terça-feira, junho 24, 2014

Soberba e populismo

O Estado de S.Paulo
Editorial

Há uma característica peculiar no DNA do PT que tem dificultado a articulação de alianças em torno da candidatura de Dilma Rousseff à reeleição: a soberba. A arrogância do comando lulopetista, que posa de monopolista da virtude e despreza os aliados porque age por puro fisiologismo, tem sido responsável por importantes reveses nesta pré-campanha eleitoral. O mais recente é a decisão do PMDB fluminense de apoiar a candidatura de Aécio Neves à Presidência em dobradinha com a do governador Luis Fernando Pezão à reeleição.

A dissidência do PMDB fluminense não se enquadra exatamente na galeria dos episódios louváveis que honram a política brasileira. É pura e simplesmente o desdobramento do toma lá dá cá que o PT não inventou, mas empenhou-se diligentemente em aperfeiçoar ao longo de quase 12 anos no poder. Desde a eleição ao governo estadual do peemedebista Sérgio Cabral em 2006, coerente com a orientação da direção nacional do partido, o PMDB fluminense e o governador em particular posicionaram-se com armas e bagagens no séquito de Luiz Inácio Lula da Silva. A ligação entre Lula e Cabral parecia tão sólida que este chegou a sonhar, em 2010, em ser o vice de Dilma Rousseff. Teve de se contentar com a candidatura à reeleição.

Mas a decepção definitiva de Cabral veio quando, em vez de honrar a aliança apoiando o candidato dele à própria sucessão, o PT optou por aceitar o fato consumado da candidatura do senador Lindbergh Farias ao governo do Estado, até porque a popularidade de Cabral caíra vertiginosamente, contaminando a de Pezão. Agora, Cabral e o PMDB fluminense dão o troco. Oficialmente, Pezão e Cabral continuarão apoiando Dilma. Mas a poderosa máquina política do PMDB fluminense vai trabalhar por Aécio Neves.

Às más notícias no plano das alianças eleitorais a soberba lulopetista parece disposta a responder com mais do mesmo, a julgar por tudo que foi proclamado na convenção nacional que confirmou a candidatura de Dilma à reeleição. A começar pelo fato de que a presidente está agora oficialmente enquadrada, pela proverbial imodéstia de Lula, na condição subalterna de "criatura" do Grande Chefe.

A insatisfação generalizada dos brasileiros com a qualidade dos serviços públicos se manifesta vigorosamente nas ruas. Mas Lula, Dilma e o PT se gabam de terem inventado um novo país, criando uma nova realidade nacional de desenvolvimento econômico e conquistas sociais. Estariam plenamente credenciados, portanto, a se lançarem à campanha eleitoral com o apelo à continuidade das fantásticas realizações com que mudaram para melhor a face do País. Mas como não podem ignorar que os brasileiros não estão lá muito satisfeitos com o que veem e, principalmente, sentem, é melhor ir de "mudança". Aliás, "mais mudança", porque, afinal, o estoque de promessas não cumpridas está longe de se esgotar.

O pior é que as principais novidades das "mudanças" apontam na direção do retrocesso. Apesar de terem repudiado o "ódio" revelado pela "elite branca" contra Dilma no lamentável episódio da abertura da Copa do Mundo, o discurso petista continuará focado no estímulo à cizânia nacional, à divisão dos brasileiros entre "nós" e "eles", agora com uma pegada mais "esquerdista" que procurará dar destaque à necessidade do "controle social da mídia" e de uma reforma política destinada não a aperfeiçoar o sistema democrático a serviço de uma sociedade pluralista, mas a consolidar a hegemonia da nomenklatura petista. Não é outro o objetivo do decreto que, a pretexto de "regulamentar o texto constitucional", pretende aparelhar a estrutura do Poder Central com "conselhos populares" manipulados pelo Planalto.

E todo esse conteúdo "popular" se derramará na campanha petista, embalado pela demagogia dos chavões populistas que durante a convenção de sábado Dilma leu no teleponto: "Recolhamos as pedras que atiram contra nós e vamos transformá-las em tijolos para fazer mais casas do Minha Casa, Minha Vida. Vamos recolher os xingamentos, os impropérios e as grosserias e transformá-los em versos de canções de esperança no futuro do Brasil".

A soberba afasta aliados. A demagogia populista nem sempre atrai eleitores.


O povo organizado

Demétrio Magnolli
Folha de São Paulo

A finalidade do Decreto 8.243 é moldar uma 'sociedade civil' adaptada às estratégias de poder do governo

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) converteu-se numa linha de montagem de artefatos ideológicos. Entre tantos países, escolheu a Venezuela chavista como sede de sua única filial no exterior. Num relatório produzido pela filial, lê-se o seguinte: "O modelo bolivariano afasta-se, sem dúvidas, da democracia representativa despolitizadora que predomina ainda hoje no mundo. Supera o modelo idealizado pelos pais fundadores da república norte-americana". As duas frases ajudam a decifrar o sentido do decreto presidencial que instaura a "democracia participativa".

As palavras cruciais são "democracia representativa despolitizadora". De fato, o princípio da representação sustenta-se sobre o pressuposto de que os cidadãos têm outros afazeres além da política. A maioria esmagadora das pessoas consagra o seu tempo ao trabalho produtivo, aos estudos, ao lazer, aos afetos e aos amores. Os militantes políticos, pelo contrário, dedicam-se essencialmente à carreira política, que enxergam como fonte de poder, prestígio, dinheiro ou (raramente) como ferramenta para a "reforma do mundo". O Decreto 8.243, dos "conselhos participativos", procura reduzir a abrangência da "democracia representativa despolitizadora". É um golpe dos militantes políticos contra as pessoas comuns, cuja "participação" perde valor nos centros de decisão de políticas públicas.

O conceito de sociedade civil (ou "esfera pública") é objeto de complexas discussões filosóficas, mas existe um consenso básico enunciado por Habermas: a autoridade estatal não faz parte dela. O governo brasileiro, contudo, baixou um decreto que oferece uma definição oficial de sociedade civil ("o cidadão, os coletivos, os movimentos sociais institucionalizados ou não institucionalizados, suas redes e suas organizações"). Em todo o debate sobre o Decreto 8.243 não há nada mais chocante do que a ausência de um grito coletivo de indignação da sociedade civil diante dessa suprema arrogância estatal. No Brasil, o Estado nasceu antes da nação e, de certo modo, a esculpiu segundo suas conveniências. Uma prova da persistente fragilidade de nossa sociedade civil encontra-se nesse silêncio --e, mais ainda, na recepção calorosa do decreto por intelectuais que ganham a vida falando sobre a sociedade civil.

A finalidade do Decreto 8.243 é moldar uma "sociedade civil" adaptada às estratégias de poder do governo: o "povo organizado", no dialeto dos militantes. Na prática, a seleção dos "coletivos" e "movimentos sociais" com assento nos "conselhos participativos" equivale à atribuição de rótulos de legitimidade oficial a determinadas lideranças sociais. Sob o lulopetismo, o Estado não apenas define a sociedade civil, mas também traça os seus contornos, excluindo os "indesejáveis" da esfera pública. "Participação"? Não: a "democracia participativa" pretende restringir a fiscalização social do Estado aos associados ideológicos do governo.

O Decreto 8.243 nasce no solo arado pela crise de legitimidade do sistema político-partidário e pela desmoralização do poder parlamentar. A "sociedade civil" que o decreto delineia tem a vocação de operar como um parlamento paralelo. Gilberto Carvalho, nomeado secretário-geral da "sociedade civil" estatizada, não mente quando diz que o embrião dessa "democracia participativa" já existe, na forma de "conselhos" e "conferências nacionais" controlados por "movimentos sociais" financiados, direta ou indiretamente, pelo governo.

No final do segundo mandato de Lula, realizou-se a Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), um encontro desses "movimentos sociais" promovido pelo governo. A Confecom aprovou o "controle social da mídia" --isto é, no dialeto dos militantes, a censura à imprensa. Para florescer, a "sociedade civil" estatizada precisa amordaçar a sociedade civil.

O decreto e a realidade

O Estado de S.Paulo 
Editorial 

Os sofismas são distorções da realidade. Captam um aspecto e extrapolam o seu âmbito, começam com uma meia-verdade e terminam com uma mentira completa. E esse é o percurso que o governo federal tem seguido na defesa do Decreto 8.243. Cria ele novos conselhos? Não. Se apenas criasse conselhos, não haveria maiores problemas. Seria "apenas" uma burocratização a mais na já burocratizada administração pública federal. Mas não foi isso que provocou reações contrárias a ele no Congresso. O decreto cria algo de extremo interesse dos atuais ocupantes do Poder Executivo - uma "política de participação social" gerenciada por ele.

É algo mais profundo do que a mera existência de conselhos, e o seu perigo reside nas segundas intenções. Nada é dito explicitamente. E o governo trata os seus opositores como ignorantes, alegando que existem conselhos desde 1937. Só para lembrar: 1937 foi o ano em que o Brasil mergulhou na ditadura do Estado Novo. É assim que quer defender o decreto?

O governo sustenta que é piada de mau gosto da oposição chamar o Decreto 8.243 de bolivariano. Infelizmente não é. Alegar que são conselhos consultivos é fugir do problema, escorregando novamente para o sofisma. Chávez e seus "muchachos" não estrangularam a democracia em seus países dizendo que assim o fariam. Sufocaram a democracia com as mais belas palavras, "conferindo o máximo poder ao povo".

É verdade que o decreto não iguala Dilma a Chávez. O decreto está vigente e isso não nos transformou ipso facto numa Venezuela. Mas o decreto traz no seu bojo a mesma lógica, idêntica retórica. "A representação tem muitos defeitos", afirmou o ministro Gilberto Carvalho. É óbvio, mas não pode ser um ato do Executivo o meio legal para corrigir essa representação, e ainda por cima encarregando o próprio Executivo de coordenar essa nova representação, com a sua "política de participação social". Aí está o problema.

