domingo, junho 08, 2014

O pessimismo é fruto de um governo ruim, e não o contrário.

Adelson Elias Vasconcellos

Tanto a turma do governo da senhora Roussef,  ela própria e a turma que a apoia têm feito pouco caso das críticas sobre a atuação do governo na economia. Isto é ruim. E o é porque o Brasil cresce insignificâncias há quatro anos, com inflação alta e indicadores econômicos em queda livre.

Ora, qualquer governante dotado de um mínimo de bom senso, trataria os críticos com um pouco  mais de respeito. Insisto: um governo ,seja ele qual for, tenha a ideologia que tiver e leve consigo convicções políticas de qualquer padrão,  vale pelos resultados que sua atuação provoca.  Nesta semana, vimos que o governo Dilma só consegue melhor, ao longo da história republicana, que Collor e Floriano Peixoto.  Esta classificação não é fruto nem de preconceito contra a presidente, tampouco de má vontade de uns e outros. É resultado daquilo que o governo desta senhora conseguiu produzir em um mandato inteiro, porque, muito embora 2014 ainda tenha metade do tempo para correr, já se sabe que terminaremos com inflação alta e crescimento baixo. 

Portanto, o pessimismo decorre da falta de atuação do governo naquilo que o país reclama para alavancar seu crescimento e sair desta pasmaceira em que está mergulhado desde 2011. 

Lula, o ex em exercício, falando em Porto Alegre nesta semana, disse que o governo precisa gastar mais, que se deve insistir no consumo,  que se deve apostar na ampliação do crédito. A pergunta que se faz:  não é justamente este o modelo perseguido por Dilma Rousseff ao longo de todo o seu mandato? Se, num primeiro momento, justo no auge da crise de 2008/2009, a fórmula produziu resultados positivos, hoje ela se mostra esgotada. 

Já mencionamos aqui inúmeras vezes que, tanto o crédito quanto o consumo, sofrem uma limitação terrível no Brasil, que é a baixa renda da imensa maioria da população. Atualmente, mais de 60% das famílias brasileiras está endividada, portanto, com sua capacidade de endividamento estourada. Conceder mais crédito a quem já está com a corda no pescoço é matar o comércio e os bancos com inadimplência alta como,  aliás, já aconteceu há um ano atrás.  Crédito é algo sério que não pode ser tratado com desaforo. 

O ex presidente parece não ter entendido que o problema do país, além da baixa renda, é de oferta, não de demanda que, mesmo assim, ainda se mantém em bom nível.  Para manter a demanda aquecida, quem lucra,  quando a produção interna é insuficiente? Ora, os importados que concorrem aqui dentro, sem carregarem o pesado fardo do custo Brasil. E, para incentivar que estes importados atendam a demanda, você mata a indústria nacional, e vai gerar emprego e renda lá afora. 

Se tentar reprimir os importados, para favorecer a indústria local, como esta não tem volume de produção suficiente,  acaba provocando elevação dos preços.  Simples assim. 

Quanto a gastar como apregoou o senhor Lula, perguntamos: quando foi que este governo, e mesmo o dele, gastaram menos? Há quase doze anos o governo gasta mais do que arrecada. A elevação das despesas governamentais tem se mantido, em termos reais,  acima do crescimento do PIB e da própria inflação. Continuar teimando nesta fórmula, ou se irá reduzir cada vez mais os investimentos, ou se aumentará o endividamento do poder público, hoje já ultrapassando a casa dos R$ 2,0 trilhões. 

Além disto, o governo insiste em dar as costas para as reformas estruturais. Teima em manter o modelo intocável. Quando abre a porta para o investimento privado em infraestrutura, teima em querer regular o lucro do investidor, em querer editar marcos regulatórios que mais afastam do que atraem o capital privado. 

Além disto, a insegurança jurídica assumiu ares masoquistas. O IOF para empréstimos tomados no exterior, ora zerado para prazos superiores a 180 dias, há um ano atrás andou no sentido oposto. Assim, que segurança tem alguém para tomar dinheiro lá fora, sabendo-se que pode ser surpreendido, a qualquer hora, com nova norma que eleve o IOF aos níveis anteriores?

Além disto, sabemos que há um represamento de tarifas públicas no país que, cedo ou tarde, terão que ser liberadas. Isto é o cheiro de inflação futura. Assim, prestadores de serviços tendem a manter seus preços no alto com tal perspectiva, assim como as demais cadeias produtivas. 

Em artigo anterior, dissemos que o país vive uma armadilha que o levou a esta sinuca de bico. Se continuar aumentando juro para conter a inflação, acaba inibindo a atividade econômica. Com juro alto, o consumo tende a se retrair, mas os preços continuarão apostando nesta inflação represada pelo próprio governo. Quem dá o rumo para o pessimismo, portanto, é o próprio governo que nem controla seus gastos, nem investe mais, nem libera as tarifas  mesmo que a conta gotas. 

Tal redemoinho maluco já deveria ter sido desfeito há uns dois anos. Teria dado tempo para elevar investimentos em infraestrutura, mas com regulações não preconceituosas ao capital privado, redução de gastos correntes, aumento mesmo que gradual dos prazos de recolhimento de impostos – o que daria maior oxigênio para as empresas investirem em aumentos de produtividade,  redução do peso dos impostos sobre a produção e o trabalho. Ora, sobre o trabalho, ano após ano, o governo aperta ainda mais o torniquete sobre os salários mais baixos. Sobre a produção, teima em conceder benefícios tributários localizados e provisórios e ainda assim buscando compensar estes benefícios parciais aumentando alíquotas de impostos em outros ramos. 

Sem apontar uma miserável  perspectiva de mudança no cenário que ele próprio traçou, como esperar que os empresários confiem num governo que teima na mesmice, sem dar sinal de que investirá em reformas e em mudanças de modelos esgotados?

Não é só o investidor privado que puxou o freio de mão. O governo da senhora Rousseff também vem reduzindo pouco a pouco os investimentos públicos. São incontáveis as obras iniciadas e interrompidas espalhadas pelo país. O projeto da copa do mundo é um exemplo típico.  São dezenas de projetos não terminados que ficaram pelo caminho e que não se tem a menor noção de quando serão concluídos. Mesmo o tal PAC, anda devagar quase parando. Há mesmo obras que até já pararam. 

Assim, esperar que tanto consumidores e empresários  voltem a apostar com a mesma volúpia de dois ou três anos atrás, é achar que todos são idiotas ou milionários excêntricos. Investidor não acha dinheiro na rua, e os consumidores já perceberam o quão doloroso é gastarem além de sua própria capacidade de renda. 

Ademais, o vulcão do consumo emitiu seu poder de fogo sobre bens duráveis. Ninguém, com dois ou três salários mensais, que conseguiu comprar televisão LCD ou até um automóvel popular, vai trocar por um novo  nos próximos meses, até porque tais itens foram adquiridos em longas prestações que a maioria ainda está terminando de pagar.  Aliás, tal situação, por si só, derruba por terra a grande mentira da tal “nova classe média” de 30 milhões de brasileiros. Prova que sua renda continua baixa, muito aquém do que se admitiria para uma classe média real. 

Portanto, concluiu-se  que o pessimismo atual que toma conta do país é derivado do governo ruim da senhora Rousseff, e não o seu contrário, isto é, que é o pessimismo dos brasileiros que tem tornado ruim o governo atual. 

Seja a presidente e sua equipe, ou ainda o ex em exercício, ou ainda os puxa-sacos de plantão, deveriam  avaliar que, se não houver um diagnóstico correto e real dos problemas que afligem a economia do país, não se conseguirá prescrever o tratamento adequado para mudança do humor. Além disto, em razão desta base de apoio político armada por Lula e transferida para Dilma, não há como o governo ter controle sobre seus próprios gastos e, em consequência, não tem como aplicar um choque fiscal necessário e urgente.  Este choque permitiria ao governo aumentar sua própria poupança e, com isso, abrir espaço para aumentar o investimento publico. Não será destinando volumes crescentes de recursos para a Educação, que se conseguirá dar a ela a qualidade que se exige de um país com ambição de crescer e modernizar-se. Vamos continuar desperdiçando dinheiro num sistema falido e torto. Por que torto? Porque está provado que o Brasil já investe quantias equivalentes a de países com melhor resultado. Onde está o nó? Está no fato de que o grande investimento é feito no nível superior, e não no básico e fundamental. Grande parte dos professores continuará  mal paga  e mal formada. Num sistema assim, não é aumentando o volume de dinheiro que se conseguirá dar a qualidade  que se exige. E isto acaba estourando lá na outra ponta, quando estas gerações já em idade adulta, não terão a formação que se requer para conseguirmos aumentar a produtividade média dos trabalhadores e profissionais. 

Deste modo, não se ouvindo dos atuais ocupantes do poder  nenhum indício de que já se compenetraram das reais dificuldades pelas quais passa o país,  e, em consequência, nãoa tendo debaixo do braço as soluções necessárias, mesmo que dolorosas, não há como se conceder-lhe  crédito para mais quatro anos.  Não basta falar do passado, é insuficiente e até inútil tentar desqualificar os concorrentes da oposição. O que país quer ouvir, e nem Dilma nem seu partido conseguiram  e conseguem dizer, é quais são as suas soluções para os nossos problemas de agora. E aí fica difícil só prometer paraísos venturosos que os fatos de agora desmentem. CONCLUSÃO: este governo continua sem projeto para o Brasil crescer de forma virtuosa. É isso que tira o humor de todos. Nada além disso. O resto é papo furado.  

