições - 54.ª em 60 - numa classificação de competitividade. O crescimento econômico projetado pelo governo, 2,5%, na revisão orçamentária, é mais uma vez um pouquinho melhor que o do ano anterior e, de novo, maior que o estimado pelos economistas fora do setor público.

Também como de costume, o Ministério do Planejamento elevou a inflação projetada para o ano, desta vez de 5,3% para 5,6%. A projeção, como sempre, é mais otimista que a do pessoal do mercado financeiro e das consultorias. Como sempre, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, festeja as poucas novidades positivas e anuncia inflação em queda nos meses seguintes. Mas tudo indica uma repetição mais ampla da história bem conhecida.

Os números mais recentes, o IPCA-15, oficial, e o IPC-S, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), apontaram algum recuo nas últimas semanas. O IPCA-15, divulgado no dia 21, caiu de 0,78% em abril para 0,58% em maio. A queda parece um excelente sinal. Mas o índice de difusão ainda mostrou aumentos em 67,4% dos preços cobertos pela pesquisa. Mesmo com menor pressão dos alimentos, a contaminação permanece muito ampla. O IPC-S, anunciado no dia 23, recuou de 0,78% na segunda para 0,69% na terceira quadrissemana de maio. As médias mensais de aumento dos principais índices de preços ao consumidor continuam acima de 0,5% ao mês - acima, portando, de 6% ao ano. O comentário é o mesmo: falta muito para se alcançar um ritmo civilizado de remarcação de preços.

Além disso, os analistas foram unânimes ao negar qualquer surpresa. Essa evolução era esperada e, além disso, muito parecida com a observada em outras ocasiões. As projeções coletadas pelo Banco Central (BC) indicam recuo das taxas mensais até agosto e em seguida uma reaceleração. Na hipótese mais otimista, os aumentos de juros acumulados a partir de abril do ano passado começam a fazer efeito, impondo freio ao consumo privado. Mas isso, por enquanto, é só uma hipótese.

Além do mais, as contas públicas, um dos principais fatores inflacionários, continuam em mau estado. O governo planeja fechar as contas, mais uma vez, com receitas de concessões, dividendos de estatais e mais uma rodada de pagamentos do Refis, o programa de refinanciamento de dívidas tributárias.

Nada de novo nessa frente. Concessões e dividendos devem render juntos, neste ano, pelo menos R$ 37,4 bilhões. Só isso representa 46,3% do superávit primário de R$ 80,8 bilhões programado para o governo central. Somado o dinheiro do Refis, o total vai além de 70%. Austeridade fiscal? Nem pensar. Também nisso a história se repete, como se o tempo estivesse enfeitiçado.

A repetição é a regra também no conjunto das contas externas. Desde agosto do ano passado o déficit em conta corrente acumulado em 12 meses permanece na vizinhança de 3,6% do PIB. A conta corrente é a soma algébrica da balança comercial, da balança de serviços e rendas e das transferências unilaterais. O déficit final de 2013 chegou a US$ 81,07 bilhões, 3,62% do PIB. O acumulado nos 12 meses até abril bateu em US$ 81,61 bilhões, 3,65% . Para o ano o BC projeta um buraco de US$ 80 bilhões, 3,59% do PIB.

O problema principal, como nos últimos seis anos, é a deterioração do comércio de mercadorias. De janeiro a abril o resultado foi um déficit de US$ 5,57 bilhões, com recuo tanto das exportações quanto das importações. Nas três primeiras semanas de maio houve alguma melhora, mas o acumulado no ano ainda foi um déficit de US$ 4,78 bilhões. Como ocorre há muitos anos, só as exportações de minérios e do agronegócio evitaram um rombo maior. De janeiro a abril o agronegócio contabilizou um superávit de US$ 24,14 bilhões, 0,2% menor que o de um ano antes por causa do recuo de alguns preços. Mas o déficit do conjunto dos manufaturados e semimanufaturados foi mais que suficiente para anular esse resultado e ainda produzir um déficit geral na conta de mercadorias.

Aí aparece, de novo, o problema da competitividade. O agronegócio tem sido capaz de enfrentar os muitos obstáculos da logística, da tributação e outros obstáculos característicos da economia brasileira, mas a maior parte da indústria continua travada pelas ineficiências do ambiente econômico e pelos próprios problemas de produtividade. Feito o balanço geral, a posição do Brasil na pesquisa anual do International Institute for Management Development (IMD), da Suíça, parece muito natural. Numa lista de 60, o País só fica acima de Eslovênia, Bulgária, Grécia, Argentina, Croácia e Venezuela. Em melhores posições aparecem o Chile (31.ª), o México (41.ª), o Peru (50.ª) e a Colômbia (51.ª). Os demais Brics - China, Rússia, Índia e África do Sul - também superam o Brasil.

Se depender da política econômica, ninguém deve esperar grande mudança da história neste ano. Mas se faltar coragem ou competência para a busca de um novo rumo, a repetição será substituída por uma piora do enredo. A marmota, podem acreditar, será inocente.

Sob o domínio do medo.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

1 - Guilherme Boulos, líder do Movimento dos Trabalhadores sem Teto, MTST, ameaçou impedir o jogo inaugural da Copa, se não atenderem a suas exigências. "Se não respeitam nossos direitos, no dia 12 de junho não vai ter inauguração". Quem é Boulos, que chantageia o Governo e ameaça fazer de junho um mês de conflitos? É filósofo formado, filho de um professor da USP, médico famoso. Mas o importante não é isso: o importante é que é ligadíssimo ao ministro Gilberto Carvalho. E, depois de instalar três mil de seus seguidores nas proximidades do Estádio do Corinthians, em Itaquera, SP, e ameaçar a realização da Copa do Mundo, foi recebido pela presidente Dilma Rousseff e posou para fotos abraçado com ela e com o ministro Gilberto Carvalho. Como diz o Governo, vai ter Copa. Como diz Boulos, que é quem manda, vai ter Copa se ele deixar. 

2 - A Polícia invadiu, em 17 de março, uma reunião em que se planejavam incêndios e paralisação de ônibus - onde, por exemplo, abandonar os veículos para bloquear o trânsito em São Paulo (dois meses depois, dois milhões de pessoas ficaram sem transporte). Na reunião, havia 42 pessoas; destas, 13 eram ligadas ao PCC, Primeiro Comando da Capital, base do crime organizado. Um dos presentes era Carlinhos Alfaiate, acusado de participar do assalto ao Banco Central em Fortaleza. Outro presente era o deputado estadual Luiz Moura, do PT, do grupo do secretário municipal dos Transportes, Jilmar Tatto. 

O PCC controla cooperativas cujos veículos jamais foram incendiados - só os dos concorrentes.

Os donos do jogo
Boulos, do MTST, e Luiz Moura, do PT, escolhem seus amigos na mesma área. Talvez isso nada tenha a ver com a desenvoltura de pessoas que dominam a situação agindo fora da lei. Mas os amigos comuns nunca se afastaram de ambos.

Enfim
Há certas personalidades que sempre acabam aparecendo no noticiário. É tão infalível quanto achar o ministro Mercadante em fotos da presidente Dilma. A escrita se manteve: o juiz Sérgio Moro, que cuida na Justiça do inquérito da Operação Lava-Jato, informou ao Supremo que Alberto Youssef, apontado como doleiro, por algum motivo depositou R$ 50 mil na conta bancária do senador Fernando Collor, do PTB alagoano. Moro diz que Collor não é investigado e que seu objetivo é apenas informar a existência dos depósitos. 

Estranho: se os depósitos são suspeitos, por que negá-lo? Se não são suspeitos, por que divulgá-los?

O dinheiro e os votos
José Batista Junior, o Junior Friboi, sócio do JBS Friboi, maior frigorífico do mundo, acaba de descobrir alguns fatos da vida. Ele foi recebido no PMDB com tapete vermelho, com promessas de apoio total em sua candidatura ao Governo do Estado, com palmas e estrondosos desta vez, vamos. Ele acreditou. Íris Rezende lhe disse que não seria candidato ao Governo. Ele acreditou. Candidatos a cargos legislativos lhe disseram que ajuda financeira seria bem-vinda, claro, mas não seria determinante para apoiá-lo. Ele acreditou. 

Agora descobriu que quem manda no PMDB goiano é o ex-governador, ex-senador e ex-ministro Íris Rezende. Íris já teve mais votos (ultimamente, virou freguês do tucano Marconi Perillo), mas, comparado ao estreante Junior Friboi, é o rei do pedaço. Íris tem votos, pode oferecer aos companheiros de partido, apesar das últimas derrotas, uma perspectiva de poder e uma chapa forte, capaz de eleger muitos deputados; Junior Friboi só tem dinheiro. Dinheiro ajuda, mas não se ganha eleição sem voto. 

