quinta-feira, junho 12, 2014

Abertura da copa e a palhaçada da FIFA

Adelson Elias Vasconcellos


No ano passado, nos jogos da seleção brasileira, a FIFA cometeu e repetiu em todos as partidas, uma indelicadeza imperdoável para com o país anfitrião, assassinando o Hino Nacional. Nem se exigiria que o tocasse por inteiro, por ser longo, mas que respeitasse a integridade da primeira parte. Provavelmente, esta poda ao hino brasileiro, seja única. Os demais, o hino é tocado por inteiro. E, sendo o Brasil o anfitrião, um mínimo de delicadeza em nada prejudicaria o evento.  O povo, reprovando de forma veemente a atitude antipática da dona FIFA, e não permitiu que os jogadores se desmobilizassem. 

Em razão do que houve na Copa das Confederações, era de se imaginar que as autoridades brasileiras imporiam à FIFA para a Copa, a exigênica de se respeitar a execução inteira da  primeira parte do hino. Ou que a própria FIFA reconheceria a mancada em 2013. Mas qual? Repetiu-se a mesma indelicadeza e o povo, primeiro vaiou e, em seguido, entoou a capela o restante do hino. 

Acho que a presidente Dilma deveria chamar Blatter e dizer-lhe: se a Copa é da FIFA , o hino é do Brasil, respeitem nossa tradição e toquem o hino em toda a sua primeira parte. 

Mas, antes do hino, a FIFA haveria de cumprir um papel para lá de  ridículo, patético até. Não ouvi nem li nenhum comentário antes desta crítica. Representa uma opinião exclusivamente pessoal. E acho que a grande maioria de quem assistiu pela tevê a cerimônia de abertura, também deve não ter gostado do que foi apresentado.  Foi uma encenação pasteurizada de uma ideia ruim sobre a cultura, a história e as tradições brasileiras. 

Nesta edição, apresentamos uma reportagem do jornal O Globo sobre a cerimônia de abertura publicada no início da semana, onde a organizadora tenta se justificar a razão pela qual deixou de fora a identificação mais internacional da cultura brasileira: o samba de raízes cariocas. É em cima deste ritmo que o brasileiro construiu sua identidade mundial ao lado do futebol, este ainda assim, construído somente a partir dos anos 50 do século passado.

Tudo bem que ali não desfilassem escolas de samba, mas me respondam: em que o samba de roda é mais tradicionalmente brasileiro do que o samba carioca?  Que apresentassem as diferentes manifestações culturais do país, frevo, axé, samba de roda, a dança e música regional dos gaúchos, se entende: são manifestações regionais que se incorporam às nossas raízes culturais. Mas é injustificável que o samba e o pagode dos morros e favelas cariocas tenham sido expulsos pela FIFA na cerimônia de abertura.  

Que a cerimônia tenha seu apelo internacional porque a Copa, no fim de tudo, é um evento FIFA, se entende. Porém, digam lá: qual país organiza, como ninguém no planeta, um evento ao vivo com raiz popular? Espetáculo este aplaudido, admirado e elogiado no mundo inteiro. Por que não se convidou um carnavalesco para participar da organização da cerimônia de abertura? Garanto que o espetáculo teria outra cor, outro sabor, e seria elogiado pelo mundo todo. Apresentar manifestações culturais  de forma tão pouco caracterizadas, numa mistureba que não transmitiu emoção nem a quem estava no estádio, convenhamos que a FIFA, mais uma vez, desrespeitou o Brasil. 

Que os dirigentes da entidade máxima do futebol tenham, e com razão, suas divergências em relação ao governo brasileiro pela forma incompetente como organizou o país para o mundial, que a elr dirija suas críticas e advertências. Porém, o povo brasileiro não pode ser vitimado pela incompetência de seu governo e, pelo fato de sempre ter prestigiado o Mundial, onde quer que ele se realizasse,  a cerimônia de abertura foi  uma descortesia inadmissível. É o momento que os países anfitriões têm para mostrarem ao mundo a sua cara, parte de sua história, de sua cultura, de suas raízes. Neste aspecto, não conheço ninguém melhor do que nossos carnavalescos cariocas. Jamais a FIFA. 

Na reportagem de O Globo destaco este trecho:

“Ao ouvir a pergunta sobre o samba, a belga Daphné Cornez, diretora-artística do espetáculo, fez uma longa pausa e, com um sorriso amarelo, alegou ser "uma responsabilidade muito grande" arriscar-se no principal ritmo do país.

— Não poderia fazer melhor do que os brasileiros — esquivou-se.”

Caramba, senhora Daphné, a troco do quê a senhora não convidou um dos carnavalescos cariocas  então para participar na montagem da cerimônia? Por que teimar em ofender aos brasileiros deixando de lado seu rótulo mais mundial em termos culturais que é o samba carioca? 

Infelizmente, a FIFA  não aprendeu que, mesmo sendo um evento esportivo de que participarão trinta duas seleções estrangeiras, que será transmitido para todos os cantos do planeta, a organização da cerimônia de abertura deve respeitar as características de cada país. Portanto, a festa era para ser com as cores brasileiras, não pasteurizada, não descaracterizada, não pela metade. No caso específico do Brasil, temos técnica, competência e expertise suficiente para fazer um espetáculo ao vivo com qualidade superior. Basta ver os temas que as escolas de samba apresentam a cada ano, transmitindo emoção e agitando a quem assiste. E o espetáculo do carnaval é visto pelo mundo inteiro, e não precisamos deixar nada  de lado só  para “fazer bonito”.

Só não desmereço ainda mais o espetáculo horroroso organizado pela FIFA na abertura, é  em respeito aos artistas brasileiros que se dedicaram em darem o melhor de si para representar o seu país. Afinal, eles apenas cumpriram um roteiro estranho e de péssimo gosto em relação às nossas tradições. 

E fica claro, também, que a motivação politiqueira do governo brasileiro para sediar a Copa, tendo aberto mão de nossa soberania, sequer condicionou o respeito ao hino e às manifestações culturais do país. Assim, não apenas pela péssima organização do evento e a inversão de prioridades com fins eleitoreiros, mas por ter sido tão ridiculamente submissa à imposições de uma entidade estrangeira, não merece de fato governar o país. Precisamos de presidentes que governem o Brasil para os brasileiros e não para si mesmos. 

Ganhando a Copa ou não, este é o único resultado que não interessa depois. A vitória em campo pertence aos jogadores, comissão técnica e torcida. Não depende de governante meia pataca  nenhum. A hora do acerto de contas é em outubro. É lá que devemos dar um basta a toda a politicalha que está assentada no poder.  

Uma presidente desrespeitada num estádio branco
Antes do início do jogo, as câmeras passeavam pela torcida, e não me possível contar mais do que 10 negros no estádio. Talvez até tivesse mais, mas seguramente a torcida da Croácia era mais numerosa do que a presença de pessoas negras na torcida. E este não é o público do futebol brasileiro. Nos nossos  estádios existia a miscigenação que é a característica maior do nosso povo. Triste. 

Mas, mais triste, lamentável foi o xingamento à presidente Dilma Rousseff. Que fosse vaiada, vá lá, faz parte da nossa tradição. O único presidente da História brasileira não vaiado em estádio de futebol, foi um general ditador, Emílio Médici. Os outros jamais foram poupados. 

Porém, nada justifica a falta de educação e civilidade para a forma como a senhora Rousseff foi xingada e desrespeitada. Isto é inadmissível, quanto mais num evento transmitido para o mundo inteiro.

Aqui no blog, nunca nos furtamos a criticar a senhora Rousseff enquanto presidente, mas nunca lhe faltamos o respeito que a instituição que ela representa, requer. Ela ali está representando o país, e não  foi colocada contra a vontade dos eleitores. Foi eleita democraticamente, pelo voto livre e secreto. Portanto, por mais que lhe enderecemos críticas por sua atuação como presidente, e esta crítica é democrática, jamais a ninguém cabe a licença para avançar além desta crítica, destratando e xingando de forma tão grosseira. 

Seria oportuno que a imprensa desse destaque a esta descortesia e até fizesse uma campanha de esclarecimento. Tem gente no Brasil precisando aprender a ser educado. Muita gente, aliás. Democracia não contempla barbárie!

O jogo repetiu a estreia contra Turquia em 2002
Em 2002, o Brasil conquistou sua quinta estrela. Mas o jogo de estreia contra a Turquia foi ainda pior que o de hoje contra a Croácia.  Ganhamos com as calças na mão. Independente do adversário, acho que a Croácia seja muitíssimo melhor do que a Turquia, o Brasil começou jogando mal, tomou o primeiro, depois virou para 2 a 1. E, coincidência das coincidências, também contou com um pênalti sem vergonha a seu favor. 

Apesar disto, acho que a seleção tende a jogar melhor, na medida em que avance na Copa. Se será campeã ou não, é um detalhe. Valeu pela grande melhora de Oscar (o melhor em campo), e pelas substituições inteligentes feitas pelo Felipão no segundo tempo. 

Uma dúvida: onde foi parar o futebol vistoso do Paulinho, hein? Ou ele melhora muito contra o México, ou perde o lugar. Fernandinho está pedindo passagem.

Metrô de Salvador: símbolo de uma era

Adelson Elias Vasconcellos

Há uma notícia de ontem, do qual se falou muito, mas se deixou um aspecto bem característico do que vem a ser a gestão petista no poder. A senhora Rousseff, a exemplo de seu mentor e tutor, não dispensa um palanque. Podendo, veste as tamancas da candidata à reeleição, esquecendo de que ali estava na qualidade de “presidente de todos os brasileiros” e manda ver no vernáculo mais demagógico que os miolos lhe permitem. Ataca seus adversários quando estes, na função que a sociedade brasileira lhe confiou, e que qualquer democracia chinfrim garante, que é direito de fazer oposição e de, portanto, criticar o governo de plantão. Aliás, neste aspecto, o PT, como ninguém, sabe fazer oposição, e o faz da forma mais xiita possível, chegando ao ponto da sabotagem. 

