quarta-feira, junho 25, 2014

Pessimismo, o sujeito mau do governo

Adelson Elias Vasconcellos

A presidente tropeçando no Pessimismo


Antigamente, resultado negativo era fruto de má gestão. De repente, com a chegada do PT ao poder, resultado ruim passou a ter outras causas. Primeiro, plantaram no pensamento do brasileiro que era a tal “herança maldita” do governo anterior que, de maldita como todos sabemos não tinha nada. Pelo contrário.  Maldita, em todos os sentidos, era herança que FHC recebeu dos governos que o antecederam, à exceção de Itamar Franco, em cujo período foram plantadas as sementes do Plano Real. 

Depois que a desculpa deixou de fazer sentido, dado o longo tempo no poder, os petistas apelaram para a tal crise externa, tsunami cambial,  dentre outras pérolas. O discurso perdeu espaço quando, mesmo países em crise, passaram a crescer mais do que o Brasil. 

Era preciso arranjar outro personagem. Bem que, se pudesse, a senhora Rousseff até teria apelado para a tal “herança maldita”, uma vez que a  deterioração das contas públicas face à irresponsabilidade cometida com o gasto público começou no segundo mandato de Lula. Mas ficou impedida tendo em vista que devia a ele, Lula, estar sentada na cadeira presidencial. 

Tentaram aplicar a vigarice do complô das direitas, da mídia golpista. Não colou. Os resultados continuavam ruins, até quando a mídia elogiava e a oposição se aquietava.  

Claro, não poderia faltar no rol dos culpados, a tal “elite branca de são Paulo”. Mas esta, por ser muito estúpida, não durou além de uma semana. Até o próprio Gilberto Carvalho acabou negando-a.

Então, algum gênio da raça resolveu aplicar o truque de converter a consequência em efeito. Em razão dos resultados  serem ruins, os investidores e empresários começaram a puxar o freio de mão. Assim, os investimentos caíram abruptamente, desapareceu o tal espírito animal dos empresários, e as críticas do setor produtivo começaram a incomodar os governistas. Nas pesquisas feitas para apurar a confiança de empresários e consumidores, cresceu a curva negativa. Como o governo Dilma insistisse em maquiar os maus resultados, a confiança do empresariado foi decaindo, semana após semana. 

O pessimismo foi tomando conta em razão dos maus resultados, da falta de políticas coerentes e permanentes na economia,  e também devido as muitas escolhas erradas feitas pelo governo da senhora Rousseff.

O investimento não cresce? Culpa deste ser pecaminoso chamado Pessimismo.

A balança comercial despenca? Culpa do ser intragável chamado Pessimismo. 

A inflação resiste em se manter próxima ao teto da meta? Culpa deste ser  endiabrado chamado Pessimismo.

Os juros? O rombo histórico nas contas correntes? Serviços públicos ruins? Produção industrial estagnada há 3 anos e meio?  Sim, caros leitores, todos estes males que afligem a nação não são culpa do governo Dilma e seus ministros. O único sujeito oculto, mau caráter, sabotador, hediondo, capaz de tornar este governo medíocre é o danado do Pessimismo. Ou seja, o Pessimismo, que seria resultante do governo medíocre, passou a ser a causa de todos males e mediocridade do próprio governo. 

O último bastião da virtude do governo dito “popular” e “progressista” era a geração de empregos. Ah, diziam, mas o Brasil petista gera empregos, não provoca recessão, distribui renda. 

Semana passada, guardei um texto da Exame.com onde se lê “...A Copa do Mundo foi responsável pela geração de 1 milhão de empregos, dos quais 710 mil permanentes, segundo balanço preliminar do governo sobre os ganhos decorrentes da realização do Mundial de futebol no País.”

Não havia muito, o blog havia publicado outro texto, desta vez  elaborado por Camilla Veras Mota, Denise Neumann e Luciano Maximo, do jornal Valor, informando justamente o contrário.  A matéria tinha o sugestivo titulo “Copa contribuiu pouco para criar empregos formais” (leia a íntegra aqui).

Destacamos este trecho  que desmente a afirmação do governo. Vejam: 

“...A Copa do Mundo deu, pelo menos até o primeiro quadrimestre, uma ajuda modesta ao emprego formal. Nas cidades-sede do evento esportivo e nos setores diretamente beneficiados - alojamento, alimentação e agências de turismo - foram criados apenas 3 mil empregos no mercado formal de janeiro a abril. Embora seja o dobro do número de vagas registradas no mesmo período do ano passado, o número é considerado baixo...”

Quando li o texto da Exame.com com a tal informação “1 milhão de empregos por causa da Copa”, logo veio a seguinte questão: ora, se boa parte do comércio vai fechar em dias de jogos, por conta dos pontos facultativos e feriados decretados nas cidades sedes,  se boa parte da indústria concedeu férias coletivas durante a realização do evento, de onde o governo tirou aquele fantástico número? Das duas, uma: ou ele sabe mais do que todo mundo, ou o número informado é pura fantasia, delírio, chutometria. 

E, hoje, eis que é divulgado um fantástico dado que desmonta o discurso governista. O mês de maio, segundo o IBGE, gerou o menor número de vagas considerados os últimos 22 anos.  Foram criadas apenas 58,8 mil novas vagas.

Mas eis que o ministro do Trabalho e Emprego, sem explicar aquele 1 milhão informado na semana passada, ao ser questionado pela redução drástica na geração de emprego, logo encontrou o culpado para o resultado ruim: a culpa é...  do Pessimismo. Incrível, não?

Então, ficamos assim: o governo é ótimo e competente, os ministros são figuras de excelente capacidade de gestão, as políticas públicas estão todas bem desenhadas, a política econômica seguiu os princípios básicos do manual do bom economista  e, não fosse este demônio chamado “Pessimismo”,  tudo correria às mil maravilhas, e o Brasil não despencaria tão seguidamente no ranking que mede a competitividade e o ambiente de negócios dos países. Talvez até na educação nossos índices seriam de primeiro mundo, não fosse este ser intragável conhecido por “Pessimismo”. 

Se o povo brasileiro está julgando cada mais negativamente o governo da senhora Rousseff, de quem é a culpa? Das futricas do senhor Pessimismo, que fez a  cabeça dos milhões de classe média que só se sentem pobres, porque o senhor Pessimismo lhes mostrou que suas rendas não são tão médias assim. 

E o que se dizer da corrupção, então, não é resultado de pura sacanagem do Pessimismo que, por querer um governo honesto, não aceita um superfaturamento aqui, um desvio ali, ou uma remessa para paraíso fiscal de dinheiro público, acolá! Este cara sequer é capaz de aceitar um subornozinho mequetrefe que seja! Eita sujeito chato este Pessimismo!   

Ah, se o Brasil não ganhar a Copa e a Dilma perder a reeleição, não culpem nem a oposição, nem as forças malignas da direita, tampouco a mídia golpista. O culpado de todos os males que afligem o país chama-se Pessimismo, ok?  Só não sei se é possível enquadrá-lo na lei de segurança nacional, ou mesmo em algum dos artigos do Código Penal , para mantê-lo preso, de preferência na Papuda, bem longe dos mensaleiros petistas. Vai que o Pessimismo os convença de que são culpados?    

A herança para 2015

O Estado de S.Paulo
Editorial

Quem vencer a eleição presidencial no fim do ano terá de pensar, com urgência, em como carregar a desastrosa herança econômica deixada pelo atual governo. Se for reeleita, a presidente Dilma Rousseff precisará mudar muito mais do que prometeu no discurso de lançamento de sua candidatura. A parte mais visível da herança está indicada nas projeções de inflação alta, crescimento baixo e contas externas ainda em mau estado formuladas por economistas de uma centena de instituições financeiras e consultorias. Essas projeções são coletadas semanalmente pelo Banco Central (BC) na pesquisa Focus.

Na pesquisa divulgada ontem, a inflação estimada para 2014 continuou em 6,46%, muito perto do limite de tolerância, 6,50%, mas o número previsto para o próximo ano subiu ligeiramente, de 6,08% para 6,10%. A variação pode parecer pequena, mas está longe de ser insignificante. Na mesma sondagem, a alta projetada para os preços administrados chegou a 7%. Na semana anterior, a taxa estimada era 6,85%. Quatro semanas antes, 6,50%.

A mensagem contida nesses números parece muito clara. Economistas do mercado continuam prevendo um forte ajuste, em 2015, dos preços e tarifas contidos politicamente. Esse grupo inclui preços de combustíveis e tarifas de energia elétrica e de transporte público.

Parte desses valores tem sido corrigida neste ano, mas em proporção insuficiente para eliminar o atraso.

Com a correção, a defasagem poderá até desaparecer. Dificilmente serão compensadas, no entanto, as perdas acumuladas pelas empresas prestadoras de serviços e pela Petrobrás, vítima habitual do controle político dos preços de combustíveis.

O primeiro ano de um mandato - novo ou renovado - é em geral o mais propício, politicamente, para medidas duras na área econômica. Mas o governo terá de ser muito mais severo e ambicioso do que tem sido há muito anos. Se quiser, de fato, conduzir a inflação à meta, 4,5%, terá de cuidar mais seriamente das contas públicas, cortar a gastança e ser muito mais seletivo na concessão de benefícios fiscais.