Quem será o candidato ao Governo pela oposição? Simples: quem Íris quiser.

O custo da eleição
Antônio Ermírio de Moraes, conhecido, respeitado pela competência, lançado por um partido forte para o Governo paulista, fez uma campanha caríssima com seu próprio dinheiro. Foi triturado: houve denúncias pesadas contra suas empresas, tentativas de manchar sua reputação, tudo aquilo que hoje ocorre numa campanha eleitoral. Foi derrotado por Orestes Quércia. E nunca mais se candidatou.

Um político diferente
Ele tinha tudo para manter-se permanentemente na política. Seu pai, popularíssimo, era o prefeito Faria Lima - popular o suficiente para eleger-se diretamente prefeito de São Paulo, bem relacionado o suficiente para só não chegar a presidente da República, na época dos generais, por ter morrido quando seu nome era unanimidade. Seu tio, brigadeiro Roberto Faria Lima, fez impecável carreira militar; seu outro tio, almirante Faria Lima, foi governador (indireto) do Rio. O nome valia votos. E, sem precisar de campanha, José Eduardo Faria Lima se elegeu deputado, com grande votação. Não gostou do que viu. Elegeu-se mais uma vez e concluiu que não tinha vocação política. Simplesmente se retirou, esquecendo quaisquer vantagens que um parlamentar possa ter. Foi morar no Interior paulista. Morreu aos 72 anos, no dia 21, num desastre de automóvel. 

Da coluna de Cláudio Humberto
"Um dos líderes do MST, João Paulo Rodrigues, encontrou o fundador do Wikileaks na embaixada do Equador e ofereceu asilo ‘em território autônomo’ no Brasil, diz a revista americana Vice. Assange riu."

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Esses babacas do metrô

Fernando Gabeira 
 O Estado de S.Paulo

Houve um tempo em que esperávamos a Lua entrar na sétima casa, Júpiter se alinhar com Marte e a paz reinar no planeta. Era a aurora da era de Aquarius. Aquarius, Aquarius. As mulheres arrancando os sutiãs, os homens com calça boca de sino, cavalos da polícia dançando, tudo porque a Lua tinha, finalmente, entrado na sétima casa.

Nossas esperanças hoje são mais prosaicas. Em vez de Júpiter se alinhar com Marte, contemplamos o alinhamento da Copa do Mundo com as eleições no Brasil. E os nervos estão mais sensíveis. Na cúpula, governo e Fifa se estranham. Para Jérôme Valcke, o contato com as autoridades brasileiras foi um inferno. Para Dilma Rousseff, Valcke e Joseph Blatter são um peso.

É o tipo de divórcio que não se resolve com as cartomantes que trazem de volta a pessoa amada em três dias. Eles se distanciam num mero movimento defensivo. Quem será o culpado se as coisas não derem certo?

Dilma, com a Copa das Copas, quer enfrentar a eleição das eleições e põe toda a sua esperança nos pés dos atletas. A Fifa não gostaria de entrar numa gelada no Brasil, mesmo porque o Qatar a espera com calor de 52 graus. Seriam dois fracassos seguidos, pois Blatter já admitiu que o Qatar foi um erro.

Essa conjunção histórica está levando a uma certa irritação da cúpula conosco, que não inventamos essa história. Blatter declarou que os brasileiros precisavam trabalhar mais porque as promessas de Lula não foram cumpridas. Nada mais equivocado do que essa visão colonial. Se Blatter caísse no Brasil e vivesse nossa vida cotidiana, constataria que trabalhamos muito mais que ele mesmo, um cartola internacional. Desde quando o objetivo do nosso trabalho é cumprir as promessas de Lula?

A tática de Lula é diferente da de Blatter. Lula não critica nossa insuficiência no trabalho, mas nossas aspirações de Primeiro Mundo. Ele, que vive espantando o complexo de vira-latas, apossando-se politicamente de uma frase de Nelson Rodrigues, nos convida agora a reviver o espírito que tanto condena: "Querer vir de metrô ao estádio é uma babaquice. Viremos a pé, de jumento...". Para Blatter, precisamos trabalhar mais; para Lula, desejar menos. Só assim nos transfiguramos na plateia perfeita para o espetáculo milionário.

Lula começou sua carreira falando em aspirações dos mais pobres, hoje prega o conformismo. Não é por acaso que o PT faz anúncios inspirados no medo de o adversário vencer as eleições. Não há mais esperança, apenas um apego desesperado aos carguinhos, à estrutura do Estado, aos grandes negócios.

No passado exibi um filme em que Lula e Sérgio Cabral dialogam com um garoto do Complexo da Maré. Eles entram em discussão, Cabral ofende o jovem e Lula diz ao garoto que gostava de jogar tênis: "Tênis é um esporte de burguês". Na cabeça de Lula, o menino tinha de se dedicar ao futebol. Outras modalidades seriam reservadas aos ricos. Se pudesse livrar-se de seus aspones e andar um pouco até a Baixada Fluminense, veria um campo de golfe em Japeri onde atuam dezenas de garotos pobres da região. Dali saem alguns dos melhores jogadores de golfe do Brasil.

Lá por cima, pela cúpula, muito nervosismo, uma certa impaciência com um povo que não se ajusta ao espetáculo. Estão mais ansiosos que os próprios jogadores para que o juiz dê o apito inicial. Nesse momento, acreditam, o Brasil cai num clima de festa. Com a vitória da seleção o Brasil entraria num alto-astral e os carguinhos, os grandes negócios, tudo ficaria como antes.

Li nos jornais algumas alusões à Copa de 70, a que assisti na Argélia. De fato, o PT vai se agarrar à seleção como o governo Médici o fez naquela época.

Mas já se passaram tantos anos, o Brasil mudou tanto, e o alinhamento das eleições com a Copa, organizada pelo País, tudo isso traz novidades que a experiência de 1970 não abarca.

Estamos entrando num momento inédito. Dilma é vaiada em quase todo lugar por onde passa. Lula está visivelmente ressentido com o povo, que não o celebra pela realização da Copa; que é babaca a ponto de desejar ir de metrô ao estádio.

Não importa qual deles venha. "Que vengan los toros", como dizem os espanhóis. Não importa quantos gols nosso ataque faça - e espero que sejam muitos -, a glória do futebol não obscurece mais nossas misérias políticas e sociais. Se os idealizadores da Copa no Brasil fizessem uma rápida pesquisa, veriam que o sonho de projetar a imagem de um país pujante e pacífico está ardendo nas fogueiras das ruas, na violência das torcidas, no caos cotidiano nas metrópoles, nos relatos sobre a sujeira da Baía de Guanabara.

O governo do PT e aliados não poderá esconder-se atrás do futebol, porque eles já foram descobertos antes de a Copa começar. A Copa do Mundo não sufoca as denúncias de corrupção porque a própria Copa está imersa nela. A Fifa, com Jérôme Valcke sendo acusado de venda irregular de jogadores, não ajuda. Até o técnico Felipão caiu nas redes do fisco português.

O sonho de uma plateia ideal para a Copa, milhares de pessoas com bandeirinhas, de um eleitorado ideal que vota sempre nos mesmos picaretas, de torcedores ideais que vão a pé ou de jumento para estádios bilionários, esse sonho entra em jogo também. Assim como aquele de projetar a imagem positiva do Brasil, o sonho de uma plateia ideal para a Copa foi por terra. Nem todos cantam abraçados diante das câmeras.

Começou um jogo delicado em que a Copa do Mundo é apenas uma etapa. Valcke vai viver o inferno nos 52 graus do Qatar e Dilma enfrentará a eleição das eleições, a qual precisa vencer, mas não para de cair.

A Lua entrou na sétima casa e não veio o paraíso. As eleições se alinham com a Copa, como Júpiter e Marte, e o Brasil, num desses momentos de verdade decisivos para sair dessa maré. Se estão nervosos agora, imagino quando as coisas esquentarem.

Os babacas que querem ir ao estádio do metrô podem querer também um governo limpo, um combate real à corrupção, serviços públicos que funcionem.

Babacas, felizmente, são imprevisíveis.

Esses admiráveis ex-petistas

Percival Puggina

De uns tempos para cá se tornou impossível encontrar um novo petista. Só há velhos petistas. Por muitos anos, contudo, não foi assim. O sujeito vinha de uma família tradicionalmente ligada ao PSD, ao PL ou à UDN e, depois, à ARENA ou ao PDS. Contava anos e anos votando nos partidos conservadores ou liberais. E de repente - vupt! -, se bandeava para o Partido dos Trabalhadores. O PT era o novo, oposição "a tudo isso que está aí", e era promissor (promessas e leviandades permitidas à oposição não faltavam ao PT, que navegava nas águas serenas da utopia). Durante anos, a gente via isso acontecer todo dia, toda hora. O partido da estrela se expandia com velocidade de seita evangélica, salpicando de estrelinhas os espaços urbanos do país. Cada novo petista considerava-se a mais recente encarnação do Bem. Em seus olhos luzia um brilho místico, como se houvessem presenciado revelação particular de alguma divindade. O petismo era mais do que uma religião. Era, concretamente, o novo Céu e a nova Terra. 

