sexta-feira, julho 18, 2014

Brasil, Brics e a "cláusula FMI"

Vinicius Torres Freire
Folha de São Paulo

Governistas exageram importância do banco miudinho; acordo de fundo dos Brics 'aceita' FMI

O banco e o fundinho financeiro criado nesta semana pelos Brics tem, repita-se, alguma relevância política e, quem sabe, daqui a uma década, pode ter alguma relevância econômica. Talvez. Mas há exagero ridículo a respeito dos acordos de Fortaleza, que são miudinhos e, note-se de passagem, contêm cláusulas de sujeição a "instituições do império", como o FMI.

A gente ouve e lê, de adeptos abestados do governismo e do esquerdismo rudimentar, que Fortaleza sediou os acordos do Bretton Woods da "nova ordem". A coisa toda é de uma pobreza tão ignorantinha que causa constrangimento comentar. Mas se difunde.

Bretton Woods, explique-se, foram os acordos que puseram alguma ordem na finança internacional entre o fim da Segunda Guerra e mais ou menos até o início dos anos 1970, arranjo acertado entre 44 países, em 1944, sob domínio dos Estados Unidos, e que resultou, entre outras coisas, na criação de instituições como o FMI e o Banco Mundial.

Na reunião de terça, em Fortaleza, criou-se um banco multilateral de desenvolvimento, o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), e um fundo virtual de socorro financeiro a países em crise de pagamentos externos ou turbulências afins.

Pelo acordo de empréstimos para países com dificuldades de fechar contas externas, os bancos centrais dos Brics emprestariam dólares em troca da moeda local do país avariado, com prazo de retroca, até um certo limite de dinheiro.

Mas parte do dinheiro (70%) apenas sai se o país mal das pernas tiver um acordo com o FMI, ora vejam. Sim, FMI, instituição dominada por americanos e europeus e criticada pelos Brics, motivos que também levaram os Brics a criar "seus" banco e fundo multilaterais.

É verdade que, pelos termos do tratado desse fundo virtual de reservas, os Brics podem mudar todas as regras de acesso ao dinheiro. Mas a "cláusula FMI" acaba por dar um tempero ridículo às ideias de "rebeldia" e "ordem alternativa".

Além do mais, o dinheiro não é grande coisa. Por exemplo, o Brasil, em crise, poderia "sacar" no máximo US$ 18 bilhões; apenas US$ 5,6 bilhões se não tiver acordo com o FMI (nesta semana, o Brasil tinha US$ 380 bilhões em reservas).

Talvez esse fundo virtual possa ajudar países mais pobrinhos, caso eles não sejam obrigados a entrar com cotas tão relevantes quanto a dos Brics.

Quanto ao banco, ele será um projeto experimental por pelo menos meia década, digamos.

Lá por 2022, os países dos Brics terão acabado de pingar um capital de US$ 10 bilhões. Em 2016, quando deve funcionar, começa com um capital de US$ 750 milhões, o que não dá para financiar umas estradinhas. Pode ser que o banco tenha mais dinheiro para emprestar devido a lucros acumulados ou levantamento de empréstimos.

Tudo pode dar muito certo e a capitalização pode ser revista para cima. Mas, de início, trata-se de coisa miúda, com perspectiva de poder emprestar uns US$ 40 bilhões uma década depois de começar a funcionar, e olhe lá. O BNDES empresta US$ 333 bilhões. O Banco de Desenvolvimento da China empresta o quádruplo do BNDES.

Isso quanto a dinheiros. Resta saber como países tão diferentes vão se acertar politicamente no banco.

O que era mesmo?

Carlos Alberto Sardenberg 
O Globo

E assim chegamos à campanha eleitoral com um ambiente econômico pior do que no início deste ano

Do que a gente estava falando antes?

Isso, antes das férias de verão, esticadas pelo carnaval tardio, Semana Santa e antes da Copa — o que era mesmo?

Havia uma preocupação com a combinação entre crescimento e inflação. Esta parecia estar subindo em relação a 2013, quando já fora alta. E a economia parecia desacelerar.

Essa percepção piorou. De fato, os preços sobem mais que o esperado e o crescimento é mais fraco. Não, a Copa não salva o ano.

Claro que trouxe turistas e dinheiro — até mais que se calculava. Mas houve uma espécie de compensação: os negócios relativos à Copa bombaram: roupas e calçados esportivos, por exemplo, e, claro, hotéis e restaurantes. Os demais minguaram por causa do excesso de feriados e falsos dias úteis. Também por causa do espírito geral: com a festa, quase todo mundo distraído com jogos e movimentação de torcedores, era difícil se concentrar no trabalho.

Pessoal reunido na Feira Internacional de Moda em Calçados, nesta semana, em São Paulo, constatou: o primeiro semestre foi de férias, perdido. Companhias aéreas, que poderiam ser favorecidas, também sofreram com a compensação. A TAM, por exemplo, calcula que a demanda de passageiros caiu 5% no período da Copa.

Ocorre que os “voos corporativos" — das pessoas que estão a trabalho, em eventos, reuniões, consultas, treinamento — simplesmente sumiram. Foram substituídos pelos turistas nacionais e estrangeiros, com forte aumento das viagens para as cidades da Copa. Mas não foi o suficiente. No balanço geral, deu uma pequena perda.

Foram criados empregos, mas temporários na maior parte. O fato de algumas obras não terem terminado até pode ajudar neste quesito: o pessoal continua trabalhando nelas. Com impacto limitado, porém. Antes da Copa, mesmo durante a construção de estádios, a geração de vagas formais continuou enfraquecida.

Tudo considerado, e como aconteceu em outros países, o efeito positivo do grande evento está mais na psicologia do povo. Fez-se uma grande festa. Ainda mais entre nós, dado o temor de que algo ruim pudesse ter acontecido. Foi alegria e alívio. Isso pode animar estrangeiros a voltarem para o turismo, mas vai depender lá na frente da cotação do dólar e dos preços por aqui.

Veremos.

Outra coisa que poderia ser positiva neste momento seria o fim das manifestações oportunistas, como greve nos transportes na véspera dos jogos. Não há mais instrumento de chantagem.

O problema é que se aproximam as eleições, outra oportunidade para reivindicações, justas ou não, democráticas ou não. Se as eleições se radicalizarem, preparem-se.

E assim chegamos à campanha eleitoral com um ambiente econômico pior do que no início deste ano. A população, na imensa maioria, se concentrou na seleção e suspendeu a bronca com a inflação, a paradeira na criação de empregos e a má qualidade dos serviços públicos. Como se sentirá agora?

Reparem: foram 26 mil homens na segurança da final no Maracanã. Tudo em paz. Mas quantos estarão disponíveis numa próxima final Flamengo e Fluminense? Os trens e ônibus “expressos da Copa” andaram bem em quase todas as cidades, mas em dias feriados ou falsos úteis. Agora, voltam todos ao normal, que é não é bom.

Como a população voltará a esses temas? Difícil avaliar, ainda mais que o ambiente estará tomado pela campanha eleitoral no rádio e TV, ou seja, pela capacidade (ou incapacidade) dos candidatos de fazer a cabeça e a mente dos eleitores.

E nem ganhamos a Copa.

EXEMPLO
Comentou-se depois do 7 a 1: isso mostra a superioridade da racionalidade e do planejamento dos alemães sobre o improviso e o jeitinho brasileiro.

Mas a Argentina esteve perto de ganhar da Alemanha? Pois então, se tivesse vencido, isso teria demonstrado a superioridade da viveza criolla?

O que quer dizer?

É mais ou menos a versão argentina para o nosso “jeitinho”, o modo de fazer as coisas no improviso, sem respeito às regras. Isso mesmo, o jeitinho não é coisa nossa, tem disso por toda a América Latina.

E dá errado em toda a região. Mas não foi por isso que perdemos da Alemanha. Não se pode dizer que as seleções brasileira e argentina eram dois times catados. Foram montados e treinados por um bom tempo. Claro, podem ter sido mal planejados e mal treinados, certamente o caso do Brasil.

Mas o que a vitória dos alemães significa é que eles estão jogando mais bola que a gente, na tática e na arte.
E que a expectativa de hexa no Maraca, certeza universal, destruiu o emocional do nosso time.

A bola em outros campos

Gaudêncio Torquato
O Estado de S.Paulo

Em sua última crônica antes de o Brasil estrear na Copa do Mundo, em 1958, Nelson Rodrigues , indignando-se contra o pessimismo das ruas, esquinas e botecos e traduzido na expressão “a seleção nem vai se classificar”, cunhou um chiste famoso, o “complexo de vira latas”, para exprimir a inferioridade em que o brasileiro se colocava diante do mundo. Arrematava a explicação: “o brasileiro precisa se convencer que não é um vira latas e que tem futebol para dar e vender lá na Suécia”. O dito do nosso maior dramaturgo há tempos abandonou os vãos da nossa alma futebolística para fazer eco em outras arquibancadas, principalmente nos ambientes palacianos dos governantes, onde se entoam ladainhas de autoglorificação, cujo bordão é o de que os brasileiros precisam se orgulhar dos feitos dos donos do poder e das grandezas do Brasil potência. Faz tempo, sim, que o país deixou de ser a Pátria do futebol das fintas, firulas e dribles fantásticos, mito alimentado por conta da inventividade de um ou outro craque e exageradamente reforçado pela tuba midiática, que tenta vender a parte pelo todo e cujas negociações com cartolas e patrocinadores jogam a bola no campo dos cifrões.

