sexta-feira, junho 20, 2014

Lula apela para o terrorismo e baixaria.

Adelson Elias Vasconcellos



No artigo que precedeu este na edição de hoje, desconstruí sem muito esforço o mito que as esquerdas - - PT em especial -  criaram na mente dos brasileiros de que somente eles gostam dos pobres, provocam-lhe aumento de direitos e preservam os já conquistados, além de demonstrar que eles vingam sua ideologia ordinária através da cisão social do povo brasileiro, jogando uns contra os outros. 

Nem gostam dos pobres,  que apenas usam como massa de manobra, tampouco defendem a integridade da sociedade. Pelo contrário.  A lista que depõem contra estes mitos está bem explicitada. 

Não sem surpresa, no convescote que serviu para lançar a candidatura-poste de Alexandre Padilha, Lula compareceu com toda a pompa e, como seria de se esperar, grudou-se no microfone a proferir seu besteirol costumeiro. 

Vejam lá: apesar de estar mais do que provado que a insatisfação dos brasileiros com o governo Dilma por conta da inflação, dos maus serviços públicos, da corrupção, dos gastos com a copa, da falta de segurança, Lula inventou em sua mente perturbada que a insatisfação é culpa das “zelites”, da imprensa golpista e, claro, da oposição. Que esta trinca do “mal” é responsável pelo clima de ódio que, segundo ele, as pessoas passaram a nutrir em relação aos governos do ex-operário e da ex-guerrilheira.    Tentou agredir, da forma mais estúpida que lhe foi possível, o ex-presidente Fernando Henrique, acusando-o de haver comprado a reeleição, como se o povo não tivesse  derrotado o próprio Lula em primeiro turno. Até hoje se ouve esta ladainha, mas nunca apareceu uma miserável prova para embasar a calúnia. 

E, aproveitou toda a sua verve canalha para criar outro slogan de campanha: a de que a esperança vencerá o ódio. Impressionante a capacidade do ex-presidente para inverter os fatos. 

Acusar a imprensa por conta do clima de pessimismo? Ora, cabe a imprensa noticiar o que é fato. Vamos para a economia. É ou não é verdade que a média de crescimento do governo só não é pior do que o de Floriano Peixoto e Collor? É ou não é verdade que a indústria brasileira está estagnada há três anos, e com empregos em queda em igual período? É ou não é verdade que Dilma vai encerrar seu mandato sem nunca ter conseguido manter a inflação no centro da meta? É ou não é verdade que a inflação só não estourou o teto da meta por conta dos preços represados dos combustíveis e tarifas?  É ou não é verdade que há quatro anos o Brasil si cai no ranking internacional de competitividade? É ou não é verdade que os investimentos públicos estão em queda contínua há quatro anos?

Já vou passar por cima do tal legado da Copa porque entendo que os leitores com a reportagem da Veja online publicada nesta edição, deixa bem claro ou que o governo mentiu e ainda mente sobre as obras, ou ele aplicou um verdadeiro estelionato político em prometer aquilo que sabia que não poderia cumprir.

É ou não verdade que, na segurança pública, os números de homicídios praticados no Brasil só fazem crescer nos últimos doze anos?  É ou não é verdade que pessoas estão sendo colocadas no chão, em muitos dos hospitais da rede pública de saúde, por falta de leitos, e algumas mais sequer conseguem ser atendidas por falta de equipamentos ou medicamentos básicos? 

Poderia até continuar a listar aqui todas as nossas mazelas, o descontrole fiscal, a gastança desenfreada em aparelhamento do estado e o desperdício enorme que seus agentes praticam por falta de autoridade e fiscalização.  

Poderia citar a queda gradual dos índices de qualidade do ensino público quando confrontados com países emergentes, apesar do aumento de recursos destinados à área da educação.

Então, queria o quê o senhor Luiz Inácio, que a imprensa não noticiasse tanta porcaria? Que continuasse jogando pó nos olhos da população,  para que ela finja não sofrer as carências que sente na pela todos os dias? 

Lula precisa deixar de ser hipócrita e cafajeste diplomado.  Não tem a menor moral para acusar quem quer que seja de corrupção. As porteiras fechadas dos ministérios, para comprar uma sustentação política, causadora do mais elevado índice de corrupção que a história jamais registrou, comprovam-se pelo número de inquérito abertos pela Polícia Federal de 2003 para cá, e ATENÇÃO; 99% dos inquéritos são sobre esquemas montados a partir de 2003 e não antes desta data.  

Vir a público, de forma baixa e cínica, acusar nos outros aquilo que ele e seus partidários não se cansam de cometer, é de uma total falta de hombridade. Querem um exemplo? Quando foi que Lula veio a público repelir as acusações que lhe foram feitas por  Romeu Tuma Junior, no livro “Assassinato de Reputações”? Outro: quando será que Lula virá a público explicar sua relação com Rosemary Noronha? Mas muitos outros. Basta pesquisar para verificarmos quantos foram os escândalos de corrupção arquitetados e conduzidos próximos ao gabinete presidencial quando não por gente da própria cozinha presidencial?

Tivesse um pingo de elevação de caráter, Lula ficaria quieto e se recusava em falar e dizer o que fala e diz em palanques. 

Não, senhor Lula, nem a imprensa, tampouco a oposição muito menos as elites a qual você pertence, são culpados pelo desencanto do povo brasileiro. Este é fruto unicamente de um governo medíocre que acha que torrar bilhões de reais em publicidade oficial mentirosa, desvanecerá este desencanto. É resultado de um governo que jamais se justificou, que precisa ser impelido judicialmente para socorrer uma unidade da federação vivendo situação de calamidade como foi o caso do Paraná. Não basta prometer, não bastar lançar programas com pomposos em favor disto ou daquilo. Tem que haver realizações, tem que aparecer resultados. Isto, no governo atual, que você avalizou, foram todos ruins. E o povo se cansou de promessas e  de discurso vazio. Cansou de pagar um carga de impostos ultrajante frente  a coisa nenhuma que lhe devolve o Estado brasileiro., Cansou de ser espremido por um confisco salarial vergonhoso. O povo cansou de tanta indecência e incompetência. 

Tentar reconquistar esta confiança com terrorismo, com baixarias, com “dossiês”,  com patifarias? É esta falsa esperança que o petismo tem para oferecer? O povo pode ser pobre e semianalfabeto, mas não é burro e não aceita andar de jumento. Pelo que paga, ele merece transporte de qualidade, mesmo que seja um simples metrô. 

O ex presidente Fernando Henrique declarou, nesta segunda, lamentar o clima de baixaria que o senhor Lula está tentando criar para a campanha eleitoral deste ano. Generosidade de FHC: não se pode esperar de Lula aquilo que ele nunca foi capaz de fazer. Em campanha, Lula faz o diabo para ganhar a eleição. A única moral ele que entende é a da pura baixaria.  

Portanto, este ódio de classes a que o ex presidente em exercício se refere, é justamente o ódio que ele sempre nutriu por aqueles que não compartilham de suas ideias, que não se curvam diante da sua pretendidas hegemonia de poder, de sua prepotência.  Não podendo calar o adversário, levanta a voz, solta impropérios e até calunia e transfere a quem vê como inimigo os próprios crimes e erros. Se hoje há ódio de classes no Brasil ele foi insuflado por Lula e seus miquinhos amestrados a quem chama de “companheiros”, como o bom e velho Maluf, Sarney, Barbalho, Calheiros  e o resto da gangue. 

Mas um dia, com certeza, o país descobrirá as razões para Lula guardar tanto rancor e cultivar tanto ódio.  E, quem sabe, neste dia, o país venha descobrir, também, que o PT não apenas é igual aos outros, é muito pior. Os outros roubam e mistificam por que são safados. Os petistas o fazem por método, por crença, por ideologia, juntando á sua ação nefasta sempre uma moral que entendem superior. A diferença é que esta superioridade só encontra paralelo no fascismo. 

Copa, povo e arquibancadas 
Apesar do fracasso do governo Dilma em organizar a copa no Brasil, o povo brasileiro faz a festa nos estádios onde, a exceção do jogo Nigéria contra Irã, todos os demais têm proporcionado partidas emocionantes. Nas arquibancadas, brasileiros e estrangeiros, fazem a festa, num colorido multirracial invejável.

Já há gente do PT e do governo Dilma comemorando esta festa e querendo colher os frutos políticos do sucesso das arquibancadas. 

Verdadeira estupidez. Acompanho Copa do Mundo desde 1958. E, em todas, apesar de realizadas em outros países, esta festa  das arquibancadas sempre foi constante, e cresceu na medida que o evento passou a ser televisionado para o mundo inteiro. As ruas sempre estiveram pintadas de verde-amarelo, e a emoção que cada vitória da nossa seleção proporcionava, era indescritível. Há muitos vídeos e filmes que provam isto, que exibem a alegria quando a seleção chegava trazendo na bagagem cada um dos cinco títulos que conquistou. 

Assim, o sucesso das arquibancadas não se deve ao PT ou ao governo Dilma, e sim a emoção que este esporte sempre despertou nos corações dos brasileiros e nos demais povos. 

A incompetência do governo está é fora dos estádios.  Era onde lhe cabia fazer o seu dever de casa e ele falhou miseravelmente. Não queiram petistas,  agora, roubar para si um sucesso que não lhes pertence. Até porque o sucesso das arquibancadas, a festa das torcidas nasceu antes até do próprio PT pensar em existir.  Seria prepotência demais  desta gente tosca,  querer tornar-se proprietária da alegria. Neste aspecto, a insatisfação popular que se percebe na alma de cada brasileiro  não é fruto do futebol e,  sim,  do governo medíocre comandado pela senhora Rousseff.   

Desconstruindo um mito populista

Adelson Elias Vasconcellos



Muito já escrevemos sobre a Copa do mundo no Brasil, seus aspectos positivos e negativos. Mas um que precisamos destacar, e que serve para destruir um mito populista, sempre tão apregoado pelas esquerdas e que, quando confrontado com  a realidade, ele se converte em pó, precisa ser trazido à tona.

Historicamente, as esquerdas seguem um velho princípio napoleônico do dividir para vencer. No caso, tratam de erguer uma luta de classes. Como os pobres são a maioria, tratam de captar simpatia e cooptar apoio entre estes para fazerem vingar suas teorias. 

