sábado, julho 12, 2014

Tira a mão daí, Rebelo!!!

Adelson Elias Vasconcellos


O ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, afirmou que o governo quer intervir no futebol brasileiro. A afirmação cheira mal por vários motivos. Primeiro, por se tratar de um desejo puramente eleitoreiro, como a querer o governo, e não a CBF, dar uma satisfação ao povo brasileiro pelo vexame da seleção brasileira diante da Alemanha. Assim, não é da competência do governo federal tal tipo de ação. Fosse para intervir, deveria ter feito ainda quando Ricardo Teixeira era presidente da entidade e sobre ele pesava, e ainda pesam, inúmeras acusações de corrupção. 

Se Marin, sucessor e atual presidente, ou Del Nero, presidente eleito para dirigir a CBF a partir 2015, carregassem sobre si o mesmo peso que Ricardo Teixeira, talvez seria o caso de se pensar. Mas a  incompetência de Marin não dá asas para uma intervenção que, antes de tudo, seria ilegal, como o próprio ministro Revelo reconhece. Não há dispositivo legal que permita ao governo federal agir de forma abrupta. 

Assim, e é Aldo Rebelo quem afirma, é preciso mudar a lei, para que o governo tenha espaço para uma intervenção. De minha parte, prefiro mais fiscalização, de um lado, e, de outro,  pressão popular .

Além disso, o regulamento da FIFA veda qualquer tipo de intervenção de governos nas confederações nacionais. Caso aconteça, o país ficaria alijado de participar de qualquer competição internacional oficial que a FIFA organizasse, incluindo a Copa do Mundo. 

Mas vamos refletir sobre o desejo manifestado pelo governo através do Ministro de Esportes. Qual o perfil que o próprio Aldo Rebelo tem na direção de clubes, federações ou entidades esportivas? Que se saiba é ZERO. 

Vamos mais adiante: qual a missão principal de qualquer governo? Fornecer à população serviços públicos de qualidade e atuar no sentido de impulsionar o desenvolvimento do país.  Neste sentido, é de se questionar: os serviços públicos brasileiros, administrados pelo atual governo,  são de qualidade? Ou, ainda, apresentaram alguma melhora sensível nos últimos anos?  No campo do desenvolvimento, qual o perfil apresentado pelo atual governo no campo econômico, com crescimentos a taxas compatíveis com as do restante do mundo? 

Ora, se nem serviços públicos nem crescimento econômico, frutos da ação deste governo, são recomendáveis, que autoridade ou competência teria ele para intervir e colocar em prática mudanças que melhorem a qualidade do nosso futebol?  Este apelo político de intervenção, além de não se escorar em nenhum dispositivo legal que o autorize, também não  se embasa em nenhuma competência  elevada do atual governo para produzir resultados positivos. 

Sigamos. Há uma área específica em que a atuação do governo federal pode agir para desenvolver o esporte nacional: a dos esportes olímpicos. Onde existe excelência nesta atividade? Qual a colaboração dada pelo governo federal para o desenvolvimento dos esportes olímpicos brasileiros? Os atletas brasileiros que irão participar dos próximos jogos, em 2016, no Rio de Janeiro, muitos sequer contam com centros de treinamentos especializados, com material adequado, com apoio logístico de excelência, cercados de profissionais renomados para se desenvolveram e aprimorarem sua técnica desportiva. Ora, se neste campo, onde o governo deveria atuar, o resultado é catastrófico, com que autoridade este mesmo governo se arvora na tentativa de mudar os rumos do futebol? 

Além disto, a prática de esportes é algo que deveria ser incentivada, desde cedo, nas escolas. Quantas escolas públicas contam com quadras poliesportivas, professores especializados para   orientar crianças e jovens? 

Assim, este desejo manifestado por Aldo Rebelo não passa de um oportunismo político quase irracional. Nem este governo tem competência administrativa e legal para intervir na CBF, tampouco  tem gente especializada capaz de atuar em todos os níveis em que o futebol é praticado para produzir as mudanças necessárias para que o país volte a ser o melhor do mundo. 

Além disso, o futebol é popular  e apaixonante justamente  por não ser lógico. Ele é cíclico, hoje grandes clubes conquistam títulos, amanhã, surgem zebras ou  clubes menores capaz de desbancar os grandes. Com países ocorre justamente a mesma coisa. Ontem, a Espanha ganhou tudo, assim como o Brasil já o fizera. Hoje, a Espanha, a Itália, o próprio Brasil  vivem a ressaca da entressafra de suas gerações de grandes talentos.

A Alemanha que nos aplicou a maior humilhação da história do nosso futebol, também viveu seus momentos de “pobreza” e decepção, também deixou de ganhar a Copa do Mundo quando a sediou em seu próprio país. Ao invés de intervenção, reuniu seus dirigentes, técnicos, profissionais da área, e fez um diagnóstico dos erros que cometera. A partir daí, traçou um plano de trabalho sério e o levou a frente, sem se deixar conduzir pela emoção e politicagem estúpida.

E é precisamente este bom exemplo que o Brasil deveria seguir. Ao governo federal compete cumprir sua missão no campo dos serviços públicos e na ação de incentivar o crescimento econômico. E, nestas duas áreas, como sabemos, este mesmo governo vai de mal a pior.  Portanto, em que a intervenção deste governo medíocre naquilo que lhe cabe fazer, conseguirá fazer melhor do que os atuais dirigentes?  Vai é politizar ainda mais a CBF, vai aparelhá-la ainda mais com seus jumentos políticos e postes inconsequentes e irresponsáveis.

Há muita gente competente do ramo, com anos de vivência capazes de mudar os rumos do futebol brasileiro.  A atual safra de grandes craques é pobre, não temos mais aqueles talentos todos que faziam a diferença nos gramados. 

O atual e futuro presidente da CBF, é sabido, não tem a menor competência para estar à frente da entidade máxima do futebol, e sequer reúne o perfil capaz de provocar as mudanças que todos exigem.  Assim, as mudanças deverão partir dos próprios clubes, até porque são os grandes formadores de atletas. E os presidentes destes clubes não caem na direção de paraquedas. Chegam ali eleitos por conselheiros e associados. Trata-se de um processo bastante democrático, portanto, nada há de ilegal ou irregular. E é justamente por aí que as mudanças devem se produzir. De baixo para cima, e não ao contrário, como se está pretendendo. 

Alguém poderá alegar que um processo destes demandará muito tempo. Ok, mas o processo que fez da seleção alemã a máquina de jogar um belo futebol como vimos nesta terça-feira, começou em 2000, quando sequer chegaram às finais da Eurocopa. Acentuou-se mais tarde, em 2002, quando perderam a final da Copa para o Brasil, que conquistou seu quinto título mundial.  Foram quatorze anos de trabalho intenso, a começar pelas divisões de base. Enquanto o futebol brasileiro  conta com um único centro de excelência para treinamento de suas seleções, a Granja Comary, a Alemanha construiu neste tempo 25 centros, contando e dispondo de todos os recursos técnicos, materiais e humanos.

Não é a toa que, no campeonato da série A do Brasil, observa-se uma redução cada vez maior de público nos estádios.  Ninguém se atreve a pagar ingressos caros para assistir espetáculos ruins. Sempre haverá outras opções melhores de entretenimento, contando com segurança qualificada.  Grandes clássicos, repetidamente, acabam terminando em verdadeiras batalhas campais, dentro e fora dos estádios. 

Há muitas questões a serem pensadas para que se provoque uma mudança radical nos rumos do futebol brasileiro no sentido de torná-lo melhor do que o que temos agora. Mas jamais, com gente que sequer é do ramo, que sequer consegue em sua própria atividade ser competente, se conseguirá,  através de uma intervenção politiqueira,  as mudanças que o momento presente está a exigir. Que o ministro e o governo a que pertence cuide do desenvolvimento dos esportes a partir das escolas, que trabalhem para que os esportes olímpicos ganhem maior impulso,  e já estarão dando uma contribuição positiva ao país. Sem ter este perfil, pensar em intervenção só revela espírito autoritário, além de oportunista, de um governo que não consegue sequer cumprir satisfatoriamente sua missão principal.  

Quanto ao futebol brasileiro propriamente, o passado já mostrou a nossa capacidade de superar maus momentos, dar a volta por cima e, ali adiante, recuperar o prestígio perdido. Poderíamos apontar 1950, 1966, 1998, 2006 como anos em que a tristeza das derrotas marcou-nos profundamente. Porém, é preciso jamais esquecer os títulos, as grandes vitórias, as grandes campanhas que se seguiram e apagaram estes momentos de frustração.  E o esporte é feito disto: superação das derrotas e das tristezas.  Ficamos por longos 24 anos distantes da disputa de títulos, entre 1970 e 1994. E nem por isso o futebol acabou ou se enfraqueceu. A derrota para a Alemanha, da forma como aconteceu dispensa qualquer intervenção de governos: é uma lição amarga que nos fará refletir e buscar novos caminhos para alcançarmos novas vitórias e títulos. O futebol brasileiro nunca precisou de governantes intrometidos, até porque eles não passam de meros torcedores. Será que a vaia no Itaquerão na abertura da Copa, ou a de Brasília, no ano passado, já não são recados suficientes para que governantes se mantenham longe da paixão que pertence ao povo, jamais aos políticos? 

Que a CBF seja um poço de corrupção e infestada por bandidos, ok, joguem pedra na Geni à vontade. Mas, vale lembrar que, é com essa mesma gangue de mafiosos que o Brasil conquistou seus cinco títulos mundiais. Para removê-los, além dos instrumentos legais necessários, é preciso, portanto, ter alguma coisa a mais além da antipatia ou desejos não confessados de se sentarem no trono de algum conselho de notáveis e se alimentar do capilé que o futebol rende.  O que não falta é incompetência na CBF, mas ela é abundante, também,  em parte da crônica esportiva com sua hipocrisia lasciva.

