quarta-feira, julho 02, 2014

12 coisas para se fazer caso o Brasil saia da Copa

Carlos Castelo
O Estado de São Paulo


Pentacampeões, jogando em casa, Granja Comary, avião pintado pelos Osgemeos, Deus de nacionalidade brasileira. Mas sempre há uma possibilidade de dar tudo errado. Sempre pode haver uma aparição inesperada de Mick Jagger numa arena. Uma intervenção direta do Papa Chico com o chefe em favor da Argentina.  Ou pior: a camisa pesando tanto que nem [...]

Pentacampeões, jogando em casa, Granja Comary, avião pintado pelos Osgemeos, Deus de nacionalidade brasileira.

Mas sempre há uma possibilidade de dar tudo errado.

Sempre pode haver uma aparição inesperada de Mick Jagger numa arena. Uma intervenção direta do Papa Chico com o chefe em favor da Argentina.  Ou pior: a camisa pesando tanto que nem o doutor Runco vai conseguir fazer nada pela coluna dos jogadores.

A menos que você seja um bookmaker na bolsa de apostas de Londres ou um juiz da Fifa, você não sabe nada sobre o que pode rolar nessa Copa.

Tudo pode acontecer. Inclusive pessoas mal educadas fazendo coisas impensáveis na frente da Bruna Marquezine. Em assim sendo, melhor já ir deixando as barbas e o bigode do Fred de molho. Vai que…

Seguem, portanto, algumas sugestões de procedimentos para um eventual Waterloo à brasileira.

1. Trancar-se no banheiro.

2. Fingir que é gringo.

3. Mentir que não liga pra futebol.

4. Tomar uma garrafa de licor de ovos e ir dormir.

5. Visitar um parente no Exterior.

6. Iniciar uma vida apostólica.

7. Planejar um atentado contra Mick Jagger.

8. Comprar um cilício.

9. Tentar vender urgentemente seus ingressos para as semifinais.

10. Comprar tickets para o campeonato mundial de curling.

11. Alistar-se na Legião Estrangeira.

12. Torcer contra a Argentina.

As brancas elites

Arnaldo Jabor
O Globo 

Eu sou da elite branca. Infelizmente, nasci com olho azul, herança de sangue alemão temperando meu lado sírio libanês, o que talvez me faça ser da elite árabe ou suspeitosamente palestino e portanto antissemita e jihadista ?

Ou serei nazista? De parte de mãe, meu sobrenome é Hess. Serei parente do Rudolph Hess - um dos carrascos do Terceiro Reich? Quer dizer: será que eu sou um daqueles que estimulam setores reacionários a maldizer os pobres e sua presença nos aeroportos, nos shoppings e nos restaurantes , como afirmam petistas graduados? Será que eu desejo mesmo que os pobres morram de fome, como disse Dilma, porque a elite branca não suporta ver mulheres e crianças melhorando de vida ?

Por que sou tão malvado? Preciso fazer um exame de consciência. Mas antes vamos continuar a analisar esse termo vago: elite branca. Evoca doenças antigas, como flores brancas, peste branca .

Um comunista clássico diria classe dominante , mas Lula é um simplificador de categorias.

Lula inventou o termo, obedientemente repetido por Gilberto Carvalho. Esse termo é propositadamente impreciso, de modo que sirva de carapuça para todos os opositores. Lula sabe fazer bem um sarapatel de conceitos marxistas para o povão entender. Discorda? Elite branca.

E elite ? Essa palavra sempre foi muito usada por Lula, para engrandecer sua ignorância pessoal, para desovar sua inveja de gente que teve a sorte de estudar (Ex: FHC, sua obsessão).

E branca ? Há um claro racismo nisso aí. Brancos não são classe, são raça. Será que existe uma elite afrodescendente? Ou uma elite caucasiana? Não haverá cotas raciais para as elites? Afinal, e as elites pardas, onde ficam? E a elite amarela, elite índia? Não há elite preta, claro, pois Lula decretou que os pretos são pobres e bons. Branco é ruim? E os brancos que ajudam o PT como aliados? Sarney, Renan serão da elite branca e portanto malvados? Não; para Lula, eles são agentes duplos da elite branca e usados pelo PT para combatê-la. E são puros e bons os que roubaram e foram presos pelo Joaquim do STF? Claro, bons revolucionários injustiçados. Ele obviamente deve ser chefe de alguma elite negra secreta e pode ser merecidamente ameaçado de morte. Como seria essa malévola elite negra?

Digamos que o termo elite branca tivesse sido usado pelo ministro Joaquim; ele seria trucidado por racismo, sem dúvida. E se o Gilbertinho ou o Lula fossem pretos, eles usariam o termo? Não. Seria inconveniente politicamente. É muito melhor que eles sejam brancos e assim possam atacar brancos porque, apesar de o serem, estão do lado dos negros que sofrem no país todo . Ou seja, são brancos mas são bons, são brancos que não temem condenar os maus brancos. Por exemplo, não havia pretos pobres nas arenas porque a terrível elite branca é que concordou com os preços da Fifa. Ou foi o Lula, que topou tudo desde 2008?

Lula é um mestre em inventar termos úteis para desfigurar a verdade. Ele não tem o menor pudor disso, porque sabe que os pobres não sabem nada e engolem tudo que ele diz. Pobre pensa que dossiê é doce de batata! - ele falou com desdém no escândalo do dossiê dos aloprados, lembram? Havia negros entre os aloprados? Não, mas eles não eram brancos da elite - talvez fossem aloprados (militantes esforçados, mas, trapalhões... coitados) da ralé branca .

Outro dia, o Lula bradou: A elite brasileira está conseguindo fazer o que nunca conseguimos: despertar o ódio de classes . Este ato falho de Lula é sensacional. Tradução: sempre quisemos despertar o ódio de classes, mas nunca conseguimos. Mas, eis que vem a elite branca e consegue!

Ou seja, a elite branca é capitalista-leninista , quer a luta de classes contra o pobre PT, com seus militantes desvalidos, proletários oprimidos. Lula, que culpou os brancos de olhos azuis pela crise econômica mundial, só pensa em dividir os brasileiros entre nós e eles . É uma paranoia programada: a técnica de vitimização que funciona bem para ditadores que se dizem sempre defensores do povo - suas vítimas.

Todo mundo é responsável pelos anos de governo do PT, menos o PT.

Fascina-me a caradura com que condenam o passado, se eles são o passado. Estão aí há 12 anos e só conseguiram o caos. Mas a culpa não é deles, claro. Nunca. Através de mentiras revolucionárias vão aos poucos fulanizando os escândalos, como, por exemplo, na Petrobras. Segundo Gabrielli e seus colegas, houve erros passageiros, como Pasadena e Abreu e Lima, que ficaram um pouco caras... (só US$ 20 bilhões)... Graças a CPIs fajutas, ninguém jamais saberá como era o esquema entre os políticos de apoio e a Petrobras.

E os milhões desviados desde o mensalão, que foram um troco, comparados com os bilhões ainda lá fora, tirados dos fundos de pensão revolucionários ? E a inflação? Quando haverá correção monetária para o Bolsa Família?

Mas o perigo máximo é o programa ideológico que traçaram para o país. Não querem governar. Querem mudar o Estado. Se conseguirem, seremos jogados num bolivarianismo abrasileirado que acabará desmanchando nossas instituições já abaladas. Isso é o óbvio, mas tem de ser repetido! Pena que o povo não entenda porra nenhuma.

Se não, vejamos:

Em 1985 o PT foi contra a eleição de Tancredo Neves e expulsou deputados que votaram nele. Em 1988, votou contra a Constituição. Em 1994, votou contra o Plano Real, dizendo que era eleitoreiro. Em 1996, votou contra a reeleição, que hoje defende. Depois, em 1998, foi contra a privatização da telefonia, hoje com 200 milhões de linhas. Depois, foi contra a adoção de metas para a inflação. Em 2000, luta ferozmente contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, que obriga os governantes a gastarem apenas o que arrecadam. O Proer, que nos salvou, impedindo a quebradeira dos bancos em 2008, foi demonizado. Quando FHC criou o Bolsa Escola, o Bolsa Alimentação e o Vale Gás, o PT foi contra, dizendo que eram esmolas eleitoreiras. Ou seja, o PT se acha uma elite vermelha, mas não passa de uma reles elite branca.

Pátria e partido

 Demétrio Magnoli
Folha de S.Paulo.

 O “controle social da mídia” não começará por um decreto governamental, mas pela prática da autocensura
Doze dias atrás, pela primeira vez na democracia, o Brasil ganhou uma “lista negra” semioficial de críticos do governo. A nota, publicada no site do PT pelo vice-presidente do partido, Alberto Cantalice, enumera nove nomes malditos entre eles, o deste colunista e, nesse passo, desvela a alma política de uma parcela de nossa elite dirigente. Substancialmente, o que existe ali é a pretensão autoritária de identificar a pátria ao partido.

Separemos o que é irrelevante. Ao responsabilizar os nove malditos pela recepção hostil do Itaquerão a Dilma Rousseff, o PT pratica uma inofensiva modalidade de terrorismo: tenta matar o país de tanto rir.

Isolemos o que é secundário. A afirmação de que os nove “estimulam a maldizer os pobres e sua presença nos aeroportos, nos shoppings e nos restaurantes” não passa de uma calúnia primária destinada a aquecer militantes e pautar blogueiros palacianos.

O principal está alhures. A nota acusa os nove de “desgastar a imagem do país no exterior” ou seja, de trair a pátria. Por ridícula que seja, tal acusação traz uma marca inconfundível. Nos EUA, o macarthismo produziu suas “listas negras” por meio de um órgão parlamentar denominado Comitê de Atividades Antiamericanas. Desde a eleição de Obama, a ultradireita americana sugere que o presidente não nasceu nos EUA e/ou é muçulmano. A “pátria” torna-se, aí como no macarthismo, um pseudônimo da elite dirigente, não uma expressão do contrato nacional entre cidadãos livres e politicamente diversos. O PT ultrapassa uma barreira política e ética ao reclamar para si a propriedade da pátria.