Pois eis que passados 12 anos de hegemonia petista, não se encontram mais novos militantes da estrela. Inversamente, passa-se a topar, onde se vá, com ex-petistas de todas as idades. Você fala para eles em PT e pedem briga. Parecem dispostos a rachar ao meio qualquer vivente que lhes mencione o partido das duas letrinhas. 

Considero-os admiráveis. A cada dia que passa, mais do que qualquer outra força política, eles se convertem em esperança para o país. Era necessário que essa migração iniciasse para que as energias cívicas renascessem. Os ex-petistas estiveram com Jonas no estômago da baleia, conheceram pessoalmente o Averno e viveram, duas vezes, a experiência da salvação. Uma, alegre, mas ilusória. Outra, sofrida pelas dores de um novo parto. Eu os acolho com júbilo. Eu os aclamo como o bom presságio de um país cujo futuro imediato deles depende. 

A nação andou com os ex-petistas para aquele mesmo lugar muito alto onde o Demônio tentou Jesus, buscando seduzi-lo com os poderes terrenos. O PT nem pestanejou. Abraçou a companhia e foi em frente. Mas os ex-petistas recuaram: "Até aqui pudemos vir. Além disso não iremos!". Eu amo esses caras! Eles falam pelas vozes de tantos traídos, de tantos iludidos! A eleição do próximo dia 5 de outubro passa a depender muito, muito mesmo, da ruptura que fizeram com seu passado recente. São eles que fornecem os dados mais estimulantes das últimas pesquisas eleitorais. São eles que estão virando o jogo. Há neles algo que falta em muitos que não viveram a experiência pela qual passaram. Enquanto os que nunca foram petistas manejam os instrumentos da disputa política segundo o que aprenderam em sucessivas derrotas, os ex-petistas lutam com o ânimo dos que morderam a medalha da vitória e cuspiram o gosto amargo das esperanças frustradas. E se robusteceram para as escaramuças que se avizinham. Sejam bem-vindos. O Brasil precisa muito de vocês. 

Lula reencontra o caixa dois

Guilherme Fiuza
Revista ÉPOCA

 O verdadeiro problema com a Petrobras – que os neoliberais tentam encobrir, mas Lula revelou – é essa gente querendo usar as denúncias para fazer caixa dois

Lula aconselhou o Brasil a desconfiar das denúncias “muito estranhas” envolvendo a Petrobras. “Tenho a impressão de que tem gente querendo fazer caixa dois”, disse. É um alerta importante.

Lula entende do assunto. Foi o primeiro presidente brasileiro a declarar que caixa dois todo mundo faz, na época do mensalão. Mas uma coisa é fazer caixa dois sendo o “filho do Brasil”, porque aí tudo que é do seu pai é seu. Outra coisa, bem diferente, é fazer caixa dois sendo filho de qualquer um, sem ter nem um Delúbio para guardar esse dinheiro, que será usado sabe-se lá como – talvez comprando os deputados errados. O PT ensinou aos brasileiros, sem perder a ternura, o conceito de dinheiro não contabilizado. É um absurdo que a oposição queira sair fazendo caixa dois de qualquer maneira, sem conceito nenhum.

É para isso que serve um verdadeiro líder nacional, um grande estadista: para apontar as coisas que ninguém poderia imaginar. Quando todos achavam que a Petrobras era depenada pelo governo popular e seus clientes, vem Lula esclarecer que não é nada disso. Fazer sumir centenas de milhões de dólares com aquisições suspeitas, travestir o preço do petróleo e torrar fortunas com propaganda política do pré-sal são coisas da vida. Os esquemas bilionários do ex-diretor Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef, que, por coincidência, floresceram na estatal com a chegada do PT ao poder, também não têm importância. Caixa dois todo mundo faz, e parasitar empresa pública também. Assim como José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares, Alberto Youssef e Paulo Roberto Costa são presos políticos. Chamem a OEA.

O verdadeiro problema com a Petrobras – que os neoliberais tentam encobrir, mas Lula revelou – é essa gente querendo usar as denúncias para fazer caixa dois. Como funcionaria isso? Ele não explicou, mas tudo bem. Quem tem intimidade com determinado assunto não tem paciência mesmo para ser didático. Possivelmente, Lula quis dizer que seus adversários pretendem usar a CPI da Petrobras para extorquir suspeitos – arrecadando “taxas de inocência” para não convocá-los a depor. Essa acusação já havia sido feita por correligionários de Lula. É uma estratégia que o PT conhece profundamente, como demonstrou na famosa CPI do Banestado.

Isso foi em 2004 – mesma época que, sabe-se agora, o esquema de Paulo Roberto Costa começou a funcionar na Petrobras. A CPI do Banestado tinha, como relator, o deputado José Mentor e, como mentor, o ministro José Dirceu. Foi desmoralizada porque a tropa de choque (cheque) do governo popular fabricava convocações e fazia chantagem aos quatro ventos. Como todo mundo sabe, chantagem de esquerda é progressista e não chateia ninguém. O estranho, bizarro mesmo, é imaginar os adversários do PT usando esse expediente. Lula sonhou com isso e foi logo contando ao Brasil, visionário que é. Tudo em defesa da Petrobras.

Assim começa a campanha eleitoral, em que Lula, Dilma e companhia poderão denunciar todos os caixas dois que sonharem. Se forem contestados no Tribunal Superior Eleitoral, estará tudo em casa. Adivinhem quem acaba de tomar posse na presidência do TSE, para ser o juiz supremo da corrida presidencial? Ele mesmo, o menino prodígio da dupla Batman e Robin do PT no STF, o ex-advogado de Lula que suou a camisa pelos mensaleiros – Dias Toffoli. Está garantida a isenção no pleito.

Como já se viu no Primeiro de Maio, a presidente da República transformou a cadeia obrigatória de rádio e TV em comício eleitoral inflamado. O TSE provavelmente a punirá com rigor e a obrigará impiedosamente a rezar 13 Ave-Marias e 13 Pais-Nossos (para combinar com o número na cédula).

Surge agora a informação de que o PT usou dinheiro público do fundo partidário para pagar a defesa de mensaleiros e até da inesquecível Rosemary Noronha – assessora especial da Presidência para negócios privados à sombra. Ninguém precisa ter dúvidas: o xerife de estrelinha vermelha do TSE acabará com essa bagunça. Determinará até que Rose e os mensaleiros devolvam todo o dinheiro aos cofres públicos. E a seleção de Camarões conquistará a Copa do Mundo.


Aos trancos e barrancos

Rogério Furquim Werneck (*)
O Globo

Deficiências indisfarçáveis levam governo a passar da negação à racionalização

Dentro de duas semanas, o país estará a exatos quatro meses das eleições. No Planalto, a fantasia de que o término do mandato seria marcado por um grand finale foi abandonada há muito tempo. O governo já não alimenta ilusões. Está perfeitamente consciente de que tem uma travessia muito difícil pela frente. Dar-se-á por satisfeito se, nessa reta final, puder continuar avançando aos trancos e barrancos até a linha de chegada, sem que as coisas fujam ao controle em áreas mais problemáticas. Além de torcer para que a Copa não enseje um turbilhão de inquietação social, a presidente reza a cada dia para que os céus não a obriguem a impor um racionamento de energia elétrica em meio à campanha eleitoral.

Tendo em vista as evidências cada vez mais contundentes de deficiência na atuação do governo em várias áreas, o Planalto parece ter dado sinal verde para que seus porta-vozes passem da fase de negação à de racionalização. Mas explicar o inexplicável não tem sido fácil, como bem ilustram esforços recentes de dois porta-vozes de alto coturno.

Em longa e belicosa entrevista concedida à “Folha de S.Paulo’’ em 14 de maio (disponível, na íntegra, em folha.com/no1453855), o ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, fez o que pôde para racionalizar aspectos especialmente indefensáveis da política econômica do governo. Sem sucesso. Os pontos altos foram a denúncia da existência no país de uma “campanha pró-inflação’’, promovida por “quem tem interesse em aumentar a taxa de juros’’, e a racionalização do represamento de preços e tarifas controlados pelo governo. Uma pérola. “Deixa eu dizer uma coisa, preços administrados são preços administrados. Porque o conceito é este, você administra em função do interesse estratégico da economia, dos consumidores...” E, mais adiante: “preços administrados são administrados em função do esforço de fazer uma política anticíclica’’. Afirmação que só faria algum sentido se fosse alusão, em ato falho, ao ciclo eleitoral, que é o que, de fato, explica o represamento.