Os pobres, regra geral, são também aqueles que menos instrução e menor acesso  à informação possuem. Assim, acabam se tornando presas fáceis para o discurso demagógico e populista que as esquerdas disparam.    

O petismo, desde que se tornou importante força política, não se cansa de provocar a cisão da sociedade brasileira. É um tal de norte-nordeste contra sul-sudeste, pretos contra brancos, pobres contra ricos, patrões contra empregados, índios contra o restante não índio. Se a gente fosse confrontá-los contra aquilo que são hoje,  o discurso se esvaziaria. As esquerdas, com raríssimas exceções, se tornou parte integrante das demonizadas “zelites”, incluam-se aí parte  do sindicalismo. 

Muitas destas manifestações violentas que estamos assistindo atualmente são  sementes  plantadas  pelas esquerdas e extrema-esquerda. Basta retornarmos no tempo em que o PT era oposição aos governos federais, e logo descobriremos seu modus-operandi. Basta, também, analisarmos com atenção o comportamento dos governos Lula e Dilma, principalmente contra o estado de São Paulo, em que sempre foram oposição, para  entendermos a lógica que se esconde nestas manifestações estúpidas, recheadas de depredação, quebra-quebra, vandalismo, coquetéis molotov, etc. Pode-se dizer até que militantes petistas nem participem destas ações de agora, seriam militantes de extremistas de esquerda ligados ao PSOL, PDSTU, PC do B,  etc. Porém, quem os ensinou e incitou a estas ações de verdadeiro terrorismo, foram militantes petistas, muitos deles atualmente assentados no poder.  

É engraçado ouvir a presidente dizer que seu governo não vai tolerar ações de vandalismo durante a Copa do mundo. É a mesma senhora que atrai e recebe em palácio justamente os líderes destas ações e facções. E, também, é o mesmo governo que recrimina governos que são oposição ao PT quando agem contra estes bandidinhos urbanos,  prendendo-os e indiciando-os, como é o caso de São Paulo.

Mas voltemos ao ponto que o texto pretende abordar. Uma das críticas que mais se tem lido e ouvido nos últimos anos, e isto desde que o Brasil ganhou a corrida para sediar a Copa do Mundo, é o processo de branqueamento e elitização do público nos estádios brasileiros.  Atenção: este processo começou com os estádios destinados a acolher os jogos da Copa. Não antes. 

O governo Lula, originalmente, queria que a Copa tivesse 17 sub-sedes.  A FIFA achou um exagero, e impôs 12, muito embora seus dirigentes entendesse que 8 seriam suficientes. Ficou-se no meio termo. 

Nos estádios escolhidos, a exceção do Beira-Rio, em Porto Alegre,  Arena da Baixada, em Curitiba, todos os demais são estádios públicos. O Itaquerão é um caso à parte. Não tivesse o governo jogado os milhões de recursos públicos na sua construção, ele não teria saído do chão. 

Ora, a administração destes estádios, ou foi repassada para iniciativa privada, ou continuaram em mãos do poder público. Mas em todos, observem, os preços dos  ingressos foram às nuvens. Antes de sediarem jogos da Copa, receberam jogos de  campeonatos estaduais, campeonato brasileiro, séries A e B. E, em todos, os ingressos foram proibitivos para os trabalhadores de salário mínimo. Logo,  ficou visível o esvaziamento e, vejam só, o branqueamento em suas arquibancadas. 

Assim, temos dois efeitos: o primeiro que demonstra a falsidade dos “30 milhões” ingressados na classe média. É mentira. Fossem classe média, e teriam como bancar ingressos entre 80 e 100 reais por jogo. E, segundo, quem mantém o futebol brasileiro, desde os anos 50 do século passado, é justamente o povão, justamente aquele que recebe de 1 a 2 salários mínimos por mês. E, muito embora desde o Plano Real, o salário mínimo brasileiro venha recebendo aumentos anuais em índices superiores aos da inflação, ainda assim, está longe de ter recuperado seu poder de compra e atender as necessidades básicas de quem o recebe, inclusive as de lazer, como o futebol.

Claro que, tendo sido financiado com recursos públicos, a maioria proveniente de financiamentos junto ao BNDES, temos aí uma divida bilionária que precisará ser paga.  E a forma como a dívida será quitada, terá boa parte originada dos ingressos cobrados dos torcedores. Como a grande massa não tem como bancar preços tão altos, quem, no final das contas, branqueou  elitizou o futebol brasileiro? A resposta  é óbvia: governo petista, de Lula e Dilma. 

Alguém poderia até contra-argumentar que os ingressos da Copa tiveram seus preços fixados pela FIFA. Ok, mas e os preços nos campeonatos regionais e nacionais, foram majorados abusivamente por conta do quê? Não foi justamente pelas tais “novas arenas”, com seus abusivos custos de construção ou reforma, bancados pelo poder  público? 

Fica claro, seja pela mentira da tal “nova classe média”, seja pela raquítico poder  de compra do salário mínimo (que na oposição os petistas criticavam em tempo integral), ou, ainda, pela elitização do futebol que, no passado, era o grande lazer do povão, que os petistas não gostam da gente pobre de um país chamado Brasil. Usam deles para se manter no poder, com medidas populistas que apenas perenizam esta pobreza e miséria, sem oferecer portas de saídas para uma verdadeira  ascensão econômica e social.  Tanto é assim, que nem o salário mínimo tem sido poupado da ganância tributária dos  governos petistas. Em 2002, a faixa de isenção do imposto na fonte ia até 5 salários mínimos. Hoje, esta isenção, no máximo,  chega a 2,5 salários mínimos. Isto tem nome: chama-se confisco salarial. 

Semana passada, Dilma subiu nas tamancas, dizendo não ter sido eleita para tomar medidas impopulares.  E isto também tem nome: chama-se de populismo vagabundo.

Nem tudo que é impopular vai contra o interesse da sociedade. Até pelo contrário. Grande parte de tais “medidas” são sementes de construção que trazem desenvolvimento, progresso, inclusão.  Sempre que alguém taxar uma ação de governo como impopular, mais das vezes se insurge contra tal ação porque, no fundo, ela derruba privilégios de que gozam justamente aqueles que contra elas se opõe. E acrescente-se: privilégios de que a maioria da população não consegue usufruir. 

Pegue-se o Plano Real e o conjunto de medidas implementadas em sua esteira. TODAS resultaram em progresso, melhoria de vida para a população, em desenvolvimento econômico e social, com geração de emprego e renda, e aumento na arrecadação de impostos. E todas foram rechaçadas e condenadas pelos petistas à época. E, ironia do destino, seriam eles os maiores beneficiados, no poder, de tais medidas e, a tal ponto, que a própria Dilma, em 2011, teve de reconhecer   tais benefícios. 

É claro que os petistas jamais reconhecerão que eles, e não as elites, nem as oposições tampouco a imprensa, é que são os entraves maiores ao desenvolvimento do país, como também, jamais saberão conscientizarem-se de, para melhoria na qualidade de vida dos cidadãos brasileiros, eles é que são o problema, nunca a solução. 

Ah, sim, teremos aqueles que retrucarão com a tal bolsa família. Ok, mas ela nasceu aonde e quando? E diga-se que Lula, ainda na oposição, colocou-se contra as tais bolsas porque elas deixavam o povo preguiçoso, que queriam mais plantar macaxeira. E isto é fato, está gravado em vídeo, não se trata de interpretação distorcida. 

As esquerdas, fica provado, gostam do povo para usá-los como escudo, como massa de manobra para sua ascensão ao poder. Uma vez conquistado, tratam de alimentá-los com pequenas esmolas, mas sempre cuidando para que não se tornem exigentes e críticos, não lhes oferecem perspectivas de ascensão econômica e social, por saberem que povo educado e informado torna-se refratários às ideias que defendem. 

Assim, é nos governos Lula e Dilma que devemos localizar as razões do branqueamento e elitização  do futebol no Brasil. E tal processo reprovável deixa claro o seu preconceito para com a gente pobre e humilde. E se tal não bastasse, teríamos ainda o confisco dos salários mais baixos, a degradação dos serviços públicos que afetam diretamente a qualidade de vida dos mais pobres – e isto com doze anos no poder -, a deterioração acentuada na qualidade da educação e, claro, o incentivo a movimentos que promovem baderna e vandalismo além de interromper a prestação destes mesmos serviços públicos às classes mais pobres e mais carentes,  finalizando com a completa falta de segurança que elevou os índices de criminalidade aos extremos, com 50 mil homicídios por ano. 

Bolsa Família a 13 milhões de famílias? Isto é porcaria diante de tanta maldade que se comete contra a população mais pobre. E só comprova que a esmola serve apenas para mantê-los calados e dóceis,  caprichosamente enjaulados na sua miséria contínua, verdadeira massa de manobra para um permanente curral eleitoral. E este mito que tanto alardeiam, está visto, passa longe, anos-luz de distância da realidade presente. Daí porque deve ser combatido e destruído. Com ele só criamos fantasias ilusionistas.  Tanto é assim, que o atual Bolsa Família sequer consegue encher a barriga do pobre além de duas semanas, no máximo.  Se é para reduzir a miséria e a pobreza extremas do país, é preciso desenvolvimento,  gerar e aumentar a produção interna,  destinar os recursos públicos, prioritariamente, para qualificação dos serviços como educação, e não para aumentar ainda os já elevados privilégios da classe política, incluindo o Executivo Federal,  onde o desperdício faz a festa. E não será com pibinhos em torno d 1 a 2% ao ano que alcançaremos este propósito. 

Pelo contrário:  sem desenvolvimento econômico, não se pode sonhar com desenvolvimento social. Se os governos petistas ainda não aprenderam esta máxima, está na hora do Brasil ser governado por quem  tenha tal capacidade e conhecimento. Se o cara que ganha um salário mínimo por mês, precisa economizar cada vez mais porque a inflação corrói diariamente seu poder de compra, as perspectivas de empregos qualificados e com melhores salários se reduzem cada vez mais fruto da estagflação atual, não há imprensa que o convença de que o país vai mal governado. Seu pessimismo é imediato: é preciso mudar a direção do país, bem como o pensamento de quem o governa.  Conclusão: o discurso morreu de velho e superado pela realidade.