A fantasia, a improvisação e a invenção, matérias primas que, por anos a fio, sedimentaram as bases da “Pátria em chuteiras” (outra expressão de Nelson) e jorraram com abundância nos dutos da catarse social, hoje não passam de arremedos infrutíferos, quando não de performances capengas como a que se viu contra a Alemanha, semana passada, o maior desastre na história do futebol brasileiro. E pouco acresce ao debate a referência ao apagão, como se uma paralisia de cinco, seis ou dez minutos, não pudesse ser previamente diagnosticada e convenientemente tratada pelo aparato técnico, científico, psicológico à disposição do corpo futebolístico.

Pouco também adiantará apontar culpados, ensaiar jogadas recíprocas de acusações, tatear nas margens das questões que o futebol suscita, a partir do reconhecimento de que suas técnicas evoluíram, priorizando os conceitos da força do conjunto, da celeridade, do preparo psicológico, de táticas e estratégias específicas para cada adversário. Para começo de conversa, as arenas futebolísticas se multiplicaram em todos os continentes, conferindo ao esporte uma dimensão planetária e, consequentemente, estreitando as distâncias entre maiores e menores, melhores e piores, animando os novatos a enfrentar nos estádios, de igual para igual, os mais experientes.

Já se prega a urgência de um “choque de gestão” no futebol brasileiro, o que implicaria a oxigenação nas cúpulas da cartolagem, a busca de perfis adequados aos contextos de competitividade e o fim do ciclo até então vivido pela seleção, com foco em grupinhos, prepotência, arrogância. Pode ser um caminho. Mas não se espere que mexer com uma pedra do tabuleiro será suficiente para conduzir o nosso futebol aos primeiros lugares do ranking mundial. Ele é parte de um todo, não um fio separado do rolo. O ethos nacional é mescla de hábitos, costumes, atitudes, visões, história e tradição. Os nossos trópicos certamente garantem um pedaço no bolo comportamental, seja pela variedade geográfica e belezas naturais – que encantam os milhares de turistas que vieram para a Copa – seja pelos valores inerentes ao povo- a generosidade, a alegria compartilhada, o calor, a receptividade.

Essa radiografia valorativa, porém, não comporta apenas a planilha de coisas bonitas, lúdicas e festivas, conforme se pode depreender de uma olhada na estética das ruas durante a Copa. Abriga aspectos nem sempre alinhavados pelas lupas sociológicas, como o desleixo, a incúria, a individualidade, a desorganização, a bagunça, enfim, o cenário que tende a propiciar atos de selvageria. Nesse ponto, convém puxar o papel do poder público para a harmonização social. Trata-se de dever inalienável da administração do Estado cuidar para suprir as demandas dos contingentes socais na esfera do cotidiano. Daí a importância de um “choque geral de gestão”. Esse é o ponto fulcral desta abordagem. A escorchante e vergonhosa derrota do Brasil para a Alemanha pode abrir o encontro do Brasil com suas realidades. Passar uma camada de tinta sobre o nosso futebol, deixando o reboco mofado sobre as paredes da saúde, educação, segurança pública, transportes urbanos, enfim, continuar a encobrir a paisagem torta ruas é perpetuar o estado de carências. O mergulho profundo do país no oceano de suas grandes causas pode ser a luz de um novo horizonte. Vai significar a gestão da responsabilidade, tempo dos compromissos com metas e resultados, exigência de qualidade, reparo e reengenharia nas estruturas existentes, busca da simplicidade e da priorização de questões essenciais com plena transparência.

A alegria de um povo não pode ser entendida como um presente da seleção brasileira com vitórias. Mas esse é o entendimento dos nossos jogadores. Ora, eles são pagos para ter um bom desempenho. A alegria das massas é amálgama de sentimentos que juntam os condimentos que entram no cardápio social, todos eles fundamentais para se alcançar o bem-estar. Ficou para trás a era panis et circensis, quando os imperadores romanos distribuíam pão ao povo nas arquibancadas do coliseu romano por ocasião das lutas dos gladiadores. O futebol é apenas um eixo da roda da diversão nacional. A respeito dele, sem querer esmaecer o conceito de negócio que o transforma em atividade das mais lucrativas do mundo do espetáculo, urge que promova maior correspondência entre os salários de jogadores e suas atuações. A impressão é a de que os estratosféricos recursos por eles auferidos estão oceanicamente distantes do que se vê nas arenas. Algo não combina. O clamor das galeras expressa o desempenho da equipe: “falta raça, sobra ração ($$)”. E muita exibição. Estrelas do Olimpo, os nossos atletas até parecem sofrer do “complexo do pavão”.

Sem alternativa

O Globo
Editorial

É visível a intenção do PT de usar o instrumento para ampliar controle sobre burocracia estatal

O necessário debate sobre o Decreto-Lei 8.243, o da criação de comissões, fóruns, “mesas” — jargão bolivariano — junto a ministérios, órgãos em geral da administração direta e até estatais, não pode ser travado fora do contexto político em que se encontra o país.

O discurso oficial da defesa do decreto costuma destacar, entre outros pontos, a necessidade de se abrir novos canais de participação política. O assunto é mesmo pertinente, pois tem a ver com a revitalização da democracia representativa.

Os Estados Unidos, por exemplo, uma das mais sólidas democracias do mundo, há tempos se valem de plebiscitos para, em estados e municípios (counties), decidir questões locais. A liberalização da maconha tem sido feita por meio dessas consultas.

O desenvolvimento e o aperfeiçoamento de ferramentas digitais facilitam o futuro uso da internet para consultas objetivas sobre temas de interesse direto da população.

O decreto-lei assinado na surdina pela presidente Dilma Rousseff formalmente trata de ampliar a rede de comissões e similares já existente, para aproximar os centros de decisão do governo da vida real da população. Bom propósito.

Mas a real finalidade política é bem outra — daí a edição silenciosa do decreto. É translúcida a intenção do PT de, por meio de novas comissões, fóruns, etc. ampliar o aparelhamento do Estado, característica conhecida da atuação do partido. O momento do Decreto 8.243 é estratégico: caso a presidente Dilma se reeleja, o processo de aparelhamento da máquina pública, em curso desde 2003, quanto começou o primeiro mandato de Lula, se aprofundará. Na hipótese de derrota, o partido, mesmo com um presidente de oposição no Planalto, continuará com as rédeas de áreas da estrutura burocrática. Afinal, comissões e similares — está demonstrado — serão ocupadas por militantes dos ditos movimentos sociais e simpatizantes. Como já são os organismos semelhantes e mesmo ministérios.

As raízes ideológicas do decreto são chavistas, derivam da obsessão nacional-populista com a democracia direta, em que o caudilho, o líder das massas, manipula de forma direta o povo e, assim, se legitima por meio de constantes consultas populares. A Venezuela foi ao ponto que chegou, de debacle, por esta via.

A reação do Congresso ao 8.243 tem sido acertada, mesmo entre partidos da base do governo, PMDB à frente. Os presidentes da Câmara e Senado, Henrique Alves (RN) e Renan Calheiros (AL), da legenda, discordam, com razão, por ser inconstitucional, do uso do instrumento do decreto-lei para se criar estruturas paralelas de poder, à moda da democracia direta. Se o Planalto tem este objetivo, que envie projeto de lei ao Legislativo, onde assunto tão grave precisa ser discutido com o devido cuidado.

Não há mesmo outra alternativa a não ser aprovar o decreto legislativo que revoga o ato de Dilma e PT.

A razão do MTST

Demétrio Magnoli
Folha  de São Paulo

O mercado gera segregação: reserva os melhores lugares às classes altas e expulsa os pobres para a periferia

A inspiração está estampada na sigla: o MTST quer ser o MST das cidades. O paralelo certo, porém, é com o MST das origens, três décadas atrás, quando o impulso do capitalismo agrário brasileiro produzia uma massa de trabalhadores destituídos no campo. De lá para cá, o chão social do MST desmoronou, sob os golpes do êxodo rural e dos programas de assentamentos dos governos FHC e Lula. Enquanto isso, alastrava-se nas metrópoles e cidades médias uma crise que atingiu seu paroxismo nos últimos anos. O tempo da reforma agrária distributivista passou na janela, e só o MST não viu. Mas a emergência do MTST sinaliza a necessidade de uma reforma urbana radical, que não pode ser mascarada pelos programas de construção de moradias populares.

O metro quadrado de um imóvel antigo no centro expandido de São Paulo vale mais que o de um apartamento novo no anel periférico da metrópole. A propriedade imobiliária urbana é uma mercadoria singular, pois seu valor decorre, essencialmente, da localização --ou seja, do grau de acesso que oferece aos bens e serviços da cidade. No seu funcionamento normal, o mercado imobiliário gera segregação urbana, reservando as melhores localizações às classes de alta renda e expulsando os pobres para as periferias. O MTST nasceu numa conjuntura de exacerbação desse movimento segregador.

Na economia de mercado, os centros expandidos das metrópoles experimentam uma tendência à gentrificação, ou seja, ao "enobrecimento" social. A expansão recente da economia brasileira e, em particular, do setor de serviços, acelerou esse movimento, que se expressa na valorização em ritmo especulativo dos preços dos imóveis e dos aluguéis. No Rio de Janeiro, a gentrificação é temperada pelo "colchão" de favelas da zona sul, que surgiu pelos caprichos da geografia e da história. Em São Paulo, a gentrificação não encontra obstáculos, difundindo-se do centro expandido para a zona leste e as franjas exteriores da zona oeste. O MTST não inventou os sem-teto, apenas conferiu-lhes visibilidade política.

Os dirigentes do MTST professam uma crença básica anticapitalista. Se conhecessem as cidades do socialismo, talvez mudassem de ideia: na URSS, na Alemanha Oriental e em Cuba, a tendência à segregação urbana somou-se à dilapidação inclemente das infraestruturas e residências, cristalizando cenários desoladores. O MTST almeja apropriar-se do comando dos programas de moradia social, como forma de estabelecer controle político sobre os próprios sem-teto. Contudo, só um cego pode negar que o movimento tem raízes reais e toca numa ferida aberta. Além disso, é um equívoco confundi-lo com o MPL: o MTST expele os "black blocs" de suas manifestações e dirige demandas legítimas ao poder público.

