quinta-feira, julho 24, 2014

Morre Ariano Suassuna, o menino sertanejo

Portal G1

“O homem nasceu para a imortalidade. A morte foi um acidente de percurso. Mas depois que eu me tornei pai e avô, descobri que a família é quase uma imortalidade, porque é uma continuidade"



16/06/1927
Nasce Ariano Villar Suassuna, na Cidade da Parahyba, atual João Pessoa. É filho de João Urbano Pessoa de Vasconcelos Suassuna, na época governador, e Rita de Cássia Dantas Villar.
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1928
Na tentativa de evitar inimigos políticos, após o fim do mandato do pai de Ariano, a família Suassuna passa a morar na Fazenda Acauhan, no Sertão paraibano

09/10/1930
João Suassuna é morto no Rio. A motivação para o crime seria sua ligação política com João Dantas, acusado da morte de João Pessoa, ex-governador paraibano. Por causa da repercussão, em 1933 a família muda-se para Taperoá (PB). Ariano inicia seus estudos.

O pernambucano da Paraíba


“Comecei a querer ser escritor aos 12 anos, quando fiz meu primeiro conto. Na época, era um assassino terrível. Quando não sabia o que fazer com um personagem, matava"

1937
Ariano muda-se para o Recife e passa a ter mais contato com a literatura. Em 1942, a matriarca, Rita, instala toda a família na capital pernambucana, por preocupação com o estudo dos filhos

1945
Termina os estudos secundários. Ainda no colégio, conhece o artista plástico Francisco Brennand, que ilustra seus primeiros poemas. Em setembro deste ano, Ariano tem publicado seu primeiro texto, o poema "Noturno", que sai no "Jornal do Commercio"

1946
O escritor entra na Faculdade de Direito do Recife. Neste ano, promove ainda um espetáculo de cantoria popular, que considera sua primeira aula-espetáculo.

Ariano chega ao palco


“Eu tenho a maior convicção de que, com os elementos da chamada arte arcaica, a gente pode fazer uma arte que se projeta até para o futuro"

1947
Ariano escreve sua 1ª peça, "Uma mulher vestida de sol", que é premiada. Conhece sua futura esposa, Zélia de Andrade. No ano seguinte, a peça "Cantam as harpas de Sião" é montada pelo Teatro do Estudante de Pernambuco

1950
Forma-se em direito e recebe o Prêmio Martins Pena pelo "Auto de João da Cruz". Para tratar uma tuberculose, volta a Taperoá, onde escreve e monta a peça "Torturas de um coração"

1952
Ariano volta ao Recife e, até 1956, dedica-se à advocacia. Continua, no entanto, ligado à atividade teatral. Cria obras ligadas ao humor e integra o grupo Gráfico Amador. Nesse período, escreve um dos seus maiores clássicos, "O auto da compadecida" (1955)

Autor do Brasil


“Há duas raças de gente com quais simpatizo: mentiroso e doido, porque eles são primos dos escritores. (...) Na minha vida não acontece nada. Se eu não mentir, o que é que eu vou contar?"

1956
"O auto da compadecida" é encenado pela 1ª vez no Teatro de Santa Isabel, no Recife. Ariano deixa a advocacia e se torna professor de estética na UFPE. Publica seu 1º romance: "A história de amor de Fernando e Isaura"

1957
Casa-se com Zélia, com quem teve 6 filhos e 13 netos. Em SP, a Cia Sérgio Cardoso encena "O casamento suspeitoso". Ariano publica "O santo e a porca", e "O auto da compadecida" torna-se sucesso no Rio. Cinco anos mais tarde, o crítico Sábato Magaldi diria que a peça é "o texto mais popular do moderno teatro brasileiro"

1958
Começa a escrever o “Romance d'A pedra do reino'. Em 1959, ao lado do teatrólogo Hermilo Borba Filho, funda o Teatro Popular do Nordeste. Essa parceria daria início, em 1964, à articulação ao Movimento Armorial.

A erudição nordestina


“Não tenho nada contra a cultura universal, mas não posso admitir que se considere sinônimo de universal a cultura de massa. Ela é o contrário da universalidade, é a uniformização"

1970
Ariano conclui o "Romance d'A pedra do reino". O concerto "Três séculos de música nordestina – Do Barroco ao Armorial" marca o início do Movimento Armorial, no Recife

1971
Publicado, “A pedra do reino” vence o Prêmio Nacional de Ficção do Instituto Nacional do Livro. O livro é considerado por muitos intelectuais como a obra-prima do escritor

1990
Ariano toma posse na cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras. Em 1993, “A pedra do reino” vira festa na cidade pernambucana de São José do Belmonte: é uma cavalgada em que os participantes usam trajes como os descritos no romance de Ariano

TV, cinema e política


“Eu acho que a arte, por natureza, não é uma imitação do real, é uma recriação. (...) Se fosse para imitar a realidade do dia a dia, melhor seria ficar com a própria realidade"


1994
A peça "Uma mulher vestida de sol" é sua 1ª obra adaptada para a TV. Em 1999, o "Auto da compadecida" vira minissérie, e, um ano depois, ganha filme. "A pedra do reino" virou minissérie em 2007

1996
Ariano estreia a série “Grande cantoria”, aula-espetáculo que reúne violeiros e repentistas. Em 2002, é homenageado em enredo no carnaval do Rio

2007
Assume a Secretaria de Cultura de Pernambuco, no governo Eduardo Campos – o escritor já havia desempenhado a função em 1995, no governo Miguel Arraes. Em 2011, vira chefe da Assessoria Especial do governo

2013
É internado duas vezes. Primeiro, por infarto agudo do miocárdio, mas logo recebeu alta. Dias depois, é hospitalizado novamente, por conta de um aneurisma cerebral. É liberado cerca de uma semana depois


O novo racismo pseudocientífico

Rita Loiola
Veja online

Recém lançado nos Estados Unidos, o livro 'A Troublesome Inheritance' tenta reavivar o antigo debate sobre a existência de raças humanas. Ao site de VEJA, pesquisadores explicam que não há argumento científico válido para a discussão — e demonstram que os homens são variados, mas não o suficiente para a existência de classes diferentes entre eles

 (Robert Churchill/Thinstock) 
Variações genéticas entre diferentes populações possibilitam 
o estudo de suas diferenças, origens e rotas no planeta

No início do século XVIII, o biólogo sueco Carlos Lineu começou o que se tornaria sua grande herança: a classificação da natureza. Ele separou os organismos em três reinos, inventou conceitos como gêneros e espécies e, em 1758, na obra Sistema Natural, dividiu os seres humanos em quatro categorias — que chamou de raças. O uso do conceito logo se alastrou para muito além das fronteiras da biologia, insuflando preconceitos odiosos e servindo à defesa dos mais atrozes propósitos políticos, como a escravidão, o nazismo alemão e o apartheid sul-africano. Foi preciso esperar pela década de 1970 para que a ciência se encarregasse de descreditar a noção de que as diferenças entre os seres humanos são tão profundas a ponto de constituir raças. Nos últimos 40 anos, o conceito foi abandonado nos laboratórios. Mas ele volta a ser invocado pelo best-seller A Troublesome Inheritance (Uma Herança Incômoda, em tradução livre), do jornalista científico britânico Nicholas Wade. 

Em suas páginas, o autor mistura os mais avançados estudos em variação genética e as antigas classes de Lineu em um esforço para reabilitar a separação da humanidade em raças. Mais que isso, especula que a seleção natural dos genes humanos seria responsável não só pela desigualdade entre os homens, mas também pelo desenvolvimento cultural econômico das sociedades. Publicado em maio, o título fez parte da lista dos livros mais vendidos do jornal americano The New York Times e gerou uma reação violenta da comunidade acadêmica de todo o planeta, mostrando que o empenho de Wade não tem fôlego para ir longe. 

"Dos anos 1970 para cá descobrimos muitas coisas surpreendentes sobre as populações e os recentes estudos de genética mostram que há variações entre elas. No entanto, hoje temos uma compreensão maior sobre o significado dessa diversidade e sabemos que aquelas categorias raciais em que acreditávamos não existem", diz o biólogo Diogo Meyer, professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) e um dos maiores nomes no Brasil no estudo de genética de populações. "É infinitamente mais interessante estudar as variações dos genes que falar sobre raças, algo que empobrece o debate e a pesquisa."

A grande raça humana — 
A primeira menção às raças humanas é de Lineu, mas o preconceito que envolve o tema só viria a se consolidar com o aristocrata francês Joseph-Arthur Gobineau, no século XIX. Sua obra Ensaio sobre a Desigualdade das Raças Humanas fundou o que hoje é conhecido como o "racismo científico", teoria que inspirou os conflitos raciais do século XX. Essas ideias só foram destruídas pela ciência em 1972, quando o biólogo americano Richard Lewontin, da Universidade Harvard, fez uma pesquisa com pessoas que fariam parte das diferentes raças e, por meio do estudo de suas proteínas — o máximo que se conhecia de informação genética humana na época —, descobriu que os homens são profundamente semelhantes. Desde então, a discussão sobre raça humana foi encerrada pela comunidade científica. Para a Associação Americana de Antropologia (AAA), nos Estados Unidos, o conceito é uma construção social, sem validade para a ciência.

