domingo, julho 06, 2014

O antimilagre econômico do governo brasileiro

Rolf Kuntz
O Estado de S. Paulo

Milagre econômico, no Brasil, na Alemanha ou no Japão, é só um exagero de linguagem, mas antimilagre é uma realidade inegável. Se alguém duvidar, examine os números da indústria, das contas externas, do investimento produtivo e do crescimento do produto interno bruto (PIB) nos últimos quatro anos. De janeiro a junho - só para citar um exemplo - a corrente de comércio foi 2,8% menor que a de um ano antes, com redução tanto das exportações quanto das importações. É um claro sintoma de graves desarranjos na economia. Na maior parte do mundo, governos comuns, sem talentos excepcionais e sem poderes mágicos, derrubam o crescimento para conter a inflação, fechar buracos nas contas externas ou controlar a dívida pública - muitas vezes para cuidar de todos esses problemas ao mesmo tempo. Essa política pode ser dolorosa, mas com frequência é inevitável. Numa exibição de virtudes extraordinárias, o governo da presidente Dilma Rousseff realizou a mágica oposta: reduziu o crescimento industrial, espalhou a insegurança entre empresários e consumidores e fez encolher o comércio exterior sem atacar um só desajuste fundamental. O desemprego medido pelo Pnad, 7,1% no primeiro trimestre, supera o de várias economias desenvolvidas. É como se o País sofresse os efeitos penosos de uma terapia severa - mas sem terapia.

Esse antimilagre se explica por uma combinação desastrosa de vários fatores - diagnóstico errado, confusão de objetivos, voluntarismo, populismo e sujeição das decisões econômicas a interesses pessoais e partidários. O problema do diagnóstico bastaria, sozinho, para causar boa parte dos estragos dos últimos anos. As primeiras ações a partir da crise global podem ter sido corretas, ou pelo menos justificáveis, mas as condições mudaram e a política, apesar disso, foi mantida.

Desde o fim de 2008 o governo tenta estimular a economia como se o País estivesse, em todo esse tempo, travado por problemas conjunturais. Problemas desse tipo justificariam os estímulos ao consumo, assim como justificaram, em 2009, o Programa de Sustentação do Investimento (PSI), bancado com subsídios pelo Tesouro e operado pelo Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Lançado como ação provisória, em 2009, o programa foi prorrogado várias vezes e seu prazo atual terminará no fim do próximo ano. Há muito tempo deixou de ser uma ação contracíclica, assim como os estímulos fiscais e financeiros ao consumo. As autoridades, no entanto, nunca admitiram esse fato.

O impacto recessivo da crise de 2008 durou até 2009 para o Brasil e para a maior parte dos emergentes, mas o governo brasileiro continuou agindo como se o quadro nunca tivesse mudado. O diagnóstico de crise conjuntural pode ter sido correto em 2008 e 2009, mas o governo deveria tê-lo abandonado há muito tempo. Ao mantê-lo, manteve também uma estratégia esgotada, custosa, inflacionária e ineficaz - uma paródia de política keynesiana. Ao insistir em ações de efeito conjuntural, o governo tratou como desafios de curto prazo problemas estruturais. A percepção desses problemas parece ter sido sempre muito fragmentada e, além disso, prejudicada pela insistência em atribuir o baixo crescimento da economia nacional a causas externas.

A alardeada redescoberta do planejamento nunca foi além da retórica. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), inventado em 2007 e mantido a partir de 2011, nunca foi mais que uma costura malfeita de retalhos juntados sem efetiva articulação e sem prioridades bem definidas. Acabou servindo para um discurso mistificador, ao incorporar, por exemplo, o plano de investimentos da Petrobrás. Esse plano, atualizado regularmente, era parte da rotina da empresa e continuaria existindo sem o PAC. Mais que isso: seria executado com eficiência muito maior sem a interferência de interesses políticos, pessoais e partidários. Enfim, cada novo balanço confirma o peso desproporcional dos financiamentos imobiliários e das construções habitacionais no total das aplicações.

Sem surpresa, o PSI, o PAC, as desonerações e os estímulos fiscais e financeiros a setores e a grupos selecionados foram insuficientes para impulsionar a indústria e o investimento. O total investido em capital fixo - máquinas, equipamentos, construções e instalações particulares e obras de infraestrutura - continua na vizinhança de 18% do PIB. A meta de 24%, padrão encontrado facilmente em outros emergentes, continua como promessa para um futuro indefinido. O pífio desempenho da indústria - de janeiro a maio produção 1,6% inferior à de um ano antes - é apenas a continuação de três anos e meio muito ruins, segundo o IBGE.
Não se trata de problema conjuntural, mas de competitividade, disse na quinta-feira o gerente executivo de pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Renato da Fonseca. A encrenca é reconhecida tanto no Brasil quanto no exterior. A distância entre a produtividade brasileira e o padrão médio das economias desenvolvidas continua muito grande, segundo estudo publicado na semana pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

A advertência vale para a maior parte dos emergentes, mas é especialmente importante para o Brasil, estagnado e cada vez menos competitivo. O déficit comercial acumulado no ano só diminuiu de maio para junho (quando chegou a US$ 2,490 bilhões) porque as importações diminuíram. Em junho a receita das vendas foi 3,2% menor que a de um ano antes, mas a despesa foi 3,8% inferior à de junho de 2013 - mais um sinal de uma economia murcha.

Em pesquisa publicada em dezembro pela CNI, 64% dos consultados mencionaram ganhos de produtividade em suas empresas em cinco anos. Mas só 7% avaliaram suas companhias como mais produtivas que as estrangeiras. Doze por cento apontaram produtividade similar, 28% qualificaram suas empresas como menos produtivas e - mais notável - 53% nem sequer responderam. Terá alguma autoridade, em Brasília, lido essa pesquisa?

Errando à luz do sol

J. R. Guzzo
Revista VEJA

O sucesso até agora não muda em nada atos de desgoverno, e os atos de desgoverno não mudam em nada o fato de que a Copa foi um imenso êxito. São, apenas. duas realidades diferentes.

Lá vamos nós, mais uma vez, fazer a costumeira penitência. É bobagem tentar esconder ou inventar desculpas: muito melhor é dizer logo de cara que a maior parte da imprensa de alcance nacional pecou de novo, e pecou feio, ao prever durante meses seguidos que a Copa do Mundo de 2014 ia ser um desastre sem limites. O Brasil, coitado, iria se envergonhar até o fim dos tempos com a exibição mundial da inépcia do governo para executar qualquer projeto desse porte, mesmo tendo sete anos de prazo para entregar o serviço. Ficaria exposta a ganância das empresas presenteadas com o suntuoso bufê da construção de estádios e das demais obras indispensáveis para abrigar a Copa. Haveria uma coleção inédita de aberrações, com o estouro sistemático de orçamentos, a miserável qualidade dos equipamentos entregues ao público e daí para pior. Deu justamente o contrário. 

A Copa do Mundo de 2014, até agora, foi acima de tudo o triunfo do futebol — uma sucessão de jogos espetaculares, a exibição de craques como não se via fazia décadas e a presença em campo de todos os oito países que levaram o título mundial em seus 84 anos de disputa. No jogo entre Bélgica e Rússia, para resumir o assunto, havia 70000 torcedores no Maracanã — não é preciso dizer mais nada, realmente, sobre o sucesso da Copa de 2014. Para efeitos práticos, além disso, tudo funcionou: os desatinos da organização não impediram o espetáculo, os 600 000 visitantes estrangeiros acharam o Brasil o máximo e 24 horas depois de encerrado o primeiro jogo ninguém mais se lembrava dos horrores anunciados durante os últimos meses.

É a vida. O que se viu com a Copa de 2014, mais uma vez, foi a aplicação da Lei Universal das Aparências que Enganam — segundo a qual quanto maior a antecedência com que é prevista uma catástrofe futura, tanto menor é a possibilidade de que ela venha de fato a acontecer. O momento mais notável na história dessa lei, possivelmente, foi o infame "bug do milênio". Lembram-se dele? O mundo iria parar a partir de zero hora do ano 2000, pelo derretimento inevitável de todos os computadores do planeta; bilhões de dólares foram gastos por governos e empresas para se defender previamente dessa alucinação, e na hora da desgraça não aconteceu absolutamente nada. 

As grandes crises, financeiras, que de tanto em tanto tempo vão acabar com o capitalismo no mundo (cada uma delas, inevitavelmente, é apresentada pelos meios de comunicação como "a pior desde 1929"), vêm, vão e se dispersam como os desfiles de escolas de samba. Institutos de pesquisa de opinião, com todos os seus métodos de trabalho testados cientificamente em laboratório, vivem recorrendo a "viradas milagrosas" de última hora para explicar por que o candidato que iria ganhar perdeu, e vice-versa.

A Copa de 2014 é uma boa oportunidade para repetir que a imprensa erra, sim — mas erra em público, à luz do sol, e se errar muito acabará morrendo por falta de leitores, ouvintes e telespectadores. Ao contrário do governo, que jamais reconhece a mínima falha em nada que faça, a imprensa não pode esconder suas responsabilidades. Não tem maioria de 70% no Congresso para abafar seus pecados. Não pode recorrer a embargos infringentes para manter-se impune, nem a ministros amigos no Supremo Tribunal Federal. Não tem a seu dispor cerca de 1,5 trilhão de reais, arrecadados a cada ano em impostos, para comprar quem e o que bem entende. 

Os jornalistas, no Brasil e no mundo, sem dúvida deveriam ser mais modestos e fazer mais força para errar menos — mas o jornalismo, infelizmente, é uma atividade em que se acumula pouco conhecimento. Fazer o quê? É preciso, bem ou mal, conviver com essa realidade. Afinal, jornalistas têm de ganhar o seu sustento de mais a mais, às vezes chegam até a estar certos. No caso da Copa, na verdade, o que importa é deixar bem claro que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. O sucesso não muda em nada atos de desgoverno, e os atos de desgoverno não mudam em nada o fato de que a Copa foi um imenso êxito. São, apenas, duas realidades diferentes. 