Para encerrar: num programa do canal pago ESPN, Juca Kfouri defendeu a intervenção federal na CBF, e citou várias vezes a presidente Dilma Rousseff. Se Juca fosse jornalista de economia, e não de futebol, veria que o vexame na economia do país que a senhora Rousseff produz chega a ser tão trágico quanto a tragédia dos 7x1. Menos Juca: esta senhora sequer consegue comandar com competência as finanças do país, o que  dirá enfiar a política misturada ao futebol.  Que mudanças precisam ser feitas  no futebol brasileiro, disto ninguém tem dúvida. Mas elas precisam ser feitas por gente do ramo do futebol. Sempre que a política interferiu no futebol deu burrada. Seria bom que o  Juca refletisse com a razão, não com a emoção. É triste o momento vivido desde terça feira, mas isto não autoriza que busquemos soluções pelos piores caminhos.  

Que não se goste de Marin e Del Nero é uma coisa, que eles são incompetentes para comandar uma urgente reformulação do futebol brasileiro, isto é de domínio público. Porém, ambos chegaram aos seus cargos seguindo uma regra aceita por todos. Foram eleitos por quem o regulamento determina e autoriza. Derrubá-los na mão grande, significa dizer e admitir que, sempre que alguém estiver exercendo algum cargo, e não cultivar simpatias no seu meio, será retirado do cargo à força? Desculpem-me, mas equivale a admitir o autoritarismo e o arbítrio  como instrumentos legais e legítimos de resolução de problemas. E, só para lembrar, o Brasil ainda vive numa democracia, num ESTADO DE DIREITO DEMOCRÁTICO. De golpismos e golpistas a história já se encheu o suficiente para evitá-los.

Consolos da Copa



CONSOLO DE BRASILEIRO



 CONSOLO DE CARIOCAS






Governo quer intervir no futebol brasileiro, revela Aldo Rebelo

Jamil Chade e Ronald Lincoln Jr. 
O Estado de S. Paulo

Ministro do Esporte afirma que mudanças na administração esportiva eram necessárias mesmo antes de derrota alarmante da seleção  

Dois dias depois da humilhação do Brasil na Copa, o governo anuncia que quer assumir parte das funções de legislar sobre o futebol, exige mudanças na estrutura do esporte e rejeita a ideia de que a CBF pode, sem participação estatal, administrar o setor.

A Fifa proíbe que governos promovam qualquer intervenção nas federações nacionais, sob a ameaça de expulsar o país das Copas. Mas Brasília estima que existe espaço para agir.

"Eu sempre defendi que o Estado não fosse excluído por completo do futebol", disse Aldo Rebelo, ministro dos Esportes. "É uma intervenção indireta". Segundo ele, existe áreas de "interesse público"  e uma mudança pode alcançar até mesmo a CBF.

"Isso se houver uma reforma na lei que de ao estado a atribuição de regular. A Lei Pelé tirou do estado qualquer tipo de poder de atribuição e poder de intervenção. Ela determinou a prática do esporte como algo privado, atribuição do mundo privado e isso só pode ser modificado se a legislação também for modificada", declarou.

"Se depender de mim, não teríamos tirado o estado completamente dessa atribuição. Se depender de mim, parte dessa atribuição deve voltar", defendeu Aldo Rebelo.

 Depois da derrota da seleção, ministro do Esporte 
quer transformação no esporte praticado dentro do País

Ele garante que o governo não quer nomear cartolas. "Mas o Estado não pode ser excluído da competência de zelar pelo interesse público dentro do esporte", insistiu. "Dirigentes passaram a administrar o futebol sem qualquer atuação do estado. Queremos retomar algum tipo de protagonismo no esporte. Não para indicar interventor. Mas para preservar o interesse nacional e o interesse publico", disse.

"O futebol brasileiro precisa de fato de mudanças. A derrota para a Alemanha evidencia essa necessidade", afirmou o ministro, que chamou a goleada de "lição". "Precisamos adotar medidas para erradicar os motivos do vexame de nosso futebol", insistiu.

"Foi um acidente o que ocorreu. Mas precisamos examinar o motivo e a causa do acidente. É uma marca profunda. A melhor reação é ver as causas mais duradouras daquele desastre. Precisamos extrair lições para que o Brasil reponha a seleção no status que ela deve ter. As mudanças são necessárias", disse.

Aldo classificou os 7 x 1 como "uma marca muito terrível para o futebol brasileiro. O ministro pede uma melhoria na qualidade da gestão dos clubes, novas leis e até impedir a exportação de jovens craques. O ministro também pede uma organização no calendário e até mesmo na estrutura financeira dos times.

"Deveríamos fazer esforço para elevar a qualidade da gestão dos clubes", disse. "Algumas dessas propostas estão sendo discutidas na legislação, que está tramitando no Congresso. Queremos que os clubes assumam responsabilidades em relação à gestão. Que tenhamos condições de apoiar financeiramente esses clubes. São poucos que tem condições de recorrer à lei de incentivo ao esporte", declarou.

Aldo ainda quer tratar das finanças dos times. "Queremos que os clubes façam uma renegociação da dívida, mas com duplo compromisso, de pagar a divida passada e a futura. E sem atraso no pagamento de atletas", defendeu.

Outro ponto é o de impedir a saída de jovens craques para o exterior. "Precisamos discutir a legislação do ponto de vista de trabalho de menores. Somos exportadores de matéria prima e somos importadores de produto acabado", afirmou. "Precisamos mudar essa equação. A lei coloco super poder para os empresários", atacou.

TREINADOR
O ministro, porém, se recusou a falar de troca de técnicos ou de uma opção estrangeira para a CBF. "Não vou promover caças às bruxas", disse. "Para todo grande problema aparece uma solução óbvia, fácil e errada. Precisamos ter a consciência de que a mudanças no futebol precisam ser feitas. Mas precisamos encontrar uma forma eficiente de promove-las. E que isso não se faça apenas pela dor da derrota", completou.

Aldo, porém, se esquivou como pode ao ser questionado se apoiaria uma CPI do futebol ou na CBF, como defende o deputado Romário. Ele ainda atacou o ex-jogador, alertando que Romário não fez uma só proposta real para o futebol brasileiro enquanto esteve na Câmara de Deputados.

O ministro sugeriu que Romário busque apoio entre os demais deputados para suas propostas e insiste que o governo mantém sua distância em relação ao Poder Legislativo.

Criaram um monstro

Tostão
Folha de São Paulo



Felipão é o responsável pela seleção, mas não é o criador do nosso atual e medíocre estilo de jogar. Ele pensa como os outros técnicos brasileiros. Criaram um monstro.

Não sei quando nem onde isso começou, se foi de dentro para fora, por causa da visão estreita dos treinadores, ou se foi de fora para dentro, por causa da ganância pelo lucro, em detrimento da qualidade do futebol. Está tudo interligado, um jogo de interesses. Repito, uma praga nacional. Desaprendemos a jogar coletivamente.

Para Felipão e a maioria dos técnicos, trocar passes no meio-campo é frescura, um jogo bonitinho, improdutivo. O futebol brasileiro vive de correria, de estocadas e de jogadas aéreas. Muitas vezes, dá certo.
Por motivos óbvios, qualquer técnico da seleção tem uma ótima estatística. Queremos mais que isso. O mundo, que tanto nos admira, também está triste.

Por causa do desprezo pelo meio-campo, não temos um craque neste setor. Se Kroos, Schweinsteiger e outros armadores fossem formados no Brasil, seriam escalados, desde as categorias de base, de meias ofensivos, para atuar próximos ao gol. Schweinsteiger era um meia habilidoso e criativo que se transformou em um volante, para o time ter mais o domínio do jogo e da bola.

Contra a Alemanha, o Brasil jogou com cinco atrás (quatro defensores mais Luiz Gustavo), quatro na frente (Hulk e Bernard, pelos lados, e Oscar, próximo a Fred) e apenas Fernandinho, em um enorme espaço no meio-campo.

Enquanto isso, a Alemanha, com todos os jogadores muito próximos, tinha três no meio-campo, mais Muller e Ozil pelos lados, que voltavam para marcar e chegavam na frente. Os cinco atacavam e defendiam. Eram cinco contra um. Há 15 anos falo sobre isso. Tenho a sensação de que estou sendo repetitivo e que não há nenhuma importância se falo ou não falo disso. Cansei!

A estatização do futebol

O Estado de S.Paulo

Ficaria melhor na Dilma Bolada - a falsa página da presidente nas redes sociais - do que na CNN, onde apareceu na quinta-feira, o que provavelmente foi o mais tosco chutão da chefe do governo nestes três anos e meio no Planalto. Numa entrevista gravada no dia seguinte à catástrofe do Mineirão, ao defender uma "renovação" do futebol brasileiro, Dilma disse que "o Brasil não pode mais continuar exportando jogador". E, para deixar claro que o "não pode" seria uma proibição pura e simples, ela emendou de bico: "Um país, com essa paixão pelo futebol, tem todo o direito de ter seus jogadores aqui e não tê-los exportados".

Em um surto provocado por uma mistura tóxica de oportunismo - para que o pó da derrota em campo não se deposite sobre o projeto da reeleição - e conhecido vezo autoritário, Dilma falou como quem quer cassar o direito constitucional dos brasileiros de ir e vir, dentro ou para além das fronteiras nacionais, como se o Brasil fosse uma Cuba ou Coreia do Norte. Para justificar a enormidade, deu uma pisada na bola de envergonhar um perna de pau. "Exportar jogador", caraminholou, "significa não ter a maior atração para os estádios ficarem cheios." Revelou involuntariamente, portanto, saber muito bem que boa parte ou o grosso dos US$ 4 bilhões despejados na construção e reforma das arenas da Copa serviu apenas para legar ao País uma manada de elefantes brancos.