A política da estagflação e do atraso industrial

Rolf Kuntz 
O Estado de S.Paulo

A emperrada economia brasileira está sujeita a dois dos governos mais desastrosos do mundo, o da presidente Dilma Rousseff, gerente da estagflação, e o de sua colega Cristina Kirchner, chefe da diplomacia comercial do Mercosul e dona, portanto, da palavra final em qualquer negociação relevante. Isso vale para as discussões com parceiros de fora, como a União Europeia, ou para os arranjos internos, como o acordo bilateral para o setor automotivo - revisto mais uma vez segundo os critérios da Casa Rosada. De janeiro a maio deste ano o Brasil exportou para os Estados Unidos produtos no valor de US$ 10,51 bilhões, pouco mais do que o vendido para o Mercosul, US$ 10,13 bilhões, e muito mais do que o embarcado para a Argentina, US$ 6,19 bilhões. As exportações para o mercado argentino foram 18,6% menores que as de um ano antes, pelas médias diárias, enquanto as vendas para os Estados Unidos ficaram 13,2% acima das contabilizadas no mesmo período de 2013.

Nenhum outro mercado aumentou tanto a absorção de produtos brasileiros, segundo registros do Ministério do Desenvolvimento. Indústria e Comércio Exterior. Mas o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ao explicar o pífio crescimento econômico do Brasil no primeiro trimestre, 0,2%, apontou de novo as condições do mercado internacional, incluída a desaceleração americana, como principais entraves à expansão brasileira. Como de costume, ele descreveu um mundo bem diferente daquele reconhecido por qualquer observador razoavelmente atento e informado.

De janeiro a abril, 50,36% das exportações brasileiras para os Estados Unidos foram de manufaturados. Esse é o último período com informações detalhadas sobre a composição do comércio com cada parceiro. Nesses quatro meses, as vendas de manufaturados corresponderam a apenas 35,6% da receita geral. A dos básicos, a 48,9%. Somados os semimanufaturados, a parcela das commodities correspondeu a 61,6% do total (outros 2,8% ficaram na categoria de operações especiais).

A participação dos manufaturados continuou em queda. De janeiro a maio, esses produtos proporcionaram 34,8% do total faturado. O resto - quase dois terços - veio das commodities, principalmente dos básicos, 50,3% das vendas totais.

O Brasil assume, cada vez mais claramente, o papel de fornecedor de matérias-primas, principalmente no comércio com a China e outros países da Ásia. Até abril, os manufaturados foram só 3,09% das exportações para o mercado chinês. Em contrapartida, a China exporta principalmente manufaturados para o mercado brasileiro e, de quebra, toma do Brasil fatias crescentes do comércio com os latino-americanos.

Mas há nessa história um aspecto paradoxal, pelo menos à primeira vista. Cerca de metade das vendas brasileiras para os Estados Unidos ainda é formada por manufaturados. O peso desses produtos nas vendas à União Europeia é bem menor, 34,96% de janeiro a abril, mas, ainda assim, muito maior que no comércio com os parceiros da Ásia. No entanto, a indústria brasileira perde espaço no mercado externo, incluída a vizinhança latino-americana, e até no mercado interno. Aqui, a participação de fornecedores estrangeiros tem crescido há vários anos e passou de 20,4% no primeiro trimestre de 2012 para 22,5% dois anos depois, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Em resumo: algumas indústrias conseguem manter presença no mercado americano e também - com dificuldade crescente - no europeu, enquanto a maior parte do setor manufatureiro perde espaço em quase todos os mercados. Montar uma história clara e coerente com esses pedaços é uma boa tarefa para pesquisadores, mas pelo menos alguns detalhes parecem evidentes. Um deles é a acomodação da maior parte do setor industrial no comércio com economias em desenvolvimento, quase todas menos industrializadas que a brasileira. Hoje até esse papel é inseguro, por causa da presença crescente de fortes competidores, especialmente asiáticos, na América Latina e até no Mercosul. Essa acomodação é denunciada também pelo baixo grau de inovação, discutido quarta-feira no Fórum Estadão - Inovação, Infraestrutura e Produtividade. O protecionismo, outro detalhe importante, é obviamente parte dessa história.

O estímulo à modernização e à busca de competitividade teria sido, com certeza, maior se o Brasil houvesse buscado acordos comerciais com os países mais avançados, como os da América do Norte e da Europa, mas a diplomacia econômica brasileira preferiu outro caminho a partir de 2003. O governo recusou o projeto da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), no começo da primeira gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e fixou como prioridade a integração Sul-Sul.

O acordo com a União Europeia poderia ter aberto uma porta no mundo mais avançado, mas a aliança com o protecionismo argentino, depois convertida em sujeição, entravou as negociações. Enquanto isso, outros emergentes com facilidade de acesso ao mercado europeu, como a Turquia, consolidavam suas posições. Os demais Brics - Rússia, Índia, China e África do Sul - jamais se juntaram ao delirante e anacrônico projeto terceiro-mundista do governo brasileiro.

Alguns capítulos dessa história são temas do dia a dia: a tributação sobre o investimento e a exportação, a infraestrutura insuficiente e ruim, o atraso educacional, agravado pelas prioridades mal escolhidas, o excesso de gastos e o desperdício do dinheiro público, a tolerância à inflação elevada e o intervencionismo desastrado. As tentativas de maquiar as contas públicas e a inflação ilustram de maneira pitoresca a baixa disposição do governo de reconhecer e de resolver problemas.

O investimento reduzido a apenas 17,7% do produto interno bruto (PIB) no primeiro trimestre, 0,5 ponto abaixo do nível já ridículo de um ano antes, 18,2%, resume boa parte do quadro: incompetência governamental somada à crescente e muito compreensível insegurança do setor privado. É o Brasil em rápido processo de subdesenvolvimento.



Não atendo emergência

Ruth De Aquino
Revista ÉPOCA

A morte do fotógrafo Marigo na frente de um hospital em greve é uma história do "padrão Brasil"

É possível que se conte nos dedos de uma mão o número de países em que um paciente morre do coração em frente a um Instituto Nacional de Cardiologia (INC), sem receber socorro de nenhum médico ou enfermeiro do hospital. O INC está em greve, como muita gente nesta fase de amistosos pré-Copa das Copas.

A omissão de atendimento imediato a Luiz Cláudio Marigo, de 63 anos, é falta para cartão vermelho. Marigo, fotógrafo premiado de Natureza, embarcou num ônibus, no Rio de Janeiro. Começou a passar mal pouco depois. O motorista, Amarildo Gomes, desviou seu percurso por estar perto do INC, em Laranjeiras, único hospital público no Rio que faz transplantes de coração em crianças e adultos, referência em ensino e pesquisa.

O ônibus foi estacionado em frente ao hospital, e Marigo, deitado no chão do veículo, com dores no peito. Amarildo e passageiros estavam solidários com o drama do anônimo. Ele não levava documentos, apenas uma bolsa com chaves, moedas e R$ 42. Não sabiam que era um homem das florestas. Naquele momento, o povo do ônibus acreditava que poderia salvá-lo. Qualquer um sabe que os primeiros minutos após um infarto são cruciais.

Começava ali uma história padrão Brasil. Seguranças do hospital disseram que o INC não atende emergência e que seria melhor chamar os bombeiros ou uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Assim agiu o motorista Amarildo, mas a contragosto: “Achei um absurdo, um pouco-caso com a vida humana”. Quando uma ambulância chegou ao hospital levando outro paciente, o paramédico prestou os primeiros socorros. Mais tarde, chegaram os bombeiros.

Mesmo em greve, havia no hospital um leito, alguns médicos e plantonistas na Unidade Coronariana. O sargento dos bombeiros Alves afirmou: “Se viesse um médico na hora, já era muita coisa. Isso aí é omissão de socorro”.

Dá dor no coração. Nem falo do Juramento de Hipócrates. Nele, um médico formando jura, por todos os deuses e deusas, aliviar o sofrimento humano. Quantas vezes ouvimos num avião o comandante pedir ajuda: “Se houver um médico neste voo, favor atender um passageiro que está passando mal”. Já pensou o médico se omitir por achar que ganha pouco, ou que não é função dele trabalhar de graça? Já pensou ele dizer: “Não atendo emergência”?

O hospital tem sua versão. A nota do INC diz, e é verdade, que o hospital não tem emergência aberta ao público geral. E daí? A direção diz que o INC nunca fez primeiro atendimento e que sua especialidade são procedimentos de alta complexidade. Sim, e quando se trata de um caso de vida ou morte na frente do hospital?

A diretora do INC, Cynthia Magalhães, afirmou: “Não houve omissão de socorro e não houve erro (...). Nenhum membro da equipe médica foi notificado de que havia um paciente passando mal dentro de um ônibus (...), e sim um paciente passando mal na rua”. Então, médico não sai para socorrer na rua? Cynthia disse que os seguranças do hospital não entenderam a gravidade do caso. Como poderiam? Quem entende de gravidade é médico.

“O que houve foi uma omissão de socorro generalizada, uma falta de integração na rede”, disse Lúcia Pádua, diretora do Sindsprev, ao elogiar o INC como uma “ilha de excelência”. O que não pode, afirmou Lúcia, é “o paciente chegar a um hospital e ser recepcionado por seguranças”. Apela-se a quem? Ao Bom-Senso Medicina Clube?

Então, quem faz a triagem na porta de hospitais, públicos e privados, não são profissionais de Saúde. São seguranças, vigilantes. Na  semana passada, um vídeo na recepção de um hospital mostrou seguranças arrastando pelo chão, para fora do hospital, um paciente em cadeira de rodas. Acompanhantes levaram socos e gravatas. O paciente estava sem documentos e “agressivo”, disse Geraldo Medeiros, diretor do Hospital de Trauma de Campina Grande, na Paraíba. Entendi. O hospital deixa os pacientes com trauma.
A morte do fotógrafo Luiz Cláudio Marigo, que trabalhou diversas vezes para ÉPOCA, expõe nossa vulnerabilidade à humilhação, à frieza e à incompetência das recepções hospitalares. Entre no site http://www.lcmarigo.com.br e perceba como era talentoso: “A conservação da biodiversidade depende do conhecimento e do amor. O papel dos fotógrafos de Natureza é despertar a consciência do homem para a incrível riqueza da vida na Terra, sua beleza e valor espiritual. (…) Espero que meu trabalho transmita a mesma alegria e emoção que sinto nos ambientes selvagens e que minhas fotografias não se transformem apenas em mais um documento do passado”.
Se depender do filho dele, Vítor Marigo, que processa União e hospital, sua vontade será respeitada: “Queremos conseguir uma indenização para abrir uma fundação. O importante é manter viva a obra de meu pai”. Porque “selvagem” é a vida aqui fora.