Todos (exceto os fanáticos do livre mercado) concordam que as cidades não podem ser moldadas exclusivamente pelas leis do mercado. O poder público opera na configuração das cidades por diversos instrumentos, especialmente por meio dos planos diretores. O problema é que, em São Paulo como nas demais grandes cidades do país, sucessivos planos diretores (inclusive este último) curvaram-se às forças do mercado imobiliário, reforçando o campo magnético da segregação urbana. Não é preciso aderir aos dogmas anticapitalistas do MTST para saudar a desarrumação que ele provocou no debate sobre o futuro de São Paulo.

No campo, os assentamentos só conseguiram esvaziar a demanda de reforma agrária porque as cidades funcionaram como válvulas de escape para massas de destituídos. Evidentemente, não existem válvulas de escape para os sem-teto, que se reproduzem em escala ampliada no compasso da inflação dos preços dos imóveis urbanos. Reforma urbana significa a reserva de vastas áreas destinadas à moradia social nos arredores dos centros expandidos das metrópoles. É hora de encará-la.

Cada pingo com seu “i”

Dora Kramer
O Estado de São Paulo

Graças à existência de um fator chamado massa crítica a presidente Dilma Rousseff pode comemorar a realização de uma Copa do Mundo muito bem-sucedida, mesmo tendo o Brasil levado uma lavada histórica dentro de campo e fora dele o governo deixado de cumprir boa parte dos compromissos assumidos em relação ao “legado” de infraestrutura.

Expectativa lá embaixo, resultado lá no alto.

Houve improvisos, houve atrasos, houve superfaturamento e isso está demonstrado nos números, seja pela quantidade de obras que ficaram pelo caminho ou que ainda não foram entregues, seja pelos custos muito superiores aos previstos. Tudo isso foi apontado e o conjunto da ópera não autorizava ninguém a fazer uma previsão otimista.

Saiu tudo muitíssimo melhor que a encomenda? Ótimo. A ninguém satisfaria hoje contabilizar desastres e lamentar episódios que pudessem nos transformar em objeto de vergonha mundial. O sentimento de regozijo é compartilhado como se pode constatar em todos os veículos de comunicação.

Não há, portanto, razão para a presidente da República dizer, como se fosse marechal de espada em punho diante do batalhão, que derrotou os “pessimistas”.

Não houve derrotados porque ninguém estava disputando coisa alguma; nem havia pessimistas, mas uma imprensa, no Brasil e no mundo, acompanhando os preparativos com olhos realistas e espírito crítico aguçado. Como deve ser. Diferente ocorreu na área da imprensa esportiva onde, salvo as exceções de praxe, imperou o otimismo. Cronistas mais experientes mantiveram-se com o regulamentar pé atrás. Mas, no geral, o tom foi de submissão aos ditames do “comando”.

A convocação do time aceita sem contestações e o mantra “já estamos com a taça na mão”, agora analisado como sinal de prepotência, abraçado com naturalidade. De que adiantou mesmo tanto otimismo? Não se construiu nada com ele. Só uma expectativa lá no alto para um resultado lá embaixo.

Nem por isso é cabível dizer que houve “derrota dos otimistas”. Não disputavam. Talvez tenham apenas se intimidado de ir contra corrente e, assim, passarem a integrar o índex dos “pessimistas” aos quais parecia haver certa obrigação de fazer um contraponto.

Tudo normal se a gente entender que a benevolência do elogio não garante êxito nem tampouco o exercício da crítica contundente significa aposta no fracasso.

Contraste. 
O estado de espírito da presidente Dilma Rousseff em ambientes fechados é muito diferente daquele exibido quando exposta ao público. Que o digam os sorrisos durante a cerimônia do balanço da Copa em contraposição ao semblante fechado no Maracanã. Em nada parecia a representante de um país cuja alegria da população era celebrada como um dos trunfos dessa Copa.

Gente bronzeada. 
Você conhece alguém que já foi “pesquisado” sobre intenção de voto? A pergunta é recorrente, decerto pela dimensão reduzida da amostragem em relação ao universo ao nosso lado.

Já a pesquisa sobre o grau de satisfação dos visitantes estrangeiros com a Copa é de facílima constatação. Não só pelo amplamente noticiado, mas pelas histórias que cada um tem para contar comprovando a aprovação de 95% sobre a hospitalidade brasileira apontada na pesquisa do Datafolha.

A minha veio da Austrália. Um grupo de 10 jovens, cujas impressões bem resumidas são as seguintes: paisagem impecável, comida esplêndida e variada (só detestaram goiabada, mas adoraram churrascarias rodízio), povo de primeira no quesito amabilidade, moças lindas e rapazes “muito abusados”.

No dia da final, vestidos com a camisa da Austrália, verde-amarela como a do Brasil, foram hostilizados por argentinos e, se antes estranhavam a torcida contra, saíram daqui entendendo perfeitamente a razão da pinimba.

O legado dos 7 x 1

Gil Castello Branco
O Globo

Oportunismo por parte das autoridades teve como finalidade descolar as derrotas contundentes do projeto de reeleição

O talento de Carlos Drummond de Andrade vai além da capacidade de transformar palavras em arte. Na semana passada, atordoado com os 7 x 1, reli a crônica “Perder, ganhar, viver”, publicada há 32 anos, na derrota do Brasil para a Itália, no Mundial de 1982. No texto, o poeta retratou a frustração que tomou conta do país, comparável à que nos envolveu agora, nas goleadas impostas por Alemanha e Holanda.

A respeito da reação dos políticos, Drummond escreve: “…Vi a decepção controlada do presidente, que se preparava, como torcedor número um do país, para viver o seu grande momento de euforia pessoal e nacional, depois de curtir tantas desilusões de governo; vi os candidatos do partido da situação aturdidos por um malogro que lhes roubava um trunfo poderoso para a campanha eleitoral; vi as oposições divididas, unificadas na mesma perplexidade diante da catástrofe que levará talvez o povo a se desencantar de tudo, inclusive das eleições…” Nada tão atual.

Horas depois do maior atropelo da seleção brasileira em cem anos, os políticos entraram em campo e jogaram para a arquibancada. A presidente da República deu entrevista à CNN sobre a necessidade de renovação do futebol brasileiro e concluiu que “o Brasil não pode mais continuar exportando jogador”, sem explicar como irá aprisionar as jovens revelações ou repatriar Neymar, Thiago Silva, David Luiz e outros. 

Pelo que imagino, será mais difícil do que congelar as tarifas de energia ou o preço da gasolina. O jornalista Franklin Martins, responsável por um dos blogs da campanha de Dilma, jogou no colo da CBF, de José Maria Marin e Ricardo Teixeira, a conta do vexame, mas exagerou na dose a ponto de a “chefa” reclamar do tom. O ministro do Esporte, Aldo Rebelo, defendeu “intervenção indireta”, mal explicada. O mais curioso é que essas propostas só agora tenham vindo à tona, apesar de o Ministério do Esporte existir desde 2003, inclusive tendo na sua estrutura, a partir de 2009, a Secretaria Especial de Futebol e Defesa dos Direitos do Torcedor.

Mudar as leis, porém, depende do Congresso Nacional e, nesse sentido, o projeto de lei original que lá se encontra é do deputado Vicente Cândido (PT/SP), por coincidência vice-presidente da Federação Paulista de Futebol para a região metropolitana e o ABCD. No bojo, muito mais sobre a anistia das dívidas fiscais bilionárias dos times de futebol do que sobre a responsabilização dos dirigentes e entidades esportivas. Cá entre nós, o surto de oportunismo por parte das autoridades governamentais teve como única finalidade descolar as derrotas contundentes da seleção do projeto de reeleição da candidata-presidente. Afinal, as mazelas do futebol brasileiro e a patota que o comanda são conhecidas há muitos anos.

Em 2001, a CPI da CBF-Nike, presidida justamente pelo então deputado Aldo Rebelo, desvendou esse esquema de grandes negócios que enriquece cartolas à custa da penúria dos clubes, transforma jogadores em mercadoria e destrói a seleção. No livro que escreveram sobre a CPI, os deputados Aldo e Silvio Torres entraram de sola na cúpula do futebol brasileiro:

“…São milhões de dólares que rolam em contratos obscuros e desaparecem. Quanto maiores os contratos, mais endividados ficam a CBF, as federações e os clubes, enquanto fortunas privadas formam-se rapidamente, administradas em paraísos fiscais de onde brotam mansões, iates, e se alimenta o poder de cooptação e de corrupção.”

Apesar dessas constatações, o que se viu nos últimos 13 anos foi mais do mesmo. Como as mudanças dependem do Congresso Nacional, que neste ano praticamente já encerrou as suas atividades em função das eleições, essa tal “reformulação do futebol brasileiro”, decorrente do “legado dos 7 x 1”, ficará para o próximo governo.

O importante, neste momento, é mudarmos o disco. Pior do que a seleção de Felipão é a conjuntura da economia. O crescimento econômico em 2014 será de 1%, se tanto. A inflação acumulada em 12 meses estourou o teto da meta de 6,5%, mesmo com os preços administrados represados. O déficit em conta-corrente (diferença entre importações e exportações de bens e serviços) acumulado até maio já alcança 4,3% do PIB. Sem as “mágicas contábeis”, o superávit primário (necessário para o pagamento dos juros da dívida pública) é nulo. Ao que parece, está na hora de realizarmos “a eleição das eleições”.

