terça-feira, julho 22, 2014

O correto uso do papel higiênico

ESTA FOI A ÚLTIMA COLUNA ESCRITA POR JOÃO UBALDO RIBEIRO (*), QUE SERIA PUBLICADA NO DOMINGO, DIA 20 DE JULHO

O título acima é meio enganoso, porque não posso considerar-me uma autoridade no uso de papel higiênico, nem o leitor encontrará aqui alguma dica imperdível sobre o assunto. Mas é que estive pensando nos tempos que vivemos e me ocorreu que, dentro em breve, por iniciativa do Executivo ou de algum legislador, podemos esperar que sejam baixadas normas para, em banheiros públicos ou domésticos, ter certeza de que estamos levando em conta não só o que é melhor para nós como para a coletividade e o ambiente. Por exemplo, imagino que a escolha da posição do rolo do papel higiênico pode ser regulamentada, depois que um estudo científico comprovar que, se a saída do papel for pelo lado de cima, haverá um desperdício geral de 3.28 por cento, com a consequência de que mais lixo será gerado e mais árvores serão derrubadas para fazer mais papel. E a maneira certa de passar o papel higiênico também precisa ter suas regras, notadamente no caso das damas, segundo aprendi outro dia, num programa de tevê.
Tudo simples, como em todas as medidas que agora vivem tomando, para nos proteger dos muitos perigos que nos rondam, inclusive nossos próprios hábitos e preferências pessoais. Nos banheiros públicos, como os de aeroportos e rodoviárias, instalarão câmeras de monitoramento, com aplicação de multas imediatas aos infratores. Nos banheiros domésticos, enquanto não passa no Congresso um projeto obrigando todo mundo a instalar uma câmera por banheiro, as recém-criadas Brigadas Sanitárias (milhares de novos empregos em todo o Brasil) farão uma fiscalização por escolha aleatória. Nos casos de reincidência em delitos como esfregada ilegal, colocação imprópria do rolo e usos não autorizados, tais como assoar o nariz ou enrolar um pedacinho para limpar o ouvido, os culpados serão encaminhados para um curso de educação sanitária. Nova reincidência, aí, paciência, só cadeia mesmo.

Agora me contam que, não sei se em algum estado ou no país todo, estão planejando proibir que os fabricantes de gulodices para crianças ofereçam brinquedinhos de brinde, porque isso estimula o consumo de várias substâncias pouco sadias e pode levar a obesidade, diabetes e muitos outros males. Justíssimo, mas vejo um defeito. Por que os brasileiros adultos ficam excluídos dessa proteção? O certo será, para quem, insensata e desorientadamente, quiser comprar e consumir alimentos industrializados, apresentar atestado médico do SUS, comprovando que não se trata de diabético ou hipertenso e não tem taxas de colesterol altas. O mesmo aconteceria com restaurantes, botecos e similares. Depois de algum debate, em que alguns radicais terão proposto o Cardápio Único Nacional, a lei estabelecerá que, em todos os menus, constem, em letras vermelhas e destacadas, as necessárias advertências quanto a possíveis efeitos deletérios dos ingredientes, bem como fotos coloridas de gente passando mal, depois de exagerar em comidas excessivamente calóricas ou bebidas indigestas. O que nós fazemos nesse terreno é um absurdo e, se o estado não nos tomar providências, não sei onde vamos parar.

Ainda é cedo para avaliar a chamada lei da palmada, mas tenho certeza de que, protegendo as nossas crianças, ela se tornará um exemplo para o mundo. Pelo que eu sei, se o pai der umas palmadas no filho, pode ser denunciado à polícia e até preso. Mas, antes disso, é intimado a fazer uma consulta ou tratamento psicológico. Se, ainda assim, persistir em seu comportamento delituoso, não só vai preso mesmo, como a criança é entregue aos cuidados de uma instituição que cuidará dela exemplarmente, livre de um pai cruel e de uma mãe cúmplice. Pai na cadeia e mãe proibida de vê-la, educada por profissionais especializados e dedicados, a criança crescerá para tornar-se um cidadão modelo. E a lei certamente se aperfeiçoará com a prática, tornando-se mais abrangente. Para citar uma circunstância em que o aperfeiçoamento é indispensável, lembremos que a tortura física, seja lá em que hedionda forma — chinelada, cascudo, beliscão, puxão de orelha, quiçá um piparote —, muitas vezes não é tão séria quanto a tortura psicológica. Que terríveis sensações não terá a criança, ao ver o pai de cara amarrada ou irritado? E os pais discutindo e até brigando? O egoísmo dos pais, prejudicando a criança dessa maneira desumana, tem que ser coibido, nada de aborrecimentos ou brigas em casa, a criança não tem nada a ver com os problemas dos adultos, polícia neles.

Sei que esta descrição do funcionamento da lei da palmada é exagerada, e o que inventei aí não deve ocorrer na prática. Mas é seu resultado lógico e faz parte do espírito desmiolado, arrogante, pretensioso, inconsequente, desrespeitoso, irresponsável e ignorante com que esse tipo de coisa vem prosperando entre nós, com gente estabelecendo regras para o que nos permitem ver nos balcões das farmácias, policiando o que dizemos em voz alta ou publicamos e podendo punir até uma risada que alguém considere hostil ou desrespeitosa para com alguma categoria social. Não parece estar longe o dia em que a maioria das piadas será clandestina e quem contar piadas vai virar uma espécie de conspirador, reunido com amigos pelos cantos e suspeitando de estranhos. Temos que ser protegidos até da leitura desavisada de livros. Cada livro será acompanhado de um texto especial, uma espécie de bula, que dirá do que devemos gostar e do que devemos discordar e como o livro deverá ser comentado na perspectiva adequada, para não mencionar as ocasiões em que precisará ser reescrito, a fim de garantir o indispensável acesso de pessoas de vocabulário neandertaloide. Por enquanto, não baixaram normas para os relacionamentos sexuais, mas é prudente verificar se o que vocês andam aprontando está correto e não resultará na cassação de seus direitos de cama, precatem-se.

(*) João Ubaldo Ribeiro (1941-2014) era escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras

Viva João Ubaldo Ribeiro (1941-2014)

Sérgio Rodrigues
Veja online


Contudo, o escritor baiano João Ubaldo Ribeiro, que morreu no Rio de Janeiro, de embolia pulmonar, aos 73 anos, deixa uma obra-prima incontornável da literatura-brasileira: o romance “Viva o povo brasileiro”, tijolo de 673 páginas lançado em 1984. Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1993 e vencedor do Prêmio Camões em 2008, Ubaldo era “imortal” apenas no título honorífico. Seu principal romance – que tem um começofamoso, com a conjunção adversativa “contudo” introduzindo a frase de abertura, como neste artigo – é imortal literalmente.

Épico da nacionalidade, com sua narrativa espalhada por quatro séculos de história do Brasil e amarrada com o fio mítico e lírico, mas também cômico e irreverente, da reencarnação dos personagens segundo a compreendem as religiões afro-brasileiras, “Viva o povo…” é provavelmente a última – e brilhante – tentativa feita por nossa literatura de dar conta do país como um todo, respondendo artisticamente à pergunta que instigou os grandes intérpretes do Brasil no século XX: o que vem a ser este país enorme, ao mesmo tempo fascinante e infantiloide, generoso e cruel? Foi o último relance que tivemos da imagem inteira. Depois disso veio a contemporaneidade, com o estilhaçamento das referências em mil cacos.

Nascido na ilha de Itaparica, que sempre ocupou lugar de destaque em sua ficção e suas crônicas jornalísticas, João Ubaldo não deixa obra extensa. A lista de seus outros romances inclui títulos como “O sorriso do lagarto”, o sucesso de público (pelo tema libertino) “A casa dos budas ditosos” e, principalmente, “Sargento Getúlio”, livro de 1971 que o projetou nacionalmente e lhe valeu comparações com Guimarães Rosa – rechaçadas pelo escritor baiano, que dizia nunca ter conseguido ler o mineiro. “Nossos santos não se cruzam”, declarou em sua participação na Festa Literária Internacional de Paraty, em 2011 (leia mais aqui). Na mesma ocasião, disse que sua motivação ao escrever “Viva o povo…” era apenas “fazer um livro grosso”.

A proeminência do “livro grosso” em sua obra é indiscutível. Em abril de 2007, este blog conduziu uma enquete com escritores, críticos e editores brasileiros para eleger o melhor/mais importante livro de nossa ficção nos (então) últimos 25 anos – ou seja, desde 1982. Deu o romance de Ubaldo na cabeça. “Dois irmãos”, de Milton Hatoum, e “Quase memória”, de Carlos Heitor Cony, ficaram empatados em segundo lugar. Leia mais sobre a enquete e seu vencedor aqui e aqui.

Concordo com o crítico Wilson Martins quando ele diz que, em sua obra-prima, Ubaldo “propõe uma visão ideológica da nossa história, estruturada no populismo e no nacionalismo (valores para ele indistinguíveis e intercambiáveis)”. Tais traços o aproximam de outro gigante baiano, Jorge Amado, seu mestre evidente e declarado. Mas é preciso reconhecer que, pelo menos no caso desse livro, o discípulo foi mais longe que o professor.

“Viva o povo…” é Jorge Amado sem a ingenuidade, com o maniqueísmo estrutural de povo bom x elite ruim servindo de pretexto para um festim literário conduzido com volúpia narrativa digna de Pantagruel. A genial descrição de uma batalha da Guerra do Paraguai à moda homérica (leia um trecho aqui), em que orixás tomam o lugar dos deuses gregos, dá uma boa ideia da alta voltagem atingida pela travessura e está entre as maiores páginas da literatura brasileira em todos os tempos.