Retomo. Em Salvador, dona Dilma inaugurou o Metrô da capital baiana.   Uma obra com um atraso de “apenas” 14 anos. Como o PT está no poder por doze anos, deve-se imputar ao governo de Lula e Dilma o descaso com o transporte público de qualidade para o bom povo da Bahia. Há poucos dias, Lula revelou o que ele pensa sobre transporte público de qualidade. Simplesmente, considerou o metrô coisa de babacas. Assim, que o pobre, que é quem mais precisa de transporte público, que ande de jumento ou vá a pé, se quiser.

Por que foco nesta obra em especial?  Primeiro, pelo descaso com que Lula e Dilma sempre dispensaram às obras de mobilidade. Em 2007, já reclamava desta necessidade, em razão do fantástico volume de carros novos que estavam sendo despejadas nas cidades.  Já há sete anos não se conhecia um mínimo de planejamento para capacitar as vias urbanas de condições para suportarem o tráfego intenso, quanto mais de um programa razoável para qualificar e universalizar o transporte público. 

Foi preciso a FIFA colocar, entre as exigências para sediarmos a copa do mundo, obras de mobilidade urbana para que o governo Lula e, depois, Dilma se dedicassem a fazer o mínimo dos mínimos. 

Infelizmente, para azar dos brasileiros, muitas das obras previstas no projeto original apresentado à FIFA, foram retiradas e, do que restou para ser feito, metade ainda está em obras. 

Em diferentes reportagens de diferentes veículos, reproduzimos ao longo dos últimos dois meses, um relato detalhado do falso legado do qual tanto se ufana a senhora Rousseff.  E ficou comprovado que, muito do que foi inaugurado, considerado como pronto e acabado, na verdade,  foi entregue aos pedaços. Há aeroportos que funcionarão com puxadinhos, outros que só serão concluídos alguns meses depois da copa, e há até aeroporto cuja ampliação sequer saiu do alicerce.  Em relação as obras o quadro consegue ser ainda pior. 

Mas voltemos ao metrô de Salvador. O PT levou longos doze anos para concluir aquilo que encontrou já em andamento. E o pior: inaugurou uma obra incompleta. 

Eis aí uma das muitas razões para o atraso que o país vem sofrendo nos últimos anos. São programas e mais programas lançados a esmo, promessas de verbas vultosas que serão destinadas  em favor dos brasileiros, mas que teimam em não andar, em não sair do papel e dinheiro que nunca chega para que as obras tenham início e sequencia. 

O PAC, lançado em eventos com cerimônia, pompa e majestade, continua sendo um projeto de ficção. Cerca de 40% sequer tem projeto, jamais saíram do papel, muito embora a grana continue jorrando para lá e para cá. 

A infraestrutura brasileira simplesmente ruiu. O país poderia muito bem exportar muito mais tivesse rodovias, ferrovias e terminais aeroportuários com um mínimo de condições. E nem vou entrar no mérito da bestial burocracia estatal. 

Podíamos atrair muito mais investimentos em novas fábricas, gerando empregos de nível superior e salários mais elevados. Contudo, a indústria, ano após definhando, nas mãos desta gente, definha e se torna menos relevante no peso da economia.  Inovação? Palavra proibida. Que nossa gente se contente com o que conseguimos, dentro da nossa miséria, produzir. 

E, de certa forma, é possível fazermos a leitura precisa dos constantes pibinhos. Não crescemos porque os investimentos em infraestrutura não se realizam. E porque a infraestrutura é deficiente,  os investimentos vão sendo jogados para um futuro incerto e desconhecido.  

Assim, o metrô de Salvador caracteriza bem o nível de mediocridade com que o país vem sendo desgovernado há doze anos. E comprova também que jamais o PT levou para o Planalto um plano mínimo de desenvolvimento. Em parte, se entende que seja assim. Desenvolvimento melhora a qualidade de vida das pessoas, as torna mais informadas, mais esclarecidas. E isto é tudo o que o PT mais abomina. Não por outra razão ele detesta a liberdade de expressão,  e tenta, a qualquer custo,  podar a liberdade de imprensa. Para eles, a única verdade a ser admitida é a oficial, nem sempre de acordo com os fatos. 

O pouco que o povo pode tornar-se mais esclarecido já foi suficiente para mais de 70% desejaram mudanças, de preferência, com mudanças de governo. Ninguém suporta mais tanta cretinice, tanta impostura, tanta mentira, tanta propaganda falsa, tanta promessa para um futuro que nunca chega, pois o que se percebe, ao longo do tempo, é a deterioração gradativa dos serviços essenciais.

O tal decreto imposto por Dilma Rousseff, é uma tentativa espúria de se aparelhar os Executivos  em todos níveis da administração pública.  Tenta-se reduzir a representatividade a um grau inferior quando se deveria procurar aperfeiçoá-la e torná-la mais próxima do eleitorado.  

E, antes que o petismo avance ainda mais em seu projeto hegemônico, cujas características marcantes verte um totalitarismo estúpido, é preciso mesmo mudar. Para corrigir o retrocesso implementado pelo PT, em todas as áreas da sociedade, acreditem, não será uma tarefa das mais fáceis. Demandará muitos governos para desinfetar o pensamento nacional deste atraso em que foi mergulhado, até porque o petismo continuará livre, leve e solto por aí, para sabotar seus “adversários”. 

Daí porque é indispensável que o governo seja conduzido a partir de 2015, por gente afeita a um projeto de país. Precisa gerar desenvolvimento e informação. Quanto mais se fizer neste sentido, maior defesa terá a nossa democracia contra as tentativas de sabotagem. Quanto mais educado e informado estiver o povo, ou sua maioria, menor o risco do PT continuar sua marcha hedionda. O Brasil está pronto para crescer e amadurecer, e o primeiro passo será empurrar para o lixo as ideias e ações obstinadamente antidemocráticas que o petismo encarna. 

É tarde para se arrepender

J. R. Guzzo
Revista EXAME  

Com a Copa e a Olimpíada, o governo pretendia exibir ao mundo a fabulosa obra construída pelo ex-presidente Lula e sua sucessora, Dilma Rousseff. O que conseguiu foi o espetáculo que está aí

Se arrependimento matasse, e é sabido que nunca matou ninguém, é certo que o Brasil estaria com as vagas dos cemitérios esgotadas, já há muito tempo, por gerações e mais gerações de nossos mais notáveis administradores públicos. Mas o arrependimento só deixa para trás o desastre que os arrependidos criaram - ainda assim, quando há alguém que se arrependa da barbaridade que fez, algo praticamente desconhecido na vida política brasileira. Ficamos, enfim, só no prejuízo - e sem o menor beneficio de outra velha máxima, segundo a qual é errando que se aprende. 

No Brasil, é errando que se erra, e perde seu latim quem imagina que a experiência adquirida com os erros pode trazer o conhecimento para chegar aos acertos Nada melhor para ilustrar essas melancólicas constatações do que o "desastre perfeito" que o Brasil, com seu governo, suas empreiteiras de obras públicas e seus grupos de interesse privado, conseguiu armar para a Copa do Mundo de 2014 e para a Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro. Também faremos bonito, por causa dos dois eventos, nos próximos rankings mundiais de roubalheira, estupidez, incapacidade absoluta de planejar coisas elementares, impotência para executar trabalhos previstos com anos de antecedência, desperdício e, sobretudo, uma desvairada resistência diante da mais delicada critica em relação a qualquer aspecto dessa calamidade toda.

Pois ai está. Chegou a Copa. a Olimpíada está chegando e o governo consegue exatamente o oposto do que pretendia com essas duas aventuras. Queria exibir ao mundo inteiro, para bilhões de olhos, a fabulosa obra técnica, social e criativa construída pelo "Brasil Potência" do ex-presidente Lula e sua sucessora, Dilma Rousseff - responsáveis diretos pela prosperidade, pelo progresso e pela subida do Brasil rumo ao futuro. O que conseguiu na vida real foi o espetáculo que está ai. Segundo a presidente Dilma. essa enciclopédia de inépcia escrita ao longo dos dois governos do PT seria consequência, apenas, do "complexo de vira-lata" vivido pelos maus brasileiros - um sentimento de inferioridade, descrença e desânimo que ignora nossas grandes conquistas e riquezas, as quais são a inveja do mundo, a pujança das matas etc. O Brasil, para acalmar a presidente, pode até perder o tal complexo. Ficará apenas com sua vida de vira-lata.

É incômodo, para a corte de Lula, Dilma e PT, aparecer como realmente é na frente do mundo. Sempre sustentaram que tudo o que havia de errado no Brasil era apenas uma fabricação da "grande mídia" de direita, que a presidente acaba de incluir como um de seus alvos de ataque durante a campanha eleitoral. Mas agora quem está falando tudo o que os meios de comunicação brasileiros têm falado durante os 12 últimos anos é a mais prestigiada mídia internacional. Ela insistiu em ignorar, até há pouco tempo, qual quer observação negativa em relação ao governo de Lula e do PT; sua atitude editorial sempre foi um dos grandes orgulhos do Brasil oficial, De uns tempos para cá, porém, o coro mudou de tom - e passou a registrar cada vez mais os desatinos do Palácio do Planalto e do universo que gira a seu redor. Agora, com Copa e Olimpíada, é pau todo dia.

