terça-feira, maio 27, 2014

Com governo ruim, não há esperança que aguente!

Adelson Elias Vasconcellos


Na primeira matéria desta edição, há um texto da Exame.com relatando alguns dos nomes que a FIFA registrou no INPI e os quais só poderão ser usados sob permissão da entidade.  Nome do país e das cidades sedes com a inscrição “2024” não podem. Só se a FIFA deixar. 

Quando um governo chega a tal ponto de submissão, em que o  nome do país e cidades sedes só poderão ser mencionados sob permissão de uma entidade estrangeira, fica difícil aguentar o discurso de uma presidente que afirma não ter sido eleita para por o país de joelhos. Nem o velho e bom “pagode” escapou da sanha dos cartolas. 

É claro, e já disse algumas vezes, que a FIFA  não impõe nada. Ela cria condições que os interessados poderão aceitar ou não.  E, no caso, o Brasil baixou a crista, se ajoelhou, beijou a mão dos dirigentes da FIFA e disse “amém, eu topo”. 

Mas não foram apenas os registros daquelas palavras, muitas absolutamente de propriedade brasileira, que comprovam a submissão vergonhosa do país a uma entidade estrangeira. Leis tiveram que ser mudadas para se adequarem às condições padrão FIFA. Muitos bilhões em incentivos fiscais e isenções de impostos também foram oferecidos em bandeja dourada. Alguns estabelecimentos comerciais nos entornos estarão impedidos de funcionar por venderem produtos não licenciados pela FIFA. Sem contar que ficaremos com a conta e prejuízo se houver. Os bônus pertencem à FIFA.

Joseph Blatter e Jerôme Valcke têm total razão quando afirmam  que não obrigaram nosso país a coisa alguma. Nós é que fomos até a FIFA apresentar uma candidatura para sediar a copa do mundo, oooppps! palavra censurada!, o campeonato mundial.

O governo brasileiro à época, comandado Luiz Inácio da Silva, cabra tão valente a defender nos palanques nosso nacionalismo, nossa brasilidade, nossa soberania, que acha que não precisamos do mundo, o mundo é que precisa do Brasil, em momento algum disse que esta ou aquela condição era inaceitável. Quando soube que precisaria mudar a Lei de Licitações jamais, em momento algum, levantou sua voz para defender nossa soberania. Agachou-se submisso e concordou.

Durante meses, em discursos e propaganda mentirosa, vendeu um sonho para o país de que havíamos atravessado o limite do subdesenvolvido para o mundo civilizado. Contudo, na medida em que fomos tomando conhecimento das condições aceitas pelo governo brasileiro, a maravilha vendida por Lula foi se desvanecendo. 

Nem precisamos repetir aqui estas promessas tolas e falsas. O povo brasileiro, hoje, sabe perfeitamente bem que caiu no conto da copa, que deu apoio à uma fantasia. Este apoio, inicialmente condicionado aos bilhões de investimentos em melhorias urbanas, virou verdadeiro pesadelo.  Sabemos que, muito mais do que o retorno financeiro e as melhorias urbanas, restaram dezenas de obras inacabadas, muito elefantes brancos, muitos bilhões em dívidas a serem amortizadas no andar dos anos, e que a vida diária e todas as suas carências permanecerão exatamente onde estavam. E até pior, porque os muitos bilhões desviados, que se prometiam saírem da iniciativa privada, saíram mesmo dos cofres públicos, e poderiam ter melhorado muito as condições precárias de várias unidades de saúde que o programa Fantástico da Rede Globo, deste domingo, exibiu aos olhos de todos.

Duplamente, o Brasil seja pelo governo Lula ao aceitar as condições exigidas pela FIFA, seja pelo governo Dilma na má gestão dos preparativos para o “campeonato mundial de futebol” (assim tá bom, dona FIFA?”),  mostra o quanto ainda somos vira-latas, irresponsáveis, imaturos, pouco sérios. Não o país, não o seu povo e sua alegria permanente, mas seus governantes e sua classe política.  

Também nesta edição, há inúmeros artigos mostrando o quanto são falsas as ideias do “pleno emprego” e a da tal “nova classe média”. Uma nação só se faz rica e justa pela via do desenvolvimento. Neste ponto, impossível aceitar afirmações de que os pibinhos são irrelevantes. O PIB é o produto total da riqueza gerada pelo país. Se ele não cresce, a riqueza não aumenta, e apatetados ficamos tirando um pouquinho de uns poucos  para esmolar  no bolso de muitos.  Ou seja, ficamos idolatrando a política de distribuição de misérias. Não há um único ranking de educação, competitividade, segurança, equilíbrio fiscal, gestão das contas públicas, crescimento da indústria, aumento real de renda  gerado por empregos melhores e mais qualificados, que o país tenha evoluído nestes últimos doze anos. Em todos eles estamos despencando. E o campeonato mundial de futebol com todas as mazelas que acarretou e as deficiências que externou,  pelo menos teve um lado positivo: despertou o povo brasileiro para a dura realidade com que vive seu dia a dia, além de exibir aos olhos do mundo que o despertar do gigante não passou de uma ilusão de ótica, uma sorrateira jogada de marketing.

Entre os muitos comentários que a gente lê nas redes sociais, há especialmente um que representa bem o que vai à alma de muitos brasileiros: o melhor dos protestos é aquele que faremos em 5 de outubro, quando se realizar o primeiro turno das eleições. PERFEITO. Não precisamos ir para as ruas correndo o risco de levar bordoada e sermos confundidos com bandidos e vagabundos contratados por partidecos e militância política para expulsar o povo das ruas. Lá, na hora do voto, não haverá vândalos a nos infernizar,  não haverá força policial a nos constranger, não haverá mais palanques para nos entupir os ouvidos com mentiras e falsas promessas. É ali que devemos dizer o nosso BASTA e praticar a mudança que o país precisa. Será a hora e vez  de levantarmos a taça do nosso campeonato nacional sem medo de sermos processados por entidades estrangeiras por usar termos nossos, porque um governo medíocre, na forma e no conteúdo, se ajoelhou permitindo o roubo de propriedade. Ali, seremos os juízos supremos da nossa vontade.  Será o momento de criarmos o nosso PADRÃO BRASIL, independente de sermos hexa ou não. 

Porque devemos definir se, a nossa eterna esperança de um futuro melhor,  este otimismo onipresente em qualquer situação por mais amarga que tenhamos vivido, permanecerá intocável ou não. Ao ver o pais cabisbaixo diante da festa que sempre fizemos com a Copa e a Seleção,  sem alegrias, sem ruas enfeitadas, sem bandeirolas nas janelas, a demonstrar que nosso orgulho foi soterrado  pela anarquia do poder,  precisamos reagir e recuperar tanto a alegria quanto a esperança. Definitivamente, o PT não tem o direito de nos roubar esta virtude: a alegria de sermos brasileiros, sem nos envergonharmos da nossa pobreza e das nossas  carências. Podemos continuar pobres tanto quanto antes, mas temos, também, o direito de continuar a ser o povo alegre que sempre fomos. É como se brasilidade e alegria fossem  uma coisa só. Esta gente medíocre não pode acabar com os nossos sonhos, não tem o direito de nos envergonhar em sermos brasileiros. 

A Copa da esperança e a Copa do medo

Arnaldo Jabor
O Estado de S.Paulo

Meu avô chegou em casa chorando. As ruas estavam desertas e o silêncio era total. Isso, no dia 16 de julho de 1950, quando o Brasil perdeu para o Uruguai. Lembro de meu avô dizendo que só se ouviam os sapatos. Os chinelos, até pés descalços desciam as rampas do Maracanã e, vez por outra, alguém soluçava. Eu era pequeno e não entendia bem aquele desespero que excitava a criançada - ver adultos chorando! Muitos anos depois o Nelson Rodrigues me disse a mesma coisa: só os sapatos falavam. Mas por que isso aconteceu?

A guerra tinha acabado, a Fifa nos escolhera para a sede da Copa porque a Europa estava ainda muito combalida pela guerra. Tivemos de construir o Maracanã, que o prefeito Mendes de Morais inaugurou como se fosse o símbolo de um Brasil novo - o maior estádio do mundo. Getúlio Vargas já era candidato a presidente democraticamente eleito e tínhamos a sensação que deixaríamos de ser um país de vira-latas para um presente que nos apontava o futuro. O governo Dutra tinha gasto a maior parte de nossas altas reservas do pós-guerra em importações americanas. Inteiramente submisso ao desejo dos gringos, nos enchemos de produtos inúteis: meias de nylon, chicletes de bola, bolinhas de gude coloridas com que jogávamos, ioiôs, carros importados, o novo clima do cinema americano, dos musicais da Metro, o sonho de alegria e orgulho que pedimos emprestado aos Estados Unidos. Com ingênua esperança de modernidade, achávamos que nossa vez tinha chegado. E fomos ao jogo para ver nossa independência. Tínhamos certeza absoluta da vitória. Os jornais já fotografavam os jogadores do "scratch" como campeões invencíveis. Tínhamos ganho tudo. Apenas um empate com a Suíça, sete a um contra a Suécia, seis a um contra a "fúria" espanhola. O estádio estava cheio de ex-vira-latas, de ex-perdedores; como diria Nelson Rodrigues, todos éramos patrióticos granadeiros bigodudos e dragões da independência, Napoleões antes de Waterloo. Não queríamos apena uma vitória, mas a salvação. Só a taça aplacaria nossa impotência diante da eterna zona brasileira. Queríamos berrar ao mundo: "Viram? Nós somos maravilhosos!".

Precisando de somente um empate, a seleção brasileira abriu o marcador com Friaça aos dois minutos do segundo tempo, mas o Uruguai conseguiu a virada com gols de Schiaffino e Ghiggia. Claro que foi um terrível lance de azar, mas, para nós, o mundo acabou. No estádio mudo, sentia-se a respiração custosa de 200 mil pessoas. Ouvia-se a dor. Foi uma mutação no País.