Os incentivos concedidos a partir da crise de 2008 foram inúteis para estimular o crescimento geral ou perderam eficácia muito rapidamente. As contas nacionais deixam pouca ou nenhuma dúvida quanto a isso. Não há, portanto, como defender tecnicamente a manutenção dessa estratégia.

O governo deveria saber disso, mas prorrogou na semana passada parte dos incentivos. Reafirmou, assim, a disposição de continuar trabalhando com remendos tributários, em vez de batalhar por uma efetiva reforma do sistema. Para mudar de rumo, as autoridades terão de mostrar coragem, afastar-se do populismo e exibir imaginação e competência.

Quanto mais séria a política fiscal, menos o BC precisará elevar os juros para conter os preços. De todo modo, uma política monetária menos sujeita a interferências da cúpula governamental poderá ser mais eficaz. Quanto maior a credibilidade do BC, maior tende a ser o efeito de suas ações. Isso tem sido comprovado pela experiência internacional.

As projeções do mercado indicam, também, uma piora das expectativas de crescimento. O quadro geral inclui, além da inflação elevada neste e no próximo ano, estimativas menores de expansão econômica. Em uma semana a previsão para 2014 caiu de 1,24% para 1,16%. Para 2015, a redução foi de 1,73% para 1,60%, mesmo sem a expectativa de ações muito mais duras contra a inflação.

Para a produção industrial neste ano, a mudança foi de um crescimento de 0,51%, abaixo de medíocre, para uma contração de 0,14%. Para 2015, a expansão prevista aumentou de 2,25% para 2,30%, um número ainda muito ruim e explicável, pelo menos em parte, pela base de comparação muito baixa.

O quadro se completa com um desempenho fraco no comércio exterior, com superávits previstos de US$ 2 bilhões neste ano e US$ 10 bilhões no próximo. São resultados muito baixos para as necessidades do País, por causa do déficit estrutural em serviços e rendas.

A voz do dono.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Um dos anúncios mais populares da História foi o da RCA Victor, fabricante de aparelhos de som (gramophones), editora de discos, dona de uma das maiores emissoras de rádio dos EUA, a NBC. Um cachorrinho lindo, simpaticíssimo, ouvia atentamente os sons do alto-falante. Oslogan era "A Voz do Dono".

Como o ministro Gilberto Carvalho, um discretíssimo profissional da política, habituado a trabalhar em silêncio, que desandou a fazer discursos e a dar entrevistas, o gramophone da RCA Victor não falava: apenas repetia o que lhe era dito, com a máxima fidelidade possível. As opiniões de Carvalho, como as do alto-falante, não são dele. São de seu chefe máximo, a quem é sempre fiel: Lula.

Gilberto Carvalho é ministro de Dilma mas, quando fala, fala em nome de Lula. E as coisas que anda falando! Que se generalizou no país a insatisfação com o Governo; que o PT se ilude ao imaginar que "o povo pensa que está tudo bem"; que é bobagem dizer que só "a elite branca de São Paulo" vaiou Dilma no estádio do Corinthians - e em tantos outros estádios e shows espalhados pelo país. Culpar "a elite branca", analisa, é um erro de diagnóstico. "Quando você não tem um bom diagnóstico, não tem um bom remédio". Assume que houve casos de corrupção no PT, e põe a culpa na imprensa não por ter denunciado a corrupção petista, mas pelo tratamento, que considera mais ameno, que dá à corrupção de outros. Tem saudades da antiga militância petista; sente o PT contaminado pelo vírus da velha política.

E, lembremos, Gilberto Carvalho é o outro nome de Lula.

Pensando longe
Diálogo entre Gilberto Carvalho e a repórter Natuza Nery, da Folha de S. Paulo, autora da entrevista exclusiva:

- Gilberto Carvalho - Precisamos produzir um grande debate interno. Lula tem todas as condições de capitanear isso. Temos que rejuvenescer o partido.

- Natuza Nery - Com Lula candidato em 2018?

- Gilberto Carvalho - Não acho que é contradição. Ele tem uma incrível capacidade de criar o novo.

O dono da voz
Ou seja, se o eleitor se sente insatisfeito, a culpa é do PT e do Governo Dilma. Corrigir esses erros exige que se chame Lula de volta. Ele é o dono da voz.

Sinais no horizonte
Um monte de políticos deixa de lado a candidatura de Dilma e apoia seus adversários. Lembre-se: melhor que o poder de hoje só mesmo o poder de amanhã.

Dia quente
Hoje é o dia marcado pelo presidente renunciante do Supremo, Joaquim Barbosa, para o julgamento, pelo plenário, de cinco recursos de condenados no Mensalão. José Dirceu, Delúbio Soares, Romeu Queiroz e Rogério Tolentino querem autorização para trabalhar fora do presídio (Barbosa negou essa autorização, considerando que só pode ser concedida após o cumprimento de 1/6 da pena); José Genoíno quer retornar à prisão domiciliar, alegando que o presídio da Papuda não tem condições de lhe oferecer o tratamento médico específico de que necessita para evitar o agravamento de seus problemas cardíacos. 

O novo relator do Mensalão, após a renúncia de Barbosa, é o ministro Luiz Roberto Barroso. Se tiver que decidir sozinho, por qualquer motivo, considera-se certo que aceitará os recursos dos réus, incluindo a permissão para trabalho externo. Pode ser que Barbosa nem apareça na sessão; se aparecer, talvez haja incidentes entre ele e outros ministros, ou entre ele e advogados. Tarde quente!

Assim não dá! 
Permissão aos mensaleiros para trabalhar. Está começando a perseguição.

Acredite se quiser
1 - O governador paulista Geraldo Alckmin garantiu que sua Polícia já identificou alguns dos black-blocs que depredaram lojas e bancos na última quinta, depois de terem pro-me-ti-do que se comportariam se os policiais ficassem longe. OK, Alckmin acreditou nas promessas dos black-blocs, mas o caro leitor já pode confiar em suas previsões: ele tem informações diretas de uma pessoa de total confiança, o Saci-Pererê, tão enturmado que é até black, embora não bloc. 

2 -Lula explicou a eliminação da Grã-Bretanha: sua Seleção, disse, não estava acostumada em jogar num campo da qualidade dos nossos. Claro, claro: os gramados ingleses são conhecidos no mundo inteiro por sua falta de qualidade. E estádios como Wembley, Emirates e Old Trafford, como se sabe, são péssimos!

Boa notícia
O deputado federal Roberto de Lucena, do PV paulista, apresentou projeto que isenta remédios de PIS/Pasep e Cofins. Se aprovado, o projeto permitirá a redução do preço da medicação. No Brasil, remédio paga em média 35% de impostos (já os medicamentos veterinários têm média de 14% - por isso, Joelmir Beting costumava dizer que era melhor entrar na farmácia latindo do que tossindo). Em outros países, paga-se bem menos: nos Estados Unidos, Canadá, Colômbia, Suécia e México, não há impostos sobre remédios. Na União Europeia, os impostos representam 10% do preço dos medicamentos.

Brasil campeão! 

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Tiroteio a esmo

Dora Kramer
O Estado de São Paulo

A julgar pelos discursos dos três oradores que importavam na convenção nacional do PT - considerando que Michel Temer estava ali por honra da firma -, Rui Falcão, Luiz Inácio da Silva e Dilma Rousseff, por ordem de entrada em cena, o partido ainda não chegou a um acordo sobre qual a abordagem mais eficaz junto ao eleitor de 2014.

Cada qual foi numa direção diferente, não raro dizendo uma coisa em oposição a outra. Um exemplo: Falcão, o presidente do partido, avaliou que essa será a eleição mais difícil que o PT já enfrentou e pregou a guerra contra a oposição "homofóbica, odienta e fundamentalista".

Lula, o presidente de honra, afirmou que é preciso parar de dizer que a eleição será difícil; Dilma, presidente da República, pregou uma campanha "da paz", sem rancor. Eram três personagens encarnando três papéis diversos no palco. Sim, são pessoas diferentes, mas do roteiro de um partido que procura um mesmo objetivo espera-se ao menos unidade de pensamento. Não foi o que se viu no último sábado.

Rui Falcão entrou para, como se dizia antigamente, botar fogo na roupa, fazer do ressentimento um motor do entusiasmo genuinamente inexistente pela candidata. O que faltava de ardor por Dilma sobrava no clamor do grito "mídia fascista, sensacionalista", quando Falcão apontou os meios de comunicação como "arautos do mau humor que levam o negativismo para dentro da casa do povo".

Pode-se argumentar que o objetivo era mobilizar a militância. Dois problemas nesse argumento. Primeiro, o pequeno número de militantes ali presentes, devido à opção de fazer uma convenção em recinto acanhado, com a finalidade principal de produzir cenas para o programa de TV. Não seria dali que sairiam hordas de guerreiros.

Segundo problema: as propostas apresentadas como palavras de ordem para a militância são de fato palavras ao vento - por inexequíveis -, e a direção partidária sabe disso. Falou-se no plebiscito para a reforma política por meio de Constituinte exclusiva, marcando até data, 7 de setembro próximo - sugestão já devidamente morta e enterrada.

Voltou-se a falar na "democratização dos meios de comunicação", sabendo-se que tal proposta não tem aceitação entre nenhum dos partidos com representação no Congresso além do PT. Ou seja, convidou-se a militância a enxugar gelo.

