quarta-feira, julho 16, 2014

Oportunismo e bomba energética

Raul Velloso
O Globo

Sem o devido equacionamento financeiro, o problema cai hoje no colo das empresas que atuam nesse setor

Nas concessões de transportes, as empresas se debatem hoje com a postura oportunista do governo, que tenta reduzir a rentabilidade original dos projetos à medida que avança a implementação dos badalados contratos que foram assinados recentemente. Aproveita, assim, a redução gradativa do poder de barganha dos concessionários que ocorre ao longo de sua execução (veja artigo na primeira página de www.raulvelloso.com.br).

Há evidências de comportamento semelhante no setor elétrico, especialmente no ramo da distribuição, onde os investimentos pós-leilão são inadiáveis, mas difíceis de prever no início do processo. A fim de agradar aos eleitores no curto prazo, o governo aproveita o alto custo que o empreendedor privado teria de assumir para desistir da concessão, e impõe a redução das taxas de desconto nos cálculos de reequilíbrio dos contratos. É o mesmo que impedir que as tarifas aumentem para fazer face a gastos adicionais com investimentos ou outras despesas não previstas originalmente, como novos impostos, por exemplo. Esse tipo de comportamento é danoso à evolução futura da combalida infraestrutura brasileira, pois aumenta o risco regulatório e induz o capital privado a desistir da atividade ou a exigir maiores tarifas no futuro a fim de compensar o aumento de risco.

No setor de energia elétrica, a grande bomba que paira no ar é o custo do acionamento continuado, desde 18/10/12, das caríssimas termelétricas de reserva, cerca de 12,5% da carga total, que só vale a pena pagar quando ocorre em períodos curtos e eventuais. Segundo estimativa do Instituto Ilumina, até agora essa brincadeira custou cerca de R$ 50 bilhões (R$ 2,3 bilhões mensais), a incidir à frente e basicamente no bolso dos consumidores de energia, dado que o governo, grande responsável pelo problema, não fará nada impopular antes das eleições e o orçamento não tem fundos. O cálculo considerou um custo médio, talvez subestimado, de R$ 420/MWh. Se o problema persistir por mais 12 meses, a conta aumentará para R$ 78 bilhões!

Sem o devido equacionamento financeiro, o problema cai hoje no colo das empresas que atuam nesse setor. Enquanto isso, em entrevista à “Conjuntura Econômica”, o secretário do Tesouro disse que vai assumir apenas uma parcela de R$ 4 bilhões dessa conta, e uma associação privada que atua na área já intermediou um empréstimo bancário de R$ 11,8 bilhões, discutindo-se hoje um aditivo de R$ 3 a 4 bilhões.

Quanto às causas, a desculpa oficial é a seca, especialmente na região Sudeste/Centro-Oeste, mas muito disso se deve à prática de preços artificialmente baixos e à consequente evolução desfavorável da oferta de energia elétrica no país, em grande medida pelas políticas de cunho populista que têm prevalecido na fixação de tarifas públicas, desde o primeiro governo do PT. Para piorar, após o acionamento das usinas de reserva, vieram a polêmica Medida Provisória 579 e a redução de 20% nas tarifas ao consumidor que ela pretendeu viabilizar.

O problema, contudo, não se manifesta apenas no custo brutal acima indicado. Em que pese o acionamento de todas as térmicas de reserva, além de caras elas se mostram insuficientes. Tanto assim que as da região Sudeste/Centro-Oeste, que respondem por 70% da capacidade total de armazenamento, estavam com apenas 36,3% de sua capacidade no fim de junho. A continuar nesse ritmo, os percentuais estarão bem mais baixos no reinício das chuvas, de forma que, sem contenção do consumo, as térmicas que custam “ouro” terão de permanecer acionadas enquanto os níveis dos reservatórios não voltarem à normalidade, em data difícil de prever. A título de comparação, esses mesmos reservatórios tinham 28,5% no fim de junho de 2001, ano em que o governo da época decidiu economizar energia por meios não convencionais, e em que havia umas poucas termelétricas de backup no País. Esses números dão uma dimensão do aperto em que nos encontramos, apesar das declarações tranquilizadoras das autoridades, assegurando que não haverá racionamento. Em resumo, há uma conta gigantesca para ser paga, ainda sem fechamento, e, mesmo assim, um alto risco de se ter de adotar uma solução heterodoxa, complexa e indesejável, de redução forçada do consumo.

Indo mais fundo, percebe-se uma combinação de graves erros de planejamento. Dadas as atuais termelétricas de reserva, há grande carência de novos projetos de hidrelétricas com reservatórios, que são as menos custosas. Nessa área, pressionado pelo lobby ambientalista, o governo simplesmente desistiu de construir esse tipo de usina, agravando a carência de energia mais barata. Do outro lado, na hipótese de uma expansão mais limitada de hidrelétricas, é preciso combiná-las com um maior contingente de termelétricas de reserva, mas estas precisam ser bem mais baratas que as atuais. Nesse contexto, falta esclarecer por que não decolaram as termelétricas a gás, nem aquelas cujo combustível é o bagaço de cana, tão abundante num país que tem a expressiva produção de açúcar e álcool que nós temos.

A precária retórica dos 12 x 8 anos

Pedro Malan
O Estado de S.Paulo

"O que você considera uma pessoa normal?", perguntou um amigo ao neurologista Oliver Sacks, achando que este não levaria a pergunta a sério. Mas Sacks sugeriu que uma pessoa normal talvez fosse aquela capaz de contar sua própria história: suas origens, o que tinha feito na vida, as circunstâncias em que se encontraria hoje, para onde achava que estava indo - ou desejaria ir - e o que estava fazendo para tal. Em O Círculo dos Mentirosos, Jean-Claude Carrière, o autor da pergunta, conta essa história e se pergunta: podemos dizer de uma sociedade o que se diz de um indivíduo?

Em outras palavras, que uma sociedade "normal" precisa ser capaz de contar sua própria história, identificar-se, situar-se com naturalidade no curso do tempo histórico seu e do mundo que é sua circunstância? O "normal" não seria uma sociedade dotada de ordenada memória, constantemente ativada e animada pelas exigências do presente, capaz de encontrar em si os elementos que fundassem sua autoestima, sem a qual é impossível encarar o futuro com um mínimo de confiança? Creio que as perguntas de Carrière não são irrelevantes. Afinal, um país digno desse nome precisa ter alguma consciência social de seu passado, algum vislumbre de seus futuros possíveis e, muito importante, identificar os principais desafios de seu fugidio presente por meio do infindável diálogo entre seu passado e seu futuro.

Para descer um pouco à terra: estamos no Brasil de meados de 2014, a dois meses das eleições que definirão os próximos quatro anos - e bem adiante. É fundamental mirar esse futuro sem desconhecer os cada vez mais visíveis problemas do presente e tampouco os processos e decisões que a eles nos levaram. Como já notei mais de uma vez neste espaço, há importantes armadilhas, algumas autoimpostas recentemente, que terão de ser destravadas.

