terça-feira, julho 15, 2014

E o dever de casa, presidente?

Adelson Elias Vasconcellos

Rebatendo a afirmação feita por Aécio Neves, de que o governo estava pretendendo criar a “futebrás”, a partir da declaração do ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, de que o governo deveria intervir no futebol, a senhora Rousseff resolveu replicar com uma afirmação tosca. Disse a presidente: “O governo não quer comandar o futebol, pois ele não pode, nem deve ser estatal. Queremos ajudar a modernizá-lo. Contem conosco para isso". De certa forma, a afirmação do senhor Rebelo nós a comentamos aqui,  era um  absurdo, e a tal ponto a ideia era absurda que o próprio ministro voltou atrás convencendo-se da sua impossibilidade legal. 

O que chama a atenção não é nem a resposta desaforada e descabida da senhora Rousseff à declaração de Aécio Neves, já que esta senhora é dada a tais rompantes – seus auxiliares diretos que o digam-, mas o seu despropósito.

Na semana que se encerra, vieram a público dois indicadores a comprovarem o quanto o governo da senhora presidente é competente para modernizar alguma coisa. De um lado, a queda na produção industrial, fato que se repete desde 2011. E, ainda na atividade industrial, a queda anual no emprego. Se este governo não consegue tirar a indústria da estagnação que se encontra há algum tempo, que competência teria ele para modernizar o futebol?

Olha-se para o lado da indústria do etanol por exemplo. Fruto do represamento de preços dos combustíveis, a indústria do etanol brasileiro está a beira da bancarrota, isto após anos de incentivos e bilionários investimentos. Olhe-se para a situação da Petrobrás e a sua fantástica perda de valor de mercado. Ou a Eletrobrás que precisou compor um plano de demissão voluntária para dispensar cerca de 4.000 funcionários de carreira dada a situação miserável que ficou após a intervenção catastrófica feita pela senhora Rousseff no setor elétrico. E esta senhora se arvora com autoridade e competência para propor modernizar o futebol? 
Olhe-se para o caos dos serviços públicos que, em junho de 2013, levou mais de um milhão de pessoas às ruas do país para protestar. Pessoas que foram varridas e expulsas pela ação comprada pelo próprio governo junto aos extremistas de esquerda. O que se dizer da educação, senhora Rousseff?  Que avanços o país experimentou nesta última década? O analfabetismo adulto aumentou, a evasão escolar permaneceu nos mesmos níveis assustadores de sempre, e 38% dos estudantes universitários são analfabetos funcionais.
E o PIB, senhora Rousseff, que poderia representar o avanço e a modernização do país, que resultados a senhora presidente tem para apresentar? O terceiro pior da história republicana! E esta senhora se acha em condições de intervir no futebol para modernizá-lo? 

Valendo-se de um oportunismo político indecente, enquanto a seleção venceu e avançou, esta senhora chegou ao desplante de qualificar seu governo de “Padrão Felipão”, além de posar com “tois”  nas redes sociais. Após a hecatombe com a Alemanha, rapidamente mandou retirar o time de campo para se desligar do desastre. 

Falta à senhora Rousseff , além de competência, um pouco de senso de ridículo e senso de oportunidade. O momento requer um pouco de recato de nossas autoridades, sejam elas políticas ou esportivas. Entre dizer bobagens e ficar quieto, o silêncio é o  melhor  conselheiro. E, especificamente, em relação à Copa do Mundo, o fato é que este governo não entregou o projeto prometido. Pelo contrário. Da previsão inicial, apenas 30% foi concluído. Cerca de 20% foi simplesmente abandonado e posto de lado. O resto ficará por aí, se arrastando ao longo dos anos, sem meta de chegada e sem a menor ideia do custo final.  

Mas a senhora Rousseff parece não saber o real significado da prudência. Hoje, novamente, voltou a acusar a torcida que a vaiou no Itaquerão, na abertura da Copa do Mundo, de serem 90% constituído pela elite branca. Que fossem, mas e daí? O fato de ser elite, por acaso, os desautoriza de criticarem a governanta de plantão? Ou será que o dinheiro com que eles pagam impostos, impostos que pagam a corte luxuosa de que se cerca a senhora Rousseff, tem menos valor que a do assalariado? Ou ser elite, acaso, tornou-se sinônimo de vagabundos, iguais aos milhares de assessores inúteis, nomeados de favor e que lotam o Planalto e incham a folha de pagamento? 

Que sejam elite, que sejam brancos, isto os torna menos brasileiros do que os demais? Muitos dos que ali estavam, senhora Rousseff, são brasileiros honestos, de boas famílias, gente que trabalha e estuda para não precisar depender do Estado que, por sinal, retorna muito pouco do muito que recebe da sociedade. É elite, se é que são, porque  se esforçaram muito para ser o que são. Ninguém  chegou ali de favor, ninguém roubou de ninguém para estar ali prestigiando a seleção nacional. É tão povo quanto todos aqueles que ficaram em casa assistindo pela tevê. E, por ser povo também, merecem  melhor respeito por parte da presidente da nação. Que alguns se comportem feito moleques não dá direito à senhora Rousseff a se comportar pior ainda. 

É fácil abrir a boca para destilar desaforos aos críticos. É fácil sair por aí posando de grande gestora. Mas melhor, e mais prudente, seria ter um pingo de autocrítica. Como já afirmei certa vez, esta senhora não tem autoridade moral para dar  lições a quem  quer que seja, quanto mais em uma atividade como futebol, cujo conhecimento único é saber, talvez, que a bola é redonda...  Primeiro, presidente, faça algo melhor, isto é, faça o seu dever de casa que é tirar o país da estagnação que o seu governo colocou..

NOTA: Os artigos e informações publicados nesta  edição era para terem sido postado no domingo. Porém, a Claro Net nos premiou com a gentileza de nos deixar sem conexão no domingo e nesta segunda feira. Mas dada a atualidade do material selecionado, mesmo com atraso  e pelo qual pedimos desculpas aos nossos leitores, estamos publicando os mesmos artigos e informações.   

Marketing político tolo

Adelson Elias Vasconcellos

Desde sempre, a Copa do Mundo para o governo petista foi um desejo não de mostrar o Brasil ao mundo, não  de atrair mais turistas para nos visitarem em suas viagens. Não, o desejo único deles era de capitalizar politicamente o evento. Se antes do inicio dos jogos, não havia espaço para papo furado, dada as obras que ficaram pelo caminho, e se durante e, enquanto o Brasil avançou houve uma espécie de prenúncio para o uso político descarado, mas abandonado diante do fracasso diante da Alemanha, nesta segundo feira, a senhora Rousseff teve o desplante de reunir 16 ministros de estado para conceder uma entrevista .coletiva e tentar comprar a simpatia da torcida.  Não tiveram sequer a decência de deixar esfriar a frustração pelas duas derrotas vergonhosas, Alemanha e Holanda, para vender suas mistificações. Claro que a imprensa chapa branca, bancada com a verba publicitária federal e das estatais, vai aumentar em mil vezes os tais “feitos”.

Então, vamos lá. É mentira que sequer 50% do projeto inicial foi concluído? É mentira que mais de 40% das obras iniciadas, não foram concluídas? É mentira que os gastos TOTAIS se aproximam dos R$ 40 bilhões? É mentira que a maioria das cidades que sediaram jogos,  decretaram feriado ou ponto facultativo durante os jogos? É mentira que as escolas anteciparam férias escolares em todo o país? É mentira que a maioria das fábricas decretou férias coletivas durante o evento?

Feriados, férias escolares e trabalhistas retiraram das ruas quantos milhões de pessoas, que deixaram de dirigir automóveis e  utilizar o transporte público? Somente com tais medidas  é que nossas deficiências de mobilidade urbana não transpareceram tanto. Mas negá-las é um absurdo. Quantos passageiros deixaram de assistir jogos para os quais haviam comprado ingressos, por falta de voos para seus deslocamentos?  

Os R$ 8 bilhões torrados nos estádios estão aí para serem pagos. E a pergunta permanece: que destino será dado os elefantes de Manaus, Natal, Cuiabá e Brasília? 

Também não vale negar os problemas havidos na maioria das cidades sedes com a conexão internet. 

Assim, a tal Copa das Copas periga transformar-se na mais deslavada das mentiras.  E o que dizer do sistema de segurança, será mantido nos mesmos níveis?  Outra coisa: é mentira desbragada dizer-se que recebemos mais de 1 milhão de turistas durante a Copa. Não passou de 700 mil e a grande maioria sequer provocou o tal efeito econômico que se projetava. A grande maioria dos sul-americanos, por exemplo, dormia nas praias, estações rodoviárias, pelas calçadas mesmo ou acampados . E se alimentavam de lanches rápidos. 

Dentro dos gramados, sim, houve organização e os jogos, em quase sua totalidade, foram emocionantes. Mas esta organização não foi fruto da ação do governo. 

A grande impressão positiva que os estrangeiros levaram daqui foi a grande simpatia e cordialidade do povo brasileiro. Mas esta é uma marca característica muito nossa de ser. A alegria nas arquibancadas ou a festa nas ruas, disse aqui antes mesmo do início da Copa, eram padrão de todas as Copas do Mundo. Trata-se de uma enorme comunhão de povos, todos juntos e misturados, muitos fantasiados, que transformam as arquibancadas dos estádios num enorme sambódromo. E, colhidas nas fontes que realmente interessam, a grande maioria das opiniões destacavam a cordialidade dos brasileiros e a improvisação.  

Nesta segunda feira o país vai retornar ao seu ritmo normal. E será a partir deste momento que o povo brasileiro poderá constatar que o tal legado é uma obra ainda em construção, apesar da Copa já haver terminado. Vamos perceber que,  os nossos  problemas de sempre, continuam iguais, que os serviços continuam tão pobres como sempre foram, que a tal mobilidade urbana não passa de uma quimera: mais parece imobilidade urbana do que um sistema racional de transportes e circulação de veéiculos.  E tudo isso com aquele gosto amargo do fiasco histórico diante da Alemanha, merecidamente campeã.

Negar isso tudo, é tentar enganar a torcida tanto quanto Felipão e Parreira fizeram em relação à seleção brasileira. 