A “lista negra” do macarthismo tupiniquim surgiu no dia 16, mas só chegou ao noticiário político dos grandes jornais brasileiros após a divulgação do protesto da respeitada entidade internacional Repórteres Sem Fronteiras, no dia 20. O pesado silêncio de quatro dias dos jornais, rompido aqui e ali por colunas de opinião, é uma notícia tão relevante quanto a própria “lista negra”. O “controle social da mídia” não começará por um decreto governamental, mas pela prática da autocensura.

O que aconteceria nos EUA se o Partido Democrata divulgasse uma “lista negra” de críticos do governo Obama, acusando-os de “desgastar a imagem do país no exterior”? O PT, como registrou a Repórteres Sem Fronteiras, é o partido governante. A “lista negra” do PT surgiu logo que Lula atribuiu à “mídia” e à “elite branca” a culpa pela hostilidade de torcedores à presidente. A nota de Cantalice não é um ato oficial de governo, mas fica perto disso. Significativamente, nenhuma voz do Planalto veio a público informar que o governo não compactua com listas de “inimigos da pátria”.

“Os integrantes dessa lista estão exultantes de serem chamados assim”, especulou um leitor que aprecia “listas negras” semioficiais (com a condição, suponho, de que seu nome não esteja nelas). Tudo é possível debaixo do sol, mas seria uma rematada tolice. Os nove “blacklisted” não partilham um credo político ou ideológico: aparecem juntos apenas por obra dos fabricantes de “listas negras”. Além disso, os nomes são circunstanciais: listas dessa natureza mudam ao sabor das conveniências, como admitiu certa vez o próprio Joseph McCarthy.

Joseph Cantalice McCarthy vive no tempo errado ou no país errado. Décadas atrás, no Brasil da ditadura, ele teria emprego assegurado na polícia política. Hoje mesmo, pode se candidatar com sucesso a um cargo de juiz no Egito, onde três jornalistas da Al-Jazeera foram condenados à prisão por “difundir notícias falsas” e –atenção à coincidência!– “manchar a imagem do país no exterior”. O problema é que, neste país e neste tempo, ele opera no almoxarifado do governo.

Tenho dois recados ao pequeno macarthista do PT: 1) Sua “lista negra” só incrimina o seu próprio partido; 2) A pátria é de todos.

Imagine depois da Copa.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Preste atenção no dia 14 de julho. Não por ser aniversário da queda da Bastilha, na Revolução Francesa, nem pela tomada de Jerusalém aos muçulmanos, pelos cristãos da Primeira Cruzada. Mas será o primeiro dia após o final da Copa.

Teremos um Supremo sem Joaquim Barbosa, que se aposentou - homem áspero, cheio de defeitos, mas responsável por, pela primeira vez na História desse país, comandar o julgamento que mandou poderosos homens públicos para a prisão. Devemos ter José Roberto Arruda como candidato a governador de Brasília, pelo PR - partido comandado, da Papuda, por Valdemar Costa Neto, condenado do Mensalão. Arruda é um pioneiro: foi o primeiro governador preso no exercício do mandato. Renunciou ao Senado, por violar o sigilo de votação. Perdeu o Governo, cassado, por decisão da Justiça. E está bem nas pesquisas eleitorais.

Teremos em São Paulo uma chapa com Alckmin governador, Márcio França vice, Serra senador. Alckmin e Serra não se gostam, nenhum dos dois gosta de Aécio, mas é o candidato dos dois à Presidência. Márcio França gosta de Alckmin, mas é do PSB, que apoia Eduardo Campos, não Aécio. Serra e Kassab gostam um do outro, mas acabaram tendo que disputar ao mesmo posto, o Senado; e, disputando também os mesmos votos, podem ajudar a reeleger Eduardo Suplicy, do PT. O PT nem dá bola a seu candidato ao Governo, Alexandre Padilha, e discretamente está com Skaf, um líder patronal. Até mandou Maluf apoiá-lo.

Dia 14, após a Copa, o país pode estar feliz ou infeliz. Mas melhor não estará.

A dança das trombadas
Serra se afastou de Alckmin por ter apoiado Kassab, não ele, para a Prefeitura paulistana. Quando Alckmin chegou ao Governo, limou todos os que tinham alguma relação com Serra e fechou os espaços para Kassab - que, então, fundou o PSD e passou circular por todas as alas do espectro político. Alckmin até sugeriu colocá-lo como vice (o que o levaria ao Governo daqui a quatro anos, em caso de vitória), mas acabou preferindo o PSB de Eduardo Campos. Kassab acertou então a aliança com o PMDB. E, como Serra garantiu que não seria candidato ao Senado, aceitou disputar (há poucos dias, disse que se Serra fosse candidato, ele não disputaria). 

Pois não é que Serra, na última hora, aceitou ir para o Senado? Serra, como os países, não tem amigos, tem interesses. E jogou o aliado no fogo. Para os dois, um mau negócio. Bom mesmo só para o rival petista, Suplicy.

Ninguém é de ferro
Nota da coluna Diário do Poder (www.diariodopoder.com.br), de Cláudio Humberto, sobre o regime de trabalho durante a Copa (não que em outras épocas seja tão diferente): "Nesta terça, servidores federais de Brasília voltam a bater ponto, se é que lhes exigem isso. Não trabalharam na quinta e na segunda, porque houve jogos no estádio Mané Garrincha, e enforcaram a sexta-feira."

Mentir sem combinar
Só tinha milionário branco, de olhos azuis, na plateia que sugeriu a Dilma que se dirigisse ao local normalmente destinado aos árbitros. Esses ricaços loiros chegaram ao Estádio do Corinthians em seus jatos, helicópteros e iates voadores e ocuparam todos os lugares. Lembra? Pois foi assim que o ex-presidente Lula e a turma da chapa branca explicaram tudo. Agora, uma nota publicada no portal www.planalto.gov.br, da Presidência da Republica, diz que nunca houve ingressos tão baratos numa Copa: cem mil gratuitos e 261 mil a preços baixíssimos. 

E a tal elite endinheirada? Mentir vá lá, mas é preciso combinar para mentir juntos.

Investigação? Então, tá
Aquela esperança oposicionista de conseguir informações, sem muito trabalho, sobre a Petrobras e o deputado André Vargas, apenas ouvindo Alberto Youssef, apontado como o doleiro que manipulava o dinheiro não contabilizado, acaba de naufragar: o juiz federal Sérgio Moro negou autorização para que Youssef seja interrogado pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre a Petrobras, CPMI. 

Motivo: os advogados de Youssef informaram que ele iria exercer o direito de permanecer em silêncio. Nessas condições, disse Moro, não teria sentido mobilizar uma escolta e correr os riscos do transporte para levá-lo da prisão até seu gabinete, onde responderia às perguntas por teleconferência. O pessoal do Governo na CPMI, encarregado de manter as investigações sobre controle, ganhou um ponto importante. O pessoal da oposição, se quiser apurar alguma coisa, vai ter de ler documentos, analisá-los, investigar - trabalhar, enfim. E trabalhar cansa. Além do que, convenhamos, há a Copa e a campanha.

As razões de Youssef
E por que Alberto Youssef prefere manter-se calado - como calado está desde que foi preso? Simples: aparentemente, ele pretende continuar vivo.

As alternativas
Não está satisfeito com nenhum dos três candidatos mais bem colocados nas pesquisas - Dilma, Aécio, Eduardo Campos? Pois ainda restam várias opções: o pastor Everaldo, por exemplo; José Maria Eymael - sim, o do Ey, Ey, Eymael; Levy Fidélix, o do Aerotrem; Rui Costa Pimenta; Zé Maria; Luciana Genro; Eduardo Jorge. Alternativa é o que não falta para a escolha de seu candidato. 

carlos@brickmann.com.br 
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As complexidades da simplificação

Percival Puggina
Zero Hora

Quem xingou Dilma no Itaquerão? Fossem sonoros aplausos, a comunicação oficial não teria constrangimento em ressaltar a ruidosa e alegre saudação popular dedicada à presidente. Mas não foram aplausos. Impunha-se, portanto, circunscrever a ação dos torcedores a um pequeno e seleto grupo de privilegiados e em encontrar responsáveis pelo ocorrido. 

O ex-presidente Lula, que, prudentemente, não passa nem de avião por sobre os estádios com cuja construção se comprometeu, veio às falas. Ao se manifestar, no dia seguinte, durante um comício do PT em Pernambuco, apelou para o velho truque de emoldurar o fato num quadro simplista: o estádio teria sido capturado por não torcedores, gente cheia de ódio. Quem estimulou esse ódio? Setores da imprensa. Quais as razões do ódio? Revolta dos ricos contra o crescente bem estar dos pobres. Mas adiante, sublinhou não haver no estádio ninguém com cara de pobre. "A não ser você Dilma". Nenhum "moreninho". E afirmou que o público era formado pela "parte bonita da sociedade, que comeu a vida inteira". 

Ao querer simplificar, Lula complicou e se complicou. É impossível não perceber os preconceitos desse discurso. Para que tal oratória fique de pé, o ex-presidente decide que branco é bonito e moreninho feio, e que quem sempre comeu se revolta quando todos comem. Por quê? Faltando os porquês, o discurso cai. Desaba como uma pedra sobre os sapatos Louboutin da presidente com cara de pobre. Lula sempre forçou antagonismos para se posicionar: pobres contra ricos, moreninhos contra branquinhos, olhos claros contra olhos escuros, empregados contra patrões, índios contra civilizados. E vice-versa, ao gosto do freguês. Agora, nos apresenta o Brasil dividido, também, entre o Brasil dos bonitos e o Brasil dos feios. Arre, Lula! 