Numa entrevista à Folha de S.Paulo, o perito em urbanismo e arquitetura Michael Kimmelman, que há 20 anos escreve no New York Times, traçou um admirável resumo do que acaba de ver por aqui. Um pais que não dá prioridade ao legado de uma Copa ou de uma Olimpíada, disse ele, faz papel de bobo - e foi isso, precisamente, o que o Brasil fez. Para encarar um desafio desse porte, concluiu Kimmelman, as cidades têm a obrigação de fazer um plano claro do que, no fim das contas, elas querem, Londres, em 2012, fez isso. O Brasil não soube fazer.

Os governos Lula-Dilma tomaram o partido das empreiteiras, dos interesses particulares e da dupla Fifa-COI, aos quais cedeu o poder de decidir sobre questões urbanas de primeira importância. Estão colhendo agora os resultados do que plantaram.

Só queremos o hexa

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

É possível que a gente ganhe a final da Argentina; mas o projeto de celebração política do governo Dilma/Lula foi perdido

Vereadores de São Paulo, de bronca porque não receberam ingressos para a abertura da Copa, adiaram a votação de um importante projeto de lei que regula a construção de imóveis na cidade. Por falta de uma boca livre, tomaram uma decisão política até sustentável.

Já em Brasília, deputados fizeram o contrário. Aproveitaram um gesto político — a oposição à medida provisória que cria os conselhos populares — para ganhar uma folga geral durante o mês de Copa. Em protesto contra essa tentativa de formar uma estrutura paralela de controle do Estado, até uma boa atitude, abandonaram o local de trabalho para só voltar às votações quando o governo Dilma retirar a medida. Por coincidência, claro, dá para acompanhar os jogos, digamos, junto às bases.

Assim é a Copa entre nós. O mote é: todo mundo gosta do jogo e da seleção, e isso é o mais importante, certo?

Errado. A maioria gosta, mas os atores sociais e políticos envolvidos sempre procuram tirar alguma coisa extracampo.

Começa pela decisão de sediar a Copa, uma escolha de governo, portanto, uma opção política. Por que os governos fazem isso? Para promover a celebração do país no cenário internacional.

Sim, há toda uma conversa sobre ganhos econômicos e legados, mas isso é muito discutível.

Um país que está na pior, seja por razões econômicas, seja por política, não consegue sediar uma Copa. Só conseguem os países desenvolvidos e/ou emergentes que passam por um bom momento e cujos governos pretendem exibir isso ao mundo.

Foi o caso, evidente, da África do Sul, que promoveu a primeira Copa naquele continente. Seu governo quis mostrar que ali estava um país capaz. Foi o caso das Olimpíadas da China, cuja liderança quis se apresentar ao mundo como a nova potência.

A Alemanha não precisava demonstrar nada a ninguém, mas em 2006 o governo quis fazer a Copa do país reunificado.

Sete anos atrás, quando se candidatou e levou a Copa, o Brasil de Lula vinha bem e já estava com lugar garantido no grupo dos principais emergentes. Por que não consagrar isso com uma Copa, especialmente no país pentacampeão, amante fiel do jogo?

Também teve a conversa do legado, mas era basicamente um projeto político. Isso vinha mais ou menos bem até pouco tempo atrás. As pesquisas mostravam clara maioria a favor da realização do Mundial. A população começava a se animar e a maior preocupação era com o time, que não engrenava.

No dia da inauguração, a percepção se inverteu. A população está superconfiante na seleção, fechou com Felipão, como se viu na final da Copa das Confederações, mas perdeu o encanto com a realização do Mundial. A maioria agora acha que não era uma prioridade e que o governo deveria gastar seu dinheiro com educação, saúde e segurança.

Como tudo por aqui, o ambiente mudou depois das manifestações de junho do ano passado.

E ficamos assim: a celebração em campo é muito provável; é possível até que que a gente ganhe uma final da Argentina, suprema felicidade; mas o projeto de celebração política do governo Dilma/Lula foi perdido.

A presidente está na defensiva diante das críticas que surgem aqui e lá fora ao processo de organização. Está tão na defensiva que precisou apelar para um patriotismo sem sentido. Críticas são consideradas ataques ao Brasil. E a esses “inimigos” Dilma atribui o desejo de ver catástrofes.

Ora, ninguém disse isso. O que muitos disseram, fora do governo, é que havia casos de dengue em número superior ao “normal” nesta época do ano. E há. E que o sistema elétrico estava trabalhando no limite, havendo risco de uns 25% de falta de energia em certos lugares. E há.

Daí a dizer que essas pessoas queriam ver os turistas estrangeiros com dengue, jogados em hospitais públicos sem energia, como sugeriu Dilma, em rede nacional, vai alguma diferença, não é mesmo?

Também é sintomática a reação da militância Dilma/Lula. Se é óbvio que muita coisa não ficou pronta, o pessoal responde: E daí? O importante é que vai ter jogo. Diante do fato de que já ocorre espera longa em aeroportos, o pessoal responde: também há demora nos desembarques em Miami...

Quer dizer, se é tudo meia-boca, estão reclamando de quê, seus...?

Mas dá para entender a bronca de Dilma e de Lula. Tanto esforço e, na hora, nem podem fazer uma bela celebração nos estádios?

Tudo considerado, não vamos cair no extremo oposto. Tem muita coisa que não saiu bem, mas queremos mesmo é ganhar a Copa. Melhor ainda: com um golaço de Messi, superado por dois espetaculares de Neymar, que tal?

Brasil mostra a sua cara. Está feia

Clóvis Rossi
Folha de São Paulo

O orgulho 'patrioteiro' com que foi recebida a indicação à Copa transforma-se em uma razoável dor de cabeça

No dia de 2007 em que o Brasil foi oficialmente escolhido para sediar a Copa do Mundo, a comitiva brasileira exalava orgulho patriótico por todos os poros, sob o comando de um certo Luiz Inácio Lula da Silva.

Era tanto "patrioteirismo" que, no discurso em que comemorou a designação, Lula tirou o terno de presidente e vestiu o verde e amarelo de torcedor fanático, com direito a uma cutucada no presidente da Associação de Futebol Argentino, Julio Grondona, sentado nas primeiras fileiras do auditório: "O Brasil orgulhosamente organizará uma Copa do Mundo pra argentino nenhum colocar defeito".

O ambiente de exaltação patriótica (coisa que me horroriza sempre) era explicável: a escolha para agasalhar a Copa era a grande chance de o Brasil mostrar a sua cara. Era um Brasil que estava na moda no mundo e parecia destinado a uma escalada definitiva rumo ao topo do planeta, o que, de resto, a revista "The Economist" sacramentaria com sua famosa capa de 2009 em que o Cristo Redentor do Rio virava foguete em plena decolagem.

Outro parêntesis: se tivesse algum parentesco com o Taleban, a "Economist" teria queimado os exemplares com aquela capa.

Sete anos depois, no entanto, não são apenas (nem principalmente) os argentinos que estão botando um e mil defeitos no país da Copa.

São alguns brasileiros como Marcello Serpa, sócio da agência de publicidade AlmapBBDO, para quem a Copa trouxe um holofote para as deficiências de infraestrutura e para a desigualdade social no país, a ponto de acentuar o mau humor e de prejudicar a marca Brasil, como afirmou durante evento promovido por esta Folhana terça-feira (10).

São também estrangeiros dos mais diferentes quadrantes, como Shannon Sims, que fez pesquisas no Brasil durante dois anos para o Instituto para Assuntos Mundiais Atuais: "Organizar o maior evento esportivo do mundo era, supunha-se, uma oportunidade para o Brasil demonstrar sua organização, desenvolvimento e competência. Mas, com corrupção abundante, infraestrutura cambaleante e constantes crimes nas ruas, muitos brasileiros sentem que essa oportunidade oferece mais coisas más que boas".

Sims compara o Brasil que aguarda a Copa com um estudante que espera uma prova para a qual não se preparou.

De todo modo, vai ter Copa, ao contrário do que se cantava no ano passado e em alguns momentos deste ano, mas não será a Copa das Copas, como pretende a propaganda.

Afinal, se um dos jornalistas escalados para a Copa, caso de Brian Winter (da agência de notícias Reuters), sofre por cinco horas e vinte minutos para sair do aeroporto de Cumbica e chegar ao seu hotel, não dá para ser a Copa das Copas.

A questão seguinte, proposta por José Sámano (do jornal espanhol "El País"), um dos melhores jornalistas esportivos da Espanha, é se, "com tantos problemas de fundo, convém medir se, nestes tempos, a bola ainda servirá como sedativo ou, ao contrário, chegou a hora de revisar profundamente o modelo".

Respostas a partir de hoje, com o veredito final em outubro.

Patrão Fifa

Agamenon Mendes Pedreira
Revista VEJA

Com medo de ser criticada pela imprensa golpista, a presidenta Dilma Roskoff resolveu se antecipar e já ensaiou todos os micos que o Brasil vai pagar durante a Copa. O apagão está confirmado e o apaguão também, porque vai faltar água. Outra providência tomada (tomada trifásica, é claro) pela INFRAERO é o caos aéreo que foi exaustivamente testado e já está funcionando a todo o vapor nos aeroporcos brasileiros. 

Para receber bem as hordas de turistas, a presidenta-gerenta também criou um novo programa assistencialista, o Meu Primeiro Assalto. Assim, os gringos que estão chegando há pouco de fora vão ser assaltados pela primeira vez na vida no Brasil. Graças a esse programa de inclusão marginal, o governo pretende criar uma nova fonte de renda para os criminosos excluídos. Os quebraquebras. uma das manifestações mais espontâneas da nossa cultura, também vão marcar presença nos estádios superfaturados. Superfaturados no padrão Fifa, é claro. 