Desta forma, volto a Carlos Drummond de Andrade: “Foi-se a Copa? Não faz mal. Adeus chutes e sistemas. A gente pode, afinal, cuidar dos nossos problemas.”

Pode, Arnaldo?

Alexandre Schwartsman
Folha de São Paulo

Sugestão de intervenção do governo no futebol mostra como falta reflexão sobre as consequências das 'soluções'

Comecei a contribuir para a Folha em setembro de 2006, são quase oito anos escrevendo sobre economia, mas, confesso, gostaria mesmo é de ser colunista de futebol. O vexame da seleção --ou, melhor, a reação ao vexame-- acabou, porém, permitindo de alguma forma atender aos meus anseios, casando os dois assuntos.

Para quem não viu, a resposta inicial da presidente ao fiasco foi sugerir maior intervenção governamental no esporte, inclusive por meio de mecanismos para impedir a saída de jogadores com menos de 19 anos do país. Já seu ministro do Esporte chegou a aventar a possibilidade de "intervenção indireta" na organização das competições e na gestão dos clubes.

Já os que, como eu, acompanham a gestão desastrosa da economia não podem deixar de associar esse tipo de reação ao observado nos últimos anos: para cada problema que aparece, o governo se vê na obrigação de tomar alguma medida pontual a respeito, o que, tipicamente, não apenas não resolve a questão, como costuma, de lambuja, gerar novas dificuldades a serem devidamente atacadas por novas medidas pontuais, perpetuando indefinidamente o ciclo de incompetência.

Os empresários reclamam dos preços de energia? Em vez de identificar as causas últimas e pensar em reformas que possam aumentar a competitividade, o governo baixa as tarifas a canetadas, gerando uma crise no setor.

A inflação está elevada? Em hipótese alguma se considera a possibilidade de alteração nas políticas monetária e fiscal de forma a ajustá-las a um cenário de inflação mais baixa.

É preferível segurar os preços dos combustíveis, colocando a Petrobras na situação de endividamento que hoje se encontra; a única empresa de petróleo do mundo que anseia pela queda dos preços internacionais de seus produtos.

Não é por acaso, portanto, que o país se encontra no estado atual. Não há um exercício de reflexão sobre a natureza das questões, muito menos das consequências das "soluções" propostas.

A imagem recorrente é a do menino do conto holandês, tapando um furo do dique a cada momento, até que não lhe sobram mais dedos para tanto buraco.

Falta, não só para a economia, mas também para o futebol, um diagnóstico preciso das causas do problema.

Contraste a ideia de proibição da saída de jogadores com a hipótese levantada neste espaço pelo meu amigo Samuel Pessôa, a saber, que a Lei Pelé teria reduzido os incentivos à formação de jogadores, já que os clubes que investem nas categorias de base não teriam como evitar o aliciamento de futuros craques, gerando em consequência uma queda na qualidade dos jogadores.

Francamente, não sei se o Samuel está certo, mas, correto ou não, trata-se de hipótese que merece investigação mais cuidadosa.

Busca identificar mecanismos que afetam os incentivos dos agentes envolvidos no processo, tanto clubes quanto jogadores (assim como os indefectíveis "empresários").

Caso se prove correta, traz em si uma sugestão de política que alteraria as instituições (ou regras) sob as quais funciona a atividade futebolística, presumivelmente no sentido de aumentar o retorno dos que investem no desenvolvimento de jogadores, como, aliás, foi feito na Alemanha com enorme sucesso.

É bom que se diga que futebol não é uma questão de vida ou morte (é muito mais do que isto, claro), mas no domínio econômico este tipo de abordagem consegue ter repercussões ainda mais negativas.

A incapacidade de formular um diagnóstico sistêmico acerca das dificuldades do país se encontra por trás do padrão errático de política econômica que predomina no Brasil de 2009 para cá, inépcia que explica muito do fraco desempenho recente do país.

Neste contexto é impossível não se lembrar da frase precisa de Dave Barry: "Quando problemas surgem e as coisas parecem ruins, há sempre alguém que descobre uma solução e está disposto a assumir o comando. Frequentemente trata-se de um maluco". Pode, Arnaldo?

O descaramento como política

O Estado de S.Paulo 
Editorial 

O programa de governo Dilma Rousseff 2014 é uma peça publicitária, com forte dose de ficção. Um dos tópicos, intitulado Os 12 anos que transformaram o Brasil, é constrangedor. Ali, a mentira parece adquirir status de verdade histórica.

O que primeiro choca é a incongruência entre o título do programa (Mais mudanças, mais futuro) e o conteúdo proposto. Era de esperar que, com resultados tão pífios - reconhecidos não apenas por analistas econômicos, mas, como as pesquisas têm indicado, pela população em geral, que já percebeu qual é a qualidade do atual governo -, o leitor do programa se deparasse com algo diferente do que viu nos últimos anos. Mas o que lá está é mais do mesmo, com a reedição de "programas" pontuais e desconexos, sem uma visão ampla do que o Brasil precisa. Vê-se logo que é um programa feito pró-forma, em que o País é um simples acessório.

Furtando-se de analisar os seus anos de governo - o que seria mais honesto -, sempre que pode Dilma inclui os oito anos de Lula nas suas comparações. Disso resultam afirmações que se chocam com a verdade. Por exemplo, "ao final de três mandatos, todos os indicadores do período são positivos e sempre muito melhores do que os vigentes em 2002". Haja criatividade nos números para tamanha miopia!

Em relação ao seu calcanhar de aquiles - a inflação -, não tendo o que apresentar, usa bravatas pouco convincentes. "Entendemos o poder devastador da inflação (...) e por isso jamais transigiríamos ou transigiremos com um elemento da política econômica com esse potencial desorganizador da vida das pessoas e da economia". Se de fato Dilma entendeu o poder devastador da inflação, seus anos de governo são um exercício explícito de má-fé. O que ela de fato compreendeu foi o efeito político da inflação, daí a manipulação de números e os preços e tarifas administrados.

Há passagens que são a mais deslavada mentira. "Os governos do PT assumiram a histórica tarefa de investir na infraestrutura logística brasileira. (...) O Brasil dos governos do PT e de seus aliados ficará marcado como o período da história recente com mais entregas de grandes obras de infraestrutura." Será uma piada de mau gosto? Se há um setor onde existe uma distância abissal entre o que o País necessita - e o governo prometeu - e a administração petista entregou, este é o da infraestrutura. É dessa forma que a Mãe do PAC vê os resultados pífios do seu mandato?

No programa, renova-se a "profissão de fé do PT" no seu modelo de desenvolvimento. Informa que ele está assentado em dois pilares - a solidez econômica e a amplitude das políticas sociais - e que ganhará no próximo governo um terceiro sustentáculo: a competitividade produtiva. Infelizmente, não houve, como afirma o documento, "defesa intransigente da solidez macroeconômica". É fato de domínio público. Sobre as políticas sociais, também é conhecido como o PT entende o seu maior trunfo: repasse de verba, sem acompanhamento de resultados efetivos. "Social", para o governo atual, é sinônimo de voto. Na sua lógica, se deu voto, houve transformação social. E o terceiro pilar é algo de que o PT pouco entende, como já se viu. No máximo, sabe dar incentivos pontuais, de alcance duvidoso, sem uma política de governo séria e responsável, que garanta a confiança no ambiente dos negócios.

Para aparecer bem na foto, o PT não tem escrúpulos de editar a imagem real. No programa, afirma-se que "a tarefa de combater a extrema pobreza (...) foi superada". Confundem o título de programa social, "Brasil sem Miséria", com a realidade vivida. Afronta a sensibilidade humana fazer campanha eleitoral ignorando a realidade de tantos brasileiros e brasileiras que ainda vivem em condições sub-humanas.

Não foi o PT quem inventou certa "flexibilidade" nos programas de governo. Já existia antes dele. Mas o atual governo pôs em outro patamar o nível de descaramento. Eleições merecem respeito, porque o cidadão merece respeito. Há limites até mesmo para o que se põe no papel, ainda que na ética petista tudo aquilo que o mantenha no poder seja visto como legítimo. O Brasil merece outra ética, outra política.

Pesquisa Datafolha traz más notícias para Dilma

Ricardo Noblat

A se levar em conta a pesquisa Datafolha de intenção de votos para presidente da República divulgada há pouco no Jornal Nacional, frustrou-se a tentativa do PT de tornar Dilma uma vítima depois que ela foi vaiada e insultada pelos torcedores no jogo de abertura da Copa do Mundo. Foi também no jogo final.

De outra parte, frustrou-se esforço do governo e da própria Dilma de elevá-la à condição de gestora de primeira, capaz de comandar a realização bem-sucedida do que chamou de Copa das Copas. De fato foi a Copa das Copas, segundo a maioria dos estrangeiros que por aqui estiveram. Mas a quem creditar o êxito?
Acima de tudo ao distinto povo brasileiro que se mostrou alegre e receptivo.

 Foto: Reuters

Dilma oscilou dentro da margem de erro da pesquisa, que é de dois pontos percentuais para mais ou para menos. Tinha 38% na anterior, aplicada em junho. Caiu para 36%.

Aécio ficou com o que estava – 20%. E Eduardo perdeu um pontinho. De 9% para 8%. A pesquisa ouviu 5.377 eleitores esta semana.

Más notícias para Dilma: pela primeira vez, em simulação de segundo turno, ela e Aécio empataram tecnicamente. Ela com 44%, dois pontos a menos do que tinha na pesquisa anterior. Aécio com um ponto a mais – de 39% para 40%.

O percentual dos que consideram o governo Dilma ótimo ou bom caiu de 35% para 32%. E subiu de 26% para 29% o percentual dos que apontam o governo como ruim ou péssimo.