Aprisionar os nossos jovens mais promissores - como se isso fosse possível - absolveria, nos descontos, a megalomania dos governos petistas de mostrar ao mundo o que o Brasil, sob a sua iluminada condução, é capaz de fazer. Pura má-fé. O fato singelo é que, no mundo globalizado, assim como profissionais de outras áreas, jogadores migram para países onde o seu trabalho se inscreve em um negócio extraordinariamente bem-sucedido. Ali podem ganhar em um mês o que aqui levariam anos. Isso porque a estrutura do futebol brasileiro é sabidamente arcaica, corrupta e falida. O povo não esperou a seleção ser goleada para desprezar os cartolas que enfeudam clubes, associações e, claro, a CBF.

Faz uma eternidade que essa estrutura precisa ser "renovada", como Dilma parece ter descoberto. Mas não a submetendo à tutela estatal, como prega o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, do PC do B. Invocando nada menos do que o interesse da Pátria, ele defende uma "intervenção indireta" (sic) numa atividade da qual a própria lei (no caso, a Lei Pelé, promulgada em 1998) aparta o poder público. Para começar, como ele deveria saber, a Fifa proíbe a intromissão de governos nas federações nacionais. Agora mesmo a Nigéria foi suspensa por ter o governo removido dirigentes de sua entidade futebolística. De resto, a promiscuidade entre autoridades e cartolas multiplicaria os focos de corrupção, sem modernizar o esporte.

O Estado pode, sim, impor aos clubes uma série de condições para rolar as suas intermináveis dívidas com o erário, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) faz com os governos que lhe pedem socorro. O projeto da Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte, pronto para ser votado na Câmara, condiciona o acesso dos clubes ao crédito oficial à arrumação de suas finanças, reforma administrativa e pagamento em dia dos salários de seus contratados. O Estado também pode - e deve - controlar a migração de menores de 18 anos. Embora a Fifa proíba que sejam importados por clubes estrangeiros, estes driblam a barreira contratando formalmente um de seus parentes. Como no gramado, bastam regras e juízes que punam os transgressores.

No mais, que o Brasil aprenda com o que os dirigentes e jogadores alemães fizeram para renovar o futebol nacional depois da sua vexatória eliminação da Eurocopa em 2004. Como relatou o repórter Jamil Chade no Estado de quinta-feira, eles traçaram e foram fiéis a um plano de renovação de quadros, no qual investiriam ao longo do tempo US$ 1 bilhão. Minguaram as contratações de estrangeiros em benefício do talento local. Os ingressos foram congelados. Ainda assim, o campeonato alemão é o mais rentável da Europa. Os clubes são prósperos. O Bayern de Munique tem 11 times completos - fora a equipe principal. E o Estado não teve nada com isso.

Populismo no futebol

Fernando Rodrigues
Folha de São Paulo

BRASÍLIA - Dilma Rousseff quer uma "renovação" do futebol. Seu ministro do Esporte, Aldo Rebelo, falou, depois recuou, sobre "intervenção indireta" na gestão desse esporte. Um site bancado pelo PT afirmou que a CBF é responsável pela "desorganização" do futebol brasileiro.

Os maiores responsáveis pela bagunça do futebol brasileiro são os governantes sucessivos que passam a mão na cabeça de dirigentes de clubes inescrupulosos e incompetentes.

Os cerca de 300 times de futebol no Brasil devem cerca de R$ 4 bilhões. A cifra é de 2012. Pode ser muito maior agora. Um projeto de lei apoiado pelo Planalto pretende dar um desconto e refinanciar esses débitos por um prazo de 25 anos.

A contrapartida seria exigir dos times o pagamento em dia de suas contas, punindo com o rebaixamento os que atrasarem as prestações ou os salários de atletas. Vai funcionar? Difícil. A CBF (Confederação Brasileira de Futebol) teria de aceitar tal procedimento --retirar pontos de um clube no Campeonato Brasileiro quando ocorrer o calote de dívida.

A Fifa, órgão que comanda o futebol mundial, não aceita a intervenção de governos nas regras de campeonatos organizados por entidades associadas, como a CBF. Ou seja, não tem saída dentro dessa proposta populista agora abraçada pelo Palácio do Planalto. A chance de sair só o perdão das dívidas sem nada em troca é enorme.

A solução real é dolorosa: executar judicialmente essa dívida de R$ 4 bilhões. Muitos clubes vão falir. Grandes da Série A do Campeonato Brasileiro podem fechar as portas. O Brasil ficará melhor. Será pedagógico. Quem sobrar terá de pedir ajuda aos seus sócios. Serão cobrados a ter uma gestão mais profissional. Afinal, trata-se de uma atividade privada.

Falar em renovação do futebol em época de Copa do Mundo e sinalizar com um perdão de dívidas bilionárias é populismo. Esse é o caminho com o qual Dilma está flertando.

O Brasil perdeu. Perdeu?

Percival Puggina
Tribuna da Imprensa

Não vou escrever sobre o jogo. O futebol já tem cronistas em quantidade e qualidade suficiente. Interessa-me o jogo entre Brasil e Alemanha numa outra perspectiva.

Entendo que muitos ainda chorem ante o fracasso da turma do Felipão. Mas é preciso ponderar: aquilo que assistimos foi, apenas, um jogo de futebol. Não era o Brasil que estava ali. O Mineirão, na última terça-feira, era uma ilha cercada pelo Brasil real, por um Brasil que tem muito mais com que se preocupar. Pessoalmente, rezo para que as lágrimas que lavaram tantos rostos pintados de verde e amarelo não levem consigo um amor à pátria comum que habitualmente começa e termina em dois tempos de 45 minutos.

O Brasil perdeu. Perdeu? Não tenho tanta convicção assim. Como escrevi em registro postado no facebook tão logo encerrou-se a partida, o futebol não pode ser, em si mesmo, um objetivo nacional. O Brasil tem muito mais a ganhar, por vias melhores. E tem muito a perder se continuar pelos caminhos em que tem andado. Teremos aprendido isso? Se aprendemos, não perdemos.

VALEU A PENA?
Nos últimos meses, muito se discutiu, muito se escreveu sobre a Copa e sobre a conveniência de sua realização no Brasil. Pois bem, caros leitores, o momento da derrota se mostra oportuno para avaliarmos o quanto o evento e suas circunstâncias são fúteis e transitórias. Hospedar o circo da FIFA, a cadeia produtiva do futebol espetáculo, desembolsando para isso recursos bilionários é um luxo a que só se podem entregar nações ricas onde não falte o essencial para parcelas imensas de suas populações. A derrota de terça-feira evidenciou que a festa, num átimo, deixou de ser nossa. Tornou-se totalmente alheia a nós. Em extravagante inversão de prioridades, teremos apenas assinado a nota e patrocinado a festa da FIFA.

O Brasil perdeu. Perdeu? Penso que não, se aprendemos a lição segundo a qual devemos usar a democracia para: a) escalar bem nossa elite dirigente; b) sermos internamente solidários; c) buscarmos a competência necessária para que nossos acertos superem largamente nossos erros; d) identificarmos tudo que nos amarra, que nos prende os pés, que limita nossa velocidade, que nos faz ser menos objetivos e eficientes do que podemos e devemos. São tantos, tantos mesmo, os fundamentos que faltaram à seleção! E, não por coincidência, são os mesmos que faltam ao nosso país. Muita tatuagem, muita brilhantina e pouco brilho, muita malandragem, muita publicidade. E pouco futebol.

Mesmo sabendo disso tudo, tendo reprovado sempre a imprudente decisão de trazer a Copa (e ainda importamos os Jogos Olímpicos para o precário horizonte de 2016!), eu quis a vitória para o Brasil. Espero, agora, que a constrangedora derrota tenha proporcionado à nação, envolta em ficção, sob tanta fantasia publicitária, um sofrido mas proveitoso encontro com a realidade.

"Padrão Felipão"

Eliane Cantanhêde
Folha  de São Paulo



BRASÍLIA - Da presidente e candidata Dilma Rousseff, tentando cutucar a Fifa depois dos 3 a 0 do Brasil sobre a Espanha e a vitória na Copa das Confederações: "Meu governo é padrão Felipão".

E agora, depois dos 7 e o fim do sonho do hexa em pleno solo brasileiro? Dilma continua dando entrevistas sobre a Copa e, se já não comparava o padrão do seu governo à malfalada Fifa, não pode mais compará-lo ao do Felipão. Mas não vai faltar quem faça a comparação...

Política é curiosa, vai e vem, vem e vai, sempre sujeita aos humores da grande e difusa massa de eleitores. Dilma ganhou quatro pontos com a Copa, mas tende a estacionar agora.

O que ocorreria com a candidata Dilma se o Brasil fosse campeão e a presidente Dilma entregasse a taça para o capitão Thiago Silva? Imagem fortíssima, de imensa simbologia.

Mas o que ocorrerá com a candidata Dilma se a Argentina for campeã e a presidente Dilma for obrigada a entregar a taça para o capitão Messi em pleno Maracanã? Imagem igualmente fortíssima, de imensa simbologia, mas em sentido oposto.

Já que foi a própria Dilma quem fez o casamento entre o seu governo e o "padrão Felipão", estão unidos na alegria e na tristeza. Já que ela certamente tiraria louros político-eleitorais se a taça fosse nossa, a premissa contrária é igualmente verdadeira: tem agora de dividir os prejuízos da derrota vexaminosa.

Com crescimento medíocre e indicadores destrambelhados, é óbvio que a oposição, em algum momento, mais ou menos subliminarmente, vai colar a tática, a estratégia e a preparação do governo ao "padrão Felipão". Sobretudo na economia.