Mas, além de desativar armadilhas, há muito, mas muito ainda em fazer neste país - o que não significa desconhecer o feito por várias administrações, inclusive a atual -, e é esse muito por fazer que deveria estar no centro do debate público. Um olhar à frente, e não um olhar no retrovisor voltado para estradas já trilhadas. Entendo a estratégia eleitoral do lulopetismo, embora lamente que ela não ajude em nada - ao contrário - a busca das convergências possíveis, que poderiam talvez contribuir para reduzir as incertezas do presente.

Escrevi neste espaço em 2006, reescrevi em 2010, quando a mesma estratégia foi seguida, e de novo agora: não acredito que "a cultura política" do País e seus eleitores tivessem ou tenham algo a ganhar - ao contrario - com uma obcecada tentativa de transformar o debate eleitoral de 2014 numa batalha de aguerridos marqueteiros, militantes e blogueiros. E mais, creio que o discurso retórico "dos 12 anos do lulopetismo versus os 8 anos de FHC", tão caro aos estrategistas marqueteiros, não se sustenta em seus próprios termos.

Por que digo isso? Porque o primeiro mandato de Lula foi distinto do segundo e os 4 anos de Dilma Rousseff, distintos daqueles 8. A tentativa de descrever o conjunto dos 12 anos como marcados por grande unidade na condução da política econômica que poderia ser projetada para o futuro pode justificar-se apenas como expediente eleitoral. Esperemos.

Em longa e imperdível entrevista concedida à Folha de S.Paulo em 27/2/2011, a jornalista pergunta ao ministro da Fazenda se o novo governo seria mais parecido com Lula 1 ou Lula 2. O ministro responde algo como: nem Lula 1 nem Lula 2, será um Lula 3. Deixo ao leitor interpretar o que seria o Lula 4 e vou utilizar apenas a categorização da entrevistadora e do ministro.

Lula 1 beneficiou-se e muito, como é ou deveria ser sabido, de uma combinação positiva de três ordens de fatores: uma situação internacional extraordinariamente favorável, uma política macroeconômica não petista seguida por Antônio Palocci e Henrique Meirelles e uma herança não maldita de mudanças estruturais e avanços institucionais alcançados na vigência de administrações anteriores - inclusive de programas na área social que foram mantidos, reagrupados e ampliados. O Lula 1 começou a terminar quando, em 2006, saíram do governo simultaneamente, além do ministro Palocci, o vice-ministro Murilo Portugal, seu secretário do Tesouro, Joaquim Levy, e seu secretário de Política Econômica, Marcos Lisboa, entre outros.

Lula 2 assumiu com nova equipe e nova concepção sobre o crucial papel do Estado e de suas empresas no desenvolvimento do País. O PAC e suas sucessivas e cada vez mais ambiciosas versões foram, em parte, a expressão dessa nova postura. A crise internacional agravada após setembro de 2008 forneceu um grande álibi para a ampliação da política dita "keynesiana" que vinha sendo praticada desde 2007. O que levou aos insustentáveis 7,5% de crescimento em 2010. Só possíveis porque tivemos (efeito China) outro extraordinário surto de melhora nos termos de troca.

Dilma começou 2011 tendo de lidar com as consequências do superaquecimento de 2010. Mas ainda em 2011 surgiu a ideia da "nova matriz macroeconômica", que não deu certo em outro contexto internacional. A história é muito recente, mas suas consequências são cada vez mais visíveis.

O que importa é que o que estará em votação agora são os últimos 4 anos - afinal, é a atual presidente que busca sua reeleição. E mais obviamente, os próximos 4 anos. É uma votação sobre o presente e principalmente sobre o futuro, e não uma votação sobre um passado cada vez mais distante.

É precária a retórica dos 12 x 8. Mesmo porque a história dos últimos 12 anos, como quer que se a interprete, não seria possível sem avanços alcançados nos 8 anos anteriores. Na verdade, não apenas nesses 8, fundamentais como possam ter sido. A História do Brasil, definitivamente, não começou em 2003. Como, aliás, em nenhum país "normal".

Erro de diagnóstico

Fabio Giambiagi
O Globo 

Brasil vive hoje um problema clássico identificado no capítulo 1 de qualquer manual de macroeconomia

O Brasil padece as consequências de um erro de diagnóstico. Em discurso no Senado, pronunciado em 3 de setembro de 1891, Rui Barbosa, com sua verve inconfundível, exclamava: “Eu quisera, nos meus antagonistas, senão justiça para comigo, ao menos lógica na ligação entre as suas premissas e as suas conclusões.” O velho Rui, se vivo fosse hoje e se encontrasse entre os críticos do governo, teria dificuldades em identificar tal “ligação entre as premissas e as conclusões” analisando a retórica que marca a defesa da política oficial.

José Dirceu, em seu esforço de fazer o contraponto ideológico com as teses da oposição e em tentativa de contestar os argumentos de um — na época — muito comentado texto de Fernando Henrique Cardoso, escreveu em julho de 2013, em artigo publicado na revista “Interesse nacional”, que “ao apostar na formação de um mercado interno robusto, o governo Lula mirou a colheita de frutos para todos, consubstanciados no chamado ciclo virtuoso de crescimento”. Ele dava eco assim às teses que, em plena fase de “tocar bumbo”, o Partido dos Trabalhadores tinha começado a propagar desde o começo do ano passado, teses essas que foram consagradas no documento partidário produzido pelo Instituto Lula denominado “O decênio que mudou o Brasil”, de fevereiro de 2013, com texto digno dos documentos da época do “realismo socialista” da União Soviética e desenho na capa onde Luiz Inácio Lula da Silva aparece com ares de líder visionário, ao lado da presidente Dilma Rousseff e sob uma bandeira brasileira. Na típica linguagem épica daqueles documentos, cujo clímax retórico foi a seção com título “O decênio glorioso”, o PT destacava que o “jeito petista de governar” tinha permitido ao país “enfrentar a crise global buscando fortalecer o seu modelo interno” seguindo “um caminho próprio, distinto do observado atualmente em outras economias, que permite ao país sair da crise global muito mais pujante”.

Na origem dos problemas que o Brasil vive hoje, mais do que o divórcio entre a retórica e a realidade, mais do que a contradição entre as premissas e as conclusões de que falava Rui Barbosa, encontra-se um erro de diagnóstico. O que o Brasil vive hoje é um problema clássico identificado no capítulo 1 de qualquer manual de macroeconomia.