Não estávamos preparados para perder! Essa era a verdade. E a certeza onipotente leva à desgraça. Traz a morte súbita, a guilhotina. Sem medo, ninguém ganha. Só o pavor ancestral cria uma tropa de javalis profissionais para o triunfo, só o pânico nos faz rezar e vencer, só Deus explica as vitórias esmagadoras, pois nenhum time vence sem a medalhinha no pescoço e sem ave-marias. Isso é o óbvio, mas foi ignorado. E quando o óbvio é desprezado, ficamos expostos ao sobrenatural, ao mistério do destino. Um amigo meu, já falecido, Paulo Perdigão, escreveu um livro essencial para entender o País naquela época - A Anatomia de Uma Derrota, em que ele cria uma frase que nos explicava em 50 e que nos explica até hoje: o Brasil seria outro país se tivéssemos ganho "aquela" Copa, "naquele" ano. "Talvez não tivesse havido a morte de Getúlio nem a ditadura militar. Foi uma derrota atribuída ao atraso do País e que reavivou o tradicional pessimismo da ideologia nacional: éramos inferiores por um destino ingrato. Tal certeza acarretou nos brasileiros a angústia de sentir que a nação tinha morrido no gramado do Maracanã..." E aí ele escreveu a frase rasgada de dor: "Nunca mais seremos campeões do mundo de 1950!".

Esta sentença nos persegue até hoje. Talvez nunca mais tenhamos o peito cheio de fé como naquele ano remoto.

Lá, sonhávamos com um futuro para o País. Agora, tentávamos limpar nosso presente. Somos hoje uma nação de humilhados e ofendidos, debaixo da chuva de mentiras políticas, violência e crimes sem punição. Descobrimos que o País é dominado por ladrões de galinha, por batedores de carteira e traficantes. E mais grave: a solidariedade natural, quase 'instintiva', das pessoas está acabando. Já há uma grande violência do povo contra si mesmo. Garotos decapitam outros numa prisão, ônibus são queimados por nada, meninas em fogo, presos massacrados, crianças assassinadas por pais e mães, uma revolta sem rumo, um rancor geral contra tudo. Repito: estamos vivendo uma mutação histórica.

Há uma africanização de nossa desgraça, com o perigo de ser irreversível. E não era assim - sempre vivemos o suspense e a esperança de que algo ia mudar para melhor.

Isso parece ter acabado. É possível que tenhamos caído de um 'terceiro mundo' para um "quarto mundo". O quarto mundo é a paralisação das possibilidades. Quem vai resolver o drama brasileiro? As informações criam apenas perplexidade e medo, mas como agir? Não há uma ideologia que dê conta do recado.

O mais claro sinal de que vivemos uma mutação histórica é esta Copa do Medo. Há o suspense de saber se haverá um vexame internacional que já nos ameaça. Será péssimo para tudo, para economia, transações políticas, se ficar visível com clareza sinistra nossa incompetência endêmica, secular. Nunca pensei em ver isso. O amor pelo futebol parecia-me indestrutível. O governo pensava assim também, com o luxo dos gastos para o grande circo. E as placas nas ruas se sucedem: "Abaixo a Copa!". "Queremos uma vida padrão Fifa!"

Como vão jogar nossos craques? Com que cabeça? Será possível ganharmos com este baixo astral, com a gritaria de manifestantes invadindo os estádios? Haverá espírito esportivo que apague essa tristeza?

Antes, nas copas do mundo, éramos a pátria de chuteiras. Hoje, somos chuteiras sem pátria.

O governo da anarquia

Sacha Calmon
Correio Braziliense


Em conferência em Salvador, Clóvis Torres, jovem e talentoso advogado, estampou uma citação da Ayn Rand: "Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em auto sacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada". O Brasil agora é o exemplo mais completo de frase de Ayn Rand, bem perto do que os gregos mais temiam, a anomia (ausência de aplicação da lei) a abulia (falta de vontade) e da anarquia (ausência de governo).

O povo está descrente. Primeiro, houve a falência do Estado, como agente da ordem e da lei. Traficantes e quadrilhas despacham armas, narcóticos e contrabandos tranquilamente pelas fronteiras terrestres e nos portos brasileiros, desde Belém até Paranaguá. Não temos guarda-marinha. As fronteiras continuam terra de ninguém. A violência tomou conta do país e assola tanto o rico como o pobre, o nacional e o estrangeiro.

Em paralelo, houve a falência do governo, infestado de corruptos e corruptores. Nove ministros foram tirados. Houve o mensalão. Não há como desmerecer o ministro Joaquim Barbosa e a Corte indicada por Lula. Os escândalos na Petrobras deixam a nação estarrecida; 39 ministérios e 33 partidos tornam o pais ingovernável.

Finalmente, há a falência da gestão da casa pública. O Brasil detinha o 11º lugar como país da energia mais cara no início do mandato de Dilma Rousseff. Agora está em 4º lugar, após a derrapada da Medida Provisória nº 579. Dizem que, em 2015, alcançaremos o pódio nesse item. No atual governo, a Petrobras viu suas ações perderem dois terços de valor na Bolsa. No entanto, para se reeleger a presidente segura os reajustes dos preços dos combustíveis. Quando forem soltos, a Petrobras estará descapitalizada e a inflação dará um salto, pois tudo é movido a petróleo, gasolina e diesel.

Está na ordem do dia no Congresso a compra superfaturada da refinaria de Pasadena, nos EUA, mas ela não é nada diante dos cambalachos da refinaria de Pernambuco. A Petrobras deu carta branca para que seu ex-diretor da área de abastecimento Paulo Roberto Costa negociasse a contratação de fornecedores e aditivos para as obras da Refinaria Abreu e Lima e tomasse decisões sem submetê-las ao conselho de administração ou à diretoria da estatal. Essa liberdade, apurou o Valor, significou a aprovação de mais de R$ 6,5 bilhões em contratos e aditivos para a refinaria.

Os fatos começaram com Lula, mas se deram até 2012, já no governo de Dilma. O distanciamento que a alta cúpula da Petrobras mantinha das decisões do conselho da refinaria ficou claro no depoimento do ex-presidente da estatal José Sergio Gabrielli à CPI da Petrobras. Ele minimizou o fato de o conselho ter assinado mais de 150 aditivos. "Não é tanto aditivo. Sabem quantos contratos tem a Refinaria Abreu Lima? 260." É o fim da picada. O estouro do orçamento da construção da Refinaria Abreu e Lima e os indícios de que o negócio fracassaria não impediram que os seus administradores dessem aumento "milionário" para o teto de seus próprios salários no período de Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, que estava preso e acaba de ser solto pelo ministro Teori Zavascki, embora não tenha ele fôro privilegiado por prerrogativa de função. Os demais detidos continuam presos.

A Abreu e Lima se transformou na obra mais cara do Brasil, entre todas do PAC. A presidente da Petrobras, Graça Foster, reconheceu que a companhia cometeu erros na execução das obras da refinaria: "Temos um custo mais alto no custo da refinaria (SIC). Tivemos diversos erros e acertos". A piada são os "acertos". Quais?

Os mais pobres estão cansados da corrupção governamental, das filas no SUS, de gastar três horas para ir e voltar do trabalho, da carestia crescente, da falta de educação, da insegurança de suas vidas, da bagunça generalizada, das ricas obras da Copa. Não há retórica nem marqueteiro que dê jeito nessa situação.

Dias piores virão, após as eleições, seja lá quem for o eleito. No entanto, a má situação atual é o resultado de 12 anos de governo do PT, sem falar na deterioração da infraestrutura do país.

Mas o pior é aterrorizar o povo dizendo que as conquistas do PT, leia-se Bolsa Família, serão desfeitas pela oposição. A tática é meter medo nos miseráveis. Isso é lá partido que se deva prezar, numa democracia madura? Eles temem, em verdade, é a apuração de 12 anos de malfeitos na hipótese de perderem a eleição, algo a que devemos dar a devida atenção.

Ainda a estagnação do crescimento

José Roberto Mendonça de Barros
O Estado de São Paulo 

Viajei esta semana a Cuiabá para participar de um evento e levei um choque. Embora soubesse que lá a preparação para a Copa não ia bem, a situação ao vivo e em cores mostrou-se muito pior do que imaginava. No aeroporto, a única coisa pronta é a parte velha e tudo indica que pouco vai mudar até o dia 13 de junho, data do primeiro jogo a ser lá realizado. Apanhar um táxi é uma aventura, tal é o estado da praça em frente ao terminal de passageiros. A jovem que vendeu o tíquete da Cooperativa pediu que tivesse cuidado para não ser atropelado, dada a confusão de veículos.

O aeroporto fica no município de Vargem Grande e é relativamente distante do centro de Cuiabá. Todo o trajeto foi feito por ruas secundárias, numa incrível confusão viária. As vias principais estão em obras e não me parece que estarão adequadamente prontas até junho. Finalmente, o mais incrível é que a construção do veículo leve de transporte (VLT) está no seu início, mas os buracos ocupam o canteiro central da avenida. Com humor resignado, um executivo de lá me disse que até a Olimpíada a obra deverá ficar pronta. Pena que o evento seja realizado no Rio de Janeiro.

O descrito acima ilustra uma realidade bastante clara. O efeito econômico da Copa será muito menor do que o imaginado por seus organizadores. Os investimentos serão muito menores do que os prometidos, concentrando-se mais nas próprias arenas, boa parte das quais ficará completamente subutilizada nos anos subsequentes, uma vez que não há torcida que preencha minimamente muito dos estádios (meu filho, André, informou-me que a última final do campeonato amazonense foi assistida por pouco mais de 3.100 espectadores), incluindo grandes eventos musicais. Poucos investimentos que deixariam efeitos multiplicadores permanentes, como metrôs, VLTs, trens e outros do tipo, foram realizados.

Além disso, a Copa pouco empolgou a população, como mostrou pesquisa recente do Datafolha, quando 66% das pessoas consultadas disseram que o evento trará mais prejuízos do que benefícios para o País. Essa percepção reforçou uma situação de redução nas expectativas de consumidores e produtores, acelerando a queda na atividade. Não apenas os produtos associados à Copa venderam pouco, como boa parte do comércio relata uma alta inesperada de estoques, levando muitos fornecedores a reduzir a sua atividade. A Whirlpool, por exemplo, acaba de dar férias coletivas para 5 mil dos seus funcionários, reforçando o movimento de outros setores importantes, como o setor automotivo. É bastante provável que alguns desses funcionários sejam dispensados nos próximos meses.