A inexistência das raças não invalida outro debate que veio à tona desde 2003, com a conclusão do Projeto Genoma: a imensa variabilidade genética das populações. O sequenciamento do DNA humano forneceu aos cientistas explicações não só sobre o que há dentro dos cromossomos de um indivíduo como também sugere quais são os genes mais frequentes nas diversas regiões do mundo. Essa informação genética, submetida a pressões ambientais e selecionada pela evolução, é uma das responsáveis pelas características de europeus, americanos ou africanos.

Foi com essas informações que os cientistas descobriram que a tolerância à lactose ou ao álcool resultaram de um importante movimento evolutivo em nossos genes. E que um dos fatores que influi nas diferentes taxas de incidência de doenças crônicas nos continentes é a seleção natural. O último estudo sobre o assunto foi publicado na revista Nature, em julho, mostrando que a seleção de um gene desde a pré-história tem papel central na adaptação dos habitantes do Tibete para viver a mais de 4.000 metros de altitude.

"A evolução é um movimento contínuo e vivemos adaptações e seleção natural recentes", diz Rasmus Nielsen, professor de teoria evolutiva e genética na Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos, e um dos autores da pesquisa da Nature.

Para Wade, a consequência lógica desse movimento adaptativo é que a constante pressão evolutiva tornaria esses grupos cada vez mais afastados – constituindo as raças. No entanto, a ciência mostra que esse não é o caminho que a humanidade tomou. "Ao contrário de outras espécies, nossa evolução não se dá isoladamente em diferentes regiões geográficas — algo necessário para a diferenciação em raças, linhagens ou espécies", diz Nielsen. 

Variações pouco significativas — 
Biologicamente, para que a existência de subespécies ou raças apareça é necessária a separação física da espécie. Assim, o material genético, submetido a pressões evolutivas dos diferentes locais, transforma-se e os grupos se dividem. Isso não aconteceu com os homens. Suas viagens e deslocamentos constantes superaram as barreiras naturais e promoveram uma troca intensa de genes, hábitos e aspectos culturais. Por meio da reprodução, a grande transferência genética entre os indivíduos não impediu o aparecimento de variações, mas evitou que suas diferenças se tornassem tão profundas a ponto de criar novas categorias biológicas. 

"A tendência é que habitantes de diferentes regiões geográficas se tornem, em pouco tempo, geneticamente semelhantes. Nossa propensão, portanto, não é de nos dividirmos em diferentes grupos, mas o oposto", diz Nielsen. "Por isso, a variação genética das populações humanas não é suficiente para validar cientificamente a existência de raças."

Uma das razões para isso é que os humanos não são geneticamente tão variados como outras espécies. Uma pesquisa publicada na revista Science em 1999 mostrou que animais como os chimpanzés possuem sequências genéticas quase quatro vezes mais variadas que os homens — e esses animais são divididos em raças. Para verificar a existência dessas categorias, os biólogos aplicam técnicas matemáticas que medem as diferenças genéticas e separam as classes. Quando o código genético humano é submetido às mesmas regras, não é possível dividi-lo dessa forma.

"Não conseguimos agrupar os homens como os chimpanzés. Nós descendemos de poucos grupos de hominídeos, o que limitou grandes diferenças genéticas", afirma o biólogo evolucionista Ian Rickard, da Universidade Durham, na Inglaterra.

Comportamento genético — 
Um dos antigos argumentos ressuscitados pelo livro lançado nos Estados Unidos é que a base biológica seria determinante na produção de comportamentos distintos em diferentes regiões do mundo. Dessa maneira, as variações genéticas, centrais para as condutas humanas, teriam um papel importante no desenvolvimento das sociedades e economias, tornando-as desiguais. Algumas poderiam construir culturas sofisticadas — europeias ou asiáticas — enquanto outras estariam destinadas a sociedades mais simples — como as indígenas ou africanas. Cada uma dessas categorias ou raças seria determinada, biologicamente, a um ou outro tipo de vida — o que gera um intenso debate ético na comunidade científica.

"A relação entre variações de comportamentos nas diferentes culturas e as diferenças entre as instituições sociais com base em genética evolutiva ou comportamental é, para dizer o mínimo, fantasia. Não há evidência alguma dessa ligação e ainda não conhecemos seu funcionamento", afirma Rickard.

Isso acontece porque os pesquisadores não sabem quais fatores atuam na equação genética das características complexas. "Sabemos que a genética tem influência forte no comportamento. No entanto, ainda conhecemos muito pouco sobre seu funcionamento para nos tornar capazes de afirmar algo sobre o assunto", afirma a pesquisadora Lygia da Veiga, chefe do Laboratório Nacional de Células-Tronco Embrionárias da Universidade de São Paulo (USP). "A única certeza que temos é que os fatores genéticos não são determinantes nas condutas humanas."

Características diversas — 
A conclusão mais contundente que os estudos de genética trouxeram aos cientistas nos últimos anos é as diferenças genéticas humanas não são organizadas em classes ou categorias, mas ocorrem em uma escala repleta de variáveis.

"Graças à revolução tecnológica, temos muitas informações quantitativas sobre os genes humanos e percebemos suas variações ocorrem como se fosse um dégradé de características", explica o biólogo Diogo Meyer. "Aplicar a isso a etiqueta de raça restringe nossos estudo, pois faz pensar que há categorias estanques, quando o que se verifica é um contínuo genético."

Assim, o tema proibido dos anos 1980 e 1990 deu lugar ao estudo das variações dessa escala, que estão sendo decifradas pelas pesquisas em genética e evolução. "A intuição de que as populações são diferentes entre si tem fundamento. Há variação genética entre elas, que torna possível estudar suas diferenças, origens e rotas no planeta. E não é preciso ter medo de falar dessa variação", afirma.

Esses estudos são importantes, principalmente, para os testes de medicamentos ou de análises de padrões de evolução de doenças em populações diversas. “Por meio do local de origem é possível ter uma série de informações sobre populações e indivíduos e isso é extremamente produtivo. No entanto, fazer ciência bem feita significa respeitar a realidade e, nesse caso, é perceber que o ser humano é variado, submetido a forças como hábitos ou culturas e não pode ser dividido em classes."

Assim, mais que procurar antigas categorizações humanas, como as propostas há três séculos, os cientistas de hoje preferem trabalhar respeitando a variação intrínseca e característica que forma a espécie humana. "Sim, há pequenas diferenças entre africanos e caucasianos, mas as semelhanças genéticas são muito maiores", afirma o biólogo Stephen Stearns, professor da Universidade Yale, nos Estados Unidos, e um dos principais nomes da biologia evolutiva em todo o mundo. "Há alguma verdade genética no conceito antiquado de raça, mas é um efeito menor, sutil e está longe de ser determinante."

Estudantes que não fizeram Enem movem ações contra governo por bolsas do Ciência Sem Fronteira

Leonardo Vieira (*)
O Globo

Liminar federal favorece aluno mineiro e gera jurisprudência, mas governo afirma que vai recorrer

RIO E BRASÍLIA - Estudantes de diferentes estados vêm travando batalhas judiciais com o governo por causa de bolsas do Ciência Sem Fronteiras desde meados do ano passado, quando o Ministério da Educação (MEC) determinou que só pode se inscrever no programa de intercâmbio quem fez o Enem e tirou nota acima de 600 pontos. Uma quantidade não calculada de ações vêm sendo movidas por alunos que, por diferentes razões, não fizeram o exame e querem ser contemplados com bolsas para estudar fora do país. Pois esses estudantes acabam de ser municiados pela Justiça.

Decisão da 6ª turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), em Brasília, derruba a necessidade de ter uma nota do Enem para concorrer a uma bolsa. Quem não chegou a fazer o Enem fica, portanto, automaticamente excluído da seleção para as bolsas. Apesar do acórdão, a Advocacia Geral da União (AGU) afirma que irá recorrer e que não há decisão final sobre o tema. Portanto, ainda valeria a restrição criada pelo MEC.

O Ciência Sem Fronteiras envia estudantes brasileiros de diferentes áreas para instituições fora do país. Trata-se da menina dos olhos não só de grande parte dos alunos, mas também do próprio governo federal. Com quase 50 mil bolsas já concedidas, o MEC ainda espera enviar para o exterior outros 150 mil alunos, 100 mil deles integrantes da segunda fase, lançada mês passado pela presidente Dilma Rousseff. Não foram poucos os que acabaram pegos de surpresa com a mudança de critério do ano passado. Desde 2011, quando foi lançado, o programa só utilizava o Enem como critério de desempate, não sendo obrigatória sua nota para a postulação à bolsa. Com a alteração, qualquer candidato ao CSF passou a precisar de 600 pontos no exame — e, ainda assim, em edições do Enem realizadas somente a partir de 2009.

AÇÃO ORIGINAL FOI DE ESTUDANTE MINEIRO
Foi uma chuva de ações na Justiça. A alegação principal dos estudantes é que a exigência fere a isonomia de condições de concorrência. Afinal, o Enem só veio a se tornar o método mais popular de acesso às universidades quando estas o instituíram como critério único. Milhões de pessoas que entraram na faculdade antes disso simplesmente não podem concorrer. Muitos alunos obtiveram mandados de segurança individuais e conseguiram disputar uma bolsa. Do outro, um time da AGU se esforça para conter decisões desfavoráveis ao governo.

