terça-feira, julho 01, 2014

Choro, descontrole e briga mostram tensão da seleção

 Aydano André Motta (*)
O Globo

Vários jogadores deram sinais de que enfrentam, além dos adversários, o nervosismo de carregar os sonhos de todo um país obcecado por futebol

Alexandre Cassiano / Agência O Globo 
O técnico Luiz Felipe Scolari dá instruções ao time, ao lado de Neymar, 
o craque que converteu o pênalti diante do Chile, nas oitavas de final 

BELO HORIZONTE — A obsessão de todo um país pela conquista da Copa em casa contaminou os encarregados da missão em campo. O funil da competição se aperta, as partidas ganham em drama, a pressão se acentua — e a seleção brasileira parece à beira de um ataque de nervos. As circunstâncias do jogo contra o Chile, decidido na tortura dos pênaltis, evidenciaram uma tensão imensa dos jogadores — tão grande que se transformou numa agenda para a comissão técnica tourear, a caminho das quartas de final.

Vários jogadores deram sinais de que enfrentam, além dos adversários, o nervosismo de carregar os sonhos de todo um país obcecado por futebol. Dele, nascem cenas inéditas na história brasileira das Copas.

A principal envolve o capitão do time. No momento em que as duas equipes se preparavam para os pênaltis, o zagueiro Thiago Silva — o responsável por levantar a taça, se ela vier — simplesmente virou as costas, fechando-se numa oração, sentado na bola ao lado do campo. Antes, procurou voluntariamente o técnico Luiz Felipe Scolari para se escalar como último a bater, num improvável desempate no 11º jogador.

— Pedi para não bater por uma razão simples: dos últimos três pênaltis que cobrei pelo meu clube, perdi dois — defendeu-se o ex-tricolor. — E se tiver uma nova decisão por pênaltis, acho que os escolhidos deverão ser os mesmos.

A seleção pode ter adotado a emoção como estratégia — e ela só será bem-sucedida se terminar no hexa. Nisso, o capitão que assistiu aos pênaltis tem mais a dizer:

— Neste jogo eu estava mais tranquilo. No primeiro, eu só faltava desmaiar em campo por causa da pressão. Parecia que eu tinha esquecido como jogar futebol. Estou procurando ouvir música, falar pouco de futebol, tentando descansar a cabeça.

Um mar de lágrimas
A “pilha” está pegando em mais gente — aí incluída a estrela da companhia. Neymar confessou, após a partida contra o Chile, que, quando caminhou para bater seu pênalti, o gol parecia se afastar.

— Pareceu uma eternidade, como se eu tivesse caminhado três quilômetros até a bola — comentou o camisa 10, que encarou a pressão e converteu seu pênalti, o último batido pelo Brasil.

Outro jogador a sucumbir diante da pressão das penalidades foi Willian. O meia do Chelsea, candidato a titular, cobrou o segundo pênalti e, apesar de deslocar o goleiro Bravo, acabou jogando a bola para fora. Em seguida, desabou no gramado do Mineirão, num choro desesperado.

O próprio goleiro Júlio César, herói da classificação, assustou o país inteiro ao ser flagrado pelas câmeras em lágrimas, antes da disputa de pênaltis. O sensível camisa 12, na verdade, lembrou-se do que passou desde a falha contra a Holanda, no jogo da eliminação na Copa da África do Sul, quatro anos atrás.

— Sou muito emotivo, e só Deus e minha família sabem o que passei — confessou o goleiro, que, segundo Thiago Silva, prometeu pegar “dois ou três pênaltis”, na roda dos jogadores, antes do desempate.

Depois da classificação, o goleiro permitiu-se um comentário sobre a Copa caseira — algo que parece estar se tornando um adversário para os brasileiros:

— É complicado falar, mas representar nosso país jogando em casa é uma pressão muito forte — constatou, em entrevista à TV Globo, pouco antes de cair em lágrimas (de novo) diante das câmeras.

O clima de tensão transcendeu as fronteiras do gramado para chegar à comissão técnica. No intervalo da partida, o técnico Luiz Felipe Scolari, o preparador físico Paulo Paixão e o assessor de imprensa Rodrigo Paiva envolveram-se numa briga com auxiliares do técnico chileno, Jorge Sampaoli.

O próprio Felipão experimentou discurso inédito em sua carreira de motivador, ao lembrar que “com vitória ou derrota a vida segue”. Pode ser. Mas com tranquilidade é muito melhor.

Calma, Brasil! 

(*) Colaborou Carlos Eduardo Mansur

Qual carta?

Denis Lerrer Rosenfield  
O Estado de S.Paulo

O candidato Lula, em sua primeira disputa vitoriosa para a Presidência da República, procurou distanciar-se das posições mais à esquerda de seu partido, divulgando uma Carta ao Povo Brasileiro, que balizou as posições que viria a tomar se eleito. Sabia que se mantivesse a doutrina tradicional petista, anticapitalista e socializante, certamente perderia novamente a eleição. Do ponto de vista do espectro político, aproximou-se do centro, capturando a simpatia de empresários e de uma classe média até então refratária ao PT. O movimento foi inteligente e o seu resultado foi o sucesso.

Acontece, porém, que o PT não tornou a Carta ao Povo Brasileiro um documento partidário, o que o teria obrigado a uma revisão doutrinária, optando pela social-democracia e distanciando-se de posições revolucionárias. Em vez de uma revisão doutrinária necessária, a escolha recaiu na inércia, na omissão e, na verdade, na esquizofrenia.

A esquizofrenia teve todo o caminho aberto para se desenvolver. O governo petista de Lula, sobretudo em seu primeiro mandato, fez uma escolha, de fato, pela social-democracia, com matizes liberais. O nome social-democracia permaneceu, porém, no nível partidário, um nome feio por designar o seu principal adversário. Entretanto, a prática de governar pouco tinha que ver com a doutrina partidária. Poderíamos até dizer que com Antônio Palocci no Ministério da Fazenda e Henrique Meirelles no Banco Central a política macroeconômica era "neoliberal".

O PT perdeu substância do ponto de vista doutrinário, porém ganhou poder implantando-se fortemente no aparelho de Estado. Passou a ser uma máquina eficiente na conquista eleitoral, aproveitando-se da política social de seu governo, de corte social-democrata, personificada no Bolsa Família, na política de aumento do salário mínimo e em outras formas distributivistas. A prática era uma e a teoria, outra.

O governo de Dilma Rousseff seguiu essa mesma política social-democrata, com as tinturas de um maior intervencionismo estatal na área econômica, já presentes no segundo mandato de Lula. Diria mesmo que se distinguiu do seu antecessor por uma política social muito mais responsável, ao procurar a resolução e o equacionamento de conflitos sociais, em vez de potencializá-los.

Isso é particularmente visível em sua relação com o agronegócio, tornado um parceiro na condução dos assuntos do País. A CNA, presidida pela senadora Kátia Abreu, estabeleceu um diálogo com a Presidência, extremamente profícuo para o Brasil. A insegurança jurídica no campo teve substancial redução.

A reforma agrária, por sua vez, sofreu uma mudança de foco, passando a centrar-se na qualificação dos assentamentos, de modo a estes não se tornarem favelas rurais. A ênfase foi posta na formação técnica, na produtividade, de forma que os assentados possam tornar-se agricultores familiares voltados para uma economia de mercado. A transformação foi importante.

Outro ponto que merece destaque foi sua política em relação aos meios de comunicação, não aceitando, por princípio, nenhuma forma de controle da mídia, numa defesa resoluta da liberdade de imprensa. Sua é a expressão de que o único controle que admitia era o controle remoto dos aparelhos de televisão. Até engavetou um projeto deixado por seu antecessor de "controle social dos meios de comunicação" ou de "democratização dos meios de comunicação", conforme se queira dizer, para melhor encobrir formas propostas de censura.

Nesses dois pontos, o seu distanciamento das formulações doutrinárias do PT só se acentuou. A eleição, contudo, está levando a uma aproximação com posições partidárias que contradizem a própria prática petista de governar nestes últimos anos. Em vez de retomar e aprofundar uma Carta ao Povo Brasileiro, que deveria ser um documento partidário, a presidente e o PT estão, em sua estratégia política, formulando praticamente uma "Carta aos Petistas". A presidente afasta-se de sua própria prática de governo e o PT retoma as suas posições doutrinárias tradicionais. A esquizofrenia ganha novos contornos.

Explico-me. Há um texto implícito na atual estratégia que merece a denominação "Carta aos Petistas". Ela está voltada principalmente para o seu público interno. Em contradição explícita com a política do governo Dilma até aqui, ela se caracteriza, entre outros quesitos: 1) pela recuperação da política de "democratização dos meios de comunicação", com o objetivo de controle desses mesmos meios, que estariam fazendo o "papel das oposições", o jogo dos "conservadores"; 2) pela retomada da interlocução com os ditos "movimentos sociais", em particular o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), braço urbano do MST, agora voltado contra a "especulação imobiliária"; 3) pela aposta na fratura social e política por meio do discurso, que havia sido enfraquecido, dos "ricos" contra os "pobres", num jogo canhestro de reafirmação da "luta de classes"; e 4) pela racialização da política, tornando o xingamento num estádio a manifestação de uma "elite branca".