Entendidas como reconhecimento inequívoco de que o governo está represando preços e tarifas, as ineptas explicações do ministro-chefe da Casa Civil foram prontamente repelidas pelo ministro da Fazenda. Guido Mantega continua acreditando que, nessa questão, ainda há muito espaço para insistir na negação. Não vê razão para já passar à fase de racionalização.

O que, sim, já não pode ser negado é o gritante despreparo com o que o país terá de enfrentar o desafio de sediar a Copa do Mundo dentro de três semanas. Alarmado com a precariedade da infraestrutura, o secretário-geral da Fifa, Jérome Valcke, achou prudente alertar torcedores estrangeiros que pretendem vir ao Brasil. “Não apareça pensando que é fácil se locomover.’’ Foi o que bastou para que o ex-presidente Lula se mobilizasse. E oferecesse uma racionalização completamente estapafúrdia para o fato de que a tão prometida infraestrutura de transporte de massa que estaria acoplada aos estádios não será entregue. “Brasileiro nunca teve problema’’ para chegar aos estádios, arguiu Lula. “Vai a pé, descalço, de bicicleta, de jumento, de qualquer coisa. Mas o que a gente está preocupado é que tem que ter metrô, tem que ir até dentro do estádio? Que babaquice é essa?” (“Folha de S.Paulo’’, 17 de maio).

É bem provável que Lula considere tal “argumento” um achado. Afinal, pode ser reaplicado a toda e qualquer deficiência que venha a ser cobrada do governo. No âmbito da Copa, serviria também para justificar por que os aeroportos não estarão prontos, os estádios não terão rede adequada de internet móvel e os jornalistas estrangeiros não contarão com condições apropriadas de trabalho.

Muito pior ainda será se o mesmo “argumento” vier a ser aplicado a outras mazelas bem mais sérias que as da Copa. Querer inflação na meta, realismo na gestão dos preços administrados, credibilidade nas contas públicas, oferta confiável de energia elétrica e uma economia que cresça a taxas menos pífias? “Que babaquice é essa?”

(*) Rogério Furquim Werneck é economista e professor da PUC-Rio

Imagina na eleição

Dora Kramer
O Estado de S.Paulo

O cenário não é desejável, mas nem de longe pode ser deixado de lado. A hipótese de que a atmosfera de violência venha a contaminar o ambiente durante o auge das campanhas eleitorais País afora está no horizonte. E bem próximo.

É evidente que o clima de furor urbano extrapola a insatisfação com os gastos da Copa do Mundo. Não é crível que os saques, as greves de policiais, as depredações, os linchamentos, os incêndios, a ultrapassagem de todos os limites, o desrespeito generalizado tenha relação exclusiva com o Mundial de futebol.

O ódio está no ar. E não vai passar. Durante o mês de campeonato, asseguram as autoridades, a balbúrdia cotidiana será contida mediante a ocupação de território pelas forças de segurança. E deve ser isso mesmo. Forçosamente alguma paz de fato estará garantida.

Pois bem, e depois? Depois as campanhas eleitorais estarão efetiva e legalmente nas ruas, mas nada autoriza a crença de que a calma reinará. Não que a pasmaceira dos últimos tempos pré-junho de 2013 seja o ideal. Aquela indiferença, aquela apatia diante de determinadas barbaridades realmente uma hora tinha de acabar.

Nota-se nitidamente neste ano eleitoral um interesse muito maior pela política. Em toda parte as pessoas comentam o assunto, até para desqualificá-lo. Essa parte, o debate é extremamente salutar.

O problema é o ambiente de intolerância geral, com tendência à delinquência. Se, como se alega, a Copa foi uma oportunidade para as cobranças virem à tona e degenerarem para situações de completo caos, não parece que seja um exercício de pessimismo à deriva supor com grande chance de acerto que a proximidade das eleições seja vista da mesma forma.

Com agravantes: oportunismo de corporações irresponsáveis, conflitos entre militantes partidários cuja virulência na internet é algo assustador, incitação de grupos políticos interessados em criar dificuldades para adversários que estejam no poder (federal, estaduais ou municipais) ou em imputar-lhes falsas acusações. O terreno é fértil para exageros inadmissíveis.

Caso as altas autoridades ainda não tenham se dado conta, quem está na labuta do dia a dia trabalhando direto com isso percebe perfeitamente bem do que se trata. Na terça-feira, durante a greve-surpresa de ônibus - muito bem qualificada pelo prefeito Fernando Haddad como "sabotagem" (é esse o nome) - uma senhora perguntou a um policial o que estava acontecendo. Resposta: "Protesto, o que vai acontecer até o dia 5 de outubro".

Se houver protesto, manifestações, reclamos, cobranças, tanto melhor. É do jogo. Anarquia, destruição, selvageria, devastação são outras de natureza muito diferente. Portanto, péssimo. Ainda mais que estaremos vivendo um dos momentos (não o único) mais nobres da democracia: a escolha dos governantes.

Por democracia entenda-se regime de legitimidade das leis, o que é autoexplicativo em termos de potencial de prejuízo para o próprio processo, em caso de descontrole.

Tanto o poder público constituído quanto os candidatos de oposição a ele - em todos os níveis - têm uma responsabilidade que ainda não se vê expressa nas agendas dos que disputarão as eleições. Fácil, a tarefa não é.

Fazer o quê, reprimir? Ninguém quer. É complicado até mesmo defender a tese, dado que além de todos desejarem o voto dos manifestantes, os brutos também votam.

Dose tripla. 
Em fevereiro de 2012, o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, perguntou ao ministro inglês que coordenava os trabalhos da Olimpíada de Londres quais eram as três preocupações que ele deveria ter em relação aos jogos de 2016, no Rio.

"COI, COI, COI", respondeu o colega, referindo-se ao Comitê Olímpico Internacional, a Fifa da Olimpíada.

Paraíso nada perdido

Alexandre Schwartsman
Folha de S. Paulo

 Escrever a coluna toda semana se torna mais fácil graças à (falta de) qualidade da gestão econômica

Vivo no paraíso dos colunistas econômicos. Vejam só: na semana passada, duas das principais autoridades do governo vieram a público, cometeram afirmações contraditórias e conseguiram a proeza de estarem, ambas, erradas.

Começou com o ministro da Casa Civil admitindo que, sim, o governo controla preços para evitar que a inflação rompa de vez o teto da meta de inflação (6,5%). Justiça seja feita, o ministro não usou a expressão “controle de preços”, mas “administração de preços”, o que, obviamente, seria algo totalmente distinto, exceto por se tratar rigorosamente da mesma coisa.

A tese original do ministro é o “controle anticíclico” dos preços, inexplicada, todavia, talvez pela virtual impossibilidade de justificar a manutenção, por exemplo, de preços de energia baixos quando a demanda cresce à frente da oferta e os riscos de racionamento aumentam.

Pelo contrário, como se aprende nos cursos de introdução à economia, o papel “anticíclico” dos preços é subir quando a demanda supera a oferta e vice-versa, certamente não o oposto, como defendido pelo ministro.

Já o ministro da Fazenda contestou a afirmação de seu colega, dizendo não haver controle de preços no Brasil. Se um desafiou a lógica, o outro desafiou os fatos. A expressão óbvia desse acontecimento é a inflação de preços administrados pelo governo ficar em patamar inferior à inflação dos preços não controlados desde março de 2010, mas não é sequer a face mais importante da questão.

A despeito das afirmações ministeriais sobre reajustes recentes de gasolina e mesmo energia elétrica (apesar das promessas de redução de tarifas), qualquer analista minimamente informado sabe que a Petrobras perde dinheiro porque vende combustíveis a preço inferior a que os compra no mercado internacional.

Não se trata, aliás, apenas do custo de oportunidade, que continuaria uma preocupação válida ainda que o país fosse (como não é) autossuficiente em combustíveis; é perda de caixa na veia, o que tem levado a um aumento expressivo do endividamento da companhia.

Fosse o ministro membro do conselho de administração da empresa, ele saberia, creio, dos problemas que isso causa. Opa; parece que ele é… Será que não explicam também essas coisas no conselho de administração da Petrobras?

Analistas minimamente informados poderiam alertá-lo também para o fato de que as empresas distribuidoras de energia passam pelo mesmo problema, ao serem obrigadas, por mais uma barbeiragem de política, a comprar energia no mercado à vista por preços muito superiores ao que vendem.

