segunda-feira, julho 07, 2014

Assassinos da inteligência

Olavo de Carvalho. (*)
Blog do Percival Pugina

"Pensar, até um burro pensa. O que distingue a espécie humana é sua capacidade de confrontar o pensado com o conjunto dos conhecimentos disponíveis e regular o curso do pensamento pela escala de credibilidade que vai do possível ao verossímil, ao provável ou razoável e, em certos casos, à certeza.  

Aristóteles já ensinava isso.  

Infelizmente, no Brasil, raros opinadores têm o senso dessas distinções. A maioria imagina que para pensar com proveito basta um pouco de lógica formal e algum domínio dos chavões mais caros ao coraçãozinho da plateia.  

Em debate recente, o professor Igor Fuser, uma estrela do "cast" universitário esquerdista, assegurou que "não se pode julgar um regime pelo número das suas vítimas". Dez minutos depois, desmentia-se fragorosamente ao alegar que a ditadura brasileira "perseguiu milhares de pessoas" e que o número de cristãos assassinados no mundo está muito abaixo dos 100 mil por ano --subentendendo, portanto, que a ditadura foi um horror e que os matadores de cristãos nos países islâmicos e comunistas não são tão maus quanto se diz.  

Mas o pior não é isso. Mesmo sem esses autodesmentidos grotescos, a afirmativa geral que os antecedeu --a mais comumente alegada por devotos comunistas empenhados em salvar a honra dos governos mais assassinos que o mundo já conheceu-- é perfeitamente desprovida de sentido. Para perceber isso basta medi-la com a escala de credibilidade. 

Em política, admite-se universalmente, as certezas absolutas são raras ou inexistentes. O meramente possível reflete a liberdade da fantasia, o verossímil é apenas questão de opinião, gosto ou preferência. Não servem como argumentos. Resta a probabilidade razoável. Quem quer que argumente seriamente em política procura nos convencer de que a razão, com altíssima probabilidade, está do seu lado.  

Acontece, para a tristeza dos tagarelas, que todo argumento de probabilidade depende eminentemente do elemento quantitativo que o fundamenta explícita ou implicitamente. Se digo que o candidato X vai vencer as próximas eleições com uma probabilidade de zero a cem por cento, não disse absolutamente nada. Tanto vale dizer que um governo é igualmente malvado se não matou ninguém ou se matou milhões de pessoas.  

Quando um comunista esperneia contra o que chama de "contabilidade macabra", tem, é claro, uma boa razão para fazê-lo. Contados os cadáveres, é impossível negar que o comunismo foi o flagelo mais mortífero que já se abateu sobre a humanidade. Diante disso, só resta apegar-se ao subterfúgio insano de que o macabro não reside em fazer cadáveres e sim em contá-los.  

Somando à insanidade o fingimento, a proibição de contar tem de ser suspensa quando se fala de regimes "de direita", donde se conclui que os 400 terroristas mortos no regime militar --a maioria deles de armas na mão-- são um placar muito mais hediondo e revoltante do que os 100 milhões de civis desarmados que os heróis do comunismo assassinaram na URSS, na China, na Hungria, em Cuba etc.  

O senso das quantidades e proporções é a exigência mais básica e incontornável não só da conduta honesta, mas da racionalidade em geral. Dissolvendo-o pouco a pouco na plateia, os fúseres da vida destroem não só a moralidade pública, mas as próprias condições elementares do funcionamento normal da inteligência humana. 

Se nas universidades brasileiras há uma quota de 40 a 50% de alunos analfabetos funcionais, isso não se deve só a uma genérica "má qualidade do ensino", mas ao fato de que há décadas o discurso comunista e pró-comunista onipresente espalha, nas mentes dos estudantes, doses maciças de estimulação contraditória e obstáculos cognitivos estupefacientes. 

(*) OLAVO DE CARVALHO, 67, filósofo e escritor, é autor do livro "O Mínimo que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota" (editora Record)

A elite branca

João Ubaldo Ribeiro
 O Estado de S.Paulo

Como já deve ter previsto o pugilo de bravos que me lê com assiduidade, de novo as Parcas me fizeram a grande maldade de marcar para anteontem (tempo de vocês, este domingo) o jogo com a Colômbia, mais uma vez impossibilitando que eu leve o resultado em conta. Eu pelo menos podia ter conversado com a Sociedade Interamericana de Imprensa, a fim de ver se ela pressionava a Fifa para corrigir a grave injustiça e mudava a tabela, mas é tarde. E, se eu houvesse feito a besteira de escrever, como cheguei a pensar, que o jogo tinha sido moleza, como sempre acontecia com o freguês Chile? Teria quebrado a cara, como quase quebro no boteco, quando pulei na hora em que, já no fim da prorrogação, o Chile botou aquela bola na trave e dei com a testa na tabuleta que anunciava o chope em promoção. Esqueçamos, esqueçamos.

O jeito é voltar-me para os últimos acontecimentos extra-Copa. Quase todos eles se relacionam com o edificante espetáculo democrático deste ano de eleições. Lá e cá, por todo o País, como que se ouvem gritinhos pressurosos pululando nos ares - cadê o meu, cadê o meu, tenho que me fazer, tenho que me fazer! - enquanto estadistas e líderes se digladiam no embate inflamado de ideias, planos e projetos de ascensão pessoal e grupal e os partidos se empenham por caracterizar nitidamente suas posições, embora, assistindo-se a seus anúncios na televisão, seja um pouco difícil distinguir identidades e programas próprios. Todos eles pregam a justiça social, o combate à exclusão, os investimentos em saúde, educação, segurança, coisas com as quais, de tão vagas, qualquer um concorda. Nenhum deles mostra como e o que fará para avançar nesses campos. Isto fica para depois e, pelo visto, sempre ficará.

Cada vez mais abusadas, algumas palavras perderam o sentido. Quase ninguém é capaz de fazer uma distinção teórica, ou abstrata, entre esquerda e direita políticas e, por exemplo, o ex-presidente Lula as emprega para lá e para cá, conforme a necessidade do momento. Ou seja, direita, assim como esquerda, é o que convém. Nega que seja de esquerda e em seguida vocifera contra manobras da direita, como se fosse um porta-voz da esquerda continental. Aliás, é interessante essa conversa de direita e esquerda, considerando-se que Lula é ex-aluno (isto mesmo) da Universidade Johns Hopkins (isto mesmo, universidade), venerável, prestigiosa e cara instituição de ensino americana, onde estudou (isto mesmo) no começo da década de 70 e quem sabe recebeu (não tenho certeza, mas creio que sim) um diplomazinho, ou certificado, que teria precedido o diploma de presidente, o qual bem depois lhe foi conferido, ocasião em que ele proclamou que o primeiro diploma que o operário sem estudo e filho de mãe analfabeta recebia na vida era o de presidente da República. Eu, se tivesse tido até mesmo umas duas parcas semaninhas de seminário na Johns Hopkins, me gabaria de vez em quando, mas esta vida é assim mesmo, tudo é muito relativo. Talvez ele queira esquecer seu período de estudante em Baltimore. Lá de fato faz muito frio, embora eu tenha lido em algum lugar da internet que ele, como sempre simpático, descontraído e boa-praça, fez sucesso e deixou muitos amigos e admiradores. Pode ser que não queira encher a bola da AFL-CIO, poderosa organização sindical americana sob cujos auspícios estudou na Johns Hopkins e, antes, em São Paulo mesmo. O homem não é só doutor honoris causa, não, tem outras láureas acadêmicas, conquistadas nos bancos escolares, de que ele, na sua proverbial modéstia, não fala.

Outra palavra que já merece uma pesquisa semântica é "elite". Lula também faz embaixadinhas com ela a torto e a direito e é preciso estar atento. Assim mesmo, é difícil entendê-la, a começar pela circunstância de que, desde a época em que foi chamado como promissor talento para a temporada universitária patrocinada pela AFL-CIO, formadora de quadros sindicais presente, respeitada e temida em todo o mundo, ele é elite. Foi elite dos sindicalistas, é elite do partido que está no poder, exerceu o posto mais alto da elite governante, num país onde o presidente da República é um monarca tratado com subserviência e vassalagem, viaja esplendidamente para palestras e lobbying, come do bom, bebe do melhor, é amigo pessoal e companheiro de lazer de ricos e poderosos, se trata nos mais respeitados hospitais com os mais renomados médicos, não entra em filas, não pega transporte público, não paga aluguel de casa nem prestação de carro, não se aporrinha com providências do cotidiano, não tem preocupação com o futuro, ganha mais do que todos os professores do primeiro grau da rede pública do Maranhão juntos, manda para lá, desmanda para lá e, ainda por cima, é cultuado por grande parte do povo. Então, ele não é elite? De que mais se precisa para ser elite?

Uma aparente novidade não altera a situação dele e até a faz mais difícil de compreender. Trata-se da expressão "elite branca". Se bem me lembro - e até conferi nuns clipes que guardo no computador - Lula tinha o cabelo bem crespo, antes de sua completa ascensão política. Como sua pele não é alva, poderia talvez, por causa do cabelo, ter sido considerado pardo ou, como se dizia antigamente, mulato. Ou até negro, pelos critérios americanos que agradam a tantos. Mas hoje, como o nome de Conceição, o cabelo dele mudou. Alguém que nunca o tivesse visto antes, nem em fotografia, tê-lo-ia na conta de branco de nascença. Branco latino-americano, hispânico para os americanos, mas, em última análise, branco. Por conseguinte, ele não apenas pertence a várias elites, como pertence à elite branca, ele ficou branco. De resto, elite branca mesmo, no Brasil, só as famílias mais prósperas das comunidades de origem europeia, no Sul. Vai ver que elas acham que die Eschculambazionen foi longe demais e vão chamar dona Angela Merkel para derrubar o PT.