Quanto a atacar a imprensa como Dilma e comitiva fizeram nada a estranhar. É bom lembrar que, não fossem as críticas da imprensa e a enorme pressão exercida pelos dirigentes da FIFA, pouco que foi entregue seria ainda menor, o que se converteria em vergonha nacional. Este autoelogio que governo tenta emplacar, nada mais é do que o desespero de um governo que sabe que entregou uma obra incompleta e imperfeita.  Menos mal que, durante a coletiva,  grande parte dos brasileiros tinha mais o que fazer como trabalhar (ou voltar ao trabalho), por exemplo. Criticar a crítica, como a senhora Dilma e seu comitê de pródigos incompetentes fizeram por mais de duas horas,  chega a ser bestial.

Além de se investigar os gastos realizados para a realização da Copa do mundo, seria interessante se o Ministério Público se debruçasse sobre um particular esquisito no escândalo dos ingressos. Muitos dos ingressos apreendidos entre os cambistas presos, eram ingresso sociais, que deveriam ter sido entregues pelo poder público aos beneficiários do bolsa família. É preciso conhecer o caminho que eles ingresso tomaram para aportarem em mãos de cambistas.

De resto, tanto a tal entrevista coletiva de Dilma e seus miquinhos amestrados, quanto aquela dada por toda a comissão técnica, 24 horas após a derrota para a Alemanha, são dois exemplos perfeitos de verdadeiros fiascos. Melhor seria se ambas não tivessem existido.  Esta gente, governo e a agora demitida comissão técnica,  não apenas são ridículos e patéticos. Mas perderam completamente o senso de realidade. 

A pérola canalha da tal coletiva foi a menção crítica feita ao tal movimento “Não vai ter copa”. Ora, quem eram os integrantes do tal movimento, senão a turma bagunceira chefiada, organizada e financiada pela extrema esquerda, portanto ligada ao PT, que tiveram entre suas conquistas a de varrer o povo das ruas nos protestos de um ano atrás?  Chega ser constrangedor um governo federal comportar-se de forma tão delinquente e politiqueira. Só para não esquecer: o próprio Gilberto Carvalho confessou que manteve reuniões com a turma do blac block. Onde, então, a presença da imprensa? Onde as vozes da oposição? Que gentinha mais sem escrúpulos, credo!!!!

Nesta semana daremos a devida resposta ás declarações do senhor Mercadante em relação às obras do tal “legado”.  Mais uma vez, falou sem pensar ou, se pensou, e ainda assim falou, demonstrou onde se esconde o seu caráter.   

Com muito orgulho

J.R.Guzzo
Revista VEJA

De certo, em tudo isso, só ficou a definição que Dilma Rousseff fez antes do desastre: seu governo é “padrão Felipão”. Até que enfim a presidente acertou bem no alvo.

Nunca antes na história deste país tinha acontecido nada igual. Não só na história deste país: o que se viu no 8 de julho de 2014, um dia que viverá para sempre, jamais tinha ocorrido em 100 anos de existência da seleção nacional de futebol. Também não tinha acontecido em toda a história da Copa do Mundo desde a sua criação, em 1930 – não num jogo de semifinal, disputa privativa ode gigantes da bola. Pois aconteceu: a Alemanha enfiou 7 a 1 no Brasil, comprovando uma vez mais que tudo que não é impossível pelas leis da natureza é, por definição, possível de acontecer um dia qualquer. Quem poderia imaginar um resultado desses?  Seria mais fácil o velho camelo da Bíblia passar pelo buraco de uma agulha. Mas os camelos do futebol, como se vê no mundo das realidades, são bichos capazes de fazer as coisas mais incríveis. Fizeram de novo, no Estádio de Minas Gerais. Fim de linha para a seleção e para o “hexa”, por falência de múltiplos órgãos.

E daí? E daí nada, realmente – apenas uma derrota esportiva, risco que existe em toda a competição e do qual está livre só quem não compete. Numa sociedade razoavelmente adulta, capaz de separar futebol de honra nacional, felicidade do povo, “vergonha na cara” e outros valores, reais ou imaginários, o massacre que o time do Brasil viveu no Mineirão seria uma derrota horrenda, constrangedora e francamente exótica – nas uma derrota num jogo de bola, só isso, sem nenhum prejuízo material para ninguém, para o país ou para o equilíbrio psicológico de quem quer que seja. 

Acontece que o Brasil tem uma imensa resistência em ser adulto, e aí a coisa complica. Como resultado da pressão  neurótica aplicada ao futebol pelos meios de comunicação e pelo noticiário esportivo, autoridades públicas, políticos em geral, departamentos de marketing de grandes empresas, agências de publicidade e interesses econômicos que envolvem bilhões de dólares, constrói-se sistematicamente no Brasil um ambiente  artificial de histeria que contamina a sociedade quase inteira, quando se trata de futebol e Copa do Mundo.  Assim, ficam estabelecidas exclusivamente duas possibilidades, ambas falsas: a vitória que transforma a nação num paraíso de coragem, competência e superioridade sobre todos os demais povos do mundo, ou, então, a derrota que nos reduz ao pó, com vergonha, choro e ranger de dentes.

É assim que se criou, entre outras invenções cultivadas com obsessão, a extraordinária lenda segundo a qual o Brasil sofreu um “trauma” sem limites ao perder no jogo final contra o Uruguai no Maracanã, em 1950, na primeira Copa aqui disputada. A derrota é vendida coimo uma “tragédia” sem igual na história brasileira, um momento de desgraça que jamais poderíamos viver de novo e que clamava aos céus por redenção e vingança – a ser providenciadas, enfim, em 2014, pela graça dos 23 rapazes  convocados para a seleção do técnico Luiz Felipe Scolari e dos cartolas da CBF.  Mas não existe trauma nenhum – como poderia existir, se apenas os brasileiros hoje com mais de 70 anos estavam vivos em 1950, em díade para entender minimamente o que aconteceu? 

Ninguém sofre, na vida real, por contrariedades que jamais experimentou. Mas ao está: impõe-se ao país o disparate segundo o qual uma partida de futebol disputada 64 anos atrás, o “Maracanazo”, foi uma bomba atômica jogada no Rio de Janeiro,  e que “jamais o Brasil iria permitir que a calamidade se repetisse nesta segunda Copa sediada no Brasil. No jogo contra a Alemanha aconteceu muito pior do que uma repetição: um “Mineirazo”, com inéditos 7 a 1 no lombo.

Essa mesma lavagem cerebral nos força a ficar repetindo que o Brasil é “o país do futebol”, que nenhuma outra nação chega perto da nossa habilidade sobrenatural com a bola e que vamos ganhar sempre por causa da ginga, do jogo de cintura, da malandragem, etc., pois amarramos “o coração na chuteira”, somos “brasileiros com muito orgulho” e outras tolices. Aí já é mais que uma mentira? É fazer um grosseiro desaforo aos fatos.  O futebol brasileiro vale o mesmo que o jogado em mais uma dúzia de países; com a exceção de Neymar, nossos jogadores, em 2014, são apenas corretos, ou bonzinhos. Os da Alemanha, neste momento, são muito melhores, individualmente e em conjunto. Por um bloqueio mental pré-fabricado pela propaganda, porém, o futebol brasileiro é incapaz de admitir essa realidade singela. 

De certo, em tudo isso, só ficou a definição que Dilma Rousseff fez antes do desastre: seu governo é “padrão Felipão”. Até que enfim a presidente acertou bem no alvo.  

Os bilhões de Dilma

Percival Puggina

 Se você reparar bem, a cada abalo que o governo da presidente Dilma registra em sua sacolejada escala Richter, segue-se algum plano mirabolante ou algum anúncio bilionário destinado a acalmar as ondas. Seja o abalo moral ou político, a reação oficial vem sempre de um ou de outro modo. Ora o governo anuncia providências estruturais que não funcionam (como essa de intervir no futebol e estancar a evasão de atletas para o exterior), ora reúne o ministério, os governadores, a imprensa, o empresariado, os movimentos sociais e informa que está destinando bilhões de reais para isto ou para aquilo.

Convenhamos, é um modo estranhíssimo de governar. É injustificável que, completados 93% de seu mandato e enquanto transcorre o 12º ano de gestão petista, o país ainda esteja sendo governado aos trambolhões, ao arbítrio do momento e seguindo o juízo das necessidades impostas pelas oscilações do Ibope. De modo especial, tais improvisações parecem incompatíveis com o perfil segundo o qual a presidente foi repassada aos votantes no mercado eleitoral de 2010. São bilhões para cá e para lá, saídos do nada e conduzindo, na vida real, a coisa alguma. É o que se poderia chamar de capital volátil. Faz lembrar aquelas maletas pretas dos filmes de ação, que supostamente deveriam conter vultosas quantias, mas estão recheadas de jornais com notícias antigas. De fato, são eventos que, a despeito da pompa e circunstância, logo se tornam coisas esquecidas, cuja função se exauriu no momento de cada anúncio. E de nada vale ficar cobrando serventia maior para algo concebido apenas para ser divulgado.

Em plena campanha de 2010, a presidente anunciou para Porto Alegre o atendimento das duas principais reivindicações do Rio Grande do Sul: a duplicação da Travessia do Guaíba e o metrô. Nada. Só muito recentemente, quando seu governo já olha para inexorável ampulheta, ocorreu (solene, sempre solene) a assinatura do contrato para construção da Travessia. Ou seja, no Brasil, coisa alguma. E o metrô? Saiu de pauta para retornar, provavelmente, durante a campanha eleitoral. Não foi diferente, país afora, com o conjunto que se tornou conhecido como "as obras da Copa". O quadro é o mesmo em todas as 12 capitais distinguidas com privilégio de sediar os jogos do já malvisto torneio. O adjetivo "malvisto" se aplica à sua realização aqui, com dinheiro do povo brasileiro. Em qualquer outro lugar é um bem aguardado evento. No Brasil, representa uma inversão na escala das prioridades nacionais, que transcorre em meio a obras paradas, atrasadas, incompletas por motivos técnicos e financeiros.

Em fevereiro deste ano, o jornalista Augusto Nunes desfiou em comentário o extenso conjunto de não-realizações do governo Dilma. Entre elas o também malvisto trem-bala, que - felizmente! - dorme em alguma gaveta muito antes de entrar na fase dos dormentes. Entre muitas outras, também sesteiam nas prateleiras as anunciadas seis mil creches, as seis mil casas para os flagelados de cheias no Rio de Janeiro, os seis mil caminhões-pipa para resolver a falta de água de beber na região da seca e o fim da miséria com data marcada para terminar no início de 2015.