Só um intervalo

J. R.  Guzzo
Revista VEJA

O uso da mentira tornou-se a forma mais praticada de política, e mais de 70% dos brasileiros estão insatisfeitos. Um Brasil como esse perde  se perder e perde se ganhar.


Um jogo de futebol, mesmo um jogo de abertura de Copa do Mundo, e com o time brasileiro em campo, é apenas um jogo de futebol. Para a maioria da população brasileira, as aflições da luta diária e silenciosa pela sobrevivência são bem maiores, na prática, do que qualquer tristeza esportiva; ninguém tem tempo para ficar chorando quando é preciso encarar, logo na madrugada seguinte, três horas de ônibus, trem e metrô para ir até o trabalho.  O ex-presidente Lula pode achar que é uma “babaquice” pensar em transporte público de primeira classe para quem vive na terceira, nesta bendita Copa que inventou de trazer ao Brasil sete anos atrás. Pode achar o que quiser, mas não vai aliviar em um grama a selvageria imposta à população  para que ela exerça seu direito constitucional de ir do ponto A ao ponto B – e muitos outros prometidos em troca dos 30 bilhões de reais que custará a Copa mais cara da história, num país começa nos 290 reais de renda por mês.  Do mesmo modo, as alegrias da vitória são apenas momentos que brilham, depois de leve oscilam, e se desfazem num prazo médio de 48 horas.  

A vitória do Brasil sobre a Croácia por 3 a 1,  em sua estreia mais grandiosa e emocionante disputa esportiva do planeta, foi um desses momentos que valem enquanto duram. Nãoa garante nada, é claro, numa competição de alpinismo em que cada passo rumo ao topo é mais difícil que o passo anterior;  garante mais, em todo o caso, do que uma derrota. 

Mas para a vida do Brasil e dos brasileiros  é apenas um intervalo que não muda nada – justamente numa hora em que é urgente mudar tanto.  É urgente porque o Brasil se encontra, neste mês de junho de 2014, em estado de desgoverno. A questão, a esta altura, não é dizer que o governo da presidente Dilma tem tudo para ficar entre os piores que o país jamais teve. Isso muita gente, e cada vez mais gente, está cansada de saber – segundo a última pesquisa do Pew Institute, organização americana de imparcialidade e competência indiscutíveis, mais de 70% dos brasileiros estão hoje descontentes com o governo; eram 55% em 2013. Esse nível de frustração, segundo o instituto, “não tem paralelo em anos recentes”. Que mais seria preciso dizer? O problema real, seja qual for o resultado final da Copa, é que o governo federal deixou de existir como autoridade responsável; traiu os eleitores, suprimindo o seu direito de ser governados sob o império da lei, e passou a agir no mundo da treva. Não se sabe se os donos do poder estão sonhando em arrastar  o Brasil para uma aventura solitária. Mas certamente dão a impressão de querem algo muito parecido com isso.

Lula, Dilma, o PT e as forças postas a seu serviço não aceitam, por tudo o que  dizem e sobretudo pelo que fazem, a ideia de perder a eleição presidencial de outubro.  Por esse objetivo, mandaram a governança do país para o diabo e empregam 100% de suas energias, sua capacidade de cometer atos ilegais e seu livre acesso ao dinheiro  público para impedir que a massa de insatisfeitos possa eleger para a Presidência qualquer candidato que não se chame Dilma Rousseff.  Uma greve ilegal e abusiva dos agentes do metrô de São Paulo, armada na zona escura dos apoios clandestinos ao governo, fez algo inédito: montou piquetes para impedir que os passageiros chegassem aos trens – dentro da estratégia de impor a desordem nos serviços públicos paulistas e, com isso, prejudicar candidatos da oposição.  Um decreto da presidente criou, e quer tornar efetivos, uns “conselhos populares” com poderes e competências acima do Congresso Nacional e do Judiciário. 

Num país com 55.000 assassinatos por5 ano, o governo nega aos cidadãos o direito fundamental à vida, ao tornar-se cúmplice dos criminosos com sua tolerância máxima ao crime – em quase doze anos de governo, Lula e Dilma não disseram uma única palavra contra esse massacre, e muito menos tomaram a mínima providência a respeito. Ambos tiveram, ou compraram, o apoio de 70% do Congresso; o que fizeram de útil com essa imensa maioria? ZERO. Ela foi usada apenas para impedir investigações sobre seus crimes, como na espetacular sequência de escândalos na Petrobrás, por exemplo, e encher o PT e seus aliados com empregos públicos, verbas e oportunidades de negócio. O uso sistemático da mentira tornou-se a forma mais praticada de ação política. A presidente da República não fala ao público na abertura da Copa – fica num discurso pré-fabricado de elogio a seu governo. 

Um Brasil como esse perde se perder e perde se ganhar.      

O dedo de Dilma

Sebastião Nery
Tribuna da Imprensa

Alegrete, no Rio Grande do Sul, estava em festa. O Cruzeiro de Porto Alegre tinha chegado à cidade para jogar contra o Alegrete Esporte Clube. Banda de música, rodeio, bombacha e chimarrão. Um ardor cívico. Na hora do jogo, a tragédia. O goleiro tinha tomado um porre de vinho e roncava no canto do vestiário. O reserva tinha caído do cavalo, quebrado a perna. O outro reserva fugira na véspera com a namorada.

A solução era o circo. Foram buscar “Adalardo”, o macaco prodígio, que agarrava coco nos quatro cantos do picadeiro.

ADALARDO
“Adalardo” não negou fogo. Vestido com a camisa número um, piscando o olho e coçando a cabeça debaixo da trave, pegava tudo quanto era bola. E ainda cuspia no centroavante. Foi um delírio. “Adalardo”, acostumado aos aplausos, fazia pontes e defesas sensacionais. Alegrete berrava e cantava a trave fechada e a vitória. Mas houve um pênalti. Contra o Alegrete.

“Adalardo” compreendeu que tinham mudado a regra do jogo. Era sujeira. A cidade inteira olhava para ele calada. Por que não batiam palmas? Por que não aplaudiam? A culpa era certamente daquele homem de preto que tinha botado a bola ali na frente e mandado outro chutar. O outro chutou, a bola entrou. “Adalardo” enlouqueceu. Saiu da trave, deu uns urros no meio do campo, avançou em cima do homem de preto e arrancou o dedo do juiz.

A VAIA
A presidente Dilma sabia que, quando aparecesse no estádio na solenidade de abertura da Copa, ou em qualquer outro dia, seria vaiada. Lula, caráter sem jaça, velho fujão, pulou logo fora. Ficou em casa, não foi. Mas Dilma tinha que ir. Ir e falar. Foi assim em todas as Copas, em todos os países, com todos os presidentes, até a rainha da Inglaterra. Todos sempre abriram as Copas. Todos sempre falaram.

Ela decidiu a pior solução: a da covardia. Ir sem ir. Ir escondida, disfarçada, e não falar. Proibiu as televisões de filmá-la. Proibiu os telões de mostrar-lhe a cara. Certa de que atrás do Michel e da Fifa daria tudo certo. Mas deu azar.

PALAVRÕES
Por erro ou por inspiração patriótica de alguém, de repente, logo depois do hino nacional, aparece, toda inteira, no telão, a cara dela. E uma vaia incontrolável, uníssona, bravíssima, irrompe no estádio inteiro. Depois, outra vez, mais outra vez, várias vezes. E lá no fundo da tribuna de honra, atrás do gringo da Fifa e do vice Michel Temer, a televisão mostrou aquela mulher, antes tão enérgica, de repente humilhada, amofinada, escondendo as envergonhadas mãos.

E a multidão, até então eufórica, esfuziante e civilizada, surpreendentemente apelou. Começou a gritar-lhe insultantes e ritmados palavrões, o que jamais havia acontecido no pais com tal fúria.

Era mesmo para agredir. Como se o macaco Adalardo lhe tivesse arrancado o dedo.

OSWALDO ARANHA
Na mesma Alegrete, que os habitantes chamam de “a Londres gaúcha” e por isso apelidada de “Alegraite”, havia um famoso cabaré: o “Lulu” dos Caçadores. Toda noite tinha uma briga. Ia tudo calmo, tudo alegre, mas quando dava duas horas, era batata. A briga estourava.

Depois da Revolução de 30, Oswaldo Aranha, muito jovem, foi ser prefeito de Alegrete. Sabia do “Lulu dos Caçadores”, sabia das brigas. Uma noite, apareceu lá, bebeu, saiu às três da manhã, não houve briga nenhuma. Gostou, voltou. No dia seguinte, estava lá de novo. E no outro, no outro. As brigas acabaram.

No quinto dia, quando Oswaldo Aranha entrou, pendurada na parede do cabaré, estava uma faixa grande: “Dr. Oswaldo Aranha, acabaram-se as considerações”. Às duas da manhã, a pancadaria começou.

RANCOR
Nos dois governos de Lula houve vaia no Maracanã, mas vaia comum, apoteótica mas civilizada. Dilma também já foi vaiada. Mas politicamente. Agora, não. O PT tanto abusou, tanto enfiou as mãos nos cofres públicos, Dilma tanto mentiu que o país perdeu a paciência. Acabaram-se as considerações. Esse rancor não é brasileiro. É filho do PT.

Assim era, assim é.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Um notável empresário costumava dizer que a vantagem de ser idoso é ter visto tudo acontecer, e ter visto o contrário também. Pois é. Quem imaginaria?

1 - Negro mandando brancos ricos e poderosos para a cadeia;

2 - Esquerdistas citando (e com amor) o autor que antes odiavam: Nelson Rodrigues. Diziam que era reacionário. E ele confirmava;

3 - Maluf aliado ao PT mas dizendo que, perto de Lula e Dilma, é comunista;

4 - A elite branca endinheirada comparecendo em massa ao estádio do Corinthians, no elitista bairro de Itaquera;

5 - Eduardo Suplicy fazendo um discurso mais curto que o do candidato de seu partido ao Governo paulista;

6 - Aécio e Serra se elogiando e cumprimentando como velhos amigos; 

7 - Brasileiros fascinados por um papa argentino;

8 - Brasileiros fascinados por um craque argentino;

9 - O comunista linha chinesa (da antiga, original) Aldo Rebelo, ministro dos Esportes, o imprimindo e distribuindo A Pátria em chuteiras, de Nelson Rodrigues - porque, ao contrário do que pensa a direita, futebol não é o ópio do povo;

10 - Políticos presos brigando para (argh!) trabalhar;

11 - Marta Suplicy tuitando sua alegria bem na hora do gol-contra do Brasil;

12- Lula desistindo de ir ao estádio que ajudou a construir, para a abertura da Copa que conseguiu trazer para cá. E Dilma, que nem sabe quem é a bola, indo.

