quarta-feira, junho 04, 2014

Presidencialismo de corrupção

Sebastião Nery
Tribuna da Imprensa


Era cabo do Palácio Bandeirantes, sede do governo paulista, quando Ademar era governador. Todo fim de mês, de manhã cedo, recebia um envelope fino, fechado, muito bem fechado, para entregar a um senhor gordo e estranho nos subúrbios da capital. E trazia de volta, mandado pelo senhor estranho e gordo, um pacote grosso, fechado, bem fechado.

Um mês, dois meses, seis meses, todo dia 30, de manhã cedo, bem cedo, o cabo levando o envelope fino e trazendo o pacote grosso. Morria de curiosidade, mas não tocava o dedo. Estava ali cumprindo seu dever. E o segredo era o preço primeiro do dever.

O CABO
Um dia, o cabo não se conteve. Abriu pela ponta, discretamente, o pacote grosso. Era dinheiro, muito dinheiro. Tudo nota de mil. Resistiu à tentação, entregou o pacote inteiro, intocado. No mês seguinte, dia 30, deram-lhe de novo o envelope fino. Abriu. Era um cartão, escrito à mão: – “50 contos no bicho que der.”

O cabo não resistiu. Pegou uma caneta num botequim, emendou: – “50 contos no bicho que der. Aliás, 55”.
Nunca mais lhe deram o envelope fino e muito menos o pacote grosso. Foi demitido.

PT SEM ENVELOPE
Bons tempos aqueles em que a corrupção ia de envelope fino e voltava de pacote grosso. O caixa das maracutaias era desovado no jogo do bicho. Depois que o PT inventou o “Presidencialismo de Corrupção”, criado por Lula e ampliado por Dilma, a rota das negociatas passa pelos cofres insaciáveis das empreiteiras, é garantido pelos gorduchos favores do BNDES e sangra as gavetas amanteigadas do Tesouro Nacional.

Lula chegou como o guerreiro dos sindicatos, Dilma como a Mãe do PAC. Em dez anos os dois tiraram a máscara. O guerreiro virou um lobista de negócios dos ditadores africanos e de Cuba.E o PAC da Dilma empacou. O “Presidencialismo de Corrupção” é a maior fonte de negociatas do pais. Nunca houve coisa igual, nem no Império ou na Republica Velha.

Corrupção sempre houve. O Poder é uma instituição voraz. Mas nos níveis em que o PT a instalou, aberta, escancarada, escrachada, jamais houve igual.

PÂNTANO
A desculpa é que a “Base Aliada” é insaciável, que quase 30 partidecos são incontroláveis, que com mais de 30 ministérios ninguém administra. Ora, quem alimenta, engorda, sova esta máquina infernal? . Era Lula, hoje é Dilma. Os dois são a alma do PT.Vivem dele. Sangue do sangue. Chegou a campanha eleitoral, o PT saltou no pântano. Vale tudo. São os “blogs de assalto”, os “colunistas de aluguel”. É a guerra suja. E o palácio do Planalto comprando tudo com dinheiro público.

Já não bastam os asquerosos convescotes vespertinos em que a presidente da República distribui dinheiro e cargos aos partidos como banana a macacos. E Lula diz a Dilma, debochando, que senadores e deputados “não se dão ao respeito”.

NOTÍCIA BOA
Sinto até constrangimento de misturar uma informação decente com um pântano podre como essa campanha eleitoral do PT. Mas ainda bem que nem tudo está perdido e há homens públicos cumprindo seu dever. Amanhã, dia 4 de junho, toma posse a nova diretoria, recém-eleita, da AJUFE (Associação dos Juizes Federais). Será comandada por dois jovens, experientes e provados magistrados: Antonio Cesar Bochenek, do Paraná, e André Thobias Granja, de Alagoas. Parabéns e sucesso.

NINGUÉM ME CONTOU
Não digam meus leitores que estou amargo, por causa dessas notas aí em cima. Estou é chocado com o massacre que o PT está fazendo no país. Quanto a mim, muito pelo contrario. Depois do sucesso que foi, na semana passada, o lançamento, no Rio, de meu novo livro “Ninguém me Contou, Eu Vi” (Editora Geração), foi a vez de assinar dezenas de exemplares em São Paulo na “Livraria Cultura” do Conjunto Nacional. Um reencontro com meus queridos companheiros de São Paulo, em cuja imprensa (jornais e televisões) escrevo desde 1975. Garanto o novo filho. Leiam. É tão bom quanto “A Nuvem”.

Brasil submergente

Luís Eduardo Assis (*) 
O Estado de S.Paulo

Húbris é uma palavra esquisita de origem grega que denota um conceito bastante conhecido: a falta de modéstia, a presunção, a arrogância, o excesso de confiança, o orgulho desmesurado. Há pouco mais de dois anos, o Brasil foi considerado a sexta maior economia do mundo, superando o Reino Unido. A reação do governo brasileiro foi de incontida euforia, como se tivéssemos chegado lá. O ministro Mantega, que não é famoso pelo seu pessimismo, não deixou por menos e declarou que o Brasil seria a quinta maior economia antes de 2015 (ou seja, agora).

Não deu muito certo. Pelo mesmo conceito de PIB usado à época, em 2014 o Brasil deverá fechar o ano como a nona economia do planeta. A rigor, na verdade, isto diz muito pouco. Não havia nenhum sentido na comemoração de antes. Ser a sexta maior economia do mundo não tinha maior significado. Em larga medida, esse enganoso avanço na classificação internacional se deveu à valorização do real em relação ao dólar. Entre 2003 e 2011, a cotação média da moeda americana despencou de R$ 3,08 para R$ 1,67, o que equivale a uma valorização do real de nada menos que 84%. Se medimos o PIB em dólares e o dólar vale menos, o PIB aumenta mesmo. Comemoramos com incontinência verbal um gol de mão. De mais a mais, o Brasil é grande, não há novidade, mas o que importa é se o nível de vida dos brasileiros evolui a contento. O valor absoluto é uma fatalidade geográfica e pouco conta. Se, por algum passe de mágica, todos os países da África se unissem em um só país, o PIB conjunto seria de quase US$ 2 trilhões, um dos maiores do mundo - mas a vida dos africanos não melhoraria em nada por causa disto. Ao contrário do Brasil, que imitou certos insetos e quis se passar por um país maior do que é para intimidar adversários, a China deliberadamente desprezou a previsão recente de que vai superar a economia americana agora em 2014. Aos chineses convêm a modéstia e a discrição.

Para escapar da armadilha de medir produtos de países diferentes com a métrica enganadora do dólar que oscila, o Banco Mundial gastou muito tempo e dinheiro compilando informações e desenvolvendo uma metodologia específica que permita a comparação dos países a partir da paridade do poder de compra de suas moedas. Este método dá uma ideia mais correta acerca do nível de bem-estar da população e do tamanho relativo das economias. Um sumário desta pesquisa (com 93 páginas) acaba de ser publicado com informações comparativas de 2011 para 199 países. A versão completa será lançada em julho próximo. No conceito de paridade de poder de compra, o PIB brasileiro em 2011 foi de US$ 2,82 trilhões, cerca de um quinto do PIB chinês e menos da metade do PIB da Índia. Mais importante é verificar o nosso posicionamento em termos de produto per capita. O Brasil tem o 80.º maior PIB per capita do mundo, com US$ 14.639,00. Ficamos atrás de países como o Chile (US$ 20.216,00), México (US$ 16.377,00), Panamá (US$ 15.369,00), Uruguai (US$ 17.343,00) e Venezuela (US$ 16.695,00). Vamos combinar que é cedo para comemorar. Não somos ricos. Não chegamos lá. Lá ainda está longe.

Para estimular nosso comedimento e evitar a fútil celebração de que viramos uma potência mundial, é útil também recordar que o Brasil deverá crescer em 2014 algo como a metade do estimado para o crescimento da economia mundial (1,8% ante 3,6%, na estimativa do FMI). No ano passado também ficamos para trás (2,3% ante 3%). Da mesma forma nos últimos três anos (6,2% aqui e 10,4% no mundo). Nos últimos cinco anos? Acertou, perdemos também (13,8% versus 15,7%). Mas será que nem nos últimos dez anos crescemos mais que a média mundial? Pois não crescemos. Acumulamos 44% de crescimento, menos que a expansão do conjunto das economias, 45%. Mas então temos pelo menos o consolo de que estamos prestes a decolar e deixar o mundo para trás? Não exatamente. A previsão do crescimento mundial para os próximos dois anos é de 7,6%, muito mais que os analistas brasileiros consultados pelo Banco Central antecipam para nossos tristes trópicos: modestíssimos 3,6% no biênio 2015-2016. Nêmesis, outra palavra estranha de origem grega, é a deusa que pune aqueles que tiveram sorte de forma imerecida e reagiram com arrogância (ou húbris) à boa fortuna. A julgar pelo caso do Brasil, ela parece ser implacável e vingativa. O Brasil é um tipo muito especial de economia emergente: somos um emergente que afunda no contexto internacional.

O debate que se aproxima, no contexto da eleição presidencial, oferece uma alternativa rara para traçar um diagnóstico e encaminhar propostas de solução. O Brasil não é rico e injusto; é só injusto. Combater as mazelas sociais através de políticas de redistribuição tem eficácia limitada. A melhor estratégia para combater as injustiças sociais é acelerar o crescimento. Isto começa por rejeitar três abordagens simplistas, a saber: (i) acreditar que a corrupção é a única razão das nossas agruras e que a alternância de poder terá o condão de alterar as coisas; (ii) atribuir nosso enrosco a uma mera questão de eficácia na gestão administrativa; e (iii) imaginar que o corte de gastos de custeio possa gerar os recursos necessários para alavancar os investimentos em infraestrutura e, desta forma, acelerar o crescimento. É preciso esmagar a corrupção, melhorar a eficácia da máquina administrativa e cortar os excessos. Mas o crescimento acelerado está na dependência da capacidade de o novo governo costurar um pacto político que abra espaço para reformas mais profundas que alterem o padrão de gastos do setor público. Não será fácil. Nossos problemas não são modestos.

(*) Luís Eduardo Assis é economista, foi diretor de política monetária do Banco Central e professor da PUC-SP e FGV-SP.

Agora, só rezando

J.R.Guzzo
Revista VEJA

Como Lula, um cidadão que construiu toda a sua vida dizendo que é um trabalhador, pode tratar assim os trabalhadores – os mais necessitados de transporte coletivo de boa qualidade? Para o ex-presidente, isto é um luxo idiota de que o brasileiro não precisa.