Os inúmeros feriados dos próximos dias também contribuirão para a redução das vendas, produção e PIB. Como as pesquisas mostram, as expectativas empresariais também estão sendo afetadas pelas incertezas e custos associados à energia elétrica, e a taxa de investimentos deve se manter relativamente estável, similar ao baixo nível dos últimos anos.

Não tenho dúvida que deveremos rever, para baixo, nossa atual projeção de 1,3% para o crescimento do PIB deste ano, ainda mais uma vez.

Com esse cenário, a estagnação econômica dos últimos quatro anos estará mais do que caracterizada. Um período longo como esse revela algo estrutural e não um evento fortuito. Fica demonstrado que algumas das hipóteses utilizadas pela política econômica atual se mostraram totalmente equivocadas, a saber:

(1) Um pouco mais de inflação não criaria problemas. Desde que o teto da meta não seja ultrapassado, tudo estará bem. Como se sabe, não apenas a inflação deste ano vai ultrapassar o teto da meta, como a redução e controle artificial de preços de energia e de transportes tem de ser mantida a qualquer custo;

(2) Bastaria estimular a demanda, que a oferta cresceria. Na realidade, isso até aconteceu, mas o que cresceu mesmo foram as importações. Que o diga a indústria;

(3) Os investimentos subiriam com o tamanho do orçamento do BNDES e outros bancos públicos, bem como no volume de incentivos (ou como gosto de chamar, caramelos) tributários. Os dados do IBGE mostram a estagnação na taxa de investimento brasileiro em níveis compatíveis apenas com crescimento modestíssimo, como o dos últimos tempos;

(4) Os investimentos subiriam em decorrência de um intenso ativismo governamental que criasse "modelos" para as operações das empresas. O desastre do setor elétrico ilustra bem o que ocorreu;

(5) A economia cresceria puxada por uma elite de super campeões nacionais. Além de não existir crescimento, vários desastres empresariais recentes mostram a fragilidade da proposição. A realidade é que não existirão muitas empresas campeãs globais num sistema pouco competitivo. E o Brasil vai muito mal no quesito competitividade. O indicador do IMD, divulgado na semana passada, mostra que, nos últimos quatro anos, o Brasil perdeu posições, caindo do 38.º lugar para o 54.º, num grupo de 60 economias analisadas. Como colocou o professor Carlos Arruda (da Fundação Dom Cabral e coordenador do estudo), "entre 2010 e 2013, o Brasil vinha perdendo posições relativas, porque a competitividade de outros países vinha aumentando. Agora, em 2014, aconteceu algo diferente, a perda foi absoluta. O Brasil perdeu para ele mesmo. A competitividade, de fato, diminuiu".

Os casos de sucesso, como a Embraer, ainda são exceções e resultam de um processo de longo prazo e de condições especiais. Ainda assim, como mostra a própria Embraer, não haverá campeões de verdade sem um desenvolvimento tecnológico contínuo e consistente. O exemplo da cadeia do agronegócio é ilustrativo: seus custos (de mão de obra, logística e tributários) têm subido como em todos os outros setores da economia. Entretanto, a cadeia é competitiva porque há uma contínua elevação da eficiência e da produtividade, que permite a absorção de maiores despesas sem perda de competitividade nos mercados globais.

Como não me canso de repetir, crescer não é fácil. Discursos triunfalistas não resolvem o problema.

Hora de mudar o foco

Arminio Fraga e Marcos Lisboa
Folha de São Paulo

Proteção e incentivos a setores selecionados resultam em grupos de interesse que tendem a dificultar reformas que beneficiem a sociedade

A política econômica retornou ao centro do debate com seu sucesso em estimular o consumo, porém não o investimento e o crescimento. Pouco se discute o lado da oferta, onde se encontra o maior desafio: aumentar a produtividade da economia, essencial para a convergência dos padrões de vida da população aos dos países mais ricos.

O debate sobre políticas públicas esbarra na carência de evidências robustas que auxiliem a sua avaliação, sendo frequentemente dominado por crenças preconcebidas. A experiência de outros países pode ser útil para a discussão, como nos parece ser o caso da Austrália.

Na década de 1920, a Austrália criou um Conselho das Tarifas (de importação). Tal conselho tinha por objetivo encorajar o desenvolvimento de setores eficientes, o que por anos foi feito por meio da recomendação de crescente proteção tarifária. Na década de 1960, no entanto, o conselho se conscientizou do dano que essa proteção vinha causando à eficiência econômica e ao crescimento. Essa conclusão levou a uma interessante evolução institucional.

Após duas etapas na década de 1980, quando o conselho se transformou primeiramente na Comissão de Assistência Setorial e depois na Comissão Setorial, foi finalmente criada em 1998 a Comissão de Produtividade, que tem por missão fazer estudos e recomendações sobre como melhorar a produtividade e o desempenho da economia.

O ponto mais importante do seu mandato pode ser encontrado no topo da lista de princípios que o regem: todas as políticas devem ter como preocupação o bem-estar da comunidade como um todo, e não os interesses particulares de um grupo ou setor. Esse deveria ser o foco de todas as políticas públicas no Brasil.

Outros objetivos da comissão são promover a redução de regulamentações desnecessárias, estimular setores eficientes e competitivos internacionalmente, facilitar mudanças estruturais, levando em conta os interesses daqueles afetados por reformas, e garantir o desenvolvimento ecologicamente sustentável.

O contraste com a Argentina é notável. No começo do século 20, Austrália e Argentina estavam entre as economias mais produtivas do mundo. Durante as décadas seguintes, no entanto, ambos os países adotaram crescentemente medidas de estímulo à indústria doméstica e elevadas tarifas de proteção ao comércio exterior. Progressivamente, os dois países foram ficando atrás das economias mais desenvolvidas.

Na década de 1980, a Austrália apresentava taxa de crescimento anual da produtividade menor que a da maioria dos países da OCDE, inclusive a Grécia. A Argentina, por sua vez, enfrentou sucessivas crises econômicas, e seu PIB per capita caiu para 30% do americano.

Nas últimas décadas, os dois países fizeram opções distintas de política econômica. A história argentina é bem conhecida, com medidas heterodoxas à esquerda e à direita, pouco controle das contas públicas e forte intervenção governamental.

A Austrália fez outra escolha: a da redução progressiva do protecionismo, acompanhada da avaliação das políticas públicas, e a criação de agências independentes do Estado com metas de desempenho, inclusive o Banco Central.

Políticas de desenvolvimento baseadas em proteção, subsídios e incentivos a setores selecionados resultam no estabelecimento formal e informal de grupos de interesse, que dependem da sua manutenção. Esses grupos tendem a dificultar reformas que beneficiem a sociedade como um todo. No caso da política econômica, essa dificuldade é ainda maior pela impossibilidade do contrafactual, ou seja, aquilo que poderia ter ocorrido caso a escolha tivesse sido outra.

A saída passa por adotar critérios e regras de políticas públicas voltados ao interesse maior da sociedade, promover avaliações regulares e independentes dessas políticas e garantir ao público o acesso a informações que permitam o contraditório.

Alguma coisa acontece

Dora Kramer 
 O Estado de S.Paulo

Em quatro meses e uma Copa cheia de complicações pela frente tudo pode acontecer. Ainda mais se levarmos em conta a velocidade e o inusitado dos acontecimentos deste quentíssimo ano de 2014.

A última pesquisa do Ibope conta novidades. Mudanças de cenário ocorridas em poucas semanas. Considerando o histórico de desinteresse nesse período em eleições anteriores, a queda acentuada no porcentual de pessoas indecisas, dispostas a anular o voto ou simplesmente deixá-lo em branco, é a notícia mais auspiciosa.

Em abril último, esse grupo somava 37% dos pesquisados. Hoje são 24%. Os especialistas no tema atribuem esse fato às propagandas partidárias na televisão. Curtas, esporádicas e ainda em tom eleitoral quase subliminar devido a restrições legais. Só em agosto os candidatos estarão liberados para pedir votos de maneira explícita.

Por esse critério, da exposição, é de se supor que, ao contrário do esperado, o índice de abstenção possa ser mais baixo do que indicaria o desapreço em relação à política e seus personagens. Trata-se de uma impressão ainda a ser conferida. Se confirmada, a explicação desse sinal de interesse pode estar no despertar da consciência de que quanto menos importância o cidadão dá à política melhor para aqueles que fazem dela uma atividade deletéria.

Outra razão talvez seja o clima de disputa que pouco a pouco vem se estabelecendo e motivando as pessoas a participar. A antecipação da campanha tem a ver com isso e o derretimento da situação de favoritismo inamovível da presidente Dilma Rousseff também.

Ela continua na frente, com 40% das intenções. Mas aqueles eleitores que, na feliz expressão do analista José Roberto de Toledo, "desceram do muro", não subiram na caravana de Dilma. Os beneficiados foram seus principais adversários, Aécio Neves e Eduardo Campos.

A presidente voltou ao patamar de março. Ganhou três pontos em relação aos 37% registrados em abril. Isso representa um aumento de 8%. Aécio Neves tinha 14% e foi para 20%; cresceu, portanto, 43%. Eduardo Campos de 6% foi para 11%; não chegou a dobrar, mas aumentou seu capital em 83%.

Os números relativos à rejeição tampouco favorecem a presidente. Ficou estacionada em 33%, mas os dos oponentes caíram. Eram 25% os que diziam não votar em Aécio de jeito nenhum e agora somam 20%. Para Eduardo Campos, a queda da rejeição foi mais expressiva: de 21% para 13%.

Ou seja, vai ter competição. Será uma eleição disputada, de resultado imprevisível sem "cantatas" de vitória antes da hora, como aconteceu, por exemplo, com o PSDB em 2010, quando José Serra reinou olímpico no patamar acima de 40% por muitos meses enquanto Dilma lutava para alcançar os dois dígitos. Até que deslanchou.

Voltando às intenções de voto da presidente, há nela duas boas notícias: uma para o governo, outra para a oposição. Os eleitores de Dilma se mantêm firmes, não migraram para os adversários. Fosse isso, ela teria caído, e não subido. Sendo assim, sustentando o primeiro lugar, se arrefecem os ânimos do "volta, Lula" e ainda se contém a sanha de aliados cujo olfato é treinado para detectar aromas que determinam a hora de debandar.