O Brasil também é assim

Juan Arias 
El Pais

Os brasileiros criaram uma espécie de armadura que lhes salva quando tudo parece sucumbir

O Brasil acaba sempre surpreendendo, algo que muitas vezes os europeus, mais racionais, não entendem. No futebol e na vida de sua gente, aparece como um enigma. Quando pensamos que vai afundar, que está se afogando, sabe levantar a cabeça. Faz sofrer, às vezes desespera e desconcerta, mas ao final temos que admitir que acaba tendo sorte.

É apenas sorte ou faz parte da idiossincrasia dos brasileiros? Falava sobre isso, um dia antes do início da Copa, com Raul Costa, diretor da SportTV. Me explicava em seu escritório no Rio, e concordei com ele, que uma das características deste povo que ontem vibrou com a vitória da seleção, primeiro entusiasmando com seu jogo de garra e, ao final, fazendo sofrer, é sua capacidade de saber driblar as dificuldades com a força de sua criatividade e de sua paixão.

O Brasil viveu sempre nessa dura briga pela sobrevivência, tendo que fazer frente a muitas injustiças e desigualdades. Nesse difícil equilíbrio, entre sentir-se um império, que é, e suportar o peso de um atávico complexo de vira-lata na já clássica expressão de Nelson Rodrigues, os brasileiros criaram uma espécie de armadura que lhes salva quando tudo parece sucumbir.

São principalmente os povos e as pessoas que se pensa que vão fracassar, os que ao final nos revelam que na vida nem tudo é linha reta, ou ângulos. Também existe a curva, os passes mágicos, as surpresas que os acabam resgatando.

Quando vivi na Itália, país da arte e da moda, dizia-se dos italianos algo parecido ao que escuto dizer tantas vezes dos brasileiros: que se dobram facilmente. A Itália possui, no entanto, dois exemplos que expressam melhor do que qualquer outra coisa que é mais segura do que aparenta: a famosa Torre de Pisa, que leva séculos inclinando-se mas que nunca cai, e as águas que há centenas de anos ameaçam afundar a mágica Veneza que, no entanto, segue viva e em pé.

Dos europeus, os italianos talvez sejam os melhores cultivadores da curva que é mais feminina do que masculina, mas ao final mais forte e segura.

Os jogadores brasileiros têm também em seu jogo e em seus sentimentos mais curvas do que ângulos. Talvez por isso chorem mais, mas no fim de tudo essas lágrimas acabam conduzindo-os à vitória, quando menos esperávamos. E quando perdem também sofrem menos porque estão acostumados a outras derrotas na vida e porque possuem a arte de refugiar-se, nas horas escuras, na festa e na alegria.

A arrogância não é uma planta que nasce na terra fértil do Brasil, pelo menos entre as pessoas comuns. Os brasileiros podem ter muitos defeitos, mas não o da arrogância. Deixaram isso evidente ontem à tarde, quando os jogadores vitoriosos nos ofereceram aquele maravilhoso espetáculo de se abraçarem, consolando os perdedores colombianos. E acompanhei isso de perto todas estas semanas nas crônicas dos críticos de futebol, que nunca exageraram as coisas e souberam respeitar com elegância as outras seleções. Não foi à toa que se ofenderam apenas quando o treinador Felipe Scolari mandou com arrogância ao inferno os jornalistas que o questionavam. Essa arrogância é um impedimento que os brasileiros acabam desprezando e punindo.

Assim é o Brasil. E é talvez sua ausência de ângulos de intemperança, o que os torna simpáticos fora do país, seja quando ganhem ou percam.

Biden deu a Dilma documentos inúteis

Elio Gaspari
Folha de São Paulo

O Departamento de Estado armou um factoide e jogou o vice-presidente americano numa presepada

Se a turma que grampeia o mundo para o companheiro Obama lida com as informações de hoje da mesma forma como o Departamento de Estado lidou com os papéis que o vice-presidente Joseph Biden passou à doutora Dilma em junho, estão jogando dinheiro do contribuinte americano no lixo. Durante sua passagem pelo Brasil, Biden entregou 43 documentos dos anos da ditadura que estavam guardados nos arquivos americanos. Chamou-os de "conjunto inicial" de uma colaboração. Pura marquetagem, quase um vexame.

Dos 43 documentos, 25 eram de domínio público, alguns deles acessíveis na internet. Se um terceiro-secretário tivesse trabalhado direito durante uma semana na seleção desses papéis, poderia ter feito coisa melhor.

Um dos documentos é um telegrama do consulado em São Paulo, de 27 de outubro de 1970, intitulado "Morte do Chefe Terrorista". Trata do assassinato de Joaquim Câmara Ferreira, que substituiu Carlos Marighella no comando da Ação Libertadora Nacional. Conta que Câmara foi localizado graças à colaboração de Eduardo Leite, o "Bacuri", que fugiu durante a cena da captura.

Tudo mentira. O consulado propagou um "roteiro" preparado pelo Centro de Informações do Exército. Bacuri estava preso desde agosto. No dia em que o consulado expediu o telegrama, ele foi retirado da cela onde estava, no Dops, e levado para um quartel. Em dezembro, foi assassinado.

Enfiaram o vice-presidente dos Estados Unidos num vexame. Esse telegrama é conhecido desde 1986. Enquanto a embaixada em Brasília e o consulado em São Paulo estavam conveniados com o DOI, o cônsul no Rio advertia que a história da colaboração de Bacuri bem como a sua fuga eram lorota. Ele se chamava Clarence Boonstra. Seu telegrama, conhecido há mais de dez anos, foi esquecido pelos pesquisadores de Biden.

A presepada em que enfiaram o vice-presidente dos Estados Unidos foi produto da incompetência, mas, se a conversa de "conjunto inicial" é séria, pode-se ir adiante. Dois exemplos:

1) Em maio de 1971, o diretor da CIA, Richard Helms, depôs durante duas horas sobre a situação brasileira numa comissão do Senado americano. Como manda a boa norma, à época seu depoimento foi transcrito e mantido sob sigilo. Em 1987, o governo liberou 75% da transcrição. Mesmo respeitando as restrições da segurança americana, Biden poderia mandar ver o que se pode liberar dos 25% que faltaram.

2) Em julho de 1962, o embaixador americano, Lincoln Gordon, reuniu-se com o presidente Kennedy e discutiram como influenciar as eleições brasileiras daquele ano. O governo americano liberou o áudio de 28 minutos dessa conversa, omitindo sete segundos. Ali está a quantia que investiriam. Estima-se que a conta ficou nuns cinco milhões de dólares. O conhecimento exato dessa cifra ajudaria a mostrar a orgia em que viraram as eleições brasileiras, pois hoje cinco milhões de dólares são um trocado.

Por mais que o lote de 43 documentos tenha resultado numa presepada diplomática, ela não pode ser comparada à conduta dos comandantes militares brasileiros. Para que se documente a tortura e os assassinatos praticados em quartéis de Pindorama, os arquivos oficiais americanos ainda são uma fonte de informação melhor que a memória dos servidores pagos pela Viúva. É triste ver os comandantes militares dizendo que nos DOIs nada ocorria de anormal, enquanto milhares de brasileiros testemunham o contrário e até a diplomacia americana, servindo ao presidente Richard Nixon, que colaborava e torcia pela ditadura, registra que eles eram centros de tortura.

BOA NOTÍCIA
Há quatro anos, um dos maiores empresários brasileiros decidiu apadrinhar quatro alunos que haviam sido aprovados no vestibular de uma universidade privada brasileira. Todos amarrados ao andar de baixo. Uma está concluindo o curso de engenharia química na Universidade de Rouen, na França. Outra formou-se em comunicação e já foi contratada pela empresa onde estagiou. Uma terceira foi aprovada no exame da OAB e vai disputar uma vaga no concurso do BNDES. Só um continua na escola.

A fatura custou a mixaria (para o benfeitor) de R$ 520 mil, ou R$ 33 mil por aluno/ano. Cerca de R$ 400 mil pagaram a universidade. O restante ficou com uma ajuda em transporte, alimentação ou material. O empresário está formando outro grupo.

Os candidatos a presidente gastam latim falando em educação. Nenhum foi capaz de se comprometer com um projeto que estimule qualquer tipo de filantropia.

NOVO MINISTRO
Se é verdadeira a informação segundo a qual a doutora Dilma pretende anunciar o nome do substituto de Joaquim Barbosa no STF depois da eleição de outubro, há alguém com parafuso solto no Planalto.

É seu direito preenchê-la logo e, caso não seja reeleita, ofenderia o país se nomeasse um ministro do Supremo em fim de governo, a caminho de casa.

LIÇÕES DA COPA

Depois da Lapa, no Rio, a Vila Madalena, em São Paulo, tonou-se um grande centro de comemorações populares depois dos jogos da Copa.

Curiosidade: essas duas catedrais da boêmia surgiram sem que o Estado se metesse. Nunca houve o ProLapa nem o PoloVila. Coisa do povo, pelo povo, para o povo.

LEWANDOWSKI E A HARMONIA DO STF
O ministro Ricardo Lewandowski assumirá a presidência do Supremo Tribunal Federal num período difícil. Joaquim Barbosa, seu antecessor, engrandeceu a Casa relatando e conduzindo o processo do mensalão e exacerbou malquerenças que podem surgir em salas onde 11 pessoas são obrigadas a trabalhar juntas, expondo opiniões conflitantes.

O clima no STF está mais para aquele que se viu no caminho do vestiário depois do jogo Brasil x Chile do que para a solenidade que a Casa merece. Há ministros que mal se falam. Pelo menos um evita conversa com o próprio Lewandowski.

Se o novo presidente do tribunal restabelecer a harmonia na corte, fará um serviço inestimável. É pessoa cordial, de bons modos. Comeu com elegância o pão que Asmodeu amassou quando defendeu suas posições durante o julgamento do mensalão. Foi patrulhado e insultado. Sofreu, mas não deu troco.