É como se o partido e a presidente estivessem voltando a sua atenção não para o eleitor em geral, mas para os simpatizantes e militantes petistas. É um discurso "intramuros", procurando recolher o rebanho perdido. Convém ressaltar que a Carta ao Povo Brasileiro era "extramuros". Trata-se, atualmente, de uma política de resistência, própria de um partido acuado, e não de um governo que completa 12 anos. Na experiência petista do Rio Grande do Sul aparecia que, quando o discurso eleitoral era dirigido para dentro do partido, este perdia a eleição. Quando se voltava para fora, as suas chances de sucesso eram grandes.

A atual estratégia eleitoral petista mais parece a de um partido que se prepara para ser oposição do que de um governo que deveria apresentar os resultados de seus três mandatos de exercício do poder.

Qual é a carta que vale?

Campanha na cadeia

José Casado
O Globo

Por trás das grades, os mensaleiros Dirceu,Valdemar e Jefferson mobilizam partidos e negociam alianças para ampliar seus espaços de poder em Brasília e nos estados

A partir desta semana, a monotonia entre corredores e celas será substituída por viagens diárias para trabalho em escritórios. São presidiários — “reeducandos” no vetusto linguajar de um dos juízes que os condenou por corrupção.

Têm mais de 40 anos no ativismo político. Foram liberados para serviços burocráticos à luz do dia, embora nunca tenham deixado de trabalhar na penumbra dos presídios: profissionais da política, tentam ampliar espaços de poder na eleição que acontece em 90 dias.

Mesmo com movimentos limitados à margem do frenesi da campanha, eles passaram os últimos seis meses empenhados em mostrar que não há muro de penitenciária capaz de impedi-los de participar do jogo eleitoral. À distância, José Dirceu (PT), Roberto Jefferson (PTB) e Valdemar Costa Neto (PR) entraram na disputa pelos governos federal e estaduais.

— Quem comanda é o Lula e os que estão presos — atestou Jorge Picciani, presidente do PMDB no Rio, ao explicar às repórteres Juliana Castro e Maiá Menezes a origem da aliança no estado de Dilma Rousseff e Lindbergh Faria (PT) com Anthony Garotinho (PR).

Ex-aliado de Lula e Dirceu, Picciani aprendeu a identificar as digitais de ambos na cena política fluminense. Testemunhou, por exemplo, como eles decapitaram sucessivamente as candidaturas dos petistas Vladimir Palmeira, Benedita da Silva e Alessandro Molon ao governo e à prefeitura da capital, em acordos com os ex-governadores Garotinho e Sérgio Cabral.

Desta vez, a ofensiva de Lula e Dirceu no Rio importunou tanto o PMDB de Picciani e Cabral quanto o PTB de Roberto Jefferson.

Dirceu, da prisão, destacou três escudeiros (Washington Quaquá, Marcelo Sereno e Alberto Cantalice) para avançar com o PT no interior, no rastro do ex-governador Garotinho. Lula, com Dilma, atuou para submeter o candidato do PRB, Marcelo Crivella, à liderança de Garotinho.

A reação veio na coligação do PMDB local com o PSDB de Aécio Neves e o DEM de Cesar Maia. Resultado: no Rio, Dilma deve ser excluída dos dez minutos de propaganda estadual do PMDB — manobra que pode acabar estendida a estados onde peemedebistas rejeitam o PT como aliado.

Foram a ambição e o fascínio pelo poder que levaram José Dirceu e Roberto Jefferson à luta e à cadeia. Em 2002 uniram-se em torno de Lula, e expuseram a política brasileira como um mercado, no qual a moeda de troca são cargos nos ministérios, empresas e fundos de pensão estatais — estratégicos pelo potencial de negócios, pela capacidade de privilegiar aliados e de atrapalhar adversários.

O personalismo derivou em embate pessoal, que continua. Do presídio Ary Franco, no Rio, Jefferson discretamente orientou seu PTB a migrar para a oposição. Com um toque de requinte, o partido programou o anúncio da aliança com Aécio para o dia da sagração da candidatura de Dilma à reeleição.

Da cela na Papuda, Valdemar Costa Neto exibiu-se como “o chefe” do PR na Esplanada dos Três Poderes. Mobilizou soldados e fez a presidente devolver o orçamento dos Transportes a um de seus mais fiéis pajens. Dilma cedeu. Levou em troca um minuto e quinze segundos extras de tempo para a sua propaganda em rede nacional. Em seguida, imolou-se em chamas de autopiedade: “A vida é muito mais complexa do que parece.”

Salvos pelo gongo

Dora Kramer
O Estado de São Paulo

Da campanha eleitoral do PSDB deste ano o que mais se ressaltou como grande trunfo do partido foi a unidade construída pelo candidato Aécio Neves.

Pacificadas as querelas internas, os tucanos estariam livres para empregar seu tempo e energia com os adversários externos. Pois na tarde de sexta-feira foram salvos pelo gongo de desmentir esta escrita que os faria voltar à velha guerra do "nós contra nós".

Isso graças à adesão do ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab ao candidato do PMDB, Paulo Skaf, de quem deve ser vice. Não que os tucanos estejam se engalfinhando como em eleições anteriores.

Continuam unidos no pensamento de que a reconquista do poder é fundamental para evitar o ostracismo, para não se falar no enfraquecimento na hipótese da dispersão fatal.

Mas, justamente em São Paulo, o maior e por isso mesmo mais delicado colégio eleitoral, são preocupantes as divergências que começam a aparecer em termos de ação.

Não foi bem visto (para dizer o menos) pelo resto do partido o movimento _ chamado de "golpe" _ do governador Geraldo Alckmin na composição de sua chapa para concorrer à reeleição no Estado.

Caso viesse a se concretizar a manobra, nela não sobraria espaço para o candidato do partido do governador à Presidência. A vice já está com o PSB de Eduardo Campos e Marina Silva e o Senado estaria com Kassab, cujo apoio no plano nacional é ao PT.

Tudo bem que o ex-prefeito de São Paulo, se concretizada a oferta, não pedisse votos em seu horário para a presidente. Mas tampouco o faria para o candidato do governador.

Seria um palanque eletrônico em tese bloqueado para Aécio. Isso a coordenação nacional da campanha considera inadmissível.

A decisão de Kassab preserva as aparências de unidade do PSDB e também as reais relações de lealdade entre o ex-prefeito e José Serra.

De imediato não há consequência do gesto de Alckmin. Mas o fato de ter agido sem consulta às instâncias cerimoniosas do partido deixa sequelas no quesito quebra de confiança.

Passo em falso. 
Cobra-se da oposição uma posição mais ofensiva. O senador e candidato do PSDB, Aécio Neves, sempre moderado e criticado por isso, assume agora tom bem mais agressivo.

Tem sido por isso, elogiado. Mas, francamente, errou na mão quando convidou os aliados da presidente Dilma a virarem a casaca depois de "sugarem mais um pouco" do governo.

No conteúdo, a ofensiva não faz bonito. A entonação do recado do tucano celebra o fisiologismo e não faz jus à herança do avô, cujo aprendizado aconselha a delicadeza do manejo da esgrima em detrimento da brutalidade do vale-tudo.

Falta combinar. 
Está evidente a intenção do governo de tentar capitalizar o sucesso da Copa depois de tantos prognósticos negativos. Perfeito. Depende, porém, de o distinto público aceitar como possível a condição de dublê de torcedor e eleitor. O governo por enquanto não se arriscou a fazer o teste da presença nos estádios.

Suado. 
Os partidos aliados ao governo não conseguiram aprovar alianças unânimes e os adesistas à oposição tampouco puderam evitar divisões em suas tropas.

Todos os partidos entram rachados na campanha. Com pés e mãos em variadas canoas. As convenções partidárias mostraram que não está fácil para ninguém.

Nossos comerciais. 
O tempo passa, o tempo voa e André Vargas, com o doleiro Alberto Youssef, continua deputado. Numa boa.

Morderam Dilma

Ricardo Noblat

Na última sexta-feira, em Salvador, ao participar da convenção que lançou o candidato do PT ao governo do Estado, Lula afirmou que a política vive um momento de descrédito e que é preciso moralizá-la.

E completou: “Aos olhos do povo parece uma coisa vergonhosa”. E não é? Ora, Lula e o PT, mas não somente eles, contribuem para que boa parcela dos brasileiros sinta nojo da política e dos políticos.