Intervenção no futebol é a novidade diante da crise

Rolf Kuntz
O Estado de São Paulo

Estamos salvos. O México superou o Brasil como maior produtor latino-americano de veículos, no primeiro semestre, a maior parte da indústria continua em crise - e demitindo - e a corrente de comércio encolhe, mas o governo promete consertar o futebol. A ideia é intervir na atividade, impor novos padrões de gestão aos clubes e até impedir a exportação de jovens craques, segundo anunciou na quinta-feira o ministro do Esporte, Aldo Rebelo. "Não podemos continuar exportando jogadores que são a maior atração do futebol brasileiro", disse no mesmo dia a presidente Dilma Rousseff. Para a presidente e sua trupe, a derrota por 7 a 1 deve ser um desastre muito maior que a devastação econômica dos últimos anos - uma mistura de estagnação industrial, inflação elevada, contas públicas em deterioração e contas externas esburacadas. Nos 12 meses até maio, o déficit em conta corrente chegou a US$ 81,85 bilhões, 3,61% do produto interno bruto (PIB) estimado, e as condições de financiamento têm piorado. Podem ficar mais desfavoráveis com o fim dos estímulos monetários americanos, previsto para outubro, mas nada parece tão grave, para o governo, quanto o fracasso no futebol.

Ah, dirão os otimistas, esse comentário é injusto, até porque um novo pacote econômico e financeiro foi lançado na mesma quinta-feira, com a publicação da Medida Provisória (MP) 651. Mas a novidade é pouca, na parte econômica, e as principais medidas já foram testadas nos últimos anos, com escasso resultado.

A desoneração da folha de pessoal, concedida a 56 setores e contrabalançada por outra forma de tributação, pouco afetou os custos. A maior parte das empresas continua com problemas na gestão de pessoal. Sem disposição para reformar de fato o sistema previdenciário, o governo continua adotando remendos. Temporária até agora, a mudança deve tornar-se permanente, mas nem por isso o remendo deixa de ser remendo. Não se resolve o problema das empresas nem se arruma a Previdência.

O Reintegra, agora com alíquotas variáveis de 0,1% a 3%, definíveis a cada ano, permite a recuperação parcial dos impostos pagos na cadeia produtiva. Neste ano, o benefício será de 0,3%. A variação anual prejudicará o planejamento dos exportadores e, no balanço geral, os brasileiros continuarão em desvantagem diante dos estrangeiros. Além disso, a política federal é inócua em relação a um dos principais problemas - a dificuldade de acesso aos créditos do ICMS, o tributo estadual sobre circulação de mercadorias e serviços. Aceito pelos empresários na falta de algo mais sério, o Reintegra também é um remendo.

Em quase 12 anos, a administração petista foi incapaz de formular e de negociar uma revisão ambiciosa e eficaz do sistema tributário. Em vez disso, têm tramitado no Congresso propostas voltadas para o atraso, favoráveis à perpetuação da guerra fiscal e à desmoralização definitiva do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz). Aprovado o fim da unanimidade para aprovação de incentivos, estará preparado o campo para uma guerra mais intensa entre regiões e entre Estados - e para mais distorções, é claro, das decisões sobre investimentos privados.

A mudança do Refis, o programa de parcelamento de débitos fiscais, é mais um mimo aos sonegadores e mais um esforço para juntar migalhas e chegar mais perto da meta de superávit primário. Os pagamentos iniciais de quem entrar no programa serão reduzidos. Por exemplo: para os devedores de até R$ 1 milhão, a prestação inicial cairá de 10% para 5%. Haverá facilidades decrescentes para débitos até R$ 20 milhões. Acima desse valor, a entrada será de 20%. Além disso, empresas já inscritas no parcelamento poderão ter descontos se anteciparem a quitação de 30% da dívida restante. Com os novos estímulos, a previsão de receita do Refis para 2014 sobe de R$ 12,5 bilhões para R$ 15 bilhões. Outros R$ 2 bilhões, primeira parcela de um total de R$ 15 bilhões, já estão garantidos: serão pagos pela Petrobrás pela transferência, sem licitação, de quatro áreas do pré-sal. Todo esse dinheiro, somado aos bônus de concessões de infraestrutura e aos dividendos mais gordos extraídos das estatais, tornará mais fácil fechar as contas. Nem pensar em austeridade, especialmente em ano de eleições. Além do mais, é preciso levar em conta o peso de outros mimos tributários, como a prorrogação do desconto do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para o setor automobilístico. Também para compensar essa bondade seletiva será preciso juntar trocados aqui e ali.

É difícil dizer se o governo insiste nessas medidas por teimosia, firmeza de princípio ou incapacidade total de perceber os fatos, mesmo retratados em números oficiais - como a estagnação dos três anos anteriores e a perspectiva de crescimento abaixo de 2% em 2014 e de novo fiasco em 2015. Com a indústria incapaz de competir, o Brasil só continuou salvo de um desastre cambial, neste ano, graças ao superávit comercial de US$ 49,11 bilhões acumulado pelo agronegócio entre janeiro e junho - mesmo com preços em queda. Reservas cambiais acima de US$ 370 bilhões dão segurança temporária contra choques externos. Mas segurança de fato no balanço de pagamentos só se alcança por meio de competição nos mercados de bens e serviços. Nesse jogo, só o chamado setor primário tem obtido resultados. Se protecionismo e favores seletivos substituíssem poder de competição, a Argentina jamais teria chegado a um passo de um segundo calote. Afinal, teve 13 anos, desde o fim de 2001, para investir e ganhar eficiência. Mas o governo desperdiçou o tempo com besteiras intermináveis, como barreiras à exportação de alimentos para maquiar a inflação. No Brasil já se cometeu bobagem parecida com o couro, para favorecer a indústria de sapatos. A próxima asneira poderá ser o entrave à exportação de jogadores. Haverá quem aplauda.

O país da Felipona

Carlos Brickmann
Brickamnn & Associados Comunicação

O ex-ministro Delfim Netto, um dos conselheiros econômicos de Lula, costuma dizer que, se o Governo comprar um circo, o anão vai crescer. O economista Milton Friedman tem frase semelhante: se o Governo administrar o Deserto do Saara, em poucos anos vai faltar areia. O ministro dos Esportes de Dilma, Aldo Rebelo, do PCdoB, cuja única ligação prévia com o Esporte era torcer pelo Palmeiras, defende maior intervenção estatal no setor. Sem palpite estatal, o Brasil foi cinco vezes campeão do mundo. Com palpite estatal, perdeu duas Copas em casa, em 1950 e 2014. Mas, quando os fatos vão contra a ideologia vigente, pior para os fatos. O mundo que mude para amoldar-se aos preconceitos.

O Estado já se intrometeu em Copas. Em 1950, não houve governante que não aparecesse na concentração para tirar sua casquinha. Em 1954, um dirigente indicado pelo Governo exigiu dos atletas que vingassem os mortos de Pistóia (se bem que Pistóia fique na Itália, onde brasileiros morreram na luta contra o nazismo e o fascismo; a Copa se realizasse na Suíça; e o principal adversário fosse a Hungria). Em 1970, o presidente Médici exigiu que o centroavante Dario, do Atlético Mineiro, fosse convocado. Foi, mas não jogou. O Brasil ganhou a Copa. Agora, com declarações diárias de Dilma "É Tóis", a Copa deu no que deu.

Se a sugestão de Médici, que adorava futebol, era ruim, imagine as de Dilma, que disse ter visto jogos no Mineirão antes que o estádio existisse. Até garantiu, em julho de 2013, que seu Governo era "padrão Felipão". 

Não é que tinha razão?

Tempo, tempo, tempo
Proposta de um cartão de crédito, pouco antes do jogo contra a Alemanha: troque mil pontos por um Fuleco de 30 cm. Enorme! Ainda bem que é macio.

E a vida continua
A Câmara Federal funcionou devagarzinho durante a Copa. Mas Suas Excelências sabem o que não pode parar. Neste período, a Câmara alugou três carros topo de linha, com motorista: um por três dias, de 8 a 10 de julho; dois por quatro dias, de 7 a 10 de julho. Custo: R$ 3.500,00. Não é muito; mas para quê?

É de cinco! 
O levantamento é de Alan Alex, do Painel Político: Rondônia pode ter cinco ex-presidentes da Assembléia presos por corrupção, no mesmo período. Aliás, quatro, porque um está foragido. Os atingidos são Marcos Donadon (PMDB), Valter Araújo (PTB), Carlão de Oliveira (PSL - ainda recorre), Kaká Mendonça (PTB - aguarda a ordem de prisão) e Natanael Silva, o foragido, do PP. 

Os bons que se vão
Plínio de Arruda Sampaio morreu de câncer aos 84 anos. Radicalíssimo, ligado à esquerda católica, mas sempre bem humorado, foi fundador do PT, do qual saiu para fundar o PSOL. Esteve no poder sem por a mão no Tesouro; esteve na oposição, sem bravatas ou acusações gratuitas. Seus projetos sempre foram de boa qualidade. E, com quase 60 anos de política, mereceu o respeito de aliados e adversários. 

Plínio nasceu na política no Partido Democrata Cristão paulista, com o governador Carvalho Pinto. Foi o coordenador do primeiro plano de Governo do país, o ótimo PAG. Fez o projeto de reforma agrária para o Governo Goulart. Em 64, foi cassado e viveu exilado no Chile e nos Estados Unidos, aproveitando para estudar. Nunca pediu votos dizendo-se vítima da repressão; justo ele que foi. Há poucos como Plínio. 

E são estes que estão nos deixando.

Geleia goiana
Ronaldo Caiado, DEM, um dos mais duros adversários de Lula, apoia em Goiás o candidato do PMDB, Íris Rezende - que está com Lula e Dilma. E que já recebeu todas as críticas possíveis de Caiado, que o chamava de "mercador de ilusões". Marconi Perillo, PSDB, candidato à reeleição, foi aliado de Caiado, hoje adversário. Íris, que foi senador, prefeito de Goiânia, duas vezes governador de Goiás, ministro de Sarney e Fernando Henrique, usa o slogan "ética e renovação". 