Não foi o que ocorreu no caso do estudante Frederico Meyer Prado, de 24 anos, mineiro de Belo Horizonte e autor da ação que acabou motivando a decisão do TRF-1. Estudante de Engenharia Mecânica no Centro Universitário do Leste de Minas Gerais (Unileste), Frederico nunca prestou o Enem. Por isso, ao mesmo tempo em que se inscreveu para concorrer a uma bolsa de estudos nos Estados Unidos, foi à Justiça Federal argumentar que sofria discriminação ao não poder participar do processo.

Na primeira instância, Frederico não teve sucesso. No entanto, após recurso, o desembargador federal Jirair Aram Meguerian, da 6.ª Turma do TRF-1, concedeu-lhe uma liminar favorável. No início de junho, a decisão foi sacramentada em acórdão, e os outros magistrados seguiram o entendimento de Meguerian. Diferentemente de outros mandados de segurança bem-sucedidos, no caso de Frederico a decisão serviu para criar jurisprudência em nível federal, suspendendo a exigência do Enem para o programa Ciência Sem Fronteiras.

A AGU promete levar o caso ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). Em nota, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), responsável pela gerência do CSF, reafirma que “não existe hoje nenhum critério disponível, além do Enem, capaz de oferecer igualdade de oportunidades no programa”.

Em seu voto, o desembargador afirmou que “não se afigura razoável a exigência do requisito previsto para o Programa Ciência sem Fronteiras, já que não houve tempo hábil para que os candidatos pudessem se submeter ao Enem 2013, tampouco se poderia exigir dos candidatos que tivessem conhecimento do novo requisito, que não constava das chamadas dos anos anteriores”.

O magistrado foi além e chegou a entrar no mérito pedagógico da questão, declarando que não lhe parece “revestida de legitimidade a exigência de pontuação mínima no Enem a fim de eleger os melhores candidatos aptos a participarem do programa Ciência sem Fronteiras, pois aquele exame tem como fim avaliar os conhecimentos do aluno do ensino médio, enquanto o Programa Ciência Sem Fronteiras é voltado ao ensino superior. Ou seja, o Enem não avalia os melhores alunos dos respectivos cursos de graduação”.

O pró-reitor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e membro da Academia Brasileira de Educação Antônio Freitas concorda totalmente com ele. Para Freitas, a exigência da nota do Enem é discriminatória, ao prejudicar alunos que não tiveram o exame como prioridade, mas têm alta qualificação.

— Provas de vestibular não indicam se o aluno será, de fato, um bom profissional ou pesquisador. A forma mais justa de selecionar os candidatos é uma avaliação com base no histórico escolar e no domínio da língua estrangeira. Tudo isso, é claro, levando-se em consideração a qualidade da instituição de ensino cursada.

Já Miriam Paúra, professora de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), crê que o Enem deve, sim, fazer parte do processo seletivo de alguma forma. Ela destaca que a prova ganhou peso nos últimos anos e está bastante relacionada com a formação de cada aluno como um todo. Entretanto, faz ressalvas:

— O Enem não pode ser a única porta aberta. Outros aspectos da formação devem ser levados em consideração para um processo democrático.

Em meio ao imbróglio jurídico, pessoas como Frederico vivem alívio e angústia. Desde que ganhou a liminar em segunda instância, em março, o estudante começou a planejar a viagem para os Estados Unidos. No entanto, por conta da fragilidade da decisão, o mineiro se viu diante de dilemas como abandonar estágio e financiamentos por uma viagem que poderia ser incerta. Após gastar quase R$ 2 mil só com advogados, e com a liminar se transformando em acórdão, Frederico conseguiu finalmente embarcar. Já está no Arizona.

— Mesmo com a liminar, a Capes foi deixando tudo meu por último, esperando ver se conseguiam derrubar. Fui o último a receber acesso ao portal, a carta de aceitação e o dinheiro — diz.

A estudante de Enfermagem da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas, Myrna Pereira, também chegou a entrar na Justiça, mas não foi bem-sucedida. Ela criou um grupo numa rede social com mais de mil estudantes que também impetraram mandados de segurança, a fim de trocar experiências e descobrir o melhor caminho de conseguir a sonhada bolsa. Sem sucesso judicial, resolveu capitular e se inscrever no Enem a fim de concorrer no Ciência Sem Fronteiras. Conseguiu mais de 600 pontos e o crédito. Suas aulas na Inglaterra começam na semana que vem:

— O Enem é uma coisa que fazemos em uma idade em que não temos experiência, não sabemos quase nada do que queremos para nossa vida. E essa nota é utilizada para critério de desempate, vem acima da minha nota de inglês, da minha média na faculdade... Um total absurdo.

EXAME DE ENSINO MÉDIO NO FIM DA FACULDADE
Diferentemente dela, Stephanie Claude Rebello Guitton, estudante de Design de Produtos da PUC-Rio, já tinha o Enem. Mas não conseguiu concorrer a uma bolsa por ter feito o exame em 2008, portanto antes do ano-barreira estabelecido pelo Enem: 2009. Mesmo estando prestes a se formar, ela se inscreveu no Enem 2014 para tentar uma bolsa. Mas também pretende entrar com mandado de segurança, uma vez que o resultado da prova sai depois do prazo de inscrição para uma bolsa na França.

— O MEC só avisou que ia mudar as regras do programa três dias antes do final das inscrições do Enem 2013, e quase ninguém ficou sabendo que ia haver essa alteração — reclama.

No oitavo período do curso de Engenharia de Produção na Universidade de Sorocaba (Uniso), Gustavo Sanchez Alves, de 24 anos, se vê hoje na mesma situação em que Frederico se encontrava até poucos meses atrás. Como seu último vestibular foi em 2007, Gustavo não poderia participar da disputa pelas bolsas. Mas sua ação na Justiça prosperou e, este ano, ele ganhou liminar favorável:

— Estou comprando passagens aéreas, largando meu estágio, suspendendo o contrato que tinha com o Fies... Tudo para viajar. Agora imagine se, lá nos EUA, eu descubro que derrubaram minha liminar? Eu volto ao Brasil e perco tudo? Vou esperar até o último dia para decidir.

(*) Colaborou Demétrio Weber

INSENSIBILIDADE ABSURDA: Aluna com deficiência pode perder bolsa do Ciência Sem Fronteiras por falta de acompanhante

Leonardo Vieira
O Globo

Mãe da menina, que ajuda a filha desde que nasceu, não teve financiamento da Capes para viajar

Arquivo Pessoal
Acompanhando Aline desde o nascimento, Rosemary foi impedida 
de viajar com sua filha para o Ciência Sem Fronteiras 

RIO - Acostumada a superar obstáculos há mais de 20 anos, a estudante de Biologia na PUC-MG Aline Castro se deparou com uma nova barreira. Diagnosticada com atrofia muscular progressiva tipo 2, doença congênita que impede sua locomoção, ela foi aprovada no edital 156 do programa Ciência Sem Fronteiras (CsF) para a Universidade do Kentucky, nos EUA. Mas Aline foi da alegria à tristeza quando a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) negou os recursos para sua mãe acompanhá-la na viagem. Com ida marcada para agosto, mas sem a pessoa que a acompanha desde o nascimento, a menina está desistindo de seu sonho.

O episódio jogou luz na questão dos bolsistas com necessidades especiais no CsF. Os editais do processo seletivo do Ciência sem Fronteiras não regulamentam os procedimentos a serem tomados em casos de bolsistas que requeiram atendimento especial. No entanto, Aline indicou que tinha a doença ao preencher o Common Application, formulário básico do Institute of International Education (IIE), instituição que mantém parceria de intercâmbios com o CsF.

- Lá eles perguntavam se eu tinha necessidades especiais. Eu não só respondi que tinha, mas pedi para que minha mãe fosse comigo. Ela cuida de mim desde que nasci. Ela me ajuda no banho, me ajuda a escovar os dentes, me leva todo dia na faculdade e fica esperando a aula terminar para me levar para casa. Enfim, ela era a pessoa ideal para cuidar de mim lá. Eu nunca imaginaria que meu pedido fosse negado – comenta Aline.

Mas foi. Antes mesmo de sua aprovação, notícia que chegou em meio ao jogo entre Brasil e México na Copa do Mundo, Aline deu entrada nos procedimentos necessários para a viagem, como vistos e hospedagem. Por não haver consulado americano em Belo Horizonte, a menina veio ao Rio para obter o documento. Ela teria de voltar à capital fluminense para ter em mãos o passaporte carimbado.

Arquivo Pessoal 
Aline já veio com sua família ao Rio para dar entrada 
no visto americano no consulado dos Estados Unidos 

- Mas não sei se vou mais. Depois que soubemos que minha mãe não poderia ir. Nem passagem nos compramos. Não estou vendo outra saída a não ser desistir – lamentou Aline.