Mas não foi só aí que, por excesso de simplificação, a oratória ex-presidencial despencou a ponto de tornar a fala imprestável para qualquer par de neurônios que lhe desse atenção. Afinal, quem, sem consultas, sem ouvir a opinião pública, na escuridão do próprio bestunto, decidiu trazer a Copa de 2014 para o Brasil? Quem cedeu às exigências e padrões da FIFA? Quem multiplicou as sedes e construiu estádios onde sequer existem clubes de futebol? Quem, se não o próprio Lula, criou o cenário para a festa do dia 12, não no histórico Maracanã, não na Capital Federal, mas no estádio do seu Corinthians? Agora, após o acontecido, ele imagina que o país também se divide entre uma multidão burra e uns poucos inteligentes, entre os quais o próprio. E fala, novamente, como se nada tivesse a ver com o que acontece no país. 

Corporativismo: chaga aberta no parlamento

Correio Braziliense
Editorial 

A praticamente três meses das eleições de 5 de outubro, a Câmara dos Deputados segue dando mostras da dificuldade de regenerar-se. Nem a forte crítica à representação política presente nas manifestações populares iniciadas em junho do ano passado - explícita na rejeição à participação de políticos e partidos nos protestos - foi capaz de quebrar o corporativismo predominante no Congresso Nacional.

É verdade que algumas respostas pontuais foram dadas às ruas. Entre elas, a derrubada da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº 37, que limitava o poder de investigação do Ministério Público, e a aprovação da PEC do Voto Aberto, que acabou com a votação secreta nos casos de cassação de mandato de congressista e análise de vetos presidenciais. Pode-se citar, ainda, a aprovação do Projeto de Lei que torna a corrupção crime hediondo, embora a impunidade no país não resida na carência de legislação.

No corporativismo, isso sim, está uma das raízes desse mal que mancha as instituições. E a Câmara é exemplo clássico da prática do espírito de corpo, praga a ser extirpada, mas que, ao contrário, se enraiza cada vez mais. Até a Corregedoria Parlamentar, institucionalizada em março de 2013, por meio de resolução da Casa, justamente em favor do decoro, da ordem e da disciplina, parece ter se deixado contaminar.

Nesses 15 meses, chegaram ao novo órgão nada menos do que 13 pedidos de investigação de corrupção, desvio de recursos públicos e quebra de decoro parlamentar por ofensas em plenário. Mas, até agora, nenhum deles resultou em sindicância ou inquérito. A instância que deveria agilizar a apuração de responsabilidades e propor sanções se torna, assim, mais uma gaveta de processos rumo ao Conselho de Ética.

Sem a pressão das ruas e a sua consequente reverberação na mídia, não há agenda positiva que resista ao corporativismo na política nacional. E não se trata de exclusividade do Congresso Nacional. A prática é amplamente exercitada nas assembleias legislativas dos estados, na Câmara Legislativa do Distrito Federal e nas câmaras de vereadores país afora. Apenas é mais visível no parlamento federal.

A expectativa agora é que o clamor nacional por mudanças promova uma renovação do Congresso, em outubro próximo, acima da média de 50% verificada desde 1990, quando chegou perto de 62%, caindo no pleito seguinte para 54% e variando, a partir daí, entre 44% e 48%. O problema é que renovar nem sempre é sinônimo de mudar. Portanto, não basta ir às ruas protestar. Tampouco é suficiente eleger novos nomes. Essencial é que os escolhidos tenham ficha limpa, conteúdo e disposição firme, expressa pela história pessoal, para promover a revolução ética necessária.

Mais do que isso, é preciso manter a mobilização e cobrar resultados no dia a dia da legislatura que surgir das urnas. Pendências históricas precisam ser atendidas de imediato. Uma delas é o fim do foro privilegiado. Outra, o fim dos senadores sem voto, suplentes que, não raro, compõem a chapa por serem financiadores de campanha ou parentes do titular. São questões que o corporativismo não tem permitido avançar.

360 graus

Dora Kramer
O Estado de São Paulo



O senador Aécio Neves fez que foi, mas não foi. Manteve o clima de suspense até o último minuto, deu um rasante pela cena política e ficou exatamente onde estava desde o início da aparentemente incessante busca pelo candidato a vice em sua chapa à Presidência da República.

Na batalha da comunicação, conseguiu uma proeza: ser manchete com notícia amanhecida. Na política, o senador Aloysio Nunes Ferreira já estava escolhido desde que a cúpula do partido definiu que o critério da composição da chapa não seria mais partidário como em eleições anteriores, mas regional.

Isso aconteceu há meses. De lá para cá foram levantadas várias hipóteses, mas o nome do senador sempre voltava ao centro como aquele sobre o qual não pesava restrição alguma. Não havia "senões".

E ainda a grande vantagem de o vice compensar a ausência de um candidato de São Paulo à Presidência pela primeira vez desde 1989, quando cinco representantes do Estado concorreram: Lula, Mário Covas, Ulysses Guimarães, Paulo Maluf e Guilherme Afif.

O critério partidário esteve fora do radar desde o início da montagem da candidatura. O DEM, aliado tradicional, estaria de qualquer forma na coligação e não dispunha de um nome que pudesse representar ganhos concretos de votos. São Paulo e a chapa puro-sangue então pareceram a escolha óbvia. Até quando as pesquisas começaram a ficar de novo desfavoráveis para o governo. Aí os tucanos nutriram a esperança de que algum partido de peso pudesse integrar a aliança. Mas, qual, o PMDB? Houve até quem sonhasse.

Críticas do ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, à política econômica e a insatisfação crescente no PSD com o PT alimentou o boato sobre uma possível escolha de Meirelles. Gilberto Kassab, porém, havia avisado que seu partido iria de Dilma e manteve a palavra.

Voltou-se, então, ao ninho: José Serra, Tasso Jereissati, Ellen Gracie e, claro, Aloysio. O senador Aécio Neves sempre deixou muito claro que ouviria os companheiros, mas que a decisão seria dele e mediante dois pesos de avaliação: o que fosse melhor para ganhar a eleição e, depois, o que não criasse dificuldades para governar em caso de vitória.

Dentro desses parâmetros, a conversa do candidato, mesmo quando cifrada, levava o interlocutor a concentrar o foco no nome de Aloysio Nunes Ferreira.

Surpreendente mesmo, só o despiste de Aécio nos últimos dias dizendo que poderia haver "surpresas". Como diz a velha piada de mineiros: estava dizendo que ia para Barbacena só para todos pensarem que ia para Uberaba, mas ia para Barbacena mesmo.

Soma zero. 
O efeito desse festim licencioso entre partidos de oposição e de situação provavelmente não terá efeito algum sobre o eleitor que for às urnas no dia 5 de outubro.

A confusão de legendas que se cruzam umas com as outras é tamanha que para o público em geral é mais fácil deixar essa questão de lado do que tentar discuti-la.

Senão, vejamos. Levantamento feito no fim de semana pela Folha de S. Paulo mostra que as alianças da presidente Dilma Rousseff nos Estados permitem 128 conexões partidárias; as de Aécio Neves se prestam a 87 e as de Eduardo Campos, a 52 conexões.

A tradução disso nessas expressões chulas que andam usando por aí pode até simplificar a abordagem do assunto, mas não facilita a sua compreensão. E que não se pense em contar com os políticos para organizar o quadro porque, ao mesmo tempo em que alguns denunciam a bagunça ao se sentirem prejudicados, não mexem um dedo mindinho para mudar a situação.

Ao contrário. 
Quando se mobilizaram foi para derrubar a decisão da Justiça que interpretou a Constituição no sentido de que o caráter nacional dos partidos os obrigava a unificar o padrão das alianças nos âmbitos federal, estadual e municipal.

Cotas raciais : erro de diagnóstico

O Globo

O grupo político de pressão dos racialistas, um dos que chegaram a Brasília em 2003 na caravana vitoriosa do PT, deve ser o que mais obteve vitórias nestes 12 anos de poder, na constelação de agrupamentos aliados a esse partido. Mais, por exemplo, que os sem-terra, mesmo que o MST e satélites tenham podido aparelhar órgãos como o Incra e até o Ministério do Desenvolvimento Agrário. Já os racialistas ganharam um ministério próprio, a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.

Também com representantes no Congresso e tendo obtido a simpatia do Judiciário — o Supremo terminou por avalizar as cotas como constitucionais —, os racialistas tiveram, infelizmente, êxito na construção de um política de discriminação pela cor da pele no acesso ao ensino superior público e, agora, na obtenção de emprego na máquina burocrática. Nesta batida, um dos próximos passos será a imposição de cotas às empresas privadas.

Este modelo de política afirmativa foi importado dos Estados Unidos — sociedade que se constituiu em cima do conceito de “raças” — para um país, o Brasil, no qual o colonizador português, o negro e o índio se miscigenaram. A cor não tinha o mesmo caráter discriminador existente nos Estados Unidos, a ponto de haver registro de negros senhores de escravo. É indiscutível que, abolida a escravidão, faltaram políticas de integração do negro à cidadania, por meio da educação, a melhor rota para a ascensão social.

Hoje se vê que o neglicenciamento com o nível de qualificação da população é a causa básica da chamada dívida social —com os pobres de qualquer cor de pele. E como a obtenção de resultados neste tipo de investimento é lenta, grupos organizados buscam ganhar tempo por meio de políticas afirmativas, principalmente cotas. Por se constituir, por definição, uma ação discriminatória a favor de algum grupo, outros serão prejudicados. Caso dos brancos pobres.

É ilusório achar que não existe discriminação racial no Brasil. Há, mas não se equaciona o problema por meio de cotas. Ao contrário, pode agravá-lo. Discriminação e racismo se combatem com leis e sua aplicação. Como as já existentes no Brasil.

