terça-feira, julho 08, 2014

A humilhação e a dura lição que fica

Adelson Elias Vasconcellos.


Há poucos dias, ainda no início da Copa, disse aqui que acompanho Copa do Mundo desde 1958. Portanto, tenho bagagem suficiente para afirmar isto: em apenas 30 minutos, a seleção armada por Luiz Felipe Scolari jogou no lixo cem anos de história do futebol brasileiro. E, o que torna a catástrofe maior, é o fato de sequer termos uma desculpa para consolar a nação. Nada. Fomos inapelavelmente vencidos não apenas pelas qualidades superiores da seleção da Alemanha, mas massacrados por nossos próprios erros e ilusões. Nossa arrogância, nosso ar superior,  nosso descaso para os diferentes avisos dados nos jogos anteriores, sufocaram qualquer chance mínima para, pelo menos, ter tornado a derrota menos humilhante do que foi.

Não é de hoje que se pede uma total reformulação do futebol brasileiro, até de todos os esportes eu diria. Esta politicagem molambenta que aí está,  sequer tem competência para dirigir um carrinho de pipocas, quanto mais planejar e executar um trabalho minimamente decente e correto. E as derrotas do esporte, gostem ou não, não são apenas fruto de dirigentes incapacitados e corruptos.  Mas é consequência da forma como o Brasil trata de si mesmo. Ou será que na política brasileira salva-se alguém? Olhem para o estado deteriorado não apenas dos serviços públicos, educação principalmente, mas para a economia como um todo. Há quatro anos  o país vem caindo pelas tabelas, não há um único e  miserável indicador que se salve na ladeira abaixo que estamos percorrendo. E, contudo, tentem criticar os responsáveis pela condução da economia, e logo você será taxado de pessimista, de direitista, de elitista, de reacionário, e outros chavões tão comuns, mas não menos tolos. 

Assim, esta humilhação histórica deveria acender na alma de cada um de nós um sinal de alerta vermelho. O país precisa mudar, o povo precisa mudar sua  atitude para com o seu país, deixar de indolente e tolerante em excesso com as pragas que vicejam nos porões do submundo por onde trafegam nossos dirigentes, sejam eles políticos, ou esportivos. Precisamos entender de uma vez por todas,   que há não jeitinho que conserte a esculhambação em que estamos sendo mergulhados. 

O destino do país não pertence apenas à classe dirigente. A ela confiamos apenas um mandato com prazo fixo para fazer pelo país uma obra de construção em benefício de todos. E, apesar de todos terem tal consciência, ainda vemos políticos sabidamente corruptos, ladrões, incompetentes sendo reeleitos entra eleição, sai eleição. 

Que o político seja cafajeste, isto é uma escolha individual. Se ele é um cafajeste de domínio público, quem o escolhe uma, duas, três vezes para continuar se locupletando, passa a ser tão cafajeste quanto.

É duro ter de escrever isto, é triste, constrangedor mesmo reconhecermos que Felipão foi apenas mensageiro da nossa falta de ação. Jogamos nos ombros dele a chama da salvação da pátria, num país em que o futebol é decadente há pelo menos uma década. No esporte, como na vida, não há salvadores da pátria. É preciso trabalhar, é preciso construir, é preciso haver alguma dose de sacrifícios, de esforços individuais e coletivos para se conseguir atingir metas.  

Obter resultados positivos, alcançar-se a tão desejada vitória não se torna obra do acaso.  Num país que teima em jogar no lixo o mérito do esforço individual, onde o que se quer é sentar-se numa cadeira de uma boca rica qualquer, onde se teima em sentirmos pena de punir o crime, quando se deveria cuidar das vítimas, num país em que o jovem é tratado a coice no plano da educação, e os velhos são ignorados e tratados como dejetos indesejados em que a morte seria uma bênção para os vigaristas de plantão, em que uma justiça se aquartela em palacetes cada vez mais sofisticados, cercados de luxúria e benesses, enquanto o crime varre o país de norte a sul, onde um Congresso se omite de exercer seu verdadeiro papel e se vende por trinta trocados, e o povo se alegra e se contenta com bolsas misérias, se deixa condicionar pelas políticas do não trabalho, a derrota para Alemanha poderia servir como um divisor de águas a separar a carcaça apodrecida  de uma civilização arcaica para um novo mundo melhor, mais justo, mais trabalhador, mais responsável por si e pelo destino do Brasil.

De nada vale agora Scolari pedir desculpas pela teimosia com que manteve um grupo que, sabidamente,   já dava sinais de exaustão.  A derrota acachapante está registrada na história, a pior do futebol brasileiro em todos os tempos, e dentro do próprio Brasil. 

Assim, a lição que fica é a de que precisamos nos redescobrir, encontrar outros caminhos, buscar outras saídas porque, está visto, o caminho que estamos trilhando só nos levará a outras humilhações. E, reparem, estamos há dois anos dos jogos olímpicos do Rio de Janeiro. Pergunta-se: qual tem sido o preparo de nossos atletas? Que incentivo eles tem recebido para se desenvolverem e se aprimorarem? Chegaremos ao ano olímpico apostando nas mesmas cartas que já fizeram sucesso, fazendo novas crenças no fortuito, apostando em velhos sucessos, rezando para dar certo.  Contudo, atletas que poderiam brilhar por suas qualidades superiores, sequer têm campos de treinamento e material adequado. A tal cidade olímpica precisou receber a intervenção do Comitê Olímpico Internacional para sair do papel. 

Renovo aqui o que afirmei em 2007: o Brasil não precisa de Copa do Mundo para fazer e atender as prioridades da população. Isto poderia ser feito e realizado sem precisar interromper o país inteiro por mais de um mês, com consequências bastante ruins para a economia como um todo. Poderia investir em mobilidade urbana por esta ser uma necessidade reclamada há pelo menos uma década. Não precisa torrar dinheiro em estádios caros  que agora ficarão às moscas por falta de espetáculos e público. Isto é desperdício, é jogar ópio aos olhos do povo para que ele ignore a mediocridade de seus governantes. 

Portanto, mais do que nunca, precisamos parar e refletir sobre o país que pretendemos construir e deixar como herança para nossos filhos e netos. Enquanto levarmos com a barriga os problemas e carências atuais, enquanto nos satisfizermos apenas com a mesmice incompetente que nos governa e dirige, enquanto teimarmos em ignorar que um povo não pode reclamar apenas direitos, mas  que também tem deveres  para exercer e responder, continuaremos vivendo nestas mazelas todas que tornam o país e seu povo uma civilização inferior. Senhores e senhoras, o futebol humilhado de hoje, representa não apenas o declínio do esporte mais popular do país, mas também o resultado de um país que continua sem rumo, sem saber aonde ele, definitivamente, pretende chegar. E não apenas nos bastará ter metas para serem alcançadas, é preciso trabalhar muito para obtê-las.  Chega de fantasias. Concluo dizendo: no 7x1 da Alemanha, todos nós somos culpados, não apenas o Felipão.  Que caiam todas as ilusões, e nasça, enfim, a realidade de que, sem trabalho, sem construção, sem esforço, sem comprometimento, não chegaremos a lugar algum, a não ser colher novas humilhações. A de hoje, talvez, sirva para este despertar, para esta nova tomada de consciência. 

A realidade até pode parecer dura demais, mas, se não fosse dura, como poderíamos aprender a lição que nos falta?