Em seguida, falou Lula. Uma apoteose. Ali se viu quem o partido queria realmente como candidato, a quem o PT segue e venera. Foi o Lula de sempre, das metáforas, da quase lógica, da mistura de alhos com bugalhos, das mistificações, mas um exímio animador de auditórios.

Ao fim e ao cabo ficou a impressão de que vai jogar na tese de que inventou o Brasil Maravilha e que a ele os brasileiros devem toda sua gratidão. Além de dizer que a eleição não será assim tão difícil, mas "sui generis", avisou aos adversários "que se preparem", pois o PT se elegeu primeiro por quatro anos, depois por mais quatro e mais quatro, "e pode ficar no poder até a metade do século 21". Deve ter um plano e, pelo jeito, passa pela máquina do Estado.

Para encerrar a convenção, a presidente Dilma. Em ritmo de anticlímax, com um discurso cansativo que provocou dispersão na plateia e visível tédio em petistas sentados às duas mesas montadas no palco. Contrariando o tom dos antecessores e a própria personalidade, acenou com a "paz". Por uma hora enumerou seus feitos naquele conhecido tom maçante. "Produção de conteúdo para o horário eleitoral", justificava a assessoria. Mas, se aborreceu os correligionários ao ponto de enrolarem suas bandeiras, deixarem o recinto para lanchar ou comprar na lojinha do PT nas salas ao lado e os que ficaram preferirem conversar, esse conteúdo é capaz de não entusiasmar muito o eleitorado.

Ao contrário, porém, do "jingle" da campanha, "Coração valente", um forrozinho bom que só.

Depois da Copa

Vinicius Torres Freire
Folha de São Paulo

País toma anestesia local, não geral, faz festa com o futebol, mas o eleitor continua insatisfeito

A brisa alegre da Copa até agora festiva dissipou os miasmas que deixavam o clima pesado até faz muito pouco: 12 dias. Mas os maus humores terão escorrido para o ralo? O que será quando a Copa acabar, o que, esperamos, ocorrerá com vitória em 13 de julho?

A anestesia futebolística não foi geral, mas local. Os insatisfeitos com governo, política e economia ganharam adesões, dizem as pesquisas. Mas até para militantes é difícil viver em tensão permanente. A maioria de nós parece ter resolvido fazer um pouco de festa; não mudou de opinião.

Nos últimos meses, falamos muito de política e governo por meio de símbolos tais como a Copa ou, entre minorias, na guerra "ideológica" desencadeada por questões que foram dos rolezinhos aos insultos contra Dilma Rousseff.

Pouco antes, foi comum se tratar de insatisfações diversas, quando não adversárias, por meio da crítica genérica dos "políticos", de um Estado distante, que não oferece serviços públicos, quando não é apenas fonte de opressão física.

No rescaldo de um ano de revolta, os partidos e candidatos maiores apareceram mais desprestigiados que de costume, vide a quantidade de "votos de protesto" (nulo, branco, nem aí etc).

Findo o show da Copa, começa sem mais o show da eleição. Se a insatisfação de fundo continuar, contra governos e políticos em geral, quais contornos terá? Ainda haverá "rua"? Militantes, como os sem-teto e os do passe livre, em São Paulo, não vão submergir sem mais. Difícil é, a princípio, imaginar que o combustível das manifestações não tenha diminuído desde junho do ano passado e depois da Copa.

Os fatores de irritação mais difusa, cotidiana, não desapareceram, pelo contrário. Ainda que o mau humor econômico tenha sido exagerado em abril e maio, a economia real declina de fato e mais do que o esperado, inclusive no emprego. A mais recente previsão dos economistas privados estima que o PIB deve crescer menos que 1,2%, quase estagnação.

Há chance razoável de notícias simbolicamente ruins em julho e agosto (não serão boas de modo algum, mas devem soar ainda pior): inflação talvez acima do teto da meta, PIB zero, demissões em indústrias visíveis, com sindicatos fortes. Haverá algum motivo e muita oportunidade para o acirramento de ânimos políticos.

O governo decerto vai contra-atacar. Vai lançar o Minha Casa, Minha Vida fase 3 ainda em julho. Vai trombetear para o público menos informado e pobre os programas sociais que patrocinou, muito extensos, goste-se ou não deles.

Para o eleitorado minoritário mais dado à política-politiqueira, haverá mais motivos para decepção ou nojo, dada a barafunda de alianças cruzadas entre partidos. A oposição federal alia-se regionalmente a aliados nacionais do governo, entre outras indignidades. Pequenos e provincianos, os candidatos maiores não se dão conta do tamanho da repulsa que realimentam.

Não há motivos para acreditar que a fervura baixe. Está mais difícil de saber como tal desgosto vai se expressar. Em ano de eleição nacional, era de esperar que partidos maiores dessem sentido às revoltas mais comuns, ao menos. Só que não. Ainda, ao menos.

A tal da elite branca

David Coimbra
Zero Hora

Agora inventaram essa história de elite branca. Por favor. Uma das poucas vantagens que o Brasil realmente tem em relação a TODOS os outros países do mundo é a miscigenação. No Brasil, as etnias de fato se misturam, e o fazem com naturalidade.

Nos Estados Unidos existem tantas variedades étnicas quanto no Brasil, mas a miscigenação por aqui é mais custosa, as raças ainda se protegem homiziando-se em guetos, casando-se entre si. No Brasil, todos, japoneses, negros, alemães, anões, cafuzos, mamelucos, índios, brancos, azuis, todos são brasileiros.

É óbvio que existe racismo no Brasil — existe em toda parte do mundo. Mas a discriminação maior no Brasil é a social. Nos Estados Unidos havia racismo até nas leis. Não há mais. Eles fizeram ações afirmativas, puniram com rigor manifestações racistas e deram oportunidades iguais a todos. Hoje, negros ocupam cargos importantes, inclusive o mais importante. No Brasil falta precisamente isso _ oportunidades iguais. Não é seccionando a sociedade que se vai alcançar a igualdade. Ao contrário. Há que se unir. Se todos tiverem oportunidades iguais, questões raciais também serão atenuadas.

Donde a perversidade dessa conversa de elite branca. Tenho lido muito isso. Balela de quem quer parecer paladino na luta contra as desigualdades. Descrevem a tristeza dos que ficam do lado de fora do jogo do Brasil, assistindo às lágrimas a passagem dos privilegiados que têm ingresso. Uma jequice. Na Copa da Alemanha foi assim. Na do Japão também. Na Olimpíada de Londres, da mesma forma. Não há novidade. Um bilhão de pessoas querem assistir a um jogo desses, alguém vai ter que ver pela TV.

O ingresso do futebol é muito caro para o pobre. Oh! O ingresso para ver o Chico Buarque não é barato, nem o do show da Madonna, nem a entrada do cinema. Pelé não ganhava um milhão por mês. Fred ganha. Assim, ver Fred é mais caro do que era ver Pelé.

A elite branca xingou a presidente. Quem garante que pobres e pretos não o fariam? Essa elite branca é “branca” de fato? Existem “brancos” de fato no Brasil? Será que existe mesmo essa divisão, pobres e pretos a favor do governo, elite branca contra? Esse é um governo só para pretos e pobres? Como é que se faz para conseguir um governo para todos?

A falta de educação não tem cor nem classe social. Aconteceu em Itaquera, acontece em todo lugar. A falta de educação grassa no Brasil, basta ler o que brasileiros escrevem em comentários de blog e redes sociais a respeito das pessoas com quem não concordam.

Aliás, isso de presidentA. Será que os petistas inteligentes e ilustrados não vêem que isso é uma babaquice? Isso não valoriza a mulher coisa nenhuma, isso a ridiculariza. Quem é o taipa que fala presidentA sem achar estranho?

A propósito, havia no Brasil uma propaganda do TSE, não sei se está passando ainda. É para incentivar as mulheres a concorrer a cargos públicos. A mulher da propaganda pergunta: “Até quando vamos deixar que ELES falem por nós?” Mas como? Um homem não pode representar mulheres no parlamento? Temos que votar por gênero, homem vota em homem, mulher vota em mulher? É assim?

Elite branca, presidentA e outros que tais são apostas na divisão, na ruptura social. Não levam a nada. Ou, antes: não levam a nada de bom.

A revolução da lei

Vinicius Mota
Folha de São Paulo

SÃO PAULO - Faz sentido o Movimento Passe Livre não querer criminalizar os chamados black blocs, que liberam energia revolucionária quebrando lojas, bens públicos e agências bancárias. Ambos, anticatraqueiros e mascarados, brincam no jardim da infância a que regrediu certa ação política de esquerda no país.

Nesse terreno fantástico, embalado em construtivismo poético, toda repressão há de ser repudiada. Toda regra de conduta que pretenda limitar o desejo original e fraterno do "coletivo" deve ser rejeitada.

Esses garotos mimados --alguns entrando na quarta década de vida-- dão valor absoluto a sua vontade. Em seu playground anticapitalista, a falta de limites para a ação, e de quem os questione com autoridade, favorece a confusão mental.

A imaturidade reflexiva os impede de enxergar que grande presente deram aos patrões, cujo vale-transporte repassado aos trabalhadores ficou congelado em razão dos protestos do ano passado. Tampouco vislumbram o golpe duradouro que isso representou na capacidade da prefeitura de investir no bem-estar urbano de milhões de paulistanos mal remediados.