Tem Boy na linha
O PR paulista decidiu apoiar o candidato do PT ao Governo, Alexandre Padilha. O PR paulista é controlado diretamente de Brasília, por Boy, Valdemar Costa Neto, condenado no processo do Mensalão, a partir de sua cela na Papuda.

Guerra é sempre guerra
Depois de todos os atritos do processo do Mensalão, houve o incidente em que o advogado de José Genoíno, Luiz Fernando Pacheco, exigiu que o pedido para que seu cliente voltasse à prisão domiciliar fosse julgado pelo plenário e foi retirado do recinto, pelos seguranças, por ordem do ministro Joaquim Barbosa. 

A coisa não parou por aí: Barbosa pediu à Procuradoria de Justiça de Brasília que mova ação penal contra o advogado. Não é uma ordem, entretanto; o Ministério Público decide se deve ou não iniciar a ação contra Pacheco.

Hoje, talvez... 
Está marcada para hoje a reunião em que o Conselho de Ética da Câmara Federal começa a ouvir testemunhas no processo de quebra de decoro contra o deputado André Vargas, do Paraná, ex-PT, ex-vice-presidente da Casa. Vargas é acusado de ter mentido à Câmara sobre seu relacionamento com Alberto Youssef, apontado pela Polícia Federal como doleiro. O relator do processo, Júlio Delgado, do PSB mineiro, pretende ouvir os parlamentares petistas Cândido Vacarezza, Vicentinho e Rui Falcão, mais Leonardo Meireles e Esdras Ferreira, donos do laboratório Labogen, e Youssef. 

Só há um problema: como ontem houve jogo do Brasil, esta é uma semana curta, e não será fácil reunir tantos parlamentares. Ir a Brasília depois de um jogo do Brasil pode ser esforço excessivo.

...talvez quem sabe
A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre a Petrobras (aquela em que a oposição deposita suas esperanças de investigação) tem reunião marcada para hoje. Ninguém acredita que haja reunião - sabe como é, jogo do Brasil, semana curta, Copa, campanha - mas o Governo teme que os oposicionistas consigam reunir número suficiente para iniciá-la e criar problemas difíceis de resolver. A ordem é ter no Congresso número suficiente de parlamentares governistas para, caso a CPMI consiga reunir-se, impedir que sejam aprovadas medidas indesejadas, como a quebra de sigilos de gente do Governo na área de petróleo.

Bala de prata
Inquérito explosivo: um repórter habituado a desvendar segredos, Cláudio Tognolli (https://br.noticias.yahoo.com/blogs/claudio-tognolli/), fala da investigação das ligações entre o governador fluminense Sérgio Cabral, PMDB, com o laboratório Laborvida, que trabalha exclusivamente em parceria com laboratórios da rede pública. Seu acionista majoritário é a Facility Participações, do empresário Arthur César Menezes Soares Filho - a mesma Facility que, desde o início do mandato de Cabral, em 2007, é a maior prestadora de serviços ao Governo fluminense. 

Ganhou até (com seu novo nome, de SKS) o Centro de Diagnóstico por Imagem, o Rio Imagem. Todos trabalham em conjunto com o secretário da Saúde, Sérgio Cortês. Quem é Cortês? Dirigiu o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia de 2002 a 2006; auditoria do Ministério da Saúde concluiu que houve desvio e determinou que Cortês devolvesse R$ 3,4 milhões. Em dezembro de 2013, Cortês foi condenado por desviar verba da saúde para aplicar em propaganda do Governo. E, mais interessante, era um dos participantes da Farra do Guardanapo, em que um grupo de políticos com guardanapos na cabeça se divertia em Paris, ao lado de Fernando Cavendish, da empreiteira Delta.

O caso está sendo investigado sigilosamente pelo Ministério Público do Rio.

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

Governo à prova de vaias

Guilherme Fiuza
Revista ÉPOCA

O decreto que cria conselhos populares, às vésperas da Copa, é uma obra-prima do chavismo


Dilma Rousseff prometeu e cumpriu: fez o discurso de abertura da Copa do Mundo e não levou uma vaia sequer. Os pessimistas estavam errados. É bem verdade que ela tomou o cuidado de fazer seu discursos pela televisão, que ninguém é de ferro.  Mas isso é detalhe, perto do que o governo popular planeja: governar sozinho, ao estilo do saudoso companheiro Hugo Chavez, com  o golpe instituído pelo decreto 8.243. Vem aí um governo à prova de vaias. 

O decreto que Dilma assinou e publicou discreta e rapidamente, às vésperas da Copa, é uma obra-prima do chavismo. Institui conselhos populares com poder de formular e tomar decisão na administração pública. Esses conselhos serão constituídos  por representantes da “sociedade civil” – apelido dos militantes de aluguel do PT. Finalmente, o governo popular não precisará mais perder tempo com o corpo técnico das instituições públicas, que não entende os objetivos da revolução bolivariana. Quem  sabe até se torne possível ampliar o programa Mais Médicos, com a criação do Mais Professores – em que funcionários de Fidel Castro ensinarão nas escolas brasileiras as maravilhas do regime cubano.

É claro que a opinião pública  brasileira está mais uma vez  babando na gravata, completamente por fora dessa implantação de prótese chavista. A única resistência ao decreto de Dilma surgiu no Congresso Nacional que, com sua bravura patriótica, identificou mais uma oportunidade para chantagear o governo. Este é o ponto a que chegamos no império do oprimido; para salvar o país de uma picaretagem, só outra picaretagem.

O decreto dos conselhos atropela o Congresso e concentra a discussão e formulação de políticas no aconchego dos órgãos aparelhados pelo PT. Daí a indignação dos congressistas leais ao governo Dilma: até agora, ninguém lhes disse quanto ganharão nisso. Na época de Marcos Valério, as coisas eram mais organizadas.  

Se não for cassado, o decreto 8.243 será uma contribuição decisiva para que o governo do PT possa acelerar suas realizações sem a interferência deste intruso chamado Brasil. As ideias geniais de Dilma, Lula, Mercadante, Dirceu, Gilberto Carvalho e grande elenco fisiológico tramitarão na velocidade da luz, e aí os brasileiros verão o que é bom para tosse. A nova realidade virá lá do alto como um raio, com a força inapelável e absoluta de um pronunciamento de Dilma em cadeia de rádio e TV.

Com o texto escrito à sua frente e ninguém para interromper (nem vaiar), o céu é o limite para a “presidenta”. Foi assim que ela deu um show no pronunciamento de aberturada Copa do mundo. Ali de dentro do estúdio, cercada pelo povo do marketing, desafiou todo o mundo. Defendeu desinibida o legado da Copa para os brasileiros – o bom dessa formato eletrônico de democracia é não ter  de explicar os disparates colaterais. Se o “legado” inclui um presente de mais de 3,5 bilhões do BNDES (ou de você), derramados em estádios de futebol superfaturados, isso não vem ao caso e fim de papo. Aí a governanta nacional pode prosseguir com seu comício otimista, exaltando poeticamente os aeroportos brasileiros.

Está tudo pronto, bradou Dilma. O estrangeiro que tivesse acabado de desembarcar no aeroporto do Galeão, e entendesse o português presidencial, teria a certeza de que os brasileiros são os campeões mundiais do humor. No aeroporto internacional da cidade que receberá a final da Copa – também conhecido como Favela Antonio Carlos Jobim -, está tudo pronto. Se o passageiro calhar de precisar de um dos cinco elevadores enguiçados, está convidado a arrastar sua bagagem por algumas dezenas de metros morrendo de rir.  Esteiras e escadas rolantes interditadas reservam o mesmo tipo de emoção, no clima da Copa. Tudo pronto.

Aeroportos remendados pelos quatro cantos do país fazem Dilma Rousseff explodir de orgulho, daquilo que ela mesma classificou “padrão Brasil”, novo parâmetro de excelência para a infraestrutura nacional. Deve ser muito gostoso defender publicamente esse padrão tão peculiar e4 não escutar nem meia veia. O Brasil há de aceitar, no escurinho da Copa do Mundo, o golpe dos conselhos populares. O país merece escutar o PT falando sozinho.    

Congresso tem de decidir sobre ‘democracia direta’

O Globo
Editorial

Como o governo avisa que não volta atrás na criação de comissões que abrirão mais espaço para o aparelhamento, Legislativo precisa revogar o decreto presidencial

Embora o assunto tenha ficado em suspenso devido ao recesso parlamentar da Copa, o governo continua em campo na tentativa de apresentar o decreto-lei 8.243, da “democracia direta”, como simples medida burocrática, para ordenar o que já existe. As comissões, fóruns, “mesas” (jargão chavista) e similares previstos para funcionar junto a ministérios e estatais seriam mais do mesmo.

O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, em entrevista ao GLOBO, lembrou que conselhos existem desde 1930. Carvalho, segundo o qual o Planalto não recuará no decreto, representa os “movimentos sociais” no governo e foi nomeado pelo 8.243 maestro do Sistema Nacional de Participação Social, instituído pelo édito de Dilma. É fato que há conselhos há muito tempo. Eles funcionam em qualquer democracia. Mas incorre em abissal ingenuidade quem analisar o 8.243 pelas lentes do formalismo, atendo-se apenas à letra fria do texto, sem colocá-lo no contexto político e ideológico da ação do lulopetismo nos 12 anos de poder, notabilizada pelo aparelhamento do Estado.

Qualquer observador da crônica política brasileira desde janeiro de 2003 sabe que a corrente hegemônica dentro do PT tem dificuldades de convivência com o regime de democracia representativa. A instância do Legislativo, com todos seus defeitos e distorções, funciona como barreira a tentações autoritárias, entre outras. E isso incomoda.

Ainda no início do primeiro governo Lula, quando o Planalto cumpria o prometido na Carta ao Povo Brasileiro, no respeito às regras de mercado na economia, tentou-se controlar o conteúdo da produção audiovisual por meio de uma agência (Ancinav), idealizada no Ministério da Cultura. Ao mesmo tempo, ensaiou-se o Conselho Federal de Jornalismo, um ente paraestatal destinado a patrulhar jornalistas. A reação foi ruidosa e, diante da impossibilidade de o Congresso sancionar esses absurdos, os projetos foram engavetados.