Agora – numa imitação do que o autor escreveu sobre o fim de um valoroso soldado baiano naquela guerra – a morte lhe toldou os olhos com seu véu pardo e lhe aspirou a alma pela boca, boca que nunca mais emitirá seu timbre grave imitando Dorival Caymmi em canções meio desafinadas, nem nunca mais contará das belezas de Itaparica, onde os mimos-do-céu florescem e cantam mais os passarinhos.

Viva João Ubaldo Ribeiro!

O novo capitalismo de Estado - e o do PT

Rolf Kuntz  
O Estado de S.Paulo

Mais uma campeã nutrida com dinheiro público, desta vez R$ 700 milhões de investimento, tenta sair do buraco. Formada em 2010 para ser uma gigante do setor, a LBR Lácteos logo entrou em recuperação judicial. Em mais uma aposta errada, o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) participou da aventura com 30,3% do capital. A ex-futura campeã estava nos últimos dias ocupada em levantar R$ 740 milhões com a venda de várias unidades de produção. Era uma tentativa de cumprir o plano oficial de recuperação, segundo noticiou o Valor no começo da semana. Enquanto isso, em Brasília, a oposição batalhava para dar sobrevida a investigações sobre negócios muito estranhos da Petrobrás. Para entender bem os dois casos convém juntá-los na mesma narrativa.

A história é uma só e inclui a escolha de campeões alimentados com dinheiro público, as pressões contra o executivo de uma vitoriosa empresa de mineração, o uso de uma petroleira estatal para projetos políticos e a conversão de bancos públicos em prontos-socorros de grupos escolhidos.

O leitor pode rotular esse conjunto como ciência política, teoria administrativa ou pesquisa econômica. Pode também juntar as três qualificações. Todas se aplicam ao livro dos professores Sérgio Lazzarini, do Insper, e Aldo Musacchio, de Harvard. O recém-editado Reinventing State Capitalism (Reinventando o Capitalismo de Estado) é um estudo sobre um novo tipo de Leviatã econômico, sucessor do velho e bem conhecido Estado empresarial encontrado em todos os cantos do mundo na maior parte do século passado.

O Estado empreendedor funcionou tanto no mundo socialista quanto no lado capitalista. Controlava e administrava empresas como extensões da burocracia pública. Agonizante nos anos 80, esse modelo foi em grande parte substituído por dois novos tipos de Leviatã econômico. O investidor majoritário mantém o papel de acionista controlador, mas o padrão gerencial pode ser muito mais flexível que o anterior. O investidor minoritário passa o controle a investidores privados, mas conserva influência indireta na administração. Este segundo modelo inclui a atuação de bancos de investimento (como o BNDES) e de fundos, como os de pensão.

Para começar, os autores propõem uma tipologia de alcance internacional, explorando exemplos de várias partes do mundo. A exposição percorre tanto países tradicionalmente capitalistas quanto economias em transição. O caso chinês aparece com destaque logo no começo, numa referência ao lançamento inicial de ações do Banco Agrícola da China, em 2010, nas Bolsas de Xangai e de Hong Kong. Ainda oficialmente socialista, a China também participou, e continua participando, da renovação do capitalismo de Estado.

Os autores evitam - de fato, rejeitam - discutir se as empresas vinculadas total ou parcialmente ao Estado são mais ou menos eficientes que as companhias privadas. Mesmo no tempo do Estado empreendedor as comparações seriam inconclusivas, se se tratasse de desempenho em condições normais. Em crises como a dos anos 1980, no entanto, estatais poderiam ter menos liberdade para demitir. Isso ocorreu, de fato, naquele período. Essa limitação afetou seus resultados e uma das consequências foi a redução de investimentos. Quem acompanhou essa experiência ao vivo e em cores deve lembrar-se de mais um detalhe: com o Tesouro quebrado e sem crédito, estatais brasileiras foram usadas para captação de recursos. 

Apesar do endividamento, os projetos de expansão e de modernização continuaram parados. Por isso muitas estavam financeiramente arrebentadas e tecnicamente atrasadas quando foram levadas à privatização.
A passagem do velho modelo para os novos tipos de capitalismo de Estado é examinada com base na experiência de países de todos os continentes. Apesar do cuidado com as nuances, a tipificação deve aplicar-se às economias desenvolvidas - tão diversas quanto as escandinavas e a americana - e também às emergentes e em desenvolvimento.

Mas depois do cenário mais amplo o foco se estreita e a discussão se concentra no exemplo brasileiro. A história é recontada a partir das privatizações e da adoção dos novos modelos. A mudança do Leviatã empreendedor para os dois novos tipos - o majoritário e o minoritário - abriu a possibilidade, em todos os países, de alterações importantes na condução das empresas. Como exemplos, maior autonomia, maior transparência e maior profissionalismo gerencial no dia a dia e na fixação de objetivos.

No Brasil, boa parte dessas possibilidades ficou inexplorada. Sem avaliações, os dois autores descrevem, com distanciamento acadêmico, as interferências na Petrobrás, a escolha de campeões e os estranhos critérios de financiamento e investimento do BNDES, as tentativas de intervenção na Vale (com a campanha contra o presidente Roger Agnelli) e outros fatos bem conhecidos, mas nunca reunidos e articulados numa pesquisa.

Os autores talvez pudessem, ou devessem, ter incluído na classificação subtipos de capitalismo de Estado, observáveis tanto no velho modelo do Leviatã empreendedor quanto nos casos dos Leviatãs majoritário e minoritário. O exemplo brasileiro a partir de 2003 seria rotulável como capitalismo de Estado dos cumpanhêro. O subtipo incluiria tanto a gestão subordinada a interesses partidários e eleitorais (com as nomeações segundo cotas) quanto a influência das ambições pessoais do governante (quando candidato, por exemplo, a líder regional).

Reinventing State Capitalism (Harvard University Press) é uma bela continuação do trabalho iniciado por Sérgio Lazzarini com seu Capitalismo de Laços - Os Donos do Brasil e suas Conexões, lançado em 2011.

Consultem o PCC

Percival Puggina. 
Zero Hora

Somos caça. Diariamente, ao colocarmos o pé na calçada, ao sairmos de nossa humilde toca ou de nosso bunker familiar, viramos caça. Se tudo correr bem, retornamos sãos e salvos por não termos sido alvo dos predadores. Nem por isso teremos deixado de ser caça. Tão caça quanto qualquer lebre corredeira. Saiba: no mundo civilizado não é assim.

 O notório agravamento da insegurança socialmente percebida tem profundas raízes ideológicas. Aliás, no Brasil (e no RS mais do que em qualquer outra parte), tudo é desgraçadamente ideologizado. Da religião ao chimarrão. Então, algo que deveria merecer consistente unanimidade por urgente interesse público, ou seja, o combate ao crime e à impunidade, o encarceramento dos bandidos, o cumprimento das penas, a extinção da farsa do semiaberto, a redução da maioridade penal, a ampliação das forças humanas e materiais das corporações policiais, é travado por argumentos ideológicos. Quais? Ora, não ensinava Proudhon que a propriedade é um roubo? Não frisaram, Marx e Engels, que abolir a propriedade é o resumo do comunismo? Não creem os que abraçam essa doutrina que a criminalidade ou se confunde inteiramente com a luta de classes, ou é um subproduto dela? Quando tratava da luta de classes, não abraçou-se Marx à frase de George Sand - "Vitória ou morte! Guerra sangrenta ou nada!"? Como pode um país saturado de marxismo entusiasmar-se com a tarefa de sustar qualquer instrumento da "reformulação da sociedade"?

Há poucos dias, assisti na tevê a entrevista feita com uma senhora cuja atividade econômica consistia em garimpar e revender rejeitos de um lixão. Com isso, cuidava dos filhos, comprou um automóvel e traçava projetos para cursar faculdade. Na perspectiva da luta de classes, essa admirável pessoa é uma burguesa alienada, ao passo que o assaltante de nossas ruas é um militante da justiça social, um soldado da causa. E merece toda a leniência que lhe é proporcionada pelas nossas instituições. Não veem elas o criminoso como um filho bastardo e infeliz da economia de mercado e do sistema de livre empresa? É exatamente por isso que as instituições, maculadas por uma ideologia insana, são tão indulgentes com os criminosos enquanto assimetricamente, relegam ao mais tenebroso abandono as suas vítimas.

Qualquer líder do PCC ou do Comando Vermelho, consultado sobre nossas leis penais, instituições policiais e sistema penitenciário, dirá: "Melhorem a hotelaria. E não mexam no resto que está bom demais". Ou não?

Consultem o PCC

Percival Puggina. 
Zero Hora

Somos caça. Diariamente, ao colocarmos o pé na calçada, ao sairmos de nossa humilde toca ou de nosso bunker familiar, viramos caça. Se tudo correr bem, retornamos sãos e salvos por não termos sido alvo dos predadores. Nem por isso teremos deixado de ser caça. Tão caça quanto qualquer lebre corredeira. Saiba: no mundo civilizado não é assim.

 O notório agravamento da insegurança socialmente percebida tem profundas raízes ideológicas. Aliás, no Brasil (e no RS mais do que em qualquer outra parte), tudo é desgraçadamente ideologizado. Da religião ao chimarrão. Então, algo que deveria merecer consistente unanimidade por urgente interesse público, ou seja, o combate ao crime e à impunidade, o encarceramento dos bandidos, o cumprimento das penas, a extinção da farsa do semiaberto, a redução da maioridade penal, a ampliação das forças humanas e materiais das corporações policiais, é travado por argumentos ideológicos. Quais? Ora, não ensinava Proudhon que a propriedade é um roubo? Não frisaram, Marx e Engels, que abolir a propriedade é o resumo do comunismo? Não creem os que abraçam essa doutrina que a criminalidade ou se confunde inteiramente com a luta de classes, ou é um subproduto dela? Quando tratava da luta de classes, não abraçou-se Marx à frase de George Sand - "Vitória ou morte! Guerra sangrenta ou nada!"? Como pode um país saturado de marxismo entusiasmar-se com a tarefa de sustar qualquer instrumento da "reformulação da sociedade"?