Para a oposição, esses três pontos porcentuais são também preciosos nesse momento. Nem Aécio nem Campos querem que Dilma dispare nas pesquisas a ponto de consolidar uma decisão em primeiro turno. Mas nenhum dos dois gostaria de vê-la despencar para não correr o risco da troca de Dilma por Lula.

Para concluir, um dado inusitado da pesquisa: a presidente cresceu entre os mais ricos e Aécio, entre os mais pobres. Uma inversão de preferências nos públicos tradicionais de cada um, fenômeno que até agora não tem explicação convincente e só reforça a impressão de que alguma coisa acontece nessa peculiar eleição em que tudo pode acontecer.

Contra fantasmas, só mesmo o governo eterno

Josias de Souza


Ao informar na televisão que trava uma batalha contra “fantasmas”, o PT ficou desobrigado de apresentar argumentos para que Dilma Rousseff fique mais quatro anos no Planalto. Neste sábado, a própria presidente sacudiu os lençois dos “espectros fantasmagóricos” que querem roubar “as conquistas dos brasileiros”. Ela não deu nome às assombrações. Não é necessário. Fantasmas são como bruxas. Para identificá-los, basta esticar o dedo indicador e acusar: são fantasmas!

Numa democracia, a alternância no poder funciona como corretivo para a falibilidade humana. Mas quando a pessoa que preside o país não está sujeita à condição humana, o mecanismo se transforma num estorvo para o governo eterno. Se as alternativas à felicidade são almas do outro mundo, aí mesmo é que qualquer discussão se torna inócua. O PT é o partido mais extraordinário que o PT já viu no poder. Deu certo. Por que só 12 anos? Ou melhor: Por que impor limites à perfeição?

Num encontro com a juventude socialista do PCdoB, Dilma enfatizou que é preciso ficar “atento”. Recomendou que plateia grude “um olho no futuro” e “outro olho no passado”. É para “evitar que espectros fantasmagóricos tentem voltar com as ameaças às conquistas dos brasileiros”, ela esclareceu.

Dilma notou já tem alma penada na praça falando em “medidas impopulares”. Que significam “arrocho salarial, desemprego e recessão”. Que resultam “na redução de direitos que o povo e a Nação conquistaram com muito esforço.” Por sorte, o país dispõe de Dilma.

“Eu não fui eleita para desempregar o trabalhador, a trabalhadora”, ela declarou, em timbre raivoso. “Não fui eleita para colocar o país de novo de joelhos. Não fui eleita para acabar com a política industrial do país. Não fui eleita para privatizar empresas públicas.  Não fui eleita para varrer a corrupção para baixo do tapete ou engavetar, como era a prática anterior.”

A política industrial do país, que se resume a dar dinheiro barato do BNDES a empresas “campeãs” não deu muito certo. Mas Dilma não tem nada a ver com isso. A Petrobras encontra-se rendida aos interesses privados de políticos patrimonialistas. Mas Dilma, naturalmente, não tem nada a ver com isso também. A Operação Lava Jato transforma petróleo em lama. Mas o que Dilma tem a ver com isso?

Dilma é o futuro. “Fizemos muito”, ela declarou, sob ovação dos jovens socialistas. “E agora, tenho certeza que vamos fazer muito mais, porque o único rumo possível para o Brasil é avançar sempre em direção ao futuro de mais igualdade, de mais oportunidade e, sobretudo, de um país desenvolvido e rico. É o que todos nós queremos, porque nós sabemos que, para trás, nós não vamos nem para ganhar impulso.”

Nesse contexto, fica muito claro: a condição para o futuro radioso é a recondução de Dilma. Seria uma tolice sacrificar o interesse nacional com uma futilidade democrática como a alternância no poder. Os fantasmas podem alegar que há risco de despotismo. Bobagem. Como chamar de autocrático um governo que começou com Lula, migrou para Dilma, pode voltar para Lula e ainda retornar à boa gerência de Dilma?

As pesquisas indicam que 70% do eleitorado quer mudanças. Sinal de que o brasileiro ainda não está preparado para o sucesso. Nada que o tempo não possa corrigir. Se o eleitor mantiver Dilma até 2018, ela provará que não é dessas que querem o poder pelo poder. Se o povo eleger e reeleger Lula até 2026, ele oferecerá definitivas demonstrações de altruísmo. Se, depois, o povo assegurar mais oito anos a Dilma, até 2034, aí mesmo é que o Brasil verá o que é desprendimento!

A classe C, do paraíso ao inferno

Gaudêncio Torquato  
O Estado de S.Paulo

Mais uma pista a indicar o andar da carruagem. Parcela da população brasileira é arrastada para cima e para baixo da pirâmide social pelas ondas de marés enchentes e marés vazantes. A primeira carrega as pessoas da classe C, a chamada nova classe média, para um passeio pelos territórios do grupo B, às vezes com direito a uma escapulida (rápida) ao topo, onde habita a categoria A. Quem propicia a subida é grana extra. A segunda empurra o contingente para as águas do fundo. Isso se dá quando a renda das famílias fica apenas no parco rendimento de aposentadoria, pensão ou bolsas, sem os ganhos com bicos e atividades paralelas. No sufoco do bolso apertado, quem foi induzido a consumir e se vê sem condição de ressarcir despesas passa a usar de maneira indiscriminada cartões de crédito e a resvalar pela inadimplência.

Tal radiografia, flagrada por pesquisa encomendada pelo Consultative Group to Assist the Poor, organismo ligado ao Banco Mundial, e exposta neste jornal (18/5), pode explicar fenômenos que estão a ocorrer no País a partir de manifestações de movimentos organizados e categorias profissionais.

Ponderável parcela da classe média que muda de condição, muitas vezes de um mês para outro, acaba ingressando no perigoso meio-fio da instabilidade, tornando-se ela própria um dos eixos a mover a engrenagem da insatisfação social. A expressão desolada de um microempreendedor sobre seus ganhos mensais arremata a situação que abriga milhões de brasileiros: "Ganho algo entre nada e R$ 5 mil; não dá para adivinhar quando e quanto vai entrar".

A insegurança que grassa por classes, espaços, setores e profissões tem-se avolumado nos últimos meses, apesar de a taxa de desemprego se manter estável (em torno de 5% em março nas cinco maiores regiões metropolitanas). A questão é a baixa qualidade do emprego, que leva muitos a buscar outros meios de sobrevivência. Ademais, o cobertor social tem sido curto para cobrir novas demandas. A precária estrutura de serviços não tem recebido do Estado alavancagem para oferecer bom atendimento ao povo. Portanto, por causa do estranho fenômeno que aqui se forma - uma classe C mutante que tateia na escuridão entre as portas do céu e do inferno, passando pelo limbo - as pessoas decidiram abrir a locução sob propícia temperatura ambiental.

As políticas sociais do governo, é oportuno lembrar, abriram buracos. A decisão de implantar gigantesco programa de distribuição de renda - elogiável, porquanto se vive, hoje, o menor nível de desigualdade de nossa História - não tem sido acompanhada de uma política educacional estruturante, capaz de elevar o grau civilizatório de milhões de pessoas que ascenderam na vida. Basta avaliar a estratégia de indução ao consumo, adotada pelo governo brasileiro para enfrentar a crise por que passaram as economias mundiais, a partir de 2008. Ouçam-se especialistas, dentre eles Celso Amâncio, ex-diretor da Casas Bahia (Estado, 18/5): "O governo incentivou o consumo, mas crédito é uma coisa e poder de compra é outro". Quer dizer, o banco até oferece crédito, mas os novos consumidores não dispõem de educação financeira. Acabam usando e abusando de cartões de crédito, um pagando o outro.

O governo forjou, de um lado, o populismo econômico para abrir as portas do consumo aos grupos emergentes, mas, por outro, deixou de lhes oferecer ferramentas (e valores) que balizam comportamentos da classe média tradicional. A cesta de compra dos emergentes inchou: TV por assinatura, internet, plano de saúde, escola privada para os filhos, moto ou carro novo. A ignorância em matéria financeira acabou estourando o bolso de tantos quantos achavam ter encontrado o Eldorado.

Sob essa engenharia se pode compreender o movimento das "placas tectônicas" que causam sismos nas camadas do centro da pirâmide. Como se recorda, o losango tem sido apresentado como o formato do novo Brasil: de topo mais espaçado, alargamento do meio e estreitamento da base. Acontece que o saracoteio da classe C - que ora dança na pista do meio, ora na de baixo - não permite apostar na substituição definitiva da pirâmide pelo losango. O que se vê na configuração é um redemoinho nas camadas centrais, a denotar insatisfação e impactos que afetam a vida de milhões, principalmente os habitantes de grandes cidades, cuja rotina sofre com congestionamentos, mobilizações, greves e paralisações de frentes de serviços públicos.

É verdade que parte considerável da tensão urbana se deve ao momento especial do País: vésperas de Copa do Mundo e de campanha eleitoral. A estratégia de sensibilização do poder e de atores políticos ganha fôlego. Mas é inegável que há uma força centrípeta em ação, aqui mais forte e organizada, ali mais tênue e dispersa, dando a impressão de que o gigante "deitado eternamente em berço esplêndido" faz parte da retórica do passado. A dissonância forma-se em nossa mente quando somos levados a cantar (sem interpretar os versos) nosso belo Hino Nacional.

Remanesce a questão: para onde as altas e baixas marés carregarão a classe C (que soma 64 milhões de pessoas) e, ainda, que consequências serão sentidas em outros conjuntos? A hipótese mais provável é que, a continuar o vaivém dos grupos emergentes, os sismos continuarão a balançar o losango e este voltará a dar lugar à velha pirâmide. As conquistas obtidas com os avanços dos programas de distribuição de renda estariam comprometidas. Reflexos (pressões, contrapressões, conflitos, demandas) aparecerão na malha de toda a classe média (cerca de 100 milhões de brasileiros). As marolas geradas por impactos no meio da lagoa acabarão chegando às margens.

Em suma, enquanto as famílias de classe média se mantiverem "enforcadas", o nó apertará o gogó de outros habitantes da pirâmide. O Brasil terá de voltar a crescer, de maneira forte e sadia, sem usar o esparadrapo de paliativos sociais.