O pau vai comer e não vai ser lá em casa, para tristeza da Isaura, a minha patroa! O clima é de pânico contido e desespero generalizado. Além do transporte ruim e das ruas esburacadas, o torcedor vai ter que ir pros estádios de armadura para não apanhar da polícia e dos baderneiros. E, se o pacato cidadão cair no meio de uma manifestação e acabar espancado, já era: não vai ter vaga em nenhum hospital público! E a segurança dos jogadores? Imagine se um índio revoltado acertar uma flechada na bunda do Hulk, o jogador-melancia.

Enquanto os empreiteiros e o governo correm para ver se os estádios e aeroportos ficam prontos até a Olimpíada, a população também está correndo, mas noutra direção, pra fugir da polícia.

A população de São Paulo está torcendo pro Neymar "fazer chover" no jogo contra a Croácia. Quem sabe assim o Reservatório da Cantareira enche de novo dos black blocs. Pelo menos, a barbárie está funcionando perfeitamente no Brasil e, o que é melhor, no padrão Fifa de boçalidade. Os baderneiros profissionais se anteciparam ao calendário da Copa e já começaram a quebrar tudo o que veem pela frente agora. São as "eliminatórias". Os donos de empresas rodoviárias estão com medo de não sobrar nenhum ônibus pros grevistas torcedores tacarem fogo quando a Copa começar.

E eu continuo aqui na Granja Comary, aviário-sede da CBF Confederação Brasileira de Frango. Graças às minhas conexões com a cartolagem, arrumei uma vaga no galinheiro onde estão hospedadas as penosas que formam a base da alimentação de nossos craques. O rigoroso Felipão, um técnico disciplinador, exigiu que os jogadores vão cedo pra cama: eles têm que dormir com as galinhas. Mas quem acorda com o cacarejar das criaturas bicudas chegando da balada sou eu.

Luís Felipe Pré-Scolari
O Brasil pode não ganhar a Copa, mas o técnico Felipão ganhou uma baba! Felipão sozinho fez mais comerciais de TV que o Fábio Porchat, o Luciano Huck e o Neymar juntos. Incapacitado de atender a todos os convites publicitários que recebeu, Felipão foi obrigado a passar alguns anúncios para o seu fiel assistente, o Murtosa, que, verdade, é o Baixinho da Kaiser. Por falar nisso, tem uma coisa que eu não entendi até agora. Naquele comercial da Sadia, o técnico da seleção retira do forno um suculento frango assado. Em vez de entregar o frango ao goleiro Júlio Cesar, Felipão oferece a iguaria ao seu bigodudo amigo e, subitamente, puxa fora a bandeja, deixando o guloso Murtosa na mão.

O Felipão cozinha pro Murtosa? Ele e o Murtosa moram juntos naquela casinha? Será que eles são um casal gaúcho afetivo? A impressão que dá é que a Sadia realizou a primeira propaganda brasileira com duas criaturas do mesmo sexo e da mesma seleção. Não vejo a hora de assistir na TV aos dois amigos inseparáveis fazendo anúncio de lingüiça e peru. Da Sadia, é claro.

Minha abreugrafia não autorizada!
Eu desafio os decanos da MPB (Muito Pouca Biografia) Caetano Velhoso, Chico Buarque de Hollanda e o Rei Roberto Carnes, o maior censor romântico do Brasil, a expor sua abreugrafia como eu estou fazendo aqui para os meus dezessete leitores e meio (não se esqueçam do anão)!

Aliados em fuga

Dora Kramer
O Estado de São Paulo

Depois de 40% dos convencionais do PMDB explicitarem sua discordância com a renovação da coalizão com o PT para a reeleição da presidente Dilma Rousseff, significando que parte robusta da mão de obra do partido não fará campanha para ela, agora é a vez de o PSD se rebelar contra a aliança.

O desconforto vem crescendo na mesma proporção da queda dos índices de intenção de votos e do aumento do grau de rejeição da presidente nas pesquisas.

Os dados apurados pelo Datafolha sobre São Paulo foram considerados definitivos: no maior colégio eleitoral do País, ela aparece praticamente empatada com o tucano Aécio Neves no primeiro turno e no segundo perderia tanto para ele quanto para Eduardo Campos por larga margem.

Em uma conversa marcada para ontem com o ex-prefeito Gilberto Kassab, o secretário-geral do PSD, Saulo Queiroz, seria o porta-voz da cobrança por uma definição imediata e radical. Quer dizer o seguinte: não apenas por uma aliança com o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, assumindo o lugar de vice na chapa pela reeleição, mas um rompimento no plano nacional.

Uma volta atrás na palavra empenhada de que o partido estaria com a presidente em quaisquer circunstâncias. Em São Paulo a união com o PSDB seria uma mera "soma de conveniências", com suspensão temporária da antipatia mútua entre Alckmin e Kassab.

Em relação à eleição para a Presidência, o argumento para a ruptura é o seguinte: o compromisso do PSD nunca foi com o PT e sim com Dilma Rousseff; na medida em que sua candidatura "derrete" (sim, essa é a expressão usada), o partido não pode nem deve se sentir obrigado a derreter junto.

O ambiente interno no PSD é de rebelião contra a aliança, sentimento que pode vir a se expressar na convenção do partido marcada para o fim do mês.

O cenário ideal na avaliação dos pessedistas seria Kassab aceitar romper com Dilma e negociar uma aliança formal com o PSDB e a indicação do ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles para vice na chapa de Aécio Neves.

Pelo sim, pelo não, fato é que o tucano havia decidido anunciar seu vice antes da convenção do partido marcada para o próximo sábado. Mas agora faz suspense e deixa no ar a possibilidade de deixar o anúncio para depois, a fim de avaliar se insiste na chapa puro-sangue ou se consegue atrair algum aliado que acrescente capital eleitoral.

Fonte segura. 
Defensor do financiamento público de campanha, o PT já arrecada boa parte desse tipo de recurso por meio do dízimo que os filiados empregados na máquina pública são obrigados a pagar ao partido.

Ao fim e ao cabo, significa transferência do dinheiro do contribuinte - petista ou não - para os cofres da agremiação. No início do primeiro governo Lula, a oposição levantou essa questão, mas estavam todos tão encantados com o "governo operário", ao qual tudo era permitido, que ninguém deu atenção.

Faca no peito. 
A ex-senadora Marina Silva tem todo o direito de não gostar da decisão do PSB de São Paulo de apoiar o governador Geraldo Alckmin.

Só não dispõe da prerrogativa de tentar impor sua vontade à resolução de seção regional de um partido ao qual escolheu se filiar quando sua própria legenda não obteve registro na Justiça Eleitoral.

Marina ameaça não participar da campanha de Eduardo Campos em São Paulo se a convenção do PSB não mudar a resolução do diretório para seguir a orientação dela.

Se a ideia da ex-senadora era comandar, deveria ter-se filiado a um partido que lhe desse a legenda para concorrer à Presidência, e não se oferecer ao PSB, aceitando a condição de coadjuvante de luxo. Pela ordem natural das coisas, protagonista será, assim que a Rede Sustentabilidade obtiver o registro.

Aí terá legitimidade para mandar e desmandar.

A democracia bolivariana do PT

Revista ÉPOCA
Editorial

A presidente Dilma Rousseff usou a última reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, na semana passada, para defender o decreto que implanta a Política Nacional de Participação Social e o Sistema Nacional de Participação Social. O sistema prevê a criação de "conselhos populares", formados por integrantes de movimentos sociais, que passarão a opinar sobre os rumos e as políticas de órgãos do governo federal e agências reguladoras. Segundo Dilma, tal política é parte da construção da democracia no país. "Somos a favor da consulta", disse ela. "Muitas cabeças pensam mais do que só a cabeça do Executivo."

Por trás das belas palavras a favor da ampliação dos canais de participação democrática, no momento em que as ruas exprimem uma insatisfação difusa, há uma oportunista e perigosa tentativa de subverter a ordem constitucional vigente - tudo pela via de uma única canetada presidencial. Segundo a Constituição de 1988, a representação popular se dá pela manifestação do voto direto e secreto. Ela estabelece também que as consultas populares, como referendos e plebiscitos, assim como os projetos de lei de iniciativa popular, têm de passar pelo Congresso Nacional.

O decreto de Dilma parece ter sido inspirado por uma tentativa de substituir o regime de democracia representativa, simbolizado pelo Congresso, por uma canhestra democracia direta de inspiração bolivariana, que encanta setores do PT. Frustrado no propósito de convocar uma Constituinte para reescrever a carta constitucional, o PT procura agora caminhos para contorná-la e impingir ao país uma visão singular de democracia e se incrustar, depois de 12 anos de governo, ainda mais no aparelho de Estado. Os tais movimentos sociais, muitos deles financiados com dinheiro público, são massa de manobra usada pelo PT para atingir seus fins políticos. Fazem bem os partidos de oposição e os juristas que se movimentam para derrubar no Congresso e no Supremo tribunal Federal (STF) essa exorbitância institucional decretada por Dilma.

Congresso defende a democracia representativa

O Globo
Editorial 

É fácil prever o que acontecerá se este golpe de gabinete não for derrotado: imagine-se uma comissão controlada por militantes do MTST instalada no Ministério das Cidades

A maneira como o Decreto-Lei 8.243 foi baixado, na surdina, denunciou o cuidado do governo em não chamar a atenção. O Planalto, portanto, sabia que o lançamento da Política Nacional de Participação Social (PNPS) e a instituição de uma miríade de comissões, conselhos, fóruns, “mesas” e similares na administração direta e estatais não transitariam sem críticas da sociedade. Mesmo assim tentou, e ainda tenta, tornar o fato consumado.

