domingo, junho 22, 2014

A resposta do governo Dilma para a estagnação é... mais estagnação.

Adelson Elias Vasconcellos

Seja como for, se o governo da senhora Rousseff nada mais tem a oferecer em prol do desenvolvimento do país, em níveis razoáveis ao menos, além de um café requentado sem açúcar,  não pode reclamar da avaliação negativa que a sociedade lhe concede. 



O governo Dilma reuniu nesta semana, em Brasília, naqueles cerimoniais inúteis e dispendiosos, alguns pesos pesados do empresariado, para anunciar um “pacote” de medidas que teriam, por objetivo, reaquecer a atividade industrial que, acrescente-se, segue  completamente estagnada ao longo do mandato de Dilma.

Ora, era  para se esperar que, depois de três anos e meio no poder, mantendo contatos diretos ou através de seus ministros com tantos empresários e, furtivamente, até com alguns economistas do setor privado, o governo Dilma fosse um pouco mais criativo e ousado na apresentação de medidas que buscassem dar um impulso vigoroso à indústria brasileira. 

O governo sabe que se encontra em franca decadência de conceitos. Não é apenas a classe média alta, ou até dentre os mais ricos, a tal “elite” ou, ainda, a “elite branca de São Paulo”, como se tenta espalhar. Não há uma única pesquisa que não demonstre os péssimos conceitos do governo comandado pela senhora Rousseff, em seus diferentes campos de atuação. Desde a saúde até o combate à fome,  o peso maior varia de ruim ou péssimo até regular. E atenção: isto já vem assim desde antes até das manifestações de junho de 2013. 

Qualquer instituto que for às ruas medir apenas a avaliação do governo, sem conotação eleitoral, vai encontrar este cenário de avaliação em todos os estratos da sociedade, seja pela renda ou nível de escolaridade. Portanto, os empresários, sensíveis aos humores do mercado,  também guardam certa distância com o governo Dilma, seja pela insegurança das medidas que toma, seja pelo preconceito deslavado em relação à própria atividade privada, seja pelo intervencionismo exacerbado, seja pela falta de ações e tomada de decisões que apontem um rumo certo, definido e  claro. Mudam-se as regras conforme o bom ou mau humor da senhora Rousseff.  O interesse do país fica sempre em segundo ou terceiro plano.

Aí, diante de todo este cenário, e em pleno ano eleitoral, o que a senhora Rousseff tem para a oferecer, até   para melhorar a imagem que se tem de seu governo? Nada, a não ser um café requentado, sem açúcar, e muito limitado, já que os programas apresentados são os mesmos de antes e que tinham esgotado seu prazo de validade.  Programas que, apesar  da muita publicidade, não conseguiram em sua primeira versão, tirar a indústria do buraco em que se encontra. Assim, o que levaria os empresários agora acreditarem que, desta vez, vai dar certo? 

É impressionante como o governo da senhora Rousseff se esforça no sentido de parecer que não tem projeto algum para o país. Trava-se nos gabinetes de Brasília uma luta titânica para se criar um vazio imenso em relação a um projeto de desenvolvimento pelo menos de curto prazo. Nada. Ali só se pensa no dia seguinte, na eleição seguinte, na pesquisa seguinte. Não se pensa no Brasil para os próximos cinco, oito, dez anos. A senhora Rousseff jogou  um mandato inteiro apostando no superficialismo, na improvisação, no curto prazo, de efeito imediato e sem garantias de resultados positivos. Agora, na boca de urna,  quando se esperava que o governo pudesse ser mais arrojado, mais criativo, monta um enorme circo em Brasília para oferecer mais do mesmo, e ainda assim, um mesmo que não melhorou coisa alguma? 

Os petistas, em geral, tentam jogar nas costas dos outros a péssima avaliação que se tem sobre a atuação da senhora Rousseff.   Deveriam era, ao menos, fazer a leitura do que o próprio povo, em todas as suas camadas sociais, econômicas e culturais, está dizendo sobre o governo. É ele que sente os efeitos positivos ou negativos da atuação do governante. É ele, e não a imprensa dita “golpista” que vai no supermercado toda a semana e vê os preços aumentarem. É ele que sofre duas a três horas diárias para se deslocar para o trabalho e em condições indignas graças a falta de planejamento decente para o transporte coletivo.. É ele que percebe que o seu filho está sem poder frequentar a escola por conta das greves intermináveis dos professores. É ele que vê a criminalidade aumentar, que se sente desconfortável com a insegurança sua e de seus amigos, colegas e familiares. É ele que percebe que a oferta de empregos com salários maiores reduzem-se toda a semana, apesar de haver milhares de ofertas, mas com salários minguados. É ele que percebe o volume de impostos que paga aumentar  e compara com a qualidade dos serviços públicos deteriorando-se. É ele que precisa suportar os engarrafamentos, até em cidades médias, pela falta de planejamento urbano e investimentos em mobilidade. 

Ninguém precisa fazer a cabeça de ninguém para perceber que a qualidade de vida das pessoas está pior. E então este mesmo povo olha para Brasília e vê que, instalado no poder, há uma continuidade de políticas comandadas por um mesmo partido há quase doze anos. Não é preciso muita reflexão para que este povo conclua que é preciso mudar as pessoas, o partido, as políticas, os programas, e colocar no comando do país gente capaz de dar ao Brasil um rumo voltado ao desenvolvimento. 

Esta estigmatização de  “elite branca de São Paulo” é pura estupidez, ladainha retórica de gente que não é capaz de refletir e assumir a responsabilidade por seus próprios erros. Vir com este terrorismo repulsivo, de que a esperança vai vencer  o ódio, é uma agressão idiota ao povo que sofre, na pele, as consequências ruins de um governo medíocre. O povo pode até não ter discernimento entre os candidatos, qual o que tem melhor proposta, mesmo porque a campanha sequer começou. Apenas Dilma fala, apenas Dilma inaugura obras inacabadas, apenas Dilma aparece na tevê em cadeia nacional, apenas Dilma isto e aquilo. Os demais estão legalmente impedidos de ter a mesma presença diária. Apenas Dilma nomeia e libera recursos públicos. E, mesmo tendo uma ampla base de apoio, não foi capaz sequer de apresentar uma reforma digna do nome que favorecesse o desenvolvimento do país. 

O povo sabe, sem que ninguém lhe enfie na cabeça, que o país cresce pouco. Quem tem filhos, além da preocupação com a qualidade do ensino, também considera as perspectivas de futuro de seus filhos.  E, num cenário como o descrito acima, ele tem razão de sobra para desejar mudanças de governo, não apenas no modo, mas nos nomes e na ideologia que o orienta. Os que estão no poder, doze anos de comando, não conseguiram lançar o Brasil numa jornada virtuosa de desenvolvimento, que moral podem ter para prometerem que o farão nos próximos quatro anos?

Assim, melhor do que transferir culpados e caçar bruxas para a queda de avaliação do governo atual, seria melhor o PT avaliar-se a si mesmo, e reconhecer seus erros. É uma contradição espantosa esta gente pretender acusar elites e direita, quando este mesmo governo só soube favorecer o grande capital da mesma elite e aliar-se ao que há de pior na direita, andando abraçada com a velha e apodrecida oligarquia dos Sarneys, Malufs  & Cia.  Mas contraditório também é usar a imprensa para subir, e depois pretender silenciá-la com regulações de conteúdo,  impedindo-a de publicar e informar a podridão reinante no poder. 
Gilberto Carvalho, reunindo a escória ajoelhada de blogueiros chapa branca, falou que o governo deixou que o povo acreditasse de que o PT é corrupto. Isto é afrontar a inteligência das pessoas. A ideia da corrupção instalada no poder que o PT comanda não é fruto de mentiras, dossiês ou coisas do tipo, como se houvesse nos subterrâneos da sociedade um movimento mau caráter incitando ódio das pessoas contra o PT.

A ideia da corrupção veio e é fruto da ação de uma Polícia Federal que, semana sim, semana também, tem desmontado esquemas de corrupção no seio do poder. E esta ideia só não é maior porque o governo se vale de sua maioria parlamentar para abafar qualquer investigação, como vemos ocorrer em relação à Petrobrás. Este é um governo que não resiste a cinco minutos de devassa. Cai de podre.  E não foi o povo quem julgou, condenou e mandou prender a cúpula do PT por corrupção.

Quanto de tempo e de  recursos públicos estão sendo desviados da educação, saúde, segurança, infraestrutura para alimentar patrimônios pessoais de gente do poder?  Não são os mais de 30 bilhões gastos na Copa que resolveriam TODOS os nossos problemas e necessidades, mas seguramente reduziriam estas dificuldades em boa medida.

Se o país continuar estagnado economicamente, como pensa o PT em continuar aumentando a distribuição de “ações sociais”, sem comprometer os investimentos e até a qualidade dos serviços públicos?  Teríamos aí várias opções: se a economia não cresce, a arrecadação também não. Como as despesas continuam  crescendo e até mais do que deveriam, ou se aumenta ainda mais a carga de impostos, ou se eleva em níveis perigosos o grau de endividamento do país. Como elevar impostos neste cenário atual é praticamente inviável, pelo menos ao nível de compensar a queda de receita  fruto da estagnação, a opção seria reduzir ainda mais os investimentos públicos, aumentando ainda mais a insatisfação popular. 

Seja como for, se o governo da senhora Rousseff nada mais tem a oferecer em prol do desenvolvimento do país, em níveis razoáveis ao menos, além de um café requentado sem açúcar,  não pode reclamar da avaliação negativa que a sociedade lhe concede. 

Enquanto agir com medidas populistas, cujos resultados a gente conhece pelo que acontece na Venezuela e na Argentina,  não conseguirá fazer o país avançar. Enquanto continuar agindo para favorecer, por exemplo, a Argentina, na recente renovação do acordo automotivo, ou na tentativa de transferir a indústria farmacêutica daqui para Cuba, ou no perdão de dívidas de ditaduras africanas sem nenhuma razão decente, o PT não pode reclamar da avaliação negativa que recebe dos brasileiros. Seria interessante que eles se convencessem  de uma verdade que a cada dia se consagra: a de que governam o país o povo errados. Poderiam partir para a Argentina, Venezuela, Cuba e para alguma ditadura distante na África. Creio que encontrariam o habitat natural e adequado para imporem seu receituário.  O brasileiro não aceita nem admite retrocesso, como tampouco se recusa em continuar pertencendo   ao quarto mundo que o governo da senhora Rousseff está nos colocando.  Se o governo tem alguma razão para se queixar, ela não está nem no povo nem na mídia, e sim nele mesmo.  