Para que o leitor entenda melhor isso, vamos expor alguns números. Em 2007, o Brasil tinha a) superávit primário de 3,3% do PIB; b) superávit nas suas transações correntes com o exterior; c) um custo da sua mão de obra que tornava a economia brasileira competitiva; d) inflação rigorosamente na meta (4,5 %); e e) poupança doméstica de 18% do PIB e consumo de 80% do PIB. A economia ainda não se ressentia muito do desmonte sistemático das bases para o crescimento duramente construídas no período FH e reforçadas nos primeiros anos do governo Lula, quando a economia estava sob a direção do ministro Palocci. Sete anos depois, em 2014, após a vigência intensa da política de “pau na máquina”, com doses reforçadas de injeções de demanda e estímulos ao consumo, qual é o quadro? Vejamos o contraste: a) superávit primário de 1,5 % do PIB, com viés de baixa; b) déficit externo da ordem de US$ 80 bilhões; c) custo unitário da mão de obra na indústria 17% superior ao de 2007; d) inflação no teto de 6,5%; e e) poupança doméstica de 14% do PIB e consumo de 85% do PIB. O Brasil financiou uma festa — com poupança externa. Espantosamente, naquele mesmo documento antes citado, o PT afirmava que “o salário médio real dos trabalhadores cresceu acima dos ganhos de produtividade. Entre 2003 e 2010, por exemplo, o aumento acumulado da produtividade foi de 13,2% ante a expansão de 20,8% do salário médio real. Para cada aumento de 1% na produtividade, o salário médio real aumentava 1,6%” . A razão do espanto não é que os números sejam falsos, mas o contrário: que se utilize como exemplo um argumento que, se é compreensível do ponto de vista político, é lapidário em termos econômicos.

De fato, se quisermos entender por que o Brasil está flertando com uma crise, basta reler o parágrafo anterior: crescimento dos salários acima da produtividade é garantia de inflação e problemas de balanço de pagamentos. Exatamente o que estamos vendo.

Notícias do meteorito americano

Vinicius Torres Freire
Folha de São Paulo

Em tempos de calmaria e alegre especulação global, fala-se de novo de alta dos juros, um risco para nós

Em algum dia, um meteorito causará grande estrago ao cair na Terra, nos dizem aqueles documentários de ciência "pop" ou ficção científica das madrugadas da TV. Em algum dia, as taxas de juros subirão nos Estados Unidos. Esse filme voltou a passar na mídia financeira mundial. Talvez até por falta do que fazer ou de notícia, economistas e publicistas da área voltaram a tratar do assunto neste início de julho.

Os juros norte-americanos não vão alterar o clima ou dizimar dinossauros, mas estima-se que a coisa venha a ser "tensa", como dizem os adolescentes. Pode haver inversões do curso dos rios de dinheiro pelo mundo, enchentes e secas financeiras, não se sabe em qual escala. Isso vai nos afetar de algum modo e em algum grau entre 2015 e 2016, os quais já não seriam anos fáceis.

Como se recorda, a ameaça de tais mudanças causou as tempestades de junho-agosto de 2013; a especulação a respeito causou a pororoca de janeiro-fevereiro de 2014. Aqui no Brasil, esses fenômenos apareceram de modo mais evidente como altas do dólar, que foi além de R$ 2,40 nesses paniquitos.

O que houve recentemente?

Alguns economistas de grandes bancos do mundo passaram a estimar que os meteoritos americanos, ainda pedrinhas, começarão a cair mais cedo do que o imaginado. Isto é, não mais entre o final de 2015 e o início de 2016, mas, sim, a partir da metade de 2015. Ou até no segundo trimestre do ano que vem.

Por quê?

Porque os indicadores de emprego e inflação nos Estados Unidos começariam a apontar, enfim, a recuperação duradoura da economia, que cresceu espantosamente pouco no início do ano, menos ainda que seria previsível devido aos efeitos de um inverno duro.

Pode ser. Ainda assim, em vez de uns 3%, a economia americana deve crescer uns 2% neste 2014. Os salários reais não sobem, menos gente trabalha (apesar da baixa firme do desemprego), há muito emprego precário etc. Enfim, a previsão de retomada americana foi frustrada em todos os inícios de ano depois da explosão de 2008.

Há sinais de que os juros vão se mover?

Hum. Pode parecer que há. Um aficionado de filmes catástrofe "B" poderia lembrar daquelas cenas em que técnicos de um laboratório de terremotos notam um tremor mínimo no sismógrafo, temem o fim do mundo e são ignorados pelo chefe displicente.

Houve algumas balançadas mínimas nos sismógrafos dos juros de empréstimos entre bancos nos Estados Unidos e nas taxas de juros de títulos de dois anos de prazo.

No entanto, quando não parecem quase aleatórias, são reações pontuais, microespeculações do dia a dia. Entenda-se: caso os donos do dinheiro grosso imaginem uma alta de juros (ou imaginem que seus pares vão imaginar), vai haver algum sururu na praça.

Mas na quarta-feira saiu a exposição de motivos do comitê de política de juros deles, o Fomc, que pareceu liberar a turma para ainda chutar para perto da Lua o preço dos ativos financeiros, como ações. Nem mesmo a estrela cadente do grupo financeiro português Espírito Santo fez estrago maior.

Ainda assim. Um meteorito vai cair por aí até 2016.

Câmbio, o alvo errado

O Estado de S.Paulo 
Editorial

Controlar a inflação tem sido o principal objetivo da política de câmbio - um jogo arriscado, segundo economistas das mais importantes consultorias. Há cerca de um ano o Banco Central (BC) tem procurado impedir a valorização do dólar no mercado brasileiro e a consequente contaminação dos preços internos. Políticas desse tipo, quando mantidas por muito tempo, barateiam as importações, encarecem as exportações, estimulam os gastos no exterior e prejudicam as contas externas - no caso do Brasil, já em condições bem precárias pelo menos desde o ano passado. Com suas intervenções o BC conseguiu mais que frear a valorização da moeda americana. Do começo de janeiro até a última sexta-feira a cotação do dólar caiu 5,98%, tornando mais complicada a situação do industrial brasileiro, já pressionado pela alta dos salários e de outros custos de produção.

A decisão de agir para conter o câmbio foi tomada há cerca de um ano, quando o dólar disparou em todo o mundo. O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) havia anunciado, para breve, uma diminuição gradual dos estímulos à recuperação da economia americana. A emissão de moeda seria reduzida e, portanto, a oferta de dólares cresceria mais lentamente. Os mercados anteciparam a valorização e o Brasil foi um dos emergentes mais afetados pela nova onda. O consequente aumento dos preços de importação logo foi incluído pela autoridade monetária na lista dos desafios urgentes.

Para enfrentar esse problema, o BC tem atuado no mercado cambial por meio de operações de swap, equivalentes à venda de dólares no mercado futuro. A autoridade monetária intervém no câmbio, normalmente, para impedir grandes oscilações em prazo muito curto, em geral perturbadoras. Mas a ação iniciada há cerca de um ano, como resposta à mudança na política americana, teve claramente um objetivo mais estrito - impedir ou, no mínimo, limitar o efeito inflacionário da valorização da moeda americana.