Já no fim do segundo mandato de Lula, veio um ensaio geral, percebe-se hoje, para o decreto 8.243: o Plano Nacional de Defesa dos Direitos Humanos 3. À primeira vista, uma burocrática atualização do PNDH-2. Longe disso. Por meio da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, do então ministro Paulo Vannuchi, houve intensa mobilização de “movimentos sociais”, para alinhar inúmeras propostas perigosas. 

Havia de tudo. De instrumentos para tolher a liberdade de imprensa, pelo “controle social da mídia”, sempre em nome dos “ direitos humanos”, a iniciativas para se rever a Lei de Anistia, causa de uma rusga entre militares e Planalto, contornada pelo então ministro da Defesa Nelson Jobim, com o recuo de Lula. O destino do PNDH-3, como deveria ser, foi as gavetas do Congresso. A questão volta com o 8.243. Desta vez, na surdina para ser fato consumado. Não pode. Como o governo já avisou que não volta atrás, o Congresso precisa votar o projeto de decreto legislativo que revoga a aberração.

Endividado, birrento e ridículo

O Estado de S.Paulo

O Brasil é um dos emergentes com maior dívida pública e isso é comprovado por qualquer critério - o do governo brasileiro ou o do Fundo Monetário Internacional (FMI), rejeitado pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega. Dever oficialmente 66,3% ou 56,8% do Produto Interno Bruto (PIB) talvez faça alguma diferença para a imagem nacional, se o mercado aceitar o padrão contábil mais favorável. Mas a posição continuará muito ruim nas comparações com outros devedores, alguns desenvolvidos e muitos em desenvolvimento. Qualquer analista do setor financeiro poderá obter facilmente os números necessários para o confronto e a conclusão será óbvia.

Em mais uma briga ridícula, inútil e talvez contraproducente, o governo brasileiro conseguiu convencer o pessoal do FMI a divulgar também a dívida bruta calculada segundo o padrão nacional. Não haverá tratamento diferenciado. A mesma regra valerá para os 188 países-membros.

O Fundo poderá incluir em documentos oficiais os valores estimados segundo o método de cada país, mas continuará divulgando as cifras obtidas de acordo com o padrão internacional. Ao insistir nessa mudança, as autoridades brasileiras mais uma vez se distinguiram de forma negativa.

A dívida pública brasileira - títulos emitidos pelos governos de todos os níveis nos mercados interno e externo - correspondia a 66,3% do PIB no fim do ano passado, segundo o FMI. De acordo com Brasília, o número correto era 56,8%. O cálculo oficial brasileiro exclui os papéis em poder do Banco Central (BC), como se fossem irrelevantes e nada acrescentassem ao risco soberano.

Mas esses papéis são reais, têm alguma função e integram os compromissos do setor público, argumentam os críticos da posição defendida pelo ministro da Fazenda. De toda forma, o critério seguido pelos técnicos do FMI é geralmente aceito na comunidade global e, por ser uniforme, permite a comparação entre os vários países.

A publicação dos dados produzidos por Brasília fará pouca ou nenhuma diferença para essa comparação. A dívida bruta de 56,8% do PIB, reconhecida pelo governo como o número relevante, ainda será maior, proporcionalmente, que os débitos de 20 dos 29 emergentes incluídos em tabela divulgada em abril pelo FMI. Quando se usa o número do Fundo (66,3%), a posição brasileira é pior que a de 24 dos 29 países. Pelos dois padrões a situação brasileira no fim de 2013 era menos favorável que a da média dos emergentes (34,9%) e também menos confortável que a dos latino-americanos (51,4%).

A dívida bruta brasileira, em termos brutos, supera também, como porcentagem do PIB, os compromissos de vários governos de países desenvolvidos. No fim do ano passado, 13 economias avançadas de uma lista de 32 tinham dívidas públicas inferiores à do Brasil por qualquer dos dois critérios - 56,8% ou 66,3%. Governos de economias sólidas, mais modernas e com histórico muito melhor que a do Brasil, exibiam no fim do ano graus de endividamento muito mais sustentáveis. Alguns exemplos: Suécia (41,4%), Noruega (29,5%), Nova Zelândia (35,9%), Coreia (36,7%), Dinamarca (45,2%), Austrália (28,8%) e Suíça (49,4%).

A presidente Dilma Rousseff e o ministro da Fazenda têm o costume pitoresco, e um tanto impróprio, de confrontar a situação fiscal brasileira com a dos países mais desenvolvidos, como se as contas públicas e o endividamento do País fossem muito melhores.

Em primeiro lugar, a comparação é inadequada porque se trata de países de categorias diferentes. Algumas das maiores economias, como a americana, a francesa, a italiana e até a alemã, têm de fato dívidas públicas bem maiores que a brasileira. Mas seus governos pagam juros muito menores quando têm de vender seus títulos e, além disso, conservam posições muito melhores que a do Brasil nas classificações de risco. A comparação é imprópria, em segundo lugar, porque em várias economias desenvolvidas o endividamento público é menor que no Brasil. Muito mais aceitável seria o confronto com outros emergentes. Nesse caso, a desvantagem brasileira é indiscutível por qualquer contabilidade.

A lista do PT

Demétrio Magnoli
O Globo 


 Lula só pensa naquilo. Diante das vaias (normais no ambiente dos estádios) e dos xingamentos (deploráveis em qualquer ambiente) a Dilma Rousseff na abertura da Copa, o presidente de facto construiu uma narrativa política balizada pela disputa eleitoral. A “elite branca” e a “mídia”, explicou, difundem “o ódio” contra a presidente-candidata. Os conteúdos dessa narrativa têm o potencial de provocar ferimentos profundos numa convivência democrática que se esgarça desde a campanha de ataques sistemáticos ao STF deflagrada pelo PT.

O partido que ocupa o governo decidiu, oficialmente, produzir uma lista de “inimigos da pátria”. É um passo típico de tiranos – e uma confissão de aversão pelo debate público inerente às democracias. Está lá, no site do PT, com a data de 16 de junho (). O artigo assinado por Alberto Cantalice, vice-presidente do partido, acusa “os setores elitistas albergados na grande mídia” de “desgastar o governo federal e a imagem do Brasil no exterior” e enumera nove “inimigos da pátria” – entre os quais este colunista. Nas escassas 335 palavras da acusação, o representante do PT não cita frase alguma dos acusados: a intenção não é provar um argumento, mas difundir uma palavra de ordem. Cortem-lhes as cabeças!, conclama o texto hidrófobo. O que fariam os Cantalices sem as limitações impostas pelas instituições da democracia?

O artigo do PT é uma peça digna de caluniadores que se querem inimputáveis. Ali, entre outras mentiras, está escrito que os nove malditos “estimulam setores reacionários e exclusivistas a maldizer os pobres e sua presença cada vez maior nos aeroportos, nos shoppings e nos restaurantes”. Não há, claro, uma única prova textual do crime de incitação ao ódio social. Sem qualquer sutileza, Cantalice convida seus seguidores a caçar os “inimigos da pátria” nas ruas. Comporta-se como um miliciano (ainda) sem milícia.

Os nove malditos quase nada têm em comum. Politicamente, mais discordam que concordam entre si. A lista do PT orienta-se apenas por um critério: a identificação de vozes públicas (mais ou menos) notórias de críticos do governo federal. O alvo óbvio é a imprensa independente, na moldura de uma campanha de reeleição comandada pelo ex-ministro Franklin Martins, o arauto-mor do “controle social da mídia”. A personificação dos “inimigos da pátria” é um truque circunstancial: os nomes podem sempre variar, aos sabor das conveniências. O truque já foi testado uma vez, na campanha contra o STF, que personificou na figura de Joaquim Barbosa o ataque à independência do Poder Judiciário. Eles gostariam de governar um outro país – sem leis, sem juízes e sem o direito à divergência.

Cortem-lhes a cabeça! A palavra de ordem emana do partido que forma o núcleo do governo. Ela está dirigida, imediatamente, aos veículos de comunicação que publicam artigos ou difundem comentários dos “inimigos da pátria”. A mensagem direta é esta: “Nós temos as chaves da publicidade da administração direta e das empresas estatais; cassem a palavra dos nove malditos”. A mensagem indireta tem maior amplitude: no cenário de uma campanha eleitoral tingida de perigos, trata-se de intimidar os jornais, os jornalistas e os analistas políticos: “Vocês podem ser os próximos”, sussurra o persuasivo porta-voz do presidente de facto.

No auge de sua popularidade, Lula foi apupado nos Jogos Pan-Americanos de 2007. Dilma foi vaiada na Copa das Confederações. As vaias na abertura da Copa do Mundo estavam escritas nas estrelas, mesmo se o governo não experimentasse elevados índices de rejeição. O governo sabia que viriam, tanto que operou (desastrosamente) para esconder a presidente-candidata dos olhos do público. Mas, na acusação desvairada de Cantalice, os nove malditos figuram como causa original da hostilidade da plateia do Itaquerão contra Dilma! O ditador egípcio Hosni Mubarak atribuiu a revolução popular que o destronou a “potências estrangeiras”. Vladimir Putin disse que o dedo de Washington mobilizou 1 milhão de ucranianos para derrubar o governo cleptocrático de Viktor Yanukovich. O PT bate o recorde universal do ridículo quando culpa nove comentaristas pela recepção hostil a Dilma.

Quanto aos xingamentos, o exemplo nasce em casa. Lula qualificou o então presidente José Sarney como “ladrão” e, dias atrás, disse que FHC “comprou” a reeleição (uma acusação que, nos oito anos do Planalto, jamais levou à Justiça). O que gritaria o presidente de facto no anonimato da multidão de um estádio?