Mais alguns dias, já na semana que vem, começará essa Copa do Mundo que fez o governo exibir a si próprio e ao resto do planeta  alguns dos piores momentos de toda a história do Brasil como país de segunda categoria. O que dá vontade de dizer, nessa hora, é: “Até que enfim”. Com a bola rolando, e os melhores jogadores de futebol do mundo em campo, explode, sem controle de nenhuma força conhecida, a emoção incomparável que só os jogos heroicos conseguem criar – com seus momentos sublimes de habilidade sobrenatural, a crueldade dos acasos ou os milagres de último  minuto. No caso da Copa de 2014, junto com o primeiro jogo vem a esperança de que o futebol, a mais potente magia esportiva jamais criada pelas sociedades humanas, possa proporcionar aos brasileiros um momento de alívio numa tirania de sete anãos que os governos do ex-presidente Lula e da presidente Dilma Rousseff impuseram à população durante os preparativos para o grande evento. Que tipo de tirania? Simples: a que forçou o país a testemunhar (e a pagar por) uma exibição inédita de incompetência em engenharia elementar  , e da arrogância na negação de sua própria inépcia.

“Já perdemos a Copa fora do campo”, disse o deputado Romário de Souza Faria. “Agora só nos resta rezar para irmos bem lá dentro”. Ninguém poderia resumir melhor a realidade do que Romário. Antes mesmo do primeiro jogo, nada mais sobra daquela Copa de 2014 que Lula, em 2007, festejou como a glória máxima de seu governo. Prometeu, na ocasião, fazer a “melhor” Copa que o mundo já tinha visto desde a primeira, em 1930, um empreendimento que transformaria a vida das classes populares com quantidade prodigiosa de obras públicas e mais uma tonelada de pura conversa mole. Desde então o que aconteceu na vida real foi um massacre de mentiras oficiais, de humilhações na obediência servil  a exigências feitas fora do Brasil e de suas leis e de promessas grosseiramente não cumpridas – como a de que não seria gasto “um tostão” de dinheiro público na Copa, quando no fim das contas o Erário vai pagar quase 100% dos custos. 

Os famosos benefícios para a população, como a “mobilidade” e outras palavras tolas inventadas para fazer propaganda de fantasias,  são uma piada – as obras estão atrasadas, são de má ou péssima qualidade ou simplesmente foram abandonadas. “Estou envergonhado de ser brasileiro”, disse Ronaldo Nazário, até há pouco um dos mais entusiasmados promotores oficiais da Copa. Ronaldo, por sinal, lembra que todas as exigências da FIFA (que a presidente Dilma agora exige que lhe tirem “das costas”) foram aceitas em 2007, sem discussão alguma, pelo governo brasileiro. 

Não tendo como responder à sua incapacidade, comprovada em sete anos, de organizar a Copa, o PT e admiradores fazem o de  sempre: ficam agressivos e falam bobagens desesperadas. O primeiro a sacar o revólver foi o próprio Lula: disse que era uma “babaquice” reivindicar metrôs que chegassem aos portões dos estádios. Toda a ideia que sustenta o metrô, em qualquer lugar do mundo, é exatamente esta: levar o máximo de pessoas ao ponto mais próximo possível de lugares aonde queiram ir.  

Para o ex-presidente, isso é um luxo idiota de que o brasileiro não precisa. “Vão a pé, vão descalços, vão de jumento”, concluiu. Como que um homem que se considera  o maior líder popular do mundo fala uma coisa dessas? Como um cidadão  que  construiu toda a sua vida dizendo que é um trabalhador pode tratar assim   os trabalhadores – os mais necessitados de transporte coletivo de boa qualidade? No mesmo embalo, revelou que não estava preocupado em saber se a Copa ia movimentar “30 ou 40 bilhões de dólares” na economia brasileira – a seu ver, uma mixaria. Por que, então, não disse isso há sete anos atrás?  Lula, no fim das contas, não terá dificuldades de transporte – já anunciou que não vai comparecer a nenhum jogo da Copa. Não faz nexo: se era uma obra tão fabulosa, como é possível que bem agora, no que deveria ser seu maior triunfo, ele diga que não vai a “nenhum” jogo?  Justo ele, que inaugura até maquete de abrigo de ônibus? 

Lula disse que prefere ver a Copa pela TV, pois terá muito mais conforto do que em seus estádios, tomando uma “cervejinha”. Cervejinha coisa nenhuma. Não vai porque tem medo de levar uma vaia que ficará na história. A Copa de 2014 era para ser uma coisa. Saiu outra. Paciência. O único remédio para isso chama-se coragem moral – a hombridade de que cada uma precisa para assumir as consequências de seus atos. É artigo que saiu de linha no governo.            

'Eles é que bebem e nós ficamos tontos'

José Neumanne
O Estado de São Paulo

Relator da comissão parlamentar mista de inquérito (CPMI) aberta (pelo menos em teoria) para investigar escândalos protagonizados pela maior empresa brasileira, a Petrobrás, o deputado Marco Maia (PT-RS) fez questão de avisar que a convocação do ex-diretor de Abastecimento da estatal Paulo Roberto Costa para nela depor não tardará.

Como é público e notório, Paulo Roberto Costa foi preso pela Polícia Federal quando tentava destruir provas que o comprometiam - no âmbito das investigações da Operação Lava Jato - na condição de parceiro do doleiro Alberto Youssef, acusado de ter “lavado” R$ 10 bilhões. O doleiro continua preso, mas o ex-diretor da Petrobrás foi solto por obra e graça de despacho do ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki: este interrompeu sua depressão de 59 dias na cela, mas manteve presos os outros 11 que o juiz Sérgio Moro, do Paraná, mandara prender.

Chegaram até a definir como “troco de pinga” a eventual perda de US$ 1 bilhão (R$ 2,3 bilhões) na compra da refinaria da Astra Oil belga em Pasadena (Texas), pela qual a presidente da estatal, Graça Foster, reconhece pelo menos um prejuízo de US$ 530 milhões (R$ 1,2 bilhão). Mas a conta da refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco, uma associação em que os brasileiros entraram com a grana e os venezuelanos com saliva, é muito mais pesada. Há duas semanas, o jornal Valor Econômico teve acesso a atas de reuniões do Conselho de Administração da Petrobrás e de sua leitura concluiu que o plano básico de organização da refinaria foi aprovado pelos conselheiros em 30 de outubro de 2008, mas só em 14 de janeiro de 2010 eles conheceram o estudo de viabilidade da refinaria, cuja construção já tinha sido iniciada. E no ano anterior, lembrou o jornal, a estatal havia captado R$ 10,5 bilhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para o projeto, que, por esta e outras, viria a se tornar a obra mais onerosa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Pelos cálculos do jornal, a aventura teria elevado o valor a ser gasto na benemerência ao compadre Hugo Chávez à bagatela de R$ 40 bilhões, dez vezes mais do que se previa no início do projeto (R$ 4 bilhões). A algum crítico renitente, como o autor destas linhas, ocorreria até concluir que a diferença não poderia caracterizar sequer um troco de vinho do Porto Taylor’s de mais de 150 anos, vendido a 2.500 (R$ 8 mil) a garrafa. Nenhuma definição, porém, será tão precisa quanto a dada pelo alto funcionário da Petrobrás encarregado da obra, Paulo Roberto Costa, que chamou o embrulho de “conta de padeiro” em entrevista à Folha de S.Paulo. Será a estatal gerida como se fosse uma padaria?

“Conta de padeiro” é um jargão que ainda não consta de dicionários e que significa cálculo feito às pressas, sem os devidos cuidados nem embasamento - neste caso específico, sem projeto algum que justificasse despesas de tal monta. Mas é provável que em próximas edições a expressão venha a ser incorporada ao “pai dos burros”. Ildo Sauer, um dos principais colaboradores na área energética do programa de governo de Lula e ex-diretor de Gás e Energia da Petrobrás, declarou-se perplexo com o uso da expressão, embora concorde com a evidência de que jamais o investimento na refinaria poderia ter passado de US$ 8 bilhões (R$ 19 bilhões), menos da metade do gasto ora previsto. A expressão, de acordo com Sauer, ofende “a história da Petrobrás, que sempre teve uma gestão profissional e técnica” e “é uma desculpa grosseira para justificar o injustificável”.

A oposição decidiu centrar fogo na investigação sobre Abreu e Lima e reclamou da comparação. “Padeiro não erra nem conta. Se errasse, as padarias quebravam”, disse o líder do DEM na Câmara dos Deputados, Mendonça Filho (PE), que insiste na abertura da “caixa de Pandora” da Petrobrás, mas não desiste do meio menos adequado para fazê-lo.

Seria a oposição deficiente em inteligência ou estaria interessada apenas nos holofotes postos no debate nos plenários do Congresso, controlados pelo governo, para compensar o triplo de tempo da aliança governista na propaganda eleitoral no rádio e na TV, aparecendo no noticiário de todo dia da CPMI? Há, contudo, coisas mais importantes a cuidar do que defender a sabedoria contábil dos donos de padaria ou a honra ameaçada da equipe técnica da estatal. Mais grave do que o tom zombeteiro da definição do suspeito-mor, preso para não destruir provas e solto por magnificência do julgador supremo, ou do que a afronta aos funcionários, que até agora não de nada reclamaram pela voz de seus líderes corporativos, é a declaração de Graça Foster. Questionada pelos repórteres ao sair da sede da Fundação Getúlio Vargas, no Rio, a presidente da Petrobrás parodiou o enigma da esfinge de Édipo Rei com uma sentença perturbadora e comprometedora: “Não é que eu não queira, eu não posso falar”.

Quando o Valor Econômico revelou que a empresa que ela preside autorizou despesas de milhões de reais sem embasamento técnico, a estatal negou, em nota oficial, que seu conselho tenha aprovado em apenas 14 dias contratos sem licitação com as construtoras Galvão Engenharia e Queiroz Galvão. Sim, e daí? Agora a sra. Foster diz que não “pode” falar sobre graves acusações que pesam sobre suas costas, feitas publicamente por seu ex-companheiro de diretoria, acusado de corrupção. Em vez de participar da inútil sabatina do ex-diretor ex-preso na CPMI, a oposição serviria melhor ao País se lembrasse à presidente da Petrobrás que ela tem satisfações a dar ao contribuinte, que sustenta sua empresa e paga seu salário, a respeito das estapafúrdias diferenças entre gastos previstos e despesas feitas, que não podem ser tidas como meros erros contábeis. A presidente da Petrobrás não deve agir como se estivesse servindo pinga no balcão de um boteco cujos clientes cantam A Turma do Funil ao contrário.