Eleição, porém, não é campeonato de futebol entre PT e PSDB. Se FHC dizia que a vitória do Brasil não impediria derrota de Dilma, a premissa contrária vale igualmente para ele: a derrota do Brasil também não impedirá a vitória da petista.

A Copa acabou para o Brasil, mas a eleição está apenas começando.

A necessária superação do vexame

O Globo
Editorial


A derrota trágica no Mineirão precisa ser o marco zero de uma reforma profunda, como fez a Alemanha, passando pela revitalização dos clubes, com o seu enquadramento num modelo profissional de administração

O período de 64 anos, de 1950 a 2014, é delimitado por duas tragédias na história do futebol brasileiro. Numa ponta, a perda do que poderia ter sido o primeiro título mundial, no Maracanã, para o Uruguai, e, na outra, a vexaminosa derrota por humilhantes 7 a 1 diante da Alemanha, terça-feira, no Mineirão. Era o penúltimo passo antes de se voltar seis décadas depois ao Maracanã para, enfim, vingar 50.

Ora, o país lutou para sediar a Copa de 2014 com dois objetivos principais: exorcizar aquele fantasma e ser hexacampeão. Não será, e ainda permitiu nova mancha nos 100 anos de seleção brasileira: a mais acachapante derrota nestas dez décadas.

Será infindável a pendenga sobre se o Maracanazo foi ou não maior que o Mineirazo. Mas trata-se de uma discussão tão longa quanto inútil. Os argumentos de lado a lado são vários. Perder um jogo (2 a 1) de decisão de Copa em casa, contra o Uruguai, no qual abriu-se o placar e precisava-se apenas do empate, é difícil esquecer. De outro lado, o vexame do 7 a 1, no Mineirão — sendo que tudo foi resolvido no espaço de apenas seis minutos do primeiro tempo, quando três gols, com diferença média de dois minutos entre eles, liquidaram a partida —, também é um pesadelo para sempre.

A vantagem, hoje, é já se ter passado por tragédia do mesmo tamanho, e ressurgido dos escombros. Não importa se a derrota é igual, menor ou maior que a de 50. Está nas crônicas da época o registro do profundo silêncio de catedral que tomou conta do ainda inacabado Maracanã, enquanto Obdulio Varela e Ghigia comemoravam o bi uruguaio no gramado. De anteontem, nestes tempos de comunicação instantânea e planetária, das transmissões ao vivo por incontáveis ângulos, restaram registrados nos arquivos digitais o choro de crianças no Mineirão e a tristeza nas ruas, antes desertas, em todo o país, à espera da classificação para a concretização, enfim, da vingança de 50, no domingo, no mesmo Maracanã.

Consumada a tragédia de 50, em duas Copas o Brasil ganharia a sua primeira, em 58, seria bicampeão e chegaria a cinco títulos. E, seja qual for o campeão no domingo, a seleção continuará como a mais vitoriosa. Nada que não possa ser soterrado por uma sequência de derrotas nos próximos torneios, caso o futebol brasileiro aceite de forma passiva a visível tendência de decadência e desorganização em que entrou. Porém, depois de 50 ele soube reagir. E não foram poucos os reveses seguintes. Quando tinha times medíocres, e a derrota era esperada, e mesmo em surpresas também dolorosas como em 82, na Espanha, quando o Brasil reuniu uma das melhores seleções de todos os tempos, e perdeu. Ou na final de 98, em Paris, para a França, num apagão cuja centelha foi a mal explicada indisposição de Ronaldo.

É indiscutível que o 7 a 1 tem um peso específico não desprezível. Porém, de nada adiantará buscar culpados individuais, transformar o Fred num Barbosa, o goleiro de 50. Ou algo do tipo. Isso não significa deixar de reconhecer os erros, para não repeti-los. Mas é crucial chegar às raízes das falhas.

O comportamento do time na Copa e, em particular, na semifinal de terça, denuncia incontáveis problemas, derivados de mau planejamento e preparação deficiente, falta de treinamento, problemas táticos, de escalação, desequilíbrio emocional e qualidade discutível de jogador. O choro descontrolado do capitão Thiago Silva antes da disputa por pênaltis contra o Chile, a instabilidade da equipe no segundo tempo do jogo com a Colômbia e a própria incapacidade de reagir ao primeiro gol da Alemanha, marcado por um atacante, com o pé, livre, numa batida de escanteio, falha grave de qualquer defesa, são pontos que, ao serem unidos, compõem uma radiografia que precisa ser analisada, com cuidado, sem paixões.

É preciso aprender com a derrota. Ainda mais esta, trágica. Antes de tudo, entretanto, deve-se fazer a autocrítica de que bravatas, ufanismos, arrogância e autossuficiência sempre são a antessala de perdas sofridas, cedo ou tarde. Estes cacoetes foram observados na comissão técnica, em Felipão e Parreira, ao se declararem favoritos e se dizerem com “a mão na taça”, postura que pesou tanto sobre os jogadores que a psicóloga da delegação teve quase tanto trabalho quanto o médico e o massagista. Nos últimos dias, até a presidente Dilma ensaiou querer usar a Copa como arma político-eleitoral. Primeiro, devido ao êxito do evento em si. Depois, se viesse o hexa, o ataque aos “pessimistas” seria amplificado nos palanques.

O vexame de terça mostrou, também, que não há jeitinho e malandragem que consigam superar a organização e o trabalho duro, competente e de longo prazo. O Brasil tem o exemplo da própria Alemanha, capaz de somar a habilidade individual à disciplina. Para isso, fez profunda reformulação, a partir também de um fracasso: na Eurocopa de 2000, quando o time marcou apenas um gol e foi desclassificado na primeira fase. Como no Brasil, lá futebol também é questão de Estado. O governo fixou dez anos de prazo para a Alemanha voltar à elite mundial. A Federação Alemã construiu 360 centros de formação de jogadores, onde são atendidos 25 mil meninos e meninas, de 9 a 17 anos. Foi preciso, também, reformar a liga de futebol (Bundesliga) e o campeonato, com o enquadramento dos clubes em normas de administração austera, como deve ser. Clube endividado sai da liga e do campeonato.

Enquanto isso, os clubes brasileiros, quebrados, deixaram de formar jogadores. Os que surgem são logo vendidos ao exterior, e o Campeonato Brasileiro se esvai — 12.500 de média de público por jogo, contra 45 mil da Bundesliga, a mais elevada do mundo.

O Mineirazo precisa ser entendido como marco zero de uma reforma brasileira de igual dimensão, passando pela cúpula do esporte e pela recuperação dos clubes e seu enquadramento, enfim, num modelo profissional de administração. Deve-se, inclusive, aproveitar, com este objetivo, a tramitação no Congresso do projeto de renegociação de suas dívidas tributárias.

Ao mesmo tempo, deve-se sepultar a ilusão de que o Brasil tem o monopólio da habilidade e do brilhantismo no futebol. Mito. Nem Pelé deixou de treinar e trabalhar com afinco para desenvolver suas habilidades. Antes de tudo, é preciso reconhecer que fomos ultrapassados por outros países. Pois, sem admitir que existe o problema, ele nunca será resolvido.

O desastre do Brasil, na visão do poeta Carlos Nejar

Carlos Nejar
Tribuna da Imprensa


Este desastre do futebol brasileiro diante da Alemanha, em goleada, começou bem antes da lesão propositada em Neymar, veio bem antes de quando Felipão mostrou-se desatualizado, soberbo, ditador; veio antes pela excessiva propaganda, cuidando dos mínimos gestos e movimentos de nossos jogadores, como se fossem deuses, novos e opulentos, com a supervalorizaração dos pés, como se pensassem ou criassem a ordem do universo. Não foi apenas a seleção alemã superior, houve negligência, pane, lapso dos atletas nacionais e como de início se viu um time de sopro curto. O preço foi muito caro.

Esse desastre começou com Lula e continuou com Dilma Rousseff com gastos em estádios, criando dinheiro onde não havia, criando inflação, feriados, bolha imobiliária, a ponto de o país parar. Criando, sim, elefantes brancos, faraônicos, até em Manaus, Cuiabá, Fonte Nova, Mané Garrincha, Maracanã, no Beira-Rio, na Arena de São Paulo, em Recife, no Paraná, no Mineirão, em Belo Horizonte, e outras duas cidades, alargando o bolso dos empreiteiros e, quiçá, de alguns governos, quando para uma Copa do Mundo bastava a metade de estádios. Agora nem saberemos o que fazer com alguns deles.

Gastamos para a glória alheia, gastamos para nada. E o povo brasileiro chora nas arquibancadas e mais chora pelo desperdício de nosso dinheiro, que poderia servir para a saúde, a educação, a cultura, a construção de casas populares. Não se entende a cabeça de alguns de nossos políticos, responsáveis por tal desastre e que não cabe nem lamentar, lamentamos a existência deles. Nem entendemos a avidez e a razão de alguns rinocerontes de nossa vida pública rondando os cofres e o bem comum. E tal desastre mostrou que não temos governança criteriosa, gestão sábia, sendo a administração do Erário desmontável e frágil como a queda recente do viaduto em Minas Gerais. O desastre já estava anunciado, com a Fifa poderosa impondo ordenações e leis, com alguns juízes cegos e incompetentes.

A presidente Dilma não é a única responsável por esta hecatombe nacional no esporte mais importante do país, mas dela também partiram esses desmandos, sem falar da Petrobras ou Pasadena. E não pode agora ficar em cima do muro, presa na sua autossuficiência. Não só Neymar que faltou, faltaram o nosso orgulho, a nossa alegria de povo diante do resultado, que foi uma solene goleada, a mais funesta da história, que chegou a ser piada no estrangeiro. Não temos apenas de reformular o nosso futebol, temos que também mudar nosso governo, que desperdiçou a riqueza da nação e não aceitamos que persista em cima do muro.