Ao manter essa estratégia por longo tempo, o BC assumiu o risco de prejudicar as contas externas. O câmbio é só um dos fatores de competitividade. Nos países mais eficientes, nem é o mais importante. Pesam muito mais a produtividade da mão de obra, a capacidade de inovação, a qualidade da produção, a tributação bem calibrada e a eficiência da infraestrutura. O Brasil perde em todos esses quesitos. Por isso, o câmbio tem uma importância excepcional para os empresários brasileiros. Os mais afetados são em geral os da indústria de transformação.

A excessiva dependência do câmbio para competir internacionalmente é com certeza uma distorção, mas outras igualmente importantes afetam a política econômica. Afinal, por que o BC tem de dar tanta importância ao dólar em sua política anti-inflacionária? Em outros países, a estabilidade de preços é garantida por outros fatores, em geral mais importantes que o câmbio.

O manejo responsável das finanças públicas é um desses fatores. Em países com melhor tradição no campo fiscal as contas públicas têm menor impacto inflacionário que no Brasil. As autoridades brasileiras têm sido incapazes de controlar a própria gastança e de usar com sabedoria os incentivos fiscais e as políticas de rendas. Têm pouca credibilidade e suas intervenções na formação dos preços em geral são desastrosas.

Sem contar de fato com a contribuição do governo, o BC tem de cuidar sozinho da inflação. Seu principal instrumento, a política de juros, parece estar congelado. Será uma surpresa se houver nova alta neste ano ou, pelo menos, antes das eleições. Isso aumenta a importância da intervenção no câmbio, embora o resultado seja modesto, em termos de contenção dos preços, e o custo para as contas externas possa ser elevado.

Um dos pressupostos para a manutenção dos juros em 11%, segundo o BC, é uma taxa de R$ 2,25 por dólar no fim do ano. Há cinco semanas o mercado sustenta a projeção de R$ 2,40, indicando claramente a percepção de um grave desajuste. O desajuste maior, obviamente, está na política econômica, mas este muito dificilmente será eliminado neste ano ou no próximo.

Brasil cede presidência do banco do Brics para Índia e aceita vaga no conselho

Lisandra Paraguassu, Adriana Fernandes e  João Villaverde 
O Estado de S.Paulo

Após negociações, Brasil desiste da presidência da nova instituição em favor de acordo; sede será em Xangai, na China


 Putin (Rússia), Modi (Índia), Dilma (Brasil), Jinping (China) e
 Zuma (África do Sul) entram em acordo sobre o banco do Brics

FORTALEZA - O Brasil cedeu a presidência geral do banco do Brics para Índia para fechar o acordo nesta terça-feira, 15, em Fortaleza. O País ficará com a primeira presidência do conselho de acionistas. Já a sede será em Xangai, na China. Fontes do governo confirmaram ao Estado que esse foi o acordo possível para contentar todos os lados e permitir a assinatura da criação do banco.

O Brasil almejava a presidência geral, mas a Índia, que primeiramente queria a sede do banco em Nova Délhi, só cedeu em troca do cargo principal. O acordo, no entanto, foi festejado pelo governo brasileiro como o possível. A presidência do banco é rotativa, a cada cinco anos.

A negociação estava praticamente fechada até o final de semana, com a China mantendo a sede em Xangai e o Brasil com a primeira presidência. Mas nesta segunda-feira, já em Fortaleza, a conversa retrocedeu e o Brasil não descartava a possibilidade de ter de entregar a presidência para que o acordo pudesse ser fechado em Brasília. 

Após a Índia, o Brasil terá a segunda presidência do banco. Na sequência, ficarão Rússia, África do Sul e China. 

Dilma.
A presidente Dilma Rousseff usou a sua conta do Twitter para comentar a criação do banco. "Os Brics vivem momento especial devido ao fortalecimento de duas iniciativas que estão sendo debatidas durante este encontro em Fortaleza", disse. De acordo com Dilma, o banco terá duas funções: financiar infraestrutura e atuar no contingenciamento de reservas internacionais.

"A segunda (iniciativa) é uma linha de contingenciamento de reservas, um seguro dos Brics contra a instabilidade do mercado financeiro internacional", afirmou. Essa linha será chamada de Arranjo Contingente de Reservas (CRA) e ajudará acontrolar o processo de volatilidade das economias mundiais em um momento em que os Estados Unidos começam a retirar os estímulos à economia. O CRA é um espécie de fundo virtual anticrise.

"O CRA, que tem um montante de US$ 100 bilhões, vai contribuir para que esse processo de volatilidade enfrentado por diversas economias quando da saída dos Estados Unidos da política de expansão monetária seja mais contido, mais administrado. E dá segurança, dá uma espécie de rede de proteção aos países Brics e aos demais", disse a presidente.

Desse montante inicial de US$ 100 bilhões, US$ 41 bilhões virão da China. Já Brasil, Índia e Rússia irão colaborar, cada um, com US$ 18 bilhões e a África do Sul fará um aporte de US$ 5 bilhões. Segundo o Banco Central do Brasil, a eventual liberação de recursos se dará por meio de operações de swap. O país que solicitar recursos receberá dólares e, em contrapartida, dará sua moeda aos países contribuintes, em montante e por período determinados.

Os Estados Unidos já começaram a retirar os estímulos à sua indústria e de, acordo com o Federal Reserve, o Banco Central americano, devem terminar todo o processo em outubro, o que terá reflexo na economia mundial. Ainda não há previsão de aumento de juros, mas o mercado já teme os efeitos de uma mudança na política monetária norte-americana.

Banco de combustíveis. 
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, aproveitou seu discurso na reunião do BRICS para defender a criação de um "banco internacional de combustíveis". A ideia, que não havia surgido em nenhum outro encontro do BRICS, criado em 2008, funcionaria, segundo Putin, para "assegurar a segurança energética em nossos países, para assegurar o comércio de diferentes combustíveis entre nós".

Entusiasmado com o acordo pela criação do Novo Banco do Desenvolvimento, o "banco do BRICS", Putin afirmou que a nova instituição "terá bases para grandes mudanças macroeconômicas", uma vez que será, no futuro, "uma das agências econômicas mais importantes do mundo". O presidente russo também afirmou que o grupo BRICS, formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, "ocupa um lugar único na economia global".   




Cúpula de Fortaleza

Miriam Leitão
O Globo 

A semana diplomática começa com agenda cheia e presença de líderes poderosos no Brasil. A cúpula de Fortaleza vai tentar dar ao Brics consistência que transforme o grupo em algo mais do que uma junção de letrinhas. São países sem convergências naturais, "uma tribo que só tem cacique", como diz o embaixador Marcos Azambuja, mas que pode vir a ser uma instância relevante.