Um dia antes, em Brasília, a presidente Dilma Rousseff havia dado posse a Paulo Sérgio Passos, o novo ministro dos Transportes.

Foto: Roberto Stuckert Filho / PR

Ministro costuma ser empossado em uma das amplas salas do segundo andar do Palácio do Planalto. As cadeiras, ali, jamais são suficientes para o número pessoas interessadas em prestigiar o novo ministro.

Pois a cerimônia ocorreu numa sala menor do terceiro andar. Durou menos de 20 minutos. E foi quase clandestina. Políticos de peso não compareceram. O discurso de Dilma não passou de uma peça chocha e cínica.

Ela disse que a ocasião se prestava para uma “pequena reorganização do time que toca a infraestrutura e logística do governo”. E concluiu: “Estou realocando as melhores pessoas em funções diferentes”.

Referia-se à transferência de Paulo Sérgio, presidente da Empresa de Planejamento e Logística, para o lugar de César Borges, até então ministro dos Transportes.

Borges foi rebaixado à condição de ministro da Secretaria Especial dos Portos em substituição a Antônio Henrique Silveira, que doravante responderá pela secretaria-executiva do ministério de Borges. Por que esse troca troca?

A implacável faxineira ética do início do governo, a dura executiva que não perdoa falhas dos seus auxiliares, a mulher valente que se orgulha de manter distância dos políticos por considerá-los desprezíveis, enfim essa senhora antipática e refratária a salamaleques rendeu-se à pressão de uma agremiação inexpressiva chamada Partido da República (PR).

Piscou primeiro. E ofereceu o ombro para ser mordido. Arrancaram-lhe uma fatia de autoridade.

Preocupada em assegurar o apoio do PR à sua reeleição e, por tabela, pouco mais de um minuto de propaganda eleitoral na televisão e no rádio, Dilma demitiu do Ministério dos Transportes quem mais de uma vez apontara como um dos seus melhores ministros.

Borges é filiado ao PR – assim como Paulo Sérgio. Mas o PR se queixava de que Borges não atendia aos pedidos dos seus parlamentares.

A escolha de Paulo Sérgio desagradou ao PR, que o considera resistente à ideia de facilitar negócios inconfessáveis. Por isso, nenhum nome do partido foi visto na posse dele.

O anúncio oficial do apoio do PR a Dilma está marcado para esta segunda-feira. É improvável algum recuo. Salvo se o inquilino de uma das celas da Penitenciária da Papuda, em Brasília, acordar de mau humor.

Valdemar da Costa Neto é o nome dele. Envolvido com o mensalão do PT, acabou condenado por corrupção, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. É ele que manda no PR.

A República sabe disso. Como sabe que foi de uma cela do presídio Ary Franco, no Rio, a do ex-deputado Roberto Jefferson, condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, que partiu a ordem para o PTB abandonar Dilma e aderir à candidatura a presidente de Aécio Neves (PSDB).

A propósito: Fernandinho Beira-Mar não movimenta milhões de reais de dentro de cadeias de segurança máxima?

Por que tenebrosas transações políticas não podem aproximar da Praça dos Três Poderes outro gênero de bandidos?

Nas mãos de Deus

Celso Ming
O Estado de São Paulo

Embora reconheça que a inflação piorou, o Banco Central (BC) parece ter entregue tudo às mãos de Deus. O que tinha de ser feito foi feito. É o que pode ser deduzido do segundo Relatório de Inflação deste ano, ontem divulgado.

O BC já não conta com um recuo. Em março, projetara para todo o ano de 2014 uma inflação de 6,1%; agora admite que não ficará abaixo de 6,4%, a uma polegada do admissível. O risco de que a inflação transborde o teto da meta ao final deste ano saltou de 38% para 46%.

As projeções oficiais para 2015 também pioraram. Foram de 5,5% em março e passaram a 5,7%. Há razões para entender que o desrepresamento dos preços administrados pode provocar ainda mais estrago.

Se cumprisse à risca o regime de metas de inflação, o colegiado do BC teria de continuar a puxar os juros para cima. Desistiu de fazê-lo porque, no fundo, também faz a pergunta que o presidente Lula fez no dia 6, em Porto Alegre, quando apontou o indicador para o secretário do Tesouro, Arno Augustin: "Se a gente não tem inflação de demanda, por que está barrando o crédito?".

O avanço do PIB está abaixo do previsto e "o deslocamento do hiato do produto" faz o jogo anti-inflacionário. É um jargão dos economistas para expressar tanto o aumento da capacidade ociosa como o crescimento econômico abaixo do potencial da economia. Na prática, o BC olha para os altos estoques das montadoras e para a velocidade das máquinas do resto da indústria e conclui que, nessas condições, os empresários contam até dez antes de fazer remarcações.

No diagnóstico do BC há mais fatores a considerar. Fazem o jogo contra o controle da inflação. A situação de pleno-emprego aumenta os riscos de inflação, diz o Relatório. O BC pede mais "moderação salarial", ou seja, pede reajustes salariais mais baixos, que olhem mais para a inflação futura do que para a inflação passada. Embora não o diga explicitamente, pressupõe que um pouco mais de desemprego ajudaria a combater a inflação.

Outra afirmação grávida de consequências é a de que "há dois importantes processos de ajustes de preços relativos em curso na economia - realinhamento dos preços domésticos em relação aos internacionais e realinhamento dos preços administrados em relação aos livres". Se traduzisse esse código para algo mais compreensível, o BC estaria dizendo, em primeiro lugar, que o câmbio (cotação do dólar) cumpre uma função relevante na contenção da inflação, na medida em que preços mais baixos dos importados reduzem os reajustes dos preços internos. Há aí uma faca de dois gumes. Quando deixar que o dólar se ajuste para cima, em vez de derrubar, o BC estará concorrendo para aumentar a inflação.

Em segundo lugar, há o problema já conhecido dos preços administrados. Quando a panela de pressão das tarifas represadas de energia elétrica, dos combustíveis e dos transportes urbanos for destampada, os demais preços entrarão em ebulição.

São fatores que concorrerão para puxar para cima a inflação futura e, se isso for para o salário, como quer o BC, teremos mais inflação, e não menos.

A lição Bourbon

Alexandre Schwartsman
Folha de São Paulo

Há primeiro que entender como a Argentina se colocou nesta posição e se há consequências potencialmente graves para o Brasil

A Argentina voltou às manchetes, mas não pelo golaço de Messi contra o Irã, na única oportunidade em que não esteve marcado por 2 ou 3 adversários.

A Suprema Corte dos EUA reconheceu os direitos dos credores que não aceitaram os termos da reestruturação da dívida argentina (“holdouts”) de receberem integralmente o que lhes é devido. Em particular proíbe que se faça o pagamento dos demais credores antes dos “holdouts”, o que, na prática, pode jogar o país novamente na vala comum dos caloteiros.

Concretamente a Argentina não tem capacidade de pagar aos “holdouts”, pois poderia levar os demais credores a demandarem tratamento igual, o que implicaria um desembolso além daquele que suas condições fiscais e o nível das suas reservas permitem.

A decisão da Suprema Corte levanta questões delicadas sobre o funcionamento do mercado internacional de capitais. Em casos futuros de reestruturação, por exemplo, haverá, sem dúvida, um incentivo para que credores se tornem “holdouts”, na esperança de receberem o valor integral, ou, ao menos, valores maiores do que aqueles pagos aos que aceitem as novas condições.

Talvez nem mesmo as Cláusulas de Ação Coletiva, termos do contrato que tornam forçosa a anuência às novas condições caso uma maioria qualificada (tipicamente 75% ou 80% do valor da dívida) as aceitem, sejam suficientes para impedir o problema à luz de perspectivas de obter um resultado mais favorável junto às cortes.

Independentemente disto, porém, há primeiro que entender como a Argentina se colocou nesta posição e se há consequências potencialmente graves para o Brasil.

De fato, até há pouco o país era o preferido dos nossos “keynesianos de quermesse”, com seu modelo que privilegiava a administração da taxa de câmbio, devidamente apoiada pela política monetária que, para manter o câmbio depreciado, não podia ser utilizada para controlar a inflação.

O descaso com a inflação, porém, tem custos. Preços administrados foram “congelados”, desarticulando serviços públicos, assim como alguns preços da cesta básica. Subsídios para compensar este problema foram gradualmente erodindo as finanças públicas e o resultado primário do governo nacional, que havia chegado a 3-4% do PIB entre 2004 e 2008, minguou para um déficit em torno do 1% do PIB no ano passado.

Não bastasse isto, as estatísticas oficiais foram maquiladas: enquanto o índice de inflação calculado pelo governo insistia em taxas inferiores a 10% ao ano, estimativas de consultores privados sugeriam algo entre 25% e 30% ao ano, o que os levou a serem perseguidos pela máquina pública.