A qualidade sensacional desta competição, que mexe como nenhuma outra na alma de bilhões de seres humanos, não vai fazer aparecer os benefícios para os brasileiros que foram prometidos e jamais serão entregues; no dia seguinte à final, o poder público nunca mais se lembrará das promessas que fez. As verdades que os jornalistas expuseram não passaram a ser mentiras. O que estava errado continua errado. É isso — e só isso.

Esperemos, agora, a Olimpíada do Rio de Janeiro.

Brincando em cima daquilo.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

É Copa, claro. A Câmara lenta entra em câmera lenta. Nos dias em que não há jogo há discussões - não sobre bola na mão ou mão na bola, porque botar a mão na bola é muito mais popular. Há os preparativos para o próximo jogo. 

Talvez no estádio, com um lanche fino, se alguém o patrocinar. Trabalhar, nem pensar. Depois da Copa, debates sobre herois e culpados; e o recesso da Câmara Federal, para o merecido repouso dos nobres parlamentares, que ninguém é de ferro. Findo o recesso, vem a campanha. Em setembro e outubro, Suas Excelências terão, no total, quatro sessões. Em 60 dias, quatro serão de (relativo) trabalho.

Mas não é tudo que para em Brasília, neste período pré-eleitoral. As despesas giram à velocidade de sempre. Os 513 senhores deputados custam ao Tesouro pouco mais de R$ 80 milhões por mês, entre salários, vantagens e despesas diversas. De junho a outubro, a soma do ócio da Copa com o ócio da campanha custará algo como R$ 320 milhões. Primeiro turno, segundo, e a política retorna ao país do jeito como eles gostam: na forma de negociações para ver quem fica com que cargo. E ponto final: dezembro é mês de confraternização, despedidas, Natal. E haverá quem se queixe da posse do presidente da República em 1º de janeiro, o que impede que se festeje o réveillon como se deve. Outubro, novembro e dezembro custam ao Tesouro mais R$ 240 milhões. Somemos: R$ 560 milhões para não trabalhar. 

Este colunista confessa: está mesmo é com inveja.

Trabalho, não tenho nada...
Um belíssimo samba de 1938, de Ciro de Souza e Waldomiro "Babaú" José da Rocha, fez um tremendo sucesso com Aracy de Almeida. E faz sucesso até hoje: nesta última quarta-feira, dia em que não houve jogo da Copa, dois dias antes do jogo seguinte do Brasil, só seis comissões da Câmara Federal tiveram número para funcionar. Há 22 comissões na Câmara. Dezesseis nem se mexeram.

...não saio do miserê
O Supremo Tribunal Federal, informam seus ministros, sofre com a sobrecarga de trabalho. Mas está de férias em julho (terá novas férias, naturalmente, de 20 de dezembro até a primeira semana de janeiro). Os tribunais, em todo o país, estão sobrecarregados. Mas magistrados, diferentemente dos demais brasileiros, têm 60 dias de férias por ano - os federais têm também o recesso, além das férias. No samba de Ciro de Souza e Babaú, quem trabalha é que não tem nada.

O sábio ditado
No Facebook, um internauta desavisado pergunta se a lei não é para todos. É; está na Constituição. Outros grandes compositores, Noel Rosa e Lamartine Babo, lembram, em samba gravado por Mário Reis, que o Sol nasceu para todos. Mas é preciso completar, sabiamente: e a sombra só para quem sabe das coisas.

Fazendo o diabo
O Governo do Paraná pediu ao Supremo Tribunal Federal a prisão de Arno Augustin, secretário do Tesouro, por crime de desobediência a ordem judicial. O programa federal Proinveste, de financiamento de obras de infraestrutura, liberou verbas para todos os Estados, menos o Paraná, governado pelo tucano Beto Richa. Alegação: descumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal. Richa foi ao Supremo. O ministro Marco Aurélio, observando que as contas do Paraná foram aprovadas pelo Tribunal de Contas da União, ordenou em fevereiro a liberação da verba - R$ 816 milhões. 

Augustin, secretário de escolha pessoal de Dilma (ele e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, não são exatamente admiradores um do outro), nada fez. Marco Aurélio reiterou a ordem em abril e junho. Augustin ficou inerte. Marco Aurélio fixou multa diária de R$ 500 mil até que a Justiça seja obedecida. E pode, mesmo durante o recesso, mandar prender o desobediente.

É o bicho pegando
A campanha nem começou oficialmente e já surgem ataques coordenados à família do candidato tucano à Presidência, Aécio Neves. Dizem que a ex-mulher de Aécio, Andréa Falcão, o teria acusado de usar a filha do casal como biombo para contrabandear diamantes para os EUA. Andréa desmente que tenha feito a acusação. Para a turma do tiroteio, não importa: da mesma maneira como, do outro lado, há ataques sujos que atribuem ao filho de Lula a propriedade de uma mansão (que, na verdade, é a Escola Superior de Agricultura Luís de Queiroz), a agressão à família de Aécio continua. É o território minado da Internet.

Respeito aos gordos
O Rio é mais uma vez pioneiro: a partir do dia 1º, tem um Estatuto dos Portadores de Obesidade, que garante aos obesos o acesso à educação, cultura, esporte, lazer, espetáculos, produtos e serviços; e determina às unidades estaduais de saúde que desenvolvam programas de prevenção e tratamento da obesidade. 

Desrespeito aos gordos
São Paulo segue o caminho oposto: enquanto na maior parte do país se faz de conta de que gordo não existe, o Governo paulista adota uma ativa política discriminatória, vetando, por exemplo, a admissão de cidadãos aprovados em concurso quando julga que têm excesso de peso. Serão estes cavalheiros candidatos a correr a maratona? Não: a dar aulas. 

E mesmo assim são discriminados.

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

O recado alemão

Tribuna da Imprensa
Mauro Santayana, Hoje em Dia


Encaradas, por alguns setores, apenas como uma espécie de “chilique” da Presidente Dilma, as reações do governo brasileiro às ações de espionagem levadas a cabo pela NSA,  dos Estados Unidos, têm sido até brandas quando comparadas às de outras nações.

Mas a Alemanha acaba de mandar duro recado a Washington, com a suspensão de vultoso contrato com a norte-americana Verizon. “Há indicações de que a Verizon é legalmente obrigada as fornecer informações à NSA, e essa é uma das razões pelas quais a cooperação com a Verizon não continuará – afirmou Tobias Plate, porta-voz do Ministério do Interior do governo alemão.

Com a  decisão, os contratos, relativos à prestação de serviços de internet a vários órgãos governamentais, deverão ser repassados para a Deutsche Telekom, que tem participação do governo, e administra as comunicações de alguns ministérios e dos órgãos de inteligência do país.

MAS NO BRASIL…
Enquanto isso ocorre na Alemanha – tradicional aliada dos Estados Unidos e maior economia do continente europeu -  no Brasil o governo insiste em continuar contratando serviços de empresas estrangeiras para setores estratégicos sensíveis.

Esse é o caso da INDRA, empresa espanhola de telecomunicações, que conta, atualmente, com importantes contratos na área de defesa concedidos pelo  governo brasileiro, nas áreas de comunicações militares via satélite (é fornecedora das estações terrestres do exército), de sistemas de vigilância por radar, e – pasmem os leitores – de nossos sistemas de guerra eletrônica, que estão voltados justamente para enfrentar ameaças a ameaça de inimigos externos.

E isso, apesar de ter um governo estrangeiro, membro da OTAN, como um de seus principais acionistas. O governo espanhol, que detêm mais de 20% de suas ações, é um dos mais abjetamente subalternos aos Estados Unidos, não apenas do ponto de vista de sua política externa, mas também no campo militar, como mostra sua atuação como linha auxiliar das forças armadas dos EUA em lugares como  a Líbia e o Afeganistão. Nos EUA, a INDRA coopera diretamente com o governo, e possui uma subsidiária, instalada na cidade de Orlando.

LIM
O governo brasileiro precisa entender que existem limites no que pode ser contratado a uma empresa estrangeira. Comprar, ou desenvolver, ou copiar, por engenharia reversa, uma determinada peça, de uma empresa de outro país, é uma coisa. Outra, muito diferente, é encomendar lá fora sistemas fechados, que podem ser anulados ou sabotados facilmente em caso de conflito. O que precisamos é desenvolver, aqui dentro, mesmo, nossos projetos de defesa, e, quando não pudermos fazer isso, contratar técnicos e cientistas, no exterior, para trabalhar dentro de nossas fronteiras. Foi isso que os norte-americanos e os russos sempre fizeram. E nunca se arrependeram.

Bola na trave

Fernando Gabeira
O Estado de S.Paulo

A Copa do Mundo vai bem, dentro e fora dos estádios. Algumas previsões pessimistas, as minhas incluídas, baseadas em alguma evidências, não se confirmaram. Nesse sentido, Dilma tem razão em afirmar que a Copa, ao menos até agora, desmentiu os pessimistas. Mas enquanto o clima no País é de grande unidade, teoricamente favorável a falar dos anseios nacionais, Dilma aposta na fragmentação. Os dirigentes do PT iniciaram o discurso e ela o prolonga com verbos que me deixam perplexo.

Outro dia declarou que ninguém iria vergá-la. Na estrada nem sempre posso acompanhar tudo. Sinceramente, não conheço ninguém que queira vergar a presidente da República. Repassei os principais acontecimentos e não vi na oposição nada parecido com a ideia de vergar Dilma. Um verbo desse tipo é mais adequado, talvez, para relações hierárquicas ou na indústria de construção. Numa atmosfera democrática ninguém verga ninguém.