O desmazelo fiscal

Fernando Henrique Cardoso
O Globo

O volume de empréstimos do Tesouro a bancos públicos aumentou cerca de vinte vezes desde 2007, passando de 0,5% para mais de 9% do PIB

Alguns analistas repetem o refrão: vistos em conjunto os governos Itamar Franco/Fernando Henrique e Lula/Dilma serão percebidos no futuro como uma continuidade. Houve a estabilização da economia, as políticas sociais foram ativadas e, a democracia, mantida. Sim e não, digo eu. É certo que, no primeiro mandato de Lula, as políticas macroeconômicas foram sustentadas pelo chamado “tripé” (Lei de Responsabilidade Fiscal, metas para a inflação e câmbio flutuante) e que a crise de 2008 foi razoavelmente bem manejada. Mas depois o governo lulista sentiu-se à vontade para levar adiante o sonho de alguns de seus membros.

A, então poderosa, ministra-chefe da Casa Civil se opôs desde logo aos economistas, inclusive do governo, que propunham limitar a expansão do gasto público ao crescimento do PIB. Na área fiscal, só fizemos piorar. Ao mesmo tempo, pouco se fez para sanear a máquina pública, infiltrada por militantes e operadores financeiros, e estancar a generalização do dá cá (apoio ao governo e votos), toma lá (nomeações para ministérios, empresas públicas e áreas administrativas). O governo alardeia estar cumprindo as metas de superávit primário, quer dizer, o resultado das contas públicas antes do pagamento dos juros da dívida. Cumprir essas metas é essencial para assegurar a queda da dívida como proporção do PIB. Desde 2009, o governo vem se valendo de expedientes para “cumpri-las”, às vezes mediante fabricação de receitas por contabilidade criativa, como em 2012, ora com uso de receitas extraordinárias, como em 2014, quase sempre com o adiamento de despesas que vão engordando os chamados restos a pagar.

Afirma o governo que o superávit de 2014 será igual do ano anterior. Será? Custo a crer, pois o superávit de 2013 computou o resultado do leilão da concessão de exploração de petróleo no poço de Libra (R$ 15 bilhões) e a antecipação incentivada à Receita de R$ 22 bilhões devidos por empresas. Somados esses recursos geraram R$ 37 bilhões, ou 0,8% do PIB, quase a metade do superávit primário do ano passado (1,9%). De onde virão as receitas extraordinárias em 2014? Fará o governo leilões do pré-sal usando a “amaldiçoada” lei anterior que não exige capitalização da Petrobras e antecipa maiores recursos ao Tesouro? Seria a suprema ironia.

A única certeza é a de que a expansão do gasto público é crescente: em janeiro do ano em curso (mês no qual em geral as despesas caem com relação a dezembro do ano anterior) houve uma expansão de R$ 4 bilhões. Ou seja, o que não foi pago em dezembro de 2013 será pago no ano em curso. Se tivesse sido pago, o superávit de 2013 teria sido de apenas 1%, dos quais 0,8% proveniente de receitas extraordinárias! A tendência à expansão do gasto vem de longe. E se acentuou no governo de Dilma. Em 2013, a despesa atingiu 19% do PIB (era de 11% em 1990). O crescimento do gasto como proporção do PIB nesses últimos três anos foi mais de duas vezes superior ao observado em meu segundo governo, quando se instituiu o regime de metas de inflação e responsabilidade fiscal, com metas de superávit primário e controle do gasto público. O governo atual alega que a dívida líquida não cresceu nesse período e que a dívida bruta, embora tenha aumentado, estaria sob controle. É fato que, como proporção do PIB, a dívida líquida não cresceu e que a bruta, em comparação com a de alguns países desenvolvidos, aparentemente não deveria nos preocupar. Seria verdade, não fosse pelo “detalhe” de que o custo da nossa dívida é muito maior. Basta um exemplo: no ano passado, com uma dívida bruta de 66% (segundo o FMI) ou um pouco menos de 60% (segundo o governo), o Brasil gastou 5,2% do PIB com juros da dívida. Já a arruinada Grécia, com uma dívida bruta de mais de 170% do PIB, gastou 4%!

O não crescimento da dívida líquida se deve, em boa medida, mais uma vez, a um truque fiscal. Ele consiste em fazer o Tesouro tomar dinheiro emprestado no mercado, mais de R$ 300 bilhões desde 2009, e repassar o dinheiro ao BNDES. Na contabilidade da dívida líquida, uma operação anula a outra, pois a dívida contraída com o setor privado pelo Tesouro se transforma em crédito do mesmo Tesouro contra o BNDES, que é 100% controlado pelo governo. Ocorre que os juros que incidem sobre a dívida contraída com o mercado são muito mais altos do que os juros cobrados pelos empréstimos do BNDES, para não falar no risco de parte desses empréstimos não ser paga jamais. O Tesouro deveria compensar o BNDES por esta benevolência, mas não o vem fazendo. Ao final de 2013, já eram R$ 17 bilhões devidos pelo Tesouro ao BNDES para equalizar a diferença nas taxas de juros. Os empréstimos do Tesouro ao BNDES não são um caso isolado. Dados do economista Mansueto Almeida mostram que o volume de empréstimos do Tesouro a bancos públicos aumentou cerca de vinte vezes desde 2007, passando de 0,5%, para mais de 9% do PIB! Vamos, de truque em truque, em marcha firme para a produção do que, no passado, chamávamos de “esqueletos” ou dívidas não reconhecidas.

Tudo isso foi feito com a justificativa de que era necessário para estimular a economia. Porém, em lugar de mais investimento e mais crescimento, colhemos apenas mais inflação e maior fragilidade fiscal.

Como o lulopetismo sabe que é difícil enganar sempre, tenta agora desacreditar os adversários. Alardeia que diante desse quadro, se o PSDB e as oposições ganharem, vão tratar os consumidores e o povo a pão e água. Puro desvario. O controle sobre o desarranjo fiscal e a inflação não precisa recair sobre o povo. As bolsas consomem apenas 0,5% do PIB. Fizemos a estabilização da moeda, controlamos gastos do governo e, ao mesmo tempo, aumentamos o salário mínimo, realizamos a reforma agrária, universalizamos o ensino fundamental, fortalecemos o SUS e introduzimos programas de combate à pobreza.

Está na hora de pôr ordem na casa, e o governo nas mãos de quem sabe governar.

Há Estado?

Denis Lerrer Rosenfield 
O Globo

Brasil está vivendo uma série de eventos que têm se caracterizado pela desordem pública

Há um certo senso comum popular segundo o qual a segurança pública é uma das principais atribuições do Estado. Não se trata de nada corriqueiro, pois estamos falando da conservação da vida, da integridade do corpo, da preservação dos bens e da defesa da família. Todas as pesquisas de opinião mostram que esta é uma das principais preocupações dos brasileiros, que se veem como desatendidos no que deveria ser o eixo mesmo de atuação do Estado. Qual é o destino de nossos impostos, se o Estado nem isto pode assegurar?

Há, também, certo senso comum filosófico que fundamenta essa percepção popular. Caberia ao Estado, dizia Hobbes, assegurar a integridade física e a conservação dos bens de seus cidadãos, via exercício do monopólio da violência. Isto significa que os cidadãos teriam transferido ao Estado o uso da violência, de tal maneira que a ordem pública possa se estabelecer.

O mesmo senso filosófico, desta feita seguindo Kant, estabelece que a lei reja os conflitos em estados republicanos, de modo que sentenças judiciais devam ser aplicadas, pois se isto não ocorre é como se a própria lei não existisse. Uma lei ineficaz não pode ser propriamente denominada de lei.

O Brasil está vivendo uma série de eventos que têm se caracterizado pela desordem pública, pelo emprego da violência por parte de grupos organizados, chamados, genericamente, de “movimentos sociais”, pela não observância da lei e pela imposição, mediante a força, de posições minoritárias. Os cidadãos observam, estarrecidos, como esses diferentes grupos agem, sem a menor preocupação com os direitos e as liberdades dos demais, como se a seara pública pudesse ser, simplesmente, invadida por atos violentos.

As greves dos rodoviários no Rio de Janeiro, em São Paulo e, anteriormente, em Porto Alegre, são exemplos gritantes da inoperância do Estado. Convém aqui observar que a segurança pública se constitui em uma atribuição dos estados, não sendo um papel a ser cumprido pela União, senão subsidiariamente em momentos de crise ou grave tensão social. Logo, estamos falando da falência do Estado no domínio dos estados, onde distintos partidos políticos exercem o poder.

Uma certa cronologia é aqui importante. A primeira greve propriamente selvagem dos rodoviários ocorreu em Porto Alegre, onde os grevistas impediram, graças a atos violentos, a circulação de ônibus em um período que se estendeu, ao todo, por mais de uma semana. O caos urbano foi estabelecido. Grupos minoritários, em boa parte vinculados à extrema-esquerda, impuseram a sua vontade pelo uso da força.

O governador petista, Tarso Genro, tomou a decisão de a Polícia Militar não intervir, para evitar, segundo ele, o confronto com os grevistas, podendo resultar em mortes ou acidentes. Ou seja, o confronto só se estabeleceria com a intervenção da polícia, quando, na verdade, ele foi suscitado por atos violentos dos próprios grevistas. O prefeito, do PDT, José Fortunatti, preocupado com os cidadãos, pediu a intervenção da polícia, no que não foi tampouco atendido pelo governador.

Os grevistas se sentiram ainda com mais poder e puderam infernizar a cidade, contando com a completa impunidade. Uma polícia que não age para coibir atos violentos, evidentemente, não cumpre com sua função. Torna-se uma mera observadora da violência, como se esta não lhe dissesse respeito.

Note-se ainda que a Justiça do Trabalho, normalmente simpática às reivindicações dos trabalhadores, declarou a greve abusiva, estabeleceu punições, que não produziram o menor efeito, pois os grevistas também pensaram que a lei não precisa ser observada. O know-how tinha sido adquirido.

A greve dos rodoviários de São Paulo contou com este know-how. Rodoviários gaúchos transmitiram esse conhecimento aos grevistas paulistas, participando de sua logística. Ou seja, foram a São Paulo para ajudar na organização dos atos violentos. O script foi semelhante, com algumas inovações no que diz respeito à ampliação do uso sistemático da violência. Note-se que não há nenhuma “espontaneidade” aqui, mas sim uma organização digamos “refinada” do arbítrio.

Os grevistas, na mais completa ilegalidade, fizeram uma greve selvagem, sem nenhum aviso prévio. Como a ilegalidade já não é mais coibida, pode ela servir de exemplo para as ações. Usuários foram, no meio de seus percursos, retirados dos ônibus. Os veículos foram atravessados no meio das ruas e avenidas, com o objeto explícito de causar o maior dano aos outros cidadãos. A liberdade de ir e vir foi simplesmente anulada. Houve mesmo o requinte de as chaves dos ônibus serem jogadas fora, para impedir um reposicionamento destes veículos. O objetivo foi o estabelecimento do caos.