O resultado foi desconfiança generalizada, retração do setor privado, reforçadas pela atitude beligerante do governo, e, portanto, baixo crescimento e desorganização da economia.

A inflação elevada corroeu a suposta competitividade que deveria advir do câmbio depreciado e as contas externas voltaram ao vermelho. Somada à fuga de capitais, isto fez com que as reservas internacionais caíssem de US$ 52 bilhões em meados de 2011 para US$ 29 bilhões agora, insuficientes para fazer frente aos compromissos resultantes da decisão da Suprema Corte.

É uma tragédia anunciada. Por mais que nossos “keynesianos de quermesse” tentem agora se distanciar da experiência platina, a verdade é que cada desenvolvimento negativo no período foi decorrência lógica do modelo de política econômica adotado há dez anos e celebrado então como a revolução que haveria de catapultar o país ao crescimento acelerado.

Isto dito, se alguém identifica ecos da política argentina na nossa manipulação da taxa de câmbio, descaso com a inflação, congelamento de preços administrados e piora das contas públicas, trata-se apenas de coincidência infeliz, resultado do pessimismo dos setores conservadores. Nada a aprender, portanto, com erros alheios…

Melhor nos concentrarmos no futebol mágico de Lionel Messi.


Horizonte da indústria

Míriam Leitão e Alvaro Gribel 
O Globo

A indústria parece não encontrar o chão. Esta semana as projeções do mercado, na pesquisa feita pelo Banco Central, foram reduzidas fortemente e entraram no terreno negativo. Há um problema estrutural na indústria no mundo inteiro que a faz ter um percentual menor do PIB de todos os países, mas há uma questão específica no Brasil que é a soma de incertezas que tira o horizonte do setor.

Os economistas consultados pelo Banco Central revisaram de 0,51% para -0,14% a projeção industrial deste ano. Normalmente, as quedas são lentas, esta mudança foi forte demais; de 0,65 ponto percentual em apenas uma semana No início do ano passado, o mercado ainda acreditava que fosse possível fechar 2014 com um crescimento no setor de 3%. Em janeiro deste ano, a projeção já havia caído para 2,2%, mas continuava positiva. Ontem, foi para o negativo, tornando ainda mais difícil o panorama industrial. São projeções e, por isso, podem mudar, mas há poucas razões para uma inversão positiva dessa curva.

Na última semana, a crise cambial argentina ficou pior com a decisão da Suprema Corte dos EUA, e os argentinos são compradores de manufaturados brasileiros. O calote de 2001 ainda gera consequências para o país, que está com baixas reservas cambiais ao mesmo tempo em que vê aumentar a conta que ainda precisará ser paga aos credores. Seu volume de reservas vai emagrecer mais ainda. O cenário provável é mais restrições de importações. O Brasil e sua indústria vão sofrer com a Argentina jogando toda na retranca.

Quando se olha para o país, a perspectiva também não é boa. O varejo vinha sustentando um ritmo forte de crescimento, e, embora a concorrência com o produto importado sempre tenha sido uma grande reclamação da nossa indústria, havia demanda por produtos brasileiros. O problema é que o comércio também está perdendo fôlego. A Fecomercio de São Paulo divulgou que o índice de confiança dos consumidores na capital caiu em maio para o menor nível já registrado:

“O atual cenário socioeconômico, com baixo crescimento, aliado à persistente alta da inflação foram os principais motivos que resultaram no pior nível histórico do Índice de Intenção de Consumo das Famílias na cidade de São Paulo, chegando ao patamar de 113,6 pontos (em maio).”

De janeiro a abril, o emprego industrial caiu 2% em relação a 2013. O número está negativo em 11 dos 14 locais pesquisados e em 14 de 18 setores. São Paulo, centro industrial do país, teve queda de 3,1% no emprego da indústria. No Rio Grande do Sul, retração de 4%. A indústria de máquinas e aparelhos eletroeletrônicos fechou 6,3% dos postos de trabalho; máquinas e equipamentos, -4,7%; e até refino de petróleo e produção de álcool eliminou 7,9% das vagas. A política de venda de carros dos últimos anos não está segurando empregos nesse setor industrial. Em maio, o Caged já apontou fechamento de 28 mil vagas na indústria de transformação.

Os números frios não combinam com o clima de Copa, com a animação que se vê das torcidas vitoriosas nos bares das cidades onde os jogos aprisionam a atenção. O que os especialistas dizem é que a animação de torcidas não muda um quadro que já vinha minguando. Os muitos feriados pioram ainda mais a atividade industrial nestas semanas do evento.

A disputa é curta e a cada etapa há menos times em campo. O que há de explicação mais permanente é mesmo a falta de expectativa para a indústria. Os empresários têm medo da excessiva intervenção no câmbio, que tira espaço dos exportadores. Quem vende apenas para o mercado interno teme o efeito da inflação na renda. Investidores temem fazer plano sem saber algumas variáveis de custo importantes, como o preço dos combustíveis e da energia no ano que vem. Os preços represados viraram mais um fator de incerteza. Esse é o pior ambiente para quem quer investir.

Como vai a economia após 20 anos de estabilização?

Fernando Ferrari Filho (*)  e Octavio A. C. Conceição (**)
Valor

O desempenho do PIB tem sido ainda mais pífio e volátil desde a crise do subprime e a grande recessão



Em 2014, mais especificamente em julho, comemoram-se os 20 anos do Plano Real, o mais bem sucedido plano de estabilização monetária. Ao longo desse período, a inflação média, até março de 2014, foi da ordem de 7,4% ao ano. Se o resultado inflacionário merece comemorações, principalmente quando antes do plano a inflação mensal era da ordem de 85%, o mesmo não se pode dizer em relação ao crescimento da atividade econômica: entre 1994 e 2013, a taxa média do PIB foi da ordem de 3% ao ano e sua performance caracterizou-se à la "stop and go".

Diga-se de passagem que o desempenho do PIB tem sido ainda mais pífio e volátil desde a crise do "subprime" e a grande recessão, a despeito das políticas macroeconômicas contracíclicas implementadas pelas autoridades econômicas para evitar um efeito-contágio de maior impacto sobre a economia brasileira.
Por que o desempenho da atividade econômica brasileira tem sido risível, principalmente quando comparado à de outros países emergentes, e não se sustenta? As políticas econômicas implementadas desde o Plano Real - ou mais especificamente, desde 1999, quando foi adotado o tripé metas de inflação, metas de superávits fiscais e câmbio flexível - são insuficientes para assegurar crescimento econômico dinâmico e consistente? Em nosso ponto de vista, tendo como referência as teorias institucionalista e keynesiana, conclui-se que as políticas econômicas implementadas desde a segunda metade dos anos 1990 não se constituem em um sólido pilar para sustentar o crescimento do PIB. Assim sendo, o que é necessário para que a economia brasileira possa crescer de forma sustentável em um contexto de inflação controlada, equilíbrios fiscal e externo e inclusão social?

Pela abordagem institucionalista de Thorstein Veblen e John Commons, o processo de crescimento econômico consiste da articulação entre os planos macroeconômico e microeconômico de forma a possibilitar, por meio de convenções ou estratégias, os princípios de decisões dos agentes econômicos que se originam do conjunto de regras, de hábitos e do comportamento humano.

Por sua vez, pela teoria keynesiana, flutuações de demanda efetiva e no nível de emprego, inerentes às economias monetárias, ocorrem porque, em um mundo no qual há incerteza radical e, portanto, o futuro é desconhecido, os indivíduos preferem reter moeda e, por conseguinte, suas decisões de gastos, seja de consumo, seja de investimento, são postergadas. Nesse contexto, Keynes propõe a adoção de políticas monetária e fiscal contracíclicas e a intervenção do Estado, não necessariamente como gastador, mas, sim, enquanto planejador, regulador e financiador da atividade produtiva, como soluções para as crises de demanda efetiva.

Pois bem, tendo como base as referidas teorias e entendendo que, por um lado, as mudanças "institucionais" observadas com o Plano Real não foram literalmente "embedded" pelos agentes econômicos e, por outro, a política macroeconômica implementada ao longo deste período não somente limita as autonomias das políticas monetária e fiscal, mas são operacionalizadas pragmaticamente, logo se pode conjecturar que nos últimos 20 anos não foi criado um "ambiente institucional" para despertar o "animal spirits" dos empreendedores e, portanto, dos investimentos produtivos, condição sine qua non para a expansão consistente da atividade econômica. Diante deste quadro, o que fazer para crescermos sustentavelmente?

Em termos macroeconômicos, é fundamental o aumento da relação formação bruta de capital/PIB dos atuais 19% para 25%. Para tanto, as autoridades econômicas devem:

1 - buscar a responsabilidade fiscal, entendida não como um fim em si mesmo, mas seguindo o critério de administrar a política fiscal de forma contracíclica: em períodos de crise e recessão, política fiscal expansionista, ao passo que em épocas de prosperidade e de crescimento econômico acima da capacidade produtiva ela deve ser, respectivamente, neutra e contracionista.