Na TV Estadão, critiquei o candidato presidencial José Serra por pregar, na hora da proclamação do triunfo eleitoral de Dilma Rousseff, a “resistência” na “trincheira democrática”. A presidente eleita, disse na ocasião, é a presidente de todos os brasileiros – inclusive dos que nela não votaram. Dois anos mais tarde, escrevi uma coluna intitulada “O PT não é uma quadrilha” para enfatizar que “o PT é a representação partidária de uma parcela significativa dos cidadãos brasileiros” e fazer o seguinte alerta às oposições: “Na democracia, não se acusa um dos principais partidos políticos do país de ser uma quadrilha”. A diferença crucial que me separa dos Cantalices do PT não se encontra em nossas opiniões sobre cotas raciais, “conselhos participativos” ou Copa do Mundo. Nós divergimos, essencialmente, sobre o valor da liberdade política e da convivência democrática.

Se, de fato, como sugere o texto acusatório do PT, o que mais importa é a “imagem do país no exterior”, o “inimigo da pátria” chama-se Cantalice. Nem mesmo os black blocs, as violências policiais ou a corrupção sistemática são piores para a imagem de uma democracia que uma “lista negra” semioficial de críticos do governo.

Democracia e impunidade

Denis Lerrer Rosenfield  
O Estado de S.Paulo

Estados democráticos são os que se caracterizam pela observância das leis, pela segurança jurídica e física de seus cidadãos, preservando a ordem pública toda vez que ela for perturbada. Não há neles, nem deve haver, nenhum tipo de tolerância com o crime, pois este nada mais é do que o germe de conturbações futuras.

No Brasil desenvolveu-se extrema complacência com a insegurança, física e jurídica, com os crimes em geral, ainda mais quando estes se apresentam com uma roupagem social. Crimes "sociais", de certa maneira, não seriam crimes, mas atos de "resistência", ou seja lá que outra bobagem for.

O problema maior com esse tipo de complacência está em que as instituições vão sendo progressivamente enfraquecidas, como se tivessem de conviver com atos que as desestabilizam e, muitas vezes, as reduzem a mera encenação. Instituições que convivem com "movimentos sociais" e outros que as desrespeitam estão fadadas a ser coadjuvantes de um jogo que as ultrapassa.

Convivemos com uma leniência tanto em relação aos delitos propriamente penais quanto aos crimes, digamos, sociais, como se, em última análise, tudo fosse social. Ora se tudo é "social", deveríamos aceitar e mesmo justificar que as instituições democráticas sejam debilitadas. Criam-se, assim, formas de subversão da democracia por meio de um discurso que se diz democrático. O "social" é instrumentalizado visando a enfraquecer a própria democracia.

A greve dos metroviários e a invasão de uma propriedade urbana pelo Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) em São Paulo são emblemáticas, por terem posto a nu tudo o que está em jogo. Antes delas, tivemos em várias cidades movimentos do mesmo tipo, com atos de vandalismo, como os dos rodoviários no Rio de Janeiro e em Porto Alegre.

O movimento paredista dos metroviários está se esvaindo graças à falta de sustentação popular e a atitudes firmes da Justiça do Trabalho e do governador Geraldo Alckmin. Os infratores das leis estão sendo tratados como tal, devendo, portanto, arcar com as consequências de seus atos. Porque conviver com greves em que não há punições nem desconto dos dias parados é como conceder uma espécie de férias remuneradas.

Mais concretamente, nesse caso estaríamos diante de flagrante impunidade, como se fosse possível tudo fazer, até mesmo desrespeitar as leis, e posteriormente tudo ser acomodado por uma negociação "política". Ora, a política que transige com o crime não é "política", é criminosa, por aceitar como lícitos e justificáveis atos criminosos.

A Justiça do Trabalho tomou uma atitude de absoluto respeito às leis ao bloquear as contas do Sindicato dos Metroviários para o pagamento de multas estipuladas e das quais ele tinha prévio conhecimento. A greve fora declarada abusiva e o sindicato decidiu simplesmente desrespeitar a Justiça, como se a lei a ele não se aplicasse. A afronta foi total. De fato, ela é o produto de uma longa impunidade, em que multas foram suspensas em troca da "volta à normalidade". O anormal tornou-se "normal" em nome de uma democracia que foi desconsiderada.

Enquanto os sindicatos e os ditos movimentos sociais não respeitarem a lei, crendo ser o crime uma forma de ato político, as instituições democráticas terão dificuldades de se fortalecer entre nós. Espera-se que a própria Justiça honre a sua decisão e não volte atrás, pois, se voltar, o seu recuo significa o recuo mesmo do império da lei.

O governador Alckmin, corretamente, decidiu pela demissão de sindicalistas e outros que partiram para o vandalismo, a depredação e as mais distintas formas de desrespeito à lei. Cabe, sim, aos governantes mostrar que as instituições devem ser respeitadas e a lei tem de ser obedecida, sem nenhuma exceção. Essa é, aliás, a única forma de coibir novas manifestações desse tipo no futuro. Espera-se, igualmente, do governador que não haja recuo.

Tratamento diferente teve o MTST, que nada mais é do que o braço urbano do MST, cujo objetivo, declarado em todos os seus textos e manifestos, consiste na supressão da economia de mercado, do direito de propriedade e do próprio Estado Democrático de Direito. Tem como finalidade subverter a democracia por meios democráticos, instaurando entre nós um Estado bolivariano, sendo Cuba e Venezuela seus modelos. Cartilhas para crianças, por exemplo, exibem fotos de Che Guevara em todas as suas páginas.

Transferindo para as cidades a tática de invasões usada no meio rural, o movimento ocupou uma área privada na cidade de São Paulo, próxima ao Itaquerão. Foi tratado com extrema compreensão. Desenvolveu, seja dito de passagem, uma campanha bem-sucedida perante a opinião pública e tornou a sua causa simpática, como se lutasse por "moradia popular".

Note-se que há uma lei no País, estranhamente não seguida, que impede a desapropriação de áreas invadidas. Ora, é isso precisamente que está acontecendo. O desrespeito à lei está sendo premiado. Outras exigências estão sendo apresentadas para modificar a própria legislação do Município. Negociações "políticas" estão sendo estabelecidas, com a política servindo novamente para justificar o crime, sobretudo se a sua roupagem for "social".

Houve a promessa de desapropriação da área, como se o direito de propriedade pudesse ser liminarmente desconsiderado. Já há também promessas de edificação de moradias para os militantes do MTST, fazendo com que verdadeiros trabalhadores sejam preteridos. Em nome dos trabalhadores, trabalhadores são relegados a segundo plano. A moeda de troca foi não haver manifestações na Copa do Mundo da Fifa. Trato feito, a impunidade foi assegurada e o crime, recompensado.

A situação é extremamente perigosa, pois nada mais é do que o prenúncio de novas invasões nas demais cidades brasileiras, que certamente se multiplicarão depois da Copa e no próximo ano. As portas foram abertas para outras invasões, agora em áreas urbanas.

O Mundial 2014 e a Casa da Mãe Joana

Gil Castello Branco
O Globo

A Copa é parte do contexto. Manifestações e vaias são consequências da inflação, de serviços públicos ruins e da corrupção

No século XIV, a rainha de Nápoles, Joana, após envolver-se em conspiração para a morte do marido, fugiu e foi morar em Avignon, na França. Lá, se instalou em um palácio e passou a mandar e desmandar na cidade, a ponto de regulamentar até os bordéis. A partir daí, cada prostíbulo passou a ser conhecido como “Paço da Mãe Joana”. No Brasil, a expressão foi alterada para “Casa da Mãe Joana”, sinônimo de lugar ou situação em que predominam o vale-tudo, a balbúrdia e a desorganização.

Associo a história à Copa. Desde 2007, quando o Brasil foi anunciado como país-sede, venderam-nos gato por lebre. À época, o então ministro do Esporte, Orlando Silva, afirmou: “Os estádios para a Copa serão construídos com dinheiro privado. Não haverá um centavo de dinheiro público.” Na mesma linha, o ex-presidente da CBF Ricardo Teixeira disse: “Faço questão absoluta de garantir que será uma Copa em que o poder público nada gastará em atividades desportivas.” O ex-presidente Lula confirmou: “Tudo será bancado pela iniciativa privada.”

Se fosse verdade, ninguém criticaria as arenas de Manaus, Natal, Cuiabá e Brasília — uma manada de elefantes brancos —, construídas pela iniciativa privada, por sua própria conta e risco. Curiosamente, porém, a maioria dos empresários não se interessou pelos estádios padrão Fifa. A fatura de R$ 8 bilhões, em sua quase totalidade, caiu mesmo no colo da viúva.

Afirmar que a metade desse valor decorre de financiamentos que serão cobrados com rigor pelos bancos é, no mínimo, uma falácia. Em sete arenas, os próprios governos estaduais assumiram dívidas de R$ 2,3 bilhões com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Sendo empréstimos contraídos pelos estados, adivinhe leitor, de onde sairá o dinheiro para quitá-los?

Outro sofisma é a comparação entre o custo dos estádios em 12 cidades e os gastos integrais em Saúde e Educação, efetuados pela União, pelos estados e por todos os municípios brasileiros, de 2010 a 2013. Com a intenção de tornar irrelevantes os investimentos nas arenas, a presidente Dilma, às vésperas da Copa, apresentou soma de R$ 1,7 trilhão, segundo ela “investida” em Saúde e Educação, incluindo no montante, de forma inadequada, itens de custeio, como vigilância, limpeza, salários, luz e água, entre outros. Na realidade, o custo dos estádios equivale a dois anos de investimentos federais em Saúde ou à instalação de 2.263 escolas.

Em contrapartida, boa parte das reformas dos aeroportos e do legado de mobilidade ainda está pelo caminho. Para atenuar o caos urbano chegaram a ser previstos R$ 12,4 bilhões. No entanto, cerca de R$ 4 bilhões simplesmente sumiram da Matriz de Responsabilidades, visto que as obras não ficariam prontas a tempo do Mundial. Das que restaram, apenas 43% foram concluídas, segundo o TCU. Dessa forma, chegamos ao Mundial com o ônus dos elefantes brancos e sem o bônus dos legados.

Até agora, ninguém sabe o custo real da Copa. No Portal da Transparência constam R$ 25,6 bilhões, mas o valor — por sinal desatualizado — não inclui, por exemplo, as verbas de publicidade, as estruturas temporárias, os centros de treinamento e os subsídios à entidade presidida por Blatter, bem como às empresas por ela indicadas. Apesar de a Fifa ter obtido receitas de R$ 10 bilhões, o Congresso Nacional concedeu-lhe inédita isenção total de impostos, correspondente a R$ 1,1 bilhão. No pacote do perdão estão tributos federais como IRRF, IOF, contribuições sociais, PIS/Pasep, Importação, Cofins Importação, entre outros. Como a Fifa diz que não exigiu esse amplo favor, quem foi o mentor dessa caridade com o nosso chapéu?