Neste sábado, a senhora Rousseff ao ser oficializada como a candidata petista nas eleições presidenciais em outubro, prometeu um novo ciclo de desenvolvimento, caso reeleita. Bem, fica difícil acreditar em mais uma promessa da senhora presidente. Foram quase vinte pacotinhos ao longo de seu mandato. Em cada início de ano, renovava-se a promessa de inflação controlada na meta e crescimento de 4,5% a 5,0 % do PIB. Não conseguiu cumprir nenhuma coisa nem outra.  A economia vive uma convulsão impressionante, com declínio de todos os indicadores que, antes positivos, passaram para negativos.  O que ela poderá  fazer, de janeiro de 2015 em diante, que não pode realizar desde 2011 até agora?  Assim, o pedido de novo voto de confiança não tem base alguma para ser concedido. Não dá mesmo, senhora Rousseff: prazo de validade vencido.

Um mexidão econômico pouco nutritivo

Rolf Kuntz
O Estado de São Paulo

O novo pacote eleitoral da presidente Dilma Rousseff, um mexidão de velhas e fracassadas medidas econômicas, coincidiu com o anúncio de uma nova redução do emprego na indústria paulista. Foram fechados em maio 12.500 postos de trabalho, saldo final das demissões e contratações, segundo informou na quarta-feira a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Foi a maior queda nesse mês em oito anos. O quadro piorou mais sensivelmente nos últimos cinco. A partir de 2009 foram eliminados 130 mil empregos industriais no Estado, conforme estimativa da federação. Enquanto a informação era divulgada em São Paulo, a presidente Dilma Rousseff e o ministro Guido Mantega, da Fazenda, apresentavam a 34 líderes empresariais, em Brasília, um cardápio de medidas conhecidas, requentadas e parcialmente recicladas.Os industriais saíram aparentemente satisfeitos. Teriam rebaixado suas ambições ou suas expectativas, a ponto de se contentar com um pouco mais de protecionismo e de remendos tributários?

Em 2008, no começo da crise, a produção geral da indústria cresceu 3,1%, porque a turbulência internacional só atingiu o Brasil no fim do ano. O efeito apareceu em 2009, com uma contração de 7,1%. No ano seguinte a expansão chegou a 10,2%, mas a maior parte dessa reação apenas compensou o desastre dos 12 meses anteriores. Nos três anos seguintes, já no mandato a presidente Dilma Rousseff, o cenário foi de estagnação. Em 2011 a indústria produziu apenas 0,4% mais que no ano anterior. Em 2012 o resultado encolheu 2,3%. Esse desastre nem sequer foi compensado pelo avanço de apenas 2,2% em 2013. Nos 12 meses terminados em abril de 2014 a produção foi 1,2% menor que no período imediatamente anterior.

Uma das medidas agora recicladas, o Programa de Sustentação do Investimento (PSI), foi lançada em 2009. Com dinheiro do Tesouro, o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) deveria ter estimulado a compra de máquinas e equipamentos e a construção de instalações. Seria uma forma de combater a recessão e restabelecer o crescimento da economia.

O efeito foi muito limitado, esgotou-se em pouco tempo, e o programa, embora concebido como política de curto prazo, foi prorrogado várias vezes. A evolução da indústria de bens de capital (máquinas e equipamentos) também mostra a baixa eficácia do PSI e de outros estímulos.

A fabricação de bens de capital encolheu 16,5% em 2009 e aumentou 21,3% em 2010, acompanhando a reação geral da indústria. Ainda se expandiu 5% em 2011 e diminuiu 11,2% no segundo ano do atual governo. O crescimento de 11,3% em 2013 apenas compensou aquela retração. Além disso, o investimento nesse período foi muito concentrado em caminhões e máquinas agrícolas, consequência evidente da boa safra. Sem a eficiência do agronegócio o cenário econômico teria sido muito pior. Finalmente, nos 12 meses até abril deste ano, novo recuo da produção de bens de capital, desta vez de 4,8%.

Como o governo também tem investido pouco e negociado muito lentamente as concessões na área de infraestrutura, a formação bruta de capital fixo - máquinas, equipamentos, construções particulares e infraestrutura - pouco avançou nos últimos anos.

No primeiro trimestre deste ano, essa formação de capital correspondeu a 17,7% do produto interno bruto (PIB). Um ano antes estava em 18,2%. Nos primeiros três meses de 2000 a taxa era 19%. Uma curva com os dados de investimento nos trimestres iniciais dos anos seguintes mostra um recuo até 16,1% em 2004 e 2005 e uma recuperação a partir daí. O pico, 19,5%, foi alcançado em 2011, no começo do atual governo. Desse ponto em diante, houve queda contínua.

Em outras economias latino-americanas a proporção está na faixa de 24% a 30% do PIB. Tem ficado acima disso em alguns países da Ásia e ultrapassado 40% na China. O governo brasileiro vem prometendo, há anos, elevar o investimento até 24% do PIB. O prazo para cumprir a promessa tem-se alongado seguidamente.

A escassez de investimentos públicos e privados, somada a outros fatores de atraso, como os baixos padrões educacionais, a burocracia excessiva, a tributação irracional e os erros da diplomacia econômica, explica o desempenho medíocre do País como exportador de manufaturados. Há cerca de um mês o Brasil apareceu em 54.º lugar, entre 60 países, numa classificação elaborada pelo Centro de Competitividade Mundial do IMD, entidade suíça de pesquisa e ensino.

Alguns analistas e empresários industriais atribuem esse quadro à política de juros altos e ao desajuste cambial. É preciso ser muito ingênuo ou desinformado para aceitar essa explicação. O Banco Central começou a reduzir os juros no fim de agosto de 2011 e só voltou a elevá-los no fim de abril deste ano. A taxa de investimentos caiu nesse período e a balança comercial se deteriorou. Ao mesmo tempo, o dólar oscilou e nem nas fases de câmbio mais favorável aumentou o dinamismo das exportações. Outros fatores são obviamente muito mais importantes para explicar os problemas de competitividade e o padrão de investimentos. Os erros de política, o intervencionismo desastrado e a insegurança dos empresários são respostas muito mais convincentes.

O desajuste das contas públicas e a inflação elevada e resistente são detalhes importantes desse quadro. Mas muito raramente algum empresário reclama da inflação, embora o descompasso entre os preços no Brasil e no exterior torne os produtos nacionais mais caros e alimente o desajuste cambial. Bem mais simples, politicamente, é reclamar dos juros e do câmbio e pedir mais proteção e favores tributários. Dispensado de seguir políticas sérias, o governo agradece.

Precisa ficar rico?

 Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

Embora seja o quarto mercado em tamanho, o carro brasileiro vai lá para trás quando de trata de produto competitivo

As vendas de automóveis caíram neste ano. Ainda assim, o Brasil disputa com a Alemanha a posição de quarto mercado mundial de veículos. China (20 milhões/ano) e EUA (15 milhões) estão lá na frente. Depois vem o Japão, com produção superior a seis milhões e, pronto, logo chega o Brasil, na casa de 3,8 milhões de unidades produzidas e consumidas em 2013. Alemanha e Índia estão logo ali, na cola, mas reparem: aqui se produzem muito mais carros do que na Inglaterra, França, Itália e Coreia do Sul.

Em economia, tamanho é documento. E isso explica por que as grandes montadoras globais estão todas aqui. Os executivos sempre reclamam da dificuldade para se fazer negócio no país, queixam-se das normas tributárias, trabalhistas e ambientais, estão sempre pedindo (e conseguindo) ajuda do governo. E continuam investindo. Não podem ficar de fora de um mercado que é quase 5% do global.

Isso vale para os demais setores. Por exemplo: celulares. Chegamos aqui aos 280 milhões de linhas, de novo entre os cinco maiores mercados do mundo. Computadores? Terceiro ou quarto. Cerveja? Ali entre os cinco primeiros.

Muita gente acha que assim já está mais que bom. O Brasil é grandão, coloca-se entre as dez maiores economias do planeta, grande mercado interno, o pessoal tem que vir aqui para produzir e vender, certo?

Errado.

Na verdade, é um atraso pensar assim. Pode-se produzir aqui uma carroça ou um carrão, um modelo velho ou uma inovação gerada localmente. Pode-se ainda ficar limitado ao mercado local ou ganhar o mundo. E o Brasil está se isolando.

Há alguns anos, as empresas chinesas, estatais e privadas, colocaram-se um desafio: tornarem-se globais. Ora, não haverá maior mercado interno que o chinês, já grande e com enorme capacidade de expansão. Ou, perguntando de outro modo: se eles já dispõem lá de um mercado próximo dos 20 milhões de carros, por que querem disputar um pedaço dos nossos 3,8 milhões?

Porque não há progresso sem globalização — ou internacionalização, se não gostarem da outra palavra.

A demanda traz a oferta, o mercado traz o produto. Mas a qualidade da oferta, a boa qualidade, depende de uma economia aberta, exportadora e importadora, com um ambiente favorável aos negócios privados. Não custa repetir: o que gera riqueza não é o governo, mas o investimento privado.

Ou seja, embora seja o quarto mercado em tamanho, o carro brasileiro vai lá para trás quando de trata de produto competitivo. Além do Brasil, só se vende carro brasileiro na Argentina, cuja indústria, além de menor, é até mais atrasada.

Mas por que estamos falando disso? Porque a gente deveria buscar “padrão Fifa” para tudo, de estádios a automóveis e celulares. Quando se diz que já está bom o “padrão Brasil”, que não tem nada de mais oferecer aos torcedores um aeroporto ou metrô lotado e fazê-los caminhar uns poucos quilômetros — isso é conformar-se com a segunda classe.

O que queremos? Ser um país rico, uma sociedade afluente, ou está bom do que jeito que está?