A estudante teve o pedido recusado dias depois de saber que foi aprovada. Sua mãe, Rosemary Castro, chegou conversar um membro da Diretoria de Relações Internacionais da Capes, mas sem sucesso.

- Ele me disse que se abrissem uma exceção para minha filha, teriam de abrir também para outros 20 mil estudantes com necessidades especiais que já se candidataram no programa – alegou Rosemary.

O GLOBO entrou em contato com a Capes, mas até o momento não obteve resposta.

Em sua conversa com um funcionário da Capes, Rosemary propôs ainda de que o órgão financiasse a ida por apenas os 30 primeiros dias, a fim de que ela pudesse instruir enfermeiros locais sobre como cuidar de Aline:

- Eu fico com minha filha há mais de 20 anos. Sou a pessoa que mais sabe do quê ela precisa, e quando ela precisa. Mas eles querem que ela se vire lá no exterior. Minha filha não é mercadora para eu despachar em aeroporto - desabafou.

O irmão mais velho de Aline, Cláudio Henrique Castro, de 25 anos, também foi diagnosticado com a mesma doença. Com o esforço da mãe e com sintomas mais moderados que o de sua irmã, Cláudio se formou em análises de sistemas, trabalha na área e ainda faz pós-graduação. A única fonte de renda da família é o pai, empregado na indústria farmacêutica.

Pairam inúmeras dúvidas quanto à confiabilidade das chamadas urnas eletrônicas

José  Carlos Werneck
Tribuna da Imprensa


Ultimamente estão sendo feitas inúmeras enquetes perguntando aos eleitores se eles confiam na urna eletrônica. O fato é curioso e intrigante. Realmente a urna eletrônica foi um avanço significativo implantado pela Justiça Eleitoral e facilitou muito o andamento das eleições.

Mas pairam inúmeras dúvidas quando à confiabilidade e à segurança desse sistema de computação eleitoral usado no Brasil e rejeitado praticamente no mundo inteiro.

A principal delas é que, no caso de uma recontagem de votos, necessária por suspeita de fraude ou outro motivo relevante, quais seriam as provas materiais para sanar as dúvidas suscitadas?

O lendário Leonel Brizola, vítima de uma vergonhosa tentativa de fraude em sua primeira eleição para governador do Estado do Rio de Janeiro, ainda no tempo do voto escrito, quando se tentou contra ele uma gigantesca armação nas apurações, tinha sérias dúvidas em relação à urna eletrônica.

Brizola insistia que o eleitor deveria ter direito ao “papelzinho”, como ele chamava o comprovante escrito do voto exercido. Realmente não se compreende porque a Justiça Eleitoral insiste em negar ao eleitor brasileiro um direito tão elementar. Será que para as autoridades responsáveis por zelar pela lisura do pleito, a infalibilidade da urna eletrônica é um dogma inquestionável?

CAIXAS ELETRÔNICOS DE BANCOS
Até  os caixas eletrônicos das instituições bancárias dão aos usuários comprovantes impressos das transações efetuadas. Por que o mesmo singelo procedimento não pode ser adotado pela Justiça Eleitoral? Seria uma segurança a mais e mostraria respeito ao eleitor.

Hoje se sabe que jovens “experts” em informática conseguem entrar em programas sofisticados como das Forças de Segurança de países do Primeiro Mundo. Por que confiar tanto na infalibilidade da urna eletrônica adotada no Brasil?

Hoje o eleitor é induzido, pelas pesquisas eleitorais, a saber, de antemão, quem serão os vencedores, principalmente das eleições majoritárias. Daí para se maquiar os resultados é somente um pulo.

Por tudo isso e em respeito à Democracia, tão duramente conquistada, e à vontade soberana do eleitor brasileiro, todo cuidado e pouco e a Justiça Eleitoral deve estar muito atenta, rigorosa e vigilante, para que de maneira alguma possam ser suscitadas dúvidas sobre a lisura das próximas eleições.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Este artigo foi publicado em 31 de agosto de 2010. Está sendo republicado por sua importância, pois de lá para cá nada mudou. (C.N.)

Preços sem regras

Celso Ming
O Estado de S.Paulo 

Não se discute mais a necessidade ou não do desrepresamento dos preços administrados (energia elétrica, combustíveis, tarifas dos transportes urbanos) que o governo vem segurando para conter a inflação.

O que se discute é quando isso deverá ser feito e em que intensidade. Como o governo não quer mexer nos preços administrados antes das eleições, fica mais ou menos estabelecido que, depois disso, não haverá mais razões especiais para postergar o ajuste.

Dois dos mais importantes interlocutores deste governo - fora do governo -, o ex-ministro Delfim Netto e o professor Luiz Gonzaga Belluzzo, já manifestaram seus pontos de vista de que o melhor é fazer o mal de uma vez, para não deixar no ar a expectativa de novos aumentos de preços e tarifas. Dentro do governo Dilma, a opinião prevalecente é de que convém fazer as correções de maneira gradual, para evitar vagalhões inflacionários.

Esta Coluna defende o ponto de vista de que mais importante do que definir o número de pauladas a desferir para matar o bicho é estabelecer regras estáveis para cada caso.

O maior problema até agora não foi o de ter segurado os reajustes, embora isso tenha provocado estragos graves. Há três meses, o ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore calculara em R$ 34 bilhões o custo do atraso dos preços dos combustíveis e da energia elétrica. E, nessa conta, não foi computada a perda de arrecadação inerente a tarifas mais baixas.

O maior problema foi não ter regras para a definição desses preços. Ou melhor, foi justificar os represamentos com o lero-lero que vinha na cabeça da autoridade da hora.

Tome-se o caso dos combustíveis. A primeira conversa foi a de que a Petrobrás não trabalha no curto prazo. Depois se viu que o atraso nas correções dos seus preços vem dilapidando seu caixa e, portanto, vem dilapidando sua capacidade de investir. A partir daí, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, veio com a desculpa de que a Petrobrás não tem problemas de caixa; apenas depende de aumento da produção, que está a caminho, diz ele, embora as metas não tenham sido cumpridas.

Se, por uma razão qualquer, os preços do petróleo despencarem no mercado internacional, não há nenhuma garantia de que essa queda de preços será repassada para o consumidor.

O mesmo pode-se dizer das tarifas de energia elétrica. A estiagem obrigou ao acionamento das termoelétricas, os custos dispararam e não há remédio senão descarregar esse aumento para a conta do consumidor ou do contribuinte. Mas ninguém sabe o que acontecerá se as chuvas voltarem, se os reservatórios se recompuserem e se as termoelétricas forem para o banco de reservas. Nesse caso, as tarifas também cairão? Ninguém sabe porque não há regras confiáveis nesse jogo. E, sem regras do jogo, aumentam a insegurança e a imprevisibilidade. Fica tudo dependendo do estado de espírito de quem estiver na zeladoria. 

Fator eleitoral

José Paulo Kupfer
O Estado de S.Paulo

Não é novidade que mercados financeiros são influenciados por expectativas políticas. Aumento ou alívio de tensões regionais, ao redor do mundo, sobretudo em áreas que concentram recursos naturais estratégicos, costumam empurrar para cima ou puxar para baixo a cotação dos ativos.

Também não surpreende o quanto pesquisas eleitorais, no Brasil pós-redemocratização, têm impactado os índices financeiros. Quando Lula despontou, no segundo semestre de 2002, com crescentes chances de vitória nas eleições presidenciais daquele ano, a cotação do dólar disparou. A presunção de que o então candidato oposicionista, se eleito, promoveria reformas antiliberais estressou o mercado.

Nas eleições seguintes, numa das quais Lula foi reeleito e, na outra, emplacou sua criatura, o fenômeno se deu em escala mais reduzida. O antes assustador "sapo barbudo", apesar das suas muitas idiossincrasias, tornou-se palatável ao mercado, assim como sua sucessora, Dilma Rousseff, apresentada como executora da continuidade das políticas antes implementadas.

Neste ano eleitoral de 2014, porém, as expectativas políticas voltaram a influenciar os movimentos do mercado financeiro com grande intensidade. Pelo menos desde março, formou-se consenso entre os analistas de que as pesquisas eleitorais, mais até do que as perspectivas da economia e seus fundamentos, estão ditando os rumos dos mercados, pelo menos no curto prazo. Com a rejeição pelo mercado da política econômica de Dilma e do modo como ela conduz a economia, estabeleceu-se uma relação inversa entre os índices eleitorais da presidente que tenta a reeleição e os da bolsa de valores.

Quando comparados com os de outras praças financeiras, o movimento das cotações, nos mercados domésticos, mostram evidências de que a disputa eleitoral, com as pesquisas passando a apontar para desfecho imprevisível e possibilidade de vitória oposicionista, tem afetado diretamente os índices da bolsa. Parece ser esta uma das explicações para o descolamento da Bolsa brasileira dos demais mercados emergentes, nos últimos meses,

De março para cá, o Ibovespa, principal índice do mercado de ações brasileiro, subiu em dólar quase 30%, o dobro da alta média experimentada pelos mercados de ações de emergentes. Partindo de uma mesma base em janeiro deste ano, enquanto o índice MSCI (desenvolvido pelo banco de investimento global Morgan Stanley) para mercados emergentes, acompanhando o índice S&P, da Bolsa de Nova York, subiu até o início de julho pouco mais de 5%, o MSCI Brasil avançou perto de 15%.