Dilma, mais quatro anos pra quê?

Reinaldo Azevedo
Folha de São Paulo

O que poderia fazer a presidente que não tenha conseguido operar em condições mais favoráveis?

Jornalistas estrangeiros perguntaram à presidente Dilma Rousseff por que a economia cresce tão pouco. Ela disse não saber. Foi sincera. Não sabe mesmo. Como não tem o diagnóstico, falta-lhe o prognóstico. Entre o passado, que ela ignora, e o futuro, que ela não antevê, há este enorme presente à espera de medidas corretivas e profiláticas. Ocorre que seu governo é como seu discurso: um caos de fragmentos de ideias nem sempre muito claras, (des)ordenadas por locuções fora do lugar "no que se refere" (sic) ao que tem de ser feito. Ninguém entende nada, a começar da própria Dilma.

Dia desses, o ex-presidente Lula julgou ter encontrado a razão do "malaise". Os empresários, de mau humor, teriam deixado de investir. É mesmo? É próprio das cabeças autoritárias --e esse é o caso do Babalorixá de Banânia-- transformar dificuldades que são objetivas, que são técnicas, que têm origem em decisões equivocadas, em mera indisposição subjetiva. Há quanto tempo estão dados os sinais de que o crescimento da economia, ancorado no consumo interno, havia esgotado o seu ciclo? Assim como teve início em razão de circunstâncias que não eram do nosso controle, expirou por motivos igualmente alheios à nossa vontade. E lá ficou Guido Mantega a fazer previsões de crescimento --coitado!--, inicialmente, com margem de erro de dois pontos. Como a situação se deteriorou, ela já está em três...

Dilma pleiteia mais quatro anos, e eu fico cá a me perguntar --e espero, sim, que esta dúvida se alastre: pra quê? Com que amanhãs sorridentes ela vai acenar, que não tenha podido oferecer nesse tempo em que esteve à frente do governo, liderando uma base parlamentar que, no Ocidente, só deve ser menor do que a de Cuba? Qualquer analista razoável sabe que as circunstâncias vindouras são ainda piores dos que as do passado recente. O que poderia fazer a presidente, num cenário ainda mais inóspito, que não tenha conseguido operar em condições mais favoráveis? A resposta é um conjunto vazio.

Mais do que a indignação estridente dos grupelhos de extrema esquerda que estão nas ruas --estes só contribuem para turvar a visão da presidente--, Dilma tem de temer é o silêncio meio melancólico, mas não menos indignado, do homem comum, daquele que não tem uma agenda ideológica e que não pretende reformar a humanidade desde o fim. Contentar-se-ia com uma escola melhor, com uma saúde melhor, com um emprego melhor, com um salário melhor, com uma vida mais previsível. Eu sei, Dilma sabe e sabem os economistas e especialistas que os "gastos com a Copa", se investidos em saúde e educação, seriam de uma danada irrelevância. A conta é falsa, mas o problema para o qual aponta essa não solução é verdadeiro.

De 2002 para cá, o cenário de agora é o mais adverso enfrentado pelos petistas. As migalhas compensatórias já não têm a mesma força de antes para sustentar um projeto de poder. Parece haver no país uma ambição um pouco maior do que a da pobreza agradecida, que reverencia o nhonhô. Está certo o tucano Aécio Neves quando propõe que os programas sociais, ditos de "transferência de renda", passem à condição de políticas de Estado. De resto, eles devem ser apenas o começo da conversa, não o fim. É preciso acabar com a prática nefasta de chantagear os pobres.

A campanha que o PT levou à TV indica que, sem diagnóstico nem prognóstico, restou apenas o terrorismo eleitoral. Dilma pretende que o medo desinformado vença não a esperança, mas as possibilidades de mudança. Pior: sem conseguir entusiasmar nem a sua própria grei, cede a apelos "esquerdopatas" como "controle social da mídia" e criação da sociedade civil por decreto, evidenciando que, sob pressão, pode, sim, voltar à sua natureza. Mais quatro anos pra quê?



Notícias do Brasil, na Suíça.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Robson Marinho, homem-forte do Governo Mário Covas, iniciador da dinastia tucana que se mantém até hoje no poder em São Paulo, afastou-se de seu cargo no Tribunal de Contas do Estado. Marinho, segundo investigação suíça, é suspeito de ter recebido US$ 2,7 milhões em propinas da multinacional Alstom, em seus tempos de Governo Covas, para facilitar a assinatura de bons contratos. Mas não tire conclusões apressadas, caro leitor: Marinho não deixou o cargo para facilitar a investigação. Deu uma saidinha, só até o próximo dia 16, em gozo de licença-prêmio. E sua situação melhorou muito, porque os suíços costumam levar as investigações a sério. Suspenderam sua colaboração com o Brasil porque a documentação sigilosa que enviaram foi entregue ilegalmente à imprensa - sabe como é, que otoridade não ama uma câmera? O Ministério Público paulista e a Procuradoria-Geral de Justiça prometem investigar o vazamento de informações. Não deve ser difícil se, como este colunista, gostarem de filmes antigos. Em 1955, Billy Wilder filmou, com Marilyn Monroe, O Pecado Mora ao Lado.

E, já que estão investigando vazamento de informações, poderiam ampliar um pouco o foco de seu trabalho. Por exemplo, num organismo complexo como um Governo estadual, é possível a um secretário montar sozinho um esquema que lhe permita facilitar a assinatura de contratos? E os órgãos de controle, que é que fazem? Se Marinho agiu solitariamente, o Governo falhou por omissão. Se o Governo não falhou por omissão, então Marinho não estava só. 

Cadê os outros?

Questão de nível
Local: o plenário da Assembléia Legislativa do Rio. A deputada Cidinha Campos, do PDT, propôs que o Código de Ética da Casa fosse modificado para que deputados não possam votar em processos nos quais sejam acusados. O deputado Domingos Brazão, do PMDB, explodiu: chamou Cidinha (excelente parlamentar, jamais envolvida em escândalos) de "prostituta" e "vagabunda". E foi adiante (fazendo com que Cidinha registrasse queixa contra ele na Delegacia da Mulher): "Nunca matei prostituta, mas você eu gostaria".

Aliás, ele não a chamou de prostituta, mas usou o termo chulo mais popular.

Amigo secreto 1
O candidato do PT ao Governo paulista, Alexandre Padilha, fez o possível para conquistar o apoio (e o tempo na TV) de Paulo Maluf. Conquistou-o. Mas Maluf, que fez o sacrifício de apoiá-lo, quer o retorno: aparecer na TV, no horário eleitoral, e subir no palanque do petista. Padilha, o ingrato, pediu a Lula, velho aliado de Maluf, que o mantenha escondido. 

Padilha detesta concorrência.

Amigo secreto 2
Maluf e Padilha. Como diria Drummond, não é uma solução mas é uma rima.

Solução óbvia... 
Quatro secretários da Segurança foram ao Congresso pedir leis mais rígidas contra o crime. O presidente do Senado, Renan Calheiros, prometeu reunir em 15 de julho (depois da Copa, que ninguém é de ferro) uma Comissão Geral para debater o endurecimento das leis e a eficácia na aplicação de penas. Pena que estejam mirando o alvo errado: as leis existem, mas não são aplicadas (quantos assassinos condenados a 30 anos de prisão cumprem 30 anos de prisão?); e não houve até hoje muito esforço para dar funcionalidade ao aparelho estatal. Cada Estado, por exemplo, emite sua própria carteira de identidade, e não há comunicação entre eles. Alguém morre e não há notificação aos órgãos pertinentes - o que permitiu a Henrique Pizzolatto tirar documentos em nome do irmão falecido. 

...e errada
O crime organizado está sob a chefia de bandidos presos, que usam celulares. O celular é proibido na prisão, mas chega lá dentro e é usado sem problemas. E o próprio Renan Calheiros, que quer debater o endurecimento das leis, etc., etc., foi denunciado há mais de um ano pelo procurador-geral da República por peculato, falsidade ideológica e uso de documento falso. Se condenado, as penas podem chegar a 23 anos. Até agora, sua punição foi ser eleito presidente do Senado (mais informações em http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/as-denuncias-contra-renan-calheiros/).

Dose dupla
Dilma teve nova queda na pesquisa Datafolha, mas mantém ampla vantagem, 15 pontos, sobre o segundo colocado, o tucano Aécio Neves. Mantém-se na frente, também, na eventual disputa do segundo turno: oito pontos sobre Aécio. Por que, então, tamanho esforço do PT em aumentar o leque de alianças de Dilma?

A meta definida pelo marqueteiro João Santana e aprovada pelo PT é formar coligação que garanta a Dilma o dobro do tempo de seus adversários, custe o que custar. 

Este é um sério problema: o custo, como se sabe, não tem sido baixo.

Ótima notícia
A equipe da professora Ilana Gozes, da Universidade de Tel Aviv, Israel, descobriu uma proteína que parece eficaz contra o Mal de Alzheimer - como prevenção e talvez reversão da demência senil. A pesquisa está no Journal of Alzheimer’s Disease, http://www.j-alz.com/vol40-supp1

Uma boa esperança.

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

Dilma e as uvas

Fernando Gabeira
O Estado de São Paulo 

Num de seus recentes discursos, Dilma Rousseff afirmou que as obras para a Copa terão padrão brasileiro, não padrão Fifa. Com essa frase queria dizer também que nossos padrões são mais democráticos, naturalmente referindo-se aos altos preços dos ingressos. Dilma fez tal declaração no fim de um período em que a Copa do Mundo foi perdida fora do campo e todos esperamos, ela com ansiedade singular, que seja ganha dentro do campo.