Há poucos dias, assisti na tevê a entrevista feita com uma senhora cuja atividade econômica consistia em garimpar e revender rejeitos de um lixão. Com isso, cuidava dos filhos, comprou um automóvel e traçava projetos para cursar faculdade. Na perspectiva da luta de classes, essa admirável pessoa é uma burguesa alienada, ao passo que o assaltante de nossas ruas é um militante da justiça social, um soldado da causa. E merece toda a leniência que lhe é proporcionada pelas nossas instituições. Não veem elas o criminoso como um filho bastardo e infeliz da economia de mercado e do sistema de livre empresa? É exatamente por isso que as instituições, maculadas por uma ideologia insana, são tão indulgentes com os criminosos enquanto assimetricamente, relegam ao mais tenebroso abandono as suas vítimas.

Qualquer líder do PCC ou do Comando Vermelho, consultado sobre nossas leis penais, instituições policiais e sistema penitenciário, dirá: "Melhorem a hotelaria. E não mexam no resto que está bom demais". Ou não?

A chave do tamanho.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Dilma está muito na frente, mas em risco; Aécio cresceu pouco, mas se chegar ao segundo turno pode ameaçar a favorita; Eduardo Campos está lá embaixo nas pesquisas, com menos de dez pontos (contra 36 de Dilma). Mas é ele a chave das próximas eleições presidenciais. Se Campos continuar encalacrado, com baixas porcentagens, aumenta muito a possibilidade de vitória de Dilma.

Os cálculos oposicionistas não levam em conta apenas as pesquisas, mas também a origem dos votos de cada candidato. Em 2010, contra José Serra, Dilma teve 14,5 milhões de votos de vantagem no primeiro turno. Imagina-se que, agora, a votação da presidente seja corroída em lugares importantes: na Bahia, onde ACM Neto tem prestígio e apoia Aécio; no Ceará, onde o candidato favorito Eunício Oliveira está com a presidente mas sem entusiasmo, e aliado ao tucano Tasso Jereissati, que é Aécio; em Pernambuco, onde Eduardo Campos tem força; no Rio, onde ninguém ainda sabe direito quem está com quem; e em Minas, a fortaleza de Aécio. Nesses Estados, em 2010, Dilma teve vantagem de pouco mais de 10 milhões de votos. Mesmo que toda essa diferença fosse anulada, ainda faltariam votos à oposição - votos que, esperava-se, Eduardo Campos lhe tiraria no Nordeste. O problema é que quem está se derretendo é Eduardo. Alguns de seus votos podem ir para Aécio, mas, no Nordeste, a maioria vai para Dilma.

Aécio deve crescer em São Paulo, com Alckmin, e no Rio Grande do Sul, com Ana Amélia, PP. 

Mas a chave do tamanho da oposição é Eduardo Campos.

Questão de etiqueta
A pesquisa foi elaborada pelo Instituto Ipsos para a Fiesp, Federação das Indústrias de São Paulo, cujo presidente é um empresário muito próximo do PT, Benjamin Steinbruch: 69% da população estão preocupados com os grandes aumentos de preços nos últimos seis meses. Não importa a faixa de renda, grau de instrução ou idade, a percepção de alta do custo de vida é a mesma. As queixas mais comuns se referem a preços de alimentos, bebidas e alimentação fora de casa. Os salários, segundo a pesquisa, não subiram o suficiente para compensar os preços mais altos. E carestia decide voto - tanto que George Bush, pai, popularíssimo, perdeu a reeleição para Bill Clinton, que só falava de economia.

Seis ou meia dúzia
O ex-governador José Roberto Arruda, ficha-suja que conseguiu registro dias antes da condenação pelo Tribunal de Justiça, tem a candidatura ao Governo de Brasília contestada pelo Ministério Público. Seu partido, o PR - cujo comando nacional está em Brasília, centralizado na cela de Valdemar Costa Neto no presídio da Papuda - analisa a possibilidade de troca de candidato: em vez de Arruda, Liliane Roriz, filha do ficha-suja Joaquim Roriz, ou Gim Argello. 

Então, tá.

Volume ocioso
Democracia tem custo e é preciso pagá-lo (até com prazer, porque a falta de democracia é inaceitável e tem custo muito maior). Mas não é preciso exorbitar: o Congresso, sem ter votado a Lei de Diretrizes Orçamentárias, sem o que, de acordo com a Constituição, não poderia entrar em recesso, decidiu-se por uma gambiarra. Suas Excelências não estão em recesso, mas não trabalharão até a eleição - recebendo o salário integral, claro. É recesso, mas não se chama recesso.

Qual o custo? De acordo com a ONG Contas Abertas, o custo do Congresso, funcionando ou não, é de R$ 23,9 milhões por dia - quase um milhão de reais por hora. O cálculo foi feito dividindo-se o orçamento somado da Câmara e do Senado pelo número de dias do ano. E, mesmo quando nada funciona, os gastos se mantêm. Até carros com motorista foram alugados com o Congresso parado.

Tô nem aí
Danúbia de Souza Rangel, a Xerifa da Rocinha, esposa do traficante Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem da Rocinha, tem duas prisões preventivas em processos por tráfico. Mas fica em casa, em prisão domiciliar, sem monitoramento. É que a Xerifa da Rocinha tem uma filha de quatro anos que ficou muito abalada com a prisão da mãe. 

De acordo com o desembargador Siro Darlan, da 7ª Câmara Criminal, o direito à convivência familiar "é tão importante quanto o direito à vida, à saúde, à alimentação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito e à liberdade". 

Como em Campo Grande. MS, não há tornozeleiras eletrônicas, à Xerifa da Rocinha bastou garantir que não sairá de casa. 

Problema deles
E os parentes de quem compra drogas, como fica a questão da convivência familiar? 

Ora, caro leitor, deixe de ser chato. Cada pergunta difícil!

Boa notícia
A reunião dos chefes de Governo dos Brics (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) já deu um bom resultado: a Embraer vendeu 60 jatos para a China, sendo 40 para a Tianjin Airways, 20 modelo E-190 e 20 modelo E-190E-2; e 20 jatos E-190 para o Banco Industrial e Comercial da China. Os contratos foram assinados no Palácio do Planalto, na presença dos presidentes Dilma Rousseff e Xi Jinping. Os aviões devem ser entregues entre 2015 e 2018. 

Mais de mil jatos foram vendidos desde 2004, para empresas de 45 países.

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

'Me acode, Lula!'

Ricardo Noblat

Quem disse indignado na semana passada: “A política está apodrecida no Brasil”?

E quem disse: “É preciso acabar com partidos laranjas, de aluguel, que utilizam seu tempo [de propaganda eleitoral no rádio e na TV] para fazer negócio"?

Por último, quem disse que deveriam “ser consideradas crime inafiançável doações de empresas privadas para partidos”?

Está de pé? Melhor sentar. Foi Lula quem disse. Acredite!

Estou de acordo: não é de hoje que Lula diz o contrário do que faz. Ou afirma algo que nega amanhã. Ou simplesmente reescreve fatos conhecidos.

Procede assim porque acha que a política é para ser feita assim. Aprendeu de tanto observar os costumes alheios quando era líder sindical ou político novato.

Aprendeu, também, depois de perder três eleições presidenciais seguidas.

Agora, chega! – concluiu em 1998 ao ser derrotado pela segunda vez por Fernando Henrique. Deve ser por isso que sempre o trata mal. Parece esquecido de que foi cabo eleitoral dele.

Adiante.

Lula mandou chamar à sua presença o presidente do PT, à época José Dirceu. E ordenou-lhe que jogasse as regras do jogo para elegê-lo. Não estava mais disposto a bancar o bobo.

A semente do escândalo do mensalão caiu em terra fértil quando Lula, na companhia de José Alencar, seu futuro vice, assistiu à compra por pouco mais de R$ 6 milhões do apoio do PL do então deputado Valdemar Costa Neto. 

O negócio foi fechado em um apartamento de Brasília. Lula e Alencar ficaram no terraço. Dirceu, Delúbio Soares, tesoureiro do PT, e Valdemar, se trancaram num quarto.
O efeito devastador sobre o governo do escândalo do mensalão obrigou Lula a convocar uma cadeia nacional de rádio e de televisão para pedir desculpas aos brasileiros.

Foto: Sebastião Moreira / EFE
Dilma e Lula  

Uma vez terminado o julgamento do mensalão, disse que ele jamais existiu. E acusou o Supremo Tribunal Federal, cuja maioria dos ministros foi nomeada por ele, de ter se curvado à pressão da mídia.

Incoerência? Que nada. Esperteza!

Em 2005, Severino Cavalcanti (PP-PE), presidente da Câmara dos Deputados, renunciou ao cargo e ao mandato para escapar de ser cassado. Recebera um mensalinho pago pelo dono de um restaurante.

Lula saiu em defesa dele três anos depois. Afirmou que o respeitava muito. E culpou parte da “elite paulista” pela queda de Severino. Ainda não existia a “elite branca” capaz de vaiar Dilma.

A um amigo, em conversa recente, Lula referiu-se a Dilma como “aquela mulher”. Lamentou não ter combinado abertamente com ela que a substituiria já este ano como candidato a presidente.

Dilma conta a história de que consultou Lula sobre seu desejo de voltar ao poder. E diz que ele negou o desejo. 

Antes de se lançar candidato do PSB à vaga de Dilma, Eduardo Campos ouviu de Lula que não disputaria a eleição.

O “Volta, Lula!” esfriou. O “Me acode, Lula!” só faz esquentar. Para tristeza de Dilma.