Um dirigente do PT lançou uma nota acusando nove jornalistas de disseminarem o ódio. Os textos desses jornalistas são públicos e o que há em comum entre eles é uma visão crítica do governo. A organização Repórteres sem Fronteiras protestou contra essa nota do dirigente do PT. E a reação dos parlamentares petistas foi afirmar que a Repórteres sem Fronteiras não deveria intrometer-se em assuntos internos do Brasil. Na verdade, eles estão propondo uma revolução que transformará a entidade em Repórteres com Fronteiras.

Os cubanos também pensam assim. Na leva de 70 intelectuais presos em 2004 havia muitos repórteres que cruzavam a ilha de bicicleta em busca de notícias. Acompanhei a trajetória de Raúl Rivero, poeta e escritor que dirigia a Cuba Press. Foi acusado daquelas coisas de sempre: ligações com o imperialismo, etc. Tive a oportunidade de escrever uma pequena introdução à edição em português do seu livro Provas de Contato. Rivero é um homem que ama Cuba e seu povo, no entanto, teve de se exilar na Espanha.

Não se trata de comparar a situação brasileira com a cubana. Mas de ter a noção de que esse desejo de controle da informação é típico de governos autoritários. Quem o conhece minimamente, como a Repórteres sem Fronteiras, se assusta e protesta ao ver a semente ser plantada.

Como explicar a reação do PT diante de um quadro que poderia favorecê-lo, uma vez que grande parte dos problemas previstos não ocorreu, ou bateu na trave? Isso não significa que não tenha havido problemas. Mas pesquisas com estrangeiros revelam um nível de satisfação e de críticas muito parecido com o dos turistas que nos visitam em épocas mais calmas.

Essa perda de contato com o momento da sociedade e a fixação numa áspera rivalidade política mostram também uma falta de horizonte que lembra o slogan dos punks em Berlim: "No future". Claro que os petistas não concordam com essa análise. O horizonte, para muitos deles, é aprofundar o controle e levar adiante os grandes destroços do socialismo, uma espécie de Titanic que no século 20 nos deixou, os sobreviventes, agarrados a precárias balsas no oceano da História.

Controlar o Parlamento não basta. Ter maioria no STF, também não basta. O discurso do ódio visa a transformar a campanha eleitoral em pancadaria e manter a imprensa sob a permanente ameaça de controle.
Mas o discurso do ódio vai bater na trave.

No momento em que escrevo o Brasil avançou para as quartas de final na Copa. O País mostrou-se hospitaleiro e despendeu enorme energia estimulando a seleção de futebol. Um vínculo nos uniu de ponta a ponta.

A tragédia é que a política se mostra incapaz de mobilizar parte dessa energia, achar novos vínculos nacionais em torno de grandes temas, como o combate à pobreza e à corrupção, a racionalização da imensa máquina que trava o País. Enfim, algumas Copas em que estamos lutando ainda pela classificação. Com otimismo de torcedor, ainda espero que este Mundial tenha reflexos na política e se aproveite o momento especial para discutir o futuro do Brasil. Por enquanto, com essa de vergar ou não vergar estacionamos na construção civil.

Sei que não é conveniente lembrar isto em período de festa, mas as contas do governo federal em maio foram as piores da História. Coligações e convenções desenrolaram-se no período e passaram quase em branco. Sorte delas. Não foi um bom espetáculo, sobretudo o das coligações. Pornopolítica, bacanal, foram chamadas de tudo e, apesar do apelo erótico, ninguém se interessou por elas.

Atacante do "pior time do mundo", o Íbis Sport Club, Mauro Shampoo disse-me numa entrevista: "O único título que ganhei na minha carreira é o de eleitor. O que fazer com ele?" Muita gente faz a mesma pergunta nas ruas. Não na expectativa de ouvir a sugestão de uma outra candidatura, mas apenas como pretexto para se lamentar, como se a esfera da política fosse algo fora de controle, marchando para um não acontecimento, sintetizado no "tudo dá no mesmo".

A sociedade quer mudanças, seria importante definir as principais e transformá-las num grande debate nacional.

Ainda faltam alguns jogos para o fim da Copa. Mas quando soar o apito final começa a contar o tempo para encarar este momento que a sociedade brasileira vive, empolgada com sua seleção, mas sem encontrar no universo da política outros motivos de orgulho de ser brasileiro. E com muito amor, porque o ódio não se encaixa na canção.

A Copa do Mundo trouxe tantas surpresas dentro de campo que o sentido do inesperado prevaleceu em muitas partidas, mostrando que no gramado tudo pode acontecer. Essa imprevisibilidade do futebol transplantada para nossa vida nacional é o que ainda alimenta a esperança de este país mudar.

Nota do autor: Este artigo foi escrito antes da queda do viaduto na zona norte de Belo Horizonte, cidade por onde passei no dia da queda, mas tarde para incluí-la. Isso constará do balanço da segunda fase da Copa.

A narrativa ausente

Demétrio Magnoli
O Globo 

“Decifra-me ou devoro-te!” O eco do desafio mitológico da esfinge de Tebas acompanha a divulgação das sondagens eleitorais. Na etapa final da campanha, não existem enigmas difíceis: a trajetória das intenções de voto diz tudo o que importa. Contudo, nas etapas prévias, o panorama é mais complexo. Os analistas têm destacado as informações sobre a vontade de mudança do eleitorado e os índices de rejeição da presidente que busca a reeleição. São dados relevantes na equação, mas não deveriam obscurecer um outro, que configura um paradoxo: o crescimento das intenções de voto nos candidatos de oposição continua longe de refletir a vontade majoritária de mudança. Se não interpretarem corretamente o paradoxo, os oposicionistas oferecerão a Dilma Rousseff um triunfo que ela não pode obter por suas próprias forças.

Publicamente, o PSDB e o PSB asseguram que o crescimento das candidaturas de Aécio Neves e Eduardo Campos é só uma questão de tempo – ou seja, de exposição no horário eleitoral. Na hipótese benigna, eles não acreditam nisso, mas falam para animar suas bases. A hipótese maligna é que se refugiam no pensamento mágico, acalentando o sonho de uma vitória por default. De um modo ou de outro, parecem longe de admitir o que as sondagens eleitorais insistem em demonstrar: ambos carecem de uma narrativa política capaz de traduzir o desejo majoritário de mudança.

A candidatura de Eduardo Campos sofre de um mal de origem. O ex-governador de Pernambuco era, até ontem, um “companheiro de viagem” do lulismo, e sua vice, Marina Silva, fez carreira política no PT, ainda que sua dissidência já tenha uma história. Desse mal decorre um frágil discurso eleitoral: a “terceira via”, ao menos na versão de Campos, é um elogio do “lulismo sem Dilma”. O discurso viola a verdade política, pois o governo Dilma representa, em todos os sentidos, o prolongamento dos mandatos de Lula. De mais a mais, é inverossímil, pois o eleitorado aprendeu que “Lula é Dilma” e “Dilma é Lula”.

A candidatura de Aécio Neves sofre de um mal distinto, evidenciado nas campanhas presidenciais de Geraldo Alckmin, em 2006, e de José Serra, em 2010: o PSDB não sabe explicar o motivo pelo qual quer governar o país. Oito anos atrás, Alckmin apostou suas chances na tecla da denúncia de corrupção. Há quatro anos, Serra investiu nas suas qualidades pessoais (a “experiência”) e no tema da “gestão eficiente”. A despolitização do discurso dos tucanos refletiu-se na apagada atuação parlamentar de Aécio, que nem sequer tentou transformar sua tribuna no Senado em polo de difusão de uma mensagem oposicionista. Não é fortuito que, a essa altura da corrida presidencial, suas intenções de voto permaneçam tão abaixo dos índices de rejeição à candidatura de Dilma.

O PSDB tem algo a aprender com o PT. Nos seus anos de oposição, o PT construiu uma narrativa sobre o governo e a sociedade que, mesmo se mistificadora, sintetizava uma crítica fundamental às políticas de FHC e indicava um rumo de mudança. Naquele tempo, o PT dizia que os tucanos governavam para a elite, acentuavam as desigualdades sociais e, no programa de privatizações, queimavam o patrimônio público no altar dos negócios privados. O PSDB desperdiçou seus anos de oposição sem fazer a defesa do legado de FHC, propiciando a cristalização da narrativa petista. Consequência disso, não formulou uma crítica de conjunto aos governos lulopetistas, limitando-se a aguardar que, num passe de mágica, o poder retornasse às suas mãos. Agora, Aécio só triunfará se produzir, em escassos meses, a narrativa que seu partido não elaborou ao longo de 12 anos.

Lula disse, várias vezes, e com razão, que “os ricos nunca ganharam tanto dinheiro como nos seus governos”. O PT governa para a elite, subsidiando pesadamente o grande capital privado enquanto distribui migalhas do banquete para os pobres, a fim de comprar seus votos. O contraste entre os valores envolvidos no Bolsa Empresário e os dispêndios no Bolsa Família contam uma história sobre o lulismo que o PSDB ocultou enquanto fingia fazer oposição. Terá Aécio a coragem de expô-la, mesmo às custas de desagradar ao alto empresariado?

Nos três mandatos do lulopetismo, o governo promoveu o consumo de bens privados, descuidando-se da geração de bens públicos. Os manifestantes de junho de 2013 foram rotulados pelo PT como “despolitizados” por apontarem essa contradição, levantando as bandeiras da educação e da saúde (“escolas e hospitais padrão Fifa”). No fundo, as multidões que ocuparam as ruas até serem expulsas pelos vândalos e depredadores estavam tomando uma posição sobre as funções do Estado. Terá Aécio a lucidez de reacender esse debate, do qual o PSDB foge sempre que o PT menciona a palavra “privatização”?