Há algumas semanas, Lewandowski pisou na bola. Estava interinamente na presidência e reclamou porque os colegas iniciaram a sessão sem ele. Como as sessões têm hora marcada para começar, a agenda da corte prevalece sobre os compromissos de seus integrantes. Ele reclamou, argumentando que se atrasara porque recebia o prefeito de Londres. Veio do ministro Marco Aurélio a lembrança de que se o governador de Brasília for a Londres, o presidente da corte do Reino Unido não atrasará a sessão.

A taça é deles (e a conta é nossa)

Guilherme Fiuza
O Globo 

País gastou com os estádios da Copa mais do que Alemanha e África do Sul juntas. Com brasileiro não há quem possa

Os pessimistas e a elite branca deram com os burros n’água: a Copa do Mundo no Brasil é um sucesso. A bola está rolando redondinha, os gramados estão todos verdinhos e o país chegou até aí batendo mais um recorde: gastou com os estádios da Copa mais do que Alemanha e África do Sul juntas. Com brasileiro não há quem possa.

Aos espíritos de porco que ainda têm coragem de reclamar do derrame sem precedentes de dinheiro público promovido pelos faraós brazucas, eis a resposta definitiva e acachapante: a Copa no Brasil tem uma das maiores médias de gols da história. Fim de papo. De que adianta ficar economizando o dinheiro do povo, evitando os superfaturamentos e as negociatas na construção dos estádios, para depois assistir a um monte de zero a zero e outros placares magros? Fartura atrai fartura. Depois da chuva de verbas, a chuva de gols. É a Copa das Copas. Viva Messi, viva Neymar, viva Dilma.

Está todo mundo feliz, e o país mais uma vez se renderá a Lula. O oráculo afirmou que era uma babaquice esse negócio de querer chegar de metrô até dentro do estádio. Que o brasileiro vai a jogo até de jegue. O filho do Brasil mais uma vez tinha razão.

O país teve sete anos para usar a agenda da Copa e investir seriamente em infraestrutura de transportes. Sete anos para planejar e executar uma expansão decente do metrô nas capitais saturadas, por exemplo — obras caras que dependem do governo federal. Ainda bem que nada disso foi feito, e as capitais continuaram enfrentando sua bagunça a passo de jegue. Seria um desperdício, porque todo mundo sabe que essa mania de querer chegar aos lugares de metrô é uma babaquice da elite branca. Felizmente, o dinheiro que seria torrado nessa maluquice foi bem aplicado nos estádios mais caros do mundo, entre outros investimentos estratégicos.

Agora a Copa deu certo, o brasileiro está sorrindo e a popularidade de Dilma voltou a subir — provando de uma vez por todas que planejamento sério é uma babaquice. O que importa é bola na rede.

Nos anos que antecederam a Copa das Copas, os pessimistas encheram a paciência do governo popular com a questão dos aeroportos. Mas o PT resistiu mais uma vez à conspiração dessa burguesia ociosa que reclama de tudo. E deixou para privatizar (que ninguém nos ouça) os aeroportos às vésperas da Copa. Foi perfeito, porque sobrou mais tempo para o bando da companheira Rosemary Noronha parasitar o setor da aviação civil, proporcionando aos brasileiros o que eles mais gostam: ser maltratados nos aeroportos em ruínas, se possível derretendo com a falta de ar-condicionado (o que Dilma chamou carinhosamente de “Padrão Brasil”).

Os pessimistas perderam mais essa. Na última hora, com um show vertiginoso de remendos e puxadinhos (Brasil-sil-sil!), os aeroportos nacionais não obrigaram nem uma única delegação estrangeira a vir para a Copa de jegue. Todas as seleções entraram em campo — a televisão está de prova. E, no que a bola rolou, quem haveria de memorizar detalhes insignificantes, como metade dos elevadores da Favela Antonio Carlos Jobim enguiçados, além de algumas esteiras e escadas rolantes interditadas, entre outros desafios dessa gincana Padrão Brasil?

Ora, calem a boca, senhores pessimistas. A Copa deu certo. A Rosemary também.

Quem vai cronometrar o tempo dos otários nas filas monumentais? Os cronômetros só medem a posse de bola. E bem feito para quem ficou preso nos engarrafamentos a caminho do estádio, de casa ou de qualquer lugar. Lula avisou para ir de jegue. Você ficou engarrafado porque é um membro dessa elite branca que contribui para o aquecimento global. Além de tudo, é ignorante, porque ainda não entendeu que o combustível no Brasil foi privatizado pelos companheiros e seus doleiros de estimação. Como diria o petista André Vargas ao comparsa Alberto Youssef, o petróleo é nosso.

Além de jegue e jabuticaba, o Padrão Brasil tem feriado. Muito feriado. Quantos o freguês desejar. Pode haver melhor legado que esse para a mobilidade urbana? Se todo mundo andar de jegue e ninguém precisar ir trabalhar, acabaram-se os problemas viários. Poderemos ter Copa todo mês. E os brasileiros não precisarão mais correr riscos com obras perigosas como os viadutos — que, como se sabe, desabam.

A Copa no Brasil tem tido jogos realmente emocionantes. É o triunfo do único inocente nessa história — o futebol. Viva ele. Os zumbis que ficavam gemendo pelas ruas que “não vai ter Copa” sumiram na paisagem do congraçamento das torcidas. Mas é claro que isso será entendido pela geleia geral brasileira como... gol da Dilma! É a virada dos companheiros, a vitória dos oprimidos palacianos sobre as elites impatrióticas etc. A taça é deles. E a conta é nossa.

Se você não suporta mais essa alquimia macabra, que faz qualquer sucata populista virar ouro eleitoral, faça como os atletas do Felipão: chore.

O caldeirão das urnas

Gaudêncio Torquato 
O Estado de S.Paulo

Passados os lúdicos tempos da Copa, o País retornará ao ciclo da "opressão psíquica", expressão que Sergei Tchakotine usa, ao lado de outras, como "violação psíquica", "maquinaria psíquica", "impostura psíquica", para explicar o tiroteio verbal a que será submetido o eleitorado brasileiro na arena que abrigará contendores até a luta de outubro, quando as urnas mostrarão quem viverá, morrerá ou será ferido na eleição mais emblemática das últimas décadas. A nomenclatura do cientista russo foi usada para estudar as "chicotadas psíquicas" de Hitler, que explicam a tirania a que submeteu o povo alemão, mas serve para mostrar a relação entre propaganda e política neste momento de uso intenso da palavra na competição pelo poder.

Mesmo levando em conta que a evolução social da massa impede que seja entorpecida como "um rebanho de carneiros que não se governa por si mesmo, devendo ser conduzido por entusiasmo e interesse", como dizia Mussolini, é fato que parcela ponderável das camadas menos esclarecidas e até de segmentos mais elevados é muito influenciada pela propaganda política. Não por acaso, a conquista de maior espaço na mídia eleitoral foi o fator mais ponderado nas negociações para a formação da mais estrambótica frente de parcerias e alianças entre partidos e candidatos.

Afinal, que condimentos entram no caldeirão eleitoral, a ponto de atrair o apetite de milhões de pessoas de todas as classes? O medo, por exemplo. Estudos de propaganda política revelam que os efeitos do medo são muito grandes ante situações de fome, sede, doença, depressão e até cansaço, o que explica a eficácia da linguagem da ameaça nas abordagens. Exerce o medo maior influência sobre camadas em precária situação econômica, contingentes esgotados ou amedrontados por diversos motivos. O desconhecido, a surpresa, o isolamento, a tensão agravam o estado de medo. Por isso mesmo se procura marcar candidatos com a pecha de contrários a programas assistenciais, como o Bolsa Família. É sabido que os valores econômicos e os interesses materiais, fundamento dos dois instintos de conservação do ser humano (combativo e nutritivo), lideram o rol de "alimentos psíquicos" que entram na panela eleitoral. O bolso, portanto, é a parte mais sensível do eleitor.

Harold Lasswell, estudioso norte-americano, põe ainda no caldeirão que começa a ferver duas categorias assim designadas: os credenda e os miranda, isto é, as coisas a serem acreditadas e as coisas a serem admiradas. A primeira comporta o discurso, as propostas, as promessas - repertório, aliás, hoje bastante desprestigiado. Ele parte da lógica que aponta para as prioridades das famílias, ou seja, as demandas urgentes e prementes do cotidiano: alimento barato, transporte fácil, rápido e confortável, escola de qualidade perto de casa, hospital capaz de prestar bom atendimento, segurança nas ruas, harmonia comunitária. Já na galeria da admiração emerge, primeiro, o candidato com sua história e valores que modulam o perfil: experiência, mudança, avanço, domínio temático, capacidade expressiva, simplicidade, maneira de se apresentar. Dependendo da forma como são expostos, podem despertar atenção, gerar simpatia, empatia ou antipatia, elementos que carregam o voto do coração para uns e rejeição para outros.

O eleitor, porém, percebe quando o candidato se esforça para acrescentar um palmo mais à sua altura, quer dizer, mostrar a imagem bem diferente da identidade. O artificialismo exagerado não passa pelo crivo do eleitorado.

Os grupos de amigos, a vizinhança, a vida no bairro têm peso no processo decisório do eleitor, eis que funcionam como cola de pertinência social e do cotidiano comum, importante para estabelecer as demandas comunitárias. Explica-se assim a proximidade como fator gerador da distritalização do voto, tendência crescente no País. As bases buscam cada vez mais candidatos que se identifiquem com as localidades, que são os centros da micropolítica. Não é desprezível também o tempero dos partidos, principalmente nos fundões, onde ainda se vota de acordo com os costumes antigos e sob a égide de lideranças e famílias que repartem o espaço político e as estruturas de poder. Da mesma forma, é inegável a influência de pesquisas em alguns compartimentos, particularmente nas beiradas que agregam camadas incultas e embaladas pelo celofane de "vitórias" arrumadas por mapeamentos "fajutos" e de uso eleitoreiro. Em algumas regiões pesquisa vira cabo eleitoral.