Amigos da inflação e seus disfarces

Gustavo Franco
O Globo 

Arsenal de pretextos para a complacência com a inflação é uma espécie de ressurreição torta da ‘inflação estrutural’

As primeiras teorias sobre a inflação eram como a cartografia primitiva: roteiros para a imaginação muito mais que representações científicas e confiáveis da verdadeira geografia.

A inflação surgiu mais ou menos na mesma época e lugar que o “papel moeda”, sendo muito natural e espontâneo que se associasse uma coisa à outra. Afinal, a inflação é a perda de poder aquisitivo da moeda, simples assim.

No Brasil, entretanto, logo emergiu uma visão alternativa e imaginosa que tomava emprestada à engenharia uma palavra que mudaria para sempre nossa maneira de olhar as mazelas da economia: dizia-se que a inflação brasileira era “estrutural”.

Esse palavreado nos colocava em pleno Quartier Latin e, com toda razão, conferia a devida complexidade ao fenômeno, que deixava de pertencer às más intenções de governantes fabricantes de papel pintado e passava ao domínio de criaturas temíveis, como os monstros que ilustravam os espaços vazios dos mapas de antigamente: latifúndios, gargalos, cartéis e pontos de estrangulamento. Tinha-se, assim, de forma nem tão sutil, uma transferência da culpa pelo problema, um truque de grande impacto sobre os debates públicos sobre o combate à inflação.

A “inflação estrutural”, em suas múltiplas encarnações, sempre compreendia uma variação recorrente de um preço importante, geralmente os de alimentos, mercê da (supostamente) baixa produtividade no setor causada pela estrutura agrária dominada pelo latifúndio, e da repercussão viciosa do “choque de oferta” patrocinado pelos oligopólios e oligopsônios.

Não era uma boa teoria, tanto que caiu para a gaveta das curiosidades próprias dos primeiros anos em que o fenômeno se apresentou. Mas a mensagem central resultou duradoura: essa inflação que tinha “raízes no setor real” deveria ser combatida através de reformas que atacassem “estruturas”, agrária ou de classes sociais, de tal sorte que parecia tolo pensar que a política monetária pudesse afetar o poder de compra da moeda. A estabilização apenas ocorreria com a reforma agrária, ou com o socialismo.

O legado mais duradouro e popular da “teoria da inflação estrutural” era tão simples quanto devastador: a (suposta) inutilidade das políticas de estabilização convencionais, argumento que ainda soa como poesia para os amigos da inflação.

Poucos se dão conta da importância e da contundência desse drible dado pelos “estruturalistas”: nunca se fazia uma defesa aberta da inflação, mas um ataque às políticas monetárias ortodoxas e à austeridade. Em retrospecto, deveria ser claro que “o inimigo do meu inimigo é meu amigo” e que os “estruturalistas” estavam trabalhando a favor da inflação, às vezes admitindo “expropriar os rentistas”, ou “tributar a riqueza ociosa”, um argumento que frequentemente se associava a Lord Keynes.

Porém, os “desenvolvimentistas” sempre conseguiam se afastar da (autoria da) inflação, que se tornava, assim, uma criatura órfã, um mal impessoal, um cadáver sem o assassino para se tornar um inimigo público. Quem eram os amigos da inflação? Não deveria ser difícil apontar os culpados, mas o fato é que o Brasil nunca teve um rosto para tornar o patrono da inflação. Quem percorrer os cadernos de imagens dos livros sobre a inflação, como o da jornalista Miriam Leitão, vai encontrar fotos de prateleiras vazias, máquinas de remarcação e cédulas cheias de zeros ou carimbos, mas nenhum economista desses que criticam os “métodos convencionais” de combate à inflação.

Em tempos mais recentes, os amigos da inflação ampliaram o arsenal de pretextos para a complacência com a inflação com uma espécie de ressurreição torta da “inflação estrutural”, eis que a inflação observada no segmento de serviços do IPCA — que está rodando na faixa de 10% anuais — estaria associada à ascensão da classe média, processo desejável, uma espécie de “inflação do bem”, refletindo fenômenos fora do alcance da política monetária. O inflacionismo estaria em busca de uma aliança com o politicamente correto.

Há enorme heterogeneidade dentro de “serviços” no IPCA, com uma infinidade de histórias sobre mercados específicos. Há fenômenos associados ao ciclo imobiliário (aluguel, condomínio, estacionamento), outros às ventanias do turismo (passagens aéreas, hotéis, motéis, espetáculos), e os serviços que incluem componentes digitais (celulares, internet, fotocópia). Há a “inflação médica”, decorrente de mais “tecnologia embarcada”, mas o setor seguramente possui economias de escala, o mesmo valendo para os serviços educacionais. E há os itens afetados pelo salário mínimo (consertos e serviços pessoais), e também a deflação dos eletrônicos (duráveis, ou mais baratos ou melhores).

O que há de comum nesses enredos?

Existem centenas, talvez milhares de histórias sobre mudanças de preços relativos, vale dizer, sobre “inflação (ou deflação) estrutural”, pois o sistema de preços está sempre a vibrar, como um organismo vivo e irrequieto. Quem tem cinquenta teorias sobre inflação estrutural na verdade não tem nenhuma. Se existe algum traço comum em cada uma dessas narrativas de “choques de oferta” é que todos os preços são denominados na mesma moeda, que pode valer mais ou menos dependendo da política monetária.

A verdadeira discussão não é sobre se a inflação nos serviços é “benigna”, mas sobre complacência com a inflação. A alusão a uma nova inflação estrutural serve apenas para trazer de volta uma tese conhecida e maléfica: se há uma boa explicação “não monetária” para a existência da inflação, segue-se que a política monetária não funciona, ou produz um desemprego desnecessário para corrigir o incorrigível.

A própria presidente disse recentemente que reduzir a meta de inflação de 4,5% (na verdade 6,5%) para 3% faria o desemprego pular para 8% ou mais.

De onde saiu essa matemática?

Se fosse verdade, a redução na taxa de inflação de 916% para 5%, observada entre 1994 e 1997 (taxas acumuladas para o ano calendário), teria criado um caos. Em vez disso, o desemprego oscilou de 5,1% para 5,7%. Para quem não é do ramo parece mágica, não é mesmo?

O fato é que as autoridades governamentais prosseguem com o velho truque de antagonizar o combate à inflação e não a inflação, assim se esquivando canhestramente de fazer uma defesa aberta dessa sua criatura amiga, órfã apenas na aparência, e que parece nascer de causas naturais sem que ninguém lhe dê o que comer.

Quem são os amigos da inflação?

Basta olhar para os inimigos do combate à inflação.

Copa de sangue

O Estado de S.Paulo

A manifestação promovida quinta-feira na capital paulista pelo Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST)ilustra bem a situação vivida hoje pelas grandes cidades brasileiras, a começar pelas duas mais importantes, São Paulo e Rio de Janeiro - total desrespeito pela população, que tem seus deslocamentos prejudicados pela ocupação de vias importantes, justamente em horários críticos; ameaça pelos manifestantes de recurso também à violência física, se contrariados; desafio aberto às autoridades que, amedrontadas, preferem proteger os que assim infringem a lei, em vez de colocá-los em seu devido lugar e cumprir o dever elementar de manter a ordem pública.

Foram 15 mil manifestantes, segundo a Polícia Militar (PM), mas poderiam ser apenas mil, ou mesmo quinhentos, porque hoje qualquer meia dúzia de gatos-pingados afoitos e autointitulados integrantes de movimentos sociais conseguem com a maior facilidade, à hora que bem entendem, interromper a circulação em ruas e avenidas escolhidas a dedo para perturbar a vida da maior cidade do País. Eles começaram seu protesto no Largo da Batata, em Pinheiros, às 18 horas, passaram pelas Avenidas Faria Lima e Cidade Jardim, pegaram a Marginal do Pinheiros, bloqueando todas as suas pistas no sentido zona sul, e encerraram a manifestação na Ponte Estaiada.

Não sem antes realizar ali uma assembleia a céu aberto, indiferentes à confusão provocada no trânsito. É fácil de imaginar os transtornos causados pelo "protesto" do MTST, nesse horário de pico, naquelas vias importantes. "Protesto" que incluiu os mais diversos ingredientes - crítica à realização da Copa do Mundo e reivindicações referentes à moradia, à educação, ao transporte e à saúde. Como quem quer tudo na verdade não quer nada, essa estranha salada só pode ter sido feita como pretexto para agitar.

A irresponsabilidade dos líderes do MTST não parece ter limites. Uma das provas disso foi a arregimentação até de crianças e idosos para participar da manifestação. Como há sempre a possibilidade de atos desse tipo, com 15 mil pessoas, fugirem ao controle - mesmo com a atitude benevolente da PM, que se limitou a proteger os manifestantes que pisoteavam o direito de ir e vir dos paulistanos -, o risco foi grande de alguém se ferir. E disso sabiam seus organizadores, que usaram covardemente aquelas pessoas como escudo.

Igualmente grave - e demonstração de profunda indiferença às agruras dos paulistanos - foi promover o tal "protesto" logo em seguida aos dois dias em que a cidade sofreu com a greve selvagem de motoristas e cobradores.

E tem mais. O líder do MTST, Guilherme Boulos, a nova vedete dos movimentos ditos sociais - nos quais nunca se sabe onde começa a baderna e onde termina o social -, fez uma clara ameaça, a propósito da ocupação de uma grande área na zona leste, perto do Estádio Itaquerão, onde se realizará o jogo de abertura da Copa: "Se eles (policiais com ordem judicial para reintegração de posse) quiserem desocupar sem negociar, sem dar garantias reais àquelas famílias, vai haver resistência. Se eles insistirem, vai ter uma Copa de sangue".Tendo em vista a desenvoltura com que ele e seus companheiros vêm agindo impunemente, é melhor não duvidar de sua palavra e se preparar para o pior.

Se chegamos a essa situação, é porque assistimos há já algum tempo a uma confusão deliberada entre o direito inquestionável da população de se manifestar, criticar e apresentar pacificamente reivindicações e a baderna pura e simples, promovida por aqueles que, por razões políticas e ideológicas, quando não por impulsos criminosos, estão interessados apenas na agitação. Por isso, promovem seus "protestos" atropelando todas as regras que, nos regimes democráticos, regulam essa matéria, a começar pela obrigação de avisar com antecedência sua realização e pedir autorização para tal.