2 - Orientar a política monetária pelas metas de crescimento e emprego e não somente pelos targets de inflação.

3 - Administrar a taxa de câmbio de maneira a lograr a manutenção de taxa de câmbio real efetiva competitiva, objetivando, assim, que quaisquer ações especulativas no mercado de divisas estrangeiras possam ser coibidas. Ademais, para que o regime de câmbio administrado seja eficiente é necessária a adoção de controle de capitais, seja para mitigar os efeitos perversos do influxo de capitais de curto, seja para que o Banco Central tenha autonomia de política monetária.

Paralelamente, são fundamentais regras e reformas institucionais, tais como:

1 - reforma tributária que tenha como objetivos uma maior incidência da tributação sobre a renda e a riqueza, visando, assim, um caráter de maior progressividade, e a redução do custo Brasil.

2 - marcos regulatórios transparentes, eficientes e ágeis para dinamizar as parcerias público-privadas e melhorar a infraestrutura.

3 - política industrial que tenha como objetivos dinamizar o investimento em P&D e os incentivos fiscais e creditícios para as grandes cadeias industriais, entre outros.

4 - políticas de renda para regular os salários e os preços, em conformidade com os ganhos de produtividade da economia e a dinâmica concorrencial dos mercados.

Em suma, entendemos que as medidas elencadas preenchem a lacuna deixada pela estabilização monetária do Plano Real, qual seja, os crescimento e desenvolvimento sustentáveis.

(*) Fernando Ferrari Filho é professor titular da UFRGS e pesquisador do CNPq)
(**) Octavio Augusto Camargo Conceição é professor adjunto da UFRGS

Sete aspectos da vida no Brasil que mudaram com o Real

Ruth Costas (*)
BBC Brasil 

Após cinco planos fracassados, Real entrou em circulação no dia 1º de julho de 1994


Houve um tempo em que os brasileiros recebiam seus salários e corriam para fazer a compra do mês, porque no dia seguinte os preços poderiam estar mais altos.

Nos supermercados, era comum ver os clientes se apressando para pegar as mercadorias antes que os temidos remarcadores passassem mudando as etiquetas.

Despensas e freezers eram itens essenciais para muitas famílias e se uma alta da gasolina era anunciada, em minutos os postos de combustível se tornavam o ponto final de uma peregrinação de carros a perder de vista.

Há exatos 20 anos, o real colocou um ponto final nessa luta diária dos brasileiros para garantir o poder de compra do seu dinheiro.

Lançado em 1º de julho de 1994, a atual moeda brasileira marcou o fim de um longo período em que o país teve de conviver, primeiro, com o descontrole de preços. Foram três décadas de inflação alta, que culminaram em taxas anuais de mais de 2.000% na primeira metade dos anos 90.

Segundo, com uma sucessão de planos econômicos, mudanças de moeda e medidas anti-inflacionárias hoje inimagináveis, como o confisco do Plano Collor.

Em uma tentativa de colocar essa trajetória em perspectiva, a BBC Brasil fez, com a ajuda de economistas, um levantamento dos sete aspectos da vida dos brasileiros que mudaram com o real e a estabilização da economia.

A lista inclui desde mudanças no dia a dia das famílias até aquelas que contribuíram para transformar o quadro econômico e social do país.

Confira aqui o resultado:


Fim da compra para estoque

Com a redução da inflação, 
o brasileiro trocou as compras mensais por semanais

Em seu auge, nos anos 90, a inflação chegou a 80% ao mês. Ou seja, em trinta dias, o poder de compra dos salários caía quase pela metade.

Isso explica por que muitos brasileiros corriam para os supermercados ao receber seu pagamento. Era como se todo início do mês fosse véspera de Natal, com filas intermináveis e carrinhos abarrotados.

"Para os supermercados, era um desafio logístico: imagine só ter de fazer a maior parte das vendas do mês em um ou dois dias", diz Clemens Nunes, professor de economia da FGV.

"Cheguei a ouvir de um fazendeiro de São Carlos que seus funcionários lhe pediam que os pagasse em dias aleatórios e sem aviso prévio, porque se o comércio local ficasse sabendo quando recebiam, subia os preços na véspera", lembra o economista Edmar Bacha, um dos arquitetos do Plano Real.

Com a estabilidade da moeda, as famílias brasileiras puderam parar de estocar alimentos e as compras semanais se tornaram mais comuns.

Despensas e freezers deixaram de ser essenciais – e muitos brasileiros se livraram dos últimos na crise energética de 2001 e 2002, quando o governo estabeleceu punições para quem não economizasse energia.


Possibilidade de planejar o futuro


Para as empresas, era difícil planejar investimentos de médio e longo prazo

No final dos anos 80 e início dos 90, se já era difícil prever os preços da semana seguinte, quem dirá do mês ou ano seguintes.

Por isso, as famílias não tinham muito como fazer planos, fosse para uma viagem de estudos ou a compra de um imóvel.

Planejar férias em família era um exercício de futurologia: Quanto custará um almoço? Quanto será a passagem de ônibus?

Também havia pouco estímulo para poupar. Temia-se que o valor poupado fosse corroído pela inflação ou que as regras para as correções das aplicações bancárias fossem mudadas.

Com a estabilidade, os brasileiros ampliaram sua capacidade de planejar o futuro.

"Em parte esse costume brasileiro de deixar tudo para a última hora também pode ser considerado um legado desses anos de inflação alta", diz Rubens Ricúpero, ministro da Fazenda na implantação do real.


Fim das visitas frequentes aos bancos
Pode-se argumentar que nos anos 80 e início dos 90 não havia internet banking como hoje, mas o fato é que muitos brasileiros gastavam um tempo enorme administrando suas aplicações bancárias.

Havia quem ligasse ou passasse no banco todos os dias para garantir que o dinheiro não ficaria parado – o que significava perder valor rapidamente.

O fim dessa necessidade foi mais uma mudança apressada pela estabilidade.

Nas aplicações, a preferência era pelo curto prazo, como o overnight, que corrigia diariamente o valor investido.

Depois das quatro da tarde, muita gente só pagava suas compras com cheque, porque o desconto seria feito no dia seguinte, o que lhes permitia ganhar com essa aplicação.

"Trabalhadores e empresários tinham de gastar muito tempo pensando em como proteger seu dinheiro", diz Marcelo Moura, professor de economia do Insper.

"E esse é um tempo que hoje pode ser usado, por exemplo, para se desenvolver estratégias para aumentar a eficiência das empresas."


Redução da pobreza
A inflação tende a ser concentradora de renda por uma questão simples.

Em meio a alta de preços, os ricos e a classe média protegem seu dinheiro com aplicações financeiras.

"O overnight, por exemplo, chegou a render 1% ao dia", lembra Marcelo Moura, do Insper.

Outra alternativa era comprar imóveis ou enviar dinheiro para o exterior.

"Já a população pobre e desbancarizada não tem muita saída e acaba tendo seu poder de compra bastante prejudicado", diz Moura.

Ele explica que é por isso que o fim da inflação alta e consolidação do real são vistos como um dos motores do processo de redução da pobreza que o Brasil assistiu nos últimos anos, juntamente com os aumentos reais do salário mínimo e a expansão dos programas sociais.


Intolerância a 'pacotes-surpresa'
Na década que antecedeu o lançamento do real, foram implementados cinco planos econômicos no Brasil. Em cada um deles, os brasileiros tiveram de se ajustar a regras anunciadas de surpresas – e às suas consequências.

O congelamento de preços do governo Sarney, por exemplo, teve como efeito colateral um grave problema de desabastecimento, que levou o governo a colocar a Polícia Federal para confiscar boi no pasto.

O Plano Collor congelou 80% de todos os depósitos do overnight, contas correntes e cadernetas de poupança por 18 meses. "Foi o ápice da loucura econômica", diz Moura.

"Algumas famílias que estavam comprando uma casa não puderam concluir a transação porque o dinheiro ficou retido. Há notícias até de suicídios ligados a esse plano", diz Ione Amorim, do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

Nesse contexto, o Plano Real inaugurou uma era em que surpresas são vistas como indesejáveis.

"As medidas do plano foram anunciadas muito antes de serem aplicadas e isso evitou choques e distorções, criando um precedente para a gestão da política econômica desde então", diz Moura.

Crescimento do crédito


Estabilização permitiu expansão do crédito e boom imobiliário

A expansão do crédito dos últimos anos - que permitiu a muitos brasileiros comprar pela primeira vez TV, geladeira, carro ou casa - também foi possível em parte graças à estabilização e controle da inflação pós-real.

Nos anos de alta de preços de dois, três ou quatro dígitos, o crédito era muito mais caro e escasso.