Questão instigante na propaganda política é a que procura distinguir a linguagem da emoção da linguagem da razão. "As pessoas que votam com o coração são mais numerosas que as que votam com a cabeça; as eleições são ganhas e perdidas pela emoção, não pela lógica", proclama o famoso profissional de propaganda norte-americano Joseph Napolitano. É verdade que a espetacularização da política, que se expande no bojo da sociedade de informação, procura maximizar as alavancas da adesão do eleitorado, o que implica adoção de signos que impactem o hemisfério emotivo do cérebro. Urge, porém, reconhecer a promoção educacional e social de grupos saídos das margens, que começam a fazer exame criterioso de candidaturas e escolha mais racional de perfis. Ou será que os 30 milhões de eleitores que ascenderam ao meio da pirâmide nos últimos dez anos votam apenas com o coração?

Como se conclui, é imbricado o tecido sobre o qual se desenvolve a artilharia discursiva das campanhas. Pode-se até apostar no entorpecimento das massas por meio da "mágica da expressão" a cargo do marketing eleitoral. Mas a excitação, a animação, a indução, enfim, os fenômenos que explicam os comportamentos humanos ganham outras influências, a par da artilharia desfechada pela palavra. Sem esquecer que existe a força do imponderável, aquele vento que causa destruição quando entra pelas frestas eleitorais sem dar aviso prévio.

Na marca do pênalti

Demétrio Magnoli
Folha de São Paulo

A Copa simula a guerra, mas o jogo continua a ser jogo: a sobrevivência da nação não está em causa

O capitão --logo ele!-- refugou. Diante do Chile, na hora da cobrança dos pênaltis, Thiago Silva implorou para não bater. Antes Julio César, o goleiro, que ele. "Bater pênalti é uma grande responsabilidade em casa, e pedi a Deus para não chegar a minha cobrança", justificou-se. O primeiro longa dirigido por Wim Wenders, "O Medo do Goleiro Diante do Pênalti" (1972), com roteiro de Peter Handke, não é o que o título sugere. Sem assisti-lo, Sepp Maier, o eterno goleiro do Bayern, disparou a crítica futebolística certeira: "O medo do jogador que vai chutar o pênalti --isto, sim, seria digno de um romance". Mas, se Thiago Silva fosse o protagonista da trama proposta por Maier, o roteiro deveria concentrar-se no contexto.

A Copa simula a guerra. Entretanto, o jogo continua a ser jogo: a simulação opera como substituição e, normalmente, quase todos os envolvidos sabem que a sobrevivência ou a honra da nação não estão em jogo. O jogador que vai bater o pênalti tem medo, mas chuta. No caso de Thiago Silva, o medo cedeu lugar ao pânico paralisante. Desconfio que isso se deve menos a seus conhecidos traumas pessoais com pênaltis que ao deplorável clima bélico criado em torno da participação brasileira na Copa do Mundo.

Antes da estreia, Felipão e mesmo o sóbrio Parreira proclamaram que "o Brasil" tem a "obrigação" de ser campeão. Possivelmente, eles adotaram tal estratégia discursiva sob a inspiração de algum manual de autoajuda --mas fizeram mal, e não só aos jogadores do time. O jogo é jogo porque inscreve-se na esfera da incerteza: ninguém pode carregar o fardo de um resultado que não controla. A única "obrigação" da equipe era dar o seu melhor, até o fim: fazer como a seleção inesquecível de Telê, Zico, Sócrates, Júnior e Falcão, derrotada em 1982, não como os astros egocêntricos reunidos por Parreira em Weggis e derrotados em 2006.

Na Copa das Confederações, a torcida inaugurou a prática de entoar "a capela" a segunda parte do hino nacional. Aquilo era uma manifestação política: o eco, dentro dos estádios, das manifestações multitudinárias que, fora deles, exigiam das autoridades um módico de decência e espírito público. Um ano depois, a prática esvaziou-se de seu sentido original, degenerando num ritual de natureza marcial: gritado a plenos pulmões, o hino coletivo veicula a exigência de um sacrifício sangrento no campo verde onde a pátria joga a sua honra. É guerra isso?

É guerra? Na Venezuela, o regime denuncia complôs diários, antes contra a vida de Chávez, agora contra a de Maduro, contra a moeda nacional e contra a rede elétrica. No Brasil, um "complô da mídia" ameaça, todo o tempo, o "governo popular" --e, estalando os dedos, nove escribas cavilosos ergueram um estádio para hostilizar a presidente. A coisa pega. Após o triunfo sobre o Chile, Parreira inventou a hipótese de um "complô" para impedir a conquista do hexa. Teorias conspiratórias cumprem a função política de substituir a incerteza da história pelas certezas dos contos infantis. No caso da Copa, o "complô" imaginário emergiu como providencial complemento da suposta "obrigação" de vitória: a temida derrota ganhou uma explicação que preserva a honra nacional. A Fifa seria a culpada por um fracasso, antecipou o coordenador técnico. Mas e a almejada vitória? Seria, simétrica e logicamente, obra da Fifa?

Um pênalti é só um pênalti. Convertê-lo é uma questão de técnica, um termo que abrange o controle emocional. Thiago Silva tinha o dever de se voluntariar para chutar --porque é um profissional consagrado, um jogador experiente e o capitão do time. Ele não tinha esse dever perante a bandeira nacional, pendão auriverde que a brisa beija e balança, ou a torcida brasileira, mas diante de seus companheiros de equipe e de si mesmo. O capitão refugou. Culpa dele. Culpa nossa.

A festa é na rua

Luiz Fernando Janot (*)
O Globo

Convivência harmoniosa entre diferentes culturas foi talvez o principal legado da Copa do Mundo para a população

Nesta Copa do Mundo um fato chama a atenção: a extraordinária alegria nas ruas, independentemente do resultado dos jogos. Enquanto as partidas se realizam em espaços fechados e têm duração de 90 minutos, a confraternização nas ruas é pública e acontece durante as 24 horas do dia. Esse espírito festivo que tomou conta das cidades-sedes da Copa provocou algumas reações controversas na população. Enquanto alguns reagiram criticamente aos transtornos causados em seu dia a dia, outros se deixaram envolver pelo espírito de confraternização das ruas, incorporando uma alegria que há muito não se via com tanta expressividade.

Essa dualidade de opinião nos remete a uma afirmação do saudoso escritor italiano Ítalo Calvino, em seu livro “Cidades invisíveis”, onde ele afirma que “o inferno dos vivos, se existe, é aquele que ajudamos a criar nos ambientes onde ocorre a vida cotidiana. Para escapar desse inferno muitas pessoas se sujeitam a conviver com ele até não mais percebê-lo, enquanto outras tentam identificar quem e o que no meio desse inferno não é inferno e, assim, podem compreender melhor os verdadeiros significados de uma cidade”.

Em cidades como o Rio de Janeiro não se pode considerar inferno tudo aquilo que nos causa estranheza e incômodo. Para evitar avaliações preconceituosas, é necessário observar e refletir cautelosamente sobre o que se supõe ser ou não ser verdadeiramente um inferno na cidade. Afinal, a imagem de uma cidade não se restringe aos seus belos espaços naturais e edificados. Ela é, também, um símbolo da existência humana e como tal não pode ser apreciada apenas por sua materialidade. Ambiência urbana e urbanidade são componentes subjetivos e indissociáveis na vida de uma cidade e, portanto, precisam ser reconhecidos, compreendidos e resgatados.

Nesta Copa, o alto preço dos ingressos selecionou o público presente nos estádios e levou a população e os turistas a buscarem nas ruas o espaço ideal para as suas comemorações. Independentemente de um ou outro conflito esporádico, não se pode negar que a alegria e o espírito de confraternização prevaleceram de forma surpreendente. A concentração popular em torno dos locais destinados à realização de shows e transmissão dos jogos superou largamente as expectativas. Não há dúvida de que o acesso gratuito a esses locais contribuiu de forma significativa para o seu enorme sucesso. Há que se ressaltar o fato de que a convivência harmoniosa entre diferentes culturas tenha sido, talvez, o principal legado da Copa do Mundo para a população. Não foram poucos os gestos de cidadania observados no convívio diário entre brasileiros e estrangeiros nos espaços públicos das nossas cidades.

A exemplo do carnaval, das festas de fim de ano ou de qualquer outro evento que reúne multidões, a Copa do Mundo tem o seu tempo determinado e um modo próprio de acontecer. Se a alegria contagiante que se espalhou pelo Brasil afora fez esquecer momentaneamente as preocupações cotidianas, por outro lado ela elevou a autoestima da população. Conquistando a taça ou não, a vida continuará o seu percurso natural. Nesse sentido, terminado o período de festas, voltaremos a refletir sobre o que de fato queremos para as nossas cidades e para o nosso país. Por ora, nos resta acompanhar o desenrolar dos acontecimentos.

(*)  Luiz Fernando Janot é arquiteto e urbanista

Dilma nas quartas de final

Vinicius Torres Freire
Folha de São Paulo

Presidente sofre, bate, apanha e passa de fase, mas mau humor continua em nível alto no país

Dilma Rousseff e seu governo chegam às quartas-de-final da eleição como o time do Brasil: jogando mal, quase empatando, batendo e apanhando, mas ainda vencendo. Apesar dos infortúnios, críticas, campanhas negativas contra seu governo e incompetências também de seu governo, Dilma ainda pode vencer sem mesmo ir para a final, o segundo turno.

Isto posto, parece equivocado dar muita relevância ao fato de que os dias de alienação voluntária da Copa favoreceram a popularidade dilmiana e amenizaram a insegurança com a economia, como indicou a pesquisa Datafolha realizada na semana passada. A cada semana, cai lenha na fogueira que tem fervido os humores do eleitorado, ao menos no que diz respeito à economia.

Antes, tumultos e iras sociais influenciavam o sentimento de confiança econômica.

Daqui em diante, mais e mais a degradação da economia vai determinar o desconforto político.