Ela imaginou que chegaria às vésperas da eleição deste ano menos dependente de Lula. Mas não. Em primeiro lugar, depende de Lula para se reeleger. Em segundo, do engenho e arte do seu marqueteiro.

O tempo de propaganda eleitoral de Dilma será três vezes maior que o de Aécio e cinco vezes maior que o de Eduardo. Por quê?

Porque Lula costurou uma aliança de 10 partidos, a maioria de aluguel, que doou a Dilma seu tempo de propaganda em troca de dinheiro e de cargos no governo.

Se tudo der certo, Lula promete acabar com os meios reprováveis que teriam ajudado Dilma a se reeleger.

Você acredita?

Todos no mesmo bote de fibra óptica

Fernando Gabeira
O Estado de S.Paulo

Na Copa das Confederações torcemos para o Taiti. Mesmo quando perdia de 10 a 0, ainda vibrávamos com as raras oportunidades de um gol de honra. O Taiti não é aqui. É um país do surfe de ondas gigantes, com suas águas azuis e a temível Praia de Teahupoo, conhecida como Quebra Crânio. Já o Brasil é, ou era, o país do futebol. Gastamos R$ 40 bilhões para sediar a Copa do Mundo e fomos os únicos a perder de 7 a 1.

A presidente Dilma declarou no Paraná que o Exército usaria, para resgatar as vítimas do temporal, um bote de fibra óptica. No início fiquei em dúvida. Tinha visto na TV um programa sobre como o GPS orienta a agricultura americana, aumentando sua produtividade e traçando com rigor a trajetória ideal dos tratores. Será que haviam inventado um bote de fibra óptica para explorar as riquezas do mar, quem sabe até do pré-sal? Mas o bote de fibra óptica não existe nem será inventado. Ele é, para mim, o sinônimo de uma canoa furada em que todos navegamos no momento.

Dilma também chamou de urubu quem não acreditava nas maravilhas da Copa. Caiu um pequeno viaduto, mas isso não é problema, porque não havia ninguém do governo embaixo dele no instante da queda. Já escrevi sobre ser chamado de urubu pela artilharia eletrônica petista. Urubu é o símbolo da torcida do Flamengo. É o preto da camisa rubro-negra, cores do Íbis, o pior time do mundo, ou da Alemanha, que nos serviu o chocolate da Copa das Copas, portanto, o chocolate dos chocolates.

Não sei o que a presidente tem contra os urubus. Tom Jobim amava-os e discorria longamente sobre a elegância de seu voo, nas mesas do Degrau, no Leblon da sua época. Fez uma linda melodia para traduzir em sons a beleza de seus movimentos. Não creio que seja pela cor, porque esse tipo de preconceito, teoricamente, o PT não tem. Ou porque come bichos mortos, algo que a maioria da humanidade faz. Pode-se dizer em defesa dos seres humanos que não comem um animal cru. Mas isso era antes da chegada dos restaurantes japoneses, de vez que os bifes tártaros eram exclusividade de uma minoria.

Dilma estava rígida na final da Copa. Nem se levantou para aplaudir o gol da Alemanha. E quem não aplaudiu aquele gol de Götze ou não gosta de futebol ou é argentino, pois os hermanos sentiram ali que perdiam o título. Compreendo esse medo, já que estamos no mesmo bote de fibra óptica, na mesma canoa furada. Durante os primeiros dias após os 7 a 1 fiquei com medo de abrir as gavetas e encontrar mais um gol da Alemanha. Se Dilma deixasse sua cadeira, poderiam encontrar mais um gol da Alemanha embaixo dela.

Continuo defendendo o direito ao delírio e, claro, as opiniões. Lula disse na África do Sul que os outros países viriam disputar o segundo lugar, porque a Copa era nossa. Parreira disse que estávamos com a mão na taça. Felipão elogiou o próprio trabalho e o da geração tóis, que se define com um movimento de braços que faz um T, o mesmo com que Dilma posou na internet quando as coisas iam bem. A geração tóis, que se descreve com os braços, na verdade, deu uma banana para os que esperavam, ao menos, a garra dos argelinos.

Livre do furor patriótico, estimulado pelo governo e por grandes empresas envolvidas, é possível agora pensar com calma.

Como encarar com otimismo uma seleção que toma a família como modelo? Nada contra a família, respeito a opinião do herói da torcida, David Luiz: sexo só depois do casamento. Mas a família não é a forma adequada para desenvolver um trabalho desse tipo. Entre crises de choro e rezas, os jogadores se desmanchavam. E os psicólogos diziam que era o peso de tanta expectativa nacional. Somos o único país do mundo onde torcida a favor é vista como um fator negativo.

A torcida foi ótima. Não podia ser a mesma do Taiti, porque levamos o Brasil a sério no quesito futebol. Os inúmeros canais de TV nos puseram, nos últimos anos, em contato com o futebol de quase todo o mundo. Campeonatos espanhol, inglês, alemão. Era possível ver uma evolução maior que a brasileira. Mas isso era uma evidência para os que gostam e acompanham o futebol, embora muitos cronistas se tenham deixado levar pela emoção patriótica.

A cúpula do futebol está apodrecida. Talvez venha agora uma mudança, já que o foco está na análise da catastrófica participação brasileira na Copa. Mas quantas coisas não estão decadentes no Brasil e ainda estão camufladas? A indústria está em decadência e seu movimento para baixo ainda não desperta o interesse nacional. A política está decadente, num nível de putrefação que os franceses definem como faisandé, o qual repugna até meu estômago de urubu.

Somos um povo alegre e comunicativo. Mas isso não supera uma lacuna em nossa educação: um esmagador número de monoglotas. Em 2008 tentei transformar isso num grande tema político. Avançamos muito pouco desde então e não há sinais de termos tomado consciência dessa fragilidade. Seria injusto com o marxismo atribuir a indiferença ao inglês a uma resistência ideológica. Os chineses não pensam assim e tratam de dar passos mais largos.

Sei que é difícil apontar essas lacunas. No Brasil vivemos num mundo tão extraordinário que temos de imitar o célebre urubu de Stanislaw Ponte Preta e voar de costas. Sobrevoar um país onde os jornais diziam que o zagueiro Dante iria ser um trunfo porque, jogando no Bayern, conhece os alemães. E nem uma vivalma para lembrar as fortíssimas evidências de que os alemães podiam também conhecer Dante.

Nos morros do Rio, estimulados por traficantes, alguns moradores chamam os adversários de alemães. Está na hora de nos abrirmos um pouco para algumas qualidades dos alemães.

Podemos ser um país melhor. Antes teremos de perder esse espírito de fodões de que com tóis ninguém pode, vem quente que estou fervendo. Ele favorece os apagões, nas semifinais da Copa ou na noite de núpcias. Foi-se o tempo em que pensávamos que os alemães eram limitados porque eram apenas organizados e bem treinados. São tudo isso e têm talento. É a única combinação que leva à vitória ou, ao menos, a uma derrota honrosa.

O Brasil na armadilha

O Estado de S. Paulo 
Editorial 

Doze horas depois de anunciar a nova decisão sobre os juros, mantidos em 11%, apesar da inflação elevada e resistente, o Banco Central (BC) publicou o complemento da história: a produção continua estagnada e o País, na melhor hipótese, está pouco acima de uma recessão. Confirmou-se, mais uma vez, a armadilha apontada por vários analistas - uma combinação de fortes pressões inflacionárias com grave enfraquecimento da economia. A manutenção da taxa básica de juros, a Selic, foi sacramentada, sem surpresa, na quarta-feira à noite. Na quinta de manhã foi divulgado o índice mensal de atividade econômica (IBC-Br) produzido pela instituição e considerado uma prévia do Produto Interno Bruto (PIB). Em maio, o indicador ficou 0,18% abaixo do nível de abril e apenas 0,38% acima do apurado um ano antes, na série livre de efeitos sazonais. No trimestre encerrado em maio o resultado foi 0,33% mais alto que o dos três meses até abril.

Mesmo sem conhecer esses dados - uma hipótese improvável - os membros do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC dispunham de informação suficiente, acumulada no último mês e meio, para saber do estado precário da economia. A produção industrial caiu 0,6% de abril para maio e ficou 3,2% abaixo do nível de um ano antes. De janeiro a maio o setor produziu 1,6% menos que no mesmo período de 2013. O emprego industrial continuou em queda. Caiu 0,7% de abril para maio, ficou 2,6% abaixo do registrado um ano antes e recuou 1,7% em 12 meses. O número de horas pagas diminuiu, mas, apesar disso, a folha de pagamento, descontada a inflação, ainda custou 14% mais que em abril de 2013 - mais um sinal do desajuste, apontado várias vezes pelo BC, no mercado de trabalho.

O mau desempenho da indústria já se reflete no setor de serviços. A receita nominal do setor, em maio, foi 6,696 maior que a do mês correspondente do ano passado. Descontada a inflação, restou um crescimento muito próximo de zero. As únicas boas notícias do setor produtivo são as da agropecuária, com perspectiva de mais uma safra recorde de grãos e oleaginosas. No setor externo, só o agronegócio, com superávit comercial de US$ 40,78 bilhões no primeiro semestre e de US$ 8243 bilhões em 12 meses, tem evitado um desastre completo.

A evolução do IBC-Br nos 12 meses terminados em maio - 1,95% -ainda é melhor que o crescimento previsto para o PIB entre janeiro e dezembro deste ano, de 1,6% nas con- tas do BC e de 1,05% nas do mercado. Todas as medidas de estímulo anunciadas nos últimos quatro ou cinco anos fracassaram. Foram insuficientes para reforçar o potencial de produção e de crescimento da indústria e, de modo geral, da economia brasileira. Os poucos segmentos dinâmicos e competitivos, como a agropecuária e a indústria aeronáutica, mantiveram seus padrões e continuaram avançando, apesar da baixa qualidade geral da política econômica e da ineficiência geral da economia. O último pacote anunciado pelo Executivo dificilmente produzirá resultados melhores, porque, com poucas mudanças, é uma reedição de medidas já fracassadas.