O Congresso, o Planalto driblou por meio do decreto-lei. Mas, felizmente, não está sendo fácil o governo Dilma contrabandear para dentro do Estado brasileiro um esquema de vários tentáculos pelos quais a máquina pública será ainda mais aparelhada por grupos de aliados políticos e ideológicos, disfarçados de representantes da “sociedade civil". Tudo isso enquanto parte do poder do Congresso é desidratado e transferido para o Sistema Nacional de Participação Social (SNPS), criado pelo mesmo decreto — e a ser tripulado por companheiros indicados por comissários.

Pela importância da medida, capaz de alterar o regime de democracia representativa estabelecido na Constituição, este não é assunto para decreto-lei. Seria, mas numa ditadura.

A oposição apresentou projeto de decreto legislativo para revogar o ato da presidente, e obteve apoio também de parlamentares da base do governo. O presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB-RN), não o colocou em pauta, mas propôs a Dilma revogar o 8.243 e enviar as mudanças em projeto de lei. É a melhor alternativa, também apoiada pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Diante da obstrução dos trabalhos que a oposição passou a fazer, em protesto contra o conjunto desta obra prima do autoritarismo, Alves e Renan suspenderam na terça as sessões nas duas Casas até depois do final da Copa. Dilma terá este tempo para uma reflexão.

Esta espécie de Cavalo de Troia da democracia direta, de pedigree chavista, é empurrado para dentro do Estado por frações radicais do PT, aproveitando-se do mau momento político-eleitoral da candidata Dilma.

O principal arauto do decreto, ministro Gilberto Carvalho, a quem esta enorme sanguessuga ideológica ficará subordinada, segundo o decreto, tenta amenizar, mencionando as comissões e entes semelhantes que já existem. Acontece que alguns deles como Anvisa, uma agência, e Conanda — comissão ligada a assuntos do menor de idade — são maus exemplos, pois costumam tentar assumir poderes do Legislativo.

A própria constitucionalidade do PNPS, trombeteada por petistas, é discutível. Em artigo na “Folha de S.Paulo”, o jurista Ives Gandra garantiu que o decreto-lei fere a cláusula pétrea constitucional da autonomia e independência dos Poderes. É fácil prever o que acontecerá se este golpe de gabinete não for derrotado. Basta imaginar uma comissão controlada por representantes do MTST instalada no Ministério das Cidades.

Molecagem em CPI

Ricardo Noblat

Relator de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) tem o direito de interrogar primeiro quem se apresente ali para depor. Mas o que faz há algumas horas o deputado Marco Maia (PT-RS) não passa de molecagem.

Como relator da CPI mista da Petrobras, Maia preparou 130 perguntas a serem respondidas pela presidente da empresa, Graça Foster.

Perguntas que se repetem, perguntas inúteis que nada esclarecem e perguntas que Foster já respondeu nas três vezes anteriores em que esteve no Congresso este ano para ser ouvida sobre a compra da refinaria de Pasadena.

Foto: Agência Câmara 
Deputado Marco Maia. 

Com isso, Maia pretende cansar seus colegas de CPI, especialmente os da oposição, evitando assim que eles façam perguntas embaraçosas.

Está sendo bem sucedido na tarefa.

Deputados e senadores querem voltar aos seus Estados ainda hoje para assistir por lá a estreia do Brasil na Copa. Vários deles estão indo embora.

CPI chapa branca, como a da Petrobras, não leva a nada.

O curioso é que o governo que se diz empenhado em combater toda sorte de roubalheira atue para impedir a instalação de CPIs. Ou para esvaziá-las.

Pão e circo

Merval Pereira
O Globo 

A Copa do Mundo de futebol começa hoje em São Paulo sem que dois personagens centrais de sua organização possam sequer aparecer no telão do Itaquerão, ou terem suas presenças no estádio anunciadas, justamente os que pensavam em retirar do evento dividendos políticos, cada qual à sua maneira: a presidente Dilma, candidata petista à reeleição, e o presidente da Fifa, Joseph Blatter, também almejando mais uma recondução ao cargo.

Outro grande ausente da cerimônia de abertura será o ex-presidente Lula, responsável pela construção do novo estádio e torcedor fanático de futebol, mas sem condições de se expor ao público sem correr o risco de uma vaia. Aliás, é de se notar que nenhum candidato à Presidência da República pretende dar as caras no estádio.

Situação distinta da que passou o então governador de Alagoas, Fernando Collor, que escolheu o desfile de escolas de samba de 1988 para testar sua popularidade, e foi amplamente vitorioso na ocasião, pavimentando o caminho para sua eleição à Presidência da República no ano seguinte.

Aconselhados pela vaia que levaram na abertura da Copa das Confederações, Blatter e Dilma preferiram o anonimato, ambos utilizando-se de cerimônias em recinto fechado para fazerem seus pronunciamentos oficiais. A presidente Dilma usou a prerrogativa do cargo para se defender das críticas em cadeia nacional de televisão, sem possibilidade de reação da plateia.

Blatter enfrentou a oposição europeia à sua permanência no cargo ao comandar a cerimônia oficial da assembleia da Fifa, e não contou com a solidariedade da presidente Dilma, que pretextou uma providencial gripe para não comparecer à reunião como prometera a ele.

O fato é que as acusações de corrupção contra a direção da Fifa vêm aumentando de tom à medida que se descobrem indícios fortes de que a escolha do Qatar para sede da Copa de 2022 teve interferências indevidas e subornos dos delegados. O que deveria ser a apoteose do projeto iniciado há sete anos, quando a Fifa escolheu o país do futebol para sediar a Copa do Mundo, transformou-se em um pesadelo para o governo e para a Fifa, e mostrou que o povo brasileiro não é exatamente o que pensavam que era: acrítico diante da possibilidade de ver os principais craques do mundo da bola ao vivo em suntuosos estádios.

A confirmação da intenção eleitoreira do governo brasileiro está na escolha de 12 sedes para a Copa, em vez das tradicionais oito. E na tentativa, revelada recentemente, de termos nada menos que 17 sedes, para que a miríade de partidos da coalizão governamental pudesse tirar proveito político do campeonato.

O povo brasileiro vai dando um exemplo de como é possível separar o joio do trigo sem perder a naturalidade.

Adora futebol, está apoiando a seleção brasileira, mas não está com ânimo de esquecer seus problemas apenas por causa do futebol.

Fora os vândalos, que se perderam na ameaça de "não vai ter Copa", e os aproveitadores sindicais, que se utilizam do momento para chamarem a atenção para suas reivindicações sem pensar no coletivo, não há quem não saiba separar os jogos das jogadas políticas como a da presidente Dilma - que utilizou um instrumento de comunicação do Estado para defender seu governo das críticas, como se a maioria que vê abusos e desarranjos na organização da Copa possa ser classificada apenas de "pessimistas".

A tentativa de "transformar em motivo de orgulho nacional obras inacabadas, gastos superfaturados e a absoluta falta de capacidade de gestão deste governo", como disse em nota oficial o PSDB, deve ter se transformado em um tiro no próprio pé, pois é difícil acreditar que a "bronca" da presidente nos "pessimistas" os faça mudar de opinião.

Da mesma maneira que Joseph Blatter tentou calar as vaias no estádio de Brasília na Copa das Confederações dando uma lição de educação aos torcedores, a presidente na noite de terça-feira tentou convencer a população de que não há motivos para desencantos.

Não entenderam até agora que, em vez do folclórico e dócil povo brasileiro que se encantaria com a magia da Copa do Mundo, há uma sociedade inquieta em busca de um futuro que não se resuma a pão e circo.

COMPULSÃO À MENTIRA: segundo Ipea, Dilma inflou dado sobre diminuição da miséria.

Gustavo Patu
Folha de São Paulo

A presidente Dilma Rousseff usou números inflados sobre a redução da miséria no Brasil em seu pronunciamento de rádio e TV sobre a Copa do Mundo.

Dados do próprio governo põem em xeque a afirmação de que, "em uma década", foram retirados "36 milhões de brasileiros da miséria", apresentada na mensagem presidencial da terça-feira (10).

Estudo publicado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, vinculado ao Palácio do Planalto) aponta que, de 2002 a 2012, o número de miseráveis (ou extremamente pobres) caiu de 14,9 milhões para 6,5 milhões.

Editoria de Arte/Folhapress


Trata-se, portanto, de uma queda de 8,4 milhões no número de pessoas que vivem na miséria ao longo dos primeiros dez anos da administração petista, abaixo da cifra mencionada por Dilma.

Publicado em outubro, o documento informa que o cálculo seguiu o parâmetro adotado na maior parte das estatísticas oficiais: a linha de renda mensal até R$ 70, definida em 2011. Para os demais anos, o valor foi corrigido pela inflação.

Outras metodologias citadas no texto do Ipea também chegam a números muito inferiores aos do pronunciamento da presidente.

Até com uma renda mensal de R$ 140, definidora da pobreza mais ampla, o contingente cai de 41 milhões para 15,7 milhões de brasileiros na década, uma diferença de 25,3 milhões.

OUTRA CONTA
O número apresentado por Dilma repete o apurado em outra conta, divulgada no ano passado pelo Ministério do Desenvolvimento Social, que não mediu a evolução da miséria ao longo do período citado no pronunciamento da presidente ao país.

"Em 2011, havia 36 milhões de pessoas, beneficiárias do Bolsa Família, que estariam na miséria caso sobrevivessem apenas com sua renda familiar", segundo afirma um balanço do programa Brasil Sem Miséria.

A cifra, portanto, saiu de uma subtração hipotética dos benefícios do programa Bolsa Família da renda de sua clientela em um determinado momento –e não da comparação entre a quantidade de miseráveis antes e depois do programa.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento Social, ainda restavam, naquele ano, 22 milhões de beneficiários abaixo da linha de miséria. Com o Brasil Sem Miséria e o Brasil Carinhoso, que, na prática, são ampliações da ação do Bolsa Família, esse grupo deixou a extrema pobreza, diz o governo federal.