A popularidade do governo de Dilma melhorou, mas está no mesmo nível recorde de baixa de junho 2013, um ou outro ponto para cima ou para baixo, o imponderável de almeida das estatísticas. O mesmo se pode dizer de indicadores como o de expectativa de aumenta de preços, ainda medido pelo Datafolha.

O grau de difusão do temor de que os preços venham a aumentar assemelha-se ao dos dias piores do governo FHC, de colapsos econômicos como a grande e desordenada desvalorização do real (1999), apagão (2000), quebra com romaria ao FMI e espasmos feios de inflação e desemprego alto e variável.

Note-se de passagem que, a julgar pelo histórico das pesquisas Datafolha, as respostas a essa pergunta sobre a expectativa de inflação (maior, menor, na mesma) nem sempre estão associadas à variação de fato de preços, mas a um sentimento geral de insegurança econômica.

O aumento recente desse sentimento de insegurança econômica coincidiu com o colapso da popularidade de Dilma, mas, pelo menos entre meados do ano passado e deste 2014, é difícil dizer que a piora econômica provocou a piora da avaliação do governo. Se o fez, foi em pequena medida. Até agora.

Os protestos de junho não eram de natureza "econômica". A irritação com a inflação vinha fervendo aos poucos, mas até junho não era uma ebulição. No que diz respeito à vida cotidiana, emprego e renda, os indicadores começaram a se tornar mais problemáticos a partir de março, por aí. O efeito significativo da inegável deterioração macroeconômica não havia chegado ao dia-a-dia do grosso da população.

Mas o mau humor disseminado ajudou a acelerar a degradação das condições econômicas.

Apesar da Copa, acrescente-se e ressalte-se, o grosso desse mau humor não passou. Agora, a piora da economia começa a desaguar "nas ruas": demissões, ainda poucas, mas "simbólicas", como as da grande indústria; a seca no mercado de trabalho, ao menos nas grandes metrópoles; a seca no crédito etc.

Não se trata de sangria desatada nem de um quadro predominante em todo Brasil (a crise afeta mais as metrópoles do Centro-Sul); pioras econômicas nem sempre transparecem sem mais na política ou na eleição.

Mas há motivos para estimar que o clima no país vá melhorar.

O dinheiro é seu, mas é deles

Carlos Brickmann 
Observatório da Imprensa

Ninguém precisa explicar, a gente sabe. Os bancos e seguradoras são excelentes anunciantes, logo não há muito incentivo para que os meios de comunicação mostrem como é que funcionam no mundo real. Acontece que os anúncios nos meios de comunicação existem, na maioria esmagadora dos casos, para atingir aos consumidores de informação e convencê-los de sua excelência e solidez. Se o leitor, ouvinte, telespectador ou internauta não for buscar informações nos meios de comunicação, por que é que os anunciantes irão botar lá seu dinheiro?

Equilíbrio, pois. Não é questão ideológica, como a tratada por Proudhon em A propriedade é um roubo; é questão pura e simples de prestação de maus serviços, sempre em prejuízo do cliente - que, por sinal, é também o consumidor de informações, e que vem sendo privado delas em benefício dos anunciantes.

Compre um celular, desses bem caros, e coloque-o no seguro. O pagamento da conta é imediato. Se o aparelho for roubado - bem, depois que o caro colega apresentar toda uma série de documentos, a seguradora se reserva o prazo de dez dias úteis para analisá-los. E, concluída a análise, o pagamento é prometido para daí a 15 dias úteis. Ou seja, durante mais de um mês o segurado é privado de sua propriedade, embora tenha pago caro por ela, embora tenha feito o seu seguro (e, no caminho, sempre surgem outros obstáculos, dúvidas, quedasdo sistema, que fazem com que o prazo do pagamento seja ainda maior). Reclamar à supervisão da seguradora? Perfeito - mas a análise feita por eles demora mais que o tartarugal procedimento para pagar o que devem. Susep, Superintendência dos Seguros Privados? Sim, claro: deve-se procurar diretamente o Saci-Pererê.

Um leitor desta coluna tem conta num grande banco estatal, aberta já há algum tempo. Mudou-se para uma cidade a 3.200 km de distância da anterior. E perdeu o cartão da conta. Que fazer? Simples: tem o direito de sacar R$ 100,00 por dia com cheque avulso, com limite de seis saques por semestre. O novo cartão, já solicitado, leva os famosos 15 dias úteis - se não houver problemas. Abrir uma nova conta no novo domicílio e pedir transferência da conta? Quando tudo estiver pronto, a transferência do seu dinheiro demora de 10 a 15 dias úteis.

Por que? Na era da Internet, da computação, da nuvem, que é que explica a velocidade de diligência dos serviços que lidam com seu dinheiro? Simples: a gerente da agência onde o nosso leitor quer abrir a conta (agência do mesmo banco) diz que não tem como saber se ele é ele mesmo, embora apresente seus documentos. Afinal, o documento pode ser falsificado, sabe como é. E, na era da digitalização, da comunicação imediata on-line, diz a gerente que não há comunicação entre as agências. Por que ele não viaja 3.200 km para tratar desse assunto na agência anterior?

Dizem que os bancos estatais são mais lentos; mas, na verdade, são tão lentos quanto os privados. Tente resgatar um investimento. O dinheiro cairá na sua conta uns cinco dias (úteis) mais tarde. Dia útil? Computador tem folga? Pois é.

Na verdade, é óbvio: estão usando seu dinheiro para ganhar mais algumas quireras, à sua custa. O dinheiro não fica parado: é aplicado. Mas na conta deles, jamais na sua.
Para os meios de comunicação, é complicado brigar com anunciante. Mas será uma boa opção deixar de fazer a matéria e abandonar seus clientes mais fiéis, aqueles que buscam o veículo para obter informação e opinião?

São as normas
Outro leitor desta coluna, que tem problemas crônicos e irreversíveis de saúde, recebeu uma mensagem absolutamente surreal: de acordo com ofício da Secretaria da Fazenda de seu Estado, ele se livrou do imposto de renda e teve isenção parcial de contribuição previdenciária, "com vigência definitiva, tendo em vista tratar-se de doença de caráter permanente".

Certo? Mais ou menos. Segue-se a seguinte e notável frase: "Em caso de continuidade da patologia que originou a referida isenção, é necessário o requerimento de nova perícia com antecedência de 60 dias do término de vigência do laudo atual".

Se a doença é, como diz o ofício, "de caráter permanente", que história é essa de "em caso de continuidade da patologia", etc., etc.? E quando é que termina a vigência do tal laudo, se em nenhum trecho se faz referência a qualquer prazo que não seja permanente?

Complicado? Pois é. Mas deve haver muita gente que vive de criar essas complicações e administrá-las. Houve época em que jornais e emissoras de rádio cobriam bem essas loucuras burocráticas - numa época em que não havia Internet nem patrocínios maciços de governos aos meios de comunicação. Seria muita maldade imaginar que as compras oficiais, os patrocínios, as gordas verbas publicitárias estatais têm algo a ver com esse esquecimento dos procedimentos que servem apenas para aborrecer os contribuintes (que são, a propósito, os principais clientes dos veículos de comunicação)?

O pior é que nós pagamos - pagamos serviços malfeitos, atendimento pífio. E pagamos também as montanhas de publicidade sobre as virtudes oficiais, montanhas essas que, em nossa cabeça malvada, imaginamos que tenham a propriedade de tapar a visão jornalística dos problemas impostos aos contribuintes.

Colabore! 
Este colunista está reunindo material a respeito do pouco conhecido universo dos planos de saúde, convênios, etc. Há de tudo: anúncios da Agência Nacional da Saúde Suplementar dizendo que é proibido rejeitar clientes por causa da idade (e depoimentos de clientes que foram rejeitados por causa da idade), a farra dos descredenciamentos (que uma nova lei, aprovada há poucos dias, tenta resolver), a luta de seguradoras para não pagar aquilo que deveria ser pago, o estranho fato de empresas do setor passarem incólumes pelos meios de comunicação embora estejam entre as mais citadas nos organismos de defesa do consumidor.

Por que é tão difícil, hoje, fazer um seguro-saúde individual? Por que empresas evidentemente lucrativas, cujos proprietários oferecem grandes recepções a autoridades, ficam tão mal nas listas de atendimento precário e de baixa qualidade? Mandem seus casos para esta coluna (carlos@brickmann.com.br)- casos de mau atendimento, casos de erros, casos de acertos. 

E análises (para evitar que só este colunista dê palpite sobre uma área tão complexa) que demonstrem por que os meios de comunicação praticamente ignoram uma área tão importante para seus clientes. Ou comprovem que, apesar da opinião deste colunista, o setor tem ampla e minuciosa cobertura jornalística.

Dentes fortes
A imprensa brasileira, em geral, cobriu com precisão, sem exageros, a mordida do excelente centro-avante uruguaio Luís Suárez no adversário italiano Giorgio Chiellini, no jogo que classificou seu time. As coisas foram bem colocadas: foi um ato inusitado, que merece punição, mas nada que tivesse mudado o resultado do jogo, ou causado lesão grave ao atingido. Não foi como a mordida de Mike Tyson, que arrancou parte da orelha de Evander Holyfield: apenas ficaram as marcas dos dentes de Suárez no ombro de Chiellini. Os meios de comunicação brasileiros, acertadamente, exploraram o lado engraçado do caso, sem dramatizar a mordida. E publicaram excelentes piadas e charges. 

Sim, morder o adversário não é uma atitude esportiva. Mas também não era caso para uma punição como a que Suárez recebeu - maior, por exemplo, que a do jogador croata que cantou um hino nazista no estádio. E muito maior que a aplicada a Zidane, da Seleção francesa, pela cabeçada que deu no italiano Materazzi, no final da Copa de 2006. Zidane foi suspenso por três partidas (Suárez por nove, mais quatro meses sem poder sequer entrar no estádio). Como se aposentou, o meio-campista francês não cumpriu nem as três partidas. 