Dilma é a campeã de rejeição: 35% garantem que não votarão nela de jeito nenhum. Contra 17% que garantem o mesmo em relação a Aécio e 12% em relação a Eduardo.

Liberdade e tutela

Denis Lerrer Rosenfield
O Estado de São Paulo

A grande expectativa de conquista da Copa do Mundo e o seu fiasco, assim como outro campeonato, o das pesquisas de intenção de voto, terminaram por ofuscar outros problemas que continuam atormentando a sociedade brasileira. A liberdade de escolha, um dos pilares de Estados democráticos, continua, cada vez mais, submetida à tutela estatal. Os cidadãos são tratados como se fossem menores de idade, incapazes de decidirem o que é melhor para si.

Claro que tudo isto não é feito em nome do autoritarismo, mas, supostamente, em nome do bem da cada um, como se fosse missão do Estado exercer uma espécie de monopólio da virtude. Contudo, a associação entre o anticapitalismo e o autoritarismo do bem (pró-saúde, geralmente) não é nada saudável.

Em São Paulo, a marcha autoritária avançou ainda mais na limitação das liberdades, visando a diminuir a influência dos pais sobre seus filhos. A Câmara de Vereadores dessa cidade aprovou recentemente em segunda discussão o projeto de lei que proíbe a venda casada de alimentos, lanches e ovos de Páscoa acompanhados por brinquedos, pelas redes de fast-food, lanchonetes ou qualquer estabelecimento comercial.

O projeto aprovado ainda depende da sanção do prefeito Fernando Haddad. Até o momento, a prefeitura não indicou qual será o desfecho. Vale lembrar que o autor do projeto, Arselino Tatto, é petista e líder do governo na Câmara de Vereadores.

O vereador disse em entrevista que se baseou em uma reportagem de TV para propor a proibição. Segundo ele, “eles incentivam o consumo quando colocam brinquedos dentro dos alimentos. É um pouco para trazer esse debate à tona para que os pais tenham essa preocupação. Se transformar em lei, eles podem vender esses produtos, mas sem os brinquedos dentro porque isso não atrairia muito as crianças”.

Soa leviano propor (e aprovar) uma lei com base em um programa de televisão. Entretanto, para os defensores da tutela, esta também poderia ser aplicada a eles. Talvez fosse prudente a população, como ato de defesa, propor uma lei para limitar as horas a que os parlamentares têm direito em frente aos televisores. Programas sem a supervisão de pessoas responsáveis podem incentivar a proliferação de leis descabidas.

Ademais, justificou o projeto apelando para a existência de “estudos”. Disse ele: “Mas há estudos que mostram que o consumo é incentivado quando brinquedos são colocados dentro de alimentos. Tem a ver com a obesidade e acaba sendo um alerta para os pais.”

Note-se que são sempre “estudos”, normalmente meras hipóteses de trabalho, que são considerados como se fossem “verdades”. Embora possam mesmo ser verdadeiros, não caberia, de modo algum, ao Estado tomar o lugar dos pais na educação de seus filhos. Ao Estado caberia, isto sim, informar os cidadãos sobre os malefícios de determinados produtos, deixando às pessoas a decisão de seguirem ou não essas orientações.

Trata-se, mais uma vez, da tentativa de restringir a liberdade de escolha das pessoas. O exemplo mais paradigmático diz respeito às restrições cada vez mais abusivas em relação ao fumo, seja com limitações à opção individual, seja em relação ao aumento de impostos favorecendo o contrabando. Processo semelhante está também em franca expansão no que concerne às bebidas alcoólicas.

Nada disto é muito novo, senão a arbitrariedade de cunho autoritário que o orienta. As justificativas para esse tipo de legislação apelam para um cidadão incapaz, isto é, um sujeito anódino que precisa ser tutelado. Uma sociedade que renuncia à liberdade perde o seu bem mais precioso: a liberdade de escolha.

O senso crítico ainda em formação nas crianças entra no debate como argumento de ocasião. Não é o senso crítico das crianças que está em disputa, mas o dos pais. São os pais que perdem a autonomia ante a benevolência estatal. São os pais que, segundo a ótica do legislador, não possuem senso crítico para decidir o que é melhor para seus filhos e nem são capazes de estimular em seus filhos o senso crítico. O significado é óbvio: os pais não possuem autonomia, autoridade ou capacidade para educar seus filhos.

Nesta toada, sempre haverá algum legislador ou governante que não queira, amanhã, proibir a propaganda de brinquedos ou diminuir o seu estímulo de compra como se isto fosse um malefício da sociedade capitalista. O politicamente correto pode ser aqui o seu instrumento.

Nessa toada, o certo seria proibir algumas personagens do mundo infantil bem como proibir alguns tipos de brinquedos. A Barbie, segundo inúmeros movimentos feministas, representa um ideal feminino exagerado que impõe às meninas um padrão de beleza inalcançável. Para o suposto universo infantil masculino, há armas e outros brinquedos que estimulam a agressividade. Os projetos de proibição são o que menos falta.

Afinal, se é permitido proibir um produto por seu suposto alto teor de sal ou de gordura, o que impede a proibição dos doces, que causam cáries? Nada. Pois o projeto de lei 5043/13, do deputado Alexandre Roso, do PSB do Rio Grande do Sul, proíbe a propaganda de refrigerantes e alimentos de baixo teor nutritivo nas escolas de ensinos fundamental e médio, sejam públicas ou privadas. Já o projeto 6.283, de 2013, do deputado federal Luiz Gonzaga Patriota, do PSB de Pernambuco, proíbe a venda de refrigerantes a menor de 18 anos e de alimentos com alto teor calórico e níveis reduzidos de nutrientes em estabelecimentos de ensino, e dá outras providências. Entre as outras providências está a proibição de venda desses alimentos em um raio de duzentos metros em torno das escolas. Por enquanto, evidentemente.

O tipo de lei relativo às crianças não difere das que limitam a liberdade de escolha dos adultos. O ímpeto é o mesmo. A suposta fragilidade das crianças é apenas o subterfúgio palatável do autoritarismo. O recado é claro: você não tem o direito de viver conforme suas convicções, você deve viver conforme o plano que o Estado desenha para você.

Foco na campanha eleitoral? Mas, em quê?

Marco Antonio Rocha
O Estado de São Paulo

O foco, agora, é na campanha eleitoral? Pelo menos é o que dizem os bem pensantes da imprensa e da política. E o que nos oferecem os candidatos do ponto de vista do desenvolvimento do Brasil, do esclarecimento da população e da melhoria da cidadania em geral?

Não sei se alguém já se deu ao trabalho de ouvir o que os candidatos andam dizendo e de anotar o que pareça fundamental para o destino da Nação. De minha parte, confesso que ainda não ouvi nem li nada que possa ser considerado relevante como estratégia de governo para o País.

Este jornal propôs aos três principais candidatos à Presidência que opinassem sobre 11 temas que, na opinião do jornal, seriam importantes, a saber: reforma política; redução da maioridade penal; legalização do aborto; descriminalização da maconha; fim da estabilidade no serviço público; reforma da Previdência; reajuste do mínimo pela inflação e PIB; fim da gratuidade da universidade pública; passe livre no transporte urbano; flexibilização da CLT; e privatização de estatais e bancos públicos.

São temas da hora, digamos, e importantes do ponto de vista eleitoral, mas a maioria não chega a tocar nos fundamentos do desenvolvimento econômico e social.

A candidata Dilma se pronunciou apenas sobre reforma política, dizendo que é "a favor de um plebiscito". Não opinou sobre os outros 10 temas. Os 2 outros responderam aos 11 temas, mas dizendo que são contra ou a favor e dando pequenas explicações. Aécio foi contra a maioria das teses e evasivo em pelo menos duas. Campos também foi contra a maioria delas e evasivo em duas.

Foi inútil a tentativa de obter algo que se possa chamar de programa e alguma ideia ou proposta sólida para temas como a reforma política, a da Previdência e a privatização de estatais e bancos públicos - que fazem parte do que se pode chamar de "fundamentos" do desenvolvimento e, talvez, da própria Nação.

Na prática, o que se tem visto e ouvido dos candidatos nas suas viagens pelo País dá a impressão de que são todos candidatos a prefeitos. A presidente se esmera na oferta de mais casas populares, mais creches, mais postos de saúde, mais estradas asfaltadas. Os outros também.

Tudo isso é de fato muito bom e importante, mas não gera a esperança num futuro firme e atraente para as famílias e as jovens gerações. O que se pode esperar do Brasil e para o Brasil?, indaga, por exemplo, o jovem que está chegando à universidade e quer fazer uma escolha de estudos e de profissão, para o seu próprio futuro pessoal.

O fundamental, no caso, é ter confiança numa economia em crescimento gerando mais e melhores empregos. Nesse terreno é bom que se pergunte aos candidatos - e que eles nos digam - que tipo de políticas têm em mente para assegurar uma economia vigorosa e tanto quanto possível livre de percalços nacionais e internacionais a todo momento, como tem sido a economia brasileira.

Quem nasceu em 1960 e tem hoje 54 anos - em plena idade produtiva, portanto - foi capaz de planejar e organizar a sua vida conforme suas aspirações? Garanto que não, pois nesse período a economia brasileira funcionou como uma gangorra ou como um veleiro sem rumo, sem saber de onde vinha o vento.

É preciso que isso seja retirado do horizonte dos brasileiros jovens, homens ou mulheres. Isso requer políticas públicas definidas, aceitáveis e confiáveis nas áreas da produtividade e competitividade, da inflação, do comércio exterior, do câmbio, do dispêndio público, dos investimentos públicos e privados, da logística, dos combustíveis, da produção agropecuária e, finalmente, mas não apenas, do relacionamento econômico e comercial com parceiros de todo o mundo. Um programa, enfim.