Essa frase de Dilma marca uma inflexão do governo nas suas relações com a Fifa, cujos dirigentes afirmam que o Brasil propunha a Copa em 17, e não 12 cidades. Foi preciso conter a megalomania de Lula e a própria Fifa foi otimista quando considerou 12 um bom número, levando em conta o tamanho do Pais, não suas reais possibilidades.

O Estádio Mané Garrincha, beirando o R$ 1,5 milhão, custou mais caro que um estádio do Qatar - país com a maior renda per capita do mundo - para 2022. Se os cálculos forem comprovados, o padrão brasileiro foi mais caro, no Mané Garrincha, do que o padrão Fifa sonharia. O estádio de Brasília é um monumento. Não sabemos ainda se é um monumento à incompetência ou à roubalheira, embora no padrão brasileiro os dois joguem no mesmo time, bem perto do gol.

Três estádios foram plantados em cidades cujo futebol não atrai multidões. O velho estádio de Natal só conseguiu lotação plena quando o papa visitou a cidade. Para o novo estádio teremos de combinar com o papa Francisco algumas visitas regulares, algo difícil porque um papa não faz visitas apenas para cumprir tabela.

Em Cuiabá presenciamos um fato inédito na história: no dia da visita de inspeção da Fifa, o governador e o presidente da Assembleia estavam presos. É a Copa das Copas, ou o mico dos micos, como quiserem.

Em Manaus, na imensidão um estádio vazio, uma arena amazônica que me deixa perplexo, sobretudo quando vejo o que vi na Vila de Boim, a seis horas de barco de Santarém: o esforço das comunidades para jogarem a sua própria Copa, numa região da floresta para a qual não existe política de esporte.

Lula quis dar salto maior que as pernas e agora que o fracasso se revela resta apenas ironizar o padrão Fifa que se comprometeu a adotar.

A esquerda não tem o monopólio da duplicidade e da dissimulação. Mas num partido como o PT e, sobretudo, num governo ditatorial como o cubano, são os dois elementos vitais para sobreviver e crescer. Em O Homem que Amava os Cachorros, Leonardo Padura fala de uma família cubana, possivelmente a do próprio escritor, que ensinou aos filhos exatamente o oposto dessa regra da sobrevivência: falar a verdade, ser fiel a si próprio.

O discurso do governo brasileiro em relação à Copa é de um zigue-zague acrobático, uma tentativa desesperada de abordar os fatos de frente e cair na realidade. Não foi uma ideia feliz trazer a Copa para o Brasil e assumir os compromissos que assumiu com a Fifa.

Isso não significa que a Copa não deva ocorrer, muito menos que deixamos de torcer pela vitória dentro do campo. Significa apenas que a linguagem cínica do governo é uma fonte permanente de degradação da vida política. Reflete uma lei interna segundo a qual não é preciso dizer o que pensa, regra válida para todos os que aderem. Basta que façam o jogo, dancem de acordo com a música.

Até que ponto o cinismo triunfará amplamente numa sociedade democrática é o enigma que envolve o futuro próximo do Brasil. Controlar o aparato estatal, o Parlamento e até o Supremo Tribunal ainda é um cobertor curto. Restam a sociedade, a imprensa, a internet.

Os militares compreenderam que não tinham resposta para o futuro e organizaram a retirada para não baterem em fuga desordenada, arriscando a instituição. O PT não acumulou forças para encarar a verdade, arriscar o poder e preservar-se para o futuro.

O discurso de Dilma não é voltado para a frente. Apenas adverte que a vitória da oposição significará um ajuste que vai reduzir salários, aumentar o desemprego e cortar verbas sociais. Embora não reconheça, ela deve saber que é necessário um ajuste, que pode ser moderado, no sentido que lhe dá Amartya Sen. Quer dizer, não precisa reduzir salários nem cortar verbas sociais. Um ajuste desse tipo seria voltado para os gastos irracionais do governo. Mas bateria de frente com o mundo político e burocrático, toda essa gente agarrada a cargos, verbas, negociatas. Às vezes, quando falamos em defender o salário do povo, estamos defendendo os nossos próprios salários. E reaparecem aí a duplicidade e a dissimulação.

Dotar o Brasil de um governo inteligente, aberto e conectado, transformar um sistema político que se tornou uma gigantesca sanguessuga não figuram no seu horizonte. O único caminho é usar os interesses populares como escudo para os seus próprios interesses e agarrar-se ao poder.

Na classificação de presidentes de toda a República no quesito crescimento, Dilma está em penúltimo e Fernando Collor em antepenúltimo lugar, atrás de Floriano Peixoto, portanto, entre os quatro de baixo que vão para a Segundona. Ao afirmar que as dificuldades econômicas foram conjunturais, ela pede uma segunda chance. Mas pede como se estivesse no grupo de cima, preparando-se para a Libertadores.

Como dizia Cazuza, suas palavras não correspondem aos fatos, sua piscina está cheia de ratos. Aceitar que suas palavras não correspondem aos fatos e limpar a piscina política e administrativa dos seus ratos é uma tarefa gigantesca. O caminho mais fácil é controlar o Estado, o Parlamento o Supremo, mobilizar uma artilharia eletrônica.

Que venham todos, porque, independentemente de resultados eleitorais, há um imenso número de brasileiros sabendo o que há por trás dessa duplicidade e dissimulação. Gente que gostaria de falar sério sobre nossos problemas, e não perder a energia desmontando as bravatas de Lula, como essa da Copa. Perdemos tempo, dinheiro, operários, moradias, irresponsabilidade que nem a vitória no campo conseguirá apagar.

Supercorporativismo

Demétrio Magnoli
Folha de São Paulo

Por decreto, o lulopetismo pretende subordinar os cidadãos ao império das corporações estatizadas

No septuagésimo aniversário da proclamação do Estado Novo, em 2007, Lula celebrou a Consolidação das Leis do Trabalho e, num português claudicante, definiu Getúlio Vargas como o presidente "que tirou toda uma nação de um estágio de semiescravidão para tornar os cidadãos com direito a terem um emprego com carteira assinada". Vargas usinou o Estado brasileiro no torno mecânico do corporativismo. Por meio do Decreto 8.243, o lulopetismo pretende reinventá-lo no torno do supercorporativismo. Como no Estado Novo, a meta é degradar a democracia representativa, subordinando os cidadãos ao império das corporações estatizadas.

O varguismo fez da carteira de trabalho a prova da cidadania, e dos sindicatos, a representação da sociedade. Depois de reiterar o corporativismo tradicional, incorporando as centrais sindicais às estruturas do Estado, o lulismo dá um passo adiante, criando uma segunda prova de cidadania, que é a militância organizada num "movimento social". No fundo, o supercorporativismo cinde a sociedade em duas categorias de cidadãos, conferindo uma cidadania de segunda classe aos indivíduos que não militam em "movimentos sociais".

O Estado Novo organizava-se num Conselho da Economia Nacional, dividido em seções da indústria, da agricultura, do comércio, dos transportes e do crédito, formadas pelo governo e pelos sindicatos patronais e de trabalhadores. O supercorporativismo projeta erguer um Estado Novíssimo constituído por "conselhos de políticas públicas" formados pelo governo e pelos "movimentos sociais". Segundo o Decreto, os "conselhos" setoriais têm a prerrogativa de participar da gestão das políticas públicas. No Estado Novo, Parlamento e partidos foram abolidos. No Estado Novíssimo do lulismo, eles seguem existindo, mas apenas como registros fósseis da democracia representativa.

O Decreto que institui o Sistema Nacional de Participação Social (SNPS) tem como alvo verdadeiro a pluralidade política. Na democracia representativa, o foro institucional de debate político é o Congresso, constituído por representantes eleitos pelos cidadãos. Na "democracia participativa" inaugurada pelo SNPS, o povo passa a ser "representado" por líderes de "movimentos sociais" selecionados pelo governo. Os "conselhos" resultantes serão majoritariamente integrados por militantes que gravitam na órbita do PT. A natureza consultiva dos "conselhos" é quase um detalhe, pois sua característica forte é a permanência: a nova "representação" da "sociedade civil" não está sujeita ao crivo das eleições.

A ordem corporativa varguista repousava, diretamente, sobre o princípio da harmonia social. Arquitetado na moldura democrática, o supercorporativismo lulista almeja produzir a harmonia por meio da administração partidária do conflito. O Decreto institui "mesas de diálogo" destinadas a "prevenir, mediar e solucionar conflitos sociais". De um lado, as tais "mesas" procuram abolir a negociação direta, sem mediação governamental, entre atores sociais. De outro, concluem o processo de estatização dos "movimentos sociais" aliados ao PT, que já são financiados pelo poder público.

O SNPS não pode ser comparado às audiências públicas eventuais convocadas pelos governos ou pelo Congresso. Nos termos do Decreto, ele se configura como uma vasta estrutura burocrática, de "conselhos", "mesas", "fóruns interconselhos" e "conferências", comandada por um "secretário-geral". Em termos práticos, isso significa que Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência e imagem holográfica de Lula, converte-se no Lorde Protetor da "democracia participativa".

Vargas precisou de um golpe de Estado para instituir o Estado Novo. O lulopetismo instituiu o Estado Novíssimo por um mero decreto, na expectativa de que um Congresso desmoralizado curve-se à vontade soberana do Executivo.

Cínicos, e daí?

Guilherme Fiuza
O Globo 

Brasil teve sete anos para consertar caos dos aeroportos. E o governo popular passou sete anos humilhando os passageiros

Durante sete anos, as autoridades federais rebateram os prognósticos de que o Brasil não se prepararia a contento para sediar a Copa do Mundo. Diante do bordão “imagina na Copa”, que apontava flagrantes de desorganização, o governo criticava os pessimistas de plantão. Como a Copa chegou e a bagunça geral não é mais uma questão de pessimismo, os companheiros já têm outra resposta na ponta da língua: “E daí?”

“As obras que não ficarem prontas para a Copa ficarão prontas em agosto, em setembro. E daí?”, argumentou o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho. De fato, não há problema. Até porque, se as obras não ficarem prontas em setembro (para a eleição), ficarão prontas em novembro, em dezembro (para o Natal). E daí? O povo pode votar tranquilo em Dilma, que um dia ela entrega o prometido.