Para a Seleção brasileira, a suspensão de Suárez foi excelente: tirou de um de seus possíveis adversários o melhor jogador do time. E nossos veículos, normalmente ufanistas, nem desse fator tiraram matérias contra o uruguaio.

Como é o nome disso? 
A notícia é oficial: o grupo Air France-KLM aplicou R$ 190 milhões no aumento de capital da Gol, em nome de uma "parceria estratégica" que envolverá um investimento de US$ 100 milhões. O grupo colocou também US$ 33 milhões na VRG Linhas Aéreas (o que restou da Varig), e se comprometeu a colocar ali mais US$ 48 milhões, "relativos à cooperação comercial entre as partes".

Este colunista certamente estará enganado, mas antigamente essa "parceria estratégica" e a "cooperação comercial entre as partes" não se chamava "associação"? Não envolvia participação acionária de um grupo em outro - ou, talvez, um contrato de empréstimo, em que os recursos aplicados deveriam ser devolvidos num determinado período, com determinados juros?

Se é isso, por que a troca de nomes? Se não é isso, de que se trata?

Por onde anda a OAB?

Reginaldo Castro
O Globo 

Diante de sinais claros de retrocesso, sente-se a falta da palavra e da orientação da Ordem

Poucas vezes na história republicana do Brasil tantos e tão graves acontecimentos puseram em risco o Estado Democrático de Direito. São questões que, no passado, provocariam a intervenção da única tribuna pública não estatal em defesa da cidadania: a Ordem dos Advogados do Brasil, cujo Estatuto a compromete com a defesa da Constituição, da democracia e dos direitos humanos.

A OAB surgiu no bojo de uma crise institucional de grandes proporções: a Revolução de 1930. São 84 anos. Desde então, teve papel decisivo em todos os conflitos da vida brasileira, sempre mantendo distância crítica dos protagonistas do processo político, ocupando, com isenção e destemor, a tribuna da sociedade civil.

Não por acaso, quando o general-presidente Ernesto Geisel, em 1974, intentou a abertura democrática, dirigiu-se não a um partido político, mas à OAB. Raymundo Faoro era seu presidente e encaminhou os pleitos da sociedade: restabelecimento do habeas corpus, fim da censura, revogação dos atos institucionais, anistia e eleições diretas. Numa palavra, a redemocratização.

O atendimento não foi imediato; a abertura, como se recorda, era lenta e gradual. Mas a agenda desembocou, no final do governo seguinte, do general Figueiredo, na redemocratização.

Hoje, diante de sinais claros de retrocesso, sente-se a falta da palavra e da orientação da OAB. Falo como seu ex-presidente e alguém que preza sua história e papel social. Distingo a instituição dos que circunstancialmente estão no seu comando.

Estamos diante de uma agenda política assustadora. Teme-se pela independência do Judiciário e do Legislativo. O aparelhamento do Estado, síntese desses temores, culmina com a edição do decreto 8.243, que o entrega ao arbítrio dos “movimentos sociais”, sem que se defina o que são, já que podem ser institucionais ou não, segundo o decreto.

Antes, tivemos o mensalão, pontuado de agressões por parte dos réus ao STF e ameaças de morte a seu presidente, Joaquim Barbosa. E ainda: a tentativa de regulamentar (eufemismo de censurar) a mídia; a inconstitucionalidade do programa Mais Médicos; a desobediência do presidente do Senado ao STF quanto à instalação da CPI da Petrobras; a violência dos black blocs nas manifestações de rua; as ações criminosas de milícias armadas do MST e do MTST, entre numerosas outras ilegalidades que reclamam uma palavra firme de condenação por parte da advocacia brasileira. E o que se ouviu da OAB? Nada.

São assassinadas no Brasil anualmente mais de 50 mil pessoas, a maioria, jovens e pobres, em decorrência do narcotráfico. Hoje, o Brasil é, além de rota preferencial do comércio de drogas, o segundo maior consumidor mundial de cocaína e o primeiro de crack. O PT, há quase 12 anos no poder, não inclui esse combate entre suas prioridades. E o que diz a OAB? Nada!

Preocupo-me com essa omissão, que, como é óbvio, não é gratuita: tem substância política, expressa na inclusão do nome de seu atual presidente, Marcus Vinicius Furtado Coêlho, na lista de postulantes ao STF. A presidente Dilma Rousseff faria um grande favor à advocacia brasileira nomeando-o, em justa paga aos inestimáveis serviços prestados a seu governo.

A OAB é grande, mas sua atual direção trai a sua história e, com isso, infunde desamparo à nossa frágil democracia. É preciso resgatá-la e devolvê-la a seu glorioso lugar de porta-voz da cidadania brasileira.

Gastança eleitoral

Merval Pereira
O Globo 

A divulgação do montante que os candidatos à Presidência da República e aos governos estaduais estimam gastar traz de volta a discussão do financiamento das campanhas eleitorais, que começaram oficialmente.

Aumentando a sensação desagradável, os gastos somam-se à verdadeira balburdia das siglas partidárias, a revelar que já não existem mais partidos nem programas a serem seguidos, mas apenas interesses de grupos ou individuais que transformaram as eleições em disputas mais econômicas do que programáticas.

São gastos estratosféricos, que na corrida presidencial tiveram um aumento de nada menos do que 50% em relação à campanha anterior, quatro anos atrás. Os 11 candidatos estimam gastos com a campanha eleitoral de cerca de R$ 1 bilhão. Só no Rio, a previsão de gastos com a campanha para governador é o triplo de 2010, podendo consumir R$ 180 milhões, e o mesmo deve acontecer nos demais estados da Federação.

Esta deve ser a última campanha eleitoral nos termos previstos na legislação atual para o financiamento eleitoral, pois o Supremo tribunal Federal (STF) já tem maioria para aprovar a proibição de financiamento por empresas privadas, o que deve levar o próximo Congresso a aprovar uma nova lei.

O Supremo tende a proibir qualquer decisão que importe em quebra da isonomia entre os concorrentes, e também em relação aos direitos dos cidadãos. O ministro Luiz Fux, relator da ação de inconstitucionalidade que está em julgamento, também declarou inconstitucionais os trechos da lei que limitam as doações em 10% do rendimento bruto de pessoas físicas e que permitem que os candidatos usem recursos próprios.

A ênfase no financiamento por meio de pessoas físicas, se prevalecer na legislação que o próximo Congresso aprovará, terá de ser acompanhada da permissão de contribuições pela internet para as campanhas eleitorais, coisa que ainda não existe, por incrível que pareça. E de um barateamento da campanha, com limitações ou a adoção do sistema distrital.

Já é histórico o exemplo dos eleitores americanos. Milhões de pessoas físicas fizeram doações pela internet para a campanha do candidato democrata Barack Obama em 2008; desses, cerca de 30% contribuíram com pequenas quantias de até US$ 20.

O financiamento público de campanha, que é o objetivo do PT, mas tem a objeção da maioria dos partidos por só se adequar ao sistema de lista fechada, já existe no Brasil, embora pouca gente se aperceba disso. Alguns números sobre o financiamento público que já existe: em 2012, os gastos eleitorais apurados pelo TSE ultrapassaram R$ 3,5 bilhões. Somente o horário eleitoral gratuito custou R$ 606 milhões aos contribuintes brasileiros.

Segundo o site Contas Abertas, já citado na coluna anteriormente, nos últimos 10 anos o Estado desembolsou mais de R$ 4 bilhões em compensações pelo uso do horário eleitoral.

Já o fundo partidário distribuiu aos partidos com representação no Congresso cerca de R$ 286 milhões. Estudos indicam que os gastos das campanhas eleitorais saíram de cerca de R$ 800 milhões em 2002 para quase R$ 5 bilhões em 2012, e pelo visto caminham para bater recorde este ano.

O problema é que os setores que concentram as doações são exatamente aqueles que precisam manter estreitas relações com o poder público, como as empreiteiras.

Pesquisa realizada pelo Kellogg Institute for International Studies demonstra que as empresas doadoras em campanhas eleitorais recebem, nos 33 primeiros meses após a eleição, o equivalente a 850% do valor doado em contratos com o poder público.

Especialistas também compararam as doações a um sistema de crédito para as empresas, que vão buscar a compensação mais tarde nos cofres públicos. Lucieni Pereira, auditora do TCU e presidente da Associação Nacional dos Auditores de Controle Externo dos Tribunais de Contas do Brasil (ANTC) chamou a atenção para o que ocorre com a concessão de benefícios fiscais para atração de empresas, que seriam ao mesmo tempo, segundo especialistas denunciaram na audiência pública sobre o assunto no STF, mecanismo para atrair doações de campanha para os candidatos a governos estaduais.

O financiamento das campanhas eleitorais, como se vê, é um ponto fundamental de uma necessária reforma político-eleitoral, que será um dos temas principais do Congresso a ser eleito este ano pelas regras atuais. 

A vida depois da Copa

Everardo Maciel
O Estado de São Paulo

A Copa do Mundo de 2014 trouxe surpresas de todos os gêneros. No campo, há um relativo equilíbrio nas disputas, fruto certamente da globalização dos esportes e dos intensos fluxos migratórios transnacionais, dos quais resultam equipes nacionais constituídas por expressivo número de atletas que atuam no exterior e uma grande participação de migrantes nas seleções europeias.

Fora do campo, salvo fatos isolados, constata-se uma tranquilidade que reverteu as expectativas de tumultos, que ocorreram na Copa das Confederações. É uma evidência da eficácia em ações coordenadas das forças responsáveis pela segurança pública. Além disso, impressiona o ato civilizado dos torcedores japoneses, que recolhem o lixo após as partidas, em contraste com a barbárie do mercenarismo extremado de atletas africanos que condicionam a participação nas disputas ao prévio pagamento das premiações e o canibalismo do atleta Luis Suárez, lamentavelmente justificado por autoridades e pela imprensa uruguaias.

Falta conhecer o verdadeiro tamanho dos gastos públicos na Copa e da corrupção na construção dos estádios e obras periféricas. Sou pouco otimista quanto a surpresas agradáveis.