Os bancos tomavam recursos a prazos curtos e também preferiam emprestar a prazos curtos, como lembra Persio Arida, um dos "pais" do real e sócio do banco BTG Pactual.

"Simplesmente não havia crédito para comprar casa ou carro", diz Arida.

"E mesmo se você conseguisse um empréstimo, não havia como garantir que seu salário acompanharia o valor das prestações, constantemente reajustado", diz Clemens Nunes, da FGV.

"Até o cartão de crédito só era usado como último recurso, já que chegava a cobrar juros mensais de 30% ou 40% ao mês."


Facilitação de investimentos
No Brasil dos anos 80 e 90, a escalada dos preços obrigava as empresas a gastar muito tempo com a gestão de seu caixa.

"Elas dedicavam mais energia para decidir onde aplicar seu dinheiro do que pensando em estratégias para aumentar a eficiência e produtividade de seus negócios", diz Nunes, da FGV.

Investir na economia real era ainda mais complicado do que hoje. Era impossível prever, por exemplo, quanto os clientes potenciais de uma empresa poderiam gastar ou qual seria o preço dos insumos.

"Você não conseguia calcular a taxa de retorno [do investimento]", diz o economista Persio Arida.

Não é de se estranhar que investidores estrangeiros também fugissem dessas incertezas.

"Havia um ceticismo grande com o Brasil no exterior e a moeda estável ajudou a mudar isso", diz o ex-diretor do Banco Mundial Carlos Braga, professor da escola de negócios IMD, na Suíça.

"Mas outras reformas também foram importantes para chegarmos ao patamar de credibilidade atual, como a lei de responsabilidade fiscal."

(*) Colaborou Katy Watson

Brasil precisa corrigir rumo para manter nota de crédito, diz Moody’s

O Estado de São Paulo
Com informações Agência Reuters

Agência aponta ‘declínio dos gastos com investimento, desaceleração do consumo e deterioração da confiança do investidor’

NOVA YORK - A agência de classificação de risco Moody’s alertou nesta quarta-feira que a perspectiva do rating do Brasil, depende do sucesso ou fracasso dos esforços do próximo governo em reverter as tendências econômicas negativas e elevar o crescimento para próximo do potencial. O alerta da agência vem menos de quatro meses antes das eleições presidenciais de outubro, quando a presidente Dilma Rousseff disputará um novo mandato em uma eleição cada vez mais acirrada. Embora Dilma ainda seja a favorita, pesquisas mostram que sua popularidade entre os eleitores tem caído.

O Brasil é atualmente classificado pela Moody's como “Baa2” com perspectiva estável, o que significa que não é provável que seja rebaixado nos próximos 18 meses. Mas a agência sugeriu que a perspectiva poderia ser revisada negativamente se o país continuar enfrentando “declínio dos gastos com investimento, desaceleração do consumo e deterioração da confiança do investidor”.

“A agência considera que as perspectivas de crescimento do Brasil estão presas em um ciclo vicioso, com as expectativas ruins dos consumidores e investidores levando a menos investimento e crescimento econômico, o que, por sua vez, alimenta um sentimento negativo adicional”, disse a Moody’s em comunicado.

Questões semelhantes já levaram a Standard & Poor’s a rebaixar o rating do Brasil ao nível mais baixo do grau de investimento em março.Desde então, as perspectivas do Brasil continuaram a se deteriorar. Nesta semana, a pesquisa Focus do Banco Central mostrou que economistas reduziram suas projeções de crescimento econômico do país em 2014 pela quarta semana consecutiva, a apenas 1,16%.

Para a Moody's, o próximo governo terá o desafio de elaborar uma agenda de política econômica que incorpore mudanças significativas para lidar com as preocupações de investidores.

BIS vê risco em 3 anos de crise bancária no Brasil

Fernando Nakagawa 
 O Estado de S.Paulo

Banco central dos bancos centrais alerta País, e a China também, de que boom de empréstimos e custo de dívidas pode causar graves tensões

LONDRES - O crescimento bem acima da média histórica do crédito e o aumento da exposição ao serviço da dívida são os principais pontos vulneráveis do sistema bancário no Brasil. O alerta foi feito pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês). Em relatório anual divulgado ontem, a entidade diz que o boom de empréstimos visto em mercados como o brasileiro e o chinês geralmente indicam "a materialização de graves tensões bancárias em prazo de três anos".

O BIS avaliou quatro critérios relacionados ao risco de uma crise bancária em 20 países e 3 regiões: crescimento do crédito, preço de imóveis, comprometimento da renda e exposição dos tomadores de crédito à alta dos juros.

Nessa avaliação, o Brasil recebeu dois alertas. O primeiro é sobre a relação entre o crédito e o tamanho da economia que está bem acima da média histórica. O indicador está 13,7 pontos porcentuais acima da média. "O registro histórico mostra que a diferença da relação crédito/PIB superior a 10 pontos porcentuais (em relação à média histórica) pode indicar a materialização de graves tensões bancárias no prazo de três anos", diz o documento.

O segundo alerta para o Brasil foi sobre o custo da dívida dos tomadores de crédito. Para a instituição, um aumento do juro em 250 pontos-base geraria aumento no pagamento exigido dos clientes de 6,3 pontos porcentuais.

"Em termos nominais, os tomadores de crédito da China estão atualmente em situação de especial vulnerabilidade. Contudo, uma alta dos juros levaria ao terreno crítico os coeficientes de serviço da dívida em muitas outras economias", diz o documento do BIS. Na China, a mesma alta do juro elevaria o pagamento em 12,2 pontos aos clientes.

O BIS alerta que o descontrole sobre o pagamento de juros da dívida pode vir rapidamente, o que geraria um risco aos bancos.

"A experiência mostra que os coeficientes de serviço da dívida podem permanecer em nível baixo durante longos períodos e disparar um ou dois anos antes de uma crise, habitualmente em resposta ao aumento das taxas de juros", explica o documento. "Portanto, baixos coeficientes não garantem que o sistema financeiro esteja a salvo."

Emissões. 
O BIS também lançou um alerta para o setor não financeiro dos países emergentes. Após o aumento da presença dessas companhias no mercado de dívida internacional nos últimos anos, a instituição diz que as condições favoráveis de financiamento não são permanentes e podem mudar rapidamente, criando um problema para as empresas que precisariam se refinanciar e estão confiantes na emissão de dívida externa.

A normalização da política monetária nos países desenvolvidos, por exemplo, pode ser um gatilho para a mudança na oferta de crédito, diz a entidade em seu relatório.

Emissão de títulos faz Dívida Pública Federal subir R$ 70 bi

Exame.com
Wellton Máximo, Agência Brasil

Dados divulgados pela Secretaria do Tesouro Nacional mostram que a dívida fechou o mês passado em R$ 2,13 trilhões

Reprodução 
Tesouro Direto: dívida pública mobiliária interna
 subiu de R$ 1,96 trilhão para R$ 2,03 trilhões

Brasília - A emissão de títulos prefixados fez a Dívida Pública Federal (DPF) registrar forte alta em maio. De acordo com dados divulgados há pouco pela Secretaria do Tesouro Nacional, adívida fechou o mês passado em R$ 2,13 trilhões, com alta de R$ 70,3 bilhões (3,43%) em relação a abril.

A dívida pública mobiliária – em títulos públicos – interna subiu de R$ 1,96 trilhão para R$ 2,03 trilhões. Isso ocorreu porque, no mês passado, o Tesouro emitiu R$ 51,2 bilhões em títulos a mais do que resgatou e reconheceu R$ 18,8 bilhões em juros. O reconhecimento se dá porque a correção que o Tesouro se compromete a pagar aos investidores é incorporada gradualmente ao valor devido.

A dívida pública externa encerrou maio em R$ 93,22 bilhões, com leve alta de 0,35% em relação ao valor de abril, quando tinha atingido R$ 92,9 bilhões. Contribuiu para o aumento a valorização de 0,13% do dólar no mês passado.

O principal fator que fez a dívida pública subir em maio foi o elevado volume de emissão de títulos. Apenas em maio, R$ 59,25 bilhões foram emitidos. A maior parte, R$ 42,08 bilhões, correspondeu a títulos prefixados (com juros fixos definidos com antecedência).

A alta da DPF é típica do segundo mês de cada trimestre por causa das emissões de títulos prefixados, para substituir os papéis que venceram no mês anterior. Dessa forma, a Dívida Pública Federal costuma registrar queda no estoque em janeiro, maio, julho e outubro. No entanto, sobe nos meses seguintes.

Apesar da alta em maio, a DPF está abaixo das previsões do Tesouro. De acordo com o Plano Anual de Financiamento (PAF), divulgado no fim de janeiro, a tendência é que o estoque da Dívida Pública Federal encerre o ano entre R$ 2,17 trilhões e R$ 2,32 trilhões.