Na cortina de fumaça que é a defesa do decreto pelo Executivo, afirma-se que a oposição está criando um problema político. Não se trata de um "problema político", mas de um problema institucional, que logicamente afeta a vida política. A questão institucional, em sua essência, é a vontade do Executivo de "alterar" (se vai piorar ou melhorar é uma questão sobre a qual cada um terá sua opinião) a forma de participação social. Ora, não cabe a ele "reequilibrar" representação política nem muito menos proclamar-se gerente dessa nova "política de participação social".

Representantes do governo afirmam que estão dispostos a dar todas as explicações necessárias ao Congresso. Até o momento, tiveram inúmeras oportunidades para fazê-lo, mas o que deles só se ouviu foi mais do mesmo. Na prática, dizem: "Acreditem em nós, não faremos nenhum mal à democracia representativa com a nossa política de participação social". As instituições de um país são organizadas para diminuir a arbitrariedade pessoal, não para criar feudos e atribuí-los a "bonzinhos". A constitucionalidade de um decreto não depende das declarações de boa intenção dos seus criadores. Decorre do que está posto no papel, e o que lá está não é nada republicano.

Não é o medo da voz popular que leva o Congresso a se opor ao Decreto 8.243. É o receio de que alguns, sob a batuta do Executivo, se sirvam dele para monopolizar a voz da sociedade. Uma rendição dos deputados e senadores a este ato da Presidência significaria ferir o mandato que a sociedade brasileira lhes conferiu. É seu dever garantir a pluralidade de vozes da população, não apenas alguns corais ensaiados.

Criar e organizar os Conselhos pretendidos por projeto de lei - como sugerem alguns congressistas - não resolve o problema. Por lei ou por decreto, a ideia é ruim e perigosa, porque atropela as instituições ao dar ao Executivo o direito de organizar - ou melhor, domesticar - a "participação social". Por lei, o máximo que o Congresso poderá fazer é maquiar a ideia, dando-lhe ares de respeitabilidade e legitimidade. Por isso, a emenda poderá ser pior do que o soneto.

Quem representa a sociedade

Claudio Weber Abramo
Folha de São Paulo

É uma virtual certeza que o governo coopte o sistema de conselhos e o use como caixa de ressonância para seus desígnios. É fácil controlá-los

Os confrontos propiciados pelo decreto presidencial que institui uma política nacional para a "participação social" têm servido para exibir a extensão a que chegou o enfraquecimento das instituições políticas.

Caso houvesse razoável segurança de que partidos e Legislativo representam a população, não haveria espaço para a hipervalorização do espontaneísmo que o decreto, embora aproveite, não inventou.

Tampouco haveria motivos para recear que investidas na direção da democracia direta viessem a ameaçar o processo republicano de representação pelo voto e consequente resolução parlamentar de conflitos de opinião.

É óbvio que qualquer governante pode consultar quem quer que seja a respeito de assuntos que lhe aprouver, não necessitando de autorização especial para fazê-lo.

Reciprocamente, ninguém pode proibir um governante de conversar com quem desejar. É também difícil enxergar como se poderia impedir que interlocutores sejam organizados em um "sistema", conforme o decreto estabelece, desde que não se pretenda, com tudo isso, transformar exercícios consultivos em mecanismo deliberativo, ou quase isso.

O risco de que o sistema venha a ser usado pelos governantes para passar por cima do Parlamento só existe porque os verdadeiros representantes da sociedade civil, a saber, os indivíduos eleitos em eleições universais, pouco representam segmentos sociais.

Nunca é demais frisar que ONGs, "coletivos" etc. não são "representantes da sociedade civil", como tantos de seus integrantes apreciam dizer de si próprios e muitos mais ecoam sem reflexão. Essas organizações representam interesses variados, os quais, a despeito de sua possível respeitabilidade, não são necessariamente compartilhados por massas populacionais relevantes.

Sem esquecer que ONGs são notoriamente vulneráveis a captura por interesses partidários, governamentais, religiosos, empresariais e corporativos. Muitas não são capturadas, mas muitas são.

Seja o que for que ONGs proponham, isolada ou coletivamente, decerto merece ser ponderado, mas nunca tomado como reflexo acabado da "vontade popular". No caso em questão, é uma virtual certeza que o governo coopte o sistema de conselhos e o use como caixa de ressonância para seus desígnios.

É de fato muito fácil controlar conselhos. Alguns anos atrás, a Controladoria-Geral da União realizou um estudo sobre eficácia de conselhos gestores de políticas públicas, cuja existência é obrigatória em Estados e municípios para planejar e acompanhar a aplicação de dinheiro de transferências constitucionais (saúde, educação etc.).

Resultado: mais de 90% desses conselhos são inoperantes. Auditorias do Tribunal de Contas da União apontam na mesma direção. Pesquisadores que estudaram o assunto apontam como principais motivos para isso a baixa qualificação dos conselheiros e a facilidade com que são cooptados pelo Poder Executivo.

É claro que é péssimo que conselheiros sejam incompetentes e que prefeitos e governadores neutralizem organismos que existem para vigiá-los. Lamentá-lo, contudo, não muda a realidade.

Se os partidos políticos e o Parlamento brasileiros se aproximassem daquilo que o desenho republicano preconiza, não haveria por que recear atropelamentos e o decreto planaltino poderia, com mais plausibilidade, ser tomado por seu valor de face --propiciar uma comunicação mais ágil entre anseios fracionados e aqueles que tomam decisões administrativas no Executivo.

De modo que o problema em mãos extrapola em muito o decreto em si, originando-se na crise de representatividade política que o Brasil vive.

Há, naturalmente, uma multiplicidade de razões que explicam essa crise. Os próprios diagnósticos diferem entre si, como também diferem os remédios sugeridos. O que não se pode é ignorar a existência da crise.

Tudo culpa da mídia

O Estado de S.Paulo
Editorial

O PT não desiste: é tudo culpa da mídia. Depois de Lula ter proclamado aos quatro ventos que o lamentável episódio das ofensas dirigidas a Dilma Rousseff no jogo de abertura da Copa do Mundo foi obra da "zelite", seu homem de confiança no Palácio do Planalto, o ministro Gilberto Carvalho, manifestou opinião diversa, mas não necessariamente divergente, que na verdade "aprimora" o argumento petista: a culpa é da "pancadaria diária" dos meios de comunicação no lombo do PT e de seu governo.

Ajudam a entender as intenções do ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência as circunstâncias em que ele se manifestou. Circunstâncias que, de resto, demonstram claramente o que o PT entende por "democratização da mídia": uma reunião, no Palácio do Planalto - patrocinada, portanto, com recursos de todos os brasileiros -, com blogueiros e ativistas militantes ou simpáticos ao lulopetismo, convocados para tratar da necessidade de se articularem e unificarem o discurso contra a "direita militante que não havia antes", para fazer "o debate da mídia para valer" (não ficou claro se o "para valer" se referia ao debate ou à mídia).

Não é a primeira vez que os blogueiros e comunicadores ativistas simpáticos ao PT são convocados para debater seu peculiar senso de exercício democrático do jornalismo. Com Lula já estiveram, recentemente, duas vezes, a última no dia 8 de abril. E desses encontros saem sempre com munição adequada para atacarem nas redes sociais os adversários, aliás, "inimigos" do PT.

E não foi com outro objetivo que Gilberto Carvalho, o responsável no governo pela articulação dos "movimentos sociais" manipulados pelos petistas, reuniu a tropa, nunca é demais registrar, na sede do Poder Executivo, bem pertinho do gabinete da presidente da República. O tema dominante na agenda do encontro foi a luta pela aprovação do polêmico decreto da Presidência que cria conselhos de participação popular para a formulação de políticas públicas em todo o aparelho estatal.

Carvalho enfatizou a necessidade de articulação política de todos os comunicadores que apoiam o governo com base no argumento central dos ideólogos do partido e da campanha eleitoral petista: o País está dividido entre "esquerda" e "direita", esta fortemente apoiada pela "mídia conservadora e hegemônica". E foi neste contexto que, para reforçar a argumentação, chamou a atenção para o episódio do Itaquerão: "Lá no Itaquerão não tinha só elite branca! Eu fui para o jogo, não no estádio, fiquei ali pertinho numa escola, para acompanhar os movimentos. Eu fui e voltei de metrô. Não tinha só elite no metrô não! Tinha muito moleque gritando palavrão dentro do metrô que não tinha nada a ver com elite branca".

E, mais adiante: "A coisa desceu! Tá? Isso foi gotejando, água mole em pedra dura, esse cacete diário de que não enfrentamos a corrupção, que aparelhamos o Estado, que nós somos um bando de aventureiros que veio aqui para se locupletar, essa história pegou! Na classe média, na elite da classe média e vai gotejando, vai descendo! Porque não demos combate, não conseguimos fazer o contraponto. Essa eleição agora vai ser a mais difícil de todas".

Seria ingênuo imaginar que Carvalho estaria fazendo um exame de consciência, um ato de contrição e reconhecimento da incapacidade petista de transmitir sua mensagem às massas. Muito ao contrário, simplesmente reafirmou a tática de vitimização daqueles que começam a se desesperar diante da possibilidade crescente de verem ruir seus planos de permanecer no poder a qualquer custo.

As manifestações dos ativistas, por sua vez, foram pontuadas por críticas à "incapacidade" do governo de neutralizar a "mídia golpista" e pelas soluções recomendadas para o problema: o "controle social" dos meios de comunicação e o apoio do Estado, com injeção de abundantes recursos, àqueles que se dedicam a "defender as causas sociais". Houve até quem reclamasse do fato de o governo não usar a emissora pública TV Brasil: "Eu sei que o senhor não é o dono da TV Brasil, mas a TV Brasil não entra em nada! É preciso que o governo assuma seus riscos para animar os que estão assumindo riscos do lado de cá". Colocada a questão nesses termos, resta saber o que os "do lado de lá" vão dizer nas urnas de outubro.