É segredo de polichinelo que as tarifas de energia têm que aumentar, sob pena de quebrar o setor, ou aumentar ainda mais o custo do Tesouro Nacional, mas que esse aumento não poderá ser realizado neste ano para não estourar o teto da meta, ainda mais no período eleitoral. É possível – se bem que não esteja 100% certo, confesso – que até o ministro da Fazenda consiga entender o problema, ainda que não tenha a coragem de expô-lo em público, muito menos de encaminhar uma solução.

É reveladora a paralisia administrativa do governo, que se recusa tenazmente a lidar com qualquer dificuldade, por mais urgente que possa ser, com receio das consequências eleitorais de políticas corretivas, seja no campo da inflação, dos preços controlados – perdão, “administrados”! – ou ainda dos gastos públicos.

Com a cabeça devidamente enterrada, o governo empurra todas as decisões relevantes com a barriga, na esperança de que os problemas se resolvam sozinhos. Enquanto a realidade se recusa a colaborar, ministros batem cabeças com gosto.

Por mais que meu lado economista torça pelo predomínio da racionalidade, tenho que admitir que minha tarefa de escrever uma coluna por semana se torna muito mais fácil graças à (falta de) qualidade da gestão econômica governamental. Meus sinceros agradecimentos pela criação desse paraíso.


As greves vermelhas

Ruth De Aquino
Revista ÉPOCA

O que fazer com os motoristas de ônibus que instalaram o caos e deixaram milhões à deriva?

O governo Dilma não é o primeiro nem será o último “governo dos trabalhadores” a ser desafiado com violência e ódio pelos próprios trabalhadores. Nada como uma semana depois da outra para rever, na real, o ânimo de uma população que não é a “crescente classe média”. Tampouco é o black bloc universitário que curte grifes ou o rebelde sem causa. Nem o aposentado, que sofre em casa mesmo.

Os grevistas e manifestantes que ameaçam parar o país e levar o inferno a todos nós – incluindo Dilma, Lula, Gilberto Carvalho e companhia – são, quem diria, os “companheiros”. Sim, porque o Brasil foi assumido há 12 anos não por um metalúrgico, mas por um líder sindicalista combativo, de imenso carisma.

Os companheiros deveriam estar nas ruas em alegres passeatas com a bandeira do Brasil, em pré-torcida pela Seleção. Mas não. As bandeiras são vermelhas, mas a estrela desbotou. Diante da selvageria das recentes paralisações e passeatas, fica claro que a turba ali não está a fim de “ordem e progresso”. Quer aumentos salariais acima da inflação, que reponham as perdas. “Se não parar no ano da Copa, quando vamos conseguir aumento?”, gritou para as câmeras um motorista de ônibus.

Carvalho chamou os grevistas de sabotadores. Haddad chamou a turma de “guerrilha”. O que fazer com os motoristas e cobradores de ônibus que instalaram o caos em São Paulo e deixaram milhões ao relento e à deriva? Como lidar com esses guerrilheiros urbanos? Multa? Prisão? O que acontecerá com os companheiros que rejeitaram a negociação do sindicato, furaram pneus dos ônibus, tiraram as chaves, bloquearam as avenidas, retiraram passageiros de todas as idades de dentro de ônibus, como se fossem sequestradores comuns? Colocaram a cidade de São Paulo de joelhos.

E Lula? Como ele disse achar “uma babaquice” a preocupação de ter metrô até a porta dos estádios, porque brasileiro “vai a pé, descalço, de bicicleta, de jumento, de qualquer coisa”, o que deve ter pensado quando milhares de mulheres e homens sofridos precisaram caminhar para o trabalho e de volta para casa? Lula chegou a dizer a blogueiros que a Copa será o momento de o país “mostrar sua cara”. “Esconder pobre está fora de cogitação”, afirmou. Aguardo a reação oficial à onda de greves de trabalhadores ingratos que antes aplaudiam Dilma.

O coordenador dos sem-teto, Guilherme Boulos, afirma: “Queremos trazer a Copa para os trabalhadores. Empresários e a Fifa tiveram seu pedaço do bolo. O trabalhador agora quer sua fatia”. E ameaça um “junho vermelho” se tentarem remover as famílias que invadiram o terreno da construtora Viver, na Zona Leste de São Paulo: “Se a opção da construtora e dos governos for tratar a questão como um caso de polícia e buscar garantir posse, haverá resistência. Se querem produzir uma Copa com sangue, essa é a oportunidade que eles têm”. “Eles” quem?

Será que Boulos se refere aos companheiros Lula e Dilma, que prometeram tudo pelo social e resgataram tantos milhões de brasileiros da extrema pobreza? É prudente o PT parar de culpar a “imprensa conservadora”, o “mau humor” e a “nuvem negra”. É melhor começar a ouvir os movimentos sociais. Que divórcio litigioso é esse entre o PT e trabalhadores? Nem os programas de televisão nem os marqueteiros conseguem provar a essas categorias todas – médicos, professores, motoristas – que o PT está do lado do povo?

Ninguém de bom-senso pode ser a favor das cenas vistas em São Paulo nos últimos dias. Sou a favor do direito de greve – um direito garantido pela Constituição e pela democracia. Não é crime uma categoria tirar proveito de um momento estratégico para fazer reivindicações trabalhistas justas.

Por que controladores aéreos franceses param no verão europeu? O mesmo se pode dizer dos trens e metrôs em Londres. Por que se interrompe a coleta de lixo quando o calor é maior na Europa? O objetivo de uma categoria insatisfeita é provocar o maior estrago possível para aumentar o poder de barganha. Mas, até para convocar um movimento trabalhista legítimo, é preciso um mínimo de civilidade para angariar apoio. O que vimos foi ignorância, crueldade e bandidagem.

O pano de fundo das greves vermelhas pré-Copa chega a ser irônico, num país governado pelo PT há 12 anos. As bandeiras são: “Moradia digna. Educação digna. Saúde digna. Transporte digno”. Ouvi isso da boca de uma manifestante dos sem-teto em São Paulo.

Qualquer estrangeiro que chegue desavisado ao Brasil e depare com multidões de manifestantes exigindo esses quatro direitos básicos de cidadania, todos associados à palavra “dignidade”, pode perguntar. “O que aconteceu? É a direita que governa agora o país?” Não, é Dilma, com Lula.

Dá medo? Ou esperança?

Populismo, luta de classes e liberdade

Edward Amadeo (*)
O Globo

A inflação ronda 6%, mas, não fossem as manobras protelatórias, seria 7% a 8%

Sob o manto teórico de que ao governo cabe defender o cidadão contra os abusos do mercado, o governo federal vem intervindo na formação de preços. Interfere nas tarifas de serviços públicos, no preço da gasolina e até nos chamados “preços livres” via alterações de impostos. Para incentivar o consumo, mexeu nos IPIs; para reduzir importações, mexeu nas tarifas de importações; para reduzir a entrada de capitais, mexeu no IOF.

Também interferiu no mercado de crédito ao produzir uma avalanche de empréstimos subsidiados, mascarando política fiscal com política creditícia. E no mercado de trabalho, ao reduzir as contribuições do INSS, estimulou a demanda por um recurso que, à altura da medida, se afigurava escasso.

Quem estudou as economias centralmente planejadas sabe que a supressão do sistema de preços produz investimentos ineficientes e desajustes entre oferta e demanda que terão que ser resolvidos adiante.

Essa é uma história econômica com repercussões políticas. O governo passou a mensagem de que “ele manda”. Ora, se ele manda, tem que entregar. E vai entregar a quem tiver mais poder de barganha, quem gritar mais alto. Esse ambiente incita os grupos de interesse a reivindicar mais para os seus associados. Isso vale para empresários, políticos e sindicatos de servidores privados e públicos. Ao impedir o funcionamento do mercado de bens e serviços, o governo realça o mercado político.

Acrescente-se um fator circunstancial, as eleições, e temos um contexto favorável para as trocas entre o governo, que manda, e os grupos organizados, que reivindicam. Não por outra razão, o governo, que começou o ano dizendo que ia ser mais moderado nas áreas fiscal e creditícia, já mudou de ideia e, nas últimas semanas, voltou ao regime de provimento de benesses. Trata-se de populismo em estado puro.

A barganha exacerbada pode produzir uma espiral em que os grupos reivindicam e o governo, acuado, tem que entregar. Mas esse processo tem um limite.

A inflação ronda 6%, mas, não fossem as manobras protelatórias, seria 7% a 8%. O superávit primário ronda 1,5%, mas, não fossem as artimanhas contábeis, estaria em zero. A pilhagem fiscal fez o governo chegar ao limite, assim como as represas que nos levarão ao racionamento de energia.

A crítica à viabilidade do modelo tem provocado uma furiosa reação do PT, para quem se trata de uma visão da elite que deseja a volta do arrocho salarial e do desemprego. Esse clima de luta de classes terá dois legados. Primeiro, com o tempo, o governo se tornará refém dos grupos organizados na sanha por mais benefícios. Segundo, a folga fiscal se extinguirá e, no momento da verdade, haverá grande frustração de expectativas. Já estamos assistindo a um pouco dos dois.