Os candidatos estão nos oferecendo isso? Um pouco de paciência, eles nos dirão. Aguardemos, pois.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:

A grande verdade é que, a exceção de Dilma Rousseff, a presidente-candidata, os demais sabem perfeitamente bem o oceano bravio que terão de enfrentar e atravessar nos primeiros dois anos de governo. Contudo, estão distantes dos verdadeiros números sobre a economia. O que o atual governo mais tem feito é não ser transparentes em hipótese alguma, além de se valer de artifícios contábeis censuráveis para esconder a realidade fiscal. 

Mesmo que Aécio e Eduardo Campos tenham traçado as linhas básicas em seus projetos de governo, revelá-los agora seria até uma estratégia errada. Daria tempo, como aliás em alguns casos já vem ocorrendo, para a turma da Dilma "chupar" alguns pontos e apresentá-los como seus. 

Além disto, com a campanha recém rastejando, com o país recém se refazendo do clima de Copa do Mundo, quem irá prestar atenção nos discursos dos candidatos?

Para encerrar: reparem que os pontos oferecidos à opinião são, em sua maioria, temas da esquerda. Pouco ali tem alguma ligação com mercado, com reformas estruturais na economia, racionalidade e equilíbrio na gestas das contas públicas, itens que afetam mais diretamente o bolso de todos os brasileiros. E, no fundo, é isto que importa, isto é, apresentação de propostas reais capazes de tirar o país da estagnação em que se encontra e com inflação e juros nas nuvens. Assim, para responder ao marco Antonio, o foco é, e de ser... ECONOMIA e INVESTIMENTOS. 

Euforia eleitoral toma conta da Bovespa

Maria Luíza Filgueiras
Revista EXAME

A Bovespa teve uma das maiores altas do mundo nos últimos quatro meses. Tudo baseado em algo que talvez, quem sabe, possa acontecer ou não: a troca no governo

Germano Lüders/EXAME 
Operadores na Bovespa:
 os estrangeiros compram; os brasileiros vendem

São Paulo - Os executivos do mercado financeiro costumam menosprezar quem diz que a bolsa de valores funciona como um cassino, onde ganhar dinheiro é questão de sorte, e não de conhecimento ou estratégia.

Para analistas e gestores, a comparação é um absurdo, porque comprar ações não é como fazer uma aposta no escuro: é colocar dinheiro numa empresa, que (na maioria dos casos, pelo menos) tem fábricas, produz bens etc. Pode haver excessos aqui e ali, dizem eles, mas, no fim das contas, são os “fundamentos” das companhias que importam. 

Recentemente, o Brasil tem dado sua contribuição para mostrar que as coisas nem sempre funcionam assim. Sem que nenhuma previsão para o país tenha melhorado — ao contrário, a estimativa de lucro das empresas diminuiu e a perspectiva de crescimento da economia é desanimadora —, a bolsa brasileira teve uma das maiores valorizações do mundo.

Em apenas quatro meses, o Ibovespa subiu 13%. A alta chama a atenção, mas o mais impressionante é que as ações que mais subiram no período foram de empresas estatais e de setores regulados, como energia elétrica — juntos, esses papéis responderam por quase metade da alta do Ibovespa.

Os papéis da estatal de energia elétrica Eletrobras subiram 28%; os da Petrobras, 23%. E nada melhorou na gestão dessas companhias. 

Os investidores, especialmente os estrangeiros, voltaram a comprar ações na Bovespa em março. Foi quando saíram os resultados de pesquisas que mostram a queda de popularidade da presidente Dilma Rousseff e o crescimento das intenções de voto para os candidatos de oposição.

Até o início do ano, as pesquisas indicavam que Dilma venceria as eleições ainda no primeiro turno. Na época, a dúvida era que tipo de governo ela faria num segundo mandato: tentaria se aproximar de empresários e investidores? Seria ainda mais intervencionista?

As últimas pesquisas dos institutos Datafolha e Ibope mostram que as chances de segundo turno aumentaram significativamente. Isso foi suficiente para mudar completamente o comportamento de investidores estrangeiros que, até fevereiro, estavam bastante pessimistas com o Brasil.

“Sei que nada melhorou em termos econômicos e não irei às urnas em outubro, mas a esperança de que haja novidades positivas no país aumentou”, diz Oliver Leyland, gestor da coreana Mirae, que administra 16 bilhões de dólares em emergentes e voltou a comprar ações aqui. 

O que gestores como Leyland esperam é que o país tenha um novo governo, capaz de melhorar a administração das empresas públicas, controlar a inflação e os gastos públicos e tirar reformas como a tributária do papel. Na visão da grande maioria dos investidores, uma eventual vitória da oposição aumenta a chance de que essas mudanças ocorram.

Pesquisas feitas pela consultoria Economatica, pela empresa de informações financeiras Quantum e pela assessoria financeira Tag mostram que as ações que mais subiram em três meses são as de empresas estatais e de setores regulados, seguidas pelas dos bancos (que se beneficiariam caso um novo governo diminuísse o ímpeto expansionista de Banco do Brasil e, sobretudo, Caixa Econômica Federal). 

É normal que os investidores antecipem cenários e saiam comprando ou vendendo ações antes que eles se tornem realidade. Mas, no caso brasileiro atual, a coisa parece um pouco exagerada. Ainda que um candidato de oposição vença as eleições (o que ainda é pouco provável) e queira fazer mudanças, ele terá enormes dificuldades para aprovar reformas.

Também terá pelo menos um ano duro de controle de gastos públicos e juros elevados para segurar a inflação. Com sorte, 2016 pode ser um ano de mais crescimento econômico. “Uma coisa é ver o governo fazendo políticas mais favoráveis às empresas e aí antecipar alguma melhora. Outra é ficar torcendo”, diz Fernando Fanchin, analista de renda variável da gestora Rio Bravo.

Alto risco
Os grandes investidores, claro, sabem o que está em jogo. Quem resolveu ficar fora da onda de compras está perdendo dinheiro. O gestor Luis Stulhberger, um dos mais bem-sucedidos do país, tem menos de 5% do patrimônio de seu principal fundo, o Verde, investido em ações brasileiras — e perdeu, de janeiro a junho, 2% com suas aplicações. Para Stulhberger, a atual euforia eleitoral vai acabar mal.

Quem aposta em mudanças está correndo um risco enorme, já que qualquer nova pesquisa, ou decisão do governo, pode derrubar as ações.

No fim de junho, as ações da Petrobras caíram 5,5% em apenas dois dias, quando a companhia, altamente endividada, anunciou que gastaria mais 15 bilhões de reais para explorar novas reservas do pré-sal — e que parte do dinheiro seria paga antecipadamente ao governo.

A maioria dos analistas viu ingerência do Planalto na decisão. O investidor Warren Buffett, quarto homem mais rico do mundo, já disse que os especuladores se comportam como a Cinderela.

“Eles sabem que não podem ficar demais na festa, ou o encanto acaba. Ao mesmo tempo, não querem perder um minuto de diversão. Então, planejam sair alguns segundos antes da meia-noite. O problema é que estão num salão onde os relógios não têm ponteiros.”

Quem está “comprado” na Bovespa pode ganhar mais dinheiro se o relativo otimismo com o Brasil continuar. Mas, caso o humor mude, o desafio será tentar não ser o último a sair da festa.

Mitologia reforçada

Gazeta do Povo - PR
Editorial

Em entrevista a canal de televisão do Oriente Médio, Dilma pediu votos e evocou o mito lulista do “nunca antes neste país”

A presidente Dilma Rousseff deu entrevista semana passada à tevê Al Jazeera, do Qatar, na qual pede votos para continuar mais quatro anos no poder. Embora notável em todo o mundo por suas corajosas reportagens, sobretudo a respeito dos conflitos que envolvem o Oriente Médio, a emissora certamente não tem no Brasil nem a audiência, nem o poder de influenciar decisivamente os eleitores. Nem por isso – ou até mesmo por isso – Dilma age de forma prudente ao usar um meio de comunicação para, falando na condição de presidente da República, desfilar supostos sucessos do seu grupo político na administração do país e afirmar que o povo, por gratidão, deve dar-lhe um novo mandato.

O principal feito de Dilma e de seu padrinho-antecessor, o ex-presidente Lula, teria sido o de elevar à classe média milhões de brasileiros que viviam na pobreza extrema. Disse-o com a arrogância com que complementou a explicação pelo sucesso: ela e seu grupo, se souberam bem governar nos últimos 12 anos, poderão repetir o êxito nos próximos anos – ao contrário dos que os antecederam e que, embora pudessem ter feito melhor, não sabiam como fazer. Evidentemente, Dilma se referia aos oito anos de Fernando Henrique Cardoso.

Não se trata, aqui, de fazer uma defesa político-partidária do ex-presidente, mas tão-somente de restabelecer uma verdade histórica – abafada pela mitologia lulista do “nunca antes neste país”, segundo a qual o PT ergueu o Brasil do zero – que mereceu reconhecimento mundial: é de FHC a obra principal que deu sustentação às (sem dúvida elogiáveis) políticas de promoção social empreendidas por seus sucessores imediatos.

Não fosse a derrota que impôs à renitente e galopante inflação que herdou; não fosse a implementação do Plano Real, que estabilizou a moeda e estabeleceu condições para o controle das contas públicas; não fosse a abertura dos mercados e desestatizações que tiraram, em vários setores, o país da era das trevas – não fosse este conjunto de ações, Lula e Dilma não teriam tido as mesmas condições para dar continuidade às políticas sociais também já iniciadas pelo antecessor.