Num país ainda infectado pelo patrimonialismo, cujos beneficiários atropelam os deveres legais em nome de sua vontade e seu interesse, revolucionário é submeter todos os cidadãos ao conjunto de regras da convivência civil. Isso significa responsabilizar, reprimir e criminalizar quem desrespeita esse acervo civilizatório.

Depredar patrimônio é crime. Fazer manifestação de rua sem aviso prévio às autoridades afronta a Constituição. O direito de circular na cidade é tão importante quanto o de reunir-se e o de protestar. Daí decorre a necessidade de negociar em que locais e sob quais restrições de espaço ocorrerão os atos coletivos.

A qualidade da vida civil brasileira dará um salto quando todos se sentirem responsabilizáveis por suas atitudes públicas.

Boulos sitia a Câmara e é recebido por Alckmin. Está tudo errado!

Reinaldo Azevedo

Sitiada pelos fanáticos do sr. Guilherme Boulos, líder do MTST, a Câmara dos Vereadores não conseguiu votar o Plano Diretor da cidade por falta de quórum. Os ditos “militantes” estão acampados em frente ao prédio e dizem que lá permanecerão até que suas reivindicações sejam aceitas. Vocês querem saber o que significa, na prática, o famigerado decreto 8.243, da presidente Dilma Rousseff? É isso aí. O MTST quer que suas invasões sejam legalizadas no novo Plano Diretor e que sejam criadas facilidades para outras ocupações. Ainda que possa haver rusgas aqui e ali, o sr. Boulos é só uma das franjas mais ativas do petismo. O movimento alega que havia nove mil militantes por lá. A estimativa da Polícia Militar é que havia mil pessoas reunidas. A cidade de São Paulo tem 8,5 milhões de eleitores. É assim que uma minoria tiraniza uma maioria.

Entrei aqui num debate com o Ministério Público dia desses. A associação de promotores chegou a emitir uma nota bucéfala contra mim, respondendo àquilo que não escrevi. O MP ameaçava, ou ameaça ainda, recorrer contra o que chamou de “emendas de última hora” porque, diz, têm de ser submetidas à consulta popular. É mesmo? Quem é o povo? Os comandados do sr. Boulos? O povo, agora, tem chefe?

O líder do MTST, consta, está reunido com o governador Geraldo Alckmin. Alguns leitores cobram a minha opinião a respeito. É a mesma que expressei quando a presidente Dilma se encontrou com ele. Acho um absurdo e um despropósito. Pode dialogar? Pode! Mas não enquanto ele mantém cercada a Câmara de Vereadores e tenta tirar dos parlamentares eleitos o direito legítimo de votar segundo a sua própria consciência e, sim, as bases que representam. Daqui a pouco, Boulos vai se transformar no Quarto Poder da República. Fico sabendo que sua pauta de reivindicações inclui até procedimentos que deveriam ser adotados pela PM. Tenham a santa paciência!

É assim que se vão criando esses monstros da desordem, que não representam ninguém. A farra começou com o Palácio do Planalto, não é mesmo? Recebeu arruaceiros do Movimento Passe Livre em meio a desordem, como se representassem alguém, além da própria estupidez e do seu sectarismo doidivanas. Gilberto Carvalho tentou estatizar até os “rolezeiros”, lembram-se? Ontem, ficamos sabendo que o homem, ora vejam!, dialogou com os black blocs. Agora, Alckmin conversa com Boulos.

Reitero: não há mal nenhum na conversa, desde que esse senhor retire a sua tropa da Câmara e permita o pleno funcionamento do Poder Legislativo. Ele não representa a população de São Paulo. Caso se candidate a vereador, terá quantos votos? É evidente que estamos diante de uma das consequências da campanha eleitoral do sr. Fernando Haddad em 2012 e de sua eleição. Essa gente constituiu uma das linhas de frente de sua campanha e, agora, cobra um preço.

Daqui a pouco, sabem qual será o grande negócio para as construtoras em São Paulo? Comprar terrenos na periferia e esperar que o MTST os invada para que o Poder Público se veja obrigado a desapropriá-los ou para que possam ser vendidos ao MTST em regime de urgência — onde serão erguidas casas com dinheiro público. Guilherme Boulos logo será o maior incorporador do país, com a ajuda das três esferas do Estado Brasileiro.

Pouca mudança

Folha de São Paulo 
Editorial

Discursos na convenção do PT não ocultam contradições do partido e repetem visão estereotipada sobre o debate político brasileiro

Continuidade e mudança: este seria o eixo que, nominalmente, orienta a campanha pela reeleição de Dilma Rousseff à Presidência da República. Não sem habilidade, o lema procura dar conotação positiva às atuais dificuldades da postulação petista.

Com a popularidade em baixa, num clima de pessimismo econômico, Dilma não tem como se apresentar ao eleitorado sem acenar com alguma correção de rumos.

Ao mesmo tempo, busca reassegurar os que a apoiam --e a manutenção das políticas sociais aprofundadas a partir do governo Lula constitui, por assim dizer, o marco mínimo a partir do qual traçar o discurso de campanha.

Embora o binômio da continuidade e da mudança expresse um equilíbrio retórico delicado, não se trata, em tese, de nenhuma quadratura do círculo. Mas os problemas dessa formulação se amplificam quando se tenta concretizá-la.

Vieram acrescidos de sérias contradições, aliás, na cerimônia de oficialização da candidatura Dilma, ocorrida neste sábado (21).

Mudanças, por certo, são necessárias; mas quais? Além de promessas requentadas sobre desburocratização, universalização da banda larga e reforma política, em torno de que prioridades se aglutina o heterogêneo espectro de alianças partidárias que, agora com a exceção do PTB, supostamente daria base parlamentar aos projetos legislativos de Dilma?

Quanto à "continuidade", tampouco é claro o que significa. Até mesmo os setores mais entusiastas do petismo sabem que a lista das demandas sociais tende a ser inesgotável, e que a pauta de benefícios agora colocada pela sociedade é de outra natureza.

A bandeira da continuidade só se sustenta, em termos eleitorais, por meio de outro recurso: o da demonização do adversário. Seria para evitar uma "volta ao passado" --com o fantasma de um declínio no nível de renda dos mais pobres-- que valeria a pena manter tudo como está.

Surge a partir daí um outro binômio, este sim perverso, na orientação da campanha petista. Enquanto a candidata Dilma Rousseff aposta num perfil mais simpático e aberto ao diálogo com outros setores da sociedade, em especial o empresariado, Lula e outras figuras do PT alimentam a sede de maniqueísmo da militância.

Na convenção de sábado, alternou-se a atitude vitimizante que atribui a conspirações de direita o "ódio" contra o PT e o discurso inverso, o do ataque indiscriminado. Nesse mar de contradições em que o partido navega, o dedo apontado contra as "elites brancas" não impede a mão estendida a antigos defensores do regime militar.

Algemas verdes

Rodrigo Constantino
O Globo 

Os ambientalistas são uma seita que mascara profundo desprezo pelo avanço capitalista e tenta monopolizar a legítima preocupação com o meio ambiente

Nosso planeta está na iminência de derreter e, para salvá-lo, é preciso mudar radicalmente nosso estilo de vida, abandonar o progresso industrial e delegar poder absoluto aos governos. Ao menos é isso que muita gente quer que acreditemos. São os ambientalistas, uma seita que mascara profundo desprezo pelo avanço capitalista e tenta monopolizar a legítima preocupação com o meio ambiente.

Contra essa ameaça, o ex-presidente da República Tcheca Vaclav Klaus escreveu o excelente livro “Planeta azul em algemas verdes”, afirmando que é a liberdade, não o clima, que corre verdadeiro perigo atualmente. Klaus considera o risco “verde” mais sério do que o comunismo, e isso, vindo de alguém que sofreu intensamente sob o regime comunista, é algo que merece atenção.

“O aquecimento global tornou-se símbolo e exemplo da luta entre a verdade e a propaganda. A verdade politicamente correta já foi estabelecida e não é fácil opor-se a ela”, diz ele. A postura de muitos ambientalistas remete àquela de seitas religiosas fanáticas. Há uma “verdade” absoluta revelada, os “profetas” (como Al Gore e companhia), e os “hereges”, que adotam posição mais cética e demandam cautela.

O regozijo pessoal que vem com a sensação de superioridade moral apenas por pertencer a esse grupo de “escolhidos” que deseja “salvar o planeta” fica acima dos fatos e da razão, impedindo qualquer debate construtivo. É preciso atacar o “inimigo”, rotular com adjetivos chulos aqueles que não aceitam sem reservas o catastrofismo vendido pelos ambientalistas.

No começo, muitos se mostraram preocupados com os rumos dos “debates”, com o excesso de pânico infundado que foi incutido nos mais leigos, com a politização oportunista da ciência. Hoje, como confessa Vaclav Klaus, a preocupação deu lugar à fúria, pois é revoltante ver como a coisa desandou, transformando-se em uma perigosa ideologia coletivista que asfixia nossas liberdades.

O tcheco, que é economista, afirma que o problema com as mudanças climáticas tem mais a ver com as ciências sociais do que com as naturais. Citando os austríacos Hayek e Mises, o ex-presidente lembra que a “arrogância fatal” e o “cientificismo” ofuscam toda a ignorância das autoridades e dos especialistas em relação a um fenômeno complexo como o clima. A analogia com os planejadores centrais comunistas em relação à economia é evidente demais.