Quanto à inflação, nem os dirigentes e técnicos do BC parecem levar muito a sério o recuo das taxas nos últimos dois meses. Oficialmente, eles ainda esperam efeitos dos nove aumentos de juros entre abril do ano passado e abril deste ano. Evitam novos aumentos e provavelmente continuarão evitando até o fim do ano, ou, no mínimo, até a apuração das eleições.

Mas continuam descartando a hipótese de redução significativa da inflação anual até o fim de 2015. Mantêm, oficialmente, a perspectiva de uma convergência gradual para o centro da meta (4,5%), mas sem fixar com clareza um prazo, mesmo aproximado. Se houver novidade quanto a isso na ata da reunião do Copom, com divulgação prevista para a próxima quinta-feira, será uma surpresa.

A melhora dos indicadores de crescimento econômico e de inflação depende, em grande parte, do Executivo. Mas a presidente Dilma Rousseff teria de buscar a austeridade orçamentária e de mudar amplamente a estratégia de crescimento - hipóteses quase inimagináveis.

A cor do recesso

Luiz Garcia
O Globo

Está decidido que, até o fim do primeiro turno das eleições deste ano, Senado e Câmara dos Deputados simplesmente fingirão que trabalham

Tudo bem — ou, melhor dizendo, tudo mal —, a Copa acabou e está na hora de o Brasil voltar ao batente. Na área dos poderes da República, isso significa tocar para frente este país que todos acreditamos ser maravilhoso e promissor; ou seja, ele tem ao mesmo tempo um belo futuro pela frente e não está ainda, digamos assim, inteiramente pronto.

É óbvio e indispensável que a decisão de arregaçar as mangas e mergulhar no tal batente seja visível e, digamos assim, realmente honesta. Assim deve ser — mas, lamentavelmente, não é o que nos contam as notícias de Brasília. Acabamos de ficar sabendo que as duas Casas do Congresso — pelo visto exaustas com os dias de patriótico esforço na torcida pela vitória que não tivemos no gramado — decidiram entrar num tal de recesso branco. A expressão, para quem ainda não sabe, tem lamentável significado: não se trabalha, mas, para efeito público, finge-se que há trabalho.

Talvez fosse mais honesto rotular o recesso branco com outra cor: talvez, chamá-lo de vermelho, que é a cor da vergonha. Está decidido que, até o fim do primeiro turno das eleições deste ano, Senado e Câmara dos Deputados simplesmente fingirão que trabalham. Fica a triste impressão de que os nossos ilustres representantes estão convencidos que este nosso país já está, digamos assim, pronto e descansado.

Só isso justificaria o que foi decidido: nos 80 dias que nos separam das eleições, os senadores trabalharão exaustivos dois, em agosto. Os deputados terão maior sacrifício, com dois dias em agosto e mais dois em setembro. Mas os eleitores não precisam se preocupar com o bem-estar daqueles em quem votaram: seus representantes não perderão um só tostão de seus vencimentos. Para quem não sabe, são R$ 26.700 por mês pelos seus patrióticos esforços.

O tal recesso branco seria aceitável, pelas normas do Legislativo, caso senadores e deputados tivessem votado a indispensável Lei de Diretrizes Orçamentárias do ano que vem. Mas nem isso aconteceu. Em defesa do que foi decidido pelos nossos exaustos parlamentares, o presidente do Senado e do Congresso, Renan Calheiros (do PMDB de Alagoas) teve uma admirável explicação: não se trata de recesso branco, mas de “compatibilização entre as atividades do Legislativo e as eleições”. Ele reconheceu que não haverá ordem do dia, mas “sessões de discussão”. Ou seja, uma oportunidade para discursos de eminentes representantes do chamado baixo clero, que não perdem a oportunidade de soltar o verbo para plenários vazios ou, simplesmente, desinteressados.

Lula, Boulos e as fantasias burguesas

Reinaldo Azevedo
Folha de São Paulo

O MTST resgata certa pureza e certa crueza proudhonianas, distantes do legalismo petista

O MTST, os ditos "trabalhadores sem teto", está descontente com os serviços de telefonia. Na quarta, seus militantes protestaram na Anatel e nas respectivas sedes da TIM, Claro e Oi. Não deu tempo de ir à da Vivo. A turma agencia também essa causa. Um comunicado parece inaugurar a fase holístico-roqueira do socialismo: "Se acham que a gente vai se contentar só com nossa casa, estão enganados. Queremos moradia, transporte público de qualidade, telefonia e internet, e a gente não aceita pagar caro, não". É o "aggiornamento" dos Titãs --"A gente não quer só iPhone..."-- e o embrião de um novo partido.

Guilherme Boulos, um dos comandantes do MTST e colunista desta Folha, traz consigo o charme irresistível da renúncia. Oriundo da classe média-alta, com formação intelectual, prefere dedicar-se à categoria dos "Sem" --até dos "Sem-Sinal" de telefonia. Lembro-me do fascínio que tive ao ler, aos 15 anos, "Minha Vida", a autobiografia de Trótski. Largou as benesses do pai abastado para morar no quintal do jardineiro Shvigovski, o revolucionário "do pomar". Um encanto!

A coisa meio chata para mim é que eu lia o livro com um fio de lâmpada sobre a cabeça, na cozinha de modestíssimos dois cômodos, à beira de um córrego fétido. Não demorei a entender que certa renúncia é um privilégio de classe, não uma superioridade moral. Dispensar a riqueza abre a vereda para a terra da santidade. A trajetória contrária é coisa de um parvenu. Muita gente com dificuldades de acreditar em Deus crê nos profetas.

Não falo de Boulos, mas do que ele representaria: o anunciador de uma nova era, quem sabe uma Idade de Ouro da real igualdade, uma espécie de celebração do encontro de Virgílio com Marx. "Ecce homo." Lula sempre constrangeu as esquerdas com suas grosserias. Em 1979, por exemplo, concedeu uma entrevista à revista "Playboy" (is.gd/g948iR) em que barbarizou.

Confessou, de modo oblíquo, que sua iniciação sexual se dera com animais. Pegava as viuvinhas que iam ao sindicato resolver problemas relacionados à Previdência. Conhecia o sogro de Marisa, sua atual mulher --então viúva--, e pensava: "Ainda vou papar a nora desse velho". Filosofou: "O problema de mulher é você conseguir pegar na mão. Pegou na mão"¦". Admirava pessoas "que estiveram ao lado dos menos favorecidos". Entre os mortos, Tiradentes, Gandhi, Che Guevara, Mao Tse-tung e Hitler ("mesmo errado" --ufa!!!). Entre os então vivos, Khomeini e Fidel Castro. Mas a semente estava lá. Pensou alto: "É preciso fazer alguma coisa para ganhar mais adeptos, não se preocupar com a minoria descontente, mas se importar com a maioria dos contentes". Poderia ser a divisa de um fascismo. Deu no petismo.

Poucos, ou ninguém, teriam sobrevivido àquela entrevista. As circunstâncias históricas --primeiro ano da "ditadura esculhambada", de Figueiredo-- o salvaram. Era a suposta realização de um projeto acalentado por parte da esquerda: o "intelectual orgânico" da classe operária, que não mais distinguia o pensar do fazer. Em 1982, candidato ao governo de São Paulo, foi inquirido por Rogê Ferreira, do PDT: "Você é socialista, comunista ou trabalhista?". Lula mandou ver: "Sou torneiro mecânico". Marilena Chaui aplaudiu como se fosse Spinoza. Ela encontrava, finalmente, a "nervura do real".

Mas Lula também já é um parvenu. Há quem não goste dele não por aquilo que pensa, mas por ter traído supostos emblemas de sua "classe natural". O MTST, atuando como partido, resgata, por intermédio de sua principal liderança, certa pureza e certa crueza proudhonianas, distantes do legalismo petista. Ao movimento, tudo é permitido --violar leis ou furar a fila das pessoas que aguardam, pacificamente, por uma casa. Se preciso, a turma cerca o Poder Legislativo e sobrepõe a vontade de uns poucos milhares aos votos de muitos milhões. É a "democracia direta" reduzindo o grupo decisório para ganhar eficiência, compreendem?

Lula foi a encarnação do delírio das esquerdas à espera do "intelectual orgânico" da classe operária. Mas ele se aburguesou sem nunca ter buscado a altitude das ideias. Boulos, não! Ele nos devolve ao refinado Iluminismo francês. Os seus sem-teto são os "sans-cullotes" das fantasias jacobinas --que são, desde sempre, fantasias... burguesas!

Maioria das escolas públicas não tem acessibilidade nem rede de esgoto

Thiago Reis e Ana Carolina Moreno
Portal  G1

Metade também não conta com internet, revela Censo Escolar 2013.

'É preciso que haja política de desenvolvimento social por inteiro', diz MEC.

Escolas sem acessibilidade, sem rede de esgoto, sem quadra de esportes e biblioteca, sem laboratórios de ciências e informática. Essa é a realidade de mais da metade dos colégios públicos do país, segundo dados do Censo Escolar 2013, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

Levantamento feito a pedido do G1 pela Fundação Lemann e pela Meritt, responsáveis pelo portal QEdu, mostra a desproporção entre as escolas públicas e privadas no que diz respeito à infraestrutura no Brasil. Na metade dos colégios públicos, por exemplo, não há acesso à internet. Já na rede particular, o número de escolas com computadores conectados chega a quase 90% .