É legítimo suspeitar que pelo menos parte desse resultado, registrado em ambiente econômico de baixo crescimento e inflação elevada, se deve a fatores externos à economia. Se está mais difícil produzir, vender e obter lucro, de onde viria essa animação dos pregões?

Em busca da resposta, o banco global de investimentos UBS correlacionou algumas variáveis, cotejando o recente período de alta das cotações no mercado brasileiro com as próprias tendências históricas e com a evolução dos índices financeiros em outros emergentes. A conclusão do exercício é a de que quase metade da diferença atual se deve a influências políticas, com origem na marcha das pesquisas eleitorais e nas projeções para o pleito de outubro.

O mesmo exercício foi elaborado para o caso das atuais altas nas cotações dos papéis da Petrobrás e da Eletrobrás, estrelas estatais do mercado de ações e, presumivelmente, mais expostas aos ruídos políticos e às influências das projeções eleitorais. O resultado apontou que, nos últimos meses, dependendo do índice com o qual é feita a comparação, de 20% a 40% das altas fora da curva "normal", no Brasil, podem ser explicadas mais pelas percepções do mercado sobre as políticas que o próximo governo adotará para elas do que pelo desempenho empresarial específico de momento.

Conectar-se para crescer

O Estado de S.Paulo

Apesar do processo de abertura iniciado nos anos 90, o Brasil continua fechado, quando comparado a outras economias, e conectar-se ao resto do mundo seria um importante fator de crescimento. É o que aponta um estudo da consultoria McKinsey, que relata um crescimento de até 40% na geração de riqueza dos países que se dedicaram a ampliar as suas conexões em escala global.

No ranking elaborado pela consultoria, que mede o nível de conexão de 131 países, o Brasil está na 43.ª posição, abaixo da Rússia (9.ª), China (25.ª), México (27.ª) e Índia (30.ª). As exportações brasileiras equivalem a 13% do PIB, muito abaixo da Índia (24%) ou do México (33%). Quando se olha o item exportações de serviço e a sua contribuição para o PIB nacional, o Brasil, com um porcentual de 1,8%, fica abaixo da média latino-americana (4,1%) e muito abaixo, por exemplo, da Índia (8%). É uma constante em quase todos os campos analisados pelo estudo, e o diagnóstico é evidente: o País ainda continua muito fechado. Isso significa a existência de um amplo espaço para o Brasil melhorar a sua conexão internacional. De acordo com as estimativas da McKinsey, esse processo de abertura - para se conectar mais, competir e crescer em produtividade - poderia acrescentar, anualmente, 1,25 ponto porcentual ao PIB.

Segundo o estudo, o Brasil teve recentemente dois casos de sucesso na abertura de setores da economia - a indústria aeronáutica e o agronegócio. Outras áreas poderiam receber semelhante influxo positivo, com um incremento de produtividade, caso o País se empenhe seriamente em promover maior conexão internacional. O estudo sugere, entre outras medidas, a ampliação dos acordos bilaterais com mercados desenvolvidos e a criação de instrumentos para incentivar a modernização e a concorrência.

O exemplo do campo é nítido. Ao longo de décadas houve uma forte proteção do setor agrícola, com uma elevada ingerência estatal em diversos pontos: definição da produção e da área plantada, acerto do volume a ser exportado, gerenciamento do estoque e precificação. Nos anos 90, levou-se a cabo uma ampla abertura, com a saída do governo como gestor do setor. Conforme relata reportagem do Estado, "na avaliação da McKinsey, essa abertura foi essencial para que os produtores elevassem investimentos e competissem globalmente. A reboque, fortaleceu a cadeia, aperfeiçoando a produção de insumos, de máquinas e equipamentos, bem como a capacidade de negociar". Segundo Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e produtor, "a abertura gerou uma demanda brutal por gestão - gestão financeira, de produção, de inovação e até de mão de obra - e muita gente não resistiu. (...) Os que resistiram criaram uma nova civilização no campo".

No extremo oposto do espectro, o estudo da McKinsey menciona o setor automotivo, no qual permanece forte proteção do governo brasileiro e, consequentemente, baixa capacidade competitiva no âmbito internacional. Por exemplo, apenas 15% dos veículos produzidos no Brasil são exportados, enquanto, no México, 71% da produção é exportada e nos Estados Unidos, 25%. Esse quadro é uma consequência da estratégia do governo brasileiro: manter elevadas as tarifas de importação de veículos, para atrair montadoras ao País e assim garantir empregos locais. No entanto, segundo a consultoria, essa opção acaba prejudicando a integração do Brasil nas cadeias globais de valor, o que levaria a uma baixa produtividade do setor, com efeitos nocivos, a médio e longo prazos, também na geração de empregos.

A abertura da economia não é um processo indolor, mas a experiência - nacional ou internacional - apresenta consistentes efeitos positivos. Não se trata simplesmente de "decretar a abertura", mas de construir caminhos para uma maior conexão internacional. Pena que, na última década, o governo federal tenha desperdiçado as boas experiências anteriores. Preferiu o discurso ideológico a uma política comercial que favoreça o País.

Fragilidade externa

Míriam Leitão e Alvaro Gribel  
O Globo

A economia brasileira aguarda, com um calcanhar de Aquiles, uma mudança importante no fluxo de capitais no mundo. Quando os juros americanos começarem a subir, os Estados Unidos atrairão mais dólares, e o Brasil está com 3,6% de déficit externo. Claro, temos o nosso colchão para amortecer eventuais choques, os US$ 380 bilhões de reservas, mas é bom se preparar para o inverno.

Os números não ajudam a atrair capitais de longo prazo. O PIB está em desaceleração e a inflação, alta demais. A conta-corrente, cálculo que engloba várias transações com o exterior além do comércio, tinha um superávit de 1,2% do PIB em 2006 e agora está com o déficit de 3,6%. Isso faz o Brasil ser mais vulnerável à mudança na política monetária americana. Ela está cada vez mais próxima. Já está avançada a fase de retirada dos estímulos monetários.

A presidente do Fed, Janet Yellen, foi duas vezes na semana passada ao Congresso americano. Sua fala deixou o mercado financeiro internacional dividido. Alguns economistas entenderam que o aumento dos juros só acontecerá no final de 2015, outros avaliaram que pode ser antes, já no primeiro semestre do ano que vem.

Na verdade, o que ela disse é o que os economistas adoram dizer: “depende”. Segundo Yellen, há bons indicadores econômicos, mas não há certeza de recuperação. O desemprego caiu, mas para ela não é 6,5% o alvo, e sim algo entre 5% e 5,5%. Admitiu que a dívida dos estudantes universitários é muito alta e um problema. Negou que haja sinais de bolha, apesar de o S&P 500 estar 30% acima do pico de 2007.

Os juros americanos estão zerados desde 2008, quando começou a crise internacional. Isso e as compras de títulos (Quantitative Easing) inundaram de dólares a economia mundial e facilitou a vida de alguns países, entre eles, o Brasil. Passamos a absorver mais poupança externa e o dólar mais barato ajudou a inflação.

A tendência é a moeda americana subir no ano que vem e o contexto brasileiro é de inflação acima da meta e preços represados. A boa notícia é que a diminuição do déficit em conta-corrente fica mais fácil com a desvalorização do real, porque o real mais fraco desestimula as importações e favorece as exportações. Entram mais dólares; saem menos. O problema é o efeito colateral na inflação. Quando o dólar sobe, os preços das commodities também se elevam.

Durante todo o depoimento no Senado, Janet Yellen demonstrou uma mistura de cautela com otimismo. Afirmou que acredita na recuperação da economia americana, mas lembrou que em vários momentos nos últimos anos o ritmo ficou abaixo do esperado. Explicou que o Fed não olha para apenas um indicador, como a taxa de desemprego, mas para um conjunto de números, que vão do mercado de trabalho, crescimento da renda, do PIB, mercado imobiliário, investimentos, balança comercial. Ou seja, quer ter absoluta certeza de que o crescimento é forte e sustentável, antes de começar a subir os juros. Sobre o tombo de 3% do PIB no primeiro trimestre, Yellen também atribuiu ao inverno rigoroso, que diminuiu as vendas do comércio e interrompeu a produção.

No mercado, há duas incertezas. Quando o Fed começará a subir a taxa de juros e qual será esse ritmo. O mais provável é ser gradual. O economista-chefe da Modal Asset, Alexandre de Ázara, acredita que o Fed vai adiar o quanto pode a alta, para então fazer uma mudança repentina.

— Não há consenso sobre isso, mas, na minha visão, a estratégia será adiar ao máximo o aumento, para ter certeza de que a recuperação está firme, para então provocar uma subida mais rápida dos juros — disse.
Ázara explicou que muitas previsões para a economia americana apontam para um crescimento entre 3% e 4% por um período de 18 meses. Um ritmo forte para um PIB de US$ 17,5 trilhões, quase oito vezes o tamanho da economia brasileira. Isso empurraria a inflação para acima da meta americana, que é de 2% e já está em 1,8%, e aumentaria o risco de bolhas.