Em vez de se adotar a melhor das políticas afirmativas — elevar para valer a qualidade do ensino público, a fim de beneficiar alunos de qualquer cor —, o Estado, sob influência racialista, optou pelo populismo e imediatismo das cotas raciais. Teria sido melhor usar o critério social, do nível de renda.

Mesmo que o erro da importação do racialismo já tenha sido cometido, o debate precisa continuar. Até que a sociedade se convença de que há mais pretos pobres não por serem pretos, mas por terem nível de instrução mais baixa, por serem pobres. A cota apenas mascara a questão. É uma anestesia, e com vários efeitos colaterais maléficos. Mesmo nos Estados Unidos, com décadas de vigência de políticas afirmativas, a Supremas Corte acaba de permitir que estados decidam revogar programas de cotas. E alguns o fazem. Têm motivos para tal.

******* COMENTANDO A NOTÍCIA:

A opinião que este blog expressou quando se iniciou o debate para a criação de cotas raciais permanece inalterado: não se corrige uma injustiça social praticando outra. A grande questão histórica que envolveu a exclusão de negros – atenção, falamos de NEGROS,  não de PARDOS, que caracteriza nossa miscigenação – foi a falta de oportunidades iguais. E, na base desta falta de oportunidades, está a fraca qualidade do ensino no país.  É através da educação que se forma o pensamento e a identidade de um país. E, é na igualdade de oportunidades que se quebra a espinha dorsal que sustenta o preconceito, de qualquer gênero. 

A política de cotas raciais, ao contrário do que propalam seus defensores, não corrige nem as distorções tampouco resolve a questão básica do preconceito. Ao contrário, alimenta uma racialismo, antes inexistente, e alimenta um preconceito invertido. 

Para encerrar: é bom que não esqueçamos um dos pilares constitucionais da democracia que consagra que todos são iguais perante a lei. Ao se destacar privilégios para um grupo, mais do que para outros, o princípio constitucional fica subtraído. Não é a cor da pele, tampouco a crença política ou religiosa torna um cidadão melhor do que outro. O que valoriza um mais do que outros é o seu esforço pessoal, sua conduta, seu trabalho, sua formação de caráter.  A política de cotas raciais, simplesmente, anula o mérito pessoal, dando mais valor à cor da pele do indivíduo. E, interessante notar, por fim, que o mesmo governo que adotou tal política, não a empregou em suas nomeações. Basta ver a percentagem de negros entre ministros ou presidentes de estatais e fundações. 

Crise universitária, greves e silêncios

Marco Aurélio Nogueira
O Estado de São Paulo

Embolada com a Copa e as férias de julho, salpicada com o tempero da disputa eleitoral de 2014, a greve que reverbera nas universidades estaduais paulistas tem tudo para dar errado. Mas reflete um quadro de mal-estar, deve ser levada a sério e ser bem compreendida.

Há uma cortina de silêncio turvando o cenário universitário paulista. Não se ouvem vozes políticas e poucas vozes acadêmicas se posicionam. Os sindicatos das categorias falam o de sempre e, mesmo assim, sotto voce. A impressão é que a greve não produzirá impacto na rotina universitária, ainda que haja paralisações em várias unidades e a belicosidade esteja configurada. Ela ajuda a quebrar mais um pouco as pernas das instituições, pois atua de costas para o futuro.

A graduação é onde o estado de greve prolifera. Está em processo de desvalorização há anos, condicionada pela confusão geracional prevalecente entre os jovens, pelo desinteresse dos professores, pela falta de renovação dos currículos e das estratégicas pedagógicas, pelo crescimento desordenado e sem planejamento. Desagrada e preocupa a todos. Não foi por acaso que a Unesp, pioneiramente, elegeu 2014 como Ano da Graduação Inovadora, decisão que merece ser aplaudida e aprofundada. Está aí, em boa medida, o calcanhar de Aquiles da universidade atual.

A greve virou rotina na graduação. Não incomoda. Na melhor das hipóteses, inflama. Seus efeitos são somente deletérios: desorganiza ainda mais os cursos, desanima os estudantes, atrapalha a formação e o estudo, prolonga o caos e a desagregação nas unidades de ensino, embaralha calendários e cronogramas. Em nome da luta sindical, greves tornaram-se parte da paisagem. Por isso os mais "revoltados" optam por táticas de ocupação de salas de aula e diretorias, ações que invariavelmente se fazem acompanhar de alguma depredação, às vezes de algum confronto com a polícia; o resultado é mais desertificação e desesperança.

Em artigo conjunto publicado em 18/6 (Autonomia, impactos e compromissos), os reitores das três universidades estaduais defenderam a autonomia de gestão financeira com vinculação orçamentária, seu papel estratégico na progressiva qualificação das universidades paulistas e o retorno que os investimentos realizados têm dado à sociedade. Reforçaram a ideia de universidade pública e ajudaram a esfriar o entusiasmo dos que usam a crise atual para propor o fim do ensino gratuito.

Os três reitores disseram coisas importantes, mas não disseram o mais importante. Há um ponto solto no ar: como é que se chegou à situação atual? O diagnóstico indica que o naufrágio financeiro da USP está a arrastar consigo a Unesp e a Unicamp. Deve ser assim? Cada instituição também não é autônoma perante as demais? Como explicar o fracasso? Não basta que se acusem gestões anteriores, pois erros e falhas também derivam de uma modalidade de gestão.

Membros ativos do Conselho de Reitores das Universidades Estaduais (Cruesp), os dirigentes deveriam esclarecer as funções desse organismo. O que tem feito ele para que haja em São Paulo uma efetiva política de ensino superior? A sensação prevalecente é que o Cruesp funciona como plataforma para a viabilização da autonomia orçamentária, mas não como base política, gerencial e doutrinária para ações conjuntas da USP, da Unesp e da Unicamp. É uma via de passagem, não de coordenação. Não discute, por exemplo, o sistema de ensino superior que faria mais sentido no Estado de São Paulo. As três instituições devem seguir a mesma trilha ou cada uma deve buscar sua própria especificidade, sua vocação e identidade? Não poderiam compartilhar e dividir entre si a excelência internacional, a formação científica e o ensino mais profissionalizante? Como fazer para que o mantra da "internacionalização" - que hoje só serve para acirrar a competição entre as universidades - seja traduzido como fator que impulsione a circulação de conhecimentos, professores e pesquisadores?

O Cruesp deveria ser o epicentro de uma discussão substantiva. Limitado a cuidar da autonomia e a entrar em cena nos meses de greve e dissídios trabalhistas, torna-se subalterno. Seu reposicionamento no momento atual ajudaria bastante.

Os reitores também não disseram qual o tamanho da crise e o que pode ser feito para superá-la. Trata-se de um vento passageiro, a ser debelado com procedimentos cosméticos, ou estamos diante de um tsunami que exigirá decisões complexas e somente será vencido se houver coesão interna, paciência e destemor? Até agora, adotaram-se medidas amargas; é preciso dar um passo à frente.

O silêncio dos reitores preocupa, mas não é o principal problema. Ele é amplificado pelo silêncio dos sindicatos e dos núcleos de poder acadêmico (departamentos, congregações, conselhos universitários, diretorias). Os sindicalistas acreditam que não há crise, que os indicadores têm sido maquiados, que o governo "neoliberal" de São Paulo não repassa verbas e que o certo é usar a reserva financeira para aumentar salários. Professores e colegiados, submetidos passivamente à pauta sindical, não aceitam que se suspendam concursos e contratações, vitais para que se mantenha a qualidade do ensino e da pesquisa. Ninguém se dispõe a ceder. Fala-se superficialmente que políticas de privatização e sucateamento estariam a ser praticadas, que os salários são baixos e as condições de trabalham deixam a desejar, mas nada se ouve de propositivo. Os estudantes vão a reboque, nem sequer aparecem.

Se os reitores não falam, se a comunidade acadêmica não toma posição e se os sindicatos se limitam a palavras de ordem e a reivindicações pontuais, a situação tende a estagnar e a ir piorando pouco a pouco. A falta de interlocução e de diálogo interno deixa a universidade à deriva. A greve acabará, mas o mal-estar permanecerá, a corroer o que todos juram defender e valorizar.

Café com leite

Merval Pereira
O Globo 

Em nenhuma das últimas três eleições presidenciais que perdeu para o PT, o PSDB conseguiu uma unidade formal como a que desaguou na escolha, ontem, do senador Aloysio Nunes Ferreira para compor como vice a chapa do candidato tucano Aécio Neves.

Uma chapa café com leite que tem o objetivo de garantir a supremacia no principal colégio eleitoral do país, driblando a armadilha da desunião partidária justamente nos dois estados que, embora governados por tucanos, nunca estiveram juntos nas eleições anteriores e, quando estiveram, elegeram o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no 1º turno.

A escolha tem o aval do ex-governador José Serra, que nunca deixou de ser um elemento fundamental nas decisões do PSDB, especialmente as que envolvem São Paulo, mas, devido à expressão nacional de sua liderança, também as que repercutem nacionalmente.

O reconhecimento dessa força política, aliás, foi um dos fatores impeditivos para sua escolha como vice, pois meros comentários seus podem gerar repercussões políticas, como foi o caso quando divergia das medidas econômicas da equipe do ministro da Fazenda Pedro Malan nos governos de Fernando Henrique.

Liberado por Serra, o senador Aloysio Nunes Ferreira pôde atuar com mais desembaraço para se colocar como vice e, mais que isso, o governador Geraldo Alckmin terá no estado que governa um apoio a mais para sua candidatura à reeleição. Aécio terá junto a Alckmin um aliado que poderá aparar arestas eventuais.