Procurados pela Folha, o Palácio do Planalto e o Ministério do Desenvolvimento Social defenderam o critério.

A pasta afirma que os dados foram retirados do cadastro único utilizado nas políticas de assistência, no qual estão registrados os brasileiros de baixa renda.

A defesa não contesta as conclusões do Ipea, baseadas na pesquisa por amostra de domicílios realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

De acordo com a mensagem enviada pelo governo, as pesquisas do IBGE captam a pobreza "em um ponto determinado do tempo", enquanto o cadastro único mensura "o contingente daqueles que estão ou estarão na pobreza em um determinado intervalo de tempo".

"O cadastro é a única fonte que, além de mensurar, permite ao poder público agir para a redução da pobreza, nas várias dimensões em que ela se manifesta", diz o texto do ministério.

Opacidade tributária

O Estado De S.Paulo 
Editorial 

No final de 2012 foi aprovada a Lei 12.741, considerada na ocasião como uma conquista da transparência: tornava obrigatório constar, nos documentos fiscais entregues ao consumidor por ocasião da venda de mercadorias e serviços, "o valor aproximado correspondente à totalidade dos tributos federais, estaduais e municipais". Ao pagar a conta do supermercado ou o conserto do carro, por exemplo, o cidadão saberia quanto iria para os cofres públicos. A ideia era dar ciência, de forma simples e habitual, sobre quanto o Estado, nas suas três esferas, leva do contribuinte.

No entanto, na semana passada, o governo federal adiou mais uma vez a obrigatoriedade dessa informação. Ao ser sancionada a lei, no dia 8 de dezembro de 2012, o prazo para que os estabelecimentos comerciais se adequassem à nova legislação era de seis meses, isto é, a partir de junho de 2013. Por medida provisória, posteriormente convertida em lei, adiou-se a obrigatoriedade por um ano. Agora, o governo federal adiou-a por mais seis meses, através da Medida Provisória 649. Até janeiro de 2015, a fiscalização será apenas orientadora, não havendo penalidade para quem não informar na nota fiscal o valor dos tributos.

O novo adiamento ocorreu simultaneamente à publicação do Decreto 8.264, de 5 de junho de 2014, que regulamenta a lei, especificando como deve ser feita a menção à carga tributária. Pelo decreto, acrescentou-se um detalhe - a segregação dos impostos por ente federativo - para contornar uma situação que estava preocupando a União: o receio de ela ficar com a imagem de ser o único arrecadador de impostos no País. O decreto determina que "a informação, nos documentos fiscais, relativa ao valor aproximado dos tributos federais, estaduais e municipais que influem na formação dos preços de mercadorias e serviços, constará de três resultados segregados para cada ente tributante, que aglutinarão as somas dos valores ou porcentuais apurados em cada ente".

A rigor, a regulamentação propõe uma informação mais detalhada, que em princípio beneficiará o cidadão. Resta saber quando o consumidor poderá exigir essa informação, pois se vê que não está fácil essa lei sair do papel. Conforme apurou reportagem do Estado, a Receita Federal estava "reticente quanto ao modelo que já está sendo usado por algumas empresas porque dá margem à interpretação de que todo valor recolhido vai para o governo federal". Ora, essa interpretação é um exercício intelectual da própria Receita. Até o momento, as notas fiscais que já oferecem esse dado informam apenas o "total dos impostos pagos". 

Presumir que os clientes façam a associação dos impostos com a União, com o Estado ou com o município é algo que escapa do âmbito da Receita, que não deveria estar tão preocupada com os efeitos políticos de uma lei aprovada pelo Congresso. O que fica claro, sem margem para interpretações, é que o governo federal está receoso de como o consumidor analisará essa informação, acessível de forma habitual, no momento da compra. Momento este repleto de intensidade política, pois é nessa hora que o cidadão tem contato direto com a economia do País, com o alto custo de vida e com o tamanho do Estado. Muito bom seria se o receio sobre os efeitos políticos dos impostos não surgisse apenas no momento de informá-los aos contribuintes, mas especialmente quando o governo propõe o seu aumento e, se não for pedir demais, no momento de gastá-los.

Não é necessária muita interpretação para desvelar o sentido do decreto e da medida provisória. Ele foi explicitado, de forma indireta - mas muito clara -, pelo ministro da Micro e Pequena Empresa, Guilherme Afif. Ao comentar os efeitos da informação sobre os tributos na nota fiscal, disse: "Ao saber que paga imposto em tudo, o cidadão vai ser muito mais exigente em relação aos serviços públicos". Em tempos eleitorais como os de agora, o governo federal extrema a sua prudência, evitando tudo que possa se transformar em pólvora. Que as "novidades" fiquem para depois das eleições.

De malabarismo em malabarismo, todos perdem

Correio Braziliense
Editorial 

A responsabilidade fiscal - ou, precisamente, a falta dela - cada vez preocupa mais. Depois de recorrer a truques contábeis para fechar, no ano passado, a contabilidade da meta de superavit primário fixada na lei orçamentária, conforme entendimento do próprio Tribunal de Contas da União (TCU), o governo dá seguidas mostras de insistir em fazer malabarismos com gastos e receitas.

No início desta semana, soube-se que 1,4 milhão de beneficiários do abono salarial do PIS/Pasep no exercício 2013/2014 ainda não haviam feito o saque a que têm direito. Coincidência ou não, o governo cancelou, no mês passado, campanha publicitária que alertaria para a necessidade de sacar o benefício até 30 de junho. A partir dessa data, os trabalhadores dependerão da Justiça para liberar o dinheiro.

É difícil provar que a demora no aviso aos beneficiários foi proposital, para manter os recursos em caixa e ajudar a compor o superavit primário do governo. Mas é igualmente difícil tirar a razão de especialistas que levantam essa suspeita. Ainda mais agora, que a desconfiança é, de certa forma, reforçada, com o montante do primeiro lote de devoluções do Imposto de Renda frustando as expectativas, ao revelar-se 28% menor do que o de 2013.

Mais estranho é que um governo obstinado no incentivo ao consumo como forma de fazer crescer o PIB tenha retido tanto dinheiro justo às vésperas de uma Copa do Mundo no país. E com o "pibinho", como já passou a ser denominado o Produto Interno Bruto brasileiro, rolando ladeira abaixo. Ontem mesmo, o Banco Mundial reduziu de 2,4% para 1,5% a expectativa de crescimento do país para este ano, bem abaixo da média de 4,8% estimada para o conjunto das nações em desenvolvimento.

Não bastasse, o IBGE revelou, também ontem, que a indústria está produzindo menos e, consequentemente, empregando menos. O recuo da produção industrial foi de 5,8% em abril, em relação ao mesmo mês de 2013. Já a retração do mercado de trabalho no setor bateu em 2%. Pois é nesta hora que o governo segura a devolução do Imposto de Renda recolhido a mais no ano passado. E não foi pouco o dinheiro que, com essa manobra, a Receita Federal deixou de injetar na economia. Se apenas empatasse a atual liberação com a primeira do ano passado, seriam mais R$ 750 milhões disponíveis para consumo.

É certo que está esgotado o modelo de crescimento focado no consumo. Aliás, o mau exemplo vindo de cima, com um governo perdulário incentivando o cidadão a ir às compras, vai escrevendo uma história com final infeliz para as duas partes. Uma se vê às voltas com um superavit primário que não consegue cumprir. A outra, que também gastou mais do que recebeu, vê sua capacidade de honrar compromissos desaparecer no cadastro de inadimplentes do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), no qual 1,2 milhão de pessoas tiveram os nomes e CPFs inscritos apenas entre abril e maio últimos. A receita para sair do imbróglio, toda dona de casa conhece: só gastar o que se tem.

Nem mesmo reza brava é capaz de resolver situação tributária do país

 Raul Haidar
Revista Consultor Jurídico

Nada menos que três projetos de reforma tributária foram apresentados ao Congresso no governo anterior. Nenhum deles teve andamento,  simplesmente porque nada se fez para isso. Não tinha o Executivo qualquer interesse no assunto.  Não por  acaso, todos foram apresentados no fim de fevereiro ou no começo de março, logo após o Carnaval, assim demonstrando que se tratava apenas de uma fantasia.

Ninguém ignora a necessidade  urgente de uma  reforma digna desse nome. Há que se reduzir a carga tributária, diminuir a burocracia e garantir uma razoável estabilidade do sistema. Não temos mais como suportar o constante aumento de arrecadação sem que o PIB não cresça  acima do mesmo volume.

No quadro atual, em que  a carga de tributos supera o aumento do PIB, isso significa apenas que a sociedade está cada vez mais onerada, mais pobre,  enquanto o poder público gasta além do que arrecada.

A absurda  e insuportável burocracia , que obriga o empresário a dar informações já contidas em dados anteriormente encaminhados — como o caso das declarações que se encontram em notas fiscais eletrônicas — e exige inscrições fiscais já existentes em diversos outros órgãos, o preenchimento de guias desnecessárias  que, como as jabuticabas, só existem no Brasil, precisa urgentemente ser reduzida. Tal maluquice apenas onera os custos das empresas e, não raras vezes, estimula a corrupção.

Por outro lado, não é razoável que a legislação tributária mude a todo instante, de tal forma que não se sabe o que vai ser exigido amanhã, pois no dia seguinte algum burocrata maluco vai criar novo formulário inútil que, se não entregue, sujeita o contribuinte a pesadas multas.

Todo esse quadro pode sugerir ao empresário que se dirija ao templo, igreja, tenda, mesquita ou sinagoga, para ali fazer sua prece, oração, reza, despacho ou pajelança.