“O inverno está chegando” é a frase que o mercado gosta de repetir prenunciando os riscos do futuro e parodiando uma famosa série de TV. Para a economia mundial, isso representa o aumento de juros por parte do Banco Central americano. O Brasil precisa se preparar para essa mudança de temperatura.

Diretrizes de política e comércio externos

Rubens Barbosa
O Estado de S.Paulo 

O candidato Aécio Neves divulgou as diretrizes gerais de seu programa de governo (www.psdb.org.br). As diretrizes de política externa e de comércio exterior estão integradas às demais diretrizes visando à criação de um ambiente interno e externo fundado na estabilidade das regras e no estímulo aos investimentos.

A nova política externa terá por objetivo restabelecer seu caráter de política de Estado, visando ao interesse nacional, de forma coerente com os valores fundamentais da democracia e dos direitos humanos. As diretrizes que nortearão a ação do Itamaraty terão como principais aspectos:

A política externa será conduzida com base nos princípios da moderação e da independência, com vista à prevalência dos interesses brasileiros e dos objetivos de longo prazo de desenvolvimento nacional.

Reavaliação das prioridades estratégicas à luz das transformações no cenário internacional e regional no século 21. Devem merecer atenção especial a Ásia, em função de seu peso crescente, os EUA e outros países desenvolvidos, pelo acesso à inovação e à tecnologia.

Deverá ser ampliada e diversificada a relação com os países em desenvolvimento.

Definição de nova estratégia de negociações comerciais bilaterais, regionais e globais, para pôr fim ao isolamento do Brasil. Será dada prioridade à abertura de novos mercados e à integração do Brasil às cadeias produtivas globais.

Reexame das políticas seguidas no tocante à integração regional para, com a liderança do Brasil, restabelecer a primazia da liberação comercial e o aprofundamento dos acordos vigentes.

Em relação ao Mercosul, paralisado e sem estratégia, recuperar seus objetivos de liberalização comercial e abertura de mercado e flexibilizar suas regras a fim de poder avançar nas negociações com terceiros países.

Nas organizações internacionais, o Brasil deverá ampliar e dinamizar sua ação diplomática nos temas globais, como mudança de clima, sustentabilidade, energia, democracia, direitos humanos, comércio exterior; assim como novos temas, como terrorismo, guerra cibernética, controle da internet; e nas questões de paz e segurança, inclusive nas discussões sobre a ampliação do Conselho de Segurança da ONU.

Ampliação da coordenação da política externa com a da defesa nacional em todas as suas dimensões.

Revalorização do Itamaraty na formulação da política externa, subsidiando as decisões presidenciais. Ao mesmo tempo, serão garantidos o aperfeiçoamento de seus quadros e a modernização de sua gestão.

O grande desafio que a nova política de comércio exterior enfrentará será o de promover a crescente integração do Brasil no comércio internacional. Por meio de uma estratégia de integração competitiva das empresas brasileiras às cadeias mundiais de valor, poderá ser reduzido o hiato tecnológico da nossa indústria e ser aberto caminho para uma estratégia de modernização compatível com a dinâmica do sistema econômico internacional. Para responder a esse desafio as diretrizes que orientarão as políticas internas e externas de comércio exterior são as seguintes:

A nova política de comércio exterior deverá estar articulada com a política macroeconômica e com a política industrial, voltadas para a recuperação da produtividade, da competitividade e da inovação.

Conclusão das negociações comerciais em curso com a União Europeia e lançamento das bases para um acordo preferencial com os EUA.

Reavaliação das prioridades estratégicas com a China por sua importância para a economia brasileira e global.

Recuperação da competitividade e estímulo a maior e melhor inserção do País no comércio internacional, por meio de medidas voltadas para a redução do "custo Brasil" e dos serviços, com vista à ampliação das exportações, à retomada das negociações de acordos comerciais e ao apoio ao investimento externo de empresas brasileiras.

Redução da carga tributária sobre exportações e dos custos acessórios no cumprimento das exigências tributárias e simplificação dos regimes tributários nacionais.

Simplificação da legislação de comércio exterior e desburocratização das aduanas e dos portos, por meio da elaboração de uma abrangente agenda de facilitação de comércio com o exterior, com o engajamento dos diferentes órgãos governamentais relacionados à área.

Desenho de uma reforma tarifária que confira maior racionalidade à estrutura de proteção. O cronograma de racionalização tarifária será anunciado com antecedência e implantado de forma gradual e a longo prazo.

Reforço de instituições de regulação técnica e certificação de produtos, como Inpi e Inmetro, para a redução dos prazos para obtenção de patentes e a isonomia entre produtos importados e os produzidos localmente.

A defesa comercial e a promoção comercial deverão ser aperfeiçoadas e integradas de forma coordenada na nova política comercial.

Exame da compatibilização com a legislação nacional das regras, normas e regulamentos técnicos que passaram a fazer parte dos novos acordos de preferências comerciais, para permitir a participação dos produtos nacionais em cadeias globais de valor.

Essas diretrizes respondem aos principais desafios internos e externos que o futuro governo deverá enfrentar no médio e no longo prazos e criam condições para a restauração da projeção externa do Brasil, perdida nos últimos quatro anos, e para sua reinserção competitiva nas negociações comerciais globais, regionais e bilaterais para a inclusão das empresas brasileiras nas cadeias globais de alto valor agregado.

Em resumo, são mudanças nas ênfases, nas prioridades e nos rumos da política externa e da política comercial em relação ao que ocorreu nos últimos 12 anos.

Tolerância à inflação

Maílson Da Nóbrega
Revista VEJA

A inflação, medida pelo IPCA, rompeu o teto da meta (6,5%). No acumulado em doze meses, atingiu 6,52% em junho. Não fosse a repressão aos preços de combustíveis, energia elétrica e outros, chegaria pelo menos a 8%.

Entre os 26 países que adotam o regime de metas para a inflação, somente três exibem número pior: Gana, Indonésia e Turquia. Nos governos do PT, a característica tem sido a tolerância com a alta de preços, salvo quando Antonio Palocci era o ministro da Fazenda (2003-2006).

A partir dos anos 1950, o Brasil se notabilizou como o país mais tolerante à inflação. Preferimos conviver com seus efeitos a combater suas causas. Prevalecia a visão equivocada de que um pouco de inflação ajudaria o desenvolvimento. Renegavam-se as politicas de estabilização, alegando o custo, mesmo que temporário, da queda da produção e do emprego. A esquerda inventou a expressão "arrocho salarial" para definir o efeito da terapia. É como se fosse possível curar uma bebedeira com mais pileques.

A alta inflação promoveu naturais movimentos de defesa via indexação de preços e salários. Após breve redução entre 1965 e 1973, a alta dos preços retomou a marcha ascendente, somente interrompida pelo Plano Real. De tão entranhada, a indexação nos trouxe outra distinção: a economia na qual os remédios anti-inflacionários tradicionais — políticas monetárias e fiscais mais austeras — causavam custos sociais insuportáveis. Daí o recurso a meios não convencionais, como o congelamento de preços — que fracassou — e, depois, o brilhantismo da URV do Plano Real, que assegurou a transição para uma economia estável, e de indexação branda e de maior prazo, como ocorre onde se leva a estabilidade a sério.

De 2007 em diante, a tolerância à inflação voltou à cena. A meta foi mantida teimosamente em 4,5%. Mais, o teto fixado (6,5%) tornou-se a própria meta. Em vez de buscar os 3% característicos dos países emergentes (2% no Peru), retornamos à velha cantilena de que é possível crescer mais com mais inflação. Em maio, a presidente Dilma descartou veementemente os 3%. Para ela, essa meta elevaria o desemprego para 8,5% ou mais. Nos países vizinhos onde vigora tal meta, as taxas de desemprego e crescimento do PIB são melhores do que as nossas.

Por causa dessa renovada tolerância e da provável influência política nas decisões do Banco Central, a inflação do Brasil tem sido muito alta. Se o IPCA de 2014 ficar nos 6,5% (talvez mais), a inflação acumulada nos doze anos de governos petistas terá atingido cerca de 100%. Se a meta de 4,5% fosse cumprida, o acumulado seria 69,6%. Caso valesse a meta de 3%, o IPCA teria ficado em 42,6%. Não vale comparar com períodos anteriores, nos quais prevalecia uma situação completamente distinta da atual.

O Brasil comprova a tese de que taxas de inflação persistentemente altas estimulam a indexação, que, vale repetir, é uma natural estratégia defensiva. Tornou-se comum reivindicar reajustes salariais superiores a 10%, às vezes a 20% e até mais. Estudos da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) detectaram a volta do temido gatilho salarial em acordos e convenções entre empresas e trabalhadores. Como afirmou o professor Hélio Zylberstajn, "a expectativa sobre o nível de inflação futura está crescendo nas mesas de negociação. Já assistimos a esse filme nos anos 80/90.

Uma reprise não seria agradável.