A prática amplamente utilizada no Rio de Janeiro de queima de ônibus foi também empregada como se a depredação do patrimônio das empresas fosse algo justificável, como se a sua segurança pudesse ser negligenciada. São as chamas da violência.

Note-se que no caso paulista um script semelhante se desenhou no que diz respeito ao papel dos governantes, embora as posições partidárias não fossem as mesmas. O governo tucano de Geraldo Alckmin optou por sua polícia ser igualmente mera observadora dos atos violentos, não intervindo para coibi-los. É como se a coerção de atos violentos não dissesse respeito ao governo estadual pela greve ter se estabelecido no nível municipal. O absurdo é evidente, pois a segurança concerne à função mesma da esfera estadual.

No caso, foi a administração municipal, a do prefeito petista, Fernando Haddad, que pediu, com razão, a intervenção da força estadual, pois atos violentos devem ser reprimidos seja lá onde ocorram. É incompreensível que o crime corra solto, que a violência se generalize, enquanto a polícia torna-se mera espectadora. Observe-se, por último, que a greve foi considerada abusiva pela Justiça do Trabalho e isto tampouco teve um efeito imediato, pois a ilegalidade tornou-se a tônica dessas manifestações.

Cabe, então, a pergunta: há Estado?

Os gatos abandonam o navio.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Paulo Skaf, candidato do PMDB ao Governo paulista, recebeu apoio público da presidente Dilma: ele, como o petista Padilha, seria seu preferido, para forçar um segundo turno contra o tucano Alckmin. Skaf rejeitou o apoio de Dilma: disse que é de oposição tanto ao PSDB quanto ao PT. O presidente nacional do PMDB, Michel Temer, está com Dilma, é seu candidato a vice? Problema dele.

O PMDB do vice Temer, principal partido de apoio a Dilma, já negocia com seus adversários na eleição presidencial no Rio, Goiás, Rio Grande do Sul, Minas, Santa Catarina, Bahia, Mato Grosso, Minas, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Pernambuco. O PP de Paulo Maluf fechou em São Paulo com o PT de Padilha, mas no Rio Grande do Sul a candidata favorita ao Governo, Ana Amélia, vai com Aécio - e se opõe a Dilma nos mesmos Estados em que o PMDB mudou de lado. Dilma negocia com Alfredo Nascimento, do PR (que ela demitiu do Ministério naquilo a que chamou de "faxina ética"), para tentar segurar o apoio do partido; mas precisa negociar também na Papuda, onde despacha hoje o comandante de fato do PR, o mensaleiro Valdemar Costa Neto. Nanicos como PTN, PRP, PHS, PTC, PSL e PMN já mudaram de lado. Dilma continua com ampla vantagem no tempo de TV - mas deve-se imaginar o motivo que leva tantos políticos, nenhum dos quais gosta de levar desvantagem em nada, a abandonar uma candidata favorita, com o dobro de tempo de TV, para ficar com seus adversários.

Quando tantos pulam do navio, resta a Dilma bradar o Vada a bordo, cazzo. 

Desejos atendidos
Diziam os gregos que os deuses, quando querem destruir uma pessoa, atendem a seus desejos. Dilma tanto insistiu na importância do futebol no País da Copa que o futebol se infiltrou em tudo o que ocorre por aqui. Bastou o cantor Falcão, vocalista da banda Rappa, criticar o Governo, para que as dezenas de milhares de pessoas que assistiam a seu show em Ribeirão Preto, SP, a entoar para ela um coro normalmente dedicado a juízes de futebol, o famoso "Ei, juiz, vá..." Está neste link: https://www.youtube.com/watch?v=YVqx-ukCvwI

A grande família
Maria Ferreira da Silva Moreno, dona de casa, viúva, filha de dona Lindu e do sr. Aristides, por alcunha Maria Baixinha ou Maria Pequena, pediu a Romeu Tuma Jr., ex-secretário nacional da Justiça, que autografasse seu livro Assassinato de Reputações. 

Normal: muita gente fez o mesmo. O livro, escrito pelo jornalista Cláudio Tognolli a partir do depoimento de Tuma Jr., está há meses na lista dos campeões de venda. Agora, as curiosidades: no livro, Tuma Jr. diz que Lula, codinome Barba, era informante de seu pai, o delegado de Ordem Política e Social Romeu Tuma; e Maria Baixinha é irmã de Lula. Aliás, sua irmã favorita.

O grande fantasma
Na Carta Capital, Lula disse que o jornalista José Nêumanne Pinto, autor do livro Tudo o que sei de Lula, jamais o encontrou pessoalmente. Pois o repórter Cláudio Tognolli desencavou uma foto de ambos, abraçados. Nêumanne é fácil de relembrar: pode carregar duas melancias no boné. A foto de Lula com o fantasma cabeçudo está em www.brickmann.com.br/artigos, O grande fantasma.

A Copa e o crime
O Estado de S.Paulo publicou reportagem sobre o acordo entre os black-blocs e o PCC, líder do crime organizado, para tumultuar a Copa. O juiz Odilon de Oliveira, especialista em narcotráfico, jurado de morte pelo crime organizado, vem dizendo o mesmo há meses (em janeiro, a coluna Diário do Poder, de Cláudio Humberto www.diariodopoder.com.br publicou suas informações). 

A articulação existe; se houvesse um Ministério da Justiça, já teria neutralizado a trama.

Todos juntos, vamos
Esta notícia mostra como funciona o Brasil. A Qualicorp, intermediária de planos de saúde, segunda colocada em reclamações de clientes no site ReclameAqui, pertence a José Seripieri Jr. Seripieri Jr. se casou na Quinta da Baronesa, em Bragança, SP, com uma festa luxuosíssima para 600 convidados, com champanhe francês Premium Ruinart e show de Roberto Carlos. Coisa bem próxima de dois milhões de reais. Entre os presentes, Lula e sua esposa Marisa; Alckmin e sua esposa Lu; o prefeito paulistano Fernando Haddad; Marta Suplicy e seu marido, Márcio Toledo. PSDB, PT, confraternizando em torno do empresário que ganha dinheiro desagradando aos clientes. 

Amigos de fé, irmãos camaradas.

Comprando o sossego
Nada como perceber que o problema é sério e não dá para contorná-lo com novas promessas para que os poderosos se tornem razoáveis e aceitem negociações. Houve operações que criaram problemas para o Governo; e, à medida que a Copa se aproxima, problemas maiores podem surgir. Imagine uma greve da Polícia Federal uns dias antes da Copa, quando chegam os turistas. Ou, pior ainda, imagine o pessoal trabalhando com força redobrada em novas operações.

Pois agentes, escrivães e papiloscopistas da Polícia Federal conseguiram reajuste de 15,8%. Para isso, o Governo Federal terá de mudar a Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2014 e a Lei Orçamentária Anual. Mas comprou seu sossego.

carlos@brickmann.com.br
www.brickmann.com.br

O pelo e o vício

O Estado de S.Paulo
Editorial

O PT perde o pelo, mas não perde o vício. Como se já não houvesse motivos de sobra para a insatisfação popular difusa e generalizada que se manifesta diariamente, e quase nunca pacificamente, nas ruas, o comando do partido volta a insistir em recolocar na agenda política uma questão já consensualmente resolvida pela sociedade brasileira, mas que tem alto potencial de incandescência emocional: a revogação da Lei da Anistia.

Reunida na segunda-feira em Brasília, a Executiva Nacional do partido definiu as diretrizes do programa de governo petista. E incluiu entre elas a reivindicação da punição dos crimes praticados por agentes do Estado - e apenas estes - durante a ditadura militar, sob o argumento de que isso ajudaria a "impedir a continuidade dessas práticas nas Forças Armadas e de Segurança, na Justiça e no sistema prisional, na criminalização dos movimentos sociais e na discriminação contra camadas populares".

O acento palanqueiro-populista desse argumento escancara a principal característica de uma retórica que apela irresponsavelmente à cizânia, à divisão da sociedade brasileira entre "nós" e "eles", os bons e os maus, e que inclui entre estes últimos aqueles que "criminalizam" os movimentos sociais e "discriminam" as "camadas populares". Ou seja, todos os malvados que cometem o crime de não ser petistas.

Essa retórica eleitoral lulo-petista encarna um espírito diametralmente oposto ao da conciliação nacional que permitiu, 35 anos atrás, a transição pacífica do regime ditatorial para o democrático que viria a possibilitar, quase um quarto de século depois, a eleição de um ex-metalúrgico à Presidência da República.

O retorno dos militares ao quartel e a consequente devolução à sociedade civil de, entre outros direitos, o de escolher nas urnas seus governantes, foi uma conquista das forças políticas que, em nome dessa sociedade, se reuniram numa frente ampla que, ao cabo de duas décadas de resistência, teve a capacidade de negociar com os então detentores do poder uma transição pacífica para a democracia.

Foi uma luta facilitada, é claro, pela evidência de que o regime militar, cada vez mais repudiado pela consciência democrática do povo brasileiro, cedo ou tarde acabaria se rendendo ao desfecho de um processo de "distensão lenta e gradual" iniciado, sob pressão popular, já no governo do general Ernesto Geisel.

Esse processo só não se desenvolveu mais ampla e rapidamente porque algumas lideranças da frente ampla resistiram o quanto puderam a uma negociação da qual foi peça decisiva a Lei da Anistia, proposta ao Congresso no segundo semestre de 1979 pelo último presidente-general.

E não foi por mera coincidência que essas lideranças que não desejavam a conciliação, mas o confronto, Lula à frente, se tornaram pouco tempo depois as fundadoras do Partido dos Trabalhadores.

Já seria lamentável se essa renovada disposição do PT de tentar retomar a discussão da Lei da Anistia, no ambiente pouco sereno e racional dos palanques, apenas denunciasse o apego oportunista ao velho vício do confronto maniqueísta que é a marca registrada de Lula.

A tentativa é, porém, mais um atentado ao espírito democrático da sociedade brasileira, que o PT não hesita em sabotar em benefício de sua obsessão de permanecer no poder a qualquer custo.

De acordo com o secretário-geral do PT, deputado Geraldo Magela (DF), a revogação da Lei da Anistia é necessária porque "o Brasil precisa se reencontrar com a verdade histórica". Uma verdade que está sendo diligente e eficientemente perseguida pela Comissão Nacional da Verdade e também por aquelas de âmbito estadual ou municipal. Mas o PT não se satisfaz com a verdade. Quer castigar aqueles que não foram punidos porque a sociedade brasileira decidiu anistiá-los num pacto que permitiu a reconquista pacífica do regime democrático.