Finda a Copa, começa a temporada das eleições, com destaque para veiculações políticas de apelo meramente publicitário. A disputa entre os candidatos pelo horário eleitoral torna claro que a constituição de partidos e sua adesão a candidaturas se converteram em verdadeiros negócios, à custa dos contribuintes, que financiam a "gratuidade" dos horários e os fundos partidários. Vença quem vencer as eleições deste ano, nossa verdadeira Copa começa em 2015. Este ano serviu tão somente para agravar os problemas econômicos e políticos.

A inflação está elevada, com perspectivas de alta em virtude da artificial contenção dos preços administrados de combustíveis, energia elétrica e transportes públicos. Se hoje a Petrobrás e o sistema elétrico já estão em risco, por força de enormes perdas patrimoniais, em futuro próximo o inevitável aumento nas passagens dos transportes públicos trará mais inflação e tumultos promovidos por grupos radicais.

A política de estímulo ao consumo já deu provas de esgotamento, em razão da perda de poder aquisitivo e do elevado endividamento da população. Caminhamos para uma trágica combinação de crescimento baixo e inflação elevada, que tantas vezes nos infelicitou.

A sucateada infraestrutura conspira continuadamente contra a produtividade. Não se formou ainda uma clara convicção de que a resolução do problema exige programas de privatização capazes de atrair investimentos.

A política fiscal é um desastre que as manobras de "contabilidade criativa" não conseguiram esconder. Os gastos públicos seguem um passo à frente das receitas.

As desonerações de tributos não observam critérios técnicos. Respondem apenas a investidas dos lobbies. Qual a lógica da desoneração dos automóveis e combustíveis, no momento em que as cidades brasileiras se encontram imobilizadas por congestionamentos?

O PIS e a Cofins assumiram complexidade e inconsistência jamais vistas na história tributária do País. Não se vislumbra solução para a guerra fiscal do ICMS. A legislação do Imposto de Renda, que ganhara respeitabilidade internacional, está sendo desfigurada pela profusão de incidências de caráter regressivo nas aplicações financeiras e pela desastrada adoção dos chamados padrões internacionais de contabilidade (IFRS) em conflito não resolvido com a política tributária.

No plano político, o Congresso Nacional, debilitado pela supremacia das medidas provisórias, pela apatia na apreciação dos vetos presidenciais e pela guerra suja das emendas orçamentárias, é agora afrontado por decreto que institucionaliza a participação de "conselhos populares" na formulação das políticas públicas.

Vencer a Copa de 2015, no Brasil, requer algo mais elaborado que sangre, corazón y garra, como pedia Obdulio Varela, capitão da seleção uruguaia de 1950.

Programados no nascimento

Exame.com
Cibele Reschke, Revista VOCÊ S/A

Pais, mães e irmãos têm um papel determinante em nossas escolhas de carreira. Saiba por que mergulhar na trama familiar pode explicar sua opinião sobre sucesso

Ehsan Namavar/ stock.xchng


São Paulo - Uma piada atribuída ao humor judaico retrata uma mãe caminhando na rua com dois meninos pequenos quando é abordada por uma desconhecida, que elogia a beleza das crianças e pergunta o nome dos respectivos. A mãe, orgulhosa, responde: — O engenheiro se chama Davi, e o médico, José. 

Mães (e pais) de todas as culturas despejam um caminhão de expectativas e frustrações nas costas dos filhos logo que eles nascem — e para toda a vida. A felicidade e o destaque profissional dos rebentos são indicadores de sucesso para toda família, como sugere o fundo de verdade contido na piada acima.

Pense em quantos amigos seus seguiram a profissão do pai ou da mãe. Ou quantos pais fazem questão de que o filho entre numa faculdade por eles idealizada como a melhor.

Uma pesquisa da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) começa a indicar o tamanho do papel dos progenitores nas escolhas de carreira da prole.

O estudo, que entrevistou 279 profissionais com pelo menos 15 anos de experiência, mostra que o fato de ser o filho mais velho, ou o do meio ou o caçula leva a diferentes padrões decomportamento diante das escolhas de trabalho. Obviamente, não é possível generalizar. Tanto a formação de uma personalidade quanto a escolha de uma carreira dependem de inúmeros fatores.

Mas existem tendências que podem ser observadas com base na análise do lugar que uma pessoa ocupa em sua família. Conhecer esses padrões ajuda o profissional a compreender melhor as opções de carreira passadas e a acertar nas decisões futuras.

A pesquisa aponta que filhos mais velhos costumam tomar decisões de carreira mais alinhadas ao estilo de vida dos pais. O segundo filho tende a ser um profissional mais competitivo, hábil nos relacionamentos, mas dotado de baixa autoestima. Já o caçula fica exposto ao mimo excessivo dos pais, o que pode fazer dele um trabalhador com dificuldades de desenvolver independência ou de se relacionar.

A convivência entre os irmãos, segundo a pesquisa, ajuda a desenvolver um aspecto determinante nas opções profissionais: quem tem irmão cria uma estratégia de diferenciação.

“A pessoa se distingue para conquistar um espaço individual na família”, diz a engenheira Graziela Dias, pesquisadora da USP e autora do estudo, de São Paulo. Filhos únicos, que não desenvolvem esse hábito, tendem a seguir o padrão do filho mais velho ao concentrar as esperanças dos pais.

Essa estratégia de diferenciação está presente na história de Fabiana Munhoz, de 30 anos, gerente de pesquisas da fabricante de cosméticos L’Oréal, do Rio de Janeiro. Com duas irmãs mais velhas médicas, Fabiana rompeu a escrita e fez uma carreira acadêmica em física, da graduação ao doutorado — e na França. Foi a primeira pessoa da família a morar fora do Brasil.

“Meus pais sempre tiveram orgulho de minhas irmãs mais velhas, médicas, e achavam um desperdício de inteligência minha opção pelo curso de física, já que eu ia bem na escola”, afirma Fabiana. “Apesar disso, eles sempre apoiaram minha decisão e passaram a respeitar mais minha escolha quando eu fui morar fora e comecei a me destacar.”

Seleção natural
Do ponto de vista da genética, 40% das características de uma pessoa são recebidas por meio do DNA. O restante é adquirido socialmente, sendo que 5% vêm de experiências compartilhadas entre irmãos. Hereditariedade e ambiente familiar participam, portanto, da construção da personalidade.

Por que há, então, casos de irmãos, filhos dos mesmos pais e crescidos no mesmo lar, tão diferentes? Como pode um sujeito metódico ter um irmão caçula desorganizado? A resposta está na estratégia de diferenciação. É o que defende o pesquisador americano Frank Sulloway, Ph.D. em história da ciência e psicologia pela Universidade Harvard e professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Desde a década de 70, Sulloway tem usado a teoria da evolução das espécies, de Charles Darwin, para entender como a dinâmica familiar, influenciada pela ordem de nascimento dos filhos, ajuda a ditar traços de comportamento de um indivíduo.

Por que essa estratégia de diferenciação acontece? Por uma questão de seleção natural. Como as espécies que alteram hábitos alimentares para não competir pelos mesmos recursos escassos, irmãos tendem a ocupar diferentes nichos familiares. Ou seja, eles assumem papéis diversos para conquistar espaço e ganhar competitividade na disputa pelos recursos disponíveis em casa.

A escolha de carreira segue o mesmo princípio. “Se os mais novos não veem possibilidade de atingir sucesso maior do que o dos mais velhos na mesma profissão, a consequência é que eles busquem outras áreas para adquirir destaque semelhante”, afirma Sulloway.

Os pais contribuem para a diferenciação e, consequentemente, para as escolhas profissionais dos filhos. Às vezes, nem estão conscientes desse papel. Normalmente, fazem isso com as melhores intenções. Funciona assim: durante o processo de educação, os pais identificam qualidades e defeitos nos filhos.

Estimulam o que é bom e procuram corrigir o ruim. Tentam dar um tratamento igualitário. Mas, como a necessidade de cada filho é diferente, o que eles fazem é reforçar a estratégia de ser desigual.

Empresas familiares são um bom laboratório para observar a divisão de papéis entre irmãos. Uma pesquisa encomendada pela VOCÊ S/A e realizada pela Höft, consultoria de transição de gerações — que analisou 74 empresas familiares no Brasil —, mostra que, em 63% dos casos em que a sucessão da presidência é feita de pai para filho, o primogênito assume a posição de presidente, ante 21% de segundogênitos e 16% de caçulas.

“Isso acontece porque, em geral, o primogênito é criado para ser líder e desde cedo recebe mais responsabilidades”, afirma Wagner Teixeira, diretor da Höft. Na família Randon, dona do conglomerado de empresas do setor automobilístico que leva o mesmo nome, o patriarca e fundador da holding, Raul Randon, deixou que seus cinco filhos elegessem seu sucessor, sem interferir na decisão.

A escolha recaiu sobre o primogênito, David, engenheiro mecânico de 54 anos. Um sinal de que os próprios irmãos reproduzem os papéis idealizados pelos pais. Todos os cinco irmãos participam de alguma maneira da gestão da empresa, como o caçula, Daniel, presidente da Fras-le. “Todos os cinco têm papéis diferentes, complementares e fundamentais”, diz David.

Os poréns da teoria
Em muitas casas, o tratamento a cada filho é descaradamente diferente, ainda que não exista essa intenção. O primogênito recebe mais recursos e atenção porque, geralmente, é o mais esperado. Já o caçula, por ser o último de uma geração, também recebe investimentos altos, principalmente quando os mais velhos saem de casa e ele aproveita um período em que é praticamente filho único.

Os do meio encontram-se em desvantagem nesse contexto. Uma pesquisa da Universidade de Illinois com 1 300 famílias americanas mostrou que os do meio recebem 10% menos cuidados do que os primogênitos e os caçulas.