A nossa seleção se apresentou com sinais visíveis de despreparo. Sem poder de artilharia. E todos sofremos juntos o desastre.

Observou o Padre Antônio Vieira que “as lágrimas são consequência da vista; ajuntou a Providência o chorar com o ver porque o ver é a causa de chorar. Sabeis por que choram os olhos? Porque veem”.

Importar é a solução

Carlos Alberto Sardenberg 
O Globo

Do jeito que estamos, será difícil trazer craques. Mas bons e modernos técnicos podem vir com seu know-how e seu pessoal

No futebol, o Brasil também é exportador de matéria-prima. O país tem exportado jogadores muito jovens, ainda sem valor agregado, que são formados profissionalmente no exterior.

Neymar já saiu craque, mas é exceção. Na verdade, é o único caso assim na atual seleção. Os demais ganharam valor lá fora. Mesmo Neymar não se tornou — ainda, talvez — o protagonista do Barcelona. Parece que tem algo a ser mais elaborado.

No geral, eis o problema: o país do futebol exporta não apenas matéria-prima, mas uma matéria-prima inacabada.

A coisa piorou ao longo de anos. Lembram-se da grande seleção de 1982? Só Falcão jogava fora. Os demais (Zico, Sócrates, Careca, Junior, Cerezo etc) estavam por aqui ganhando Brasileirão e Libertadores. Todos foram para a Europa logo depois e lá assumiram posição de destaque.

Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho saíram jovens, mas já craques reconhecidos, mais ou menos como Neymar agora.

De lá para cá, no balanço geral, o país tem exportado jovens desconhecidos ou quase, não formados, que dão ou não dão certo lá fora. Vão para batalhar — e, de repente, aparece um Luís Gustavo na Seleção. E que, aliás, está longe de ser protagonista no seu clube.

Sendo só exportador, e de matéria-prima, o futebol brasileiro sofreu uma grande perda de qualidade. Se mandamos para fora os craques recém-aparecidos, jovens talentos e jovens apenas promissores, quem fica para jogar aqui?

Reparem: o país exporta e não importa. Quer dizer, importa alguns latino-americanos, mas raríssimos de primeiro time ou mesmo de suas seleções.

Não importa pela mesma razão que exporta. O mercado local não é capaz de manter alta qualidade.

Qual a saída? Proibir a exportação? Como já dissemos aqui, seria ineficiente e ilegal. Ineficiente porque não há ambiente econômico para a formação de grandes times, dado o modo como o futebol é administrado — tanto o profissional, adulto, quanto o dos meninos da base. Ilegal porque não se pode coibir o direito de uma pessoa de trabalhar no exterior para ganhar mais e se aperfeiçoar.

O caminho é modernizar a gestão do futebol, criando uma legislação que permita o desenvolvimento de uma economia de livre mercado: clubes-empresas privados, sem subsídios ou favores do governo, investidores que efetivamente arrisquem seu dinheiro (e possam ganhar mais honestamente).

Faz parte disso uma globalização mais intensa que, no nosso caso, só pode ser a abertura e o incentivo às importações. A começar pelos técnicos. Seria como importar tecnologia e conhecimento para aperfeiçoar uma indústria local.

Do jeito que estamos, será difícil importar craques. Mas bons e modernos técnicos podem trazer seu know-how e seu pessoal.

A Alemanha tem um grande futebol local, com qualidade, público e dinheiro. Tanto é assim que, dos quatro semifinalistas, é o time que tem mais jogadores locais (15). O pessoal da casa não tem tanto motivo para emigrar. Ainda assim, a Alemanha tem oito “estrangeiros”, todos jogando em grandes times europeus. Nenhum na Ucrânia ou na Rússia ou na Grécia...

Faz algum tempo que a Alemanha, assim como Espanha, Itália, Inglaterra, onde jogam os “exportados” alemães, mantêm o mercado aberto e importam os melhores do mundo. Isso elevou a qualidade local, ao impor enorme competição e desafio aos nativos. E, claro, um ambiente favorável: é diferente crescer treinando com os craques do Bayern Munique, aliás, o time mais bem representado nas semifinais, com nove jogadores.

A Holanda, rica e globalizada, tem dez nativos e 13 estrangeiros. Já Brasil e Argentina são basicamente exportadores, com 19 e 21 “estrangeiros” respectivamente. Aqui como lá, os “emigrados”, quando voltam para suas seleções, caem num ambiente de baixa qualidade. Ganham pela sua longa tradição, chegam a semifinais porque têm muitos jogadores espalhados por aí. Mas estão claramente piorando e dependentes de um ou dois jogadores. A estrutura, exportar matéria-prima inacabada, vai se fixando aos poucos, mas inexoravelmente.

Mal comparando, eis alguns números para pensar: na última safra, o Brasil exportou 34 milhões de sacas de café, por 5,3 bilhões de dólares. Nossa principal freguesa é a Alemanha que, de seu lado, está entre as maiores exportadoras de café em pó (solúvel, instantâneo etc.). Importa café verde, matéria-prima, e exporta produto industrializado, com tecnologia, distribuição e marketing. O quilo desse café vale 70% mais que o verde. Também reexporta o verde, por um valor maior do que compra. E não tem um pé de café.

Proibir a exportação do café brasileiro não vai levar a nada exceto prejuízo para os produtores. A saída é criar condições para uma indústria local competitiva — e a situação da indústria brasileira tem piorado, como o futebol.

Dilma simula pênalti: 'Schwalbe!'

Reinaldo Azevedo
Folha de São Paulo

A 'andorinha' é metáfora. A simulação da falta é um vício nacional. No futebol, na vida, na política

Aos 17 minutos do primeiro tempo, no desastre de terça-feira (8), a seleção brasileira já perdia para a alemã por um a zero quando Marcelo, atendendo a um chamado do atavismo macunaímico, caiu na área, simulando um pênalti.

O zagueiro alemão Jérôme Boateng, cujo pai é ganês, se zangou. Deu-lhe uma bronca humilhante. Os alemães execram esse teatro ridículo e têm uma palavra para defini-lo --na verdade, uma metáfora: "Schwalbe", que quer dizer "andorinha". É um pássaro de asas curtas em relação ao corpo e que voa rente ao solo, lembrando o atleta que agita, desajeitado, os braços ao encenar uma falta que não existiu. Boateng chegou a imitar com as mãos o voo da "Schwalbe". Naquele pênalti patético cavado por Fred contra a Croácia, a imprensa alemã o chamou de "Schwalbinho", acrescentando à palavra o sufixo do diminutivo que costuma vir colado a nomes de alguns de nossos craquinhos.

Apesar da humilhação dos 7 a 1, nunca foi tão civilizado perder. Os alemães vieram dispostos a conquistar também o coração dos brasileiros. Jogaram um futebol bonito, honesto, respeitoso. Quando os canarinhos estavam sem ânimo até para imitar andorinhas, os adversários não começaram a dar toquinhos de lado, a fazer firulas ou gracejos destinados a humilhar quem já não tinha mais nada. Ao contrário: um deles aplaudiu o gol de honra de Oscarzinho. Nas redes sociais, deram a dimensão da própria vitória ao cobrir a nossa seleção e o nosso país de elogios. "Respeite a amarelinha com sua história e tradição", recomendou Lukas Podolski. "Vocês têm um país lindo, pessoas maravilhosas e jogadores incríveis --esta partida não pode destruir o seu orgulho", escreveu Mesut Özil.

Os alemães vieram para reverenciar uma tradição. Por isso Boateng se zangou com Marcelo. Era como se dissesse: "Levante-se daí, cara! Honre a sua história para me dar a glória de vencê-lo". Marcelo, no entanto, parecia antever que aquele Brasil que estava em campo não sabia vencer porque, antes de tudo, não sabia perder --daí o voo da "Schwalbe".

Se o futebol é metáfora da guerra, é preciso lembrar que a guerra também pode ter uma ética --não quando se é Gêngis Khan. Depois de se vingar de Heitor --e como!--, Aquiles entrega o corpo do oponente para ser honrado pelo pai. Só os vitoriosos mesquinhos --e, pois, derrotados moralmente pela própria arrogância-- tripudiam sobre o vencido. A vitória final é ser humilde no triunfo para que o outro possa ser digno na derrota, enobrecendo, então, aquele que conquistou o galardão. Só existe honra quando se vence um forte. Nesse sentido, o confronto, inclusive a guerra com regras, é uma forma de apuro ético. E, obviamente, é possível ser indigno na paz.

Também a minha "andorinha" é metáfora. A simulação da falta é um vício nacional. No futebol, na vida, na política. Acusar o adversário de uma transgressão que ele não cometeu é uma falha moral grave. Trata-se de reivindicar a licença para reagir àquilo que não aconteceu, tentando fazer com que o outro pague uma conta indevida. Um dia antes da partida fatídica, a presidente Dilma Rousseff, demonstrando que anda com pouco serviço --e só gente muito ocupada tem tempo de fazer direito o seu trabalho--, resolveu participar de um bate-papo numa rede social. Exaltou o heroísmo de Neymar, discorreu sobre a garra do povo brasileiro e, ora vejam!, censurou os "urubus do pessimismo".

Desde o início do torneio, a presidente e seu partido acusam a oposição e críticos do governo de faltas que não cometeram: teriam antevisto o caos na Copa e estariam torcendo contra o sucesso do evento. Simulação! "Schwalbe!" Dilma sonhou esmagá-los no próximo domingo, passando a taça para as mãos de Thiago Silva. No pior dos cenários, Lionel Messi beijará o troféu, hipótese em que se cumprirá uma predição de Lula, que anunciou (is.gd/kTXWkN), em 2007, que o Brasil faria uma Copa "para argentino nenhum botar defeito".

Ouça o que diz Boateng, presidente! Levante-se da área! Jogue limpo! É muito melhor vencer com honra. Ou honrar o vencedor.