É certo que o país cresceu pouco nos anos FHC, mas, ao assumir seu primeiro mandato, em 2003, Lula já encontrou o país minimamente ajustado e com firmes fundamentos de política econômica, de viés nitidamente liberal e flagrantemente contrária à pregação estatizante e heterodoxa do PT até então. Aliás, para conquistar a vitória em 2002, Lula precisou fazer juras de obediência à cartilha do Plano Real ao assinar a Carta aos brasileiros, instrumento que usou para afastar o medo que evocava na opinião pública.

Por mais que Lula negue, foi por seguir rigorosamente a cartilha que sua gestão pôde assegurar ao país exuberantes taxas de crescimento econômico – um ciclo que foi quebrado já no fim de seu segundo mandato, quando abandonou os fundamentos para aventurar-se na heterodoxia que denominou de anticíclica, uma política que deveria se reduzir à sua eventualidade conjuntural apenas para combater os efeitos de nova crise mundial, a de 2008, mas que erroneamente se perpetua. Foi o que bastou para desarrumação que hoje se reflete na pressão inflacionária, nos falsos números da “contabilidade criativa” e no crescimento pífio da economia brasileira – diferentemente dos Estados Unidos e dos países europeus, muito mais sensíveis à crise, que já voltaram a crescer, enquanto por aqui Dilma segue culpando a crise internacional pelos fracos resultados de sua gestão.

Ao negar o passado e atribuir-se todos os êxitos, faltou a Dilma a aura do verdadeiro estadista, aquele que mais se preocupa com o futuro da nação que com a próxima eleição.

Gentil patrocínio

Dora Kramer
O Estado de São Paulo

Ficou assim combinado entre a Câmara e o Senado: daqui até as eleições não tem trabalho, mas tem salário integral de R$ 26,7 mil sem desconto por faltas.

Suas excelências vêm de um mês de Copa do Mundo de quase nenhuma labuta e teriam pela frente no mínimo a votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2015 sem a qual, reza a Constituição, não poderiam entrar no recesso do meio de ano.

Mas, se ficassem no Parlamento para cuidar do Orçamento do próximo ano, atrasariam os preparativos para as respectivas campanhas eleitorais. E aí, ligeiros como sempre quando estão em jogo seus interesses, os líderes partidários e os presidentes das duas Casas encontraram a solução: suspenderam as sessões deliberativas daqui até as eleições.

São sessões em que há votações. Só elas permitem contar as faltas que geram descontos nos salários e, dependendo da quantidade, até a perda de mandatos. Canceladas, dão margem à tentativa do presidente do Senado, Renan Calheiros, de conferir normalidade à situação.

"O Congresso continuará funcionando. Vamos é compatibilizar esse funcionamento com a realização das eleições. Não haverá ordem do dia, só nos dias 5 e 6, as outras sessões serão de discussão", disse.

Nos próximos dois meses e meio o Senado funcionará dois dias em agosto e a Câmara, quatro - dois em agosto, dois em setembro. E por "funcionar" entenda-se a realização das tais sessões deliberativas às quais estão dando o nome de "esforço concentrado". De 144 horas ao todo. Que tal?

Nas demais, o presidente do Senado assegura que o Congresso continuará com suas atividades, debates e trabalhos de comissões. As CPIs da Petrobrás, inclusive. Ocorre que para haver atividade é necessário que haja parlamentares presentes. E suas excelências estão devidamente dispensadas de comparecer ao trabalho por decisão dos líderes partidários, concordância das presidências e assentimento do colegiado por intermédio do voto simbólico.

Falta acrescentar: e com o gentil patrocínio do dinheiro do eleitorado, em mais uma das já diversas formas existentes de financiamento público de campanhas eleitorais.

Sim, porque veja como é simples perceber quem paga parte dessa conta. Se deputados e senadores continuam a receber salário que é pago com recursos do Orçamento e nesse período se ocupam das respectivas campanhas, obviamente estamos nós, os contribuintes, entrando com uma parcela das doações. Enquanto cuidam cada qual de sua sobrevivência política os congressistas deixam pelo meio do caminho assuntos que segundo eles mesmos eram urgentes.

Na Câmara, o projeto que torna o Orçamento impositivo em relação às emendas parlamentares e a lei de responsabilidade fiscal para os clubes de futebol, tão falada depois do vexame da seleção durante as discussões sobre a necessidade de "reformulação já" no esporte.

No Senado, a lista de espera inclui projetos do Super Simples Nacional, alterações na Lei de Licitações e projetos de interesse da magistratura. Assuntos que precisam ser resolvidos e que dizem respeito aos representados enquanto os representantes preferem dar prioridade à renovação de seus mandatos.

O eleitor não tem nada a ver com isso. O mandato conquistado numa eleição vale por quatro anos. Não vale por três e pouco, como nossos parlamentares parecem entender ao não cumprir o período integralmente, suspendendo a vigência por três, quatro meses sem dar satisfação e ainda achando que o contribuinte não faz mais que a obrigação de "comparecer" com a sua parte em moeda sonante.

Retrato disso é o fecho das declarações do presidente do Senado a O Globo, que lhe perguntou se o ano legislativo não estaria perdido: "Não. Precisamos ganhá-lo nas eleições".

Sendo essa a credencial da elite (branca?) da política, fica a dúvida: precisamos quem, cara dura?

Como passar do não ao sim

Celso Ming
O Estado de S.Paulo

As dificuldades iniciais parecem ter sido superadas e assim os chefes de Estado dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), reunidos em Fortaleza, criaram terça-feira duas instituições internacionais que podem sacramentar uma sigla quase vazia enquanto bloco nascido de objetivos comuns.

É um passo importante, mas é pouco. Uma vez criados o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB, em inglês) e o Acordo Contingente de Reserva (CRA, um fundo de reservas para socorrer países momentaneamente incapacitados de honrar seus compromissos externos), é preciso saber quais seriam os critérios para fazê-los funcionar, respectivamente, como banco de desenvolvimento e como fundo de reservas.

No momento, dos cinco membros do clube, só a África do Sul poderia aproveitar melhor essas disponibilidades caso delas necessite. Os demais, incluído aí o Brasil, dispõem de mais recursos ou acesso a outras fontes externas do que essas duas instituições poderiam oferecer.

Como já foi argumentado aqui na Coluna de terça-feira, apenas o BNDES brasileiro é sete vezes maior do que esse NDB. China, Rússia, Brasil e Índia têm, cada um, substancialmente, mais reservas externas do que as que serão colocadas à disposição do novo fundo.

Isso sugere que as duas instituições estão sendo criadas mais para apoiar projetos de infraestrutura e políticas de países de fora do bloco do que de dentro dele. Nascem num contexto de críticas contundentes à atuação do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI) e pretendem, assim, começar a rodar. Mas, outra vez, com que critérios?

Se for para atuar com parâmetros técnicos parecidos com os do Banco Mundial e do FMI, tendem a não passar de farinhas de qualidade similar dispostas em sacos de tamanhos diferentes. Se os critérios para a distribuição de financiamentos ou empréstimos-ponte para cobertura de dívidas forem políticos, então fica difícil saber que tipo de grude pode manter unidos os cinco do Brics.

Imagine, por exemplo, se a Crimeia ou a Síria ou a Venezuela solicitarem um socorro do CRA (a Argentina, por sinal, parece já contar com isso). Mas o que levará a direção desse fundo a atendê-los ou não? Questões geopolíticas compartilhadas pelos cinco? Provavelmente, não.

Dos cinco integrantes do Brics, três são potências nucleares (Rússia, Índia e China), no momento com interesses mais conflitantes do que convergentes entre si. Afora isso, as coisas mudam e a fila anda. Mudanças de governo na Rússia, na Índia ou na China - para não falar no Brasil - podem mudar os alinhamentos políticos e o que foi interesse comum num momento pode, perfeitamente, não ser mais no momento seguinte.

Por enquanto, o que os une parece ser o que está lá na declaração conjunta: a desaprovação ao emperramento das propostas de reforma do Banco Mundial e do FMI. Mais difícil é saber como sair desse não ao FMI para um sim ao que tem de ser. Suponhamos que, lá pelas tantas, o Congresso dos Estados Unidos concorde com modernizar as instituições de Bretton Woods. Nesse caso, essas instituições alternativas vingariam do mesmo jeito?

Sabe-se como esse jogo começou. Não se sabe como seguirá.

Com banco, Brics se tornam “acrônimo com capital”, diz The Economist

 Valor


SÃO PAULO  -  A revista britânica The Economist relativizou a criação do banco de desenvolvimento dos Brics e do fundo de reservas para auxílio de países emergentes, formalizados durante a 6ª reunião de cúpula do bloco, realizada em Fortaleza nesta semana. Em matéria publicada na edição impressa, a The Economist destaca que, apesar de terem sido instituídos para rivalizar com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, os mecanismos são menos subversivos do que aparentam.

De acordo com a matéria, o fundo financeiro de emergência, que permite aos países disponibilizar até US$ 100 bilhões de suas reservas internacionais para se ajudarem mutuamente, não é um fundo, mas “um emaranhado de promessas bilaterais”. Já o Novo Banco de Desenvolvimento dos Brics (New Development Bank, ou NDB, em inglês) é mencionado como uma “sopa de letrinhas” que se soma a outros bancos de desenvolvimento nacionais e regionais dos países integrantes dos Brics.

O texto também ressalta a divisão de cargos desenhada com a criação dos mecanismos — que segundo a revista quase aniquilou o negócio. O banco será sediado em Xangai, na China, e terá na presidência um indiano a ser escolhido. O conselho de administração da instituição, por sua vez, será presidido pelo Brasil. De acordo com a revista, tal divisão pode dificultar a tomada de ações em uma mesma direção pelo banco.

A reportagem da The Economist destaca, por fim, que além da característica de serem grandes países emergentes, os Brics seguem sendo um bloco com pouco em comum, onde pesam disparidades como renda per capita e regimes políticos democráticos (Brasil, Índia e África do Sul) e autoritários (Rússia e China).