Por meio da dívida pública, o governo pega emprestado dos investidores recursos para honrar compromissos. Em troca, compromete-se a devolver os dinheiro com alguma correção, que pode ser definida com antecedência, no caso dos títulos prefixados, ou seguir a variação da taxa Selic, da inflação ou do câmbio.

Setor público tem déficit primário de R$ 11 bilhões em maio, o 2º maior da história

Laís Alegretti e Victor Martins
Agência Estado

Resultado de maio só não foi maior do que o de dezembro de 2008; déficit nominal, que inclui o pagamento de juros, somou R$ 32,4 bilhões

BRASÍLIA - Depois de o primário do governo central registrar o pior resultado para meses de maio, o setor público consolidado repetiu o feito e ainda registrou o segundo pior resultado da história, ao registrar um déficit de R$ 11,046 bilhões. O resultado só foi melhor que dezembro de 2008, quando o saldo foi negativo em mais de R$ 20 bilhões. Os dados foram divulgados há pouco pelo Banco Central.

Em meses de maio, nunca havia sido registrado um resultado negativo. O superávit mais baixo, de R$ 487,1 milhões, foi visto em maio de 2010. Em abril, o resultado foi positivo em R$ 16,896 bilhões. Em maio do ano passado, houve superávit de R$ 5,681 bilhões.

O resultado primário não inclui o pagamento de juros da dívida. O déficit primário consolidado de maio ficou perto do piso das estimativas dos analistas do mercado financeiro, que iam de um saldo negativo de R$ 11,7 bilhões a um déficit R$ 7,5 bilhões. 

O esforço fiscal de maio foi composto por um déficit de R$ 11,073 bilhão do Governo Central (Tesouro, Banco Central e INSS). Os governos regionais (Estados e municípios) contribuíram com saldo positivo de R$ 12 milhões no mês. Enquanto os Estados registraram um superávit de R$ 284 milhões, os municípios tiveram déficit de R$ 272 milhões. Já as empresas estatais registraram superávit primário de R$ 15 milhões. 

Pagamento de juros. 
Foram gastos R$ 21,397 bilhões com juros em maio. Houve uma pequena redução em relação ao gasto de R$ 21,511 bilhões registrados em abril deste ano e alta ante os R$ 20,200 bilhões vistos em maio de 2013. O governo central teve no mês passado um gasto com juros de R$ 15,864 bilhões. Já os governos regionais registraram uma despesa de R$ 5,253 bilhões, e as empresas estatais tiveram gastos de R$ 280 milhões.

No acumulado do ano, o gasto com juros do setor público consolidado soma R$ 101,555 bilhões, o equivalente a 4,90% do PIB. No mesmo período do ano passado, o gasto com juros estava em R$ 100,466 bilhões ou 5,23% do PIB. Já nos 12 meses encerrados em maio, a despesa chega a R$ 249,945 bilhões ou 5,01% do PIB.

Déficit primário no acumulado do ano é o pior desde 2002 - Tulio Maciel, do Banco Central

Com isso, o déficit nominal  - que inclui o pagamento de juros - foi de R$ 32,444 bilhões em maio, o segundo maior da história, atrás apenas de dezembro de 2008, quando havia sido de R$ 38,166 bilhões. Em abril, o déficit havia sido de R$ 4,615 bilhões e, em maio do ano passado, o resultado foi negativo em R$ 14,519 bilhões.

No mês passado, o governo central registrou déficit nominal de R$ 26,938 bilhões. Os governos regionais tiveram saldo negativo de R$ 5,241 bilhões. As empresas estatais registraram déficit nominal de R$ 265 milhões.

No acumulado do ano, o déficit nominal foi de R$ 70,075 bilhões (3,38% do PIB). No mesmo período de 2013, estava em R$ 53,737 bilhões (2,80% do PIB). Nos 12 meses encerrados em maio, o déficit nominal está em R$ 173,887 bilhões, ou 3,48% do PIB. 

Acumulado em 12 meses. 
As contas do setor público acumulam um superávit primário de R$ 76,057 bilhões no acumulado em 12 meses até maio, o equivalente a 1,52% do PIB. O esforço fiscal caiu em relação a abril, quando o superávit em 12 meses estava em 1,87% do PIB ou R$ 92,785 bilhões. Além disso, o superávit em 12 meses está abaixo da meta de 1,9% do PIB (R$ 99 bilhões), definida pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega. 

O esforço fiscal nesse período foi feito com a ajuda de um superávit de R$ 61,089 bilhões do Governo Central (1,22% do PIB). Os governos regionais (Estados e municípios) apresentaram um superávit de R$ 14,651 bilhões (0,29% do PIB). Enquanto os Estados registraram um superávit de R$ 10,941 bilhões, os municípios alcançaram um saldo positivo de R$ 3,710 bilhões. As empresas estatais registraram superávit de R$ 318 milhões (0,01% do PIB). 

No acumulado do ano, o superávit primário é o mais baixo para o período em 12 anos. O saldo positivo de R$ 31,481 bilhões de janeiro a maio é o mais baixo desde 2002, quando o superávit foi de R$ 26,042 bilhões. 

Há uma série de eventos no 2º semestre que tende a favorecer desempenho fiscal - Tulio Maciel, do Banco Central

Otimismo. 
Apesar do resultado negativo, o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Tulio Maciel, se mostrou otimista. Maciel defendeu que a leitura da situação fiscal não deve ser feita "com dados de alta frequência" e afirmou que será possível cumprir a meta de 1,9% do PIB. "É preciso olhar horizonte de dados mais amplo para fazer a leitura. Maio foi um resultado ruim, decorrente de concentração de despesas no mês e redução de receitas", disse. 

Maciel afirmou que em maio de 2013 houve um volume maior de dividendos, além de depósitos judiciais que colaboraram com o resultado. Pelo lado das despesas, segundo ele, os gastos com investimento praticamente dobraram em maio de 2014 ante o mesmo mês do ano passado. "Essa concentração de despesas frente a redução de receitas no mês de maio resultou neste desempenho", disse. 

Para argumentar que será possível cumprir a meta, Maciel afirmou que há "receita de concessões, volume de dividendos previstos e receita de Refis". "Há uma série de eventos a ocorrer que tende a favorecer o desempenho fiscal nos próximos meses. Por isso, volto a dizer que uma avaliação exige um conjunto de dados mais amplos e não devemos fazer avaliação no curto prazo", disse. 

Pela quinta semana, mercado reduz projeção para expansão do PIB no ano

Ana Conceição 
Valor

SÃO PAULO  -  Os analistas de mercado reduziram pela quinta semana consecutiva suas estimativas para o crescimento da economia brasileira em 2014 e cortaram pela sexta vez a projeção para o Produto Interno Bruto (PIB) de 2015, de acordo com o boletim Focus, do Banco Central.

A previsão para o cerscimento do PIB de 2014 saiu de 1,16% para 1,10%, enquanto a do próximo foi de 1,60% para 1,50%. Há um mês, esperava-se expansão de 1,50% neste calendário e de 1,85% em 2015.

A estimativa para a produção industrial em 2014 foi mantida em queda de 0,14%, mas a de 2015 foi revista de avanço de 2,30% para 2,20%.

As avaliações sobre a economia têm se deteriorado inclusive entre órgãos oficiais. Na semana passada, o BC informou em seu Relatório Trimestral de Inflação ter cortado sua estimativa para o crescimento do PIB em 2014, de 2% para 1,6%. O governo federal, em seu mais recente relatório de receitas e despesas, ainda considerava crescimento de 2,5%.

O Focus mostra que o mercado não mudou suas projeções para a taxa de juro e para a inflação. Assim, a expectativa é de Selic a 11% no fim de 2014 e de 12% em 2015. Para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foram mantidas as projeções de alta de 6,46% neste calendário e de 6,10% no próximo ano.

Para junho, foi conservada a estimativa de elevação de 0,34% para o IPCA. Em 12 meses, a perspectiva segue em 5,91% de aumento.

Os analistas Top 5 - os que mais acertam as previsões - também mantiveram suas posições. As estimativas de médio prazo para a inflação seguiram em 6,33% e 7,03% em 2014 e 2015, respectivamente; para a Selic, seguiram em 11% em ambos os anos.

A projeção para o câmbio seguiu inalterada pela quarta semana consecutiva. Dessa forma, o dólar deve encerrar em R$ 2,40 neste ano e em R$ 2,50 em 2015.

O quadro piora, segundo o BC

O Estado de S.Paulo

Continuam piorando as previsões para a economia brasileira, enquanto a presidente-candidata Dilma Rousseff, em campanha permanente, insiste em falar de um país próspero e estável, muito diferente daquele mostrado em publicações oficiais. Inflação maior, crescimento menor e saldo comercial abaixo do estimado até o mês passado são algumas das projeções contidas no relatório trimestral de inflação divulgado pelo Banco Central (BC). A inflação deverá continuar acima da meta, 4,5%, nos próximos dois anos, isto é, até o segundo trimestre de 2016, de acordo com as novas estimativas.