O Brasil teve sete anos para consertar o caos dos aeroportos e da aviação civil. E o governo popular passou sete anos humilhando os passageiros — até com falta de banheiro e ar-condicionado — para enfim, às vésperas da Copa, decidir entregar os aeroportos à iniciativa privada (que infelizmente não tem varinha de condão). Não pôde fazer isso antes, porque a Agência Nacional de Aviação Civil estava alugada à quadrilha de Rosemary Noronha, a protegida de Lula e Dilma. E daí?

São coisas da vida. Numa variação ousada da nova resposta padrão, Dilma Rousseff peitou os críticos: “Estamos atrasados em relação a quê?”

Como se vê, não há como responsabilizar o governo popular por nada. Tudo é relativo. A reforma dos aeroportos está atrasada em relação a quê? Em relação ao Itaquerão, por exemplo, não há atraso nenhum. O estádio que Lula mandou o contribuinte dar de presente ao Corinthians e comparsas associados só será testado, em plena capacidade e com o sistema de comunicação funcionando, na abertura da Copa. Quem considera isso um absurdo e uma temeridade está atrasado em relação ao moderno conceito de governo sereno e despreocupado.

Com isso, Dilma quis dizer também que os atrasos em relação à Copa são um detalhe, porque as obras não são para um torneio, “são para os brasileiros”. Enfim, esqueçam a Copa do Mundo. A vida continua. Um dia você vai entender que valeu a pena esperar Rosemary encher os bolsos para viajar num aeroporto decente.

E nesse exercício de libertar a todos da ansiedade com a Copa, Gilberto Carvalho mostrou que os brasileiros devem lamber os beiços com os presentes que estão ganhando de graça e fora de época: “Eu diria que não há atraso, há na verdade uma antecipação de obras que as cidades não teriam.” Ou seja: deixe de ser ingrato e espere sentado pelas coisas que o governo nem ia lhe dar.

Já que a Copa do Mundo é um pretexto para o governo fazer o que não ia fazer, poderia ter planejado há sete anos a expansão do metrô nas maiores capitais. É o tipo de obra crucial que depende de verba federal. Havia tempo e dinheiro para isso, mas a dinastia Lula-Dilma preferiu enterrar uma fortuna do BNDES em estádios novinhos (2,5 bilhões de reais só para o Mané Garrincha e o Itaquerão). E daí?

Não pergunte por que os negócios com o evento esportivo são mais atraentes. Apenas olhe o prontuário das instituições envolvidas. A Polícia Federal está investigando a relação entre uma consultoria de planejamento da Copa, contratada pelo Ministério dos Esportes, e o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, sempre ele. Está tudo em casa. É um mundo de oportunidades subterrâneas, que passou os últimos sete anos exalando seu cheiro pelos bueiros, sem perturbar o sono dessas almas penadas que agora ficam atrapalhando o trânsito e gritando que não vai ter Copa.

Pobre Neymar. O astro das únicas jogadas limpas nesse lodaçal tem que ver o ônibus em que está ser esmurrado por manifestantes retardatários — ou, como diria Daniel Alves sobre a turma da banana, retardados. Mas também aí se pode recorrer à ponderação da presidente: retardados em relação a quê?

O governo popular se especializou em relativização. Até o déficit público é relativo, dependendo da quantidade de maquiagem utilizada. O IBGE também já estava preparado para relativizar os dados do desemprego, com a decisão de suspender a pesquisa nacional contínua. Mas a manobra vazou, a pesquisa continuou e o aumento do desemprego apareceu. E daí?

Uma cara de pau bem atarraxada vale por mil explicações desonestas. No julgamento do mensalão, o deputado André Vargas — esse mesmo que chegou ao olimpo petista turbinado pelo doleiro da Petrobras — tentou proibir a transmissão ao vivo das sessões no Supremo. A TV atrapalha a relativização das coisas. E, já que a preparação do país para a Copa foi salva pelas palavras palacianas, talvez seja melhor substituir logo a transmissão dos jogos por boletins da Presidência. Aí ninguém nos tira o hexa.

Casamento aberto

Dora Kramer
O Estado de São Paulo 

A fidelidade partidária não é norma escrita nem praticada entre nós, sabemos disso. Mas, sempre foi costume manter as aparências. Os infiéis atuavam por baixo dos panos, mantinham alguma discrição, deixando espaço para o desmentido da traição.

Desde ontem, porém, ficaram revogadas quaisquer cerimônias depois do ato público do PMDB do Rio de Janeiro de adesão à candidatura do tucano Aécio Neves, cinco dias antes da convenção do partido que, conforme assegura o vice-presidente Michel Temer, renovará a aliança com o PT no plano federal.

Em matéria de infidelidade, nunca se viu nada igual. Houve, em eleições passadas, o movimento "Lulécio", que buscava eleitores de Lula e Aécio, rifando a candidatura presidencial tucana em Minas Gerais. Houve também a adesão do então presidente do PSDB à candidatura de Ciro Gomes, em detrimento do desafeto José Serra.

Mas, nada parecido com o ato de ontem que reuniu nove legendas, mais da metade dos prefeitos do Estado, centenas de pessoas e as principais lideranças regionais do partido num almoço de arromba para celebrar o oponente da presidente Dilma Rousseff por ora mais bem posicionado nas pesquisas.

O movimento chama-se "Aezão", junção dos nomes de Aécio e (Luiz Fernando) Pezão, o vice-governador que assumiu com a renúncia de Sérgio Cabral Filho e que agora concorre pelo PMDB. Com o apoio da presidente Dilma, a quem ele também confere todas as honras. Não a ponto de ter feito um gesto contrário ao ato oficial (sim, pois lá estavam todas as instâncias oficiais do PMDB regional) de adesão ao adversário.

Nem o governador nem Cabral estiveram no almoço, mas digamos que não seria necessário. Ficou muito bem entendido: desta vez, o casamento com o PT é uma relação "aberta". O PMDB dá o tempo de televisão, recebe em troca a vice-presidência, mas não tem obrigação alguma de pôr sua mão de obra nos Estados a serviço da campanha pela reeleição da presidente.

O apoio do PT em eleições anteriores foi um ativo para os partidos aliados. O desafio do governo é que não se transforme em um passivo. Enquanto o Planalto estava bem nas pesquisas, interessava aos políticos seguirem juntos. A virada dos ventos os leva à busca de alternativas.

Note-se o que corre em São Paulo. O ex-prefeito havia declarado apoio a Dilma e já começa a reexaminar a escolha, considerando não apenas a hipótese de ser vice do inimigo Geraldo Alckmin, como de não firmar aliança nacional com o PT para Henrique Meirelles poder ser vice de Aécio.

E Paulo Skaf? Diante da afirmação de Dilma de que ela teria duas candidaturas, a dele e a de Alexandre Padilha, para tentar derrotar o PSDB em São Paulo, deu um alto lá: "Aqui o PT é adversário".

Pela lógica. 
O jornalista estrangeiro pergunta à presidente Dilma Rousseff por que o Brasil está crescendo tão pouco. Ela responde: "Não sei".

De onde é improvável que saiba como fazer para o País crescer tão pouco.

Que fase!

Nelson Motta
O Globo

Não é a oposição que avança, é o governo que está derrotando a si mesmo

A cada nova pesquisa, ninguém mais tem dúvidas de que a grande maioria da população está insatisfeita com a vida no país e, na mesma proporção, descontente com a economia e preocupada com a inflação. Os números não mentem, a discussão possível é sobre as responsabilidades por esta situação e sobre o que deu errado. E o que fazer para corrigir os rumos e reduzir os danos.

Quando Lula aconselha Dilma a culpar a crise internacional pelos nossos números, a coisa está mesmo feia. Na América Latina, o Brasil só cresceu mais e teve menor inflação do que Argentina e Venezuela.

O sentido mais sensível do eleitor não é a visão, a audição, o tato ou o faro, mas o bolso. Em qualquer democracia, quando a grande maioria da população está insatisfeita — e há três anos a mesma maioria estava satisfeita —, dificilmente o governo consegue ser reeleito. Jimmy Carter e Bush pai foram derrotados pela economia.

Aqui, não é a oposição que avança, é o governo que está derrotando a si mesmo. Ao contrário de 2010, João Santana vai ter que remar contra a corrente, com vento de proa.

Vão dizer que faltaram comunicação e divulgação dos feitos do governo: as pessoas estão vivendo melhor, mas não sabem disso — é preciso informá-las e convencê-las. Apesar dos três anos de propaganda massiva do governo na televisão, incluindo as grandes estatais, que, como no governo Garrastazu Médici, vendem a crença do Brasil Grande.

Hoje, 20 milhões de famílias, 28% delas da classe C, têm TV por assinatura e estarão livres do horário eleitoral. As vantagens no tempo da propaganda partidária, que custaram o loteamento do governo, só valerão para a TV aberta.

Sim, as eleições são decididas mais pela emoção do que pela razão, mas como convencer um eleitor que a sua vida está melhorando se ele está sentindo piorar? Talvez o ameaçando com um novo governo que pode piorar ainda mais as coisas, na esperança que o medo vença a razão.

Mas a pior ameaça de volta ao passado é ter o PT na oposição, sabotando todas as ações de um eventual governo adversário, como fez com o Plano Real e a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Rua, protesto e desencanto

Vinicius Torres Freire
Folha de São Paulo

Clima nas ruas fica mais divisivo e impolítico e há desânimo com alternativas políticas

"QUEREMOS TRABALHAR", gritavam pessoas que quebraram portões e invadiram a estação de trem e metrô Corinthians-Itaquera, fechada ontem pela greve dos metroviários de São Paulo.

O clima nas ruas fica mais e mais divisivo desde o fim do ano passado, se não mesmo mais sombrio, uma desagregação que é impolítica (sem política e incivil), embora tenha efeitos políticos, claro, e talvez até derivações abertamente partidárias. Paulo da Força Sindical, adepto de Aécio Neves (PSDB), prometia ontem parar São Paulo com um protesto sindical contra o governo de Dilma Rousseff (PT).