Que os governos erram — como errou o governo do PT — há centenas de exemplos na História. O insucesso deve servir de combustível para o aperfeiçoamento através da pesquisa, das reformas e da ação essencial dos atores políticos em um ambiente democrático. Que o governo defenda seus métodos e produza uma alegoria baseada na luta de classes também é aceitável.

Mas usar o argumento do oligopólio da comunicação como mote de campanha e ameaçar com a censura à imprensa é permitir que a política partidária venha a suprimir o oxigênio do organismo social, que é a liberdade de expressão. Porque é da livre expressão dos indivíduos que se faz a convivência humana, senão criativa e virtuosa, pelo menos suportável.

(*) Edward Amadeo é economista

Vem aí a “BR Problems”

Thiago Bronzatto
Revista EXAME

Nos últimos anos, cinco empresas foram à bolsa com a referência ao Brasil no nome e a promessa de consolidar seus setores. Era a aposta num país que não tinha como dar errado. Os investidores acreditaram. E perderam dinheiro de gente grande

Divulgação 
Estreia da BR Insurance: 
captou 645 milhões de reais e hoje está dando dor de cabeça

São Paulo - Quando historiadores do futuro se debruçarem sobre o mercado financeiro brasileiro da última década, alguns fenômenos hão de fasciná-los. Eike Batista, claro, será o primeiro da lista. Mas quem prestar atenção às empresas que abriram o capital na Bovespa certamente desejará estudar a “farra das BRs”.

Na era do Brasilzão potência, empresas dos mais variados setores foram à bolsa com a mesmíssima estratégia. Elas tinham no nome as duas primeiras letras do Brasil seguidas por um complemento em inglês, que faz uma referência a seus setores de atuação — pharma (farmácias), insurance (seguros), properties (imóveis), e por aí vai.

A promessa da maioria era juntar um punhado de empresas que atuavam em mercados pouco concentrados e criar líderes nacionais. Elas não tinham grandes estruturas, algumas nem auditavam seus balanços direito, mas caprichavam no PowerPoint para atrair o interesse de estrangeiros sedentos por investir no país emergente da moda.

As BRs captaram até hoje 7 bilhões de reais. Em alguns casos, a demanda chegou a exceder nove vezes a oferta de ações nas aberturas de capital.

Em determinado momento, parecia questão de tempo até que surgissem a BR Bread (padarias) e a BR Tires (borracharias). Mas o tempo passou, o Brasilzão virou Brasilzinho para os investidores e as BRs viraram um conjunto que, hoje, pode ser apelidado de “BR Problems”.

As más notícias estão por todo lado. A rede de farmácias BR Pharma, criada em 2009 pelo banco BTG Pactual e que reúne nove redes regionais, perdeu 56% do valor desde que foi à bolsa, em 2011. No ano passado, teve um prejuízo recorde de 151 milhões de reais.

A administradora de imóveis BR Properties vendeu, em março, 34 galpões por 3,2 bilhões de reais — parte desse dinheiro será usada para reduzir uma dívida de 4,5 bilhões de reais, ou sete vezes sua geração de caixa. Em 2013, a empresa teve queda no lucro de 93%, para 81 milhões de reais.

A primeira empresa criada nesse modelo, a rede de corretoras de imóveis BR Brokers, fundada em 2006 pelo empresário Ney Prado Júnior, perdeu 23% de seu valor de mercado em 12 meses. No mesmo período, as BRs perderam 7 bilhões de reais de valor de mercado.

O retrato mais acabado dessa crise é a empresa de seguros BR Insurance. Após surgir de uma sociedade entre 27 corretoras de seguros, em 2009, a companhia captou 645 milhões de reais na bolsa em 2011. Havia motivos para desconfiar, mas os investidores foram em frente. 

Os balanços das corretoras tinham formatos diferentes. “Eu tinha uma pequena corretora e passei a ser sócio de um grande grupo. Digo que passei do jegue para o jato”, diz Fábio Franchini, que fundou a corretora Promove, uma das sócias do negócio. De lá para cá, a BR Insurance fez 25 aquisições, ampliando sua receita 18 vezes, para 258 milhões de reais em 2013.

Mas a empresa não conseguiu juntar tantas operações. Após o anúncio do resultado do quarto trimestre de 2013, abaixo do esperado, as ações da empresa caíram 63% em dez dias. A queda foi tão impressionante que fundos como o Gávea sondaram pelo menos três sócios sobre a possibilidade de vender sua participação no negócio.

Em abril, numa visita a investidores em Boston, Londres e Nova York, Franchini teve de responder diversas vezes à mesma pergunta: a BR Insurance vai “virar outra BR que não deu certo?”

Boa parte dessas empresas sofre dos mesmos problemas. É bem verdade que a economia não ajudou e a bolsa não viveu seus melhores momentos nos últimos anos. Mas juntar dezenas de pequenas e médias empresas em pouco tempo se mostrou mais difícil do que o previsto.

Não é todo mundo que, do dia para a noite, aceita deixar de ser dono de seu negócio para se tornar funcionário e ter de dar satisfações. Após a abertura de capital da BR Pharma, os donos das drogarias que deram origem à empresa passaram a brigar por tudo — mais participação no conselho de administração, indicação de executivos, distribuição dos dividendos e a estratégia do controlador, o BTG Pactual.

“Às vezes, parece que estamos dirigindo um carrinho de bate-bate: são várias empresas que ficam se chocando por ter modos de atuação diferentes”, diz um dos sócios. 

Apesar de ter ido à bolsa justamente com a promessa de integrar dezenas de empresas e tirar vantagem das sinergias, as companhias demoraram tempo demais para fundir seus negócios. A BR Brokers, por exemplo, reuniu 16 corretoras e foi à bolsa em 2007. Mas só uniu suas operações em São Paulo em 2011.

Foi quando se deu conta de que tinha gente demais para dar palpite. Pelo contrato original, os sócios precisariam trabalhar por alguns anos na empresa. Caso decidissem sair antes, perderiam seu lote de ações da empresa. A regra mudou para fazer a fila andar.

“Tínhamos três diretores administrativos e três diretores financeiros. Não fazia sentido manter essa estrutura”, afirma Sérgio Freire, presidente da BR Brokers. Por divergências na estratégia, três processos de arbitragem foram abertos para resolver problemas com os sócios em Vitória, Distrito Federal e Manaus.
A maldição das BRs na bolsa puniu até aquelas empresas que têm um modelo de negócios diferente. A administradora de shopping centers BR Malls, por exemplo, não nasceu de um PowerPoint, mas de um grupo dono de alguns shoppings que, pouco a pouco, foi comprando novos empreendimentos — hoje, são 51.
A empresa teve uma valorização de 166% desde sua abertura de capital, em 2007. Nos últimos 12 meses, porém, os papéis caíram 15%. Os investidores estão preocupados com a provável desaceleração do setor neste ano e com o fato de as elevações recentes nos juros aumentarem o custo da dívida da companhia.

Finalmente, a maldição atingiu gente que nem conseguiu chegar até a bolsa. O banqueiro Pedro Guimarães, sócio do banco Brasil Plural, tentou viabilizar a BR Travel, de empresas de turismo, e a BR Odonto, de planos odontológicos. Mas desistiu de ambas por falta de demanda de investidores — que, depois de ter perdido tanto dinheiro, decidiram dizer chega à farra das BRs.

Não se procura emprego

Celso Ming  
O Estado de S.Paulo

O desemprego no Brasil alcançou em abril apenas 49 em cada mil trabalhadores, nível mais baixo em meses de abril desde 2002, quando começou a medição com a metodologia hoje adotada.

Já seria um dado intrigante, apenas se contraposto ao avanço econômico medíocre dos últimos quatro anos, à baixa disposição da indústria em contratar pessoal e à diluição do poder aquisitivo pela inflação.

Mas é ainda mais intrigante na medida em que esse recorde está sendo atingido não porque tenham aumentado os postos de trabalho no País, mas porque cada vez menos brasileiros se dispõem a procurar emprego.

Não falta quem diga, como o presidente da Fifa, Joseph Blatter, disse dia 16, que brasileiro não quer trabalhar. Como ninguém vive de vento e como essa queda do índice de ocupação é relativamente recente - porque quase sempre o desemprego foi mais alto do que é hoje - é preciso explicação.

Muito já foi dito sobre a necessidade de mais instrução e de mais treinamento prévio, exigências que vêm adiando a entrada dos jovens no mercado de trabalho. (Também segue sendo repisado que cada vez mais aposentados têm de continuar trabalhando porque os proventos da Previdência são insuficientes.)