Os cartéis dos ônibus ganharam a Copa

Elio Gaspari
O Globo 

No final de maio, com jeito de quem não quer nada, o Congresso aprovou e enviou ao Planalto o texto final da medida provisória 638. Nele, uma emenda destacada pelo senador Romero Jucá estabeleceu que as concessões de linhas de ônibus interestaduais serão distribuídas num regime de autorização pela Agência Nacional de Transportes Terrestres. A Constituição diz que isso deve ser feito em licitações públicas. Aquilo que a lei manda, e que o governo sempre prometeu fazer por meio de um processo racional e transparente, ficará na dependência das canetadas de transportecas. Serão canetadas num mercado de R$ 4 bilhões anuais, onde há 2.100 linhas, operadas por 210 empresas. Delas, 25 controlam metade do mercado. Vale lembrar que 2014 é um ano eleitoral e uma parte do ervanário desse setor rola em dinheiro vivo. Nenhum parlamentar de qualquer partido ou candidato à Presidência da República reclamou. Todos, contudo, defendem a racionalização, transparência e moralização das concessões de transportes públicos.

Nesse mundo acontece de tudo. No tempo do DOI-Codi, havia a intimidade do senador Camilo Cola (Viação Itapemirim) com a turma do porão. Ele tinha um patrimônio declarado de US$ 154 milhões e informava um rendimento mensal de R$ 10 mil à Receita. Em tempos de PCC, houve a presença de seus representantes numa discussão em torno das vans de São Paulo. No encontro esteve o deputado estadual petista Luiz Moura, destacado integrante da corrente PTLM (PT de Lutas e de Massa), onde brilha o secretário municipal de Transportes, Jilmar Tatto.

A medida provisória 638 saiu do Planalto com a elegância de Van Persie e voltou do Congresso com a truculência de um Pepe. Chamava-se "Programa de Incentivo à Inovação Tecnológica e Adensamento da Cadeia Produtiva de Veículos Automotores" ou "Inovar-Auto". Tinha dois artigos, mas ganhou cerca de 30 contrabandos.

Desde o século passado, o governo anuncia que reordenará o setor de transportes com leilões e licitações. Em 2001, quando um projeto permitia a renovação das concessões por 15 anos, o deputado Aloizio Mercadante denunciava: "Isso é um escândalo. Onde está o ministro dos Transportes (...)? Ele é omisso ou conivente". Em 2008, o governo disse que abriria uma licitação para leiloar 1.600 linhas. Nada, ficou para 2009, 2011 e 2013. Em todas as ocasiões, os empresários do setor combateram os modelos apresentados, sempre seguindo a canção: "Quem está fora não entra, quem está dentro não sai". Às vezes, provavam que o governo estava legislando sobre coisas que não entendia. Em outros casos, os transportecas aceitavam as exigências destinadas a impedir o aparecimento de novos concorrentes.

Com o truque da MP, todo o poder irá para a ANTT. Sua maior glória vem de algo que não fez. Felizmente, não conseguiu tocar a maluquice do trem-bala.

Os transportes públicos urbanos são cartéis blindados em caixas-pretas. Os interestaduais funcionam melhor, mas repousam sobre uma estrutura legal caótica. O governo prometia que um dos legados da Copa seria a melhora da mobilidade urbana. Abandonou grandes obras prometidas para as cidades e aproveitaram a Copa para empurrar um retrocesso institucional na malha interestadual.

NA TRAVE
O ministro Teori Zavascki ficou devendo uma homenagem ao juiz federal paranaense Sergio Moro.

Em maio, Zavascki mandou soltar o petrocomissário Paulo Roberto da Costa, que Moro mandara para a cadeia meses antes. Dias depois da decisão de Teori, baseado na descoberta de US$ 23 milhões em contas suíças do ex-diretor da Petrobras e na posse de um passaporte português, Moro mandou prendê-lo de novo.

Bateu na trave. Zavascki não sabia dos novos detalhes, e o petrocomissário não estava condenado, mas, se ele tivesse fugido, iria para sua biografia mais uma libertação esquisita determinada por ministros do STF. Num caso estelar, Gilmar Mendes mandou soltar o médico Roger Abdelmassih, condenado a 276 anos de prisão pelo estupro de clientes. Está sumido desde 2009.

PSB ORGIÁSTICO
O doutor Eduardo Campos diz que seu PSB faz política com novos métodos, rompendo a dicotomia PSDB-PT. Dito isto, aliou-se ao PSDB em São Paulo e ao PT no Rio.

Essa nova política teve a virtude de produzir uma novidade a um só tempo inteligente e divertida.

É a definição dada pelo deputado Alfredo Sirkis para o flerte do Rio: "Coligação orgiástica". (Ele usou também outra expressão, menos dominical.)

JBS
Há um ano, o grupo empresarial JBS comprou o Canal Rural, emissora especializada em atender a audiência do agronegócio. Sendo um dos maiores processadores de alimentos do mundo, seu interesse na operação relacionou-se com um serviço aos seus produtores e clientes. Nada mais. O grupo JBS não pensa em se meter em empreendimentos jornalísticos.

O NOVO CAPITALISMO DE ESTADO
Saiu pela editora da Universidade Harvard o livro "Reinventing State Capitalism" (reinventando o capitalismo de Estado), dos professores Aldo Musacchio, de Harvard, e Sérgio Lazzarini, do Insper. É uma aula para quem quiser entender o que são (ou foram) as "campeãs nacionais" do BNDES, as acrobacias da Petrobras ou as manobras do governo na Vale, tanto na hora de privatizá-la como na ocasião em que Lula enquadrou-a, com a eventual ajuda de Eike Batista.

O professor Lazzarini já havia estudado as conexões de tucanos e petistas com os cofres da Viúva no seu "Capitalismo de Laços", publicado em 2011. Agora, ele e Musacchio pesquisaram um fenômeno que vai além do Brasil. Se aqui surgiu a JBS com investimentos do BNDES, que é seu maior acionista minoritário, na China o governo alavancou o Agricultural Bank. Eles mostram que, depois da onda de privatizações do século passado, o capitalismo de Estado reinventou-se. Viúvas de todo o mundo tornaram-se acionistas minoritários, com um braço forte capaz de prevalecer quando lhe interessa, como aconteceu na Vale. Mostram que, para o bem ou para o mal, há por aí um novo fenômeno.

Musacchio e Lazzarini navegaram pelos balanços, cruzaram desempenhos de empresas e doações de campanhas eleitorais. Estudando a origem dos executivos de 250 estatais brasileiras entre 1973 e 1993, construíram um banco de dados com 467 biografias. Num balanço, aqui e ali encontraram lombadas, mas o trabalho não estimulará a satanização do Estado.

"Reinventing State Capitalism" está na rede por US$ 41,73, contra US$ 44,03 para a edição de papel.

Humores.

Alexandre Schwartsman
Folha de S. Paulo

Hoje "humor" é entendido como um estado de espírito, mas houve época em que era visto como algo físico, fluidos que controlavam, entre outras coisas, o próprio temperamento das pessoas (o fleumático, por exemplo, seria dominado pela "fleuma", humor procedente do sistema respiratório). Doenças eram atribuídas a desequilíbrios entre humores; daí prescrições de tratamentos como sangrias e afins, supostamente para recuperar o equilíbrio perdido.

A falta de base científica, porém, da teoria dos humores ficou clara com o desenvolvimento da medicina, levando ao seu abandono, do qual se salvaram apenas expressões como "mau humor", utilizadas, é claro, num contexto bastante distinto do original.

É irônico, portanto, que a mesma visão medieval ressurja expressa na noção que a prostração da economia brasileira - aparente no "pibículo" do primeiro trimestre, assim como o que nos espera ao longo deste ano - se deva ao mau humor dos empresários. 

Obviamente a confiança empresarial anda baixa, e não apenas ela: medidas da confiança do consumidor também não são nada animadoras, mas, isto dito, é um erro acreditar que alterações de humor, de empresários ou consumidores, surjam do nada e, a partir daí, afetem o desempenho econômico. A relação entre causa e efeito parece ser precisamente a inversa: é o desempenho da economia que afeta o estado de espírito a que chamamos de "confiança" ou "humor", ou qualquer nome que se queria dar à sensação que algo está muito errado no país.

Em particular, colhemos agora os frutos da política econômica adotada, de forma gradual, de 2009 para cá. Ao longo destes anos o compromisso com a meta fiscal foi substituído pela "contabilidade criativa": o governo finge que cumpre a meta, à custa de uma perda sem precedentes da transparência (e credibilidade) das contas públicas e lamenta que os analistas não compartilhem de sua fantasia.

Da mesma forma, a meta de inflação foi abandonada. A política monetária passou a se guiar por outros objetivos: crescimento em alguns momentos, a taxa de câmbio em outros. De outra forma como explicar o comportamento de um Banco Central, que afirma prever a inflação acima da meta tanto este ano como no próximo e, no entanto, interrompe o processo de aperto monetário?

Não por acaso as expectativas de inflação se aproximam do limite superior da meta em 2014 e sugerem inflação superior a 6% no ano que vem, expressão mais nítida da desconfiança com relação à política econômica.

No campo microeconômico as frequentes (e desencontradas) intervenções do governo também minam a capacidade de planejamento. Como esquecer o fracasso da primeira rodada de concessões rodoviárias, em que o suposto "filé" entre as estradas federais (a BR-262) não atraiu sequer um candidato, ou mesmo o leilão do campo de Libra, em que apenas um consórcio foi formado?

Mais recentemente os controles de preços (resultado direto do descaso no front inflacionário) adicionaram novas complicações. Os que acreditaram, por exemplo, na retórica governamental e investiram em biocombustíveis agora amargam os prejuízos decorrentes da manutenção dos preços de combustíveis em patamares inconsistentes com níveis internacionais. 

Empresas distribuidoras de energia também sofrem com estes controles e, se alguém ainda acredita que isto não terá qualquer impacto em seus planos de investimento, haverá de se decepcionar.

Instabilidade macroeconômica, mudanças de regras, controles de preços formam um caldo de cultura muito pouco propício ao crescimento econômico e não deveria ser surpreendente que a confiança dos agentes econômicos fosse abalada por estes desenvolvimentos. 