Os dados mostram que só 36% das escolas públicas têm esgoto encanado hoje – mais da metade delas contam apenas com uma fossa –, e 7% das instituições mantidas pelos governos não têm nenhum tipo de estrutura para lidar com os resíduos sólidos. Trata-se de uma enorme diferença em relação às particulares. Na rede privada, só 17% das escolas não contam com o serviço de esgoto encanado.

Para a secretária de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC), Maria Beatriz Luce, os números do Censo expõem vários desafios no setor. “Os dados revelam claramente o contexto histórico-social do direito à educação e das responsabilidades e instrumentos da ação pública no setor. Mas eles não dizem respeito somente à educação, eles revelam as estruturas das desigualdades sociais no nosso país. Se há escolas que não têm esgoto nem internet, é provável que as residências no seu entorno também não tenham. Então é preciso tratar de uma política de desenvolvimento social por inteiro”, afirma.

Ernesto Martins Faria, coordenador de projetos da Fundação Lemann, diz que é preciso levar em conta que o contexto em que as redes privada e pública estão inseridas é completamente diferente. “A escola pública precisa atender crianças e jovens independentemente da região em que moram e das condições de sua localização, enquanto a escola privada existe quando há um interesse de um ofertante que vê uma demanda disposta a investir uma quantia financeira no ensino de seus filhos. Não por acaso são poucas as escolas privadas na rede rural”, diz.

(Foto: Igor Savenhado/G1) 
Vista Alegre do Alto (SP) é exceção no país: 
todas as escolas públicas têm acessibilidade, esgoto encanado, quadra, biblioteca e internet 

Para ele, não é a defasagem em comparação com a rede privada que mostra a necessidade de a infraestrutura do ensino público melhorar. “A infraestrutura da rede pública precisa melhorar, pois boas condições para a aprendizagem são direitos dos alunos.”

Deficiências
Uma análise feita pelo G1 nos principais quesitos mostra, entretanto, que as deficiências não têm sido supridas ao longo dos anos. De 2010 a 2013, o percentual de escolas públicas com bibliotecas foi de 27% para 29%. Já a porcentagem de colégios com rede de esgoto subiu de 33% para 36% apenas.

Para Daniel Cara, coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, há hoje dois desafios latentes: a aquisição de insumos infraestruturais e a manutenção deles. “No caso das escolas públicas, depende do orçamento público. Muitos estados e municípios não têm orçamento suficiente. Então é preciso apoio da União. Aliás, é isso o que diz a Constituição Federal e não é cumprido. Além disso, a União não pode se notabilizar por adquirir equipamentos e depois não colaborar com a manutenção dos mesmos. Não falo apenas deste governo, falo deste e de todos os anteriores”, diz.

Os dados revelam claramente o contexto histórico-social do direito à educação e das responsabilidades e instrumentos da ação pública no setor. Mas eles não dizem respeito somente à educação, eles revelam as estruturas das desigualdades sociais no nosso país"
Maria Beatriz Luce, secretária de Educação Básica do Ministério da Educação

Existem hoje no país 38.835 escolas privadas e 151.871 escolas públicas, totalizando 190.706 instituições de ensino básico.

Discrepâncias
O percentual de escolas com biblioteca nas duas redes de ensino é um exemplo da discrepante oferta de serviços. Só 29% das públicas contam com o espaço. Já na rede privada, 59% das instituições possuem um espaço com acervo de livros para consulta.

Maria Beatriz diz que o problema nas instituições públicas é a falta de uma sala específica para tal fim. “Livros chegam a todas as escolas. O que às vezes não há é um espaço próprio. Algumas escolas rurais contam com apenas um ambiente, então não há nem espaço físico para uma biblioteca. O que a gente tem tentado fazer é colocar uma biblioteca dentro das salas de aula, para o aluno poder pegar o livro a qualquer hora. Há outros projetos interessantes, de bibliotecas ambulantes, por exemplo.”

Em relação à acessibilidade, tanto as escolas públicas quanto as privadas ficam devendo. Apenas 19% das públicas e 31% das privadas oferecem aos deficientes acesso adequado às suas dependências.

A maior parte das variáveis diz se a escola tem ou não tem alguma coisa, mas não diz nada sobre a qualidade. Assim, pode ser ainda que essas escolas que possuem maior disponibilidade de recursos também possuam infraestrutura de melhor qualidade, o que aumenta ainda mais a desigualdade nas condições de ensino"
Renan Pieri, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas

A secretária de Educação Básica ressalta que, apesar do índice baixo, houve um aumento de 61% em três anos no número de escolas acessíveis. “É algo fantástico, porque mostra uma conscientização da sociedade, que há uma política de inclusão escolar, levando às escolas crianças que antigamente eram isoladas do convívio com outras.”

Em relação à internet nas escolas públicas, Maria Beatriz diz que a meta é que todas contem com o serviço, mas que há barreiras a transpor antes disso. “Às vezes não há nem eletricidade, que é o caso de muitas escolas rurais. Então o Ministério da Educação está trabalhando em um projeto com o Ministério de Minas e Energia para dar prioridade de acesso de energia, à medida em que as redes vão avançando pelo campo, às escolas”, diz, citando que em alguns colégios na Amazônia há iniciativas de acesso à web por meio de placas solares.

Quantidade x qualidade
Segundo o pesquisador Renan Pieri, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), as escolas só precisam preencher no formulário do Censo se possuem ou não um equipamento e, por isso, os dados não revelam em que estado se encontram essas infraestruturas. “A maior parte das variáveis diz se a escola tem ou não tem alguma coisa, mas não diz nada sobre a qualidade. Assim, pode ser ainda que essas escolas que possuem maior disponibilidade de recursos também possuam infraestrutura de melhor qualidade, o que aumenta ainda mais a desigualdade nas condições de ensino”, afirma.

(Foto: Igor Savenhago/G1) 
Metade das instituições de ensino básico tem
acesso à internet; nas privadas, índice chega quase a 90% 

Dentro do próprio universo da rede pública, é possível perceber diferenças significativas tanto na oferta como na qualidade. Só 2% das escolas municipais têm um laboratório de ciências, por exemplo, contra 29% das estaduais e 72% das federais.

“Essa diferença também se manifesta geograficamente, sendo que as escolas rurais possuem disponibilidade de infraestrutura muito inferior às urbanas. Tal relação se explica pelo fato de parte significativa das escolas rurais serem municipais. A disponibilidade de infraestrutura em uma escola estadual está bem mais próxima da privada do que a municipal”, diz Pieri.

Segundo Ernesto Faria, da Fundação Lemann, os dados de infraestrutura escolar ilustram “dois Brasis”: o Brasil urbano e o Brasil rural. “O rural está em condições muito piores, e é preciso olhar mais para ele. Muitas comunidades rurais estão em áreas de infraestrutura precária, e os dados de rede de esgoto e acesso à internet são reflexo dos problemas locais”, diz o economista.

Maria Beatriz concorda que é preciso refletir sobre os dados levando em consideração a localização e as mantenedoras dos colégios. Segundo ela, uma leitura por outro viés mostra ainda que a educação infantil, com creches em estado crítico, é a que precisa de mais infraestrutura.

Os dados de infraestrutura escolar ilustram 'dois Brasis': o Brasil urbano e o Brasil rural. 
O rural está em condições muito piores, e é preciso olhar mais para ele"
Ernesto Martins Faria, coordenador de projetos da Fundação Lemann

“O que a gente tem feito para auxiliar os municípios é dar a eles um projeto arquitetônico básico de uma escola, com todas as especificações, com uma quadra de esportes ou espaço para recreação, salas adequadas. A prefeitura tem que entrar apenas com a área já terraplanada. Até empresas já qualificadas a gente tem para atender as demandas das localidades, que têm dificuldade de fazer um processo de licitação”, afirma a secretária do MEC. Segundo ela, há hoje 6,7 mil escolas de educação infantil em construção.

De acordo com os números do Censo, as escolas públicas (inclusive as rurais) só superam as particulares em um item: alimentação. Segundo os dados, 100% das escolas municipais, estaduais e federais fornecem uma refeição aos estudantes (ante 29% das privadas). Isso acontece, no entanto, porque a merenda escolar na rede pública é obrigatória por lei.

Índice de infraestrutura
O pesquisador Renan Pieri defende a criação de um índice de infraestrutura escolar, além de um para analisar a formação dos professores. “A ideia é sintetizar todas essas informações do Censo (só no caso do indicador de infraestrutura são mais de 25 variáveis) em indicadores simples que qualifiquem a divulgação dos índices de qualidade da educação. Assim, quando saírem a ANA [Avaliação Nacional de Alfabetização] ou o Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica] será possível entender quais fatores explicam algumas escolas terem melhor desempenho que outras e separar o que é devido a diferenças de infraestrutura ou qualificação dos docentes e o que é devido às boas práticas e ideias inovadoras que os gestores têm adotado”, diz.

(Foto: Igor Savenhado/G1) 
Percentual de bibliotecas nas duas redes de ensino é discrepante 

O Censo Escolar é realizado todos os anos e coleta, além de dados sobre a infraestrutura dos estabelecimentos, números de matrículas e estatísticas de abandono e de rendimento escolar. Neste ano, o Inep iniciou a coleta no último dia 28. Ela deve ser feita até o dia 15 de agosto.

Segundo o instituto, as informações são utilizadas para traçar um panorama nacional da educação básica e servem de referência para a formulação de políticas públicas e execução de programas na área da educação, incluindo os de transferência de recursos públicos.

“É necessária uma política de cooperação federativa para combater as desigualdades, aprimorar as condições e induzir um padrão nacional de qualidade nas escolas, não importando se ela é privada, municipal, estadual ou federal”, afirma Maria Beatriz Luce. “O quadro não é satisfatório. Há uma insuficiência da estrutura, que evidencia o baixo valor secular dado à educação. Mas o MEC tem trabalho cada vez mais, investindo também na gestão da educação, com a qualificação de diretores e a formação de professores”, conclui.