A inflação agora prevista para este ano, 6,4%, é 0,3 ponto maior que a indicada no relatório divulgado há três meses. O novo quadro inclui previsões de 5,7% para 2015 e 5,1% para os 12 meses até o segundo trimestre de 2016. Essas projeções são apresentadas como as mais prováveis no cenário de referência, com câmbio de R$ 2,25 por dólar e taxa básica de juros de 11%.

Depois desses números, o documento apresenta uma declaração meio otimista quanto à evolução dos preços: "Mantidas as condições monetárias", a inflação "tende a entrar em trajetória de convergência para a meta nos trimestres finais do horizonte de projeção". Por enquanto, esse horizonte coincide com o trimestre encerrado em junho de 2016. Neste momento, apostar em taxas declinantes a partir de 5,1% é principalmente uma questão de fé.

Os técnicos e dirigentes do BC continuam mencionando a defasagem entre os nove aumentos de juros a partir de abril do ano passado e seus efeitos completos. O enfraquecimento da economia pode ser parte desses efeitos, mas, por enquanto, nada aponta uma redução efetiva das principais pressões inflacionárias. Ao contrário: o próprio relatório menciona a perspectiva de "inflação resistente nos próximos trimestres". Alguns fatores poderão ser atenuados, mas nada, no relatório, aponta para uma eliminação dos principais desequilíbrios - excesso da demanda em relação à oferta, pressão de custos salariais e desajuste das contas públicas. Em relação às finanças do governo, as afirmações mais otimistas aparecem quase sempre na forma condicional.

Enquanto isso, a economia continua em ritmo muito lento e sem perspectiva de desempenho muito melhor em prazo razoável. O BC baixou de 2% para 1,6% o crescimento previsto para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2014. Para o acumulado em 12 meses até o primeiro trimestre de 2015 a estimativa ficou em 1,8%.
A economia brasileira, segundo o relatório, vem crescendo abaixo de seu potencial. Esse detalhe é apontado como um fator positivo para a contenção da alta de preços, mas até esse comentário parece mais uma tentativa de exibir algum otimismo. Mas esse esforço é anulado pelo próprio documento. As taxas de inflação têm recuado nas últimas semanas, mas as projeções do BC para este e para o próximo ano indicam a expectativa de repique.

Uma recomposição da demanda, com mais investimentos, menor expansão do consumo privado e contas públicas mais arrumadas, será indispensável para a acomodação dos preços. Mas também essa condição, embora lembrada no documento, parece pouco provável no horizonte das projeções.

Pelos novos cálculos do BC, nos quatro trimestres até março de 2015 o consumo das famílias crescerá 1,9%, o do governo aumentará 1,8% e a formação bruta de capital fixo (investimento em máquinas, equipamentos, construções, instalações empresariais e infraestrutura) diminuirá 0,6%. Sem uma forte expansão do investimento produtivo, a capacidade de oferta continuará limitada e o crescimento econômico, reduzido. Nessas condições, qualquer aumento da demanda resultará em inflação.

A baixa capacidade de competir e de exportar combina com esse quadro. O relatório incorpora as novas projeções do BC para as contas externas. Exportação e importação devem cair. A projeção do superávit comercial foi reduzida de US$ 8 bilhões para US$ 5 bilhões. No mercado, o valor projetado já chegou a US$ 2 bilhões.

Confiança da indústria brasileira recua 3,9% em junho

Veja online
Com informações Agência Reuters

Esta é a sétima queda seguida do indicador elaborado e divulgado pela FGV

(Antonio Milena) 
A produção industrial brasileira iniciou o segundo trimestre mostrando contração 

O Índice de Confiança da Indústria (ICI) brasileira caiu 3,9% em junho sobre o final de maio, sexta queda consecutiva, de acordo com a Fundação Getulio Vargas (FGV) nesta segunda-feira. O indicador passou de 90,7 em maio (quando recuou 5,1%) para 87,2 pontos agora. 

O Índice da Situação Atual (ISA) caiu 2,4%, para 90,1 pontos, influenciado principalmente pela avaliação sobre o nível atual de demanda. O Índice de Expectativas (IE), por sua vez, recuou 5,4%, para 84,4 pontos, com destaque para a previsão de produção. A FGV informou ainda que o Nível de Utilização da Capacidade Instalada foi a 83,5% em junho, queda de 0,8 ponto porcentual sobre maio, atingindo o menor patamar desde novembro de 2011 (83,3%).

"A queda adicional da confiança e a expressiva diminuição do nível de utilização da capacidade no mês sinalizam o aprofundamento do quadro de deterioração do ambiente de negócios que vinha sendo observado ao longo do segundo trimestre. A piora persistente das expectativas, por sua vez, mostra que o empresariado industrial ainda não vê sinais de melhora no curto prazo", destacou a FGV.

A produção industrial brasileira iniciou o segundo trimestre do ano ainda mostrando contração, com recuo de 0,3% em abril. Economistas ouvidos pelo Banco Central para o relatório Focus acreditam que a atividade do setor vai recuar 0,14% em 2014.

Governo mantém alíquotas de IPI de veículos até fim do ano

Exame.com
Com informações Agência Reuters

Governo decidiu manter até o fim deste ano como estão as alíquotas reduzidas do Imposto sobre Produtos Industrializados

Dado Galdieri/Bloomberg 
Carros à venda na concessionária da Fiat no Rio de Janeiro

São Paulo - O governo federal decidiu manter até o fim deste ano como estão as alíquotas reduzidas do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) incidentes sobre veículos novos, afirmou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, nesta segunda-feira.

O IPI sobre veículos de até 1 mil cilindradas, por exemplo, continua em 3 por cento até o fim de dezembro e não retornará à alíquota normal de 7 por cento, como estava previsto para ocorrer a partir de 1o de julho.

A decisão do governo ocorreu diante da fraqueza do setor automotivo neste ano, cujas vendas de carros e comerciais leves até sexta-feira passada acumulam queda anual de 8 por cento.

Mineradoras têm aumento de carga tributária

Laura Ignacio 
Valor

A Secretaria da Fazenda de Minas Gerais publicou uma nova norma para orientar a fiscalização sobre a cobrança de ICMS das mineradoras do Estado. A Instrução Normativa Sutri nº 1, publicada no Diário Oficial do Estado de quinta-feira, acolheu o conceito de produto "industrializado" do governo do Estado.

Com a aplicação desse conceito, a carga tributária das mineradoras deve subir. Isso porque, antes, as empresas podiam considerar como "primários", produtos que agora o Fisco vai caracterizar como industrializados. A base de cálculo do ICMS dos produtos industrializados é maior.

A IN interpreta a Lei estadual nº 21.016, de 20 de dezembro de 2013, consolidando o que diz a legislação e as instruções normativas da Fazenda sobre o assunto.

Segundo a norma, os produtos industrializados são os listados na tabela do IPI como tributáveis e que se submeteram a processos que resultem em alteração da composição química ou da estrutura cristalográfica do minério. Exemplos de tratamentos que o torna industrializado: ustulação sulfatante e cloretante; clinquerização da qual resulte o cimento não pulverizado; calcinação do calcário, da qual resulte a cal; e calcinação da bauxita ou óxido de alumínio puro, que gere o coríndon artificial.

"A IN é positiva por esclarecer o conceito de produto industrializado especificamente para o setor de mineração", afirma o advogado Marcelo Jabour, presidente da Lex Legis Consultoria Tributária.

A IN determina também que a base de cálculo do ICMS de minérios nas transferências interestaduais é "o preço corrente no mercado atacadista do estabelecimento remetente", e não o seu preço de custo. A Lei 21.016 já determinava isso. "Minas deverá arrecadar mais com a venda desses produtos", diz Jabour.

O advogado Paulo Honório de Castro Júnior, do William Freire Advogados Associados, explica que, com base na IN, a fiscalização do Estado deve cobrar a diferença de ICMS das mineradoras que tiverem vendido a mercadoria para outro Estado com base no seu preço de custo.

"Há fiscais que aguardavam a IN para aplicar as autuações", afirma Castro Júnior. Segundo ele, a alíquota de ICMS do minério é de 18% em geral.

A IN ainda assegura às mineradoras o uso de créditos de ICMS obtidos com as despesas com energia elétrica para quitar débitos do imposto. E também reitera que os efeitos do entendimento do Fisco sobre o ICMS das mineradoras são retroativos. "Assim, ao aplicar eventuais autuações com base na IN, o Fisco poderá cobrar o ICMS supostamente devido em relação aos últimos cinco anos, a contar da intimação do contribuinte", diz Castro Júnior.

O conceito de produto primário consta do artigo 2º da instrução normativa.