À luz disto, atribuir o crescimento medíocre ao humor empresarial é uma piada de mau gosto, de quem tenta afastar de si a responsabilidade pela visão medieval que tem dominado nossa política econômica nos últimos anos.

Por um Brasil de todos

O Estado de S.Paulo

Campanha eleitoral - e não se trata de outra coisa - é assim mesmo, quando os poderosos de turno resolvem se beneficiar das fragilidades das instituições democráticas: vale o que parece, não o que é; importa a versão, danem-se os fatos. E nessa aventura marota, na qual mergulhou de cabeça para evitar um desastre para o PT em outubro, Luiz Inácio Lula da Silva é insuperável. Por isso, não se pode negar razão ao senador Aécio Neves, agora candidato oficial dos tucanos à Presidência, quando declarou, na segunda-feira à noite em São Paulo: "Não vamos cair nessa armadilha do debate que apequena a política, do nós contra eles, da disputa de classes".

A pregação da luta de classes, mote desde sempre das campanhas eleitorais do PT, desvirtua um dos fundamentos da sociedade democrática, o de que para se conquistar o bem comum é preciso somar e não dividir. Desde suas origens políticas na luta sindical, Lula notabilizou-se por "partir para cima" de seus "inimigos", atacá-los sem trégua, eliminá-los sob qualquer pretexto. Houve apenas uma ocasião em que mudou de tática: por recomendação de seus marqueteiros, para consolidar a tendência de vitória nas eleições de 2002 passou a encenar o "Lulinha paz e amor". Tal como faria pouco depois, ao renegar, na famosa Carta aos Brasileiros, a pregação estatizante com que até então combatia a política econômica do governo FHC, Lula abandonou temporariamente - só temporariamente - sua vocação visceral para "guerra e ódio".

A mesmíssima prática marqueteira de manipular os fatos para impor a versão que mais lhe convém Lula adota agora na tentativa de transformar em limonada o intragável limão da manifestação anti-Dilma ocorrida na Arena Corinthians. Ninguém provido de um mínimo de sensatez, educação e civismo aprova o modo grosseiro, com o uso de expressões chulas, com que a presidente foi ofendida pela multidão.

Feita a ressalva necessária, é preciso também repelir com veemência a canhestra tentativa lulopetista de apresentar o episódio do Itaquerão como prova de que Dilma é "vítima das elites". Absolutamente, não. Registre-se que o ministro Gilberto Carvalho, homem de Lula dentro do Palácio do Planalto, saiu-se na última quarta-feira com a aparentemente surpreendente versão de que o episódio do Itaquerão não deve ser debitado a uma iniciativa da "elite branca" presente no evento, mas é o resultado da "pancadaria diária" de que o governo e o PT são vítimas nos meios de comunicação. Trata-se de uma variante tática do jogo lulopetista, que merece comentário à parte.

O fato é que a contundente manifestação no estádio corintiano foi o resultado do mesmíssimo sentimento de insatisfação difusa que desde junho do ano passado tem levado diariamente às ruas brasileiros que, frustrados por mais de uma década de um ufanismo mirabolante e vazio, começam a se dar conta de que caíram num enorme conto do Lula. E mesmo que se admita, apenas para argumentar, que a manifestação anti-Dilma no Itaquerão tenha sido obra exclusiva da "zelite", esta pode ser condenada por se ter comportado em relação à chefe do governo do PT exatamente da mesma forma como o PT e seu governo se comportam em relação a ela, a "elite"? Colhe-se o que se planta.

De qualquer modo, é profundamente lamentável que, faltando ainda quase quatro meses para o pleito de outubro, a campanha eleitoral esteja enveredando pelo descaminho da retórica belicosa com que Lula e o PT pretendem, em desespero, aprofundar entre os brasileiros a divisão alimentada pelo ódio. E por essa perspectiva desanimadora é também responsável a oposição, que entra no jogo do lulopetismo em vez de se concentrar numa campanha propositiva, que desmistifique, com objetividade e clareza, a empulhação populista de Lula e sua sucessora, aponte caminhos viáveis para garantir as inegáveis conquistas sociais e econômicas dos últimos 20 anos e defina uma rota segura para devolver ao Brasil a certeza de que estará rumando em direção à prosperidade econômica e à justiça social.

É preciso tirar o ódio do caminho e estimular a cidadania, valorizar a unidade na diversidade e lutar, com genuíno espírito democrático, por um Brasil de todos.

A copa é uma beleza!

Percival Puggina

Não sei se vocês repararam na beleza que está sendo a Copa, sua organização, a qualidade da algumas equipes, a lotação dos belos estádios, o comportamento civilizado dos torcedores visitantes, cujo colorido e bulício enfeita as ruas das cidades-sede com riqueza de tons e sons. Isso é fato e fatos não se contestam. A Copa, como tal, vai bem, obrigado. 

É verdade que a sociedade esteve dividida, nos últimos meses, em relação a esse evento. De um lado, aqueles que reprovavam o padrão elevado e oneroso imposto pelas rigorosas exigências da FIFA, a atenção dada ao conforto dos visitantes, o ínfimo padrão dos serviços prestados pelo Estado brasileiro aos cidadãos nativos, o atraso das obras, especialmente daquelas ligadas à mobilidade urbana, que restariam como benefício permanente às cidades onde se disputam os jogos. Tudo isso formou um quadro de repulsa que evoluiu até se tornar francamente majoritário na sociedade. De outro lado, situavam-se os defensores do evento, que focavam, prioritariamente, os ganhos decorrentes da promoção do país, as receitas proporcionadas pelos turistas e os investimentos em infraestrutura relacionados à sua realização. 

Agora a bola está rolando nos estádios e, no debate político, a seguinte questão é insistentemente colocada: quem tinha razão afinal? Os que eram ou se tornaram contra, ou os que sempre foram e se mantiveram a favor? 

Suponhamos, para bem entender e nos posicionarmos corretamente perante essa contradição, que um chefe de família, de recursos limitados, sem consulta alguma, resolva envolver a família toda na organização de um grande banquete que ofereceria à numerosa vizinhança do bairro. Tudo preparado com esmero. Os melhores cozinheiros e garçons, o melhor bufê, excelentes vinhos e espumantes, exuberante decoração, boa música ao vivo, seguranças e motoristas especialmente contratados, e tudo confiado aos zelos da melhor promotora de eventos. Gente padrão FIFA. Concluída a festa, é claro, ninguém tinha de que reclamar. Não havia um defeito a apontar. Nenhuma flor murcha, nenhuma louça trincada. Sucesso absoluto! A família, é claro, gastou o que não tinha numa muito bem sucedida festa proporcionada aos outros. A ela, à economia familiar, restaram as contas a pagar, o prolongado aperto nos gastos para compensar o esbanjamento feito em algo absolutamente supérfluo, dispensável, e que correspondia a nenhuma conveniência ou urgência do grupo familiar. 

É muito parecido com essa parábola o assunto de que estamos tratando. Bilhões foram gastos nos luxos de um festival futebolístico que não estava nos planos nem nas urgências da família brasileira. Aqui, como na parábola acima, o mínimo que se deve dizer de quem decidiu realizar a festa, por conta própria e risco alheio, é que suas prioridades entraram em conflito com os anseios dos cidadãos do país. É por isso que Lula está assistindo os jogos da Copa instalado no sofá da sala. 

A primeira vítima

Dora Kramer
O Estado de São Paulo

A frase é conhecida: “Na guerra, a primeira vítima é a verdade”. A autoria é controversa, mas a aplicação cabe de maneira inquestionável à reação do PT ante à constatação do secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, de que a avaliação negativa sobre o governo não é coisa só da “elite branca”.

Baixou o desconforto no partido após a divulgação da conversa dele com blogueiros amigos, justamente às vésperas da convenção que oficializaria neste sábado a candidatura de Dilma Rousseff com ato de desagravo à presidente devido à agressão verbal sofrida na abertura da Copa.

Se de um lado Carvalho enfraqueceu o estratagema com seu testemunho imune à acusações de “golpismo”, de outro o PT demonstrou que encara essa eleição como uma guerra e não se intimida em fazer da verdade sua primeira vítima. Qualquer coisa serve para construir uma narrativa que sirva para desviar a conversa dos problemas concretos. Da economia que patina, do atendimento de saúde sofrível, da educação vergonhosa, da segurança pública abaixo da crítica, da inflação ameaçadora, do crescimento pífio, do envio da ética às favas, da transformação do Estado em aparelho partidário etc.

Os companheiros de Gil¬berto Carvalho acharam que ele deu munição ao adversário ao dizer aos blogueiros, em conversa transmitida pela internet, coisas que os entusiastas do “Volta, Lula” dentro do partido dizem de Dilma Rousseff com palavras muito menos gentis. Algumas não ficando nada a dever às pronunciadas naquela tarde no Itaquerão.

Ora, o primeiro a fornecer munição contra si foi o próprio governo produtor de todos os escândalos, trapalhadas políticas, desacertos administrativos e zigue-zagues na política econômica; e também o partido na aflição de ver Dilma fora da disputa pelo medo de perder a eleição. A oposição, como se sabe, em todo o período teve desempenho pífio.

O “erro” do secretário-geral for ter dito isso no momento em que os petistas acreditaram ter achado uma mina para explorar, fazendo de Dilma a vítima de falta de educação alheia. Já haviam tentado a tática dos fantasmas; ninguém deu bola, as pesquisas continuaram no mesmo diapasão negativo. Veio em seguida a história do ódio que seria vencido pela esperança e, de novo, nada. Por último, deu-se o inusitado: vaia transformada em elogio, em trunfo eleitoral a ser explorado até o osso.

Saiu a primeira pesquisa realizada depois de iniciada a Copa e onde estava registrada aquela solidariedade toda à presidente? Pelos números, ateve-se às manifestações ao terreno da civilidade, nada tendo a ver com política ou eleições. Na realidade, a pesquisa do Ibope mostra que, em termos de decisão de voto do eleitor, as intenções estão temporariamente suspensas, porque os interesses estão voltados para os jogos. Os candidatos, todos eles, variaram pouca coisa, para mais ou para menos. Quadro, portanto, estável.