A união em São Paulo é fundamental para o projeto de Aécio, e por isso ele fingiu que não viu a atuação de Alckmin junto a seus aliados para levar o PPS para os braços de Eduardo Campos. O presidente do ex-partido comunista deve seu mandato a Serra, que o levou para São Paulo dando legenda e apoio político. E é pernambucano, o que o aproxima de Campos.

A esses dois fatores se juntaram os interesses imediatos de Alckmin, que queria ter o PSB a seu lado, com o vice, na campanha para o governo de São Paulo. Aécio sabe que numa campanha como essa os interesses regionais muitas vezes assumem caráter prioritário.

Ele foi acusado de ter relegado a segundo plano as eleições presidenciais de Alckmin e Serra para tratar dos seus interesses em Minas, aceitando a prática do voto Lulécio (Lula e Aécio) e mais adiante o Dilmasia (Dilma e Anastasia). Por isso, fez vista grossa às composições regionais que eventualmente possam prejudicar sua candidatura, mas trata de montar alianças na política paulista que impeçam sua cristianização .

Na prática, trata-se de evitar a plena realização da chapa ´Edualdo´, mistura de Eduardo Campos com Geraldo Alckmin. A seu favor estão sua capacidade de aglutinação e a necessidade de Alckmin ter um palanque forte em São Paulo, agora que o PT armou uma candidatura aparentemente viável para combatê-lo na figura de Paulo Skaf, do PMDB, cristianizando antecipadamente o candidato oficial Alexandre Padilha, que não parece ter condições de decolar.

O golpe de mestre teria sido a adesão do PSD à candidatura tucana, com Henrique Meirelles na vice. Só não aconteceu porque Kassab está preso a compromissos com o petismo e sofreu pressões fortes até por parte do ex-presidente Lula. Não sendo Serra, mas representando-o, o senador Aloysio Nunes Ferreira é quem melhor avaliza a aliança política entre São Paulo e Minas.

Com 11 milhões de votos para o Senado em 2010, para os quais muito contribuiu a decisão de colocar o ex-presidente FH fazendo sua propaganda na televisão, de quem foi ministro da Justiça e da Secretaria-Geral da Presidência, o senador Aloysio Nunes Ferreira foi também secretário estadual no governo Serra e tem conhecimento perfeito da máquina partidária tucana no estado.

Tem um perfil de político de esquerda, o que dificulta os prováveis ataques petistas por esse lado: ex-membro do Partido Comunista Brasileiro, participou da Aliança Libertadora Nacional (ALN), organização guerrilheira contra a ditadura militar, tendo servido de motorista para Marighella em ações armadas.

Provavelmente os ataques virão pelo fato de seu nome ter sido citado inicialmente como um dos políticos que tinham ligação com a formação de cartel no Metrô de São Paulo. Seu nome, no entanto, foi retirado do caso pelo ministro do Supremo tribunal Federal Marco Aurélio Mello, por não haver indícios contra ele que justificassem uma investigação.

O presidente de 2015 tem de acordar

Vinicius Torres Freire
Folha de São Paulo

Cofre do governo esvazia, outro sinal de 'fim de modelo'; transição política será também difícil

No ano que vem, o governo terá tão pouco dinheiro quanto neste 2014. Será ainda o terceiro ano de reajuste reduzido do salário mínimo, de crescimento mais reduzido do emprego, se não de algum desemprego, de inflação além de 6%, o que não pega bem entre o eleitorado.

Enfim, será um ano de vazio na caixinha de mágicas e milagres que vinha permitindo ao governo minorar a dureza da vida de ao menos metade da população e subsidiar empresas de modo a evitar uma paradeira de fato na economia.

Esta é uma perspectiva neutra de 2015, digamos, caso em que não se toma medida mais drástica a fim de corrigir os desarranjos mais elementares da economia. Mas, politicamente, já não cheira bem, a princípio.

A princípio, pois política não é aritmética econômica. Em 2003, o Brasil namorava o colapso e as condições materiais de vida eram muito piores, mas o eleitorado tinha confiança em Lula da Silva e na melhoria econômica --é o que diziam as pesquisas de então.

Os tempos parecem outros, porém. Tivemos uma década de expectativas aumentadas de melhorias. Há muito adulto que não conheceu a vida de crises do final do século passado. Anos de democracia e as administrações do PT, goste-se ou não delas, mudaram os termos da conversa entre pobres e governo; a conversa em geral sobre pobreza. A tolerância com "políticos" anda baixíssima. A população é mais educada, conversa pelas redes, tem mais voz e ouvidos políticos.

Dada a melhora das condições de vida, parece que seria menos difícil administrar as insatisfações dos períodos de baixa econômica. Mas nem isso. Mudamos. Se precisávamos de um exemplo, considere-se julho de 2013 e seus estilhaços.

Isto posto, o que os candidatos têm a dizer ao eleitorado, o que decerto vai influenciar os cidadãos sob o novo governo? A pequenez dos discursos, mais do que decepcionar, preocupa. Há um problema sério de expectativas para "administrar", econômicas e, mais desprezado, políticas.

As dificuldades do próximo governo já estão salientes no final mesmo deste. Note-se o esfriamento do mercado de trabalho, um dos dois últimos esteios "econômicos" do prestígio oficial (o outro são os programas sociais). Note-se agora o definhamento da receita de impostos, que já não bastava para bancar o gasto social ou qualquer outro.

A receita do governo federal não cresceu quase nada neste ano, até maio. As contas não estavam tão estouradas desde meados da década passada, quando no entanto o país pagava uma conta de juros muito maior. O governo gastou o que não tinha a fim de manter uma estabilidade, quase-estagnação, precária.

A receita não cresce porque a renda do país, o PIB, quase não cresce, porque o governo reduziu impostos cobrados de empresas, porque o nível de emprego cresce (e crescerá) devagar, porque o ritmo de formalização da economia diminuiu (entra menos dinheiro de empresas e salários que não pagavam impostos porque eram "informais").

Raspa-se o resto do fundo do tacho do "modelo", ou seja lá como se chame o que foi feito nos últimos cinco anos. Um governante de visão e convicções tem de explicar como vamos chegar a um acordo para sair disso.

Quem começou a baixaria

Sylo Costa
Tribuna da Imprensa


Sempre achei que nós, brasileiros, somos em maior número do que indicam as estatísticas. Como o país pode ter 200 milhões de habitantes se possui 140 milhões de eleitores? Onde ficam nessa contabilidade os jovens menores de 16 anos, os idosos e os analfabetos que não votam, usando do direito que lhes faculta a Constituição? Penso que os números verdadeiros não são revelados para não mostrar o retrato instantâneo do nosso Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Certa vez, em um congresso de Tribunais de Contas em São Paulo, levantei essa tese e quase fui escorraçado pelo pessoal do IBGE.

Um dos meus argumentos: quando alguém entra num banco para tomar um empréstimo, a primeira providência do gerente é verificar se o tomador possui um cadastro e, caso contrário, providenciá-lo. Quem pega dinheiro emprestado em banco não declara dívidas, só declara o que lhe convém: escritura de imóvel quitado, automóvel, créditos com os cunhados etc. Assim, penso eu, são os nossos recenseamentos.

Sou servidor público aposentado e só fui entrevistado no último censo. Assim mesmo porque, na qualidade de presidente do Tribunal de Contas, reclamei que até então não havia sido procurado pelos pesquisadores do recenseamento. Vivo em Belo Horizonte, na mesma residência, há 38 anos e conheço muita gente que nunca foi. Daí, pensar assim. Então esse problema é como uma regra de três: quanto menos gente e mais receita, melhor o nosso IDH.

INQUIETAÇÃO SOCIAL
Digo tudo isso para confessar que nunca vi uma inquietação social como a que estamos vivendo nos dias atuais. É tanta mentira, tanta ladroagem e safadeza que parece que somos todos náufragos à procura de uma rama para segurar.

Essa rama, hoje, é a Copa do Mundo, que, se for perdida, será certamente a Copa do Fim do Mundo. E aí, vamos começar a gastar à tripa forra para preparar as Olimpíadas.

Enquanto isso, ninguém está prestando atenção na vigência inconstitucional do Decreto Federal 8.243, que comuniza o Brasil, ao acabar com o sistema e a forma republicana de governo, além do regime democrático. Imaginem só: estamos dependendo das providências de Renan e de Henrique não sei das quantas. É ou não é dose? E reclamam que o povo no Maracanã mandou a presidente tomar café.

MANDOU BEM…
O povo mandou bem, igual ao vigarista ex-Luiz, que no dia 10 de maio de 1993 mandou o presidente Itamar Franco ir à PQP e recebeu como resposta, por escrito, o seguinte recado do então presidente: “Gostaria de saber o que aconteceria se a situação fosse inversa, ou seja, se esse indivíduo arrogante e elitista fosse presidente da República e alguém o chamasse disso. O senhor Luiz Inácio Lula da Silva me chamou de filho da p. Minha mãe se chamava Itália Franco. Mas, fosse eu efetivamente um filho da p., certamente teria pela minha mãe o mesmo amor filial”.

Assim, quem começou essa baixaria foram os comunas, o ex-Luiz e intelectuais terroristas, sempre disfarçados. Quem planta, colhe.

É antinatural Barbosa jogar fora 10 anos de STF

Josias de Souza


Digamos que você se chama Joaquim Barbosa e vive num lugar chamado Brasil. Você é uma pessoa inteligente. Conhece o país em que vive de baixo para cima. Desenvolveu suas teses sobre ele à medida que escalou a pirâmide. Vem de um tempo em que o filho de um pedreiro com uma dona de casa ainda encontrava ensino de boa qualidade na escola pública.

Digamos que você resolve ser advogado. Movido pelo desejo de mudar as coisas, você vira procurador da República. Enverniza o currículo no estrangeiro. Súbito, do nada, surge um emissário do presidente do seu país e diz que você será ministro da Suprema Corte. Você suspeita que sua negra figura está sendo usada como peça de marketing. Mas sabe que, empossado, poderá aplicar a lei como quiser, sem barganhas ou hesitações. Você aceita.