Enfim, a Copa 2014 será marcada por falta de planejamento, má gestão, obras inacabadas, excessivas cidades-sede, desperdícios evitados pelo TCU (R$ 700 milhões), denúncia de superfaturamento do “Mané Garrincha” (R$ 431 milhões), arenas entre as mais caras do mundo e repulsa à Fifa, entidade que merece um “chute no traseiro”.

De qualquer forma, quando 72% da população estão insatisfeitos (Pew Research Center), a Copa é apenas parte do contexto. As manifestações e as vaias são consequência da inflação, da estagnação da economia, da péssima qualidade dos serviços públicos e da corrupção deslavada. É bom lembrar que em 2010, na Copa da África do Sul, o ex-presidente Nelson Mandela foi ovacionado.

Como o protesto mais eficiente não é nos estádios, mas nas urnas, o dever de casa para hoje será o Brasil vencer o México e avançar rumo à conquista da Copa — a Copa da Mãe Joana.

O PT e o povo… que povo?

Percival Puggina

Vários jornalistas e opinadores da mídia descobriram, após exaustivas investigações, que as vaias e os insultos dirigidos à presidente durante o jogo de estreia do Brasil na Copa provieram de uma elite com “caixa” suficiente para adquirir os custosos ingressos que davam acesso às cadeiras do Itaquerão. Ali não estava o “povo”. E, menos ainda, o povão. É claro que se Dilma tivesse sido aplaudida (como era aplaudido o presidente Médici quando entrava no Maracanã), jamais recusariam à efluente plateia o direito de ser identificada como imagem viva do “povo”.

A contradição nos coloca diante de mais um problema gerado pelo petismo. Para entender o que acontece é preciso saber como funcionam essas coisas na cabeça dos que foram doutrinados pelo Partido dos Trabalhadores. Eles são o povo quando vaiam e jamais são vaiados pelo povo porque isso significaria vaiar a si mesmos. E é assim que pensam, por mais que a presidente Dilma, nos últimos meses, recolha apupos onde quer que vá.

Todos os grandes teóricos da esquerda são unânimes em afirmar a importância do partido e de sua disciplina interna, na qual repousa indispensável elemento de coesão e mobilização. Com efeito, nenhum grupo social se reúne tanto quanto esses denodados militantes para os quais nada se sobrepõe à convocação partidária. Os demais cidadãos, mesmo quando politicamente alinhados, têm outros compromissos e se ocupam, também, com atividades que vão dos joguinhos de futebol aos aniversários dos parentes, do fim de semana na praia aos prazeres da carne, das responsabilidades profissionais às irresponsabilidades de um filmezinho na televisão. “Coisas do mundo, retratos da vida”.

A capacidade de juntar gente acaba produzindo presunçosa consequência: os companheiros se reúnem sob a sólida certeza de que são o próprio povo, seja numa assembleia do OP, numa passeata do Fórum Social, numa reunião de seu “coletivo”, numa assembleia de professores, seja, ainda, para ocupar uma rua, bloquear uma estrada, invadir uma fazenda, assassinar reputações, ou insultar aqueles a quem se opõem.

Agora mesmo, a presidente acaba de assinar um decreto, o tal Decreto nº 8243, que institui os sovietes no Brasil através de um certo Programa Nacional de Participação Social. Esse ato normativo, que atropela a Constituição e o Congresso Nacional, pretende trazer o povo para a definição dos projetos e das políticas públicas. E quem é o povo para o governo petista? O povo é formado pelos movimentos sociais, coletivos, sindicatos e outros entes, “institucionalizados ou não”, que o PT sabidamente constitui, domina e instrumentaliza.

Nada na vida social é mais heterogêneo do que o povo. Ele não tem coisa alguma a ver com certas pinturas ideologizadas que o representam com as individualidades indiscerníveis e os punhos simiescamente erguidos ao alto. É em virtude da pluralidade inerente à composição social que a democracia, institucionalizada como regime, só pode ser representativa. E é em virtude dessa pluralidade que as formas de democracia direta, na Constituição Federal, estão restritas a plebiscitos, referendos e iniciativa popular na apresentação de propostas legislativas. E é bom que seja assim, acima e muito além das pretensões hegemônicas do PT, porque só assim se preservam as maiores riquezas de uma sociedade, que são os indivíduos que a compõem.

Estudar não é feio

Miriam Leitão e Alvaro Gribel  
O Globo

Ao lado de Armando Monteiro Neto, da elite nordestina, o ex-presidente Lula reciclou seu surrado discurso e disse que os ricos perseguem o PT. Depois de 11 anos e meio de um governo que alargou os canais de transferência de dinheiro público para os grandes grupos empresariais, essa conversa de Lula não se sustenta nos dados e nos fatos. Mas é o que ele dirá para ver se cola.

A outra parte do discurso que Lula reapresentou no último fim de semana é mais nefasta. É a ideia de que estudar atrapalha, torna a pessoa insensível e deseduca. “Comeram demais, estudaram demais e perderam a educação”, disse o ex- presidente em um dos vários ataques aos estudos.

A maioria do país condena a forma desrespeitosa com que a presidente Dilma foi tratada no estádio Itaquerão. Há formas aceitáveis de demonstrar desagrado ao governo. Aquela que foi usada no estádio não faz bem ao país, à democracia e desrespeita a instituição da Presidência da República. Merece repúdio.

Isso não dá ao ex-presidente licença para reutilizar todos os velhos truques das falsas dicotomias que são uma agressão à inteligência alheia. O governo do PT favoreceu grandes grupos, corporações e os muito ricos através de subsídios, participações acionárias do Estado em empresas familiares e a concentração de empréstimos subsidiados às grandes empresas. Isso foi visto em bases diárias. É um atentado aos fatos dizer que são os ricos que estão contra o PT.

O pior do discurso do ex-presidente Lula, já conhecido de outras campanhas, é a sistemática acusação ao estudo, aos diplomas. Ele ataca as pessoas “que estudaram mais”, mas isso tem pouca importância para cada pessoa em si. É deletério ao coletivo porque enfraquece o valor da educação como parte do processo de construção da prosperidade pessoal e do país.

Não há área onde estejamos mais atrasados, por erros que vêm de muito tempo, do que na educação. Nem há setor que no mundo atual seja mais importante para avançarmos. Por isso, o ex-presidente Lula deveria abandonar a compulsão que manteve durante o período que governou o país e, agora, ao tentar reeleger o partido pelo quarto mandato, de desqualificar a educação formal, porque dela precisamos muito.

Em 2010, num dis- curso durante a campanha da atual presidente Dilma, Lula foi sincero e disse que “as pessoas ricas foram as que mais ganharam dinheiro no meu governo”. Em 2006, ele já havia dito a um grupo de repórteres, com os quais viajou durante a campanha, que “os ricos ganharam muito dinheiro no meu governo”. De fato, basta ver como o BNDES tratou os maiores grupos empresariais nessa mistura infalível que anula os riscos e catapulta os ganhos: o banco vira sócio, compra debêntures lançadas por um grupo, para que ele, capitalizado, compre outras empresas. Em seguida, empresta dinheiro à empresa a juros menores do que os pagos pelo Tesouro. Para financiar essa farra, o Tesouro se endividou em R$ 400 bilhões no mercado.

Foram os grandes grupos que pegaram as maiores parcelas desses recursos. Foram as grandes empreiteiras as beneficiadas com as obras cujo valor inicial foi sendo aumentado pelos aditivos. Num dos casos, a Refinaria Abreu e Lima, houve tantas estripulias que um dos responsáveis está na cadeia, pelo temor de que ele fuja atrás do dinheiro que depositou em suas contas fora do país.

Basta um olhar nos grandes financiadores do PT para desmentir a ideia de que só os pobres apoiam o partido. Mas esse é um discurso conveniente até porque os ricos sabem o quanto ganharam e não se importam com essa contradição entre fala e fatos. O que realmente o ex-presidente deveria evitar é dizer que estudar é o caminho para a insensibilidade, para a grosseria que foi feita no estádio, para os maus modos. Essa defesa da falta de ensino escolar esteve presente em cada palanque que subiu ao longo dos anos que governou e nas campanhas que fez. Essa é a pior forma de prejudicar o país.

Se quiser, Lula que continue com sua estratégia de acusar ricos, cercado de ricos; que ponha a culpa na imprensa pelas revelações sobre os escândalos em série no governo ou na base de apoio, mas poupe a escola de seus ataques. O que o país mais precisa é de valorizar a educação, a escola, o estudo como parte do futuro que precisamos alcançar.

(Des) mandamentos

Dora Kramer
O Estado de S.Paulo 

Fala-se nas diferenças de ideias entre PT e PMDB como se a representação mental de algo concreto fosse a razão primordial da aliança entre os dois partidos.

Mas o fato de divergirem sobre questões como a criação de conselhos populares para orientar decisões de governo, controle dos meios de comunicação e plebiscito sobre Constituinte exclusiva para reforma política não tem a menor importância.

Esses temas são caros aos petistas, que nem por isso dão a mínima para a posição contrária dos pemedebistas. Entre outros motivos porque no mundo real todos eles sabem que tais propostas não passam de conversas para agradar momentaneamente o público do PT e que não vão adiante por absoluta ausência de respaldo político, social e, em alguns aspectos, legal.

Assim como as divergências de pontos de vista pouco importam, é irrelevante a agenda dita de compromissos que o PMDB apresenta ao parceiro para fugir da pecha de fisiológico quando firma aliança para concorrer às eleições. Em 2006, ao aderir de corpo e alma ao governo Lula, o partido apresentou um documento chamado "Os sete mandamentos", do qual falaremos adiante.

Falemos primeiro dos mandamentos de 2014. São oito os itens escolhidos pelo PMDB para exibir como "prova" de que o apoio à reeleição de Dilma Rousseff é programático.

São as seguintes as exigências para eventual segundo mandato: 1. Forte suporte público à política industrial; 2. Retomada do processo de crescimento mediante a criação de um Plano Nacional de Formação e Qualificação de Trabalhadores; 3. Novo modelo de política de infraestrutura; 4. Garantia de acesso à saúde e à educação; 6. Manutenção e extensão das políticas compensatórias; 7. Democratização dos meios de comunicação; 8. Política externa independente e progressista.