Essa estabilidade também se repete nos índices negativos de avaliação do governo, cuja desaprovação se mantém superior (33%) à aprovação (31%). Todas as políticas públicas tiveram altas taxas de rejeição, sendo que a saúde atingiu 78%, mesmo com toda a propaganda em torno do programa Mais Médicos. Com Bolsa Família e tudo, a desaprovação para a área de combate à pobreza é de 53%.

Os que não confiam na presidente são 52% dos pesquisados. Ela continua na frente com 39% das intenções de votos, o mesmo patamar de 2010 a essa altura do ano. Com uma diferença: estava em ascensão e representava um governo com avaliação negativa de 4%. Dilma é conhecida por 99% dos que responderam à pesquisa, sendo que 43% dizem que não votam nela de jeito nenhum.

Convenhamos, haja elite branca para dar conta disso tudo. Essa é uma verdade expressa em números que o PT insiste em abater a golpes de invencionices que seriam apenas infantis, não fossem motivadas por boa dose de má-fé.

Lula enxerga elite branca no reflexo do espelho

Josias de Souza

A política convive com uma regra antiga: personalize o seu adversário. O mal, quando tratado como mera abstração, é impalpável. Mas dê-lhe uma cara com um par de chifres e você terá um inimigo nítido. Durante muitos anos, Lula foi vítima dessa técnica. O rótulo de ‘esquerdista radical’ custou-lhe três eleições presidenciais. Para prevalecer em 2002, teve aparar a barba, vestir Armani e beijar a cruz. Renegou numa carta aos brasileiros tudo o que sempre defendera.

Desde então, Lula passou de alvo do feitiço a feiticeiro. Hoje, utiliza o mesmo método contra seus rivais. Pós-graduado nas artes da mistificação, ele estava atrás de um nome para o fantasma da mudança, que ameaça a reeleição de Dilma Rousseff. Dias atrás, encontrou. Chamou-o de “elites”. Pronto! Qualquer criança de cinco anos sabe que o problema do Brasil são as elites. O governo é maravilhoso, o povo é extraordinário. Corruptas e gananciosas, as elites é que não valem nada. Urge derrotá-las.

O PT realiza neste sábado (21), em Brasília, a convenção que aclamará Dilma como candidata ideal para assegurar aos brasileiros mais quatro anos de felicidade. O ponto alto da cerimônia será um novo encontro de Lula com o microfone. Desse contato resultará o terceiro pronunciamento do grande líder desde que a “elite branca” do Itaquerão mandou Dilma “tomar no cu”. Será mais uma oportunidade para esconjurar o inimigo.

O demônio exime o exorcista do exame de todo o mal. A começar pelo mais doloroso: o auto-exame. A coisa vinha funcionando bem. Em 2006 e 2010, bastou transferir para o neoliberalismo da elite tucana a culpa pelas ações, omissões e crimes do poder petista. Enquando o país se divertia com as reações atabalhoadas do PSDB, o marqueteiro João Santana cuidava da propaganda redentora. As pesquisas informam que o desafio de 2014 talvez seja maior.

O governo de Dilma nunca foi tão mal avaliado. Segundo o último Ibope, divulgado nesta quinta-feira (19), a taxa de aprovação do governo da madame caiu de 36% para 31% entre março e junho. Na outra ponta, subiu de 27% para 33% o percentual dos que consideram a administração federal ruim ou péssimo. Em novembro de 2013, os brasileiros que avaliavam a atual gestão como ótima ou boa somavam 43%. Quer dizer: a popularidade do governo despencou 12 pontos em sete meses.

Tomada pelo potencial eleitoral, Dilma ainda é uma candidata de 39%. Não é preciso ser um gênio para intuir que os dois índices —avaliação do governo e intenção de votos— tendem a cruzar em algum momento do processo eleitoral. Mergulhando-se no mar de números colecionados pelo Ibope, percebe-se que o mago João Santana terá de molhar a camisa para impedir que o percentual de votos caia, encontrando-se com a popularidade do governo no ponto mais baixo da curva.

O Ibope recolheu a opinião dos eleitores sobre o desempenho do governo em oito áreas específicas. Em todas elas, sem exceção, a taxa de desaprovação é maior que o índice de aprovação. Na Educação, 67% desaprovam a ação governamental e 30% aprovam. Na Saúde, 78% desaprovam e apenas 19% aprovam. Na segurança, a desaprovação é de 75% e a aprovação de 21%. No meio ambiente, 52% de desaprovação, contra 37% de aprovação.

Na política de combate à fome e à pobreza, principal logomarca do petismo, a desaprovação é de 53% e a aprovação de 41%. No combate ao desemprego: 57% de desaprovaçao e 37% de aprovação. No essencial, que é a economia, os índices tóxicos se repetem. O combate à inflação é reprovado por 71% dos entrevistados e aprovado por apenas 21%. Na política de juros, a desaprovação é de 70% e a aprovação de 21%. Na área dos impostos, a desaprovação vai à casa dos 77% e a aprovação é de escassos 15%.

O Ibope informa que o mau humor do brasileiro içou a taxa de rejeição a Dilma Rousseff para as alturas. Hoje, declaram que não votariam nela “de jeito nenhum” 43% dos eleitores. Verificou-se que é menor a rejeição aos antagonistas Aécio Neves (32%) e Eduardo Campos (33%). Nesse contexto, o velho hábito de Lula de apontar o dedo indicador para as “classes dominantes”, elegendo-as como demônio para o qual transferir as culpas do PT, talvez já não seja a melhor arma eleitoral. É possível que não sirva nem mesmo para desconversar.

Lula ainda não se deu conta —ou talvez já tenha notado e apenas finge que não vê—, mas o fenômeno mais eloquente da atual quadra sucessória é o surgimento de nichos de contestação à margem do PT e de toda a engrenagem sócio-sindical que se move sob o comando do partido. As ruas voltaram para casa. Mas o sentimento de mudança explodiu em junho de 2013 continua ardendo no asfalto.

Tudo leva a crer que o ministro Gilberto Carvalho, o Gilbertinho, tem razão quando diz que os nomes feios que a presidente evoca não brotam apenas dos lábios da “elite branca”. Se as pesquisas carregam alguma novidade é a seguinte: o Brasil está virando uma espécie de Itaquerão hipertrofiado. A tese de que o problema são as elites já fez longa carreira no país do PT. Mas pode estar com os dias contados.

Só os petistas ainda não notaram que a elite agora são eles. Os 800 mil industriais que, segundo o então presidente da Fiesp Mário Amato, fugiriam do país se Lula fosse eleito em 1989, foram domesticados pelo “bolsa-empresário”, pelas isenções tributárias e pelo prêmio à sonegação embutido no Refis eterno. O empresariado reclama de Dilma porque já não se satisfaz com tudo. Exige algo mais.

A integração do indivíduo num grupo é, quase sempre, um processo de aviltamento. Por vezes, o sujeito tem que se violentar para entrar no todo. Mas Lula não parece desconfortável com sua nova condição. Ele hoje dá palestras milionárias, é protegido por seguranças, move-se em carro oficial e só voa de jatinho. Deve dar boas gargalhadas ao verificar, na hora de escovar os dentes e pentear os cabelos toda manhã, que a elite branca agora mora no espelho do banheiro da cobertura de São Bernardo.

'Nós' contra todo mundo

Eliane Cantanhêde
Folha de São Paulo

BRASÍLIA - O ex-presidente Lula, como sempre a estrela da convenção do PT, ampliou indefinidamente os inimigos a serem combatidos com "adrenalina" pelos petistas: em vez de centrar fogo nos governos tucanos, em Aécio Neves e em Eduardo Campos, ele abriu a metralhadora giratória para guerrear contra os séculos anteriores, contra os 500 anos de história brasileira.

O grito de guerra, portanto, passou a ser "nós" contra todo mundo, contra tudo e todos os que não votam --ou não votam mais-- no PT e estão sendo jogados numa mesma vala comum: a "direita", os "oligopólios", os "neoliberais", a "mídia", o "capital especulativo", os "antipopulares". Se você, leitor, ousa apoiar outras candidaturas, pode tentar se encaixar num desses estereótipos.

Além de reaquecer a militância, ainda um dos bons ativos do PT, a estratégia foi também para mexer com os brios, constranger e provocar o imaginário do eleitorado mais bem informado. Afinal, quem quer, e quem pode, ser contra o povo, contra os pobres, contra a grande maioria da população brasileira?

Mas, já que mais de 70% dos eleitores defendem "mudanças", a convenção centrou o discurso e as energias na "esperança" e no "futuro" (contra os "agourentos", como disse Rui Falcão, presidente do PT).

Lula, que tratou a ele mesmo e a Dilma como "criador e criatura", precisou admitir indiretamente que nem tudo está tão bom, na medida em que prometeu: se Dilma ficar, o segundo mandato "vai ser muito melhor".

E Dilma, também para suplantar as críticas a seu governo e para dar o fecho de ouro à fala de Lula sobre a guerra contra os séculos, fez uma longa lista de programas, focando nos sociais, e jogou as expectativas na estratosfera: mais do que meras "mudanças", comprometeu-se com "um novo ciclo de desenvolvimento, um novo ciclo histórico".

O principal: Lula e Rui Falcão admitiram claramente que não será uma eleição fácil. Não será mesmo.

Dilma e a Espanha

Carlos Chagas
Tribuna da Imprensa


Dilma e a Espanha tem algo a ver. Os espanhóis chegaram ao  Brasil certos de ser os favoritos, campeões do mundo na última copa  e detentores de um fabuloso elenco. Esbanjaram empáfia e soberba. Dilma, com quatro anos na presidência da República, nadava de braçada rumo ao segundo mandato. Pois a “fúria” acaba de ser desclassificada e a presidente cai de forma permanente nas pesquisas eleitorais.