Essa maior dificuldade de encontrar seu próprio espaço faz com que o filho do meio procure menos posições de poder ao longo da vida. “O irmão do meio se destaca pelas habilidades diplomáticas de conciliar o ego do mais velho com os caprichos do mais novo”, afirma Graziela.

A teoria tem diversas exceções, como era de se esperar, porque existem infinitas configurações familiares — quantidade que só aumenta conforme se tornam mais comuns famílias em que os pais não moram juntos, uniões com filhos de relacionamentos anteriores, filhos de casais homossexuais etc. Já existem algumas constatações sobre famílias contemporâneas.

Quando a diferença de idade entre os descendentes é grande, a competição se estabelece em níveis brandos, e os mais velhos ajudam na educação dos mais novos. Se o número de herdeiros for alto, eles passam a se organizar em grupos, de modo que o terceiro pode eventualmente assumir características de primogênito, por exemplo.

Concorrentes extrafamiliares, como primos e herdeiros de outros casamentos, se criados em conjunto, também podem competir. Mortes costumam eternizar padrões de comportamento dos filhos que se vão, deixando uma sobrecarga para os que ficam. Irmãos com deficiência, embora requeiram atenção forte dos pais, não desencadeiam competição.

Quando as famílias são muito conservadoras, em que o gênero importa muito, pode não haver espaço para competição entre sexos opostos. A consequência é que tanto o primeiro filho quanto a primeira filha assumam o comportamento típico de primogênitos.

Significa que a mais velha sente-se inclinada a assumir uma posição maternal, enquanto o mais velho se preocupa em atingir resultados semelhantes aos paternos e ser o novo mantenedor da casa. As caçulas, nesse caso, são propícias a pensar em profissões independentes e, com isso, transgredir os padrões tradicionais, o que, aos olhos dos pais, pode parecer uma afronta.

Não é apenas a família que se renova. O próprio mercado também muda, e as profissões que os pais idealizaram às vezes tornam-se menos interessantes. Por exemplo: um pai engenheiro civil, que fez carreira numa construtora, talvez se decepcione com um filho que fez a mesma faculdade, mas optou por trabalhar no mercado financeiro. Outras profissões tornam-se mais atraentes.

Às vezes, o mercado evolui tão rapidamente que a quebra de padrões ocorre na mesma geração. “Entre a idade de escolha da profissão do primogênito e a do caçula, podem surgir profissões novas ou até um mercado inteiro”, afirma Gizelle Marques, gerente de transição de carreira da consultoria De Bernt Entschev.

“Antigamente os pais direcionavam a carreira dos descendentes, havia menos opções. Mas agora as novas gerações dispõem de imensas possibilidades.” Um mercado mais diverso favoreceria o segundo e o terceiro filho, mais propensos a fugir da profissão dos pais? Quando se trata da primeira escolha de carreira, talvez.

Mas, para o mais velho, essa também é uma boa notícia. Isso porque, segundo a pesquisa da USP, o primogênito é o que faz os movimentos drásticos de mudança de carreira — porque a escolha inicial teve forte influência familiar. Um mercado mais amplo talvez facilite uma transição amena.

Hoje os profissionais fazem escolhas de carreira de maneira racional, levando em conta tanto fatores objetivos, como salário e benefícios, quanto quesitos menos tangíveis, como perspectiva de crescimento e propósito. Pouca gente faz o exercício de pensar nas motivações pessoais mais profundas, aquelas que foram semeadas e cultivadas desde a infância, em casa.

Compreender como esses itens influenciaram seus valores profissionais e sua visão de sucesso é uma lição importante. Um balanço pode indicar o quanto você se esforçou para conquistar um emprego que deixava seu pai orgulhoso e você, infeliz. Pense nisso da próxima vez que analisar se você tem ou não sucesso.

A escritora que quer descomplicar os livros do nosso maior escritor

Acílio Lara Resende
Tribuna da Imprensa



Há duas semanas, fiz referência ao “assassinato” do qual teria sido vítima o nosso genial Joaquim Maria Machado de Assis, ou, simplesmente, Machado de Assis. O crime foi cometido pela escritora Patrícia Engel Secco. Contra o inigualável mestre e contra nossa cultura.

O assunto deu um susto em alguns dos meus amigos, que também me concedem a enorme honra de ser leitores do que escrevo neste espaço. Assustaram-se com o que eu disse, mas que vou detalhar só agora. O assunto continua me desafiando (coisa de somenos, perdoe-me o vocábulo, Patrícia…), pois ele desafia, sobretudo, gente importante – do naipe, por exemplo, dentre inúmeros outros, da escritora, ensaísta e ex-presidente da Academia Brasileira de Letras Nélida Piñon.

É o seguinte, para quem não acompanhou a inaudita façanha de simplificar (ou descomplicar) alguns dos nossos clássicos: a escritora Patrícia Engel Secco, utilizando-se de um projeto chamado “Instituto Brasil Leitor”, aprovado pelo Ministério da Cultura e baseado na lei de incentivos fiscais (Lei Rouanet), obteve financiamento para a publicação “simplificada”, segundo disse, do conto (ou novela?) de Machado de Assis “O Alienista”.

Em breve, estarão no mercado (se já não estão) 600 mil exemplares do livro, que serão distribuídos aos que não leem ou, como tentou esclarecer ela, “às pessoas simples” (como se ele, Machado, não o fosse), que jamais imaginaram ou souberam quem é o escritor, como “o meu eletricista e o porteiro do meu prédio. Quero aproximar os clássicos dessas pessoas, e não distribuir livros em escolas para crianças”. Trata-se, concluiu Patrícia, de uma tarefa destinada a “outro Brasil”, mas não especificou, claramente, que Brasil seria esse.

Patrícia Engel Secco afirma, também, que nossos jovens não gostam de ler Machado – uma afirmação parecida com a primeira, que diz respeito ao grau de instrução, hoje, dos nossos eletricistas e porteiros. Os jovens não gostam, segundo ela, “porque as construções são muito longas, e eu simplifico isso”. Que presunção, hein! Sua argumentação – ela não percebe isso – é essencialmente discriminatória.

SEGUNDA INTENÇÃO
“Essa mulher”, diz Nélida, “quer que nós tenhamos essa discussão como se ela estivesse propondo a ressurreição eterna de Machado de Assis, como se ele dependesse somente dela”. Na realidade, porém, não sei se seria só isso. É possível que, por trás desse projeto, haja uma segunda intenção – a de faturar um bom dinheirinho…

Os brasileiros leem pouco, mas isso não autoriza ninguém a adulterar uma obra (qualquer que seja sua qualidade) sob a alegação de que, assim, lerão mais. Mexer na forma de uma obra, que talvez seja o instante máximo da criação, é crime contra sua integridade. Agora, mexer na obra de Machado de Assis é crime de lesa-pátria!

A iniciativa da escritora, que, conforme tentou explicar, defende uma linguagem “mais palatável” para captar os jovens leitores, vem ao encontro, também, com certeza, do que tem afirmado o líder do PT na Câmara Federal, José Guimarães, a respeito da regulamentação (leia-se censura) da nossa mídia.

É esse pessoal que deseja implantar no país o Plano Nacional de Participação Social, defendido com ardor pelo ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho. Tudo isso faz parte de uma mesma matriz fascista, que se aproveitou agora de um hiato criado pela Copa do Mundo para mostrar suas asinhas, que, obviamente, não são de nenhum anjo… São possuídas! 

(Transcrito de O Tempo)

Engenharia em baixa

Folha de São Paulo
Editorial 

Disseminou-se pelo Brasil a convicção de que há grande carência de profissionais em campos decisivos para o desenvolvimento, como as engenharias. Falou-se até no risco de um apagão, que só não se teria materializado porque a economia andou rateando.

O diagnóstico não está errado, mas necessita de refinamento. Como tantos outros casos na área de educação, o aspecto quantitativo das carências nacionais tende a sobrepujar sua dimensão qualitativa.

O número de cursos de engenharia vem aumentando pelo menos há uma década. Há hoje cerca de 650 escolas, contra 150 no início dos anos 1990. Há de ser uma boa notícia que em 2011 o total de matriculados na modalidade tenha ultrapassado, pela primeira vez, o de estudantes de direito.

Segundo o Observatório de Engenharia da Universidade Federal de Juiz de Fora, formaram-se em 2012 mais de 54 mil engenheiros no Brasil. Em 2011 haviam sido 45 mil, 152% mais que uma década antes (18 mil, em 2001), taxa ligeiramente acima da observada nos demais cursos superiores (146%).

A quantidade de vagas oferecidas, no entanto, avançou bem mais nas engenharias (266%) do que nas outras áreas (129%). A discrepância decorre da alta taxa de evasão na engenharia, da ordem de 50%.

Apesar disso, o número de diplomados cresce mais rápido que o PIB. Como explicar, então, a percepção entre administradores de recursos humanos de que se tornou difícil contratar engenheiros?

Segundo artigo de Leonardo Melo Lins e colaboradores na revista "Novos Estudos Cebrap" de março, não há sinais claros de aquecimento no mercado para profissionais desse setor. Seus salários só disparam --sinal inequívoco de carência de mão de obra-- nos lugares em que há escassez aguda, como obras de infraestrutura distantes das regiões metropolitanas.

Segundo seu diagnóstico, o cerne da questão se encontra na década de 1980, quando a profissão perdeu prestígio social no mesmo passo em que a economia se afundava na inflação. A fuga dos cursos de engenharia, nos anos 1980-90, teria originado uma escassez relativa de profissionais na faixa de 35-59 anos, com experiência e capacidade para liderar projetos.

Esta lacuna só o passar do tempo pode sanar. Há algo mais preocupante, porém: nada menos que 40% dos engenheiros se diplomam atualmente em cursos mal avaliados, com notas 1 e 2 no Enade. Os profissionais disponíveis, além de inexperientes, são mal formados.

Mais do que seguir multiplicando as vagas em cursos de engenharia, o país deveria preocupar-se com duas coisas mais urgentes: reduzir a taxa de evasão e melhorar o aprendizado nos que já existem.