Dizem que isso é reclamação da elite. Ao mesmo tempo, a presidente Dilma diz que um dos grandes avanços do país, um sinal de progresso, é a presença das classes C e D nos voos nacionais e internacionais.
Ora, por que esse pessoal, que trabalha pesado, não merece ou precisa de aeroportos classe A? Quando se diz que não precisamos de “padrão Fifa”, é como dizer: caramba, essa gente já escapou das rodoviárias e já está nos aeroportos. O que querem mais?

Ou ainda: já estão de carro, o que querem, uma Mercedes?

E mais: já têm celular, o que queriam — que a linha não caísse nunca?

O problema não é o aeroporto parecer uma rodoviária. O problema é que as rodoviárias não servem corretamente à população.

Dizer que o atual padrão brasileiro é o suficiente equivale a reconhecer a incapacidade de produzir um país rico. Ora, por que não podemos querer mais?

Ajuda
Parece que a indústria automobilística vai levar mais uma ajuda do governo. Parece também que o governo não vai colocar nenhuma condição séria em troca. O que seria condição séria? Por exemplo: produzir carros que sejam competitivos nos EUA e na Europa.

Impossível nas condições atuais do ambiente de negócios?

Impossível.

Mas as condições podem ser mudadas, não podem?

Fica combinado assim

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Nos tempos em que a Seleção brasileira tinha ao menos quatro craques disputando cada posição, a deputada Conceição da Costa Neves, rainha da Assembléia paulista, definiu o Legislativo. "É o retrato do Estado. Tem honesto, tem ladrão, tem sábio, tem ignorante. Só não tem bobo, porque bobo não chega aqui".

Mas as coisas mudaram. Geraldo Alckmin, que chegou a governador de São Paulo, deixou sua PM acreditar que o Movimento Passe Livre faria uma passeata sem baderna, e retirou o policiamento da rua. Resultado: os black-blocs de sempre, como sempre, fizeram as depredações de sempre. E o noticiário, como sempre, disse que os manifestantes eram pacíficos mas foram infiltrados, tadinhos.

Lula chegou à Presidência e fez sua sucessora. Foi o grande responsável por trazer a Copa ao Brasil. Dilma disse que essa Copa era para o povo brasileiro. Aconteceu o que aconteceu: Dilma foi vaiada na abertura da Copa, com transmissão por rede mundial de TV, e tanto ela quanto Lula jogaram a culpa no público. No estádio, só haveria torcedores brancos e ricos (como, acreditam, Joaquim Barbosa), gente que nunca trabalhou, nunca pegou numa enxada. Ou seja, os Governos Lula e Dilma aplicaram dinheiro público (R$ 8 bilhões, em seu próprio cálculo) para proporcionar à elite branca, endinheirada e, horror dos horrores, paulistana, a possibilidade de assistir a uma Copa num estádio magnífico como o do Corinthians. Que, a propósito, sem Lula não teria sido feito. 

Alckmin e Lula acham que acreditamos. Bobos não são. São é muito espertos.

Dúvida vegetal
Depois da passeata do Movimento Passe Livre, Alckmin é chuchu ou banana?

O xadrez da sucessão
Há quem diga que Geraldo Alckmin, do PSDB paulista, candidato à reeleição, ofereceu a vice ao PSB, de Eduardo Campos. Não é bem assim: Alckmin ainda pode fechar com Gilberto Kassab, o cacique do PSD, que até agora apoia a reeleição de Dilma. 

A proposta é boa: Kassab como vice do favorito Alckmin (e, como Alckmin não pode disputar mais uma reeleição e tentará outro cargo, ele ficaria meio ano no Governo e se fortaleceria para a eleição seguinte) e Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central no Governo Lula, para vice do tucano Aécio Neves. Meirelles tem a confiança dos empresários e a fama de bom presidente do Banco Central (Lula cansou de indicá-lo a Dilma para a Fazenda). Se a manobra der certo, fortalece Aécio e lhe dá o tempo de TV do PSD. Mas só vale como jogo casado: Kassab ganha a vice de Alckmin se Aécio ganhar o PSD.

Banda larga e molhada
A presidente Dilma, falando na terça-feira em União da Vitória, Paraná, onde há chuvas fortes e inundações, garantiu que o Exército tem "um bote de fibra ótica" para ajudar o Estado a enfrentar as enchentes. Deve tratar-se de uma inovação sensacional, explosiva: jamais as fibras óticas foram usadas para fazer barcos. Talvez o tal bote tenha conexão permanente com a Internet, em altíssima velocidade, para que os flagelados saibam rapidamente que não vão ter ajuda.

Talvez Dilma tenha se enganado de fibra: a fibra de vidro seria mais adequada. Talvez se refira à fibra dos soldados que ajudam a população. Mas, nesse caso, e o bote? Talvez seja o bote de serpente da elite branca. Uns venenosos!

Os números da eleição
Pesquisa eleitoral? Sim, é importante, mas se fosse decisiva não seria preciso realizar a votação. Pesquisa ajuda a equipe dos candidatos a planejar seus próximos passos, é fundamental na captação de recursos, essas coisas. Mas o que decide eleições, já ensinava o principal assessor eleitoral de Bill Clinton, James Carville, é a economia. 

E como está a economia? Em maio, a indústria paulista demitiu 12.500 funcionários, o maior número desde que o levantamento começou a ser feito, em 2006. "Maio foi particularmente ruim", diz o diretor de Pesquisas e Estudos Econômicos da Fiesp, Paulo Francini. Neste ano, calcula Francini, a indústria paulista deverá eliminar 40 mil empregos. 

A solução do Senado
Os computadores do Senado passaram a semana sofrendo ataques de hackers. Como agir? 

Como sempre: o Senado suspendeu o expediente na sexta, para não atrapalhar a equipe que instalou novo programa de proteção. Até agora, só os senhores senadores suspendiam o trabalho às quintas. Os demais funcionários do Senado, como os demais assalariados do país, trabalham também na sexta.

Calma, calma
Lembra da CPMI da Petrobras, aquela comissão parlamentar mista de inquérito que era para investigar tudo? A reunião deveria ter ocorrido na quarta, mas foi adiada por falta de quorum - não havia Excelências suficientes para o trabalho. 

Mas o taxímetro vai correndo: o custo da CPMI está estimado em R$ 250 mil.

Faça-se justiça
A FIFA decidiu que seu presidente, Joseph Blatter, candidato à reeleição, entregará a taça ao campeão da Copa 2014, no Maracanã. 

Errado: quem trouxe a taça ao Brasil, o presidente Lula, quem trabalhou por ela nos últimos quatro anos, a presidente Dilma, merecem esta honra e os aplausos da torcida. É justo! 

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

Ilusionismo com contas de padeiro

Rogério Furquim Werneck
O Globo 

A presidente Dilma recorre a truque grosseiro para subestimar a relevância dos gastos com a Copa do Mundo

Nas últimas semanas o país tomou conhecimento de duas contas de padeiro que, devido a razões distintas, merecem cuidadosa atenção.

A expressão ganhou destaque na mídia desde que foi usada por Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, para explicar a diferença abismal entre os US$ 2,5 bilhões, em que foi inicialmente orçada a Refinaria Abreu e Lima, e os mais de US$ 18 bilhões que afinal serão gastos no projeto. O que o ex-diretor alegou é que, de início, a Petrobras estava muito mal informada sobre quanto de fato custaria a nova refinaria. E que os US$ 2,5 bilhões teriam resultado de uma simples conta de padeiro.

A outra conta que merece consideração foi a apresentada pela presidente Dilma Rousseff, há poucos dias, em pronunciamento oficial à nação, para tentar desmistificar a ideia de que os investimentos necessários para a realização da Copa do Mundo no Brasil poderiam ter tido uso mais defensável, se destinados à educação e à saúde.

É bom deixar claro que não há nada de errado com contas de padeiro. Muito pelo contrário. A expressão alude a contas rabiscadas em papel de embrulho de padaria, mas é usada para designar qualquer conta feita às pressas, no primeiro papel ao alcance da mão. E é exatamente essa a conotação da expressão equivalente em inglês, cuja tradução literal faz perfeito sentido em português: conta de verso de envelope.

Em muitas áreas, profissionais se veem com frequência obrigados a recorrer a contas de verso de envelope para obter, a partir de hipóteses simplificadoras e valores plausíveis de variáveis e parâmetros, estimativas preliminares aceitáveis de resultados que, em princípio, exigiriam cálculos bem mais rigorosos. Inclusive em áreas especialmente respeitáveis. Entre os físicos, é bem conhecido o talento especial com que o famoso físico nuclear Enrico Fermi sabia recorrer a contas de verso de envelope para obter estimativas aceitáveis de resultados de problemas extremamente complexos.

O que há de tão errado com as duas contas mencionadas acima? A alegação do ex-diretor da Petrobras é de que teria havido só incompetência na conta de padeiro que levou à estimativa inicial de quanto custaria a Refinaria Abreu e Lima. Na verdade, as investigações têm mostrado que houve muito mais. E revelado, com riqueza de detalhes, aspectos tenebrosos do lado escuro do modo de gestão petista.

O mais preocupante é quão longe foi a construção da refinaria com base nessa mera conta incompetente de padeiro. Sabe-se agora que, bem antes de contar com um estudo de viabilidade econômico-financeira, a refinaria já havia sido contemplada com um financiamento de R$ 10 bilhões do BNDES.

Na conta de padeiro apresentada pela presidente Dilma, a incompetência adveio de indisfarçável e mal-intencionada manipulação marqueteira. A opção relevante era entre construir estádios, de um lado, e escolas, hospitais e postos de saúde, do outro. Mas em vez de comparar os supostos R$ 8 bilhões que foram gastos nos estádios da Copa comdespesas de investimento em educação e saúde, a presidente permitiu-se compará-los com despesas totais dos três níveis de governo com educação e saúde de 2010 a 2013. Despesas da ordem de R$ 1,7 trilhão, que, além de investimentos em educação e saúde, incluem, por exemplo, toda a folha de pagamento do funcionalismo ligado à educação e à saúde nas três esferas de governo.

A conta que faz sentido é a que foi feita por Gil Castello Branco (O Globo, 17/6): “O custo dos estádios equivale a dois anos de investimentos federais em Saúde ou à instalação de 2.263 escolas". Não seria surpreendente se, diante dessa conta honesta, a maioria do eleitorado ainda se mostrasse favorável à construção dos estádios. Mas a presidente não quis correr o risco. Para poder arguir de forma peremptória que a questão levantava um “falso dilema", preferiu apresentar uma conta ridícula que faz crer que os gastos com os estádios foram equivalentes a menos de 0,5% do investido em educação e saúde. Um espantoso desrespeito ao eleitorado.