Até o futebol?

Merval Pereira
O Globo 

O governo petista chegou à conclusão de que é preciso estatizar o futebol brasileiro para que ele volte a ser competitivo, uma ideia estapafúrdia que o coloca em pé de igualdade com o governo da Nigéria, onde o presidente John Goodluck demitiu todos os dirigentes da CBF de lá devido à eliminação da sua seleção nas oitavas de final do Mundial.

Em consequência, a Fifa suspendeu a Federação de Futebol da Nigéria de todas as suas atividades, proibindo-a de participar de competições internacionais e até mesmo de organizar campeonatos locais. Mas, apesar de saber que a Fifa proíbe qualquer ingerência estatal no futebol, para mantê-lo como uma atividade privada, o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, defendeu ontem a volta da presença do Estado brasileiro na organização do futebol, o que é expressamente proibido pela Lei Pelé.

Mas não foi só. Um site ligado à campanha da presidente, de nome Muda Mais , pediu uma completa reformulação na CBF - no que estamos de acordo -, e a própria presidente Dilma, em entrevista a Christiane Amanpour, da CNN, pronunciou-se sobre a necessidade de manter no Brasil os seus principais jogadores - no que tem razão -, mas atribuiu essa tarefa não ao mercado futebolístico, mas à ação do governo:

O Brasil não pode mais ser apenas exportador de jogadores. Exportar jogadores significa que estamos abrindo mão de nossa principal atração, que pode ajudar a lotar os estádios. Até porque, qual é a maior atração que os estádios no Brasil podem oferecer? Deixar a torcida ver os craques. Há anos, muitos jogadores brasileiros têm ido jogar fora, então renovar o futebol no Brasil depende da iniciativa de um país que é tão apaixonado por futebol .

As inúmeras denúncias de corrupção envolvendo a Fifa e a própria CBF, e o histórico das entidades de se envolverem em maracutaias diversas, não falam bem da atividade empresarial privada na gestão do futebol. Mas o único caminho para restabelecer a capacidade brasileira de produzir bons times e jogadores é reduzir a interferência política na gestão dos clubes e da CBF, e seguir o caminho de federações vitoriosas como a Alemanha, a Espanha, a Itália, onde o futebol tornou-se um negócio altamente rentável e que produz grandes times e seleções.

Ficha suja
O caso do ex-governado José Roberto Arruda, de Brasília, que, mesmo condenado em segunda instância pelo TJ-DF, manteve sua candidatura ao governo, pode ser emblemático para o sucesso da Lei da Ficha Limpa.

A alegação da defesa é a de que o prazo para não aceitar a candidatura teria sido 5 de julho, dia em que se encerraram as inscrições dos candidatos. E a jurisprudência eleitoral diz que nenhum fato superveniente pode atingir uma candidatura.

Mas há questões que estão sendo discutidas. Esse caso será o primeiro para aplicação da Lei da Ficha Limpa em que questões de prazo serão discutidas, e há um entendimento do Supremo tribunal Federal de que, para os casos da Lei da Ficha Limpa, condenações posteriores também valem.

Além disso, o caso de Arruda estava para ser julgado antes do dia 5 de julho, mas ele, numa manobra, conseguiu uma liminar suspendendo o julgamento.

Há outras interpretações mais favoráveis ainda à impugnação de sua candidatura. O juiz Marlon Reis, um dos artífices da Lei da Ficha Limpa, diz que o registro de uma candidatura não está concluído quando o candidato o pede ao Tribunal Regional Eleitoral, mas quando o Tribunal defere o pedido.

O pedido seria apenas o primeiro dos vários passos até que a candidatura se torne realidade. O segundo é a publicação do edital com a lista das candidaturas deferidas pela Justiça Eleitoral; em seguida, é aberto o prazo para pedidos de impugnação, há a produção de provas e, finalmente, o julgamento, cujo prazo se encerra em 5 de agosto.

Portanto, a candidatura de José Roberto Arruda ainda está em tempo de ser barrada pelo Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal. O caso deve parar no STF, que terá chances, então, de esclarecer a questão da Lei da Ficha Limpa.

Traço de união

Dora Kramer
O Estado de São Paulo

Diante da cena, o paralelo foi inevitável: Luiz Felipe Scolari e Carlos Alberto Parreira na entrevista do dia seguinte à débâcle da seleção atuavam à maneira de determinados políticos e governantes que brigam com os fatos como se a negação tivesse o poder de mudar a realidade.

Na ojeriza à autocrítica que nesse episódio ressaltou a proximidade entre os condutores de times e de partidos, estiveram presentes as incongruências, os malabarismos verbais, a socialização do prejuízo, a invocação ao imponderável e até o recurso à pieguice.

Tudo muito parecido. A começar pelo pano de fundo: a arrogância que no semblante e nas palavras teimava em desobedecer ao tom da fala mansa de estudada humildade.

Cheio de estatísticas, ao molde daqueles números que candidatos despejam para impressionar o eleitorado, o técnico mostrava papéis para provar que a prancheta indicava o caminho certo. Ao lado, seu auxiliar corroborava incisivo: "Foi perfeito. Faríamos tudo de novo". Pela versão dos dois, nada saiu errado. Ou seja, tirando a goleada de 7 a 1, foi tudo bem.

Sabe como é? Descontada a demonstração exaustiva do ocorrido e da condenação por maioria no Supremo Tribunal Federal, o julgamento de certa ação penal foi obra de perseguição insidiosa do ministro Joaquim Barbosa.

Nada como uma narrativa virtual para substituir os fatos reais. Estes, no entanto, costumam atropelar o narrador. Assim foi com Scolari. Momentos depois da exibição dos números probatórios do sucesso veio o ato falho: "Cometemos um erro fatal. Uma vergonha".

A falta de compromisso com a coerência é recorrente na política. Aquela coisa, uma hora a pessoa diz que foi traída por gente envolvida em escândalos a fim de marcar distância dos acusados, outra hora a mesma pessoa afirma que os aludidos traidores são vítimas e que vai se dedicar a provar a inocência dos companheiros. Não só não o faz como segue a vida repetindo "não sei de nada".

Luiz Felipe Scolari disse não saber o que aconteceu na terça-feira. Não precisa entender de futebol para saber: o Brasil jogou inacreditavelmente mal e não deve ter sido porque o time estava no "caminho certo".

Assim como os políticos gostam de atribuir os problemas ao "sistema" do qual seriam todos reféns - um exemplo é o uso do caixa dois no financiamento de campanhas -, o técnico da seleção recorreu à figura da "pane geral" para dar um nome de fantasia ao que teria uma denominação correta na forma de autocrítica.

Note-se que num primeiro momento ele chamou a responsabilidade a si, mas no dia seguinte falou nos "seis minutos" de abalo coletivo dando um sentido fantasmagórico ao desastre que, no dizer dos especialistas no tema, tem razões objetivas. Políticos quando em situações adversas também tergiversam.

E quando se esgotam todos os recursos, fazem como Carlos Alberto Parreira e apelam à "força do povo". Entre "centenas de e-mails" de apoio escolheu a mensagem endereçada a Scolari pela torcedora Lucia para ler ao final da entrevista.

"Desejo-lhe boa sorte nos próximos jogos. E tenho certeza de que o senhor os comandará com sua inquestionável competência." Inocente útil, dona Lucia não tem parte no efeito constrangedor do uso de sua singela manifestação.

Paradoxo. 
A população reclama da qualidade dos políticos. Repudia a corrupção. Entretanto, na hora de votar deixa para lá a oportunidade de fazer a sua parte.

José Roberto Arruda foi condenado em 2.ª instância por um colegiado. Poderia por isso ter ficado inelegível, mas como seu registro de candidatura foi pedido cinco dias antes da condenação, em princípio pode seguir candidato.

O Ministério Público vai recorrer, mas ele pode ganhar na Justiça e vencer. E por quê? Porque a despeito de ser reincidente está em primeiro lugar nas pesquisas.

Fechando a tampa

Nelson Motta
O Globo 

A escolha do técnico da seleção brasileira deveria ser feita em eleições diretas por todos os brasileiros maiores de 14 anos

Para qualquer brasileiro louco por futebol, era como estar em Nova York no 11 de Setembro, com o espetáculo de horror e grandiosidade da História diante dos nossos olhos, em tempo real. Apesar de tudo, foi um privilégio testemunhar o melhor do pior, sem mortos nem feridos: só humilhados.

Em qualquer clube-empresa, uma derrota dessas derrubaria toda a diretoria e até a presidência, por pressão dos acionistas. Mas os que escolheram a comissão técnica, os arquitetos do fracasso, como o presidente da CBF, José Maria Marin, dizem que o nosso futebol precisa de grandes mudanças, fingindo que não sabem que são eles a raiz dos problemas que nos levaram a essa humilhação histórica. Só falta culparem a imprensa golpista… rsrs.

Se essa sucessão de arrogâncias, negociatas, cinismos e incompetências que resultaram nessa épica derrota do futebol brasileiro — não de um time, mas como um todo — não for motivo para uma CPI suprapartidária, o que seria? Se 70% dos brasileiros exigem mudanças na política e na economia, imaginem no futebol. Mas com a “bancada da bola” investigando, em vez de ser investigada, nem esse, que seria o maior legado da Copa, teremos.

Se, como filosofava Neném Prancha, “pênalti é tão importante que deveria ser batido pelo presidente do clube”, a escolha do técnico da seleção brasileira deveria ser feita em eleições diretas por todos os brasileiros maiores de 14 anos. E não por um cartola eleito por outros cartolas que dominam federações estaduais como políticos dominam currais e que vivem de vampirizar a paixão popular. Agora o sangue ferveu.