Em uma entrevista concedida no Rio, jornalistas perguntaram ao embaixador José Alfredo Graça Lima o que, afinal de contas, é o Brics. Ele respondeu que é mais fácil dizer o que não é. De fato, não é uma união aduaneira, ou zona de comércio, nem mesmo um grupo criado por identidades culturais ou proximidades geográficas. Analistas oscilam entre considerar que é apenas um acrônimo inventado por um economista ou o início de uma nova estrutura de poder multipolar.

A economista Lia Valls, do Centro Brasileiro de Economia da FGV, lembra que entre os pontos em comum está o fato de que todos os cinco - China, Índia, Brasil, Rússia e África do Sul - querem maior flexibilização nas organizações financeiras internacionais.

Na reunião de Fortaleza, os países querem dar passos concretos na criação de um banco de desenvolvimento que financie obras de infraestrutura, chamado Novo Banco de Desenvolvimento, e um fundo contingente de reservas para socorrer os países que venham a ter dificuldades no balanço de pagamentos.

Se alguém lembrar das funções do Banco Mundial e do FMI não será mera coincidência. Eles estão começando a criar o que o embaixador Graça Lima chamou de "organizações espelho". Lia Valls acha que eles não querem competir com essas entidades. Nem faria sentido. Segundo Graça Lima, eles não estão "confrontando" mas apenas "suplementando" as entidades tradicionais. Estão também, acho, dando um passo a mais nas reclamações que fazem da viciada estrutura de poder nas instituições criadas no pós-guerra.

A China, por exemplo, gostaria de ter a presidência do Banco Mundial, mas o caduco acordo entre os países que criou as instituições estabelece que Estados Unidos e Europa sempre vão dirigir as duas organizações.

O embaixador Marcos Azambuja, do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), disse que o Brics está ganhando substância porque o G-7 se negou a ser ampliado, o G-20 é grande demais, e as estruturas antigas, muito resistentes às mudanças. "O Brics é uma agenda de oportunidade. A construção de uma afinidade que não é espontânea, mas que eles foram forjando à medida que foram caminhando. Surgiu um espaço para o Brics porque as instituições e arranjos existentes não eram suficientes."

Seja como for, alguma coisa acontece quando se juntam numa reunião líderes como Xi Jiping, o presidente da China que assumiu o poder em 2012, com um mandato de dez anos, o novo primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, que acaba de ser eleito, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, e os presidentes do Brasil e da África do Sul, Dilma Rousseff e Jacob Zuma. A presença de Putin cria um constrangimento. Ele está no meio de uma ofensiva territorial. Anexou a Crimeia e invade território e espaço aéreo da Ucrânia. Putin gostaria que o grupo fizesse críticas às sanções que está enfrentando. E o Brasil tenta não recusar nem aceitar esse pedido, como é típico da diplomacia brasileira.

O embaixador acha que não haverá aqui nenhum endosso implícito às decisões de Putin, mas que a Rússia pós-soviética encolheu demais:

- A astúcia é que Putin age sobre a Ucrânia, que é independente, mas é também muito russa. O Ocidente não conseguiu ainda dar uma resposta. Ele não pode é ir além disso.

A grande novidade do encontro será a presença de Narendra Modi. Ele foi por 13 anos governante do estado de Gujarat, que teve taxas de crescimento muito mais fortes do que as do resto da Índia. Foi eleito derrotando o governo, com o lema do combate à corrupção. Seu partido ultranacionalista hinduísta é visto com temores pelas minorias religiosas indianas, principalmente os muçulmanos, vítimas de tumultos antimuçulmanos no estado que foi governado por ele e que deixou, em 2002, dois mil mortos. Sua exposição internacional é pequena e por isso sua vinda ao Brasil é aguardada até com curiosidade.

Erros que os Brics têm de evitar

Marcos Troyjo
Folha de S.Paulo

Na condição de gestores do capitalismo global, FMI e Banco Mundial não passam de leões sem dentes

O principal resultado da Cúpula dos Brics (grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) na próxima semana em Fortaleza será o avanço no processo de construção institucional.

Isso se dará sobretudo com a formalização do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) e do Mecanismo Contingente de Reservas (CRA) para o enfrentamento de eventuais crises de liquidez.

É pouco? Talvez. Ao compararmos, porém, esses emergentes com o antigo G7, percebemos que os Brics irão mais longe.

O autointitulado “grupo das sete nações mais industrializadas” jamais foi além de encontros protocolares para discussão de questões econômicas internacionais.

Para que a institucionalização dos Brics tenha êxito, será fundamental evitar um duplo erro. O primeiro: pilotar o NDB com a bússola da retórica Sul-Sul. O segundo: paralisar-se ante a heterogeneidade dos Brics.
Cumpre não cair na tentação de dirigir o NDB como contraponto, e não complemento, a FMI e Banco Mundial. Mesmo porque há pouco a opor e muito a acrescentar.

As instituições de Bretton Woods estão defasadas em termos de governança. A eleição de seus chefes executivos é de um compadrio ridículo. Nesse condomínio extemporâneo, a Europa sempre elege o diretor-geral do Fundo e os EUA indicam o presidente do Banco Mundial.

Ambos estão desprovidos do capital necessário às respectivas funções de socorro financeiro ou apoio ao desenvolvimento. Reinventaram-se, é bem verdade, como “think-tanks”, em que trabalha competente corpo técnico. São úteis como fonte de informação e análise. Já na condição de gestores do capitalismo global, FMI e Banco Mundial não passam de leões sem dentes.

Fala-se das diferenças de cada um dos Brics. Entre eles há membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (Rússia e China); detentores de armas nucleares (Rússia, Índia e China); enormes democracias representativas (Índia e Brasil); potências na exportação de commodities (Rússia e Brasil) e uma economia (China) 23 vezes maior do que a outra (África do Sul).

A experiência internacional mostra, contudo, que plena harmonia de interesses não é indispensável a projetos cooperativos. É bem o caso da União Europeia. Apesar dos sólidos avanços desde o Tratado de Roma, suas dezenas de membros ainda divergem em inúmeros temas políticos e econômicos dentro e fora da dinâmica de Bruxelas.

Uns não aderiram ao euro. Outros não querem aprofundar a integração com atuais sócios. Preferem a adesão de mais membros -optam, portanto, pela expansão “horizontal” e não “vertical” da agenda integracionista. Alguns (em especial a Alemanha) querem a reforma do Conselho de Segurança. Outros (França e Reino Unido), no limite, desejam que tudo fique igual.

Para os Brics, o essencial é que pontos onde há coincidência, como o financiamento do desenvolvimento e instrumentos mais modernos de governança, coexistam pragmaticamente com diferenças em peso econômico, agenda política e visão de mundo.