Igual responsabilidade têm os governantes que, para não serem acusados de "repressores", não permitem que a polícia preserve a ordem pública e proteja os direitos da maioria. Poderão pagar caro por isso, acusados pela população de conivência com a bagunça.

Ônus para o governo

Editorial 
Folha de São Paulo

De olho nas pesquisas de intenção de voto, Dilma anuncia para esta semana decisão sobre desoneração da folha de pagamento

Representantes da indústria ficaram sabendo que a presidente Dilma Rousseff (PT) pretende decidir nesta semana se a política de desoneração da folha de pagamento será permanente. O benefício, que hoje contempla 56 setores, venceria neste ano.

A diminuição de encargos salariais é uma demanda antiga dos empresários, e Dilma indicou que tem a intenção de atendê-la. Não se sabe, contudo, se o fará motivada por cálculo econômico ou --mais provavelmente-- eleitoral. São notórias a insatisfação de grandes executivos com o atual governo e a preferência que têm demonstrado pelos adversários da petista.

A desoneração --troca da contribuição patronal de 20% por uma taxa de 1% a 2% sobre o faturamento-- subtrairá em 2014 cerca de R$ 20 bilhões das receitas da União.

Embora em tese acertada, a medida aumenta a preocupação com as contas públicas, sobretudo em momento de desaceleração da economia. Vem daí, aliás, a busca do governo por fontes extraordinárias, com vistas a atingir a meta de poupança de 1,9% do PIB, ou aproximadamente R$ 99 bilhões.

Melhor seria promover uma redução gradual e contínua da pesada carga tributária, a fim de evitar solavancos. Também faria mais sentido um alívio horizontal, e não direcionado a setores escolhidos de forma pouco transparente.

O caso da folha de pagamento não é isolado. O Tribunal de Contas da União estimou em R$ 203,7 bilhões a perda de arrecadação com incentivos fiscais, renúncias e desonerações em 2013, uma alta próxima a 75% em relação a 2008.

O TCU aponta riscos para o equilíbrio das contas e faz ressalvas à qualidade dos controles. A prática suscita, ademais, dúvidas sobre legitimidade democrática, pois muitos benefícios não passam pelo Orçamento votado no Congresso.

Os economistas Érica Diniz e José Roberto Afonso calcularam valor ainda maior, de R$ 323 bilhões em 2014, dos quais apenas 9% transitam diretamente pelo Orçamento.

A conta inclui renúncias de impostos, como a que beneficia a Zona Franca de Manaus (R$ 23,6 bilhões/ano), as desonerações de folha de pagamento e os cortes de IPI, por exemplo. Do lado dos subsídios, contabilizaram-se os juros do BNDES e do crédito agrícola, entre outros.

Medido de forma consolidada, o valor só é inferior às despesas com a Previdência Social e supera em 67% a soma dos dispêndios dos ministérios da Saúde e da Educação.

Essa miríade de benefícios é concedida a bel-prazer do Executivo e satisfaz minorias com acesso aos corredores do Palácio do Planalto. Além de critérios objetivos para a concessão das vantagens, faltam avaliações claras sobre o que o país ganha em troca.

O PIB dos economistas e o PIB do povo

Samuel Pessôa
Folha de São Paulo

O 'PIB do povo' cresceu mais do que o 'PIB dos economistas', mas à custa da piora nas contas externas

Na terça feira da semana passada, ampla reportagem do jornal "Valor" noticiou o entusiasmo do titular da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e meu colega da FGV, Marcelo Neri, com os avanços sociais na última década e, em particular, no quadriênio de Dilma Rousseff.

Adicionalmente o ministro apontou a defasagem que há entre a evolução do produto per capita do país, também chamado de "PIB dos economistas", e a renda pessoal medida pela Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) do IBGE, o "PIB do povo".

Entre 2003 e 2012, ano da Pnad mais recente disponível, o PIB per capita cresceu em termos reais 28%, enquanto a renda mediana domiciliar per capita teve aumento de 78%! Houve defasagem na velocidade de crescimento dos PIBs "do povo" e "dos economistas" de 50 pontos percentuais.

Marcelo é reconhecido como um dos melhores microeconomistas da área de economia do trabalho no Brasil. Microeconomistas trabalham em geral com bases de dados muito amplas e estudam em detalhe a natureza de cada indivíduo. Diz-se que olham as árvores sem se preocupar com a floresta. Já os macroeconomistas estudam a floresta sem se preocupar com cada uma de suas árvores.

O risco da análise macroeconômica é não notar pequenas dinâmicas que aos poucos ganham corpo e acabam por ter impactos agregados importantes.

Já os microeconomistas correm o risco de não reconhecer que a dinâmica da árvore pode depender de fatores agregados que estejam a atingir toda a floresta. Por exemplo, é possível que a árvore esteja crescendo mais rápido porque as condições climáticas alteraram-se transitoriamente, em favor do crescimento. Quando o clima retor nar ao padrão usual, a bonança perderá fôlego.

Parece que esse longo período no qual o PIB do povo andou além do PIB dos economistas foi acompanhado da construção de desequilíbrios em outras variáveis macroeconômicas que colocam em xeque a manutenção do processo.

Entre 2003 e 2012, o deficit de transações correntes como proporção do PIB elevou-se em 3,2 pontos percentuais. Como mostrei na semana passada, nesse período os termos de troca, isto é, o preço da pauta exportadora em unidades da pauta importadora, cresceu mais de 20%. Conta simples sugere que, se não tivesse havido a alteração dos preços em nosso favor, a variação do deficit de transações correntes entre 2003 e 2012 seria de mais de sete pontos percentuais do PIB, visto que nesse período a absorção (consumo e investimento dos setores público e privado) cresceu 60%, e o produto, 40%.

Ou seja, parece haver associação entre o fortíssimo crescimento do PIB do povo além do PIB dos economistas e a elevação do deficit externo, que saiu de um superavit de 1,76% do PIB em 2004 para um deficit hoje na casa de 4%.

Para verificar essa possível associação, tomei as Pnads de 1981 até 2012. Calculei a renda individual mediana de todos os trabalhos a preços de 2012. Essa será a minha medida do PIB do povo. Para o PIB dos economistas, considerei o PIB per capita a preços de 2012.

Para cada um dos anos, tomei a diferença entre as taxas de crescimento do PIB do povo e do PIB dos economistas entre 1981 e a referida data. Sempre que essa estatística for positiva, significa que, entre 1981 e a referida data, o PIB do povo andou além do PIB dos economistas. Quando for negativa, o PIB do povo andou aquém do PIB dos economistas. Chamei essa variável de defasagem entre os PIBs.

A má notícia é que a correlação entre o deficit de transações correntes e a defasagem entre os PIBs é de 75%. Desde a década de 1980, três quartos da variação do PIB do povo não explicada pela trajetória do PIB dos economistas está associada à piora das contas externas.

Enquanto os microeconomistas do governo municiam a presidente e seus auxiliares com informações positivas associadas ao bom desempenho do PIB do povo, seria oportuno que os macroeconomistas do governo se debruçassem sobre o problemão de arrumar a casa --isto é, reduzir o deficit externo, entre outras coisas-- sem fazer com que o PIB do povo ande muito aquém do PIB dos economistas.

Feitiço do Tempo no mercado de trabalho

Fernando Dantas
O Estado de São Paulo

À primeira vista, a fotografia do mercado de trabalho trazida ontem (22/5/14) pela divulgação da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) , do IBGE, de abril lembra o filme “Feitiço do Tempo”, onde o personagem interpretado pelo comediante Bill Murray acorda todo dia no mesmo dia. Resumidamente, como nas divulgações recentes da PME, as tendências básicas, e um tanto confusas, do mercado de trabalho prosseguem de forma quase idêntica: o desemprego cai (para 4,9% em abril) por causa do recuo da taxa de participação (percentagem das pessoas em idade de trabalhar que estão empregadas e buscam emprego), e não por causa de uma substancial geração de empregos. Por outro lado, a renda real continua a crescer, mas não nos níveis do apogeu da era Lula.

Na quarta, dia 21/5, a divulgação de que foram criadas apenas 105.384 vagas formais no mercado de trabalho brasileiro, pior resultado pra o mês em 15 anos, também reiterou a tendência dos últimos meses de dados decepcionantes do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho. O Caged abrange todo o País, enquanto a PME se restringe às seis principais Regiões Metropolitanas

José Márcio Camargo, economista da gestora Opus, no Rio, e professor da PUC-Rio, nota que a queda da taxa de participação na PME, além de ser uma tendência prolongada, está bastante generalizada. Assim, entre meados de 2012 e o momento atual, a taxa de participação na PME dos homens recuou de 67% para 65%, e a das mulheres de 50% para 47,5%. De forma semelhante, todas as faixas etárias que participam do mercado de trabalho passam por quedas das taxas de participação, com o padrão aproximado do recuo sendo de que começou antes nos grupos mais jovens.

A renda real média dos ocupados em abril caiu 0,6% em relação a março, e subiu 2,6% ante abril do ano passado. Na verdade, os salários nominais continuam a subir a 9% ao ano, mas a alta da inflação já provoca um recuo “na margem”, isto é, quando se comparam os dados mais recentes de aumento salarial e inflação. Em março, houve um recuo da renda real média de 0,3% ante fevereiro. Ainda assim, há um discreto avanço do rendimento real acumulado em 12 meses (ante os 12 meses anteriores), que foi de 2% em fevereiro, 2,25% em março e 2,35% em abril.

A população ocupada em abril cresceu apenas 0,1% em relação ao mesmo mês do ano passado, mas, na comparação com o mês antecedente (março, no caso), em que também houve expansão de 0,1%, o indicador pela primeira vez no ano entrou no campo positivo.

Outro dado que chamou a atenção na PME foi o recuo de 69 mil postos de trabalho na indústria, concentrado na região metropolitana de São Paulo.