Mas Deus teve compaixão por Neymar e Thiago Silva, poupando-os de sofrer o vexame de corpo presente. E também por Lula, que não foi ao estádio para não ser vaiado e escapou do pior: ser acusado de pé-frio. E por nós, que escapamos de levar uma “zapatada” da Argentina na final no Maracanã. Deus é mesmo brasileiro.

Como sabem os grandes artistas, políticos, empresários e atletas vitoriosos, o sucesso não ensina nada, só infla o ego e subestima os limites, é nos fracassos que se aprendem as lições que levam a conquistas maiores.


Planalto procura estratégia para separar organização da Copa do fiasco em campo

Vera Rosa e Tânia Monteiro  
O Estado De S. Paulo

Após se associar à seleção brasileira com ação em rede social e foto imitando Neymar um dia antes da fragorosa derrota no Mundial, Dilma tenta agora emplacar clima de ‘volta por cima’


Dilma posando para rede social antes do jogo com a Alemanha

Brasília - Um dia após a humilhante derrota do Brasil para a Alemanha, a presidente Dilma Rousseff ajustou o discurso para neutralizar o “efeito Copa” sobre a campanha da reeleição. Com medo de que o mau humor com a seleção respingue na campanha, a presidente e sua equipe tentam separar o “joio do trigo”, concentrando as energias na defesa da “administração” do Mundial.

A ordem no Palácio do Planalto é “virar a página” do que Dilma definiu como “pesadelo” e baixar o tom do mote “Copa das Copas”, com o qual o governo pretendia bater o bumbo na campanha. No lugar do ufanismo, entra agora a retórica da “volta por cima” e da capacidade de superação do brasileiro nas adversidades, além da organização “impecável” do evento.

A equipe da reeleição dá como certo que Dilma será hostilizada na final da Copa, no domingo, quando a presidente entregará a taça ao campeão, no Maracanã. Ministros e coordenadores da campanha petista acreditam que o “efeito Copa” não dure até a eleição, em outubro. O temor, agora, é que o fim antecipado da catarse coletiva alimente novos protestos, que podem ser disseminados e atingir “tudo o que está aí”, mirando em Dilma e na alta dos preços - e consequentemente dos índices de inflação - por causa da Copa.

“Quem tentar transferir para o campo da política eleitoral uma derrota no futebol dará um tiro no pé”, disse o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que assistiu à derrota do Brasil em Belo Horizonte. “A politização é simplesmente ridícula”. Para Cardozo, a derrota do Brasil “não muda em nada” o caráter da Copa, nem da segurança e da organização do evento, “que estão sendo aplaudidos pelo mundo inteiro”.

O chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, que na terça-feira admitiu a preocupação do governo com a possibilidade de volta das ações violentas dos black blocs, ontem disse que “o desastre com a seleção brasileira não é o desastre com a Copa”. “Precisamos cuidar para que tudo continue dando certo.”
Na rede. A coordenação da campanha de Dilma identificou nas redes sociais “perfis falsos” de apoiadores dos candidatos Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) associando a presidente ao vexame do Brasil diante da Alemanha, para desconstruir a imagem de “gerente” que a petista tenta apresentar. Vinte e quatro horas antes do fracasso da seleção, Dilma deu estocadas nos adversários e disse, em conversa com internautas, que a Copa era uma “belezura”, para “azar dos urubus”.

“Do ponto de vista de organização, a Copa é um sucesso e isso é inegável”, afirmou o ministro de Relações Institucionais, Ricardo Berzoini. “O Brasil sofreu uma derrota absolutamente inesperada, que entristeceu todos nós, e quem quiser fazer proselitismo político com isso terá de enfrentar o julgamento do eleitor.”

Berzoini se reuniu nesta quarta com o presidente do PT, Rui Falcão, coordenador da campanha de Dilma. Mais tarde, Falcão conversou com o jornalista Franklin Martins, responsável pelo monitoramento das redes sociais. O governo e o comitê da reeleição estão atônitos com o fiasco da seleção e avaliam qual a melhor estratégia a seguir para blindar a presidente.

Uma das estratégias será apostar na agenda “positiva” dos próximos dias. Além de almoçar com chefes de Estado que estarão no Rio, no domingo, para a final da Copa, Dilma vai receber 21 presidentes na próxima semana. O comitê da reeleição quer aproveitar esses eventos para mostrar a presidente como “estadista”.
Palpite errado. Em conversa com o fundador da Amil Assistência Medica Internacional, Edson Bueno, ontem à tarde, Dilma não escondeu o abatimento com a derrota da seleção. “Mas ela foi para a guerra e é uma pessoa muito forte”, disse Bueno. “Ela falou para mim: ‘Temos de ir em frente, temos de motivar o País’.”

No encontro, Dilma achava que o Brasil poderia enfrentar a Argentina, na briga pelo terceiro lugar, o que não se concretizou - horas depois, a equipe de Messi se classificou para a final. “Nós discutimos o seguinte: se for contra a Argentina, o negócio é ganhar de uns 4 a 0, porque a gente pelo menos fica um pouco melhor”, afirmou Bueno.

Os sete pecados capitais da seleção brasileira

Aydano André Motta
O Globo

Os desafios que o futebol nacional vai enfrentar para voltar aos bons tempos de que ‘com o brasileiro não há quem possa’

Evaristo Sá / AFP/04-09-2005 
Robinho celebra com Kaká, Adriano e Ronaldo gol contra o Chile na Copa de 2006 

BELO HORIZONTE — O futebol brasileiro está de joelhos, subjugado pela maior humilhação de sua história, imposta pela ótima seleção da Alemanha, no gramado do Mineirão. O resultado — impensáveis 7 a 1 —, comum em tempos paleolíticos do jogo, está longe de ser trivial, mas, ao menos, oferece diagnósticos, úteis a quem estiver interessado em contribuir com a suprema paixão dos nascidos aqui. (Nunca será demais lembrar que o começo de qualquer cura está na admissão da doença.) Alguns deles:

1. AS DIVISÕES DE BASE
O processo de formação dos futuros jogadores no Brasil conjuga profissionais despreparados, estruturas precárias, pressão por resultados e influência espúria de empresários. O resultado está na cara: Neymar serve como exceção num cenário desértico de revelação de talentos. Quando os meninos chegam ao fim da adolescência, precisam se entregar a empresários que atuam nos clubes como abutres. Além disso, há um pensamento generalizado de que a prosperidade está numa transferência ao exterior — e quanto mais cedo, melhor. Os garotos saem do país ainda com a formação incompleta, e suas deficiências se cristalizam. Para completar, o Brasil não enxerga alguns talentos, que só se consolidam no exterior — o zagueiro David Luiz, que começou numa escolinha em São Paulo, passou pelo Vitória, mas foi aparecer somente no Benfica, é o exemplo mais eloquente.

2. O ATRASO DOS TÉCNICOS
Nenhum treinador brasileiro aparece nas cogitações para dirigir times europeus importantes. Chamados de “professores” pelos bajuladores, eles só encontram abrigo em mercados periféricos, como o mundo árabe e os países orientais. Está longe, novamente, de ser acaso ou preconceito. Os brasileiros ficaram no passado em esquemas de jogo e métodos de trabalho. Aqui, se ouve muito que “fulano entende os jogadores”, “sicrano sabe unir o grupo”, “beltrano tem pulso forte”, mas a última novidade surgida por estas bandas talvez tenha sido a coreografia de macaquices encenada pelos técnicos à beira do campo, jogo sim, jogo também. Exemplos dos dois últimos técnicos da seleção: ano passado, Mano Menezes, à frente do Flamengo, determinou que a equipe mudaria de vestiário no Maracanã para ele poder “pressionar o bandeirinha”. Seu sucessor no comando do time canarinho, Luiz Felipe Scolari, tinha como uma de suas armas na Copa o lançamento dos zagueiros direto para Fred tentar ganhar de cabeça, de costas para os zagueiros.

3. PRECONCEITO CONTRA ESTRANGEIROS
À fraqueza endêmica dos treinadores soma-se o preconceito dos cartolas, que não consideram a possibilidade de contratar um profissional estrangeiro para a seleção. Poucos clubes apostam em técnicos de fora do país. Preferem a atitude estreita de demitir após resultados ruins, mantendo ativa a ciranda dos mesmos nomes.

4. A GERAÇÃO PERDIDA
No caso específico da seleção atropelada pela Alemanha no Mineirão, alguns jovens talentos, como Neymar e Oscar, tiveram de assumir o papel de protagonistas na neurótica disputa da Copa em casa, porque a geração anterior a deles naufragou precocemente. Os experientes Adriano (32 anos), Kaká (também 32) e Robinho (30) entraram em decadência bem antes do Mundial brazuca e não houve a transição que tornaria tudo mais leve. A ascensão de Neymar, especialmente, teve de ser precipitada.

5. A ÉTICA DO JOGO
Os brasileiros, especialmente os que atuam no país, insistem em fazer do jogo um teatro patético de simulações de faltas, investem exageradamente em reclamações e na pressão aos juízes. Até outro dia, Neymar era criticado na Europa por se atirar, exagerando as entradas que sofria. Os grandes times do Velho Continente ensinam, há algumas temporadas, que o certo é, simplesmente, se empenhar em cada lance pela vitória. Sem atalhos. Lições que vêm no bojo de placares como o da terça no Mineirão, mas ainda ignoradas pelos brasileiros.

6. OS MESMOS DE SEMPRE
No comando da CBF, um dirigente que milita no futebol há pelo menos 40 anos; à frente da seleção, o técnico de 2002 e o de 1994 (que era preparador físico em 1970). Se ao menos eles tivessem ideias novas... Mas não. Felipão repetiu, em 2014, o conceito de família que deu no penta conquistado em campos do Oriente. Ele, Parreira e José Maria Marin invocaram o discurso de “ninguém segura esse país” para turbinar o pré-Copa, garantindo que a conquista do hexa era quase uma formalidade, tamanho o poderio de nosso esquadrão. Para tudo se desmanchar na maior humilhação da seleção em todos os tempos.