O sistema político do país vive um longo outono, putrefazendo-se diante de todos. A “solução” oferecida pelo PT é uma reforma política que acentuaria seus piores aspectos, junto com a rendição do Congresso à pressão dos “conselhos participativos”. Mas a raiz da crise crônica está fora do sistema político: encontra-se na própria administração pública, aberta de par em par à colonização pelos partidos políticos. Aécio promete operar uma cirurgia puramente simbólica, reduzindo o número de ministérios. Terá ele a ousadia de, desafiando o conjunto da elite política, propor um corte profundo, radical, no número de cargos públicos de livre indicação?

Ano passado, ouvi de uma assessora econômica tucana a profecia de que, antes do fim da Copa, um colapso econômico provocado pela inversão da política monetária americana decidiria a eleição presidencial brasileira. Era um sintoma da persistência do pensamento mágico que hipnotiza o PSDB desde a ascensão de Lula à presidência. Não: o Planalto não cairá no colo de Aécio. Para triunfar, ele precisa oferecer ao país uma narrativa política coerente.

Inimiga da perfeição

Dora Kramer
O Estado de São Paulo

A Copa do Mundo está aí mesmo para comprovar o óbvio: o prazo de validade das previsões, das catastróficas às mais otimistas, é ditado pelos fatos.

De onde não se deve brigar com eles, quando se impõem, nem por isso é aconselhável menosprezar os dados do presente como indicadores de um provável cenário futuro.

No caso do Mundial, os improvisos, os atrasos, os gastos, o histórico de maus serviços públicos e o clima adverso não apontavam para o desfecho que a realidade agradavelmente tratou de desmentir.

A expectativa tem dessas coisas. Acontece na política também. Em 5 de outubro de 2013, um sábado, o então ainda governador de Pernambuco, Eduardo Campos, e a ex-senadora Marina Silva, anunciaram uma aliança que na época foi interpretada como o grande lance dessa eleição.

Um gesto capaz de mudar todo o cenário, romper a polarização entre PT e PSDB. Juntando a experiência política e a boa avaliação administrativa de Campos ao capital de votos e simbolismo de Marina, a aparência era mesmo daquilo a que se chamou de "golpe de mestre".

O alvoroço e a inquietação tomaram conta das hostes petistas e tucanas. Uma das pesquisas próximas ao anúncio da aliança parecia confirmar a expectativa positiva.

Mas, logo os índices voltaram a cair, os problemas a se mostrarem maiores que as soluções e a festejada união perdeu o elã, dando lugar a um leve sabor de frustração.

Isso quer dizer que esteja fadada ao fracasso? Tal resposta só quem tem são os fatos, aqueles senhores absolutos do prazo de validade das previsões.

Falando neles, fato é que o efeito transformador do cenário não aconteceu. Ao menos até agora.

No oficial, os parceiros não falam em arrependimento. No paralelo, porém, ressaltam que a pressa e o improviso na formação da aliança não foram bons conselheiros.

A posição de vestal de Marina afugentou potenciais aliados de Eduardo Campos e a posição dela como coadjuvante não entusiasmou na mesma proporção aquele eleitorado de 2010. Dizendo de modo mais direto: a aliança não rendeu (ainda?) aquilo que se esperava.

Culpa de Marina Silva, que só cria problemas? O PSB tende a considerar que sim, mas se a gente olhar direitinho vai ver que apesar de todas as exigências a vontade dela não prevaleceu nas decisões do partido nos três maiores colégios eleitorais, São Paulo, Minas e Rio.

Responsabilidade de Campos, que poupa o ex-presidente Lula de críticas e com isso dá a impressão de que ainda possa se aliar ao PT?

Talvez, mas isso não tem nada a ver com a aliança e sim com as razões dele que até o momento não estão claras quais são.

Senhor da razão. 
O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse ontem que a presidente Dilma Rousseff escolherá o substituto de Joaquim Barbosa no "momento certo".

Tendo em vista a imprevisibilidade do resultado da eleição, é complicada a decisão sobre qual seria esse momento. Em tese a presidente não tem, como alega o ministro, o tempo que "for necessário".

Se deixar para depois e for derrotada ou o PT perde a chance de nomear mais um ministro do STF ou Dilma fará uma nomeação sem legitimidade para tal. Caso ganhe, aí sim será senhora do tempo.

Avalistas. 
A gente percebe a dimensão da influência da economia nessa campanha eleitoral quando dois pretendentes a governantes apresentam como avalistas dois ex-presidentes do Banco Central com alto capital de confiabilidade.

Aécio Neves para onde vai leva Armínio Fraga a tiracolo. Paulo Skaf mal recebeu o apoio do PSD e já anunciou Henrique Meirelles secretário de Fazenda, caso vença a eleição em São Paulo.

Muito além do vizinho

Alexandre Schwartsman
Folha de S. Paulo

A decisão das cortes americanas atua no sentido oposto. Essa jurisprudência cria incentivos para que credores se recusem a participar da renegociação

 Pode parecer estranho aos olhos de alguns, mas tanto o governo dos Estados Unidos quanto o FMI não ficaram particularmente satisfeitos com a decisão tomada pelas cortes americanas no que diz respeito à dívida argentina. Sem querer entrar no seu mérito jurídico (mesmo porque me falta qualificação para isto), acredito ser importante explicar o motivo do descontentamento daqueles que são tidos como defensores do imperialismo e, por extensão, dos direitos dos credores.

Tratemos de esquecer que o problema diz respeito à Argentina, ou a qualquer país pelo qual possamos nutrir simpatia ou antipatia referente à sua política econômica, e tentemos pensar em termos genéricos.

Quando uma empresa não consegue mais pagar seus credores, vai à falência: deixa de existir, seus ativos são liquidados e o resultado distribuído entre os credores, em geral seguindo alguma ordem de preferência estabelecida na legislação local.

Um país soberano, por outro lado, não costuma sumir nem pode ter seus ativos liquidados para pagamento de suas dívidas, por exemplo, entregando um pedaço de seu território, ou mesmo o direito às suas riquezas naturais.

Países não vão à falência; chegam, no máximo, mais próximos ao que seria uma concordata, isto é, negociam com seus credores o quanto será possível pagar da dívida original e, a partir daí, recomeçam a vida, normalmente em condições piores de acesso a crédito.

Ocorre que, ao contrário do caso de uma empresa concordatária, não há uma corte que garanta igualdade de tratamento a credores no caso de países soberanos. Alguns podem aceitar os termos propostos pelo devedor, mas outros, insatisfeitos, podem optar por se manter à margem do processo, problema que agora atormenta a Argentina, mas que já nos afligiu em outros momentos da nossa história.

Da mesma forma, quando uma empresa pede concordata, a corte pode determinar aos credores que não a executem, isto é, mantenham linhas de crédito (mantida, é claro, a condição que novos créditos não sejam sujeitos à renegociação); no caso soberano isto não é factível e cada um trata de sair tão rápido quando pode, o que costuma agravar a intensidade das crises.

Para lidar com estes problemas foi proposta, há pouco mais de dez anos, a criação do equivalente a uma corte internacional de falências (SDRM –Mecanismo de Reestruturação de Dívidas Soberanas na sigla em inglês), mas a ideia não vingou.

A alternativa adotada foi a inclusão de Cláusulas de Ação Coletiva nas novas dívidas. Estas permitem que credores que representem uma maioria qualificada (por exemplo, 75% do valor da dívida) possam alterar alguns termos do contrato, obrigando os demais a segui-los. Isto não resolve todos os problemas acima, mas atenua o incentivo a se tornar um credor recalcitrante.

A decisão das cortes americanas atua no sentido oposto. Mérito jurídico à parte, essa jurisprudência cria incentivos para que credores se recusem a participar da renegociação, pois passam a contemplar a possibilidade de receberem a totalidade da dívida, em vez de uma fração dela.

Em particular, no caso de um título com emissão modesta, podem, inclusive, comprar (com desconto expressivo) uma parcela suficientemente alta dele para impedirem a formação da maioria qualificada e assim bloquearem alterações nos termos do contrato.

Isso aumenta o risco da repetição do problema agora observado e torna o mercado internacional de capitais mais instável.

É esta a raiz do descontentamento dos EUA e do FMI. A nova jurisprudência pode tornar muito mais difícil o processo de renegociação de dívida, agravando a instabilidade financeira.

Não nutro qualquer simpatia pela política econômica argentina, mas é fundamental perceber que a decisão das cortes traz implicações que vão muito além do vizinho. Tornou-se ainda mais urgente achar formas de lidar com reestruturação de dívidas soberanas.

A Copa da elite vermelha

Guilherme Fiuza
Revista ÉPOCA

Os mensaleiros acabaram presos pelo maior representante da elite branca: Joaquim Barbosa

A elite branca insultou Dilma Rousseff na abertura da Copa do Mundo. É sempre assim: os companheiros fazem tudo conforme o manual, aí vem a elite branca com grosseria. Como alertou nosso Delúbio, o mensalão era uma conspiração da direita contra o governo popular. Deu no que deu: os mensaleiros acabaram presos pelo representante máximo da elite branca, Joaquim Barbosa. Ao criticar a preparação do Brasil para a Copa, o ex-jogador Ronaldo vocalizava a conspiração da elite branca. O roubo do juiz a favor do Brasil contra a Croácia não foi nada diante do roubo na construção dos estádios da Copa, disse o humorista Helio de la Pena. É um branco azedo.

Isso não vai ficar assim, não. A elite vermelha já iniciou sua reação. A primeira medida de impacto foi tirar Dilma e Lula de lugares públicos, pelo menos durante a Copa. Sábia medida. Como se sabe, os lugares públicos no Brasil estão completamente tomados pela elite branca - e ela é malcriada. A enteada e o filho do Brasil devem circular, nesse período perigoso, apenas pelos espaços democráticos: as assembleias do PT, os gabinetes do Planalto (evitar os corredores) e as cadeias obrigatórias de rádio e TY, lugares seguros, de onde não se ouvem os impropérios da elite branca.