A divulgação da PME de abril indica que a taxa de participação vai se cristalizando como uma das variáveis chaves para prever a tendência do desemprego no curto e médio prazo. Em relatório divulgado hoje, o economista e consultor Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central (BC), estimou que, se a taxa de participação tivesse permanecido na sua média histórica, a taxa de desemprego teria sido de 6,8% em abril, em alta ante 6,7% em março e 5,7% em abril do ano passado (sempre com a mesma hipótese). A taxa de participação em abril de 2014 foi de 55,7%, a menor para o mês desde 2002. A média histórica da taxa de participação, segundo Schwartsman, é de 57%.

As razões para a queda da taxa de participação são complexas, e a maior parte dos economistas admite que estão longe de perfeitamente compreendidas. São causas que combinam componentes estruturais e conjunturais, o que dificulta ainda mais o equacionamento. Por outro lado, Schwartsman nota já ter encontrado evidências de que os desvios da taxa de participação em relação à média histórica não duram muito, o que o faz prever (diante das fracas perspectivas de recuperação do emprego) que a taxa de desemprego deve subir em meados do ano.

Salário mínimo sobe 1.019% em 20 anos, mas inflação tira parte dos ganhos

Yolanda Fordelone 
O Estado de S.Paulo

Desde o Plano Real, alta foi de 146%, se descontada a inflação; analistas citam os investimentos que protegem contra elevações de preços

Em 20 anos, desde o Plano Real, o salário mínimo do trabalhador brasileiro subiu 1.019,2%. Porém, se descontada a inflação do período, a alta se reduz a 146%, segundo pesquisa do Instituto Assaf. De acordo com o estudo, houve aumento real do poder de compra dos salários, mesmo com a inflação corroendo boa parte dos reajustes.

No período, o salário mínimo passou de R$ 64,79 em 1994 para R$ 724 nos dias atuais. O Plano Real completa 20 anos no dia 1º de julho.

"A pesquisa mostrou que o plano trouxe aumento de poder aquisitivo da população como um todo. O aumento médio efetivo foi de 12,18% por reajuste", calcula o pesquisador do Instituto Assaf, Fabiano Guasti Lima.

Apesar de o plano ter reduzido a inflação para patamares menores, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou em 20 anos, até março, alta de 354,74%. "Ao analisar os números concluímos que o aumento real do salário mínimo, aquele que ficou acima da inflação, foi de 4,6% ao ano", avalia o professor e diretor do instituto, Alexandre Assaf Neto.

Dentro do IPCA, alguns grupos pesaram mais que outros na alta dos preços, conforme explica o economista da consultoria LCA, Étore Sanchez. "O grupo Habitação, influenciado pelo aluguel residencial, foi o que mais subiu", afirma Sanchez.

No total, o grupo acumulou alta de 654,87% desde 1994, sendo que o aluguel avançou 868%. O aumento do aluguel foi maior inclusive que os 503% do próprio Índice Geral de Preços de Mercado (IGP-M), que corrige os contratos de locação. "Atualmente, habitação é o terceiro maior grupo, representando 14% do IPCA. Tem um peso considerável na inflação", pondera o economista.

Nos dados de inflação, foram considerados apenas seis grupos: alimentação e bebidas, habitação, vestuário, saúde e cuidados pessoais, artigos de residência e despesas pessoais. Os outros dois grupos da atual composição do IPCA - educação e transporte - não existiam no início da série em 1994, não sendo possível calcular a inflação acumulada no período.

Como se proteger. 
Para se proteger contra a alta dos preços no longo prazo, especialistas citam pelo menos cinco opções de investimento, que devem ser escolhidas de acordo com o valor disponível, o tempo que o investidor planeja aplicar e até o risco. A primeira delas, a mais comum entre pequenos investidores, é o Tesouro Direto. Após realizar um cadastro em alguma corretora, é possível investir em títulos públicos atrelados ao IPCA - as Notas do Tesouro Nacional Série B (NTN-B) e Série B Principal (NTN-B Principal). Tais títulos pagam um juro fixo, atualmente entre 5% e 6% ao ano, mais a variação da inflação no período.

O preço dos títulos varia entre R$ 704 e R$ 2.479, segundo a oferta de papéis disponível no site do Tesouro na última sexta-feira. Para aplicar, no entanto, o valor mínimo é menor. O investidor pode comprar frações de 10% do título, sendo necessário assim uma quantia a partir de R$ 70. Se for uma compra programada (operações agendadas nas plataformas de home broker das corretoras), a fração cai para 1%, mas por regra a aplicação mínima deve ser de R$ 30.

Os títulos de inflação são voltados para o longo prazo, sendo indicados inclusive como reserva para a aposentadoria. O mais curto vence em 2019 e o mais longo, em 2050.

Se o investidor não tem necessidade de uma renda extra e quer apenas proteger o patrimônio, a NTN-B Principal é mais indicada, por pagar o juro e o valor principal investido na data do vencimento do papel. A NTN-B paga juros semestralmente, enquanto o valor principal só é recebido pelo investidor no vencimento.
Além das NTN-Bs, especialistas citam como alternativa contra a inflação os títulos privados, como as debêntures, atrelados a algum índice de preços. Nas emissões de menor valor, como as do BNDESPar, foi possível aplicar R$ 1 mil.

"Há ainda os CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários), títulos de renda fixa de operações de crédito imobiliário que podem ser atrelados à inflação", afirma o estrategista da Rio Bravo, Beto Domenici. O investimento é voltado para grandes investidores, pois a aplicação inicial começa em R$ 300 mil.

Mais acessíveis, os fundos imobiliários também são lembrados. "Há todo tipo de fundo imobiliário no mercado, mas para proteger o patrimônio é interessante optar por algum atrelado ao pagamento de aluguéis. Se a inflação subir, o IGP-M corrige o aluguel e o investimento fica protegido", diz Domenici.

Há fundos cujas cotas podem ser compradas na BM&FBovespa, como uma ação, bastando para isso ser cadastrado em uma corretora. Por menos de R$ 100, já existem algumas opções de fundos.

Por último, há o próprio investimento em ações, o mais arriscado dentre as opções citadas. "Não é uma via direta, mas no longo prazo teoricamente as ações funcionam na proteção contra inflação. Se os custos dos produtos e insumos sobem, as boas empresas tendem a corrigir seus preços, o que se reflete na receita, no lucro e na própria cotação da ação", analisa o estrategista.

Rodoviários: em uma década, categoria quase não teve ganho real

Caio do Valle
O Estado de S. Paulo

Reajuste ficou abaixo da inflação em alguns anos; empresas dizem que aumentos nos valores de benefícios compensam

Protagonistas da paralisação que atingiu boa parte da capital paulista na última semana, os motoristas e cobradores de ônibus praticamente não receberam aumento real entre 2003 e 2012. Nesses dez anos, os reajustes apenas cobriram a inflação do período. Por outro lado, o repasse que a Prefeitura fez às empresas de ônibus cresceu 123%.

Cálculos feitos pelo economista da consultoria LCA Francisco Pessoa Faria a pedido do Estado mostram que o aumento real do valor de cada hora trabalhada por esses profissionais foi de 3,85% no reajuste negociado neste ano, um porcentual abaixo do esperado por parte da categoria, que decidiu cruzar os braços após uma assembleia sindical aprovar o porcentual.

Em relação ao salário de junho de 2003, o aumento real foi de 11%, se reajustados os valores pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC). Na época, os motoristas recebiam R$ 5,14 por hora trabalhada. Já os cobradores, R$ 2,96. Valores que, hoje, equivalem a R$ 9,19 e R$ 5,29, respectivamente.

“Os ganhos reais mais fortes começaram nos últimos dois anos. Durante muito tempo, eles estavam tendo apenas o aumento da inflação, com reajustes abaixo da média do mercado”, afirmou o economista.

Segundo o Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Passageiros de São Paulo (SPUrbanuss), é preciso ponderar que, em algumas convenções coletivas entre a categoria e as empresas ao longo da década passada, houve ganhos maiores em outros itens dos trabalhadores, como o vale-refeição (VR) e a cesta básica.

“Tem ano que se dá mais (reajuste) porcentual e menos benefício. Por exemplo, em 2005 e 2007 não houve reajuste do vale-refeição. Então, você sobe um pouquinho o porcentual. Ano a ano é um compromisso que se busca, aumenta de um lado e diminui de outro”, disse o presidente do SPUrbanuss, Francisco Christovam.

Fila mais lenta. No entanto, o reajuste salarial ficou abaixo da média de todas as categorias pesquisadas pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Em 2006, por exemplo, os motoristas e cobradores conseguiram só 2,5% de reajuste (que não cobriu a inflação). Naquele ano, 96% das negociações salariais avaliadas pelo Dieese garantiram manutenção de poder de compra e 86% obtiveram aumento real. No ano passado, esses índices foram de 94% e 87%, respectivamente.

Para o economista Heron do Carmo, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), essa situação traz consequências práticas para o setor. O profissional vê que o seu poder de compra não sobe ao longo do tempo e começa a procurar atividades em outras áreas, o que aumenta a rotatividade. “É como você estar no trânsito, em uma fila com o ritmo mais lento que os outros. Você está andando, mas vê todo mundo te passar.”

O economista Francisco Carlos dos Santos, da Macro Forecast, confirma que os reajustes praticados no período valeram praticamente só para cobrir a inflação. “Mas teve período em que eles perderam.” 

'Nova classe média' vive de bico

O Estado de S.Paulo

Uma parte da "nova classe média" brasileira depende de bicos para manter-se no patamar socioeconômico que alcançou. Essa constatação está em uma pesquisa que acompanhou o modo como as famílias dessa classe gerenciam sua renda. O levantamento, divulgado pelo Estado, indica uma grande dificuldade de obter estabilidade apenas com os ganhos do emprego formal, obrigando as famílias a complementar a renda com diversas atividades de caráter incerto. Dependentes da demanda por esses serviços informais, os pesquisados podem passar da classe B para a D em um curto espaço de tempo, às vezes de um mês para o outro.

Embora não tenha abrangido o País todo, a pesquisa é um claro indício de que a má qualidade do emprego no Brasil condena uma parcela importante dessa festejada classe de renda ao aperto permanente em razão das dívidas, da ignorância em relação à sua situação real e do despreparo técnico e educacional para buscar uma colocação mais rentável e estável.