Em resumo, está tudo como era, só que mais ou menos ao contrário.

Sai ou não sai? 
O ministro Joaquim Barbosa anunciou sua aposentadoria para o fim de junho. Mas pediu adiamento por alguns dias e aproveitou para tirar férias, que terminam em 31 de julho. Barbosa não quer sair sem antes garantir a colocação de seus assessores de confiança em outros gabinetes. Só que não há vagas: cada ministro tem seus assessores de confiança. Agora, Barbosa decidiu assistir ao final da Copa ao lado de Dilma. 

E a aposentadoria? É esperar: quem sabe o dia de amanhã?

Faça suas apostas
O Ministério Público de São Paulo entrou com ação de cobrança das multas impostas pela Justiça ao Sindicato dos Metroviários, mais prejuízos causados à população durante a recente greve, no valor total de R$ 354 milhões. Haverá também processo de cobrança contra o Sindicato dos Motoristas e Cobradores de Ônibus, também envolvendo multa e prejuízos, de R$ 131,7 milhões. Os prejuízos foram calculados tendo como base 1/30 do salário mínimo por passageiro que ficou sem transporte. 

Será um processo interessante: até hoje, quantas dessas multas aplicadas a sindicatos foram efetivamente cobradas?

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

Os vira-latas sem complexo

Guilherme Fiuza
Revista ÉPOCA

A característica mais marcante dele é sua formidável capacidade de olhar e não ver

Nelson Rodrigues e Dilma Rousseff cansaram de alertar o Brasil sobre o complexo de vira-latas. Deu certo. Na Copa de 2014, os brasileiros se apresentaram ao mundo como vira-latas sem complexo.

O vira-latas complexado andas pelos cantos de cabeça baixa e, antes de entrar em, qualquer disputa, acha que já perdeu. O vira-lata sem complexo não padece desse mal. Contra pit bull ou pastor alemão, sempre acha que já ganhou. É depois da derrota que surge sua principal característica: ele não sabe por que perdeu. Está prontinho para perder a próxima.  

A autópsia da Seleção Brasileira, triturada pelos alemães em seu próprio território, revela com clareza a causa mortis: autoengano.  Depois de uma péssima primeira fase, e de quase ser eliminado pelo Chile nas oitavas de final – seria bem mais digno que o 7 a 1 – levando um balaço no travessão no último lance do jogo, o Brasil não baixou o nariz. Jogadores, técnico, comentaristas e torcedores tinham a explicação: não está fácil para ninguém.

Brasucas delirantes pelos quatro cantos do país enganavam ostensivamente a si mesmos, afirmando que a Alemanha tinha sofrido contra Gana e Argélia. Que a Holanda tinha passado sufoco contra o México e a Costa Rica. Que a Argentina, coitada, só não caíra ainda porque tinha o tal do Messi. Eis uma característica marcante do vira-lata sem complexo: ele tem a formidável capacidade de olhar e não ver.  

Foi assim que o Brasil resolveu acreditar que seus problemas eram exatamente iguais aos de seus principais adversários. Bastaria ter visto (de olhos abertos) qualquer jogo da Alemanha – mesmo as pedreiras contra Gana e Argélia – para constatar que os alemães jogam como um time. Organizados, bem armados e com grande volume de jogo, apesar das dificuldades que passaram. O mesmo quanto à Holanda, e até a França, entre outros. Quem conhece um pouquinho  de futebol viu a vulnerabilidade da Seleção Brasileira – e notou que até os camaroneses andaram passeando por aquela área onde os alemães pintaram o sete.

Mas o Brasil tem a camisa amarela, com  muito orgulho, com muito amor, que faz todo mundo tremer. Os craques brasileiros choram de soluçar a cada vez que cantam seu hino, se debulham em lágrimas antes, durante e depois dos jogos, sentem muita emoção, muita pressão e muita raiva, querem se vingar   de fulano que disse A, querem calar a boca de beltrano que falou B – e que venha o adversário que for, porque ninguém tem um novelão como o nosso.

Após o vexame dos 7 a 1, o ex-jogador e comentarista Juninho Pernambucano  ouviu na TV um alemão dizendo não entender como todo o talento brasileiro que se vê até no futvôlei da praia, não se converteu numa grande Seleção. Juninho cortou: ”É porque, aqui, muitos acham que o talento substitui o trabalho”. Fim de papo. 

Se não houver o talento para substituir o trabalho, serve o melodrama. Fica até difícil assimilar a cena do capitão e do goleiro da Seleção cantando o hino e segurando a quatro mãos a  camisa  de Neymar. O que foi aquilo? Que marqueteiro genial teve a ideia de transformar a Seleção perfilada para o Hino Nacional em varal da saudade?  A resposta é simples: eles realmente acreditam que aquela pantomima ganha jogo. Que os alemães morreriam de medo do fantasma do Neymar. Leu-se e ouviu-se exaustivamente na imprensa – e era sério – a tese de que a Seleção Brasileira entraria em campo mais forte do que nunca “jogando pelo Neymar”. Não custa repetir: em matéria de autoengano, o vira-lata sem complexo é imbatível.

O time jogou pelo Neymar e tomou 7. Legou para a posteridade a imagem única de uma Seleção usando o Hino Nacional para uma  performance criativa.  Em vez de segurar a camisa 10, poderiam ter aberto um daqueles cartazes “Não Vai Ter Copa”. Seria ao menos mais coerente. 

O melhor de tudo é o diagnóstico pós-catástrofe. O plantão da bondade autopiedosa já entrou em campo para bradar: “Nada de caça às bruxas!”; “Ninguém tem culpa!”;  “Ninguém vai crucificado como o Barbosa no Maracanaço”. É isto aí. E ninguém será crucificado pelo derrame de dinheiro público nos estádios ou pela substituição da reforma viária por uma penca de feriados.

Para o vira-lata sem complexo, tudo sempre dá certo.

Dilma deixou de ganhar

Ricardo Noblat
O Globo 

"Meu governo é padrão Felipão" - Dilma, no último dia 1º

Juscelino Kubistchek foi um presidente da República "pé-quente". No seu período de governo entre 1956 e 1961, o saltador Adhemar Ferreira da Silva sagrou-se bicampeão olímpico, a tenista Maria Esther Bueno celebrou o seu primeiro título no Torneio de Wimbledon, o Brasil foi campeão mundial de basquete, Éder Jofre conquistou o título de campeão mundial de boxe e a Seleção ganhou a Copa do Mundo.

O QUE QUERO dizer com isso? Nada. Lembrei-me de Juscelino ao ver uma fotografia em que ele acompanha pelo rádio a Copa do Mundo de 1958. A televisão ainda não transmitia os jogos. Getúlio Vargas, a quem Juscelino sucedera no cargo, costumava fazer comícios em estádios de futebol no Rio. Foi o primeiro presidente a aproximar a política dos esportes na tentativa de obter maior apoio popular.

COUBE A JUSCELINO inaugurar o hábito de presidentes receberem em palácios a Seleção que voltasse vitoriosa de uma Copa do Mundo. Além de condecorar os jogadores, Juscelino posou para fotografias ao lado da taça batizada de Jules Rimet em homenagem a um antigo presidente da Fifa. A Seleção que fosse tricampeã ficaria com a taça em definitivo. Isso levou 41 anos para acontecer.

O BRASIL FOI BI em 1962, durante o governo do presidente João Goulart. E tri em 1970, quando o país atravessava a fase mais violenta da ditadura militar iniciada em 1964. O então presidente, general Garrastazu Médici, frequentava o Maracanã em dias de clássicos. O Brasil crescia a taxas elevadas. A Seleção visitou Médici em Brasília. A taça Jules Rimet acabou roubada da sede da CBF em 1983. Nunca mais apareceu.

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO tirou casquinha duas vezes de vitórias da Seleção. A primeira em 1994, quando se elegeu presidente e a Seleção foi tetra-campeã. A segunda em 2002, quando recepcionou a Seleção pentacampeã no último ano do seu segundo governo. O atacante Vampeta deu uma cambalhota na rampa do Palácio do Planalto. Fernando Henrique levantou a atual taça ao lado de Cafu e Felipão.

SELEÇÃO DERROTADA jamais foi admitida no endereço mais importante da República. Nem sequer para ser consolada. É possível que uma mulher presidente tenha a sensibilidade que faltou aos seus antecessores. Quando nada porque se orgulha, e com razão, de ter ganhado a Copa travada fora dos campos. Tudo funcionou a contento. A Copa está sendo reconhecida como a melhor da História. E Dilma não joga futebol.

LOGO, NÃO PODE SER culpada pelo mais vergonhoso desempenho da Seleção desde que o Brasil virou uma pátria de chuteiras. É verdade que lhe faltou a prudência demonstrada por Lula. Alguém por aí viu Lula em algum estádio? Oito novos estádios bastavam. Atraído pela ideia de dividir a taça com Dilma, Lula bancou a construção de 12. Alguém por aí viu alguma foto de Lula torcendo em casa pela Seleção? Nem isso.

DILMA FOI OBRIGADA a se expor. Poderia ter feito isso somente duas vezes - na abertura da Copa e na entrega da taça ao novo campeão. Mas caiu na tentação de tirar proveito político de uma Seleção que capengou feio desde o seu primeiro jogo. Agora, acende velas para que as próximas pesquisas de intenção de voto não lhe tragam más notícias. Aposta na capacidade do brasileiro de separar o que ela ensaiou juntar.

A VERDADE É QUE o destino foi ingrato com Dilma. Mesmo que nada perca com a Copa, alguma coisa ela deixa seguramente de ganhar. Abrem-se as cortinas e começa um novo espetáculo - dessa vez, o das eleições gerais.

Os desiludidos da República

Marco Antonio Villa
O Globo 

Há um notório sentimento popular de cansaço, de enfado, de identificação do voto como um ato inútil, que nada muda

A proximidade das eleições permite uma breve reflexão sobre o processo de formação de uma cultura política democrática no Brasil. A República nasceu de um golpe militar. A participação popular nos acontecimentos de 15 de novembro de 1889 foi nula. O novo regime nasceu velho. Acabou interrompendo a possibilidade de um Terceiro Reinado reformista e modernizador, tendo à frente Isabel como rainha e chefe de Estado e com os amplos poderes concedidos pela Constituição de 1824.