O Supremo Tribunal Federal também está se tornando um lugar democrático e seguro, com a chegada à presidência de Ricardo Lewandowski, gladiador do PT no processo do mensalão. Um presidente amigo é tudo. O clima no STF não poderia ficar melhor com a ascensão de Luís Roberto Barroso à relatoria desse processo inventado pela elite branca. Barroso foi quem decidiu que a quadrilha petista não é uma quadrilha. Ele recebeu a relatoria declarando que "quem está preso tem pressa". É bonita a preocupação de Barroso com os companheiros da Papuda. Apressemos esse infortúnio. O Brasil e sua elite branca podem esperar sentados pela devolução do dinheiro que os apressados desviaram.

O Tribunal Superior Eleitoral também se tornou um lugar aconchegante para Dilma e Lula. Quem assumiu a presidência do TSE, logo na corrida presidencial? O menino prodígio Dias Toffoli, que compôs, com Lewandowski, a dupla de capa e espada do PT no julgamento do mensalão. Será que o comício eleitoral de Dilma em cadeia obrigatória de rádio e TV na véspera àa Copa suscitará alguma punição à presidente?

Santa ingenuidade, Batman... O juiz do jogo foi advogado do PT em três campanhas presidenciais. Só essa elite branca desmiolada não entende para que serve a inoculação de um militante disciplinado no aparelho de Estado. Vá em frente, companheira Dilma! Os pronunciamentos oficiais foram criados justamente para a senhora vender o peixe do seu pessoal, sem ter de ouvir essa burguesia indócil, que infesta os estádios de futebol e as praças públicas.

O Brasil é um país injusto. Lula e Dilma abriram os cofres da nação para a orgia da Copa. Agora têm de ficar se escondendo por aí, acuados pela elite branca. Mas não há de ser nada. Apesar do derrame bilionário nos estádios (superior à soma dos gastos nas Copas da Alemanha e África do Sul), apesar de trocar a chance de investimento sério em transportes por remendos de última hora, que darão para o gasto, o governo popular triunfará. Com sua famosa honestidade intelectual, os companheiros dirão que os pessimistas duvidaram da Copa no Brasil, mas ela aconteceu mesmo assim. A história suja da preparação dessa Copa sumirá sob um brado triunfal qualquer, tipo "somos brasileiros e não desistimos nunca". O prontuário não deixa dúvidas de que eles não desistem mesmo.

E lá vem notícia ruim na imprensa burguesa golpista: o país volta a cair no ranking de investimento estrangeiro direto. Mas por que, afinal, os investidores fogem do Brasil? Engana-se quem pensa que seja por causa das intervenções populistas desastrosas, do setor elétrico à política econômica (contabilidade criativa), passando pela Petrobras e pelo grande elenco de vítimas do chavismo brasileiro, vizinho de porta do calote argentino. Nada disso.

Os investidores fogem do Brasil com medo da elite branca. Se o dinheiro continuar a ir embora, o jeito será pedir emprestado aos tesoureiros ricos da elite vermelha.

Pioras, rápidas e imprevistas

Vinicius Torres Freire
Folha de São Paulo

Indústria embica em recessão pior do que estimada; cresce risco de recessão do PIB

Vai haver recessão na indústria brasileira neste ano, recessão talvez feia. Isto é, as fábricas vão produzir menos do que no ano passado. Talvez menos do que em 2008. Na verdade, desde então, a quantidade de produção industrial não foi muito além desse ano do início da Grande Recessão mundial.

Maio foi ruim. Há risco razoável de junho ser pior. A coisa desanda em ritmo rápido, imprevisto.

O IBGE informou que a indústria caiu pelo terceiro mês seguido em maio. A produção despenca tanto por causa do consumo de bens duráveis (carros, eletrodomésticos etc.), que definha, como pela despesa agonizante com bens de capital (equipamentos para a produção).

Ou seja, não há dinheiro ou vontade de comprar bens mais caros, ao menos bens nacionais, ou não há dinheiro ou vontade de investir em aumento ou melhorias de produção.

De janeiro a maio, a produção industrial encolheu 1,6% em relação aos primeiros cinco meses de 2013. No mesmo período, a produção de bens de capital encolheu quase 6%. A de bens de consumo duráveis, cerca de 3%. A indústria não cresce faz três trimestres. Recessão.

Em maio, a produção de veículos, segundo a medida do IBGE, caiu espantosos 20% em relação ao mesmo mês do ano passado. Difícil esperar coisa melhor do mês de junho, pois as empresas estão parando linhas de produção, dando férias coletivas em massa, quando não estão demitindo mesmo.

Segundo comentário do economista Rodrigo Miyamoto, em relatório de ontem do departamento de economia do Itaú, junho vai ser ruim mesmo.

"Para junho, esperamos nova retração na produção industrial, em linha com os recuos da confiança do empresário industrial, os altos estoques e dados de consumo de energia. Os índices de confiança continuam em baixo patamar histórico e recuaram novamente em junho. Os estoques na indústria voltaram a aumentar e indicam uma menor produção à frente. No mesmo sentido, os dados de consumo de energia também apontam para queda. Finalmente, há o impacto negativo sobre as horas trabalhadas relacionado à Copa do Mundo de Futebol", escreve o economista.

Finda a "suspensão do tempo", os dias de anestesia festeira da Copa, os brasileiros que prestam alguma atenção ao noticiário de economia vão ter notícia de que o país pode ter entrado numa recessãozinha no primeiro semestre.

Torna-se quase consenso a estimativa (chute muito bem e honestamente informado) de que a produção econômica, o PIB, encolheu no segundo trimestre, o que deve provocar a revisão para abaixo de zero da taxa pífia de crescimento do primeiro trimestre.

Na prática, por ora, não vai fazer diferença a não ser entre a minoria, no entanto influente, que se ocupa desses assuntos. Vai haver algum bafafá político-midiático, pois.

No entanto, a velocidade na qual a economia desce a ladeira é bem maior do que a imaginada até, digamos, março, quando não se previa que a degringolada teria efeitos na vida da massa do eleitorado.

Dado o andar da carruagem, porém, as dificuldades de encontrar ou manter emprego devem ficar mais evidentes ao final do terceiro trimestre (quando entrar setembro), ao menos nas grandes metrópoles.

O mata-mata depois da Copa

Ruth De Aquino
Revista ÉPOCA

O eleitor consciente não quer um presidente que pense e aja como o técnico Felipão

Que país é este que melhora quando tudo para, e a bola rola? Os crimes quase somem, só se pensa positivo, o trânsito flui, os homens choram mais que as mulheres, e o Brasil dá ao mundo uma lição de civilidade e bom humor, ao reverenciar craques de fora e confraternizar entre si e com estrangeiros. O povo se dedica a torcer e festejar, mesmo quando a Seleção decepciona. Hospedar celebrações é uma vocação nacional.

Não é, porém, o futebol que determinará o perfil deste país nos próximos quatro anos. Manter ou mudar? E mudar quem, quanto, onde, com que velocidade para ajudar o Brasil a competir sem vexame em educação, saúde, transporte, segurança, meio ambiente e infraestrutura? O mata-mata eleitoral depois da Copa, quando pendurarmos as rezas, é decisivo e leva jeito de ser desleal. Vemos políticos decadentes e reincidentes, que não resistiriam a um tira-teima. Muitos passes são negociados na alcova. Apesar da bacanal partidária, a realidade da eleição se limita, no fundo, a dois times: situação e oposição. Os titulares querem decidir tudo logo. O pessoal no banco luta por uma semifinal e uma final. O mata-mata deverá dividir o país.

Por mais que o brasileiro goste de Felipão, de seu ar bonachão e suas fanfarronadas, o eleitor consciente não quer um presidente que diga, como ele: “Gostou, gostou; não gostou, vai para o inferno”. Felipão deu essa declaração na quinta-feira para jornalistas, na véspera do confronto com a Colômbia. Felipão sempre reagiu mal a críticas à escalação ou a seu estilo. Dias antes, chamara só alguns jornalistas amigos para dar entrevista. “Aqueles que não foram convidados, é talvez porque eu não goste tanto”, afirmou Felipão. Ele criticou a imprensa e deu umas cutucadas ferinas, sem citar o nome, em seu antecessor, Mano Menezes. Só faltou lamentar a herança maldita.

A Copa melhorou o humor nacional. Não se respira nada a não ser futebol, e o brasileiro vai para os bares torcer pelas zebras simpáticas. Não há a mais pálida lembrança do caos previsto nos aeroportos ou nos estádios, só reclamações periféricas de obras incompletas, filas e falta de comida. No Rio de Janeiro, as maiores armas não são fuzis ou metralhadoras, mas coxinhas de frango, rodízio de churrasco, caipirinhas, sol e telão na praia, namoros em vários idiomas, feijoada e petiscos nas favelas. Em que próxima oportunidade as cariocas verão tantos homens juntos, animados e disponíveis? Talvez em 2016.

Nossa maior tragédia, até a semana passada, era a queda de um “viaduto da Copa” em Belo Horizonte, com mortes. E a ação criminosa de cambistas. A gangue mais poderosa, suspeita a polícia, envolve um funcionário estrangeiro da Fifa. Muito free-lancer vende ingressos descaradamente nas redes sociais, por uma fortuna. Durante uma semana, tentei em vão comprar oficialmente um ingresso no site da Fifa para assistir ao jogo Alemanha e França no Maracanã. Uma amiga no Facebook disse que tinha um amigo “repassando ingressos”. Entrei em contato. Ele queria R$ 3.500 pelo ingresso de R$ 660, “sem sol nem chuva”. Sério, a quem apelar?

Entre a Copa e a eleição, teremos pouco tempo para debater nossos desafios e entender como cada partido pretende escalar os times de governo. Algumas semelhanças os políticos têm com a Seleção. Falta meio de campo. Os partidos se concentram no ataque e na defesa, abusam de passes errados. Falta conjunto, sentimento de equipe. Talentos individuais não mudam o rumo do Brasil. O desespero faz o capitão do time (ou a capitã) se esconder, com medo de falhar na frente de todos e bater para fora. Líderes de partidos dão chutões para a frente, sem saber onde a Brazuca vai parar.