Grandes jogos nos esperam

Fernando Gabeira
O Estado de São Paulo

Fiquei triste em 50 e pensei em torcer contra o Brasil em 70. Inutilmente.

Tenho várias Copas na bagagem. Esta é realizada no Brasil sem que os brasileiros fossem consultados. Mesmo assim nos envolve. Resistir é tão difícil como distribuir panfletos políticos nas vésperas do Natal - essa lição aprendi em dezembro de 68, protestando contra o AI-5.

Sigo a Copa como torcedor apaixonado, mas com uma ponta de razão anoto meus limites. Força, Brasil! Porém não posso comprar tudo o que o Neymar anuncia porque estaria quebrado em pouco tempo. Tampouco posso comer os frangos e lasanhas que o Felipão nos oferece na TV porque engordaria uns dois quilos nesta Copa.

Também sou brasileiro, mas não consigo achar, como os locutores de TV, ter sido uma indelicadeza escalar um árbitro japonês para apitar Brasil x Croácia. Afinal, ele expulsara Felipe Melo em 2010 na partida contra a Holanda, e o fez com absoluta correção. Por que despertaria más lembranças, por que deveria ser evitado? Yuichi Nishimura marcou um pênalti duvidoso a favor do Brasil. Agora consideram uma delicadeza escalá-lo para apitar nossos jogos.

Moreno como vocês, não posso embarcar nessa. Muito menos nos insultos a Dilma.

Sou oposição desde cedo, meio de 2003. Mas acho que as circunstâncias eram especiais. Uma abertura de Copa do Mundo revela um pouco o País. Não precisava uma festa tão mixuruca. Nem, por mais ásperos que sejam os estádios, dizer aquilo a uma senhora, em voz alta, diante de bilhões de espectadores.

Capitão do time que trouxe a Copa ao Brasil, Lula assistiu ao jogo diante de uma televisão, possivelmente na tranquilidade do lar, ou num refúgio petista.

Não se xinga uma senhora, mas também é preciso alguma eficácia para executar a tarefa de enfrentar um estádio num momento em que o País está enfurecido com a política. Dilma foi xingada em três estádios no início da Copa. No ano passado houve apenas o que chamamos de uma vaia básica. Ninguém notou gradação, a passagem de uma etapa para outra, que, aliás, já estava aparecendo em alguns shows musicais.

Tenho insistido na tese da separação radical entre políticos e a sociedade. O Brasil é um carro sem as molas da mediação parlamentar, sem o lubrificante do diálogo democrático: marcha aos solavancos. Mostramos isso ao mundo, ao vivo e em cores.

Em Brasília os políticos querem que o povo se estrepe, com um verbo começado com f. Nos estádios parcela do povo quer que os políticos tomem naquele lugar. É simples assim, apesar da vulgaridade do enunciado.

Pelos descaminhos da nossa História recente passamos a nos detestar. E pelos labirintos da nossa cultura erotizamos nossa antipatia recíproca. Supondo que os repórteres tenham o hábito de traduzir as coisas (era assim no passado), grande parte do mundo ficará sabendo a que ponto chegamos. E lamentará, como muitos brasileiros lamentam, que para tanto futebol tão pouco avanço político.

Quando um governante abraça a ideia da Copa do Mundo em seu país, pensa na sua própria glória. É irônico ser hostilizado na abertura do evento. Lula soube tirar o corpo da reta, deixando Dilma ouvindo frases que não se podem dizer diante das crianças. O ideal seria fingir que não houve nada, seguir com a festa. Nas minhas análises, a explosão de parte do público é o resultado de um longo processo de desgaste. Outros políticos que ali se apresentassem teriam destino semelhante ao de Dilma.

Lula e o PT não interpretam assim. Continuam se achando populares e bem-amados. Tanto que pretendem radicalizar, a julgar pelas notícias, caso vençam as eleições de novo. Eles acham, como Lula declarou, que os palavrões contra Dilma foram estimulados pela imprensa. Num momento de sua fala menciona o PT na oposição e diz que nunca fez o que fizeram com Dilma. Ora, a imprensa jamais defendeu xingar alguém, apenas despertou a curiosidade para a roubalheira entre o governo e aliados. E os gritos no estádio não podem ser atribuídos a algo organizado pela oposição.

Lula usou o episódio para fortalecer sua vontade de controlar a mídia e isolar a oposição. É uma reação clássica: supor que as coisas não andam bem por falta de mais repressão e controle.

A partir dessa lógica, é possível prever dias piores. O PT escolheu os culpados pela reação a Dilma e, como sempre, vai partir para cima. Não se pode dizer que seja uma saída brilhante. Mas foi Isaac Deutscher, na sua trilogia sobre Trotsky, que lembrou bem: as pessoas parecem burras, mas não são; apenas não têm mais margem de manobra.

Criar conselhos populares numa época informatizada, em que todos podem participar, faria Lenin mexer-se no túmulo, apesar de sua rigidez de corpo e alma. Em pleno século 21, estabelecer o controle da mídia e cair de pau na oposição vai ser muito difícil: pede quadros dispostos a matar ou morrer. Conheço apenas alguns no PT, assim mesmo sobreviventes dos anos 60. Será que a maioria deles, perdida em seus empreguinhos, seus gadgets, suas escapadas à Disneylândia, vai encarar essa tarefa, quase impossível hoje em dia?

No futebol temos visto a derrota de alguns favoritos, algumas zebras e até a humilhação de grandes times, como o da Espanha. Na política, o ano eleitoral está só começando. Com tantas Copas na bagagem e a lembrança das revoluções do século 20, é preciso sempre cantar para os detentores do poder o verso de Jimmy Cliff: "Ooh, the harder they come, the harder they fall, one and all". Quanto mais forte vierem, mais forte eles cairão, todos e cada um. O que a muitos pareceu um episódio marginal, o clima da abertura da Copa, com as pessoas cantando apaixonadamente o Hino Nacional e insultando a presidente, é um grande sintoma de mal-estar na vida cotidiana brasileira.

Vinicius falava da grande ilusão do carnaval: a gente trabalha o ano inteiro por um momento de sonho e tudo acaba na quarta-feira. Como no carnaval, tudo acaba com o apito encerrando a Copa. Aí virão os duros meses da ressaca e, lamento prever, o jogo feio e sujo do poder a qualquer custo. Quem seremos no final disso tudo, como revigorar a terra arrasada da nossa convivência política?

Grandes jogos nos esperam.

Que venham as flechadas...

Maria Helena RR de Sousa
Blog Noblat

Em 1964, uma das canções que explorava nosso ufanismo e tentava cativar os cidadãos para a política dos milicos dizia “Este é um país que vai pra frente!... rô, rô, rô, rô, rô...”.

Em 2014, se não abrirmos o olho, a canção subliminar dirá “Este é um país que vai pra trás!... ka ka,ka,ka,ka...”.

Leiam o que diz no facebook Vamos Ocupar o Governo

18 de junho às 15:00 a 19 de junho às 18:00

Tá decretado! Td@s os brasileir@s têm o direito de ocupar o Governo e ajudar na tomada de decisões!
Chega de exercer a democracia só na hora de votar! Nós queremos Participar! Queremos dar opiniões sobre a criação de novas políticas públicas, sobre a aplicação de recursos e TUDO MAIS!
O Governo é nosso!

Leram? E então? Digam se não tenho razão!

Todos querem palpitar, ajudar na tomada de decisões, governar! Votar só é pouco. Têm que participar!

Vamos pensar juntos?

Nas famílias minimamente organizadas, os pais conversam a sós, decidem qual a orientação que vão dar aos pequenos e evitam debater as decisões na frente deles.

Nas empresas de sucesso, o princípio é o mesmo. O organograma é decidido, votado por poucos e seguido por todos.

Nos governos de países civilizados, o Legislativo decide, o Executivo executa e o Judiciário verifica se tudo correu como devia ter corrido.

Mas o Brasil quer descobrir outra pólvora. Todos mandando, todos participando, todos decidindo. Todos no comando!

As pessoas com quem falo a respeito dizem que não me preocupe, que a ideia dos sovietes tupiniquins não tem a mínima chance. Sei não...

Não existe pecado do lado de baixo do Equador e, pelo visto, também não existe bom-senso. E eu confesso: tenho medo que a alienação seja muito grande e que os nossos políticos, distraídos com a Copa, com as Festas Juninas em julho, com as campanhas eleitorais, topem se suicidar.

Sim, porque isso seria a morte do Legislativo e do Judiciário, talvez restando apenas oscapos dos sovietes no Executivo. Já dizia Rosa Luxemburgo: “O prestígio dos chefes aumenta proporcionalmente à sua capacidade de desfazer-se de sua própria qualidade de chefes. A direção às massas e a função de executivos aos chefes”.

Bonitas palavras, não são? Sonoras?

Na verdade, há algumas vantagens: olha a economia que o Tesouro faria! Qual é a soma total de senadores, deputados federais e estaduais, vereadores, prefeitos, juízes, etc. etc? Vocês sabem? Pois esses estariam desempregados.

E nos sovietes, aqui chamados de conselhos, quantos seriam os chefes? Uns 50, sendo muito generosa?

As massas não receberiam nada, governariam de graça, fariam tudo pelo amor ao país, não é?


Foto do filme Birdwatchers, sobre os Guarani-Kaiowá

E como não teríamos Imprensa, só as redes sociais dominadas pelas ditas massas, que evidentemente não teriam em seu meio nenhum cheirosinho, em breve o Brasil estaria de novo como nasceu: de tanga!

Só cantando De tanto levar flechada do teu olhar!...

Viva o povo brasileiro

Ruth De Aquino
Revista ÉPOCA

Vale reler hoje o que o próprio Lula escreveu quando era candidato na “Carta ao povo brasileiro”

É uma vergonha e uma irresponsabilidade com o povo brasileiro a guerra entre classes sociais que Lula vem fomentando. Uma guerra fictícia que só serve a objetivos eleitoreiros. Os insultos grosseiros dirigidos a Dilma Rousseff na estreia da Copa do Mundo, no Itaquerão, têm sido usados por Lula para atacar, mais uma vez,  a tal “elite branca” que ele adulou em 2002 como candidato à Presidência.