A “ordem espontânea” está no centro dos ataques dos ambientalistas, da mesma forma que faziam os marxistas. Eles rejeitam as liberdades individuais e depositam uma fé ingênua e absurda nos “clarividentes” e “onipotentes” tecnocratas e políticos. O modelo capitalista se tornou o principal alvo da ideologia ambientalista. Klaus resume: “Se levarmos o raciocínio dos ambientalistas a sério, descobriremos que defendem uma ideologia anti-humana. Essa ideologia vê como causa fundamental dos problemas do mundo a própria evolução do homo sapiens”.

Para concentrar cada vez mais poder e recursos no estado, a sensação de grande perigo precisa ser constante. Somente assim se justificam medidas drásticas que ignoram completamente qualquer relação de custo e benefício, qualquer alternativa mais racional para o uso de recursos escassos. Se o que está em jogo é “salvar o planeta” que será destruído a qualquer momento, então pro inferno até com a democracia, bolas!

S. Fred Singer, físico atmosférico da Universidade de Virgínia, faz uma pergunta importante: “Por que deveríamos dedicar nossos escassos recursos ao que é, em essência, um não problema, e ignorar os problemas reais que o mundo enfrenta: a fome, as doenças, o desrespeito aos direitos humanos — isso para não mencionar as ameaças de terrorismo e guerras nucleares?”

A imprensa, que vende mais quando há desgraças e catástrofes iminentes, ajuda a disseminar o medo infundado. Não chegam aos leigos fatos importantes, como a enorme quantidade de cientistas renomados que rejeitam as mensagens e a linguagem catastrofista do IPCC, ligado à ONU. Tampouco há a consciência de que existem muitos interesses em jogo, já que os próprios governos financiam boa parte das pesquisas que dão respaldo às soluções propostas de mais poder aos governos.

Václav Klaus conclui: “O atual debate sobre o aquecimento global é, portanto, essencialmente um debate sobre a liberdade. Os ambientalistas adorariam subjugar todos os aspectos possíveis (e impossíveis) de nossas vidas.” Se quisermos preservar nossas liberdades e o progresso capitalista, então é preciso combater a histeria dos ambientalistas.

Abre o olho, Dilma!

Eliane Cantanhêde
Folha de São Paulo

BRASÍLIA - Em plena Copa, Dilma toma uma bola nas costas atrás da outra. A convenção do PT foi driblada pela deserção do PTB e depois por uma jogada bem ensaiada de Aécio com Cabral e Pezão no Rio. O "Aezão" agora é orgânico.

Assim, Dilma divide seus palanques no Rio com Aécio, que lhe roubou o PMDB, e com Eduardo Campos, que lhe subtraiu uma fatia da campanha do petista Lindbergh Farias.

Ela não vai repetir o passeio de 2010 no Rio e em Minas e vai ter de suar a camisa em São Paulo. Confirmam-se as dificuldades da petista no "Triângulo das Bermudas", ou "grupo da morte", com cerca de 40% dos votos nacionais.

Isso reforça a sensação de fragilidade que vai se generalizando ou, como disse o lulista Gilberto Carvalho, "a coisa desceu, vai gotejando". Na dúvida, basta olhar os aliados do PT e ver para onde eles vão.

O PTB escancarou sua posição e o PMDB se mexe sorrateiramente rumo à oposição. Garantiu a Vice-Presidência para Michel Temer, mas liberou os pemedebistas para fazer o que bem entenderem nos Estados. Muitos deles estão entendendo que o mais conveniente é partir para outra.

Além do Rio, isso se reflete em outros Estados chaves, como Bahia e Rio Grande do Sul. E quer dizer muita coisa, principalmente a irritação com a vocação hegemônica do PT e a falta de confiança nas chances de vitória de Dilma.

Com esses dois argumentos, líderes do PSD pressionam Gilberto Kassab para que o partido opte pela neutralidade. Ele parece irredutível, mas perdeu o rumo sem a vaga de vice de Alckmin e foi à convenção do PT rapidinho, só a tempo de ser vaiado.

À Folha Gilberto Carvalho fez um diagnóstico realista sobre o clima negativo, que Lula quer enfrentar com a "adrenalina" da militância. Tempo de TV ajuda, mas não resolve, e marketing é científico, não faz milagres. Aliás, o slogan é reconhecimento das dificuldades: Dilma candidata das "mudanças"? Não cola.

O 'inferno astral' de Dilma às vésperas da campanha

Gabriel Castro
Veja online

Perda de palanques, aliados divididos, vaias e popularidade em queda: a dez dias do início da campanha, surgem dores de cabeça de última hora

 (Ueslei Marcelino/Reuters) 
INFERNO ASTRAL – 
A presidente Dilma Rousseff aguarda a chegada do presidente angolano,
 José Eduardo dos Santos, no Palácio do Planalto, na semana passada 

Em dezembro do ano passado, quando o Datafolha realizou sua rodada final de pesquisas sobre a sucessão presidencial em 2013, a presidente Dilma Rousseff marcava 47% das intenções de voto no cenário contra seus futuros adversários Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB). Como o porcentual de brancos, nulo e indecisos atingia 23%, era possível afirmar que a petista seria reeleita no primeiro turno. Mais: na época, as sondagens mostravam que Dilma recuperava aos poucos a popularidade perdida na esteira das manifestações que tomaram o país nos meses anteriores. 

No último levantamento de campo feito pelo instituto, em junho, Dilma marcou 34%. Seus oponentes ainda patinam para subir, mas o desempenho da petista já não assegura a vitória no primeiro turno. Há menos de duas semanas, Dilma ouviu xingamentos e vaias das arquibancadas durante a abertura da Copa do Mundo em São Paulo e, no último sábado, teve seu nome oficializado na corrida eleitoral em uma tensa Convenção Nacional do PT. No evento, coube ao presidente do partido, Rui Falcão, verbalizar a preocupação que aflige dez entre dez dirigentes petistas às vésperas do início da campanha: "Já se tornou lugar comum dizer que esta eleição será a mais dura, a mais difícil de todas. E os fatos mostram que sim".

Rui Falcão estava certo. Nos últimos dias, até arranjos que a equipe de Dilma dava como garantidos começaram a ruir. Em menos de uma semana a presidente-candidata foi abandonada pelo PTB, que anunciou apoio a Aécio Neves, foi surpreendida pelo movimento "Aezão", no Rio de Janeiro, e agora tenta desatar nós que colocam em risco o apoio de siglas como PP e PR. O primeiro realizará sua convenção amanhã, mas sequer convidou Dilma para o evento, num sinal claro de que ela não é unanimidade. O segundo adiou a decisão para o próximo dia 30 e já deixou claro seu recado: o apoio à chapa petista está condicionado a mais cargos em seu quinhão predileto no governo federal, o ministério e as autarquias dos transportes.

Nem mesmo o PMDB facilitou a vida da presidente: a convenção do partido que definiu apoio a Dilma teve votação foi muito mais apertada (59% a favor) do que o vice-presidente, Michel Temer (PMDB), planejava. Nesse caso, os entraves estarão em palanques estaduais importantes, como Bahia e Ceará.

Não é por acaso que os próprios petistas veem nessa a disputa eleitoral mais difícil desde 2002.

Sarney durou tanto que se tornou ‘inaposentável’

Josias de Souza





Há José Sarney e existe “José Sarney”. Há o personagem e existe tudo o que está implícito quando se diz “Sarney”, como em “Sarney apoiou Lula e apoia Dilma” ou “Sarney não gostou da última reforma ministerial”. Em cena há quase seis décadas, “Sarney” é uma entidade além da biografia. Virou coletivo. Imagina-se majestático. Mas é pejorativo.

Quando Sarney, aos 34 anos, ainda sem aspas, assumiu o governo maranhense, sua posse foi documentada no filme Maranhão 66, de Glauber Rocha e Fernando Duarte. Ele discursou em praça pública, diante de uma multidão que, eufórica, recepcionara-o com um coro glorificador: Sarney!, Sarney!, Sarney!, Sarney!

“O Maranhão não suportava mais nem queria o contraste de suas terras férteis, de seus vales úmidos, de seus babaçuais ondulantes, de suas fabulosas riquezas potenciais com a miséria, com a angústia, com a fome, com o desespero”, enumerou o novo governador.

“O Maranhão não quer a desonestidade no governo, a corrupção nas repartições… O Maranhão não quer a violência como instrumento de política, para banir direitos os mais sagrados… O Maranhão não quer a miséria, a fome e o analfabetismo, as mais altas taxas de mortalidade infantil.”

Corta para 2014, dia 23 de junho, uma segunda-feira. Aos 84 anos, já adornado pelas aspas, “Sarney” foi com Dilma Rousseff entregar chaves do Minha Casa, Minha Vida a beneficiários do Amapá, Estado que o mantém no Senado há mais de duas décadas. O coro da multidão era outro: Fora Sarney!, fora Sarney!, fora Sarney!, fora Sarney!.




Aquele Sarney que prometia, na alvorada de sua carreira, inaugurar uma nova era a partir do Maranhão, chega ao ocaso de sua existência na pele de outro “Sarney”. Oligarca de mostruário, símbolo do arcaico, convive com o risco de ser derrotado em nova corrida para o Senado.