Dá vontade de dizer que jogar limpo e cadenciado, com criatividade, honestidade e objetivos concretos, para todo o povo levar vantagem, talvez credenciasse nossos políticos a ganhar um voto de coração, orgulho e consciência. Do jeito como anda nossa política, ela desperta vaia, indiferença ou idolatria. Todos esses sentimentos conduzem à derrota do Brasil nos próximos quatro anos.

Como atrair os eleitores juniores, se a maior novidade recente do Congresso foi o implante capilar de Renan Calheiros? Como recuperar a confiança no exercício da política, se as promessas são sistematicamente quebradas, como se nosso voto fosse para cambistas? Os gols contra do Brasil são péssimos serviços públicos, corrupção em todos os níveis de governo, assaltos seguidos de morte em qualquer lugar e hora, infraestrutura precária, inflação alta, crescimento baixo e aumentos indiscriminados. Os planos de saúde há 11 anos sobem mais que a inflação e terão reajuste de 9,5%, o maior desde 2005. Esse é o verdadeiro mata-mata brasileiro.

Dependência de primários é a maior em três décadas

O Estado de S.Paulo 
Editorial 

A balança comercial registrou um superávit de US$ 2,36 bilhões em junho e um déficit de US$ 2,49 bilhões no primeiro semestre. Pela primeira vez em mais de três décadas, as exportações de produtos básicos representaram mais da metade das vendas (50,8%) no semestre, cabendo apenas 34,4% aos manufaturados.

Nem a queda do déficit comercial no mês indica mudança de tendência nem uma avaliação mais ampla do comércio exterior, em 2014, dá alento ao balanço de pagamentos - o déficit na conta corrente está em US$ 81,9 bilhões, em 12 meses.

As exportações caíram 3,2%, entre junho de 2013 e junho de 2014, e as importações caíram mais: 3,8%. A dependência da exportação de produtos primários acentuou-se, pois enquanto estas cresceram 9,5%, pelo critério de média diária, as de manufaturados diminuíram 19,3% - um desastre, ainda que influenciado por um fator principal: o estreitamento do mercado argentino.

O Brasil foi salvo, do lado das exportações, pelo aumento de 11,4% das vendas para os Estados Unidos. A retomada da economia americana, ainda que lenta, favorece o País, segundo o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro. As exportações de petróleo em bruto também ajudaram no semestre.

Mas a queda das importações foi o fator decisivo do resultado do mês passado: diminuíram as compras de veículos automotores e partes (19,6%), de equipamentos mecânicos (19,2%), de equipamentos eletroeletrônicos (18,7%), de itens siderúrgicos (12%) e de adubos e fertilizantes (31,5%). Isso significa queda da demanda da indústria - e, portanto, do investimento. Houve "moderação atípica na atividade econômica" no período de jogos da Copa do Mundo, avaliou o boletim do Departamento Econômico do Bradesco. O banco prevê um pequeno déficit na balança comercial em 2014, pouco superior a US$ 1,5 bilhão, enquanto o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior ainda espera um superávit de US$ 3 bilhões a US$ 4 bilhões.

Tão ou mais grave que o encolhimento do saldo comercial no primeiro semestre foi a queda de 2,8% na corrente de comércio (soma de importações e de exportações), de US$ 231,9 bilhões para US$ 223,6 bilhões. O comércio exterior fornece, assim, um duplo sinal negativo: não gera saldo comercial suficiente para atenuar o déficit externo e a corrente de comércio confirma a desaceleração em curso.

A indústria encolhe

Miriam Leitão
O Globo 

A queda forte da produção industrial de maio, de 0,6%, confirma o sentimento geral de desânimo do setor. Por qualquer ângulo que se olhe, o número é negativo. O acumulado em cinco meses mostra uma queda de 1,6%; na comparação com maio do ano passado, há uma redução de 3,2%. Além da pouca atividade doméstica, há também dificuldades para exportar produtos manufaturados.

Os dados dos últimos dias mostram o seguinte quadro: a indústria está encolhendo, o Tesouro teve o pior déficit primário da série histórica, e abalança comercial fechou o semestre no vermelho. O saldo de janeiro a junho é negativo em US$ 2,4 bilhões, com queda das exportações, das importações, e, portanto, da corrente de comércio. A crise na Argentina já está afetando as exportações de manufaturados, que caíram 10% sobre o mesmo período de 2013.

A boa notícia é que o déficit externo diminuiu. Já houve momento do ano em que estava com US$ 6 bilhões e está agora com US$ 2,4 bi, após um bom superávit no mês de junho. Em parte, isso se deve ao aumento de produção e de exportação de petróleo. O déficit do ano passado no setor de petróleo ficou em US$ 20 bilhões, este ano pode fechar, nas previsões do governo, em US$ 15 bi.

A pior notícia dos dados da indústria é a queda de 2,6% da produção de bens de capitais em maio, em relação a abril, e de 9,7%, em relação a maio do ano passado. O número em relação ao mesmo mês de 2013 pode estar exagerado pelo aumento grande que houve de produção de caminhões para a renovação da frota com novos motores de baixa emissão. Mas está havendo queda até de um mês em relação ao anterior. E no ano já acumula redução de 5,8%.

No caso da balança comercial, ter déficit não é, necessariamente, um problema. Quando o volume de comércio está aumentando, ou quando as importações são de máquinas e equipamentos, a economia vai ser beneficiada por crescimento ou por um futuro aumento da produtividade. Nenhum problema. A questão é que o resultado divulgado pelo Ministério do Desenvolvimento mostrou que as importações de bens de capital caíram 5,1% no primeiro semestre, e isso reforça a percepção de que os empresários estão pouco confiantes com a economia e reduzindo investimentos. As importações em geral encolheram 3% na média diária. O déficit ficou menor porque o país importou menos combustíveis, 8%, e exportou mais petróleo.

Pelo lado das exportações, caíram as vendas externas que deveriam subir, e cresceu a dependência dos produtos básicos, como soja e minério de ferro. A exportação de produtos manufaturados recuou 10% no semestre, com retração de 31% nos automóveis e 25% nas autopeças. As vendas de produtos semimanufaturados também caíram 8,5%. Em compensação, vendemos mais produtos básicos, como carnes e soja.

A exportação de petróleo bruto cresceu 29% e ajudou a diminuir o rombo do setor energético no primeiro semestre. Ainda assim, o país ainda vive uma carência muito forte de produtos ligados ao setor de e nergia. Temos importado muito de tudo: gasolina, óleo diesel, gás, nafta petroquímico, querosene de aviação.

O quadro negativo revelado ontem pelos dados do IBGE em relação à indústria é muito maior, mais generalizado e permanente do que supõe o governo. O Ministério da Fazenda tem administrado os mesmos remédios que já foram usados e que não produziram nenhum resultado, como o pacotinho de não elevação do IPI de carros e alguns outros produtos. A indústria precisa mais que um medicamento temporário, tópico e setorial. Os dados confirmam as previsões de um ano de crescimento do PIB em torno de 1%, como registra a última pesquisa Focus, e consolidam o cenário de desânimo na economia.


A indústria perde fôlego

Celso Ming
O Estado de São Paulo

Até há alguns meses, os números negativos a respeito do desempenho da indústria apenas vinham se sucedendo. Agora, a queda está em aceleração, sem perspectiva de melhora.

A produção industrial caiu 0,6% em maio (sobre abril), perfazendo uma queda de 1,6% nos primeiros cinco meses do ano (sobre igual período de 2013). É positiva em apenas 0,2%, uma vez considerado o período dos últimos 12 meses.

O desempenho do setor de bens de capital (máquinas e equipamentos) é ainda mais desanimador porque demonstra a baixa disposição em investir. Houve queda de 5,8% no acumulado de janeiro-maio.

O raquitismo da indústria já ficara evidente na análise do comportamento da balança comercial do primeiro semestre. E repete-se em outros números atualizados igualmente ruins. O Indicador de Nível de Atividade da indústria paulista da Fiesp acusou queda de 0,9% em maio (em relação a abril). E o desempenho das vendas do setor de veículos, ontem divulgado pela Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), apresenta queda de 9,8% em junho (em comparação com maio) e de 7,3% na acumulada dos seis primeiros meses do ano.

É pobre o diagnóstico repetido por autoridades do governo de que o comportamento insatisfatório da indústria é o resultado da fraca recuperação econômica global. A crise começou em 2007, teve seu auge em 2008. Mesmo depois disso, seu impacto no mercado interno foi a tal "marolinha" de que o então presidente Lula se vangloriou. O nível da atividade da indústria está hoje 5,5% abaixo do que estava em 2011, como reconheceu ontem o gerente da Coordenação de Indústria do IBGE, André Macedo.

Embora não se possam ignorar as limitações do mercado externo, é preciso admitir que os principais problemas estão aqui dentro e são o resultado das opções de política econômica.

A indústria brasileira perde competitividade mês a mês porque enfrenta custos maiores também a cada mês. Embora o câmbio não ajude, os custos vão se elevando não só em carga tributária e carências da infraestrutura, mas, também, como vem apontando o Banco Central, no fator trabalho. O pleno-emprego e o aumento dos salários acima dos índices de produtividade pesam cada vez mais. Não podem ser compensados por uma desvalorização do real em relação ao dólar. A decisão do governo é usar o câmbio como âncora para os preços.

Não dá para dizer que o pior já passou e que, daqui para a frente, a indústria começará a recuperar-se. Os medidores do nível de confiança mostram desânimo. Por isso, as projeções sobre o comportamento da economia e da indústria mostram prostração. Ontem, a Fiesp projetou queda de 4,4% na produção industrial paulista em 2014.