Internet nas escolas públicas segue restrita aos laboratórios

Renata Honorato
Veja online

Pesquisa indica que 76% do uso da rede como suporte educacional ocorre nesses ambientes; velocidade da conexão da web também é um problema

(Getty Images) 
Laboratório de informática 

O termo "informática" já caiu em desuso quando o assunto é inovação e tecnologia. Nas escolas públicas brasileiras, no entanto, os chamados laboratórios de informática continuam sendo o principal local de acesso dos alunos à web, segundo pesquisa TIC Educação 2013, realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) e divulgada nesta terça-feira. De acordo com o estudo, 76% do uso da rede como suporte educacional ocorre nesses ambientes. O resultado evidencia o atraso das escolas públicas nesse setor e a limitação estrutural enfrentada pelos professores que tentam tornar suas aulas mais dinâmicas a partir de recursos digitais.

Para o levantamento anual, o TIC Educação 2013 entrevistou 9.657 alunos, 1.987 professores, 939 diretores e 870 coordenadores pedagógicos entre os meses de setembro e dezembro do ano passado. Participaram da pesquisa escolas públicas e privadas localizadas em áreas urbanas de todo o Brasil.

Ainda que dentro dos laboratórios, o acesso à internet e o uso de computadores nas escolas públicas cresceu no país. De acordo com o estudo, 46% dos professores exploram esses recursos com os alunos — em 2012, esse percentual era de 36%. Também foi identificado um aumento significativo na adoção de tablets. Em 2012, apenas 2% dos colégios públicos possuíam o dispositivo. No ano passado, 11% das escolas passaram a contar com o uso do hardware.

Velocidade baixa – 
Embora o acesso à rede por parte dos alunos aconteça na maioria das vezes em salas específicas, curiosamente, 71% das escolas públicas possuem acesso à internet sem fio (Wi-Fi). O índice é 14% superior ao registrado em 2012. A velocidade, porém, continua sendo um problema, como verificado no estudo anterior. Mais de 50% das escolas públicas informaram possuir conexão de 2 Mbps — a velocidade mínima considerada pela União Internacional de Telecomunicação (UIT) como internet banda larga. Nas escolas particulares, apenas 28% sofrem com a mesma limitação.

Os professores seguem uma tendência de mercado e migram cada vez mais para os dispositivos móveis quando precisam buscar alguma informação na rede. Segundo o TIC Educação 2013, 36% dos entrevistados afirmaram acessar a web por meio de seus smartphones, ante 22% registrados em 2012. O levantamento mostra ainda que a internet é usada pelos docentes na preparação do material que será exibido em classe. Quase 100% dos professores disseram usar a web para buscar imagens, textos, questões de prova, vídeos, jogos e aplicativos na montagem de suas aulas.

Setor industrial perde força para competir com o exterior

Valor Econômico
Editorial

A análise detalhada da balança comercial de alguns segmentos econômicos mostra como é frágil a situação da indústria nacional quando se mede seu poder de competição no mundo. O panorama atual já é bastante ruim, mas o mais preocupante é que ele tende a se agravar, segundo os especialistas.

Dados recentemente divulgados evidenciam esse problema - grave - por exemplo no setor de plásticos. Segundo reportagem publicada pelo Valor no dia 7, no primeiro trimestre, foi registrado um déficit de US$ 678 milhões no segmento, com um aumento de 13,4% em relação ao mesmo período do ano passado. Os dados são do Econoplast, boletim econômico da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast). O valor registrado em apenas três meses deste ano já supera o déficit total de US$ 646 milhões registrado há sete anos pela indústria - desde 2007, o saldo negativo quase quadruplicou, diante da perda de competitividade do produto nacional.

A principal explicação para esse resultado fortemente negativo é o avanço dos importados no mercado doméstico, que contribuiu para o déficit comercial de US$ 2,45 bilhões da indústria brasileira de transformação de plástico no ano passado.

Neste ano, houve uma piora da balança comercial do segmento, refletindo não somente o aumento das importações, mas também o crescimento do valor das compras externas e o enfraquecimento das exportações em volume. A crise na Argentina, principal destino externo dos manufaturados plásticos brasileiros, tem agravado o cenário, ao mesmo tempo em que a - persistente - desaceleração das economias desenvolvidas levou os chineses a voltarem a atenção para mercados como o brasileiro.

De janeiro a março, as importações brasileiras de transformados plásticos somaram US$ 977 milhões, com alta de 8,4% na comparação anual. As exportações, por sua vez, totalizaram US$ 299 milhões, com queda de 1,6%. Em volume, o saldo comercial no período é deficitário em 136 mil toneladas, 12% acima do registrado no primeiro trimestre do ano passado, com importações de 189 mil toneladas e exportações de 52 mil toneladas.

A situação não é, obviamente, nova. O país vem perdendo competividade no que se refere às exportações de produtos industrializados há anos. Em parte, porque o governo tem usado a política cambial como um instrumento para segurar a pressão inflacionária. É frequente a observação de exportadores que uma cotação mais "realista" do real em relação ao dólar ajudaria nas vendas dos seus produtos ao exterior.

Outra razão para a dificuldade em exportar produtos industrializados, na observação de empresários e economistas, é o custo muito mais elevado do crédito no Brasil do que em outros país. De fato, o juros em termos reais praticadas no mercado doméstico levaram o país de volta à liderança da lista das nações com as taxas mais altas. Também o custo da energia é alvo de frequentes críticas das empresas. Diga-se, por oportuno, que o governo da presidente Dilma Rousseff tentou combater esses dois problemas - juros elevados e energia cara -, mas suas tentativas não foram exatamente bem sucedidas.

Com isso, acentua-se a tendência de a pauta das exportações ser dominada por produtos básicos. No primeiro semestre de 2014, a concentração das exportações em primários atingiu o ponto mais alto em três décadas e meia. Pela primeira vez desde 1980 (último dado disponível), mais da metade dos embarques ao exterior no primeiro semestre foi de bens primários, como soja e minério de ferro. De janeiro a junho, os básicos representaram 50,8% do que o país exportou. Essa proporção era de 25% em 2002 e já havia subido para 47,5% no mesmo período de 2013.

Enquanto isso, os produtos manufaturados encolheram sua participação para o menor nível também desde 1980 e hoje equivalem a 34,4% das vendas totais, em um movimento que o governo atribui à lenta recuperação econômica nos principais mercados.

Dados do Ministério do Desenvolvimento que especificam a performance por produto, até maio, são expressivos o suficiente para dispensar qualquer comentário adicional. Nesse período, houve queda nas exportações de laminados planos (-34,8%), automóveis de passageiros (-30,0%), etanol (-29,8%), autopeças (-25,0%), veículos de carga (-18,9%), para citar alguns exemplos.

Exceções e excelência

Celso Ming  
O Estado de S.Paulo

A indústria vai afundando no marasmo e no desânimo. Ontem, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) revelou que o Índice de Confiança do Empresário Industrial chegou ao nível mais baixo desde 1999 (veja o gráfico).

Isso não tem de ser assim. E não é assim em pelo menos dois outros segmentos do setor produtivo brasileiro, o agronegócio e a Embraer, que seguem esbanjando excelência e resultados, embora operem nas mesmas condições adversas dos demais.

Nos últimos três anos, o governo Dilma tinha um diagnóstico: falta de demanda. Com base nele, deu corda aos experimentos chamados de Nova Matriz Macroeconômica. Tudo o que pode ser afrouxado nas contas públicas foi afrouxado, os juros foram derrubados na marra, o Banco Central foi levado a desvalorizar o real, o governo fez de tudo para esticar o crédito e os empresários foram convocados a investir e soltar seu espírito animal.

As coisas deram errado, a atividade econômica está se prostrando e a inflação vai para 7% ao ano. De todos os cantos, a queixa é de que o sistema produtivo brasileiro está perdendo competitividade. Apesar da sucessão de pacotes de bondades feitos de isenções fiscais, desonerações, reservas de mercado e proteção comercial nunca vista, a indústria está se desmilinguindo, não inova e não investe. Até a presidente Dilma parece convencida de que tudo tem de ser feito para aumentar a produtividade, embora não seja capaz de indicar o caminho.

O agronegócio bate um recorde atrás do outro, em volume de produção e produtividade. Todos os dias incorpora tecnologias de ponta em biogenética, manejo do solo e mecanização que, por sua vez, exigem conhecimento e treinamento de mão de obra especializada. Seus resultados são cada vez melhores, mesmo operando nas mesmas condições climáticas adversas que prostraram o setor energético; mesmo tendo de abastecer-se de insumos e escoar sua produção pela mesma rede de infraestrutura sucateada e cara; mesmo enfrentando um dólar barato demais, que derruba as receitas com exportação; e mesmo numa conjuntura de queda das cotações internacionais de commodities.

A Embraer, por sua vez, não conta mais com a proteção do governo desde 1994, quando foi privatizada. Enfrenta concorrência externa atroz, que nem sempre joga limpo. Mas fecha um contrato atrás do outro. Seu aviões incorporam os maiores avanços tecnológicos e, por isso, podem apresentar os menores índices de custo operacional na sua faixa. A Embraer tem autonomia para comprar peças, componentes e setores inteiros de aeronaves em qualquer lugar do mundo, nas melhores condições. Seus engenheiros não se preocupam com índices de conteúdo local nem com proteções especiais ao setor de aeronáutica.

Que tal se os encarregados de formular novas políticas para o Brasil, seja de que partido e para que candidato forem, olhassem mais atentamente para esses dois exemplos e tirassem daí os ensinamentos para o resto da economia?