Ainda sob o impacto das vaias do Amapá, que soaram em cinco momentos da solenidade de entrega de casas, Sarney mandou dizer que não irá mais às urnas. “Entendo que é chegada a hora de parar um pouco com esse ritmo de vida pública que consumiu quase 60 anos de minha vida e afastou-me muito do convívio familiar”, ele declarou, por meio de nota.

A novidade escalou as manchetes na forma de uma aposentadoria. Impossível. Sarney durou tanto que, depois de ter virado “Sarney”,  tornou-se, por assim dizer, um organismo ‘inaposentável’. Ainda que Sarney, o personagem, vista pijamas, “Sarney”, a entidade, continuará surtindo seus efeitos sobre a vida nacional.

Aposentado, Sarney cuidará para que “Sarney” não descuide de sua missão. Que é a de servir de inspiração para todos os políticos que sonham com a transposição do atraso de suas almas regionais para dentro das instituições federais. Iniciado com a chegada das caravelas, esse plano de institucionalizar o atraso está em execução permanente.

Nas últimas décadas, ao mesmo tempo em que Sarney se empenhava para transformar o Brasil num Maranhão hipertrofiado, “Sarney” foi ficando vago. É o apoiador dos generais da ditadura, mas também é a mão estendida para Tancredo Neves. É o indesejável que as bactérias tornaram inevitável ao atacar o organismo do eleito, mas é o primeiro presidente desde Juscelino a cumprir integralmente o mandato, com as instituições e a imprensa funcionando.

Inquilino impensável do Planalto, “Sarney” foi o vice mais versa que a República já conheceu. Produzido pelo acaso, chegou ao final do governo tão execrado que não teve como patrocinar um candidato à sua própria sucessão. Seu aval cairia sobre qualquer candidatura como uma sentença de morte.

O processo de reabilitação de “Sarney” em vida foi deflagrado pelo sucessor, Fernando Collor, que conseguiu a façanha de realizar um governo ainda pior. Mais tarde, Lula forneceria uma biografia nova a “Sarney”. Fez isso ao procurá-lo para pedir apoio, em 2002, depois de tê-lo xingado de “ladrão” durante anos.

Quatro vezes presidente do Senado, “Sarney” protagonizou o escândalo dos atos secretos. Secretamente, deu emprego a uma sobrinha de sua mulher que morava em Campo Grande, forneceu contracheque a uma sobrinha do genro que residia em Barcelona, alçou à folha do Estado um personagem (“Secreta”) que trabalhava como mordomo na casa da filha Roseana Sarney…

Convidado pelos jornalistas a analisar o comportamento do aliado, Lula tratou-o com distinção: “Sarney não pode ser tratado como se fosse uma pessoa comum.” De fato, se há algo de que “Sarney” não pode ser acusado é de ser comum. Difícil saber agora o que os livros dirão de “Sarney” quando puderem falar dele sem os ruídos da conjuntura. Vai à posteridade o “Sarney” incomum ou o Sarney ordinário?

Quando olha para o espelho, “Sarney” enxerga o brasileiro mais extraordinário que Sarney já conheceu. Nos modos, um sujeito cordial. Nas artes, a imortalidade da Academia Brasileira de Letras. Na política, a presidência de um “estadista” que soube completar a transição sem descuidar da “liturgia do cargo”.

Quando olhar para o Maranhão e verificar o sucesso que “Sarney” obteve sendo Sarney a vida inteira —do império estadual de comunicação até as edificações batizadas com os nomes de toda a família— a posteridade haverá de reconhecer: “Sarney” é a personificação de um Brasil em que a vida dos governantes sempre melhora. Mesmo quando piora a vida dos governados.

Ao perder uma eleição para governador da Califórnia, nos Estados Unidos, Richard Nixon convocou a imprensa para informar que deixaria a vida pública. “Vocês não terão mais Richard Nixon para chutar”, disse. O morubixaba do PMDB também se julga injustiçado pela imprensa. Mas não pode ecoar Nixon. Ainda que Sarney se aposente, sempre haverá um “Sarney” para ser chutado. Com muita justiça.


Equívoco conceitual

Fábio Giambiagi
O Estado de S.Paulo 

A saída para a situação de baixo crescimento em que se encontra a economia brasileira requer um diagnóstico correto das causas desse desempenho. É nesse ponto que reside o problema da estratégia oficial que vem sendo adotada para lidar com os problemas da economia. Se Drummond dizia que no meio do caminho tinha uma pedra, no caso brasileiro no meio do caminho temos um erro de diagnóstico.

Desde a eleição de 2002, aqueles que viriam a ocupar posições no governo a partir de 2003 pregavam simultaneamente três teses. A primeira era que a retomada do crescimento deveria se basear na constituição de um amplo consumo de massas, o que implicaria que o consumo deveria liderar o crescimento. A segunda - consensual - é que a taxa de investimento deveria aumentar. E a terceira, que era necessário atacar o desequilíbrio externo, o que na ocasião significava aumentar as exportações a uma taxa maior que a das importações. Estaríamos todos de acordo, exceto por um detalhe: era impossível cumprir com os três objetivos ao mesmo tempo, pela simples razão de que a soma das partes deve ser igual ao todo. Consumo, investimento e saldo das relações com o exterior não podem aumentar como proporção do PIB ao mesmo tempo.

Lula julgou ter encontrado a solução mágica para resolver aquela impossibilidade graças ao "paraíso zodiacal" que o País viveu no seu segundo mandato. A mágica atendeu pelo nome de melhora dos termos de troca. Foi ela que permitiu que as importações funcionassem como variável de ajuste, crescendo muito acima das exportações, viabilizando o atendimento da expansão do consumo e do investimento e sem afetar pesadamente o balanço de pagamentos (BP). Entre 2004 e 2010, enquanto as exportações, pelos dados da Funcex, cresceram em termos reais a uma média anual de 2%, as importações cresceram nada menos que 12% a.a. Apesar disso, o superávit comercial de 2010 foi ainda de US$ 20 bilhões, graças ao desempenho excepcional dos termos de troca. Hoje, a festa acabou e essa mágica não é mais possível: se o consumo e o investimento crescerem muito, as importações avançarão na frente das exportações e o balanço de pagamentos exibirá um déficit monstruoso.

O que ocorreu naqueles anos, mitigado pelos termos de troca, respondia ao esquema de quem se acostumou a pensar no mundo da restrição de demanda. Nesse caso, de fato, não importam muito os coeficientes relativos ao PIB, porque é possível que o numerador de todos os coeficientes se expanda e a expansão do consumo e do investimento seja satisfeita pelo aumento de tamanho do PIB, sem pressionar excessivamente a balança comercial em termos absolutos. Quando a restrição é de oferta, porém, maior absorção doméstica bate "na veia" no setor externo, que é rapidamente afetado pelos gargalos domésticos existentes. É esse o caso da economia brasileira em tempos recentes.

É um erro imaginar que a insuficiência de investimentos do País se resolve apenas com melhora de gestão e aprimoramento dos projetos. É claro que se conseguirmos isso teremos dado um passo fantástico, à luz das enormes falhas desse tipo de processos. O que se quer frisar, porém, é que isso é somente parte do problema. Melhorar a gestão é condição necessária, mas não suficiente, para que o investimento ocorra. Para isso, é preciso mudar o perfil da economia: precisamos aumentar a taxa de investimento sem "arrebentar" com o BP, o que só pode ter uma solução: diminuir a relação entre o consumo e o PIB.

O problema é que a agenda nacional vai na direção contrária. Independentemente do seu mérito, as reivindicações em favor de "mais isso e mais aquilo" redundam no que se deveria evitar. Qualquer que seja o(a) presidente, em 2015 ele(a) terá de explicar para a cidadania que é preciso dosar as demandas, pois se elas forem satisfeitas, o investimento terá um desempenho raquítico ou o déficit em conta corrente alcançará mais de US$ 100 bilhões. Não é uma questão (apenas) de gestão: há decisões difíceis a tomar.

Cartão vermelho para o gasto irregular

Augusto Nardes
O Globo

Depois da Copa, que esperamos seja conquistada pela nossa seleção, vestiremos de novo a nossa camisa do controle e iremos continuar fiscalizando

O brasileiro veste a camisa. Somos um povo que se dedica ao que faz, e mostra alegria no fazer. Como ressaltou Câmara Cascudo, o melhor produto do Brasil ainda é o brasileiro. O padeiro, o executivo de vendas, o motorista de ônibus, desde o mais humilde até o mais graduado dos cidadãos, todos vestem a camisa, dão o melhor de si e fazem o Brasil melhor.

Nós, do Tribunal de Contas da União (TCU), também vestimos a camisa, a camisa do controle da fiscalização dos gastos públicos. Agora na Copa do Mundo da Fifa, fiscalizamos os gastos realizados com a mesma independência e isenção com que sempre controlamos o emprego de quaisquer recursos públicos federais com vistas à sua correta aplicação. Nem mais nem menos. Não houve exageros, tampouco omissão da fiscalização.

No exercício do controle externo dos recursos públicos federais, o TCU não tem participação na execução das obras públicas, mas temos mandato assegurado pela Constituição Federal para buscar, em nome da população, que haja qualidade nas obras que lhe sejam entregues. E apontamos os problemas à medida que foram sendo revelados. Somente na fiscalização dos financiamentos para as arenas, contribuímos para que o país fizesse uma economia de R$ 700 milhões, dinheiro suficiente para construir um estádio. Nossas auditorias revelaram problemas em diversas cidades que são sedes de jogos da Copa do Mundo, como Cuiabá e Natal, entre outras. Das obras de mobilidade urbana, que a princípio deveriam ser o grande legado transmitido pela Copa para a população brasileira, apenas 43% ficaram prontas.