Há outras semelhanças. Lá, o rei acaba  de abdicar. Aqui, Sua  Majestade Lula, primeiro e único,  dá sinais de que a sucessora não vai bem, na economia e nas consultas populares, parecendo conformar-se com o segundo turno.  Acresce que Juan  Carlos deixou o trono mas permanece alerta: caso o filho fracasse, poderá voltar, ao tempo em que o Lula mantém o apoio a Dilma, como veremos amanhã, na convenção do PT, mas não afasta a hipótese de, à beira da perda do poder, poderem os companheiros logo reconduzi-lo à condição de candidato.

Política e futebol desenvolvem-se por linhas tortas. Um ano atrás muita gente duvidava de que Aécio Neves e Eduardo Campos poderiam apresentar-se, sabendo previamente do malogro.  O que mais se ouvia era estarem encenando o ensaio-geral em 2014 para a apresentação da peça em 2018.  Agora, disputam lugar no segundo turno.

Montes de Iniestas, Sergios Ramos e Xavis Alonso pululavam em torno da presidente, fazendo planos para a conquista do campeonato, ou seja, de olho na composição do segundo governo e dos lugares do futuro ministério. Pouco a pouco os partidos da base de apoio de Dilma foram saltando de banda, com outros  preparando a fuga ainda não concretizada mas já idealizada.

Pergunta-se como essas mutações podem acontecer, contrariando  a lógica,  e a  resposta surge clara: a presunção, quando é demais, engole os presunçosos. Tanto nos gramados quanto nos palácios.

IMPERATIVO NACIONAL
Insiste o governo em manter e fazer aplicar o decreto executivo que ampliou o número de conselhos ditos da sociedade civil para policiar e  até vetar decisões administrativas adotadas por força  de lei.   Mesmo alertados para o risco de estarem substituindo o Congresso, os principais auxiliares da presidente Dilma levam-na a manter o ucasse do trono, que em sua primeira aplicação aumentará o fosso entre Executivo e Legislativo. Trata-se de um imperativo nacional a revisão do decreto, mas, pelo jeito, vão aguardar a tempestade.

O pacto furado de Dilma

O Estado de S.Paulo 
Editorial

Se o pacto fiscal solenemente anunciado em 24 de junho de 2013, diante de todos os governadores e prefeitos de capitais pela presidente Dilma Rousseff - como sua resposta mais efetiva aos clamores da massa que ocupara as ruas das principais cidade exigindo melhores serviços públicos -, tinha algo além de palavras e vento, um ano depois dele só restam palavras. Se dúvidas ainda havia quanto ao caráter meramente demagógico do anúncio, elas desaparecem diante da piora das contas públicas nos últimos 12 meses em razão de decisões livremente tomadas pelas autoridades federais, como mostrou o Estado (15/6).

Levantamento feito pela reportagem do jornal constatou que só as medidas provisórias editadas de junho do ano passado para cá criaram despesas, provocaram renúncia fiscal ou ampliaram a dívida pública no valor de R$ 58,2 bilhões. Os efeitos se estenderão por vários exercícios, mas já em 2014 o impacto será de R$ 27,9 bilhões.

Também considerado parte do pacto, o Congresso até que o cumpriu em parte, ao rejeitar medidas ou adiar decisões que resultariam em mais despesas. Mas aprovou outras que as ampliam, como a que cria a Defensoria Pública da União e a que inclui no quadro de servidores da União funcionários dos antigos territórios.

O resultado não poderia ser outro. O superávit primário (que exclui das contas o custo da dívida pública) apurado nos 12 meses encerrados em abril último foi inferior, como porcentagem do PIB, ao registrado 12 meses antes.

E isso ocorreu a despeito das medidas do governo para melhorar o saldo das contas públicas, como a antecipação do pagamento de dividendos das estatais, adiamento de despesas obrigatórias e a não contabilização de determinados investimentos. Embora legais, medidas como essas dificultam a comparação dos resultados fiscais ao longo do tempo.

Não era o que se prometia em junho do ano passado.

Convocados então pelo Palácio do Planalto, ali compareceram 27 governadores e 26 prefeitos de capitais, para, junto com a presidente, apresentar à população, assustada com a extensão e os rumos das manifestações de rua, uma resposta que a tranquilizasse. Embora não tivesse discutido previamente com governadores e prefeitos o que anunciaria naquele dia, Dilma falou em pactos.

Foram cinco, ao todo: um político (a convocação de um plebiscito para a formação de uma Constituinte para a reforma política), um para a saúde, outro para a educação e outro para os transportes, além daquele voltado para a área fiscal. Parecia que, desse modo, se buscariam respostas para as principais reivindicações dos manifestantes.

Espertamente, porém, Dilma não anunciou metas nem se referiu a outros pontos do que chamara de pacto. Na área fiscal, apenas garantiu que "este é um pacto perene para todos nós", pois, diria em seguida, a preservação dos fundamentos da economia "é uma dimensão especialmente importante no momento atual, quando a prolongada crise econômica mundial ainda castiga as nações".

Nada a discordar do palavrório presidencial. A preservação de uma política fiscal responsável, que aponte para a eliminação do déficit nominal, e não apenas para a geração do superávit primário prometido, é essencial para assegurar a estabilidade econômica a longo prazo. Se o governo Dilma assumisse, efetivamente, compromisso com uma política fiscal com essas características e a colocasse em prática, o pacto teria tido algum sentido.

Em novembro, quando já eram claras as indicações de que o pacto fiscal, como os demais anunciados por ela, eram apenas tentativas demagógicas de conter as manifestações de rua, a presidente Dilma Rousseff voltou a insistir no tema. "O governo tem perfeita consciência da importância da estabilidade fiscal. A estabilidade fiscal é o alicerce de tudo o que conquistamos", afirmou em reunião de seu Conselho Político, realizada no momento em que seu governo era intensamente criticado pela má qualidade da política fiscal. O resultado dessa política é um alicerce tão frágil que ameaça a estabilidade econômica.

Sem salto alto

Merval Pereira
O Globo

A convenção do PT que aclamou a presidente Dilma como sua candidata à reeleição trouxe a boa notícia de que o partido, fora algumas poucas exceções, decidiu não incorporar a política do ódio às elites à sua estratégia eleitoral, como sugerira o ministro Gilberto Carvalho em uma extemporânea entrevista a blogueiros chapa-branca.

Carvalho parecia fora do tom oficial, mas estava apenas alertando que o caminho escolhido estava errado, já que reconhecer os problemas é a primeira coisa a fazer para tentar superá-los.

O próprio ex-presidente Lula, com uma modéstia que não é de seu feitio, ontem comparou a candidatura de Dilma à seleção da Costa Rica, que vem fazendo furor na Copa do Mundo ao derrotar seguidamente o Uruguai e a Itália e classificar-se antecipadamente no chamado "Grupo da Morte".

Como a presidente Dilma continua liderando as pesquisas de opinião, embora em decadência na avaliação do eleitorado, aceitar que ela já não é a favorita deve ter custado muito a Lula e ao PT. Também o ministro Gilberto Carvalho deu declarações no mesmo sentido, admitindo que é preciso reverter o quadro eleitoral, embora ele ainda seja favorável à candidata do PT: "Vocês não tenham dúvida de uma coisa, eu tenho convicção, quando a campanha eleitoral começar e nós pudermos mostrar o nosso projeto... nós vamos reverter esse processo", disse ele.

É legítimo supor que a direção do partido sabe exatamente para que lado o vento está soprando, justamente esse vento de mudanças que o principal candidato oposicionista, o tucano Aécio Neves, anuncia que se transformará em uma tsunami que varrerá o PT do poder.

As mais recentes pesquisas eleitorais mostram uma série de visões negativas sobre todos os aspectos do governo Dilma, que aponta para novas quedas de popularidade à medida que o tempo passa. Aos que pensam em reverter esse quadro apenas com a propaganda eleitoral no rádio e na televisão, o ex-presidente Lula fez uma advertência: não é só com propaganda bem feita que se vencerá a eleição, mas mostrando os resultados dos 12 anos de governo do PT em comparação com os governos anteriores, especialmente do PSDB.

Fora a obsessão por Fernando Henrique Cardoso, que beira o ridículo - ontem se referiu ao ex-presidente tucano como "ele", sem pronunciar o nome -, Lula deu algumas pistas interessantes sobre a eleição presidencial que se avizinha. O "nós" contra "eles" continua sendo a tática, mas, ao que tudo indica, pelo menos neste começo de campanha, a comparação será feita com dados e números, não com agressões.

Será uma tarefa difícil tentar convencer os cerca de 70% dos eleitores que querem mudanças sem a presidente Dilma que ela está capacitada a liderar esse processo de renovação, mas o slogan da campanha já mostra essa disposição: "Muda mais, Brasil".

Pode ser um tiro no próprio pé se não convencerem os eleitores de que o país pode mudar com mais quatro anos com o PT no governo. Mas não há dúvida de que a presidente Dilma começou bem a campanha, apresentando um "Plano de Transformação Nacional", tentando jogar para frente o debate eleitoral.

Certamente será questionada sobre sua capacitação para transformar o país, se nos últimos quatro anos não conseguiu fazer a economia se desenvolver. A desculpa dada no discurso de ontem de que ela e Lula herdaram uma herança maldita difícil de ser superada é uma desculpa esfarrapada, que certamente será contestada pelos adversários de oposição.

Mas começar a campanha sem salto alto e consciente de que esta será uma disputa presidencial mais difícil e dura que qualquer outra já travada pelo partido, como admitiram vários dirigentes petistas, mostra que o partido está em alerta e disposto a enfrentar as dificuldades, o que exige uma militância aguerrida nas ruas.

A questão é que essa militância já não tem mais aquela alma que a distinguia da dos demais partidos, assim como o PT transformou-se em mais um na geleia geral partidária brasileira. Porém, o PT é de longe o partido mais bem equipado para a disputa eleitoral, dado sua estrutura e organização nacionais e o dinheiro que vem arrecadando ao longo dos anos em que está no poder.