Em matéria de obviedades, estaria completo o decálogo com o apoio à luz elétrica e à água encanada. Ainda assim, vamos que Dilma reeleita não cumpra os compromissos exigidos pelo PMDB, deixará ele o governo em protesto programático?

Sem chance. Ficará exatamente onde lhe convier. Como fez nos últimos anos desde que apresentou os tais sete mandamentos de 2006, reunidos em documento na ocasião tido como atestado da "altivez doutrinária" do PMDB.

Vamos aos pontos: 1. Reformas política e tributária; 2. Crescimento econômico acima de 5%; 3. Manutenção dos gastos correntes a níveis inferiores ao PIB; 4. Consolidação das atuais políticas de transferência de renda; 5. Renegociação das dívidas dos Estados; 6. Fortalecimento da federação; 7. Criação de um conselho político de partidos para acompanhar as ações de governo.

Os escribas de tão nobres tábuas tiveram o cuidado de ser mais genéricos entre uma e outra. A de 2014 é vaga o suficiente para não dar margem alguma a cobranças. Já a de 2006 se presta a comparações com a realidade.

Reformas política e tributária? Nem pensar. Crescimento acima de 5%? Nem precisamos entrar e em detalhes. Contenção dos gastos públicos fez o caminho inverso ao do PIB, proporcionando aquele falado espetáculo do crescimento. As políticas de transferência de renda são de interesse do governo; portanto, compromisso do PT com ele mesmo.

Já era previsto que o PMDB não se revoltaria caso não se fortalecesse a federação nem promoveria a ruptura se o tal conselho de partidos não vingasse, como não vingou.

O PMDB renovou a aliança com o PT em clima de revolta, mas não por quebra de compromissos programáticos e sim por falta de influência no governo, insuficiência de poder nos ministérios e avanço do PT sobre as bases do partido nos Estados.

Coisa feia. .
O que se viu na abertura da Copa ficou muito pior para quem não diferencia protesto de estupidez do que para a presidente que cumpria missão protocolar. Vaia é do jogo, mas o insulto despolitiza o gesto.

As Copas do Brasil e as Copas no Brasil

Roberto Damatta
O Globo 

Ganhamos cinco copas do mundo de modo indiscutível e, como dizia Nelson Rodrigues, insofismável. Na maioria das vezes, de modo devastador como em 58, 62 e 70. Essas vitórias todas, entretanto, não foram em terra brasileira, mas “lá fora” como se dizia quando o mundo ainda era grande e desconhecido. 

Havia quem pensasse que Paris era a capital da Europa e que a Inglaterra era um continente. O ponto de vista reverso arrolava Buenos Aires como capital do Brasil. Eis um país desconhecido no qual se falava espanhol ou um idioma desconhecido, “o brasileiro”, como disse uma senhora inglesa com um ar sério e douto, muito apropriado aos britânicos, num programa de televisão da BBC realizado dos anos 80, sobre o Brasil, no qual eu contribui com o lado interpretativo. Nele, além de obviedades como racismo, favor, malandragem, clientelismo e música, falávamos desse futebol que evoluiu do “jeitinho” (que iguala) para o “você sabe com quem está falando?” (que suprime o reconhecimento do outro) dos pentacampeonatos. 

Foi o futebol que - ao lado da Bahia de Jorge Amado, do cinema de Glauber Rocha e Cacá Diegues; e da bossa-nova de Tom Jobim - nos tirou da vala comum de um povo sem mapa, para nos reordenar num lugar superior no tal “concerto das nações” que eu tanto ouvia falar e, menino, cheguei a pensar que era uma orquestra a tocar a melodia triste de duas guerras mundiais e holocaustos promovidos pelos nazismos e stalinismos. A partir de 50, porém, o futebol consolidou o Brasil como dono de uma invejável cronologia futebolística.

Curioso, para quem não pensa que, tanto no esporte quanto na democracia, derrota e vitória são os lados de uma mesma moeda, que tenhamos sofrido uma devastadora perda justamente na copa jogada no Brasil. É meu palpite que o jogo “em casa” fazia a mágica de suprimir no nosso mapa mental uma eventual derrota. A lição da Copa de 1950 foi que, no esporte, como na vida igualitária, há perderes e vencedores, o que não significa que os primeiros são inferiores aos segundos. É a partida, na sua dinâmica e feroz realidade quem diz - tal como sucede no mercado e nas eleições - quem é o vencedor.

Perdemos então em 50, a copa no Brasil. 

Copa, vale mencionar, que é também um espaço próximo da cozinha onde as louças nas quais comemos são guardadas e é um vaso covo em que bebemos líquidos e se refere à parte superior das árvores e do chapéu. Ademais, a expressão “fechar-se em copas” fala de uma pessoa amuada tal como ficamos em 1950, quando os nossos hermanos uruguaios levaram a copa e nós nos fechamos chorosos na derrota. Mas em 1958 e 62 renascemos nesta mesma taça, que acabou sendo nossa em 1970. Fomos seus ganhadores materiais definitivos, mas a perdemos vergonhosamente para ladrões que, corre o mito, venderam o seu ouro devidamente dissolvido no mercado das copas abandonadas por suas burocracias.

Tudo isso para, com Ruy Castro, recordar que as taças eram mesmo copas ou copos elaborados, com os quais se bebia algo valioso ou sagrado. Não sei se por pedantismo ou palpite (provavelmente pelos dois), não deixo de associar as taças (ou copas) nas quais o time vencedor bebia a champanha ou o vinho da vitória, ao Santo Graal. Aquele cálice sacrossanto usado por Jesus Cristo na Última Ceia, no qual José de Arimateia (um rico senador e cristão secreto) colheu - diz a lenda - o sangue do Salvador, quando ele recebeu o golpe final de um decurião romano. 

Sabe-se que o cálice faz parte de uma teia de lendas célticas que falavam no Rei Artur e numa idealizada e protodemocrática Camelot, cujo centro era a busca de objetos que simbolizavam a superioridade, legitimando-a. Nessa busca, surgem a espada, a coroa (transformada em halo nos santos) e a copa - todos ligados à pureza de coração e à espiritualidade enobrecedora. Artur, dizem os mitos, tira sua espada de uma pedra ou a recebe da Dama do Lago. Eis o que todos procuram, mas que a Dama do Lago somente entrega a um craque escolhido. Do mesmo modo, o Santo Graal que significaria “sangue real”, traria paz e prosperidade para o reino. 

Para nós, pentacampeões, a taça da vitória, que hoje é um pesado troféu um tanto cafona na sua ostentação aurífica, seria a prova de que o nosso sangue mestiço é nobre e não o testemunho de fatal inferioridade. Ganhar a Copa no Brasil, em pleno território nacional, portanto, resgataria a tal prosperidade e a santa paz prometida pelo velho populismo esquerdista que, cada vez mais corrupto e dissimulado, tem desonrado muita coisa, menos - assim espero - o futebol.

O fantasma de Dilma em 2015

Vinicius Torres Freire
Folha de São Paulo


País deve evitar crise, mas quase-estagnação vai causar problema político no próximo governo

Nos anos Dilma, a economia terá crescido pouco menos de 2% ao ano, sob uma inflação anualizada de 6%, em média, e uma taxa de desemprego decrescente, a menor em décadas. Trata-se de uma espécie exótica de estagflação moderada.

Quanto tempo pode durar essa discrepância entre baixa produção e baixo desemprego? Quais as consequências políticas dessa quase-estagnação no próximo governo?

Note-se ainda que, sob Dilma, o deficit público cresceu. O investimento do governo como proporção do PIB quase não se moveu. A massa do consumo das famílias terá crescido a mais do que o dobro do ritmo da alta do investimento "na produção". O deficit externo, nosso excesso de consumo bancado pelo exterior, aumentou bem.

Como diz o o clichê da hora, não obstante correto, é um quadro de excesso de consumo, manifesto na inflação relativamente alta e no deficit externo crescente e incômodo. Em outras eras, situação semelhante daria logo em crise. Agora, o Brasil é um país de fato mais resistente.

Tem reservas internacionais bastantes para evitar ou atenuar especulações sobre nosso deficit externo grande, sobre nossa capacidade de pagamentos externa. Apesar da piora das contas do governo, a dívida pública está sob controle, mesmo levando em conta maquiagens e esqueletos fora do armário tais quais as dívidas feitas para bancar a expansão do crédito na banca estatal. Restou certa ordem fiscal, herdada dos anos 2000-2007.

Não é de desprezar também o fato de termos um mercado doméstico de consumo grande e ampliado recentemente, além de protegido da concorrência, o que atrai uma quantidade ainda razoável, embora cadente, de investimento estrangeiro "na produção".

No entanto, o sonho da desrazão de tal "modelo" vai produzir monstros. Há inflação adicional incubada: 1) Preços represados de combustíveis, eletricidade, transportes públicos; 2) A derivada da desvalorização do real que virá em algum momento (pela mudança dos juros nos EUA, pelo nosso próprio excesso de deficit e inflação); 3) A derivada dos salários ainda crescentes, dado o desemprego baixíssimo.

Mesmo na hipótese "gradualista" do controle de tais danos (em termos de juros e corte de gastos públicos), não é possível imaginar aceleração do crescimento em 2015, a não ser na hipótese de colapso ainda em 2014. A alta do desemprego seria modesta, mas a quantidade de empregos cresceria cada vez mais devagar, assim como a renda, tendência desde a metade de 2013.

A alta anêmica do PIB deixará o governo sem caixa para aumento significativo de despesas sociais; vai conter por mais um tempo os aumentos do salário mínimo e dos benefícios previdenciários (vinculados à variação do PIB).

Na ausência de tumulto no exterior (EUA), talvez seja possível administrar a quase-estagnação por mais uns dois anos, supondo-se que não houvesse deterioração ainda pior da confiança econômica.

Mas como fica o humor "social", político? A redução do ritmo das melhorias sociais e de renda já não pegou bem, vê-se, dadas as expectativas aumentadas, dadas as melhoras da década recente. Como lidar com a frustração dessas expectativas no novo governo? Como atenuar as dores da mudança e criar uma conversa que a legitime?