Há 12 anos, Lula tentava cativar banqueiros, empresários e a classe média. Queria afastar o medo de que um metalúrgico sindicalista no Planalto pudesse lançar o Brasil no comunismo. Um medo infundado, porque Lula manteve a política econômica de Fernando Henrique Cardoso e conservou a seu lado ministros-chave. Lula prometia construir “um Brasil solidário e fraterno, um Brasil de todos”. Uma de suas bandeiras era a ética, a mudança na forma de fazer política, o combate inclemente à corrupção.

Hoje, o que significa ser brasileiro e patriota? Quem faz greve, para o PT, é oportunista, e as paralisações são políticas, visam derrubar Dilma. Os estudantes que protestam por direitos como educação, saúde e transporte não passam de garotos mimados, filhinhos de papai. Os médicos e professores que exigem melhores salários e condições de trabalho são antipatriotas. Melhor importar cubanos e pagar salários aviltantes porque o grosso vai para Fidel. Os metroviários, os rodoviários tampouco são o povo brasileiro, porque, afinal, tocaram o terror antes da Copa das Copas. Os sem-terra e sem-casa, que não viram o governo do PT cumprir um décimo das promessas de habitação, não passam de uns ingratos.

O maior inimigo de Lula e Dilma, hoje em dia, é o que eles chamam de “elite branca”. Primeiro, pela cor da pele – Lula já deixou claro que brancos, na sua opinião, são perniciosos e causam desastres internacionais na economia. Especialmente, os de olhos azuis. Em segundo lugar, estudaram demais, leram demais, fizeram mestrado, doutorado. Segundo Lula, isso estraga o caráter. As convicções de Lula deveriam impedi-lo, moralmente, de aceitar e comemorar os títulos de doutor honoris causa de universidades no mundo inteiro.  Acadêmicos, professores universitários, cientistas não são, definitivamente, “o povo brasileiro”. Ricos, então... Esses deveriam ser banidos. Não os ricos “públicos” – políticos, senadores, deputados, sindicalistas, amigos do PT. O ódio é contra os ricos “privados”. Esses são mal-educados, xingam Dilma, em pleno estádio. O povo brasileiro não é assim. É cordial e civilizado. E, quando sai quebrando tudo na rua, deixa de ser brasileiro?

Temos presenciado o exercício pobre, populista, ignorante, de tentar desviar a insatisfação popular para uma guerra entre classes sociais e até entre grupos étnicos. É o maniqueísmo do Poder. Trata-se de um recurso comum de governos acuados, de qualquer coloração política. É bem verdade que, dentro do governo, tem gente que se envergonha do “nós contra eles”. Na quarta-feira, o ministro Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência, afirmou que não foi só a “elite branca” que xingou Dilma. “Não tinha só elite branca, não! Fui e voltei de metrô. Tinha muito moleque gritando palavrão dentro do metrô que não tinha nada a ver com elite branca. A coisa desceu! Esse cacete diário de que não enfrentamos a corrupção, aparelhamos o Estado, somos um bando de aventureiros que veio se locupletar, essa história pegou na classe média.” A classe média no Brasil tem renda familiar per capita de R$ 291 a R$ 1.019, segundo o governo. Ela é centrista, conservadora e, hoje, insatisfeita com a inflação crescente, o descontrole dos gastos públicos, o baixo nível dos serviços públicos e a corrupção institucionalizada. Ela estava no estádio.
Nesses momentos de retórica radical, vale entrar no túnel do tempo e reler o que o candidato Lula escreveu há exatos 12 anos na “Carta ao povo brasileiro”:

– O Brasil quer mudar. Mudar para crescer, incluir, pacificar. Nosso povo constata com pesar e indignação que a corrupção continua alta e, principalmente, a crise social e a insegurança tornaram-se assustadoras. O país não pode insistir nesse caminho. O povo brasileiro quer mudar para valer. Quer trilhar o caminho da reforma tributária, que desonere a produção. Da reforma agrária que assegure a paz no campo. Da redução de nossas carências energéticas e de nosso deficit habitacional. Da reforma previdenciária. O novo modelo não poderá ser produto de decisões unilaterais do governo. Acredito que o atual governo colocou o país novamente em um impasse. A estabilidade, o controle das contas públicas e da inflação são hoje um patrimônio de todos os brasileiros. Não são um bem exclusivo do atual governo. Vamos ordenar as contas públicas e mantê-las sob controle.

Luiz Inácio Lula da Silva, 22 de junho de 2002.

Desviei, mas não fui eu...

Alexandre Schwartsman,
Folha de São Paulo

Que a "contabilidade criativa" é a principal contribuição da atual equipe econômica para o progresso do país não resta a menor dúvida, mas seria injusto desconsiderar demais exemplos de criatividade no setor, em particular o esforço hercúleo do Banco Central em explicar por que –a despeito de todas suas promessas– não conseguiu entregar a inflação na meta nos últimos quatro anos; e não deverá fazê-lo nem neste ano, nem em 2015.

Tempos atrás, o problema viria dos preços dos alimentos (era o "feijãozinho", depois substituído pelo tomate). Confrontada, porém, com medidas de inflação que mostravam aceleração mesmo desconsiderando preços de alimentos, assim como aumento persistente dos preços dos serviços, a desculpa mudou.

O problema passou a ser a "resistência da inflação" resultante de "mecanismos regulares e quase automáticos de reajuste (...) que contribuem para prolongar (...) pressões inflacionárias".

Na mais recente ata do Copom, porém, a criatividade do BC atingiu novos patamares. Segundo o documento, há "dois importantes processos de ajustes de preços relativos ora em curso na economia –realinhamento dos preços domésticos em relação aos internacionais e realinhamento dos preços administrados em relação aos livres".

Trocando em miúdos, trata-se do impacto da desvalorização do real (durante bom tempo, diga-se, perseguida com afinco pelo próprio BC) por um lado e, por outro, a necessidade de corrigir preços que ficaram defasados em razão das medidas recentes de controles, notadamente (mas não apenas) energia e combustíveis.

De fato, em entrevista a um órgão oficial de imprensa, uma "fonte (também) oficial" (cuja linguagem próxima da ata não deixava dúvida quanto a ser um diretor do BC) afirmou candidamente que "as projeções para 2015 estão bastante sensibilizadas pela questão dos preços administrados" e que, "se a inflação de preços administrados neste ano fosse de 1,5%, perto do ano passado, em vez dos 5% esperados, a inflação ficaria um ponto percentual menor".

A declaração é merecedora do Prêmio Nobel da Obviedade, mas, além disso, reflete a nova desculpa: a inflação não cai por causa dos preços administrados, os mesmos que –sujeitos ao controle governamental– têm sido a principal estratégia (equivocada, claro) de combate à alta do índice de preços.

É curioso, mas a "fonte oficial" não parece ter percebido que seu mesmo argumento poderia ter sido exposto como, "se a inflação de preços administrados.

tivesse sido de 5% em 2013 (para evitar as distorções causadas pelo controle destas tarifas), a inflação do ano passado teria sido um ponto percentual maior (isto é, 6,94%) e perderíamos inclusive o teto da meta".

Na prática, a afirmação equivale a reconhecer que a política monetária tem sido inadequada para conter as pressões inflacionárias disseminadas observadas ao menos desde 2012, dependendo de "puxadinhos" como controle de preços.

Significa também que o BC, supostamente o responsável pela estabilidade do poder de compra da moeda, abandonou essa função há tempos.

Francamente não saberia dizer se tal posição reflete convicções da diretoria do BC ou apenas subserviência ao governo de plantão (ou ainda uma mistura das duas), mas a esta altura do campeonato a distinção é acadêmica.

O (triste) fato é que não há ninguém cuidando da inflação, que cresce, saudável e indômita, como havia tempos não se via. E, diga-se também, essa política frouxa não impediu o crescimento anêmico, que não deverá chegar à média de 2% ao ano neste governo.

Em tal contexto, é difícil evitar pensar que, caso o BC tivesse dedicado à questão uma fração da criatividade empregada na criação de desculpas, nosso desempenho poderia ter sido bem melhor do que a lastimável atuação dos últimos anos. Por outro lado, como ávido leitor de ficção e fantasia, anseio pela nova geração de desculpas a serem apresentadas mais à frente. 

Show de bola

Nelson Motta
O Globo 

Pobre Lula, que imaginou desfrutar da ‘sua’ Copa na Tribuna de Honra, assistindo à vitória da seleção e ovacionado pela multidão, vendo TV em São Bernardo com dona Marisa


Os estádios estão lindos e cheios, os jogos de ótimo nível, com muitos gols e surpresas, as torcidas animadas e pacíficas, as ruas fervilhando de gringos e de alegria. Independentemente da performance da seleção brasileira, a Copa é um sucesso. Quem ama o futebol está feliz.

Assaltos, arrastões, tiroteios, roubos e furtos, achaques policiais, saidinhas de banco, sequestros-relâmpago — o habitual cotidiano urbano brasileiro — sumiram dos noticiários e, aparentemente, das ruas. Com o Congresso em recesso futebolístico, cessam temporariamente as negociatas vergonhosas, as tenebrosas transações políticas e as propostas indecentes que prejudicam o país. Quem ama o Brasil está feliz.

Todo mundo que ama futebol e já foi a um estádio sabe que nada se compara a ver um jogo ao vivo, no meio do calor da torcida. Mesmo com todos os fabulosos recursos da televisão, o espetáculo no estádio ainda é insuperável. Enquanto a câmera apenas segue a bola, da arquibancada se vê a totalidade do campo e a movimentação dos jogadores, as manobras táticas e as possibilidades de jogadas e lançamentos, que são parte importante da emoção do futebol.

Agora que se pode assistir ao jogo no estádio ouvindo rádio e conferindo no celular os replays e os detalhes da transmissão da televisão — e ainda comentando cada lance com os amigos, um dos maiores prazeres do futebol, pelas redes — é show de bola.