Para o PT, anistia não vale para todos. Só vale para os que cometeram crimes na luta contra a ditadura.

Quando o atalho nos afasta do objetivo

Zeina Latif
Instituto Millenium

Mesmo com tantos estímulos, a produção industrial praticamente estagnou nos últimos anos.

Enquanto a economia brasileira desindustrializa-se, o debate entre especialistas sobre como resgatar a indústria não está maduro, atrapalhando a construção de uma agenda econômica, que é mais necessária do que nunca diante do descompasso crescente entre a produção nacional e mundial. Produção estagnada eleva o risco de contração pela defasagem tecnológica crescente para muitos setores.

Resumindo o debate, há um grupo que acredita que a valorização da moeda é a principal causa da estagnação dos últimos anos e, desta forma, a depreciação cambial seria o caminho para revitalizar o setor, com a convicção que o câmbio fraco conseguirá compensar o chamado custo Brasil e, assim, garantir a competitividade do produto nacional.

Esse argumento, porém, não consegue explicar satisfatoriamente o descompasso recente do Brasil em relação ao mundo e aos pares da América Latina que igualmente tiveram suas moedas valorizadas. Quanto à recomendação, ele ignora o fato de a taxa de câmbio não ser factível de controle por muito tempo, principalmente em um país com baixa taxa de poupança, pois tentativas de forçar a depreciação acabam sendo acompanhadas de alta de inflação. Ainda que possa haver influência do câmbio sobre o desempenho da indústria, a proposta parece ingênua à luz dos desafios do setor.

Do outro lado do espectro, há o grupo que atribui a fraqueza da indústria ao rápido aumento dos custos de produção nos últimos anos, com destaque para o custo da mão de obra, passando por serviços e infraestrutura. Discutem, portanto, a necessidade de medidas estruturais voltadas ao capital humano, infraestrutura e instituições pró-crescimento, aliadas à redução de carga tributária e abertura comercial do país. Seria a combinação de elevar a concorrência na economia, mas ao mesmo tempo dando condições para a indústria competir.

O problema dessa agenda é viabilizá-la politicamente de forma tempestiva, enquanto grupos de interesse defendem a proteção de alguns segmentos da indústria em detrimento do restante da indústria e da economia.

A resposta do governo à estagnação da indústria, ainda que bem intencionada, tem sido de buscar atalhos por meio de políticas setoriais. O apelo dessas políticas é muito grande, tendo assim atingido cifras muito elevadas. Pior, a ênfase nesse caminho acabou afastando uma agenda de medidas estruturais e horizontais, que beneficiariam a todos.

A política setorial tem crescido em várias frentes: crédito subsidiado do BNDES, benefícios tributários, desoneração sobre a folha e proteções. Só as desonerações sobre a folha equivalem quase ao Bolsa Família (0,5% do PIB). Somadas ao subsídio do Tesouro ao BNDES, o valor total mais que dobra. Com as isenções de IPI, o valor praticamente triplica.

O principal problema dessas políticas é que elas acabam sendo pouco efetivas quando não acompanhadas e quando não há metas condicionando sua continuidade, o que é o caso brasileiro. Ajudam a melhorar margens de lucro, mas muitas vezes não geram aumento de produção, e muito menos investimento. Há evidências empíricas nesta linha para a política recente do BNDES. Pior, no longo prazo, as políticas tendem a se tornar contraproducentes ao proteger setores menos produtivos.

Mesmo com tantos estímulos, a produção industrial praticamente estagnou nos últimos anos. Não convém culpar a conjuntura internacional, pois enquanto a produção mundial está 11% acima do patamar pré crise global de 2008, o Brasil está ainda no campo negativo, com queda de mais de 1%. Mesmo a América Latina, onde países relevantes enfrentam enormes desafios, a marca é de aumento de 5% excluindo Brasil.

No momento atual, mais um efeito perverso dessas políticas, que há muito não se via: elas têm impactado severamente as contas públicas, elevando o risco macroeconômico, que penaliza a todos, ameaçando ainda mais sua própria eficácia.

No atual quadro internacional de menor disposição dos países desenvolvidos a financiar emergentes, este modelo de política econômica torna-se ainda mais arriscado.

Além disso, há sinais desanimadores vindos dos países emergentes que importam nossos produtos manufaturados. Preocupa particularmente a desaceleração na América Latina, região que responde por quase metade das exportações brasileiras de manufaturados. O menor crescimento na região praticamente coincide com a perda de ímpeto dos termos de troca dos países. Ou seja, ventos de proa afetam a região, com efeitos que se realimentam no Brasil pela importância da região para a indústria nacional.

Tornar definitivas as políticas setoriais adotadas em caráter provisório, que é o caso das desonerações, é um grande risco. Custo fiscal inquestionavelmente elevado, benefício bastante duvidoso e risco macroeconômico crescente. Reverter a desindustrialização em curso será uma tarefa muito difícil. Mais difícil ainda se o governo insistir na estratégia atual. A indústria brasileira corre o risco, não mais de estagnação, mas de encolhimento.

Eliminar a progressividade de impostos que penaliza cadeias de produção mais longas e substituir medidas setoriais por horizontais seriam os primeiros passos de uma estratégia de longo prazo. As distorções são tantas que sequer é possível identificar os setores onde o Brasil tem vantagem comparativa, provavelmente dadas por ganhos de escala e por suprimento de insumos nacionais. Há espaço para políticas setoriais.

Mas sem gigantismo e com muito cuidado. Deveriam ser complementares, jamais substitutas. Política boa é aquela que funciona e pode ser eliminada com o tempo, e não perpetuada.

Diante do impasse, que ao menos o maior consenso dos analistas quanto à urgência de ajuste fiscal enfraqueça o apelo de políticas setoriais equivocadas.

O custo da transigência

Dora Kramer
O Estado de São Paulo

Qual a diferença entre os saques, invasões, depredações e bloqueios patrocinados pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra sob o olhar complacente do governo do PT e os saques, invasões, depredações e bloqueios que o governo do PT promete reprimir com firmeza para evitar a "baderna" (palavra da presidente) durante a Copa do Mundo?

Do ponto de vista da legalidade, rigorosamente nenhuma. E foi isso que o presidente Luiz Inácio da Silva ao ganhar a eleição em 2002 não soube perceber: a lei vale para todos e, uma vez transgredida com autorização do Estado, mais cedo ou mais tarde, a barbárie se generaliza.

Para recapitular: ao assumir a presidência, Lula nomeou Miguel Rosseto para o Ministério da Reforma Agrária. Era oriundo da MST do Rio Grande do Sul. Primeira providência do ministro foi tornar letra morta medida provisória de 2001 que modificava a lei 8.629 que por sua vez regulamentava o capítulo relativo à reforma agrária na Constituição.

Dizia, em resumo, que invasores de terras produtivas estariam excluídos do programa de assentamentos e que a entidade, organização ou movimento que de qualquer forma auxiliasse, colaborasse, incentivasse, incitasse, induzisse ou participasse de invasões de imóveis rurais ou de bens públicos não receberia recursos de governo.

Rosseto ignorou a MP e ainda a qualificou como "violência de Estado". O dinheiro continuou sendo repassado. Lula, em cena inesquecível no mês de julho de 2003, recebeu o MST em seu gabinete no Palácio do Planalto e pôs na cabeça o boné do movimento. Isso enquanto militantes invadiam uma repartição pública em Alagoas e bloqueavam uma estrada em Minas Gerais.

João Pedro Stédile saiu do encontro triunfante: "A reunião foi ótima, vai dar 5 a 0 contra o latifúndio no segundo semestre". Realmente, a vitória foi de goleada, mas os perdedores não foram os latifundiários. Derrotados foram os cidadãos que apostam num país organizado e um governo que ao deixar uma minoria livre para transgredir acabou sem moral para convencer os que se acham no mesmo direito que a ordem é patrimônio da maioria.

Figuração. 
A presidente Dilma criou nove conselhos com a pomposa função de pôr em prática a Política Nacional de Participação Social. Objetivo? "Consolidar a participação social como método de governo". Método? Os órgãos de governos ficam obrigados a fazer consultas aos conselhos "populares" antes de definir políticas sobre "grandes temas".

A ideia foi recebida com receio de que isso pudesse representar uma agressão à democracia representativa. A prática, porém, indica que não há nada a temer e que os conselhos são mera cenografia de "diálogo".

Lembram-se do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social? Criado em maio de 2003 para "assessorar o presidente da República na formulação de políticas e diretrizes específicas, apreciar propostas de políticas públicas e de reformas estruturais e desenvolvimento econômico e social", era composto por representantes dos "trabalhadores, empresários, movimentos sociais, governo e lideranças expressivas de diversos setores".

Pois não se conhece um alfinete que tenha sido produzido com a chancela do Conselhão.

O tempo voa. 
Novidade nem constrangimento algum desta vez na cena de apoio de Paulo Maluf ao candidato do PT ao governo de São Paulo, Alexandre Padilha. Maluf, que também já deu muito apoio ao PSDB, está com Dilma na presidencial e nesta eleição em especial não poderia ser diferente.

A menos que resolvesse ficar com Eduardo Campos. Esquisito seria se apoiasse Aécio Neves, cujo avô, Tancredo, há 29 anos o derrotou fragorosamente no colégio eleitoral que escolheu o primeiro presidente civil depois de 21 anos de regime militar.

Uma nação em frangalhos

Carlos Chagas
Tribuna da Imprensa


Provas, não há. Provavelmente, nem haverá. Eles são espertos e malandros. Mas é impossível que alguém não de preocupe, na imprensa, nas universidades, na Polícia Federal ou na Agência Brasileira de Inteligência, em juntar os fios desse enigma que nos assola desde junho do ano passado, quando se multiplicaram ao infinito as manifestações de protesto e de violência perpetradas por  sucessivas parcelas da sociedade contra as sofríveis e abomináveis estruturas institucionais do país. Não que motivos inexistissem, até fartos,  justificando  a indignação geral diante da falência do poder público.  Mas dá para desconfiar das origens dessa crescente onda de protestos, depredações, greves, paralisações e desordens repetidas entre nós.