China promete fundos e linhas de crédito de até US$ 35 bilhões à América Latina

Danilo Fariello, Matha Beck e Catarina Alencastro
O Globo

Dilma defende Argentina sobre dívida e diz que levará caso do país vizinho ao G-20

Presidente da China, Xi Jinping

BRASÍLIA - O governo chinês prometeu até US$ 35 bilhões de dólares em recursos de longo prazo para o Brasil e a América Latina em geral, nesta quinta-feira, durante a viagem do presidente Xi Jinping ao país. Além de parcerias e acordos comerciais, a presidente Dilma Rousseff apresentou em entrevista coletiva um pacote de investimentos diretos e linhas de crédito prometidos pelos chineses.

Segundo ela, será criado um fórum de países de América Latina, Caribe e China, cuja primeira reunião deverá ocorrer no próximo ano. Haverá um fundo específico para financiar ações de infraestrutura, chegando a um total de US$ 20 bilhões, mas começando com um capital inicial de US$ 10 bilhões. Esse fundo seria criado imediatamente, para estar pronto no ano que vem, segundo Dilma.

— Algumas medidas foram propostas pelo governo chinês no sentido de aproximar as relações com a América Latina — disse Dilma.

Além disso, os chineses ofereceram uma linha de crédito especial com a Celac, dentro de um banco chinês, podendo chegar a até US$ 10 bilhões. Os chineses propuseram ainda a criação de um fundo de cooperação sino-latino-caribenho no valor de US$ 5 bilhões para investimentos em áreas a serem definidas. Questionada, a presidente não soube dizer o perfil desses projetos financiados por este fundo.

BRASIL LEVARÁ AO G-20 CASO DA DÍVIDA ARGENTINA
A presidente Dilma confirmou nesta quinta-feira que irá levar ao G-20 o caso da dívida argentina porque, segundo ela, a situação do país vizinho mostra que há uma instabilidade grave no sistema financeiro. Para Dilma, o fato de os chamados fundos abutres terem ganhado na Justiça o direito de inviabilizar a renegociação da dívida argentina pode comprometer a situação de outros países que futuramente venham a precisar renegociar suas dívidas soberanas.

— Esse processo criou uma instabilidade nas negociações de dívida soberana. Isso é muito grave. Cria incerteza sobre a estabilidade e segurança jurídica e torna qualquer negociação de dívida soberana imponderável. Quando você cria imponderáveis entre devedores e credores você está contribuindo para desestabilizar o sistema — afirmou a presidente.

Dilma lembrou que o tema da renegociação de dívida soberana foi tratado pelo G-20 em todas as últimas reuniões do grupo. E disse que o Brasil não vai reclamar, e sim apontar o problema.

— Levar para o G-20 não é chegar no G-20 e ficar reclamando, é dizer ‘olha, tem um foco de instabilidade grave no sistema de renegociação de dívidas soberanas’ que, aliás, em 2011, em 2012 e em parte de 2013 foi o tema central das reuniões do G20. Como garantir que as dívidas soberanas não comprometessem, nem explodissem o sistema do Euro. Esse foi o tema. Levar ao G20 é levar ao fórum que tem tratado disso de forma sistemática, séria e que viveu e enfrentou uma série de problemas nos últimos tempos — disse Dilma em entrevista a jornalistas no Palácio do Itamaraty, após encontro da Comunidade de Estados Latino Americanos e Caribenhos (Celac) com o presidente da China.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:

É preocupante esta China-dependência que estamos criando. Qualquer soluço do lado de lá, vai respingar muito forte por aqui. O Brasil deveria adotar uma política de maior diversificação de seus parceiros comerciais. Além disso é bom não jogarmos todas nossas esperança de recuperação e crescimento econômico apenas nesta única parceria. Os chineses são muito cautelosos na hora de abrirem o bolso para investimentos.  Se  o ambiente de negócios não lhes for favorável, eles se retraem. E, cá prá nós, o Brasil destes tempos de PT no poder, não é um exemplo de país que trata o investimento privado com carinho. Pelo contrário: cultiva é um enorme preconceito. E, engraçado, até parece que o dinheiro do Estado provém do próprio Estado, e não das pessoas e empresas privadas. 

Além disso, até que o Banco dos BRICS comece a abrir o cofre, vai demorar um pouco. E até que isto aconteça, vamos fazer o quê, ficar parados, de braços cruzados, sem política econômica nenhuma? 

O clima no Brasil de 2014 é de fim de festa (festa petista,  é claro).

Possíveis razões do baixo crescimento

Cristiano Romero
Valor

Para crescer de forma mais rápida, Brasil precisa de reformas

Um dos principais debates em curso no país é sobre as razões que teriam levado a economia brasileira a desacelerar o crescimento de forma tão abrupta. O debate é relevante porque, uma vez identificadas essas razões, num mundo ideal criam-se as condições para que se corrija o rumo das políticas, permitindo que o Produto Interno Bruto (PIB) volte a crescer de forma mais rápida.



Não se trata de um debate desapaixonado. O governo Dilma sustenta a tese de que o Brasil tem avançado lentamente porque o mundo cresce pouco desde a crise de 2008. No mercado, a visão predominante é a de que o baixo crescimento é explicado pela perda de credibilidade da política econômica na gestão Dilma. Uma terceira hipótese é a de que a ausência de reformas microeconômicas seria a grande responsável pela situação atual.

É bem provável que os três elementos concorram para explicar o mau momento. Dois economistas do Banco Mundial - Otaviano Canuto e Philip Schellekens - desenvolveram o tema num pequeno estudo intitulado "Três Perspectivas sobre o Pessimismo quanto ao Crescimento Brasileiro". Os dois acreditam que a explicação está na falta de reformas, mas eles também jogam luz sobre as outras duas possibilidades.

De 1947 a 1980, o Brasil cresceu a uma média de 7,5% ao ano. Entre 1981 e 2003, período que marcou a crise da dívida, a taxa de crescimento anual caiu para 2%. A estabilização da economia desde 1994 e um ambiente externo favorável aceleraram a expansão média anual para 5% entre 2004 e 2008.

Apesar de ter resistido bem à crise mundial de 2008, inclusive ao registrar crescimento de 7,5% em 2010, o Brasil tem avançado desde 2011 a taxas que lembram o período 1981-2003. Na verdade, a confirmar-se a projeção mediana do mercado para o PIB de 2014 - alta de apenas 1% -, a média dos anos Dilma será de míseros 1,8%.

Canuto e Schellekens argumentam que o crescimento acelerado de 2004 a 2010 foi resultado dos efeitos retardados das reformas realizadas nos anos 90 e na primeira metade dos anos 2000. O Brasil colocou a "casa macroeconômica em ordem" e implementou reformas nos setores financeiro, comercial e social. Os prêmios de risco de ativos brasileiros caíram de forma sistemática depois que ficou claro o compromisso com a disciplina fiscal, o regime de metas para inflação e o câmbio flutuante, independentemente do partido político no comando do governo. Adicionalmente, condições externas favoráveis ajudaram a diminuir as restrições financeiras.

Para muitos, o Brasil parou de crescer porque, nos últimos três anos, o governo pôs em risco a credibilidade duramente conquistada. Com o objetivo de acelerar o crescimento, Brasília relaxou a política fiscal, tolerou inflação mais alta e fez intervenções no câmbio para amortecer a volatilidade. Além disso, usou os preços administrados para controlar a inflação e abusou de operações parafiscais pouco transparentes para estimular o crédito.

Na opinião desses críticos, tudo isso resultou na redução da nota de crédito do país, que, no caso da Standard & Poor's, está a apenas um patamar da perda do grau de investimento. Canuto e Schellekens disputam esse diagnóstico. Eles concordam que a política econômica sofreu perda de credibilidade, mas não atribuem a esse fator toda a moderação do crescimento. Segundo eles, os pilares macroeconômicos permanecem, num conceito mais amplo, "intactos". Além disso, o Brasil continua a dispor de "grandes amortecedores externos".

Canuto e Schellekens consideram também exagerada a tese de que a piora das condições externas nos anos recentes, com o baixo crescimento das economias avançadas, a moderação da expansão chinesa, o aumento da aversão dos investidores a risco e a elevação do custo do crédito externo, tem sido a grande responsável pelo baixo crescimento do Brasil. Eles lembram que a maior parte do PIB brasileiro é dado pelo mercado interno e que, aqui, a atividade tem uma "orientação externa limitada".

Das dez maiores economias, a brasileira é a que possui a menor participação das exportações no PIB (ver gráfico). Canuto e Schellekens consideram exagerado atribuir a fatores externos o crescimento acelerado da economia entre 2004 e 2008.

A opção dos dois economistas é pela ausência de reformas microeconômicas. Para eles, o ambiente microeconômico é crítico para o crescimento, "ainda mais hoje do que no passado". A razão está na dinâmica demográfica, que tem reduzido o crescimento da força de trabalho no Brasil. "Crescimento maior requer, portanto, primeiro e principalmente o aumento da produtividade do trabalho, mas isso permanece limitado por um ambiente de negócios pesado e um ritmo lento de acumulação de capital humano e físico", dizem Canuto e Schellekens.

Canuto participou da equipe que, no início do governo Lula, sob a liderança do então ministro Antonio Palocci, promoveu avanços importantes na agenda de reformas microeconômicas. No período seguinte à saída de Palocci, essa agenda foi abandonada em prol de medidas de estímulo ao consumo. Mais recentemente, alguns esforços, especialmente os coordenados pelo secretário de Política Econômica, Márcio Holland, foram retomados, mas a agenda, como assinalam Canuto e Schellekens, é "longa e inacabada".