Parece brincadeira, mas infelizmente não é. Já há quem procure ajuda ao padre, bispo ou monsenhor. Ou peça o mesmo ao rabino, sheik, pai de santo, pajé. Todos enxergam o fisco como diabo, demônio, satanás, capeta,  belzebu ou Asmodeu. Afinal, em matéria tributária já vivemos no inferno.

Não importa mais se podemos recorrer ao juízo ou tribunal, seja ele de segundo grau, superior ou Supremo. Este último, aliás, resolve furto de galináceos, briga de vizinhos e importantes casos de corrupção, mas parece não ter tempo para as causas tributárias. Não resolve, por exemplo, as questões da guerra fiscal, das alíquotas e convênios, da substituição tributária. Enfim, não soluciona o que interessa aos contribuintes que, no final das contas, são os que pagam tudo, inclusive os salários, férias e aposentadorias de todas essas excelências,

A justiça que se pretende obter no Judiciário é o único serviço que se paga adiantado sem saber o que, quando e se vai mesmo receber o que se pede. Como Dante já afirmou na Divina Comédia, ao deparar-se ante a porta do inferno: perdei toda esperança vós que entrais.

Claro está que a reforma tributária de que necessitamos passa por  amplas mudanças  constitucionais. Isso pode ser viabilizado mediante emendas ou em  nova constituinte. Neste caso, pode-se cuidar da reforma política, da previdenciária etc., numa ampla revisão das regras impostas em 1988 que, ante o tempo decorrido, já não satisfazem as necessidades de um país democrático e de uma sociedade mais consciente de seus direitos, pelos quais já aprendeu a reclamar.

Há vários impostos que precisam ser eliminados por serem injustos, inflacionários ou inibidores do desenvolvimento nacional.  Tal é o caso do IPVA,  ITCMD e ITR. Outros precisam ser unificados, como o IPI e o ICMS, ante a repetida incidência de ambos sobre produtos e mercadorias, assim provocando mais inflação.

Pode-se concluir, portanto, que o nosso sistema tributário está falido, superado e inadequado  para a sociedade em que vivemos. Resta-nos apenas o caminho democrático, por mais demorado e penoso que possa ser.

Nesse caso, não podemos buscar  solução em protestos, marchas ou manifestos. O voto, essa poderosa arma em nossas mãos, não pode servir para brincadeiras e, mais um a vez, entregarmos nosso futuro a celebridades passageiras, ignorantes festeiros ou contumazes meliantes. O legislativo é o  retrato da sociedade. Esse retrato pode ser o do progresso, do desenvolvimento e da felicidade. Mas pode ser também o de um faminto monstro a devorar, mais uma vez, as nossas esperanças. 

Carga tributária, centralização e serviços públicos

Maílson da Nóbrega
Revista VEJA

Nos últimos 25 anos, a carga tributária saltou de 22,2% para 36,3% do PIB, e por isso há tempos se demanda uma reforma para reduzi-la. Tem aumentado a sensação de piora dos serviços públicos, o que justifica a demanda cm favor de sua melhora, como nas manifestações que pediam escolas e hospitais de "padrão Fifa". Uma terceira demanda, menos conhecida, é a da descentralização de receitas em prol dos governos subnacionais sob um novo pacto federativo.

Há verdades e inverdades em tudo isso. As verdades estão no aumento da carga tributária e na piora dos serviços públicos. Basta utilizar estradas, portos e aeroportos para se convencer da deterioração. As inverdades nascem do desconhecimento da origem da elevação da carga tributária, localizada basicamente no aumento dos gastos sociais. A sociedade apoia a ampliação dos benefícios, mas poucos percebem o seu custo, qual seja a explosão da despesa pública e, assim, da carga tributária.

O Brasil se tornou um país de transferências sociais, que são benefícios para aposentados, pensionistas e destinatários de programas como o Bolsa Família. Estudo recente de Mansueto Almeida, um dos nossos melhores especialistas na área, mostra que, nos últimos quinze anos, tais benefícios responderam por 82% do crescimento dos gastos não financeiros da União como proporção do PIB. Se considerados os programas de educação e saúde, chega-se a 93%. Logo depois da Constituição de 1988, que é a grande responsável por esse processo, os gastos não financeiros da União alcançavam cerca de 10% do PIB. Subiram para quase 19% em 2013, quando os programas sociais equivaliam a 62,7% dos mesmos gastos.

Há quem pense que a carga tributária aumentou por causa dos gastos correntes, mas eles caíram 31,5% nos últimos quinze anos relativamente às despesas financeiras da União como proporção do PIB. Os 39 ministérios são uma extravagância, mas não haverá queda relevante da despesa se forem reduzidos, embora seja preciso diminuir seu número para melhorar a gestão e combater ineficiências, fisiologismo e corrupção.

Na verdade, o brutal aumento da despesa dos últimos anos se deve muito mais à opção por um padrão europeu de gastos sociais, sem dispormos de condições similares de renda e riqueza. É perda de tempo, pois, lutar por uma redução da carga tributária sem antes enfrentar a questão desses gastos, pelo menos para estancar sua insustentável expansão. Será preciso rever a política de reajustes reais do salário mínimo, que impacta metade dos gastos do INSS e a maioria das transferências. Quanto aos serviços públicos, uma redução drástica das indicações políticas e a privatização competente dos serviços de transportes contribuiriam para melhorar sua qualidade.

A demanda por descentralização da receita tem rala justificativa. Seria preciso também descentralizar a despesa, mas nem sempre os serviços podem ser mais bem prestados localmente. O Bolsa Família fica melhor sob gestão da União do que pulverizado em mais de 5 000 municípios. O mesmo se dirá da Previdência, que representa perto de 40% das despesas não financeiras da União, e não há lógica alguma em transferi-la para estados ou municípios. Não há como transferir responsabilidades típicas da União como estabilidade da moeda, preservação da concorrência, comércio exterior, defesa, entre outras. Com quem ficaria a atual dívida federal? A ideia de descentralizar é boa em tese, mas fora da realidade. 

No campo tributário, a rigidez do gasto impede a redução da carga. Consideradas todas as despesas, inclusive as de pessoal e as financeiras, a União despende obrigatoriamente cerca de 90% das receitas. Daí a redução dos investimentos federais dos últimos anos. O foco terá de ser a simplificação do sistema tributário, que abrangeria a substituição dos atuais tributos sobre o consumo, incluindo o ICMS, por um imposto sobre o valor agregado (IVA) nacional, como sucede nos mais de 150 países que adotam essa forma de tributação. O sistema tributário é provavelmente a maior fonte de ineficiência da economia brasileira.

Precisamos mudar o foco das demandas eleger líderes capazes de promover as reformas.

O BNDES como trava

Celso Ming
O Estado de São Paulo

Há três anos, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, garantiu que resolveria o problema da falta de financiamentos das obras de infraestrutura, por meio do lançamento de debêntures, títulos de longo prazo. Foi outra promessa não cumprida.

Ontem, no Estadão, o empresário Marcelo Odebrecht se queixou de que não há financiamento de longo prazo no Brasil. O governo responde com superativismo do BNDES, regado a recursos do Tesouro, e acha isso uma glória. E reclama dos bancos privados, que não colaboram com mais esse interesse nacional.

O equívoco começa quando nossas autoridades não reconhecem que o BNDES também é obstáculo ao desenvolvimento de um mercado de longo prazo no Brasil porque os bancos privados não têm como competir com recursos subsidiados de longo prazo fornecidos pelo Tesouro.

Não é verdade que os bancos privados fogem de qualquer engenharia financeira que se encarregasse de oferecer financiamentos de longo prazo com recursos de curto prazo. Praticamente todos os bancos operam no financiamento habitacional que tem até 30 anos para voltar em suaves prestações mensais, a partir de recursos devidos à vista, por meio dos mecanismos da caderneta de poupança.

Para outras finalidades, não há recursos de longo prazo que possam lastrear financiamentos também de longo prazo, porque os juros internos são altos demais, pelas razões já conhecidas: porque o governo não faz a parte dele na política fiscal (administração das despesas) e deixa o Banco Central sozinho na tarefa de combater a inflação com o único instrumento de que dispõe: a política de juros.

Daí se conclui que um mercado de capitais capaz de mobilizar recursos de longo prazo só terá condições de se desenvolver no Brasil quando os juros internos forem derrubados aos níveis vigentes no mercado internacional. Isso, por sua vez, exige arrumação da casa.

Essa arrumação não se limita às questões fiscais. Odebrecht advertiu que não basta resolver a questão de funding (fornecimento de recursos). É preciso, também, capacidade gerencial no governo. Praticamente todas as obras públicas levam atrasos impressionantes. As da transposição das águas do Rio São Francisco já deveriam ter terminado há 4 anos e hoje não se sabe quando vão terminar. Salvador acaba de inaugurar seu metrô com apenas quatro estações, em construção há 14 anos. "Os bancos não aceitam o risco da contrapartida pública que vem de Parcerias Público-Privadas (PPPs)", explicou Odebrecht.

E há o resto. Há as distorções da política econômica, que esfrangalham o caixa das empresas que mais precisam investir, como a Petrobrás e a Eletrobrás.

É em horas assim que todos se lembram de que há trilhões de dólares disponíveis lá fora à cata de aplicações. Mas esse também não é um recurso desejado por este governo, que passou os últimos três anos se queixando da excessiva entrada de capitais de curto prazo e, nos fóruns internacionais, denunciou a guerra cambial e os tsunamis monetários.

O próximo governo, qualquer que seja ele, terá de dar prioridade aos investimentos de infraestrutura. Mas só terá sucesso nisso se equacionar os enormes problemas que impedem o financiamento das obras públicas.