Teria a sofrida massa popular apenas despertado da letargia de décadas diante de governos e de entidades variadas da sociedade civil, nas quais inutilmente continuamos a depositar queixas e esperanças? Na Física, nenhum efeito registra-se sem causa. Na Sociologia e na Política também. A conclusão inicial é de que estímulos devem ser detectados para acelerar essa evidência de desagregação nacional. Internos e externos.
De um ano para cá tem ganhado as ruas montes de  categorias e grupos sociais protestando contra falhas, omissões e excessos do poder público, exigindo no espaço de doze meses iniciativas há décadas descuidadas  pelo estado nacional e por seus supostos beneficiários, importando menos a que partidos,ideologias ou filiados pertençam uns e outros. De graça, esses fenômenos não costumam acontecer.
Tem azeitona nessa empada, sem que se atenuem ou desculpem  as cobranças, de um lado, e de outro a inação, a incompetência ou a corrupção de quantos esperam e de quantos se propõem a livrar o país e nossas agruras, pois apenas despencamos cada vez mais para as profundezas, sejam do PT, do PSDB, do PMDB ou estejam fardados, de terno ou macacão.

Sempre foi assim, dirão  os céticos, mas o problema é que de um ano para cá inflou-se o germe dos protestos, do inconformismo  e da insurgência do Brasil Real contra o Brasil Formal. A confusão e a  desordem podem explicar-se por nossas deficiências seculares. Só que não dá para entender porque, de repente, caracteriza-se o caos em nosso dia a dia.  Todos os setores da sociedade insurgem-se a um só tempo, numa ação eivada de reclamos naturais,mas, também, de excessos injustificáveis.

Quem nos despertou? Que força estranha vem despertando tamanha rebelião na placidez a que estávamos acostumados faz tempo? Parece bobagem argumentar que recebendo mais do que recebia,  a população exige mais ainda. Haverá motivo para que, da noite para o dia, a acomodação tenha virado indignação incontrolável, não havendo sinais de arrefecer tão cedo.

É bom tomar cuidado. Podem estar vindo de fora os estímulos para que a ordem canhestra do passado se tenha transformado em desordem desordenada de hoje. A quem interessa a confusão que só nos prejudica?
Traduzindo todas essas inúteis considerações: existem nações de organizações internacionais interessadas em manter ou mesmo em fazer retroceder o Brasil à condição de colônia destinada a servi-las sem o sonho da libertação. Basta verificar que cada vez mais  nos tornamos, como no passado, exportadores de matérias primas e importadores do que a industria produz lá fora. Claro que auxiliados por parte de nossas elites econômicas e políticas. Para isso, nada melhor do que estimularem a desintegração aqui dentro. Quanto mais para eles nos transformarem numa nação em frangalhos, melhor…

Vai aumentar a burocracia

José Casado 
O Globo

Com uma assinatura, Dilma Rousseff autorizou um aumento exponencial da burocracia. Ela determinou em decreto (nº 8.243), publicado na segunda-feira, a criação de “instâncias e mecanismos de participação social". Eles terão poder efetivo “no processo decisório" e também “na gestão" de políticas públicas. O objetivo, segundo o texto, é ampliar o espaço para a “democracia representativa, participativa e direta".

Em plena campanha pela reeleição, a presidente-candidata abre as portas, explicitamente, de “todos os órgãos e entidades da administração pública federal direta e indireta" — ou seja, dos ministérios e das agências federais, autarquias e empresas públicas controladas pela União —, para a atuação dos grupos de pressão e dos chamados movimentos sociais. Sejam “institucionalizados ou não", assim como “suas redes e suas organizações".

Pelo decreto, a curto prazo devem ser instituídos na estrutura do governo federal oito organismos (entre conselhos, comissões e fóruns) vinculados à Secretaria Geral da Presidência, sob comando do paranaense Gilberto Carvalho, de 70 anos, ex-seminarista e diplomado em Filosofia, que há três décadas é um dos principais assessores do ex-presidente Lula.

Há 12 anos, Carvalho coordena o relacionamento da Presidência com sindicatos e organizações não-governamentais. Esse decreto presidencial é, em parte, uma tentativa do secretário-geral de encontrar meios para cooptar frações sindicais e grupos que, na esteira das manifestações de rua de 2013, passaram a ser protagonistas de protestos de rua nos maiores colégios eleitorais.

Nos últimos dez meses Carvalho realizou uma série de viagens para reuniões com ativistas, em todos os estados. Raramente viu-se bem-sucedido na defesa do governo. Há três semanas, foi hostilizado no Rio. Não perdeu a fleuma mesmo quando, sob aplausos da plateia, um ativista depositou na mesa, diante dele, um rolo de papel higiênico.

Dilma, com o decreto, estabelece uma confusão política: em plena campanha, volta a levantar a bandeira da “democracia direta" — algo que propôs no ano passado em resposta às manifestações de rua, sob a forma de uma Constituinte exclusiva, mas o Congresso engavetou. Apresenta a ideia, agora, com a moldura de fato consumado na estrutura de decisão e gestão do governo.

A despeito do efeito no debate político-eleitoral, a consequência imediata e visível será um aumento da burocracia — inclusive com a expansão do espírito “assembleísta” nos complexos processos decisório e operacional das políticas públicas.

Desde o ano passado, o governo demonstra se sentir acuado pelos protestos contra a má qualidade gerencial dos serviços públicos de Saúde, Transportes, Educação e Segurança Pública. A criação de novos conselhos, comissões e fóruns nesses setores tende a dificultar ainda mais a tomada de decisões e o gerenciamento de iniciativas nessas áreas.

Na Saúde, por exemplo, o governo federal mantém 1.358 organismos com poder de decidir sobre a política setorial e determinar os meios de sua execução — informa o Sistema de Organização e Inovação Institucional do Governo Federal (Siorg), que mapeia a estrutura federal. Em Transportes, qualquer decisão passa por 1.024 instâncias. Na Educação, existem 1.036 áreas de gestão e, na Segurança Pública, há 2.375 segmentos operacionais. Isso apenas no âmbito federal.

Essa teia burocrática não admite processos simples. Uma iniciativa no setor de Água, por exemplo, envolve nada menos que 134 órgãos federais. Leis, portarias e normas setoriais até impõem agilidade ao sistema, mas a vida real é outra: o prazo legal para emissão de uma licença ambiental é de 30 dias, mas a concessão pode levar mais de um ano.

Esse enredo burocrático, que pode ficar ainda muito mais complicado, está bem retratado na atual dificuldade de reuniões da presidente da República. Dilma não consegue reunir todo seu ministério. Porque, se resolver convocar seus 39 ministros, dando a cada um, um tempo cronometrado de 15 minutos para análise de qualquer decisão governamental, ela passaria mais de nove horas apenas ouvindo. Sem intervalo.

Não vai ter cópula

Guilherme Fiuza
Revista ÉPOCA

Mais atrasados que os preparativos para a Copa do Mundo, só os protestos contra a Copa do Mundo. Enquanto o vexame era gestado, não houve passeata. Foram sete anos de preparação para a bagunça com requintes de exibicionismo – como a gerente de negociatas Rosemary Noronha cuidando dos aeroportos brasileiros. Ninguém foi para a rua gritar contra nada disso, estava tudo bem. Terminada a feira de omissões, desvios, picaretagem implícita e explícita, desmentidos mentirosos e remendos constrangedores, os revolucionários avisam que não vai ter Copa.

Alguém precisa avisar aos quixotes  retardatários que vai ter Copa. E a Copa  começará em 12 de junho, Dia dos Namorados. Os rebeldes contra tudo isso que aí está terão mais chances de êxito se forem desfilar na porta dos motéis, no dia 12, gritando:  “Não vai ter cópula”.

Onde estavam estes brasileiros indignados quase um ano atrás, quando o Congresso nacional, num de seus biscates para o governo popular, engavetou o pedido de CPI da Copa? Não se viu um mascarado, um ninja, um sindicalista, um grupelho do Facebook interrompendo o trânsito ou a rotina tranquila dos nobres parlamentares. No golpe do corintiano Luiz Inácio, de mãos dadas com as distintas CBF e FIFA – que desclassificou o Morumbi e arrecadou R$ 1 bilhão do BNDES para erguer um Itaquerão novo em folha -    também um único justiceiros gritando que não teria Copa. Aí, a revolução não tem como passar despercebida. 

O mais interessante no vandalismo contra o ônibus da seleção no Rio de Janeiro foi a comissão de frente do protesto: os autores dos socos e  chutes eram professores. É a imagem-síntese dessa corrente “Não vai ter Copa”. Que outra cena poderia expressar melhor a estupidez e a ignorância de um movimento do que professores falando o idioma da pancada? O slogan poderia ser até substituído por “Não vai ter aula”, ou “Aulas nunca  mais”,  porque não se pode conceber que essas criaturas sejam capazes de ensina nada útil a ninguém. No máximo, poderão ensinar seus métodos ao sindicato dos leões de chácara.

Dilma Rousseff declarou que os aeroportos nacionais não são “padrão FIFA”, mas “padrão Brasil”. É comovente ver uma governante (ou governanta), num jato de sinceridade, admitir publicamente que seu projeto nacional é a pindaíba.  Ou melhor:   a pindaíba para a população ordinária que não tem estrelinha no peito – porque o caixa do PT, como se sabe, está forrado, e os companheiros passam muito bem, obrigado. Saibam os críticos que os aeroportos padrão Brasil não chegaram a esse nível de excelência do dia para a noite, não. Foi necessário um longo trabalho de parasitismo comandado por Rosemary Noronha na Agência Nacional de Aviação Civil, para postergar a privatização do setor, de modo que ele não prejudicasse o balcão de negócios e o tráfico de influência, sob o comando firme de Lula e Dilma.

A conquista do padrão Brasil/PT para os aeroportos e para a infraestrutura nacional como um todo – incluindo as ruínas do setor elétrico e da Petrobrás – tem como sócios fundadores, os militantes do movimento “Não vai ter Copa”.  Se sua revolta contra o derrame de dinheiro público nos estádios bilionários  é real, se sua ira contra a vagabundagem governamental na preparação viária do país é real,  eles contribuíram decisivamente para o desastre com sua omissão nesses anos em que ele foi gestado. Mas, se o movimento for um rebotalho de oportunistas, lunáticos, malandros sindicais e espíritos de porco em geral, está no seu papel perfeito.

Depois de toda a permissividade do país com a orgia da montagem da Copa, vêm essas almas penadas querer embargar o único inocente da história – o futebol. Viva Neymar, e abaixo os parasitas padrão Brasil!

O governo acabou

Marco Antonio Villa
O Globo

Os ministérios estão paralisados. O que se mantém é a rotina administrativa


O governo Dilma definha a olhos vistos. Caminha para um fim melancólico. Os agentes econômicos têm plena consciência de que não podem esperar nada de novo. Cada declaração do ministro da Fazenda é recebida com desdém. As previsões são desmentidas semanas depois. Os planos não passam de ideias ao vento. O governo caiu no descrédito. Os ministérios estão paralisados. O que se mantém é a rotina administrativa. O governo se arrasta como um jogador de futebol, em fim de carreira, aos 40 minutos do segundo tempo, em uma tarde ensolarada.