A nova ordem foi edificada para impedir o reformismo advogado por Joaquim Nabuco, Visconde de Taunay e André Rebouças, que incluía, inclusive, uma alteração no regime de propriedade da terra. Os republicanos da propaganda — aqueles que entre 1870, data do Manifesto, e 1889, divulgaram a ideia republicana em atos públicos, jornais, panfletos e livros — acabaram excluídos do novo regime. Júlio Ribeiro, Silva Jardim e Lopes Trovão, só para recordar alguns nomes, foram relegados a plano secundário, considerados meros agitadores.

O vazio no poder foi imediatamente preenchido por uma elite política que durante decênios excluiu a participação popular. As sucessões regulares dos presidentes durante a Primeira República (1889-1930) foram marcadas por eleições fraudulentas e pela violência contra aqueles que denunciavam a manipulação do voto.

Os opositores — os desiludidos da República — passaram a questionar o regime. Se apontavam corretamente as falácias do sistema eleitoral, indicavam como meio de superação, como disse um deles, desses “governichos criminosos”, a violência, a tomada pelas armas do Estado. E mais: que qualquer reforma só poderia ter êxito através de um governo ultracentralizador, instrumento indispensável para combater os poderosos, os senhores do baraço e do cutelo, como escreveu Euclides da Cunha.

Assim, o ideal mudancista tinha no seu interior um desprezo pela democracia. Acentuava a defesa de um novo regime para atender as demandas da maioria, mas com características autoritárias. Alguns até imaginavam que o autoritarismo seria um estágio indispensável para chegar à democracia.

A Revolução de 30 construiu o moderno Estado brasileiro. Enfrentou vários desafios e deu um passo adiante no reformismo nacional. Porém, aprofundou as contradições. Se, de um lado, foram adotados o voto secreto, a Justiça Eleitoral, o voto feminino, conquistas importantes, manteve uma visão de mundo autoritária, como ficou patente desde 1935, com a repressão à rebelião comunista de novembro, e mais ainda após a implantação da ditadura do Estado Novo, dois anos depois.

A vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial deu alguma esperança de, pela primeira vez, caminharmos para o nascimento de uma ordem democrática. A Constituição de 1946 sinalizou este momento. O crescimento econômico, a urbanização, o fabuloso deslocamento populacional do Nordeste para o Sul-Sudeste, a explosão cultural-artística — que vinha desde os anos 1930 — foram fatores importantes para o aprofundamento das ideias liberal-democráticas, mesmo com a permanência do autoritarismo sob novas vestes, como no ideário comunista, tão influente naquele período.

O ano de 1964 foi o ponto culminante deste processo. A democracia foi golpeada à direita e à esquerda. Para uns era o instrumento da subversão, para outros um biombo utilizado pela burguesia para manter sua dominação de classe. Os que permaneceram na defesa do regime democrático ficaram isolados, excluídos deste perverso jogo autoritário. Um desses foi San Tiago Dantas.

Paradoxalmente foi durante o regime militar — especialmente no período ditatorial, entre os anos 1968-1978 — que os valores democráticos ganharam enorme importância. A resistência ao arbítrio foi edificando um conjunto de valores essenciais para termos uma cultura política democrática. E foram estes que conduziram ao fim do regime e à eleição de Tancredo Neves, em janeiro de 1985.

No último quartel de século, contudo, apesar das sucessivas eleições, a cultura democrática pouco avançou, principalmente nos últimos 12 anos. As presidências petistas reforçaram o autoritarismo. A transformação da luta armada em ícone nacional é um bom (e triste) exemplo. Em vez de recordar a luta democrática contra o arbítrio, o governo optou pela santificação daqueles que desejavam substituir a ditadura militar por outra, a do “proletariado”.

O processo eleitoral reforça este quadro de hostilidade à política. A mera realização das eleições — que é importante — não desperta grande interesse. Há um notório sentimento popular de cansaço, de enfado, de identificação do voto como um ato inútil, que nada muda. De que toda eleição é sempre igual, recheada de ataques pessoais e alianças absurdas. Da ausência de discussões programáticas. De promessas que são descumpridas nos primeiros dias de governo. De políticos sabidamente corruptos e que permanecem eternamente como candidatos — e muitos deles eleitos e reeleitos. Da transformação da eleição em comércio muito rendoso, onde não há política no sentido clássico. Além da insuportável propaganda televisiva, com os jingles, a falsa alegria dos eleitores e os candidatos dissertando sobre o que não sabem.

O atual estágio da democracia brasileira desanimaria até o doutor Pangloss. A elite política permanece de costas para o país, ignorando as manifestações de insatisfação. E, como em um movimento circular, as ideias autoritárias estão de volta. Vai se formando mais uma geração de desiludidos com a República. Até quando?

Estagnação sem futuro

Editorial 
Folha de São Paulo

Economia reduz ritmo de crescimento sem que sejam feitos, como contrapartida, ajustes necessários à retomada de ciclo ascendente

O governo baixou nos últimos dias o que parece ser uma derradeira compilação de medidas de estímulo econômico, paliativos de curto prazo que se destinam a evitar acidentes maiores na rota de declínio cada vez mais pronunciado.

Encerram-se assim quase quatro anos de agitação infrutífera, de ativismo que não deu rumo salutar à economia. Um pacote de remendos costurados em uma medida provisória resume a obra desta administração: uma crise latente disfarçada, de modo a evitar estremecimento maior até o ano que vem.

Mais desalentador, o crescimento definha enquanto outros indicadores apontam esgotamento da capacidade de o país avançar.

As estimativas de aumento do PIB para este ano encolhem para 1%, no melhor dos casos. A inflação, por sua vez, flutua em torno de 6,5%, sinal tanto de excesso de gastos públicos e privados como de descrédito quanto à desaceleração dos preços.

O deficit externo não baixa do nível desconfortável de 3,6% do PIB, o maior em 12 anos. Trata-se de outro indicador de demanda excessiva que pode ser financiada no exterior, mas até certo ponto. O país atingiu ou está perto de atingir o limite de gastos dessa natureza.

O deficit público --o excesso de gastos do governo em relação a sua receita-- está no patamar mais alto em cinco anos.

Verdade que o desemprego decresceu de modo significativo, estabilizando-se em níveis historicamente baixos. Mas é uma economia de diminuta produtividade. Próxima do pleno emprego, ocupando a oferta de trabalho disponível, não produz mais: não cresce.

Em resumo, trata-se de uma economia com limitações evidentes de se expandir no curto prazo e que, ademais, dissipa energia sem progresso, em desequilíbrio constante.

Seria compreensível e aceitável, quando não inevitável, um crescimento pequeno devido a correções cíclicas, a um programa de reformas difíceis ou ao impacto de um desarranjo mundial.

Infelizmente, as providências necessárias a fim de administrar tais situações têm seu custo. Mas, se levadas a bom termo, carreiam bônus, a oportunidade de retomada, ao menos de entrada em um novo ciclo ascendente.

Não há propósito nem sentido na presente desaceleração, entretanto. A economia quase estagnada chegará a 2015 ainda com uma carga de problemas para descartar, o que custará, no mínimo, mais aquele ano de crescimento.

"Os vivos e os mortos"

Sandro Vaia
Blog do Noblat 

Aprendi a amar o futebol quando tinha 9 anos e minha família morava em La Paz, na Bolívia.

Morávamos num hotel onde se hospedavam toureiros, vedetes de teatro e delegações de times de futebol estrangeiros.

Um dia eu estava passeando na sala de refeições do hotel, na hora do almoço, e um grupo de jogadores fazia uma grande algazarra.

Um argentino loiro, magro, ar debochado, pedia ao garçom, em altos brados, uma porção de "uve bleeeeenque" (uva branca) de sobremesa. Depois olhou pra mim e falou:

- Ché, pibe, te gusta el balón ? Vamos al partido.

O nome do argentino era Alfredo Di Stefano. O time era o do Milionários de Bogotá, uma espécie de Globetrotters do futebol, que fazia parte de uma liga pirata criada no começo dos anos 50.

Além de Di Stefano, jogavam no time, entre outros, estrelas argentinas da época, como Pedernera e Nestor Rossi.

Me levaram ao estádio, como uma espécie de mascote; vi o time do Milionários, que jogava todo de branco como o Real Madrid (onde Di Stefano acabaria sendo ídolo, artilheiro e até vice-presidente, até morrer na quinta-feira passada) e como o Santos dos tempos de Pelé, esmagando o campeão local, o Bolívar, por 5 a 0.

Com ou sem Milionários, nunca mais deixei a arquibancada.

Torci pelo The Strongest em La Paz e aqui desembarquei palmeirense.

O Brasil ainda vivia o trauma do Maracanazo, ouvi os jogos da Copa de 54 pelos alto falantes da praça principal de Jundiaí e a de 58 pela voz de narradores distantes que falavam de Nacka Sckoglund, o jogador sueco, como se fosse uma divindade viking criada na tropa de Hagar, o Horrível.

Era julho, o Brasil ganhou sua primeira Copa, da qual só vimos alguns lances esparsos em filmes desbotados muitos anos depois, o céu se encheu de balões de uma forma hoje inimaginável e consolidou-se aí uma longa história de amor e de convivência com o futebol.

Eu já sabia desde os 9 anos aquilo que Galvão Bueno só descobriu e proclamou depois da hecatombe dos 7 a 1 da Alemanha, que o futebol era apenas um esporte - não uma religião, nem um modo de vida, nem o substituto do patriotismo. Um lindo e emocionante esporte, nada mais do que isso.

Sempre soube, mesmo palmeirense, que Felipão era um tosco animador de auditório mais do que um técnico ou um estrategista talentoso. Sempre levei tomatadas por isso.
Sempre soube que esporte não se mistura com política, mesmo que ditadores como Médici e Videla tenham feito isso.

Sempre entendi a hipocrisia dos políticos que dizem que o futebol não se mistura com política quando a mistura não é muito rentável, mas são os primeiros a misturá-la quando as coisas começam a ficar promissoras como fontes de votos.