Brics se reúne em momento de baixa

O Globo
Editorial

Criação de um banco de desenvolvimento e de fundo para enfrentar problemas no balanço de pagamentos são passos concretos do bloco

Os líderes do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) terão nova oportunidade terça-feira, em Fortaleza, de fazer do grupo mais do que uma sigla. Dois itens da pauta podem tornar isto realidade: a criação do Arranjo Contingente de Reservas, com US$ 100 bilhões para ajudar países membros com problemas no balanço de pagamentos, um FMI do grupo; e um banco de desenvolvimento, com capital de US$ 50 bilhões, para financiar projetos sustentáveis de infraestrutura.

A reunião de Fortaleza ocorre num momento em que o Brics — acrônimo usado pela primeira vez há 12 anos pelo economista inglês Jim O’Neill, do Goldman Sachs, para designar grandes países emergentes em rápido desenvolvimento — não ostenta o brilho do passado. Em todos, o crescimento arrefeceu em alguma medida, um reflexo, para alguns, ainda das turbulências mundiais, embora os Estados Unidos já deem sinais de recuperação com uma certa consistência. No caso do Brasil, as causas são internas. Mesmo a China, na delicada manobra de troca de indutor de expansão, dos investimentos para o consumo, viu seu ritmo de crescimento ficar no patamar dos 7%, abaixo dos 9% a 10% de passado recente. Já que foram reunidos numa sigla por O’Neill, esses países decidiram fazer por onde. O objetivo era unificar o discurso em meio à grave crise financeira que o mundo atravessava. A primeira reunião foi em 2009, em Yekaterinburgo (Rússia), e a última, no ano passado em Durban, África do Sul. Há, evidentemente, dificuldades para se chegar a uma agenda comum entre países tão díspares — econômica, cultural e politicamente. Inclusive porque há interesses conflitantes entre Brasil, China e Índia, como ficou atestado no fracasso da Rodada de Doha, em 2008, em Genebra, criada para e liberalização do comércio internacional.

Os percalços não impedem que esses países se aproximem e falem em conjunto. Naturalmente, em contraposição aos EUA e, às vezes, à União Europeia. Foi este aspecto, aliás, que chamou a atenção da diplomacia companheira: participar de um eixo internacional forte contra “o Norte”. Pois a marca da política externa lulopetista foi ressuscitar, de forma anacrônica, a visão Sul-Sul. Com isto o país se viu capturado na armadilha de um Mercosul em esvaziamento, enquanto o governo se mostrava blasé diante do maior mercado consumidor do mundo (EUA). São vários os equívocos da política externa lulopetista. Um deles, achar que o Brics seria antiamericanista, sem considerar que a saúde financeira da China depende dos EUA. Mas o Brics é importante fórum para o Planalto, na hora em que o país enfrenta percalços, com risco de estagflação, e por ter sua importância diminuída no mundo à medida que aceita com passividade o atoleiro em que a crise argentina o coloca. Quanto mais não seja, permitirá a Dilma o convívio com os líderes presentes — o chinês XI Jiping, o russo Vladimir Putin, o sul-africano Jacob Zuma e, ainda, conhecer o premier Narendra.

5 dados que definem onde estão (e para onde vão) os BRICS

João Pedro Caleiro
Exame.com

Líderes dos 5 países dos BRICS se encontram hoje em Fortaleza para discutir criação de banco e fundo emergencial; veja o que eles tem de igual e diferente

Qilai Shen/Bloomberg 
Sinal colocado durante a reunião dos BRICS na China em 2011

São Paulo - Começa oficialmente hoje em Fortaleza a 6ª Cúpula do fórum BRICS com Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Estarão presentes os governantes de todos os países do bloco: Dilma Rousseff, Vladimir Putin, Narendra Modi, Xi Jinping e Jacob Zuma, respectivamente.

Na pauta do encontro estão a criação de um banco de fomento com capital de US$ 50 bilhões e de um fundo de emergência de US$ 100 bilhões.

O termo BRIC foi criado em 2001 por Jim O'Neill, na época presidente da Goldman Sachs Asset Management e atual professor da Universidade de Manchester, que aproveitou a similaridade com a palavra "brick" (tijolo, em inglês).

Investidores e economistas adoram acrônimos, mas raramente eles pegam como o BRIC, que virou símbolo da importância cada vez maior destes países - e dos emergentes em geral -  para o crescimento e o comércio globais.

Mais raro ainda é um agrupamento como esse se tornar um grupo político formal, como aconteceu com o BRIC, que começou a se encontrar em 2009 e virou BRICS no ano seguinte com a inclusão da África do Sul.

Após uma década de ganhos expressivos, os 5 países do bloco se encontram agora numa situação mais incerta e com grandes desafios internos e externos para enfrentar.

As perspectivas de crescimento do Brasil só pioram, a Rússia é alvo de sanções por causa da invasão da Crimeia e as expectativas são altas em relação ao novo presidente da Índia. Há apreensão sobre os limites do modelo da China e ao aumento da dívida na África do Sul.

Veja a seguir as diferenças entre os países do bloco e como isso afeta suas relações. As médias foram feitas considerando cada país com o mesmo peso:

1. Tamanho

País
PIB 2013 (em bilhões)
Brasil
US$ 2.245
Rússia
US$ 2.096
Índia
US$ 1.876
China
US$ 9.240
África do Sul
US$ 350
SOMA
US$ 15.807


Somados, os BRICS são responsáveis por cerca de 21% do PIB mundial. A questão é que a economia chinesa é maior do que a de todos os outros quatro países do bloco somados.

A Índia temia que a China usasse seu peso para desbalancear o futuro banco de desenvolvimento a seu favor, e houve uma disputa para definir quem teria a sede (Xangai acabou levando).

O Banco Mundial anunciou recentemente que a China está prestes a se tornar a maior economia mundial em paridade de poder de compra, um título que o país encara com hesitação.

2. Pobreza

País
Taxa de pobreza (2009)
Brasil
6%
Rússia
não disponível
Índia
33%
China
12%
África do Sul
14%
MÉDIA
16,2%


Na China, a taxa de pobreza extrema foi de 84% em 1981 para 12% em 2009. Na Índia, a queda foi de 60% para 33% no mesmo período.

Como estes dois países tem, somados, mais de um terço da população global, isso teve um impacto forte na taxa de pobreza global. Junto com a experiência brasileira, este foi um dos motivos que fizeram o mundo olhar para os BRICS.

3. Renda

País
PIB per capita (2013)
Brasil
US$ 11.208
Rússia
US$ 14.612
Índia
US$ 1.499
China
US$ 6.807
África do Sul
US$ 6.618
MÉDIA
US$ 8.148


Com populações e economias de tamanhos tão diferentes, é curioso que o nivel de renda seja muito próximo em 2 dos 5 BRICS. Quem se destaca é a Rússia e o Brasil, com as maiores rendas, e a Índia, com a menor.