Apesar do fracasso — e as pífias taxas de crescimento do PIB estão aí para que não haja nenhum desmentido —, Dilma é candidata à reeleição. São aquelas coisas que só acontecem no Brasil. Em qualquer lugar do mundo, após uma pálida gestão, o presidente abdicaria de concorrer. Não aqui. E, principalmente, tendo no governo a máquina petista que, hoje, só sobrevive como parasita do Estado.

A permanência no poder é a essência do projeto petista. Todo o resto é absolutamente secundário. O partido necessita da estrutura estatal para financeiramente se manter e o mesmo se aplica às suas lideranças — além dos milhares de assessores.

É nesta conjuntura que o partido tenta a todo custo manter o mesmo bloco que elegeu Dilma em 2010. E tem fracassado. Muitos dos companheiros de viagem já sentiram que os ventos estão soprando em sentido contrário. Estão procurando a oposição para manter o naco de poder que tiveram nos últimos 12 anos. O desafio para a oposição é como aproveitar esta divisão sem reproduzir a mesma forma de aliança que sempre condenou.

Como o cenário político foi ficando desfavorável à permanência do petismo, era mais que esperada a constante presença de Lula como elemento motivador e agregador para as alianças. Sabe, como criador, que o fracasso eleitoral da criatura será também o seu. Mas o sentimento popular de enfado, de cansaço, também o atingiu. O encanto está sendo quebrado, tanto no Brasil como no exterior. Hoje suas viagens internacionais não têm mais o apelo do período presidencial. Viaja como lobista utilizando descaradamente a estrutura governamental e intermediando negócios nebulosos à custa do Erário.

Se na campanha de 2010 era um presidente que pretendia eleger o sucessor, quatro anos depois a sua participação soa estranha, postiça. A tentativa de transferência do carisma fracassou. Isto explica por que Lula tem de trabalhar ativamente na campanha. Dilma deve ficar em um plano secundário quando o processo eleitoral efetivamente começar. Ela não tem o que apresentar. O figurino de faxineira, combatente da corrupção, foi esquecido. Na história da República, não houve um quadriênio com tantas acusações de “malfeitos” e desvios bilionários, como o dela. O figurino de gerentona foi abandonado com a sucessão de “pibinhos”. O que restou? Nada.

Lula está como gosta. É o centro das atenções. Acredita que pode novamente encarnar o personagem de Dom Sebastião. Em um país com uma pobre cultura democrática, não deve ser desprezada a sua participação nas eleições.

A paralisia política tem reflexos diretos na gestão governamental. As principais obras públicas estão atrasadas. Boa parte delas, além do atraso, teve majorados seus custos. Em três anos e meio, Dilma não conseguiu entregar nenhuma obra importante de infraestrutura. Isto em um país com os conhecidos problemas nesta área e que trazem sérios prejuízos à economia. Mas quando a ideologia se sobrepõe aos interesses nacionais não causa estranheza o investimento de US$ 1 bilhão na modernização e ampliação do porto de Mariel. Ou seja, a ironia da história é que a maior ação administrativa do governo Dilma não foi no Brasil, mas em Cuba.

Os investimentos de longo prazo foram caindo, os gastos para o desenvolvimento de educação, ciência e tecnologia são inferiores às necessidades de um país com as nossas carências. Não há uma área no governo que tenha cumprido suas metas, se destacado pela eficiência e que o ministro — alguém lembra o nome de ao menos cinco deles? — tenha se transformado em referência, positiva, claro, pois negativa não faltam candidatos.

O irresponsável namoro com o populismo econômico levou ao abandono das contas públicas, das metas de inflação e ao desequilíbrio das tarifas públicas. Basta ver o rombo produzido no setor elétrico. A ação governamental ficou pautada exclusivamente pela manutenção do PT no poder. As intervenções estatais impuseram uma lógica voluntarista e um estatismo fora de época. Basta citar as fabulosas injeções de capital — via Tesouro — para o BNDES e os generosos empréstimos (alguns, quase doações) ao grande capital. E a dívida pública, que está próxima dos R$ 2,5 trilhões?

No campo externo as opções escolhidas pelo governo foram as piores possíveis. Mais uma vez foi a ideologia que deu o tom. Basta citar um exemplo: a opção preferencial pelo Mercosul. Enquanto isso, o eixo dinâmico da economia mundial está se transferindo para a região Ásia-Pacífico.

Ainda não sabemos plenamente o significado para o país desta gestão. Mas quando comparamos os nossos índices de crescimento do PIB com os dos países emergentes ou nossos vizinhos da América Latina, o resultado é assustador. É possível estimar que no quadriênio Dilma a média sequer chegue a 2%. A média dos emergentes é de 5,2%, e da América Latina, de 3,2%. E o governo Dilma ainda tem mais sete meses pela frente. Meses de paralisia econômica. Haja agonia.

A presidente sem vergonha

Daniel Martins De Barros
O Estado de São Paulo

Uma coisa em que sociólogos, antropólogos, psicólogos e mães concordam é que um pouco de vergonha é importante. Ninguém quer um filho sem vergonha porque ninguém quer ser mãe de um sem-vergonha. E os pesquisadores das ciências humanas são unânimes em classificar a vergonha como uma emoção social fundamental no processo da criação e manutenção dos laços sociais. Norbert Elias, só para citar um, afirma que tanto como o desenvolvimento da razão, o embaraço e o constrangimento foram centrais no processo civilizatório.

Embora nós realmente não precisemos nos envergonhar o tempo todo, o senso da vergonha, ou seja, a possibilidade de que sejamos recriminados pelo nosso grupo (e por isso nos sintamos mal) ao quebrar alguma regra cultural – explícita ou implícita – paira constantemente em todo grupamento humano, ajudando a manter a coesão. Muito mais do que as leis, é sabido, o controle social informal é que sustenta a coletividade. Pensando assim fica mais claro porque é ruim ser um sem-vergonha.

Esse aspecto público, aliás, é um grande motor para nossos comportamentos. Quando as pessoas agem publicamente de uma maneira que previamente condenavam, mais do que rapidamente elas mudam de opinião, e passam a não mais ver problema onde antes viam. Em contrapartida, quando alguém defende publicamente determinado valor, ideia ou atitude, é mais provável que passe a agir em acordo com o que disse. A dissonância cognitiva que surge quando há tensão entre comportamentos e crenças é muito incômoda, levando-nos a qualquer malabarismo para acomodar o espírito. É por isso que quem divulga entre os amigos suas metas de emagrecimento, por exemplo, tende a perder mais peso do que quem faz dieta secretamente.

E deve ser por isso que a presidente disse que não temos nada do que nos envergonhar com relação aos preparativos para a Copa. Como ela não consegue voltar atrás e fazer com que as obras terminem no prazo e no preço, não tem mais como completar a infraestrutura de transporte ou aeroportuária, a única saída é se convencer de que está tudo bem ou então tolerar uma enorme dissonância cognitiva.

Infelizmente, ao fazer isso, acaba estimulando ainda mais a sem-vergonhice brasileira.

Basta de fingir

Cristovam Buarque
O Globo

Raros são capazes de ler e falar outro idioma

O Brasil comemora sua posição de sétimo maior PIB do mundo, mas o PIB per capita rebaixa o país para a 54ª posição no cenário mundial; no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) ficamos em 85º lugar. Fingimos ser ricos, apesar da pobreza.

Nos últimos 20 anos, passamos de 1,66 milhão para 7,04 milhões de matrículas nos cursos superiores, mas quase 40% de nossos universitários sabem ler e escrever mediocremente, poucos sabem a matemática necessária para um bom curso nas áreas de ciências ou engenharia, raros são capazes de ler e falar outro idioma além do português. Fingimos ser possível dar um salto à universidade sem passar pela educação de base.

Comemoramos ter passado de 36 milhões, em 1994, para 50 milhões de matriculados na educação básica, em 2014, sem dar atenção ao fato de termos 13 milhões de adultos prisioneiros do analfabetismo; 54,5 milhões de brasileiros com mais de 25 anos não terminaram o Ensino Fundamental e 70 milhões não terminaram o Ensino Médio. Fingimos que os matriculados estão estudando, quando sabemos que passam meses sem aulas por causa de paralisações ou falta de professores.

A partir de 1995, no Distrito Federal e em Campinas, iniciamos um programa que serve de exemplo ao mundo inteiro, atualmente chamado de Bolsa Família e que transfere por mês, em média, R$ 167 por pessoa pobre, o que lhe assegura R$ 5,67 por dia, valor insuficiente para aliviar suas necessidades mais essenciais. E fingimos que, com esta transferência, estamos erradicando a pobreza que é caracterizada efetivamente pela falta de acesso aos bens e serviços essenciais que não estamos oferecendo. Fingimos ter 94,9 milhões na classe média, sabendo que a renda média mensal per capita dessas pessoas está entre R$ 291 e R$ 1.019, quantia insuficiente para uma vida cômoda, especialmente em um país que não oferece educação e saúde públicas de qualidade.

Comemoramos o aumento da frota de automóveis de, aproximadamente, 18 milhões, em 1994, para 64,8 milhões, em 2014, fingindo que isto é progresso, mesmo que signifique engarrafamentos monumentais.

Comemoramos, corretamente, termos desfeito uma ditadura, esquecendo que a democracia está sem partidos e a política se transformou em sinônimo de corrupção. Fingimos ter uma democracia com liberdade de imprensa escrita em um país onde poucos são capazes de ler um texto de jornal. Assistimos a 56 mil mortos pela violência ao ano, e fingimos ser um país pacífico, sem uma guerra civil em marcha.

Fingimos ser um país com ambição de grandeza, mas nos contentamos com tão pouco que os governantes se recusam a ouvir críticas sobre a ineficiência dos serviços públicos. Preferem um otimismo ufanista, comparando com o passado que já foi pior, e denunciam como antipatriotas aqueles que ambicionam mais e criticam as prioridades definidas e a incompetência como elas são executadas. Antipatriota é achar que o Brasil não tem como ir além, é acreditar nos fingimentos.



Salve, salve, o padrão Brasil

Ruth de Aquino 
Revista ÉPOCA

Deixa que digam,  que pensem, que falem. Você comemorará cada gol brasileiro na Copa, se emocionará a cada vitória, sofrerá se nossos craques pisarem na bola, vai gritar e até chora. Isso não significa que, fora do estádio ou do sofá, você precise parar de criticar o péssimo planejamento deste Mundial, a inadmissível quebra de promessas para a população, a aparente roubalheira nas obras superfaturadas e o inferno dos serviços públicos. O Brasil tem abusado de nossa cordialidade, nossa paciência e nosso otimismo, ano após ano.