Muita coisa morreu esta semana além de Di Stefano: uma escola de futebol alegre, artístico e criativo engessada no burocratismo, e a hipocrisia dos políticos que querem apossar-se das glórias que não conquistaram e que querem livrar-se das hecatombes que construíram.

A exclusão de teses petistas do programa de Dilma

O Globo 
Editorial 

Ao não incluir na plataforma do segundo mandato a ‘regulação da mídia’ e o financiamento público de campanhas, a candidata se curvou à aliança partidária

Pode-se considerar apenas uma formalidade a exigência, a candidatos ao Executivo, do registro do programa de governo na Justiça Eleitoral. Argumenta-se que, como ninguém deixa de prometer substanciais avanços na vida do eleitor, esses documentos não passariam de peça de propaganda. Mas não é assim. O candidato, queira-se ou não, será cobrado a partir do que ele promete. Mesmo que nenhum aspirante a um cargo eletivo vá traçar cenários nebulosos para a população, propostas concretas de ações de governo serão monitoradas na gestão do presidente, governador ou prefeito.

Os programas de governo são avaliados pelo conteúdo, mas também pela omissões. No caso do programa para o segundo mandato de Dilma Rousseff, destaca-se a falta de duas ações pelas quais se batem correntes majoritárias do PT: a chamada “regulação da mídia” e o financiamento público integral de campanhas eleitorais. A candidata à reeleição teve a sensatez de contornar os temas. Afinal, como se trata de uma candidatura lastreada numa ampla aliança partidária, não podem constar do programa de governo propostas que dividam as legendas aliadas.

E a “regulação da mídia” e o financiamento público de campanha são temas rejeitados pelo principal aliado de Dilma, o PMDB, do qual sai o companheiro de chapa da presidente, o vice Michel Temer, mantido no posto.

Os peemedebistas, por se declararem contra qualquer tipo de censura, não poderiam mesmo aceitar a “regulação”, pois, como ficou evidente na Argentina, em nome da desconcentração empresarial, objetiva-se reduzir a independência dos veículos da imprensa profissional, lastreada no acesso à publicidade privada, razão direta da circulação e audiência. Grupos de comunicação menores são mais vulneráveis a pressões dos poderosos de ocasião e suas verbas oficiais de propaganda.

O financiamento público integral de campanhas, outro objetivo petista, é defendido para viabilizar o sistema eleitoral por lista fechada, em que as cúpulas partidárias, já bastante influentes, tomarão de vez o controle das legendas, por terem o poder de manipular a formação das listas. Cassa-se, portanto, o direito do eleitor de escolher em quem votar.

Mas se Dilma fez expurgos sensatos no programa, manteve a inexequível ideia de um plebiscito para viabilizar a reforma política, provavelmente porque agrada à obsessão petista de uma assembleia constituinte exclusiva com o mesmo objetivo. Já diagnosticada como inconstitucional por juristas e ministros do Supremo.

Assim como insiste em manter o decreto 8.243, o da democracia direta, das comissões a serem aparelhadas por frações do PT. Espera-se que o Congresso derrube a heresia depois da Copa.

O programa da candidata, enfim, subordina-se, em certa medida à realidade, mas não garante a um possível segundo governo Dilma relacionamento tranquilo com o Congresso. Nem com a Justiça.

Armação ilimitada

Rosângela Bittar
Valor Econômico 

Mercadante é o único com vaga garantida no Dilma II

Como favorita, por estar no cargo e ter já uma equipe forjada em quatro anos de administração, na execução de um programa de governo em andamento e um projeto político pendular vacilante entre a continuidade e a mudança, a presidente Dilma Rousseff deveria ser, dos candidatos a presidente nas eleições de outubro, a mais bem resolvida. Tanto para saber o que vai fazer no futuro próximo de um segundo mandato, caso venha a ser reeleita, como com quem vai à luta, quem é seu time.

No entanto, enquanto seus adversários apresentam os principais colaboradores, notadamente entre eles aquele que deve comandar a economia, definidos para um futuro governo, dando nitidez às suas candidaturas, Dilma faz questão de informar que não tem nomes e só dará as linhas mestras de seu projeto após a eleição. Noutras palavras, quem quiser votar em Dilma que o faça no escuro, no máximo com base na permanência da equipe atual. O que apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral como programa de sua candidatura foi um plano fantasia, para cumprir tabela legal. O eleitor que crie a expectativa que quiser sobre o que vem aí, prenúncio de que boa coisa não é, senão o governo propagaria.

Serve como garantia, e dá segurança ao eleitorado, o conhecimento de que em qualquer rumo que ingresse o candidato Aécio Neves, o fato de ter Armínio Fraga como líder da formulação do projeto dessa candidatura para a economia clareia um pouco o futuro; bem como serve como atestado de que não se cometerão desatinos ou repetições dos erros atuais a escalação de Eduardo Giannetti para a economia no time do candidato Eduardo Campos.

Não há um ministro entre os mais próximos de Dilma que se sinta à vontade para ao menos especular sobre os nomes disponíveis a convites para trabalhar em um segundo governo Dilma.

Duas informações que circulam, porém, criam mais ansiedade que solução para os graves problemas de credibilidade da equipe econômica do atual governo. Uma, é que a presidente, não abrindo agora seus planos e equipe que poderia testar, consolida a desconfiança de que pode até mesmo manter o atual comando da economia, de baixo conceito. Arno Augustin e Guido Mantega continuariam nos cargos, uma vez ela reeleita presidente.

Outra é que só há um ministro de hoje com lugar garantido no governo Dilma II, exatamente o homem do confronto, atual ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante. Ainda assim, não necessariamente no mesmo cargo, o que abre brechas aos temores de que, finalmente, o ex-senador por São Paulo pode, finalmente, colocar em prática suas teorias econômicas.

Certo é que Mercadante seria um ministro, na aposta de colegas, o único até o momento, a transpor os períodos I e II, por enquanto. Deve ter cargo, também, Fernando Pimentel, entre outros mais chegados, mas aqui entram dezenas de condicionantes, a primeira, no seu caso, é a eleição para governador de Minas Gerais.

Outra certeza é que o ex-marido de Dilma, Carlos Araújo, continuará sendo seu principal, senão único, conselheiro, alguém que a presidente realmente ouve e leva em consideração. Assim, se estiver havendo busca por empresários ou juristas de renome, pessoas fora de partidos políticos da aliança que possam integrar o segundo governo Dilma, é ali, no Rio Grande do Sul, onde ele mora, que esta roda gira.

Muito pouca definição, ou sinal ao eleitorado, para a favorita na disputa que pede um segundo mandato. Enquanto a presidente segue sendo uma esfinge, é da conversa com os executivos da campanha da reeleição que começam a surgir os sinais de que esse vácuo já está sendo ocupado. Por ele mesmo, o ex-presidente Lula.

Uma reportagem esclarecedora publicada pelo Valor na segunda-feira mostra que o movimento Volta, Lula adquiriu outro tônus, mas trata das mesmas perspectivas: se Dilma perder a eleição, o ex-presidente fará campanha, na oposição, no dia seguinte à derrota, mas não é para isso que se prepara. Reeleita Dilma, o ex-presidente Lula já decidiu assumir um protagonismo que se assemelha mesmo ao comando de um governo paralelo.

Os repórteres Raymundo Costa e Andrea Jubé contaram que nas hostes de Lula e Dilma formula-se um modelo em que fica evidente o papel de Chefe de Estado para a presidente Dilma e chefe de governo para o ex-presidente Lula.

Os mais próximos a Lula, que o representam no comando da campanha da reeleição, avisam que o ex-presidente terá uma atuação "proativa". Um jargão diplomático para uma ação que se pode imaginar muito pouco diplomática.

Informam, por exemplo, que a movimentação de Lula após as eleições- em direção a partidos aliados, ao Congresso, aos movimentos sociais, aos empresários, aos sindicatos - forçará Dilma também a conversar mais, a incorporar o diálogo ao processo político.

Devagar se chega ao ponto: Lula, assinalam, deverá liderar o debate sobre propostas de que Dilma eventualmente não queira tomar a frente. Ou seja, fará o ex o que a atual não quiser fazer no governo para o qual foi eleita. Parece algo estapafúrdio mas é o que prometem e preveem. Nesse caso está o exemplo do projeto de controle da mídia, agora já aprovado por Lula e ainda sub-judice nas intenções de Dilma em um segundo tempo.

Lula poderia, ainda, noutro exemplo, ter posição diferente de Dilma sobre assuntos econômicos, como a política de desonerações, admitem os assessores de campanha. Daí para impor um nome para comandar a economia - Lula já queria trocar Guido Mantega e Arno Augustin há muito tempo, optando por uma solução de mercado -, seria um pulo.

Sem ter uma segunda reeleição pela qual resistir às interferências, Dilma seria forçada a ter seu governo com um pé em cada canoa e veria o impaciente ex-presidente, que não quis desbancá-la da candidatura à reeleição, fazer sua volta em 2014 mesmo deslocando o centro do poder precocemente.

Acenando com a perspectiva da glória formal logo ali, em 2018, para onde marcharia em campanha incessante a partir da reeleição da atual presidente. É Lula 2018 na travessia de 2014. Com Dilma no cargo.

As ONGs e o governo

O Estado de S.Paulo 
Editorial

Muitas vezes, questiona-se a eficácia das Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs). A sensação é de que acabam em pizza, especialmente quando o Palácio do Planalto obstrui a apuração dos fatos que motivaram a sua instauração. Felizmente nem sempre isso ocorre. É o caso da CPI das ONGs, que funcionou no Senado de 2007 a 2010. Apesar da forte oposição do governo Lula, que tentou esvaziar qualquer investigação mais séria sobre repasses indevidos de dinheiro público a ONGs, tal CPI foi ocasião para trazer à tona o tema e, agora, transcorridos quase quatro anos, o Congresso Nacional aprovou o Projeto de Lei (PL) 7.168/14, do senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), que institui um Marco Regulatório para as Organizações da Sociedade Civil (OSCs). O projeto aguarda sanção presidencial.