Por outro lado, é notório o aumento de renda da população, graças em parte aos programas distributivos do governo. E, ainda, estão aí as conclusões das pesquisas de que, nos últimos 15 anos, pelo menos 30 milhões de brasileiros chegaram a segmentos mais altos de consumo.

Outra parte das explicações parece relacionada ao mais forte crescimento do segmento de serviços. Este não é apenas o setor que mais oferece empregos no Brasil, mas, também, o que mais proporciona remunerações extras por pequenas atividades, muitas vezes a quem já tem ocupação fixa. É a empregada doméstica que aceita serviços de faxina; é o eletricista que trabalha "por conta própria"; é o guardador de carros que ganha mais com o que faz do que se tivesse um emprego numa firma, onde o salário está sujeito a descontos de lei, além das despesas com transporte que, de resto, consome horas por dia, em trens ou ônibus cujos níveis de conforto conhecemos.

Por aí se vê, também, que, na percepção do brasileiro comum, ter um emprego firme nem sempre compensa. É também o que se pode chamar de "precarização do trabalho". Alguns analistas chamam a atenção para o tal fator de desalento, que leva o trabalhador a desistir de procurar emprego. Nenhum desses fatores isolados explica tudo. É na combinação entre eles que se pode procurar a explicação por esse fenômeno relativamente novo na economia.

Até agora, a queda ou a manutenção do desemprego em níveis tão baixos deixaram estressado o mercado de mão de obra e concorreram para elevar os custos do fator trabalho. Mas já é acentuada a desaceleração da atividade econômica, a ponto de atingir em cheio até mesmo o setor de serviços. É uma pulsação bem mais fraca que pode voltar a acelerar os índices de desemprego.

Remédio em dose excessiva é veneno

Zeina Latif
Instituto Millenium

Investigar o efeito do mínimo sobre o salário médio é parte essencial na tomada de decisão da mudança de regra

Tem crescido o incômodo com a atual regra de reajuste anual do salário mínimo, que expira em 2015, baseada nas últimas informações disponíveis de taxa da inflação e de crescimento do PIB. Como os patamares atingidos em termos reais estão próximos das referências mundiais, discute-se moderar os ajustes daqui em diante, para permitir que estejam mais alinhados aos ganhos de produtividade do trabalho. Esta seria uma “regra de ouro” para minimizar efeitos colaterais nocivos da política que põem em risco o crescimento econômico e a manutenção das conquistas sociais das últimas duas décadas.

A vinculação do salário mínimo a gastos da previdência social e políticas de transferência de renda, algo único na experiência mundial, torna essa discussão ainda mais urgente, pois o comprometimento de recursos públicos tem sido crescente.

Quanto aos efeitos do salário mínimo, sua eficácia na melhora da distribuição de renda depende de seu impacto sobre os ajustes nominais dos demais salários da economia. Quanto maior o impacto do salário mínimo sobre os demais, menor seu efeito distributivo e maior o risco inflacionário.

O risco inflacionário, usando a linguagem dos economistas, decorre do possível deslocamento para da curva de oferta agregada da economia, que por sua vez reflete o somatório das curvas de custo marginal das empresas, que são por sua vez pressionadas pelo aumento de salários. O resultado final seria o aumento da taxa de inflação, mantidas as condições do lado da demanda. Se, no entanto, o ajuste do mínimo estiver alinhado aos ganhos de produtividade da economia, a curva de oferta agregada não se move, e o efeito inflacionário seria nulo.

Investigar o efeito do mínimo sobre o salário médio é parte essencial na tomada de decisão da mudança de regra.

A curta série histórica de rendimento nominal dificulta maiores conclusões. Ainda assim, cabem algumas observações gerais.

Até 2005, quando as decisões de reajuste eram basicamente discricionárias, havia maior aderência entre o reajuste do mínimo e a variação do rendimento médio no trimestre anterior. Uma possível explicação é que as condições da economia no momento imediatamente anterior acabavam de alguma forma balizando a tomada de decisões dos políticos.

A partir de 2006, quando a regra atual foi acordada, o desempenho do rendimento médio (no trimestre anterior) perde a relevância para explicar o reajuste do mínimo. Por outro lado, este parece influenciar mais o comportamento do rendimento médio adiante, ao longo do ano, o que parecia pouco relevante até então.

Esse período coincide com o início do aumento da participação do emprego com carteira no emprego total, o que certamente pode ter contribuído para aumentar a influência do mínimo sobre o rendimento médio, pelo aumento do número de pessoas recebendo o mínimo, e não exatamente pela influência sobre os demais salários. Nesse caso, minimiza-se o risco inflacionário, pois a decisão de formalização da mão-de-obra pode estar associada a ganhos de produtividade que acabam compensando o aumento de custos das empresas.

A partir de 2009, no entanto, parece surgir um elemento novo. A contaminação do mínimo sobre o rendimento médio parece mais sensível ao grau de aquecimento do mercado de trabalho, este medido pelo diferencial entre a taxa de desemprego e um suposto nível de equilíbrio. O mercado de trabalho apertado pode ter elevado a contaminação do mínimo. Usando novamente a linguagem técnica, com a economia aquecida, a curva de oferta é mais inclinada, o que significa que pressões de custos são mais intensamente repassadas a preços.

O fato de o setor de serviços, que absorve mais mão-de-obra, ser provavelmente o mais afetado pela política do salário mínimo é um fator agravante. Os ganhos de produtividade do setor tem se reduzido e a alta de salários é repassada mais facilmente a preços, já que o setor não é limitado pela disciplina de preços internacionais como é a indústria.

Se isso for verdade, estariam ocorrendo efeitos indesejados dos reajustes do salário mínimo sobre o equilíbrio macroeconômico e a inflação, que contaminam o crescimento econômico e os ganhos de renda da economia.

É natural que o ambiente eleitoral dificulte a discussão do tema. Algumas promessas podem parecer inofensivas no acirramento da campanha, mas podem ser bastante danosas à saúde do país, quando posteriormente cobradas e implementadas.

Caminho da indústria

Míriam Leitão e Alvaro Gribel 
O Globo

A indústria desconcerta e confunde. O que fazer com um setor que encolhe a cada ano, por maiores que sejam os benefícios dados através de redução de impostos? Ela chegou a ser 25% do PIB e hoje é 13%. A queda ocorreu num longo tempo. O pico foi nos anos 1970, e de lá vem com altas eventuais, mas a tendência é ficar cada vez menos importante.

Só que é a indústria que dá o tom do debate, é ela que recebe pacotes de benefícios ficais, é ela que tem fama de ser a atividade nobre da economia. Bom, o primeiro a fazer é entender o movimento de queda. O especialista Regis Bonelli, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia, o Ibre, da GFV, foi ao meu programa na Globonews esta semana com uma série de gráficos. Um deles (veja abaixo) mostra a queda da indústria brasileira, como proporção do PIB. Os outros provavam que não é só no Brasil:

— Os gráficos mostram que a queda da participação da indústria no PIB é uma tendência que se observa desde os anos 1980. E é universal. Não é uma jabuticaba. Na Ásia, a tendência é a mesma. Na China, a série é menor, mas se vê queda. Na Europa, era 30% em 1970, mas, veio ladeira abaixo, e é 13,5%. Na América do Norte, caiu para algo em torno de 12%.

O economista Mauro Rochlin, do IBMEC, acha que, mesmo mostrando que em todos os países há uma queda da participação da indústria no PIB, a desindustrialização é mais forte no Brasil, tanto que se parece com economias maduras como a dos Estados Unidos:

— Os últimos anos foram muito difíceis pelo Custo Brasil e pelo câmbio. Tivemos um processo muito intenso nos últimos cinco ou seis anos. A queda do câmbio, durante muito tempo, estimulou as importações e relações de clientela se firmaram nesse tempo, o que incentivou os importadores a se estabelecerem de forma sólida no Brasil.

Régis Bonelli nota que as importações que cresceram foram de bens de capital e bens intermediários. No último caso, a indústria se beneficia por ter insumos mais baratos e de qualidade superior. Mauro lembra que os salários da indústria aumentaram muito, e isso também tirou competitividade. Acha, no entanto, que o que realmente nos enfraquece é uma infraestrutura deficiente, nosso velho calcanhar de Aquiles.

O que fazer diante disso? Regis acha que o ideal seria se integrar às cadeias produtivas globais, mas lembra que não é trivial. Até porque isso é feito pelas multinacionais, e quando elas vêm é pelo mercado brasileiro, que é grande, e não para exportar daqui.

A atuação do governo tem sido escolher alguns setores para com isso estimular a indústria como um todo.

— Não é assim que se faz política industrial, mas entendo o governo mirar esse caminho porque dar incentivos à indústria automobilística é dar um tiro certeiro. Pelo tamanho da cadeia, acaba atingindo o setor como um todo — diz Mauro.