Política da economia está no detalhe

Vinicius Torres Freire
Folha de São Paulo

Saldo de empregos formais novos equivale a 40% de Lula 2, mas ainda cresce; inflação da comida cai

O estouro da inflação da comida coincidiu com a piora do humor econômico e, mais tarde, com a piora aguda dos humores sociais, entre meados de 2012 e de 2013. Mas, para quem pretende fazer prognósticos eleitorais baseado em dados econômicos, note-se que o pior da carestia da comida passou.

Decerto os preços altos contribuíram para a deterioração do sentimento de segurança econômica, o que por tabela ajudou a avariar uma economia que definhava ainda por outros motivos. Difícil vai ser deduzir qual o saldo de melhoras e pioras e qual o sentido que o grosso do eleitorado vai dar isso, dadas as suas opções de voto.

A inflação da comida e da bebida teve um ciclo de alta ruim entre junho de 2012 e fevereiro de 2014, com um pico em abril de 2013, quando chegou a 14% ano, acumulada em 12 meses (foi a época do sarcasmo com a "inflação do tomate").

Entre março e maio de 2013, os preços de alimentos e bebidas subiam ao dobro do ritmo da inflação média, exorbitância vista apenas entre 2007 e 2008, com a inflação mundial da comida e de matérias-primas em geral. O preço médio de comida e bebida chegou a crescer 15,8%, em junho de 2008.

Até 2008, porém, havia euforia no Brasil, com melhoras rápidas em emprego, renda, desigualdade social. Convém lembrar que, apesar da piora ou desmelhora dos anos sob Dilma Rousseff, a "economia da vida cotidiana" não é desastrosa.

Ontem saíram, por exemplo, os números do desempenho do mercado formal de trabalho referentes a junho. O aumento do número de empregos com carteira assinada no mês passado foi, muito de longe, o menor em década e meia.

Qual o efeito prático?

Os números mostram o esfriamento da economia e, em parte menor, a um ritmo inevitavelmente menor de formalização do emprego. Nos últimos 12 meses, foram criados ainda 763.499 empregos, alta de 1,8%, maior que a da população economicamente ativa.

Sim, o saldo de empregos novos equivale a 50% da média dos três primeiros anos de Dilma Rousseff e a 40% do da média do segundo governo Lula. Mas houve crescimento; associado ao fato de que o desemprego permanece baixo, é difícil deduzir daí que a crise chegou decisivamente às ruas.

O cenário varia, decerto, de acordo com setores da economia e regiões. Nas grandes metrópoles, o nível de emprego parou de crescer, ao contrário, no entanto, do conjunto do país (logo, a situação no "interior" ainda anda melhor do que a a da média nacional).

Na indústria, o nível de emprego, a quantidade de gente empregada, decresce, com redução do salário médio, de resto. Talvez esteja aí um fator do baixo prestígio do governo federal em algumas metrópoles, embora o clima na grande cidade esteja ruim por outros motivos, vide a explosão de 2013.

Está mais difícil arrumar emprego, o consumo cresce mais devagar, a inflação marcou o eleitorado, mas ainda há algum progresso na "economia cotidiana" e melhoras sociais (a situação macroeconômica, claro, indica anos medíocres à frente, mas seu péssimo estado não tem efeitos muito tangíveis). Fazer uma limonada político-eleitoral com o limão da política econômica vai ser ainda menos simples nesta eleição.

Governo ainda não fez sua parte contra inflação

O Globo
 Editorial

Há expressiva desaceleração no ritmo da atividade econômica, que já se reflete na geração de empregos formais, e por isso nova alta nas taxas de juros foi desconsiderada

O Comitê de Política Monetária decidiu na quarta-feira manter as taxas básicas de juros em 11% ao ano, embora a trajetória da inflação ainda desperte preocupações. Os alimentos deram uma trégua, mas há outros segmentos que não param de encarecer, como é o caso dos serviços, que, em média, estão custando mais 9% em relação a um ano atrás, enquanto o índice de inflação registra uma variação de 6,52% acumulada nos últimos doze meses, 0,02 acima do limite máximo da meta de 4,5%.

O receituário de combate à inflação recomendaria nova elevação das taxas básicas de juros, mas, quando se observam os demais indicadores da economia, há uma conjuntura de expressiva desaceleração que pode até desembocar em recessão. O número de empregos formais gerados em junho, em preparação final e início da Copa, se resumiu a 25.3636, com queda de 79,5% em relação a igual mês de 2013. Essa retração se deve especialmente ao desempenho da indústria. Segundo levantamento da Fiesp, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, 16 mil trabalhadores perderam os empregos no setor no ente federativo mais industrializado do país. Com essa queda no ritmo da atividade econômica, a terapia dos juros altos poderia agravar a situação da indústria e do comércio, pois o consumo de bens duráveis depende basicamente do crédito. No entanto, o patamar perigoso em que se encontra a inflação não permite que as autoridades cruzem os braços.

O recado do Banco Central é que a política monetária já faz sua parte, mas o recuo da inflação, sem que a economia caia em um quadro recessivo, depende também de outros instrumentos de que o governo dispõe. E o mais contundente de todos é a política fiscal. Em maio, o setor público apresentou um estrondoso déficit primário, uma temeridade nas condições econômicas atuais. Não é de agora que a equipe econômica do governo vem anunciando uma maior contribuição da política fiscal para o combate à inflação, que, na prática, não se materializa.

Há torneiras abertas nos gastos públicos que não se justificam tecnicamente, como, por exemplo, a que arca com o chamado seguro-desemprego. A economia brasileira já não tem gerado tantos empregos formais, mas, mesmo que houvesse uma demanda maior por mão de obra, não haveria pessoas disponíveis em número suficiente para ocupar esses novos postos. Está claro que há um desemprego voluntário; não são poucos os que preferem permanecer na informalidade enquanto usufruem do benefício, na certeza que terão quem os contrate quando se encerrar o prazo de seis meses em que podem permanecer desempregados. Neste período, gozam de um benefício indexado ao salário mínimo, reajustado acima da evolução da produtividade. Tais regras já deveriam ter sido ajustadas para a realidade do mercado brasileiro de trabalho. 

Mas isso não ocorre por temor do impacto negativo que a iniciativa poderia ter junto a um potencial eleitorado do governo de Dilma. Empurra-se o problema para a frente.

A crise chega ao emprego

O Estado de S.Paulo

A crise bate no mercado de emprego e mancha um dos poucos indicadores positivos da economia brasileira: a criação de postos de trabalho. Em junho foram contratados 25,36 mil trabalhadores com carteira assinada, o menor número para esse mês desde 1998. As contratações do semestre, de 588,67 mil, também foram um recorde negativo - o resultado mais baixo para esse período a partir de 2009. Os números foram divulgados na quinta-feira pelo Ministério do Trabalho. No mesmo dia a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) anunciou a situação do emprego industrial paulista no mês passado: 16,5 mil vagas fechadas. Em um ano, as demissões líquidas chegaram a 96,5 mil, um resultado bem pior que o esperado, informou o diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da entidade, Paulo Francini. Este ano, segundo ele, deve ser o pior desde 2009, quando 112,5 mil postos foram eliminados.

As demissões na indústria comprometem a qualidade do emprego. Esse detalhe tem sido aparentemente menosprezado, ou ignorado, pela presidente Dilma Rousseff e por seus ministros, em suas bravatas sobre o desempenho da economia brasileira. A retórica oficial sobre as maravilhas do emprego no País vira fumaça, facilmente, quando se consideram uns poucos fatos.

Em primeiro lugar, os números tradicionalmente publicados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) são muito limitados, porque se referem somente às seis maiores áreas metropolitanas. As últimas taxas de desemprego, pouco superiores a 5%, são pouco representativas. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), também do IBGE, cobre cerca de 3.500 municípios e tem mostrado um cenário bem menos favorável. A do primeiro trimestre indicou 7,1% de desemprego, número superior aos encontrados em vários países - desenvolvidos e em desenvolvimento - com taxas de inflação muito menores.

Em segundo lugar, o desemprego brasileiro seria provavelmente maior se a oferta de mão de obra qualificada fosse mais ampla. Embora crescendo pouco e acumulando dificuldades, a indústria procurou, nos últimos anos, conservar o maior número possível de empregados. Ao custo das demissões seria preciso acrescentar o custo e as dificuldades de recomposição dos quadros, em caso de recuperação da economia. O discurso oficial tem omitido também esse detalhe, embora empresários e porta-vozes da indústria tenham chamado a atenção, várias vezes, para a escassez de pessoal qualificado ou dotado apenas de uma formação básica razoável.

Em terceiro lugar, os empregos decentes, no Brasil, ainda são principalmente aqueles criados na indústria. O setor de serviços, na economia brasileira, ainda é muito diferente daquele encontrado nos países mais desenvolvidos. Boa parte dos postos gerados em serviços oferece remuneração mais baixa e menores benefícios que aqueles vinculados ao emprego na indústria ou no comércio.

Em junho, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho, a indústria de transformação, a extrativa mineral e a da construção civil fecharam 41,02 mil postos. Em 12 meses, esses três setores eliminaram 34,09 mil vagas, enquanto o conjunto da economia contratou 763,5 mil pessoas. O setor de serviços proporcionou 537,88 mil contratações, 70,44% do total. A agropecuária, o setor mais competitivo da economia nacional, foi o principal criador de empregos em junho, com 40,82 mil vagas abertas, mas o acumulado em 12 meses foi o fechamento de 26,3 mil postos.

No Brasil, como na maior parte do mundo, a agropecuária moderna cria poucos empregos diretos, mas pode contribuir para a abertura de vagas em outras áreas. Numa economia como a brasileira, o dinamismo geral da produção e a expansão dos empregos decentes dependem ainda principalmente da indústria. Não se promove desenvolvimento industrial com desonerações parciais e provisórias, favores a grupos ou segmentos selecionados e barreiras protecionistas. Também esses fatos têm sido ignorados em Brasília.