Com tantos e tão contínuos casos de corrupção envolvendo o poder público e ONGs, formou-se um clima de desconfiança sobre o tema, e era preciso um novo regime jurídico que conferisse transparência e possibilitasse maior controle. Basta lembrar, por exemplo, o escândalo em 2011 das mais de 40 ONGs ligadas ao PC do B que haviam recebido recursos públicos para a execução de programas do Ministério dos Esportes. Na ocasião, a presidente Dilma - mantendo a titularidade da pasta à legenda comunista, conferida por Lula desde 2003 - trocou Orlando Silva por Aldo Rebelo.

O PL 7.168/14 traz importantes novidades. Em primeiro lugar, as suas regras abrangem todos os três níveis da administração pública, uniformizando o tratamento. Há uma preocupação por garantir maior lisura nesta relação. No início de cada ano civil, o poder público deverá divulgar os valores aprovados na lei orçamentária anual respectiva para as parcerias com as OSCs. Entre as novas diretrizes estão a "priorização do controle de resultados" e "o estabelecimento de mecanismos que ampliem a gestão de informação, transparência e publicidade". Por exemplo, as OSCs precisarão publicar em plataforma eletrônica suas prestações de contas.

As OSCs não são mais encaradas como "substitutivas" ou "terceirizadas" do poder público, solicitadas quando este não consegue atuar diretamente. Passam a ser parceiras do Estado na realização do bem comum. Neste sentido, prevê-se um instrumento para que as OSCs - e também cada cidadão - possam apresentar propostas de serviço ao poder público. Um ponto importante é que, mesmo nestes casos, continua sendo obrigatório o "chamamento público" para a seleção das organizações, que deverá ser claro, objetivo, simplificado e, se possível, padronizado.

Outra novidade é o estabelecimento de instrumentos jurídicos específicos para a formalização das parcerias: o termo de colaboração e o termo de fomento. Até o momento, fazia-se um "convênio", similar ao que diferentes órgãos públicos pactuam entre si. Isso acarretava, por exemplo, dificuldades para remunerar a equipe de trabalho envolvida num projeto, já que no regime de convênio a retribuição era vedada.

Estabelecem-se também regras claras a respeito das condições que as OSCs precisam preencher para que sejam parceiras do poder público. Deverão ter pelo menos três anos de existência, experiência prévia na realização do objeto da parceria e capacidade técnica e operacional. Ficam impedidas de celebrar qualquer modalidade de parceria as organizações cujos dirigentes sejam dirigentes políticos ou do Ministério Público, e seus cônjuges, companheiros ou parentes até o segundo grau.

Há ainda a tipificação de crimes específicos envolvendo tanto o agente público quanto para o dirigente da OSC. Por exemplo, dispensar de chamamento público, com exceção dos casos previstos, ou liberar recursos ilegalmente pode acarretar pena de seis meses a dois anos, além de multa.

O PL 7.168/14 pode gerar uma nova relação entre o poder público e as OSCs. E é de justiça reconhecer que o Congresso cumpriu neste caso o seu papel. Que não seja algo bissexto, mas sua rotina de trabalho. O Brasil precisa dele, cada vez mais.

O nababo do Caribe

Rodrigo Constantino
O Globo

Cuba se tornou um antro de prostituição infantil, tráfico de drogas e de armas, tudo sob o estrito controle do ditador

Mais jovem, ele gostava de curtir seu enorme e luxuoso iate de 90 pés, decorado com madeiras nobres importadas de Angola, cercado de forte aparato de segurança. Frequentava sua linda ilha particular, ao lado de tartarugas e golfinhos.

Adorava pescarias e caçadas submarinas. Se o trabalho o chamasse, havia um helicóptero à sua disposição. Degustava iguarias caras como os presuntos pata negra e seu uísque Chivas Regal. Ainda possui dezenas de casas espalhadas pelo país, com quadra de basquete e cinema particular.

De qual magnata capitalista ou herdeiro playboy estamos falando? Nada disso. Esses eram os hábitos do “espartano” Fidel Castro, revelados por seu ex-segurança que foi sua sombra por 17 anos. Juan Reinaldo Sánchez, em “A vida secreta de Fidel”, conta inúmeros detalhes sobre o mais longevo ditador latino-americano. São coisas que ninguém lhe contou; ele mesmo viu!

Mais um mito cai por terra. Cuba é uma redoma de mentiras, inventadas pelo regime opressor e aceitas sem muita crítica pelos cúmplices e os idiotas úteis. Saúde de boa qualidade, educação de primeira, e um líder revolucionário que conseguiu manter um estilo de vida simples: tudo propaganda enganosa.

Fidel sempre disse que levava uma vida modesta, que tinha apenas uma “cabana de pescador”, e que sequer tirava férias, coisa de burguês. O que vem à tona é o esperado por qualquer um com bom senso: ele é o verdadeiro nababo do Caribe. “Comparada ao modo de vida dos cubanos”, diz Sánchez, “essa dolce vita representa um privilégio absurdo”.

Mas essa vida abastada é o de menos, apesar de demonstrar toda a hipocrisia do “igualitário” (como ocorre com nossa esquerda caviar, que adora o socialismo do conforto de Paris, ou com os milionários Lula e José Dirceu, representantes do “povo”). O que emerge dos relatos é um traço psicológico assustador, típico de um psicopata. Fidel “utilizava as pessoas enquanto elas lhes fossem úteis”, e depois “as jogava no lixo sem o menor escrúpulo”.

O destino do próprio autor é prova disso. Totalmente fiel por quase duas décadas ao “líder máximo”, que considerava um deus, quando resolveu se aposentar simplesmente foi jogado na prisão por dois anos, em uma cela infestada de baratas, foi torturado e sofreu até tentativa de assassinato. Após 12 anos e várias tentativas, conseguiu finalmente fugir para Miami, de onde contou sua história para abrir os olhos daqueles que ainda são cegos diante da realidade.

Egocêntrico, que precisa ser o centro das atenções e jamais pode ser contrariado, extremamente manipulador e disposto a sacrificar o mais próximo dos aliados se isso lhe parecer necessário para preservar o poder: assim é Fidel Castro, visto pelos inocentes úteis como um ser abnegado que dedicou sua vida aos outros. O fanatismo de seus seguidores impede qualquer análise crítica.

Até mesmo sua família foi alvo de sua insensibilidade, e seus filhos nunca receberam carinho paterno. Na linha de boa parte da esquerda, Fidel sempre amou a Humanidade como abstração; era o próximo de carne e osso que ele não suportava.

Outra confissão explosiva feita pelo autor, ainda que já conhecida por muitos, é a ligação de Fidel com o tráfico de drogas. Que Cuba sob seu comando virou uma escola de terroristas, isso é notório, e basta pensar no “Chacal”. Cuba treinou milhares de guerrilheiros também, exportando a “revolução” mundo afora.

Para financiar fim tão “nobre”, o tráfico de drogas era visto como um meio aceitável. Sánchez escutou Fidel coordenando diretamente a exportação de cocaína. Os narcotraficantes das Farc sempre receberam apoio de El comandante também. E pensar que nosso BNDES financiou a reforma do Porto de Mariel, ao custo de um bilhão de dólares!

Cuba se tornou um antro de prostituição infantil, tráfico de drogas e de armas, tudo sob o estrito controle do ditador, já que nada ocorre por lá sem seu conhecimento ou autorização. O aparato de vigilância é similar ao de todos os regimes totalitários. Cuba é uma “coisa” de Fidel, como diz Sánchez. “Ele é seu dono, à maneira de um proprietário de terras do século XIX.”

O autor conclui o livro questionando por que as revoluções sempre acabam mal e seus heróis se transformam em tiranos piores que os ditadores que combateram. Parte da resposta é que o poder corrompe. Outra parte é que, muitas vezes, psicopatas buscam nas revoluções um pretexto para colocar sua sede patológica pelo poder em prática. Fidel parece pertencer ao segundo tipo. E pensar que Dilma gosta de fazer afagos em um tirano desses...

Desperdício

Alexandre Schwartsman
Folha de São Paulo

Por mais que não admita isto publicamente, fica claro que o Banco Central tem, sim interferido, para manter o real dentro de patamares que julga confortáveis

O Banco Central anunciou a continuação de seu programa de intervenção sobre a taxa de câmbio iniciado em agosto do ano passado. Naquele momento o Federal Reserve emitira os primeiros sinais que poderia alterar sua política, perspectiva que elevou o rendimento dos títulos de dez anos do Tesouro norte-americano para quase 3% ao ano, fortalecendo o dólar relativamente às demais moedas, entre elas o real.

Em resposta à elevação do dólar, que chegou a valer quase R$ 2,45, o Banco Central passou a intervir nos mercados futuros de câmbio. A justificativa para a intervenção, apesar do regime de câmbio flutuante, era a necessidade de prover proteção (“hedge”) aos agentes econômicos, assegurando que o Banco Central não tinha um objetivo no que diz respeito ao nível da taxa de câmbio, mas que procurava apenas reduzir sua volatilidade.

Desde então, a taxa de câmbio passou quase 90% do tempo no intervalo de R$ 2,20 a R$ 2,40, resultado que pode tanto sinalizar sucesso na moderação da volatilidade como a adoção implícita de uma banda cambial naquele intervalo, isto é, um dólar nem tão barato que prejudique as contas externas nem tão caro que ameace o já precário controle da inflação.

Já eu estou convencido que a segunda hipótese oferece uma explicação melhor do que se passa no mercado brasileiro de câmbio.

Houve, é claro, redução expressiva da volatilidade. No período entre agosto e setembro do ano passado, essa chegou a ficar algo como duas vezes superior à sua média histórica recente; já nos últimos meses tem ficado em torno da média, fenômeno que a análise mais apressada tenderia a atribuir à intervenção do BC.

Ocorre que outras moedas sul-americanas, notadamente as da Colômbia, do Peru e, em menor medida, do Chile, passaram por processo semelhante, tanto a elevação da volatilidade em relação a seu padrão histórico no terceiro trimestre de 2013, como a reversão à média no segundo trimestre deste ano. E, é bom notar, não houve nestes países intervenção tão pesada como a promovida pelo BC, que vendeu no período pouco mais de US$ 90 bilhões no mercado futuro.

Tal fato sugere, portanto, que a volatilidade excessiva, motivo alegado pelo BC para iniciar o processo de intervenção, já não é tão sério quanto foi no terceiro trimestre do ano passado. Ainda assim o BC se decidiu pela continuação do programa, cujo anúncio chegou a levar a taxa de câmbio brevemente abaixo dos R$ 2,20/US$.