Manhas e manias da política

Gaudêncio Torquato
O Estado de S.Paulo 

O jogo político não tem sido tão descontraído e festivo quanto as disputas que animam as galeras nos 12 estádios que sediam o maior espetáculo do futebol mundial. Na arena eleitoral as batalhas se acirram com a entronização dos candidatos nas convenções partidárias, incentivando espadachins a desferir golpes em todas as direções. As estocadas recíprocas revestem-se de surpreendente e contundente expressão, a revelar que o pleito antecipado (legalmente só poderá chegar às ruas em 6 de julho) já se mostra o mais virulento da contemporaneidade. Trata-se, afinal, não só de uma guerra entre três candidatos competitivos, mas de uma luta esganiçada pela continuidade ou mudança de rumos na condução do País a partir de 2015. Enquanto os contendores se engalfinham, os torcedores se comprazem confraternizando com torcidas estrangeiras e fruindo as performances dos atletas, com o apito pronto para evitar que se chute a bola de candidaturas nos gramados.

Essa, aliás, é a primeira explicação para apupos às autoridades nos eventos esportivos. A massa, sem distinção de classes, abomina misturar política, futebol e religião. Sabe guardar cada coisa em seu lugar. E conhece bem a primeira regra dos estádios: não há limites para as expressões, mesmo as chulas, reveladoras de deseducação cívica, como as ouvidas no jogo inaugural da Copa. O distanciamento entre a sociedade e a esfera política é um real fenômeno que pode ser avaliado por muitos instrumentos: índice de abstenção, votos nulos e em branco (ultrapassando hoje a casa dos 30%) e desinteresse geral pela eleição (em torno dos 50%). O imenso vazio aberto é ocupado por novos polos de poder, uma estrondosa tuba de ressonância que dá vazão ao clamor de grupos organizados.

Como atrair o interesse de eleitores de todas as faixas, que tendem a nivelar por baixo todos os representantes e demonstram esgotamento com os atores políticos? Eis o nó da questão. Em torno dele se debruçam candidatos, porta-vozes e cabos eleitorais, cada qual buscando a melhor mensagem para o momento.

No plano dos discursos, o PT esforça-se para dar credibilidade a um escopo ideológico que ainda causa receio a ponderável parcela do eleitorado. É um partido que vê, muito assustado, a corrosão de sua identidade, a mais confiável 20 anos atrás. Teme ser desalojado do primeiro andar do poder. Sente que já não tem tanto respaldo popular quanto nos dourados anos da era Lula, de quem espera papel de vanguarda na estratégia de continuidade.

Por isso Luiz Inácio, valendo-se do conhecido instinto desenvolvido ao longo do contato direto com as massas, resgata o velho axioma de guerra: a melhor defesa é o ataque. Ataque contra a imprensa, contra as elites, contra quem cospe no prato em que comeu, contra o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (que teria "comprado" apoio no Congresso ao projeto da reeleição). O tiroteio faz recuar exércitos adversários, obrigando-os à defesa. Mestre na arte da prestidigitação, o ex-metalúrgico anteontem era João Ferrador, ontem, "Lulinha paz e amor" e hoje volta a ser o gigante Ferrabrás.

Lembrando: em 1972 Lula vestia a camiseta do João Ferrador, personagem criado pelo jornalista Antônio Felix Nunes para apresentar as reivindicações dos metalúrgicos. "Hoje eu não tô bom" era o bordão do raivoso Ferrador. Em 2002 adotou o slogan "Lulinha paz e amor", contrapondo-se ao perfil combativo e sisudo das eleições de 1989, quando recebeu de Leonel Brizola a alcunha "sapo barbudo". Passou a ecoar o slogan "a esperança vencerá o medo". Foi um tento. Hoje tenta recompor o dito sob nova roupagem: "A esperança vencerá o ódio". Neste ponto, emerge a dissonância.

O ódio faz parte da estratégia lulista quando procura resgatar a polarização entre petistas e tucanos, identificando os primeiros com os pobres e os segundos com os ricos. A questão, porém, é mais complexa. Os habitantes do meio da pirâmide social e parcelas das bordas já estão vacinados contra refrãos carcomidos pela poeira do tempo. O slogan das ruas é outro: mais e melhores serviços públicos. Não acreditam que estatutos como o Bolsa Família serão extintos, qualquer que seja o futuro presidente. Já aos tucanos interessa acender a tocha da polarização, crentes de suas chances no pleito deste ano. Fernando Henrique vai à trincheira em resposta à crítica de que teria "comprado" apoios para aprovar a reeleição: "Lula vestiu a carapuça".

Depois de ter brilhado na constelação da ética, o PT aparece nas pesquisas como o ente que mais encarna o vírus da corrupção. Mesmo assim, aposta na dualidade "nós e eles", o bem e o mal. E continua a desprezar os parceiros partidários da aliança governista, alargando seu império na administração federal. Haja sofisma, a denotar um duplo padrão ético que lembra a resposta do rei africano sobre o bem e o mal dada ao pesquisador Carl Jung: "O bem é quando roubo as mulheres do meu inimigo, o mal é quando o inimigo rouba minhas mulheres". Nessa toada a campanha eleitoral, já começada, cerca-se de grandes interrogações. A aposta maior é a de que os rumos finais serão ditados pelo andar da carruagem econômica: maior inflação, aumento do desemprego, barrigas roncando, massas apertando o cerco, pior para a presidente Dilma, melhor para as oposições; a recíproca é verdadeira.

As manias e manhas que marcam as práticas eleitorais e o marketing - a execração recíproca, a autoglorificação de perfis, o disfarce e o embuste, as promessas mirabolantes - começam a disseminar-se com o fito de projetar imagens positivas e negativas para uns e outros. O eleitor continua arredio. Sua visão se concentra nas arenas esportivas e não nas praças da guerra eleitoral. Uma certeza é cristalina: o clima de 2014 é bem diferente da temperatura de 2010. Estreita-se o espaço da mistificação.

Particulares sem qualidade

Antonio Gois
O Globo

Só 14% das escolas privadas têm infraestrutura adequada. Migração da nova classe média para elas afeta ensino público e não garante melhoria.

Um levantamento feito pelo movimento Todos Pela Educação e publicado no GLOBO mostrou que 96% das escolas da rede pública não tinham infraestrutura totalmente adequada para funcionar. São estabelecimentos que, de acordo com o Censo Escolar do MEC, não dispõem de ao menos um dos itens que o recém aprovado Plano Nacional de Educação estabelece como necessário para todos os colégios públicos. São eles: água tratada e saneamento básico, energia elétrica, acesso à internet em banda larga, acessibilidade para pessoas com deficiência, bibliotecas, espaços para práticas esportivas, acesso a bens culturais e à arte e equipamentos e laboratórios de ciências.

Uma leitora, diante de notícia tão alarmante, questionou: será que o quadro é muito melhor na rede privada? Dados fornecidos pelo Todos Pela Educação à coluna mostram que não: 86% dos colégios particulares também não dispõem integralmente desses itens. O equipamento que mais falta na rede paga é laboratório de ciências, encontrado em apenas 21% dos colégios. No setor público, a proporção é de 8%.

Quando analisamos as causas do mau desempenho de nosso sistema de ensino, a tendência é olharmos apenas para a rede pública, que concentra mais de 80% das matrículas. A rede privada, no entanto, é bastante heterogênea. O topo do ranking do Enem é dominado por colégios particulares de elite, mas, como mostra um trabalho do pesquisador da USP Ocimar Alavarse, 52% das escolas pagas do país tiveram no Enem média abaixo de 560 pontos. Essa pontuação dificilmente credencia um estudante a uma vaga nos cursos superiores mais disputados.

Analisar com cuidado os dados da rede privada é importante num contexto em que as matrículas no setor crescem. De acordo com o censo escolar do MEC, de 2007 a 2013, houve aumento de 35% no número de alunos em colégios particulares da educação básica, enquanto os públicos registraram queda de 11%.

Uma explicação plausível é que uma parcela da chamada nova classe média, que até então mantinha seus filhos na rede pública, pode estar optando pelo ensino privado, graças à melhoria na renda. Por um lado, o fenômeno é positivo, pois mostra que essas famílias valorizam a educação e estão dispostas a fazer um sacrifício financeiro para tanto. O problema é que a promessa de qualidade de ensino melhor pode não se concretizar em boa parte das escolas que atenderão essa clientela recém-saída da rede pública.

Os efeitos desse movimento serão percebidos também no ensino público. Os pais que, ao primeiro sinal de aumento na renda, transferem seus filhos para a escola particular são, provavelmente, também os que mais valorizam a educação e mais cobram e colaboram com professores e diretores em busca de uma melhor qualidade de ensino.

O aprendizado não depende apenas da qualidade do professor ou da infraestrutura da escola. É o nível socioeconômico das famílias que, segundo estudos, mais influencia o desempenho dos estudantes. Além disso, é preciso considerar que as crianças aprendem também entre elas, no que é chamado de efeito entre pares. Se os melhores alunos da rede pública migram para a particular, isso afeta o desempenho das crianças que permanecem nas escolas estatais.

Ao fim, no entanto, a mais preocupante das consequências desse movimento é reforçar o estigma de que, no Brasil, escola pública é lugar só para pobres.

A média que nos coloca abaixo

Gazeta do Povo - PR
Editorial .

Dados do projeto Índice para uma vida melhor mostram que Brasil precisa esboçar, com urgência, uma revolução educacional. Do contrário, não veremos país nenhum


Apenas 34 mil brasileiros acessaram o endereço da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para conferir o Índice para uma vida melhor (www.ocdeindicevidamelhor.org). Desses, 800 responderam ao questionário. Apesar da adesão pequena, os resultados apontam pistas sobre o grau de satisfação da população com o país, e quais expectativas nutrem.

Dos 11 itens da pesquisa, as maiores preocupações nacionais, nessa ordem, são “educação”, “satisfação pessoal” e “saúde”. As menores preocupações são “comunidade” e “engajamento cívico”. Resta saber se os itens mais coletivos importam menos à população ou se, na visão dos respondentes, estão mais bem resolvidos. A pesquisa não responde essa sutileza, mas aponta para tantas outras que podem pautar as políticas públicas. A dizer, os demais itens são moradia, renda, trabalho, satisfação de vida, segurança, equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.