4. Crescimento

País
Crescimento (média 2011-2013)
Brasil
2,0%
Rússia
3,0%
Índia
5,4%
China
8,2%
África do Sul
2,6%
MÉDIA
4,2%


A China já não cresce a taxas de dois dígitos como no passado, mas por enquanto tem atingido pelo menos as metas que se coloca.

A Índia também desacelerou recentemente, mas o mercado está otimista com a possibilidade de reformas com o novo presidente Narendra Modi.

No Brasil, o PIB brasileiro começou a crescer lentamente desde 2011 e continua tendo expectativas revistas para baixo. Na Rússia, as perspectivas eram boas antes da crise com a Ucrânia e das sanções. A África do Sul nunca chegou a ter um boom, e continua patinando.

5. Investimento

País
Taxa de investimento (% do PIB)
Brasil
18%
Rússia
23%
Índia
30%
China
49%
África do Sul
19%
MÉDIA
28%


Nesse sentido, a China precisa ficar um pouco mais como o Brasil, e o Brasil precisa ficar um pouco mais como a China.

Os chineses precisam passar gradualmente para um modelo menos baseado no investimento estatal e mais no consumo de seus 1,2 bilhão de habitantes, sob pena de inflar ainda mais uma bolha imobiliária que gera até cidades fantasma.

Já o Brasil precisa aumentar sua taxa de investimento historicamente baixa para tirar o atraso em infraestrutura e lançar um novo ciclo sustentável de crescimento sem gerar inflação.






Putin vê com cautela ideia de Argentina integrar Brics

Marcia Carmo
BBC Brasil


Putin mostrou cautela quanto às aspirações argentinas de integrar BRICS

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, disse, na quinta-feira, que a Argentina é seu "principal sócio estratégico" na América Latina e que "valoriza" o desejo do país de integrar os Brics (grupo de países em desenvolvimento formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

Contudo, Putin mostrou cautela quanto às aspirações argentinas. "No entanto, a questão de aumentar o número de seus membros por enquanto não está em questão", disse.

Suas declarações foram feitas à agência Prensa Latina, de Cuba, um dia antes de iniciar seu tour pela América Latina, que começou por Havana nesta sexta-feira, segue para a Argentina no sábado e depois para o Brasil.

Ainda sobre o debate sobre a entrada da Argentina no grupo, nesta semana, poucas horas antes das declarações do presidente russo, a agência oficial de notícias da Argentina, Telám, informou que uma das autoridades do Ministério das Relações Exteriores da China teria dado apoio à entrada da Argentina no grupo que se reunirá na terça-feira em Fortaleza, no Ceará. "China apoiará a entrada da Argentina nos BRICS", destacou a agência.

Índia, Brasil e África do Sul já haviam mostrado que estavam de acordo quanto a uma entrada argentina, de acordo com a imprensa argentina.

As incertezas financeiras do país e os avanços do grupo em relação a questões financeiras, contudo, seriam empecilhos para a Argentina integrar os BRICS.

A sexta cúpula dos BRICS acontecerá na terça-feira (15), em Fortaleza. Na quarta-feira (16), o grupo se reúne com países da América do Sul, em Brasília.

Dificuldades
País de cerca de 40 milhões de habitantes, a Argentina enfrenta hoje a contagem regressiva para não cair em seu segundo calote em treze anos.

Neste quadro de incertezas financeiras, e com cerca de U$ 30 bilhões de reservas do Banco Central, a Argentina não estaria apta para integrar os BRICS neste momento, segundo fontes do governo brasileiro.

Nesta visão, faltaria à Argentina a capacidade para pagar uma espécie de "pedágio", afirmou-se, para ser parte do grupo que em Fortaleza avançará em suas engenharias financeiras – a criação de um fundo de ajuda para casos de emergência e de um banco de desenvolvimento.

Nos dois casos, os Brics terão que desembolsar recursos para estas criações, disseram. Hoje, a Argentina não contaria com estes recursos. "O grupo está subindo de degrau, definindo estruturas financeiras e por enquanto não se fala em um membro mais", disseram fontes do governo brasileiro à BBC Brasil.

Expectativas
Existia em Buenos Aires, nos bastidores do governo e no âmbito político, expectativa pelas palavras de Putin, já que em maio o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, escreveu em sua conta no Twitter que a Rússia estaria convidando a Argentina a participar da reunião do grupo em Fortaleza.


Kirchner anunciou que não participará 
do encontro dos BRICS no dia 15 de julho em Fortaleza

A afirmação foi feita durante visita do ministro das Relações Exteriores da Argentina, Héctor Timerman, à Moscou, gerando especulações em Buenos Aires de que o gesto poderia ser para que a Argentina fizesse parte dos BRICS.

Lavrov afirmou, porém, que para isso seria necessário o consenso do grupo. Na época, a Argentina sugeriu apoio à Rússia na disputa territorial com a Ucrânia e a Rússia apoiou a Argentina na disputa pela "soberania" das Malvinas, como indicou Timerman, de acordo com a imprensa argentina.

A presidente Cristina Kirchner chegou a informar sobre o convite em sua conta no Twitter. "É um dia muito importante para a Argentina (...) pelo convite para a participação na reunião dos BRICS, em julho", disse.

O ex-vice-ministro das Relações Exteriores da Argentina García Mortitán escreveu, naquele mesmo mês de maio, um artigo no jornal econômico El Cronista, de Buenos Ares, dizendo que a Argentina poderia entrar para os BRiCS, como a África do Sul fez em 2011. "Com isso, os BRICS passariam a se chamar BRICSA", escreveu García Moritán.

Apesar de ter anunciado em sua conta no Twitter, em maio, que participaria do encontro dos BRICS no dia 15 de julho em Fortaleza, Cristina Kirchner informou na quinta-feira, através de uma carta à presidente Dilma Rousseff, que chegará ao Brasil apenas a tempo da reunião dos BRICS e dos demais países da América do Sul, no dia 16, em Brasília.

Setor privado quer ir além do Mercosul

Iuri Dantas 
O Estado de S.Paulo

Representantes da indústria e da agricultura esperam convencer presidenciáveis a buscar acordos comerciais com outros países e blocos

BRASÍLIA - Historicamente fechada, a economia brasileira precisa buscar acordos de comércio com outros países e blocos e revisar normas do Mercosul, para evitar perdas de competitividade e maior isolamento do País. De diferentes maneiras, é com essa mensagem que representantes da indústria e da agricultura esperam convencer os presidenciáveis Dilma Rousseff, Aécio Neves e Eduardo Campos a se engajar em negociações com Estados Unidos, União Europeia e outras economias de vulto a partir do próximo mandato.