Na semana passada, foi comovente o esforço do governo e das autoridades para derreter o coração canarinho e evitar os protestos durante a Copa.  A reação nacionalista a “acusações” de estrangeira foi uma tentativa patética de transformar críticos em traidores da pátria. A presidente Dilma Rousseff afirmou, com orgulho cara-pálida, que os aeroportos do Brasil não são “padrão FIFA”,  mas “padrão Brasil”. Lindo. A gente sabe que padrão é esse quando precisa ir ao banheiro, pegar uma escada rolante ou aguardar a chegada das malas.

O Secretário de Turismo  do Rio de Janeiro e homem de confiança do prefeito Eduardo Paes, Antonio Pedro Figueira de Mello, disse “O Rio não é a Suíça”, ao se referir às longas filas que os turistas terão de enfrentar na cidade. Antonio Pedro também reconheceu que o Rio não se preparou para receber  deficientes porque, na Copa do Mundo, “não há tanto esse público”.  Depois pediu desculpas pela bola fora.

Talvez por o Rio não ser a Suíça, o Exército tenha sido coinvocado para dar segurança aos turistas nas praias, nas ruas, no Maracanã.  As duas polícias, PM e Civil, não dariam conta. Sabe como é, esse é nosso padrão. No padrão Brasil, os professores manifestantes cercam o ônibus da Seleção, em protesto contra os baixos salários. Mas não torcem contra a Seleção. Orcem por um Brasil à altura da nossa Seleção, por uma Educação à altura do nosso futebol. Deu para entender ou precisa desenhar?

Tudo se encaixa no padrão Brasil. Na capital, Brasília, índio flecha PM, arcos enfrentam a cavalaria. Nos arredores dos estádios da Copa, em diversas cidades, há cenários lastimáveis. Lixo entulha a favela que fica a 300 metros do Maracanã, como mostrou o jornal O Globo.  Coimunidades junto aos novíssimos estádios convivem com água de poço, esgoto a céu aberto, zona de prostituição baixa, luz de vela, invasões de sem-teto.  Digamos que na África também é assim. Mas a gente espera mais do Brasil.

Esperávamos que o governo Dilma e Lula cumprisse uma promessa para estimular o ecoturismo no Brasil. Foi anunciado há quatro anos que o governo federal investiria R$ 668 milhões na infraestrutura de 23 parques federais. Eram os “Parques da Copa”, uma parceria dos ministérios do Turismo e do Meio Ambiente. Do total de R$ 668 milhões, quanto foi investido? Apenas R$ 1 milhão. Mas, sabe, esse é o padrão Brasil. É para se orgulhar?

Não é só o governo federal. Segundo o jornal Valor Econômico, Dilma colocou à disposição de governadores e prefeitos R$ 12,4 bilhões para obras de mobilidade urbana, ônibus e metrôs. Só R$ 479 milhões foram sacados por Estados e Municípios. É muita incompetência. Devemos nos conformar?   Ou podemos almejar outro padrão? 

Agora, o governo pede ao povo que se comporte. Os gringos não podem falar mal do país do sol, da alegria, da cachaça, do Carnaval e do futebol. 

Nesta reta final antes da Copa, apareceu até uma “miss” padrão Brasil. É a filha do ex-todo-poderoso da CBF, Ricardo Teixeira e neta de João Havelange, ex-comandante da FIFA. Joana Teixeira tem 37 anos, é do Comitê Organizador Local da Copa, e publicou um texto em apoio ao Mundial, “até porque o que tinha que ser gasto, roubado, já foi”. Joana tem linhagem. Seu pai renunciou em meio a denúncias de corrupção depois de 23 anos à frente da CBF.  Joana é formada em Administração e ganha cerca de R$ 80 mil por mês, ou R$ 100 mil, incluindo extras e bônus, segundo dizem.  Joana é ou não a cara do padrão Brasil? 

Nem os mais céticos imaginavam que, a poucos dias da Copa, o país ainda estivesse nessa correria para maquiar os equipamentos essenciais. O cenário mais pessimista previa um legado maior para a população. Infelizmente, a ficha ainda não caiu para os governantes. As autoridades não fizeram mea-culpa de nada. Só se preocupam com o vexame e com “o que os outros vão dizer” se os brasileiros lavarem roupa suja diante dos convidados. É muita cara de pau.

Vamos,. Sim, torcer para que o Brasil seja hexacampeão. Vamos torcer também para que, fora do gramado, o Brasil honre as cores e sua gente. E mude de padrão. 

Campanha fecha ciclo de 64

Gaudêncio Torquato
O Estado de São Paulo

Mentiras e versões grassam por toda parte. A campanha eleitoral só pode chegar às ruas em 6 de julho, mas já começou. Basta ver a agenda dos três principais candidatos, em que o destaque é a oratória de palanque, com acusações recíprocas, defesas e promessas. Luiz Inácio poderá voltar e tomar o lugar de Dilma Rousseff como candidato do PT? Ora, ele nega peremptoriamente.

A propaganda governamental - dos governos federal e estaduais - é proibida de veicular mensagens de cunho eleitoreiro, porém o que se vê são mensagens de feitos de governantes versando sobre temas de impacto, em evidente sinalização de propaganda eleitoral. Sob a exuberante arquitetura de 12 arenas locupletadas - a partir de 12 deste mês -, que abrigarão o maior espetáculo esportivo do planeta, a Copa do Mundo, a ser vista por 4,5 bilhões de pessoas em 212 países, ares de medo e interrogação se espraiam pelo território, a indicar um dos pleitos mais contundentes de nossa história política.

Por que a eleição deste ano assume posição de destaque na série histórica das disputas? Pelo fato de o Brasil se aproximar, velozmente, de uma encruzilhada, tendo de decidir se continuará a seguir em frente, à direita ou à esquerda. As direções, neste caso, dizem menos respeito às linhas do arco ideológico e mais às de busca de alternativas, do tipo redefinição de estratégias de desenvolvimento, correção e ajustes macroeconômicos, realização de reformas (política, fiscal-tributária, previdenciária, educacional), adequação do papel e do tamanho do Estado a uma nova ordem social e política e ações em áreas sensíveis, como direitos humanos, comunicação, sustentabilidade, infraestrutura, servidores públicos, etc. A par das mudanças clamadas pela sociedade e confirmadas por pesquisas, que se imporão a qualquer vitorioso(a) no pleito, trata-se, ainda, de abrir horizontes na radiografia hegemônica do poder, dando chance a novos atores, avançando sobre a desgastada polarização PT-PSDB e oxigenando os pulmões da velha política.

A campanha deste ano agrega forte diferencial pelo fato de reunir três perfis competitivos, representando grupos partidários de expressão, cada qual, a seu modo, procurando interpretar as demandas de uma comunidade mais exigente, ativa e participativa. Nunca se ouviu tanto o eco das ruas como neste momento. O clima continua sob os efeitos (hoje mais débeis) da torrente escandalosa que pegou os costados do PT. A Ação Penal 470 deixa ver nuvens sombrias sobre o partido que está no comando do poder e se apresentava como a vestal da República. Ainda a pontuar diferenças, o pleito contará, pela primeira vez, com uma classe média majoritária, que perfaz 53% da população, mesmo segmentada em três compartimentos (A, B e C).

Por último, o destaque de que a contenda fecha o ciclo de 1964. Expliquemos: os pesados anos de chumbo redefiniram os rumos da política, fazendo nascer partidos, formando grupos, multiplicando alas e dando margem à diástole que propiciou a abertura dos horizontes democráticos. Os atores alçaram ao patamar contemporâneo sob o empuxo de um discurso que teve como eixo o combate ao passado sombrio. Fernando Henrique, José Serra, Luiz Inácio e Dilma, entre outros, fazem a ponte entre o ontem e o hoje, eles que padeceram sob o tacão da ditadura militar. Vozes do passado ainda se ouvem. Mas é forte o clamor para que o País descortine uma nova era, dando vez ao grupo pós-64.

Por isso mesmo a batalha se cerca de inusitado preparo com o uso antecipado de ferramentas, incluindo intensa propaganda política, manipulação das massas, alianças sem eira nem beira, lógica/ilógica dos discursos. O medo torna-se arma de guerra. É um recurso extremo, de efeito devastador. Como pregava Hitler, “é apenas na aplicação permanentemente uniforme da violência que consiste a primeira das condições de sucesso”. Implicava a “violação psíquica das massas pela propaganda emotiva baseada no medo”. Serge Tchakotine, em A Mistificação das Massas pela Propaganda Política, explica que Hitler usou a estratégia do medo para ativar os dois primeiros instintos humanos: o impulso combativo (o medo e a luta pela sobrevivência, contra incertezas, obstáculos, inimigos, etc.) e o impulso nutritivo (alimento, bolso com dinheiro para suprir o estômago). Para ganhar as massas, ensinava Goebbels, “é preciso contar com sua fraqueza e bestialidade, baixar o nível intelectual da propaganda, simplificar as ideias complicadas”.

Mas os tempos são outros. O dito hitlerista “quanto maior a mentira, maior a chance de todos nela acreditarem” não engabela como no passado, apesar da possibilidade de ainda enrolar incautos e incultos. Entre nós, a estratégia do medo bate nos fundões sob os braços do assistencialismo. Acontece que a estratégia do terror foi banalizada, já não finca raízes profundas. A população, mesmo a das margens, parece vacinada contra a artilharia psicológica adotada em guerras eleitorais. Será difícil convencer comunidades de que um programa como o Bolsa Família, por exemplo, será extinto. Tornou-se política de Estado. E é pouco provável que temas abstratos - privatização da Petrobrás, do Banco do Brasil e da Caixa Econômica - sejam palatáveis aos sentidos das massas. 

Os governantes, é oportuno lembrar, têm a vantagem do “poder da caneta” - liberar verbas, aprovar projetos, nomear pessoas - para dar crédito às promessas. Mesmo assim, a credibilidade do discurso palanqueiro perde força.

Infere-se, portanto, que as firulas nos campos eleitorais não derrubam jogadores, como certos “técnicos” do marketing eleitoral imaginam. A esperança, essa, sim, é o xis da questão. O Brasil esperançoso é o do crescimento, da harmonia, da segurança, do trabalho. Que candidato veste melhor esse figurino? Quem fará as mudanças que todos clamam? Abraham Lincoln dizia que “demagogia é a capacidade de vestir ideias menores com as palavras maiores”. Quem tem coragem de arriscar?