A irritação das pessoas sem trem não é lá grande novidade. Em cada greve nos transportes públicos, é notório que a massa das pessoas se vira como pode para chegar ao trabalho, quando não àquela consulta marcada faz meses num serviço público de saúde. A vida da massa das pessoas é muito precária, bidu. A perda do emprego ou mesmo da consulta chorada pode resultar em desastres pessoais.

Ainda assim, em muita entrevista de passageiros irados, a gente percebe alguma solidariedade com grevistas, que podem de resto ser parentes, amigos ou vizinhos de quem ficou sem ônibus ou trem. Algo na linha, "entendo o direito deles", mas isso "prejudica os pequenos, não os grandes".

Mas, segundo pesquisas, a tolerância caiu bem, dada a agressividade da greve mais recente de motoristas e cobradores de ônibus, sem aviso, que teve trancamentos de ruas e violências mais diretas.

A greve dos metroviários decidida na noite de quarta, surpreendeu gente que voltava para casa no começo da madrugada de quinta e quem acorda muito cedo e não passa a vida "conectado" a mídias.

Aparentemente, a julgar por pesquisas e pela adesão às manifestações, violências diversas aos poucos envolveram os protestos de rua num clima mais sinistro, ao menos desde as depredações que se seguiram ao refluxo da massa na rua no final de 2013.

A morte do cinegrafista Santiago Andrade, em fevereiro, saques e medo por ocasião da greve da polícia em Recife e os tumultos agressivos das greves de ônibus em dezenas de cidades contribuíram para degradar o clima e a boa vontade do cidadão médio com manifestações de rua.

Além do mais, faz quase dois meses o protesto é dominado por trabalhadores de serviços públicos em greve: professores municipais, estaduais e até federais, rodoviários, metroviários, partes minoritárias do serviço federal (no IBGE, por exemplo) etc. Como é óbvio, o efeito imediato da greve deixa a vida especialmente mais difícil para a maioria mais pobre.

Ainda resta saber o destino dos até agora minguados protestos "contra a Copa" e da tática de movimentos como os sem-teto. Mas há um clima propício a reivindicações de "ordem" e a disseminação de um desânimo que, não sendo de origem propriamente econômica, tem acelerado a baixa da atividade econômica.

Sim, já aconteceu no Brasil democrático de climas ruins em situações socioeconômicas piores se dissiparem em questão de semanas. No entanto, havia então alguma expectativa de mudança, política ou não. Agora, parece haver por ora apenas desencanto.

Continua a safra de maus indicadores econômicos

O Globo
Editorial

Protecionismo, aposta cega no Mercosul e displicência com a infraestrutura e a produtividade em geral ajudam a explicar dificuldades na indústria

A safra de notícias econômicas está tão incômoda para o governo que a informação menos ruim é que a inflação mensal dá sinais de desaceleração. Mesmo assim, por um efeito estatístico, o índice anualizado se mantém em alta e ultrapassará o teto de 6,5%, estabelecido pela meta de 4,5%. O mais recente índice negativo é o 0,3% de retração da indústria em abril, comparado a março. Se a referência for abril de 2013, a queda atinge 5,8%, o pior resultado desde setembro de 2009, segundo o IBGE.

A maior preocupação do governo é com o setor automobilístico, pelo tamanho e enraizamento na economia. Em abril, sua produção subiu 0,6%, mas havia caído 4,2% em março. Houve, em maio, um crescimento de 1,9%, porém, comparado com maio de 2013, ocorreu uma queda de 18%. A diminuição das importações de máquinas e equipamentos (bens de capital) comprova que a retração contaminou os investimentos — outra má notícia.

Endividamento das famílias, crédito escasso, horizonte nebuloso para as empresas — há várias hipóteses de análise sobre a perda de dinamismo industrial. Só que, desta vez, ao contrário de 2009, o álibi da “crise externa" não pode ser acionado pelo governo. Pois, embora haja situações diversas no continente, existem sinais na Europa de que pelo menos a situação deixou de se degradar, enquanto os Estados Unidos aceleram a recuperação. Há estimativas de crescimento entre 3% e 4% este ano, bem mais que o Brasil, condenado a patinar em torno do 1%.

Se a economia brasileira for olhada pelo ângulo da balança comercial, é possível detectar más apostas do governo Dilma com reflexos no setor industrial.

Esgotado o ciclo de lépido crescimento mundial, China à frente, que levou o Brasil a saldar a dívida externa, fato histórico, vive-se o ciclo oposto — é sempre assim no mundo econômico. Commodities essenciais para as contas externas do Brasil caíram de cotação — soja e minério de ferro, bem mais este último. A Petrobras, mal administrada, passou a importar bastante combustível, e de consumo subsidiado. Outro erro. O resultado é a tendência a déficits no comércio exterior ou pequenos saldos positivos — de janeiro a maio, perdas de US$ 4,8 bilhões. Parte das perdas se deve à queda das exportações de veículos para a Argentina, devido à turbulência econômica do vizinho. Por trás do problema, a opção feita pelo governo de dar prioridade cega ao Mercosul.

Tendências protecionistas de Brasília também impedem que a indústria nacional se interconecte como poderia a cadeias produtivas globais. Isso faria aumentar as importações de componentes, mas também elevaria as vendas externas de manufaturados, de valor agregado mais alto.

Tudo isso, somado à displicência com que os investimentos em infraestrutura e outras iniciativas para o aumento da produtividade no país foram tratados, explica parte da safra de indicadores negativos.

A reconstrução da política econômica

Rogério Werneck
O Estado De S.Paulo 

O melancólico apagar das luzes do atual mandato presidencial vem surpreendendo até mesmo quem jamais escondeu seu pessimismo sobre as possibilidades do governo Dilma Rousseff. O desempenho da economia deteriora-se a cada dia. Na esteira de um colapso na confiança de consumidores e investidores, o nível de atividade praticamente estagnou no primeiro trimestre. E está em queda no trimestre em curso. Já se estima que o crescimento do PIB em 2014 não chegue a 1,5%. O que deixaria a taxa anual média de crescimento da economia no governo Dilma Rousseff abaixo de 1,9%.

Apesar desse crescimento pífio, o quadro inflacionário segue preocupante. A inflação em 12 meses está prestes a ultrapassar o teto de tolerância da meta. Inflação de 7,5%, em 2015, em decorrência da inevitável descompressão de preços administrados que ocorrerá depois das eleições, é o que agora prevê um dos principais responsáveis pela desastrosa pajelança ministrada ao País sob o rótulo de "nova matriz macroeconômica" (entrevista de Nelson Barbosa, O Estado de S. Paulo, 29/5).

É bom não ter ilusões sobre a herança amarga com que terá de arcar o novo governo. Há pela frente uma complexa agenda de reconstrução da política econômica. E, dessa perspectiva, o cenário de reeleição da presidente só pode ser visto com enorme desalento. O governo mostra-se completamente despreparado para fazer o que precisa ser feito. Insiste em negar a necessidade de mudanças na política econômica. E, agarrando-se a um discurso primitivo e populista, que marca retrocesso de pelo menos 20 anos no debate econômico do País, vem denunciando qualquer proposta de mudança como defesa de arrocho salarial e desemprego.

A análise do cenário alternativo, de vitória da oposição na eleição presidencial, permite vislumbrar com mais clareza a agenda de reconstrução da política econômica que terá de ser enfrentada em 2015. É bom notar que, em meio às muitas dificuldades, haveria amplo espaço para uma colheita fácil de resultados iniciais importantes, com o anúncio de medidas que possam dar lugar ao choque de credibilidade que há muito tempo se faz necessário na condução da política econômica.

A simples nomeação de uma equipe econômica respeitável, que soubesse manter um discurso coerente e fosse capaz de restabelecer a sintonia entre as atuações da Fazenda e do Banco Central (BC), já faria grande diferença. Na área fiscal, a restauração da credibilidade do registro das contas públicas seria um grande avanço. Bastaria um anúncio singelo de encerramento definitivo do festival de truques contábeis que vêm pautando a política fiscal. Naturalmente, isso exigiria a desmontagem do gigantesco orçamento paralelo que, há muitos anos, o governo vem alegremente mantendo no BNDES.

A condução da política econômica em novas bases, aliada à percepção de efetivo compromisso do novo governo com a manutenção de regras estáveis, agências reguladoras bem tripuladas e postura desarmada em relação ao papel do capital privado na expansão da infraestrutura, poderia engendrar vigorosa recuperação dos investimentos e do nível de atividade.

Depois de todo um mandato presidencial em que as autoridades monetárias se permitiram manter a inflação muito acima da meta, reancorar as expectativas inflacionárias deverá exigir bem mais do que a simples nomeação de uma diretoria competente para o BC. Em meio à necessidade de reajustar preços administrados represados, é bem provável que o novo Banco Central leve algum tempo para fazer a inflação convergir para a meta, mesmo que se mostre convincentemente comprometido com esse objetivo.

Tudo isso seria só o começo: a reconstrução institucional preliminar que, em seguida, permitiria reabrir uma agenda mais ambiciosa de medidas que possam destravar o crescimento econômico do País. Uma agenda que desapareceu de cena há anos.

É essa possibilidade de ampliar as perspectivas de expansão da economia que estará em jogo na eleição de outubro.

Recessão entra no horizonte da economia

Claudia Safatle
Valor Econômico 

Adiada a transição do consumo para o investimento

Recessão. Essa palavra voltou ao vocabulário dos economistas do setor privado como uma possibilidade concreta para os próximos trimestres, mas é vista como uma conclusão prematura por autoridades do governo. Depois de um crescimento de apenas 0,2% no primeiro trimestre do ano, as expectativas se consolidam para uma contração da atividade no segundo e no terceiro trimestres.