Pela primeira vez na história, o setor privado está unido para pressionar o governo a trilhar concomitantemente dois caminhos: aprovar reformas domésticas, com o objetivo de reduzir o custo Brasil, aliadas a diálogos com parceiros internacionais. A estratégia é capitaneada pelas confederações da Indústria e da Agricultura e Pecuária, que concordam no diagnóstico sobre os últimos anos: o País perdeu uma grande chance de obter vantagens maiores para nossos produtos no exterior durante o auge da crise financeira.

"Muito tempo foi desperdiçado com o debate sobre a ordem cronológica das medidas para a redução dos custos e o aumento da competitividade dos produtos brasileiros", diz a Confederação Nacional da Indústria em documento enviado aos presidenciáveis, obtido pelo Estado. "As transformações no cenário global sugerem que não há mais espaço para discutir o que deve vir primeiro ou depois."

Uma das administrações mais atuantes em medidas de estímulo à indústria, com dezenas de pacotes de cortes de impostos e linhas de crédito setoriais, o governo Dilma Rousseff é criticado por ações consideradas protecionistas. Automóveis produzidos fora do Mercosul pagam uma alíquota adicional de 30 pontos porcentuais de IPI, e diversos outros produtos receberam uma tarifa maior de PIS/Cofins.

Mercosul. 
Tanto industriais quanto agricultores defendem a continuidade do Mercosul - a união aduaneira formada pelo Brasil com os vizinhos Argentina, Paraguai, Uruguai e Venezuela - mas pedem uma reformulação das regras, pois "sua agenda econômica está estagnada", como define a CNI aos presidenciáveis.

"O Mercosul representa uma posição política muito importante para o Brasil, mas hoje não é suficiente para a indústria brasileira, não é suficiente para nossa produção", afirmou Carlos Abijaodi, diretor de Desenvolvimento Industrial da confederação. "Chile, Colômbia, Peru e México, se juntando na Aliança do Pacífico, têm uma visão mais estratégica, estão se juntando ao lado asiático onde tem mais tecnologia, é um lado que o Brasil hoje não está conseguindo penetrar, só entramos com produtos primários." As entidades patronais defendem a reformulação de uma norma adotada pelo Mercosul no ano 2000 que regula a negociação conjunta em acordos comerciais. Um "redesenho" dessa norma permitiria ao Brasil buscar acordos com outros países rapidamente. "O Mercosul deu no que tinha que dar nesse formato", resume Alinne Betania Oliveira, superintendente adjunta de Relações Internacionais da Confederação Nacional da Agricultura.

Recomendações. 
A revisão de normas e objetivos do Mercosul, com o Brasil assumindo "um papel de liderança", é uma das quatro recomendações dos industriais aos presidenciáveis. Em primeiro lugar, a sugestão de industriais e agricultores visa a um reforço do multilateralismo e participação brasileira em temas que hoje se conectam com o comércio do que se produz no País, como negociações sobre as mudanças climáticas e segurança alimentar.

O segundo ponto em que as agendas do agronegócio e do setor de manufaturados se cruzam embute uma reformulação da atual política comercial brasileira. Após anos de conversas sobre uma Área de Livre Comércio das Américas (Alca), defendida por Fernando Henrique Cardoso e enterrada por Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil concentrou todos os esforços em uma rodada de liberação comercial na Rodada Doha, da Organização Mundial do Comércio (OMC), que também não avançou. Agora, as confederações pedem um enfoque adicional: acordos preferenciais com Estados Unidos, União Europeia e emergentes como África do Sul, Índia e México.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Sabe-se que o grande entrave para o Brasil ir além das fronteiras do Mercosul, chama-se Argentina, ou, mais especificamente, a presidente do país vizinho, Cristina Kirchner. Como o governo petista é submisso aos interesses aos interesses  dos parceiros, vaia apresentando aos empresários brasileiros promessas sobre promessas mas sem tomar uma iniciativa que coincida com os interesses do Brasil. 

Doença holandesa (2)

Celso Ming 
O Estado de S.Paulo

O Brasil sofre ou não sofre da chamada doença holandesa?

O Brasil sofre ou não sofre da chamada doença holandesa? O ministro do Desenvolvimento, Mauro Borges, advertiu há uma semana que o risco é alto, embora não tivesse adiantado de quanto é.

O ex-ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser-Pereira vem afirmando que esta é uma doença crônica no Brasil pelo menos desde o início dos anos 90 e que precisa de terapias de choque: forte desvalorização cambial (ao menos 30%) e criação de um confisco sobre exportações de commodities.

Na Coluna de ontem avançou que esse diagnóstico é discutível. Pode-se admitir que o câmbio esteja mesmo fora de lugar e que tenda a se valorizar. E um dólar barato demais tende a tirar vitalidade e capacidade de competição da indústria.

O diagnóstico é discutível, por várias razões. Primeira, porque não há um conjunto de produtos de exportação no Brasil a cujas receitas se possa atribuir a capacidade de trazer dólares em quantidade tal que provoque valorização inexorável do real. As exportações de produtos básicos já correspondem a mais de 50% das exportações, é verdade.

No entanto, a entrada de moeda estrangeira proveniente de operações de comércio exterior é menos da metade da que provém de operações financeiras (veja gráfico acima). Aí se vê que parece descabido impor um confisco às exportações, se a maior porta de entrada de dólares são investimentos estrangeiros e aplicações no mercado financeiro. Tanto o afluxo de capitais é relevante, que tem sido apontado como o principal fator de valorização do real.

Quando a presidente Dilma se queixou dos efeitos sobre o câmbio produzidos pelo que chamou de “tsunami monetário” causado pela política dos grandes bancos centrais ou quando o ministro Guido Mantega denunciou o mesmo estrago causado pelo que chamou de guerra cambial, ambos apontaram fatores de valorização cambial de natureza diferente das provocadas por fortes receitas com as exportações de commodities.

Além disso, mal ou bem, o setor produtivo brasileiro está se inserindo nas cadeias mundiais de produção e distribuição. Não dá para produzir tudo por aqui. Cada vez mais a indústria depende de suprimentos externos de componentes, peças, máquinas e matérias-primas – e não só de capitais tomados por empréstimo, a que se refere Bresser-Pereira. Desvalorizar substancialmente a moeda nacional implicaria aumentar os custos de toda a cadeia produtiva nacional.

Mais consequente é o ministro do Desenvolvimento, Mauro Borges. Ele aceita o diagnóstico de doença holandesa, mas recomenda outro tratamento: o de aumentar a produtividade da indústria – e não o confisco de receitas dos exportadores de commodities.

Isso se faz com investimentos em infraestrutura, redução da carga tributária, educação e treinamento da mão de obra, reforma das leis trabalhistas, incentivos ao aprimoramento tecnológico, redução dos riscos judiciais, eliminação do excesso de burocracia – por aí.

É uma agenda totalmente diferente da empreendida pela chamada política industrial do governo Dilma, que tem criado distorções em cadeia e não evita a prostração da indústria.