Quem não deve estar tão feliz é Lula, que trabalhou tanto pela Copa e ajudou o seu Corinthians a construir um estádio, que adora futebol, mas não vai assistir a nenhum jogo porque tem medo de ser vaiado, como nos Jogos Pan-Americanos de 2007, embora atribua a vaia a uma conspiração de César Maia, que teria até treinado milhares de militantes da prefeitura para vaiá-lo… rsrs.

Pobre Lula, que imaginou desfrutar da “sua” Copa na Tribuna de Honra, assistindo à vitória da seleção brasileira e ovacionado pela multidão, vendo televisão em São Bernardo com dona Marisa. Para quem adora futebol não pode haver pior castigo.

A vaidade vai vencer a paixão? O que é uma vaiazinha diante de um jogão? Vai, Lula, vai!

Democracias imorais

Sebastião Ventura Pereira da Paixão Jr
Zero Hora

Quando os eleitos deturpam com os deveres éticos da função pública, acabam por agredir a própria democracia

Vivemos tempos democráticos, embora a História ensine que nem sempre foi assim. Em breve volta ao passado, questão de 50 anos atrás, enxergaremos uma Europa varrida pelo nazismo e fascismo, enquanto regimes ditatoriais militares vicejavam na América Latina. Tais fatos demonstram que a experiência plena da democracia é fenômeno recente, sendo ainda mais novo o dogma do sufrágio universal, pois, até então, o voto era direito de poucos. Ou seja, no paradigma anterior, a representação democrática beneficiava apenas alguns, sendo o desafio do presente a transformação do sufrágio em uma efetiva representação de todos.

O problema é que o voto pode falhar, traindo a sua lógica interna. Imaginem eleições justas e livres que acabem por eleger corruptos, ladrões e bandidos; no caso, os eleitos terão legitimidade democrática para assumir seus cargos, mas não terão envergadura moral para desempenhá-los. Aqui, portanto, reside um dos grandes dilemas dos sistemas democráticos contemporâneos: o princípio da livre escolha pode resultar em governantes e legisladores absolutamente despreparados para o exercício digno da função pública. E, quando isso ocorrer, o voto legitimaria governos corruptos e indecentes?

Ora, é lógico que não. O voto democrático traz consigo o dever de retidão e moralidade política. Logo, quando os eleitos deturpam com os deveres éticos da função pública, acabam por agredir a própria democracia, despindo-se, por consequência, da legitimidade conferida pelas urnas. Por assim ser, o voto não é um ato meramente singular, mas sim uma escolha complexa que se projeta no tempo, impondo aos eleitos a obrigação de honrar, até o último dia do mandato, o imperativo da decência e exação no cumprimento diário do ofício político.

Em sua rota evolutiva, a democracia mira as alturas e não baixezas ou baixarias. Nesse contexto, as Constituições modernas são autênticas regras morais da democracia, colocando as Supremas Cortes como peças-chaves para o bom funcionamento da vida política. Sabidamente, os justos gostam da Justiça, mas os arbitrários, não. Será que isso explica o porquê da grita de alguns contra o bom trabalho do Supremo Tribunal Federal?

Legados da Copa e um W.O.

Sandro Vaia
Blog Noblat

O primeiro legado da Copa: 64 anos depois repetiram-se as touradas de Madrid e a Espanha voltou para casa com seu revolucionário futebol de posse de bola enferrujado e humilhado.

Por coincidência, ao mesmo tempo, a dinastia dos Bourbon que reina na Espanha desde 1713 mudou de guarda: o rei Juan Carlos, artífice da transição democrática pós-franquismo, alquebrado pela saúde e desmoralizado por alguns escândalos e alguns safaris, cedeu o lugar ao filho Felipe 6º, uma cara mais nova que a do técnico Del Bosque e mais confiável que a do premiê Mariano Rajoy.

Esse foi o evento mais ruidoso e escandaloso dentro de campo. Fora do campo, onde hordas de turistas misturam a alegria natural de forasteiros que andam em grupos, produzem um carnaval temporão, cada um com a sua ginga própria e seu senso de humor particular.

Enquanto nós esperamos que a seleção de Felipão se solte um pouco mais, os olhos do País estão divididos entre o futebol e a política, pois afinal de contas quando as emoções do espetáculo do futebol se esvaírem, voltaremos à rotina da mediocridade técnica mas apaixonante do nosso Brasileirão e as especulações sobre o futuro do País.

No nosso contencioso em suspenso, estão a incapacidade de crescimento mais robusto e sustentável do país e a irresistível compulsão do governo de controlar, tanto as variáveis econômicas como a opinião alheia.
Está também no contencioso o decreto 8.243, que cria uma hegemonia forçada e superposta à democracia representativa por conselhos habitados por “movimentos sociais”, que se chocam claramente com o conceito republicano de “um homem e um voto” e com a soberania do Legislativo e o princípio da separação e independência de Poderes consagrada em todas as democracias do mundo.

O partido que comanda a aliança que está no poder, abalado com a perda de consistência de sua candidata à reeleição nas pesquisas de intenção de voto, e indignado com a vaia que ela tomou no Itaquerão no jogo de abertura da Copa do Mundo, tentou orquestradamente jogar a culpa pela manifestação incivilizada pelo exagero dos palavrões nas costas de uma suposta “elite branca”, no que foi desmentida pelo seu mais representativo porta voz na especialidade de puxar briga, o ministro Gilberto Carvalho.

E então a coordenação da campanha de Dilma reuniu-se, com Lula à frente, para estudar estratégias que possam reverter as tendências demonstradas pelo eleitorado ingrato, que nao sabe reconhecer as benesses que o governo lhe propiciou. Além de Lula, participaram da reunião Ruy Falcão, o presidente do PT, o tesoureiro da campanha Edinho Silva, o ex-ministro Franklin Martins e o marqueteiro João Santana.

Nem a candidata nem o seu braço direito Giles Azevedo foram convidados para a reunião. Foi a primeira derrota por W.O nesta Copa.

Há sempre o inesperado

Roberto Damatta
O Estado de São Paulo

No filme de David Lean, A Ponte do Rio Kwai (realizado em 1957), planeja-se uma missão de sabotagem tão perigosa quanto ganhar uma Copa do Mundo: dinamitar em pleno território ocupado pelos japoneses, então inimigos, uma ponte estratégica. Um pequeno grupo, comandado pelo Felipão, digo, pelo major Warden (vivido pelo ator inglês Jack Hawkins), sai a campo, digo, à selva birmanesa, para dinamitar a ponte. Ponte que separa (e une) guerra e paz, sanidade e loucura, fracasso e derrota.

Diante de um trabalho tão arriscado, o experiente major, faz a sábia advertência que intitula essa crônica: há sempre o inesperado. O não programado, o hóspede não convidado, o gol contra, a falha na hora do pênalti, o erro do juiz, o esquecimento revelador, a emoção que embarga a voz, o tremor na hora da assinatura, o flagrante que desnuda a cadeia de corrupção, a carta inesperada, a incompetência de algum membro do aparelho partidário que, burro e confiante, diz o que não pode ou deve.

Como somos seres não programados, inventamos leis, mandamentos, códigos, rotinas e rituais. Alguns são tolos, como engraxar sapatos, dar beijinho na testa ou pentear o cabelo. Outros são fundamentais, como honrar o cargo público, enjaular bandidos, contar com uma polícia honesta, não corromper empresas públicas e, por último, mas não menos básico, prover diversão em locais públicos.

Nisso se enquadra o torneio esportivo e, para nós, brasileiros, as copas do mundo, como notam alguns jornalistas americanos, ignorantes que as conquistamos cinco vezes, são uma modalidade tão mobilizadora que chamam de "religião". Não tendo que lutar com o pessimismo que carregamos no cangote, graças ao nosso eugenismo racista que foi logo substituído pelo determinismo marxista - aliado ao positivismo de Comte, a visão do esporte para os americanos é uma atividade do universo do ócio. Um ócio que, ao contrário do que diz uma contrafação metida a intelectual, fabricado em pizzaria, só pode ser criativo. Como poderia ser outra coisa se até coçar o saco é uma arte, como sabem de sobra os nossos políticos em geral e os nossos dirigentes em particular?

Ora, o culto do futebol no Brasil tem lógica e razão. Ele une uma atividade originária de um país imperialista, racista, visto como modelar e rico (a velha Inglaterra), a uma nação paternalista, aristocrática até a medula, na qual administração pública e sistema cultural (gostos populares, comidas, músicas, crenças, etc...) sempre jogaram muito mais um contra o outro do que um com o outro. O futebol junta pela emoção estado e sociedade. Não é um inesperado trivial.

Em 1950, com 13 anos, fui com meus irmãos assistir à vitória do Brasil contra a então Iugoslávia. Fomos e voltamos de bonde e barca. Não havia demonstrações e o Brasil se orgulhava do seu maior estádio do mundo.

No dia 12, vi num telão em Miami (onde fui tragado pelo meu trabalho pioneiro de estudioso do futebol) o jogo Brasil e Croácia (que foi - eis um outro inesperado - um pedaço da Iugoslávia) com a mesma emoção religiosa, porque foi o futebol que inventou um Brasil que deu certo. Esse "dar certo" que é lugar-comum nestes Estados Unidos, exceto pela crise financeira, pelo revivalismo de extrema direita e pelo problema do Iraque que, ao que tudo indica, coloca por terra uma custosa e provavelmente inútil invasão, ampliando o terrorismo antiamericano.

Esses são inesperados, tais como o do jogo inaugural com um gol contra de um excelente jogador brasileiro, um pênalti cavado com arte e uma presidente inventada por Lula e eleita pelo maior partido popular e populista do Brasil que, contrariando a expectativa populista, foi civicamente vaiada. Sinal de um claro divórcio entre governo e sociedade. Entre um estado com as suas usuais caras de pau e seu histórico de corrupção e aparelhamento colado numa argentária Fifa. E de uma sociedade ligada no futebol, que ama e pratica com excelência mundial, com sua transparência, sua vontade de vencer e o seu talento à prova de compadrios e aparelhamentos partidários.

O inesperado foi a vaia de um lado e, do outro, a virada para a vitória depois de um imprevisto e deprimente gol contra. Deste modo, tanto no campo quanto na vida, o futebol prova-se mais veraz do que a trivial realidade.