O Brasil não pode continuar dessa forma. O que se revela da análise que o TCU fez é que o Brasil precisa planejar melhor. Não apenas planejar a execução dos investimentos, mas também a sua distribuição espacial. Não adianta continuarmos a apresentar um crescimento vertical com desigualdade regional, sem efetivo desenvolvimento, sem avaliar as políticas públicas, com direcionamento de recursos para regiões que já estão sem condições de desenvolvimento. É necessário, por exemplo, que o BNDES avalie para onde estão sendo alocados os recursos, estabelecendo zonas diferenciadas de desenvolvimento nas regiões mais deprimidas do país.

Com a especialização de suas secretarias implantada em 2013, e com o lançamento das auditorias coordenadas, o TCU começou a apontar onde estão os gargalos em educação, saúde, meio ambiente, segurança pública, tudo de forma sistematizada. Também em 2013 iniciamos um estudo, em parceria com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), uma das instituições mais avançadas do mundo em matéria de governança, para buscar as boas práticas das Entidades de Fiscalização Superior de 12 países e aplicá-las no Brasil e na América Latina, no âmbito da Organização Latino-Americana e do Caribe de Entidades Fiscalizadoras Superiores (Olacefs).

O TCU está engajado em um projeto de Estado, para pensar o país a longo prazo. As críticas e os comentários formulados não devem ser encarados como contestação, ou como sentimento antipatriótico, mas como estímulo ao planejamento e à mudança cultural. Vestimos a camisa e fizemos nosso trabalho. Agora é hora de vestir a camiseta amarela e torcer pelo Brasil. Torcer pelos gols de Neymar, Fred e de toda a equipe.

Depois da Copa, que esperamos seja conquistada pela nossa seleção, vestiremos de novo a nossa camisa do controle e iremos continuar fiscalizando. O país deve estar preparado para evitar que nas Olimpíadas de 2016 erros semelhantes se repitam. A matriz de responsabilidades das Olimpíadas já está sofrendo alterações, com retiradas de obras que seriam o grande legado dos Jogos Olímpicos para a cidade do Rio de Janeiro. Estamos de olho, mesmo vestindo a camiseta amarela. E torcendo pelo Brasil, dentro e fora de campo.

(*) Augusto Nardes é presidente do Tribunal de Contas da União

Opções Dilma

Celso Ming
O Estado de São Paulo

Sábado, o PT homologou a candidatura da presidente Dilma para a Presidência da República, com a proposta de "continuar para melhorar".

Até agora, nem a presidente Dilma nem as autoridades da área econômica do atual governo explicaram à opinião pública o que seria essa melhoria. Como mudou mais de uma vez, um novo governo Dilma pode seguir mudando. Falta saber se seria o suficiente para virar o atual curso paralisante da economia.

Na oposição prevalece o ponto de vista de que um eventual segundo mandato será continuação do jeito Dilma de governar e de nada além de mais do mesmo, com os mesmos resultados: crescimento decepcionante do PIB e inflação no teto da meta.

Como atitude inicial de um governo reconduzido ao poder pelo voto, esse ponto de vista teria lá suas justificativas: implicaria certo grau de aprovação popular ao que foi feito no primeiro mandato. No entanto, a dinâmica própria da economia não parece capaz de sustentar uma política desse tipo.

Caso se reeleja, a presidente Dilma até poderia manter seu estilo centralizador e personalista de governar, mas é improvável que sustentasse por muito tempo o atual arranjo de política econômica, que deu errado.

Três são as hipóteses de política econômica a considerar em caso de vitória da presidente Dilma.

A primeira seria a de que, uma vez recarregadas as baterias de capital político, bastariam alguns ajustes para que o atual quadro de estagflação fosse prontamente revertido. É o diagnóstico de que não há nada de especialmente errado na política econômica e o de que o desânimo tem mais a ver com a onda pessimista difundida pelos analistas. Como até mesmo as lideranças do PT estão descontentes com os resultados da economia, é improvável que esse ponto de vista prevaleça.

Não falta dentro do atual governo quem argumente que a atual incapacidade de mostrar resultados não tem a ver com a opção pela Nova Matriz de Política Econômica, mas, sim, com a falta de aprofundamento das atuais diretrizes desenvolvimentistas. É a maneira de pensar de quem recomenda muito mais do mesmo: rédeas soltas na administração das finanças públicas (política fiscal frouxa), derrubada dos juros para catapultar o consumo e desvalorização mais radical do real (alta do dólar) para dar competitividade à indústria - e esta seria a segunda hipótese aqui avaliada.

Seria a receita para uma trombada imediata no barranco. A confiança ficaria ainda mais abalada; os investimentos minguariam; os US$ 30 bilhões de capitais externos que hoje estão tirando proveito dos juros altos e do câmbio estável bateriam em retirada; e a inflação seguiria seu curso.

As duas opções acima se esgotariam rapidamente. E, nessas condições, não sobraria para a segunda administração Dilma outra saída senão dar um choque de ortodoxia, do tipo Antonio Palocci, capaz de mudar de rumo e de estratégia, para que a economia voltasse a curso sustentável, de crescimento razoável e de inflação na meta.

Em todo o caso, os fatos e a política têm dinâmicas próprias, como as manifestações de junho de 2013 também tiveram. É o que recomenda cautela e caldo de galinha.


Brasil registra maior rombo nas contas externas para maio

Veja online
Com informações Agência Reuters e Estadão Conteúdo

Resultado, de US$ 6,63 bilhões, veio pior do que o BC esperava. No ano, déficit nas transações correntes é de US$ 40,074 bilhões

(Getty) 
As transações correntes são formadas pela balança comercial, 
pelos serviços e pelas remessas ao exterior 

O Brasil registrou déficit em transações correntes de 6,635 bilhões de dólares em maio, informou o Banco Central nesta terça-feira. O desempenho é o pior para o mês desde o início da série histórica, em 1947. O rombo foi maior do que os 6 bilhões de dólares previstos pelo BC. 

O resultado negativo apresentou uma queda de 19,8% em relação ao déficit de abril (8,28 bilhões de dólares) e ficou ligeiramente acima do registrado em maio de 2013 (6,36 bilhões de dólares). Analistas consultados pela agência de notícias Reuters esperavam um saldo negativo de 6,65 bilhões de dólares. As transações correntes são formadas pela balança comercial, pelos serviços e pelas remessas ao exterior.

De acordo com o BC, a conta de rendas (transferências de recursos de pessoas e empresas entre o Brasil e outros países) ficou negativa em 2,91 bilhões de dólares, enquanto a conta de serviços (remessas de dinheiro oriundas de pagamento de serviços) teve déficit de 4,51 bilhões de dólares.

No acumulado de janeiro a maio de 2014, o déficit em conta corrente soma 40,07 bilhões de dólares, o equivalente a 4,26% do Produto Interno Bruto (PIB). No acumulado dos últimos doze meses até maio, o saldo negativo subiu para 81,85 bilhões de dólares, ou 3,61% do Produto Interno Bruto (PIB). 

Investimentos - 
Ainda segundo o BC, os Investimentos Estrangeiros Diretos (IED) somaram 5,96 bilhões de dólares no mês, acima dos 3,88 bilhões de dólares de igual período de 2013. No acumulado dos cinco meses do ano, o IED somou 25,34 bilhões de dólares. No mesmo período do ano passado, o saldo do IED era de 22,86 bilhões de dólares.

Projeção - 
O Banco Central manteve nesta terça-feira a projeção de déficit em transações correntes em 2014 em 80 bilhões de dólares e de Investimento Estrangeiro Direto (IED) em 63 bilhões de dólares. 

Para a balança comercial, o BC reduziu a perspectiva de superávit a 5 bilhões de dólares em 2014, sobre 8 bilhões de dólares previstos anteriormente. No caso da remessa de lucros e dividendos, a projeção para 2014 passou de 27 para 26 bilhões de dólares.

Gastos de brasileiros no exterior registram recorde em maio

Exame.com
Kelly Oliveira, Agência Brasil

Gastos de brasileiros no exterior registraram novo recorde em maio, chegando a US$ 2,266 bilhões

David McNew/Getty Images 
Avião pousando: em maio de 2013, os gastos somaram US$ 2,221 bilhões

Brasília - Os gastos de brasileiros no exterior registraram novo recorde em maio.

De acordo com dados do Banco Central (BC), no mês passado essas despesas chegaram a US$ 2,266 bilhões, o maior resultado para o período já verificado pelo BC.

Em maio de 2013, os gastos somaram US$ 2,221 bilhões.

De janeiro a maio, os gastos de brasileiros em viagens ao exterior chegaram a US$ 10,484 bilhões, acima dos US$ 10,301 bilhões registrados no mesmo período de 2013.

As receitas deixadas por estrangeiros no Brasil ficaram em US$ 531 milhões em maio de 2014, contra US$ 522 milhões no mesmo mês do ano passado.

De janeiro a maio, essas receitas chegaram a US$ 2,849 bilhões, contra US$ 3,027 bilhões nos cinco primeiros meses de 2013.