O governo não admite publicamente seus erros. Limita-se a retocar a maquilagem, como mostrou com seu último pacotinho de bondades, que não foi além de prorrogar por mais seis meses a redução de IPI para o setor de veículos.

Isso mostra que não pretende apresentar nada capaz de reverter a atual situação antes das eleições.

O medo hoje no Brasil é do que já é conhecido

Cláudia Vassallo
Revista EXAME

O brasileiro tenta fugir de um espectro que já conhece. Teme que não venham coisas novas, que estejamos fadados a ser um país do pelotão intermediário

Alexandre Battibugli/EXAME 
E o futuro?: o desemprego hoje é baixo, mas uma hora 
os anos sucessivos de baixo crescimento vão cobrar sua fatura

São Paulo - "Se Lula for eleito, 800 000 empresários deixarão o país.” O empresário Mário Amato, ex-presidente da Fiesp, sempre foi conhecido por suas bravatas e declarações politicamente incorretas, frequentemente tachadas de reacionárias.

A ameaça de êxodo do empresariado, às vésperas da eleição presidencial de 1989, só corroborou sua fama. Lula não foi eleito na ocasião — e, mesmo que assim fosse, 800 000 empresários não deixariam o Brasil, como não deixaram após o confisco do governo Fernando Collor e nos anos deinflação estrondosa que se seguiram.

A declaração de Amato era fruto do medo, não importa se justificado. E o medo é o mais cruel inimigo da iniciativa.

O Brasil de 2014 é um Brasil diferente daquele de 1989. Vinte e cinco anos foram suficientes para transformar o país e sua economia — de maneira geral, para melhor.

O país às vésperas da primeira eleição direta após um longo período de ditadura era uma quase piada, um zé-ninguém no cenário internacional, com uma indústria montada sobre sucata, uma inflação pornográfica, sem classe média e onde a pobreza significava quase sempre indigência.

O Brasil de hoje tem uma economia quase duas vezes maior, conta com uma renda média 44% superior e uma escala respeitável: somos o quarto maior mercado de automóveis do mundo, o terceiro de cosméticos e produtos de higiene pessoal, o sétimo em comércio eletrônico — e por aí vai. Não vamos desprezar o que já conseguimos, não seria justo. 

O problema é que o medo está de volta. E não é o temor do desconhecido, do espectro de um governo supostamente radical, de um bicho-papão expropriador. Desta vez o brasileiro vê e tenta fugir do fantasma daquilo que já conhece.

Tem medo de que não venham coisas novas, de que a vida pare de melhorar, de que sejamos condenados a ser uma nação do pelotão médio — emparedada entre as economias de baixo custo e as inovadoras. Estamos contrariados e emburrados porque nossa expectativa de progresso não se realizou — pelo menos, não na velocidade que queríamos.

Não há nada de reacionário nesse sentimento. Ele seria revolucionário se um de seus efeitos colaterais não fosse tremendamente perverso. O Brasil não parou só para ver a Copa. Em 2014, empresas, consumidores, investidores decidiram sentar e esperar o que vem por aí, após as eleições.

É essa paralisia que explica uma projeção de crescimento de pouco mais de 1% do PIB num ano que, se não é de euforia, também não é de depressão mundial. É esse “esperar para ver” que também ajuda a derrubar a taxa de investimento num país que precisa de tudo para voltar a se mexer.

Nos dois últimos anos, os investimentos públicos e privados só não foram menores do que os de 2009, quando a economia global estava de joelhos. Os efeitos são democráticos.

O desemprego no Brasil é, hoje, um dos mais baixos da história. Mas o saldo de criação de postos em maio foi o menor em 22 anos. Dizer isso não é ser do contra. É render-se aos fatos. Uma hora, anos sucessivos de baixo crescimento vão cobrar a fatura no que é mais precioso para o povo e para as intenções eleitorais dos políticos: trabalho e renda.

O medo, a apatia, o desalento são reações facilmente explicáveis no contexto em que vivemos. O problema é que não são solução para nada. Só aprofundam o buraco do qual tentamos escapar. Como ocorreu no longínquo 1989, a saída pelo aeroporto vem sendo cada vez mais citada por parte da sociedade brasileira. No geral, é só mais uma bravata.

As elites — esse palavrão que rotula gente que teve a sorte, a oportunidade e/ou a competência para ter mais renda, mais educação, mais comida, empregos melhores — não têm o direito de se acovardar num momento em que o país precisa escolher entre ficar onde está e avançar, ainda que com sacrifícios para todos.

É em momentos em que tudo parece nebuloso que a razão tem de vir à tona e as vozes devem se levantar. É hora de pressão não por privilégios, mas para que se faça o melhor para o país. Não adianta querer mudanças. É preciso exigir, por meios democráticos, que elas aconteçam. É preciso provocá-las. Sentar, chorar ou comprar uma casa em Miami serão só admissões de nosso fracasso como povo.

Brasil vai demorar mais para alcançar renda de países ricos, diz OCDE

BBC Brasil

Aumentar a produtividade é um dos desafios para países em desenvolvimento


Um relatório divulgado nesta quarta-feira pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que reúne 34 dos países mais industrializados do mundo, afirma que o Brasil não conseguirá atingir o nível de renda média dos países desenvolvidos até 2050 caso sejam mantidas as taxas de crescimento atuais.

A previsão distancia o Brasil de outros países cujo crescimento chamou atenção nos últimos anos, como a China.

Segundo o relatório, China, Panamá e Cazaquistão estão no caminho certo para equiparar sua renda à de países desenvolvidos nos próximos 35 anos.

Assim como o Brasil, ficaram para trás o México, Colômbia e a África do Sul, entre outros.

"Muitos dos países que esperávamos que se aproximariam das economias avançadas até a metade do século não vão conseguir com as taxas de crescimento de hoje", disse o secretário-geral da OCDE, Angel Gurría.

'Armadilha'
O documento Perspectivas sobre o Desenvolvimento Mundial 2014 afirma que, nas próximas décadas, as economias em desenvolvimento continuarão a crescer mais rapidamente do que as de países mais avançados.

A participação de países que não fazem parte da OCDE no PIB mundial superou a de países da organização em 2010.

O relatório destaca que a desaceleração nas taxas de crescimento de economias mais maduras é "natural", mas afirma que isto se tornou um desafio para o desenvolvimento dos países.

"Aumentar a produtividade poderia ajudar a reforçar o crescimento e reduzir a diferença nos padrões de vida em relação às economias avançadas mais rapidamente", afirmou Gurría.

A produtividade do trabalho na maioria dos países emergentes é inferior à metade da dos países desenvolvidos, segundo o estudo.

Brasil
No Brasil, houve uma queda no nível de produtividade total dos fatores – ou seja, o quanto a economia produz com a mesma quantidade de capital e horas trabalhadas— entre 2000 e 2008, na comparação com países desenvolvidos, de acordo com a OCDE.

O mesmo aconteceu no México e na Turquia.

China e Índia apresentaram crescimento nos índices de produtividade de máquinas e trabalhadores.

A OCDE analisou diversos fatores que afetam a produtividade dos países.

No caso brasileiro, são citados resultados ruins que o país tem no Pisa (exame internacional que afere o nível de educação) e os investimentos, que são menores do que os feitos em alguns países da Ásia.

O relatório aborda também pontos em que o país conseguiu avançar mais do que outras economias emergentes, como o aumento dos índices de emprego, a diminuição da desigualdade social e os investimentos em pesquisa e desenvolvimento.

Para aumentar a produtividade nos países em desenvolvimento, os especialistas sugerem diversificação em áreas de maior valor agregado, como agricultura, indústria e serviços, assim como reformas econômicas e investimentos em inovação.

Para CNI, quadro da indústria é ‘desolador’

Laís Alegretti  
Agência Estado

Em  maio, houve queda quase que generalizada entre os indicadores acompanhados pela entidade; mercado financeiro prevê queda de 0,14% na produção industrial em 2014

A indústria apresentou em maio a terceira queda seguida da atividade, segundo dados divulgados nesta quinta-feira, 3, pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Na comparação com o mês imediatamente anterior, com ajustes sazonais, é a terceira vez consecutiva que há retração dos indicadores industriais, com exceção das vendas reais do setor.

O gerente executivo de pesquisa e competitividade da CNI, Renato da Fonseca, reconheceu que o quadro da indústria é "desolador", mas diz que já houve "crises piores". Fonseca atribuiu a situação ruim da atividade industrial aos problemas de competitividade do setor. "A produtividade do trabalho não cresce há muitos anos e o custo do trabalho está crescendo. Você tem hoje um cenário de confiança da indústria muito baixa e dos consumidores também", disse.

O crescimento da indústria está ligado à confiança, segundo a CNI, e os juros elevados e o difícil acesso ao crédito atrapalham. "A tendência é o ciclo se agravar, então tenho que dar choque para resolver isso. É preciso acelerar as medidas de combate ao custo Brasil", disse Fonseca, acrescentando a necessidade de desonerar o investimento. Questionado sobre o recente anúncio do governo federal de prorrogação de medidas de apoio à indústria, ele argumentou que o problema anterior dessas medidas era a previsibilidade.

"Para o investimento crescer, você precisa ter segurança de que mecanismos de redução de custos são duradouros", disse. Em julho, a CNI apresentará aos candidatos à presidência as demandas do setor industrial. 

Os indicadores industriais de maio, quando comparados a abril, mostraram queda - exceto as vendas reais, medidas pelo faturamento do setor, que subiram 0,3%. Nessa base de comparação, as horas trabalhadas caíram 0,4%, o emprego recuou 0,3%, a massa salarial real apresentou queda de 0,9% e o rendimento médio real caiu 0,2%. 

Na comparação com maio de 2013, as vendas caíram 1,9% e as horas trabalhadas recuaram 2,4%. Por outro lado, o emprego apresentou alta de 0,6% e a massa salarial subiu 0,5%. O rendimento médio real ficou estável.