Os materialistas dizem que a arte é um prolongamento da vida. Eu digo o contrário: o que inventa a vida é a arte. Do mesmo modo que o futebol reinventa o Brasil e haverá de reinventá-lo nesta Copa, jogando também contra as pilantragens da Fifa, da CBF, da corrupção federal e do populismo lulo-petista, que já não dribla e começa a levar gols.

Há sempre o inesperado.

Dilma no formigueiro

Rogério Gentile
Folha de São Paulo

SÃO PAULO - O que é pior: ser vaiado e xingado num estádio ou levar pedradas, pauladas e empurrões na porta de um prédio público?

Lula reagiu com indignação às ofensas que Dilma sofreu no Itaquerão na abertura da Copa. Disse que foi um ato de "cretinice", a "maior vergonha que o país já sofreu", e culpou a elite e a imprensa. Depois, aproveitou para lançar um novo slogan para a disputa presidencial. "Se em 2002 fizemos uma campanha da esperança contra o medo, agora é a da esperança contra o ódio."

Bem diferente foi sua reação em 2000, quando Mário Covas foi agredido fisicamente durante uma greve de professores. O então governador paulista tinha 70 anos, duas pontes de safena e estava em tratamento de câncer. Apanhou simplesmente porque resolveu passar no meio de manifestantes que bloqueavam o acesso à Secretaria da Educação.

Lula, à época, também ficou indignado. Não condenou a "cretinice" nem o "ódio" dos grevistas, mas reclamou muito do tucano. "Covas sentou em cima de um formigueiro", afirmou o petista. Para ele, "não havia explicação lógica para o comportamento" do governador.

Dias antes, o hoje presidiário José Dirceu havia dito num discurso que o governo deveria "apanhar nas ruas e nas urnas". O petista afirmou, posteriormente, que usara o termo "apanhar" como sinônimo de "sofrer derrota" e que o PSDB manipulara sua fala. Manipulada ou não, a declaração foi feita seis dias após o mesmo Covas ter levado uma bandeirada na cabeça em São Bernardo e cinco dias após um militante do PT ter estourado um ovo no rosto de José Serra, então ministro da Saúde, em Sorocaba.

O mais ridículo é que, se o PT no poder fica revoltado até com agressão verbal, o PSDB faz o inverso na oposição. Aécio, em 2000, cobrou do PT uma condenação formal do rapaz do ovo. Agora, ao tratar das ofensas à Dilma, preferiu dizer que ela "colheu o que plantou". Política, realmente, não é para qualquer um.

Lula reencontra o caixa dois

Guilherme Fiuza
Revista ÉPOCA

O PT ensinou ao Brasil, sem perder a ternura, o conceito de dinheiro não contabilizado

Lula aconselhou o Brasil a desconfiar das denúncias “muito estranhas” envolvendo a Petrobras. “Tenho a impressão de que tem gente querendo fazer caixa dois”, disse. É um alerta importante.

Lula entende do assunto. Foi o primeiro presidente brasileiro a declarar que caixa dois todo mundo faz, na época do mensalão. Mas uma coisa é fazer caixa dois sendo o “filho do Brasil”, porque aí tudo que é do seu pai é seu. Outra coisa, bem diferente, é fazer caixa dois sendo filho de qualquer um, sem ter nem um Delúbio para guardar esse dinheiro, que será usado sabe-se lá como – talvez comprando os deputados errados. O PT ensinou aos brasileiros, sem perder a ternura, o conceito de dinheiro não contabilizado. É um absurdo que a oposição queira sair fazendo caixa dois de qualquer maneira, sem conceito nenhum.

É para isso que serve um verdadeiro líder nacional, um grande estadista: para apontar as coisas que ninguém poderia imaginar. Quando todos achavam que a Petrobras era depenada pelo governo popular e seus clientes, vem Lula esclarecer que não é nada disso. Fazer sumir centenas de milhões de dólares com aquisições suspeitas, travestir o preço do petróleo e torrar fortunas com propaganda política do pré-sal são coisas da vida. Os esquemas bilionários do ex-diretor Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef, que, por coincidência, floresceram na estatal com a chegada do PT ao poder, também não têm importância. Caixa dois todo mundo faz, e parasitar empresa pública também. Assim como José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares, Alberto Youssef e Paulo Roberto Costa são presos políticos. Chamem a OEA.

O verdadeiro problema com a Petrobras – que os neoliberais tentam encobrir, mas Lula revelou – é essa gente querendo usar as denúncias para fazer caixa dois. Como funcionaria isso? Ele não explicou, mas tudo bem. Quem tem intimidade com determinado assunto não tem paciência mesmo para ser didático. Possivelmente, Lula quis dizer que seus adversários pretendem usar a CPI da Petrobras para extorquir suspeitos – arrecadando “taxas de inocência” para não convocá-los a depor. Essa acusação já havia sido feita por correligionários de Lula. É uma estratégia que o PT conhece profundamente, como demonstrou na famosa CPI do Banestado.

Isso foi em 2004 – mesma época que, sabe-se agora, o esquema de Paulo Roberto Costa começou a funcionar na Petrobras. A CPI do Banestado tinha, como relator, o deputado José Mentor e, como mentor, o ministro José Dirceu. Foi desmoralizada porque a tropa de choque (cheque) do governo popular fabricava convocações e fazia chantagem aos quatro ventos. Como todo mundo sabe, chantagem de esquerda é progressista e não chateia ninguém. O estranho, bizarro mesmo, é imaginar os adversários do PT usando esse expediente. Lula sonhou com isso e foi logo contando ao Brasil, visionário que é. Tudo em defesa da Petrobras.

Assim começa a campanha eleitoral, em que Lula, Dilma e companhia poderão denunciar todos os caixas dois que sonharem. Se forem contestados no Tribunal Superior Eleitoral, estará tudo em casa. Adivinhem quem acaba de tomar posse na presidência do TSE, para ser o juiz supremo da corrida presidencial? Ele mesmo, o menino prodígio da dupla Batman e Robin do PT no STF, o ex-advogado de Lula que suou a camisa pelos mensaleiros – Dias Toffoli. Está garantida a isenção no pleito.

Como já se viu no Primeiro de Maio, a presidente da República transformou a cadeia obrigatória de rádio e TV em comício eleitoral inflamado. O TSE provavelmente a punirá com rigor e a obrigará impiedosamente a rezar 13 Ave-Marias e 13 Pais-Nossos (para combinar com o número na cédula).

Surge agora a informação de que o PT usou dinheiro público do fundo partidário para pagar a defesa de mensaleiros e até da inesquecível Rosemary Noronha – assessora especial da Presidência para negócios privados à sombra. Ninguém precisa ter dúvidas: o xerife de estrelinha vermelha do TSE acabará com essa bagunça. Determinará até que Rose e os mensaleiros devolvam todo o dinheiro aos cofres públicos. E a seleção de Camarões conquistará a Copa do Mundo.

O Nacional-Socialismo Petis

Reinaldo Azevedo
Folha de São Paulo

O PT pode se perder nos fatos, e está perdido, mas sempre se arranja nas versões

Sim, eu estava perplexo com o "Dilma, vai tomate cru"! Pensava: "O que aconteceu com o povo cordial dos que não leram Sérgio Buarque de Holanda e dizem que o nosso povo é cordial?". Muitos cronistas se arrepiaram de emoção com o hino a capela e de horror com o protesto, especialmente porque quem cantou uma coisa também cantou outra. Deve ser bom se arrepiar por tão tolos motivos... De súbito, apareceu o coro dos Catões dispostos a moralizar a República, rebaixando os torcedores a uma "elite branca sem calo na mão". Houve até quem pedisse desculpas a Dilma em nome dos brasileiros! Em meu nome? Não endosso xingamentos. Mas eu é que espero que a Soberana se desculpe por ter usado o meu dinheiro para tirar uma casquinha eleitoral da Copa. Ela não tem o direito moral de recorrer à Rede Nacional para não ouvir o Itaquerão.

O PT pode se perder nos fatos, e está perdido, mas sempre se arranja nas versões. Esta semana foi tomada por uma avalanche de notícias assegurando que as vaiais foram excelentes para a presidente porque ela pôde, assim, exercer o poder da vítima. Não é Nietzsche, mas malandragem política. As vaias e os xingamentos teriam servido à estratégia petista de fazer a luta do "nós" (a turma do amor) contra "eles" (a turma do ódio). Então tá!

Se assim é; se, há tempos, os petistas esperavam uma boa notícia para a campanha eleitoral, e se as vaias e os xingamentos ajudaram o PT a encontrar um discurso, o que dizer? Vai ver os companheiros decidiram se comportar como Odorico Paraguaçu, de "O Bem-Amado", de Dias Gomes. Quando ele queria um pretexto para empastelar o jornal da oposição, mandava pichar na parede: "Odorico é ladrão". Se as ofensas são um ativo eleitoral, quanto mais, melhor! O PT me obriga a ser binário: então quem vaia vira cabo eleitoral de Dilma. Qual é a razão do chororô?

É evidente que o lado positivo da vaia é cascata. Essa versão é obra de "spin doctors", cujo trabalho só é efetivo quando conta com a opinião abalizada de "especialistas" e com a sujeição voluntária ou involuntária da imprensa.

No dia seguinte à vaia, o PT e suas franjas no jornalismo e no subjornalismo a soldo já espalhavam a versão de que a hostilidade era obra da "elite branca", em conluio com a oposição e com a imprensa. Desta feita, o partido inovou. O sr. Alberto Cantalice, seu vice-presidente, publicou no site da legenda uma primeira lista de profissionais do mal: Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes, Diogo Mainardi, Lobão, Demétrio Magnoli, Danilo Gentili, Guilherme Fiuza, Marcelo Madureira e Arnaldo Jabor.

Segundo ele, nossas "pregações nas páginas dos veículos conservadores estimulam setores reacionários e exclusivistas da sociedade brasileira a maldizer os pobres e sua presença cada vez maior nos aeroportos, nos shoppings e nos restaurantes", de sorte que "o subproduto dos pittbuls (sic) do conservadorismo teve seu ápice nos xingamentos torpes e vergonhosos à presidenta (...)" --aqueles mesmos que, dizem os próprios petistas, fizeram um imenso bem a Dilma...