Digamos que o acaso e o computador central da Suprema Corte joguem no seu colo o processo de um escândalo de corrupção jamais visto no seu país. Como um Getúlio às avessas, o partido político do presidente deixara tragicamente a história para cair na vida. Fizera isso sabendo que, no seu país, ninguém é castigado acima de um certo nível de poder e renda. Bêbado de entusiasmo, você decide provar o contrário.

Digamos que, como relator, você resolva traduzir do juridiquês para o português um caso que parecia intrincado. Qual um Dias Gomes de toga, você percebe que, dividido em capítulos, o processo vai à TV Justiça no formato de uma novela —o capítulo anterior antecipando as emoções do capítulo subsequente. Sua tática aproxima a plateia do plenário da Suprema Corte, inibindo manobras imobilistas.

Digamos que a maioria dos seus patrícios acredita que será assada uma pizza. Mas você, aos trancos e solavancos, convence a maioria dos membros do tribunal a condenar 24 pessoas. O calendário conspira a seu favor, guindando-o à presidência da Suprema Corte em condições de enviar para a cadeia, em pleno feriado da Proclamação da República, 19 condenados —entre eles ex-dirigentes do partido do presidente do seu país.

Digamos que você se torna uma pessoa tão popular que seu nome passa a figurar nas pesquisas presidenciais. Simultaneamente, você fareja uma mudança na correlação de forças do plenário da Suprema Corte. Para piorar, os casos de corrupção continuam escalando as manchetes em ritmo industrial. Você deixará a poltrona de presidente do tribunal em poucos meses. Passará o bastão para um colega que você já chamou de chicaneiro.

Digamos que você está na Suprema Corte há 11 anos. Ainda moço, com 59, você dispõe de tempo e prestígio para continuar fazendo e acontecendo. Só terá de vestir o pijama em 2024, depois de soprar as 70 velinhas. Mas você, meio angustiado, atravessa um desses momentos em que a pessoa precisa decidir o que pretende fazer da vida.

Digamos que você está diante de uma bifurcação, sem saber que caminho tomar. Voltar ao plenário e continuar lewandowski aquela vidinha repleta de causas banais ou pendurar a toga no auge, como um Pelé da magistratura? Mergulhar no monturo de processos insignificantes à espera do surgimento de outro grande caso ou aposentar-se precocemente?

Digamos que você pensa na importância de manter a cruzada moral e ética. Mas não consegue reprimir uma espécie de sorriso interior. Você sabe que o seu país precisa de mais moral e ética. Mas toda vez que você pensa nisso, uma voz no fundo da sua consciência aconselha: peça aposentadoria, continue embolsando vencimentos integrais e vá gozar a vida. Você acaba percebendo que não é de ferro.

Digamos que, no último dia de trabalho, os repórteres o cercam, ávidos por uma declaração que sirva de exemplo para o seu país. E você: “Saio absolutamente tranquilo, como eu disse, com a alma leve, aquilo que é fundamental para mim, o cumprimento do dever. [...] É importante que o brasileiro se conscientize da importância, da fundamentalidade, da centralidade da obrigação de todos cumprirem as normas, ouvirem a lei, cumprirem a Constituição. Esse é o norte principal da minha atuação. Pouca condescendência com desvios, com essa inclinação natural a contornar os ditames da lei, da Constituição.''

Digamos que aquela mesma voz que veio do fundo da sua consciência para dar conselhos volta para lhe cochichar, rente aos tímpanos: Alma leve? Dever cumprido? Ora, francamente. Não exagere, meu rapaz. Você acaba de desprezar cinco meses de presidência do tribunal. Você jogou no lixo uma década de exercício da magistratura na mais alta Corte do país, sonho de todo advogado.

Digamos que você chama o seu gesto de abnegação, de altruísmo, de desprendimento. Mas sabe que qualquer vocábulo que você escolha soará apenas como outro nome para deserção. Um pedaço da plateia que o admira terá toda razão em fazer uma careta de desagrado e perguntar para os seus botões: que foi feito daquele ardente desejo de servir o povo? Em que momento as aspirações pessoais prevaleceram sobre a causa do interesse público?

As contas afundam

Celso Ming
O Estado de São Paulo

Até há alguns meses, sabia-se que os resultados das contas públicas (que reúnem receitas e despesas) eram decepcionantes. Agora se vê que se aproximam do desastre.

Na última sexta-feira, o Tesouro já divulgara números particularmente deprimentes da arrecadação. Ontem, o Banco Central apontou, nos primeiros cinco meses do ano, o maior rombo fiscal acumulado no período dos últimos 12 anos .

A arrecadação mergulha porque o avanço do PIB não será superior a 1,6% em 2014, como apontado pelo próprio Banco Central no seu Relatório de Inflação de junho. É provável que esta ainda seja uma projeção otimista demais, como tantas do Banco Central. Ontem, as cerca de 100 instituições, consultorias e analistas ouvidos pela Pesquisa Focus, do Banco Central, avisaram que não contam para este ano com um crescimento econômico superior a 1,1%.

O chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Túlio Maciel, atribuiu os resultados fiscais muito ruins de maio tanto à quebra de arrecadação devida ao baixo crescimento econômico como, também, às receitas substancialmente mais baixas com dividendos pagos pelas empresas estatais, com atrasados das empresas com a Receita Federal (Refis) e com menores bônus com concessões de serviços públicos.

Não chega a ser uma desculpa porque uma política fiscal não pode depender tanto de receitas extraordinárias. No entanto, apesar do mau desempenho, tanto Maciel como o secretário do Tesouro, Arno Augustin, ainda admitem que o governo entregará este ano o superávit primário (sobra de arrecadação para pagamento da dívida) equivalente a 1,9% do PIB, meta a que se comprometeram em fevereiro, depois de rebaixada de 2,1%. Como também desta vez a avaliação não vem acompanhada de demonstrativos convincentes, a hipótese mais provável é de que a prioridade do governo é ganhar as eleições, e não o cumprimento das metas fiscais. Assim, na falta de melhor, as autoridades seguem o discurso de conveniência, com base em práticas vazias, "de pensamento positivo".

Por outro lado, não há nenhuma iniciativa do governo que de alguma maneira aponte para a reversão desse quadro negativo. Ao contrário, não há disposição de atualizar os preços administrados (combustíveis, energia elétrica e transportes urbanos) e, com isso, a arrecadação também ficará inferior à esperada. E a disposição de distribuir mais pacotes de bondades baseados em renúncias tributárias e aumentos de despesas também joga contra um resultado fiscal melhor do que o apresentado até agora.

À medida que se consolidar a percepção de que não será alcançado nem o superávit primário, de só 1,9% do PIB (sobre um PIB agora mais baixo), e de que a dívida bruta continuará se elevando, o governo federal enfrentará também o crivo inexorável das agências de classificação de risco. Poderá não ser ainda o rebaixamento da qualidade da dívida e a perda do grau de investimento. Mas bastará que a avaliação aponte para perspectivas negativas para que novos estragos aconteçam, especialmente no nível de confiança no desempenho da economia.


Inflação preocupa no aniversário do Real

O Globo
Editorial

Quem era criança em 1994 passou a adolescência sem conviver com uma inflação elevada e persistente. Naquele ano, o Plano Real, lançado no governo de Itamar Franco por uma equipe de economistas brilhantes liderada pelo então ministro da Fazenda Fernando Henrique, começou a debelar um processo endêmico de inflação e que acelerava para entrar em fase terminal, de destruição da moeda e mergulho do setor produtivo em cava recessão — em 1993, os preços, em média, haviam subido 2.500%. Chegava-se à hiperinflação.

Surgiu, devido ao Plano Real, uma primeira geração que cresceria na estabilidade monetária, sem se preocupar com taxas de rendimento de caderneta de poupança, sem conhecer “correção monetária", etc. Mais do que um plano de reforma econômica, o Real foi um projeto exitoso de mudança cultural, de conversão da estabilidade econômica em patrimônio da sociedade. Vinte anos depois de lançamento do plano, o Brasil se encontra num momento de inflação elevada e também persistente — ronda o limite superior ( 6,5%) da meta de 4,5% e, mais grave do que isso, é uma inflação subestimada, porque os chamados “preços públicos”, de tarifas e combustíveis, estão contidos artificialmente. A inflação efetiva estaria acima dos 7%/8%. A preocupação aumenta se considerarmos que o Brasil está na contramão de um mundo ainda em deflação. Mas ninguém espera que volte o passado da inflação sem controle. Não apenas há a rejeição política à elevação desvairada dos preços, mas reformas feitas na esteira do Plano Real dotaram o país de um outro ambiente institucional, em que é mais fácil atuar contra fontes de alimentação da alta de preços. É preciso, porém, decisão política para enfrentar a inflação.

A instituição da Lei de Responsabilidade Fiscal, em 2000, no segundo governo de FH, tem, apesar dos percalços, servido de antídoto contra a atávica tendência do político brasileiro de considerar o Tesouro fonte inesgotável de recursos. E o desregramento nos gastos foi indiscutível fator de aceleração da inflação. Outro avanço ocorreu na atuação do Banco Central, dotado de todas as condições de administrar a política de juros para defender o poder aquisitivo da moeda. Se tem maior ou menor margem de manobra, depende do Planalto.

Se nada indica que haja mais um ciclo de superinflação à espreita, também é verdade que a estabilização da economia ainda é uma tarefa incompleta. Foi um erro do PT não realizar reformas complementares às feitas pelos tucanos na esteira do Real: a trabalhista e a tributária, por exemplo. É certo que a política e a ideologia foram empecilho a isso, embora Lula houvesse se valido da política econômica tucana para salvar seu primeiro governo de grave crise econômica.