Brasil tem o sexto maior imposto para empresas

O Globo

Alíquota chega a 34%, segundo levantamento da consultoria KPMG feito em 130 países

SÃO PAULO - O Brasil tem a sexta maior alíquota de imposto para empresas entre 130 países pesquisados, segundo um levantamento feito pela KPMG Internacional divulgado ontem. De acordo com a consultoria, a carga tributária no Brasil chega a 34%. Em primeiro lugar, ficaram os Emirados Árabes, com alíquota de 55%, enquanto à frente dos países que menos cobram imposto das empresas apareceu Montenegro, com carga tributária de 9%.

Considerando somente os países do G-20, que englobam as vinte maiores economias do planeta, o Brasil sobe para o terceiro lugar, atrás apenas de Estados Unidos (40%) e Japão (35,64%), apontou o levantamento da KPMG.

— O estudo mostrou que, em relação à edição anterior da pesquisa, o Brasil vem mantendo a alíquota em 34%, enquanto nove países aumentaram seus impostos e 24 os reduziram — explica Pedro Anders, sócio da KPMG da área de tributos. — Apesar de não ter elevação nos últimos anos, o Fisco brasileiro tem aprimorado os instrumentos eletrônicos de fiscalização para melhorar a arredação.

O levantamento da KPMG mostra que a alíquota no Brasil é alta, estando no patamar daquelas cobradas em países ricos. Além disso, lembra Anders, apesar da estabilidade na carga tributária para empresas, nos últimos anos os critérios de apuração têm sido modificados.

A KPMG chegou aos 34% considerando os 15% da alíquota básica de Imposto de Renda da Pessoa Jurídica, mais 10% sobre o lucro que exceder R$ 240 mil e 9% da Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido (CSLL).

Um grande problema no Brasil, lembra o especialista da KPMG, é calcular a carga de impostos indiretos cobrados, que apresentam uma complexidade muito grande. Outro desafio, diz Anders, é que, embora as leis tributárias sejam locais, hoje os negócios são globais:

— Empresas que operam internacionalmente acabam tendo problemas. Vide o caso da Vale, que acabou indo questionar na Justiça o pagamento de imposto sobre lucros obtidos por suas subsidiárias no exterior.

A advogada Ana Cláudia Utumi, sócia responsável pela área tributária do escritório TozziniFreire Advogados, avalia que esse patamar de 34% é muito elevado, e o impacto é conhecido: imposto alto acaba travando muitos negócios.

— Essa alíquota é um desestímulo aos novos negócios e acaba travando o reinvestimento de empresas no país. Muitas companhias estão preferindo reinvestir na África ou Ásia, por exemplo — explica a advogada.

POR ANO, 2,6 MIL HORAS PREENCHENDO FORMULÁRIOS
Ela lembra que para bancos e seguradoras, por exemplo, a carga tributária chega a 40%. Na média, a carga tributária brasileira atual representa 38% do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país).

— Ou seja, quase 40% do que o país produz vai para tributos — diz Ana Cláudia.

A advogada ressalta que a complexidade da legislação tributária brasileira faz com que, no país, as empresas levem mais tempo para cumprir obrigações básicas, como preencher formulários:

— Dados do Banco Mundial mostram que as empresas gastam 2.600 horas por ano com preenchimento de formulários e pagamento de impostos. Na Bolívia são 1.080 horas. No México, as companhias gastam 450 horas com isso, e no Chile, 300 horas. Nos Estados Unidos, esse tempo é de 170 horas. Ou seja, no Brasil a burocracia também ainda é um grande problema — afirma ela.

Os 10 países que cobram o imposto mais alto das empresas
1) Emirados Árabes (55%)
2) Estados Unidos (40%)
3) Japão (35,64%)
4) Angola, Argentina, Malta, Sudão, Zâmbia (35%)
5) St. Marteen ( 34,5%)
6) BRASIL, Paquistão e Venezuela (34%)
7) Bélgica e Índia (33,99%)
8) França (33,33%)
9) Namíbia (33%)
10) Moçambique (32%)

Os dez países que cobram imposto mais baixo das empresas
1) Montenegro (9%)
2) Bósnia, Bulgária, Macedônia, Paraguai e Qatar (10%)
3) Omã e Macau ( 12%)
4) Chipre e Irlanda (12,5%)
5) Jordânia (14%)
6) Albânia, Geórgia, Iraque, Kuwait, Líbano, Lituânia, Sérvia (15%)
7) Romênia (16%)
8) Hong Kong (16,5%)
9) Cingapura, Eslovênia, Taiwan (17%)
10) Suíça (17,92%)

Fonte: Corporate and Indirect Tax Rate Survey 2014/KPMG

Mercosul planeja política industrial. Dilma, e quando o Brasil terá uma política industrial

Mauro Zanatta
O Estado de S.Paulo 

Acordo automotivo assinado pelo Brasil e pela Argentina servirá de base para discussões de uma estratégia comum para o bloco

BRASÍLIA - Em negociação desde março, o novo regime automotivo entre Brasil e Argentina, assinado nesta quarta-feira, 11, em Buenos Aires, deve servir como base para a criação de uma política industrial conjunta do Mercosul, anunciaram quatro ministros dos dois parceiros comerciais. 

O acordo estabeleceu metas gerais para balizar um regime com regras mais amplas e abrangentes que passariam a vigorar, a partir de julho de 2015, por um período de cinco anos. 

Dividido em três partes, o acordo de transição fixou uma trava à exportação brasileira de até uma vez e meia o total comprado dos vizinhos platinos. Assim, as montadoras instaladas no Brasil poderão vender US$ 1,5 milhão à Argentina a cada US$ 1 milhão importado do outro lado da fronteira. É o chamado regime “flex” - o coeficiente anterior era de 1,95. O Brasil queria um “flex” de 1,7. A Argentina insistia em 1,3. Optou-se por um meio termo. 

Pelo acordo, as negociações bilaterais para a nova etapa do regime quinquenal devem ser encerradas até março do próximo ano. “É mais um passo para uma medida mais ambiciosa a partir de 2015”, disse o ministro do Desenvolvimento, Mauro Borges. 

O livre comércio de veículos e autopeças está fora do acordo do Mercosul. As importações de outros países pagam 35% de imposto para entrar no bloco comercial. 

Protecionismo. Em uma tentativa de elevar o conteúdo regional no setor automotivo, as medidas, que tem um claro viés protecionista, devem modificar regras de origem e criar normas técnicas comuns para autopeças, além de elevar os níveis de segurança dos veículos produzidos pelos sócios. O objetivo é elevar a competitividade regional e ampliar o acesso dos produtos do bloco em terceiros mercados. 

“Queremos fabricar integradamente com a maior quantidade de componentes para abastecer mercado interno e ganhar o mundo”, disse o ministro argentino da Economia, Axel Kicillof, ao lado dos colegas Débora Giorgi (Indústria) e Héctor Timerman (Relações Exteriores). 

Márcio Fernandes/Estadão
 De janeiro a maio, as vendas caíram 5,5%, as exportações, 
31,6% e os estoques cresceram

Giorgi afirmou que Brasil e Argentina importaram, no ano passado, US$ 33,7 bilhões em automóveis e autopeças de países que não pertencem ao Mercosul. E defendeu “um corte” nestas compras.

Os objetivos são “integração produtiva” e “equilíbrio no comercio bilateral”, além de “políticas nacionais de apoio” ao setor automotivo.

Um comitê automotivo tratará, segundo o acordo, nas negociações comerciais com terceiros países e outros blocos comerciais nas “diretrizes” de um novo regime do Mercosul.

Acordo privado. Inspirado no aparente tom amigável governamental, o setor privado dos dois países também anunciou um acordo de “autolimitação” de vendas no mercado vizinho, como informou o Estado. Pelo protocolo, as empresas brasileiras manterão sua fatia de vendas em 44% do mercado argentino. Na outra mão, as companhias vizinhas respeitarão um teto de 11% no mercado brasileiro. Participaram da assinatura do acordo as associações brasileiras Anfavea e Sindipeças, além das argentinas Adefa, Asfac e Adimra.

O novo regime terá vigência de mais um ano para coincidir com o fim de um acordo semelhante firmado com o México em 2012. 

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:  

A indústria brasileira vem em queda livre já há três anos. Na verdade, a supervalorização acontecida no governo Lula em torno de 2006, foi o início desta queda. Primeiro, fomos perdendo mercados internacionais. Depois, as empresas foram ou se desnacionalizando, ou trocando a atividade produtiva por empresas de distribuição de importados. 

Depois, não suportando a carga maldita representada pelo Custo Brasil, perdendo mercados interno e externo, as empresas foram reduzindo produção e empregos. Algumas, conseguiram se safar mudando suas atividades para outros países preferindo, portanto produzir lá fora e de lá exportar para o Brasil. Outras, sem incentivos, sem crédito, foram fechando as portas, ou entrando em recuperação judicial (a antiga concordata).

São mais de 1,0 milhão de empregos fechados nos últimos três anos e nada do governo apresentar um único e miserável programa industrial. A cada ano, a indústria brasileira vaia perdendo importância no PIB nacional. 

E agora o governo vai entrar numa discussão para se criar uma política industrial no âmbito do Mercosul? Que palhaçada é esta? O Brasil deve é mandar o Mercosul às facas e tratar de construir acordos bilaterais de forma ampla e livre, como a Comunidade Europeia. Que droga de governo é este que só cuida e atende os interesses dos outros, esquecendo que este país tem 200 milhões de pessoas precisando de empregos e renda? Ou será que os petistas sonham que cada brasileiro termine, um dia, se contentando apenas com bolsa família? 

Quanto ao acordo automotivo com Argentina, é de se esperar que a senhora Cristina Kirchner não tenha chiliques e cumpra o contrato sem causar dores de cabeça para o Brasil.