Com o resultado dos gastos dos brasileiros e a receita dos estrangeiros, o saldo negativo da conta de viagens ficou em US$ 7,635 bilhões, de janeiro a maio, e em US$ 1,735 bilhão somente no mês passado.

Hoje (24), o BC informou que revisou a projeção para o déficit em viagens internacionais este ano, de US$ 18,5 bilhões para US$ 18 bilhões.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Este fato, que vai ocorrendo há algum tempo, deveria ter despertado no governo um sinal de alerta. é normal as pessoas viajarem para o exterior, fazerem algumas compras, etc. Porém, conforme já demonstramos aqui, este volume elevado que vemos acontecer há alguns anos - e que serve para deteriorar ainda mais nossas contas externas -, se dá por um único motivo: o Brasil se tornou caro demais até para os brasileiros. 

A carga  incidente sobre itens básicos faz com que pessoas em viagem, adquiram lá fora itens similares encontrados no país, com preços infinitamente menores. 

E grande parte destes preços altos aqui dentro se deve a extorsiva carga tributária incidentes sobre tudo, inclusive itens básicos como material escolar, por exemplo.  Ou seja, para manter a atual e mastodôntica estrutura do Estado brasileiro, repleto de privilégios e desperdícios em todas as instâncias,  cobram-se impostos abusivos, o que onera o preço final dos produtos.

Em consequência, há alguns anos o modelo aplicado aqui gera emprego e renda ... lá fora. Estamos exportando consumidores. Não é uma beleza? 

Porcentual de famílias endividadas é de 62,5% em junho

Idiana Tomazelli
 Agência Estado

Número diminui para 55,4% entre as famílias que ganham mais de 10 salários mínimos por mês

O porcentual de famílias com dívidas caiu a 62,5% em junho deste ano, informou há pouco a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Em maio, essa fatia era de 62,7%, segundo dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic). Em junho de 2013, a parcela de endividados também era maior, de 63%.

O porcentual diminui se consideradas as famílias que ganham mais de 10 salários mínimos por mês. Entre elas, 55,4% estão endividadas.

O crédito mais caro é a principal motivação para a maior cautela das famílias, segundo a CNC. “A alta do custo do crédito induz a uma postura mais cautelosa das famílias ao contratar e renovar empréstimos e financiamentos. Juros mais altos e ganhos de renda mais modestos levam a condições menos favoráveis para o endividamento”, afirmou a Confederação, em nota.

A parcela média da renda comprometida com dívidas atingiu 30,3% em junho deste ano. A fatia é maior do que os 29,1% observados em igual mês do ano passado, mas inferior aos 30,5% registrados na pesquisa referente a maio de 2014. Em outro corte da pesquisa, as famílias com renda mensal inferior a dez salários mínimos são as mais endividadas (63,9%), enquanto as que ganham mais do que isso estão menos comprometidas com dívidas (55,8%).

A Peic é apurada mensalmente pela CNC a partir de janeiro de 2010. Os dados são coletados em todas as capitais dos Estados e no Distrito Federal, com cerca de 18 mil consumidores. O objetivo é captar o número de famílias que declaram ter dívidas como cheque pré-datado, cartão de crédito, cheque especial, crédito pessoal e consignado, financiamentos, entre outras.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Este indicador é importantíssimo, e serve para desqualificar a receita passada por Lula à senhora Rousseff, de que era preciso abrir o cofre e ampliar o crédito. Simplesmente, não há a menor possibilidade, pelo menos por enquanto, para que a presidente ceda aos "conselhos" do padrinho. O que já está ruim vai ficar ainda pior. O modelo adotado no auge da crise financeira internacional em 2009 já se esgotou. E uma das razões que apontamos aqui é que a renda das famílias é relativamente baixa para suportar por tempo prolongado um consumo aquecido. Chega um momento em que as pessoas, por si mesmas, passam a eleger prioridades. Pretender aquecer ainda mais o consumo, com escassez de oferta, inflação e juros altos é jogar gasolina para apagar o incêndio. 

Juro baixo em 2013 turbinou inflação atual, dizem analistas. Mas é preciso cuidado com a análise.

Gabriela Valente
O Globo

Até no governo cresce a percepção de que Selic deveria ter subido antes

 BRASÍLIA - Cresce dentro do governo a convicção de que o Banco Central (BC) errou a mão ao testar qual seria o juro neutro do país, ou seja, qual patamar da taxa básica (Selic) teria neutralidade: não alimenta nem combate a inflação. No início de 2012, a autoridade monetária decidiu mostrar ao país que não seria necessário mais usar taxa de juros em níveis muito altos para conter a alta de preços. Em outubro do mesmo ano, o Comitê de Política Monetária do BC (Copom) derrubou a Selic para 7,25% ao ano, a menor da história. Os juros básicos da economia ficaram nesse patamar até abril de 2013.

Segundo técnicos da própria equipe econômica, foi essa estratégia — arquitetada pelo Palácio do Planalto — que criou o atual problema inflacionário do país.

— Todo esse problema que estamos vivendo hoje começou aí. O BC errou na mão. Se o problema fosse apenas o choque de alimentos, a inflação já teria cedido — disse uma fonte do governo.

A opinião não é restrita aos bastidores do governo. É amplamente difundida entre economistas do mercado.
— Não havia condições para a Selic cair para 7,25% ao ano naquela época: a inflação estava muito alta e a política fiscal estava frouxa. Isso só aprofundou os desequilíbrios da economia — argumentou o economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Rosa.

Para Rosa, o resultado da política do BC foi o oposto do desejado: encareceu o custo da política de controle dos preços. Segundo ele, agora, é preciso uma carga de juros maior para colocar a inflação na meta. O economista lembrou que o governo precisou tomar medidas para tentar contornar a situação e interferiu diretamente nos preços das tarifas públicas. Assim, criou mais uma distorção econômica.

— E isso tudo nem ajudou a economia a crescer mais.

Já para o economista-chefe da corretora Gradual, André Perfeito, o BC fez certo ao cortar os juros na época. Ele lembrou que a Europa estava à beira do colapso e diminuir o custo do dinheiro era a melhor saída. No entanto, ele ponderou que o Banco Central errou ao demorar tempo demais para reagir e voltar a aumentar a Selic.

— O BC fez o correto porque em 2012 vivíamos num mundo em que todos os manuais foram rasgados e o experimentalismo reinava na política monetária — ressaltou Perfeito, antes de admitir:

— Mas o Banco Central errou ao deixar a taxa muito baixa por muito tempo.

INFLAÇÃO NO TETO DA META
A Selic foi mantida no piso histórico até abril do ano passado, quando o processo de elevação dos juros foi retomado, com alta em todas as reuniões do Copom. Atualmente, a taxa está em 11% ao ano. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), usado oficialmente no sistema de metas inflação, acumula alta de 6,37% nos últimos 12 meses.

O objetivo do Banco Central é fazer com que essa inflação fique em 4,5%, com uma uma margem de tolerância de dois pontos percentuais. É nesse limite de manobra que está estacionada a inflação desde 2009. Os analistas mais pessimistas preveem que o IPCA, em 12 meses, estoure o teto da meta já neste mês.

Na quinta-feira, o BC atualizará suas projeções quando divulgar o relatório trimestral de inflação, o seu documento mais importante. No mais recente, o prognóstico não era nada bom: o IPCA não chegaria ao centro da meta nem no primeiro trimestre de 2016. Agora, o quadro pode estar um pouco melhor porque os juros estão mais altos que em março e o dólar está mais fraco.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:

É preciso cuidado com este tipo de análise. Juro baixo não é nem nunca foi sinônimo de inflação alta. O modelo econômico adotado no Brasil ainda carece de reformas micro para afastar de vez o fantasma da inflação e, deste modo, permitir que os juros sejam reduzidos gradualmente.

Em primeiro lugar, o governo, sem observar as reformas necessárias, tentou baixar os juros no grito. Não criou o ambiente propício para convivermos com inflação e juros baixos. Há muita indexação na economia, a começar pelo próprio salário mínimo, cuja lei de reajuste foi criada no governo Lula em acordo com as centrais sindicais. 

Também o governo Dilma tem lá sua parcela de culpa por poupar pouco, gastar muito além do que arrecada, além de incentivar e manter aquecido o mercado de consumo num tempo de oferta reduzida.  Se isto não bastasse, jamais os governos petistas deram atenção à uma política industrial que favorecesse não apenas novos investimentos produtivos, mas que também ampliasse a produtividade no chão da fábrica - um dos muitos gargalos -, além de desonerar a produção em toda a sua escala. Apenas alguns setores, mesmo que de forma tímida, tiveram desonerações pontuais, o que se mostrou insuficiente para reativar a toda a indústria.

 E a última derrapada do governo atual foi ter represado as tarifas públicas como transporte, combustíveis e energia elétrica, gerando uma expectativa de inflação, o que faz com que os preços sejam majorados justamente tendo em mente esta expectativa.  

No fundo, o governo Dilma fez uma aposta em baixar os juros abruptamente e sem que tivesse criado as condições sustentáveis para que eles se mantivesse em níveis baixos. Apostou e perdeu. E o que é pior: joga uma bomba relógio no colo do futuro presidente, seja ele quem for, que será difícil de desarmar além de desarranjar tanto o próprio equilíbrio fiscal do poder público, como  saúde financeiras das empresas, principalmente as estatais como Eletrobrás e Petrobrás.