7. O AMBIENTE DO FUTEBOL
Com as persistentes e impunes ações de torcidas organizadas violentas, cambistas invencíveis e cartolas cúmplices, somadas à omissão das autoridades, os cidadãos de bem vêm sendo afugentados dos estádios há décadas. Em clássicos, quase dá para cortar com uma faca o pesado clima de tensão, pela permanente possibilidade de um conflito entre facções de torcidas, dentro e fora dos estádios. Nas decisões, comprar ingresso é missão para super-herói, com energia para enfrentar filas que cruzam a madrugada em frente aos guichês ou superar os muitos esquemas da venda paralela. Assim, as famílias passaram a assistir ao futebol pela TV, privando as crianças da suprema diversão do estádio, fundamental para cultivar o amor pelo futebol.

Brasil vira motivo de chacota na imprensa internacional

Agência Estado

Se até mesmo o técnico Luiz Felipe Scolari admitiu que a goleada sofrida diante da Alemanha por 7 a 1, nesta terça-feira, no estádio do Mineirão, em Belo Horizonte, na semifinal da Copa do Mundo, é o maior vexame da história da seleção brasileira, a derrota não passaria em branco pela imprensa internacional. Os sites dos grandes jornais do mundo destacam o resultado.

O sempre provocativo Olé, da Argentina, fez piada durante o jogo todo, mudando a manchete, que terminou sendo: "Decime qué se siete", em uma referência à música-chiclete cantada pela torcida argentina na Copa, que começa com um "Decime qué se siente" e pergunta ao Brasil o sentimento por ter, no País, o algoz do Mundial de 1990.

Na Alemanha, o Bild, jornal mais popular e de maior tiragem do país, foi só exaltação ao time na página inicial de seu site. Com os dizeres "Obrigado, nós amamos vocês", o periódico destacou uma foto enorme dos jogadores alemães comemorando um dos gols da partida. Durante o jogo, quando o placar já apontava uma goleada, o jornal até já destacava que esperava pela Holanda na final.

Na Espanha, o AS fala em "sete Maracanazzos", enquanto que o Marca conta a "Desgraça eterna". Em Barcelona, o Mundo Deportivo registra que "A Alemanha humilha o Brasil", enquanto que o Sport vai mais longe: "A maior humilhação mundial".

A Gazzetta dello Sport, da Itália, diz que o Brasil sofreu uma humilhação histórica, enquanto que o The New York Times, nos Estados Unidos, viu o Brasil atordoado pela Alemanha na semifinal.


Para Aécio, País não precisa de uma 'Futebras'

Luciana Nunes Leal  
Agência Estado

Embora esteja no Rio de Janeiro sem agenda pública nesta sexta-feira, 11, o candidato do PSDB à Presidência da República, Aécio Neves, divulgou uma nota em que se manifesta sobre a afirmação do ministro do Esporte, Aldo Rebelo, que defendeu ontem maior participação do poder público na gestão do futebol. "O País não precisa da criação de uma ''Futebras''", disse Aécio, em referência aos nomes de grande parte das estatais brasileiras.

O tucano acusou o governo de "oportunismo" na discussão sobre o futuro do futebol brasileiro. Depois da derrota do Brasil para a Alemanha pelo vergonhoso placar de 7 a 1, a presidente Dilma Rousseff defendeu "renovação" do futebol e criação de barreiras para evitar a "exportação" de jogadores. Logo em seguida, outros integrantes do governo também passaram a pedir mudanças na administração dos clubes.

"O futebol brasileiro precisa, é claro, de uma profunda reformulação. Mas não é hora de oportunismo. Principalmente daqueles que estão no governo há 12 anos e nada fizeram para melhorá-lo. E nada pode ser pior do que a intervenção estatal. O país não precisa da criação de uma "Futebras". Precisa de profissionalismo, gestão, de uma Lei de Responsabilidade do Esporte. Com foco nos atletas, nos clubes e nos torcedores", disse Aécio, na nota divulgada nas redes sociais.

O deputado tucano Otávio Leite (RJ) é relator da Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte, que propõe o parcelamento das dívidas dos clubes em troca de modernização da gestão e punições para falta de transparência nas contas e atrasos nos pagamentos.

Personalização de camisas da Nike permitia ataque ao PSDB, mas preservou PT e Dilma

Renato Onofre
O Globo

Após a viralização de vídeo mostrando a falha, a opção de incluir dizeres à escolha do usuário foi retirada do ar nesta sexta-feira

Reprodução
Site da fornecedora de material esportivo deixou de dar a opção 
de personalização de camisas após a viralização de vídeo

SÃO PAULO — A fornecedora de material esportivo da seleção brasileira, Nike, vetou a venda de camisas personalizadas com as palavras PT, Dilma Rousseff, Lula e mensalão. Contudo, até quinta-feira, era permitido personalizar dizeres com os nomes dos candidatos da oposição Aécio Neves e Eduardo Campos.
A restrição foi divulgada pelo usuários Twitter @CarlinhosTroll que tentou escrever “FORA DILMA” e “MENSALÃO” com o número 13 — usado pelo PT — e foi vetado pelo sistema. Contudo, era permitido comprar uma camisa personalizada com a expressão “FORA AÉCIO” e “FORA PSDB” até a quinta-feira. Qualquer frase contendo a sigla “CBF” também era barrada pelo sistema da personalização.

Após a viralização de um vídeo na internet mostrando a contradição, o nome do candidato tucano à Presidência da República e do PSDB também foram vetados. Na manhã desta sexta-feira, o GLOBO tentou personalizar uma camisa, mas o sistema não abriu a opção. Procurada, a fornecedora de material esportivo informou em nota que “não é filiada a nenhum partido político, não só no Brasil como no mundo todo”. Informou ainda que “o sistema do website nike.com, como descrito na própria página, não permite customizações com palavras que possam conter qualquer cunho religioso, político, racista ou mesmo palavrões”, e que “sistema é atualizado periodicamente visando cobrir o maior número de palavras possíveis que se encaixem nesta regra”.

Prestem atenção ao vídeo abaixo.

Amadorismo empresarial no futebol

José Pio Martins
Gazeta do Povo - PR

Em dezembro de 2011, publiquei um artigo na Gazeta do Povo intitulado “A decadência do futebol brasileiro”. Com algumas alterações, vou reproduzir o que escrevi naquele artigo, quando afirmei que o futebol brasileiro está em decadência, em parte por razões econômicas e empresariais. Naquele ano, o Campeonato Brasileiro havia apresentado um final empolgante, provocando elogios de dirigentes e jornalistas, e foi o que me motivou a escrever.

Para mim, tratava-se de uma ilusão, pois, se houvesse um torneio de futebol na Somália, o campeão e o vice-campeão seriam louvados, mas não deixariam de ser muito ruins, por uma simples razão: na Somália só há times ruins. Isso vem ocorrendo com o Brasil, país em que o futebol poderia ser um grande setor da economia, capaz de gerar produto, renda e emprego.

Há tempo, os times brasileiros vêm se dando mal quando enfrentam equipes de outros países. No passado, a seleção brasileira dava goleadas nos times sul-americanos, e hoje sofremos para derrotar Bolívia, Colômbia, Equador, equipes que sempre estiveram muito abaixo do Brasil. Grandes times brasileiros começaram a perder para equipes modestas, como a tal LDU e o Universidad do Chile, sem falar no massacre do Barcelona sobre o Santos na final do Campeonato Mundial de Clubes, no Japão, anos atrás.

Os clubes de futebol sempre estiveram entre as piores instituições em termos de gestão, eficiência e moral. Uma das causas é o protecionismo de que desfrutam por serem associações sem fins lucrativos, não tributadas e sem fiscalização da Receita Federal. Os clubes cresceram com venda de ingressos, patrocínios, publicidade, direitos de tevê, venda de atletas, venda de material, tornando estranho seguirem sendo beneficiados com isenções tributárias (a isenção deveria atingir apenas as receitas de mensalidades dos sócios do clube).

Livres dos tributos e da fiscalização, os clubes atraíram, no passado, contraventores do jogo do bicho, comerciantes de mercadorias ilíticas e políticos corruptos. Os homens de bem que estavam no setor viram-se rodeados de gente que estava ali justamente pelo fato de os clubes não serem empresas tributadas. Somente há pouco tempo o futebol começou a atrair empresários e executivos dispostos a tratar esse esporte como um negócio e dirigir os clubes como empresas eficientes e rentáveis.

Em relação aos jogadores, muitas vezes é o menino talentoso, pobre e sem estudo que segue sem estudar e fica longe de ser o atleta profissional de alta performance que o esporte exige atualmente. Quanto aos técnicos, em geral são ex-jogadores, sem ciência e sem formação teórica. Apesar de ter ganho tantas Copas, o Brasil nunca viu um técnico daqui dirigir qualquer time grande do mundo com sucesso. Falta-lhes estudo, formação, ciência e competência no padrão dos melhores do mundo.

A gestão do futebol mundial evoluiu; no Brasil estagnou. Enquanto prevalecerem o protecionismo e o amadorismo, a derrota será a colheita normal. Protecionismo sempre gera ineficiência, a exemplo dos produtores de aço nos Estados Unidos, dos arrozeiros no Japão, da indústria automobilística brasileira (até 1990) e da nossa reserva de mercado de informática (de 1974 a 1990).

Os dirigentes competentes e honestos são muitos, mas sozinhos não conseguem mudanças expressivas. Um começo seria transformar, por lei, os clubes em empresas, tributadas, fiscalizadas e submetidas à Lei de Falências, o que as forçaria a ter administração profissional, focada na eficiência e na rentabilidade. Amadorismo empresarial não conduz ao sucesso.