No último boletim Focus, divulgado na segunda-feira, 30, os economistas apontaram que a produção industrial deve ter um recuo de 0,14% em 2014. A CNI, entretanto, prevê uma alta de 1,7% no PIB industrial neste ano, segundo documento divulgado em abril. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou nesta quarta-feira, 2, que a produção industrial recuou 0,6% na passagem de abril para maio, o terceiro resultado negativo consecutivo, segundo dados da Pesquisa Industrial Mensal. Apesar dos dados ruins, a CNI ainda não apresentou nova previsão para o crescimento do PIB industrial neste ano, que é de 1,7%, segundo documento divulgado em abril. Segundo Fonseca, novas projeções serão divulgadas em julho, no Informe Conjuntural. 

Setores. De acordo com os dados da CNI, a utilização da capacidade instalada caiu na maioria dos setores em maio de 2014 ante o mesmo mês do ano passado. Só houve aumento da capacidade instalada em seis dos vinte e um setores pesquisados. A alta ocorreu em móveis, têxteis, bebidas, farmacêuticos, produtos diversos e outros equipamentos de transporte. Por outro lado, as queda mais acentuadas foram em impressão e reprodução, veículos automotores, alimentos e produtos de metal. 

Veículos. 
O setor de veículos automotores foi o que apresentou a maior queda nas horas trabalhadas na produção e nas vendas reais em maio, segundo CNI. Houve recuo, respectivamente, de 15,9% e 15,3% na comparação de maio de 2014 com o mesmo mês do ano passado. 

Segundo a CNI, esse resultado sugere "expressiva queda" no ritmo de atividade do setor. A queda na área de veículos foi mais intensa que a registrada para o setor industrial de modo geral, cujo recuo das vendas reais foi de 1,9% e de 2,4% nas horas trabalhadas. Também houve queda na indústria de veículos automotores de 5,4% na capacidade instalada, de 4,8% no emprego e de 12,9% na massa salarial.

Copa. 
Fonseca disse que os feriados devido aos jogos da Copa do Mundo podem atrapalhar a atividade econômica, mas lembrou que o impacto varia para cada setor. "O comércio, por exemplo, deve ter sentido mais que indústria", disse. "Minha preocupação não é com junho. A preocupação é maior. A indústria não cresce desde 2010. Isso deixa claro que não estamos com problema conjuntural, e sim um problema de competitividade", reforçou. 

Empresas não conseguem pagar a conta de luz e param de produzir

Renée Pereira 
O Estado de S. Paulo

EPITACIO PESSOA/ESTADÃO 
Alumínio. Importação cresceu 888% entre janeiro e maio

O elevado preço da eletricidade no mercado à vista, por causa do baixo nível dos reservatórios, tem criado uma série de distorções no setor elétrico e na economia. Para algumas empresas, que tinham contrato de suprimento de eletricidade direto com as geradoras, ficou mais lucrativo deixar de produzir, importar o produto e vender a energia no mercado à vista. Por outro lado, há companhias que não aguentaram o custo alto da conta, ficaram inadimplentes e tiveram a energia cortada.

Numa situação normal, com reservatórios cheios e chuvas na média, o preço do mercado à vista, também chamado de PLD, pode ficar meses abaixo dos R$ 100 o MWh. Em janeiro de 2012, por exemplo, estava em R$ 12. Mas quando há um stress no clima e o volume de chuva fica abaixo do esperado, o preço explode. Em quase todo o primeiro semestre deste ano, o PLD, ficou em R$ 822 o MWh, o limite máximo estabelecido. Nas últimas semanas, o preço recuou um pouco - para entre R$ 356 e R$ 547 -, mas continua em patamar alto.

Com esse preço, empresas que tinham energia comprada em contratos de longo prazo, por menos de R$ 100, fecharam as portas e embolsaram o valor do PLD, vendendo a energia no mercado à vista. No primeiro semestre, por exemplo, a diferença foi de R$ 722 por MWh. Segundo fontes, várias unidades do setor de ferro-ligas preferiram reduzir a produção e receber pela energia não consumida.

No setor de alumínio, a história foi diferente, mas com resultado semelhante. Com os altos custos do País e o enorme estoque mundial, as empresas fecharam linhas de produção e reduziram o volume fabricado.

Para abastecer o mercado interno, que continua em alta, o setor teve de importar alumínio. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, de janeiro a maio, as importações de alumínio bruto cresceram 888% em relação a igual período de 2013. O mesmo ocorreu com ligas de alumínio, com avanço de 193%. 

Nesse mesmo período, a produção caiu 16,1%. “Desde 2010, estamos avisando que o preço da energia está muito alto para produzir no Brasil”, diz o presidente da Associação Brasileira do Alumínio (Abal), Adjarma Azevedo. Dos 28% de queda na conta de luz, promovida pela MP 579, que renovou as concessões de geração e transmissão de eletricidade, a indústria de alumínio só conseguiu 5,6%. Consequentemente, ao reduzir a produção, sobrou energia para essas empresas, que lucraram com o preço alto.

O PLD também baliza o preço da energia negociada nos contratos bilaterais de longo prazo. Hoje, quem quiser comprar energia por um ano a partir de 2015 terá de pagar mais de R$ 300 o MWh. O problema é que muitas empresas tinham contratos de dez anos, por exemplo, vencendo este ano, com custo de R$ 60 o MWh. 

Com a explosão dos preços, elas ficaram sem contratos e sem condição de pagar a nova conta de luz com base no PLD. Até este mês, oito empresas foram desligadas da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) este ano por descumprimento de obrigações. Em 2013, foram 19. Há ainda aquelas que continuam no mercado por decisão judicial, como é o caso da indústria têxtil Teka.

PARA ENTENDER

CCEE funciona como bolsa
A Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) viabiliza a compra e venda de eletricidade no mercado de energia brasileiro. A CCEE faz a contabilização e a liquidação financeira das operações no mercado de curto prazo. As regras e os procedimentos de comercialização na CCEE são aprovados pela Aneel.

Entrada de dólar cai 64% no semestre e BC segura a cotação da moeda

Victor Martins (*)
O Estado de S.Paulo

A entrada de dólares no Brasil caiu 64,4% no primeiro semestre em comparação com o mesmo período de 2013. Com a queda no fluxo de recursos, ficou mais difícil conter a pressão pela desvalorização do real. Se não fosse pela intervenção diária do Banco Central, a cotação da moeda americana teria disparado no Brasil, segundo analistas de mercado.

O BC intervém no câmbio por meio do programa de swaps - que equivale à venda de dólares. Esse programa abastece o mercado com US$ 200 milhões por dia e foi renovado recentemente pelo BC para vigorar pelo menos até o fim do ano.

Pelos dados do BC, de janeiro a junho a diferença entre os dólares que ingressaram no País e os que saíram deixou um saldo positivo de US$ 3,172 bilhões. No mesmo período de 2013 a cifra foi maior, US$ 8,913 bilhões. Ainda falta um dia para o fechamento do resultado de junho, mas analistas avaliam que dificilmente o quadro do mês será revertido. Até o dia 27, o fluxo está negativo em US$ 856 milhões.

Apostas. A expectativa para o segundo semestre diante dos dados apresentados até agora - e da recuperação dos EUA, cenário que tende a fortalecer a divisa americana - é de fluxos de recursos mais fracos para o Brasil, predominando a tendência de saldo negativo. "A cotação do dólar está muito mais sensível ao Banco Central do que ao fluxo cambial", disse Newton Rosa, economista-chefe da Sul América Investimentos. "Em algum momento, de maneira pontual, o fluxo até tem impacto, mas o determinante é a postura do BC, que tem administrado o câmbio entre R$ 2,20 e R$ 2,30."

Bruno Lavieri, economista da Tendências Consultoria, avalia que a incerteza dos mercados quanto ao rumo das eleições tem sido o fator dominante por trás do fluxo "errático". Segundo ele, a "ração diária" do BC, pelo programa de swap, tem garantido a cotação ao redor de R$ 2,20. "Apesar do fluxo fraco, a autoridade monetária consegue sustentar um patamar confortável para o câmbio, no qual não surgem pressões dos exportadores e da inflação."

Ontem, mesmo com a intervenção diária do BC, a moeda americana terminou cotada a R$ 2,2240, com alta de 0,86% no mercado à vista. O movimento foi puxado por dados do mercado de trabalho privado americano, que registrou a criação de 281 mil postos. Esse número indica que a economia dos EUA está em franca recuperação e pode levar à alta da taxa de juros, o que puxa o dólar para cima em vários para países.

Déficit. 
Dados recentes da economia brasileira mostram que a cotação do dólar está pressionada, segundo analistas. Márcio Garcia, do Departamento de Economia da PUC-Rio, chama a atenção para o déficit das contas externas, que "já está grande e continua crescendo, apesar do crescimento (da economia) muito baixo". "Isso é indicação de que os preços estão errados e que a taxa de câmbio real está apreciada. E a forma mais comum pela qual essa distorção é corrigida é via taxa de câmbio nominal."

Garcia vê disposição do BC em manter o câmbio na faixa de R$ 2,20 a R$ 2,40, tendo em vista o horizonte eleitoral, que pode trazer volatilidade, e também por causa da retirada de estímulos monetários nos EUA, que tende a afetar países emergentes como o Brasil. Além disso, o BC, "por dever de ofício, leva em conta os impactos do dólar na inflação". "A política que parece estar em vigor é a de fazer o mínimo ruído possível."

Para Fernando Bergallo, gerente de câmbio da TOV Corretora, o nível de dólar a R$ 2,20 é "artificial". "Esse nível é artificial e abaixo disso, muito prejudicial para a indústria. O mercado e o Banco Central estão defendendo esse nível e vejo mais espaço para o dólar subir", disse Bergallo. 

(*) Colaboraram Luciana Antonello Xavier e Fabrício De Castro