"Podemos dizer que a classe C é classe média quando dá", disse Luciana Aguiar, diretora da consultoria Plano CDE, especializada em classes baixas e responsável pela pesquisa.

O levantamento observou o comportamento de 120 famílias de quatro capitais - São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Recife. Durante seis meses, os pesquisadores acompanharam minuciosamente a contabilidade desses grupos. Todas as famílias apresentaram alguma oscilação entre classes sociais. Em ao menos um caso, os pesquisados deixaram a condição de pobres, frequentaram a classe C e passaram pela B, sem nenhuma garantia de que lá permaneceriam.

Isso acontece porque essas famílias têm um ganho fixo muito baixo, que frequentemente nem é fruto de trabalho formal, e só de benefícios sociais, como aposentadoria e Bolsa Família. A renda, portanto, tem de ser complementada com serviços eventuais - que muitas vezes resultam em ganhos maiores do que os proporcionados pelo fixo.

A variação da renda não seria um problema em si se as famílias pesquisadas tivessem reservas para os momentos de aperto. No entanto, graças ao crescimento da oferta de crédito e ao estímulo do governo à gastança, elas se endividaram fortemente nos últimos tempos e quase tudo do pouco que ganham é destinado ao pagamento dos débitos em atraso. Quando o teto da renda é ultrapassado, geralmente lançam mão do cartão de crédito como meio de pagamento de dívidas - há famílias com até dez cartões.

Um aspecto importante do levantamento é que muitos entrevistados só entendem que estão endividados quando não conseguem pagar as prestações ou renegociar os débitos. Parte da "nova classe média" não reconhece como dívida as prestações que ainda não venceram nem as que já estão em atraso, mas somente aquelas que o credor não aceitou renegociar. Isso significa que, mesmo endividadas, as famílias dessa classe continuam a consumir sem fazer provisão para pagar os débitos. Ao contrário: para seguir o padrão imaginado para a classe, elas ampliaram o cardápio de consumo, incluindo TV por assinatura, internet, plano de saúde e escola particular, estreitando ainda mais sua margem de manobra para enfrentar a oscilação de renda.

Desse modo, a "nova classe média" enfrenta as pressões típicas da classe média tradicional, como a inflação de alimentos e de serviços, sem ter uma estrutura orçamentária e social condizente com essa situação. Para os pesquisadores, a conjunção entre a alta de preços e a precariedade do trabalho torna essas famílias especialmente vulneráveis às mudanças de mercado.

Para que a "nova classe média" se torne estável, portanto, é preciso que haja investimento contínuo em qualificação profissional e em educação formal - uma condição crucial para enfrentar momentos como o atual, em que o mercado de trabalho, em especial no estagnado setor industrial, começa a perder o fôlego e a maior parte dos empregos que gera é de baixa qualidade.

O econômico e o social nas eleições

Suely Caldas
O Estado de São Paulo 

Os candidatos intensificaram a presença na TV, a fria campanha eleitoral amornou e as pesquisas de voto seguem clareando o cenário da disputa. Entraram em cena os marqueteiros e, com eles, o vale-tudo para exaltar seu candidato e destruir adversários. Como fez o programa de propaganda do PT com os motes "o Brasil não quer voltar atrás" e "os fantasmas do passado" - fantasmas que acabaram com a inflação, fizeram o Plano Real e deram início à prosperidade econômica e social do País dos últimos 20 anos. O que têm na cartola Dilma Rousseff, Aécio Neves e Eduardo Campos para exibirem aos eleitores na TV?

O mau desempenho da economia na gestão Dilma é o maior trunfo dos dois candidatos de oposição. Dilma errou ao adiar as privatizações e quando acordou errou nas regras de licitação; o investimento em infraestrutura - tardio e atrapalhado - levou a taxas medíocres de crescimento; a inflação voltou; o setor externo da economia deteriorou; a falta de confiança fez investidores baterem em retirada; a equipe econômica destruiu a seriedade nas contas públicas; Petrobrás e Eletrobrás viraram apêndices de políticas do governo, seu valor de mercado despenca e voltaram a dar prejuízo. Enfim, a lista de fracassos é grande e certamente será explorada por Aécio e Eduardo.

Os avanços na área social são o maior trunfo de Dilma. Ela deu continuidade às políticas sociais de Lula voltadas para atender às necessidades essenciais dos mais pobres e conseguiu êxito em algumas, como o Bolsa Família (o Bolsa Escola do fantasma FHC), ampliado por Lula, reforçado por ela, hoje com um orçamento de R$ 24,6 bilhões e 13 milhões de famílias atendidas. A taxa de desemprego em 4,9% numa conjuntura de baixíssimo crescimento é outro destaque, embora venha perdendo força na indústria, onde foram eliminados 69 mil postos de trabalho só entre março e abril passados.

Mas o próximo presidente precisa corrigir distorções em muitos programas sociais, e o Seguro-Desemprego é um deles. Como não há fiscalização nem transparência na aplicação do dinheiro, os gastos para pagar supostos desempregados explodiram, contrariando a conjuntura de emprego em alta e desemprego em baixa, o que levou Dilma a injetar mais R$ 4,9 bilhões no programa em 2013. Ainda na área do trabalho, há enorme desleixo em relação à qualificação do trabalhador. Dinheiro não falta, o que falta é fiscalização, gestão eficiente e cobrança de resultados. Além de bilhões de reais (o governo gosta de divulgar a cifra) repassados ao Sistema S (Sesc, Senac, Sesi, etc.), outra bolada de dinheiro é despejada nos sindicatos para qualificação profissional. E o Brasil fracassa, perde feio em produtividade no trabalho: em 2013 perdeu oito posições e ocupou o 56.º lugar no ranking do Fórum Econômico Mundial. Ou seja, oito países passaram à frente e o Brasil foi empurrado para trás. Afinal, o que esperar de um país onde, na média, o trabalhador levou 20 anos para avançar do estágio de 5,7 para apenas 8,8 anos de estudo?

Na TV o marqueteiro até pode pegar cenas dos melhores momentos, mas a candidata do PT tem pouco a dizer em saúde e educação, justo duas áreas-chave para uma política social bem-sucedida. Com exceção de alguns programas de inclusão social em universidades, a qualidade do ensino não melhorou e o analfabetismo funcional ampliou, sobretudo no ensino fundamental. A demora por uma consulta ou cirurgia, o desaparelhamento de hospitais, a escassez de médicos e postos de atendimento desenham um cotidiano sofrido para a população que precisa de saúde pública e que o programa Mais Médicos não conseguiu aliviar.

Mas o grande trunfo que Dilma vai explorar é a ascensão de 35 milhões de pobres que migraram para a classe média. Embora seja questionável o critério para classificar a classe média (o governo inclui quem tem renda per capita entre R$ 291,00 e R$ 1.019,00/mês), a ascensão é um fato real. Esses emergentes vivem com a corda no pescoço, endividam-se, mas passaram a ter acesso a computador, a telefone, a eletrodomésticos, dão impulso e movimentam a economia.

Acabou o gás

Vinicius Torres Freire
Folha De São Paulo

Situação de salário, emprego, crédito, gasto público e confiança aponta quase estagnação 

A economia brasileira parece perder o resto do gás que ainda sobrava. Nos últimos seis meses, o combustível dá indícios de se exaurir, seja qual for o tanque que se meça. 

A história de que o país "não ia tão bem como se imaginava (faz quatro anos) nem vai tão mal agora" é uma conversa mole que em nada ajuda a pensar o que seja lá esteja acontecendo. O palavrório sobre o país "explodir" ou "bombar" daqui até o ano que vem, mais do que conversa fiada, é bobagem politiqueira muito vulgar. 

Nos últimos seis meses, a economia parece estacionar num patamar até alto, pelos padrões de vida históricos e pelo baixo nível de produtividade do país. Mas estaciona. Difícil imaginar de onde possa vir um impulso que faça a carruagem andar, tão cedo. 

Os salários ainda davam algum alento. Não mais, pelo menos por ora. O salário médio está mais ou menos na mesma desde novembro do ano passado. A massa salarial, o total dos salários pagos, praticamente estagnou desde o início do ano. Aliás, nos últimos seis meses cresce ao menor ritmo em cerca de 10 anos (dados anualizados). 

O crédito fora um aditivo para o consumo, em particular no tombo de crescimento entre 2008 e 2009, devido ao contágio da crise mundial. Mas perde ritmo desde então. 

O total de dinheiro emprestado crescia na casa dos 25% ao ano em 2008 (em termos reais), passou para algo em torno de 13% entre 2009 e 2011, para 12% em 2011 e desceu até o ritmo de 8,7% de agora. O impulso restante vinha dos empréstimos dos bancos estatais, alimentados de dinheiro extra pelo governo, que fazia dívida para anabolizar seus bancos. Esse dinheiro também está minguando. 

Os aumentos do salário mínimo eram outro impulso que minguou, pois vinculados ao crescimento da economia, inferior a 2% ao ano sob Dilma Rousseff. O aumento da despesa do governo é contido pela arrecadação de impostos menor, em parte devida também ao crescimento menor do PIB. 

O governo vem "compensando" o aumento menor da receita com redução de sua poupança, desde 2012. Isto é, fazendo mais dívida, o que no entanto ajuda a chutar para cima a taxa de juros, o que emperra a economia por outro lado. 

A falta de gás aparece até nas vendas do comércio, que no primeiro trimestre cresceram só 0,3% sobre o trimestre anterior, o segundo pior resultado desde a queda de vendas no final do ano crítico de 2008. 

Os efeitos piores da campanha de aumento da taxa de juros pelo Banco Central ainda estão pela frente, segundo os economistas. Mesmo que sobrevenha uma melhoria da atividade econômica mundial, o efeito sobre a economia doméstica será desprezível. A confiança de empresários e consumidores está no nível de 2009, ano ruim, e caindo. 

Massa de salários, número de empregados, crédito, gasto público, confiança: nada disso está em alta ou pelo menos desacelera. Dada a nossa história, o país até que não vai mal, em termos de "economia do povo", no cotidiano. Mas o país não vai mais, ao menos por ora. 

Ao final dos anos Dilma, o PIB per capita terá crescido 1% ao ano, pelos dados disponíveis hoje. Um ritmo no qual dobraríamos o nosso padrão de vida médio em 70 anos.