O FMI examinou a inflação em 26 países que adotam o regime de metas e outros cinco. O Brasil é o que exibe a maior persistência de inflação. Nos países onde esse fenômeno acontece, o custo de trazer a inflação para a meta é mais alto. Tal custo, definido como "taxa de sacrifício", significa mais desemprego e menos produção. Nessas circunstâncias, as expectativas quanto à inflação futura — e assim o ambiente para a indexação e os gatilhos — se tornam cada vez mais negativas. Fica mais difícil aumentar o potencial de crescimento econômico.

É chegada a hora de abandonar a tolerância à inflação. Nada diz que o Brasil não possa caminhar para uma meta anual de 3%. A experiência mundial prova que o desenvolvimento é mais factível com baixa inflação. Não o contrário, como o atual governo parece acreditar.

Campos reponsabiliza Dilma por crise no setor de etanol

Exame.com
Angela Lacerda, Estadão Conteúdo

A crise, segundo o ex-governador de Pernambuco, foi provocada pela "política errada na Petrobras"

Paulo Fridman/Bloomberg 
Eduardo Campos:
 "Mataram o preço do álcool", disse sobre a Petrobras

 Palmares - O candidato à presidência da República, Eduardo Campos (PSB), responsabilizou a presidente Dilma pela crise do setor canavieiro e sucroalcooleiro vivida hoje não somente no Nordeste, mas "por todos os Estados produtores do Brasil", em comício realizado na noite deste sábado no município de Palmares, na zona da mata pernambucana , a 120 quilômetros do Recife.

A crise, segundo ele, foi provocada pela "política errada na Petrobras". "Mataram o preço do álcool", discursou ele, ao lembrar que o preço do álcool só é competitivo se 30% mais barato que o da gasolina.

"Isso fez com que as usinas do Nordeste, com todas as dificuldades de topografia e de acesso ao sistema bancário começassem a pagar o preço dos erros da presidente Dilma na política do preço dos combustíveis", frisou, atacando o governo Dilma em uma região onde ela tem grande aceitação. "O Nordeste se ressente deste governo que não olhou para nós como deveria ter olhado".

Ele afirmou que também os produtores de São Paulo assistem ao fechamento de usinas de açúcar e álcool. "Na região plana de Ribeirão Preto, há mais de 40 usinas fechadas", afirmou, complementando que em Sertãozinho, mais da metade das empresas que produzem equipamentos para a atividade sucroalcooleira estão fechando suas portas ou praticamente deixando de funcionar.

O candidato explicou que sem preço competitivo, os que produziam cana para fazer álcool pararam de vender para a Petrobras e postos de gasolina e passaram a fazer açúcar. "E o preço do açúcar foi lá para baixo no mercado no mundo, pois é o Brasil o país que mais fabrica açúcar no mundo e aqui dentro". Ele lembrou que até o governo do ex-presidente Lula, se estava abrindo novas usinas.

Questão de tempo
Para Campos, o fato de ser desconhecido no Brasil "é uma questão de tempo". "De cada 100 brasileiros, menos de 30 nos conhecem", observou, ao lembrar que, em 2006, quando disputou o primeiro mandato ao governo de Pernambuco visitou Palmares como um desconhecido e saiu "lá de baixo nas pesquisas para ganhar a eleição com 75% dos votos".

Ele participou de carreatas nos municípios vizinhos de Escada e Ribeirão, antes do comício em Palmares, acompanhado pelos candidatos da chapa majoritária ao governo estadual. O objetivo é fazer o seu candidato, seu ex-secretário de Fazenda, Paulo Câmara (PSB), também se tornar conhecido do eleitorado pernambucano.

Setor sucroalcooleiro enfrenta uma das maiores crises da história

João Carlos Borda, Cacyone Gomes e Faeza Rezende
Jornal da Globo

Nos últimos dois anos, setor de açúcar e etanol perdeu 60 mil empregos.
Acompanhe a situação no interior de São Paulo, Pernambuco e Minas.


O setor sucroalcooleiro enfrenta uma das maiores crises da história. Endividamento, perda da competitividade diante da gasolina e até problemas climáticos afetaram os usineiros.

Desde 2007, 58 usinas fecharam as portas só na região Centro-Sul do país. E só neste ano 12 encerraram as atividades. Com isso, nos últimos dois anos, o setor de açúcar e etanol já perdeu 60 mil empregos.

Nossos repórteres foram ver como está a situação de quem depende da cana-de-açúcar em Minas Gerais, Pernambuco e São Paulo.

SÃO PAULO


São Paulo produz 60% da cana do país. Nos últimos quatro anos, 26 usinas foram fechadas no estado, cinco só na região de Ribeirão Preto (SP). Milhares de trabalhadores perderam o emprego e outros setores sentem o reflexo da crise.

As máquinas não param porque é preciso colher a cana que foi plantada. Mas nas usinas, o ritmo é outro. Uma delas não suportou a crise e fechou há três meses.

"É a pior crise e não sai dela. No ano passado, a gente achava que neste ano ia melhorar, mas não melhorou. Piorou", diz Antônio Eduardo Tonielo Filho, presidente do Ceise (Centro Nacional das Indústrias do Setor Sucroenergético e Biocombustíveis).

Para esse economista o setor de açúcar e álcool enfrenta a pior crise dos últimos 30 anos.

"Está vinculada a um aumento dos custos de produção nos últimos cinco anos e preços muito baixos relativo à queda do preço internacional de açúcar e também um teto que o etanol tem na produção. Hoje os custos superam o preço que a usina recebe pelo etanol que produz", analisa Roberto Fava, professor de Economia da USP (Universidade de São Paulo).

Sertãozinho, no interior de São Paulo, concentra o maior pólo de indústrias que fornecem peças e equipamentos para as usinas. São 700 fábricas, que empregam mais de 10 mil trabalhadores. 800 já foram demitidos. As empresas cortaram o terceiro turno, hora-extra e tentam, agora, evitar os calotes.

"Só se ele pagar à vista e pagar parte da dívida anterior porque, senão, não tem condições, não temos mais condições de bancar o usineiro", afirma Osvaldo Mazer, dono de uma metalúrgica.

Nesta época do ano, as empresas deveriam contratar trabalhadores, mas o que está ocorrendo em Sertãozinho (SP) é exatamente o contrário. Uma das maiores fábricas da cidade demitiu 85 trabalhadores e agora quer pagar as rescisões em até oito vezes.

E quem perde o emprego, sabe que vai demorar muito tempo para arranjar outro. Se conseguir. "Nunca chegou a esse ponto porque nunca fiquei parado. Nunca fiquei parado, está difícil encontrar emprego agora", conta o soldador Gustavo Ferreira.

Na região de Ribeirão Preto (SP), onde 90% das cidades dependem da cana, alguns segmentos perderam até 60% das vendas.

PERNAMBUCO


Pernambuco, que nas primeiras décadas do século XX liderava a produção de açúcar no Brasil, hoje responde por apenas 3% do que é produzido no país.

Nos últimos dez anos, oito usinas encerraram as atividades no estado. A Unaçúcar, no litoral sul pernambucano, foi a última a fechar. Em março, a usina parou a moagem e deixou 2 mil trabalhadores desempregados.

Nos anos 1980, Pernambuco chegou a moer 25 milhões de toneladas de cana. Na safra 2013-2014 vão ser apenas 14 milhões de toneladas.

O relevo acidentado da Zona da Mata, região que concentra a produção de cana no estado, é apontado como fator decisivo para a decadência da atividade em Pernambuco.

É que isso impede a mecanização do campo diminui a competitividade das usinas pernambucanas em relação as de outras regiões do país, como o Sudeste e o Centro-Oeste.

MINAS GERAIS


Minas Gerais é o segundo maior produtor de açúcar do país e o terceiro na produção de etanol. Só na região do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba são 22 usinas que empregam cerca de 65 mil trabalhadores.

Nos últimos cinco anos em todo o estado, oito usinas foram fechadas. E, desse total, quatro estão no Triângulo e Alto Paranaíba.

Segundo a Associação das Indústrias Sucroenergéticas de Minas Gerais, foram mais de 8 mil demissões, o que representa também a perda da moagem de 8 milhões de toneladas de cana e cerca de 600 milhões de litros de etanol.

Assista aqui a íntegra da reportagem.

Operadora Oi monitorou e vendeu dados de assinantes, afirma Secretaria do Consumidor

Nivaldo Souza
 Agência Estado 

Clientes do serviço de internet Velox tiveram seu perfil de navegação mapeado e vendido para anunciantes; governo considera prática abusiva e operadora Oi foi multada em R$ 3,5 milhões

O valor da multa deverá ser depositado em favor 
do Fundo de Defesa de Direitos Difusos

Os assinantes do navegador de internet Velox, serviço de banda larga da operadora Oi, tiveram seus dados de navegação mapeados para compor um perfil e, posteriormente, as informações foram vendidas a anunciantes, agências de publicidade e portais interessados em ofertar publicidade e conteúdo personalizados.

Foi a primeira violação comprovada da neutralidade da rede, definida pelo Marco Civil da Internet aprovado pelo Congresso Nacional no início deste ano, segundo o Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor (DPDC), da Secretaria Nacional do Consumidor.

O órgão do Ministério da Justiça decidiu, então, aplicar uma multa de R$ 3,5 milhões à TNL PCS, subsidiária da Oi. "O DPDC recebeu informações de que a parceria da Oi com a empresa britânica Phorm consistia no desenvolvimento do software chamado "Navegador", que mapeava o tráfego de dados do consumidor na internet de modo a compor seu perfil de navegação", diz o órgão em nota.