Bonelli acha que o único tiro certeiro é investir pesado em infraestrutura porque isso aumentará muito a produtividade da indústria.




Sinais econômicos equivocados

Adriano Pires
O Estado de São Paulo

Entre 2011 e 2013, as perdas com o represamento dos preços da energia no país somaram R$ 105,80 bilhões

A partir de 2010, o governo aprofundou o uso da política de preços da energia com o objetivo de controlar a inflação e assegurar a sua popularidade. Primeiro, foram a gasolina e o diesel, que são vendidos no mercado doméstico a preços inferiores aos do mercado internacional, gerando grandes perdas para a Petrobras e seus acionistas. Desde o ano passado, o setor elétrico foi incluído no conjunto dos instrumentos de política econômica e passou, também, a fazer parte da agenda eleitoral.

Entre 2011 e 2013, as perdas com o represamento dos preços da energia no país somaram R$ 105,80 bilhões. Somente em 2013, ano em que se iniciou o aporte de recursos do Tesouro no setor elétrico, em função da MP 579, as perdas totais foram de R$ 50,39 bilhões, 174% superiores as de 2011, que foram da ordem de R$ 18,37 bilhões.

Em proporção do Produto Interno Bruto (PIB), as perdas de 2013 cresceram 0,60 ponto porcentual (p.p.) com relação a 2011, ao sair de 0,44% para representar 1,04%. Para 2014, projetamos que a manutenção do represamento das tarifas de energia elétrica e dos preços da gasolina e do diesel totalizará R$ 80,50 bilhões, ou seja, 1,52% do PIB previsto para 2014, valor que será gasto para manter essa política intervencionista e populista.

O valor das perdas com “subsídios” ao setor energético previsto para 2014 supera os gastos governamentais em programas sociais. Em 2013, o governo investiu R$ 63,2 bilhões em programas sociais, incluindo o Minha Casa, Minha Vida. As perdas com o setor de energia também são superiores aos programas de assistência social, que incluem o Programa Bolsa Família (R$ 62,5 bilhões), além de superarem os desembolsos com seguro-desemprego e abono salarial (R$ 46,4 bilhões), verificados em 2013.

O total de “subsídios” ao setor energético é estimado considerando apenas as perdas com gasolina e óleo diesel, entre 2011 e 2013, e o aporte de recursos do Tesouro Nacional ao setor de energia elétrica. Para os combustíveis, é utilizada a soma das perdas da Petrobras com gasolina e óleo diesel, o valor que o governo deixou de arrecadar com a redução e posterior desoneração da alíquota da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) e com as variações na tributação referente ao PIS/Cofins no preço da gasolina e do óleo diesel.

Entre janeiro de 2011 e dezembro de 2013, a Petrobras deixou de arrecadar R$ 47,1 bilhões. Desse total, R$ 34,18 bilhões referem-se ao custo de oportunidade com o óleo diesel e R$ 12,96 bilhões, à gasolina.

Desde maio de 2008 os preços da gasolina e do óleo diesel recebem o benefício de reduções progressivas da Cide. Em junho de 2012, o governo reduziu a zero a incidência da contribuição nos combustíveis. Dessa forma, as perdas com o fim da Cide foram de R$ 25,5 bilhões, entre janeiro de 2011 e dezembro de 2013. Há ainda as variações da incidência da alíquota de PIS/Cofins sobre o preço da gasolina e do óleo diesel, que totalizaram um saldo negativo de R$ 23,2 bilhões, entre 2011 e 2013.

A ausência de planejamento de longo prazo e de soluções de cunho estrutural para o setor energético está claramente refletida na opção política atual, que incentiva uma total má alocação de recursos no setor, fornecendo sinais econômicos completamente equivocados tanto para investidores como para os consumidores. Isso se reflete na perda de competitividade de outros energéticos, que não recebem tratamento semelhante por parte do governo, como é o caso do gás natural e do etanol. A título de exemplo, a alocação de R$ 1 bilhão no setor de gás natural poderia reduzir a tarifa cobrada da indústria em R$ 0,10. 

Além disso, por que o governo não volta a cobrar a Cide da gasolina, aumentando a arrecadação governamental e trazendo de volta a competitividade do etanol? Não faz sentido econômico algum a Petrobras, por meio dos seus acionistas, bancar a diferença entre os preços dos combustíveis praticados no exterior e no Brasil nem o Tesouro Nacional injetar um grande volume de dinheiro no setor elétrico para corrigir mais uma barbeiragem do governo.

Dilma decepciona empresários e não promete estímulos

Exame.com
Laís Alegretti, Nivaldo Souza e Tania Monteiro, Estadão Conteúdo

Presidente convidou empresários de 36 setores da indústria para reunião, mas não acenou com novos estímulos para o setor

Presidente Dilma Rousseff durante
 o Fórum Nacional da Indústria, em Brasília

Brasília - Após anunciar o Plano Safra com aumento de 15% no crédito para angariar apoio do setor rural, a presidente Dilma Rousseff convidou nesta quinta-feira, 22, empresários de 36 setores da indústria brasileira para reunião no Palácio do Planalto, mas não acenou com novos estímulos para o setor.

Segundo participantes da reunião, a presidente nem mesmo confirmou se será permanente a política de desoneração da folha de pagamentos, demanda antiga dos empresários nacionais.

Na conversa com o empresariado, Dilma se comprometeu a dar uma posição sobre a permanência ou não da desoneração da folha de pagamentos em até uma semana.

De acordo com o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, além de não ter definição quanto ao prazo, não houve compromisso de que novos setores seriam contemplados pelo benefício.

"Nossa demanda é de que novos setores sejam incluídos", completou.

Segundo Andrade, os ministérios da Fazenda e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior vão estudar a questão nos próximos dias. Os titulares das duas pastas, Guido Mantega e Mauro Borges, também participaram da reunião.

Apesar da expectativa em relação a um posicionamento sobre a permanência da política de desoneração da folha de pagamentos, a presidente Dilma Rousseff já disse em dezembro do ano passado que essa seria uma política permanente do governo federal.

"Diante da crise, os governos são levados a fazer coisas que não fazem em tempos normais. E uma política anticíclica foi praticada no Brasil. Tem uma parte dela que vai ser permanente, por exemplo a questão da desoneração sobre folha de pagamento", afirmou na ocasião.

Afago
O encontro de Dilma com o setor industrial ocorreu dias depois de a presidente afagar o agronegócio no início desta semana com o anúncio do Plano Safra 2014/2015, no valor de R$ 156,1 bilhões.

Em entrevista no próprio Palácio do Planalto, os empresários elogiaram a postura do governo federal.

"Vou embora mais feliz com o governo. Acho que a presidenta inaugurou um novo jeito de fazer as coisas", elogiou o presidente da Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq), Synésio Batista da Costa.

Costa ficou responsável pela pauta tributária do encontro e sugeriu ao governo alongar para 90 dias o prazo que as empresas têm para recolher impostos e tributos, o que hoje é feito no 25º dia após a saída dos produtos da fábrica.

Ele também pediu para que fosse reduzido para 5% o valor da entrada do pagamento das dívidas das empresas com a União interessadas em participar do Refis.

O programa de refinanciamento de impostos atrasados, alterado no Congresso com a medida provisória 638, estabelece que as empresas que decidam aderir ao programa deverão pagar uma entrada de 10% do total devido, para dívidas de até R$ 1 milhão, e de 20% para dívidas superiores a esse valor.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Dentre as diversas sugestões apresentadas à senhora Rousseff, há especialmente uma que defendemos há muito tempo: o alongamento para recolhimentos de impostos.

antes do período de hiperinflação, vivida pelo Brasil durante os ano 80 e metade da década de 90, do século passado, os prazos foram encurtados para que a defasagem entre o fato gerador e o efetivamento pagamento, para provocasse grande perda do valor aquisitivo. 

Porém, eram prazos razoáveis que permitiam ao empresariado receber o valor devido pela geração da riqueza que lhe permitisse financiar sua produção. Na medida em que os prazos foram sendo reduzidos, as empresas se obrigaram a buscar o mercado financeiro com uma frequência maior. Como o governo era o maior do crédito disponível, a demanda por crédito pelas empresas fazia os juros subirem tornando o custo financeiro com peso cada vez mais expressivo.

Com a inflação em níveis mais baixos, esta redução de prazo tornou-se inexequível, provocando uma crescente descapitalização das empresas.

O alongamento não depende do congresso, basta o governo querer. Esta é uma medida  que pode ser adotada de imediato, nem precisa esperar o resultado das eleições, colaborando para provocar uma redução no Custo Brasil. É insuportável  continuar pagando impostos antecipadamente, antes que seja gerada a riqueza pelo bem ou  serviço produzido.