É calúnia e difamação, mas isso é para o tribunal. Falas como a do sr. Cantalice têm história. Fiz uma tradução (is.gd/iOAfO5) do discurso proferido por Goebbels no dia 10 de fevereiro de 1933, 11 dias depois de Hitler ter assumido o cargo de chanceler. Seu alvo era a "imprensa judaica", que acusava de "ameaçar o movimento Nacional-Socialista". Advertiu: "Um dia nossa paciência vai acabar, e calaremos esses judeus insolentes, bocas mentirosas!" Cumpriu a ameaça.

À lista de Cantalice seguiu-se um previsível silêncio na própria imprensa --vai ver somos mesmo os "judeus insolentes" da hora. Mais uma advertência de Goebbels para quem está aliviado por ter sido poupado: "E, se outros jornais judeus acham que podem, agora, mudar para o nosso lado com as suas bandeiras, então só podemos dar uma resposta: Por favor, não se deem ao trabalho!'".

Pronto! Já escrevi o que queria, menos uma coisa: "Goebbels, vai tomate cru!".

O baixo calão e o 'ódio ao PT'

José Nêumanne  
O Estado de S.Paulo

Como tudo o que diz respeito ao futebol brasileiro, o grotesco episódio dos insultos à presidente Dilma Rousseff no Itaquerão, na partida de abertura da Copa do Mundo da Fifa de 2014 no Brasil, tem algo de malandragem e algo de paixão cega. Pois neste "país do futebol" tudo vira Fla-Flu. Como tudo o que concerne à política nacional, a grosseria é interpretada e utilizada como convém ao freguês, com excessos de oportunismo cínico e deslavada hipocrisia. Dar-lhe a devida medida depende apenas de respeitar os fatos.

Para começo de conversa, não foi o estádio que invadiu o palácio, mas o palácio que ocupou o estádio. Há sete anos Luiz Inácio Lula da Silva, que pode ser tudo na vida menos bobo, comemorou como feito histórico e obra de seu governo a escolha do País para sediar o mais importante torneio da mais popular atividade esportiva e de entretenimento do planeta. O Mundial de Futebol é organizado e explorado comercialmente pela Fifa, entidade global que não pode ser considerada, nem pelos mais néscios nem pelos maiores adoradores do esporte dado como bretão, um claustro de carmelitas descalças. O noticiário produzido em torno de suas atividades, entre as quais a escolha dos locais para sediarem suas biliardárias disputas, é mais assunto para notícia de polícia do que para ser impresso em breviários e edificantes biografias de santo. Seu presidente, o suíço Joseph Blatter, disputa mais uma reeleição sob suspeita de várias falcatruas.

Trata-se de um negócio privado em que se emprega muito dinheiro e se ganha muito mais em direitos de transmissão pela TV e publicidade do que em ingressos para os espetáculos nas chamadas arenas, cujas rendas movimentam apenas uma ínfima fração de seus emolumentos. É duvidoso se os países escolhidos para sede herdam um "legado" à altura dos dispêndios feitos para a montagem do circo gigantesco, mas não restam dúvidas de que os resultados em publicidade dos que se envolvem com o negócio são fabulosos. E aí repousava o olho gordo de Lula.

A ilusão de que a paixão popular reverte sempre em profusão de votos encanta os políticos brasileiros desde priscas eras. Nunca se constatou que essa mágica resulte em algo efetivo, mas os resultados positivos nas urnas de alguns astros do espetáculo ainda inspiram as ambições de gestores públicos ou políticos cegos a ponto de não perceberem óbvios exemplos históricos. Fala-se muito da derrota do Brasil para o Uruguai no Maracanã em 1950, mas poucos se lembram dos políticos que festejaram o título na concentração da seleção no campo do Vasco, em São Januário, à véspera da final. Como ratos num navio naufragado, foram os primeiros a fugir após o fiasco.

Os políticos têm tanta sede a matar por perto dos potes do poder que perdem os limites. Já se calcula em R$ 35 bilhões o dispêndio público no Brasil para armar o circo na "Copa das Copas". Do ex-prefeito paulistano Gilberto Kassab à presidente Dilma Rousseff, passando pelo tucano Geraldo Alckmin e pelo petista Lula, não houve governante que não garantisse que para um evento em que somente empresas privadas auferem polpudos lucros o gasto público seria zero.

Agora Lula e seus devotos acusam a "elite branca", que pagou ingressos caríssimos para frequentar as arenas na Copa, de falta de educação e de não saber tratar os outros. Fala como se tivesse exigido da Fifa a contrapartida de que seu eleitorado de gente pobre tivesse direito a entrada gratuita para ver os jogos, de vez que não usufrui o "padrão Fifa" nos hospitais desaparelhados nem nas escolas em ruínas com poucas vagas disponíveis para seus milhões de filhos descamisados. Ao contrário, a Fifa exigiu tudo e levou tudo e ninguém pensou em baixar os preços dos ingressos para permitir que os beneficiários do Bolsa Família pudessem aplaudir Lula e Dilma na abertura do evento. E Lula não justificou sua ausência em Itaquera para ver o jogo in loco.

Como Renato Maurício do Prado constatou em sua coluna no Globo, a expressão chula usada contra a presidente no Itaquerão não é useira e vezeira em comícios ou plenários, mas corriqueira em estádios. Torcidas a empregam contra rivais ou árbitros num festival de cafajestice que destes afasta pessoas recatadas que não têm por hábito usar palavrões à mesa do jantar em casa ou no escritório. Consta que a vítima dos insultos na abertura da Copa não recorre a expressões cochichadas em missas para repreender seus subordinados. Mas isso não é motivo para que ela seja alvo desse baixo calão.

Apesar de já ter contado que torceu pelo Atlético no Mineirão numa época em que o estádio ainda não havia sido construído, Sua Excelência não parece ter intimidade com a cafajestice que impera na atividade futebolística no gramado entre jogadores, na torcida entre torcedores e no convívio pouco amistoso de dirigentes de paixão desenfreada e boca suja. As feministas que atribuíram o xingamento ao machismo tampouco têm intimidade com a linguagem destemperada de nossa "pátria em chuteiras" (e não "de chuteiras", por amor a Nelson Rodrigues!).

Pode ser que tenham alguma razão os que reclamam dos insultos à presidente pelo desrespeito ao cargo que ela ocupa. Teriam toda a razão se Dilma se tivesse comportado depois da posse como a presidente de todos os brasileiros, entre os quais os que não votaram nela, e não como chefe de uma facção política ou ideológica, dividindo o país que governa em "nós, os de boa-fé", e "eles, os mal-intencionados".

Mas esse Fla-Flu começou quando, ao constatar que o tucano José Serra tinha sido majoritário nas regiões mais ricas e ele o fora nas mais pobres, Lula declarou guerra a quem se opusesse a seu projeto "socialista". Agora, na convenção do PT paulista, pregou uma catilinária contra o "ódio ao PT". Foi traído pela memória sempre falha: ele e a sucessora é que tornaram seu partido "o" agente, e não a vítima preferencial do ódio entre as classes.

O ódio ao PT e o ódio do PT

Elio Gaspari
O Globo

Se a ideia é empulhar a patuleia durante a campanha, será melhor que os candidatos evitem os estádios

Lula tem toda razão. Existe uma campanha de ódio contra o PT. Esqueceu-se de dizer que existe também uma campanha de ódio do PT. Uma expôs-se no insulto à doutora Dilma na abertura da Copa. Argumente-se que o grito foi típico da descortesia dos estádios. O deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força, influente aliado do candidato Aécio Neves, endossou-o durante um evento do tucanato: “O povo mandou ela para o lugar que tinha que mandar.” Essa é a campanha de ódio contra o PT. Ela pode ser identificada na generalização das acusações contra seus quadros e, sobretudo, na desqualificação de seus eleitores. Nesse ódio, pessoas chocadas pela proteção que Lula e o partido deram a corruptos misturam-se a demófobos que não gostam de ver “gente diferenciada” nos aeroportos ou matriculada nas universidades públicas graças ao sistema de cotas.

O ódio do PT é outro, velho. Lula diz que nunca se valeu de palavrões para desqualificar presidentes da República. Falso. Numa conversa com jornalistas, chamou o então presidente Itamar Franco de “filho da puta” e nunca pediu desculpas. O ódio petista expôs-se em situações como a hostilização ao ministro Joaquim Barbosa num bar de Brasília e na proliferação de acusações contra o candidato Aécio Neves na internet. Se a rede for usada como posto de observação, os dois ódios equivalem-se, e pouco há a fazer.

Lula antevê uma campanha eleitoral “violenta”, pois a elite “está conseguindo despertar o ódio de classes”. Manipulação astuciosa, recicla o ódio do PT, transformando-o no ódio ao PT. Pode-se admitir que a elite não gosta do PT, mas bem outra coisa é rotular como elite todo aquele que do PT não gosta. Paulo Roberto Costa, o ex-diretor da Petrobras que entesourou US$ 23 milhões em bancos suíços, certamente pertence à elite e no seu depoimento à CPI viu-se que gosta do PT e o PT gosta dele.

Essa estratégia já foi explicada pelo marqueteiro João Santana. Trata-se de trabalhar com dois Lulas: ora há o “fortão”, ora o “fraquinho”.

(Talvez as palavras originais tenham sido outras, mais próximas do dialeto dos estádios.)

Quando Lula foi criticado porque tomou um vinho Romanée-Conti de R$ 6 mil durante a campanha de 2002, era a elite que negava ao “fraquinho” o acesso a um vinho do andar de cima, pago por Duda Mendonça. Anos depois, quando viajou pelo mundo em jatinhos de empreiteiras, era o “fortão” redesenhando a diplomacia brasileira.

É uma mistificação, mas contra ela só existe um remédio: vigiar a racionalidade da campanha, fugindo da empulhação. Quem quiser odiar, que odeie, mas não fica bem a uma presidente da República dizer que investiu em educação recursos que na realidade destinaram-se a cobrir o custeio da máquina. Também fica feio a um candidato da oposição que até outro dia estava no ministério dizer que “não fico mais em um governo comandado por um bocado de raposa que já roubou o que tinha que roubar”. Não viu enquanto lá estava?

Talvez a racionalidade seja um objetivo impossível. Afinal de contas, até hoje há americanos convencidos de que o companheiro Barack Obama é um socialista que nasceu no Quênia. Nesse caso, candidatos não devem ir a estádios.