A investigação apurou que as empresas envolvidas praticaram "violação aos princípios da boa-fé e transparência, além de publicidade enganosa". A subsidiária da Oi teria, segundo o serviço de proteção, violado princípios fundamentais definidos pelo Comitê Gestor da Internet (CGI) no Brasil, como a neutralidade da rede e o princípio da padronização e interoperabilidade.

A tecnologia desenvolvida faz o redirecionamento da navegação do assinante do Velox. "A empresa, com o pretexto de melhorar a experiência de navegação, omitiu do consumidor informações essenciais sobre o serviço e suas implicâncias para a privacidade e segurança de dados pessoais. Em nenhum momento o consumidor foi informado de que sua navegação seria monitorada pela empresa e que o seu perfil seria comercializado com empresas de publicidade", diz o diretor do DPDC, Amaury Oliva.

A operadora Oi afirmou que pretende recorrer da multa. "A Oi reafirma sua convicção de que não houve qualquer infração ao direito do consumidor e, apesar de não ter tido ainda acesso à fundamentação da decisão, considera que tem fortes elementos para recorrer" da decisão, diz em nota.

Segundo a Oi, a empresa encerrou as atividades com a Phorm no início do ano passado. "A companhia informa que não usa a ferramenta da Phorm, questionada no processo citado, e esclarece que desde março de 2013 foram encerradas todas as iniciativas operacionais desta ferramenta junto à Oi, que teve seu uso restrito a um grupo de clientes convidados para testar o produto. A companhia acrescenta ainda que a Phorm encerrou suas atividades no Brasil, conforme publicado em seu relatório anual de 2013".

Chance de duas pessoas terminarem o ano no mesmo emprego é de 13%

Clarice Spitz
O Globo

Com desemprego em baixa, crescem pedidos de demissão

Fabio Rossi / O Globo 
Robson Lourenço, coordenador de Rh e Mariana Castelo, 
assistente de recrutamento, do Grupo Trigo 

RIO - A probabilidade de duas pessoas que começam o ano trabalhando juntas terminarem aquele ano na mesma empresa é de apenas 13%, segundo cálculos do economista Gustavo Gonzaga, da PUC-Rio. O percentual assusta e revela o quão alta é a rotatividade no Brasil. Na década de 1990, 45% dos trabalhadores com carteira assinada trocavam de emprego em um ano. A taxa acelerou para 53,9%, em 2002, e atualmente chega a 64%, uma das maiores, quando se consideram todos os motivos para a saída do emprego, como demissão sem justa causa, a pedido do funcionário, aposentadoria, morte ou transferência.

A jovem Mariana Castello, de 24 anos, que começou a trabalhar aos 17, hoje está em seu quarto emprego e o mais longevo: há um ano e meio trabalha como assistente de recrutamento no Grupo Trigo, dono das marcas Spoleto, Domino’s e Koni Store. As passagens por empregos em outros ramos do varejo foram meteóricas: um mês, oito meses, nove meses. Em todas, pediu para sair, ora por exaustão com a rotina sem folgas das lojas, ora por falta de perspectiva e, em todos os casos, pelo baixos salários.

— Quando estava no segundo emprego, em uma papelaria, percebi depois de oito meses que era a funcionária mais antiga. O mais difícil nisso tudo foi fazer contatos, criar relacionamentos, tudo era muito rápido — afirma Mariana.

A rotatividade se acentuou na última década no país, junto com a melhora do mercado de trabalho. Com a taxa de desemprego em mínimas históricas, o trabalhador passou a ter menor temor de pedir demissão porque acha mais fácil encontrar outro emprego, dizem especialistas.

A maior parte dos desligamentos no país continua sendo por demissão sem justa causa, mas, nos últimos anos, aumentou a parcela de empregados que tomaram a iniciativa de pedir para deixar o trabalho. Em 2002, este percentual era de 16%. Em 2012, passou para 25%.

— Há maior rotatividade em virtude das maiores oportunidades de trabalho —diz Ademir Figueiredo, economista do Dieese.

Fabiana da Costa, de 35 anos, sabe o que é pular de emprego em emprego. Desde que se tornou mãe e saiu da loja em que era gerente, passou por várias marcas femininas, sempre por períodos que não superavam nove meses. Em todos os casos, pediu para sair. Chegou a fazer acordo com o patrão para receber benefícios.

— Não me adaptei às exigências de mudança de coleção. Sempre que conseguia um salário melhor, mudava. Só dava tempo de pegar a carteira para dar baixa e depois levar no novo emprego — diz ela, hoje supervisora da Taco.

‘A rotatividade no Brasil chegou a um nível muito alto. 
Isso traz problemas sérios de produtividade’

Gonzaga, que tem se dedicado a uma série de pesquisas sobre o tema, vê um outro componente na alta rotatividade. Ele considera que vem da legislação trabalhista uma série de “desincentivos” à manutenção do emprego. O economista avalia que a rotatividade é vista como geradora de ganhos de curto prazo, como o fácil acesso a seguro-desemprego e abono salarial, e, por isso, poucos investem em qualificação.

DEMISSÕES SOBEM APÓS 6 MESES DE TRABALHO
O economista chama a atenção para o fato de que existe um salto nas demissões quando o trabalhador completa seis meses de casa, período em que, por lei, passa a ter direito ao seguro-desemprego. A média saltava de 33 mil demissões, entre aqueles com cinco meses de casa, para 58 mil, quando completavam seis meses.

Os números se referem apenas aos trabalhadores que não receberam o seguro-desemprego nos últimos 16 meses. Segundo o economista, salta aos olhos o fato de que, no país, o trabalhador costuma esperar todas as parcelas do seguro-desemprego para voltar a procurar emprego, ao contrário dos EUA: somente 1% se reemprega no Brasil em até cinco meses após a dispensa.

— É prova de que os trabalhadores são estimulados a buscar menos empregos. A rotatividade no Brasil chegou a um nível muito alto. É mais que o dobro de países como EUA e Reino Unido. Isso traz problemas sérios de produtividade — diz Gonzaga, que se diz favorável à mudança da regra do seguro-desemprego, para que seja sacado a partir de 12 meses de trabalho, e a mudanças no abono salarial.

O economista da Unicamp Claudio Dedecca também vê problemas para a produtividade com o entra-e-sai das empresas, mas discorda que a legislação estimule a alta rotatividade. Ele defende um endurecimento das regras. Para inibir demissões injustificadas, se diz favorável a que empresas sejam obrigadas a justificar os cortes. O Ministério do Trabalho estuda medidas para conter a rotatividade. Entre elas, a cobrança adicional de empresas que tenham rotatividade acima da média.

— Se pegar a seleção brasileira e rodar seus jogadores, dificilmente eles vão jogar bem, mesmo com bons jogadores. Para se ter um coletivo, como na seleção alemã, é precisa que trabalhem juntos. A rotatividade chancela os baixos salários e o trabalhador não vê uma ascensão — afirma.

Para Vagner Freitas, presidente da CUT, ainda é muito fácil demitir:

— É preciso um sistema de proteção ao emprego. Mesmo com toda a geração de vagas é muito fácil demitir porque se contrata outro trabalhador pagando-se menos.

O economista João Saboia, da UFRJ, vê no baixo nível educacional da mão de obra a principal razão para a baixa produtividade da economia. Para ele, uma das formas de se combater a rotatividade passa pelo aumento do treinamento em empresas e por mais fiscalização contra fraudes.

— Não acho que exista um excesso de benefícios. A produtividade vem pela educação de qualidade e pelo aumento da taxa de investimento. É uma questão central que explica o porquê de não estarmos crescendo — afirma Saboia.

COM ROTAVIDADE MENOR, ECONOMIA DE R$ 3,5 BI
O investimento em treinamento foi a saída encontrada pelo Grupo Trigo para reter pessoal. Com 50% dos funcionários mudando a cada ano, a rede aposta em cursos de malabares e teatro para estimular funcionários e reforçar a marca do Spoleto, conhecida pela agilidade no preparo de pratos.

— As pessoas ainda veem o varejo como um local de passagem e há muita competição. Por R$ 2 a mais, o concorrente leva o funcionário. Para cada vaga de caixa ou ajudante de cozinha, fazemos dez entrevistas, mas já foi pior — afirma o coordenador de RH do Grupo Trigo, Robson Lourenço.

A alta rotatividade tem afetado o aumento das despesas com seguro-desemprego e já acendeu a luz amarela no Ministério do Trabalho. O diretor do Departamento de Emprego e Salário do ministério, Rodolfo Torelly, estima que uma redução de 10% da rotatividade do emprego (considerando apenas demissões que permitem o recebimento de benefícios) significaria economia de R$ 3,5 bilhões por ano aos recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) com os gastos com seguro-desemprego. Hoje, essas despesas ultrapassam os R$ 30 bilhões.

— Para cada dez pessoas desligadas, sete pedem seguro-desemprego. A rotatividade está alta e nada indica que ela tenha se alterado — afirma Torelly.