Haja o que houver em outubro, o inquilino do Planalto a partir de 1º de janeiro deveria retomar a rota das reformas. Para que de fato a estabilização decorrente do Real se perenize.

Tem de querer

 Ilan Goldfajn 
 O Estado de S.Paulo

Não foi nos últimos seis minutos da virada espetacular da Holanda que o México começou a perder o jogo. Começou quando o treinador mexicano, Miguel Herrera, substituiu o atacante Giovani dos Santos e recuou exageradamente o time. Ele deixou de querer mais e perdeu a vantagem no placar. Acabou perdendo também a chance histórica de classificar o México para as quartas de final da Copa do Mundo.

Na economia deixamos de querer mais já há algum tempo. Os jornais do fim de semana comemoraram os 20 anos do Plano Real. O plano foi um marco, saímos da inflação alta e começamos a enxergar o futuro. Mas, anos depois, faltou dar-lhe sequência. Alguns mecanismos de indexação persistiram, o gasto público nunca parou de crescer e nos contentamos em manter o centro da meta de inflação em 4,5% (para que baixar mais?). O tempo foi passando e fomos recuando. Introduzimos novos mecanismos de indexação, acomodamo-nos no teto da meta de inflação (6,5%) e reintroduzimos controles de preços que nunca funcionaram no combate à inflação (na verdade, só pioraram).

Com o time recuado, começamos a duvidar da sua qualidade. A inflação ainda é alta... deve ser algum problema estrutural. Os juros sobem e a inflação permanece alta... deve ser a falta de eficácia da política monetária. Afinal, vivemos um paradoxo: a inflação hoje é alta e a atividade fraca (como pode haver inflação numa economia fraca?).

De fato, a inflação ronda o teto da meta, de 6,5%, apesar do controle de preços administrados, cuja inflação é de apenas 4,1%. No mês de junho a inflação dos últimos 12 meses atinge 6,5% e deve ficar acima do teto da banda até dezembro. Para os próximos anos as expectativas são de inflação ainda alta. A inflação esperada calculada a partir dos títulos indexados encontra-se em 5,9% para os próximos anos. A pesquisa Focus mostra que as expectativas para 2015 estão em 6,1%.

E a atividade vai na direção contrária. O sinal é inequívoco. Um conjunto amplo de indicadores coincidentes para o segundo trimestre - incluindo, entre outros, indicadores para a produção industrial, setor de serviços, demanda por crédito e confiança de empresários e consumidores - aponta para uma retração da atividade econômica (projetamos queda de 0,2%). Assim, no primeiro semestre a economia deve ter estagnado. Os índices de confiança de empresários e consumidores atingiram os menores níveis desde a crise financeira internacional.

O Banco Central baixou a projeção de crescimento para 1,6% em 2014 no último Relatório de Inflação. Mas com o resultado mais fraco do produto interno bruto (PIB) no primeiro trimestre, bem como essa perspectiva para o segundo trimestre e a análise dos fundamentos econômicos, vai ser difícil a economia conseguir crescer acima de 1% em 2014. É necessária uma recuperação vigorosa no segundo semestre para alcançar essas projeção (uma queda da atividade de 0,2% no segundo trimestre requer uma recuperação de 0,5% por trimestre para a economia ainda crescer 1% neste ano).

A verdade é que não há paradoxo. A princípio, qualquer fenômeno que venha a reduzir a oferta tende a diminuir a produção enquanto eleva os preços. Uma queda da produtividade da economia leva a atividade fraca e inflação alta. O mesmo ocorre quando há uma queda dos termos de troca (preços de exportação sobre importações). Ambos parecem ter afetado a economia brasileira nos últimos anos.

Mas mesmo sem choques de oferta seria difícil espantar-se com a resistência da inflação. A subida recente de juros ocorreu após uma forte queda nos últimos anos, uma parte é apenas correção de rumos. E, quando vista em conjunto, a política econômica não tem contribuído plenamente para a queda da inflação.

O problema é que apenas um jogador ficou na frente: o Banco Central. O combate à inflação é um jogo de equipe. O aumento de gastos e a queda do superávit primário do governo, associados a incentivos ao consumo privado, têm prolongado o descompasso entre a demanda e a oferta no País.

Nos últimos anos, o superávit primário caiu de 3% a 4% do PIB para 1% a 2%. Em maio o déficit primário atingiu R$ 11 bilhões - 2,5% do PIB - e o acumulado em 12 meses, 1,5%. Estimamos que o superávit recorrente - aquele que é sustentável - atingiu apenas 0,5% do PIB. Neste ano, com a queda da arrecadação devida à atividade mais fraca, será muito difícil atingir a meta fiscal de 1,9%.

O uso de controles de preços para combater a inflação tem sido um verdadeiro gol contra. Controles mantêm acesa a perspectiva de reajustes de preços administrados no futuro. Não se acredita na queda futura da inflação, apesar da atividade fraca. Com expectativas de inflação em alta, é mais difícil reduzir a inflação corrente (quem quer abdicar de reajuste com perspectiva de inflação em alta?).

Mas o jogo não está perdido. Longe disso. Estamos distantes das ameaças hiperinflacionárias de décadas atrás. E a sociedade fica incomodada com as altas de inflação que reduzem o seu poder de compra, atuando como um verdadeiro imposto regressivo.

Para a frente, apesar de teoricamente possível, não acredito na persistência prolongada da inflação alta, com queda da atividade. Os preços livres vão acabar cedendo e afetando a inflação. Mas a política econômica tem de atuar em conjunto com um objetivo bem definido. E é importante atuar nas expectativas para reduzir o custo da desinflação. Para isso é necessário desembaraçar a questão dos preços administrados, a fim de evitar manter as altas expectativas de inflação. Afinal, tem de querer para avançar.

FHC diz que Lula 'se enganou' ao não acreditar no Real

Veja online
Com informações Estadão Conteúdo

O ex-presidente divulgou um áudio em comemoração aos 20 anos do Plano Real, completados nesta terça-feira

(Eduardo Biermann) 
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso

Em comemoração aos vinte anos do lançamento do Plano Real, completados nesta terça-feira, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, um dos pais do Plano, divulgou um áudio em sua página do Facebook no qual afirma que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva "se enganou tanto" ao ter sido descrente com o Plano Real que "depois se esforçou, quando presidente, para manter a moeda estável". 

O ex-presidente tucano criticou também as dificuldades com a estabilização da moeda. "O povo todo está à espera de medidas que mantenham a moeda estável porque o povo aprendeu que a inflação, a carestia, é o seu pior inimigo", disse. Economistas têm criticado a condução econômica da presidente Dilma Rousseff e apontado para os riscos à estabilização econômica, conquistada a tão duras penas depois de cinco tentativas fracassadas antes do Real. Embora o país não viva hoje uma situação tão alarmante quanto a dos anos 1980 e 1990, a inflação está longe de um cenário de conforto. Em junho, a prévia do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) mostrou que a inflação acumula 6,40% nos últimos doze meses, encostando no teto da meta, de 6,5%. Enquanto isso, a previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), divulgada pelo Boletim Focus do Banco Central, mostra que economistas esperam um crescimento pífio para este ano, de apenas 1,10%.

De acordo com FHC, o Plano Real foi "fruto de um enorme esforço" de uma equipe econômica que ele comandava como ministro da Fazenda na gestão do ex-presidente Itamar Franco. "O país havia estado cansado da inflação, 20%, 30% ao mês. Não havia salário que fosse suficiente para fazer frente à carestia, ao aumento de preços", disse. O ex-presidente declarou na gravação que, quando a economia foi estabilizada, a inflação começou a cair imediatamente e houve uma diminuição da pobreza de 40% para 30%. "As pessoas podiam confiar que não precisavam sair correndo para fazer compra mal recebessem o salário, porque confiavam que a moeda poderia ser estável", prosseguiu.

Contestando a fala comum entre petistas, de vangloriar os programas sociais dos últimos doze anos de governo, FHC disse que as novas políticas econômicas e sociais só foram possíveis graças às conquistas do Plano Real. "Tão importante quanto (as novas políticas), reganhamos a crença no futuro do Brasil." Segundo o ex-presidente, há muito o que celebrar pelas duas décadas de real. "É por isso que, com emoção, eu me refiro a esses dias e volto a falar ao povo de Poços de Caldas, cidade na qual, pela primeira vez, senti a emoção de termos conseguido criar uma moeda nova, o real", acrescentou.

Desastre nas contas públicas

O Estado de S.Paulo 
Editorial

A situação desastrosa das contas públicas agravou-se em maio com um déficit primário de R$ 11,05 bilhões, o pior resultado para o mês e o segundo pior de toda a série oficial, superado somente pelo rombo de R$ 20 bilhões em dezembro de 2008, no começo da crise global. Só um otimismo extraordinário permite apostar, neste momento, no resultado prometido para o ano, um superávit primário de R$ 99 bilhões para todo o setor público - União, Estados, municípios e companhias estatais. O resultado de cinco meses ficou em R$ 31,48 bilhões, 32,62% menor que o de igual período de 2013. Será preciso multiplicar o acumulado de janeiro a maio por pouco mais que três para alcançar a meta fixada para 2014. O superávit primário é destinado ao pagamento de juros da dívida pública, mais precisamente, de uma parte dos juros, porque uma fatia dos compromissos é sempre rolada.

O resultado obtido em 12 meses, um saldo primário de R$ 76,06 bilhões, ficou em 1,52% do Produto Interno Bruto (PIB) estimado para o período, muito longe, portanto, da meta de 1,9% programada para o ano. Em geral, os números do primeiro semestre são os mais favoráveis e garantem alguma gordura para ser consumida nos meses seguintes, quando os governos tendem a aumentar as despesas tanto de custeio quanto de investimento. Neste ano, o conjunto do setor público foi incapaz de juntar essa reserva e com isso ficará mais difícil produzir o resultado final.