O resultado que mais deu repercussão – negativa – diz respeito à produtividade. De acordo com os índices da OCDE, o brasileiro trabalha mais do que a média dos habitantes de países ricos, mas produz menos e ganha remunerações mais medíocres. Entre os 36 países avaliados, o Brasil tem a pior renda per capita e 11% da população com carga horária semanal superior a 11%. Tudo isso, mesmo sendo a sétima economia do mundo. Soa esquizofrênico: rico, o Brasil tem uma das piores rendas per capitas – algo quatro vezes a menos do que a das famílias médias americanas, por exemplo.

A explicação para tamanha disparidade está na instrução. Com menos tempo de exposição à escola, a população brasileira encontra mais dificuldade em transformar o tempo gasto na vida profissional em resultados. O que mais surpreende os analistas é que, apesar do desempenho pouco vantajoso – não é agradável trabalhar tanto e receber pouco em troca –, 80% dos que responderam ao questionário se dizem satisfeitos com a vida, um índice quatro dígitos mais alto do que a dos outros países.

Assim que o dado da produtividade foi divulgado, houve quem o lesse do ponto de vista mais pejorativo – algo como “o brasileiro trabalha pouco”. Produzir menos não é, contudo, sinônimo de trabalhar menos, mas de não tirar do tempo do trabalho tudo o que ele pode render, usando do raciocínio e da organização, habilidades que melhoram à medida que avança o tempo de exposição à escola.

Os índices educacionais confirmam que o país perde – e muito – por causa desses descompasso, aspecto que compromete as perspectivas de desenvolvimento. Não se tem notícia de país desenvolvido que tenha quadro semelhante. No Brasil, 43% das pessoas entre 25 e 64 anos têm ensino médio. No Chile, esse índice é de 72%. Nos EUA, de 89%. As perspectivas não são muito melhores entre os jovens adultos, em tese, com idade de acertar sua situação escolar: 57% dos brasileiros entre 25 e 34 anos concluíram o ensino médio. Entre os desenvolvidos essa estatística supera 80% da população na mesma faixa etária.

Mesmo em situações de crise, países como a Argentina e a Rússia, para citar dois, se saem melhor, graças à escolaridade. Um engenheiro que esteja trabalhando de motorista de táxi, em Buenos Aires, por exemplo, tende não só a otimizar – como gostam de dizer os representantes do mundo corporativo – como em retornar para seu campo de atuação específica ou migrar para o empreendedorismo.

É questão séria. Difícil não citar aqui a média dos índices educacionais nas zonas de “polícias pacificadoras”, ou o nome que tenha. Em Curitiba e região metropolitana, por exemplo, a faixa nessas zonas favelizadas é de quatro anos de estudo, mesmo entre os jovens adultos. Do que se pode deduzir que os moradores das “zonas congeladas” podem ficar livres da violência, mas permanecem sujeitos à informalidade, situação na qual são vulneráveis ao crime, ativo e passivo. Do que se deduz que sem uma revolução educacional, em paralelo, não há política de segurança pública que funcione.

Em tempo. Esses dados eram conhecidos, antes mesmo da OCDE trazê-los à baila. A cada ano o Brasil perde mais a oportunidade de romper o dique e salvar seus jovens. Não se trata, obviamente, de uma tarefa do Estado, apenas, mas de toda a sociedade. Enquanto as mais diversas instituições não fizeram dessa a sua bandeira, não veremos país nenhum.

O miolo vazio da onda de consumismo

Marco Antonio Rocha
O Estado de S.Paulo 

Como é possível, ao governo, melhorar ainda mais rapidamente as coisas, depois de elas já terem melhorado bastante, num governo anterior?

A resposta é simples e ao mesmo tempo inútil: basta fazer muito mais do mesmo.

Simples, pois o que deu certo não deve mudar. Inútil, como a presidente Dilma está percebendo: o governo dela tem feito bem mais do mesmo do Lula. Mas as coisas estão piorando, em vez de melhorar ainda mais.

Para o ex-presidente, é porque Dilma está gastando pouco. Num seminário em Porto Alegre, promovido pelo jornal El País, com Dilma presente, ele deu a receita: "Se depender do pensamento do Arno (Agustin) você não faz nada. Não é por maldade dele, não. A nossa tesoureira em casa é a nossa mulher e também é assim. Elas não querem gastar, só querem guardar, mas tem que gastar um pouco também", disse Lula.

O Arno é o secretário do Tesouro. Será que gasta pouco? Só o que o Tesouro tem desperdiçado com o BNDES já encheria uma biblioteca.

Mas a visão de Lula sobre a economia não vai além de São Bernardo e da cesta de compras de dona Marisa. Aceitemos pois essa brilhante tese: é preciso gastar mais para irrigar a economia com dinheiro vivo e o povo poder consumir mais.

Essa foi a doutrina no mandato Lula. E, de fato, permitiu que o povo consumisse mais. Ele apostou - mesmo que não soubesse direito o que fazia - no consumer side da economia. Uma espécie de reaganomics (do ex-presidente Ronald Reagan, dos EUA). Só que muito estabanada, porque Reagan apostou foi no supply side da economia, na oferta. Reduzindo impostos e taxas de juros, as empresas produziriam mais a menores preços, criariam mais empregos e mais salários, os assalariados comprariam mais e a demanda aumentada puxaria a oferta.

Lula aumentou a renda da população como todo mundo constatou. O pobre ficou menos pobre, ou até mais rico, em certos casos, como reza a propaganda oficial. Em parte, é verdade. Houve um processo de emergência socioeconômica, com o povo comprando casas, comprando carros, comprando eletrodomésticos, cuidando melhor da saúde, procurando melhores escolas para os filhos, trocando o ônibus e o trem pelo avião nas suas viagens: "Os aeroportos viraram estações rodoviárias", disse alegremente a presidente Dilma. Também é verdade, em parte, embora quem já viajasse de avião não tenha gostado muito disso. A "elite" não gostou muito, diz Lula, na sua campanha permanente contra as classes altas, às quais ele atribui os males brasileiros.

Mas isso tudo foi muito bom, num primeiro momento. Reconheçamos. Para o povo em geral e para as empresas. A indústria vendeu mais, importou mais, o comércio vendeu mais, os serviços se expandiram. E o emprego também.

Só que na economia, como na física, a toda ação corresponde uma reação igual e contrária. Ou, numa linguagem apropriada ao Lula, tudo o que sobe tem de descer.

Estamos na descida. Não há dúvida. A indústria automobilística explodiu, pois quem não tinha carro pôde comprar seu primeiro carro, usado ou novo. Só que não vai comprar carro, de novo, todos os anos. Quem comprou geladeiras, máquinas de lavar, móveis, casas, etc., não vai comprar de novo todos os anos.

Enfim, quem estava carente de bens procurou suprir essa carência. E supriu em grande parte. As novas classes sociais emergentes, enfim... emergiram! Ingressaram nos estamentos inferiores da velha classe média e, em boa medida, estão felizes. Agora pensam em poupar, não só para pagar os bens adquiridos, inclusive casas, como para garantir melhor os filhos e a aposentadoria.

Era previsível que a "onda" de bem-estar lulista perdesse embalo. A base de continuidade desse processo seria o aumento dos investimentos, privados e públicos. Não houve. A doutrina do consumismo exibe agora o seu miolo vazio.

Debacle argentina é lição para o Brasil

O Globo 
Editorial 

Além de reflexos no Mercosul e em todo o continente, os previsíveis problemas do vizinho comprovam o equívoco que é a diplomacia companheira do lulopetismo

A crise argentina se aprofunda com o risco de mais um calote externo, depois que a Suprema Corte americana acolheu demanda de fundos especulativos, “abutres”, que não aceitaram os termos da última renegociação da dívida do país e agora desejam receber os créditos pelo valor integral. A dimensão potencial do problema é expressa por duas cifras: se outros credores, em condições idênticas, quiserem o mesmo, a Argentina terá de desembolsar US$ 15 bilhões no dia 30, cerca da metade dos US$ 28 bilhões das reservas do banco central.

Este cenário drástico para a fase final do segundo mandato de Cristina Kirchner — as eleições presidenciais serão no ano que vem — está previsto há algum tempo, pois a derrota argentina na Justiça americana era uma possibilidade concreta.

Esse desfecho começou a ser desenhado pela postura arrogante do marido de Cristina, Néstor Kirchner, quando era presidente, na imposição de condições draconianas na renegociação da dívida, tornada impagável no rompimento da política de câmbio fixo, em dezembro de 2001.

Mesmo que aquelas condições fossem inexoráveis, a postura política argentina revogou qualquer chance de entendimento. Tudo condimentado por um conhecido discurso nacional-populista, marca registrada do peronismo kirchnerista.

O aprofundamento da crise do país — sem divisas em nível tranquilizador, com inflação em 30% e economia em recessão — marca o esperado esgotamento de um modelo heterodoxo intervencionista, de que resultou a fuga dos investidores e a marginalização da Argentina no mundo.

Embora tudo muito previsível, a diplomacia companheira do lulopetismo, à qual se subordina o Itamaraty, levou a política de comércio externo brasileira a concentrar suas apostas em aliados ideológicos latino-americanos, como a Argentina e Venezuela, esta colocada para dentro do Mercosul numa manobra da Casa Rosada e do Planalto, de que foi vítima o Paraguai. E assim, o Mercosul tem hoje dentro dele duas bombas de demolição em contagem regressiva. As consequências já começaram a ser colhidas há algum tempo. Por ser mercado estratégico para as exportações brasileiras — hoje, o terceiro em importância, atrás de China e Estados Unidos —, a Argentina, com sua crise, tem agravado a tendência de déficits externos do Brasil.

O volume do comércio entre os dois países, no ano passado em US$ 36 bilhões, já encolheu 11% desde 2011. A indústria brasileira, sem competitividade para ocupar outros mercados, tinha a Argentina como cliente preferencial. Hoje, cada vez menos.

Além de todas as implicações para o Mercosul e todo o continente, a debacle argentina demonstra como é alto o preço que se paga quando se definem estratégias externas inspiradas em paixões ideológicas.