Isso sugere que, a despeito de eventuais protestos de lealdade por parte do Banco Central ao regime de taxas flutuantes, não é o excesso de volatilidade que o induz a intervir no mercado de câmbio. Pelo contrário, por mais que não admita isto publicamente, fica claro que o Banco Central tem, sim interferido, para manter o real dentro de patamares que julga confortáveis.

E “conforto” nas condições atuais significa essencialmente manter a taxa de câmbio em níveis que o Banco Central acredita serem compatíveis com o controle da inflação, aqui entendido como a manutenção desta pouco abaixo do limite superior do intervalo de tolerância ao redor da meta (que, não esqueçamos, é 4,5%).

Dado que o BC abriu mão da política monetária – muito embora suas próprias projeções sugiram inflação próxima ao teto da meta nos próximos 12 a 15 meses –, só lhe resta administrar a taxa de câmbio para tentar evitar que até mesmo este limite seja ultrapassado, ainda que para isto tenha que vender mais US$ 25 bilhões a US$ 30 bilhões até o fim deste ano.

Isso dito, como o próprio BC parece (ou deveria) saber, há o risco da calmaria na frente externa ser temporária, em particular caso a recuperação americana seja mais forte do que hoje se imagina.

A munição hoje empregada para manter a taxa de câmbio artificialmente valorizada, e assim atenuar os riscos inflacionários, poderá fazer falta num cenário de maior turbulência no mercado global de câmbio, mas pensar lances à frente não é o forte deste BC.

Novas ameaças às concessões

Raul Velloso
O Estado de S. Paulo.

 O Brasil, mais uma vez, correrá o risco de não dispor da infraestrutura de que tanto necessita

Depois dos fracassos da segunda etapa do programa de concessões rodoviárias, em 2013 o governo conseguiu, enfim, com alguns anos de atraso e inclusive com o adiamento de leilões por previsível falta de interessados, destravar a terceira etapa desse programa. Ao adotar tarifas-teto mais altas nos leilões, acabou eliminando o risco de esses certames fracassarem. No fim, com a forte competição entre os candidatos que sucedeu e o maior tempo que tiveram para estudar os projetos, os pedágios ficaram até menores que os tetos oficiais. O temor agora é o de que, ao longo da execução dos contratos, quando o poder de barganha dos concessionários diminui, o governo, conforme tem sinalizado, volte à busca das menores tarifas imagináveis. Isso pode ocorrer todas as vezes em que for necessário ajustar os valores-chave dos contratos, por causa de fatores extraordinários, que costumam ocorrer ao longo de sua implementação. Um exemplo é a criação de um imposto, não previsto originalmente. Para aumentar a tarifa, serão recalculados e atualizados os fluxos de despesas e receitas, usando uma taxa de desconto apropriada. Daí sairá a nova tarifa ou outra forma equivalente de reequilibrar o contrato. Para reduzir esse impacto, um governo à caça de dividendos políticos pode aproveitar essa situação para baixar a taxa de desconto usada originalmente nos contratos, definindo uma metodologia para esse fim. Com isso, o aumento tarifário requerido é reduzido.

Diferentes órgãos reguladores (ANTT, Anac e Aneel) têm utilizado o Custo Médio Ponderado do Capital (ou Wacc, na sigla em inglês) como base para o cálculo da taxa de desconto. O problema é que a metodologia de cálculo do Wacc está sujeita a diversas críticas, que vão desde o pequeno tamanho da amostra utilizada à não consideração de importantes idiossincrasias do investimento em infraestrutura, como a baixa liquidez e o longo prazo de maturação do investimento. Isso faz com que o custo estimado do capital possa divergir substancialmente do seu custo efetivo.

Na verdade, para os atuais reequilíbrios financeiros de contratos, a Resolução ANTT n.º 4.075, de 2013, fixou a taxa de desconto em 6,57%. Trata-se de uma taxa abaixo, inclusive, da estimada em outras instâncias por outros órgãos, em torno de 8%. Destaque-se que, também em 2013, a Secretaria do Tesouro Nacional (STN) sugeriu uma taxa de 7,2% como parâmetro para os leilões de rodovias federais da terceira etapa. Assim, contratos recém-assinados passariam a ser reequilibrados a uma taxa de desconto mais baixa que aquela que prevaleceu na fase da assinatura.

Seriam os 6,57% um mero tecnicismo do órgão regulador ou estariam inseridos numa política governamental mais ampla de contenção a qualquer custo do preço de serviços públicos? As evidências sugerem que a segunda opção é a mais provável. Em primeiro lugar, porque assim vêm sendo tratados preços administrados como os da gasolina e da energia. Em segundo, porque, nas licitações de rodovias mais recentes, chegou-se ao absurdo de proibir a apresentação de um plano de negócios, que detalha as projeções de receitas e gastos das empresas e explicita a taxa de desconto da concessionária.

Eventuais alterações da taxa de desconto, ao contrário do que tem ocorrido, deveriam ser feitas com regras consensuais claras e previsíveis. Não sendo assim, faz mais sentido utilizar a taxa definida implicitamente pelo mercado no processo licitatório original. Ou seja, seria a taxa de desconto que embasou o próprio plano de negócios original da concessionária, cuja apresentação o governo proibiu…

As autoridades demoraram muito a convencer o setor privado a participar de processos licitatórios. Agora, numa clara postura oportunista, tenta deprimir a rentabilidade do capital, o que tornará o setor privado mais reticente a participar de futuras concessões, exigindo para tanto tarifas mais altas com o objetivo de compensar o maior risco assumido. E o Brasil, mais uma vez, correrá o risco de não dispor da infraestrutura de que tanto necessita.

Até quando?

Fábio Giambiagi
Valor Econômico

Não é de estranhar que o Brasil tenha problemas de competitividade, resultantes entre outras coisas da combinação de uma carga tributária elevada com distorções do sistema de arrecadação

Entre 1991 e 2013 a despesa primária do Governo Central, incluindo as transferências a Estados e municípios, passou de 13,7% para 22,8% do PIB. É uma variação espantosa, que implica uma média de 0,41% do PIB a mais do PIB de gasto público a cada ano por um período de 22 anos. Isso seria muito bom se o Brasil tivesse se convertido em um canteiro de obras, nossa educação tivesse a qualidade suíça e o atendimento à saúde um padrão escandinavo. Sabemos, porém, quão distantes estamos de tudo isso.

O padrão fiscal mudou após o ajuste fiscal de 1998, quando a percepção de que era necessário colocar limites ao déficit público levou o país a adotar metas relativamente rígidas de superávit primário, após o que a expansão da dívida foi contornada e o país efetivamente se ajustou em termos do resultado fiscal. O problema é que trocamos uma flexibilidade por outra: se antes o crescimento do gasto público era financiado por uma inflação elevadíssima até 1994 e pela expansão da dívida pública nos primeiros anos depois do Plano Real, estabelecido o “tripé” de metas de superávit primário/metas de inflação/câmbio flutuante vigente desde 1999, a variável de ajuste passou a ser a carga tributária federal: a receita do Governo Central, incluindo a Previdência, passou de 18,7% do PIB em 1998 para 24,4% do PIB em 2013. Isso dá uma média de 0,38% do PIB de carga tributária a mais na economia a cada ano durante 15 anos. Não é de estranhar que o Brasil tenha problemas de competitividade, resultantes entre outras coisas da combinação de uma carga tributária elevada com distorções do sistema de arrecadação.

Estas e outras questões que dizem respeito à avaliação dos problemas enfrentados pela economia brasileira encontram-se no meu capítulo de abertura, “A economia brasileira na segunda metade da década: riscos de esgotamento do ciclo de expansão iniciado em 2004″ escrito com Marcelo Kfoury Muinhos, no livro “Propostas para o Governo 2015/2018″, que organizei recentemente com Cláudio Porto e foi publicado pela Ed. Campus.

No capítulo, mostramos que, como os gastos do Governo têm crescido ao longo dos últimos 20 anos e como parte desses gastos se traduzem macroeconomicamente em maior dispêndio em consumo das famílias – como no caso do componente da Previdência Social associado ao INSS – o financiamento do investimento, tendo menos espaço para ser coberto por poupança doméstica, se tornou progressivamente mais dependente da poupança externa. Anos atrás, escrevendo para o livro que organizei com Octavio de Barros, “Brasil globalizado” (Ed. Campus), os professores Affonso Pastore, Maria Cristina Pinotti e Leonardo Almeida já tinham constatado que “uma importante regularidade empírica brasileira é a elevada correlação positiva contemporânea entre as importações e os investimentos: aumentos na formação bruta de capital fixo são extremamente dependentes de aumentos de importações” (página 296/297). Os resultados econométricos que identificamos no artigo com Marcelo K. Muinhos sugerem que essa relação entre o nível do investimento e a poupança externa se acentuou.

Nos 5 anos entre 1999 e 2004, a poupança doméstica aumentou 6,4 pontos percentuais do PIB, de 12,1% para 18,5% do PIB. Nesse período, o PIB cresceu 3,0 % a.a. e o consumo cresceu menos: 2,1% a.a. Já na média dos 9 anos de 2004 a 2013, o crescimento anual do PIB foi um pouco maior, embora não tenha mudado drasticamente (3,5%), mas foi no crescimento anual do consumo total que houve um salto: 4,3%. Em contrapartida, a poupança doméstica cedeu 4,7 pontos do PIB, caindo de 18,5% para 13,8% do PIB. 

No primeiro período, o país estava fazendo o que era certo, mas todo ajuste dói. No segundo, sacou contra o futuro e os governos compraram popularidade. A consequência se vê no resultado em conta corrente do balanço de pagamentos nas Contas Nacionais do IBGE: entre 1999 e 2004, passou de um déficit de 4,3% do PIB a um superávit de 1,4% do PIB – quase 6 pontos do PIB de ajustamento. Já em 2013, foi deficitário em 4,1% do PIB – uma piora de 5,5 pontos do PIB em 9 anos.

Gasto público crescente, consumo crescente, poupança doméstica declinante, déficit em conta corrente em aumento. A pergunta que cabe é: até quando? Esperemos que cedo ou tarde o país encare estas questões. Caso contrário, como diria Ancelmo Gois… deixa pra lá.