"Já estamos em recessão", adiantou, porém, o ex-diretor do Banco Central, Luiz Fernando Figueiredo, da Mauá Sekular Investimentos. Ele explicou: qualquer contração do PIB igual ou superior a 0,2% no segundo trimestre provocará um ajuste sazonal, pelo IBGE, nos dados do primeiro trimestre que passaria a registrar PIB negativo ao invés do crescimento de 0,2%. Isso caracterizaria uma recessão técnica, entendida como dois trimestres consecutivos de queda do produto.

Modelos estão sendo rodados pelos economistas da área financeira com os dados mais recentes da economia real: queda de 0,3% na produção da indústria em abril e retração mais acentuada, de 0,6%, da indústria em maio, segundo dados divulgados pela Anfavea (associação das montadoras), além de menos dias úteis para a produção em junho com o início da Copa do Mundo.

O resultado seria um PIB negativo entre 0,4% e 0,5% no segundo trimestre. Desempenho que gera uma herança estatística ("carry over") ruim para o terceiro trimestre, que também apresentaria taxa negativa de cerca de 0,25%. Nos últimos três meses do ano, a variação do PIB tenderia a zero. Se confirmadas essas projeções, a expansão da economia no último ano da gestão de Dilma Rousseff pode ficar abaixo de 1%.

Técnicos do governo não descartam de todo a possibilidade de recessão. Mas consideram cedo para tomá-la como um cenário provável. Examinando os resultados do IBC-Br de julho de 2013 até o último dado conhecido, de março deste ano, o que se constata é que o país estagnou: teve, na média, uma taxa negativa de 0,02%.

É difícil entender como a inflação resiste no patamar de 6% com uma economia tão fraca, assim como as expectativas de inflação também não cedem.

A resposta está na ata do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada ontem, que cita o "realinhamento dos preços domésticos em relação aos internacionais e dos preços administrados em relação aos livres". Ou seja, os destinos incertos da taxa de câmbio e dos preços represados pelo governo (energia, gasolina) concorrem para manter a expectativa inflacionária elevada para 2015. De março para cá os prognósticos do mercado colhidos pelo relatório Focus do Banco Central já agregaram mais de 1 ponto percentual na projeção de aumento dos preços administrados em 2015.

Em resumo: para levar o IPCA para a meta de 4,5% será preciso, antes, passar por uma inflação na casa dos 7% em 2015. A convergência da inflação, portanto, só pode ser vislumbrada de 2016 em diante, na avaliação de importantes fontes oficiais.

Outra questão que a ata ressalta é que mudanças relevantes na composição da demanda e da oferta agregada só devem ocorrer no médio prazo. Isso se traduziria pela transição do crescimento centrado na expansão do consumo para um modelo privilegiado pelo investimento. Apesar de essa mudança constar dos discursos oficiais, ela não se materializou.

O consumo das famílias e do governo cresceram ao limite e sustentaram a demanda agregada. Mas, agora, ambos bateram no teto. De pouco adianta o ministro da Fazenda, Guido Mantega, declarar como fez ontem que "a taxa de crescimento da economia seria maior se houvesse mais crédito para o consumo".

Com os níveis de confiança do consumidor e dos empresários próximos ao que estavam no auge da crise global de 2008/09, não há como incentivar as famílias a se endividarem mais frente ao risco de perda do emprego. Os bancos não vão expandir o crédito a contento nem o governo poderá acelerar seu consumo com aumento do endividamento público, por limitações fiscais.

O crédito externo que financiou o aumento da demanda - processo que levou o déficit em conta corrente do balanço de pagamentos para quase 4% do PIB - também rareou.

O aumento do investimento, porém, não ocorreu, deixando a economia estagnada e o governo sem instrumentos para reanimá-la.

A política monetária implementada pelo Banco Central elevou a taxa básica de juros em 3,75 pontos percentuais e seus efeitos começaram a aparecer. O aperto nos juros derrubou a demanda, mostrando que o juro como elemento central do controle da inflação continua eficaz. Não dobrou as expectativas porque elas estão sendo alimentadas por um eventual choque de preços administrados em 2015.

A elevação da taxa Selic não foi o fator preponderante a desestimular os investimentos. A queda vertiginosa da confiança dos empresários no futuro e a corrosão no relacionamento do setor privado com o governo é que estão na raiz da retração dos investimentos, apesar dos generosos financiamentos do BNDES a juros subsidiados.

Conforme a ata do Copom os juros devem ficar parados em 11% ao ano por um bom tempo. Os efeitos do aumento da Selic sobre a inflação, que são defasados e cumulativos, começaram a aparecer nos indicadores mais recentes da atividade econômica. Ficarão mais evidentes quando em agosto, no auge da campanha eleitoral, o IBGE divulgar o PIB do segundo trimestre.

O tempo econômico está andando mais rápido que o tempo político e isso preocupa o PT, principalmente se o desemprego começar a aumentar de forma visível antes das eleições. Dilma Rousseff concorre ao segundo mandato em uma situação bem mais adversa da que embalou sua campanha em 2010, quando o então presidente Lula turbinou o crescimento para 7,5%, deixou a inflação em 5,91% mas crescente e um ambiente de otimismo no país que elegeu sua sucessora. Foi uma herança ruim. A presidente entrega o primeiro mandato com menos crescimento, mais inflação e o pessimismo está disseminado no país.

Com inflação não se brinca

Correio Braziliense
Editorial 

Para quem pretende minimizar o impacto dos dados ruins produzidos pelos indicadores da conjuntura econômica, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) deve oferecer hoje um refresco. A inflação de maio, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), deve ter ficado em torno de 0,40%, conforme a maioria dos analistas. Não é pouco, mas é bem menos do que o índice de abril: 0,67%.
Mas ninguém deve se enganar, como fez o governo em boa parte do atual mandato presidencial. Não existe inflação boa. Mesmo sendo mais baixo do que o do mês anterior, o índice de maio vai empurrar o acumulado do ano para o teto de 6,5%, aumentando, portanto, a distância em relação ao centro da meta do Conselho Monetário Nacional (CMN), de 4,5%.

Esses números, acompanhados com lupa grossa pelos agentes do mercado financeiro, têm a sua versão popular nas bancas da feira e do supermercado. Qualquer um percebe logo que os preços da batata, do feijão e da carne, depois de terem subido por causa da entressafra, andam se recusando a voltar ao que eram no ano passado e, pior ainda, estão muito longe de dois ou três anos atrás. Esses são produtos de grande visibilidade popular, já que pesam no orçamento das famílias, mais ainda nas de menor renda.

Mas não são os únicos a incomodar. A soma de várias pequenas mordidas no poder de compra dos salários só não é pior do que a desconfiança de que o governo não está cuidando seriamente do problema. Nesse ponto, tudo fica mais difícil. Pois o que grassa por todos os cantos é a redução da disposição para o consumo e, na sequência, a retração dos investimentos na produção.

Depois das manifestações de rua de junho de 2013, o governo nem precisava de mais clareza quanto ao nível de insatisfação dos brasileiros nem quanto ao que anda causando tanta decepção com o cenário de maravilhas que vinha sendo vendido pelo marketing oficial. Mas a última pesquisa do respeitado Pew Research Center, dos Estados Unidos, realizada entre 10 e 30 de abril, revelou que o percentual de insatisfeitos com a situação do país passou de 49%, em 2010, para 72%, em 2014.

E, confirmando que com a inflação não se brinca, a corrida dos preços foi classificada como a principal preocupação por 85% dos entrevistados. Superou até mesmo a gravíssima situação da criminalidade e da saúde no Brasil. Nesse ambiente, é querer demais que os empresários coloquem capital para correr riscos, sem que percebam sinais seguros de mudanças à frente.

É certo que, desde abril do ano passado, o Banco Central retomou a política monetária menos frouxa, elevando a taxa básica de juros de 7,25% para os atuais 11% ao ano. Esse esforço começa a fazer efeito. Mas o preço pela demora em começar essa retomada é a lentidão com que a inflação vem cedendo e a capacidade de contaminação que isso tem sobre a atividade econômica em geral e - aí está perigo para os políticos - até mesmo sobre a avaliação que as pessoas fazem do governo. É uma lição para os próximos mandatários.

Parca poupança

Folha de São Paulo
Editorial 

Baixa taxa de recursos acumulados no país prejudica crescimento, mas não há sinal de que governo tenha estratégias para essa questão

Os dados mais recentes divulgados pelo IBGE não preocupam somente por indicar, para este 2014, um PIB minúsculo, talvez abaixo de 1%, e uma possível retração da indústria. Também sobram motivos para inquietação em relação aos próximos anos, nos quais a economia brasileira terá dificuldades para crescer mais.

O problema está na poupança interna do país, que caiu a 12,7% do PIB, o menor patamar deste século. Na comparação internacional, o Brasil é uma anomalia. Seu índice equivale a quase um terço da média verificada entre os emergentes e à metade do padrão global.

Sem uma poupança doméstica razoável, são necessários mais recursos externos para financiar os investimentos que a economia demanda para se expandir; se a oferta não aumentar, o avanço do consumo gera pressões inflacionárias.

A busca por fontes externas, contudo, não é livre de traumas. Países com deficit alto nas transações com o resto do mundo, como é o caso do Brasil, ficam mais expostos a desvalorizações abruptas da moeda e a choques na economia.

Por essa razão, o uso de verbas estrangeiras precisa ser limitado. Normalmente, isso é possível devido a uma dinâmica recorrente: investimentos trazem retornos para a economia, na forma de salários e lucros mais altos; dessa maneira, elevam-se os recursos à disposição do setor privado para, em tese, serem feitos novos investimentos.

No Brasil, contudo, a poupança interna não cresce na mesma proporção que em outros países. A explicação para isso não é consensual entre especialistas; seria simplista, ou mesmo errado, aventar uma particular predisposição dos brasileiros para o consumo.

Trabalho recente do Centro de Estudos de Mercado de Capitais, do IBMEC, por exemplo, aponta que um bom pedaço da redução recente da poupança decorreu da diminuição dos lucros retidos pelas empresas. É evidente que a tributação elevada do Brasil --a carga de 36% do PIB por aqui supera em muito a média dos emergentes, perto de 25%-- reduz a capacidade do setor privado de acumular recursos para depois investir.