Ainda assim, o chefe do Departamento Econômico do Banco Central (BC), Túlio Maciel, tentou, ao apresentar os dados fiscais, mostrar algum otimismo quanto ao alcance da meta. É preciso, argumentou, levar em conta o ingresso, nos próximos meses, de receitas de concessões, de dividendos e de prestações do Refis, o programa de refinanciamento de débitos tributários.

Esse aparente otimismo é sustentado, portanto, pela expectativa de receitas especiais, fora do conjunto da arrecadação recorrente. Dividendos, bônus de concessões e prestações do Refis foram amplamente usados em 2013 para engordar o resultado fiscal e continuam em uso neste ano. Até maio, as concessões de infraestrutura renderam R$ 1,23 bilhão, 13,7% menor que um ano antes, mas os dividendos, R$ 9,01 bilhões, foram 230% maiores que os dos primeiros cinco meses de 2013. Os dois tipos de ingressos deverão aumentar no segundo semestre, segundo as previsões de Maciel, mas, além disso, R$ 2 bilhões da Petrobrás já estão garantidos, em troca da cessão de mais quatro áreas do pré-sal. Esse contrato, sem licitação, foi anunciado na semana passada.

Pela programação oficial, caberá ao governo central - Tesouro, BC e Previdência - produzir R$ 80,8 bilhões de superávit primário. O resto ficará, em princípio, por conta dos governos de Estados e municípios e também das empresas estatais. De janeiro a maio o governo central produziu um saldo primário de R$ 18,10 bilhões; os governos regionais, de R$ 13,56 bilhões; e as estatais, um déficit de R$ 182 milhões. Mas o governo federal assumiu o compromisso, no começo do ano, de garantir o resultado total, se as administrações subnacionais e as companhias controladas pelo setor público deixarem de cumprir integralmente a sua parte.

Com a economia em passo de tartaruga, a receita de impostos deverá continuar abaixo das previsões. Ao apresentar os números do governo central, na sexta-feira, o secretário adjunto da Receita Federal, Luiz Fernando Teixeira Nunes, admitiu reduzir de 3% para 2% a projeção de aumento real da arrecadação. Em cinco meses, o governo federal arrecadou R$ 487,21 bilhões. Descontada a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o valor foi apenas 0,31% maior que o de um ano antes.

Como as despesas continuarão crescendo mais que a arrecadação até o fim do ano, o governo mais uma vez terá de recorrer a arranjos contábeis para tornar mais apresentável o resultado final. Seria extremamente irrealista esperar, num ano de eleições, alguma demonstração de austeridade. Além disso, o governo manterá pelo menos parte dos incentivos fiscais a setores selecionados da indústria.

Pais do Real defendem reformas para garantir seu legado

Ruth Costas (*)
BBC Brasil 


O real começou a circular em 1º de julho de 1994

Vinte anos depois do lançamento do real, economistas ligados ao plano que conseguiu frear a hiperinflação no Brasil defendem que é preciso fazer reformas para consolidar seu legado.

Em entrevista à BBC Brasil nas vésperas do aniversário da moeda – que começou a circular em 1 de julho de 1994 - os arquitetos do Plano Real Edmar Bacha e Pérsio Arida e o ministro da Economia durante seu lançamento, Rubens Ricúpero, sustentam que a inflação ainda preocupa. Eles criticam o que veem como excesso de "leniência" do atual governo com relação a alta de preços.

"Hoje não há mais o risco de uma hiperinflação – que ocorre quando você perde inteiramente o controle dos preços e eles aumentam um, dois, três por cento ao dia", diz Ricúpero, hoje diretor da escola de economia da FAAP.

"Mas ainda temos uma inflação crônica alta - de 6% - que já está causando muito estrago. Os protestos do ano passado e os deste ano, de categorias que querem aumento salarial, como motoristas de ônibus e metroviários, estão muito ligados a essa inflação elevada, que agrava os conflitos distributivos."

Acompanhando os preços
Segundo Ricúpero, com tal nível de escalada de preços, aqueles que vivem de um rendimento fixo, ou salário, já têm de se mobilizar para não ver seu poder de compra reduzido gradativamente.

"É o que está acontecendo - e a situação vai piorar. Primeiro porque a (presidente) Dilma (Rousseff) deu um aumento de 15% aos funcionários públicos há três anos, mas a inflação já o corroeu, acumulando 19%. Então essa categoria também deve se mobilizar", opina o ex-ministro.

"Segundo, porque o governo está segurando a inflação com os preços administrados, que aumentaram apenas 1,5%. Há repressão, congelamento de preços como o da gasolina e do diesel, da energia elétrica, das tarifas de ônibus, pedágios e etc. E vai chegar um momento que o governo terá de mexer nisso."


Para Edmar Bacha, preços no Brasil estariam "surreais"

Para Bacha, no que diz respeito a política anti-inflacionária, o maior problema é que o Brasil está virando "o país dos preços surreais". "Não pode estar certo a loja da Apple aqui ter os preços 85% mais altos que os de Nova York", diz o economista.

Entre as causas do que ele considera um desajuste de preços estariam a oferta ineficiente e o câmbio sobrevalorizado.

"Temos um problema importante de carestia (escassez de produtos), que está ligado a falta de produtividade", diz ele.

"Precisamos de uma série de reformas para retomar o caminho do crescimento com inflação baixa, a começar por uma maior abertura e integração à economia internacional."

Estabilidade
Já para Arida, hoje sócio do banco BTG Pactual, um dos problemas da atual política de combate a inflação é que a meta do Banco Central de 4,5% ao ano, com tolerância de 2 pontos percentuais para cima e para baixo, é muito alta – e o governo ainda permite que a inflação se estabilize em seu topo.

"Preferiria a meta chilena, de 3%, com um ponto percentual de tolerância", diz o economista.

Segundo Arida, para segurar a inflação sem ter de subir muito a taxa de juros, o governo deveria ter uma estratégia centrada no corte de gastos do Estado.

"Ter moeda estável com juros altos é melhor do que ter hiperinflação, ou moeda instável. Mas esse não é o lastro certo para a moeda. Precisamos lastrear a estabilidade na austeridade fiscal."

A BBC Brasil procurou o ministério da Fazenda para questioná-lo diretamente sobre as críticas feitas a política inflacionária, mas a reportagem não obteve uma resposta até a publicação desta matéria.

Gastos
O governo tem reiterado que a alta de preços está sob controle e não há razão para se preocupar.

"A inflação está caindo firmemente e vai continuar caindo nos próximos meses", disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega, em maio.

Brasília também defende que os gastos públicos não têm um impacto significativo sobre a escalada de preços.

"No ano passado, economizamos R$ 88 bilhões. E nos últimos anos fizemos superávit de 1,8%, 1,9% do PIB. O governo tem poupado a cada ano e não é o gasto público que tem pressionado a inflação", disse o ministro recentemente, em entrevista à TV Brasil.

Fernando Sarti, economista da Unicamp, concorda - e acrescenta que é possível crescer com uma inflação de 6%, sem que haja grandes distorções na economia.

"Esse debate sobre inflação está bastante contaminado por questões políticas e interesses rentistas, dos que lucram com uma alta de juros", acredita.

"Também não vejo um grande problema no governo usar a política de preços da Petrobrás ou outras estatais para segurar o índice, desde que no meio tempo estejam sendo tomadas outras medidas para segurar os preços no médio prazo. Temos uma inflação de oferta, não demanda, que deve ser combatida com mais investimentos."

O fim das surpresas
Quando foi lançado, em 1994, o desafio do real era conter a escalada de preços que passou de 2.000% ao ano no início dos anos 90.

Cinco outros planos econômicos haviam fracassado na década que antecedeu o lançamento da atual moeda, deixando a sociedade brasileira traumatizada.

Entre as medidas polêmicas adotadas nos anos 80 e início dos anos 90 estiveram o tabelamento de preços do Plano Cruzado, que acabou provocando uma crise de desabastecimento, e o confisco do dinheiro da poupança e da conta corrente pelo Plano Collor.

Para muitos economistas, um dos trunfos do Plano Real foi justamente a transparência do plano, que não teve surpresas.

"Todas as medidas foram anunciadas com meses de antecedência, o que permitiu à sociedade brasileira se preparar e evitou desajustes nos níveis de preços", diz o economista Marcelo Moura, professor do Insper.

Em março daquele ano foi lançada a chamada Unidade Real de Valor (ou URV), uma espécie de moeda virtual que tinha paridade de igual para igual com o dólar.

Gradualmente todos os preços e contratos foram sendo convertidos para essa nova unidade monetária, cujo valor relativo ao cruzeiro real era corrigido diariamente.

O real entrou em circulação quatro meses depois, quando uma URV valia 2.750 cruzeiros novos.

Reformas
"Mas é preciso lembrar que o lançamento da nova moeda também veio acompanhado de uma série de reformas que contribuíram para conter a escalada de preços, como as regras de disciplina fiscal", diz Carlos Braga, professor da escola de negócios IMD, na Suíça.

"A liberalização parcial da economia (realizada no governo Collor) também ajudou a conter os preços ao ampliar a concorrência", opina.

Uma das críticas ao Plano Real diz respeito aos limites de sua âncora cambial.

Muitos economistas acreditam que o governo de Fernando Henrique Cardoso teria demorado excessivamente para desvalorizar a moeda em 1999, o que reduziu muito o nível das reservas do país e obrigou o Brasil a recorrer a um empréstimo do FMI (Fundo Monetário Internacional).

"O real de fato dependeu demais do câmbio para baixar a inflação", admite Ricúpero. "A moeda logo no início se valorizou mais que o dólar e esse foi o começo do processo de perda de competitividade da indústria."

Arida concorda que a desvalorização poderia ter ocorrido antes. "Mas também é fácil ser engenheiro de obra pronta", justifica.

(*) Colaborou Katy Watson