O setor público também tem sua parcela de culpa, e ela não é pequena. Gastos excessivos em seu próprio custeio, a transferência de recursos para seguridade e outros programas sociais e as despesas com os juros da dívida deixam pouco lugar para investimentos; a poupança pública é negativa.

É preciso compreender essas dinâmicas para almejar algum sucesso na gestão econômica. Não se vê, porém, nem sombra de pensamento estratégico a respeito desses temas, cruciais para o Brasil chegar a taxas altas de crescimento --um objetivo ainda mais distante depois dos erros dos últimos anos.

Juros, cá e lá

Celso Ming
O Estadão 

A coluna de hoje fala sobre política monetária em dois lados do Atlântico, aqui e na Europa.

Ontem, na Ata do Copom, o Banco Central do Brasil não chegou a explicar por que manteve os juros básicos (Selic) a 11,0% ao ano. No comunicado emitido logo após a reunião do dia 28 de abril, avisara que os juros permaneceram os mesmos "neste momento", deixando, assim, a porta aberta para mudanças, tanto em uma direção quanto em outra. A ata não sustenta essa mensagem. Passa o recado de que os juros ficarão por aí por um bom tempo, até que o aperto monetário decidido anteriormente produza pleno efeito, supondo-se que leva entre seis e nove meses para isso.

A queda da atividade econômica (avanço fraco do PIB no primeiro trimestre e perspectiva de queda no segundo) parece ter causado profunda impressão no Banco Central, a ponto de levá-lo a mostrar mais firmeza.

Alguém poderia estranhar que o Copom deixou de olhar só para a meta de inflação e passou a trabalhar também para reativar a economia. É uma leitura equivocada. A paradeira da economia é fator que, por si só, poderá desacelerar a remarcação dos preços e, portanto, segurar a inflação. Isso não significa que a inflação em 12 meses não vá mais saltar para acima dos 6,5% ao ano neste e nos próximos dois ou três meses, como se espera. Significa apenas que a alta pode ser contida em alguma proporção que ainda se vai ver.

No mais, o Banco Central avisa que apenas espera que os efeitos do ciclo de aperto monetário dos últimos 13 meses ainda serão transferidos para a economia. A conferir.

A novidade vem do cão de guarda do euro. Além de derrubar os juros básicos de 0,25% para 0,15% ao ano, o Banco Central Europeu (BCE), presidido pelo italiano Mario Draghi (foto), optou pela prática de juros negativos, inédita em grandes bancos centrais.

Na faixa correspondente aos depósitos que os bancos deixam no BCE, os juros serão de -0,10% (menos 0,10 por cento) ao ano. Ou seja, nesses depósitos, em vez de receber, o banco depositante pagará juros. E ainda terá de enfrentar a desvalorização causada pela inflação. A exigência funciona como a cobrança de um imposto.

O objetivo é levar os bancos a emprestar dinheiro ao mercado e, com isso, ajudar a reativar a economia que por lá está mais parando do que até mesmo andando devagar. As decisões de ontem equivalem a um despejo de 400 bilhões de euros na economia do bloco.

Este é o último passo antes da opção ainda mais radical, que é a de injetar centenas de bilhões de euros por meio da recompra de títulos, operação conhecida como afrouxamento monetário quantitativo, semelhante à que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) começa a reduzir.

Se vai ou não levar a economia europeia e o emprego a engatarem a segunda marcha é coisa que ainda vai se ver. Esse despejo de euros no mercado tende a aumentar as disponibilidades de recursos também para o Brasil.

Três pontos

Miriam Leitão
O Globo 

O Banco Central usou um argumento inesperado, suspendeu uma expressão relevante e fez uma aposta duvidosa na ata da última reunião do Copom. Argumentou que os níveis de confiança “modestos” vão dar mais força à política monetária. Tirou a expressão “neste momento”, dando a impressão de que a parada será longa. E apostou que o investimento vai subir.

A ata traz esses recados. Ao retirar a expressão que havia sido usada no comunicado após a reunião deu um sinal de que essa interrupção de alta da taxa de juros será mais longa. O argumento do parágrafo 26 é de que “é plausível afirmar que, na presença de níveis de confiança relativamente modestos, os efeitos das ações de política monetária sobre a inflação tendem a ser potencializados”. O BC quis dizer que, como os índices de confiança empresarial e do consumidor estão caindo muito, haverá menos atividade econômica. E isso elevará o efeito dos juros altos no combate à inflação.

O Banco Central diz que o país vai crescer menos este ano. A convicção geral é mesmo de que o ano passado foi ruim e este está pior. Mas ele diz que “o consumo tende a crescer em ritmo mais moderado do que o observado nos anos recentes; e os investimentos tendem a ganhar impulso”. Mas está acontecendo o oposto. Os dados de investimento estão caindo e com a queda do nível de confiança — que o próprio BC acha que ajudará no combate à inflação — os empresários costumam adiar as decisões de investimento.

Com esses três pontos o BC explica a decisão de interromper a alta de juros. O BC tinha subido a Selic durante um ano e, no acumulado, a dose foi de quase quatro pontos percentuais. É muito forte. Natural que pare diante da queda do nível de atividade. É normal também que os juros, depois de alta forte, continuem produzindo efeitos na economia, mesmo após o ciclo de aperto estar encerrado. Mas um problema ainda não foi resolvido e esse é o desafio da autoridade monetária: a atividade está cada vez mais fraca, mas a inflação permanece alta.

O IPCA de maio a ser divulgado hoje será menor do que o índice de abril, mas o acumulado em 12 meses pode subir se o número vier acima dos 0,37% de maio do ano passado. Mesmo que a inflação continue caindo na taxa mensal, é difícil conter a alta anual porque as taxas desses meses em 2013 foram muito baixas: 0,26%, em junho, e 0,03%, em

julho. Qualquer valor acima disso, este ano, fará o índice se aproximar do teto de 6,5%, com risco de estouro. Até abril, o índice acumulado de um ano mede 6,28%; muito alto para um país que cresceu apenas 2,2% em quatro trimestres até março.

Ontem, a Anfavea anunciou os números da produção de veículos de maio, que ficou estagnada em relação a abril. Nos cinco primeiros meses do ano, há um recuo de 13,3%, em relação ao mesmo período do ano passado. As exportações caíram 31,6%. Depois do PIB fraco do primeiro trimestre, os sinais são de que haverá um novo número ruim no segundo tri. O cenário de estagflação é o pior dos mundos para qualquer banco central. Se subir a taxa, prejudica ainda mais o PIB. Por outro lado, a inflação alta tira renda das famílias e aumenta custos dos empresários. Não existe saída fácil.

Entre as ameaças para o futuro da inflação está a desordem do setor elétrico. Depois de negar que haveria novo socorro às distribuidoras, o governo já admite que será necessário novo financiamento para cobrir o rombo das empresas descontratadas. Os primeiros números são de que o segundo empréstimo pode chegar a R$ 8 bilhões, depois dos R$ 11,2 bi que foram tomados em março. Tudo isso é pressão inflacionária no futuro porque esses empréstimos serão pago pelos consumidores, em forma de aumento das contas de luz.

O maior constrangimento das atas do Banco Central é a ausência de previsão sobre quando a inflação voltará ao centro de 4,5%, taxa que ainda não foi vista durante a gestão do presidente do banco, Alexandre Tombini. O máximo que a autoridade monetária consegue dizer é que ela estará acima do centro no ano que vem, tanto no cenário de referência quanto no cenário de mercado. A omissão dificulta o trabalho do próprio BC porque mantém as expectativas de inflação elevadas.

Queda da indústria acentua a desaceleração do PIB

O Estado de S.Paulo

Importação de industrializados, queda da fabricação de veículos e piora do segmento de bens de capital empurraram para baixo a produção de manufaturados em abril, segundo a Pesquisa Industrial Mensal (PIM) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). A queda foi de 0,3% em relação a março e de 5,8% em relação a abril de 2013, afetando 20 dos 24 segmentos pesquisados e as 4 grandes categorias econômicas. Os resultados foram vistos como muito negativos pelas áreas econômicas do Itaú, do Bradesco e do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). Os primeiros indicadores coincidentes sugerem novas quedas na atividade.

Entre as tendências mais negativas está a do recuo generalizado dos bens de consumo - duráveis, semiduráveis e não duráveis; a queda de 21,3% da área automobilística, no quadrimestre, e de 0,5% nos bens de capital. As vendas de TVs e de cerveja evitaram um declínio ainda mais acentuado da produção.

Dado o aumento do grau de ociosidade na indústria, a consultoria LCA avalia a hipótese de que a desaceleração chegue aos preços, o que tornaria mais fácil algum recuo da inflação, no segundo semestre. Isso não afasta a perspectiva de a correção dos preços administrados pressionar a inflação após as eleições.
O declínio da produção de bens de capital e de bens associados à construção civil é, talvez, o resultado mais desanimador, pois indica recuo do investimento, já visível nos dados do IBGE sobre o PIB do primeiro trimestre.

O fato de a queda da indústria em abril ter sido inferior à média de previsões das consultorias econômicas não basta para infundir ânimo quanto ao futuro. Ao contrário, com taxas de juros altas, a confiança de empresários e consumidores dá sinais de declínio e subsistem estoques elevados, segundo especialistas. Um dos raros fatores positivos é a base de comparação, pois abril de 2014 teve dois dias úteis a menos do que abril de 2013, o que influenciou, para pior, os dados gerais.

Os bens intermediários, que mais pesam na pesquisa do IBGE, interromperam uma sequência de três meses de crescimento - item crítico da avaliação sobre o comportamento da indústria. É provável que o setor volte à recessão, neste ano, após crescer 2,4%, em 2013, sem compensar a queda de 2,6%, em 2012. É o resultado da política econômica sem foco em metas de longo prazo, cuidando apenas do dia a dia e de situações pontuais.